E.T. – O EXTRATERRESTRE (1982)

(E.T., The Extraterrestrial)

 

Videoteca do Beto #26

Dirigido por Steven Spielberg.

Elenco: Henry Thomas, Robert MacNaughton, Drew Barrymore, Dee Wallace-Stone, Peter Coyote, K.C. Martel, Sean Frye, C. Thomas Howell, Frank Toth, Pat Welch e Debrah Winger (E.T. – voz).

Roteiro: Melissa Mathison.

Produção: Kathleen Kennedy e Steven Spielberg.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

“ET, o extraterrestre é um filme mágico”. Esta é a melhor definição que consigo encontrar para descrever este clássico maravilhoso. A obra que marcou uma geração e comprovou o enorme talento de Spielberg de uma vez por todas é uma espetacular mistura de suspense, humor, drama e ficção que capta com competência toda a magia que o cinema pode proporcionar, deixando suas belíssimas imagens registradas na mente de cada espectador para sempre.

Um ser de outro planeta se perde na Terra e é protegido por um garoto de dez anos, filho de pais separados, que fará de tudo para evitar que ele seja transformado em cobaia. Enquanto tentam fazer contato para que o extraterrestre volte ao seu planeta, uma forte amizade surge entre os dois.

A figura encantadora do extraterrestre simboliza o amigo imaginário, tão comum na infância, ainda mais em crianças solitárias e carentes. Elliot (Henry Thomas) é uma delas. A separação recente de seus pais é motivo de forte (e óbvio) sofrimento para o garoto e seus outros dois irmãos, Michael (Robert MacNaughton) e Gertie (Drew Barrymore, ainda uma pequena garota). O competente roteiro de Melissa Mathison (que criou ainda a frase “ET, phone, home” que marcou o cinema para sempre) aborda este tema de forma muito sensível, como podemos observar na primeira discussão da família na mesa após o primeiro encontro entre o garoto e o ET (“Papai ia acreditar em mim”). A forte frase do menino provoca o choro de sua mãe (Mary, interpretada por Dee Wallace-Stone) e escancara logo no inicio do filme o problema que aquela família enfrenta. “Ele odeia o México” diz Mary em prantos, mostrando a falta que sente do marido separado (e pai ausente). Em outro momento do longa, Michael e Elliot encontram a camisa do pai e lembram de quando iam aos jogos e ao cinema com ele, reforçando o quanto aquele pai faz falta pra eles.

Sabendo da identificação que aquela situação causaria na maioria das crianças e jovens da época (os anos oitenta viveram um boom de separações de casais, inédito até então), Spielberg mantém a câmera na maior parte do tempo no campo de visão das crianças (a um metro do chão, na altura da cintura dos adultos), o que facilita ainda mais a empatia do público infantil com o filme. Observe, por exemplo, como nunca vemos o rosto dos vários homens que andam pela floresta com lanternas, assim como o das pessoas que rondam a casa de Elliot. Mas o talento de Spielberg não pára por aí. O diretor abusa de lindos planos, como na cena em que Elliot e ET fazem o primeiro contato, com a casa do lado esquerdo e o quarto do lado direito do plano sendo cobertos por uma névoa. Podemos citar também o travelling inicial, descendo das estrelas até chegar à nave espacial, mudando lentamente o tom do céu de preto pra azul, além do plano da cidade toda iluminada do alto do monte onde a nave está aterrissada. Spielberg aproveita ainda para ilustrar o valor da verdadeira amizade, mesmo que esta seja entre um humano e um não humano (neste caso um extraterrestre, que poderia também ser um animal de estimação ou um amigo imaginário). O próprio formato do ET colabora e muito para a identificação com o público. Os olhos grandes e azuis e o coração luminoso transmitem sentimentos e o aproximam demais do espectador. Além disso, quando ET imita os gestos de Elliot, os dois estão criando uma conexão que tornará a amizade ainda mais forte, num momento que lembra a cena de “Tubarão” em que pai e filho fazem a mesma coisa. Elliot e ET sentem sono, fome, se assustam, ficam embriagados e adoecem juntos, o que dá sentido à engraçada cena em que ET vê um beijo na televisão e Elliot beija sua colega na escola. O filme conta ainda com uma flor, que é um inteligente artifício utilizado para sinalizar o estado de saúde (e talvez emocional) do extraterrestre. Com tudo isto, é impossível não se identificar com a amizade entre ele e as crianças (Elliot em especial).

Finalmente, Spielberg se aproveitou também do extraordinário desempenho dos atores mirins para alcançar sucesso absoluto, dando liberdade total para que eles desempenhassem seus papéis da forma mais livre possível, resultando em atuações maravilhosas e muito realistas. Henry Thomas está muito bem como Elliot, o melhor amigo de ET. Repare sua ótima atuação quando está na cama fingindo ter febre para ficar em casa com o amigo extraterrestre. No momento em que sua mãe pega o edredom, ele pensa que o ET está ali e mostra sua aflição de forma muito convincente. Quando ela sai do quarto bagunçado pela chegada do extraterrestre, ele ergue as mãos e resmunga, demonstrando seu alívio pela saída da mãe e, ao mesmo tempo, sua irritação pela demora dela pra sair de lá. Drew Barrymore está encantadora como a pequena Gertie. Suas falas são sinceras e inocentes, como é de se esperar vindo de uma criança tão jovem. Quando o ET fala pela primeira vez, Gertie quer mostrar para sua mãe, mas ela ignora a filha e sequer nota a presença dele na cozinha. Robert MacNaughton completa o elenco mirim com competência, interpretando Michael. Entre os adultos, destaque para Dee Wallace-Stone, vivendo a sofrida mãe das crianças e para Peter Coyote, como Keys, o adulto que compreende o drama de Elliot. Todos os demais parecem não compreender a importância daquele ser fascinante na vida daquelas crianças (observe o olhar encantado dos três irmãos para o ET no quarto, em um belo plano de Spielberg). Pelo menos esta é a visão de Elliot, que acredita seriamente que “eles vão matá-lo”, aumentando a empatia com o público infantil ao mostrar a incapacidade dos adultos em compreender o universo da infância, mesmo que todos já tenham pertencido a ele um dia. A tensa seqüência em que os homens invadem a casa de Elliot para capturar ET também reflete esta intolerância.

O trabalho técnico do filme é igualmente espetacular. A começar pela excelente direção de fotografia de Allen Daviau, que destaca a cor azul em diversos momentos do longa, numa alusão ao espaço sideral, a casa do ET. Os efeitos visuais (mérito da Industrial Light & Magic) são sensacionais. Destacam-se os objetos voando em direção ao ET, as bolinhas representando os planetas girando em torno do sol e as duas cenas das bicicletas voadoras. O ritmo perfeito do longa, que equilibra suspense, humor, drama e ficção, é mérito também da excelente montagem de Carol Littleton. Os efeitos sonoros dão vida a cada movimento de ET (repare sua respiração), num trabalho absolutamente perfeito. E claro, o maior destaque vai para a sensacional trilha sonora de John Williams. Linda, encantadora, mágica e inesquecível (às vezes não existem adjetivos suficientes), conta com uma música tema poderosa e ainda pontua toda a trama com variações dela, além de utilizar outras composições magníficas.

Como não poderia deixar de ser em um filme desta qualidade, ET conta ainda com cenas absolutamente inesquecíveis. De que outra forma poderíamos descrever a belíssima seqüência em que Elliot e ET voam pela primeira vez de bicicleta, passando em frente à lua? É um casamento perfeito entre direção, efeitos visuais e trilha sonora, criando uma cena mágica. A cena da “morte” do ET e sua volta à vida é linda e extremamente tocante. Já a ação fica por conta da fuga de Michael, Elliot e ET no furgão e, posteriormente, a fuga de bicicleta com todos seus amigos. E finalmente, a segunda seqüência em que as bicicletas voam nos brinda com outro momento mágico e inesquecível. Quando vemos o close nos olhos de ET, já sabemos o que vai acontecer devido à primeira cena e a satisfação no espectador é inevitável.

É difícil conter as lágrimas com o comovente final de “E.T., O Extraterrestre”. A amizade do garoto com o extraterrestre é sincera, pura e absolutamente marcante. Este é um filme que embalou os sonhos de uma geração, e é interessante notar que não envelheceu, se tornando ainda melhor com o passar do tempo. Spielberg contou com um elenco infantil espetacular, uma equipe talentosa e com sua enorme criatividade para criar uma obra que fala para todas as idades de uma forma singular e emocionante.

Texto publicado em 15 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

LUZES DA CIDADE (1931)

(City Lights)

 

Filmes em Geral #19

Filmes Comentados #13 (Comentários transformados em crítica em 21 de Outubro de 2010)

Dirigido por Charles Chaplin.

Elenco: Charles Chaplin, Virginia Cherrill, Florence Lee, Harry Myers, Hank Mann, T.S. Alexander, Harry Ayers e Al Ernest Garcia.

Roteiro: Charles Chaplin.

Produção: Charles Chaplin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

É mais que reconhecida a habilidade de Charles Chaplin para misturar humor e drama, provocando a emoção genuína no espectador sem apelar para o melodrama ou narrativas formulaicas. Poucas vezes, porém, esta habilidade funcionou tão perfeitamente como neste lindo “Luzes da Cidade”, que funciona como uma flechada certeira no coração daqueles que verdadeiramente amam a sétima arte. E apesar de entender os riscos de uma afirmação deste tipo, não posso deixar de registrar que este é, para mim, o mais perfeito casamento entre humor e sentimentalismo da carreira deste genial cineasta.

A paixão de um vagabundo (Chaplin) por uma vendedora de flores cega (Virginia Cherrill), que acidentalmente acredita que ele é um milionário, o motiva a tentar conseguir o dinheiro necessário para realizar a cirurgia que poderia lhe restaurar a visão. A oportunidade de ouro aparece quando o vagabundo faz amizade com um homem milionário (Harry Myers), que tentava o suicídio após ser abandonado pela mulher.

Chaplin abriu mão do diálogo, já plenamente utilizado nos filmes da época, para fazer um clássico do cinema mudo de primeira qualidade neste lindo “Luzes da Cidade”, dirigido e interpretado por ele próprio, que, além disso, ainda assina o roteiro, a trilha sonora e a montagem. Sempre inteligente, ele decidiu não utilizar diálogos, pois sabia que isto significaria a destruição da imagem de seu icônico personagem “vagabundo”, claramente identificado com o cinema mudo e que, justamente por não falar, podia ser entendido pelo público de todas as idades e em qualquer idioma. Mas embora não tenha utilizado diálogos, o longa utiliza o som diegético de forma brilhante, sempre trabalhando a favor da narrativa e provocando o riso, como quando podemos ouvir o disparo das armas, o apito que o vagabundo engole e o som do gongo durante a luta. Escrito pelo próprio Chaplin, “Luzes da Cidade” balanceia a comédia e o drama corretamente, mantendo o espectador sempre ligado na trama, graças também a excepcional condução de Chaplin, tanto na direção quanto na montagem, mantendo controle absoluto sobre a narrativa e adotando o ritmo correto em cada cena. E até mesmo o hoje ultrapassado método de passagem do tempo através das folhas de calendário voando soava charmoso e elegante na época. Mais uma vez, o roteiro aborda temas recorrentes em sua filmografia, como os problemas com os guardas e a fome, ilustrada quando o vagabundo é expulso da casa do homem rico e sai pegando as frutas da mesa. Vale destacar também a inteligente fuga do vagabundo da casa do homem rico com os mil dólares, perfeitamente orgânica e aceitável. Tecnicamente, vale destacar ainda a linda trilha sonora, composta pelo próprio Chaplin, e a fotografia de Mark Marklatt, Gordon Pollock e Roland Totheroh, que contrasta bem o sombrio mundo do triste homem rico com os alegres momentos vividos pelo vagabundo ao lado da florista, quase sempre iluminados pela luz do dia. Finalmente, vale observar que durante um intervalo na luta, o sonho do vagabundo com a garota cega revela a simpatia de Chaplin pelos efeitos visuais, sempre utilizados de maneira orgânica, algo já demonstrado anteriormente em outros filmes como “O Circo” e “O Garoto”.

