RAMBO – PROGRAMADO PARA MATAR (1982)

(First Blood)

 

Videoteca do Beto #28

Dirigido por Ted Kotcheff.

Elenco: Sylvester Stallone, Richard Crenna, Brian Dennehy, Bill McKinney, Jack Starrett, Michael Talbott, Chris Mukley, John McLiam, Alf Humphreys, David Caruso, David Crowgley e Bruce Greenwood.

Roteiro: Michael Kozoll, William Sackheim e Sylvester Stallone.

Produção: Buzz Feitshans.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Não é difícil imaginar a dificuldade de adaptação de um soldado que retorna da guerra para conviver em sociedade novamente. Treinados basicamente para lutar e tentar sobreviver em campo de batalha, raramente estas pessoas conseguirão uma oportunidade para trabalhar e viver normalmente, sendo tratados com enorme preconceito, ainda mais quando a guerra em questão foi perdida por seu país. Além disso, pode-se imaginar também o enorme trauma causado na mente humana ao testemunhar com os próprios olhos e sentir na pele todo o horror e insanidade da guerra. Estas duas importantes discussões estão presentes em “Rambo – Programado para Matar”, o filme repleto de ação e extremamente realista dirigido por Ted Kotcheff e estrelado por Sylvester Stallone.

John Rambo (Sylvester Stallone) é um veterano de guerra do Vietnã que vai para uma pequena cidade encontrar um amigo, também ex-combatente, e ao chegar lá, descobre que ele morreu de câncer. Ao caminhar pela cidade à procura de algo para comer, se depara com o xerife Will Teasle (Brian Dennehy) e é preso injustamente por ser “vagabundo”. Na prisão, após ser maltratado pelos policiais, consegue fugir e provoca uma guerra contra toda a cidade.

“Rambo” é inquestionavelmente um filme de ação, e neste sentido, a direção de Ted Kotcheff é muito competente, ao conseguir criar seqüências que além de empolgantes, são extremamente realistas. Desde o momento em que Rambo se rebela na prisão, dando início à implacável perseguição do xerife à Rambo, que corta as fazendas com sua moto e posteriormente, a pé, é notável a habilidade do diretor, que ainda cria planos bastante criativos. Observe por exemplo, o ótimo plano em que Rambo se esconde atrás de uma árvore enquanto o helicóptero tenta encontrar uma brecha para que o policial atire nele. Praticamente nos escondemos dos tiros junto com ele e torcemos por seu sucesso. Durante a caçada na mata (onde Rambo obviamente se sentia à vontade e sabia muito bem como se virar com o que encontrava pelo caminho) são muitas as cenas marcantes. Em uma delas, o plano permite ao espectador ver Rambo no alto enquanto um policial o procura no chão e não percebe sua presença, segundos antes dele atacar. Kotcheff, porém, cria também seqüências exageradas e pouco verossímeis, como quando Rambo pula de um penhasco e cai vivo lá embaixo ou quando enfrenta sozinho muitos policiais armados e escapa da delegacia. Mas para isso, ele conta com um trunfo especial, que é a habilidade de Stallone para atuar nestas seqüências que exigem força física. O ator consegue tornar estas seqüências críveis. Além disso, conta com a boa direção de fotografia de Andrew Laszlo, que confere um tom sombrio ao longa, principalmente nas seqüências dentro da mata, e com a ágil montagem de Joan E. Chapman, que garante o excelente ritmo da narrativa, além de colaborar nas ótimas cenas de ação. Completando a parte técnica, a bela trilha sonora de Jerry Goldsmith alterna do tom nostálgico que reflete o estado de espírito do soldado para momentos de um tom muito mais pesado, condizente com ação frenética que vemos na tela.

Parte de nossa empatia com Rambo se deve a situação em que ele é apresentado (claro que o carisma de Stallone ajuda). Temos a tendência de torcer por quem está vulnerável e o bom roteiro de Michael Kozoll, William Sackheim e Sylvester Stallone explora muito bem isso, ao apresentar Rambo sendo preso injustamente e acuado por todos os policiais. Stallone, aliás, resume sua atuação a olhares mal encarados, algumas poucas frases, gritos e muita correria, até os momentos finais, onde a conversa com o coronel Samuel Trautman (Richard Crenna) comprova que ele pode mostrar mais que isso como ator. O convincente choro amargurado, expondo todo seu sofrimento, mostra os efeitos da guerra na vida desta pessoa e expõe o quanto é difícil continuar vivendo normalmente depois dela. Sua frase “Aqui não consigo emprego nem de motorista!” resume bem como é difícil se adaptar novamente à sociedade. Em outro bom momento de Stallone (que é também um excepcional roteirista), Rambo conversa pelo rádio com o coronel e deixa claro o seu sofrimento com o que estava acontecendo. “Eles me machucaram primeiro” (They drew “first blood”, not me) são as palavras dele que remetem ao titulo original do filme em inglês.

A vida pacata de uma pequena cidade pode se tornar enfadonha. Talvez por isso o xerife Teasle, vivido com competência por Brian Dennehy, tenha encontrado em Rambo uma oportunidade de se divertir. O que ele não esperava era que este aparente vagabundo era, na verdade, uma verdadeira máquina treinada para a guerra. Podemos notar, através de conversas entre os policiais e dos objetos na mesa do xerife, que a pequena cidade tem como principal atividade de lazer a caça. Com a chegada de Rambo, ele se transforma no animal a ser caçado. E ironicamente, é ele quem acaba caçando todos que cruzam seu caminho. A caçada vira uma questão pessoal para Teasle, e nem mesmo a alegria do jovem policial, ao ouvir a descrição no rádio de John Rambo dizendo que ele é um herói de guerra, foi capaz de fazê-lo mudar de idéia.

Em resumo, “Rambo” conta a estória da guerra pessoal de um homem contra toda uma cidade. Mas felizmente, o filme não se resume as cenas de ação frenética, explosões e tiros. Suas ótimas seqüências de ação servem como pano de fundo para reflexões infinitamente mais profundas e interessantes. Retratando com fidelidade o que aconteceu com os soldados norte-americanos, que foram tidos como vagabundos e drogados em sua volta ao país, “Rambo – Programado para Matar” se estabelece como um filme de ação eficiente e realista, que deixa ainda duas profundas questões para reflexão, tanto de ordem filosófica quanto política. Qual o efeito causado na mente humana pelo horror da guerra? E como é o tratamento dado pelos governos a estas pessoas que lutam para defender os interesses, muitas vezes nada nobres, de seus países? Após assistir a este e tantos outros bons filmes que abordam o tema, não é difícil chegar a uma conclusão.

Texto publicado em 21 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

RASTROS DE ÓDIO (1956)

(The Searchers)

 

Filmes em Geral #71

Filmes Comentados #14 (Comentários transformados em crítica em 11 de Agosto de 2011)

Dirigido por John Ford.

Elenco: John Wayne, Natalie Wood, Jeffrey Hunter, Vera Miles, Ward Bond, Henry Brandon, Hank Worden, Harry Carey Jr., Dorothy Jordan, John Qualen, Olive Carey, Pippa Scott e Ken Curtis.

Roteiro: Frank S. Nugent.

Produção: C. V. Whitney.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Tecnicamente brilhante, “Rastros de Ódio” aborda uma temática difícil para a época, saindo dos padrões estabelecidos e dando maior realismo ao gênero preferido da dupla John Ford e John Wayne. Desta forma, Ford conseguiu criar um clássico do western, abusando das lindas paisagens e contando uma história sombria demais para os padrões até então estabelecidos em Hollywood, com seu anti-herói ambíguo e amargurado e uma narrativa repleta de sutilezas.

O veterano de guerra civil Ethan Edwards (John Wayne) resolve visitar a casa de seu irmão e, após sair para investigar um roubo de gado, encontra a casa queimada e a família assassinada por índios. Apenas as sobrinhas Lucy (Pippa Scott) e Debbie (Natalie Wood) escapam do massacre e são levadas pelos índios liderados por Scar (Henry Brandon). Ethan parte em busca das sobrinhas ao lado do sobrinho – que ele não reconhece como tal – Martin Pawley (Jeffrey Hunter) e de Brad Jorgensen (Harry Carey Jr.), o namorado de Lucy.

Como de costume, John Ford aproveita a belíssima paisagem de sua locação preferida (Monument Valley, Utah – EUA) para criar cenas lindas, desta vez apoiado pela tecnologia “Technicolor” para ressaltar o colorido da região. Auxiliado pela fotografia maravilhosa de Winton C. Hoch, o diretor cria um visual deslumbrante, misturando a luz amarelada do sol com o vermelho da terra. Além do tradicional cuidado com cada enquadramento e movimento de câmera, Ford ainda cria interessantes rimas narrativas, como aquela entre a imagem que abre o filme e o plano final, e espalha sutilmente informações que terão reflexo futuro, como o medalhão dado por Ethan de presente para Lucy. Ford mostra habilidade ainda na condução de cenas marcantes, como momentos antes do ataque dos índios, quando a tensão domina a tela e a própria fotografia sombria indica a tragédia. Sem que algum personagem diga uma palavra, Ford indica que duas pessoas sobreviveram, através da imagem das três cruzes no enterro (cinco pessoas estavam na casa antes do ataque). Este tipo de situação sutil permeia toda a narrativa de “Rastros de Ódio”.

Toda esta beleza visual é ressaltada ainda pela linda trilha sonora de Max Steiner e Stan Jones, repleta de canções melancólicas que refletem bem o estado de espírito de quem vive distante de tudo e, principalmente, de Ethan, um homem solitário e misterioso, que, como indica o último plano do filme, pertence aquele lugar mais do que ninguém. “Rastros de Ódio” conta ainda com a dinâmica montagem de Jack Murray, que cobre muitos anos sem jamais se tornar episódica, indicando a passagem do tempo, por exemplo, através das estações do ano ou de momentos simples, como a carta que informa a morte de Brad um ano depois do ocorrido. Reforçando a sutileza da narrativa, observe como Ethan diz que Lucy não cresceu muito e a garota aponta para a irmã maior (“Aquela é Lucy, eu sou Debbie”), indicando o longo tempo que ele esteve distante.

Escrito por Frank S. Nugent, o competente roteiro permite que John Ford crie um anti-herói complexo, amargurado e extremamente ambíguo. Ethan é um homem que carrega em seus ombros o peso do passado, associado a um racismo extremo, que fica explícito logo no início, quando responde “não creio” ao mestiço Pawley – que havia sido salvo por ele na infância – ao ouvi-lo afirmar que seu sangue indígena é misturado ao sangue galês e inglês. Ninguém melhor que John Wayne para interpretar Ethan Edwards, que parte em busca de vingança com toda sua brutalidade e rancor após sua família ser massacrada pelos índios cherokees. Entretanto, descobriremos que as razões de sua viagem ao lado do mestiço Pawley não eram tão nobres. Ethan quer ter certeza de que Debbie se transformou numa índia, somente para matá-la e garantir que não tenha nenhum laço com os índios. Interpretado por Jeffrey Hunter, Pawley quer evitar que o tio cometa esse ato insano, o que explica duas pessoas tão diferentes viajarem por tanto tempo lado a lado. Ethan escancara suas intenções quando escreve um testamento deixando tudo para Pawley, deixando de lado a sobrinha criada por índios.

Astuto ao ponto de pressentir um ataque (cena da fogueira), Ethan foge completamente do herói convencional do gênero, evidenciando seu racismo ao atirar duas vezes num Índio morto e dizer para o reverendo Clayton (Ward Bond) que ele não poderá mais andar pelo vale dos mortos sem os olhos. Aparentemente, ele não segue religião alguma, mas prefere garantir que o índio não ficará bem nem aqui e nem numa suposta outra vida. As razões de seu ódio jamais são explicadas, mas este sentimento é notável, por exemplo, quando ele diz que um cherokee andaria mais trinta quilômetros em um cavalo cansado, somente para matá-lo e comê-lo depois. Curiosamente, o assassinato da família Edwards faz o espectador sentir a mesma raiva dele pelos índios, o que confere peso dramático ao excelente momento em que os cherokees cercam o grupo antes da fuga pelo rio. Retratados na maior parte do tempo como selvagens cruéis, que caçam e matam sem piedade, os índios de “Rastros de Ódio” parecem seguir o padrão da época, mas a narrativa inverte as ações em determinado momento, eliminando o maniqueísmo e humanizando os “selvagens”, numa forma bastante original de tratar a questão. Ao mostrar homens brancos destruindo o acampamento indígena e fazendo prisioneiros, Ford cria uma impactante subversão de expectativa, que revela o outro lado da moeda para uma platéia acostumada a ver os índios como selvagens assassinos.

Entre o elenco de apoio, vale destacar a boa atuação de Hank Worden como o maluco (mas nem tanto) Mose Harper, além de Vera Miles, que está ótima como a atirada Laurie, partindo pra cima de Martin assim que o vê, beijando o rapaz e ajudando em seu banho. Completamente apaixonada, ela sofre com suas constantes viagens ao lado de Ethan e sua mãe (Olive Carey) parece ser a única que a compreende, como fica evidente quando ela lê a carta em que Pawley informa que se casou com uma índia. Aliás, a índia que persegue Pawley representa um ótimo momento de alivio cômico, embalado pelas tiradas de Ethan que rendem boas gargalhadas, assim como é divertida a sensacional briga entre Pawley e Charlie (Ken Curtis), em que os dois se ajeitam, ajudam um ao outro, param e conversam – vale destacar também o encanto de Laurie ao ver Pawley brigando por ela.

Após cruzar o cânion durante a viagem, a reação de Ethan indica algo terrível, que é confirmado momentos depois quando ele informa a morte de Lucy. Desesperado, Brad parte para a vingança e as reações de Ethan e Pawley (além da trilha sombria) indicam a morte dele. Em outro momento, é a reação de Martin, contida por Ethan na oca de Scar, que indica que eles encontraram Debbie, que surge no horizonte pouco tempo depois e é protegida por Martin enquanto Ethan tenta matá-la. Repare que em todas estas situações, as palavras são desnecessárias. Esta é a beleza de “Rastros de Ódio”, onde nada é muito explicado. Em diversos momentos, as reações dos personagens indicam que algo aconteceu no passado, pesando muito nos dias atuais. Porque Ethan é tão rancoroso e solitário? Qual a sua verdadeira relação com Pawley? Ele teve alguma relação além da amizade com a mulher de seu irmão, que o trata tão bem? Repare, por exemplo, a forma como Martha (Dorothy Jordan) ajeita suas roupas e o beijo que ele dá na testa dela, indicando alguma relação mais profunda no passado. Qual a relação entre Ethan, Martin e a mãe do garoto assassinada pelos índios? Após escalpelar Scar, Ethan fica em paz e aceita Debbie de volta, levando-a pra casa, mas por quê? Todas estas respostas devem ser encontradas por cada espectador. No fim das contas, refletimos a respeito enquanto vemos aquele homem solitário do lado de fora da casa, num plano final que ilustra bem este personagem ambíguo e amargo, que foge completamente do herói típico do western até então.

Transformando o inabalável herói do faroeste em um sujeito ambíguo e alterando o modo de ver os indígenas nos filmes do gênero, “Rastros de Ódio” se estabelece como um marco na história do cinema, redefinindo o western de forma corajosa e reafirmando a competência de John Ford como diretor.

PS: Comentários divulgados em 20 de Dezembro de 2009 e transformados em crítica em 11 de Agosto de 2011.

Texto atualizado em 11 de Agosto de 2011 por Roberto Siqueira

GANDHI (1982)

(Gandhi) 

 

Videoteca do Beto #27

Vencedores do Oscar #1982

Dirigido por Richard Attenborough.

Elenco: Ben Kingsley, Candice Bergen, Edward Fox, John Gielgud, Trevor Howard, John Mills, Martin Sheen, Ian Charleson, Athol Fugard, Günther Maria Halmer, Saeed Jaffrey, Geraldine James, Alyque Padamsee, Amrish Puri, Roshan Seth, Rohini Hattangadi, Ian Bennen, Richard Griffiths, Nigel Hawthorne, Michael Hordern, Shreeram Lagoo, Om Puri, Daniel Day-Lewis, John Ratzenberger e John Boxer. 

Roteiro: John Briley. 

Produção: Richard Attenborough. 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Em certo momento do belíssimo “Gandhi”, dirigido por Richard Attenborough, um dos personagens diz que “o mundo não é feitos de Gandhis”. Infelizmente somos obrigados a concordar com ele, o que não nos impede de pensar que isto é realmente uma pena. A história da vida do homem que liderou a independência da Índia é por si só maravilhosa. Mas o competente trabalho de Attenborough, auxiliado pela sua equipe técnica e por um elenco brilhante, fez do filme “Gandhi” um épico maravilhoso, repleto de imagens marcantes e que cumpre muito bem a difícil missão de contar a história deste homem tão importante na história da humanidade.

No inicio do século XX, o jovem e idealista advogado indiano Mohandas Karamchand Gandhi (Ben Kingsley), após passar alguns anos na África do Sul, volta para a Índia e inicia, de forma pacífica, a luta contra o domínio britânico em seu país. Através de manifestações não-violentas, se tornou o líder espiritual de hindus e mulçumanos e chamou a atenção dos olhos do mundo para sua causa.

Logo no início de “Gandhi” testemunhamos o seu trágico assassinato e a comoção que sua morte causou no país, dando idéia da enorme importância daquele homem. Desta forma, quando começamos a acompanhar o início da caminhada dele, ainda jovem na África do Sul, sabemos qual será seu fim trágico, e passamos a nos perguntar que motivos levariam alguém a fazer aquilo. Mas o excelente roteiro de John Briley faz muito mais do que mostrar apenas porque alguém mataria aquele homem (e a razão é estúpida), mostrando na realidade como este homem se tornaria um dos mais importantes seres humanos a pisar na face da terra. A mensagem de Gandhi era simples, porém de difícil compreensão para nós, seres tão estúpidos e fracos.

Attenborough acerta em cheio na escolha de seus planos, desde este forte início, com a cena do assassinato e o pomposo funeral, passando pelas lindíssimas imagens durante as viagens de trem pela Índia, onde Gandhi começa a notar a pobreza de seu país, até os belos planos gerais de seus discursos públicos, quando envia sua mensagem de não-violência para toda parte da Índia. Attenborough mostra competência também nas difíceis cenas de combate, como a guerra na fronteira da Índia com o Paquistão e a chocante cena do fuzilamento coletivo de indianos. O diretor conta também com um ótimo trabalho de montagem de John Bloom, notável em diversos momentos, como na bela transição da cena em que Gandhi chega ao mar pra fazer sal para a reportagem feita no jornal britânico, em preto e branco, que falava exatamente sobre este ato. Já na viagem de volta de Gandhi no navio, podemos ver exatamente o contrário. A imagem transita da reportagem para a realidade. Mas Bloom acerta especialmente ao cobrir muitos anos da vida do líder indiano sem jamais soar episódico, devido aos elegantes saltos que dá na narrativa. Em certo momento, por exemplo, ficamos sabendo da prisão da Sra. Gandhi (Rohini Hattangadi) através de uma conversa dele com seu amigo, já preso, sem a necessidade de mostrar esta etapa da vida deles.

Quando retorna de sua viagem pela Índia, Gandhi diz em um belo discurso que ninguém pode lutar pelos direitos dos indianos se não se tornar um indiano de verdade, ou seja, viver como um indiano vive, sem luxos (o que arranca um sorriso contido de seu amigo no palco). Caso contrário, estaria apenas tomando o lugar dos britânicos no poder. E se a pobreza vista por Gandhi salta aos olhos também do espectador, é porque além da competente direção de Attenborough, a direção de fotografia da dupla Ronnie Taylor e Billy Williams acerta na escolha de cores áridas e quentes, como o amarelo, o bege e o marrom, para retratar o mundo seco, pobre e sem cores em que vivia a maioria absoluta dos indianos na época. Colaboram também os figurinos (creditados para Bhanu Athaiya e John Mollo), que destacam cores que harmonizam com a fotografia árida, mas com o predomínio de roupas brancas, que por outro lado, simbolizam muito bem a paz que Gandhi tanto pregava, e a excelente direção de arte de Norman Dorme e Ram Yedekar. Tipicamente indiana, com acordes altos e cantos, a linda trilha sonora que ajuda na ambientação ao país é mérito de Ravi Shankar.

Por ser advogado formado, Gandhi sabia muito bem os limites de suas atitudes e, por conseqüência, que punições ele poderia ou não sofrer. Desta forma, quando inicia a queima dos bilhetes na frente de soldados britânicos, ele sabia exatamente onde estava pisando e que tipo de reação geraria. Sua prisão causou revolta nos indianos presentes na África do Sul, que certamente contariam o feito para outros, e desta forma chamariam a atenção que ele precisava para iniciar sua revolução. A opressão britânica na África do Sul despertou em Gandhi o sentimento de lutar contra a tirania. Só que ele o fez da melhor e mais humana maneira possível, o pacifismo. Mas como enfrentar um império poderoso e violento de forma pacífica? A resposta é dada ao longo de toda a projeção, em cada frase (“Olho por olho deixará o mundo cego” é só um exemplo) e em cada atitude dele.

Coube a Ben Kingsley a responsabilidade de interpretar Mahatma Gandhi, o “grande espírito”. Em atuação magnífica, Kingsley é firme quando necessário, como no julgamento em que desafia o juiz, dizendo que não vai pagar 100 rupis (seu olhar mostra claramente sua determinação em não fazê-lo), mas por outro lado, consegue transmitir a paz interior de Gandhi com enorme competência através da fala mansa e do olhar sempre sereno e pacifico. Observe como quando está mais velho sua fala se torna ainda mais pausada e lenta, assim como seu caminhar (e seu emagrecimento é também evidente). Pouco compreendido até mesmo pelos indianos (“Deus me dê paciência”, diz um deles quando o vê em vestimentas típicas indianas), era quando falava em público que Gandhi realmente chamava a atenção, exatamente pela beleza e importância de suas palavras, e Kingsley também é competente nestes discursos, transmitindo sentimento em cada um deles. Pode-se imaginar como era difícil deixar posições confortáveis para os representantes indianos da época. Mais difícil ainda era aceitar e entender as diferenças religiosas. Por isso, Gandhi comprou briga com muitos, até mesmo com sua fiel mulher no inicio de sua vida no Ashram (local que ele construiu para viver, onde todos eram iguais e as tarefas eram divididas), e através de seus exemplos, servindo café no lugar do servo e jamais reagindo às muitas agressões e prisões que sofreu, foi conquistando o respeito e a admiração de muitos, inclusive vindos de outros países. Em uma das mais belas cenas do filme, comovido após ver a pobreza nas famílias produtoras de roupas indianas – resultado da invasão de roupas inglesas no país – ele passa a utilizar somente roupas nacionais e pede para que o povo faça uma enorme fogueira de roupas britânicas, sendo prontamente atendido. O desapego das roupas de melhor qualidade em prol de uma vida melhor para os indianos soa nacionalista, mas acima de tudo, era uma atitude muito humana. Finalmente, Kingsley também está ótimo nas cenas dramáticas, como o comovente choro de Gandhi ao pressentir e presenciar a morte da mulher amada, ficando ao lado dela até o fim, o que mostra que ele era um ser humano normal, que sentia amor e dor como qualquer outro. O restante do numeroso elenco também tem grandes atuações, como Geraldine James interpretando Meerabahen, a admiradora inglesa de Gandhi e Saeed Jaffrey, que interpreta seu grande amigo Sardar. Destaque também para a belíssima maquiagem em todo o elenco no terceiro ato do filme, quando todos estão muitos anos mais velhos.

A história de Gandhi ensina que as diferenças religiosas devem ser respeitadas para que a sociedade consiga conviver em harmonia. Note como Gandhi cita Cristo algumas vezes e até mesmo compara passagens da Bíblia com o Gita e o Alcorão (que eram lidos juntos em sua infância), o que se revela bastante interessante, já que ambos tinham uma mensagem muito parecida, de paz e amor ao próximo. E a semelhança entre os dois tem até mesmo referências visuais no longa, como no julgamento em que Gandhi veste uma roupa bem semelhante aquela que nos acostumamos a associar à Jesus Cristo. Completamente desconhecido do povo indiano – como podemos notar quando um deles, em cima do trem, diz para o amigo cristão de Gandhi que sua conhecida, também cristã, “bebe o sangue de Cristo todo domingo” – o cristianismo tem muito em comum com o pacifismo pregado por Gandhi, o que nos leva a pensar sobre a natureza dos conflitos religiosos. Porque julgar as religiões pelas excentricidades ao invés de focar na bela mensagem em comum de amor e paz? Para Gandhi, o que importava era seguir a Deus e não a religião.

Quando o assassino de Gandhi aparece em meio à multidão, já próximo do final do filme, sabemos qual o seu papel ali. Após a aparente paz na região, com a conquista da independência da Índia e do Paquistão – simbolizada nas cenas em que as bandeiras são hasteadas e os hinos cantados – inicia-se outra guerra, agora religiosa, que só terminaria com mais uma greve de fome de Gandhi. Em meio a tantas pessoas que respeitavam e ouviam a bela mensagem de paz dele, havia também aqueles que ousavam gritar “Morte à Gandhi!” (e neste momento, Attenborough inteligentemente coloca o assassino em meio à multidão, onde podemos identificá-lo). Intolerantes à diferença religiosa, estas pessoas são a resposta para a pergunta que nos fazemos no inicio do filme. São as pessoas capazes de tirar a vida de alguém tão puro, simples e bom, simplesmente por entender que ele não compartilha de sua crença.

Albert Einstein disse que “gerações futuras não acreditariam que alguém assim como Gandhi, de carne osso, tenha vivido neste mundo”. E no mundo em que vivemos hoje, é realmente difícil acreditar. Nas palavras de Meerabahen: “Ele mostrou ao mundo como sair da loucura. Só que ele não viu isso. Nem o mundo viu”. A maravilhosa história do homem que combateu a violência e a opressão com a paz não precisava de mais nada para ser atraente. Mas nem por isso Attenborough e seu competente elenco fizeram um trabalho qualquer. O resultado final é um filme grandioso, lindo e marcante. Não tanto como o próprio Gandhi, o que não é nenhum demérito. Nenhum filme seria.

Texto publicado em 18 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

Globo de Ouro 2010 – Lista de Indicados

Pessoal, segue a lista de indicados ao Globo de Ouro 2010. Retirei a informação de outro blog (Blog do Rubens Ewald Filho, conhecem? ;)), por isso, deixo o link direto para acessar o texto dele aqui.

Este post é realmente apenas para informar os indicados. Só vou deixar minha opinião depois que assistir uma quantidade razoável destes filmes:

Melhor filme – Drama
Avatar /Idem
The Hurt Locker / Guerra ao Terror
Inglourious Basterds / Bastardos Inglórios
Precious: Based on the Novel Push by Sapphire
Up in the Air/ Amor sem Escalas

Melhor filme – Comédia
The Hangover /Se Beber Não Case
It’s Complicated
Julie e Julia /Idem
Nine
(500) Days of Summer / (500) Dias com Ela

Melhor ator – Drama
Jeff Bridges – Crazy Heart
George Clooney – Up in the Air/ Amor sem Escalas
Colin Firth – A Single Man
Morgan Freeman  – Invictus
Tobey Maguire  – Brothers

Melhor atriz – Drama
Emily Blunt  – The Young Victoria
Sandra Bullock  – The Blind Side
Helen Mirren  – The Last Station
Carey Mulligan – An Education
Gabourey ‘Gabby’ Sidibe  – Precious: Based on the Novel Push by Sapphire

Melhor ator Musical ou Comédia
Matt Damon  – O Desinformante/ The Informant!
Daniel Day-Lewis  – Nine
Robert Downey Jr – Sherlock Holmes/Idem
Joseph Gordon-Levitt –  (500) Days/ of Summer /500 dias com Ela
Michael Stuhlbarg – A Serious Man

Melhor atriz – Musical ou Comédia
Sandra Bullock  – A Proposta/ The Proposal
Marion Cotillard – Nine
Julia Roberts – Duplicidade/Duplicity
Meryl Streep – It’s Complicated
Meryl Streep  – Julie & Julia /Idem

Melhor Ator Coadjuvante
Matt Damon  – Invictus
Woody Harrelson  – The Messenger
Christopher Plummer – The Last Station
Stanley Tucci  – The Lovely Bones
Christoph Waltz –  Inglourious Basterds/ Bastardos Inglórios

Melhor Atriz Coadjuvante
Penélope Cruz  – Nine
Vera Farmiga  – O amor sem Escalas/ Up in the Air
Anna Kendrick  O amor sem Escalas/ Up in the Air
Mo’Nique  – Precious: Based on the Novel Push by Sapphire
Julianne Moore  – A Single Man

Melhor Diretor
Kathryn Bigelow – Guerra  ao Terror/ The Hurt Locker
James Cameron  – Avatar
Clint Eastwood  – Invictus
Jason Reitman  – O Amor Sem Escalas/ Up in the Air
Quentin Tarantino  – Inglourious Basterds/Bastardos Inglórios

Melhor Roteiro
Distrito 9/District 9 de  Neill Blomkamp, Terri Tatchell
Guerra Ao Terror /The Hurt Locker de  Mark Boal
Bastardos Inglórios/Inglourious Basterds de Quentin Tarantino
It’s Complicated de  Nancy Meyers
Amor sem Escalas/Up in the Air de Jason Reitman e Sheldon Turner

Melhor canção
Crazy Heart – T-Bone Burnett, Ryan Bingham (”The Weary Kind”)
Everybody’s Fine –  Paul McCartney (”(I Want To) Come Home”)
Nine – Maury Yeston (”Cinema Italiano”)
Brothers  (”Winter”)
Avatar (”I See You”)

Melhor trilha musical
O Desinformante/The Informant! de Marvin Hamlisch
Up /Altas aventuras de Michael Giacchino
Where the Wild Things Are/Onde vivem os Monstros de Carter Burwell, Karen Orzolek
Avatar/idem de James Horner
A Single Man de Abel Korzeniowski

Melhor Animação
Tá Chovendo Hamburger/Cloudy with a Chance of Meatballs
Coraline/Idem
O Fantástico Sr. Fox/Fantastic Mr. Fox
A Princesa e o Sapo/The Princess and the Frog
Up/Altas Aventuras

Melhor Filme Estrangeiro
Abraços Partidos/Los abrazos rotos (Espanha), de Pedro Almodóvar
Das weisse Band – Eine deutsche Kindergeschichte/A Fita Branca (Alemanha), de Michael Haneke
La Nana (Chile/México), de Sebastian  Silva
Un Prophète (França), de Jacques audiard.
Baarìa (Itália), de Giuseppe Tornatore.

Um abraço.

Texto publicado em 16 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

E.T. – O EXTRATERRESTRE (1982)

(E.T., The Extraterrestrial)

 

Videoteca do Beto #26

Dirigido por Steven Spielberg.

Elenco: Henry Thomas, Robert MacNaughton, Drew Barrymore, Dee Wallace-Stone, Peter Coyote, K.C. Martel, Sean Frye, C. Thomas Howell, Frank Toth, Pat Welch e Debrah Winger (E.T. – voz).

Roteiro: Melissa Mathison.

Produção: Kathleen Kennedy e Steven Spielberg.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

“ET, o extraterrestre é um filme mágico”. Esta é a melhor definição que consigo encontrar para descrever este clássico maravilhoso. A obra que marcou uma geração e comprovou o enorme talento de Spielberg de uma vez por todas é uma espetacular mistura de suspense, humor, drama e ficção que capta com competência toda a magia que o cinema pode proporcionar, deixando suas belíssimas imagens registradas na mente de cada espectador para sempre.

Um ser de outro planeta se perde na Terra e é protegido por um garoto de dez anos, filho de pais separados, que fará de tudo para evitar que ele seja transformado em cobaia. Enquanto tentam fazer contato para que o extraterrestre volte ao seu planeta, uma forte amizade surge entre os dois.

A figura encantadora do extraterrestre simboliza o amigo imaginário, tão comum na infância, ainda mais em crianças solitárias e carentes. Elliot (Henry Thomas) é uma delas. A separação recente de seus pais é motivo de forte (e óbvio) sofrimento para o garoto e seus outros dois irmãos, Michael (Robert MacNaughton) e Gertie (Drew Barrymore, ainda uma pequena garota). O competente roteiro de Melissa Mathison (que criou ainda a frase “ET, phone, home” que marcou o cinema para sempre) aborda este tema de forma muito sensível, como podemos observar na primeira discussão da família na mesa após o primeiro encontro entre o garoto e o ET (“Papai ia acreditar em mim”). A forte frase do menino provoca o choro de sua mãe (Mary, interpretada por Dee Wallace-Stone) e escancara logo no inicio do filme o problema que aquela família enfrenta. “Ele odeia o México” diz Mary em prantos, mostrando a falta que sente do marido separado (e pai ausente). Em outro momento do longa, Michael e Elliot encontram a camisa do pai e lembram de quando iam aos jogos e ao cinema com ele, reforçando o quanto aquele pai faz falta pra eles.

Sabendo da identificação que aquela situação causaria na maioria das crianças e jovens da época (os anos oitenta viveram um boom de separações de casais, inédito até então), Spielberg mantém a câmera na maior parte do tempo no campo de visão das crianças (a um metro do chão, na altura da cintura dos adultos), o que facilita ainda mais a empatia do público infantil com o filme. Observe, por exemplo, como nunca vemos o rosto dos vários homens que andam pela floresta com lanternas, assim como o das pessoas que rondam a casa de Elliot. Mas o talento de Spielberg não pára por aí. O diretor abusa de lindos planos, como na cena em que Elliot e ET fazem o primeiro contato, com a casa do lado esquerdo e o quarto do lado direito do plano sendo cobertos por uma névoa. Podemos citar também o travelling inicial, descendo das estrelas até chegar à nave espacial, mudando lentamente o tom do céu de preto pra azul, além do plano da cidade toda iluminada do alto do monte onde a nave está aterrissada. Spielberg aproveita ainda para ilustrar o valor da verdadeira amizade, mesmo que esta seja entre um humano e um não humano (neste caso um extraterrestre, que poderia também ser um animal de estimação ou um amigo imaginário). O próprio formato do ET colabora e muito para a identificação com o público. Os olhos grandes e azuis e o coração luminoso transmitem sentimentos e o aproximam demais do espectador. Além disso, quando ET imita os gestos de Elliot, os dois estão criando uma conexão que tornará a amizade ainda mais forte, num momento que lembra a cena de “Tubarão” em que pai e filho fazem a mesma coisa. Elliot e ET sentem sono, fome, se assustam, ficam embriagados e adoecem juntos, o que dá sentido à engraçada cena em que ET vê um beijo na televisão e Elliot beija sua colega na escola. O filme conta ainda com uma flor, que é um inteligente artifício utilizado para sinalizar o estado de saúde (e talvez emocional) do extraterrestre. Com tudo isto, é impossível não se identificar com a amizade entre ele e as crianças (Elliot em especial).

Finalmente, Spielberg se aproveitou também do extraordinário desempenho dos atores mirins para alcançar sucesso absoluto, dando liberdade total para que eles desempenhassem seus papéis da forma mais livre possível, resultando em atuações maravilhosas e muito realistas. Henry Thomas está muito bem como Elliot, o melhor amigo de ET. Repare sua ótima atuação quando está na cama fingindo ter febre para ficar em casa com o amigo extraterrestre. No momento em que sua mãe pega o edredom, ele pensa que o ET está ali e mostra sua aflição de forma muito convincente. Quando ela sai do quarto bagunçado pela chegada do extraterrestre, ele ergue as mãos e resmunga, demonstrando seu alívio pela saída da mãe e, ao mesmo tempo, sua irritação pela demora dela pra sair de lá. Drew Barrymore está encantadora como a pequena Gertie. Suas falas são sinceras e inocentes, como é de se esperar vindo de uma criança tão jovem. Quando o ET fala pela primeira vez, Gertie quer mostrar para sua mãe, mas ela ignora a filha e sequer nota a presença dele na cozinha. Robert MacNaughton completa o elenco mirim com competência, interpretando Michael. Entre os adultos, destaque para Dee Wallace-Stone, vivendo a sofrida mãe das crianças e para Peter Coyote, como Keys, o adulto que compreende o drama de Elliot. Todos os demais parecem não compreender a importância daquele ser fascinante na vida daquelas crianças (observe o olhar encantado dos três irmãos para o ET no quarto, em um belo plano de Spielberg). Pelo menos esta é a visão de Elliot, que acredita seriamente que “eles vão matá-lo”, aumentando a empatia com o público infantil ao mostrar a incapacidade dos adultos em compreender o universo da infância, mesmo que todos já tenham pertencido a ele um dia. A tensa seqüência em que os homens invadem a casa de Elliot para capturar ET também reflete esta intolerância.

O trabalho técnico do filme é igualmente espetacular. A começar pela excelente direção de fotografia de Allen Daviau, que destaca a cor azul em diversos momentos do longa, numa alusão ao espaço sideral, a casa do ET. Os efeitos visuais (mérito da Industrial Light & Magic) são sensacionais. Destacam-se os objetos voando em direção ao ET, as bolinhas representando os planetas girando em torno do sol e as duas cenas das bicicletas voadoras. O ritmo perfeito do longa, que equilibra suspense, humor, drama e ficção, é mérito também da excelente montagem de Carol Littleton. Os efeitos sonoros dão vida a cada movimento de ET (repare sua respiração), num trabalho absolutamente perfeito. E claro, o maior destaque vai para a sensacional trilha sonora de John Williams. Linda, encantadora, mágica e inesquecível (às vezes não existem adjetivos suficientes), conta com uma música tema poderosa e ainda pontua toda a trama com variações dela, além de utilizar outras composições magníficas.

Como não poderia deixar de ser em um filme desta qualidade, ET conta ainda com cenas absolutamente inesquecíveis. De que outra forma poderíamos descrever a belíssima seqüência em que Elliot e ET voam pela primeira vez de bicicleta, passando em frente à lua? É um casamento perfeito entre direção, efeitos visuais e trilha sonora, criando uma cena mágica. A cena da “morte” do ET e sua volta à vida é linda e extremamente tocante. Já a ação fica por conta da fuga de Michael, Elliot e ET no furgão e, posteriormente, a fuga de bicicleta com todos seus amigos. E finalmente, a segunda seqüência em que as bicicletas voam nos brinda com outro momento mágico e inesquecível. Quando vemos o close nos olhos de ET, já sabemos o que vai acontecer devido à primeira cena e a satisfação no espectador é inevitável.

É difícil conter as lágrimas com o comovente final de “E.T., O Extraterrestre”. A amizade do garoto com o extraterrestre é sincera, pura e absolutamente marcante. Este é um filme que embalou os sonhos de uma geração, e é interessante notar que não envelheceu, se tornando ainda melhor com o passar do tempo. Spielberg contou com um elenco infantil espetacular, uma equipe talentosa e com sua enorme criatividade para criar uma obra que fala para todas as idades de uma forma singular e emocionante.

Texto publicado em 15 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

LUZES DA CIDADE (1931)

(City Lights)

 

Filmes em Geral #19

Filmes Comentados #13 (Comentários transformados em crítica em 21 de Outubro de 2010)

Dirigido por Charles Chaplin.

Elenco: Charles Chaplin, Virginia Cherrill, Florence Lee, Harry Myers, Hank Mann, T.S. Alexander, Harry Ayers e Al Ernest Garcia.

Roteiro: Charles Chaplin.

Produção: Charles Chaplin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

É mais que reconhecida a habilidade de Charles Chaplin para misturar humor e drama, provocando a emoção genuína no espectador sem apelar para o melodrama ou narrativas formulaicas. Poucas vezes, porém, esta habilidade funcionou tão perfeitamente como neste lindo “Luzes da Cidade”, que funciona como uma flechada certeira no coração daqueles que verdadeiramente amam a sétima arte. E apesar de entender os riscos de uma afirmação deste tipo, não posso deixar de registrar que este é, para mim, o mais perfeito casamento entre humor e sentimentalismo da carreira deste genial cineasta.

A paixão de um vagabundo (Chaplin) por uma vendedora de flores cega (Virginia Cherrill), que acidentalmente acredita que ele é um milionário, o motiva a tentar conseguir o dinheiro necessário para realizar a cirurgia que poderia lhe restaurar a visão. A oportunidade de ouro aparece quando o vagabundo faz amizade com um homem milionário (Harry Myers), que tentava o suicídio após ser abandonado pela mulher.

Chaplin abriu mão do diálogo, já plenamente utilizado nos filmes da época, para fazer um clássico do cinema mudo de primeira qualidade neste lindo “Luzes da Cidade”, dirigido e interpretado por ele próprio, que, além disso, ainda assina o roteiro, a trilha sonora e a montagem. Sempre inteligente, ele decidiu não utilizar diálogos, pois sabia que isto significaria a destruição da imagem de seu icônico personagem “vagabundo”, claramente identificado com o cinema mudo e que, justamente por não falar, podia ser entendido pelo público de todas as idades e em qualquer idioma. Mas embora não tenha utilizado diálogos, o longa utiliza o som diegético de forma brilhante, sempre trabalhando a favor da narrativa e provocando o riso, como quando podemos ouvir o disparo das armas, o apito que o vagabundo engole e o som do gongo durante a luta. Escrito pelo próprio Chaplin, “Luzes da Cidade” balanceia a comédia e o drama corretamente, mantendo o espectador sempre ligado na trama, graças também a excepcional condução de Chaplin, tanto na direção quanto na montagem, mantendo controle absoluto sobre a narrativa e adotando o ritmo correto em cada cena. E até mesmo o hoje ultrapassado método de passagem do tempo através das folhas de calendário voando soava charmoso e elegante na época. Mais uma vez, o roteiro aborda temas recorrentes em sua filmografia, como os problemas com os guardas e a fome, ilustrada quando o vagabundo é expulso da casa do homem rico e sai pegando as frutas da mesa. Vale destacar também a inteligente fuga do vagabundo da casa do homem rico com os mil dólares, perfeitamente orgânica e aceitável. Tecnicamente, vale destacar ainda a linda trilha sonora, composta pelo próprio Chaplin, e a fotografia de Mark Marklatt, Gordon Pollock e Roland Totheroh, que contrasta bem o sombrio mundo do triste homem rico com os alegres momentos vividos pelo vagabundo ao lado da florista, quase sempre iluminados pela luz do dia. Finalmente, vale observar que durante um intervalo na luta, o sonho do vagabundo com a garota cega revela a simpatia de Chaplin pelos efeitos visuais, sempre utilizados de maneira orgânica, algo já demonstrado anteriormente em outros filmes como “O Circo” e “O Garoto”.

Como ator, Charles Chaplin dispensa comentários. Sensacional intérprete e dançarino, ele é sempre capaz de criar cenas absurdamente engraçadas, ainda que estejam inseridas numa história cativante e bela. Seu talento consegue arrancar gargalhadas somente através de suas expressões corporais, como podemos notar nas inúmeras e excelentes gags visuais do longa, em especial aquelas vividas pelo vagabundo e o excêntrico milionário, interpretado por Harry Myers. Harry Myers, aliás, que também tem boa atuação, alternando da seriedade quando está sóbrio para a alegria desmedida quando está bêbado, como podemos observar em sua engraçada reação quando vê o vagabundo deitado em sua cama, olhando para o céu como quem pensa “Como isso foi acontecer?”. Vale destacar também a maravilhosa atuação de Virginia Cherrill como a garota cega por quem o vagabundo se apaixona. Seu olhar “perdido no horizonte distante” e a forma como ela tateia os objetos tornam a cegueira da personagem em algo muito verossímil. Finalmente, já com a visão restaurada, Cherrill emociona ao lado de Carlitos no belíssimo final do filme.

Dentre todas as ótimas cenas engraçadas do filme, destaca-se a sensacional luta de boxe, repleta de divertidas gags visuais. Trata-se de uma verdadeira aula de cinema, onde a imagem e o som diegético do gongo são suficientes para nos divertir. Além disso, toda a preparação da cena merece destaque, com o vagabundo negociando o prêmio com seu adversário, a fuga deste antes da luta, o pé de coelho e a volta do homem supersticioso desmaiado e a postura de seu novo adversário, claramente mais forte e invocado que o anterior. Chaplin aproveita a situação para nos divertir, através de suas engraçadas reações e de seu criativo método de lutar, utilizando o juiz como escudo e o gongo a seu favor. Mas ainda que seja extremamente divertida, a cena do boxe não pode ser considerada a melhor do longa, simplesmente por causa da existência de outra cena memorável, que acontece no momento sublime em que a garota cega, após a cirurgia, se diverte com as trapalhadas do vagabundo e, através do tato, reconhece emocionada quem ele é. Nunca o fraco trocadilho “o amor é cego” funcionou tão bem. Este arrebatador final inspirou comentários em todo o mundo, como o do crítico de cinema James Agee da revista “Life”, que afirmou ser esta “a melhor atuação já registrada em celulóide”. Um exagero, mas que dá a exata noção do impacto da cena.

Neste lindo “Luzes da Cidade”, o vagabundo tão engraçado e mágico de Charles Chaplin ensaiava sua despedida. Certamente um dos mais belos filmes da carreira do genial inglês, se destaca pela narrativa coesa, pelas divertidas seqüências e, principalmente, pela bela história de amor que narra, conquistando com simplicidade e eficiência o espectador.

PS: Comentários divulgados em 14 de Dezembro de 2009 e transformados em crítica em 21 de Outubro de 2010.

Texto atualizado em 21 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

BLADE RUNNER – O CAÇADOR DE ANDRÓIDES (1982)

(Blade Runner)

 

Videoteca do Beto #25

Dirigido por Ridley Scott.

Elenco: Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Edward James Olmos, Daryl Hannah, William Sanderson, Brion James, Joe Turkell, Joanna Cassidy, James Hong e Morgan Paull.

Roteiro: Hampton Francher e David Webb Peoples, baseado em livro de Philip K. Dirk.

Produção: Michael Deeley.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

De acordo com “Blade Runner – O Caçador de Andróides”, belíssima ficção-científica dirigida por Ridley Scott, o futuro do planeta é sombrio e assustador. O crescimento descontrolado das grandes metrópoles, aliado à globalização e a destruição do meio ambiente, provocou profundas alterações climáticas e sociais, transformando o planeta em um local frio, deteriorado e muito complicado de se viver. Este sombrio ambiente serve como pano de fundo para uma trama que levanta questões muito profundas a respeito da existência humana, gerando discussões filosóficas e provocando até mesmo estudos baseados no longa. Além disso, o filme desenvolve personagens complexos e fascinantes. E todos eles buscam respostas que não serão encontradas facilmente.

O ano é 2019. Uma grande corporação desenvolveu um robô, conhecido como replicante, que é idêntico ao ser humano em sua aparência e inteligência, porém mais forte e ágil. Utilizados como escravos na exploração de outros planetas, um grupo destes replicantes se rebela. O problema é que o motim provoca a reação imediata das autoridades terrestres, que proíbem a presença de replicantes no planeta, sob pena de morte. É quando seis replicantes chegam a Terra após render uma tripulação e o ex-caçador de andróides Deckard (Harrison Ford) é chamado para matá-los, numa operação que não é conhecida como execução, e sim remoção.

Como de costume nos filmes dirigidos por Scott, o visual deslumbrante do mundo futurista decadente se destaca logo no inicio do longa, graças ao excelente trabalho de direção de arte de David L. Snyder. Tudo é fascinante. Os carros sujos, a cidade poluída repleta de prédios enormes que se espremem em pequenos espaços, o contraste entre os luxuosos apartamentos dos ricos no alto dos prédios e a podridão da ralé que vive no nível do chão, o resultado da globalização, com uma verdadeira torre de babel circulando neste submundo repleto de pessoas de diversas nacionalidades, o clima quase sempre chuvoso, nublado e sombrio, resultado das mudanças climáticas provocadas pelo crescimento exacerbado do capitalismo, carros voadores, um festival de luzes e muito neon piscando com propagandas em toda parte. Tudo está lá, diante de nossos olhos, com um realismo incrível. A fotografia azulada e escura (direção de Jordan Cronenweth), que remete aos filmes noir, esconde os personagens nas sombras e ao mesmo tempo cria um forte contraste com os raios de luz (ou luzes piscando freneticamente) que entram nos ambientes, criando um visual sombrio e triste, refletindo a vida destas pessoas neste mundo frio e cruel. Claramente, este é o resultado de anos e anos de crescimento sem controle, sem preocupação ambiental e sem sustentabilidade, que provocou a degradação total do planeta e das relações humanas. A trilha sonora eletrônica de Vangelis completa a parte técnica casando perfeitamente como o ambiente do filme (e soando bastante ousada para a época). Os carros voadores dos policiais raramente arriscam entrar no violento submundo, onde as pessoas vivem precariamente. O perigo que os replicantes (andróides) representam é bem resumido na frase de um policial “Ele está respirando bem agora, desde que não desliguem os aparelhos”, se referindo ao último caçador de andróides que fez o teste com um deles. O teste, apresentado logo no inicio do filme, se resume a uma série de perguntas feitas de forma a identificar um replicante, já que fisicamente eles são idênticos ao seres humanos. Mentalmente, porém, são diferentes, já que não têm passado, e através das perguntas (e da dilatação dos olhos quando as escutam), os caçadores conseguem identificá-los. Aliás, a criatividade da tecnologia empregada em “Blade Runner” também é fascinante, como podemos notar, por exemplo, na máquina que Deckard utiliza para analisar uma fotografia.

Ridley Scott acerta a mão também no ritmo da narrativa. Lento e reflexivo, “Blade Runner” não é um simples filme de perseguição. É muito mais que isso. É claro que existem boas seqüências de ação. Auxiliado pela boa montagem de Marsha Nakashima, o diretor cria uma seqüência empolgante durante a perseguição de Zhora, por exemplo. Os cortes ágeis e precisos aumentam a adrenalina da cena sem torná-la confusa. Por outro lado, quando Deckard finalmente alcança Zhora e atira, ele utiliza a câmera lenta, mostrando em detalhes o impacto daquele ataque e a reação angustiada de Deckard, que sente pelo que fez, mas cumpre o seu dever. A trilha sonora triste marca o momento. A empolgante seqüência final entre Roy e Deckard também é sensacional, repleta de tensão e realismo. Mas o principal acerto de Scott, que conta com o criativo e excepcional roteiro de Hampton Francher e David Webb Peoples (baseado em livro de Philip K. Dirk), é a ambigüidade de cada um dos personagens e as inúmeras reflexões que provocam no espectador.

Todos os personagens em “Blade Runner” estão em busca de algo. Harrison Ford encabeça o elenco, encarnando muito bem o caçador de andróides Deckard que busca exterminar os replicantes da Terra, ao mesmo tempo em que busca também sua própria identidade. Ford acerta ao balancear a frieza e determinação com que Deckard parte para cumprir sua missão com a emoção contida, porém sensível, que sente quando está com a aflita Rachel, interpretada com competência por Sean Young. As dúvidas sobre sua própria origem e a angustia após descobrir a verdade são muito bem retratadas pela atriz. Quando Rachel demonstra ter sentimentos por Deckard, o espectador provavelmente se pergunta “E agora?”, já que ele descobre gostar dela praticamente ao mesmo tempo em que é avisado que precisa matá-la. “Eu sou o trabalho” diz ela, ciente da missão do parceiro. Deckard, por sua vez, sabe o que precisa fazer, mas não terá coragem para isso. Rutger Hauer está sensacional como o frio e assustador Roy, que busca desesperadamente encontrar uma forma de prolongar sua existência, já programada anteriormente para durar apenas quatro anos. Por outro lado, o ambíguo personagem demonstra “humanidade” no terceiro ato, quando salva Deckard e mostra seus sentimentos mais puros e sinceros, além de levantar questões profundas sobre a existência de cada ser no universo. Seu lado emocional fica ainda mais evidente quando sua amada Pris (Daryl Hannah) é assassinada por Deckard, provocando seu emotivo beijo de despedida. A tensa seqüência em que Roy mata Tyrell (Joe Turkell) é de um simbolismo tremendo. A perversidade da inteligência humana é colocada em cheque. Até mesmo a coruja é criada artificialmente na casa dos Tyrell. Insatisfeita com sua existência sem sentido, a criatura mata o criador. Afinal de contas, que sentido tem uma vida programada apenas para ser escravizada e com tão pouco tempo de existência? Em seguida, Roy aparece iluminado em um plano poderoso que reflete sua satisfação.

Quando descobrimos que as memórias de Rachel (brincadeira de médico, as aranhas) são implantadas, as reflexões que o filme sugere se tornam mais evidentes. As memórias dela, na realidade, são da sobrinha de Tyrell, o gênio que criou os replicantes. Tyrell limitou a existência destes seres em apenas quatro anos ao prever que poderiam desenvolver sentimentos próprios e o choro de Rachel ao descobrir toda a verdade comprova esta teoria. E é curioso pensar o que aquele ser, humano ou não, estaria sentindo naquele momento, nos levando a questionar até que ponto é justo o ser humano criar outro ser desta forma. Deckard, ao descobrir que seria incapaz de eliminar Rachel, decide fugir com ela, mesmo sabendo que a moça não sobreviveria por muito tempo. “É uma pena que ela não viverá, mas quem vive”, é a frase final de Gaff (Edward James Olmos), que remete a discussão central do filme, sobre a natureza finita de nossa existência.

Então chegamos ao dilema de “Blade Runner”, enriquecido pela bela discussão filosófica que o longa propõe. Seria Deckard é um replicante? Durante toda a narrativa são espalhadas dicas sobre a origem dele, mas de uma forma tão sutil que provavelmente a maioria dos espectadores não consegue notar. Primeiro, o texto que abre o longa diz que seis replicantes estão soltos na terra (três homens e três mulheres). Os quatro primeiros são logo identificados, mas o quinto só é revelado quando descobrimos que Rachel é uma replicante. Acontece que ela não sabe disso, pois foi utilizada como cobaia em experimentos de implante de memória e pensa ter tido uma infância. Sendo assim, não podemos descartar a hipótese de que Deckard também tenha memórias implantadas em sua mente. Além disso, quem garante que o sexto replicante realmente teria sido queimado quando invadiu a empresa Tyrell? É provável que seja apenas uma estória inventada pela policia para não levantar suspeita sobre a origem replicante de Deckard. Não podemos negar que é extremamente inteligente por parte da policia utilizar um replicante para caçar outros replicantes, já que ele se iguala em força e agilidade com os demais. Mas porque os policiais deixariam Deckard escapar? Ora, Gaff, o policial que faz origamis, deixa um unicórnio para Deckard momentos antes de sua fuga com Rachel. Como Gaff poderia saber desta passagem remota da vida dele, lembrada apenas em sonhos por Deckard? Este é o claro sinal de que ele pode ser um replicante e os policiais sabiam disso. Como podemos perceber, o filme levanta possibilidades, mas não as confirma. É o espectador quem deve buscar as respostas, o que é genial. Mas “Blade Runner” vai além, se aprofundando também em questões filosóficas sobre a existência humana. O que é ser um humano? De onde viemos e para onde vamos? A marcante frase de Roy no belíssimo diálogo que tem com Deckard (“Eu vi coisas que ninguém acreditaria. Todos esses momentos ficarão perdidos no tempo, como lágrimas na chuva”) resume bem o dilema de nossa existência. Por mais que existam meios de registrar fatos importantes (livros, vídeos, fotografias), muitas passagens importantes da vida de cada ser humano serão simplesmente apagadas do universo quando este deixar de existir.

Utilizando um mundo futurista incrivelmente sombrio que é apontado claramente como resultado das atitudes tomadas no passado pela humanidade, “Blade Runner – O Caçador de Andróides” levanta ainda muitas questões interessantes e profundas sobre a natureza da existência humana. O que acontecerá com cada um de nós quando a escuridão da morte chegar? De onde viemos? Para onde vamos? O que fizemos aqui será simplesmente apagado, “como lagrimas na chuva”? As respostas serão encontradas por cada espectador, de sua própria maneira. E esta é a beleza deste grandioso clássico, que marcou a ficção-científica e o cinema para sempre.

Texto publicado em 13 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

Enquanto isso, na Vila Olímpia…

Neste momento estou na Vila Olímpia, mais precisamente no bar “Seo Gomes”, junto com o “Brasil Inteligente” debatendo qual a finalidade de criar um blog onde opiniões contrárias à sua não podem ser divulgadas (ou seja, são sumariamente apagadas). Talvez o Reinaldo Azevedo possa esclarecer. Aliás, Reinaldo, se quiser tomar uma gelada conosco, é só aparecer…

Um abraço.

Texto publicado em 10 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

Áudio do Curso de Linguagem e crítica cinematográfica do crítico Pablo Villaça

Em 03 de Julho de 2009 divulguei aqui no blog o curso de Teoria, Linguagem e Crítica cinematográfica do crítico de cinema Pablo Villaça. Fiz o curso em Maio de 2009 e recomendo para todos aqueles que têm interesse em conhecer mais sobre a sétima arte e passar a ter uma nova visão sobre cinema. Recentemente, o Pablo publicou em seu blog dois links para o áudio com trechos do curso (justamente da edição que participei) em seu twitter. Tomo a liberdade de fazer o mesmo agora. Para quem tiver interesse, é um bom aperitivo. Observem a qualidade da aula, que além de ter bastante conteúdo, é também bem humorada:

– Para ouvir diretamente no twitter o áudio sobre a diferença entre assistir um filme no cinema e em casa clique aqui.

– Para ouvir diretamente no twitter o áudio sobre roteiro (dica e recompensa) clique aqui.

Não sei se o Pablo vai fazer novas edições do curso em São Paulo no próximo ano. Mas se fizer, fica aqui uma pequena degustação para aqueles que tiverem interesse. Vale lembrar que não tenho nenhuma ligação com o Cinema em Cena. A divulgação se deve pura e simplesmente ao fato de que gostei muito do curso e realmente recomendo para todos os amantes do cinema.

Um abraço.

Texto publicado em 09 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA (1981)

(Raiders Of The Lost Ark) 

 

Videoteca do Beto #24

Dirigido por Steven Spielberg.

Elenco: Harrison Ford, Karen Allen, Paul Freeman, Ronald Lacey, John Rhys-Davies, Alfred Molina, Denholm Elliott, Wolf Kahler, Don Fellows, William Hootkins, Fred Sorenson e Anthony Higgins. 

Roteiro: Lawrence Kasdan, baseado em estória de George Lucas e Philip Kaufman. 

Produção: Frank Marshall. 

 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O talentoso diretor Steven Spielberg tinha o sonho de dirigir um filme da série James Bond. Quando decidiu aceitar a oferta de seu amigo George Lucas, que estava se dedicando a outro projeto (nada mais nada menos que “Guerra nas Estrelas”), Spielberg realizou seu sonho e esta maravilhosa aventura chamada “Os Caçadores da Arca Perdida” ganhou vida nas telas, dando início a saga de um dos maiores heróis da história do cinema: Indiana Jones.

Tudo tem início quando o arqueólogo Indiana Jones (Harrison Ford) é contratado para encontrar a Arca da Aliança, que segundo as escrituras sagradas do cristianismo, continha os dez mandamentos que Moisés trouxe do Monte Horeb. Diz a lenda que quem possuir a arca será invencível, e por isso, Indiana terá que evitar que ela caia nas mãos do temível exército alemão, liderado por Adolf Hitler.

O grande mérito da aproximação que o herói Indiana Jones consegue criar com o público reside no fato de que ele parece sempre vulnerável. E isto ocorre porque Indiana é alguém de carne e osso, que comete erros e acertos, e não um super-herói que acerta em todas as decisões e jamais dá a sensação de que corre algum risco. Indiana, por muitas vezes, toma decisões erradas, que pioram ainda mais as coisas, como podemos perceber logo no início do filme, quando ao voltar de um local sagrado onde consegue um artefato indígena, ele passa o artefato para seu colega que se encontra do outro lado de um buraco onde só é possível passar com ajuda, somente para que este o abandone à beira deste abismo. É claro que além desta vulnerabilidade, a excelente atuação de Harrison Ford também é diretamente responsável pelo sucesso do icônico personagem. Sarcástico, ele encarna o arqueólogo de forma tão incrível que mal podemos imaginar outro ator na pele dele. Lembrando a dupla identidade comum em outros heróis (Superman, por exemplo), Indiana aparece como um professor sério e tímido na universidade, mas se transforma completamente quando está na pele do arqueólogo aventureiro. Toda a concepção do personagem é ótima. O chapéu e o chicote se tornaram marcas tão fortes que hoje em dia, qualquer pessoa, mesmo que não tenha visto o filme, sabe de quem se trata somente ao ver a sombra deles. Indiana é um herói que evita, a qualquer custo, trazer problemas para si, como fica claro na engraçada cena em que mata um especialista em espada com um tiro. Ele sempre opta por resolver a situação da forma mais simples possível. Egoísta, Indiana sempre vai tentar salvar sua pele, mas como não é infalível (e sabemos disso), muitas vezes toma decisões erradas e a situação piora ainda mais. E o fato de não sabermos se Indiana vai tomar a decisão correta torna ainda mais plausível um possível fracasso dele, o que aumenta a carga de tensão nas muitas cenas em que corre perigo.

O bom roteiro de Lawrence Kasdan é repleto de dicas e recompensas. Diversas situações ou objetos que aparecem terão reflexo no restante da narrativa, dando uma sensação de prazer ao espectador mais atento, como por exemplo, a mão queimada pelo artefato que serve de cópia para os alemães ou a capacidade de Marion (Karen Allen, em boa atuação) de tomar bebidas alcoólicas. Além disso, o roteiro espalha pelo filme diversos momentos bem humorados, o que, desde que bem realizado, é sempre bem vindo em filmes de ação. Observe, por exemplo, a cena em que Sallah (John Rhys-Davies, muito bem como o fiel amigo de Indiana) olha para o poço das almas e vê algo se mexendo no escuro. Quando a tocha cai e ele percebe que são cobras, dá um grito de susto e em seguida se desculpa com Indiana (“Sorry Indy!”), pois sabe que o amigo as detesta. Outro engraçado momento é a fuga de Indiana da América do Sul, sendo perseguido por índios ferozes e gritando para o amigo ligar o motor do avião.

Outro grande destaque da produção são os excelentes efeitos visuais, conseguidos através de movimentos mecânicos, em uma época onde os efeitos de computadores ainda engatinhavam. Por isso, as trucagens utilizadas para conseguir estes efeitos soam bastante reais, exatamente porque eram feitas com dublês e em estúdio. A enorme carga de ação do longa garante seqüências extremamente interessantes, como por exemplo, a empolgante cena da perseguição no caminhão. Fica evidente ali que os movimentos são reais. Sabemos que o ator (ou o dublê) realmente passou por baixo do caminhão, o que aumenta nossa aflição na cena. Além disso, o filme conta ainda com efeitos absolutamente inovadores na época, como o rosto derretendo (mérito principalmente da maquiagem) e as luzes saindo da arca. A maravilhosa trilha sonora de John Williams é destas trilhas que se tornaram tão famosas que até mesmo quem não viu o filme a reconhece.

Completando o bom trabalho técnico, a direção de fotografia de Douglas Slocombe destaca cores opacas, refletindo bem o local árido que é o deserto no Cairo, a excelente direção de arte de Leslie Dilley cria cenários absolutamente encantadores como o poço das almas, os belíssimos figurinos de Deborah Nadoolman dão um visual perfeitamente coerente com o ambiente (além de colaborar sensivelmente para o já citado visual de Indiana), e finalmente, a montagem de Michael Kahn ajuda a manter o ritmo ágil e empolgante da narrativa, além de criar duas seqüências muito famosas durante toda a saga de Indiana (o logo da Paramount se transformando no primeiro plano do longa e a linha vermelha marcando no mapa a trajetória das viagens do herói).

E finalmente, é claro que para que tudo isto funcionasse de forma tão perfeita seria necessária uma direção competente. E Spielberg merece todos os créditos por isso. Sua direção é segura, conduzindo a narrativa de forma coerente e extraindo grandes atuações do elenco. O diretor cria ainda planos belíssimos e cenas inesquecíveis, como Indiana fugindo da bola gigante, a fuga do poço das almas, a perseguição no caminhão e a abertura da arca. Não podemos dizer que “Os Caçadores da Arca Perdida” seja um filme perfeito. Os defeitos existem, como uma cena pouco verossímil em que Indiana viaja em cima de um submarino por muitos dias, mas a fantasia que cria e a forma que mexe com a imaginação compensam qualquer erro.

A deliciosa aventura “Os Caçadores da Arca Perdida” consegue misturar ação, suspense e bom humor, alcançando um resultado maravilhoso. É inevitável nossa identificação com o carismático personagem principal e, por isso, embarcamos juntos com ele nesta viagem maravilhosa através da imaginação. A grande direção de Spielberg e a ótima atuação de Harrison Ford criaram, junto com toda a equipe, um herói clássico, muito próximo de todos nós, e exatamente por isso, inesquecível.

 

Texto publicado em 08 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira