OPERAÇÃO FRANÇA (1971)

(The French Connection)

 

Filmes em Geral #28

Vencedores do Oscar #1971

Dirigido por William Friedkin.

Elenco: Gene Hackman, Fernando Rey, Roy Scheider, Tony Lo Bianco, Marcel Bozzuffi, Frédéric de Pasquale, Bill Hickman, Ann Rebbot, Harold Gary, Arlene Farber, Eddie Egan, André Ernotte, Sonny Grosso, Benny Marino, Patrick McDermott e Alan Weeks.

Roteiro: Ernest Tidyman, baseado em livro de Robin Moore.

Produção: Phillip D’Antoni.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Dirigido por William Friedkin, “Operação França” é um thriller de perseguição policial extremamente empolgante e realista, que conta ainda com pelo menos duas excepcionais cenas de tirar o fôlego. Com boas atuações de Gene Hackman e Roy Scheider, e contando ainda com um talentoso elenco de apoio, o longa consegue equilibrar-se entre o cinema comercial, que busca a boa recepção do publico e o alto faturamento nas bilheterias, e o cinema “de autor” da nova Hollywood, evitando abordar a narrativa de maneira convencional, ao mostrar os aspectos positivos e negativos de seu “herói”.

Os detetives Popeye (Gene Hackman) e Cloudy (Roy Scheider) investigam o comerciante Sal (Tony Lo Bianco), que anda gastando muito mais do que aparentemente recebe, dando claros indícios de sua participação numa rede internacional de tráfico de drogas. As investigações levam ao francês Alain Charnier (Fernando Rey), cérebro da operação, que auxiliado pelo astro de cinema Henri Devereaux (Frédéric de Pasquale) e pelo assassino profissional Pierre Nicoli (Marcel Bozzuffi), organiza uma venda milionária de heroína em terras norte-americanas.

Escrito por Ernest Tidyman, baseado em livro de Robin Moore, “Operação França” apresenta uma narrativa dividida em duas linhas principais: a investigação policial conduzida por Popeye e Cloudy e o andamento da operação planejada por Charnier. Desta forma, o espectador não precisa tentar desvendar quem são as pessoas envolvidas naquela operação, focando seus esforços somente em acompanhar o desenrolar da investigação e tentando imaginar como aqueles detetives poderiam surpreender os traficantes. Estas duas linhas narrativas se alternam num ritmo empolgante, graças à excepcional montagem de Gerald B. Greenberg, que tem participação crucial também nas frenéticas perseguições pelas ruas, que se estabelecem como os melhores momentos do longa. Sempre adotando um clima de urgência e um estilo quase documental, reforçado pela fotografia crua e granulada de Owen Roizman, o diretor William Friedkin deixa claro com menos de cinco minutos de projeção que prezará pelo realismo, ao apresentar um assassinato à queima roupa, sem desviar a câmera do sangrento resultado. Em seguida, os detetives Popeye e Cloudy perseguem um homem pelas ruas de Nova York, e Friedkin acompanha a dupla com a câmera na mão, trêmula, conferindo um ar documental à cena, o que se tornaria a marca registrada do filme dali em diante. O diretor utiliza ainda o zoom com certa freqüência, buscando ressaltar a posição estratégica dos personagens em algumas cenas, como quando vemos os traficantes num restaurante e a câmera vai buscar Popeye, lá fora, esperando pelo fim do jantar. Em outro momento, a câmera acompanha o carro de Devereaux saindo do porto e o zoom out revela os traficantes acompanhando de longe o andamento da operação. Finalmente, Friedkin aproveita a beleza do mar azul de Marselha para criar raros e belos planos, que contrastam diretamente com a crueza das filmagens nas cidades norte-americanas, além de conduzir com perfeição todas as cenas de perseguição e criar planos emblemáticos, como aquele em que Popeye e Sal se olham através do vidro da loja de perfumes, revelando a irônica situação dos detetives, que por diversas vezes estão muito próximos de seus alvos, mas por não ter provas concretas, nada podem fazer. Este paradoxo fica ainda mais evidente quando os detetives têm a chance de apreender a mercadoria no carro de Devereaux, mas preferem deixar a negociação rolar, justamente para poder pegar toda a operação em flagrante.

Ainda que apareça apenas em alguns raros momentos, a trilha sonora de Don Elis busca aumentar o clima de tensão, revezando momentos de tom contínuo e estridente com outros de ritmo acelerado, especialmente durante algumas perseguições, como quando Popeye persegue Charnier pelas ruas e dentro do metrô. Esta cena, aliás, também é muito bem conduzida por Friedkin, que posiciona a câmera num local estratégico, nos permitindo acompanhar a movimentação de ambos enquanto Charnier tenta desesperadamente despistar Popeye, entrando e saindo do metrô sem lógica alguma. Curiosamente, a ausência da trilha sonora durante algumas perseguições também favorece o clima de tensão, conferindo um ar mais realista à cena, como na fabulosa seqüência em que três detetives se revezam na perseguição aos traficantes, onde só podemos ouvir o som diegético dos carros e das pessoas caminhando – e novamente a montagem de Greenberg se mostra incrivelmente eficaz, alternando entre os planos com muita fluidez.

Todo este realismo é enriquecido ainda mais pelos complexos personagens de “Operação França”. Mostrando-se alguém durão desde a primeira batida em um bar, através da voz firme e das atitudes enérgicas, o Popeye brilhantemente interpretado por Gene Hackman foge do costumeiro estereótipo do herói, mostrando-se uma pessoa até mesmo egoísta e cruel, capaz de atirar num inimigo desarmado e pelas costas – o que reforça o esforço do roteiro em não santificar seu personagem principal. Claramente incomodado por seu passado, quando aparentemente foi responsável indireto pela morte de um parceiro de profissão, ele é capaz de ir até as últimas conseqüências buscando alcançar seu objetivo, o que resulta em outro trágico acidente, quando ele mata outro parceiro de profissão, já próximo ao ambíguo final do longa. Sua obstinação pelo combate ao crime chega até mesmo a incomodar seus companheiros de trabalho, o que, por outro lado, faz com que Popeye seja considerado o “principal obstáculo” no caminho dos franceses, como eles mesmos admitem em certo momento. Sua dedicação ao trabalho impede até mesmo que ele tenha uma vida social agradável, como fica evidente quando sai para tomar umas bebidas com Cloudy e, ao invés de relaxar, ele fica observando as pessoas no bar, buscando alguma conexão entre elas e o mundo das drogas. Em certo momento, uma bicicleta enroscada na porta indica que Popeye dormiu com uma garota que ele acabara de conhecer na rua, enquanto voltava pra casa. Esta cena sutil e despretensiosa reforça sua condição “desprovida” de relações afetivas, afinal de contas, não é fácil estabelecer uma relação com alguém tão obstinado pelo trabalho como ele. E até mesmo seu apartamento bagunçado reflete sua turbulenta vida fora do ambiente profissional, algo que Cloudy faz questão de ressaltar quando o visita – e que revela o bom trabalho de direção de arte de Ben Kazaskow. Muito bem interpretado por Roy Scheider, Cloudy revela-se o parceiro ideal para Popeye, mostrando serenidade para conter os impulsos do amigo, mas também sendo enérgico e corajoso quando necessário, como durante as perseguições. O ator demonstra muita empatia com Hackman, tornando a amizade daqueles detetives bastante verossímil, como podemos notar quando ele brinca com uma calcinha que encontra no apartamento do amigo (“São suas querida?”) ou quando eles escutam uma parte vital das investigações num telefonema grampeado e explodem de felicidade. E assim com a dupla de detetives, todo o restante do elenco apresenta um bom desempenho, com destaque para o cínico Alain Charnier, interpretado por Fernando Rey, e para o frio assassino Pierre Nicoli, vivido por Marcel Bozzuffi, responsável por uma das cenas mais tensas do filme, quando assume o controle de um metrô em alta velocidade.

Esta seqüência, a mais espetacular de “Operação França”, tem inicio quando Pierre começa repentinamente a atirar em Popeye de cima de um prédio, em mais um momento extremamente realista, que nos coloca na mesma posição de Popeye, completamente vulnerável diante das balas que atingem violentamente o chão e as pessoas que passam por ali. Os gritos das mulheres e câmera que acompanha a trajetória do detetive até a entrada do prédio nos colocam praticamente dentro da cena. Em seguida, Popeye persegue Pierre pelas ruas, mas ele consegue escapar quando chega ao metrô, o que motiva o detetive a “pegar emprestado” o carro de um civil. Hackman, insano dentro do carro em alta velocidade, persegue o metrô de superfície pelas ruas da cidade, enquanto Pierre domina as pessoas lá dentro e acaba provocando um grave acidente. Friedkin capta tudo isto com incrível precisão, fazendo o espectador grudar os olhos na tela, enquanto Hackman dá um verdadeiro show de interpretação durante a alucinada perseguição.

Conferindo realismo em suas principais cenas e contando com uma narrativa ágil e interessante, “Operação França” é um filme de ação espetacular. Antecipando técnicas que se tornariam febre muitos anos depois, Friedkin oferece entretenimento e diversão sem insultar a inteligência do espectador, apresentando uma história interessante, personagens críveis e situações perfeitamente aceitáveis. Esta é a grande diferença entre o cinema excepcional daquela época e, salvo algumas felizes exceções, o cinema puramente comercial dos dias atuais.

Texto publicado em 16 de Novembro de 2010 por Roberto Siqueira

A ÚLTIMA SESSÃO DE CINEMA (1971)

(The Last Picture Show)

 

Filmes em Geral #27

Dirigido por Peter Bogdanovich.

Elenco: Timothy Bottoms, Jeff Bridges, Cybill Shepherd, Ben Johnson, Cloris Leachman, Ellen Burstyn, Eileen Brennan, Clu Gulager, Sam Bottoms, Sharon Ulrick, Randy Quaid, Joe Heathcock, Bill Thurman, Barc Doyle, Jessie Lee Fulton, Gary Brockette e Helena Humann.

Roteiro: Larry McMurtry e Peter Bogdanovich, baseado em livro de Larry McMurtry.

Produção: Stephen J. Friedman.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Uma pequena e pacata cidade no interior dos Estados Unidos, na região do Texas, é o palco para as aventuras e descobertas sexuais de jovens sonhadores e, ao mesmo tempo, um local amargo e triste para as pessoas mais maduras que habitam ali. Peter Bogdanovich conta com um elenco talentoso para mostrar a difícil rotina da vida numa cidade pequena e sem perspectivas neste belo “A Última Sessão de Cinema”, longa responsável por alçar o diretor ao estrelato e, ironicamente, estabelecer um padrão de qualidade em sua filmografia que ele jamais conseguiu superar.

Nos anos 50, os jovens Sonny (Timothy Bottoms) e Duane (Jeff Bridges) vivem na pequena Anarene, uma cidade localizada no Texas, Estados Unidos. Sem muitas opções de lazer, os rapazes investem seu tempo nas sessões de cinema, que servem para dar uns amassos nas garotas da cidade, e na sinuca do bar de Sam (Ben Johnson). Enquanto Duane procura participar das festas para se divertir, Sonny acaba iniciando uma relação com Ruth Popper (Cloris Leachman), uma mulher madura, esposa de seu treinador, que se torna a responsável pelo início da vida sexual do rapaz. Em comum, Sonny e Duane têm ainda o interesse pela bela Jacy Farrow (Cybill Shepherd), filha de Lois Farrow (Ellen Burstyn), uma garota que vive em busca de sua primeira experiência sexual.

Escrito por Bogdanovich e Larry McMurtry, baseado em livro do próprio McMurtry, “A Última Sessão de Cinema” aborda a difícil rotina de uma pequena cidade, onde as opções de diversão são escassas e os “olhares” da vizinhança estão sempre vigiando os passos de cada habitante. Exalando nostalgia até mesmo através da trilha sonora (na realidade, músicas ouvidas pelos personagens em rádios), repleta de músicas clássicas de ícones dos anos 50 como Hank Williams e Elvis Presley, a narrativa se concentra no dia-a-dia daquela cidade, onde “ninguém pode espirrar em paz”, segundo a simpática garçonete Genevieve (Eileen Brennan), acompanhando as aventuras sexuais dos formandos da turma de 1952, ao mesmo tempo em que ilustra a depressão de pessoas mais velhas como Sam, Louis e Ruth, personagens já distantes do período dourado em que viveram as suas aventuras também. Entre os jovens, o foco se mantém em dois personagens em especial, o sensível Sonny e a atirada Jacy, que inevitavelmente terão os seus caminhos cruzados, como o interesse dele pela garota no cinema já indicava (“Sonny sempre quis sair comigo”, diz ela). De maneira crua e realista, o longa aborda ainda a complicada fase da descoberta do sexo e as diversas maneiras possíveis de se perder a virgindade, seja com o (a) namorado (a), como aconteceu com Jacy, seja com uma prostituta, como quando os garotos se organizam para tentar “ajudar” Billy (Sam Bottoms).

A direção de Peter Bogdanovich é clássica, com longos planos e enquadramentos perfeitos, e, auxiliada pela montagem de Donn Cambern, emprega um ritmo lento e contemplativo à narrativa, aperfeiçoado pelos extensos momentos de silêncio que ilustram bem a vida pacata naquela cidade. Os movimentos de câmera são discretos, com apenas algumas exceções, como na cena em que Sam relembra suas aventuras da juventude à beira de um rio, em que o zoom engrandece o personagem na tela e realça sua emoção ao recordar de uma época tão boa em sua vida, num dos grandes momentos da ótima atuação de Ben Johnson. Bogdanovich volta a destacar o personagem quando Sonny e Duane partem para o México pra se divertir, dando um close no rosto de Sam, que mistura a felicidade dele ao ver os meninos se divertirem e a nostalgia de alguém que sabia que aquele tempo em sua vida já havia acabado. Por outro lado, o diretor se mostra arrojado nas cenas que envolvem o sexo, a começar pelo plano do sutiã pendurado no retrovisor da caminhonete enquanto Sonny beija sua namorada, numa escapada típica dos jovens casais daquela região dos Estados Unidos. Jamais buscando romantizar os encontros, o diretor procura mostrar as relações com toda a tensão e expectativa que elas envolvem. Repare, por exemplo, como na cena em que Sonny e Ruth transam pela primeira vez, Bogdanovich tira toda a carga erótica do momento através dos pequenos gestos atrapalhados do casal (ele bate na cômoda, ela se enrosca com a roupa), da velocidade da transa e do som da cama rangendo, ilustrando como aquele ato envolvia mais nervosismo e tensão do que empolgação, o que é normal na primeira vez de qualquer pessoa (como era o caso de Sonny) e para alguém na condição de Ruth, claramente insatisfeita com a vida que levava com o marido e, provavelmente, já há muito tempo sem ter uma boa experiência sexual (e afetiva). Não é a toa que, quando Sonny finalmente sai com Jacy, o plano seguinte apresenta Ruth diminuída e envolvida pela escuridão, refletindo a tristeza daquela mulher abandonada – um plano que contrasta com a fotografia clara e com predomínio de cenas diurnas de Robert Surtees, que reflete o vazio daquelas pessoas através dos tristes tons em preto e branco. Voltando aos relacionamentos, é interessante notar ainda como praticamente todas as experiências sexuais parecem secas e sem floreios, o que as torna ainda mais verossímeis. Ainda assim, o diretor consegue criar um clima interessante, por exemplo, na arrojada cena em que Jacy transa na mesa de bilhar, onde a lenta construção da seqüência cria uma expectativa inversa ao péssimo resultado alcançado, que provoca o choro da garota diante de sua mãe (num momento de fraca atuação de Shepherd), o que acaba levando Jacy a procurar por Sonny logo em seguida.

Com uma direção discreta e um trabalho técnico eficiente e que pouco chama a atenção pra si, “A Última Sessão de Cinema” acaba realçando aquilo que tem de melhor, as atuações. Bogdanovich consegue extrair um desempenho magnífico de todo elenco, com exceção de Shepherd (a paixão do diretor na vida pessoal), que oscila entre momentos bons e outros pavorosos, exalando a sensualidade que a personagem exige, mas falhando terrivelmente nos momentos dramáticos. Sedenta por sua primeira experiência sexual, Jacy tenta ser livre, apesar da rigidez de seu pai, que curiosamente contrasta com o liberalismo de sua mãe, algo ilustrado na conversa que elas têm sobre sexo, quando Jacy diz ser pecado transar antes de casar e ouve um “não seja hipócrita!” como resposta. Esperta, a garota tinha a exata noção de seu poder de sedução, permitindo Duane acariciar sua virilha somente para conseguir sair sem ele logo em seguida, pois sabia que aquela concessão seria suficiente para que o rapaz acreditasse na mentira que ela iria contar – e vale notar como Bogdanovich filma esta cena em planos fechados, mostrando através de closes a reação de ambos (ela feliz, ele tenso e empolgado com a surpreendente concessão). Shepherd se sai bem, por exemplo, quando um rapaz vem recepcioná-la na festa dos pelados, obviamente nu, e ela olha pra cima embaraçada – esta cena, aliás, apresenta o único nu frontal feminino de todo o filme. Em seguida, a atriz demonstra bem a tensão da garota nos segundos que antecedem sua entrada na piscina, quando se despe diante de todos, como mandava o ritual do grupo. Desesperada para perder a virgindade, ela tenta ficar com um dos rapazes mais “descolados” da festa, e a recusa dele é o estopim para que ela parta definitivamente pra cima de Duane, que falha e provoca uma explosão de raiva em Jacy. Infelizmente, Shepherd novamente não transmite com intensidade a raiva que a cena pedia. Por outro lado, a atriz se recupera em seguida, quando as amigas de Jacy entram no quarto e ela, com muito cinismo, diz que “nem conseguia descrever” o que tinha acontecido, dando a entender que a experiência havia sido maravilhosa. A garota é ainda o pivô da briga entre Sonny e Duane, que acaba motivando o casamento dela com Sonny. Puxando a lista de boas atuações, Timothy Bottoms interpreta Sonny, um rapaz claramente entediado com o namoro que tinha (“Namoramos há um ano” diz a namorada no cinema e ele responde “parece que faz mais tempo”), e que, assim como Jacy, buscava sua primeira experiência sexual – algo simbolizado quando observa atentamente dois cachorros tentando cruzar durante uma aula. Em contrapartida, era inocente a ponto de não perceber quando uma mulher estava interessada nele, como fica evidente na primeira conversa que tem com Ruth na casa dela. E nem mesmo após viver sua primeira experiência sexual o rapaz perde o jeito tímido, como notamos quando Jacy pede um beijo pra ele, que, assustado, evita até mesmo olhar para a garota dentro do carro – e Bottoms demonstra muito bem o nervosismo do rapaz neste momento.

Mas se nos dois personagens centrais “A Última Sessão de Cinema” não apresenta atuações excepcionais, é no restante do elenco que se encontram os grandes destaques do longa. A começar por Ellen Burstyn, que vive Lois Farrow, uma mulher ainda mais mente aberta que a filha e que, por exemplo, não hesita antes de beijar um homem na frente de sua esposa numa festa. Quando Farrow diz para a filha que ela conheceria a monotonia caso se casasse com Duane, ela estava apenas evidenciando sua própria condição apática diante do marasmo que o casamento e a vida naquela pequena cidade representavam pra ela. Por outro lado, sua reação à morte de Sam dá uma pista do caso que eles tiveram na juventude, algo revelado pela própria Lois posteriormente numa conversa com Sonny, numa das cenas em que o talento de Burstyn fica evidente. Observe como a atriz transmite um misto de alegria e tristeza através da fala oscilante e do semblante, que alterna entre o sorriso e os olhos marejados, demonstrando a falta que ela sentia daqueles dias que se foram. Além dela, e do já citado Ben Johnson, merece destaque também a excepcional atuação de Cloris Leachman como Ruth, uma mulher claramente infeliz diante da vida que escolheu viver, que se renova ao se relacionar com Sonny, passando até mesmo a pensar em pintar as paredes de sua casa com a cor favorita do rapaz. Casada desde os 20 anos de idade, porque “a mãe dela não gostava de seu namorado”, ela é o perfeito exemplo do que poderia se transformar a vida de Jacy no futuro – algo que Lois também já havia dito para a filha. O grande momento da atriz, no entanto, acontece quando Sonny, sem ter pra onde ir e ainda preso às suas raízes, volta para a cidade e procura por Ruth, que explode diante da atitude do rapaz e de sua própria condição passiva naquela relação. Após o surto (e o toque da mão dele), ela se acalma e fica bem, num momento que coroa o desempenho memorável de Leachman, notável em todo o filme, transmitindo a aflição da personagem antes de iniciar a relação com Sonny, a alegria dela após o início da relação e a amargura quando ele a troca por Jacy. Fechando o elenco, Jeff Bridges interpreta o jovem Duane, dando um sinal de seu enorme talento como ator, por exemplo, através de sua reação ao tirar a roupa de Jacy num motel, quando, boquiaberto, demonstra com competência a empolgação do rapaz.

Quando a Sra. Mosey (Jessie Lee Fulton) diz que vai fechar o cinema porque “as pessoas não vêm mais, preferindo ver jogos de beisebol e assistir televisão”, além de justificar o nome do filme, ela está na verdade decretando também a decadência completa daquela cidade, esquecida em algum canto do Texas. Por isso, é extremamente apropriado que o último plano de “A Última Sessão de Cinema” ecoe o seu primeiro plano, mostrando a rua vazia, o vento soprando e as folhas voando na pacata Anarene. É irônico que o mesmo local que embala os sonhos dos jovens se transforme no pesadelo destas mesmas pessoas quando atingem a velhice. Talvez, a reflexão proposta é a de que o ser humano, quando não tem distração, passa a perceber a sua condição finita e, conseqüentemente, a viver mais triste por isso.

Texto publicado em 15 de Novembro de 2010 por Roberto Siqueira

M*A*S*H (1970)

(M*A*S*H)

 

Filmes em Geral #26

Dirigido por Robert Altman.

Elenco: Donald Sutherland, Elliott Gould, Tom Skerritt, Sally Kellerman, Robert Duvall, Roger Bowen, Rene Auberjonois, David Arkin, Jo Ann Pflug, John Schuck, Gary Burghoff, Fred Williamson, Michael Murphy, Indus Arthur, Kim Atwood, Carl Gottlieb e G. Wood.

Roteiro: Ring Lardner Jr., baseado em livro de Richard Hooker.

Produção: Ingo Preminger.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Em certo momento de “M*A*S*H”, um homem se aproxima de seus companheiros de exército e anuncia sua intenção cometer suicídio. Só que ao invés de provocar o choque naqueles que ouvem seu plano, ele ouve instruções sobre os métodos mais seguros e higiênicos para cometer tal ato, e em seguida, se vê num verdadeiro ritual, com direito à presença de um padre, criado para permitir que ele coloque em prática aquilo que planejou. Este tipo de humor negro refinado é o fio condutor deste excelente filme dirigido por Robert Altman, que critica o horror da guerra através de situações extremas, nos alertando para a proximidade entre aqueles absurdos e a insanidade dos conflitos armados.

Dois jovens e competentes cirurgiões conhecidos como Hawkeye (Donald Sutherland) e Trapper John (Elliott Gould) transformam a horrorosa rotina de sangue e pânico de uma unidade médica do exército americano durante a guerra da Coréia em algo extremamente divertido. Com seu jeito descontraído, eles conseguem evitar os traumas provocados pela chocante rotina de cirurgias e mortes, mas encontrarão a resistência de pessoas ainda presas aos rígidos métodos tradicionais do exército.

A leveza da narrativa contrasta diretamente com o visual cru e realista de “M*A*S*H”, chamando a atenção do espectador através do exagero e do choque para os absurdos da guerra. Escrito por Ring Lardner Jr., baseado em livro de Richard Hooker, o roteiro é repleto de piadas que fogem do politicamente correto, seja através do racismo, seja através do sexo ou até mesmo da ridicularização da fé, como quando um jovem troca a bíblia por uma revista masculina ou quando o Major Burns (Robert Duvall) tenta fazer sua oração enquanto os outros médicos zombam dele. Apostando em diálogos ágeis e sarcásticos, que provocam o riso no espectador através do exagero das situações, Hooker aproveita ainda para criticar duramente as tradições do exército e o autoritarismo, como quando Burns é retirado numa camisa de força e um soldado pergunta se para voltar pra casa tudo que ele precisava fazer era transar com Hot Lips (Sally Kellerman) e bater em Hawkeye. Finalmente, até mesmo as drogas são abordadas pelo bom roteiro de Hooker quando o alto-falante anuncia que a maconha passou a ser considerada perigosa pelo governo, “ainda que os médicos afirmem que ela não é mais perigosa que o álcool”.

Com um bom roteiro nas mãos e liberdade para conduzir a narrativa à sua maneira (a Fox estava mais preocupada na época com outras duas produções sobre guerra, “Patton – Rebelde ou Herói?” e “Tora! Tora! Tora!”), Robert Altman não perdeu a oportunidade e colocou em prática a sua maneira de ver cinema, apresentando uma narrativa fragmentada, recheada de diversos personagens que se cruzam em histórias paralelas. Fã do zoom, Altman utilizou o recurso diversas vezes em “M*A*S*H” (como durante algumas cirurgias, por exemplo), sem jamais informar aos atores quando faria isto, o que obrigava todo o elenco a estar o tempo todo ligado, pois a qualquer momento a câmera poderia destacar alguém no plano. Além disso, o diretor conduz perfeitamente algumas das cenas mais engraçadas do filme, como a divertida seqüência em que os soldados descobrem se Hot Lips (algo como “Lábios Quentes”) é loira falsa ou não. A câmera acompanha a moça até o chuveiro, volta para nos mostrar a platéia que se forma e, após o sinal de um dos soldados, nos revela subitamente a imagem da mulher se jogando ao chão, desesperada. Outro momento que merece destaque é a citada seqüência do suicídio de Painless (John Schuck), iniciando no hilário diálogo entre o ele e Hawkeye, seguido pela discussão sobre os melhores métodos de suicídio e finalizando no debate com o padre sobre a absolvição de Painless. Nesta cena, aliás, o simbólico plano dos médicos sentados à mesa remete ao quadro “A Última Ceia”, de Leonardo Da Vinci – e repare como Painless está na posição de Cristo no plano e como a frase “ninguém pediu para que ele fizesse isso” pode ser interpretada como uma referencia ao sacrifício de Cristo. Altman aproveita também para inovar no uso do som, através da grande quantidade de cenas em que os diálogos se cruzam, com diversos personagens falando ao mesmo tempo, e diálogos que são até mesmo interrompidos, algo completamente diferente do padrão estético de Hollywood até então. Repare ainda como em algumas cenas o som que ouvimos já não tem mais ligação com a imagem que aparece na tela, como quando continuamos escutando uma conversa entre Hawkeye e Hot Lips enquanto vemos as imagens do pré-operatório (sem a presença deles) na tela. E por falar em pré-operatório, as cenas de cirurgia são extremamente realistas, ilustrando bem o resultado nada agradável dos conflitos naqueles jovens soldados. Finalmente, Altman também fez questão de não ter atores muito conhecidos, com exceção de Elliott Gould, que havia acabado de ser indicado ao Oscar por “Bob & Carol & Ted & Alice”.

O elenco desconhecido, no entanto, não prejudica em nada o resultado final de “M*A*S*H”. Na realidade, Altman se sentiu mais à vontade para extrair do elenco atuações coerentes com a leveza da narrativa, começando por Donald Sutherland, que encarna bem o típico malandro, reagindo com naturalidade aos absurdos que vê. É como se toda aquela gente ferida já não mais causasse impacto nele. Seu Hawkeye é também o estereótipo do cara-de-pau, como podemos notar na cena em que pergunta cinicamente ao Major Burns sobre a performance sexual de Hot Lips. Já Sally Kellerman está caricata na pele da enfermeira-chefe Margaret O’Houlihan, a famosa Hot Lips, o que acaba funcionando bem graças ao aspecto propositalmente caricato do longa. A pequena participação de Robert Duvall é mais que suficiente para que ele demonstre seu talento, ao compor um fanático religioso com exatidão. Repare seu desespero quando sua transa com Hot Lips é anunciada nos alto-falantes, gritando e colocando a roupa desesperadamente. Esta divertida cena, aliás, serve também para criticar o falso puritanismo típico dos religiosos extremistas. Após se sentir ofendida diante das insinuações de Trapper, Hot Lips se retira e, acompanhada do Major Burns, prepara uma carta denunciando os abusos daquela unidade em “defesa da moral do exército”. Em seguida, Hot Lips e Burns, atraídos um pelo outro, dizem que só vão transar porque “Deus os uniu” e que estavam “fazendo a vontade Dele”. Começa então uma barulhenta sessão de amassos e beijos que, com a ajuda de alguns soldados, seria captada pelos microfones e espalhada por todo o local através dos alto-falantes. É comum ver pessoas criticando o comportamento sexual dos outros diante da sociedade e entre quatro paredes agindo da mesma forma que criticam. Voltando ao elenco, G. Wood está muito divertido como o general Hammond, principalmente quando assume o posto de treinador do time do exército, e Tom Skerritt se sai bem na pele do capitão Bedford, o “Duke”. Mas o grande destaque mesmo é Elliot Gould (o pai de Monica e Ross no seriado “Friends”), que está excepcional como o sarcástico Trapper, arrancando o riso do espectador em praticamente todas as suas aparições.

Tecnicamente, merece destaque a bela trilha sonora de Mike Altman e Johnny Mandel, liderada pela melódica “Suicide is painless”. Quando uma enfermeira é convencida a “salvar” Painless, a trilha evocativa reforça a “ressurreição sexual” do rapaz, ilustrada também no óbvio plano em que o lençol se levanta. A montagem de Danford B. Greene ajuda a conduzir a narrativa com leveza, jamais estendendo demasiadamente um esquete, além de colaborar nas citadas seqüências em que o som e a imagem não têm sincronia. Vale destacar ainda a direção de fotografia de Harold E. Stine, que destaca o verde nas cenas exteriores e o o vermelho nas cirurgias, criando um contraste interessante e colaborando com o choque que estas imagens sangrentas provocam no espectador, auxiliado também pela direção de arte de Arthur Lonergan e Jack Martin Smith que capricha nos pequenos detalhes, como os instrumentos utilizados nas cirurgias. A fotografia participa decisivamente ainda em outra cena, quando os tons escuros, atenuados pela névoa, criam uma atmosfera triste na cena em que os médicos levam Painless no caixão.

O sensacional final metalingüístico de “M*A*S*H” é totalmente coerente com a linguagem despojada do longa dirigido por Altman, que trata o horror da guerra com muito bom humor, mas não deixa de criticar duramente a insanidade dos conflitos. Apesar da narrativa se passar na Coréia, Robert Altman fez questão de evitar qualquer referencia ao local, mostrando claramente sua intenção de criticar a participação norte-americana na guerra do Vietnã. Com humor refinado e um elenco afiado ele conseguiu mais do que isto, realizando um filme leve, delicioso e memorável.

Texto publicado em 12 de Novembro de 2010 por Roberto Siqueira

PERDIDOS NA NOITE (1969)

(Midnight Cowboy)

 

Filmes em Geral #25

Vencedores do Oscar #1969

Dirigido por John Schlesinger.

Elenco: Dustin Hoffman, Jon Voight, Sylvia Miles, John McGiver, Brenda Vaccaro, Barnard Hughes, Ruth White, Jennifer Salt, Gary Owes e T. Tom Marlow.

Roteiro: Waldo Salt, baseado em livro de James Leo Herlihy.

Produção: Jerome Hellman.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Primeiro filme da chamada “nova Hollywood” a vencer o Oscar de melhor filme, “Perdidos na Noite” é um bom (não o melhor) representante do movimento, que mostra de maneira realista a dificuldade de adaptação de um jovem interiorano ao clima hostil e agitado da cidade grande. Dirigido por John Schlesinger, o longa estrelado por Jon Voight traz ainda em seu elenco a grande estrela da época, o talentoso Dustin Hoffman, se afirmando como um dos filmes icônicos daquele celebrado período.

Jovem texano inocente e caipira, Joe Buck (Jon Voight) larga o emprego e parte, com seu estilo cowboy, para tentar ganhar a vida na cidade de Nova York, trabalhando como garoto de programa de mulheres mais velhas e ricas. Ao chegar ao local, faz amizade com um marginal plenamente adaptado à cidade chamado Ratso Rizzo (Dustin Hoffman) e descobre o lado nada hospitaleiro e cruel da vida nas grandes metrópoles.

Escrito por Waldo Salt, baseado em livro de James Leo Herlihy, o roteiro de “Perdidos na Noite” acerta o tom ao mostrar, sem floreios e exageros, a dificuldade de se adaptar à cidade grande, um sentimento comum à maioria das pessoas que não nasceram nestes locais. Somente quem já viveu a sensação de chegar a uma cidade grande pela primeira vez sabe como é, ao mesmo tempo, empolgante e assustador. A ousadia temática da narrativa (jovem larga o interior para ser garoto de programa em Nova York) era uma das características da chamada “nova Hollywood” e o longa de Schlesinger não foge a regra. Mas apesar do tema sombrio, existe espaço para pequenos alívios cômicos, como na cena em que Rasto finge ser engraxate (repare como a posição da câmera colabora sutilmente, mostrando a chegada dos sapatos do terceiro homem e provocando o riso no espectador). O filme aborda o tema do choque cultural já na viagem até Nova York, quando Joe tenta puxar assunto no ônibus com o motorista e com uma moça e ambos não correspondem. Até mesmo a luz do ônibus que lhe incomoda ele não pode apagar, pois a senhora sentada ao seu lado não deixa. A viagem é nostálgica, repleta de flashbacks que lembram a todo instante tudo que ele está deixando pra trás (a avó, a casa em que cresceu, a namorada), e é pontuada pela trilha sonora deliciosa de John Barry (um country, condizente com à história do cowboy que sai da cidade pequena e parte para a cidade grande). Esta trilha inicialmente alegre faz um contraponto interessante com o tom melancólico da chegada à Miami, combinando perfeitamente com o sentimento de Joe, já completamente transformado pela vida.

Na direção, Schlesinger mostra criatividade, por exemplo, na cena em que ilustra a primeira relação sexual de Joe através da velocidade na troca de canais e da imagem das moedas na televisão, revelando também o bom trabalho de montagem de Hugh A. Robertson. A montagem de Robertson, aliás, também demonstra como a infância tem peso na fase adulta de Joe, intercalando imagens dele ainda criança com imagens atuais enquanto assiste televisão, além de auxiliar na indicação da passagem do tempo com elegância, por exemplo, inserindo um plano com água congelada numa torneira que simboliza a chegada do inverno. Já quando Joe e Ratso são expulsos do hotel, Schlesinger utiliza a câmera para demonstrar a tristeza de ambos, diminuindo-os na tela e mostrando como eles estão impotentes diante daquela situação. Ainda na parte técnica, a direção de fotografia de Adam Holender progressivamente muda do tom claro e alegre do início para o obscuro e sombrio visual que domina a tela na metade da projeção, refletindo a mudança no estado de espírito de Joe – repare que até mesmo as cenas noturnas passam a dominar o longa na medida em que a narrativa avança. Além disso, a fotografia demonstra o sentimento de Joe, por exemplo, na cena em que ele sai desesperado à procura de Ratso, com imagens em preto e branco embaladas pela trilha sonora alucinada, ou em seu pesadelo, repleto de imagens surreais, ilustrando o quanto ele está atormentado naquele ambiente. Já quando os dois se imaginam na praia, as cores quentes e a forte luz do sol refletem a alegria daquele pensamento (e neste momento, vale destacar o sorriso sutil, no canto da boca, do ótimo Dustin Hoffman). Vale destacar ainda a típica festa dos anos 60 que determina o destino de Ratso e Joe, repleta de imagens surreais, alucinações e pessoas de estilos diferentes. E aqui novamente a fotografia é importante, pois no momento em que eles conversam com uma determinada mulher, o predomínio do tom vermelho indica o destino infernal da dupla. Em seguida, Ratso sofreria uma queda violenta na escada e Joe teria dificuldades numa relação sexual, o que para um “garoto de programa” pode ser considerado algo grave. Finalmente, também merece destaque a maquiagem em Hoffman, que reflete através de sua sujeira o quanto Ratso foi maltratado pela vida.

Ratso, aliás, que é a síntese da dificuldade que muitos encontram para sobreviver nas grandes cidades. Interpretado de maneira brilhante por Hoffman, o personagem literalmente rasteja por Nova York, sugando tudo que está ao seu alcance para conseguir sobreviver. Hoffman confirma o grande ator que é numa atuação convincente, compondo detalhadamente o personagem, através da voz anasalada, da fala rápida, da forma de caminhar, que progressivamente se torna mais lenta devido à evolução de sua doença, misturando a tosse que lhe castiga com o sorriso de quem já se adaptou a realidade daquela vida. Ratso, com o perdão do trocadilho, é um verdadeiro rato de cidade grande, que não tem vergonha de fazer tudo que pode para sobreviver, chegando a roubar e enganar outras pessoas. E até mesmo seu apartamento no hotel demonstra o estado em que ele sobrevive naquele mundo, mostrando-se um local sujo e escuro, que freqüentemente o esconde sob as sombras. Não por acaso, suas cenas são predominantemente obscuras e as ruas que percorre são sujas e feias, o que reflete a vida difícil que ele leva e reforça o bom trabalho de direção de arte e fotografia. Pra completar, sua atuação ainda tem a célebre frase “Estou andando aqui!”, quando Ratso atravessa uma rua e quase é atropelado, que marcou o cinema para sempre. Já Joe Buck é o típico jovem do interior. Joe chega à cidade de peito aberto, destemido, caçando mulheres como um verdadeiro predador, achando que as oportunidades aparecerão facilmente, algo ilustrado também pela câmera de Schlesinger, que filma Joe em ângulo baixo, refletindo seu sentimento de grandeza em sua chegada. Mas o tempo mostrará que a vida nas grandes cidades não é tão acolhedora assim, como ele pode perceber logo em seus primeiros minutos em Nova York, vendo um homem caído e as pessoas, arredias, seguindo seu caminho, sem sequer dar atenção ao pobre coitado. John Voight compõe o personagem de maneira durona, algo coerente com sua origem, e vive seu grande momento na bela cena em que Joe e Ratso gargalham no ônibus a caminho de Miami. Quando Joe chega ao fundo do poço, se relacionando com um homem por dinheiro (o que lhe traz a imediata lembrança da namorada que ele deixou pra trás em busca da vida na cidade grande), o ator convence ao transmitir com exatidão a aflição do personagem. E existe ainda um momento sutil, porém marcante, que demonstra quando ele começa a perceber que nem todos têm oportunidade naquela terra, quando Joe, assustado, contempla a imagem de mendigos e prostitutas vagando pelas ruas de Nova York.

“Perdidos na Noite” representa bem a nova forma de se fazer cinema que tomou conta de Hollywood no final dos anos 60, ousando tematicamente e quebrando as regras convencionais do cinema norte-americano até então. O plano final, com Ratso morto no vidro ao lado do assustado Joe, enquanto este olha para as praias de Miami, demonstra bem a mensagem principal do filme. A vida na cidade grande não é um mar de rosas.

Texto publicado em 11 de Novembro de 2010 por Roberto Siqueira

MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA (1969)

(The Wild Bunch)

 

Filmes em Geral #24

Dirigido por Sam Peckinpah.

Elenco: William Holden, Ben Johnson, Ernest Borgnine, Robert Ryan, Warren Oates, Jaime Sánchez e Emilio Fernández.

Roteiro: Walon Green e Sam Peckinpah, baseado em história de Roy N. Sickner.

Produção: Phil Feldman.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um ano depois de Sergio Leone realizar um verdadeiro canto de despedida do western na obra-prima “Era uma Vez no Oeste”, Sam Peckinpah completou o serviço e fez a transição completa do cinema clássico para o cinema moderno e mais violento que se consolidaria em seguida (e que já havia iniciado dois anos antes com “Bonnie & Clyde”) neste interessante “Meu ódio será sua herança”, longa que apresenta pelo menos duas grandes cenas de tirar o fôlego.

Um grupo de foras-da-lei, liderado pelo inteligente Pike (William Holden), invade uma cidade em busca de ouro e, após escapar por pouco da morte, decide que está na hora de parar. Porém, após cruzarem a fronteira entre os Estados Unidos e o México, o grupo se depara com um general ditador (Emilio Fernández) que lhes oferece uma última missão: roubar um trem carregado de armas. Ao mesmo tempo, o ex-parceiro de Pike, conhecido como Thornton (Robert Ryan), é convocado para trazer sua cabeça em troca da liberdade.

Nos primeiros minutos de “Meu ódio será sua herança”, um grupo de soldados (que se revelaria um grupo de foras-da-lei) invade uma cidade e, no caminho, cruza com um grupo de crianças que brincam com um escorpião. Em dois momentos distintos, dois planos destacam este escorpião sendo atacado por formigas e incendiado. Não é por acaso. Peckinpah está, na realidade, ilustrando o que aconteceria no final do filme, pois assim como aquele escorpião, um animal até mesmo mais perigoso que a formiga, pouco poderia fazer no meio de tantas formigas, o grupo liderado por Pike jamais conseguiria escapar do grupo de mexicanos na seqüência final. Mas a seqüência final é apenas a cereja do bolo de um longa que já inicia com um tenso tiroteio, que não poupa mulheres e crianças, num verdadeiro espetáculo estilizado de violência. O diretor, auxiliado pela montagem de Louis Lombardo, alterna entre os planos com agilidade sem jamais confundir o espectador, utilizando também a câmera lenta para aumentar o impacto daquele confronto na platéia (e aqui vale observar também a qualidade do som, perceptível através dos gritos, dos cavalos e dos tiros), deixando claro deste então que não seremos poupados do sangrento resultado daqueles conflitos. Mas nem só de violência vive “Meu ódio será sua herança”. Peckinpah aproveita muito bem as belas paisagens que cruzam o caminho do grupo, criando belos planos, graças também ao auxilio da direção de fotografia de Lucien Ballard. Ballard utiliza tons opacos, sem vida, que contrastam com a beleza da região e refletem o sentimento de nostalgia daquele grupo que se despede da vida que adora. Peckinpah cria ainda momentos de extrema tensão, quebrados repentinamente por alguma situação bem humorada, como quando o grupo entra em conflito com o general por causa de uma mulher e, em seguida, a situação se resolve com um convite para beber, além de utilizar o flashback algumas vezes, buscando explicar as motivações dos personagens, como quando descobrimos que Pike e Thornton já trabalharam juntos no passado. Finalmente, o diretor conduz muito bem a seqüência do roubo do trem, onde somente o som diegético é suficiente para criar o clima de tensão. A fuga do grupo e o conseqüente tiroteio também são extremamente bem conduzidos pelo diretor, numa seqüência empolgante e bela que culmina com a plástica cena da explosão da ponte em câmera lenta.

Escrito por Walon Green e pelo próprio Peckinpah, o roteiro busca humanizar os bandidos, mostrando o lado humano de cada um e ética existente entre eles, como quando alguém diz que eles “não são como o general” ou quando eles dividem o uísque e fazem uma brincadeira com um dos integrantes do grupo – e repare como esta brincadeira indica a atitude que eles tomariam contra este mesmo integrante quando a missão fosse cumprida, o que motivaria o arrependimento do grupo e a sensacional seqüência final. “Todos sonhamos ser crianças de novo, até os piores de nós”, diz Pike em certo momento, demonstrando uma fragilidade incomum nos bandidos clássicos de Hollywood. A narrativa acompanha toda a trajetória dos foras-da-lei, intercalando momentos de extrema tensão, como os dois tiroteios que iniciam e encerram o longa, com momentos de relaxamento, especialmente no território mexicano.

Sem jamais demonstrar claramente quem são os heróis ou vilões, a narrativa segue de maneira direta, acompanhando a trajetória daquele grupo no México e, simultaneamente, os passos do grupo liderado por Thornton, que segue as pegadas de Pike. E por mais que existam momentos de relaxamento, o filme carrega uma alta dose de energia, perceptível até mesmo nas atuações. Interpretado por William Holden, Pike é um líder firme, mas que sabe também os momentos em que pode relaxar e dar boas gargalhadas com seu grupo de trabalho, como podemos notar quando eles discutem rispidamente por um monte de “arruelas” e, logo em seguida, voltam a sorrir ao falar sobre prostitutas. Além de bom líder, ele é extremamente inteligente e hábil negociador, como demonstra claramente quando negocia as armas com centenas de mexicanos e quando oferece a metralhadora como um “presente para o general”. O general, aliás, é interpretado com muita graça por Emilio Fernández, sendo responsável por momentos muito bem humorados, como quando testa a metralhadora e quase provoca uma tragédia. O bom relacionamento do grupo de Pike também se deve à boa atuação coletiva do elenco, algo que fica evidente na aparentemente leve e descontraída seqüência do banho no México, que é de vital importância para o futuro da narrativa, pois revela as intenções do grupo naquela missão encomendada pelo general. Já Robert Ryan demonstra firmeza na pele de Thornton, revelando sua admiração e respeito pelo grupo liderado por Pike (“Estamos atrás de homens”), afinal de contas, eles eram pessoas iguais, que pelos caminhos da vida acabaram ficando em lados opostos.

Como em todo bom western, os figurinos, de Gordon Dawson, e a direção de arte, de Edward Carrere, ambientam perfeitamente o espectador ao velho oeste, com os chapéus, sobretudos, roupas do exército e os vestidos das mulheres, além da estrutura da cidade, com o saloon, o hotel e toda aquela arquitetura típica dos westerns. Também se destaca a trilha sonora de Sonny Burke, que oscila entre o triunfal e o melancólico, refletindo os sentimentos daquele grupo que sabe estar realizando o seu último trabalho. E fechando a parte técnica, o som também oscila com perfeição, por exemplo, quando o grupo de religiosos se aproxima antes do primeiro tiroteio, diminuindo sensivelmente o volume quando a ação se passa dentro do saloon. Mas é no espetacular tiroteio final que todo o grande trabalho de Peckinpah e sua equipe chegam ao ápice. Com muito realismo e estilizando a violência através de closes, câmera lenta e rios de sangue que jorram das vítimas, o diretor consegue realizar uma cena emblemática, extremamente gráfica, que provoca forte impacto no espectador e serviu de inspiração para muitos filmes posteriores.

Com uma narrativa direta e sem apresentar heróis e vilões claramente definidos, “Meu ódio será sua herança” causou muita polêmica na época de seu lançamento por causa da estilização da violência. Mas o longa dirigido por Peckinpah estava “apenas” antecipando a forma de fazer cinema que viraria regra logo em seguida, ao mesmo tempo em que, assim como os seus personagens, se despedia do estilo clássico que caracterizou o mais americano dos gêneros cinematográficos.

Texto publicado em 10 de Novembro de 2010 por Roberto Siqueira

SEM DESTINO (1969)

(Easy Rider)

 

Filmes em Geral #23

Videoteca do Beto #113 (Filme adquirido depois da divulgação da crítica)

Dirigido por Dennis Hopper.

Elenco: Peter Fonda, Dennis Hopper, Jack Nicholson, Antonio Mendonza, Karen Black, Phil Spector, Robert Walker Jr., Luana Anders, Sabrina Scharf, Sandy Brown Wyeth e Luke Askew.

Roteiro: Peter Fonda, Dennis Hopper e Terry Southern.

Produção: Peter Fonda, William L. Hayward e Bert Schneider (produtor executivo).

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Dennis Hopper tornou-se um dos símbolos da contracultura com este sensacional “Sem Destino”, responsável por uma verdadeira revolução na indústria cinematográfica de Hollywood. O filme estrelado por Hopper e Peter Fonda (o filho do astro Henry Fonda) abalou as estruturas dos poderosos estúdios e provocou a aposentadoria forçada da maioria dos prestigiados produtores da época, abrindo caminho para a nova e talentosa geração de diretores que surgiria em seguida.

Após vender uma quantidade razoável de cocaína, os integrantes da contracultura hippie Wyatt (Peter Fonda) e Billy (Dennis Hopper) compram duas motos e partem numa viagem de Los Angeles até Nova Orleans, para ver um festival conhecido como Mardi Gras (uma espécie de carnaval norte-americano). Enquanto atravessam o país, os dois encarnam o espírito libertário dos anos 60, mas se deparam com uma sociedade preconceituosa em seu caminho.

A produção de “Sem Destino” não poderia ter sido mais turbulenta. Constantemente em crise, alcoolizado e até mesmo drogado, Hopper causou enormes problemas durante as filmagens, inclusive brigando diversas vezes com Peter Fonda (o que motivou os produtores a incluírem Jack Nicholson no projeto, para acompanhar de perto as brigas dos dois). Não que Fonda ou Nicholson não gostassem de conversar regados à LSD ou maconha na época, mas o problema era o temperamento explosivo de Hopper. Só que os problemas de bastidores não tiveram influência sobre o resultado final da obra. Na realidade, a “loucura” de Hopper ajudou a imprimir no longa o espírito libertário da contracultura, praticamente palpável durante toda a projeção. Escrito por Peter Fonda, Dennis Hopper e Terry Southern (na realidade, Hopper queria os créditos somente pra ele, mas jamais foi comprovado quem de fato escreveu o roteiro), “Sem Destino” mostra alguns aspectos da sociedade de sua época com precisão, como o preconceito contra os negros, quando Hanson diz que conseguiria libertá-los se eles não tivessem matado ninguém “branco”, e o preconceito contra os próprios hippies, na tensa seqüência dentro de um restaurante numa pequena cidade, reforçado pela triste cena da morte de Hanson (Nicholson). Como ele mesmo havia comentado momentos antes com Wyatt e Billy, as pessoas querem a liberdade, mas na realidade elas têm medo de ser livres. A própria seqüência do restaurante ilustra bem este pensamento e reforça ainda o enorme abismo cultural existente na época entre os jovens libertários e a maioria conservadora dos norte-americanos. Enquanto as moças se identificavam com aqueles homens verdadeiramente livres, os homens se limitavam a julgá-los, mostrando seu receio diante daquilo que era “diferente”. O preconceito também foi responsável pela morte de Wyatt e Billy, atingidos de maneira inesperada e chocante por caçadores na beira da estrada. Finalmente, o roteiro é extremamente corajoso (algo típico da nova Hollywood) ao falar abertamente sobre drogas, mostrando os personagens fumando maconha com naturalidade e inclusive debatendo sobre esta erva quando Hanson diz que ela é a porta de entrada para coisas mais pesadas e quando ele diz para Wyatt “está me dizendo que não faz mal?”.

O próprio aspecto visual de “Sem Destino” traduz bem o sentimento de seus realizadores. Observe, por exemplo, como a montagem de Donn Cambern evita seguir o convencional, fazendo a transição de imagens de maneira criativa e, em muitas vezes, alternando repetidamente entre dois planos antes de mudar de cena. Além disso, adota um ritmo que oscila entre o dinamismo (nas seqüências na estrada) e o contemplativo (nas reflexões em volta da fogueira), refletindo a alternância de sentimentos dos protagonistas. Quando a dupla se depara com um grupo de hippies vivendo na beira da estrada, os figurinos traduzem perfeitamente o estado de espírito daquela gente livre, sempre com roupas largas, coloridas, bandanas e colares, numa completa integração entre o homem e natureza. Pra completar, a empolgante trilha sonora carrega em cada canção a força daquele momento de efervescência cultural, com o mais puro rock n’ roll dos anos sessenta, encabeçado pela famosa “Born to be wild”, de Steppenwolf, que virou símbolo de liberdade quando associada às motos na estrada. A trilha conta ainda com nomes icônicos da contracultura como Jimi Hendrix e Bob Dylan com sua The Band.

O sentido de liberdade está presente em cada plano de “Sem Destino”. É impossível não se empolgar ao ver aquelas duas motos desfilando pelas estradas norte-americanas, ao som do rock n’ roll e diante de paisagens tão belas. Tudo isto é mérito também da direção impecável de Dennis Hopper, que explora com competência o lindo visual de cada locação. Seus planos captam com precisão o nascer e o pôr-do-sol e as lindas paisagens na beira da estrada, auxiliado também pela bela direção de fotografia de László Kovács, que confere realismo ao longa com sua fotografia crua e realista. O diretor ainda intercala estes momentos com planos fechados de detalhes das motos, como as rodas, o escapamento e o aro cromado, como se quisesse dar vida aquelas motocicletas. Estas belas seqüências, sempre embaladas pela excelente trilha sonora, aumentam a sensação de liberdade no espectador e contrastam muito bem com a proposital imperfeição técnica da filmagem, perceptível em diversos momentos quando a luz do sol bate diretamente na lente e, principalmente, na seqüência dentro do cemitério, filmada com câmera de 16 mm. Este tratamento estético pouco apurado colabora com a aura de símbolo da contracultura que o filme carrega. Hopper também utiliza técnicas pouco comuns na época, como quando alterna o foco entre Wyatt e uma prostituta, durante a conversa deles antes de saírem para o cemitério. Já a psicodélica seqüência dentro do cemitério, após o trio se drogar com LSD, foi uma das primeiras da história a ilustrar com imagens os efeitos da droga no ser humano, alternando sem qualquer lógica entre diversos planos perturbadores. Também foi uma das primeiras vezes em Hollywood em que foi possível ver sem qualquer pudor cenas de nudez feminina.

O espírito de liberdade do western também exerce influência sobre “Sem Destino”, como indicam os nomes dos personagens centrais da narrativa, inspirados em personagens clássicos (Wyatt, inspirado no xerife Wyatt Earp, e Billy, inspirado em Billy the Kid). Os protagonistas partem nesta busca por identidade, pelo espírito americano, montados em motos ao invés de cavalos, algo simbolizado com competência no plano em que Wyatt e Billy trocam o pneu da moto enquanto dois homens trocam a ferradura de um cavalo. Mas como dizia o cartaz do filme na época, “eles saíram em busca da América e não a encontraram em lugar nenhum”. Duas pessoas comuns que vendem cocaína para conseguir dinheiro e poder viajar pelo país, eles encontram na simplicidade das pessoas que cruzam seus caminhos alguma identificação, como quando Wyatt diz para um pai de família que “nem todo homem pode viver do que produz em sua terra”, reforçando o privilégio daquele senhor por poder viver à margem do feroz sistema das grandes cidades. Billy e Wyatt são anti-heróis que conquistam a platéia pela simplicidade e pelo coração livre, mas também por causa das boas interpretações de Hopper e Fonda. Logo na primeira conversa em volta da fogueira, podemos perceber a qualidade da interpretação da dupla na pele destes dois viajantes solitários. Acompanhados de uma terceira pessoa a quem eles davam carona, os dois jogam conversa fora com naturalidade e mostram as diferenças entre o contido e ponderado Wyatt e o “maluco beleza” Billy, que constantemente cai na gargalhada, até pelo seu estado quase permanente de alucinação provocado pelas drogas. Hopper é competente na composição do personagem, um típico hippie com jeito solto e despojado. Fonda, por sua vez, transmite muito bem a tranqüilidade de Wyatt, sempre com o olhar compenetrado e distante, provavelmente por causa do constante estado de reflexão do personagem. Em certo momento, os dois se infiltram num desfile com suas motos, o que provoca a prisão imediata dos “arruaceiros”. É quando entra em cena o advogado George Hanson, interpretado por Jack Nicholson, que pra variar, está excepcional, se destacando na conversa que tem com Wyatt antes de viajar com eles, onde Hanson demonstra, sem falar diretamente, que quer acompanhá-los. Posteriormente, Nicholson volta a se destacar na segunda conversa em volta de uma fogueira, onde Hanson conta sua visão sobre os venusianos. Vale observar o olhar e os gestos do ator que transmitem o estado de embriaguez do personagem com perfeição, agravado ainda pela nova experiência que vive ao fumar maconha pela primeira vez. De maneira geral, o trio demonstra muito entrosamento nos poucos minutos em que contracenam.

A poderosa frase de Wyatt na última reflexão da dupla (“Nós estragamos tudo!”) transcendeu o filme e simbolizou toda a trajetória do movimento “Nova Hollywood”, quando os diretores, em pouco mais de uma década, conseguiram perder todo o poder que conquistaram. Também se aplica ao próprio movimento hippie e à contracultura, que pregou a liberdade, a paz e o amor, mas viu o sonho começar a ruir dias antes da grande celebração do movimento, o Woodstock, quando Charles Manson, um hippie que afirmava ser a reencarnação de Cristo, assassinou friamente pessoas famosas em Beverly Hills (entre elas, Sharon Tate, a esposa de Roman Polanski) e escancarou a falta de segurança daquele estilo de vida libertário.

Captando com precisão o espírito de sua época, “Sem Destino” representa um grito de liberdade, sufocado por uma sociedade extremamente preconceituosa. Wyatt e Billy partiram em busca da felicidade, mas encontraram um país hostil, violento e avesso à proposta de paz e amor que a contracultura pregava. Ao ver a fumaça da moto caída se distanciando no último plano do filme, sentimos tristeza por constatar que a mensagem de paz da contracultura também ficou perdida em algum lugar num passado distante, pois o ser humano se mostrou incapaz de viver em harmonia e paz. Infelizmente, a violência, o preconceito e a inveja fazem parte da essência humana.

Texto publicado em 09 de Novembro de 2010 por Roberto Siqueira

BONNIE & CLYDE – UMA RAJADA DE BALAS (1967)

(Bonnie and Clyde)

 

Filmes em Geral #22

Dirigido por Arthur Penn.

Elenco: Warren Beatty, Faye Dunaway, Michael J. Pollard, Gene Hackman, Estelle Parsons, Denver Pyle, Dub Taylor, Evans Evans, Gene Wilder, Harry Appling e Mabel Cavitt.

Roteiro: Robert Benton e David Newman.

Produção: Warren Beatty.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Considerado o marco inicial da melhor fase de Hollywood (a chamada “Nova Hollywood”), “Bonnie & Clyde, uma rajada de balas” atingiu em cheio os anseios de uma platéia ávida por filmes diferentes, que fugissem do padrão ético e moral dominante no cinema norte-americano até aquele momento. Com o fim do rígido controle do “Código de Produção” próximo (ele seria substituído no ano seguinte pelo ainda vigente sistema de censura por idades), reforçado pelo turbulento momento vivido pelos estúdios à beira da falência e pela nova e bem sucedida forma de se fazer cinema em outros países como a Itália (neo—realismo, já existente há algumas décadas), o Japão (Akiro Kurosawa) e a França (nouvelle vague), o cinema norte-americano se viu obrigado a abrir as portas para os jovens diretores que surgiam. A soma de todos estes fatores resultou na fase mais frutífera da história de Hollywood e “Bonnie & Clyde” foi o responsável por puxar a fila.

Durante a grande depressão, Bonnie Parker (Faye Dunaway) conhece o ex-presidiário Clyde Barrow (Warren Beatty) enquanto este tenta roubar um carro na frente de sua casa. Atraída pelo rapaz e pela promessa de “fama e glória” da vida de crimes, ela o acompanha e ambos iniciam uma seqüência de assaltos e assassinatos pelas estradas dos Estados Unidos, acompanhados do mecânico C. W. Moss (Michael J. Pollard), a quem conheceram no caminho. Logo depois, Buck (Gene Hackman), o irmão de Clyde recém saído da cadeia, une-se ao grupo acompanhado de sua esposa Blanche (Estelle Parsons), e o quinteto fica famoso em todo país, passando a ser perseguido implacavelmente pela polícia.

“Bonnie & Clyde” é certamente um dos filmes mais importantes e com maior influência na história do cinema. Para entender sua importância, no entanto, é vital contextualizar seu lançamento e entender o que acontecia no cinema e no mundo na época. No final dos anos sessenta, o mundo vivia uma espécie de revolução liderada pelos jovens, com ideais libertários e o famoso lema “paz e amor”. Não à toa, foi nesta época que surgiu o movimento hippie e festivais como o Woodstock, refletindo bem o pensamento do público jovem na ocasião. Influenciados pelos inovadores cineastas da nouvelle vague, que estouraram para o mundo alguns anos antes, além de outros talentos mundo afora como Fellini, Kurosawa e Bergman, um grupo de jovens diretores decidiu mudar radicalmente a forma de fazer cinema em Hollywood, abordando temas nada convencionais e estilizando o visual, inclusive nas cenas violentas. Somado a todos os fatores já citados anteriormente, o caminho estava pavimentado para que diretores talentosos como Penn e atores jovens e ousados como Beatty pudessem produzir e brigar por filmes como “Bonnie & Clyde”, o primeiro desta nova safra (ao lado de “A primeira noite de um homem”) que marcaria a fase áurea do cinema de Hollywood em todos os tempos.

A ousadia temática de “Bonnie & Clyde” aparece logo no início da narrativa, quando Bonnie Parker demonstra interesse pela vida bandida de Clyde (“Como é assaltar?”), seguida pela seqüência em que ambos bebem cerveja, falam sobre armas com certa conotação sexual (repare o olhar sensual de Dunaway para a arma de Beatty) e partem para um assalto, fugindo em disparada num carro em alta velocidade. Somente depois de toda esta aventura é que ambos perguntam “qual seu nome?”. O clima revolucionário ganha força quando o casal fora da lei se depara com uma família despejada e atira contra uma placa, finalizando com a orgulhosa frase “Nós roubamos bancos”. Esta frase volta a aparecer quando o casal se encontra com C.W. Moss e pergunta: “Nós roubamos banco. Há algo de errado nisto?”. A pergunta é direcionada a Moss, mas serve também para a fatia conservadora da platéia. O filme veio para mudar a forma de fazer cinema em Hollywood e conseguiu, inovando também ao humanizar os bandidos, como por exemplo, na cena em que Clyde atira em um homem e sai dizendo que não queria feri-lo. Já não existia mais o certo e o errado. Já não existiam mais os códigos de conduta e moral. Ao constatar que Bonnie e Clyde jamais se arrependeram da vida que levaram, notou-se que a ambigüidade havia chegado ao cinema de Hollywood.

O bom roteiro escrito por Robert Benton e David Newman vai além da ousadia, expondo também o jogo da fama com propriedade, mostrando claramente como as pessoas gostam de ser famosas, como quando um policial orgulhosamente dá entrevista depois de ser pego pelo bando e quando um casal pega carona com o grupo somente para ver o que os amigos pensariam ao ver o nome deles nos jornais. Reforça este argumento o momento em que as pessoas cercam o carro dos bandidos feridos, somente para ver de perto aqueles indivíduos famosos. O roteiro acerta também na citada humanização dos bandidos, também exemplificada no momento em que Bonnie se preocupa com a velhice de sua mãe e demonstra seu medo de perdê-la. O encontro das duas, aliás, ilustra a qualidade da direção de fotografia de Burnett Guffey, que apresenta uma imagem sem vida, que simboliza a relação entre mãe e filha que se esvai.

Com um bom roteiro nas mãos e com liberdade para criar, o talentoso Arthur Penn não desperdiçou a oportunidade. Graças à sua coragem, o longa causou impacto não somente pelo tom da narrativa, mas também pelo aspecto visual. A violência extremamente gráfica aparece em muitas cenas, como no tiro de Clyde na cara de um homem, no massacre de Buck e no tiro que acerta Bonnie. Penn coloca ainda em diversos momentos a câmera sob o ponto de vista de Clyde, jogando o espectador para a perspectiva do bandido e fazendo com que este torça por ele. A própria fotografia ensolarada de Burnett Guffey romantiza e glorifica a vida do casal através de suas cores quentes, além de conferir um ar mais realista à narrativa ao escolher um visual mais cru e granulado. Os figurinos charmosos de Theadora Van Runkle (o chapéu de Bonnie, em especial) também ajudam a criar a imagem de “bandidos simpáticos”, reforçada pela própria atitude deles, como quando Clyde pergunta a um senhor se o dinheiro que ele segura é dele e, ao ouvir a resposta positiva, diz para o senhor ficar com o dinheiro. A primeira seqüência do tiroteio, com o grupo preso numa casa, é sensacional e reforça a qualidade da direção de Penn, que garante um ritmo frenético à cena sem jamais soar confuso, graças também à excelente montagem de Dede Allen, que alterna entre os planos com incrível vigor. Vale destacar também a qualidade do som, que permite distinguir com precisão desde pequenas vibrações até os barulhentos tiros. Voltando ao trabalho excepcional de Dede Allen na montagem, podemos observar também uma interessante passagem no tempo, feitas através das notícias de um jornal (repare a alegria de todos, especialmente de Bonnie ao ser citada), além da elegante transição da noite para o dia feita com o ferido Buck deitado no colo do irmão. Já o segundo tiroteio, com o grupo preso dentro de uma cabana, é ainda mais violento e resulta na morte de Buck (e a fotografia sombria no momento em que ele é baleado já indicava seu trágico destino). Finalmente, Penn confirma sua habilidade durante uma perseguição de carro da polícia, criando uma seqüência empolgante, auxiliado também pela trilha sonora agitada e divertida de Charles Strouse. Vale observar também a composição do plano seguinte, onde podemos observar o casal Velma (Evans Evans) e Eugene (Gene Wilder) namorando e, ao fundo, o carro deles sendo roubado, seguido pela engraçada perseguição que resulta na amizade entre todos os envolvidos.

E porque motivo duas pessoas comuns fariam amizade com um grupo de bandidos? A resposta é simples e exemplifica uma das mensagens principais do filme. É a mesma razão que fez Bonnie se apaixonar por Clyde, mesmo sem conseguir transar com o rapaz. A fama, e a glória que ela traz, encorajava toda aquela gente e o longa retrata isto claramente. Era essencial, no entanto, que a química do casal principal convencesse e felizmente Dunaway e Beatty se saem muito bem nesta tarefa, conquistando a empatia do espectador. Repare, por exemplo, a empolgação de Bonnie quando começa sua vida com Clyde e seu jeito irônico de falar, como quando zomba de Moss (“Uh, ele é fichado…”). Repare ainda como a garota não se abala com o assassinato de um homem, agindo tranquilamente no cinema e na conversa do casal num quarto. Ela gostava daquela vida e Dunaway retrata isto muito bem, como podemos notar no brilho de seus olhos quando Clyde a convida para viver com ele. Mas nem tudo são flores na relação do casal e na primeira briga, ambos jogam na cara um do outro o que lhes desagrada. Esta relação, aliás, é muito bem resumida no belo texto de Bonnie para os jornais. Beatty, por sua vez, demonstra muito bem o incomodo de Clyde com a impotência, refletindo em seu rosto a amargura que sentia, além de demonstrar de maneira visceral sua raiva com a notícia de um jornal sobre a morte do irmão. Clyde, aliás, extravasava sua impotência em seus crimes. Sua arma fazia aquilo que seu órgão não conseguia. Quando ele finalmente consegue se relacionar sexualmente com Bonnie, algo sugerido na cena em que conversam na grama, seus crimes terminam. Já Gene Hackman confirma todo seu talento, atuando com leveza e espontaneidade na pele do irmão de Clyde. Solto, sempre sorridente e fazendo piadas, seu Buck Barrow demonstra incrível afinidade e empatia com o irmão, graças ao talento do ator. Repare como os irmãos não conseguem parar de falar quando se reencontram, ao contrário das mulheres que ficam mudas no carro. Em seguida, quando passam a viver dentro de uma casa numa vida mais “normal”, é a vez de Bonnie deixar claro o quanto se sente deslocada, o que se agrava quando ela entra em conflito com Blanche, a esposa de Buck muito bem interpretada por Estelle Parsons. Completando o elenco, Michael J. Pollard interpreta o fiel C. W. Moss e Dub Taylor vive o esperto Ivan Moss, que tem participação chave na trama, numa cena onde sua conversa com um policial não necessita de palavras para indicar o que irá acontecer. Vale notar também sua aparente simpatia pelo famoso casal, desmascarada quando entra na casa com seu filho.

A cena final de “Bonnie & Clyde” é emblemática e extremamente bem conduzida por Penn. A simples troca de olhares do casal indica o trágico destino de ambos. E até mesmo neste momento eles são capazes de trocar olhares apaixonados, como se estivessem satisfeitos por terem chegado ao fim juntos. A condução da cena é maravilhosa, graças também à montagem que alterna entre os planos do banho de sangue com precisão e capta com detalhes a reação de cada personagem presente. Penn estiliza a cena ainda mais com o uso da câmera lenta, seguido pelo travelling através do carro destruído que finaliza com o plano silencioso em que as pessoas olham pra dentro dele. Chegava ao fim a lendária história do casal. E enquanto a tela escurecia, a platéia tinha a certeza de ter assistido algo diferente. Iniciava-se ali uma nova era em Hollywood.

Assim como o casal de bandidos que o inspirou, “Bonnie & Clyde, uma rajada de balas” saiu atirando em tudo que tinha em seu caminho, deixando marcas por onde passou. Mas ao contrário do final trágico de Bonnie Parker e Clyde Barrow, o longa resistiu aos ataques que sofreu e seu lançamento permanecerá eternamente na galeria dos momentos mais importantes da história do cinema e da cultura norte-americana.

Texto publicado em 08 de Novembro de 2010 por Roberto Siqueira

Semana: Nova Hollywood

Nos próximos dias divulgarei críticas de dez grandes filmes da Nova Hollywood, importante movimento que, para muitas pessoas, marcou a época de ouro do cinema norte-americano. Quero deixar claro, como de costume, que a lista não representa os meus filmes favoritos do período ou aqueles que eu considero mais importantes, até mesmo porque muitos deles já tiveram críticas divulgadas na Videoteca do Beto, como A primeira noite de um homem, Tubarão, Taxi Driver, O Exorcista e O Poderoso Chefão. Trata-se apenas de uma seleção de bons filmes de mais uma época marcante da história do cinema.

Aproveito também para lançar a página “Nova Hollywood”, que você pode acessar na página inicial (lado direito da tela), onde faço um pequeno resumo sobre este movimento e descrevo suas principais características.

Espero que gostem.

Um abraço.

Texto publicado em 07 de Novembro de 2010 por Roberto Siqueira

Mais um ano…

Obrigado por mais um ano maravilhoso! Certamente, o melhor ano da minha vida, pois foi no último ano que vivi a maior emoção de todas: ser pai.

Agradeço a Deus, à minha amada esposa, ao meu amado filho e a todos que verdadeiramente gostam de mim.

Abraço.

Texto publicado em 06 de Novembro de 2010 por Roberto Siqueira

Imagens: O Exorcista (1973)

Seguindo o projeto de atualização das críticas com imagens, chegou à vez da crítica do aterrorizante O Exorcista (1973) ser devidamente ilustrada. Vale lembrar que o texto permanece o mesmo do dia de divulgação.

Um abraço.

Texto publicado em 04 de Novembro de 2010 por Roberto Siqueira