Como ator, Charles Chaplin dispensa comentários. Sensacional intérprete e dançarino, ele é sempre capaz de criar cenas absurdamente engraçadas, ainda que estejam inseridas numa história cativante e bela. Seu talento consegue arrancar gargalhadas somente através de suas expressões corporais, como podemos notar nas inúmeras e excelentes gags visuais do longa, em especial aquelas vividas pelo vagabundo e o excêntrico milionário, interpretado por Harry Myers. Harry Myers, aliás, que também tem boa atuação, alternando da seriedade quando está sóbrio para a alegria desmedida quando está bêbado, como podemos observar em sua engraçada reação quando vê o vagabundo deitado em sua cama, olhando para o céu como quem pensa “Como isso foi acontecer?”. Vale destacar também a maravilhosa atuação de Virginia Cherrill como a garota cega por quem o vagabundo se apaixona. Seu olhar “perdido no horizonte distante” e a forma como ela tateia os objetos tornam a cegueira da personagem em algo muito verossímil. Finalmente, já com a visão restaurada, Cherrill emociona ao lado de Carlitos no belíssimo final do filme.

Dentre todas as ótimas cenas engraçadas do filme, destaca-se a sensacional luta de boxe, repleta de divertidas gags visuais. Trata-se de uma verdadeira aula de cinema, onde a imagem e o som diegético do gongo são suficientes para nos divertir. Além disso, toda a preparação da cena merece destaque, com o vagabundo negociando o prêmio com seu adversário, a fuga deste antes da luta, o pé de coelho e a volta do homem supersticioso desmaiado e a postura de seu novo adversário, claramente mais forte e invocado que o anterior. Chaplin aproveita a situação para nos divertir, através de suas engraçadas reações e de seu criativo método de lutar, utilizando o juiz como escudo e o gongo a seu favor. Mas ainda que seja extremamente divertida, a cena do boxe não pode ser considerada a melhor do longa, simplesmente por causa da existência de outra cena memorável, que acontece no momento sublime em que a garota cega, após a cirurgia, se diverte com as trapalhadas do vagabundo e, através do tato, reconhece emocionada quem ele é. Nunca o fraco trocadilho “o amor é cego” funcionou tão bem. Este arrebatador final inspirou comentários em todo o mundo, como o do crítico de cinema James Agee da revista “Life”, que afirmou ser esta “a melhor atuação já registrada em celulóide”. Um exagero, mas que dá a exata noção do impacto da cena.

Neste lindo “Luzes da Cidade”, o vagabundo tão engraçado e mágico de Charles Chaplin ensaiava sua despedida. Certamente um dos mais belos filmes da carreira do genial inglês, se destaca pela narrativa coesa, pelas divertidas seqüências e, principalmente, pela bela história de amor que narra, conquistando com simplicidade e eficiência o espectador.

PS: Comentários divulgados em 14 de Dezembro de 2009 e transformados em crítica em 21 de Outubro de 2010.

Texto atualizado em 21 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

BLADE RUNNER – O CAÇADOR DE ANDRÓIDES (1982)

(Blade Runner)

 

Videoteca do Beto #25

Dirigido por Ridley Scott.

Elenco: Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Edward James Olmos, Daryl Hannah, William Sanderson, Brion James, Joe Turkell, Joanna Cassidy, James Hong e Morgan Paull.

Roteiro: Hampton Francher e David Webb Peoples, baseado em livro de Philip K. Dirk.

Produção: Michael Deeley.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

De acordo com “Blade Runner – O Caçador de Andróides”, belíssima ficção-científica dirigida por Ridley Scott, o futuro do planeta é sombrio e assustador. O crescimento descontrolado das grandes metrópoles, aliado à globalização e a destruição do meio ambiente, provocou profundas alterações climáticas e sociais, transformando o planeta em um local frio, deteriorado e muito complicado de se viver. Este sombrio ambiente serve como pano de fundo para uma trama que levanta questões muito profundas a respeito da existência humana, gerando discussões filosóficas e provocando até mesmo estudos baseados no longa. Além disso, o filme desenvolve personagens complexos e fascinantes. E todos eles buscam respostas que não serão encontradas facilmente.

O ano é 2019. Uma grande corporação desenvolveu um robô, conhecido como replicante, que é idêntico ao ser humano em sua aparência e inteligência, porém mais forte e ágil. Utilizados como escravos na exploração de outros planetas, um grupo destes replicantes se rebela. O problema é que o motim provoca a reação imediata das autoridades terrestres, que proíbem a presença de replicantes no planeta, sob pena de morte. É quando seis replicantes chegam a Terra após render uma tripulação e o ex-caçador de andróides Deckard (Harrison Ford) é chamado para matá-los, numa operação que não é conhecida como execução, e sim remoção.

Como de costume nos filmes dirigidos por Scott, o visual deslumbrante do mundo futurista decadente se destaca logo no inicio do longa, graças ao excelente trabalho de direção de arte de David L. Snyder. Tudo é fascinante. Os carros sujos, a cidade poluída repleta de prédios enormes que se espremem em pequenos espaços, o contraste entre os luxuosos apartamentos dos ricos no alto dos prédios e a podridão da ralé que vive no nível do chão, o resultado da globalização, com uma verdadeira torre de babel circulando neste submundo repleto de pessoas de diversas nacionalidades, o clima quase sempre chuvoso, nublado e sombrio, resultado das mudanças climáticas provocadas pelo crescimento exacerbado do capitalismo, carros voadores, um festival de luzes e muito neon piscando com propagandas em toda parte. Tudo está lá, diante de nossos olhos, com um realismo incrível. A fotografia azulada e escura (direção de Jordan Cronenweth), que remete aos filmes noir, esconde os personagens nas sombras e ao mesmo tempo cria um forte contraste com os raios de luz (ou luzes piscando freneticamente) que entram nos ambientes, criando um visual sombrio e triste, refletindo a vida destas pessoas neste mundo frio e cruel. Claramente, este é o resultado de anos e anos de crescimento sem controle, sem preocupação ambiental e sem sustentabilidade, que provocou a degradação total do planeta e das relações humanas. A trilha sonora eletrônica de Vangelis completa a parte técnica casando perfeitamente como o ambiente do filme (e soando bastante ousada para a época). Os carros voadores dos policiais raramente arriscam entrar no violento submundo, onde as pessoas vivem precariamente. O perigo que os replicantes (andróides) representam é bem resumido na frase de um policial “Ele está respirando bem agora, desde que não desliguem os aparelhos”, se referindo ao último caçador de andróides que fez o teste com um deles. O teste, apresentado logo no inicio do filme, se resume a uma série de perguntas feitas de forma a identificar um replicante, já que fisicamente eles são idênticos ao seres humanos. Mentalmente, porém, são diferentes, já que não têm passado, e através das perguntas (e da dilatação dos olhos quando as escutam), os caçadores conseguem identificá-los. Aliás, a criatividade da tecnologia empregada em “Blade Runner” também é fascinante, como podemos notar, por exemplo, na máquina que Deckard utiliza para analisar uma fotografia.

Ridley Scott acerta a mão também no ritmo da narrativa. Lento e reflexivo, “Blade Runner” não é um simples filme de perseguição. É muito mais que isso. É claro que existem boas seqüências de ação. Auxiliado pela boa montagem de Marsha Nakashima, o diretor cria uma seqüência empolgante durante a perseguição de Zhora, por exemplo. Os cortes ágeis e precisos aumentam a adrenalina da cena sem torná-la confusa. Por outro lado, quando Deckard finalmente alcança Zhora e atira, ele utiliza a câmera lenta, mostrando em detalhes o impacto daquele ataque e a reação angustiada de Deckard, que sente pelo que fez, mas cumpre o seu dever. A trilha sonora triste marca o momento. A empolgante seqüência final entre Roy e Deckard também é sensacional, repleta de tensão e realismo. Mas o principal acerto de Scott, que conta com o criativo e excepcional roteiro de Hampton Francher e David Webb Peoples (baseado em livro de Philip K. Dirk), é a ambigüidade de cada um dos personagens e as inúmeras reflexões que provocam no espectador.

Todos os personagens em “Blade Runner” estão em busca de algo. Harrison Ford encabeça o elenco, encarnando muito bem o caçador de andróides Deckard que busca exterminar os replicantes da Terra, ao mesmo tempo em que busca também sua própria identidade. Ford acerta ao balancear a frieza e determinação com que Deckard parte para cumprir sua missão com a emoção contida, porém sensível, que sente quando está com a aflita Rachel, interpretada com competência por Sean Young. As dúvidas sobre sua própria origem e a angustia após descobrir a verdade são muito bem retratadas pela atriz. Quando Rachel demonstra ter sentimentos por Deckard, o espectador provavelmente se pergunta “E agora?”, já que ele descobre gostar dela praticamente ao mesmo tempo em que é avisado que precisa matá-la. “Eu sou o trabalho” diz ela, ciente da missão do parceiro. Deckard, por sua vez, sabe o que precisa fazer, mas não terá coragem para isso. Rutger Hauer está sensacional como o frio e assustador Roy, que busca desesperadamente encontrar uma forma de prolongar sua existência, já programada anteriormente para durar apenas quatro anos. Por outro lado, o ambíguo personagem demonstra “humanidade” no terceiro ato, quando salva Deckard e mostra seus sentimentos mais puros e sinceros, além de levantar questões profundas sobre a existência de cada ser no universo. Seu lado emocional fica ainda mais evidente quando sua amada Pris (Daryl Hannah) é assassinada por Deckard, provocando seu emotivo beijo de despedida. A tensa seqüência em que Roy mata Tyrell (Joe Turkell) é de um simbolismo tremendo. A perversidade da inteligência humana é colocada em cheque. Até mesmo a coruja é criada artificialmente na casa dos Tyrell. Insatisfeita com sua existência sem sentido, a criatura mata o criador. Afinal de contas, que sentido tem uma vida programada apenas para ser escravizada e com tão pouco tempo de existência? Em seguida, Roy aparece iluminado em um plano poderoso que reflete sua satisfação.

Quando descobrimos que as memórias de Rachel (brincadeira de médico, as aranhas) são implantadas, as reflexões que o filme sugere se tornam mais evidentes. As memórias dela, na realidade, são da sobrinha de Tyrell, o gênio que criou os replicantes. Tyrell limitou a existência destes seres em apenas quatro anos ao prever que poderiam desenvolver sentimentos próprios e o choro de Rachel ao descobrir toda a verdade comprova esta teoria. E é curioso pensar o que aquele ser, humano ou não, estaria sentindo naquele momento, nos levando a questionar até que ponto é justo o ser humano criar outro ser desta forma. Deckard, ao descobrir que seria incapaz de eliminar Rachel, decide fugir com ela, mesmo sabendo que a moça não sobreviveria por muito tempo. “É uma pena que ela não viverá, mas quem vive”, é a frase final de Gaff (Edward James Olmos), que remete a discussão central do filme, sobre a natureza finita de nossa existência.

Então chegamos ao dilema de “Blade Runner”, enriquecido pela bela discussão filosófica que o longa propõe. Seria Deckard é um replicante? Durante toda a narrativa são espalhadas dicas sobre a origem dele, mas de uma forma tão sutil que provavelmente a maioria dos espectadores não consegue notar. Primeiro, o texto que abre o longa diz que seis replicantes estão soltos na terra (três homens e três mulheres). Os quatro primeiros são logo identificados, mas o quinto só é revelado quando descobrimos que Rachel é uma replicante. Acontece que ela não sabe disso, pois foi utilizada como cobaia em experimentos de implante de memória e pensa ter tido uma infância. Sendo assim, não podemos descartar a hipótese de que Deckard também tenha memórias implantadas em sua mente. Além disso, quem garante que o sexto replicante realmente teria sido queimado quando invadiu a empresa Tyrell? É provável que seja apenas uma estória inventada pela policia para não levantar suspeita sobre a origem replicante de Deckard. Não podemos negar que é extremamente inteligente por parte da policia utilizar um replicante para caçar outros replicantes, já que ele se iguala em força e agilidade com os demais. Mas porque os policiais deixariam Deckard escapar? Ora, Gaff, o policial que faz origamis, deixa um unicórnio para Deckard momentos antes de sua fuga com Rachel. Como Gaff poderia saber desta passagem remota da vida dele, lembrada apenas em sonhos por Deckard? Este é o claro sinal de que ele pode ser um replicante e os policiais sabiam disso. Como podemos perceber, o filme levanta possibilidades, mas não as confirma. É o espectador quem deve buscar as respostas, o que é genial. Mas “Blade Runner” vai além, se aprofundando também em questões filosóficas sobre a existência humana. O que é ser um humano? De onde viemos e para onde vamos? A marcante frase de Roy no belíssimo diálogo que tem com Deckard (“Eu vi coisas que ninguém acreditaria. Todos esses momentos ficarão perdidos no tempo, como lágrimas na chuva”) resume bem o dilema de nossa existência. Por mais que existam meios de registrar fatos importantes (livros, vídeos, fotografias), muitas passagens importantes da vida de cada ser humano serão simplesmente apagadas do universo quando este deixar de existir.

Utilizando um mundo futurista incrivelmente sombrio que é apontado claramente como resultado das atitudes tomadas no passado pela humanidade, “Blade Runner – O Caçador de Andróides” levanta ainda muitas questões interessantes e profundas sobre a natureza da existência humana. O que acontecerá com cada um de nós quando a escuridão da morte chegar? De onde viemos? Para onde vamos? O que fizemos aqui será simplesmente apagado, “como lagrimas na chuva”? As respostas serão encontradas por cada espectador, de sua própria maneira. E esta é a beleza deste grandioso clássico, que marcou a ficção-científica e o cinema para sempre.

Texto publicado em 13 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

Enquanto isso, na Vila Olímpia…

Neste momento estou na Vila Olímpia, mais precisamente no bar “Seo Gomes”, junto com o “Brasil Inteligente” debatendo qual a finalidade de criar um blog onde opiniões contrárias à sua não podem ser divulgadas (ou seja, são sumariamente apagadas). Talvez o Reinaldo Azevedo possa esclarecer. Aliás, Reinaldo, se quiser tomar uma gelada conosco, é só aparecer…

Um abraço.

Texto publicado em 10 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

Áudio do Curso de Linguagem e crítica cinematográfica do crítico Pablo Villaça

Em 03 de Julho de 2009 divulguei aqui no blog o curso de Teoria, Linguagem e Crítica cinematográfica do crítico de cinema Pablo Villaça. Fiz o curso em Maio de 2009 e recomendo para todos aqueles que têm interesse em conhecer mais sobre a sétima arte e passar a ter uma nova visão sobre cinema. Recentemente, o Pablo publicou em seu blog dois links para o áudio com trechos do curso (justamente da edição que participei) em seu twitter. Tomo a liberdade de fazer o mesmo agora. Para quem tiver interesse, é um bom aperitivo. Observem a qualidade da aula, que além de ter bastante conteúdo, é também bem humorada:

– Para ouvir diretamente no twitter o áudio sobre a diferença entre assistir um filme no cinema e em casa clique aqui.

– Para ouvir diretamente no twitter o áudio sobre roteiro (dica e recompensa) clique aqui.

Não sei se o Pablo vai fazer novas edições do curso em São Paulo no próximo ano. Mas se fizer, fica aqui uma pequena degustação para aqueles que tiverem interesse. Vale lembrar que não tenho nenhuma ligação com o Cinema em Cena. A divulgação se deve pura e simplesmente ao fato de que gostei muito do curso e realmente recomendo para todos os amantes do cinema.

Um abraço.

Texto publicado em 09 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA (1981)

(Raiders Of The Lost Ark) 

 

Videoteca do Beto #24

Dirigido por Steven Spielberg.

Elenco: Harrison Ford, Karen Allen, Paul Freeman, Ronald Lacey, John Rhys-Davies, Alfred Molina, Denholm Elliott, Wolf Kahler, Don Fellows, William Hootkins, Fred Sorenson e Anthony Higgins. 

Roteiro: Lawrence Kasdan, baseado em estória de George Lucas e Philip Kaufman. 

Produção: Frank Marshall. 

 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O talentoso diretor Steven Spielberg tinha o sonho de dirigir um filme da série James Bond. Quando decidiu aceitar a oferta de seu amigo George Lucas, que estava se dedicando a outro projeto (nada mais nada menos que “Guerra nas Estrelas”), Spielberg realizou seu sonho e esta maravilhosa aventura chamada “Os Caçadores da Arca Perdida” ganhou vida nas telas, dando início a saga de um dos maiores heróis da história do cinema: Indiana Jones.

Tudo tem início quando o arqueólogo Indiana Jones (Harrison Ford) é contratado para encontrar a Arca da Aliança, que segundo as escrituras sagradas do cristianismo, continha os dez mandamentos que Moisés trouxe do Monte Horeb. Diz a lenda que quem possuir a arca será invencível, e por isso, Indiana terá que evitar que ela caia nas mãos do temível exército alemão, liderado por Adolf Hitler.

O grande mérito da aproximação que o herói Indiana Jones consegue criar com o público reside no fato de que ele parece sempre vulnerável. E isto ocorre porque Indiana é alguém de carne e osso, que comete erros e acertos, e não um super-herói que acerta em todas as decisões e jamais dá a sensação de que corre algum risco. Indiana, por muitas vezes, toma decisões erradas, que pioram ainda mais as coisas, como podemos perceber logo no início do filme, quando ao voltar de um local sagrado onde consegue um artefato indígena, ele passa o artefato para seu colega que se encontra do outro lado de um buraco onde só é possível passar com ajuda, somente para que este o abandone à beira deste abismo. É claro que além desta vulnerabilidade, a excelente atuação de Harrison Ford também é diretamente responsável pelo sucesso do icônico personagem. Sarcástico, ele encarna o arqueólogo de forma tão incrível que mal podemos imaginar outro ator na pele dele. Lembrando a dupla identidade comum em outros heróis (Superman, por exemplo), Indiana aparece como um professor sério e tímido na universidade, mas se transforma completamente quando está na pele do arqueólogo aventureiro. Toda a concepção do personagem é ótima. O chapéu e o chicote se tornaram marcas tão fortes que hoje em dia, qualquer pessoa, mesmo que não tenha visto o filme, sabe de quem se trata somente ao ver a sombra deles. Indiana é um herói que evita, a qualquer custo, trazer problemas para si, como fica claro na engraçada cena em que mata um especialista em espada com um tiro. Ele sempre opta por resolver a situação da forma mais simples possível. Egoísta, Indiana sempre vai tentar salvar sua pele, mas como não é infalível (e sabemos disso), muitas vezes toma decisões erradas e a situação piora ainda mais. E o fato de não sabermos se Indiana vai tomar a decisão correta torna ainda mais plausível um possível fracasso dele, o que aumenta a carga de tensão nas muitas cenas em que corre perigo.

O bom roteiro de Lawrence Kasdan é repleto de dicas e recompensas. Diversas situações ou objetos que aparecem terão reflexo no restante da narrativa, dando uma sensação de prazer ao espectador mais atento, como por exemplo, a mão queimada pelo artefato que serve de cópia para os alemães ou a capacidade de Marion (Karen Allen, em boa atuação) de tomar bebidas alcoólicas. Além disso, o roteiro espalha pelo filme diversos momentos bem humorados, o que, desde que bem realizado, é sempre bem vindo em filmes de ação. Observe, por exemplo, a cena em que Sallah (John Rhys-Davies, muito bem como o fiel amigo de Indiana) olha para o poço das almas e vê algo se mexendo no escuro. Quando a tocha cai e ele percebe que são cobras, dá um grito de susto e em seguida se desculpa com Indiana (“Sorry Indy!”), pois sabe que o amigo as detesta. Outro engraçado momento é a fuga de Indiana da América do Sul, sendo perseguido por índios ferozes e gritando para o amigo ligar o motor do avião.

Outro grande destaque da produção são os excelentes efeitos visuais, conseguidos através de movimentos mecânicos, em uma época onde os efeitos de computadores ainda engatinhavam. Por isso, as trucagens utilizadas para conseguir estes efeitos soam bastante reais, exatamente porque eram feitas com dublês e em estúdio. A enorme carga de ação do longa garante seqüências extremamente interessantes, como por exemplo, a empolgante cena da perseguição no caminhão. Fica evidente ali que os movimentos são reais. Sabemos que o ator (ou o dublê) realmente passou por baixo do caminhão, o que aumenta nossa aflição na cena. Além disso, o filme conta ainda com efeitos absolutamente inovadores na época, como o rosto derretendo (mérito principalmente da maquiagem) e as luzes saindo da arca. A maravilhosa trilha sonora de John Williams é destas trilhas que se tornaram tão famosas que até mesmo quem não viu o filme a reconhece.

Completando o bom trabalho técnico, a direção de fotografia de Douglas Slocombe destaca cores opacas, refletindo bem o local árido que é o deserto no Cairo, a excelente direção de arte de Leslie Dilley cria cenários absolutamente encantadores como o poço das almas, os belíssimos figurinos de Deborah Nadoolman dão um visual perfeitamente coerente com o ambiente (além de colaborar sensivelmente para o já citado visual de Indiana), e finalmente, a montagem de Michael Kahn ajuda a manter o ritmo ágil e empolgante da narrativa, além de criar duas seqüências muito famosas durante toda a saga de Indiana (o logo da Paramount se transformando no primeiro plano do longa e a linha vermelha marcando no mapa a trajetória das viagens do herói).

E finalmente, é claro que para que tudo isto funcionasse de forma tão perfeita seria necessária uma direção competente. E Spielberg merece todos os créditos por isso. Sua direção é segura, conduzindo a narrativa de forma coerente e extraindo grandes atuações do elenco. O diretor cria ainda planos belíssimos e cenas inesquecíveis, como Indiana fugindo da bola gigante, a fuga do poço das almas, a perseguição no caminhão e a abertura da arca. Não podemos dizer que “Os Caçadores da Arca Perdida” seja um filme perfeito. Os defeitos existem, como uma cena pouco verossímil em que Indiana viaja em cima de um submarino por muitos dias, mas a fantasia que cria e a forma que mexe com a imaginação compensam qualquer erro.

A deliciosa aventura “Os Caçadores da Arca Perdida” consegue misturar ação, suspense e bom humor, alcançando um resultado maravilhoso. É inevitável nossa identificação com o carismático personagem principal e, por isso, embarcamos juntos com ele nesta viagem maravilhosa através da imaginação. A grande direção de Spielberg e a ótima atuação de Harrison Ford criaram, junto com toda a equipe, um herói clássico, muito próximo de todos nós, e exatamente por isso, inesquecível.

 

Texto publicado em 08 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

O Grupo do Brasil na Copa

Pretendo escrever com detalhes sobre todos os grupos da Copa do Mundo antes do mundial na África do Sul. Como ainda temos seis meses até lá, vou fazer o dever de casa, pesquisar direitinho sobre cada equipe e postar aqui no blog durante o próximo ano. Mas não posso deixar passar o sorteio sem fazer pelo menos um comentário sobre o grupo do Brasil.

Considero o grupo complicado, mas entendo que o Brasil tem totais condições de se classificar em primeiro lugar na chave. Aliás, o Brasil teria condição em qualquer chave, pois está entre as melhores seleções da atualidade. A Coréia do Norte é uma incógnita, mas provavelmente será o saco de pancadas do grupo. Costa do Marfim e Portugal são duas seleções que podem tranquilamente sonhar com as Oitavas e até mesmo as Quartas-de-final dependendo do cruzamento. Mas o Brasil é favorito, sem dúvida nenhuma. O risco existe, principalmente se o Brasil tropeçar em um destes dois complicados adversários e ficar em segundo da chave, cruzando provavelmente com a forte seleção espanhola logo nas oitavas, o que seria muito perigoso. Por isso, é bom lembrar de 2002, quando a Argentina, também em um grupo complicado, foi eliminada com uma vitória contra a Nigéria, um empate contra a Suécia e uma derrota para a Inglaterra, todos resultados absolutamente normais. É bom abrir o olho, mas é bom também iniciar a Copa já com grandes jogos, e este grupo já garantiu três grandes confrontos logo na primeira fase do mundial. O futebol agradece.

E pra você, o grupo do Brasil é fácil, razoável ou difícil?

Um abraço e bom debate.

 

 

 

 

 

 

 

Texto publicado em 07 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

REQUIEM PARA UM SONHO (2000)

(Requiem for a Dream) 

 

Filmes Comentados #12

Dirigido por Darren Aronofsky.

Elenco: Ellen Burstyn, Jared Leto, Jennifer Connelly, Marlon Wayans, Chrisopher McDonald, Louise Lasser, Keith David e Sean Gullette. 

Roteiro: Darren Aronofsky, baseado em livro de Hubert Selby Jr.. 

Produção: Eric Watson e Palmer West.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de esclarecer que os filmes comentados não são críticas. Tratam-se apenas de impressões que tive sobre o filme, que divulgo por falta de tempo para escrever uma crítica completa e estruturada de todos os filmes que assisto. Gostaria de pedir que só leia estes comentários se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama]. 

– Requiem significa “repouso” em latim. Uma das famosas composições de Mozart é o Requiem, que a Igreja Católica utiliza em cerimônias fúnebres. Portanto, o “repouso” em questão tem um sentido de morte mesmo. Sendo assim, Requiem para um Sonho pode ser interpretado como o repouso eterno (ou morte) dos sonhos dos quatro personagens que o longa nos apresenta.

– Grande libelo anti-drogas, “Requiem para um Sonho” consegue passar uma mensagem sensível de forma direta e atordoante. O mundo do vício é abordado sem maquiagens, de forma crua e real, chocando o espectador e alcançando um resultado espetacular.

– A montagem de Jay Rabinowitz é simplesmente sensacional. Desde o inicio, com a tela dividida mostrando simultaneamente as ações de Harry (Jared Leto) e Sara (Ellen Burstyn), passando pelo pequeno clipe que simboliza o uso de drogas, notamos a qualidade do trabalho, que dita um ótimo ritmo ao filme. Podemos citar também o café da manhã de Sara, quando a laranja, o café e o ovo somem rapidamente, mostrando a agonia que ela sentia comendo somente aquilo, enquanto o relógio mostra a lenta passagem do tempo. A refeição parecia durar alguns segundos, enquanto que no restante do dia o tempo passava lentamente.

– A trilha sonora de Clint Mansell é linda. Reflete bem a agonia daquelas vidas presas a tantos vícios.

– Repare como o estilo do pequeno clipe que passa toda vez que alguém usa uma droga também é utilizado toda vez que Sara liga ou desliga a TV. A analogia é lógica: a TV também é um vicio, assim como as drogas. Harry chega até mesmo a dizer para Marion (Jennifer Connelly) que a mãe é viciada em televisão. E não são somente estes dois vícios que o filme aborda com competência. Temos também o vício em pírulas para emagrecer, os viciados em dinheiro, viciados em sexo e até mesmo um viciado em mulheres.

– Ellen Burstyn tem uma atuação fantástica, com destaque para a cena em que ela chega à emissora de televisão e é retirada pela polícia para ser levada ao hospital. Sua transformação de mulher tranqüila para completamente viciada em remédios para emagrecer é sensacional.

– Jennifer Connelly também tem uma atuação excepcional, retratando bem até que ponto o ser humano pode chegar quando está viciado. Moça de bom coração, porém seriamente afetada pelo vicio, ela vai até o fundo do poço, chegando inclusive a participar de festas com sexo bizarro para conseguir droga. Observe sua reação ao elogio de Harry quando está deitada com ele. Ela o ama de verdade, mas o vicio destruiu sua vida.

– Marlon Wayans e Jared Leto estão muito bem como os dois jovens sonhadores e viciados. A química da dupla é ótima, e os dois atores conseguem grandes desempenhos nos momentos mais dramáticos, como a prisão de Tyrone (Wayans) e o desespero de Harry ao sentir saudades de Marion. Além disso, estão praticamente perfeitos quando drogados (Connelly não fica atrás), mostrando a euforia e o desespero que o vício provoca.

– Harry é um bom filho, como podemos notar quando dá a televisão para a mãe e diz que vai visitá-la. Porém, infelizmente, o vício o transformou em um jovem problemático, que abandona a mãe e a faz sofrer. A família desestruturada sente muito a falta do pai, como fica evidente no contundente diálogo entre Sara e Harry (“Eu vivo só!”). Sara buscou na televisão uma válvula de escape para a solidão e a tristeza. Harry buscou nas drogas. E embora possamos entender, não podemos aceitar nenhuma das duas alternativas encontradas.

– A direção de Darren Aronofsky é muito dinâmica e cheia de planos criativos. A narrativa segue um ritmo ágil e Aronofsky é competente ao manter este ritmo com perfeição. Um exemplo de movimento de câmera interessante é quando Harry escuta o ranger dos dentes de sua mãe e a câmera lentamente gira em torno de sua cabeça até ficar de frente para ela, com o som mostrando o que lhe incomodava. Em outro momento, auxiliado pela excelente montagem, ele mostra Harry olhando para a janela e vendo Marion à beira da água. A imagem então transita para Harry andando em direção dela, e quando ela some, podemos ver que ele estava na casa, imaginando tudo aquilo. Outro momento de destaque é o video com imagens aceleradas que simboliza a agitação e ansiedade de Sara, além de alguns momentos em que a câmera fica presa aos atores, captando de perto suas reações, como quando Tyrone foge dos traficantes e quando Marion sai do apartamento de Arnold (Sean Gullette).

– O médico sequer olha no rosto de Sara para receitá-la. O tratamento impessoal mostra que ele não se importava se ela estava ou não com problemas, se limitando apenas a dar os remédios, sem se preocupar com as possíveis conseqüências do mau uso deles.

– A completa degradação do ser humano é retratada nas seqüências finais, quando todos eles chegam ao fundo do poço, completamente decadentes e afundados em problemas por causa de seus vícios. A fotografia de Matthew Libatique propositalmente utiliza cores frias, sem vida, refletindo a tristeza daquelas vidas vazias.

– A posição final de cada um deles, deitados na cama como bebês, mostra como o viciado pode ser visto como uma criança que não entende os limites do que pode e do que não pode fazer. Porém, sendo adultos, as conseqüências de seus desejos proibidos são infinitamente mais dolorosas e prejudiciais.

– “Requiem para um sonho” deveria ser exibido para os jovens, como forma de alertar sobre os perigos deste mundo das drogas. Não que eu acredite que esta seria a solução para o problema. Longe disso. Mas se de alguma forma o filme colaborar para que pelo menos um jovem não entre neste caminho, já será algo importante e que deve ser celebrado. 

 

Texto publicado em 06 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

Videoteca do Beto #23

Ontem informei que “Psicose” seria encaixado na seqüência da Videoteca. A crítica do clássico de Hitchcock já tinha sido publicada como “Filmes em Geral #4”, por isso, somente adicionei em seu cabeçalho a classificação “Videoteca do Beto #23” (a última crítica da Videoteca divulgada era Touro Indomável #22). Esta numeração serve apenas como controle pessoal da seqüência em que divulgo as criticas, normalmente seguindo uma ordem cronológica. Reforço a explicação porque a seqüência às vezes fica bagunçada, devido à compra fora de ordem dos filmes. Em todo caso, o importante é o texto divulgado. O link direto (lado direito do blog) ajuda na localização de todas as críticas.

Se quiser ler a crítica do filme Videoteca do Beto #23 (Psicose), basta clicar aqui.

Um abraço.

Texto publicado em 05 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

Videoteca do Beto: novas aquisições

Abaixo a foto dos 10 novos integrantes da Videoteca do Beto:

Psicose (1960)*

Spartacus (1960)**

A Primeira Noite de um Homem (1967)**

Apocalypse Now (1979)**

Blade Runner – O Caçador de Andróides (1982)

O Último Imperador (1987)

Tomates Verdes Fritos (1991)

Cães de Aluguel (1992)

Quatro Casamentos e um Funeral (1994)

Matrix (1999)

* “Psicose” já tem crítica divulgada na categoria “Filmes em Geral”. Por isso, será simplesmente encaixado na seqüência da Videoteca do Beto.

** Os filmes que chegarem depois de sua posição na ordem cronológica das críticas “Videoteca do Beto” serão assistidos e avaliados na medida do possível e serão encaixados na seqüência da Videoteca. Por exemplo, se a Videoteca estiver no filme #37 e eu divulgar em seguida a crítica do filme “Spartacus”, este será o filme Videoteca do Beto #38.

Um abraço.

 

Texto publicado em 04 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira