O GABINETE DO DR. CALIGARI (1919)

(Kabinett des Dr. Caligari)

 

Filmes em Geral #32

Filmes Comentados #21 (Comentários transformados em crítica em 06 de Janeiro de 2011)

Dirigido por Robert Wiene.

Elenco: Werner Kraus, Lil Dagover, Conrad Veidt, Friedrich Feher e H.H. Von Twardowski.

Roteiro: Hans Janowitz e Carl Mayer.

Produção: Erich Pommer.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Considerado o marco inicial do expressionismo no cinema, “O Gabinete do Dr. Caligari” conta a estória de um hipnotizador (Werner Kraus) que chega ao circo de uma pequena cidade para apresentar um sonâmbulo (Conrad Veidt) que, misteriosamente, faz profecias macabras, que acabam sendo concretizadas posteriormente. Simultaneamente a sua chegada, crimes começam a acontecer na cidade, e a dupla passa a ser a principal suspeita dos crimes.

O longa que inaugurou o movimento expressionista no cinema apresenta uma atmosfera bastante sombria, que determinou o padrão estilístico que seria seguido pelos filmes seguintes. Mas para entender a importância de “O Gabinete do Dr. Caligari” é preciso contextualizar o seu lançamento. Em 1919, o cinema estava apenas começando a mudar, com os filmes de Griffith, o primeiro a contar uma estória de forma diferente, alternando planos abertos com closes, mas o diretor Robert Wiene preferiu manter a câmera fixa num ponto, com os atores encenando na frente dela, como era costume na época. Em compensação, investiu pesado no tom obscuro, com o forte contraste entre luzes e sombras, cenários distorcidos e muita maquiagem, criando um visual bastante sombrio. Auxiliado pela fotografia (direção de Willy Hameister) também sombria e pelos cenários distorcidos, o diretor conseguiu criar um clima fantasmagórico, conferindo uma atmosfera de pesadelo ao longa. Além disso, a fenomenal direção de arte representa com precisão a principal característica do expressionismo alemão, que é a distorção de imagens buscando representar visualmente os sentimentos dos personagens. Os cenários distorcidos, as ruas e casas tortas e os personagens extremamente maquiados foram utilizados com perfeição em “O Gabinete do Dr. Caligari”.

Vale observar também como as formas geométricas ajudam a expressar os sentimentos dos personagens, como os triângulos maquiados nos olhos que garantem um ar ainda mais mórbido ao sonâmbulo Cesar e as linhas suaves do quarto da bela Jane Olsen (Lil Dagover), que exprimem a paz de espírito da moça. A própria casa do Dr. Caligari parece pequena e apertada por fora, dando uma sensação de incomodo em quem vê, refletindo o distanciamento do espectador com as práticas do doutor. Mas além de contar com um visual exuberante, carregado nos tons sombrios e na distorção das imagens, o longa ainda conta com uma trama muito bem elaborada (mérito do roteiro de Hans Janowitz e Carl Mayer), com interessantes reviravoltas e um final surpreendente. E apesar dos poucos diálogos (como o filme é mudo, as falas aparecem escritas na tela), o longa mantém um ritmo ágil e interessante, se considerarmos as dificuldades técnicas da época, sempre mantendo o espectador ligado na narrativa.

Entre as atuações, vale destacar Conrad Veidt como o assustador Cesar e o próprio Werner Kraus como o macabro Dr. Caligari. Numa época em que os atores não tinham o recurso do diálogo devido à inexistência do som, a expressão facial e corporal era fundamental para provocar o medo e ambos se saem bem nesta tarefa. Além disso, é importante ressaltar que o exagero nas expressões buscando externar os sentimentos dos personagens era uma das marcas do expressionismo.

Contando com uma narrativa interessante, boas atuações e um trabalho excepcional de fotografia e direção de arte, responsável por um dos mais sombrios visuais já vistos num filme, “O Gabinete do Dr. Caligari” iniciou com o pé direito o movimento expressionista no cinema, tendo forte influência nos filmes posteriores do movimento, assim como em diversas outras obras da história da sétima arte.

PS: Comentários divulgados em 02 de Agosto de 2010 e transformados em crítica em 06 de Janeiro de 2011.

Texto atualizado em 06 de Janeiro de 2011 por Roberto Siqueira

CONDUZINDO MISS DAISY (1989)

(Driving Miss Daisy)

 

Videoteca do Beto #60

Vencedores do Oscar #1989

Dirigido por Bruce Beresford.

Elenco: Morgan Freeman, Jessica Tandy, Dan Aykroyd, Patti LuPone, Esther Rolle, Jo Ann Havrilla, William Hall Jr., Alvin M. Sugarman, Clarice F. Geigerman, Muriel Moore, Sylvia Kahler e Crystal R. Fox.

Roteiro: Alfred Uhry, baseado em peça teatral de Alfred Uhry.

Produção: Lili Fini Zanuck e Richard D. Zanuck.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

De forma simples e eficiente, o diretor Bruce Beresford nos traz esta tocante estória sobre uma senhora judia que hesita em aceitar seu novo motorista negro após sofrer um leve acidente com seu novo carro. A trajetória de aceitação, quebra de preconceitos e aproximação de duas pessoas solitárias, e acima de tudo, o olhar humano, despido de preconceito racial ou religioso (ele é negro, ela judia), torna este “Conduzindo Miss Daisy” um lindo filme sobre o valor do caráter humano e da verdadeira amizade.

Uma rica judia de 72 anos de idade (Jessica Tandy) acidentalmente joga seu carro novo no jardim do vizinho. Seu filho Boolie (Dan Aykroyd) tenta convencê-la de que ela precisa de um motorista, mas ela resiste à idéia. Mesmo assim, seu filho contrata o motorista Hoke (Morgan Freeman), provocando a imediata recusa de sua mãe. Mas gradativamente ela quebra a barreira da diferença cultural e racial existente entre eles, aceita suas próprias limitações e permite nascer e crescer um sentimento puro e sincero de amizade que durará décadas.

Embalado pela leve e descontraída trilha sonora do sempre ótimo Hans Zimmer, o diretor Bruce Beresford conduz este singelo “Conduzindo Miss Daisy” com enorme segurança, permitindo que os ótimos desempenhos de todo o elenco sejam a principal atração do longa. Ainda assim, a parte técnica merece destaque, a começar pelo excelente trabalho de direção de arte de Victor Kempster que, auxiliado pelos figurinos de Elizabeth McBride, cria um visual coerente com a época da narrativa, notável através do interior das casas, dos carros e da própria maneira de se vestir dos personagens. Vale observar também como a fotografia discreta e sem muita vida de Peter James reflete a personalidade de Miss Daisy, que detesta chamar a atenção, como ela mesma deixa claro ao reclamar quando Hoke para o carro na porta da igreja. Por outro lado, James explora muito bem a beleza dos jardins e ruas arborizadas da cidade, criando um interessante contraste visual. Já a maquiagem da dupla Manlio Rocchetti e Kevin Haney é simplesmente espetacular, refletindo com precisão o envelhecimento dos personagens, notável principalmente no terceiro ato do longa. E finalmente, a montagem de Mark Warner flui muito bem, cobrindo muitos anos da vida dos personagens sem jamais soar cansativa ou episódica, além de fazer a transição do tempo de forma elegante em muitos momentos, por exemplo, através do crescimento das flores no jardim. O diretor Beresford também é competente na criação de planos interessantes, como aquele em que podemos ver o reflexo de Hoke no belíssimo Hudson que ele vai dirigir por muitos anos ou na magnífica composição visual da viagem feita por Miss Daisy e seu motorista, além é claro da elegante câmera lenta que indica a morte de Idella (Esther Rolle).

Sem fugir do clichê “eles se odeiam e depois viram grandes amigos” (que neste caso é muito bem utilizado, pois o desentendimento inicial é perfeitamente aceitável, assim como o nascimento da relação de respeito e carinho entre eles), o bom roteiro de Alfred Uhry, baseado em peça teatral do próprio Uhry, estuda minuciosamente os efeitos do envelhecimento no ser humano, normalmente resistente às mudanças provocadas pela passagem do tempo. Esta resistência provoca uma enorme dificuldade em aceitar que não podemos mais fazer as mesmas coisas de antes, como quando Miss Daisy resiste em aceitar que não pode mais dirigir. Além disso, o roteiro acertadamente aborda temas complicados, como o racismo (os negros são empregados e motoristas), tão forte naquele período da história dos EUA, e a discriminação religiosa, escancarados na frase preconceituosa do policial que pára os dois idosos na estrada. Finalmente, o roteiro de Uhry conta ainda com diálogos dinâmicos, inteligentes e repletos de ironia, principalmente entre a dupla principal e entre Miss Daisy e seu filho.

Colaboram para o dinamismo dos diálogos as excelentes atuações do elenco, com destaque para o trio principal formado por Tandy, Freeman e Aykroyd. Jessica Tandy está perfeita como a amargurada Miss Daisy. Teimosa e extremamente autoconfiante, ela demonstra enorme dificuldade em se despir de preconceitos e alterar sua rotina, como quando reclama por mudar o caminho para o mercado Piggly. Miss Daisy é tão ranzinza que canta enquanto o filho fala, simplesmente por não concordar com o que ouve. A ironia – traço forte do roteiro que garante o tom de comédia – também está presente nas frases da personagem, como quando ela fala sobre o nariz de sua nora Florine (Patti LuPone), assim como o olhar sempre negativo para o mundo, exemplificado no sorriso dela ao constatar que algo sumiu de sua dispensa, como se já esperasse por aquilo. Esta seqüência do “roubo do salmão”, aliás, reafirma o tom bem humorado do longa, perceptível até mesmo na trilha sonora, que dá um acorde alto criando suspense. Depois da resolução do “caso”, repare como o diretor inteligentemente cria um plano com a cozinha vazia, refletindo a sensação que o espectador sente naquele momento. Extremamente resistente no inicio, Miss Daisy completa sua gradual transformação ao longo dos anos quando confessa seu sentimento de amizade por Hoke (“Você é meu melhor amigo”), e esta transformação é notável graças ao excelente trabalho da atriz. Tandy também demonstra muito bem o desespero de Miss Daisy quando começa a enfrentar problemas de memória, descendo a escada para procurar “as provas que devem ser corrigidas” e falando repetitivamente, além de mostrar competência também quando recorda da primeira vez que viajou, aos doze anos de idade, num momento nostálgico e tocante. E o responsável por toda esta mudança na vida da rica judia é um senhor simples e de enorme coração, interpretado magnificamente por Morgan Freeman. A introdução de Hoke na narrativa é perfeita, apresentando logo de cara todos os trejeitos do personagem, como a voz calma e anasalada, o sotaque diferenciado, o andar encurvado e lento, o olhar por cima dos óculos e a gargalhada. Seu jeito tranqüilo e paciente é ideal para conseguir conviver diariamente com a difícil Miss Daisy. Repare como logo na entrevista com Boolie fica evidente a ótima caracterização do personagem, reforçando a qualidade da atuação de Freeman. Vale destacar em especial dois grandes momentos do ator. O primeiro, na emocionante cena em que Hoke procura a lápide de Bauer e escancara sua deficiência na leitura, onde o ator transmite toda a dificuldade e embaraço do personagem, provocando a imediata reação de Miss Daisy, que sorri de satisfação quando o motorista consegue encontrar a lápide. O outro momento acontece quando Hoke pede aumento para Boolie. Freeman demonstra com enorme sensibilidade, através do jeito de falar, da gargalhada e do tom de voz, a intenção do personagem, ainda que as palavras não digam claramente o que ele pretende. Finalizando os destaques do elenco, Dan Aykroyd se sai muito bem no papel do divertido Boolie, que sabe perfeitamente como é difícil conviver com sua amada mãe. Por isso, ele raramente dá ouvidos às constantes reclamações da velha senhora, e até mesmo quando o faz, é sempre com um pé atrás, como no caso do salmão roubado. Além disso, o ator demonstra com competência o modo sempre irônico com que Boolie lida com os problemas da família (“Carros não agem, as pessoas que agem com eles”), como quando sua esposa reclama por não ter coco ralado no natal.

Quando Hoke se rebela e diz que é um senhor de 70 anos de idade que precisa fazer xixi, ele finalmente ganha o respeito definitivo de Miss Daisy. Os dois, aliás, começam a dar sinais evidentes da relação de amizade entre eles quando ela lhe presenteia no natal (“Não é presente de Natal. Judeus não têm nada que ver com isso”, faz questão de ressaltar). Neste momento, ainda que as fortes tradições se mantenham (Hoke fica do lado de fora da casa), o livro que ele ganha simboliza que a relação entre os dois já não é apenas profissional. E é delicioso acompanhar a construção gradual e consistente de uma amizade verdadeira. Por isso, quando chegamos à seqüência final, com os dois amigos sentados à mesa conversando enquanto Hoke alimenta Miss Daisy, nos sentimos comovidos. E esta comoção não é provocada de forma artificial ou melodramática. É simplesmente belo ver como os velhos traços da amizade permanecem, com as alfinetadas e a ironia presentes no diálogo, mas o respeito e admiração são muito mais fortes.

A velhice é tratada com respeito neste sensível “Conduzindo Miss Daisy”, extremamente bem atuado e com um roteiro bastante inteligente, que nos deixa algumas reflexões. A vida passa, o corpo enfraquece, os filhos crescem, os amigos e familiares se vão, mas as lembranças ficam. E afinal de contas, o que levamos desta vida? Levamos o amor, as verdadeiras amizades e as histórias que vivemos para contar. Melhor ainda é quando chegamos ao final desta trajetória podendo contar com alguém, seja este (a) um (a) companheiro (a) ou um verdadeiro (a) amigo (a). É isto que vale a pena na vida.

Texto publicado em 31 de Julho de 2010 por Roberto Siqueira

CAMPO DOS SONHOS (1989)

(Field of Dreams)

 

Videoteca do Beto #59

Dirigido por Phil Alden Robinson.

Elenco: Kevin Costner, Amy Madigan, Gaby Hoffman, Ray Liotta, Timothy Busfield, James Earl Jones, Burt Lancaster, Frank Whaley, Dwier Brown, Fern Persons, Michael Milhoan, Steve Eastin, Charles Hoyes, Art LaFleur, Lee Garlington, Mike Nussbaum e James Andelin.

Roteiro: Phil Alden Robinson, baseado em livro de W.P. Kinsella.

Produção: Charles Gordon e Lawrence Gordon.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quão injusta é a morte? É triste pensar que jamais resolveremos algo que ficou pendente quando alguém nos deixa. Aquela bebida com um amigo depois do expediente, aquele churrasco com a família, aquela viagem tão sonhada, nada disto é possível se um dos participantes se vai. Pior ainda é quando estamos brigados, distantes ou com alguma situação mal resolvida. O remorso corrói aquele que fica, ainda que a recíproca fosse verdadeira numa situação inversa. A chance de reconciliar-se com o passado e realizar os sonhos é o tema deste belíssimo “Campo dos Sonhos”, dirigido por Phil Alden Robinson e que exemplifica perfeitamente como o cinema pode ser mágico. Quando os créditos começam a aparecer na tela, além de enxugar as inevitáveis lágrimas, o espectador pode tirar algumas lições, como aproveitar cada segundo da vida, fazer tudo que tiver vontade e não deixar nada pra depois. E principalmente, não se desentender com quem ama por besteiras.

O fazendeiro Ray Kinsella (Kevin Costner) caminha pelo seu milharal em Iowa quando ouve uma misteriosa voz que lhe diz “Se você construir, ele virá”. Após ter uma visão de um campo de beisebol no meio de suas plantações, ele entende que deverá construir este campo para que seu grande ídolo do beisebol no passado volte a jogar. O detalhe é que “Shoeless” Joe Jackson (Ray Liotta), o jogador em questão, está morto há muitos anos. Após construir o campo, a mágica acontece e Ray descobre que este local pode realizar muitos outros sonhos. Dentre eles, estaria algo que nem mesmo Ray poderia imaginar.

A trama de “Campo dos Sonhos” é simples. Homem de família estruturada, Ray vive muito bem com a esposa Annie (Amy Madigan) e a filha Karin (Gaby Hoffman). Na infância, foi criado pelo pai devido o falecimento de sua mãe e se acostumou a ouvir histórias sobre beisebol desde pequeno. O problema é que o beisebol se tornou algo como jogar o lixo na rua, como ele mesmo afirma. E então, na adolescência, Ray, após brigar com o pai, sai de casa dizendo que jamais respeitaria alguém cujo ídolo era um bandido. Ele se referia a “Shoeless” Joe Jackson, o ídolo de seu pai que foi suspenso por “entregar um campeonato”. Não houve tempo para reconciliação. Seu pai morreu antes que Ray se desculpasse. Já adulto e pai de família, Ray não esconde a mágoa por não ter acertado esta situação. É quando, no meio de seu milharal, uma misteriosa voz começa a mudar sua vida. A câmera se aproxima de Ray praticamente no mesmo nível do milharal e a voz surge como um sussurro no ouvido do protagonista e do espectador com as palavras “Se você construir, ele virá”. Um momento absolutamente marcante. Como podemos notar, não se trata de um longa apenas sobre beisebol. Por isso, mesmo que jamais tenha ouvido falar no esporte, o espectador pode ser completamente envolvido pela narrativa. Pense, por exemplo, nos seus grandes ídolos do esporte (seja ele futebol, voleibol ou outro qualquer) e entenderá o fascínio de Ray ao ver “Shoeless Joe” jogando em seu campo. Mérito da boa direção de Phil Alden Robinson, que conduz a narrativa com segurança e permite este envolvimento do espectador, criando ainda belos planos que exploram a imensidão dos milharais e lindos campos de Iowa, além do visual esplêndido nas cenas noturnas do iluminado campo de beisebol – graças também à boa direção de fotografia de John Lindley. Observe também como logo no início, o vídeo com imagens antigas e fotos introduz perfeitamente o espectador a trama, já dando pistas do problema de relacionamento entre Ray e seu pai. Ainda na parte técnica, a trilha sonora do ótimo James Horner tem um tom mágico, fabuloso, que se encaixa perfeitamente ao clima do filme. Além disso, conta com canções alegres e empolgantes que demonstram os sentimentos de Ray quando parte com sua perua Kombi em busca de Terence Mann (James Earl Jones).

Mas se na direção Robinson é competente com discrição, no roteiro seu grande trabalho é ainda mais notável. Além de mostrar a capacidade do esporte de marcar momentos de nossas vidas, o excelente roteiro, baseado em livro de W.P. Kinsella (qualquer semelhança não é mera coincidência), envolve o espectador de tal forma que este jamais questiona o que vê, deixando-se levar nesta viagem singular. Afinal de contas, “Campo dos Sonhos” não é um filme para entender lógica ou cientificamente, é um filme para sentir. E em seu último ato, desarma completamente as defesas do espectador e torna as lágrimas em algo inevitável. Seu ritmo delicioso e envolvente é mérito também da montagem de Ian Crafford, que além de ser direta, conta ainda com interessantes momentos, como a seqüência em que o plano do campo de beisebol coberto de neve indica a passagem do tempo antes da primeira aparição de “Shoeless” Joe. A cena que segue, aliás, é outro grande momento do longa, quando Karin interrompe a importante conversa sobre as finanças do casal para dizer “Papai, tem um homem no seu campo”. O espectador é levado pela narrativa sem saber muito bem pra onde, descobrindo depois que é para um final mágico e incrivelmente belo, um acerto de contas com o passado que leva a completa redenção de Ray. E apesar do grande tema central de “Campo dos Sonhos” ser revelado somente em seus minutos finais, podemos notar sua presença em diversos momentos da narrativa através de pequenos diálogos que remetem ao relacionamento entre Ray e seu pai, John Kinsella (Dwier Brown). Ray deixa claro, em conversas com Annie e Terence Man, a importância que sei pai teve em sua vida e a angústia que sentia por não ter conseguido se acertar com ele antes de sua partida. Além disso, ao dizer para Annie que tinha medo de estar ficando igual ao velho John, Ray ratifica que não desistiria da construção do campo, por mais absurda que pudesse parecer. Trata-se do dilema de qualquer ser humano que sente estar chegando a uma fase decisiva de sua vida sem ter realizado seus sonhos e desejos.

Seria essencial que o ator escolhido para viver Ray conquistasse a platéia e fizesse com que o espectador fosse cúmplice da busca do personagem, e Costner é muito competente nesta tarefa, graças à sua grande atuação e ao seu inegável carisma. Por isso, o espectador jamais questiona as atitudes de Ray, por mais absurdas e ilógicas que pareçam. Sua busca obstinada por algo que nem ele conseguia identificar com clareza comove e traz pra junto dele o espectador. O ator também mostra competência no timing cômico em diversos momentos, como quando sua mulher pergunta “se construir o que, quem virá?” e ele responde desapontado que “a voz não disse…” ou quando Annie questiona o que fazer caso a voz apareça enquanto ele está fora e ele responde ironicamente “pegue o recado”. A cumplicidade do casal, aliás, é essencial para o sucesso da narrativa e a dupla Costner/Amy Madigan se sai muito bem, demonstrando excelente química. Somente com o suporte de uma esposa como Annie um homem seria capaz de fazer o que Ray faz. Observe o sorriso de satisfação dele ao olhar para o campo assim que fica pronto e dizer “criei algo completamente ilógico”. Ele não desistiu de seu sonho, por mais absurdo que fosse, e se sentiu recompensado por isto. Madigan, por sua vez, se sai muito bem como a espontânea e confidente Annie, destacando-se na divertida discussão sobre livros numa escola, que serve também como uma crítica ao puritanismo. Quem também está bem é Ray Liotta no papel do lendário “Shoeless” Joe Jackson. Mantendo sempre um ar misterioso e ao mesmo tempo de deslumbramento, Liotta transmite perfeitamente a alegria do ex-jogador ao voltar a pisar num campo de beisebol, chegando a perguntar se ali era o paraíso. A cômica resposta de Ray “Não. É Iowa” será substituída no final por uma reflexão emocionada do fazendeiro, que ao ouvir seu pai dizer que o paraíso é o lugar onde os sonhos se realizam, enquanto vê sua esposa e filha brincando na varanda, responde “talvez aqui seja mesmo o paraíso”. James Earl Jones demonstra com competência a amargura de Terence Mann, um homem assombrado pela importância de seu passado diante de uma sociedade completamente diferente (e muito mais hipócrita). Sua revolta com os dias atuais fica clara quando grita para Ray “voltar aos anos sessenta”. O mundo é totalmente diferente pra ele hoje e o idealismo dos anos sessenta infelizmente não sobreviveu. A presença marcante de Earl Jones garante mais algumas seqüências de bom humor, como a “arma” de Ray ao invadir seu apartamento e a conversa dos dois antes de comprar um cachorro-quente. Sem falar na sua engraçada reação ao pensar o que diria para seu pai quando este anuncia seu desaparecimento no jornal. Completando o elenco, temos Burt Lancaster na pele do médico Moonlight Graham. Sua presença tem um tom mágico, reforçado pela nevoa que cai sobre a noite, pelo ar nostálgico dos carros antigos espalhados pelas ruas e até mesmo pelo anúncio de “O Poderoso Chefão” no cinema da cidade – o que é mérito também da boa direção de arte de Leslie McDonald. E a história do médico que quase foi jogador de beisebol é tocante, mostrando como às vezes, por mais que algo pareça ter dado errado, pode acabar sendo o melhor caminho. “Se eu tivesse sido médico por cinco minutos, isto sim teria sido uma tragédia filho”, diz ele, sem jamais negar o desejo frustrado de conseguir pelo menos uma rebatida como jogador de beisebol.

Quando Ray, já retornando pra casa, revela para Mann o motivo de sua mágoa com seu pai, fica claro para o espectador o quanto ele ainda sofre com a atitude intempestiva tomada na juventude. A morte de seu pai impediu sua reconciliação, e nas palavras sempre sábias de Terence Mann, “esta é sua penitência”. Mas felizmente, “Campo dos Sonhos” fala de redenção e reconciliação, e o acerto entre pai e filho acontece da forma mais inesperada e surpreendente possível. Ray, revoltado pelo fato de Mann ter sido convidado pelos jogadores a ir com eles para o misterioso milharal, questiona duramente seu ídolo “Shoeless” Joe e este responde: “É melhor ficar por aqui Ray”. O arrepio começa a subir nos espectadores mais atentos. Tudo indicava este final espetacular, de redenção. E Joe continua, dizendo “Se você construir… ele virá” e olha para o campo, onde vemos John Kinsella retirando a máscara e os acessórios. Então Ray, emocionado, desentala de sua garganta a frase “Quer jogar um pouco, pai?” e o choro é inevitável, independente do fato do espectador ter ou não perdido seus entes queridos. A mistura de sonho e realidade é perfeita, mexendo com sentimentos, elevando as emoções e desarmando completamente o espectador, que já não consegue mais pensar racionalmente sobre o que vê. O tema abordado, e principalmente, a forma como é abordado, supera pequenos detalhes. Obviamente, pessoas que já perderam os pais podem ter um impacto ainda maior nesta cena final, mas posso dizer – e aqui abro espaço para um comentário extremamente pessoal – que eu sempre me emociono demais nesta cena, e graças a Deus, tenho meus pais vivos.

Singelo e absolutamente tocante, “Campo dos Sonhos” é uma pérola, por vezes esquecida, que tem a incrível capacidade de fazer com que o espectador se envolva de tal forma com a narrativa que nada mais lhe importa. Muito bem dirigido e interpretado, é um filme mágico, que toca o lado mais sensível do ser humano, por mais frio que este possa ser. “Campo dos Sonhos” é mais que uma celebração do beisebol. É uma celebração do perdão, da reconciliação e da própria vida.

PS: Quando a jovem Karin diz que as pessoas viriam ver o campo de todos os lugares, estava inconscientemente fazendo uma profecia que transcende o filme, já que o “Campo dos Sonhos” em Iowa é visitado anualmente por milhares de fãs ainda nos dias de hoje.

Texto publicado em 26 de Julho de 2010 por Roberto Siqueira

O MILAGRE DE BERNA (2003)

(Das Wunder von Bern)

4 Estrelas 

Filmes em Geral #96

Filmes Comentados #20 (Comentários transformados em crítica em 20 de Dezembro de 2012)

Dirigido por Sönke Wortmann.

Elenco: Louis Klamroth, Peter Lohmeyer, Johanna Gastdorf, Mirko Lang, Birthe Wolter, Katharina Wackernagel, Lukas Gregorowicz, Péter Franke, Sascha Göpel, Knut Hartwig, Holger Dexne, Simon Verhoeven, Jo Stock e Martin Bretschneider.

Roteiro: Rochus Hahn e Sönke Wortmann.

Produção: Hanno Huth, Tom Spiess e Sönke Wortmann.

O Milagre de Berna[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Dirigido com competência por Sönke Wortmann, “O Milagre de Berna” conta a história do primeiro título alemão na história das Copas sob a ótica de uma família praticamente destruída pela segunda guerra mundial. Com sensibilidade e delicadeza, o longa consegue transmitir sensações raras em filmes baseados no futebol, envolvendo o espectador emocionalmente e, de quebra, demonstrando a triste realidade da devastada Alemanha pós-guerra.

Escrito pelo próprio Wortmann ao lado de Rochus Hahn, “O Milagre de Berna” utiliza a verdadeira história da conquista germânica como pano de fundo para nos mostrar os efeitos da guerra naquela sociedade, ancorando sua narrativa na família do pequeno Matthias Lubanski (Louis Klamroth), um garoto apaixonado por futebol que faz amizade com o jogador Helmut Rahn (Sascha Göpel) e vê sua família se transformar quando seu pai Richard (Peter Lohmeyer) retorna após 11 anos de prisão na Rússia. Até então, sua mãe Christa (Johanna Gastdorf) se virava para sustentar a família, cuidando de um bar onde também trabalhava sua irmã Ingrid (Birthe Wolter) enquanto seu irmão Bruno (Mirko Lang) conseguia uns trocados como músico. Os problemas se agravam com o início da Copa do Mundo de 1954 e a convocação de Rahn para a seleção alemã, que complica ainda mais a vida de Matthias.

Além da interessante sacada de narrar a conquista alemã sob a perspectiva de uma família sofrida no interior do país, o bom roteiro de “O Milagre de Berna” ainda conta com alguns diálogos interessantes, como no engraçado momento em que o jornalista Ackermann (Lukas Gregorowicz) explica para a esposa sobre como um repórter deve ser “neutro” na cobertura de um mundial. Ressaltando a falta de esperança e o estado de espírito daquele povo traumatizado pelos horrores da guerra através da família Lubanski (“Nunca seremos campeões nacionais”, diz o decepcionado garoto se referindo ao time de coração), a dupla de roteiristas escancara também os traumas provocados pelo estigma do nazismo, uma verdadeira sombra que infelizmente acompanharia os alemães por décadas.

Ressaltando esta melancolia em seus tons azulados e tristes, a fotografia de Tom Fährmann também ilustra este estado de espírito influenciado pela tragédia da guerra, contrastando este visual opressor com a beleza natural dos campos na chegada à Suíça – e repare como o sol brilha em solo suíço, indicando que o futuro da nação começaria a mudar a partir daquele evento. Aliás, toda a parte técnica de “O Milagre de Berna” é excepcional, como podemos notar na precisa reconstituição de época que nos transporta para a Alemanha e a Suíça dos anos 50, graças ao ótimo design de produção de Uli Hanisch e aos figurinos de Ursula Welter, que recriam as casas típicas alemãs, o estádio da final em Berna, os uniformes e a bola oficial do jogo com uma fidelidade impressionante.

Ackermann explica para a esposaMelancoliaSol brilha em solo suíçoImprimindo um ritmo interessante que constrói uma crescente expectativa pela grande decisão da Copa, o diretor e seu montador Ueli Christen ainda criam interessantes rimas narrativas, como quando a Alemanha vence a Turquia por 4 a 1 ao mesmo tempo em que garotos alemães jogam futebol num campinho ou quando Rahn foge da concentração e Matthias foge de casa, num momento simbólico que ilustra a empatia deles e evidencia o quanto o menino realmente via no jogador a figura paterna que tanto lhe fazia falta. Exatamente por isso, Wortmann emprega um close-up em Matthias quando sua mãe se prepara para ler a carta que anunciará a morte ou o retorno do pai, evidenciando a tensão do garoto e de toda a família. Neste instante, nota-se claramente que cada filho tem uma expectativa diferente para o que pode ouvir da boca da mãe, especialmente Bruno (Mirko Lang), que assumiu a responsabilidade do lar e tem forte ressentimento do pai, como fica evidente quando ele, já com o pai de volta, afirma que o jogador Rahn é “uma espécie de figura paterna para Matthias”.

Rahn que é interpretado por Sascha Göpel de maneira burocrática, mas ainda assim consegue criar empatia com o jovem Matthias. Sua trajetória serve também para nos mostrar a curiosa realidade dos jogadores de futebol da época, que tinham que trabalhar em outros empregos para se sustentar (“A seleção alemã pagará pelos dias de trabalho perdidos, em virtude da Copa do Mundo”). Já o repórter Paul Ackermann de Lukas Gregorowicz funciona como um bem vindo alívio cômico, transmitindo insegurança desde quando tenta convencer a esposa Annette (Katharina Wackernagel) a permitir que ele realize seu sonho e acompanhe de perto a seleção alemã no mundial de futebol – repare como ele hesita antes de contar pra ela que foi escolhido para cobrir a Copa.

Por falar na cobertura da Copa, as entrevistas coletivas do técnico germânico Sepp Herberger (Péter Franke) às vezes soam totalmente sem sentido, mas em outras ocasiões tem diálogos sensacionais, como quando descobrimos a origem da expressão “tempo Fritz Walter”, utilizada até os dias de hoje em gramados alemães. Interpretado de maneira sóbria por Knut Hartwig, Walter ficou marcado como o jogador símbolo da conquista alemã, liderando a equipe dentro de campo e cuidando do talentoso e desajuizado Rahn fora dele – algo que “O Milagre de Berna” também faz questão de mostrar através de uma conversa entre o capitão e o técnico da seleção.

Mãe se prepara para ler a cartaRahn e MatthiasSímbolo da conquista alemãVoltando a família Lubanski, Peter Lohmeyer também tem uma boa atuação como o pai de Matthias, demonstrando sua enorme dificuldade para se adaptar a vida após a guerra através de sua agressividade e do bloqueio que o impede de ter um bom relacionamento com os filhos. Pra piorar, as lembranças da guerra impedem até mesmo que ele trabalhe na mineradora, fazendo com que passe o dia inteiro com a família e crie uma tortura psicológica para todos. Esta complicada situação se arrasta até o jantar em que Richard tenta se reconciliar com a família, seguido pela chocante revelação da morte dos coelhos, que é também o ponto de partida para sua mudança, permitindo que ele sorrisse pela primeira vez após o conflito brincando com uma bola no campo. De fato, o futebol tem mesmo este poder de aproximar as pessoas e, após este momento, ele conversa com Matthias na cozinha e se reconcilia com o filho, numa reaproximação ressaltada até mesmo pelo zoom de Wortmann. No entanto, sua mudança tardia não impediu que Bruno fugisse paraa Alemanha Oriental; e a conversa entre os irmãos antes da fuga serve para ilustrar como o socialismo vendia o sonho de uma vida ideal.

Essencial para o sucesso da narrativa, o jovem Louis Klamroth consegue criar empatia com o público através do seu jeito simples que transforma Matthias num símbolo dos meninos sonhadores que encontram no futebol a sua grande fonte de alegria e inspiração. Obviamente, a boa relação entre o garoto e sua mãe colabora neste sentido, aproximando o personagem da plateia. Aliás, a melhor atuação de “O Milagre de Berna” fica por conta de Johanna Gastdorf como a mãe de Matthias, Christa Lubanski. Transmitindo toda a angústia de uma mulher que acompanha sua família lentamente se dissolvendo, ela mal consegue curtir o esperado momento da volta do marido, enfrentando uma gritante dificuldade de readaptação que fica evidente no dia em que ele retorna, quando eles mal se tocam antes de dormir. O tempo e a guerra esfriaram a chama da paixão e a distancia tornou-os estranhos ao ponto de Richard descer do trem e confundir a esposa com a filha Ingrid, num momento tocante em que o choro de Christa demonstra com clareza esta mistura de sentimentos.

Relação entre o garoto e sua mãeEles mal se tocamConfunde a esposa com a filhaOutro momento marcante acontece quando a senhora responsável pela limpeza do hotel aconselha o técnico da seleção alemã a fazer vista grossa quando Rahn chega bêbado na concentração, contrastando com o violento castigo de Richard em Matthias que contrapõe os distintos estilos de liderança de ambos. Mas o ponto alto de “O Milagre de Berna” é mesmo a grande final, preparada cuidadosamente pelo diretor desde quando engrandece Herberger na tela durante sua última preleção. Em seguida, Wortmann consegue algo raro no cinema ao transmitir muitas das sensações que sentimos assistindo um jogo de futebol, acertando também ao mostrar a reação das pessoas em diversos pontos do país, com as ruas vazias e os alemães se amontoando em bares ou em volta de rádios, mostrando como a Copa do Mundo mexe com a sociedade de forma geral.

Recriando a final da Copa com precisão, “O Milagre de Berna” respeita cada detalhe daquela emocionante partida e consegue criar a atmosfera perfeita através da entrada em campo, do hino nacional e do clima chuvoso, além de encenar com rigorosa fidelidade histórica as jogadas de gol. O único deslize é mesmo o tamanho do gramado, que mais parece um society do que um campo profissional, mas este é apenas um pequeno detalhe diante de tantas qualidades. Cruzando novamente os caminhos de Rahn e Matthias, Wortmann nos conduz ao grande momento do filme de maneira tão envolvente que nos pegamos vibrando como crianças quando Rahn marca o gol da virada germânica, fazendo o povo ir à loucura e os narradores perderem a “imparcialidade”, exatamente como acontece com muitos profissionais do ramo quando seu país está em campo na Copa. É a magia dos mundiais captada em celulóide com precisão.

Senhora aconselha o técnicoAlemães se amontoando em baresJogadas de golNarrando com competência um dos acontecimentos mais importantes da história alemã pós-segunda guerra, “O Milagre de Berna” aproveita para mostrar os efeitos daquele conflito na sociedade, trazendo um país em frangalhos e com o orgulho nacional ferido após o período negro do nazismo. Felizmente, aquele título mundial serviu para devolver ao povo o orgulho de ser alemão e hoje os germânicos formam uma das nações mais bem sucedidas e respeitáveis do nosso planeta. O futebol é mesmo um esporte poderoso.

PS: Comentários divulgados em 19 de Julho de 2010 e transformados em crítica em 20 de Dezembro de 2012.

O Milagre de Berna foto 2Texto atualizado em 20 de Dezembro de 2012 por Roberto Siqueira

NASCIDO PARA MATAR (1987)

(Full Metal Jacket)

 

Videoteca do Beto #58

Dirigido por Stanley Kubrick.

Elenco: Matthew Modine, Adam Baldwin, Vincent D’Onofrio, R. Lee Ermey, Dorian Harewood, Arliss Howard, Kevyn Major Howard, Ed O’Ross, John Terry, Kieron Kecchinis, Kirk Taylor, Jon Stafford, Ian Tyler, Papillon Soo e Bruce Boa.

Roteiro: Michael Herr e Stanley Kubrick, baseado em livro de Gustav Hasford.

Produção: Stanley Kubrick.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após dirigir uma seqüência incrível de grandes filmes entre 1960 e 1980, o genial Stanley Kubrick fez uma pausa de sete anos, voltando em grande estilo com este “Nascido para Matar”, visão peculiar do diretor sobre a guerra do Vietnã, conflito que inspirou tantas obras sensacionais na história recente do cinema. Apesar do ótimo resultado alcançado, o longa de Kubrick é claramente inferior aos excepcionais “Platoon”, lançado um ano antes, e à obra-prima “Apocalypse Now”, de 1979. Ainda assim, consegue ser um filme acima da média, que foca boa parte de sua narrativa em outro aspecto pouco explorado nos filmes do gênero, que é o treinamento que transforma jovens em verdadeiras máquinas de matar.

O rígido sargento Hartman (R. Lee Ermey) é o responsável pelo treinamento cruel, e por vezes até mesmo sádico, de jovens soldados norte-americanos que serão enviados para a guerra do Vietnã. Os métodos nada suaves do sargento transformarão aqueles jovens em combatentes impiedosos, mas nem todos eles têm estrutura psicológica para agüentar a pressão, o que leva a um resultado trágico. Após chegar ao Vietnã, os soldados terminarão seu processo de transformação total ao se deparar com os horrores da guerra. E aqueles que conseguirem voltar pra casa, já estarão mudados para sempre.

Se o espectador busca em “Nascido para Matar” um filme repleto de ação, com explosões e tiroteios ensandecidos, vai se decepcionar. O roteiro de Michael Herr e Stanley Kubrick, baseado em livro de Gustav Hasford, desenvolve os personagens com calma, permitindo ao espectador conhecer muitas de suas características durante o treinamento e acompanhar a completa transformação deles. Além disso, divide claramente a narrativa em duas partes: o treinamento e a guerra. Portanto, durante metade da projeção somos apresentados aos métodos cruéis utilizados para formar jovens soldados e somente na segunda metade é que os conflitos realmente entram em cena. Curiosamente, é na primeira metade que está a melhor parte da narrativa. É extremamente cativante acompanhar personagens fascinantes como o sargento Hartman e os soldados Pyle (Vincent D’Onofrio) e Hilário (Matthew Modine) durante a fase de treinamento. Ironicamente, o maior problema de “Nascido para Matar” acontece no ponto de virada entre o treinamento e a guerra, quando os dois melhores personagens do longa saem tragicamente de cena, o que claramente enfraquece a segunda metade do filme. Este problema poderia ser amenizado pela montagem de Martin Hunter, caso as duas histórias fossem contadas simultaneamente. Desta forma, o impacto da narrativa seria muito maior no espectador, que tentaria descobrir porque Pyle não seguiu com os outros para a guerra. “Teria ele desistido?” poderíamos pensar, e a surpresa viria no final com o impactante desfecho do treinamento. Infelizmente, este chocante final do treinamento é apresentado ainda na primeira metade do filme e deixa o espectador “órfão” dos melhores personagens até então. Apesar disto, a montagem trabalha muito bem durante toda a empolgante seqüência do treinamento, que segue num ritmo intenso e agradável, e também é competente nas seqüências no Vietnã, cheias de energia e realismo.

Mais uma vez, Kubrick extrai de sua equipe um trabalho técnico impecável que resulta no belíssimo visual do longa, como podemos notar através dos figurinos de Keith Denny e da direção de arte de Keith Pain, Nigel Phelps, Rod Stratfold e Leslie Tomkins, que ambientam com competência o espectador ao clima do filme tanto nos treinamentos quanto no combate, através dos uniformes de guerra e, principalmente, do excepcional visual dos destroços da cidade, já no terceiro ato. Vale ressaltar também a boa direção de fotografia de Douglas Milsome, que destaca o verde, cada vez menos vivo – assim como a esperança dentro daqueles corações endurecidos – misturado ao cinza, que simboliza a tristeza daqueles jovens soldados. Finalmente, vale destacar a boa trilha sonora de Vivian Kubrick, composta por excelentes canções.

Entre o elenco, vale destacar o citado trio de personagens, muito bem interpretados por Ermey, D’Onofrio e Modine. Kubrick costumava ser extremamente exigente com seus atores, repetindo tomadas inúmeras vezes até alcançar o resultado que desejava. Aqui, novamente o resultado é bastante competente. O close durante o corte de cabelo dos soldados, seguido por outro close, agora no tenente Hartman, serve como apresentação dos personagens e permite ao espectador se familiarizar com todos eles. E entre tantos interessantes personagens, o maior destaque vai mesmo para o sargento Hartman. A incrível capacidade de criar frases repletas de diversos palavrões deixam claro logo de cara o estilo durão do sargento, interpretado magnificamente por R. Lee Ermey, que utilizou seu conhecimento (ele era sargento de verdade) para improvisar todas aquelas frases. Firme e determinado a transformar aqueles jovens em soldados completos, o sargento não dá trégua para ninguém e busca enrijecer o coração de cada um deles. Hartman alcança seu objetivo, mas o resultado é trágico, principalmente pra ele. Outro interessante personagem é o recruta Hilário (Joker em inglês), que mostra sua capacidade de liderança durante o treinamento, conseguindo extrair melhores resultados do engraçado Pyle. Hilário, interpretado por Matthew Modine, será o fio condutor da narrativa e, apesar da boa atuação de Modine, claramente é um personagem sem a mesma força de Pyle e Hartman. Ainda sim, consegue a empatia do espectador. Finalmente, vale destacar a grande atuação de Vincent D’Onofrio na pele do gordinho Pyle (D’Onofrio teve que engordar muitos quilos para viver o personagem). Inicialmente tranqüilo e até mesmo inocente, o recruta vai lentamente sendo degradado pelo ambiente hostil e sua transformação se consuma quando é atacado de madrugada pelos companheiros, revoltados com as punições sofridas por sua culpa – observe como durante a surra dos soldados em Pyle, a fotografia azulada reflete a frieza de todos eles naquele momento. A partir deste instante, ele para de falar, muda o olhar e demonstra claramente sua revolta, numa atuação inspirada de Vincent D’Onofrio, acentuada ainda mais pela câmera de Kubrick, como no zoom em seu olhar raivoso, que simboliza sua completa transformação. O resultado daquele treinamento pesado foi trágico para Pyle, que enlouqueceu, e ainda mais trágico para Hartman.

Stanley Kubrick mantém em “Nascido para Matar” o seu costumeiro preciosismo na direção, com enquadramentos milimétricos e planos perfeitos. Mas o diretor também mostra competência nas cenas de combate, como podemos observar, por exemplo, durante uma invasão no Vietnã em que a câmera acompanha os soldados, conferindo bastante realismo à cena. Kubrick também estiliza o visual durante a morte de “Bola 8” (Dorian Harewood), utilizando a câmera lenta para aumentar o impacto do ataque enquanto o sangue jorra do corpo do soldado. O diretor cria ainda um belo plano, sob o ponto de vista de um atirador escondido num prédio, seguido por um zoom que nos aproxima da vítima segundos antes do tiro fatal. Além disso, demonstra sua competência também na condução das duas melhores seqüências do longa. A primeira delas, a sensacional seqüência dentro do banheiro (“7,62 milímetros, full metal jacket!”), é a melhor do filme, resultando na impactante morte de Hartman seguida pelo suicídio de Pyle. Infelizmente, acontece muito cedo e de certa forma esvazia o restante da narrativa. Mas o último ato reserva para o espectador outra grande seqüência, durante a tensa invasão do prédio em meio às chamas, que culmina com a execução da atiradora vietnamita em câmera lenta, num balé muito bem dirigido por Kubrick. Neste momento, Hilário encara sua hora da verdade e consuma sua completa transformação, assassinando a sangue frio a vítima indefesa. E seu pensamento final só confirma sua mudança, ratificando o único interesse de qualquer pessoa que se envolva desta maneira na guerra (“Estou num mundo de merda, mas estou vivo”), num contraponto excelente a frase dita por Pyle momentos antes de se suicidar (“Estou num mundo de merda!”) – o que reforça a tese de que se a montagem alternasse as duas histórias de forma paralela, o final seria ainda mais marcante.

Kubrick, assim como outros importantes cineastas ao longo da história do cinema, também fez seu estudo da guerra e dos efeitos que ela provoca na mente do ser humano. A insanidade da guerra levou, por exemplo, um fuzileiro a atirar em crianças e mulheres nos campos do Vietnã, em outra cena chocante do longa. Na visão do diretor, a distância entre a paz e a extrema violência é pequena na mente do ser humano. Basta que ele seja provocado e preparado para se transformar numa máquina assassina. Este pensamento é ilustrado no principal personagem do filme, através do broche da paz no peito e do capacete escrito “Nascido para Matar”, que simboliza perfeitamente a dualidade do homem, como o próprio Hilário diz em certo momento. Kubrick aborda também, de maneira mais sutil, a visão norte-americana do conflito, através da interessante entrevista dos soldados para uma televisão (“Estamos morrendo por eles…”).

“Nascido para Matar” mostra como o exército transforma jovens em verdadeiras máquinas de matar, assim como a guerra endurece seus corações, alterando sua visão do mundo para sempre. Dirigido e interpretado com competência, não deixa de ser um ótimo filme, mas poderia ser ainda melhor com alguns pequenos ajustes. De qualquer forma, deixa sua mensagem, ainda que não seja tão contundente como outras obras do excepcional diretor.

Texto publicado em 15 de Maio de 2010 por Roberto Siqueira

OS GOONIES (1985)

(The Goonies)

 

Videoteca do Beto #57

Dirigido por Richard Donner.

Elenco: Sean Astin, Josh Brolin, Jeff Cohen, Corey Feldman, Kerri Green, Martha Plimpton, Jonathan Ke Quan, John Matuszak, Robert Davi, Joe Pantoliano, Anne Ramsey, Lupe Ontiveros, Mary Ellen Trainor, Keith Walker e Paul Tuerpe.

Roteiro: Chris Columbus, baseado em estória de Steven Spielberg.

Produção: Harvey Bernhard e Richard Donner.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Baseada em estória de Steven Spielberg, esta deliciosa aventura juvenil dirigida pelo versátil e competente Richard Donner brinda o espectador com uma narrativa muito interessante, capaz de prender a atenção durante todo o longa e que conta ainda com algumas cenas simplesmente inesquecíveis. A excelente interpretação coletiva de um elenco jovem e muito competente – que conta com nomes como Josh Brolin e Sean Astin – é a cereja do bolo deste leve e delicioso “Os Goonies”, que marcou toda uma geração de cinéfilos pelo mundo, abordando temas recorrentes da adolescência, como o fortalecimento das amizades e a descoberta do sexo.

Prestes a deixar o local onde vivem, um grupo de adolescentes que se intitula “os Goonies” resolve organizar uma cerimônia de despedida do local e dos próprios integrantes do grupo. Mas ao descobrir o mapa de um tesouro perdido, resolvem partir em busca do misterioso tesouro para evitar a venda e demolição das casas onde moram.

O inteligente roteiro de Chris Columbus, baseado em estória de Steven Spielberg, mistura muito bem a ação e o humor, algo que fica ainda mais evidente graças à dinâmica montagem de Michael Kahn, que imprime um ritmo ágil à narrativa, bastante apropriado para uma aventura juvenil. Além disso, o roteiro aborda temas marcantes da adolescência, como o estabelecimento de fortes laços de amizade e a descoberta da atração pelo sexo oposto. Afinal de contas, o que seriam “os goonies” senão um grupo de amigos, destes que, ainda que o tempo distancie, guardamos na memória para sempre? Já a descoberta da atração pelo sexo oposto, um momento muito importante na vida de qualquer adolescente, é ilustrada, por exemplo, quando Michael (Sean Astin) acidentalmente beija Andy (Kerri Green), que esperava pelo irmão dele (Brandon, interpretado por Josh Brolin), numa das muitas cenas bem humoradas do longa. A criatividade, marca registrada do filme, aparece logo no início da narrativa, através da forma inteligente com que um dos bandidos foge da prisão, deixando claro desde então quem serão os vilões da estória. A criatividade volta a aparecer em diversos outros momentos, como no interessante método utilizado para abrir o portão dos Walsh e, principalmente, durante toda a aventura dos adolescentes na busca pelo tesouro escondido dentro de uma casa aparentemente abandonada. Além disso, o bom humor permeia toda a narrativa, como na cômica tradução de “Bocão” (Corey Feldman) para as palavras em espanhol da empregada e na acidental quebra da estátua da Sra. Walsh. Neste sentido, também merece destaque a ligação de “Bolão” (Jeff Cohen) para a polícia, que serve como lição nada sutil para crianças mentirosas.

Richard Donner dirige “Os Goonies” com extrema segurança, criando belas seqüências em diversos momentos, como no plano aéreo em que os garotos andam de bicicleta, seguido por um pequeno travelling para a esquerda que revela o local onde a aventura se passará. Em outro momento, o diretor movimenta a câmera rapidamente para a esquerda enquanto cada “goonie” fala uma frase, formando um interessante jogral. Já durante a descida por uma espécie de toboágua, a câmera agitada nos leva pra dentro da cena, conferindo realismo e garantido a emoção. Mas o principal destaque no trabalho de Donner vai mesmo para a direção de atores, que consegue extrair uma performance coletiva de alto nível de um elenco extremamente jovem. O drama familiar da eminente perda da casa motiva os jovens a seguir na busca pelo tesouro. E se nos identificamos e compramos a idéia deles, é devido às boas e convincentes atuações. Todos os nomes do elenco merecem destaque, com atenção especial para Jeff Cohen, que interpreta o “Bolão” e é o dono das melhores cenas do longa. Josh Brolin como Brandon Walsh, Sean Astin como Michael Walsh, Corey Feldman vivendo o “Bocão”, Jonathan Ke Quan como “Data” e Kerri Green interpretando Andy completam o coeso elenco juvenil. Ainda nas atuações, o marcante e deformado Sloth é interpretado por John Matuszak e entre os vilões, o destaque fica para a engraçada Mama Fratelli, muito bem interpretada por Anne Ramsey.

Assim como outro herói de Spielberg (o arqueólogo Indiana Jones), os “goonies” cometem erros constantemente, o que aumenta a empatia do espectador e faz com que este realmente tema pelo destino dos aventureiros. Colabora com este sentimento o fato de Donner não abrir mão da utilização de ameaças reais, como o uso de armas de fogo por parte dos bandidos, o que aumenta a sensação de perigo e transforma os vilões em personagens mais realistas. Mas ainda que o perigo pareça real, o clima alegre e divertido é o que prevalece. Os figurinos coloridos de Linda DeScenna e a trilha sonora divertida e empolgante (típica de aventuras) de Dave Grusin – que conta com música de Cindy Lauper – reafirmam a cara oitentista do filme. A fotografia (Direção de Nick McLean), também bastante colorida, reforça o clima alegre do filme. Além disso, capricha na iluminação e no jogo de luz e sombra, já que boa parte do filme se passa dentro de uma caverna.

A frase de Michael “Willie, você é o primeiro goonie” ilustra muito bem o espírito aventureiro do filme, que agrada em cheio tanto as crianças como os adultos – adultos estes que já foram adolescentes um dia e viveram todas as sensações desta fase tão cheia de dúvidas e, ao mesmo tempo, tão marcante em nossas vidas. Nem mesmo os efeitos visuais que hoje soam ultrapassados devem ser levados em conta na avaliação, já que não são mais importantes que a criativa narrativa do longa. Talvez o único pecado de “Os Goonies” seja mesmo o extenso terceiro ato, que demora demais para encerrar a narrativa após a resolução do principal conflito da trama, que é a descoberta do tesouro. Não fosse este pequeno detalhe, a pérola dirigida por Richard Donner seria um filme praticamente perfeito dentro daquilo que se propõe a fazer.

Extremamente leve e divertido, “Os Goonies” conta com um roteiro criativo e a direção competente de Richard Donner para brindar o espectador com uma aventura juvenil bastante agradável. Abordando temas marcantes da adolescência durante a empolgante jornada, consegue prender a atenção do espectador, que se identifica com diversas situações vividas por aquele grupo de jovens e realmente torce pelo sucesso deles. Por isso, pode-se dizer que “Os Goonies” é uma aventura acima da média, que consegue entreter espectadores de todas as idades de maneira bastante original.

Texto publicado em 09 de Maio de 2010 por Roberto Siqueira

MAD MAX 2 – A CAÇADA CONTINUA (1981)

(The Road Warrior)

 

Videoteca do Beto #56

Dirigido por George Miller.

Elenco: Mel Gibson, Bruce Spence, Michael Preston, Max Phipps, Vernon Wells, Kjell Nilsson, Emil Minty, Virginia Hey, William Zappa, Steve J. Spears, Syd Heylen, Moira Claux, David Downer e Arkie Whiteley.

Roteiro: Terry Hayes, George Miller e Brian Hannat.

Produção: Byron Kennedy.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Goste ou não de “Mad Max 2 – A Caçada Continua”, segundo filme da trilogia apocalíptica dirigida por George Miller e estrelada por Mel Gibson, uma coisa é certa: o espectador não sairá indiferente ao que viu. Utilizando um impressionante visual, que se tornou cult com o passar dos anos, o decadente mundo futurista retratado por Miller incomoda, chegando até mesmo a ser repulsivo e sufocante. Incomoda também a falta de diálogos do longa, algo proposital num mundo onde o relacionamento humano está extremamente desgastado. Por isso, apesar da importância do primeiro “Mad Max”, que até mesmo confere bagagem dramática para esta seqüência, este segundo filme se estabelece como o melhor da trilogia, já que o terceiro “Mad Max – Além da Cúpula do Trovão” é o responsável pela queda vertiginosa de qualidade da série.

Num futuro não muito distante, o bem mais precioso da terra passa a ser a gasolina, em virtude de uma guerra nuclear que acabou com os campos petrolíferos do Oriente Médio. Com o precioso combustível é possível se deslocar, fugir ou perseguir alguém. Sem ele, não é possível conseguir nada. É quando Max (Mel Gibson), um homem misterioso e amargurado pelo terrível passado, decide ajudar uma comunidade a defender sua refinaria contra uma gangue de motoqueiros em troca de gasolina.

Todas as palavras que precisam ser ditas em “Mad Max 2” estão resumidas na pequena e excelente introdução do filme, através de um vídeo que recorda a estória do primeiro “Mad Max” e conta como a guerra nuclear devastou o planeta. A partir dali, toda e qualquer palavra será desnecessária. As ações falam por si. Pra piorar, Max é sabidamente um personagem amargurado, de poucas palavras, devastado pela tragédia do passado que retirou as duas pessoas mais importantes de sua vida. Portanto, é absolutamente coerente e compreensível que o roteiro de Terry Hayes, George Miller e Brian Hannat se ressinta de palavras, o que inteligentemente abre espaço para a ação, tão bem conduzida pelo diretor.

Logo na primeira cena George Miller aproveita para matar a sede dos fãs, numa seqüência de perseguição muito bem dirigida e de tirar o fôlego, ainda que momentos depois, ele não resista ao susto barato, quando Max examina um caminhão abandonado e uma mão, seguida por uma cabeça, aparece repentinamente com um acorde alto da trilha sonora, provocando o susto forçado no espectador. Miller também não poupa o espectador ao mostrar o resultado deste novo e violento mundo, com pedaços de corpos mutilados, um estupro coletivo e muitas mortes, como na forte cena em que o garoto-fera (Emil Minty) mata com o bumerangue um dos integrantes da gangue. E ainda que valorize bastante a parte visual, Miller também cria planos simbólicos, como na cena após o terrível estupro, em que Max aparece para vingar o casal e o plano demonstra a grandeza do personagem ao torná-lo gigante na tela. Finalmente, o diretor volta a utilizar, assim como no primeiro filme, uma quantidade menor de frames para transmitir a sensação de velocidade, além de expor todo o excelente trabalho técnico de sua equipe através de planos distantes da Refinaria, inteligentemente apresentados como sendo a visão de Max.

Ainda sobre o esplêndido aspecto visual de “Mad Max 2”, devemos destacar que o visual árido do longa é resultado da fotografia sem vida de Dean Semler, que explora muito bem as locações em meio ao deserto, além de captar com precisão as sensacionais perseguições nas estradas. A empoeirada refinaria e os remendados automóveis e motocicletas atestam o ótimo trabalho de Direção de Arte de Graham Walker. Repare como cada detalhe é bem trabalhado nos cenários, como o ônibus que funciona como portão e toda a estrutura interna da refinaria. Também merecem destaque os interessantes figurinos de Norma Moriceau, com adereços extravagantes nos selvagens motoqueiros e a roupa preta de Max (que como afirmei na crítica de “Mad Max”, simboliza o estado de espírito do personagem), além das roupas brancas das pessoas dentro da refinaria, numa clara alusão ao conflito entre o bem e o mal representado no longa. Finalmente, o excelente trabalho de som é notável nas perseguições, com o nítido som dos carros, motos, caminhões e até mesmo do “helicóptero” cortando o céu, e a trilha sonora de Brian May, até mesmo pela falta de diálogos, marca presença em boa parte da narrativa e mantém um ritmo frenético que colabora com o clima de tensão.

Entre o elenco, o principal destaque vai mesmo para Mel Gibson, que tem atuação discreta, porém muito coerente com o personagem. Este não é o tipo de papel que exige muito do ator, mas Gibson é competente dentro da proposta do personagem. Afetado pelo trágico passado, Max é alguém que praticamente não fala, e o ator transmite muito bem a amargura do nômade, que claramente evita o contato com outras pessoas, como podemos notar quando se recusa a ficar na Refinaria. Solitário por natureza, percebemos até mesmo através de seu carro que Max é alguém completamente adaptado ao mundo em que vive. Seu Interceptor V8 é preparado contra invasores, com faca escondida próximo ao tanque e dispositivo anti-roubo de gasolina, prestes a explodir ao primeiro toque que não seja do próprio Max. Sua única companhia é um cachorro, já que este não fará perguntas e nem forçará Max a pronunciar uma única palavra que não queira. Ainda assim, o desespero daquelas pessoas para encontrar um salvador fez com que apostassem tudo em Max, que inicialmente recusou o rótulo. Obviamente, ele não ajudaria ninguém a não ser que tivesse alguma compensação e só decidiu levar o caminhão quando perdeu tudo que tinha, inclusive seu carro.Sem mais nada a perder e com sede de vingança (novamente, o tema recorrente da série), finalmente resolve dirigir o caminhão. E observe como na conversa em que Pappagallo fala a respeito da fuga, o plano da areia descendo pelo marcador de tempo indica o surpreendente desfecho da perseguição, já que a areia teria papel fundamental na fuga. Dentro do elenco, podemos citar ainda Bruce Spence, com uma atuação modesta na pele do capitão Gyro, responsável pelo mais engenhoso meio de transporte do longa (uma espécie de helicóptero para duas pessoas, feito com resto de material) e Michael Preston, que tem boa atuação como Pappagallo, o líder dos habitantes da refinaria, com destaque para o momento em que questiona a razão da amargura de Max (“Você não é nada!”).

Numa das poucas vezes em que abre a boca pra falar algo, Max demonstra sua coragem (“Se quiserem sair daqui, falem comigo”), facilmente compreendida se pensarmos que este homem não tem mais o que perder na vida. Na realidade, temos a constante sensação de que Max desafia a morte, como quando vai buscar o caminhão sabendo que na volta enfrentará sozinho os perigosos motoqueiros. Esta, aliás, é uma das melhores seqüências do longa, extremamente bem conduzida por George Miller, que confere um ritmo frenético à cena, graças também aos cortes rápidos que revelam o bom trabalho de montagem do trio Michael Balson, David Stiven e Tim Wellburn. Acompanhada pela agitada trilha sonora, a perseguição alterna entre planos aéreos, que dão uma visão panorâmica da perseguição, e planos fechados do rosto de Max, que transmitem sua tensão na angustiante corrida para chegar à refinaria, o que permite ao espectador compreender perfeitamente o que se passa na tela. Já a espetacular seqüência da perseguição final inicia com um impressionante travelling aéreo e, a partir daí, exibe um festival de imagens em alta velocidade, alternando planos diversos de dentro e de fora do caminhão com o uso da câmera lenta, permitindo ao espectador apreciar cada detalhe da frenética perseguição, como atropelamentos e manobras (entre elas, um sensacional giro em 180 graus do caminhão em alta velocidade). Tudo isto, pontuado por uma trilha empolgante e coroado com um final surpreendente, que revela a inteligente estratégia adotada pelos integrantes da refinaria para conseguir fugir com o precioso bem.

Pra finalizar, é importante dizer que “Mad Max 2” é um excelente filme de ação, com um ritmo muito forte e imagens marcantes, baseadas num roteiro simples, mas que diz muito mais através de imagens do que de palavras. Exibindo um futuro ainda mais sombrio que no primeiro filme da série, conta com um visual singular para despejar no espectador uma chuva de sensações, e com isso, fazer com que ele jamais saia indiferente ao que viu.

Texto publicado em 30 de Abril de 2010 por Roberto Siqueira

GOLPE DE MESTRE (1973)

(The Sting)

 

Videoteca do Beto #55

Vencedores do Oscar #1973

Dirigido por George Roy Hill.

Elenco: Paul Newman, Robert Redford, Robert Shaw, Charles Durning, Ray Walston, Eileen Brenann, Harold Gould, John Heffernan, Dana Elcar, Jack Kehoe, Dimitra Arliss e Robert Earl Jones.

Roteiro: David W. Maurer e David S. Ward.

Produção: Tony Bill, Julia Phillips e Michael Phillips.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quatro anos depois do sucesso “Butch Cassidy”, Paul Newman e Robert Redford voltaram a se reunir sob a direção de George Roy Hill para realizar este delicioso “Golpe de Mestre”, que conta com um roteiro primoroso e uma reconstituição de época impecável para narrar a interessante e divertida história de dois golpistas nos anos trinta.

Dois vigaristas dão um golpe num capanga de um importante chefe de quadrilha de Nova York, embolsando uma alta quantia em dinheiro que garantiria a aposentadoria de um deles. Não demora muito até que a reação chegue e, a pedido do “chefão” Doyle Lonnegan (Robert Shaw), um dos golpistas, conhecido como Luther Coleman (Robert Earl Jones), é assassinado. Johnny Hooker (Robert Redford), o outro golpista, consegue fugir e, seguindo o conselho do falecido Coleman, entra em contato com o experiente vigarista Henry Gondorff (Paul Newman), com quem arquiteta um gigantesco golpe contra o mafioso Lonnegan.

A seqüência de abertura de “Golpe de Mestre” dá o tom da narrativa, através da bem orquestrada simulação de um assalto, que resulta no primeiro golpe aplicado pelos vigaristas Luther e Hooker. Esta cena servirá também como base para todo o desenrolar da trama, que será contada através da divisão de capítulos, com transições como fade, zoom e páginas, garantindo uma característica de conto ou fábula ao longa e revelando o bom trabalho de montagem de William Reynolds, que além disso, ainda confere um ritmo delicioso à narrativa. O longa conta ainda com um excelente trabalho técnico, responsável pelo belíssimo visual. O conjunto formado pelos impecáveis figurinos de Edith Head, a excepcional Direção de Arte de Henry Bumstead e a fotografia dessaturada (Direção de Robert Surtees) criam uma reconstituição de época incrivelmente realista, ambientando perfeitamente o espectador à trama. Observe, por exemplo, os carros nas ruas de Nova York, a fachada das lojas e até mesmo os trajes utilizados pelos jogadores para notar como o trabalho técnico é irretocável. O diretor de fotografia Robert Surtees cria ainda um visual interessante nos ambientes internos, constantemente utilizando a sombra dos chapéus para encobrir o rosto dos personagens e usando o contraste luz e sombras de forma muito elegante. Finalmente, a ótima trilha sonora de Scott Joplin apresenta deliciosas canções e ainda utiliza o piano para compor divertidas melodias durante os jogos, o que reforça o clima leve e descontraído do longa.

A direção de George Roy Hill é segura e até mesmo discreta, apesar da freqüente utilização do zoom, como na espetacular jogada final de Gondorff durante o pôquer ou quando ele observa da janela a chegada de Lonnegan ao bar. Hill demonstra competência também na condução dos principais momentos do longa, como as cenas de pôquer, a falsa narração da corrida de cavalos e a perseguição de Snyder (Charles Durning) à Hooker. Outra seqüência muito bem dirigida é a fuga de Hooker do bar, que termina com o sugestivo plano da tampa do bueiro, indicando o esconderijo de emergência do rapaz. Finalmente, o diretor faz um interessante movimento de câmera que sai do quarto de Gondorff, corta para o quarto de Hooker e termina com o plano da misteriosa luva preta, que terá fundamental importância momentos depois, em outra cena surpreendente que termina com a morte de Loretta Salino (Dimitra Arliss).

Mas apesar da boa direção de George Roy Hill, o principal responsável pelo sucesso de “Golpe de Mestre” é o excepcional roteiro de David W. Maurer e David S. Ward. Inteligente e com ótimas reviravoltas, o delicioso texto da dupla prende a atenção do espectador e permite observar pacientemente como os dois vigaristas arquitetam cuidadosamente o grande golpe final. Mas ainda que seja interessante observar este aspecto da narrativa, para que ela funcionasse perfeitamente seria necessário algum tipo de ameaça ao plano. E a dupla Maurer e Ward insere este elemento na trama de forma muito inteligente, através do tenente William Snyder, interpretado corretamente por Charles Durning e que é o responsável pelo desequilíbrio da equação. Personagem chave para o sucesso da trama, Snyder é o responsável pelo temor gerado no espectador durante boa parte da narrativa – assim como sua participação é fundamental na espetacular seqüência final do longa, que reserva a maior e mais agradável surpresa do roteiro.

E que surpresas seriam estas? “Golpe de Mestre” é repleto de cenas em que o espectador é levado a acreditar que está vendo algo, somente para alguns minutos depois descobrir que foi enganado. E mesmo assim, jamais sabemos o que vai acontecer na próxima cena, graças à criatividade do roteiro e às ótimas interpretações do elenco, que tornam verossímeis personagens que poderiam soar cartunescos ou completamente irreais. Interpretado com muito carisma pelo ótimo Paul Newman, Gondorff, por exemplo, é um golpista experiente, que sabe cada passo necessário para alcançar seu objetivo. Extremamente irônico (repare como ele provoca o adversário durante o jogo de pôquer), Gondorff caminha com segurança pelo perigoso caminho que escolheu para viver e acreditamos nos ideais do personagem, por mais sem caráter que suas atitudes possam parecer. Já Robert Redford interpreta com competência o astuto Hooker, que apesar de sua esperteza, freqüentemente corre grande perigo durante suas escapadas. Observe, por exemplo, como Redford transmite muito bem a apreensão de Hooker dentro do quarto, momentos antes de supostamente trair o parceiro e entregá-lo aos federais. Após o surpreendente final, entendemos que sua apreensão pode ser interpretada como fruto da ansiedade pela resolução do plano (que aconteceria no dia seguinte) ou pela solidão do personagem, algo que fica claro quando este procura companhia para passar a noite. Mas inteligentemente, no momento em que vemos o personagem apreensivo, somos levados a pensar que ele realmente entregaria o parceiro, graças também à boa interpretação do ator. A química da dupla, aliás, é essencial para a empatia do público, pois mesmo sendo dois trapaceiros e golpistas, nos identificamos com os personagens graças às simpáticas atuações de Newman e Redford. Vale citar também a impressionante habilidade de Gondorff com as cartas na mão, notável quando as embaralha e sempre mostra o Às de Espadas. Fechando o elenco, além do já citado e importante personagem de Charles Durning, temos Robert Shaw, que vive o mal-humorado chefe da máfia Doyle Lonnegan. Determinado a recuperar o dinheiro que perdeu para os vigaristas (e mais do que isso, manter o respeito pelo seu nome), ele não mede esforços na caça ao astuto Hooker, raramente encontrando espaço para sorrisos e brincadeiras em seu cotidiano. Shaw é competente ao transmitir muito bem esta irritação constante do personagem, como podemos notar durante o jogo de pôquer no trem ou nas seguidas vezes em que ele entra para apostar na corrida de cavalos. Mesmo ganhando o prêmio, o homem é incapaz de sorrir, sempre mantendo um ar de desconfiado – o que não impede que ele sofra o incrível golpe no final.

Quando a última faceta do “golpe de mestre” é revelada ao espectador, sentimos uma gostosa mistura de desorientação e euforia. Apesar de acompanhar o engenhoso planejamento e a meticulosa execução do plano, descobrimos que um detalhe essencial foi ocultado e percebemos que a intenção era exatamente esta. O fato de não revelar propositalmente uma parte vital do golpe faz com que o espectador tema pelo futuro dos personagens, se envolva ainda mais com a trama e se surpreenda com o delicioso final. É como testemunhar um passe de mágica, com a diferença de que descobrimos os detalhes do truque segundos depois de sua execução.

Leve e descontraído, “Golpe de Mestre” soa como um delicioso truque que consegue ao mesmo tempo enganar e agradar ao espectador. Produzido numa época em que o termo “diversão sem compromisso” tinha outro significado, oposto às explosões e a ação frenética recheada de clichês narrativos dos dias de hoje, seu excelente roteiro, aliado às simpáticas interpretações, garante a diversão do espectador.

Texto publicado em 25 de Abril de 2010 por Roberto Siqueira

SEM SAÍDA (1988)

(No Way Out)

 

Videoteca do Beto #54

Dirigido por Roger Donaldson.

Elenco: Kevin Costner, Gene Hackman, Sean Young, Will Patton, Howard Duff, George Dzundza, Jason Bernard, Iman, Fred Dalton Thompson, Leon Russom, David Paymer e Dennis Burkley.

Roteiro: Robert Garland, baseado em livro de Kenneth Fearing.

Produção: Robert Garland e Laura Ziskin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O que você faria se fosse nomeado o responsável por uma investigação que, buscando livrar a pele de um homem importante, procurasse jogar a culpa de um assassinato que ele acidentalmente cometeu em cima de alguém inocente? Imagine agora que a moça assassinada, além de amante deste poderoso homem, era também a mulher por quem você estava apaixonado e vivendo um romance. Pra piorar ainda mais, o homem inocente que deverá levar a culpa é justamente você, mas só você sabe disto. Pois esta é a complicada situação em que se meteu o tenente Farrell, neste ótimo “Sem Saída”, dirigido por Roger Donaldson.

Tom Farrell (Kevin Costner) é um jovem e promissor oficial que tem um caso com Susan Atwell (Sean Young), a amante do Secretário de Defesa dos Estados Unidos, David Brice (Gene Hackman). Num momento de fúria, após descobrir que Susan passou o fim de semana com outro homem (o próprio Farrell), Brice acidentalmente mata a garota e Farrell, que acabara de deixar o local, sabe que ele é o assassino. Brice sabe que alguém o viu entrar no apartamento, mas não sabe quem é, e ironicamente ordena que Farrell comande as investigações do caso, ciente de que a culpa deverá ser direcionada ao homem com quem Susan passou o fim de semana.

Um dos grandes méritos de “Sem Saída” reside na criatividade do excepcional roteiro de Robert Garland (baseado em livro de Kenneth Fearing), que utiliza a guerra fria como pano de fundo para criar este thriller eletrizante e bastante complexo. Repleto de dicas e recompensas – ou seja, momentos que refletirão no futuro da narrativa – o roteiro explora com competência a complicada situação de Tom, deixando o espectador o tempo todo colado na cadeira e atento ao que pode acontecer. Além disso, utiliza inteligentemente a teoria sobre a existência do Yuri – uma espécie de espião russo infiltrado no Pentágono. Finalmente, desenvolve com consistência os personagens (observe, por exemplo, como o envolvimento entre Tom e Susan toma boa parte da narrativa), permitindo com que o espectador se envolva e tema pelo destino deles. O longa conta ainda com as cores limpas da fotografia de John Alcott, que misturadas aos uniformes brancos e aos trajes formais dos oficiais (figurinos de Dallas Dornan e Kathy O’Rear), cria um visual elegante e coerente com o ambiente em que se passa a trama. A fotografia, aliás, tem importância crucial no momento chave da narrativa, quando Tom é mergulhado nas sombras ao sair do apartamento de Susan, não permitindo que David enxergue o seu rosto.

A primeira troca de olhares entre Tom e Susan na festa já indica a atração mútua do casal. Susan está na festa a pedido de alguém (“meu acompanhante não vai gostar, mas a esposa dele vai”) e Tom apenas para fazer contatos que podem ajudar em sua carreira. Entediados com a festa, os dois saem para se divertir na limusine enquanto passeiam pela cidade, numa seqüência bastante erótica, embalada por uma canção romântica. Após a diversão no carro, Susan decide ir para a casa da amiga Nina (Iman) e este breve encontro entre Nina e Tom refletirá em outro momento bastante tenso da narrativa. Durante todo este primeiro ato, Sean Young exala sensualidade e mantém uma excelente química com Costner, como podemos notar na viagem do casal e nos encontros no apartamento, especialmente na cena em que ela tira uma foto dele – e que também pesará no futuro da narrativa. Mas quando Tom liga das Filipinas para falar com Susan e ela desliga na cara dele, a primeira revelação importante acontece e descobrimos que David é o poderoso homem com quem ela sai. Tom só descobre que o amante de Susan é David algum tempo depois, e mesmo assim, leva a situação até o limite. Mas em determinado momento, ele não agüenta mais ter que ser “o outro” e explode, num grande momento de Kevin Costner, demonstrando muito bem a irritação por ser obrigado a sair do apartamento pelos fundos. Costner, aliás, está muito bem como o jovem Tom, transmitindo a angústia e desespero do personagem em busca de uma saída para a enrascada que se meteu. O ator retrata com competência, por exemplo, o choque de Tom ao saber da morte de Susan, quando entra no banheiro e chega a perder as forças ao pensar no futuro obscuro que o aguardava. Extremamente inteligente, Tom Farrell demonstra seu talento logo nos primeiros dias no Pentágono, chegando a assustar Scott (Will Patton) com suas palavras no primeiro encontro com um agente da CIA, e esta inteligência será crucial para sua sobrevivência.

A cena da morte de Susan, muito bem dirigida por Donaldson, é também o momento crucial da narrativa, que vai alterar brutalmente o destino de todas as pessoas envolvidas naquela situação. A câmera lenta acentua a reação dos personagens e o plano plongèe (por cima) de Susan caindo, além de elegante, causa forte impacto. Em seguida, a trilha sonora realça o tom trágico e a câmera busca a reação desesperada de David. A partir deste momento, Hackman inicia um pequeno show particular ao transmitir com exatidão a angústia de David, até então um sujeito absolutamente confiante e inabalável, através da feição desolada ao dizer para o amigo Scott “Eu acho que matei Susan”. Deixando clara a sua importância e status desde sua primeira aparição, o poderoso David Brice passa a ser uma pessoa desesperada e insegura após matar acidentalmente a amante – e Hackman transmite esta sensação com exatidão. Will Patton também é muito competente na pele do fiel Scott Pritchard, deixando claro que fará tudo que estiver ao seu alcance para salvar a pele de David. Scott é manipulador e astuto, sabendo perfeitamente jogar o jogo sujo dos bastidores do poder, e sua devoção por David (“Daria minha vida por ele”) pode ser explicada como uma paixão platônica, o que esclareceria os comentários dos agentes da CIA sobre sua sexualidade.Finalmente, George Dzundza interpreta corretamente o gênio Sam, e sua amizade será a única possibilidade de encontrar uma saída para Tom. Inicialmente, Sam acaba atrapalhando o amigo sem saber, pois está focado na busca pelo “assassino”, sem jamais imaginar que se tratava de um bode expiatório (e pior, que este laranja era o próprio Farrell). Observe a reação decepcionada de Farrell quando Sam conta sobre o filtro por tipo sangüíneo (“Você é um gênio Sam”). Por outro lado, o velho amigo busca ajudá-lo assim que Farrell conta o que está acontecendo, retardando a revelação da foto e inserindo um presente recebido por Brice (e dado para Susan) nos computadores do governo. Infelizmente, o hacker não suportou a pressão e abriu a boca para a pessoa errada, confirmando que Farrell tinha razão quando não queria contar para o amigo o que estava acontecendo (“É para sua proteção”). O resultado não poderia ser outro que não a sua morte.

O ritmo alucinante que domina o longa após o início das investigações reflete o bom trabalho de montagem de William Hoy e Neil Travis, além da excelente condução da narrativa empregada por Donaldson. Nesta etapa podemos apreciar detalhes interessantes do processo de investigação de um crime, como o estudo da composição dos alimentos no estômago da vítima utilizado para descobrir onde ela jantou na noite anterior ao crime. É também a partir do início das investigações que Tom e Scott começam a entrar em conflito, e os dois atores retratam muito bem o lento afastamento dos personagens e o desespero de cada um deles para defender sua causa. Roger Donaldson abusa dos travellings de locais importantes, como o prédio do Pentágono, o Quartel General da CIA e no início do filme, quando somos levados da Casa Branca, passando pelo Pentágono, até a casa onde Tom é interrogado, num movimento que será repetido, no sentido contrário, na última cena do filme. Donaldson se destaca também na tensa seqüência em que Tom e Scott interrogam Nina. Repare como o zoom empregado pelo diretor destaca a reação de Nina a notícia da morte da amiga. Ainda nesta cena, Donaldson cria um plano emblemático, onde podemos ver simultaneamente Scott pressionando Nina em busca do nome do outro amante de Susan (“Quem é o outro homem?!”) e Tom, ao fundo, já se preparando para atacar Scott, desesperado com a possibilidade de ouvir seu nome ser citado. A trilha sonora de Maurice Jarre colabora com o clima tenso, como fica evidente na perseguição de Tom aos assassinos de aluguel, que se transforma numa frenética corrida para encontrar Nina. A tensão aumenta gradualmente, alcançando um clima quase insuportável no momento em que duas testemunhas percorrem o prédio buscando identificar a pessoa com quem Susan passou o fim de semana. O final da busca pelo “Yuri” é chocante, culminando com o suicídio de Scott e a sensacional discussão entre Farrell e Brice, num ótimo duelo entre Costner e Hackman.

Em resumo, “Sem Saída” é um thriller bastante tenso, repleto de reviravoltas interessantes e que conta ainda com ótimas atuações. Talvez a última reviravolta não fosse necessária, mas o restante do longa compensa esta derrapada final. É verdade que sem esta cena, “Sem Saída” seria um filme praticamente perfeito, mas ainda assim é cinema de alta qualidade.

Texto publicado em 18 de Abril de 2010 por Roberto Siqueira

RAIN MAN (1988)

(Rain Man)

 

Videoteca do Beto #53

Vencedores do Oscar #1988

Dirigido por Barry Levinson.

Elenco: Dustin Hoffman, Tom Cruise, Valeria Golino, Gerald R. Molen, Jack Murdock, Michael D. Roberts, Ralph Seymour, Lucinda Jenney, Bonnie Hunt, Barry Levinson e Kim Robillard.

Roteiro: Ronald Bass e Barry Morrow, baseado em estória de Barry Morrow.

Produção: Mark Johnson.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O autismo é uma disfunção global do desenvolvimento, que afeta a capacidade de comunicação, de estabelecer relacionamentos e de responder apropriadamente ao ambiente do indivíduo. Confundir o autismo com qualquer outra doença mental é algo comum entre a maioria das pessoas. Em “Rain Man”, belo road movie dirigido por Barry Levinson, esta patologia é abordada de forma honesta, expondo alguns dos traços característicos da doença de forma clara e direta. E através dela, Levinson constrói uma linda estória de descoberta entre dois irmãos, mostrando como o amor pode transformar vidas e estabelecer relações, por mais diferentes que as pessoas sejam.

O jovem Charlie Babbit (Tom Cruise) descobre logo após o falecimento de seu desafeto pai que herdou apenas um automóvel Buick 1494 e algumas roseiras, enquanto os 3 milhões de dólares da herança foram deixados para um “beneficiário”. Furioso, parte em busca do tal beneficiário e descobre ser seu irmão autista Raymond (Dustin Hoffman), que ele nem conhecia, e que vive numa clínica em Wallbrook. Interessado em sua parte na herança, Charlie “seqüestra” o irmão e parte para Los Angeles, numa viagem que mudará sua vida para sempre.

Dirigido com elegância por Barry Levinson, “Rain Man” conta a trajetória do extremamente egoísta Charlie Babbit, que descobrirá dentro dele, através do contato com o irmão autista Raymond, um sentimento de amor e carinho que sequer imaginava existir. Levinson conduz a narrativa com leveza, recheando o longa com diversos momentos bem humorados, mas entregando ao espectador, acima de tudo, uma bela estória sobre a descoberta pessoal da fraternidade. O diretor também evidencia através da câmera os sentimentos dos personagens, como num plano rápido, porém muito simbólico, em que triste pela herança que não veio, Charlie aparece pequeno e pensativo. Outro plano rápido e repleto de simbolismo é o da fotografia dos irmãos dentro da água quente, já que foi justamente a água quente na banheira que separou os dois na infância de Charlie (“Nunca machuquei Charlie Babbit”, diz Ray). Após o encontro entre os dois irmãos, o diretor passa a utilizar o close com freqüência, realçando as excelentes atuações do elenco (especialmente de Dustin Hoffman), além de criar uma série de planos subjetivos, como o guard-rail da estrada, o semáforo do trem ou a máquina de lavar girando, que ilustram o olhar peculiar de Ray para o mundo. Finalmente, a bela cena em que Charlie descobre a origem do “Rain Man” é linda e extremamente bem conduzida pelo diretor, que não exagera no melodrama. Vale observar o sutil sorriso de Charlie ao descobrir que Raymond era o Rain Man.

“Rain Man” conta ainda com o bem amarrado roteiro de Ronald Bass e Barry Morrow (baseado em estória do próprio Morrow). Observe, por exemplo, como Bass e Morrow utilizam o diálogo em que Charlie explica para sua noiva Susanna (Valeria Golino) a razão de sua briga com o pai para revelar o tempo de relação do casal (um ano) e, ainda mais importante, a existência do amigo “imaginário” de Charlie na infância, o “Rain Man”. Quando a origem do amigo imaginário é revelada, o espectador se lembra deste diálogo e nota, inclusive, a proximidade da pronuncia entre os nomes de Raymond e Rain Man. Além disso, o roteiro mostra como a maioria das pessoas não conhece o autismo, freqüentemente confundindo-o com outras doenças mentais (“Ele é retardado?”, pergunta Charlie e “Ok, mas o que ele tem?”, pergunta uma enfermeira). É também repleto de momentos bem humorados, como quando Ray pára em frente ao semáforo, a engraçada discussão entre os irmãos sobre cuecas e a resposta de Ray à pergunta furiosa de Charlie (“Estou te usando Ray?”. “Sim”). É durante esta discussão, aliás, que Susanna deixa Charlie, por causa de seu egoísmo e principalmente pelo fato dele estar usando seu irmão para conseguir o dinheiro da herança.

E então chegamos a Charlie Babbit. Logo em suas primeiras aparições, notamos o quanto Charlie é extremamente agitado, ambicioso e bastante estressado, sendo capaz de qualquer coisa para ganhar dinheiro, chegando até mesmo a mentir para um cliente sem nenhum pudor, apenas para garantir a venda. Em sua viagem com Susanna, ficam evidentes seus claros problemas de relacionamento com ela e com seu pai, reforçados pela frieza com que reage a notícia da morte dele. Ainda assim, Charlie vai ao enterro, obviamente mais interessado na herança do que em despedir-se do velho Babbit. Mas ao chegar lá, descobre o destino de sua herança e inicia uma viagem rumo à descoberta de si próprio. Tom Cruise não sai muito de sua costumeira atuação enérgica, mas está bem no papel, em especial quando Charlie começa a perceber a importância de Raymond em sua vida. Repare sua indignação ao ouvir que não herdou os 3 milhões de dólares e compare com o belo momento em que os irmãos encostam a cabeça e demonstram carinho, já próximo da despedida deles. A transformação é lenta, gradual, mas evidente. Charlie consolida sua mudança e seu amor pelo irmão quando descobre que Ray era o Rain Man (que deixou o lar por causa do bebê Charlie), ficando sentado na cama com o olhar perdido no horizonte, apenas refletindo. Inicialmente preocupado apenas com a herança, Charlie percebe o valor da amizade de seu irmão, chegando a recusar uma oferta de suborno do Dr. Bruner, interpretado por Gerald R. Molen (“Gostei de ter meu irmão por mais de seis dias”. “Porque ninguém me contou que tinha um irmão?”, pergunta Charlie). O arco dramático do personagem é muito interessante e sua trajetória de transformação se encerra quando confessa ao irmão a importância dele em sua vida (“Eu gosto de ter você como irmão mais velho”). Felizmente, Cruise torna esta transformação crível com sua boa atuação.

E quem é esta pessoa capaz de provocar tamanha transformação em um ser desprezível como Charlie? Chegamos então a Raymond, uma criança num corpo de adulto, com deficiências incomuns e habilidades igualmente raras, resultantes de sua patologia: o autismo. O cumprimento de rotinas é essencial no dia-a-dia de Ray e sua birrenta reação quando é forçado a sair delas ou a fazer algo que não quer é um reflexo de sua mente infantil, como quando consegue, aos gritos, convencer Charlie a trocar um vôo de três horas por uma viagem longa de três dias até Los Angeles. Por outro lado, Raymond é genial ao ponto de contar em questão de segundos 246 palitos no chão ou decorar a lista telefônica. Sua mente é especial, capaz de acertar cálculos absurdamente complexos e errar contas simples somente porque a base é monetária, já que Ray desconhece o valor do dinheiro. A atuação de Dustin Hoffman na pele de Raymond Babbit é simplesmente sensacional. O competente ator compõe um personagem complexo, trabalhando nos pequenos detalhes do autismo, através de gestos e movimentos de mão, do caminhar (repare como ele anda em linha reta quando sai com Charlie pelo jardim), da voz reprimida, do olhar sempre baixo demonstrando sua enorme timidez, da constante repetição de palavras e frases (“Oh, Oh!”, “Definitivamente” e “Eu não sei”, por exemplo), do movimento com o pescoço e a cabeça para frente e para trás em diversos momentos e da constante inclinação da cabeça para um dos lados. Sua inabilidade para o contato social, perceptível em sua clara aversão ao toque, faz com que Ray se prenda ao seu mundo interior. Como diz seu amigo Vern (Michael D. Roberts), “pessoas não são importantes pra ele”, que “sequer notaria se eu fosse embora” – o que arranca imediatamente um olhar mal intencionado de Charlie, já arquitetando em sua mente o plano de fugir com o irmão. Hoffman demonstra talento ainda nos momentos de bom humor, como quando Ray imita o som do carro e o som de Charlie e Susanne transando, e nos momentos mais dramáticos, como quando a fumaça dispara o alarme de incêndio e desencadeia o distúrbio de Ray. Fechando o elenco, Valeria Golino interpreta Susanne, que trata Ray com respeito desde o primeiro minuto que o vê, chegando ao ponto de beijá-lo no elevador, talvez com pena dele por ter sido enganado por uma prostituta.

Tecnicamente, “Rain Man” conta com um trabalho discreto, porém muito eficiente. Observe, por exemplo, como o som ajuda a entender a mente de Ray através do barulho da roleta, captado por ele mesmo estando muito distante dela, mostrando como Ray se concentra em uma única coisa e se desliga do restante do mundo ao seu redor. A excelente montagem de Stu Linder garante uma fluência deliciosa ao longa, além de fazer interessantes transições, como num plano à beira da estrada que passa da noite para o dia e numa série de pequenos planos que simbolizam o tédio de Charlie enquanto aguarda a chuva passar dentro de um motel. A boa direção de fotografia de John Seale aproveita muito bem as lindas paisagens costumeiras em road movies e a simples e eficiente trilha sonora do ótimo Hans Zimmer pontua muito bem a narrativa, indicando ainda as sensações dos personagens, como por exemplo, ao ilustrar através da música empolgante a euforia de Charlie quando este descobre a habilidade de Ray para contar cartas em plena Las Vegas.

O final coerente de “Rain Man” emociona sem ser melodramático ou apelar para a trilha sonora na tentativa de provocar um mar de lágrimas no espectador. A estória dos irmãos Babbit é tocante o suficiente para emocionar a platéia e a despedida correta de Charlie e Ray é um momento sublime. Seria estranho ver Ray abraçar o irmão, por exemplo, já que durante todo o tempo ele evita o contato, chegando no máximo a aceitar encostar a cabeça em Charlie. Por isso, ao vê-lo entrando no trem sem perceber o que está acontecendo, enquanto Charlie sofre do lado de fora, o compreensível nó na garganta do espectador acontece naturalmente. Charlie mudou, Ray não. Tratando o autismo com extrema dignidade e respeito, o singelo e honesto “Rain Man” conta uma estória de fraternidade e amor de forma simples, bem humorada e, como diria Ray, “definitivamente” bela.

Texto publicado em 14 de Abril de 2010 por Roberto Siqueira