FRENESI (1972)

(Frenzy)

 

Filmes em Geral #66

Filmes Comentados #8 (Comentários transformados em crítica em 16 de Junho de 2011)

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Jon Finch, Barbara Leigh-Hunt, Barry Foster, Jean Marsh, Anna Massey, Alec McCowen, Vivien Merchant e Billie Whitelaw.

Roteiro: Anthony Shaffer.

Produção: Alfred Hitchcock.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após tropeçar nos thrillers sobre a guerra fria “Cortina Rasgada” e “Topázio”, Alfred Hitchcock recupera a boa forma neste “Frenesi”, que traz de volta algumas das melhores características do diretor. Com uma narrativa envolvente, cenas de impacto e uma boa dose de humor negro, o mestre do suspense voltava a presentear os cinéfilos com um grande filme.

Um assassino em série começa a aterrorizar a cidade de Londres, atacando mulheres com uma gravata. Com base nas declarações de uma testemunha após o assassinato da Sra. Brenda Margaret Blaney (Barbara Leigh-Hunt), a polícia passa a desconfiar de seu ex-marido Richard Blaney (Jon Finch), que tenta provar sua inocência, com a ajuda da namorada Barbara Milligan (Anna Massey) e do amigo Robert Rusk (Barry Foster).

Desde os primeiros momentos de “Frenesi”, é possível notar que Alfred Hitchcock estava de volta com força total, quando um belo travelling pelo rio Tamisa nos leva ao local onde um grupo de pessoas está amontoado, escutando uma declaração dos governantes, e é interrompido pelo surgimento do corpo de uma mulher morta na margem do rio, nua e com uma gravata em seu pescoço, jogando o espectador pra dentro da trama imediatamente. Um corte seco sai da gravata presa à vítima e nos leva ao personagem central, Blaney, que, ironicamente, amarra a sua gravata tranqüilamente antes de sair para o trabalho. Somente com este início, o espectador já foi fisgado. Queremos saber quem é o assassino e já temos um suspeito. A Londres que surge em seguida, suja e sem vida, ressalta o trabalho de direção de arte de Robert Laing e cria uma atmosfera crua e realista, bastante coerente com a narrativa, e reforçada pela fotografia de Gil Taylor, que emprega cores opacas, conferindo um visual mais sombrio na segunda metade do longa. Quanto mais nos aproximamos do final, mais tensa a trama se torna, algo refletido também na trilha sonora de Ron Goodwin.

Após uma fase irregular, Alfred Hitchcock volta a acertar a mão nas cenas mais importantes, criando momentos de puro suspense. A começar pelo tenso diálogo que leva à morte da Sra. Blaney pelas mãos de Rusk, numa cena sufocante, acentuada pelo uso do close e pela trilha sonora, que tornam a cena ainda mais impactante (repare como o diretor destaca o broche com a letra “R”, que terá importância em outro momento da trama). Além disso, Hitchcock muda o foco principal da narrativa ao revelar o assassino com apenas 34 minutos de filme. Agora não queremos mais saber quem é o assassino, e sim como a policia vai chegar até ele, pois todos os fatos levam à outra pessoa. E a razão que leva a todos a desconfiarem de outra pessoa surge num momento genial do diretor, quando a câmera acompanha a saída de Rusk do prédio e, no mesmo travelling, mostra a chegada de Blaney. Momentos depois, vemos a saída dele, após tentar sem sucesso falar com a esposa, e a chegada da secretária, que o vê saindo. A câmera ainda permanece no local por alguns instantes, até que a secretária veja Brenda morta e grite, assustando as pessoas que passavam na rua.

Pra piorar a situação, os claros sinais da agressividade de Blaney nos levam a crer que ele é o assassino no princípio da narrativa, o que justifica a desconfiança geral após o assassinato de sua ex-esposa. Por exemplo, quando ele ouve uma conversa sobre o assassino num bar, sai repentinamente do local, aparentemente irritado. Além disso, no jantar com Brenda, ele quebra um copo com a mão quando fica com raiva, expondo seu descontrole. Escrito por Anthony Shaffer, o roteiro trabalha minuciosamente nos detalhes que incriminam Blaney, fazendo com que até mesmo o dinheiro que ele recebeu seja utilizado contra ele. Novamente, o tema favorito de Hitchcock é o centro da narrativa (homem inocente acusado de um crime que não cometeu), deixando claro que nem sempre os fatos apontam para a verdade. O diretor ainda utiliza outro artifício costumeiro em suas obras, fazendo a platéia saber mais que todos os personagens ao revelar o assassino.

Suspeito principal do crime, Blaney é um personagem interessante, prejudicado pela atuação irregular de Jon Finch, que não consegue criar empatia com o espectador, dificultando nosso envolvimento com seu drama. Sua falta de simpatia é gritante. Mesmo assim, nos momentos que exigem uma atuação mais enérgica ele vai bem, como na cena em que é preso, gritando e expondo sua revolta. Já Barry Foster se sai bem como Rusk, mostrando uma dupla personalidade coerente com o personagem. Com os amigos, ele é calmo e amável, mas quando vê uma mulher que lhe interessa, se transforma num assassino cruel e implacável – a tranqüilidade de Rusk após assassinar Barbara demonstra que se trata mesmo de um psicopata. Além disso, ele é o responsável pela prisão de Blaney, numa traição que desperta o amigo para a realidade e o faz descobrir que Rusk é o assassino.

O bom humor fica por conta dos “criativos” pratos servidos pela Sra. Oxford (Vivien Merchant) ao seu marido, o Inspetor-Chefe Oxford (Alec McCowen), que, exatamente por isso, surge anteriormente comendo muito no café da manhã. Os dois ainda vivem um momento interessante, quando conversam sobre o assassinato de Barbara, dizendo que Rusk precisou quebrar os dedos da vítima enquanto a Sra. Oxford quebra o pão, fazendo um barulho parecido. Fechando o elenco, Anna Massey vive a simpática Barbara Milligan, que acredita em Blaney e tenta ajudá-lo, ao contrário da esposa de seu amigo Johnny Porter (Clive Swift), a direta Hetty Porter (Billie Whitelaw), que não mede as palavras e deixa claro que não acredita nele. É com Barbara, aliás, que Hitchcock demonstra seu conhecimento da linguagem cinematográfica, em outro plano interessante que mostra seu rosto em close e, quando ela sai da tela, revela Rusk atrás dela. É o inicio do assassinato da moça. Após os dois entrarem no quarto de Rusk, Hitchcock faz um travelling lento, desde a silenciosa porta do apartamento até a barulhenta rua. Sabemos que na próxima vez que voltarmos ali, Barbara estará morta.

Os bons momentos de suspense surgem novamente na cena do caminhão, onde estamos sufocados junto com Rusk, que tenta, com muita dificuldade, recuperar o broche que poderia incriminá-lo. Torcemos pro motorista encontrar Rusk, mas ele consegue escapar, só que comete um erro fatal ao entrar no restaurante e ser visto. Vale destacar ainda como Hitchcock cria dois planos idênticos em momentos cruciais da vida de Blaney. Quando ele é preso, a câmera está em cima da cela, num plano plongèe que diminui o personagem, refletindo seu sentimento, assim como no momento de sua fuga do hospital, quando vemos os médicos examinando o guarda, também por cima, e acompanhamos sua saída disfarçada que nos leva ao grande final. O clímax da narrativa acontece quando Blaney invade o apartamento de Rusk, apresentando um artifício interessante do roteiro chamado “dica e recompensa”. Em um dos assassinatos, observamos passo a passo como o criminoso se livra do corpo. Por isso, ao ouvirmos o barulho na escada nesta cena final, nos lembramos de seus métodos e sabemos que é ele quem está chegando ao local. Além disso, a frase final “Sr. Rusk, você não está usando sua gravata” é genial e encerra bem a narrativa.

Ainda que seja inferior ao trabalho genial de Hitchcock em outros filmes, “Frenesi” é digno da filmografia do mestre, com sua narrativa envolvente, cenas bem construídas e um final inteligente. Após dois filmes com temáticas que envolviam política, Hitchcock volta ao seu tema favorito e, como esperado, entrega mais um filme memorável.

PS: Comentários divulgados em 28 de Outubro de 2009 e transformados em crítica em 16 de Junho de 2011.

Texto atualizado em 16 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

Videoteca do Beto: novas aquisições

Abaixo a foto dos 20 novos integrantes da Videoteca do Beto:

Butch Cassidy (1969)*

Gandhi (1982)

Platoon (1986)

Trilogia Missão: Impossível (1996, 2000 e 2006)

Vida de Inseto (1998)

A Viagem de Chihiro (2001)

Prenda-me se for capaz (2002)

Minority Report – A Nova Lei (2002)

Trilogia Bourne (2002, 2004 e 2007)

Procurando Nemo (2003)

Os Incríveis (2004)

Cruzada (2005)

Apocalypto (2006)

Carros (2006)

Curtas da Pixar (2007)

Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008)

*Os filmes que chegarem depois de sua posição na ordem cronológica das críticas “Videoteca do Beto” serão assistidos e avaliados na medida do possível e serão encaixados na seqüência da Videoteca. Por exemplo, se a Videoteca estiver no filme #15 e eu divulgar em seguida a crítica do filme “Butch Cassidy”, este será o filme Videoteca do Beto #16.

Um abraço.

Videoteca 008 

Texto publicado em 27 de Outubro de 2009 por Roberto Siqueira

UM ESTRANHO NO NINHO (1975)

(One Flew Over the Cuckoo’s Nest) 

5 Estrelas 

Filmes em Geral #8

Vencedores do Oscar #1975

Videoteca do Beto #152 (Filme comprado após ter a crítica divulgada no site e transferido para a Videoteca em 08 de Janeiro de 2013)

Dirigido por Milos Forman.

Elenco: Jack Nicholson, Louise Fletcher, Danny DeVito, Christopher Lloyd, Brad Dourif, William Redfield, Michael Berryman, Peter Brocco, Will Sampson, Dean R. Brooks, Alonzo Brown, Mwako Cumbuka, William Duell, Josip Elic, Lan Fendors e Sydney Lassick. 

Roteiro: Bo Goldman e Lawrence Hauben, baseado em livro de Ken Kesey. 

Produção: Michael Douglas e Saul Zaentz. 

Um Estranho no Ninho foto 5

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A sensação de liberdade é algo que independe de onde estamos e de como vivemos. Podemos nos sentir livres de diversas maneiras e em diversos lugares. Da mesma forma, estar preso não quer dizer necessariamente que estamos encarcerados ou cercados por muros e grades. Podemos nos sentir sufocados, cercados, aprisionados, mesmo que estejamos no mais livre dos lugares do planeta. A questão é: temos coragem de lutar para conquistar a liberdade que desejamos? A prisão psicológica de um grupo de pessoas dentro de uma instituição para doentes mentais (ou manicômio) e o caos que “um estranho no ninho” provoca naquelas vidas é o fio condutor do belíssimo drama dirigido por Milos Forman e estrelado brilhantemente por Jack Nicholson.

O condenado Randle Patrick McMurphy (Jack Nicholson) se passa por louco para evitar trabalhar no campo e acaba sendo transferido para um manicômio, onde vai alterar a rotina dos presentes e entrar em conflito com as rígidas normas de controle estabelecidas pela instituição e seguidas à risca pela enfermeira Mildred Ratched (Louise Fletcher). Ao despertar os pacientes e provocar a revolta deles contra estas regras ele irá encontrar também seu trágico destino.

O cotidiano de uma instituição responsável pela reabilitação de pessoas com problemas mentais não deve mesmo ser nada fácil. Afinal de contas, conviver diariamente com pessoas das quais não sabemos que comportamento esperar é algo um tanto complicado e perigoso. Por outro lado, deve ser gratificante para qualquer profissional da área quando alguém deste grupo apresenta alguma evolução, o que serve de motivação para enfrentar este clima pesado diariamente. Sendo assim, não podemos condenar os rígidos métodos adotados pela instituição e seguidos fielmente pela enfermeira Ratched na tentativa de controlar a situação, o que estava sendo feito com sucesso até a chegada de alguém que, por motivos óbvios, não seguirá as regras do local e, conseqüentemente, provocará o conflito naquele ambiente. Milos Forman acerta em cheio na utilização de muitos closes, que realçam as expressões marcantes daquelas pessoas perturbadas psicologicamente, em contraponto às longas tomadas sem corte que permitem ao espectador apreciar em detalhes a espetacular atuação coletiva do elenco. O diretor é hábil ao explorar as maravilhosas atuações de um elenco incrivelmente talentoso, como no diálogo final entre a enfermeira Ratched e Billy Bibbit (Brad Dourif), realçando as expressões dos dois. Além disso, faz interessantes movimentos de câmera, como na cena da votação, que inicia com um close no sorridente McMurphy, e que lentamente vai se afastando dele para mostrar que o resultado da votação não foi nem de perto o esperado por ele. Forman também é competente ao nos dar algumas dicas do que vai acontecer durante o filme de forma sutil. Observe, por exemplo, como na cena em que McMurphy diz para o grupo que vai assistir ao jogo, arremessando a pia na janela e fugindo, o rápido close no olhar curioso do Chefe Bromden (Will Sampson) sinaliza para o espectador o emocionante final do drama. Em outra oportunidade, podemos notar McMurphy olhando para um esquilo que caminha tranquilamente na cerca, mostrando que não é elétrica, e no plano seguinte vemos o ônibus saindo do local, o que se revela um bom artifício para justificar uma atitude que McMurphy tomaria depois.

Um Estranho no Ninho foto 3

O ótimo roteiro de Bo Goldman e Lawrence Hauben (baseado em livro de Ken Kesey) desenvolve muito bem os diversos personagens, além de contar com um final bastante corajoso (note também um interessante trocadilho em inglês – “Se Felt See” – quando McMurphy fala com Sefelt – William Duell). Com um excelente roteiro nas mãos, Forman permitiu ao elenco mostrar todo o seu brilhantismo. E poucas vezes tivemos uma performance tão uniforme e qualificada. Todo o elenco de “Um Estranho no Ninho” é, no mínimo, sensacional. A começar pela atuação antológica de Jack Nicholson. Podemos notar logo em sua primeira aparição, quando grita de alegria ao tirar a algema e dá um beijo no guarda antes de entrar dançando pelo corredor, que seu trabalho é perfeito. O filme é dele. Sua atuação é tão espetacular que fica até difícil destacar algum momento em especial. Solto, alegre, perfeccionista, Jack trabalha em cada pequeno detalhe da composição do personagem, como podemos notar no tom de voz baixo enquanto conversa com o médico, o olhar que nunca se fixa em um ponto, o pigarro na garganta, o sorriso com o que o médico fala e o soco na mesa quando o médico menos espera, para matar uma mosca talvez. Jack é competente também ao mostrar sua alegria quando ouve o Chefe falar pela primeira vez, mostrando a felicidade de McMurphy ao perceber que existe alguém ali parecido com ele, que não se enquadra naquele lugar e não se conforma em aceitar aquele destino. Nos momentos tristes e tensos, o ator se mostra igualmente talentoso, como na hora da medicação em que ele olha cinicamente para a enfermeira, e na cena em que parte pra cima de Ratched após a morte de Billy. O embate entre os dois, aliás, é um prato cheio para mostrar o talento de Jack e Fletcher. Repare como ele ri do gesto que Harding (William Redfield) faz quando pergunta se é marica. Ele repete o gesto e gargalha da discussão, mas lentamente vai ficando sério e percebendo que o problema daquelas pessoas é maior do que ele pensava. No final da cena, McMurphy e Ratched se olham fixamente. Os dois sabem que enfrentarão problemas. Louise Fletcher, aliás, é muito competente ao transmitir toda a firmeza e rigidez de Ratched. Seu olhar intimida e sua frieza na solução dos problemas chega a ser espantosa. Na citada cena da votação, ela sorri levemente com o resultado, como quem está só comprovando algo que já sabia que aconteceria. Os métodos da enfermeira Ratched são frios, cruéis até, mas ela acredita ser a forma correta de liderar e controlar aquele grupo e, apesar de entender as razões de Ratched, não somos obrigados a concordar com estes métodos. A presença de McMurphy representa o caos naquele grupo, já que ele tem as atitudes inesperadas, quebra a rotina e ativa um lado praticamente adormecido naquelas pessoas, o que gera um problema para ela. Por outro lado, não podemos considerar que a enfermeira seja uma má pessoa, como fica comprovado na reunião dos médicos em que Ratched diz querer ficar com McMurphy e não simplesmente passar o problema adiante.

Um Estranho no Ninho foto 2

O restante do elenco não fica atrás da dupla principal. A primeira discussão em grupo gera uma gritaria e histeria geral, mostrando a loucura do grupo e nos situando no ambiente. Brad Dourif é, talvez, o maior destaque entre eles. Sua gagueira ao falar mostra a timidez de Billy e seu final trágico é marcante, com sua atuação fantástica no momento em que é levado para a sala, explodindo em raiva e medo (Ratched olha firme para McMurphy, culpando-o). Danny DeVito, como Martini, também se destaca, praticamente fechando os olhos pra falar e quase sempre olhando pra baixo, mostrando insegurança. Observe como em uma das reuniões com a enfermeira Ratched, DeVito fica olhando para o chão até ser chamado. Sydney Lassick, como Cheswick, e Christopher Lloyd como Taber, também merecem ser citados. Will Sampson fecha a lista de destaques como o Chefe Bromden, sempre com o olhar disperso e com os movimentos lentos. Repare como lentamente ele mostra que gosta de McMurphy, como na cena em que ri após o amigo pular a cerca, ou com sua alegria no jogo de basquete e, mais claramente, quando se envolve na briga de McMurphy com os enfermeiros.

A excelente montagem de Sheldon Kahn e Lynzee Klingman capta todo o elenco, destacando todas as belas atuações. Observe, por exemplo, como a montagem consegue mostrar alternadamente todos os presentes nas cenas de discussão em grupo sem soar picotada. A direção de fotografia (direção de Haskell Wexler) e os figurinos (mérito de Aggie Guerard Rodgers) utilizam muito a cor branca, que teoricamente deveria passar uma sensação de paz, mas que naquele ambiente estranhamente nos causam uma sensação de isolamento. A clássica e melancólica trilha sonora talvez colabore para esta sensação, funcionando muito bem naquele ambiente triste.

Extremamente emocionante, o filme conta com algumas cenas belíssimas e tocantes. A comovente cena do jogo de beisebol mostra o primeiro conflito evidente provocado por McMurphy e conta com uma narração convincente de Nicholson. A divertida cena da pescaria também é linda, principalmente por seu simbolismo. Apesar de contar com boas intenções, talvez o que os médicos não tenham percebido é que, mais do que regras e controle, aquelas pessoas precisavam mesmo é de carinho. O longa conta ainda com alguns momentos de alivio cômico, sendo o melhor deles quando McMurphy volta da enfermaria fazendo uma brincadeira com o grupo. Contém ainda uma crítica implícita ao cruel sistema destas casas de recuperação, quando o enfermeiro diz pra McMurphy que na cadeia ele sairia em breve (68 dias), mas lá ele só sai quando eles quiserem. Por outro lado, alguns dos pacientes poderiam deixar o local, mas não o fazem, o que reforça a tese da prisão psicológica do início desta crítica.

Um Estranho no Ninho foto 4

Ao se aproximar do final, “Um Estranho no Ninho” nos apresenta sua face mais cruel. A festa de despedida de McMurphy representou uma liberdade que o grupo não tinha por motivos óbvios. Talvez o que faltava naquele ambiente era mesmo um pouco de alegria, mesmo que não fosse daquela forma exagerada. Todo o terceiro ato, com o suicídio de Billy, a briga coletiva, a tentativa de McMurphy de assassinar Ratched, a morte de McMurphy e a fuga do Chefe têm um grande impacto e elevam ainda mais a qualidade do filme. Na seqüência final Will Sampson transmite muita emoção quando olha para McMurphy sorridente e, ao ver as cicatrizes do amigo, seu sorriso some. Ele o abraça comovido e toma a atitude que entende ser a melhor naquela situação, pois não agüentaria sair de lá sabendo que a pessoa que lhe trouxe a coragem para mudar sua vida ficaria ali daquela forma para sempre.

Ao ver o Chefe Bromden sair correndo pelo campo, sentimos um misto de alegria e tristeza. A morte de McMurphy serviu para despertar o inconformismo naquelas pessoas e levar pelo menos uma delas a sair daquela situação. Se por um lado não podemos condenar os métodos adotados pela instituição para controlar o grupo, por outro não podemos negar que é bom ver alguém que simplesmente não aceita esta imposição, tendo coragem de levantar uma bandeira e lutar por algo melhor. A lição maior que eu particularmente extraí do lindo drama “Um Estranho no Ninho” é que devemos sempre ficar atentos aos nossos direitos e lutar por eles, independente do lugar em que estamos. 

Um Estranho no Ninho 

Texto publicado em 26 de Outubro de 2009 por Roberto Siqueira

Luto

Este blog está oficialmente de luto.

Descanse em paz meu amigo, que Deus o tenha!

Você é muito importante para todos nós e estará vivo para sempre em nossa memória e em nossos corações.

Saudades…

Beto.

Texto publicado em 22 de Outubro de 2009 por Roberto Siqueira

O EXORCISTA (1973)

(The Exorcist) 

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #14

Dirigido por William Friedkin.

Elenco: Ellen Burstyn, Linda Blair, Jason Miller, Max Von Sydow, Lee J. Cobb, Kitty Winn, Jack MacGowran, William O’Malley, Barton Heyman, Peter Masterson, Gina Petrushka, Robert Symonds, Thomas Birmingham e Mercedes McCambridge (voz).

Roteiro: William Peter Blatty, baseado em livro de William Peter Blatty.

Produção: William Peter Blatty.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Para algumas pessoas – como eu – poucos temas são capazes de provocar medo como os relacionados aos espíritos. Por isso mesmo, confesso que dos filmes recentes de suspense que eu assisti, os que mais me agradaram tinham este tema em comum (“O Chamado” e “Os Outros”). Em “O Exorcista”, clássico dirigido por William Friedkin, este tema foi explorado com absoluta competência, provocando um frio na espinha da maioria dos espectadores e criando um festival de imagens que são capazes de atormentar a mais incrédula das pessoas.

A atriz Chris MacNeil (Ellen Burstyn) começa a perceber gradativamente que sua pequena filha Regan MacNeil (Linda Blair) está tendo um comportamento bastante estranho. Após frustradas tentativas de curar a garota procurando a ajuda de médicos, psiquiatras e até mesmo através da hipnose, ela se rende à ajuda do padre Karras (Jason Miller), que chega à conclusão de que a menina está possuída pelo demônio e precisa de um ritual que já não é mais utilizado nos dias de hoje, chamado exorcismo.

Friedkin inicia o filme mostrando o cotidiano do experiente Padre Merrin (Max Von Sydow), que está fazendo escavações no Iraque. Durante estas escavações, Merrin acaba se encontrando com uma estátua macabra no alto de um monte. O plano final desta seqüência no Iraque, com o pôr-do-sol avermelhado, remete ao inferno. Em seguida, o diretor nos ambienta profundamente no relacionamento entre Chris e Regan, mostrando imagens das duas brincando e conversando na cama (neste plano vemos o rosto de Regan em close, o que dá a exata noção do contraste quando ela está possuída). Desta forma, ele cria empatia entre o espectador e aquela família, o que aumenta ainda mais o drama quando Regan começa a dar sinais de mudança em seu comportamento. O diretor também é inteligente ao nos situar nos problemas da família, como no plano em que Chris tenta falar com o pai de Regan e discute com a operadora de telefone. A câmera lentamente se afasta até mostrar Regan ouvindo a conversa escondida. A falta do pai seria utilizada como justificativa posteriormente para a mudança de comportamento da garota. Além disso, lentamente Friedkin vai introduzindo elementos que nos mostram sinais do que aconteceria depois, como a cama balançando freneticamente, a reação de Regan nos exames e os palavrões que a garota começa a falar. Finalmente, somos apresentados ao sofrimento do Padre Karras ao ver sua mãe doente, que também terá reflexo no restante da narrativa.

Vale dizer que todo este cuidadoso primeiro ato é mérito também do excelente roteiro de William Peter Blatty (baseado em livro do próprio Blatty). O roteiro desenvolve muito bem os personagens e seus dramas familiares, o que colabora com o nosso envolvimento no filme. É também corajoso ao trabalhar muito bem questões delicadas como a vida pessoal dos padres, normalmente vistos como pessoas acima do bem e do mal, mas que são seres humanos normais, que têm defeitos, medos e enfrentam problemas pessoais como qualquer um. Observe, por exemplo, este trecho de uma das conversas entre Chris e Karras: (Chris: “Padres sabem guardar segredo?” / Karras: “Depende.” / Chris: “Do que?” / Karras: “Do Padre.”). Não é por ser padre que uma pessoa é ou não é confiável, isto depende exclusivamente da pessoa. Blatty conseguiu ainda ilustrar de forma correta o conflito comum entre a medicina e a religião, através do ceticismo dos médicos no início do tratamento da garota. Finalmente, o filme jamais abre espaço para o humor, o que soaria falso e deslocado, a não ser pela repetição da piada sobre o filme que está passando no cinema no final do filme, já quando o espectador está mais relaxado.

Também colabora sensivelmente para o sucesso do longa o talentoso elenco dirigido por Friedkin. Ellen Burstyn e Linda Blair mostram uma boa química no início, o que serve até como comparação para a incrível transformação que ambas sofrerão durante o restante do filme. Regan, sempre sorridente, e Chris, sempre carinhosa, vão lentamente se transformando em pessoas completamente diferentes por razões distintas. Burstyn é extremamente competente, por exemplo, ao demonstrar sua comoção com a notícia da morte de Burke, chorando escandalosamente e com as mãos trêmulas. Seu desespero para tentar curar a filha é tocante, apelando para toda e qualquer ajuda vinda dos médicos, psiquiatras ou até mesmo de um especialista em hipnose. Observe sua reação ao ouvir a sugestão de um médico para procurar o exorcismo (e aqui ele dá uma explicação técnica para o sucesso do ritual, mostrando novamente que a medicina não tolera a explicação religiosa). Ela olha assustada para todos na mesa, mudando o foco do olhar da direita para a esquerda e vice-versa, tentando entender o que era aquilo. Finalmente, Burstyn completa sua transformação na cena em que expõe todo seu sofrimento ao gritar para o padre Karras que ela reconheceria sua filha de qualquer jeito (“Aquela coisa lá em cima não é minha filha!”). A atriz é muito competente na transmissão da dor e do desespero de Chris. Da mesma forma, Linda Blair também merece destaque pela excelente performance como Regan MacNeil. Inicialmente meiga e apegada à mãe, a garota lentamente se transforma num verdadeiro monstro, e o desempenho de Blair cresce consideravelmente quando está possuída. Aterrorizante, o resultado final de sua transformação é mérito também da excelente maquiagem e dos sensacionais efeitos sonoros, como podemos observar na primeira vez que a garota fala com a voz alterada. Jason Miller consegue transmitir muito bem o drama vivido pelo Padre Karras, que tem uma vida extremamente complicada. Localizada em um bairro pobre (as ruas pichadas e cheias de lixo mostram o bom trabalho de Direção de Arte), a velha e desorganizada casa reflete seu estado psicológico, seriamente afetado pela doença de sua mãe. A relação com a mãe, aliás, é algo muito importante para Karras. Talvez pelo fato de não ser casado, ela se tornou sua única companheira. Um dos seus bons momentos acontece quando Chris fala sobre exorcismo e ele pergunta espantado: “Como é?”. Completando o elenco principal, Max Von Sydow oferece uma ótima atuação como o experiente Padre Merrin, que encontra o seu destino no quarto de Regan e reforça o primeiro ato do filme, dando um peso maior à forte cena do exorcismo. Sydow é extremamente competente na criação do clima perfeito para o ritual, transmitindo ao espectador o perigo que aquilo representa, por exemplo, quando está rezando no banheiro.

Além do talentoso elenco, “O Exorcista” conta ainda com um apurado trabalho técnico que aumenta ainda mais o clima de suspense. Observe como a fotografia (Direção de Owen Roizman e Billy Williams) começa a escurecer na medida em que Regan começa a dar sinais de estar possuída. Com o passar do tempo, a fotografia se torna ainda mais sombria, ajudada também pela paleta granulada que torna a imagem menos nítida. Friedkin aumenta a sensação de horror ao jogar imagens demoníacas que piscam rapidamente na tela. O ótimo trabalho de som também colabora para criar o clima perfeito, como na cena em que podemos ouvir os barulhos no sótão da casa de Regan. O som ajuda também nos sustos causados na platéia, como na cena em que Chris investiga a origem dos barulhos na casa, além de funcionar perfeitamente nas cenas em que Regan está possuída.

Ao contrário de filmes como “Tubarão”, onde o suspense é muito mais psicológico, “O Exorcista” aposta no visual para causar medo no espectador. De maneiras diferentes, os dois filmes conseguem sucesso. Quando Regan desce as escadas no meio de uma festa, diz uma frase macabra e faz xixi no chão, o espectador percebe o nível das assustadoras cenas que vai presenciar. E a coleção de cenas aterrorizantes é enorme. Regan vira a cabeça completamente para trás, desce a escada de costas com as mãos e os pés apoiados nos degraus (na famosa cena conhecida como a “menina-aranha”), agride sua própria genital com um crucifixo dizendo palavras obscenas, levita sobre a cama e move objetos para tentar agredir quem entra em seu quarto, entre outras cenas impressionantes.

Assustador e repleto de imagens chocantes, “O Exorcista” faz ainda um excelente estudo sobre a perda da fé. Observamos pessoas completamente diferentes e que enxergam a fé de formas ainda mais distantes, alterarem suas vidas após serem atingidos por tragédias particulares. O Padre Karras, completamente modificado após a perda da mãe, enxerga no drama de Chris a possibilidade de se reencontrar com sua fé. Chris, que segundo ela mesma não tem religião, se entrega à fé para tentar salvar sua pequena filha. E o Padre Merrin, mesmo com toda sua experiência na vida religiosa, tem sua fé realmente testada dentro do quarto de Regan.

Extremamente visual sem se descuidar de seu conteúdo, “O Exorcista” é um filme aterrorizante, com imagens fortes e boas atuações. Seu roteiro coeso aborda a complicada possessão da garota de forma lenta, elevando a tensão a níveis extremos de maneira inteligente. Acredite ou não em espíritos ou demônios e, independente de qual seja a sua fé, o espectador jamais sai indiferente ao filme. Goste ou não, é impossível não respeitar a qualidade do trabalho realizado e o resultado alcançado.

Texto publicado em 15 de Outubro de 2009 por Roberto Siqueira

Cinema em Cena: 12 anos

Gostaria de parabenizar o crítico Pablo Villaça e toda sua equipe pelos 12 anos do excelente site “Cinema em Cena”. Sou fã do site há muito tempo e o considero o melhor do país em matéria de cinema. O site também é uma grande influência em minha decisão de criar o meu próprio blog e expressar minha visão sobre a sétima arte.

Parabéns Pablo!

Para quem não conhece o site, segue o link (que você também pode encontrar ao lado direito do meu blog):

http://www.cinemaemcena.com.br/

Um abraço.

Cinema em Cena

 

 

 

Texto publicado em 14 de Outubro de 2009 por Roberto Siqueira

O GRANDE DITADOR (1940)

(The Great Dictator)

 

Filmes em Geral #21

Filmes Comentados #7 (Comentários transformados em crítica em 23 de Outubro de 2010)

Dirigido por Charles Chaplin.

Elenco: Charles Chaplin, Jack Oakie, Paulette Goddard, Reginald Gardiner, Henry Daniell, Maurice Moscovich e Billy Gilbert.

Roteiro: Charles Chaplin.

Produção: Charles Chaplin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Chaplin abandonou de vez o cinema mudo nesta corajosa sátira de Hitler, realizada apenas um ano depois do inicio da segunda guerra mundial, recheada de bom humor e com um forte subtexto crítico. Ao realizar “O Grande Ditador”, ele demonstrou sua extrema coragem e genialidade, mostrando ao mundo os absurdos do nazismo antes mesmo que alguns países, como os Estados Unidos, entrassem na guerra.

Um judeu (Chaplin) salva um piloto alemão (Reginald Gardiner) durante a segunda guerra, mas perde a memória na queda do avião em que ambos estavam quando fugiram do campo de batalha. Ao voltar para casa, ele encontra um mundo completamente diferente, agora dominado pelo ditador Hynkel (Chaplin também), ao mesmo tempo em que volta a conviver com seus compatriotas, como a bela Hannah (Paulette Goddard).

Como diz a primeira frase de “O Grande Ditador”, qualquer semelhança entre o ditador e o barbeiro judeu é meramente proposital, o que será a chave para o belíssimo final do filme. O roteiro escrito por Chaplin, além de extremamente corajoso ao claramente criticar Hitler no auge de seu domínio, ainda conta com frases interessantes que demonstram bem como funciona o raciocínio dos grandes ditadores, como a dica de um assistente dada a Hynkel (“Alimente o ódio aos judeus e eles esquecerão o estômago”) e o mundo sonhado pelo nazismo, repleto de “loiros com olhos azuis”. A conversa sobre a intenção de fazer com que a raça ariana dominasse o mundo, aliás, leva à cena mais famosa do longa, em que Hynkel brinca com o globo terrestre e chora quando este explode em suas mãos. Esta famosa cena é recheada de simbolismo, pois Hitler, assim como Hynkel, pensava dominar o planeta e ter o direito de brincar com ele. A história provou que não é bem assim que as coisas funcionam. Que os líderes de hoje em dia pensem nisso também. É interessante notar ainda como o roteiro reflete bem a forma arcaica e despreparada de pensar do ditador. Quando informado que existem trabalhadores descontentes, ele manda fuzilar todos (“Não quero trabalhadores descontentes”, afirma). Estatisticamente ele poderia ter sucesso, mas com certeza esta é uma solução idiota para o problema. Outra crítica sutil e inteligente acontece na cena em que o barbeiro judeu (Chaplin), que perdeu a memória, volta para sua barbearia. Os alemães chegam imponentes ao local, certos de que ele vai obedecer, mas ele não entende o que deve fazer e os ignora. A mensagem é clara. Qualquer pessoa que saísse da terra e voltasse no meio da guerra também acharia uma loucura o que se fazia com o ser humano naquela ocasião.

Mas nem só de críticas vive “O Grande Ditador”. O bom humor característico de Chaplin aparece em muitas cenas, como na fuga do barbeiro num avião, em sua experiência num tanque de guerra, no divertido desfile do exército da Tomania e na calorosa discussão dos ditadores no Buffet. E ainda que não tenham o mesmo espaço de outrora neste primeiro filme falado de Chaplin, as gags aparecem, como quando o vagabundo se esconde dentro de um baú numa fração de segundos ou quando Hynkel é derrubado da escada por Herring (Billy Gilbert). Vale citar também a engraçada tradução do discurso de Hynkel feita por uma assistente numa máquina de escrever. Finalmente, existem as cenas em que crítica e humor se misturam com perfeição, como aquela em que a moeda no pudim apontaria quem deveria morrer pela libertação dos compatriotas. A divertida seqüência revela as verdadeiras intenções de cada integrante do grupo, pois, na realidade, ninguém queria ser mártir de verdade (e quem quer?). Apesar de o discurso ser belo, na prática não é assim que funciona. E repare como no fim do jantar, Chaplin discretamente recolhe as moedas da mesa e as coloca no bolso, revelando as sutilezas de sua grande atuação.

Sem tanto espaço para as famosas gags que fizeram sua fama devido ao fato de ser um filme falado, Chaplin demonstra sua qualidade como ator alternando muito bem entre a eloqüência de Hynkel, sempre agitado, sisudo e com olhar superior, e a simplicidade do barbeiro, sempre tranqüilo e até mesmo amedrontado diante daquela situação. Além disso, Chaplin fala um “alemão” debochado, que funciona muito bem como elemento de humor, satirizando explicitamente a forma de discursar de Hitler – todos sabem que não é alemão de verdade, apenas uma forma eficiente de fazer piada. Ele tosse, engasga, grita, faz careta e arranca boas risadas do espectador, ao mesmo tempo em que alfineta o tirano alemão, em plena segunda guerra mundial. Também se destaca a boa atuação de Jack Oakie, como o ditador Benzino Napaloni, de Bactéria, que satiriza Mussolini (repare no sotaque italiano de seu inglês). Extrovertido, ele completa com perfeição a grande atuação de Chaplin, agindo com espontaneidade diante de toda aquela pompa do palácio de Hynkel. Com seu jeito falastrão, nada parece intimidar o agitado ditador bacteriano, como podemos notar na conversa preparada especialmente para colocá-lo em posição inferior a Hynkel. A cena em que os dois tentam intimidar um ao outro subindo as cadeiras é sensacional. Boa também é a atuação de Billy Gilbert como o marechal de campo Herring. Observe, por exemplo, o leve sorriso de satisfação dele no desfile do exército da Tomania e a transformação de seu rosto quando Napaloni começa a questionar tudo que é mostrado. Paulette Godard se sai bem na pele da determinada Hannah, demonstrando sua fibra e coragem através do olhar penetrante, da voz sempre firme e rápida e, principalmente, dos gestos corajosos, como quando reage sozinha aos abusos dos soldados alemães contra os comerciantes judeus. E finalmente, Reginald Gardiner interpreta Schultz, com destaque para o momento em que diz para Hynkel o que pensa sobre suas políticas, num discurso que critica ferozmente os ideais nazistas. Considerado um traidor, acaba preso e, após fugir e ser capturado no gueto junto com seu amigo judeu que o salvou na guerra, é enviado aos campos de concentração. Esta atitude intempestiva de Hynkel será crucial para o desfecho da trama.

Chaplin também se destaca na direção de “O Grande Ditador”, com belos movimentos de câmera, como quando os judeus se escondem dentro de casa e o plano termina com um passarinho preso na gaiola, simbolizando a perda da liberdade daquele povo. Chaplin também acerta ao filmar o ditador em ângulo baixo diversas vezes, demonstrando visualmente o poder daquele homem, algo também ilustrado através de pequenos detalhes, como o fato dele sequer abrir as portas de seu palácio, relegando esta tarefa aos soldados colocados em cada passagem. O diretor ainda utiliza muito bem o close para enfatizar as emoções dos personagens, como no discurso pré-invasão do gueto de Hynkel ou nas lágrimas emocionadas de Hannah ao escutar as palavras de esperança no último plano do longa. Em outro plano bem realizado, o barbeiro judeu conversa com Hannah sobre sua preferência pela vida no campo em detrimento das poluídas cidades, enquanto a cidade está em chamas ao fundo. Destaca-se também o plano geral em que podemos ver o barbeiro sendo cercado no meio da rua por dezenas de soldados nazistas, além da linda cena em que Chaplin barbeia um senhor no ritmo da música, onde som e imagem se completam. Ainda na parte técnica, os figurinos e a direção de arte de J. Russell Spencer ajudam muito na alusão ao nazismo, trabalhando em pequenos detalhes, como os símbolos dos uniformes, que não são idênticos, mas claramente fazem referência à suástica de Hitler. Além disto, a direção de arte capricha no palácio de Hynkel, demonstrando toda a imponência do local através da estrutura alta e dos longos corredores por onde as pessoas passam. A montagem de Willard Nico intercala muito bem as duas linhas principais da narrativa, divididas entre as decisões de Hynkel e o reflexo delas no gueto, além de saber indicar a passagem do tempo sem que esta soe episódica, como quando a teia espalhada pela barbearia indica o longo tempo que o barbeiro esteve fora. Também colabora com a clara divisão da narrativa a fotografia de Karl Struss e Roland Totheroh, que diferencia o ambiente sombrio da vida no gueto da clara e iluminada vida no palácio. Finalmente, a trilha sonora composta por Chaplin pontua muito bem as cenas, como quando a música indica a felicidade da família de Hannah na chegada a Österlich.

O apaixonado discurso do barbeiro judeu no final de “O Grande Ditador” resume muito bem a mensagem do filme. A inteligente situação criada através da inversão de papéis, que remete elegantemente à frase inicial do longa, representava uma oportunidade única para o judeu (e para Chaplin), expressada através das palavras de Schultz (“Você tem que falar, é nossa última esperança”). Chaplin não perdeu a oportunidade e deu sua mensagem humanista ao mundo de forma inteligente, bem humorada e marcante. Palmas pra ele.

PS: Comentários divulgados em 13 de Outubro de 2009 e transformados em crítica em 23 de Outubro de 2010.

Texto atualizado em 23 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

Qual é a sua série favorita?

Friends

É bastante comum entre amigos comentar no inicio da semana sobre os filmes que assistimos durante o fim de semana. Andei pensando bastante sobre a explicação comum que muitos dos meus amigos dão para não ter assistido nenhum filme no fim de semana (“Não tive tempo, estava vendo episódios de Lost” – ou qualquer outra série). No meio em que vivo, a quantidade de pessoas que acompanha pelo menos uma série (ou seriado, como queira) na televisão ou em DVD cresceu razoavelmente nos últimos anos.

As séries representam hoje grandes concorrentes dos filmes, já que muitas pessoas preferem acompanhar uma série a assistir um filme. Não é meu caso. Por outro lado, sempre gostei de séries e guardo algumas delas com um carinho especial. Entre as minhas favoritas, posso citar o leve e engraçado “Friends” e o enigmático e original “Lost”. Por isso, mesmo não pensando igual, entendo perfeitamente as pessoas que tem esta fidelidade às séries, pois grande parte delas tem boa qualidade. E afinal de contas, é também uma ótima opção de entretenimento.

Sendo assim, gostaria de saber qual é a série favorita da galera aqui do blog e por isso deixo a pergunta: Qual é a sua série favorita?

Um abraço e bom debate.

Lost

Texto publicado em 08 de Outubro de 2009 por Roberto Siqueira

Projeção Eliminatórias da Copa 2010

No próximo fim de semana começa a definição das últimas vagas para a Copa do Mundo. Alguns países de tradição, como Argentina, França e Portugal, estão seriamente ameaçados. Analisei friamente a tabela de todos os continentes e cheguei à conclusão que a Argentina se classifica, mesmo que tenha que ir para a repescagem. Portugal e França provavelmente também, a não ser que se cruzem na repescagem.

Como brincadeira, deixo registrado aqui meu palpite, para poder comparar depois quantas vagas eu acertei. Os países em negrito já estão classificados, e por isso não entram na conta. Na Europa, deixei em azul aqueles países que se classificarão na repescagem, logicamente, se não se cruzarem. Existem nove países no quadro “Repescagem”, mas somente oito disputarão as vagas, já que um será eliminado por índice técnico. Não tenho a pretensão de adivinhar qual será, por isso, indico dentre os nove aqueles países que em minha opinião estarão na África do Sul ano que vem. E pra finalizar, vale lembrar que os países estão em ordem alfabética no quadro abaixo. A Argentina, por exemplo, apesar de aparecer em primeiro no quadro, se classificará em 5º lugar.

Am Norte Europa Repescagem  
EUA Alemanha Portugal  
Honduras Dinamarca Bósnia  
México Eslováquia Grécia  
  Espanha Rep. Tcheca  
  Holanda Rússia  
  Inglaterra Croácia  
  Itália França  
  Sérvia Irlanda  
  Suíça Noruega  
África Ásia Oceania Am Sul
África do Sul Austrália Argentina
Gana Bahrein   Brasil
Camarões Coréia do Norte   Chile
Costa do Marfim Coréia do Sul   Equador
Egito Japão   Paraguai
Tunísia      
 

– Argentina vence Costa Rica na repescagem.

– Bahrein vence Nova Zelândia na repescagem.

– Egito vence todas e classifica.

Um abraço e deixe sua opinião.

Zakumi Mascote Copa 2010 

 

 

 

 

 

 

 

 

Texto publicado em 07 de Outubro de 2009 por Roberto Siqueira

HOOLIGANS (2005)

(Green Street Hooligans)

3 Estrelas 

Filmes em Geral #97

Filmes Comentados #6 (Comentários transformados em crítica em 21 de Dezembro de 2012)

Dirigido por Lexi Alexander.

Elenco: Elijah Wood, Claire Forlani, Charlie Hunnam, David Alexander, Leo Gregory, Marc Warren, Joel Beckett, Geoff Bell, Kieran Bew, David Carr, Brendan Charleson, Jacob Gaffney, Henry Goodman, Christopher Hehir, Terence Jay e Ross McCall.

Roteiro: Dougie Brimson, Lexi Alexander e Josh Shelov.

Produção: Deborah Del Prete, Gigi Pritzker e Donald Zuckerman.

Hooligans[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um tema muito interessante é discutido de forma duvidosa neste “Hooligans”, filme em que o diretor Lexi Alexander perde uma boa oportunidade de explorar melhor o universo das torcidas organizadas. Apesar de tentar ilustrar a visão peculiar destes integrantes de torcidas, Alexander parece evitar tratar o tema com a seriedade que ele merece, buscando justificativas para cada ato e, desta forma, esvaziando bastante a discussão que o longa poderia suscitar. É uma pena, ainda mais se considerarmos a escassez de filmes a respeito.

Escrito pelo próprio Alexander ao lado de Dougie Brimson e Josh Shelov, “Hooligans” tem inicio quando Matt Buckner (Elijah Wood) decide visitar a irmã Shannon (Claire Forlani) em Londres após ser expulso injustamente da Universidade de Harvard. Assim que chega à capital inglesa, ele faz amizade com o cunhado Pete (Charlie Hunnam), que lhe apresenta aos integrantes de uma temida torcida local. Em pouco tempo, Matt passa a conhecer melhor e se envolver neste universo marcado pela violência.

Apesar da premissa interessante, o roteiro de “Hooligans” escorrega em tantos aspectos que fica até difícil citar todos eles. Indo desde diálogos fraquíssimos como aquele em que Pete e Matt debatem sobre as diferenças entre seus países, passando pela ridícula brincadeira com o Sr. Miyagi (como o jovem Matt poderia inspirar um filme de 1984 é algo que nunca compreenderei) e chegando ao diálogo expositivo entre Matt e Shannon que só serve para nos mostrar os conflitos da família e a razão da garota morar em Londres, o roteiro é um verdadeiro festival de problemas. Observe, por exemplo, como o diário de Matt é citado somente após uma hora de projeção e praticamente na cena seguinte já tem uma função importante na narrativa, revelando uma falta de cuidado preocupante dos roteiristas. Pra finalizar, é difícil entender como Shannon, mesmo casada e já com um filho, nunca contou para o marido que o irmão estudava jornalismo em Harvard. Por mais que estivessem distantes, ter um irmão estudando em Harvard é algo que qualquer pessoa se orgulharia de contar, portanto, fica evidente que esta “revelação” surge apenas para justificar o conflito antecipado entre as torcidas rivais num bar.

Bares (ou pubs) que surgem logo no início, quando Alexander tenta criar empatia entre o grupo e o espectador ao mostrá-los reunidos, tomando cerveja e cantando as músicas da torcida – só que a lembrança da primeira cena de “Hooligans” nos recorda que eles não são tão amáveis assim. Mas se acerta ao aproximar o grupo da plateia, Alexander erra justamente nas cenas que deveriam ser a força central da narrativa. Com sua câmera trêmula, cortes rápidos e a trilha sonora acelerada de Christopher Franke, o diretor deixa claro desde a primeira briga que não tem grande controle da misé-en-scene. Já o segundo confronto, apesar de também ser agitado, é melhor que o primeiro, com cenas mais realistas e menos picotadas. Entretanto, ao utilizar menos quadros por segundo para acelerar a imagem, Alexander torna a briga tão confusa que chega a provocar náuseas na plateia. Ao menos a briga em Manchester é bastante realista quanto às agressões e os ferimentos, apesar de ser implausível (como um pequeno grupo venceria 40 homens daquela forma?). Por outro lado, a sequência da invasão do bar no esperado confronto entre os torcedores do West Ham e do Millwall é bastante tensa e bem conduzida pelo diretor.

Reunidos tomando cerveja e cantando as músicas da torcidaBriga em ManchesterInvasão do barMas Alexander não erra sozinho. A montagem de Paul Trejo também falha bastante ao cortar muitas cenas de forma abrupta, não deixando o espectador curtir o momento, como ocorre, por exemplo, quando os garotos freiam um trem e, repentinamente, já estamos acompanhando o grupo descendo as escadas correndo. Por outro lado, a montagem se destaca no sorteio dos grupos da FA Cup, onde podemos acompanhar todos em seus respectivos postos de trabalho ansiosos e a explosão de alegria com o resultado, que dá a exata noção da importância do confronto. Vale destacar ainda a fotografia azulada de Alexander Buono, que ilustra a frieza daqueles personagens, assim como as ruas sujas evocam uma Londres coerente com o submundo dos hooligans, o que é mérito do design de produção de Rosanna Weswood – repare também a sigla da torcida GSE (Green Street Elite) pichada na parede do banheiro do bar, num capricho que confirma o bom trabalho dela.

Se não conseguem compensar as falhas do roteiro, as atuações também não comprometem em nada a narrativa. Inicialmente inexpressivo como o personagem deve ser, Elijah Wood se transforma ao longo de “Hooligans” e consegue transmitir o envolvimento de Matt com aquele mundo de maneira convincente. Assim, se no principio ele sequer tem forças para lutar contra o colega influente que o incrimina em Harvard, com o passar do tempo Matt passa a reagir diante das provocações de Bovver e até mesmo demonstra o ressentimento diante do pai ausente, numa conversa direta que termina com Carl Buckner (Henry Goodman) desistindo de falar algo para o filho, se limitando a abraçá-lo por saber que de nada adiantaria tentar mudar seu pensamento agora. Vale citar ainda dois bons momentos de Wood. O primeiro quando Shannon diz que ele está fazendo o correto ao decidir voltar para os EUA, mas seu olhar fixo para a janela demonstra que seu pensamento está em outro lugar; e o segundo no ótimo diálogo com o Major (Marc Warren) dentro do bar, que apresenta um pouco do valor moral e ético que tanto falta ao restante da narrativa.

Chorando praticamente o tempo inteiro, a Shannon de Claire Forlani tem raros momentos de destaque, como quando se revolta com o cunhado após o ataque ao seu marido ou quando cerra a sobrancelha sutilmente ao ouvir Matt explicar sua expulsão de Harvard, como se estivesse duvidando da versão do irmão. Por sua vez, Geoff Bell demonstra a agressividade de Tommy Hatcher desde sua excelente introdução num restaurante, na qual a mulher que acompanha o rapaz agredido comete o grave erro de incitá-lo a responder às provocações dele. Mas nem mesmo isto impediu que Bovver traísse seu grupo e, o que é pior, por motivos nada convincentes, já que seu ciúme diante da amizade entre Pete e Matt e sua desconfiança do americano não justificam esta atitude extrema. Leo Gregory, aliás, tem um bom desempenho como Bovver, com seus poucos sorrisos, olhar desconfiado e postura defensiva típica de quem carrega uma fúria interior, que tornam o personagem crível apesar do fraco roteiro.

No entanto, quem rouba a cena mesmo é Charlie Hunnam na pele do despojado Pete Dunham. Falastrão e destemido, ele intimida ao mesmo tempo em que chama a atenção desde sua primeira aparição na casa de seu irmão, quando chega com as mãos no bolso e já abrindo a geladeira, evidenciando seu estilo de vida despreocupado. Violento ao extremo, ele também encontra espaço para a gentileza ao ceder o lugar para uma mulher no metrô, demonstrando um curioso código de ética que remete aos mafiosos, reforçado pelo diálogo em que afirma gostar de brigar, mas não de sair atirando na rua e matando meninas de oito anos como fazem as gangues norte-americanas. Mas nem mesmo frases como “não se chuta alguém que está caído, independente do que ele tenha feito” servem para amenizar as péssimas ações de sua torcida, é bom deixar claro.

Sorteio dos grupos da FA CupPensamento está em outro lugarArrependido Bovver desabaUm dos grandes momentos da atuação da dupla Hunnam e Gregory acontece dentro do hospital, na realista discussão em que Pete demonstra sua ira, enquanto um arrependido Bovver desaba, seguida pela reação descontrolada de Shannon, que agride o cunhado enquanto este sequer esboça reação, por saber que ela tinha todos os motivos do mundo para ter raiva dele. Motivos que faltam para justificar a ida de Shannon ao local do confronto final. Apesar de amar o irmão, dificilmente alguém arriscaria a vida de seu filho daquela forma entrando numa briga de torcidas organizadas.

Escorregando principalmente na questão ética ao justificar atos de vandalismo através de questões pessoais, “Hooligans” parece tentar maquiar a triste realidade: essas torcidas não precisam de motivos para fazer o que fazem. Se terminasse na ida dos irmãos para o Aeroporto após a morte de Pete, o filme até poderia provocar uma interessante reflexão sobre este universo violento, mas infelizmente a desnecessária vingança de Matt contra Van Holden (Terence Jay) e o plano final com ele cantando pelas ruas parecem exaltar a experiência que ele viveu no hooliganismo, o que é muito ruim. Seria mais interessante e daria uma densidade maior ao que vimos se ele refletisse sobre tudo que perdeu somente por que um grupo de pessoas quer brigar com outro grupo. E o que é pior, por causa de um time de futebol.

PS: Comentários divulgados em 05 de Outubro de 2009 e transformados em crítica em 21 de Dezembro de 2012.

Hooligans foto 2Texto atualizado em 21 de Dezembro de 2012 por Roberto Siqueira