O FALCÃO MALTÊS (1941)

(The Maltese Falcon)

 

Filmes em Geral #73

Dirigido por John Huston.

Elenco: Humphrey Bogart, Mary Astor, Gladys George, Peter Lorre, Barton MacLane, Lee Patrick, Sydney Greenstreet, Ward Bond e Jerome Cowan.

Roteiro: John Huston, baseado em livro de Dashiell Hammett.

Produção: Henry Blanke e Hal B. Wallis.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Não bastasse ser um dos mais conhecidos representantes do film noir, “O Falcão Maltês” ainda pavimentou o caminho de sucesso de dois importantes nomes da história do cinema: John Huston e Humphrey Bogart (que estrelaria “Casablanca” um ano depois). Além disso, a intrincada e deliciosa narrativa, que mistura momentos sarcásticos com outros de puro suspense, estabeleceu padrões que seriam seguidos por muitos dos filmes posteriores, definindo também características clássicas do gênero, como os personagens ambíguos, os ambientes obscuros (inspirados no expressionismo alemão) e a mulher fatal.

Dirigido por John Huston, “O Falcão Maltês” apresenta todas as características marcantes do film noir – apontadas pelos críticos franceses que estudaram o movimento -, como os detetives de caráter duvidoso, os ambientes fechados e o predomínio de cenas noturnas (direção de fotografia de Arthur Edeson), a trama policial e, obviamente, a narrativa que gira em torno de algum crime. No caso, o detetive particular Sam (Humphrey Bogart) é procurado por Brigid O’Shaughnessy sob a alegação de que a moça está sendo ameaçada. Só que tanto o seu perseguidor como a pessoa contratada para protegê-la aparecem mortas e a investigação começa a levantar suspeita de praticamente todos os envolvidos.

O roteiro intrincado do próprio John Huston, baseado em livro de Dashiell Hammett, desenvolve a trama com cuidado, nos levando lentamente para a tensa conclusão, mas já fisgando o espectador logo no início, com a morte do parceiro de Sam. Da mesma forma, Huston tem o cuidado de não tornar os personagens unidimensionais, deixando sempre uma dúvida no ar sobre o caráter de cada um deles. Através da linguagem despojada, cheia de gírias, e de atitudes ambíguas de praticamente todos os personagens, Huston jamais permite ao espectador antecipar o que acontecerá na trama, o que só colabora para que a narrativa se torne cada vez mais tensa e imprevisível.

Os figurinos de Orry-Kelly e os ambientes fechados e sombrios (direção de arte de Robert M. Haas) colaboram com esta atmosfera tensa, além de criarem o visual marcante e obscuro pretendido pelo diretor. A imagem do detetive vestido com chapéu e sobretudo, fumando um charuto e bebendo uísque é uma das marcas registradas dos chamados filmes noir e “O Falcão Maltês” é um dos responsáveis por isto. É interessante notar também como todas as ações dos personagens levantam suspeitas contra eles próprios – em outra marca registrada do movimento evidente no longa. Observe, por exemplo, como muitos indícios espalhados pela trama nos levam a crer que o próprio Sam teria assassinado o parceiro Miles (Jerome Cowan), como o beijo dele em Iva (Gladys George) – a viúva de Miles -, a própria sociedade que eles dividiam no escritório (que justificaria um suposto interesse dele na parte do parceiro) e, principalmente, o comportamento ambíguo do protagonista, capaz de chantagear uma cliente teoricamente abalada como a Srta. O’Shaughnessy.

Sempre seguro e impondo respeito, Bogart só reforça esta natureza ambígua do personagem, soando convicto em suas afirmações mesmo quando os indícios sugerem que ele pode estar mentindo. Sedutor com as mulheres e misterioso diante das autoridades, Sam é o típico personagem central dos filmes noir e, entre tantos momentos de destaque, vale mencionar sua explosão numa discussão com a polícia, em que ele sai rindo da sala, mas com as mãos tremulas, confirmando seu nervosismo diante daquela situação. E não é apenas Sam que apresenta uma personalidade ambígua. Praticamente todos os personagens soam misteriosos em determinado momento, desde Iva e seu caso escondido com Sam, passando por Cairo (interpretado pelo ótimo Peter Lorre), Brigid e o próprio detetive Dundy (Barton MacLane). A sensação que temos é a de que todos parecem esconder algo.

Esta sensação não surge por acaso. John Huston faz questão de criar diversos momentos que nos colocam em dúvida a respeito do caráter dos personagens, o que só favorece o suspense criado, reforçado pela trilha sonora de Adolph Deutsch. Desta forma, fica difícil prever para onde a narrativa esta indo, o que, neste caso, só torna o filme ainda mais agradável. Ainda assim, a revelação final de que Brigid é a assassina não chega a surpreender, mas amarra bem a trama.

Empregando um ritmo agradável ao longa, graças à montagem de Thomas Richards, e criando ainda momentos interessantes, como quando a câmera simula o olhar embaçado de Sam antes de um desmaio, John Huston mostra muita competência atrás das câmeras e entrega um filme memorável. E hoje, muitos anos depois do lançamento de “O Falcão Maltês”, nós sabemos que ele fez mais do que isto. Huston entregou um dos filmes mais respeitados da história do cinema.

Texto publicado em 21 de Novembro de 2011 por Roberto Siqueira

O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA (1962)

(The Man Who Shot Liberty Valance)

 

Filmes em Geral #72

Dirigido por John Ford.

Elenco: John Wayne, James Stewart, Vera Miles, Lee Marvin, Edmond O’Brien, Andy Devine, Ken Murray, John Carradine, Jeanette Nolan, Denver Pyle, John Qualen, Woody Strode e Lee Van Cleef.

Roteiro: James Warner Bellah e Willis Goldbeck, baseado em história de Dorothy M. Johnson.

Produção: John Ford e Willis Goldbeck.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apesar do sucesso de seus dramas, John Ford se notabilizou por dirigir westerns clássicos, explorando com maestria belas paisagens para criar um visual esplêndido. Não é o caso de “O homem que matou o facínora”. Apesar de utilizar algumas das características marcantes do gênero, o longa foge bastante do estilo tradicional do faroeste, apresentando uma narrativa melancólica, ambientes fechados, personagens ambíguos e uma série de simbolismos que ilustram o fim de uma era. Contando ainda com um ótimo elenco, trata-se de um filme sóbrio e triste, um verdadeiro canto do cisne do gênero preferido do diretor.

O senador Ransom Stoddard (James Stewart) e sua esposa Hallie (Vera Miles) chegam numa pequena cidade para o funeral de um amigo. Interessado pela ilustre visita, um repórter decide entrevistar o senador e descobre que Tom Doniphon, o amigo morto e hoje desconhecido, acolhera o senador na cidade há muitos anos. Recém formado em advocacia na época em que chegou ao local, Stoddard tentava deter um terrível pistoleiro chamado Liberty Valance (Lee Marvin) por meio da lei, enquanto Tom acreditava em sua arma. Apesar das diferentes formas de pensar, eles se respeitavam e ainda compartilhavam o amor por Hallie, na época a garçonete do saloon.

Escrito por James Warner Bellah e Willis Goldbeck, baseado em história de Dorothy M. Johnson, “O homem que matou o facínora” utiliza um longo flashback para contar a história da chegada do hoje senador Ransom Stoddard ao oeste, uma terra dominada por uma lei própria, onde a justiça era feita pelas próprias mãos. Naquele ambiente hostil, o culto Stoddard descobre rapidamente que tudo que ele estudou tinha pouco valor, após ser roubado e espancado por um grupo de bandidos, liderados pelo temido Liberty Valance. E é justamente a trajetória de mudança deste personagem, amparada por outro personagem ainda mais fascinante, que acompanharemos durante a narrativa. Stoddard simboliza a chegada do progresso num local onde a única lei que era respeitada era a “lei das armas”, simbolizada pelos antagonistas Tom e Liberty. Ele será transformado por aquele ambiente hostil, mas também trará mudanças irreversíveis ao local.

Como de costume, a direção de Ford é sóbria e discreta, jamais chamando a atenção a não ser em alguns momentos em que o zoom realça as reações dos personagens. Desta vez (até por limitações financeiras impostas pela Paramount), o diretor foca as ações em ambientes fechados, valorizando o trabalho de direção de arte de Eddie Imazu e Hal Pereira em detrimento das paisagens que ele normalmente utilizava em seus filmes, que aqui surgem somente no treinamento de Stoddard. A arquitetura da cidade segue o tradicional do oeste, com o saloon, as casas de madeira e as diligências que aguardam seus passageiros para cruzar as estradas poeirentas. Também por imposição dos estúdios, a direção de fotografia de William H. Clothier é discreta, limitando-se a criar um visual mais claro que explora o contraste entre o preto e o branco através da iluminação destes ambientes fechados.

Quem segue o estilo tradicional do western são os personagens secundários, com o xerife medroso (Andy Devine), o jornalista sem escrúpulos e o médico bêbado marcando presença na narrativa. Entre estes personagens secundários, vale destacar dois atores que participariam dos famosos westerns spaghetti de Sergio Leone: Lee Van Cleef, que vive um dos comparsas de Liberty chamado Reese, e Woody Strode, que interpreta Pompey, o ajudante de Tom. John Carradine também integra o elenco como o major Cassius Starbuckle e Lee Marvin cria um temível vilão na pele de Liberty Valance. Mas, entre todos eles, o destaque fica mesmo para Vera Miles, que vive Hallie, a garçonete disputada por Tom e Stoddard no passado, agora casada com o senador – e o pouco convincente envelhecimento de Stewart e Miles no presente é um problema pequeno demais para comprometer uma obra tão madura.

Demonstrando interesse por Stoddard logo de cara, a Hallie de Miles oscila entre a alegria ao lado do jovem advogado e os momentos em que fica brava, como quando o xerife chega ao saloon pedindo comida. A atriz ainda demonstra com competência a emoção de Hallie ao voltar ao local, com os olhos marejados e um semblante abatido, reforçados pela trilha sonora melancólica que embala o momento em que ela vê uma velha casa, indicando a importância daquele local (e de quem viveu nele) em sua vida. Esta mesma trilha triste acompanhará o momento em que Hallie vê o caixão que guarda o corpo do amigo Tom, num momento tocante e universal. Afinal, todos nós sabemos (ou infelizmente saberemos) como é doloroso ver uma pessoa querida daquela forma, já sem vida, apenas esperando que seus restos mortais sejam enterrados enquanto os momentos vividos se eternizam na memória dos que ficam. São estas memórias que guiam a narrativa de “O homem que matou o facínora”.

Este importante homem é Tom Doniphon, interpretado por John Wayne, que naturalmente impõe respeito com seu porte físico e olhar ameaçador. Sempre gentil com as mulheres, especialmente com sua paixão Hallie, Tom é o típico homem do oeste, que confia muito mais em seu revólver do que na lei e na ordem. Fruto daquele ambiente hostil, ele adverte o advogado Stoddard sobre os perigos que corre ali (“Estes livros de direito valem muito pra você, mas aqui não valem nada”, afirma). E apesar do jeito grosseiro, o tempo se encarregará de mostrar o grande homem que ele é. Quem descobrirá isto é o advogado Stoddard de James Stewart, que cai bem no papel do homem intelectual e notoriamente mais frágil que aqueles que habitam o oeste. Carismático, o ator conquista o espectador ao longo da narrativa, ainda que demore a se adaptar ao ambiente em que estava inserido. Entre os principais momentos de sua atuação, vale destacar a alegria genuína quando ouve Hallie dizer que quer aprender a ler. E apesar de derrubar o ritmo da narrativa por um instante, a aula serve para criar empatia entre Stoddard e a platéia, ao mostrar aquele homem dedicado tentando mudar uma sociedade naturalmente arredia aos estudos (até pela falta de acesso). No fundo, Tom e Stoddard também simbolizam o conflito entre a força física e o intelecto.

E será a força física que salvará o intelecto, primeiro na chegada dos bandidos ao restaurante, onde o silêncio que predomina na cena só amplia a tensão – repare como o zoom realça o rosto assustado de Hallie. Quando Liberty derruba Stoddard e, junto com ele, o bife de Tom, Wayne surge ameaçador e se agiganta na tela, colocando o bandido pra correr do local, numa das melhores cenas do filme. Após este momento, Stoddard vive o conflito entre cumprir a lei e fazer justiça com as próprias mãos – e um plano simbólico em que ele apaga do quadro a frase “a educação é a base para a lei e a ordem” começa a indicar sua mudança de comportamento. Mudança que só se consolida após o divertido treinamento em que ele dá um soco em Tom (que leva numa boa) e, principalmente, após ver a morte do amigo jornalista, brutalmente espancado por Liberty. Conforme ele fora avisado, sua placa na entrada do jornal havia sido destruída pelo temível bandido e ele agora estava decidido a enfrentá-lo.

A fotografia sombria amplia a angustia do espectador enquanto Stoddard aguarda Liberty na rua para o duelo. E ele vence, atirando no vilão a queima roupa, pra surpresa geral. Teria mesmo Stoddard mudado seus conceitos? Momentos depois, Tom aparece na cidade, se embebeda e queima a própria casa (num grande momento de Wayne), indicando sua desilusão amorosa ao ver Hallie nos braços do advogado. Chegamos até mesmo a pensar que ele saiu da cidade na esperança de que Liberty mataria Stoddard, mas suas ações prévias (como o treinamento) não indicavam isto. Chegam às eleições e com elas o nojento jogo político, evidenciado quando um dos candidatos usa o “crime” de Stoddard contra ele. E então o grande momento de “O homem que matou o facínora” surge, quando Tom confessa a autoria do crime para Stoddard e prova seu altruísmo, num flashback dentro do flashback que surge através da fumaça expelida pela boca dele (um momento belíssimo, aliás). Somos levados novamente à cena do crime, desta vez sob outro ponto de vista que revelará a verdade. Tom salvou Stoddard e saiu sem deixar rastros. Ainda assim, sofreu bastante por não ter Hallie, como deixa claro na frase “devia não ter salvado você, Hallie agora é sua”, mas sua atitude só comprova seu caráter. Ele abriu mão da fama (afinal de contas, matou o pior bandido da região) e da mulher que ama e só revelou que salvou Stoddard para que este não desistisse de sua candidatura. “Ambíguo” é pouco para um personagem como este. A importância do papel da imprensa na criação de mitos também entra em cena aqui. Ao contrário da lenda criada, foi Tom, e não Stoddard, quem matou o facínora. Mas, como diz um repórter na frase mais famosa do filme, “quando a lenda é mais famosa que a realidade, imprima-se a lenda”.

Western diferente e até mesmo pessimista, “O homem que matou o facínora” faz um excelente estudo sobre o fim de uma era, abordando temas importantes como a passagem do tempo, a criação de mitos, as formas de combater a violência e o papel da imprensa. Além disso, apresenta dois personagens ambíguos e fascinantes. Enquanto Tom se manteve fiel aos seus princípios, Stoddard se viu obrigado a rever seus conceitos e se adaptar ao cenário em que estava inserido, ainda que de certa forma tenha colaborado para mudar o local. Carregou consigo uma fama que ele sabia não merecer, mas que tinha grande importância na formação de sua imagem pública. Mas tanto ele quanto Hallie sabiam quem foi o homem que matou o facínora.

Texto publicado em 12 de Agosto de 2011 por Roberto Siqueira

COMO ERA VERDE MEU VALE (1941)

(How Green Was My Valley)

 

Filmes em Geral #70

Vencedores do Oscar #1941

Dirigido por John Ford.

Elenco: Donald Crisp, Roddy McDowall, Barry Fitzgerald, Walter Pidgeon, Maureen O’Hara, Sara Allgood, Anna Lee, John Loder, Lionel Pape, Patric Knowles, Morton Lowry, Arthur Shields, Ann Todd, Frederick Worlock, Richard Fraser, Evan S. Evans, James Monks, Rhys Williams, Ethel Griffies e Marten Lamont.

Roteiro: Philip Dunne, baseado em romance de Richard Llewellyn.

Produção: Darryl F. Zanuck.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Premiações nunca serviram como atestado de qualidade na história do cinema. Por isso, evito citar prêmios em meus textos e tento focar apenas no filme analisado. Mas quando falamos de “Como era verde meu vale” é inevitável lembrar que este foi o filme que derrotou o atemporal “Cidadão Kane”, obra-prima incontestável de Orson Welles, no Oscar. Talvez porque o primeiro ressalta o valor da família, a importância do trabalho e a América como uma terra de esperanças, numa época em que este sentimento otimista era tudo que os norte-americanos queriam. Não importa. Apesar de suas qualidades, o longa de John Ford está longe de ser um grande filme.

A história se passa no País de Gales e é contada num longo flashback a partir das memórias do protagonista Huw Morgan (Roddy McDowall), que já tem mais de 50 anos. Ele recorda a época em que era uma criança e convivia com seu pai Gwilym (Donald Crisp), sua mãe Beth (Sara Allgood), sua irmã Angharad (Maureen O’Hara) e seus irmãos mais velhos, que trabalhavam numa mina de carvão ao lado do pai. Tudo ia bem até que o Sr. Evans (Lionel Pape), o proprietário da mina, decide diminuir os salários e provoca uma greve geral que se arrasta por meses e divide a família Morgan.

Os primeiros minutos de “Como era verde meu vale” já indicam seu tom nostálgico através da narração em off do protagonista, que relembra com saudade dos tempos em que sua família vivia unida. Apostando neste sentimento universal de apego às raízes, o roteiro escrito por Philip Dunne, baseado em romance de Richard Llewellyn, investe numa visão romantizada da vida no campo, como se tudo fosse perfeito até a chegada das empresas de mineração. A crítica a industrialização se confirma nas palavras do narrador, que acusa o preto do carvão de manchar “seu vale”, mas o próprio roteiro se encarrega de suavizar este aspecto através da postura de seu pai, que defende os empregadores quando os salários diminuem e autoriza o casamento da filha com o filho do chefe, sem se preocupar com a felicidade dela. Quando os salários começam a diminuir (resultado do excesso de operários que Ford estuda de maneira mais eficiente em “As Vinhas da Ira”), o conflito político entra em cena e torna a trama mais interessante, com o conservador Gwilym defendendo seu empregador enquanto seus filhos, tachados de socialistas, buscam a união entre os empregados. O ódio ao socialismo, aliás, imperava até mesmo na igreja, como fica claro nas palavras do detestável parceiro do pastor Gruffydd (Walter Pidgeon). Revoltados com a postura do pai, os irmãos de Huw deixam a casa e, infelizmente, a narrativa perde força, com o interessante confronto político cedendo lugar para a doença de Beth e Huw, congelados após caírem num lago na volta do inflamado discurso dela em defesa do marido.

Seguindo a cartilha de John Ford, a montagem de James B. Clark é discreta e eficiente, mas ainda assim utiliza alguns fades que escurecem a tela completamente, em raros momentos de sofisticação – Ford entendia que a montagem deveria ser “transparente” e jamais chamar a atenção. Por outro lado, o visual do filme é rico e as cenas nas minas e no próprio vale são lindas (a cidade de mineradores foi totalmente criada nas colinas do rancho da Fox, nas Montanhas de Santa Mônica), ressaltando o bom trabalho de direção de arte de Richard Day e Nathan Juran e, especialmente, do diretor de fotografia Arthur C. Miller, que alterna do visual claro e alegre do início para um final obscuro, que reflete a tristeza do narrador. Vale lembrar também que estamos vendo apenas lembranças filtradas pela memória do protagonista, o que explica aquele mundo perfeito e belo. E se Ford utiliza mais planos fechados que de costume, ainda assim cria seus tradicionais planos gerais que exploram a bela paisagem, além de empregar interessantes movimentos de câmera, como o travelling para a direita que revela a saída de casa de Owen (James Monks) e Gwilym Morgan Jr (Evan S. Evans), dois dos irmãos de Huw.

Huw que é interpretado pelo carismático Roddy McDowall, que convence especialmente quando está doente e indefeso, mas falha quando começa a trabalhar, parecendo inseguro, por exemplo, nas conversas com Bronwyn e com sua irmã Angharad. Ainda criança, ele se apaixona pela mulher do irmão e acompanha o casamento dela com pesar. Interpretada por Anna Lee, Bronwyn é uma moça encantadora, de fato, mas, assim como a maioria das mulheres do longa, sem atitude e passiva. Diferente delas é a Sra. Beth Morgan de Sara Allgood, uma típica “mãezona” que defende a família com unhas e dentes e sofre ao ver cada filho partir – e a atriz, apesar de alguns exageros, consegue convencer no papel. Capaz de oferecer comida para toda a comunidade do vale – numa cena pouco realista em que ela parece esquecer rapidamente tudo que passou (e custo a acreditar que seria tão fácil alimentar toda aquela gente) -, Beth só não consegue perceber o sofrimento da filha, apaixonada pelo pregador da região. E neste aspecto, vale destacar a atuação de Maureen O’Hara, que demonstra bem o incômodo de Angharad com o casamento, deixando claro seu amor por Gruffydd.

Chamado de “Sir” pelos próprios filhos, Gwilym Morgan é um personagem autoritário e unidimensional. Apesar disto, Donald Crisp até que diverte no papel, mas jamais consegue criar empatia com a platéia – algo que, diga-se de passagem, nem mesmo o protagonista consegue, comprometendo a narrativa. Aliás, personagens unidimensionais não faltam em “Como era verde meu vale”, como atestam o professor Jonas vivido por Morton Lowry, a governanta da casa de Angharad e as puritanas mulheres que fofocam durante a semana e vão à igreja aos domingos. Pelo menos, Rhys Williams nos diverte com seu boxeador Dai Bando – especialmente quando ensina ao professor como tratar os alunos – e Ford consegue nos emocionar ao mostrar a reação de Angharad à morte do marido Ivor (Patric Knowles). Embalada por uma trilha sombria, esta é uma das cenas mais tristes do filme.

E já que citei a trilha sonora de Alfred Newman, observe como ela também alterna do tom alegre inicial para o tom melancólico que acompanha o trágico final. Além disso, segue uma tradição galesa ao espalhar muitos cantos pela narrativa, criando uma interessante trilha diegética enquanto os mineradores vão para o trabalho. Por outro lado, por vezes o filme mais parece uma novela, com seus momentos melodramáticos e atuações caricatas, como quando o médico diz que o garoto Huw não conseguirá mais andar. Para compensar, Ford acerta a mão na condução da excelente cena em que o pastor Gruffydd critica a hipocrisia daquelas pessoas na igreja, que olham mais para a vida dos outros do que pra elas próprias, num momento de destaque da atuação de Walter Pidgeon. E justamente por estes altos e baixos (além da falta de empatia dos personagens) é que a frase que encerra a narrativa (“Homens como meu pai não podem morrer”) não provoca o impacto esperado.

Maniqueísta e com personagens unidimensionais, “Como era verde meu vale” retrata a visão otimista que o sonho americano vendia e que foi desconstruída ao longo dos anos diante da dura realidade. Não sou contrário a filmes otimistas, longe disto, mas prefiro que este sentimento seja criado de maneira orgânica e não induzido pela narrativa. Neste aspecto, prefiro o pessimismo sóbrio de “As Vinhas da Ira”.

Texto publicado em 10 de Agosto de 2011 por Roberto Siqueira

NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS (1939)

(Stagecoach)

 

Filmes em Geral #68

Dirigido por John Ford.

Elenco: Claire Trevor, John Wayne, Andy Devine, John Carradine, Thomas Mitchell, Louise Platt, George Bancroft, Tim Holt, Donald Meek e Berton Churchill.

Roteiro: Dudley Nichols e Ben Hecht, baseado em história de Ernest Haycox.

Produção: John Ford (não creditado).

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Filme que iniciou a parceria entre John Ford e John Wayne, que ainda duraria muitos anos e renderia outras obras marcantes, “No Tempo das Diligências” é um western clássico no sentido amplo da palavra, com todos os personagens e componentes narrativos característicos do gênero. Repleto de seqüências marcantes, que se tornaram referência ao longo dos anos, com personagens cativantes e uma inteligente crítica social, o longa é certamente um dos mais importantes do gênero e ainda hoje é entretenimento de primeira.

Viajando numa diligência para Lordsburg, um grupo de estranhos encontra o foragido Ringo Kid (John Wayne), que é preso imediatamente por seu amigo delegado Curly Wilcox (George Bancroft). Além de Curly, Ringo se junta ao bêbado Dr. Boone (Thomas Mitchell), a prostituta Dallas (Claire Trevor), ao banqueiro Henry Gatewood (Berton Churchill), ao jogador Hatfield (John Carradine), a esposa de um oficial Lucy Mallory (Louise Platt), ao vendedor de uísque Samuel Peacock (Donald Meek) e ao condutor Buck (Andy Devine). No meio do caminho, eles são avisados que o índio Geronimo e seus guerreiros apaches estão no caminho. O grupo terá de enfrentar os selvagens antes de alcançar seu destino e permitir que Ringo acerte as contas com seu desafeto Luke Plummer.

O cinema de John Ford não necessita de muitas palavras. Em diversos momentos, apenas as imagens são capazes de transmitir a mensagem pretendida ao espectador. Olhares, gestos e pequenos movimentos fazem com que a platéia perceba algo a respeito de determinado personagem, como a atração entre Ringo e Dallas, que vai se tornando evidente na medida em que a narrativa avança, sem que eles precisem dialogar para isto. Somente através dos olhares, sempre destacados pela câmera hábil de Ford, o espectador percebe tudo. Por isso, os diálogos surgem apenas quando necessários, o que não quer dizer que o longa tenha um ritmo lento. Pelo contrário, a narrativa envolvente é um dos trunfos de “No Tempo das Diligências”. Auxiliado pela montagem de Otho Lovering e Dorothy Spencer, que se destaca na memorável cena da perseguição dos apaches, o diretor emprega um ritmo bem dinâmico ao longa (ainda mais para um filme de 1939). Escrito por Dudley Nichols e Ben Hecht, baseado em história de Ernest Haycox, “No Tempo das Diligências” aborda ainda um tema caro ao diretor, que é a segregação social e o falso moralismo, como fica claro na forma como alguns personagens tratam a prostituta Dallas e o bêbado Boone.

É neste filme também que Ford explora pela primeira vez na carreira o lindo visual do Monument Valley, que se tornaria sua locação favorita, criando seqüências de tirar o fôlego durante a viagem da diligência com seus planos gerais e enquadramentos perfeitos. Para isto, conta também com a direção de fotografia de Bert Glennon, que evolui de um início claro e iluminado para um final obscuro e sombrio, sublinhando bem a tensão do conflito entre Ringo e Luke e ilustrando visualmente a trajetória do personagem interpretado por John Wayne. Wayne, aliás, que também aparece pela primeira vez num filme de John Ford, inaugurando uma parceria de sucesso e duradoura.

Sempre prezando pela estética de seus filmes, John Ford conta ainda com o bom trabalho de direção de arte de Alexander Toluboff, que ambienta o espectador nas cidades, com a arquitetura típica do velho oeste, os tradicionais cavalos e as carroças que atravessam as ruas, além de contar com Walter Plunkett e seus figurinos marcantes, com o chapéu de Ringo e os vestidos de Dallas e Mallory. Fechando os destaques da parte técnica, a trilha sonora de Gerard Carbonara alterna entre momentos solenes e outros mais agitados, destacando-se durante a perseguição dos apaches à diligência, em que a trilha amplia a adrenalina com seu ritmo frenético.

Após estabelecer quem são os personagens que viajarão na diligência, a narrativa insere o elemento que faltava para agregar tensão à viagem através da presença do foragido Ringo, apresentado através de um zoom que realça o rosto expressivo de Wayne e engrandece o personagem na tela. Ainda que pouco sutil e com algumas limitações como ator, é inegável que John Wayne tem enorme presença e um grande carisma, conferindo força a narrativa e ao personagem. Prestes a voltar para a prisão, seu Ringo desconstrói o mito do bandido cruel, sendo educado com as mulheres, ético ao manter a palavra e não fugir mesmo sem algemas, e até mesmo encantador, conquistando lentamente a atenção de Dallas e o respeito de alguns dos viajantes da diligência. Interpretada por Claire Trevor, Dallas já surge discriminada ao ser expulsa da cidade por sua conduta “imoral”. Por isso, ela constantemente aparece calada e claramente incomodada com a situação. Dallas nunca diz abertamente, mas teme que seu passado em Lordsburg comprometa sua relação com Ringo. Observe que mais uma vez as reações dos personagens falam mais que as palavras, indicando o temor da moça sutilmente em seu semblante aflito. E mesmo quando as palavras surgem, não explicam explicitamente o que está acontecendo, como quando o doutor comenta com Ringo sobre Dallas e indica algo sobre o passado dela para o rapaz. Dallas era prostituta? Sim, era. A narrativa indica isto, mas jamais de maneira escancarada.

Um dos grandes destaques do elenco é Thomas Mitchell, que vive o divertido doutor Boone, mal conseguindo acordar sem tomar uma boa dose de uísque. E sua falta de controle acaba sendo perigosa, pois seus serviços são requisitados durante a viagem e ele é obrigado a se recompor rapidamente, colocando em risco a vida de Mallory graças ao seu vício em bebidas alcoólicas. Ainda assim, cumpre seu papel e permite que Dallas surja com um bebê nos braços, surpreendendo alguns personagens que sequer desconfiavam da gravidez de Mallory. Boone também foi expulso da cidade por sua conduta fora do “padrão moral”, mas se mostra uma pessoa boa, que é obrigada a viajar ao lado do insuportável banqueiro Gatewood, interpretado por Berton Churchill e sempre pensando em seus interesses em detrimento do grupo (“O que é bom para os bancos é bom para o país”, diz ele). Completando o elenco, destaque para o delegado Curly Wilcox de George Bancroft, que é obrigado a deixar a amizade de lado e manter o amigo Ringo sob custódia durante toda a viagem, e para a conservadora Lucy Mallory de Louise Platt, que transmite bem a aflição da personagem, desesperada para encontrar o marido e proteger seu bebê, e sua transformação, percebendo ao longo do tempo que Boone e Dallas não eram pessoas ruins.

Os índios também marcam presença em “No Tempo das Diligências”, cumprindo o papel que normalmente lhes é atribuído no gênero. “Não é ruim ter uma esposa apache, eles não me incomodam”, diz um homem que recebe a diligência, somente para ser desmentido em seguida, com o roubo dos cavalos e a fuga de sua esposa. É interessante notar como o índio era visto apenas como um selvagem nos westerns, algo que o próprio Ford tratou de mudar em “Rastros de Ódio” e que seria definitivamente revisto em “Dança com Lobos”, muitas décadas depois. Ainda assim, a índia apache é responsável por um belo momento, quando canta uma música antes de fugir.

A menção ao nome de Luke Plummer logo no início começa a preparar o espectador para o duelo final com Ringo – e as constantes referências ao seu nome só aumentam esta expectativa. Além de Luke, outro vilão temido e citado antes de sua aparição é Geronimo, que surge com seus apaches na melhor seqüência do longa, logo após um sinal de fumaça indicar sua presença. A perseguição dos índios à diligência é emocionante e muito bem conduzida por Ford e seus montadores, que alternam entre os planos num ritmo intenso sem jamais deixar a platéia confusa. Além disso, a beleza do lugar, o som dos tiros e a trilha sonora ambientam o espectador de maneira eficiente, fazendo com que ele se sinta dentro da cena. Pra completar, ainda tem o memorável momento em que Ringo salta por cima dos cavalos em movimento e a emblemática cena em que uma tragédia é evitada pelo som de uma corneta militar, onde o silêncio que acompanha Hatfield se armando para matar Mallory e evitar que ela sofra com a eminente vitória dos índios só amplia a tensão. Já o aguardado duelo entre Ringo e Luke sequer é mostrado por Ford, que prefere focar a reação de Dallas ao escutar os tiros e Luke caindo no bar, num final ambíguo que sugere a vitória de Ringo, mas que pode também representar sua morte, pois nada impede que ele tenha acertado o inimigo e morrido no local (afinal de contas, eram três oponentes no total). Ainda assim, um momento prévio ao duelo pode facilitar a interpretação, quando um dos irmãos Plummer atira num gato a poucos metros e erra.

Com seu visual magnífico e uma narrativa envolvente, “No Tempo das Diligências” é o primeiro dos grandes momentos da parceria entre John Ford e John Wayne, que se estabeleceram ao longo dos anos como dois ícones do western. E esta fama veio merecidamente, principalmente pelo talento de Ford na construção de narrativas sóbrias e planos belíssimos, mas também pelo carisma de Wayne. Ainda que hoje esteja praticamente extinto, o western nos deu inúmeros filmes inesquecíveis e este certamente é um deles.

Texto publicado em 08 de Agosto de 2011 por Roberto Siqueira

TRAMA MACABRA (1976)

(Family Plot)

 

Filmes em Geral #67

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Barbara Harris, Bruce Dern, William Devane, Karen Black, Ed Lauter, Cathleen Nesbitt, Katherine Helmond, Edith Atwater e William Prince.

Roteiro: Ernest Lehman, baseado em obra de Victor Canning.

Produção: Alfred Hitchcock.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Em seu filme de despedida, Alfred Hitchcock entrega um thriller divertido, que, se não alcança a mesma qualidade de suas grandes obras, também está longe de ser uma decepção. Com sua atmosfera leve e personagens carismáticos, “Trama Macabra” consegue agradar ao espectador, além de apresentar cenas memoráveis, com a marca registrada do mestre do suspense.

Arrependida por ter forçado sua irmã já falecida a doar o filho na juventude, a Sra. Julia Rainbird (Cathleen Nesbitt) oferece uma recompensa para a médium Madame Blanche (Barbara Harris) reencontrá-lo. Com a ajuda de seu parceiro George Lumley (Bruce Dern), a falsa vidente começa a procurar o sobrinho, numa busca que trará à tona acontecimentos macabros do passado. Paralelamente, o joalheiro Arthur Adamson (William Devane) e sua parceira Fran (Karen Black) seguem fazendo fortuna com seqüestros muito bem orquestrados. De alguma maneira, os caminhos destes dois casais se cruzarão.

Ainda que tenha cenas tensas, “Trama Macabra” apresenta uma narrativa leve, recheada de humor negro e bastante divertida. Escrito por Ernest Lehman, baseado em romance de Victor Canning, o roteiro é repleto de tiradas, muito bem exploradas pelo elenco, especialmente por Barbara Harris, que aproveita os aspectos cômicos da profissão de Madame Blanche Tyler, nos fazendo rir com seus olhares por entre os dedos e gritos durante as sessões, além de se sair muito bem, por exemplo, ao mal conseguir conter a euforia com a oferta da Sra. Rainbird, logo na primeira cena. Demonstrando excelente química com Harris, Bruce Dern vive o engraçado taxista Lumley, que se divide entre ajudar sua amante maluca e tentar manter o emprego que, afinal de contas, garante seu sustento. Dern se destaca, entre outros momentos, quando Lumley finge ser um advogado, interrogando pessoas na busca de informações (sua pose, com o cachimbo no canto da boca, é hilária). Quem também se sai bem é William Devane, com seu tom de voz baixo e seu aspecto sempre sereno, que demonstra um autocontrole coerente com o metódico Arthur, um ser capaz de planejar a morte dos pais e simular a própria morte. E, fechando os destaques do elenco, Karen Black vive Fran, a falsa loira gelada da vez (repare que ela guarda a peruca dentro da geladeira), que tenta convencer o amante a deixar aquela vida criminosa ao mesmo tempo em que não consegue deixar de se envolver em seus próximos seqüestros.

Apesar do tom sombrio durante a primeira sessão de Madame Blanche, a trilha sonora de John Williams emprega um tom alegre na maior parte do tempo, o que soa coerente com o humor negro que recheia a trama. Também na primeira sessão, o sofá e as flores vermelhas da sala da Sra. Rainbird tornam o ambiente aconchegante e, ao mesmo tempo, indicam o futuro violento daquele pedido dela, o que, somado ao criativo cativeiro na garagem da casa de Arthur, demonstra o bom trabalho de direção de arte de Henry Bumstead. Ainda na parte técnica, destaque para os figurinos da eterna colaboradora de Hitchcock, Edith Head, que, com as roupas coloridas e espalhafatosas de Blanche, reforça o clima leve do longa.

Na direção, além de extrair boas atuações de todo o elenco, Alfred Hitchcock conduz a narrativa de maneira direta, o que sempre facilita a compreensão da platéia. Apesar disso, a descida sem freios de Lumley e Blanche pela estrada (uma das melhores seqüências do longa) pode soar datada, talvez pelos efeitos pouco verossímeis, que dão a sensação de que o veículo passa dentro dos carros e motos que sobem o monte. Por outro lado, é inegável que a cena ainda consegue prender a respiração daqueles que embarcam no clima leve da história, sem levar tudo muito a sério. Também merece destaque o interessante plano geral que mostra a viúva de Maloney (Katherine Helmond) tentando escapar de Lumley no cemitério. Pressionada pelo taxista, ela acaba confessando o crime do marido e entregando o segredo de Arthur. Hitchcock demonstra ainda seu enorme domínio da linguagem cinematográfica quando, através de uma freada, nos apresenta ao outro casal importante da narrativa, num movimento de câmera interessante que deixa o carro de Lumley para trás e segue os passos da misteriosa loira negociante, quase atropelada pelo taxista. A “negociante” em questão é Fran, a companheira de Arthur Adamson, que recolhe um diamante como pagamento pela libertação de uma pessoa e parte para encontrar o comparsa seqüestrador. Já em casa, ela pergunta onde Arthur escondeu o diamante e Hitchcock nos revela o local através de outro interessante movimento de câmera.

E se exibe excelente forma nos elegantes movimentos, Hitchcock também demonstra habilidade na condução da narrativa, sugando o espectador pra dentro de uma história que ganha força no segundo ato, quando somos envolvidos pela investigação de Lumley sobre o passado de Eddie Shoebridge, introduzido personagens interessantes na trama, como o mal encarado dono de um posto Joseph P. Maloney (Ed Lauter). O diretor conta também com a boa montagem de J. Terry Williams, que jamais deixa cair o ritmo da trama, intercalando bem as duas linhas narrativas principais, com a investigação de Lumley e Blanche e a preocupação de Arthur e Fran com o aparecimento deles. Vale mencionar também a direção de fotografia de Leonard J. South, que evita cores sombrias na maior parte do longa (especialmente quando Blanche está em cena), o que é coerente com o clima divertido da trama. Já quando as cenas envolvem Arthur e Fran, a fotografia normalmente é mais sombria, assim como no terceiro ato, onde predominam cenas noturnas e o uso das sombras, criando uma atmosfera tensa e interessante para a seqüência final.

Quando Lumley entende a ligação entre Maloney e Eddie Shoebridge, ele chega a Arthur Adamson e as duas linhas narrativas finalmente se cruzam. Antes alvos da investigação, agora Arthur e Fran também passam a investigar a vidente e o taxista – o curioso é que eles pensam que o casal sabe dos seqüestros e não do passado de Arthur. E esta deliciosa confusão nos leva ao terceiro ato, que se passa praticamente dentro da casa de Arthur, prendendo a atenção do espectador em diversos momentos até o inteligente desfecho. Com muito bom humor e algumas cenas tensas, como quando Lumley anda só de meias na casa até encontrar o cativeiro, Hitchcock nos conduz até o encontro final entre os casais e fecha a trama com uma solução rápida e criativa. O bom humor ainda volta no último plano, com a piscada de Madame Blanche para a tela.

Alfred Hitchcock se despediu das telas de cinema com este divertido “Trama Macabra”, um longa que não figura entre as obras-primas deixadas pelo diretor, mas que é digno de pertencer à sua gloriosa filmografia. Se os poderes de Madame Blanche realmente funcionassem, quem sabe ela poderia contatar o mestre e dizer que não queremos mais nada, apenas agradecê-lo por tudo o que fez. Foi mais que suficiente.

Texto publicado em 17 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

TOPÁZIO (1969)

(Topaz)

 

Filmes em Geral #65

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Frederick Stafford, Dany Robin, John Vernon, Karin Dor, Michel Piccoli, Philippe Noiret, Claude Jade, Michel Subor, Per-Axel Arosenius e Roscoe Lee Browne.

Roteiro: Samuel Taylor, baseado em livro de Leon Uris.

Produção: Alfred Hitchcock e Herbert Coleman.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apesar de seu notável controle sobre a narrativa e de todo o conhecimento que tinha da linguagem cinematográfica, nem mesmo Alfred Hitchcock conseguiu salvar “Topázio”, que, com sua trama sem graça, se estabelece como um dos piores filmes da carreira do diretor. Pra piorar, alguns dos principais nomes do elenco não conseguem atuações convincentes. Ou seja, assim como os espiões que vivem em países inimigos, trata-se de um peixe fora d’água na filmografia de Hitchcock.

Boris Kusenov (Per-Axel Arosenius) deixa a Rússia e viaja para os Estados Unidos, levando informações preciosas ao governo norte-americano em plena guerra fria. Após sua chegada, o francês André Devereaux (Frederick Stafford) é enviado a Cuba para acompanhar rumores sobre a chegada de mísseis russos. Em meio a tudo isto, surge à informação de que um espião chamado “Topázio” estaria infiltrado na OTAN em Paris, enviando informações sigilosas aos russos.

Assim como em “Cortina Rasgada”, em “Topázio” a guerra fria é novamente o pano de fundo da narrativa. Só que desta vez, nem mesmo o talento de Hitchcock consegue salvar o fraco roteiro de Samuel Taylor. Baseada em livro de Leon Uris, a trama de “Topázio” jamais consegue empolgar o espectador, apesar do bom início na Dinamarca, que mantém o foco na fuga da família de Kusenov da cortina de ferro, com um pequeno momento de tensão, quando eles tentam despistar agentes do governo. Nem mesmo o dinâmico jogo entre espiões, com diálogos ágeis e ambíguos, consegue tornar a narrativa mais interessante. Na verdade, desta vez Hitchcock explora mais os aspectos políticos da guerra fria, apresenta um pequeno conflito entre dois homens que gostam da mesma mulher, tenta inserir um conflito no ato final em Paris, mas nada funciona e o resultado é um filme pouco atraente e sem cenas marcantes, com exceção da impressionante morte de Juanita (Karin Dor), onde o plano em plongèe nos mostra sua dor enquanto o vestido se espalha pelo chão.

Também como em “Cortina Rasgada”, o plano da conversa entre Devereaux e seu amigo cubano Philippe (Roscoe Lee Browne) não nos permite escutar as falas, pois já sabemos o conteúdo da conversa, assim como acontece quando Philippe tenta convencer Uribe (Don Randolph) a entregar um importante documento, entrando e saindo do prédio com ele seguidas vezes. Aliás, outra cena tensa acontece quando Philippe conversa com o oficial Rico Parra (John Vernon), enquanto Uribe tenta roubar a mala vermelha que contém o documento que Devereaux precisa. Somados a fuga do prédio, com Parra atirando enquanto Philippe some na multidão e entrega a máquina para o amigo, estes momentos em território cubano certamente são os melhores do filme. Empregando constantemente o close para realçar as atuações do elenco, Hitchcock também busca destacar alguns objetos, numa tentativa de chamar a atenção para os curiosos métodos utilizados para enviar informações pra fora do país – repare, por exemplo, o interessante trajeto de uma máquina fotográfica, que sai de um piquenique, se esconde numa ponte e chega ao destino dentro de um frango. Apesar do criativo processo, este tráfico de informações é muito pouco para sustentar a narrativa. Nestes momentos, vale destacar o trabalho do montador William H. Ziegler, que também demonstra inteligência ao indicar a passagem do tempo e o local onde se passará a ação através da companhia aérea – sabemos que Devereaux chegou a Paris ao ver o avião da Air France, por exemplo.

E apesar da seriedade da missão de Devereaux, a trilha sonora divertida de Maurice Jarre e fotografia mais clara no segundo ato deixam a narrativa leve, numa contradição que compromete o resultado final. Além disso, a fotografia de Jack Hildyard transita entre o leve e o pesado sem muita coerência, empregando cores dessaturadas em ambientes fechados, sem jamais conseguir criar uma atmosfera sombria. Apesar disto, vale mencionar os belos cenários, muito bem decorados, como o interior das casas com imponentes mesas de jantar, que realçam o trabalho de direção de arte de Henry Bumstead. E novamente, a responsável pelos figurinos e pela caracterização dos oficiais cubanos e dos espiões americanos e franceses é Edith Head.

Entre o elenco, o papel principal é de Frederick Stafford, que vive Devereaux de maneira fria, ciente da seriedade de sua missão em Cuba, mas que jamais consegue criar empatia com a platéia e nem mesmo com as mulheres com quem se envolve. Pra piorar, Stafford não consegue transmitir com eficiência a aflição que o personagem pede, afinal de contas, ambas poderiam complicar sua missão – a esposa francesa, por ciúmes, e a amante cubana, por se envolver no envio de informações para os Estados Unidos. Por outro lado, Karin Dor consegue conferir carisma e sensualidade a Juanita, saindo-se bem no tenso jantar em que é questionada por Rico Parra, numa cena em que John Vernon também soa ameaçador na pele do oficial cubano. Karin se destaca ainda na despedida de Devereaux, demonstrando a dor da personagem por saber que dificilmente veria o amante novamente. Pra finalizar, o Henri Jarre de Philippe Noiret mal consegue esconder seu segredo e compromete a operação russa em Paris e Per-Axel Arosenius tem uma atuação bastante “robotizada” como o russo Boris Kusenov.

Infelizmente, apesar dos esforços de seu diretor, o roteiro de Samuel Taylor nunca empolga, tornando a trama bastante previsível e sem graça. Nem mesmo o conflito final em Paris consegue provocar tensão, pois imaginamos com antecedência que o agente russo será desmascarado e que Devereaux se sairá bem. Em resumo, o fraco roteiro, aliado às atuações irregulares e a uma surpreendente falta de imaginação de Hitchcock fazem de “Topázio” um filme esquecível.

Bem abaixo da média para um diretor como Hitchcock, “Topázio” apresenta uma trama desinteressante, mal conduzida e com um desfecho previsível. Com apenas algumas cenas que funcionam bem isoladamente, o longa certamente figura entre os piores trabalhos de um diretor cujo padrão de qualidade está muito acima do normal.

Texto publicado em 15 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

CORTINA RASGADA (1966)

(Torn Curtain)

 

Filmes em Geral #64

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Paul Newman, Julie Andrews, Lila Kedrova, Hansjörg Felmy, Wolfgang Kieling, Ludwig Donath, Günter Strack, David Opatoshu, Gisela Fischer, Mort Mills, Carolyn Conwell, Arthur Gould-Porter, Tamara Toumanova e Alfred Hitchcock.

Roteiro: Brian Moore.

Produção: Alfred Hitchcock.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apesar de algumas boas cenas, “Cortina Rasgada” não consegue empolgar o espectador, especialmente em sua metade final, repleta de situações irreais que buscam justificar a fuga dos “mocinhos”. Ainda assim, Hitchcock consegue construir bons momentos, utilizando a guerra fria como pano de fundo deste thriller de espionagem, que conta também com o ótimo Paul Newman, desta vez numa atuação sem grande inspiração.

O cientista americano Armstrong (Paul Newman) viaja para Copenhagen para participar do congresso internacional de física acompanhado de sua noiva Sarah (Julie Andrews), que descobre, já em território dinamarquês, que o noivo está indo para a Alemanha Oriental, na tentativa de levantar fundos para seu projeto rejeitado nos EUA. Decepcionada com a traição do marido ao país, ela decide segui-lo.

Escrito por Brian Moore, “Cortina Rasgada” coloca seu protagonista numa situação complexa, utilizando a guerra fria como pano de fundo para o thriller de espionagem que guia a narrativa. Dividida claramente em duas partes, a trama inicia abordando a suposta traição de Armstrong ao seu país, mas toma outro rumo completamente diferente quando ele revela que é, na verdade, “quase” um agente secreto americano infiltrado. Apesar do roteiro de Moore ir de encontro ao ufanismo norte-americano tão comum durante a guerra fria, Hitchcock inteligentemente evita discutir política, focando seus esforços na criação de situações que deixem a platéia em frangalhos. Ainda assim, o mestre aproveita para expor alguns problemas da época, como a dificuldade de entrar e sair da Alemanha Oriental. Mas é na condução da narrativa e nos movimentos de câmera que o diretor se destaca, como quando realça o livro retirado por Armstrong e a letra “” através do zoom quando ele se tranca no banheiro, indicando a importância deste “codinome” na trama – algo reforçado também pela trilha sonora de John Addison, que substituía Bernard Herrmann após anos de parceria entre o compositor e Hitchcock. Além disso, Hitchcock explora bem os belos cenários da Berlin Oriental, como os parques, o museu e a casa de campo onde se encontra o misterioso “”.

Apesar da falta de química entre o ótimo Paul Newman (que se desentendeu nas filmagens com Hitchcock porque queria seguir o método e não as orientações do diretor) e Julie Andrews, a relação inicial do casal serve para criar empatia com a platéia e, desta forma, fazer com que o espectador se importe com o risco que o casal corre em território alemão. E mesmo estranhamente apático, Paul Newman parece sempre esconder algo, o que é essencial para que o personagem funcione e deixe o espectador em dúvida quanto as suas reais intenções. Por outro lado, a loira da vez Julie Andrews demonstra bem o incômodo de Sarah com a “traição” de Armstrong, algo destacado pelo diretor através de um close na reação dela ao vê-lo discursando na Alemanha Oriental. Em outro momento, um curioso plano distante nos mostra um diálogo entre o casal, onde não precisamos escutar o que Armstrong fala, pois já sabemos que ele está revelando a verdade pra ela – e a reação dela apenas confirma isto. E apesar do desempenho irregular da dupla principal, o elenco de “Cortina Rasgada” apresenta dois destaques especiais. Wolfgang Kieling está excelente na pele de Gromek, sempre convicto e convincente, e, com poucos minutos em cena, Lila Kedrova entrega uma boa atuação como a Condessa Luchinska.

Um verdadeiro mestre na arte de criar suspense, Hitchcock constrói um momento bastante tenso somente através do som dos passos de Armstrong e Gromek durante uma perseguição no museu de Berlin. O diretor acerta ainda ao utilizar o idioma alemão, que confere realismo à narrativa e ainda nos deixa na mesma situação do protagonista, sem entender o que as pessoas falam. E graças à montagem de Bud Hoffman, que imprime um ritmo interessante ao longa, o diretor consegue criar uma empolgante seqüência quando alterna entre a investigação sobre a morte de Gromek e a conversa de Lindt e Armstrong sobre a fórmula secreta, ampliando a tensão na platéia, que é reforçada também pela trilha dinâmica de John Addison. E apesar dos esforços de Hoffman e Hitchcock, a segunda parte da narrativa é claramente inferior a primeira. Após a revelação do segredo de Armstrong e a saída de Gromek, a narrativa enfraquece e se torna menos interessante, limitando-se a mostrar os malabarismos do casal na tentativa de furar a cortina de ferro e voltar ao seu país. Ainda assim, é interessante acompanhar a tensa fuga de Armstrong de um prédio, após o professor Lindt descobrir sua verdadeira intenção.

Verdadeira intenção? Pois é. Como esperado (até mesmo pela postura de Newman), Armstrong escondia algo, que é revelado em sua conversa com “Pí” num belo passeio pelo campo. Só que ao voltar para a casa de “”, ele encontra Gromek, o agente alemão designado para persegui-lo, que descobre a farsa e tenta entregá-lo para os alemães, mas é interrompido pelo ataque de Armstrong e da dona da casa, numa cena violenta e realista. Lenta e detalhista, a cena da morte de Gromek demonstra a dificuldade para matar um homem naquelas condições. Por outro lado, retira cedo demais da narrativa um dos personagens mais interessantes. Além desta cena, Hitchcock conduz muito bem a seqüência do ônibus, com cada parada funcionando como agente provocador de mais tensão, justamente porque podemos ver o outro ônibus se aproximando ao fundo. A cada nova parada, o coração do espectador parece acelerar, e o mestre sabe disto, prolongando ao máximo o momento. Finalmente, o clímax acontece no teatro, com a câmera de Hitchcock nos mostrando a chegada dos policiais enquanto Armstrong tenta se esconder no meio da platéia. A solução simples e inteligente para o caso, com o grito de “fogo!” e a fuga nas cestas, encerra bem a trama. Mas, como podemos notar, as boas cenas de “Cortina Rasgada” não são suficientes para torná-lo um grande filme. Se considerarmos que este é um filme dirigido por Hitchcock, terminamos a sessão com a sensação de que faltou algo.

“Cortina Rasgada” é um thriller de perseguição e espionagem interessante, mas longe da qualidade vista em muitas outras obras de Hitchcock, talvez pela atuação desinteressada de Newman, talvez pela propaganda política dos Estados Unidos. O fato é que o longa não figura entre os melhores do mestre do suspense. Ainda assim, não podemos dizer que é um filme ruim. Trata-se de um entretenimento menor, o que, em se tratando de Alfred Hitchcock, chega a ser decepcionante.

Texto publicado em 14 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

OS PÁSSAROS (1963)

(The Birds)

 

Filmes em Geral #63

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Rod Taylor, Jessica Tandy, Suzanne Pleshette, Tippi Hedren, Veronica Cartwright, Ethel Griffies, Charles McGraw, Ruth McDevitt, Lonny Chapman, Doodles Weaver, Malcolm Atterbury e Alfred Hitchcock.

Roteiro: Evan Hunter, baseado em história de Daphne Du Maurier.

Produção: Alfred Hitchcock.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Durante muitos anos, “Os Pássaros” ficou marcado como o início da fase decadente de Alfred Hitchcock, o que é uma tremenda injustiça. É verdade que o longa não tem a mesma qualidade de obras-primas como “Psicose” ou “Janela Indiscreta”, mas está longe de ser um filme decepcionante. Apesar de alguns problemas, Hitchcock consegue criar a costumeira atmosfera crescente de tensão e, ainda que hoje alguns de seus efeitos visuais pareçam datados, é na força da narrativa e em suas grandes cenas que “Os Pássaros” se sustenta.

Após conhecer Mitch Brenner (Rod Taylor) numa loja, a jovem Melanie (Tippi Hedren) decide visitá-lo na pacata cidade de Bodega Bay, mas terá que enfrentar o ciúme de sua ex-namorada Annie (Suzanne Pleshette) e de sua mãe Lydia (Jessica Tandy). Junto com ela, milhares de pássaros misteriosamente se instalam na cidade e começam a atacar as pessoas nas ruas.

Baseado em história de Daphne Du Maurier, o roteiro de Evan Hunter narra os ataques dos pássaros sob a perspectiva de Melanie Daniels, uma jovem que se apaixona por um desconhecido e decide lhe entregar um presente sugestivo em sua cidade natal: um casal de “pássaros do amor”. Logo no início, Hitchcock ambienta o espectador e prepara a atmosfera ideal ao nos mostrar uma grande quantidade de pássaros no céu e a loja especializada em pássaros onde Mitch e Melanie se encontram pela primeira vez. Depois disto, o diretor evita nos mostrar os pássaros por algum tempo, limitando-se a inserir o som deles em alguns momentos, além de frases que chamam nossa atenção (“Eles não param de migrar?”), o que serve para aumentar nossa expectativa (Hitchcock sabia, mais do que ninguém, como prolongar ao máximo esta sensação no espectador). O primeiro ataque só acontece aos 25 minutos de projeção, quando um pássaro fere Melanie no barco. Mesmo assim, o primeiro fato realmente estranho surge apenas quando uma gaivota ataca a porta de Annie. “Pássaros não saem por aí atacando pessoas”, diz um policial, e é justamente aí que reside o terror psicológico da narrativa, pois vemos algo incomum e inesperado. Por ser um animal inofensivo, o pássaro torna-se ainda mais assustador, ainda mais quando uma especialista diz que existem bilhões de pássaros e que uma eventual guerra resultaria num massacre. E o mais interessante é que o longa jamais explica a razão dos ataques, o que torna tudo ainda mais misterioso e assustador.

Obviamente, um filme baseado no ataque de milhares de pássaros depende bastante da qualidade dos efeitos visuais. E apesar de hoje os efeitos soarem datados em algumas cenas, de forma geral o resultado é satisfatório e cumpre bem sua função, graças também ao excelente design de som, que cria uma atmosfera perfeita nos ataques dos pássaros, como podemos notar nas impressionantes seqüências da festa de Cathy (Veronica Cartwright) e da invasão da casa de Mitch através da lareira. Vale ressaltar ainda a ausência de trilha sonora durante todo o filme, que utiliza apenas o som diegético para provocar tensão, o que é muito interessante.

Hitchcock aproveita ainda a paisagem local para criar belos planos, por exemplo, quando Melanie atravessa o rio para chegar à casa de Mitch. Além disso, utiliza a câmera para nos transmitir sensações, como quando Mitch questiona a história do chafariz em Roma, surgindo poderoso na tela ao ser filmado em ângulo baixo, enquanto Melanie aparece intimidada no plano. Além disso, o diretor cria planos aterrorizantes, como aquele que destaca centenas de pássaros nos fios, além de conduzir com precisão cenas marcantes, como quando Lydia visita a casa de Dan, onde a xícara quebrada e um pássaro morto na janela indicam a tragédia, confirmada em seguida, quando vemos aquele homem morto com os olhos arrancados. O diretor é hábil ainda na condução da narrativa, utilizando o interesse de Melanie por Mitch para nos prender durante todo o primeiro ato, distraindo a platéia enquanto prepara a chegada dos grandes vilões. Observe também como no início a fotografia de Robert Burks é mais leve e repleta de cenas diurnas, o que contrasta diretamente com o final sombrio e até mesmo com o segundo ato, onde a fotografia emprega cores mais frias, reforçadas pelos dias nublados e pelo maior número de cenas noturnas quando comparado ao primeiro ato.

Além da fotografia, a própria casa de Mitch se revela aconchegante inicialmente, tornando-se sombria e sufocante na parte final da narrativa, o que é mérito da boa direção de arte. Da mesma maneira, as roupas tristes de Lydia indicam sua melancolia ao ver o filho se envolvendo com Melanie, o que só é reforçado pela boa atuação de Jessica Tandy, que ilustra bem o incomodo da personagem em seu rosto aflito, como podemos notar numa conversa que ela tem com o filho na cozinha. É também através de uma conversa entre ela, Melanie e Mitch, que Lydia revela seu ciúme doentio pelo filho, inserindo na trama um dos temas caros ao diretor, a relação conturbada entre mãe e filho. Tandy se destaca ainda quando Lydia fala sobre o marido falecido na cama, demonstrando fraqueza e reforçando seu lado possessivo e protetor ao falar sobre o filho, além de escancarar o trauma pela morte do marido ao dizer para Mitch que tudo seria diferente “se o seu pai estivesse aqui”.

Por outro lado, se o romance entre Mitch e Melanie não empolga é porque Hedren não consegue empatia com Taylor, que até tem uma boa atuação, mas é claramente prejudicado pela companheira. Infelizmente, Tippi Hedren (a loira da vez de Hitchcock) tem uma atuação muito fraca e inexpressiva, representada especialmente nos momentos que exigem tensão, como quando ela reage “assustada” ao incêndio provocado pelos pássaros num posto – numa cena, aliás, muito mal montada por George Tomasini. Ao contrário de Hedren, Suzanne Pleshette se sai bem como Annie, revelando seu ciúme por Mitch numa conversa com Melanie (repare o zoom no rosto dela na hora que Melanie cita o nome dele), evidenciando seu antigo caso com ele. Por isso, quando a professora Annie pergunta se “surgiu algo inesperado” para que Melanie fique na cidade, a tensão do diálogo é notável, já que ambas tem interesse por Mitch, e isto é mérito da boa atuação de Pleshette, como acontece também quando Melanie aceita o convite para a festa de Cathy e Annie balança a cabeça negativamente, evidenciando seu descontentamento – e Hitchcock faz questão de ressaltar a reação dela na cena.

Mas apesar do elenco irregular, Hitchcock consegue criar momentos marcantes, como na excelente seqüência em que Melanie espera Cathy na escola, enquanto os pássaros vão pousando lentamente no brinquedo atrás dela. O silêncio da cena, quebrado apenas pelo canto das crianças, é essencial para torná-la ainda mais angustiante. Quando as crianças começam a sair, um plano assustador revela a quantidade de pássaros que cercaram a escola, forçando as crianças a fugir em disparada – repare que no momento em que elas começam a correr, Hitchcock foca os pássaros, dando a exata noção da importância do som naquele instante, afinal, é o som dos passos que chama a atenção deles. Esta perseguição, no entanto, é um dos momentos em que os efeitos visuais hoje soam datados. Ainda assim, Hitchcock cria um plano fantástico no inicio da corrida, onde vemos as crianças saindo em disparada e os pássaros surgindo atrás da escola. Outro plano marcante é o que revela a morte de Annie, com o exterior da casa completamente tomado pelos pássaros e Cathy escondida lá dentro. Ao sair deste ambiente assustador, Hitchcock emprega um plano subjetivo, que nos coloca na mesma posição dos personagens enquanto deixam aquele local hostil. Vale destacar ainda nesta cena a boa atuação da garota Veronica Cartwright, que convence com o choro sentido de Cathy.

A narrativa chega ao clímax quando Mitch, Lydia, Cathy e Melanie estão trancados na agora sombria casa dos Brenner, encurralados pelos pássaros e em absoluto silêncio. Este silêncio será quebrado somente pelo inicio do ataque, numa cena eletrizante, acentuada pela queda da energia, que torna o ambiente ainda mais sombrio. E após reencontrar os pássaros no alto da casa, todos eles sairão dali durante a calmaria dos animais, num final tenso e impressionante, com o carro deixando a casa e as centenas de pássaros lentamente para trás. É no conflito entre a lógica e o inexplicável, no confronto misterioso entre o homem e a natureza, que reside o componente mais atraente da narrativa. Existem interpretações distintas, como a teoria que defende o ataque dos pássaros como um simbolismo para o ciúme doentio de Lydia pelo filho (o único homem em sua vida) e até mesmo uma teoria que enxerga a fúria da natureza como uma punição à ousadia de Melanie de ir atrás de um homem explicitamente, explicada em detalhes no livro “Os Pássaros”, de Camille Paglia. Mas, como afirmei, entendo que este mistério a respeito da natureza dos ataques é benéfico, abrindo possibilidades diversas de interpretações.

Ainda que tenha problemas, especialmente por causa de Tippi Hedren e alguns efeitos hoje datados, “Os Pássaros” cumpre muito bem sua função e assusta ao transformar um animal inofensivo num predador feroz, capaz de caçar os seres humanos como se fossem alimentos para seus filhotes. Com grandes cenas e uma narrativa envolvente, Hitchcock entrega mais um bom filme, já na fase final de sua gloriosa carreira.

Texto publicado em 13 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

INTRIGA INTERNACIONAL (1959)

(North by Northwest)

 

Filmes em Geral #62

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Cary Grant, Eva Marie Saint, James Mason, Jessie Royce Landis, Leo G. Carroll, Josephine Hutchinson, Philip Ober e Martin Landau.

Roteiro: Ernest Lehman.

Produção: Herbert Coleman e Alfred Hitchcock (não creditado).

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Contando com muitos dos componentes narrativos clássicos de Alfred Hitchcock, “Intriga Internacional” é um empolgante thriller de perseguição, que apresenta ainda um curioso subtexto sexual, bastante ousado para a época. Com a loira fatal, o famoso macguffin (neste caso, o agente “Kaplan”), o conturbado relacionamento entre mãe e filho e cenas recheadas com o mais puro suspense, o longa se estabelece como uma obra marcante, ainda que inferior às obras-primas lançadas um ano antes (“Um Corpo que Cai”) e um ano depois (“Psicose”) pelo mestre do suspense.

Confundido com um agente do governo conhecido como Kaplan, o publicitário Roger (Cary Grant) acaba seqüestrado por uma gangue de espiões, que tenta assassiná-lo. Após escapar milagrosamente, ele se envolve em novos incidentes, passando a ser procurado não apenas pelos espiões, mas também pelo governo americano. Mas, no caminho, ele encontra o auxilio da misteriosa Eve (Eva Marie Saint), que parece querer ajudá-lo.

Escrito por Ernest Lehman, o bom roteiro de “Intriga Internacional” conta a história de Roger, um homem inocente envolvido acidentalmente numa trama complexa. Como podemos notar, trata-se de mais uma versão da história favorita de Alfred Hitchcock. Desta vez, o homem é confundido com uma pessoa que não existe, inventada pelo governo para despistar uma rede de espiões, que, numa das coincidências do destino, passa a achar que Roger é o agente secreto e tenta assassiná-lo. A partir daí, o complexo roteiro envolve o personagem numa série de situações que só pioram sua condição, até que ele encontre a loira fatal Eve, dando início a outro subtexto da trama, com clara conotação sexual. Estes dois aspectos tornam a narrativa ainda mais interessante, e Hitchcock conduz tudo isto com precisão, criando momentos marcantes, como o primeiro encontro entre Eve e Roger e a fuga desesperada dele do prédio das Nações Unidas. Além disso, o diretor emprega interessantes movimentos de câmera, como aquele que revela os dois homens que arrastarão Roger para dentro do carro após ouvirem a palavra chave “Kaplan”, além de criar planos impressionantes, como aquele em que vemos as ruas do alto do prédio de onde Roger foge.

Ainda na parte técnica, os ternos e gravatas escolhidos denotam seriedade e profissionalismo ao grupo de criminosos, tornando-os mais temíveis. Já os detalhes da mansão de Townsend, como a biblioteca gigante que intimida Roger, revelam a boa direção de arte de William A. Horning e Merrill Pye. E se a fotografia de Robert Burks emprega cores vivas na maior parte do tempo, tornando-se obscura na medida em que se aproxima do tenso final, a trilha sonora de Bernard Herrmann pontua as cenas com precisão, como quando indica que Roger está sendo seqüestrado e quando embala o beijo romântico de Eve e Roger no trem.

Inicialmente, temos dúvida se Roger é ou não é a pessoa procurada, mas rapidamente temos a certeza de que se trata de um engano, muito por causa da boa atuação de Cary Grant, que nos convence de sua inocência. Seqüestrado e perseguido por engano, Roger se vê numa situação inusitada, procurado pelos espiões e também pela polícia, vivendo sob constante aflição enquanto tenta provar sua inocência. Entre os bons momentos do ator, vale destacar a cena em que Roger é largado bêbado num carro, em que, apesar da falta de realismo (o back projection não envelheceu bem), Grant faz bem o papel do homem alcoolizado e salva a estranha seqüência na estrada. O ator transmite a segurança que o personagem exige, se saindo bem nas cenas que exigem esforço físico e exibindo ainda charme diante das mulheres. Outro aspecto interessante do personagem é o profundo respeito que Roger demonstra pela mãe, que não acredita nele durante a investigação do caso da bebedeira, fazendo o personagem perder crédito diante da polícia (outro tema muito abordado por Hitchcock, a conturbada relação entre mãe e filho).

Enquanto isto, Eve, a loira do trem interpretada com sensualidade por Eva Marie Saint, faz o típico papel da mulher fatal, envolvendo Roger ao mesmo tempo em que parece tentar salvá-lo. Seus diálogos picantes no trem têm clara conotação sexual, confirmando a ousadia do mestre já demonstrada em outros filmes e escancarada aqui. Só que o olhar dela após beijá-lo indica algo suspeito, confirmado pelo bilhete que ela lê em seguida. Eve trabalha para o falso “Townsend” e, por isso, evita o contato mais íntimo com Roger na despedida, pois não quer se envolver emocionalmente. Mas, no fim das contas, a moça já estava apaixonada por ele, passando a ajudá-lo ao mesmo tempo em que é obrigada a dormir com o principal perseguidor dele – e aí reside a ousadia temática do longa, que, assim como em “Interlúdio”, obriga a personagem a dormir com o inimigo.

Um dos problemas do longa está na montagem do costumeiro colaborador de Hitchcock, o bom George Tomasini, que desta vez erra a mão ao esticar demais algumas cenas. Por outro lado, Tomasini acerta e muito nas empolgantes seqüências de ação, como a famosa cena no milharal e a perseguição final no monte Rushmore, as duas melhores do longa, conduzidas com maestria por Hitchcock. Repare, por exemplo, a primeira delas. Enquanto Roger aguarda por “Kaplan”, o plano diminui o personagem na estrada, ilustrando o quanto ele estava isolado naquela situação, até que um avião surge no horizonte e inicia uma verdadeira caçada em campo aberto. Observe como Hitchcock constrói o momento com calma, primeiro fazendo alguns carros passarem pelo local, e depois, após a chegada de outro homem, prolongando ao máximo o momento enquanto Roger tenta puxar conversa até ser interrompido pela chegada do ônibus que levará aquele estranho – destaque para a composição visual da cena em que vemos aqueles dois homens solitários na estrada. Quando o avião repentinamente vem na direção dele, o susto é inevitável. Finalmente, vale destacar que toda a cena é conduzida apenas com o som diegético, sem apelar para a trilha sonora, o que é bastante interessante. O único problema está na irreal batida do avião num caminhão. Já na cena final, a fotografia obscura de Robert Burks aumenta a tensão enquanto Roger tenta resgatar Eve na mansão de Vandamm (James Mason), o falso “Townsend” que persegue “Kaplan”, em outra cena conduzida com precisão pelo diretor, que trabalha nos pequenos detalhes para aumentar o suspense até chegar à eletrizante perseguição noturna que fecha a narrativa.

Com pequenos problemas, especialmente no realismo de algumas cenas, “Intriga Internacional” é um thriller de perseguição eficiente, mas que nunca chega a ser brilhante. Ainda assim, diverte e apresenta cenas marcantes, dividindo a narrativa em duas vertentes claras: a ação física e empolgante durante a perseguição e a conotação sexual ousada da relação entre Roger e Eve. Por isso, mesmo com pequenos problemas, trata-se de um grande filme.

Texto publicado em 10 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

UM CORPO QUE CAI (1958)

(Vertigo)

 

 

Filmes em Geral #61

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: James Stewart, Kim Novak, Barbara Bel Geddes, Tom Helmore, Raymond Bailey, Konstantin Shayne, Ellen Corby, Lee Patrick, Henry Jones e Alfred Hitchcock.

Roteiro: Samuel A. Taylor e Alec Coppel, baseado em livro de Pierre Boileau e Thomas Narcejac.

Produção: Alfred Hitchcock.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Alfred Hitchcock vivia uma fase muito especial nos anos 50, emendando uma série de filmes de excelente qualidade como “Disque M para Matar” e o “O Homem que sabia demais”, além de algumas obras-primas, como “Janela Indiscreta” e este “Um Corpo que Cai”, que marca o ponto alto de sua carreira, confirmado dois anos depois em outra obra-prima, “Psicose”. Curiosamente, por apostar numa faceta espiritualista, o longa estrelado por James Stewart e Kim Novak dá a sensação de fugir das principais características do cinema “hitchcockiano” durante grande parte da narrativa, revertida num momento chave que traz de volta a atmosfera de suspense, tão marcante nos melhores momentos do diretor.

O detetive John “Scottie” Ferguson (James Stewart) vê um colega morrer ao ficar pendurado num prédio, escancarando seu problema de acrofobia e forçando sua aposentadoria. Seu antigo conhecido Gavin Elster (Tom Helmore) entra em contato com ele e pede que “Scottie” vigie sua esposa Madeleine (Kim Novak), que apresenta claras tendências suicidas.

Escrito por Samuel A. Taylor e Alec Coppel, baseado em livro de Pierre Boileau e Thomas Narcejac, “Um Corpo que Cai” acertadamente concentra grande parte da primeira metade da narrativa na história de Carlotta, a suposta antepassada de Madeleine que cometeu suicídio, prendendo a atenção do espectador e desviando seu olhar do que realmente interessa: a farsa de Madeleine e seu “marido” Gavin. Observe, por exemplo, como quando um historiador local conta a vida de Carlotta, a fotografia sombria de Robert Burks reflete o tom triste da história, conquistando a empatia do espectador, que se sente tocado diante daquele passado trágico. Contando com a montagem de George Tomasini para dividir a história claramente em dois períodos, Hitchcock constrói com cuidado o relacionamento entre Madeleine e Scottie na primeira etapa (o que servirá para compreendermos as razões das atitudes de ambos no terceiro ato), para, em seguida, revirar a história com a suposta morte dela e nos apresentar a verdadeira mulher escondida sob aquela capa de loucura, deixando para a parte final da narrativa a reaproximação deles, já quando ela não está mais “disfarçada” de Sra. Elster. Com uma estrutura narrativa bem definida e personagens complexos e ambíguos, o mestre pôde conduzir a narrativa com a costumeira habilidade e construir momentos marcantes, apesar de um ou outro momento “inexplicável”, como quando Madeleine simplesmente some de um hotel – e que serve apenas para criar dúvida no espectador sobre a natureza, sobrenatural ou não, daqueles acontecimentos, reforçada pela fotografia de Burks, recheada de cores fortes que fazem o longa mais parecer um pesadelo.

Acertando ainda na escolha de belas locações externas, como um parque, um lago e até mesmo a aldeia da missão espanhola, que conferem melancolia à narrativa, é mesmo nos locais fechados que Hitchcock entrega as grandes seqüências do filme, como no belo restaurante, extremamente bem decorado (direção de arte de Henry Bumstead e Hal Pereira) e repleto de pessoas bem vestidas (figurinos de Edith Head), em que ele faz um elegante movimento de câmera que revelará Madeleine, de costas, com seu cabelo loiro e seu penteado marcante. Repare a inteligência do diretor ao destacar o rosto dela em perfil quando ela passa, num plano que teria reflexo em outro momento crucial da narrativa no futuro. O diretor sabe ainda inserir lentamente elementos importantes da trama, fazendo com que o espectador se familiarize com eles, mas sem permitir que este possa antecipar o que acontecerá na história. Repare, por exemplo, como quando Scottie chega ao cemitério onde Madeleine visita o túmulo de Carlotta, o plano em ângulo baixo mostra a torre da igreja, numa alusão a outro local que teria grande importância na trama. Em outro momento, a câmera vai até a flor que Madeleine segura, passa por seu cabelo e para no quadro de Carlotta, evidenciando a inspiração daquele visual e dando sinais dos “problemas” da moça. E finalmente, merece destaque o belo plano embaixo da ponte do rio em San Francisco, na cena em que Madeleine pula na água simulando uma tentativa de suicídio, embalada pela impactante trilha sonora de Bernard Herrmann, com acordes sombrios, refletindo durante boa parte da narrativa a atmosfera fantasmagórica do longa.

Em poucos minutos, James Stewart conquista a platéia com seu jeito carismático na pele de Scottie. Obviamente, o fato de o personagem sofrer de acrofobia colabora ainda mais, pois “Scottie” já surge em desvantagem, algo que sempre atrai a empatia do espectador. Além disso, os efeitos na câmera simulam a doença do personagem com eficiência, colocando a platéia em seu lugar, assim como quando a câmera simula o pesadelo de Scottie alterando seguidas vezes a cor da paleta, criando imagens psicodélicas. E se Stewart conquista a platéia, Kim Novak compõe Madeleine muito bem, mantendo um ar misterioso, coerente com a proposta da personagem. Com poucas expressões e palavras, ela cria uma “mulher fantasma”, colaborando bastante para que o espectador fique curioso com toda aquela história de “reencarnação” de Carlotta e não perceba o truque principal da narrativa. Além disso, o próprio Hitchcock colabora com este clima, criando planos que parecem embaçados ou nevoados, como quando Madeleine e Scottie passeiam pela floresta (repare a cor da roupa dela na cena, que reforça esta visão “fantasmagórica”) ou no próprio plano em que ela se joga no rio. Demonstrando fragilidade e parecendo emocionalmente abalada, Madeleine não encontra dificuldade para conquistar Scottie, que a beija com o mar ao fundo, num belo plano. Mas uma estanha conversa sobre um sonho no alto de uma igreja na Espanha deixará Scottie ainda mais preocupado com o destino daquela mulher, com clara tendência suicida. E quando o casal visita a aldeia da missão espanhola, o diálogo que precede a “morte” dela tem duplo sentido, pois, naquele momento, ela já amava Scottie, mas não podia desistir do plano de Gavin e por isso grita que “é tarde demais”.

A fria reação de Gavin após a morte da esposa começa a indicar a grande reviravolta da narrativa. E se o marido parece conformado com o acidente, Scottie sofre um grande choque e Stewart reflete bem o estado do personagem. Praticamente imóvel e sem fala, ele parece estar em transe após a tragédia. Quando sua amiga Midge (Barbara Bel Geddes) o visita no hospital, ele sequer parece notar sua presença (“Você nem sabe que eu estou aqui, mas estou”), o que é doloroso pra ela, que também o ama – e Hitchcock reflete isto no plano que diminui a personagem no corredor do hospital, escurecendo a tela em seguida. Atormentado, Scottie passa a ver Madeleine em todos os lugares, seja na mulher que comprou o carro dela, seja na loira do restaurante, seja na moça que olha o quadro no museu, e isto colabora bastante para que o espectador fique em dúvida quando ela de fato aparece, agora com seu visual verdadeiro, indo para o hotel Empire. Colabora também a excelente maquiagem, que diferencia as duas personagens vividas por Novak, mas mantém traços marcantes que permitem ao espectador mais atento reconhecê-la, especialmente quando ela passa de perfil, numa rima narrativa com sua aparição no restaurante, ainda no primeiro ato. Ciente disto, Hitchcock insere em seguida uma seqüência de lembranças dela, confirmando que Madeleine (na verdade, Judy) não morreu. A carta que ela escreve em seguida revela detalhes do audacioso plano de Elster, mas ela se arrepende e decide ficar. Elster planejou o crime perfeito, matou a esposa, usou a doença de Scottie pra não deixar vestígios e agora sairia livre. Mas ele não contava com a paixão que nasceria entre a mulher escolhida para representar sua esposa e Scottie.

Lentamente, Scottie fica obcecado pela idéia de deixar Judy igual à Madeleine – e Novak demonstra bem o incomodo da personagem nesta situação, com seu olhar aflito e suas reclamações -, e momentos como aquele em que ela senta em frente à janela, com sua silhueta remetendo à Madeleine, só colaboram para aumentar a obsessão dele. Enquanto Scottie aguarda por Judy (ou agora seria Madeleine?) no quarto, a fotografia verde simboliza a esperança no coração dele de reencontrar aquela mulher por quem se apaixonou. E ela surge sob uma névoa verde, somente para que os dois se beijem com a câmera girando e transportando o casal para o local da tragédia, voltando para o apartamento em seguida, ainda com o reflexo verde do neon do hotel ao fundo.

Tudo ia bem, mas Judy resolve colocar o colar de Madeleine e um zoom destaca a reação de Scottie, claramente incomodado. Ele muda repentinamente o comportamento e parece desconfiado. A narrativa ganha contornos sombrios, reforçados pela fotografia escura e pelo cair da noite. Scottie resolve então voltar ao local da tragédia, para subir novamente a escada e visitar o local do crime. A cena é conduzida com perfeição por Hitchcock, que cria uma atmosfera de suspense, reforçada pela trilha sinistra e pela fotografia sombria. O casal sobe pouco a pouco a escadaria, até chegar ao local onde a farsa se passou. Judy, assustada, tenta convencer Scottie, mas uma freira surge como um fantasma na escada e assusta a garota, que cai. E, desta vez, não vemos o corpo caindo, pois Hitchcock faz questão de destacar a reação de Scottie, que é mais impactante naquele momento do que ver o resultado da tragédia. Ele perdia a mulher da sua vida pela segunda vez, e no mesmo local.

Com sua atmosfera fantasmagórica, “Um Corpo que Cai” talvez seja o trabalho de Alfred Hitchcock que mais destoa do restante de sua filmografia. Obviamente, não estou me referindo à qualidade da obra, mas ao tom empregado pelo cineasta, que flerta com uma trama mais espiritualista, intimista, e afunda o espectador num drama sombrio na segunda metade da projeção. E, justamente por isso, este é um dos trabalhos mais marcantes do excepcional diretor inglês.

Texto publicado em 09 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira