NASCIDO EM 4 DE JULHO (1989)

(Born on the Fourth of July)

 

Videoteca do Beto #64

Dirigido por Oliver Stone.

Elenco: Tom Cruise, Willem Dafoe, Kyra Sedgwick, Bryan Larkin, Raymond J. Barry, Caroline Kava, Tom Berenger, Josh Evans, Seth Allen, Jamie Talisman, Sean Stone, Anne Bobby, Jenna von Oi, Samantha Larkin, Erika Geminder, Kevin Harvey Morse, Jessica Prunell, Frank Whaley, Jason Klein, Jerry Levine, Lane R. Davis, Richard Panebianco, Johnny Pinto, Rob Camilletti, J.R. Nutti, Stephen Baldwin, Oliver Stone e Tom Sizemore.

Roteiro: Oliver Stone e Ron Kovic, baseado em livro de Ron Kovic.

Produção: A. Kitman Ho, Lope V. Juban Jr. e Oliver Stone.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Três anos depois de dirigir “Platoon”, o filme “definitivo” sobre a guerra do Vietnã, o diretor Oliver Stone volta ao tema para contar a “guerra após a guerra” com seu “Nascido em 4 de Julho”, belo drama baseado na história verídica de Ron Kovic, ex-combatente do Vietnã (assim como o diretor) gravemente ferido nos campos de batalha. A luta pessoal de Kovic para conseguir se readaptar a sociedade norte-americana após retornar paralítico do conflito e a sua gradual mudança de ideologia é o tema central do bom longa estrelado pelo então jovem astro Tom Cruise.

Jovem idealista e cheio de sonhos, o patriota Ron Kovic (Tom Cruise) deixa para trás a família e a namorada (Kyra Sedgwick) para lutar voluntariamente no Vietnã. Após se chocar com a triste realidade da guerra, ao ver crianças e mulheres vietnamitas assassinadas acidentalmente, Kovic é gravemente ferido e fica paraplégico. Pra piorar, seu retorno à pátria amada não será glorioso como ele imaginava e Kovic terá de enfrentar o preconceito e as dificuldades provocadas por sua condição física, o que faz com que ele passe a lutar também por seus direitos, agora negados pelo mesmo governo que o enviou para o Vietnã.

Personagem rico e complexo, Ron Kovic é interpretado com competência por Tom Cruise, numa das grandes atuações de sua carreira. A longa introdução de “Nascido em 4 de Julho” serve para criar empatia entre o espectador e o personagem principal, o que faz com que o espectador se importe com o destino do personagem. Nascido no dia da independência de seu país, o jovem Ron tem seu patriotismo reforçado durante o pomposo desfile do dia 04 de Julho, com centenas de bandeiras dos Estados Unidos, música típica norte-americana e o desfile de ex-combatentes do exército nacional. Nesta cena, aliás, vale observar como a câmera lenta de Stone realça um momento emblemático na vida do jovem Ron, auxiliado pela triste trilha sonora de John Williams, que indica o trágico destino do protagonista. Numa interessante rima narrativa, Ron sofrerá muitos anos depois um enorme choque diante da dura realidade quando estiver do lado de lá do desfile, sendo ele o “homenageado”, mas vendo diversas pessoas protestando enquanto desfila, e posteriormente, no discurso hipócrita dos governantes. Jovem determinado a honrar a tradição da família e “servir a pátria”, Ron deixa claro durante uma conversa com os amigos a respeito do alistamento voluntário como o governo utilizava o comunismo para influenciar os jovens a seguir para a guerra. Filho de pais religiosos e muito rígidos (ter a revista Playboy era um pecado mortal), o jovem via no exército a chance de ser alguém importante, o que não impede que ele se sinta aflito momentos antes de seguir para o Vietnã e deixar para trás família e namorada – e neste momento, Cruise transmite muito bem a aflição de Ron quando pede a orientação divina. O ator também demonstra com competência a aflição do personagem quando o padre lhe dá a extrema unção após ferir-se em combate, e novamente, quando o médico o deixa sozinho (“Eu quero minhas pernas!”). A boa atuação de Tom Cruise cresce ainda mais após a tragédia. Repare como ator transmite perfeitamente a revolta do personagem, além de demonstrar com muita veracidade a enorme dificuldade para se movimentar, imposta pela limitação física. A transformação ideológica de Ron, ilustrada até mesmo em seu visual, começa a dar sinais quando ele conversa com um amigo, também ex-combatente, e reflete sobre a validade de todo aquele sacrifício. Em seguida, começa a se afundar na bebida e externar sua revolta, o que resulta na cena mais impactante do filme, quando ele dispara contra a família, o governo e até mesmo contra Deus. Vale observar também como a cena é rica em detalhes, como a decepção de sua mãe, revoltada com as palavras do filho. Caroline Kava, aliás, se sai muito bem na pela da puritana Sra. Kovic, que coloca sua fé acima até mesmo do próprio filho. Completando o elenco, apesar de pequena, a participação do ótimo Willem Dafoe é marcante, transmitindo muito bem a revolta de Charlie pela vida que leva, como fica evidente na sensacional discussão entre ele e Ron na estrada. O longa conta ainda com pequenas aparições do ótimo Tom Berenger, como o Sargento Hayes, e do próprio Oliver Stone, como um repórter. Finalmente, Kyra Sedgwick vive o par romântico de Cruise, interpretando Donna de forma correta, mas sem grande destaque.

O bom roteiro de Oliver Stone e do verdadeiro Ron Kovic, baseado em livro do próprio Kovic, espalha diversas críticas à política belicista norte-americana, seja nas palavras do amigo Steve Boyer (Jerry Levine) sobre as mentiras do governo engolidas pelos jovens idealistas ou na reação do irmão de Ron assim que ele retorna paralítico. Após sua transformação, Ron também passa a questionar a guerra, resumindo em seu discurso para uma emissora de televisão a mensagem principal do longa. E neste discurso também estão as palavras de Stone, que aponta o dedo para os governantes americanos e diz que a guerra do Vietnã foi um erro, levando à morte de milhares de jovens inocentes a mais de 20 mil quilômetros de distância, enquanto os lideres do governo faziam discursos inflamados de terno e gravata. Por outro lado, o roteiro escorrega no melodrama, por exemplo, quando a mãe de Ron diz que sonhou com ele discursando igual ao presidente, com a melancólica trilha sonora ao fundo.

Mas se escorrega em alguns detalhes do roteiro, Oliver Stone compensa o espectador com uma direção impecável, conduzindo a narrativa com firmeza e estilo. Repare, por exemplo, como Stone mantém a câmera agitada durante o conflito, com closes da mata e dos soldados, aumentando a sensação de desorientação. Esta desorientação culmina com a imagem de Wilson (Lili Taylor) vindo contra o sol e sendo acidentalmente morto por Ron, numa tragédia que lhe incomodará pelo resto de sua vida (e Cruise também é competente na transmissão deste sentimento). O diretor cria ainda um impressionante plano quando Ron, atingido por um tiro no peito, cai na mata cuspindo sangue, realçando o impacto da cena através da câmera lenta e do plano da mão dele agarrada à mata, além de utilizar em diversos momentos uma câmera subjetiva, sob o ponto de vista dos personagens, como quando Ron chega ao baile ou quando sua mãe vai ao seu encontro em seu retorno. Esta técnica fica mais evidente quando o diretor mantém a câmera na linha de cintura dos personagens, algo que ocorre principalmente na seqüência do México, nos colocando na mesma situação de desconforto de Kovic. Finalmente, Stone cria ainda planos emblemáticos – como o rosto de Kovic refletindo numa foto, transmitindo a tristeza dele ao ver o passado, quando podia andar – e cenas belíssimas, como a dança entre Ron, molhado pela chuva, e Donna, seguida pelo beijo e a música triste que indicam uma despedida inconsciente do jovem àquela vida, ou a emblemática seqüência do massacre na aldeia vietnamita (que também acontece em “Platoon”), que provoca um choque no jovem Ron (“Nós fizemos isso?!”). Chocado também fica o espectador quando, já no final do filme, os policiais afastam de forma violenta os manifestantes, sem nenhum respeito pelo ser humano, agredindo até mesmo os deficientes físicos.

Ainda na parte técnica de “Nascido em 4 de Julho”, a montagem de David Brenner e Joe Hutshing conduz a narrativa em bom ritmo, apesar de alguns escorregões, como os desnecessários flashbacks de cenas que já vimos anteriormente (como as palavras da mãe de Ron repetidas quando ele caminha para discursar, na última cena do filme). A dupla também utiliza o fade em diversos momentos, escurecendo completamente a tela e refletindo o vazio dentro do coração de Kovic. Além disso, faz um interessante raccord sonoro no momento em que Ron deixa a casa dos Wilson, cortando para o mesmo Ron já entre os veteranos que protestam contra a guerra. A direção de fotografia de Robert Richardson cria um visual opaco no Vietnã, que destaca o amarelo e reforça a aridez do campo de batalha. Por outro lado, a fotografia fria e sem vida durante a infância de Kovic deixa claro que esta época é apenas uma lembrança distante na memória dele, contrastando muito bem com a fotografia vermelha do prostíbulo mexicano em que ele vive seu inferno astral. O trabalho de som é espetacular, captando todos os detalhes, como passos na grama, tiros, bombas, helicópteros e os gritos desesperados dos combatentes. E finalmente, as péssimas condições do hospital refletem o descaso do governo com os “heróis de guerra” – algo que fica evidente quando o médico diz que a verba foi reduzida – e revela o bom trabalho de direção de arte de Richard L. Johnson e Victor Kempster.

Quando o pai de Wilson (Tony Frank) diz com orgulho que a família lutou em todas as guerras em que o país se envolveu, “Nascido em 4 de Julho” está na verdade escancarando a necessidade norte-americana de se envolver em conflitos. Repare como Stone foca o neto dele com uma arma na mão quando o Sr. Wilson diz que “estamos sempre prontos para partir”, num plano simbólico que demonstra o tipo de pensamento que leva estes jovens ao conflito e a morte. Por outro lado, o velho Wilson se redime quando diz que nunca vai entender esta guerra, resumindo também o pensamento dos dois roteiristas do longa. Nesta conversa, aliás, Stone coloca Ron no canto da tela, mostrando como ele está claramente intimidado naquele ambiente, em outro momento de destaque na emocionada atuação de Cruise. Ron precisava aliviar sua alma, aflita desde o momento em que disparou acidentalmente contra Wilson. Stone também precisava dizer ao mundo a verdade sobre a guerra do Vietnã, e fez isso com competência por duas vezes, em trabalhos que se complementam.

Oliver Stone confirma que é um diretor competente e, acima de tudo, corajoso ao tocar novamente na ferida norte-americana provocada pela guerra do Vietnã. Com um roteiro audacioso, ainda que tenha problemas, e uma grande atuação de Tom Cruise, “Nascido em 4 de Julho” consegue transmitir a mensagem que deseja, tocando o espectador e principalmente, abrindo os olhos para a triste realidade da guerra, aquela que não aparece nas propagandas e discursos inflamados de governantes. Felizmente, o cinema se encarregou de mostrar a realidade ao longo dos anos através de obras marcantes como esta.

Texto publicado em 07 de Setembro de 2010 por Roberto Siqueira

MÁQUINA MORTÍFERA 2 (1989)

(Lethal Weapon 2)

 

Videoteca do Beto #63

Dirigido por Richard Donner.

Elenco: Mel Gibson, Danny Glover, Joe Pesci, Joss Ackland, Derrick O’Connor, Patsy Kensit, Darlene Love, Traci Wolfe, Steve Kahan, Mark Rolston, Jenette Goldstein, Dean Norris, Juney Smith e Nestor Serrano.

Roteiro: Jeffrey Boam, baseado em estória de Shane Black e Warren Murphy.

Produção: Richard Donner e Joel Silver.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Embalado pelo sucesso de “Máquina Mortífera”, o diretor Richard Donner se juntou novamente a dupla Mel Gibson e Danny Glover para realizar este “Máquina Mortífera 2”, que felizmente consegue manter as melhores características do primeiro filme e, através da introdução de novos elementos na narrativa, renova a trama, evitando que o espectador tenha a sensação de estar vendo uma simples repetição do que já viu anteriormente. Além disso, o longa apresenta seqüências de ação de tirar o fôlego, recheadas com um humor sarcástico que mantém a narrativa leve e descontraída.

A dupla de policiais formada pelo maluco Martin Riggs (Mel Gibson) e pelo pai de família Roger Murtaugh (Danny Glover) tenta combater o traficante de drogas Arjen “Aryan” Rudd (Joss Ackland) que, por ser do corpo diplomático da África do Sul, usa sua imunidade política como escudo para poder cometer seus crimes livremente. A situação da dupla de policiais se complica ainda mais quando os dois são escolhidos para dar proteção a uma testemunha chave do governo, o chato Leo Getz (Joe Pesci).

Logo no início de “Máquina Mortífera 2” o espectador já pode perceber que as principais características do primeiro filme foram mantidas nesta seqüência, através da alucinante perseguição de carro pela cidade. Novamente, Riggs se mostra agitado e sem medo da morte e Roger mais preocupado com sua família do que com qualquer outra coisa. A empolgante perseguição serve também para confirmar o bom trabalho técnico da equipe liderada por Richard Donner, a começar pela a excelente montagem de Stuart Baird – que mantém a cena num ritmo frenético – e pelo belo trabalho de som e efeitos sonoros, que capta com precisão o barulho dos veículos em alta velocidade, os diálogos e principalmente os tiros e explosões. Também se destaca o bom trabalho do próprio Donner, que conduz a cena com segurança e envolve o espectador completamente na narrativa com menos de dez minutos de projeção. A seqüência de abertura revela ainda a característica principal da série, misturando ação e bom humor quando Riggs ri durante a perseguição e diz pra Roger que ele tinha razão, pois “não tinha espaço” para o carro passar. Finalmente, a trilha sonora nostálgica dos excelentes Eric Clapton, Michael Kamen e David Sanborn também está presente nesta continuação.

Um dos grandes destaques do longa, o roteiro de Jeffrey Boam, baseado em estória de Shane Black e Warren Murphy, espalha pela narrativa diversos diálogos sobre coisas banais, como o método utilizado pelo drive-thru para enganar os clientes, o que reforça o clima descontraído. Também colabora a direção de fotografia de Stephen Goldblatt, que utiliza cores vivas durante boa parte da narrativa, o que contrasta muito bem com os momentos de tensão, que normalmente se passam no período da noite e, portanto, com um visual mais sombrio. O roteiro aproveita o clima descontraído para apresentar características dos personagens que refletirão em momentos chave da narrativa, como a brincadeira de Riggs ao deslocar o ombro no departamento de polícia. Uma das marcas da série, o bom humor aparece com força total neste segundo filme, por exemplo, quando Roger assiste junto com toda a família o comercial de Rianne sobre camisinhas (até mesmo Roger ri quando os policiais montam uma árvore em homenagem ao comercial de sua filha) ou quando o som da máquina de pregar faz com que Riggs e Roger se deitem no chão com as armas na mão. Repare que nem mesmo os vilões escapam das piadas do roteiro, como quando um dos capangas de Arjen diz que “só estava vendo se estava em cima do plástico”, numa engraçada referencia à morte de outro parceiro. Mas se por um lado este aspecto mantém a narrativa leve e descontraída, por outro claramente enfraquece os vilões diante do espectador. Em outro momento hilário, Roger fica preso na privada devido a uma bomba e Riggs, apesar de prometer não causar muito alarde, convoca todo o departamento de polícia e a imprensa. Rapidamente, o momento de descontração é substituído pela tensão antes da explosão da bomba, o que serve também para que a dupla prove mais uma vez sua afinidade e amizade através do diálogo que precede a explosão. Outro momento que foge do tom leve da narrativa acontece quando Trish Murtaugh (Darlene Love) encontra uma caneta dourada, o que serve de gancho para que o roteiro explique como foi a morte de Vicki, esposa de Riggs, e mostre como este assunto claramente ainda o perturba. Finalmente, Jeffrey Boam espalha pelo roteiro algumas críticas de forma sutil, como a aposta paga por um policial com a moeda sul-africana que demonstra a corrupção da polícia ou o interessante protesto político contra a matança dos peixes através dos gritos para Roger não comer atum.

Mantendo uma das características do primeiro filme, a fragilidade dos vilões fica evidente em diversos momentos do longa. Repare, por exemplo, a facilidade com que Riggs entra no prédio do consulado sul-africano depois da confusão armada por Roger. Novamente os vilões não conseguem dar a sensação de que representam alguma ameaça à dupla de policiais, talvez pelo tom leve da narrativa ou simplesmente pelas atuações apenas razoáveis dos bandidos. Nem mesmo a tentativa de Donner, ao engrandecer Arjen na tela filmando-o de baixo pra cima ou ao mostrar o chefão eliminando um de seus comparsas após este perder o dinheiro numa fuga de carro, consegue transformar o vilão em alguém temível. Somente no terceiro ato é que os bandidos finalmente passam a representar uma séria ameaça, quando começam a eliminar de seu caminho todos os policiais. Neste momento, aliás, a trama aumenta consideravelmente a carga dramática, através do assassinato de Rika (Patsy Kensit), num plano impressionante embaixo da água, da tortura de Leo e da revelação do assassino de Vicki. Até mesmo a atuação de Gibson melhora consideravelmente neste momento, expressando muito bem a raiva do personagem (“Esta noite não sou policial. É pessoal!”) e partindo para a vingança de forma alucinada. “Não tente me deter Roger”, diz Riggs, claramente transtornado e sedento por vingança. Este, aliás, é um tema recorrente na carreira de Gibson, que freqüentemente interpreta homens que, após terem a família dizimada, partem para a vingança sem medir esforços e conseqüências – o que não diminui a qualidade do trabalho do ator, por mais que não seja uma novidade.

Mel Gibson, vale dizer, que está bem novamente na pele do debochado Riggs. O ator mantém o ritmo frenético do personagem, correndo, pulando, lutando e dando a sensação, com seus olhos arregalados, de estar sempre pronto para explodir. Mas além deste aspecto, Gibson mostra muita qualidade no timing cômico, já que Riggs é responsável por grande parte das ótimas piadas do filme. Observe, por exemplo, como ele contém o riso quando o “careta” Roger se irrita ao ver o comercial de Rianne ou sua forma “carinhosa” de curar um ferimento no nariz de Leo. Quem também repete a boa atuação do primeiro filme é Danny Glover. Seu Roger Murtaugh é o contraponto ideal para a loucura de Riggs, se mostrando sempre focado em sua família e ao mesmo tempo, jamais deixando o parceiro na mão. Novamente a dupla demonstra uma sintonia incrível através dos diálogos sarcásticos e irônicos, o que garante a empatia do espectador. Mas “Máquina Mortífera 2” precisava de algo novo para não se tornar um filme do tipo “mais do mesmo” e para isto conta com um reforço de peso em seu elenco, já que o fantástico Joe Pesci dá as caras para interpretar o irritante Leo Getz de forma fabulosa. Suas falas rápidas, o jeito atrapalhado e as constantes piadas e perguntas infantis fazem de Leo um personagem encantador. Repare sua empolgação quando finalmente se envolve numa perseguição policial (“Isto é assunto da polícia!”) e sua felicidade quando enfim os amigos policiais permitem que ele ligue a sirene.

A competente direção de Donner é responsável ainda pela condução das ótimas seqüências de ação. Numa das grandes cenas do filme, o som dos helicópteros sobre a água serve de alerta para que Riggs e Rika tentem fugir antes do massacre proporcionado pelos vilões em seu trailer. A ação também aparece com força total no terceiro ato, primeiro com a fúria de Riggs, que resulta na destruição da casa de Arjen (repare como ele explode de satisfação quando a casa vem abaixo) e depois, com a tensa seqüência final dentro do navio, onde assim como no primeiro filme, Riggs resolve seus problemas numa luta com seu rival. Donner cria ainda um pequeno suspense quando Riggs cai baleado, mas o bom humor volta com força total no último e engraçado diálogo da dupla, com Riggs deitado no colo do amigo.

Richard Donner consegue repetir em “Máquina Mortífera 2” a fórmula de sucesso do primeiro filme da série, mesclando com competência o bom humor e as espetaculares cenas de ação. Talvez a narrativa leve demais não dê ao tema abordado o peso dramático que este sugere, mas felizmente o segredo do sucesso do filme está na mistura entre ação e humor, e não na discussão sobre o tráfico e suas conseqüências. Dentro de sua proposta, é um filme eficiente, que diverte plenamente o espectador, graças também ao competente trabalho da dupla Gibson e Glover. Por tudo isto, assim como Roger fez com seu tiro certeiro em Arjen, Richard Donner acertou novamente no alvo.

Texto publicado em 03 de Setembro de 2010 por Roberto Siqueira

INDIANA JONES E A ÚLTIMA CRUZADA (1989)

(Indiana Jones and the Last Crusade)

 

Videoteca do Beto #62

Dirigido por Steven Spielberg.

Elenco: Harrison Ford, Sean Connery, Denholm Elliott, Alison Doody, John Rhys-Davies, Julian Glover, River Phoenix, Michael Byrne, Kevork Malikyan, Richard Young, Alexei Sayle e Paul Maxwell.

Roteiro: Jeffrey Boam, baseado em estória de George Lucas e Menno Meyjes.

Produção: Robert Watts.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após iniciar a saga do arqueólogo Indiana Jones com o maravilhoso “Os Caçadores da Arca Perdida”, Steven Spielberg adotou um tom mais obscuro e, conseqüentemente, menos interessante no segundo filme da série, o apenas razoável “Indiana Jones e o Templo da Perdição”. Felizmente, o talentoso diretor volta a utilizar com força total as principais características da série neste delicioso “Indiana Jones e a Última Cruzada”, misturando com eficiência o bom humor e as engenhosas seqüências de ação, e de quebra, ainda introduz o tema “relacionamento entre pais e filhos”, algo recorrente em sua filmografia.

Após descobrir que seu pai (Sean Connery) havia sido capturado pelos nazistas enquanto buscava encontrar o santo Graal, o arqueólogo Indiana Jones (Harrison Ford), acompanhado de seu amigo Marcus Brody (Denholm Elliott), parte em busca do precioso artefato e, principalmente, para tentar salvar seu pai. Ao desembarcar em Veneza, encontra a ajuda da misteriosa Dra. Elsa Schneider (Alison Doody) e novamente se envolve numa série de aventuras.

Definitivamente, “Indiana Jones e a Última Cruzada” é um legítimo representante da série que fez tanto sucesso nos anos oitenta, como podemos notar desde o clássico início com o logo da Paramount se transformando numa montanha. A linha vermelha no mapa enquanto vemos a imagem do avião, o envolvimento com uma mulher, o chapéu, o chicote e a empolgante trilha sonora também continuam presentes. Spielberg mantém ainda outra característica marcante da série, abusando do bom humor. Aliás, se “O Templo da Perdição” se perdia em meio ao clima pesado demais, este “A Última Cruzada” é o mais leve e engraçado dos três filmes. O diretor também dá um show logo na seqüência de abertura, quando o jovem Indy (River Phoenix) foge em cima de um trem com um precioso artefato, abusando da criatividade durante a atrapalhada fuga do rapaz, além de utilizar animais de verdade, sem efeitos digitais, o que somado aos tradicionais truques mecânicos (outra marca da série), confere muito mais realismo à cena. O diretor também demonstra seu talento na condução de cenas extremamente empolgantes de ação, como quando os nazistas perseguem os Jones de moto e na seqüência do deserto em que Indy faz malabarismos para conseguir escapar dos alemães. Além disso, o diretor utiliza a câmera com função narrativa, como no momento em que o zoom na placa “Berlim” indica o caminho que os heróis seguiram. Finalmente, a seqüência final dentro da caverna é carregada de tensão enquanto Indy desvenda os mistérios em busca do cálice e se encerra de forma emocionante quando o Sr. Jones finalmente chama o filho de “Indiana”, deixando claro que a vida deles era muito mais importante que aquele artefato religioso.

Spielberg também inova ao apresentar uma excelente introdução mostrando a juventude de Indy, que serve como base para o fio condutor da narrativa: o relacionamento entre pai e filho. Além disso, serve também para apresentar traços marcantes da personalidade dele, como o medo de cobras e a tomada rápida de decisão, além de revelar como ele passou a utilizar o chicote e o chapéu. Tudo isto é mérito também do bom roteiro de Jeffrey Boam, baseado em estória de George Lucas e Menno Meyjes, que divide a narrativa em duas linhas principais. A primeira delas se concentra na busca pelo Graal e abre espaço para as sensacionais aventuras do arqueólogo. Já a segunda linha narrativa olha, ainda que de forma superficial e bem humorada, para os problemas de relacionamento entre pai e filho que, como dito, é um tema recorrente nos filmes de Spielberg. Além disso, apresenta diversos momentos que remetem ao primeiro filme, a começar pelo plano do professor Jones dando aula, seguido pela referência à Arca da Aliança, a morte de um vilão que se transforma em esqueleto (que claramente lembra o rosto derretido) e, finalmente, até mesmo os próprios vilões nazistas estão presentes nos dois filmes.

Entre o elenco o destaque vai para Harrison Ford, que dá outro show na pele do arqueólogo Indiana Jones, e Sean Connery, que vive o pai de Indy. É impressionante notar como Ford se sente à vontade no papel do carismático herói. Ator e personagem se misturam e nem sequer podemos imaginar outro ator em seu lugar. Todos os trejeitos, olhares e até mesmo o timing cômico do personagem soam perfeitos graças ao talento de Ford. Repare, por exemplo, seu olhar de satisfação quando Elsa descobre que a página com o mapa foi arrancada do diário ou o seu sorriso de alivio quando Hitler autografa o diário. Já Sean Connery mostra seu talento desde sua primeira aparição, formando uma dupla perfeita com Ford. Famoso por interpretar James Bond (o pai cinematográfico de Indiana Jones), ninguém melhor do que ele para interpretar o pai de Indy e impor respeito. A química dos dois atores é perfeita, sendo responsável por diálogos deliciosos e cheios de sarcasmo, presenteando ainda o espectador com pelo menos dois momentos hilários, quando Henry Jones incendeia acidentalmente uma sala nazista e quando ele encontra uma passagem secreta, provocando a queda imediata de Indy pela escada. Mas apesar de cômica, a relação dos dois tem um traço de ressentimento perceptível em alguns momentos, como num diálogo expositivo que explica a morte da Sra. Jones. Observe, por exemplo, como o Sr. Jones chama Indy de “Júnior” diversas vezes, provocando a irritação do filho, como se ainda o visse como um menino. Note também como em diversos momentos Indy toma atitudes que lhe enche de orgulho próprio, mas seu pai olha com desaprovação, provocando sua imediata mudança de feição. A troca de olhares entre Ford e Connery, aliás, também provoca momentos muito engraçados, como quando eles conversam com os nazistas sobre o diário e quando o Sr. Jones diz que Elsa fala enquanto dorme, deixando claro que também dormiu com ela. No único momento em que tenta se abrir com o pai, Indy fica sem palavras, e novamente o roteiro toca na difícil relação entre pai e filho de maneira bem humorada, algo que se repetiria na cena em que Indy supostamente cai do penhasco, provocando a confissão de seu pai (“Achei que tinha te perdido”). Nesta cena, aliás, Spielberg cria um pequeno suspense antes de revelar, novamente com bom humor, a salvação de Indy. Fechando o elenco, temos ainda Alison Doody, que vive a sensual e perigosa Elsa Schneider com elegância, Denholm Elliott, interpretando o engraçado Marcus Brody e o retorno do fascinante Sallah, interpretado novamente com competência por John Rhys-Davies.

Também merece destaque o trabalho técnico feito em “Indiana Jones e a Última Cruzada”, a começar pela montagem de Michael Kahn, que tem papel fundamental nas espetaculares seqüências de ação, alternando entre os vários planos com agilidade. Além disso, mantém a narrativa num ritmo sempre empolgante, o que é essencial numa aventura. Kahn ainda faz algumas transições interessantes, como no momento em que através do chapéu o jovem Indy se transforma no adulto Indiana Jones. A direção de arte de Stephen Scott, auxiliada pelos ótimos figurinos de Joanna Johnton e Anthony Powell e pela bela direção de fotografia de Douglas Slocombe, capricha na ambientação do espectador, criando três ambientes completamente diferentes. A beleza estonteante de Veneza contrasta com a gélida seqüência em território alemão e austríaco, ao passo em que o deserto tem um visual mais seco, refletindo o crescente desconforto de Indy na medida em que avança em sua missão. Slocombe também capricha na fotografia obscura dentro da caverna, iluminada somente com velas e tochas, além de carregar nos tons escuros como o preto e o vermelho que, auxiliado pelas tochas, conferem um ar infernal ao desfile nazista, simbolizando o mal encarnado naqueles vilões. Finalmente, merece destaque também o bom trabalho de som e efeitos sonoros, perceptível principalmente nas seqüências de ação.

Como não poderia deixar de ser, “Indiana Jones e a Última Cruzada” termina de forma bem humorada, revelando o nome completo de Indy e a origem de seu “Indiana”. Podemos citar ainda outros diversos momentos engraçados, como o barulho de Indy quebrando o piso enquanto um senhor carimba papéis, a fuga dos Jones de avião (“Nos atingiram!”) e a seqüência seguinte, quando o Sr. Jones diz que “Estão tentando nos matar! […] É uma experiência nova pra mim” e ouve Indy responder que “Acontece comigo toda hora!”. A mistura de ação e bom humor se revela a receita perfeita para esta aventura deliciosa, embalada por dois personagens extremamente carismáticos e por um roteiro muito inteligente.

Spielberg acerta novamente na condução de mais esta maravilhosa aventura do arqueólogo Indiana Jones. Aproveitando o carisma de seu herói e de seus atores, o diretor aborda seu tema preferido de forma bem humorada e envolve novamente o espectador, através de seqüências de ação incrivelmente criativas e, acima de tudo, de uma narrativa muito envolvente.

Texto publicado em 26 de Agosto de 2010 por Roberto Siqueira

DE VOLTA PARA O FUTURO 2 (1989)

(Back To The Future Part II)

 

Videoteca do Beto #61

Dirigido por Robert Zemeckis.

Elenco: Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Lea Thompson, Thomas F. Wilson, Elisabeth Shue, James Tolkan, Jeffrey Weissman, Charles Fleischer, Darlene Vogel, Jason Scott Lee, Elijah Wood, Flea e Billy Zane.

Roteiro: Robert Zemeckis e Bob Gale.

Produção: Neil Canton e Bob Gale.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apoiando-se num roteiro incrivelmente engenhoso e criativo e contando com um elenco muito afiado, o diretor Robert Zemeckis brindou os espectadores com uma verdadeira obra-prima quando lançou nos cinemas, em 1985, o primeiro filme da trilogia “De Volta para o Futuro”. Felizmente, este segundo filme da série mantém a qualidade primorosa do primeiro filme e presenteia os cinéfilos com uma continuação que consegue explorar a mesma premissa de forma original e igualmente criativa, renovando a trilogia e evitando que soe como algo repetitivo.

Após conseguir corrigir o passado e alterar o futuro, o cientista Doc Brown (Christopher Lloyd) volta desesperado ao ano de 1985 para levar Marty (Michael J. Fox) e sua namorada (Elisabeth Shue) para o ano de 2015, com o objetivo de evitar uma verdadeira tragédia familiar provocada pelos filhos do casal. Já no futuro, o velho Biff (Thomas F. Wilson) consegue entrar na máquina do tempo e voltar ao ano de 1955, somente para entregar a si mesmo o almanaque dos esportes, com todos os resultados esportivos do período entre 1950 e 2000. Por isso, quando Doc e Marty retornam ao ano de 1985, encontram um mundo completamente diferente, resultado do poder adquirido pelo milionário Biff ao longo dos anos. Desta forma, a única maneira de destruir esta realidade paralela e evitar este futuro sombrio é voltar ao ano de 1955 e impedir que o velho Biff entregue a si mesmo o tal almanaque.

Logo no inicio de “De Volta para o Futuro 2” podemos rever a cena que encerrou o primeiro filme, num dos inúmeros momentos em que o espectador poderá rever uma cena sob outra perspectiva, pois o longa é repleto de rimas narrativas entre os dois filmes (e até mesmo com o terceiro filme), o que é extremamente elegante. Ao chegarmos ao ano de 2015, até podemos questionar o avanço tecnológico apresentado num período tão curto de tempo (de 1989 para 2015 temos apenas 26 anos), mas é inegável que o longa aproveita mais uma vez as inúmeras oportunidades que a situação oferece, como podemos notar na inteligente justificativa para o não envelhecimento do professor, que explica sobre as avançadas clínicas de rejuvenescimento. Inteligente também é a forma como os dois Martys se cruzam embaixo do balcão, o que possibilita a troca entre eles e abre espaço para revivermos a grande cena, agora completamente renovada, em que Marty foge de Biff em cima de um skate. O bom humor também está novamente presente, como notamos quando Doc diz que a justiça ficou muito rápida depois que aboliram os advogados.

O longa de Robert Zemeckis também mantém o excelente nível técnico do filme anterior, com destaque especial para a bela direção de arte de Margie Stone McShirley, que recria a cidade de diferentes formas em cada período, sempre com muita criatividade, como fica evidente na evoluída cidade de 2015 através dos carros, do posto Texaco e da engraçada referência à Tubarão 19 (!) – sucesso de Spielberg, que é amigo de Zemeckis e também produtor executivo do longa. A fotografia colorida em 2015 de Dean Cundey e Jack Priestley dá lugar às tonalidades escuras do ambiente hostil e sombrio nos anos dominados por Biff e volta aos tons pastéis nostálgicos nos anos cinqüenta. Já a montagem ágil de Harry Keramidas e Arthur Schmidt reforça o clima de urgência da missão da dupla, que neste segundo filme é ainda maior que no primeiro, além de colaborar sensivelmente nas seqüências de ação, também mais freqüentes neste segundo longa. Também merece destaque a maquiagem, que permite com que o mesmo ator apareça duas ou três vezes na mesma cena de formas completamente diferentes, além, é claro, dos ótimos efeitos especiais, que trazem grande realismo às cenas. Finalmente, a bela trilha sonora de Alan Silvestri está novamente presente, com músicas joviais e com o imponente tema da série.

A direção de Robert Zemeckis é impecável, mantendo o ritmo ágil e criando um visual magnífico em todas as épocas da narrativa, além de criar seqüências muito interessantes sempre que um personagem encontra seu correspondente em cena, como nos encontros entre os dois “Docs”, “Biffs”, “Jennifers” e “Martys”. Zemeckis também acerta a mão na condução das cenas de ação, como a sensacional perseguição de Biff, com o carro, à Marty, que foge no skate, já próximo do final do filme. Finalmente, o diretor consegue sucesso mais uma vez na direção de atores, permitindo que o elenco apresente outro excelente desempenho. Michael J. Fox está novamente perfeito como Marty McFly. Devido a um acidente com seu carro que o impediu de continuar com a música, Marty se tornou um infeliz funcionário em seu trabalho, enquanto seu filho se tornou um verdadeiro idiota, como ele mesmo admite quando o vê. E o ator aproveita a excelente oportunidade de mostrar talento ao interpretar as diversas etapas da vida do personagem com competência, além de interpretar também seus próprios filhos. Thomas F. Wilson vai muito bem quando interpreta o cruel Biff, sempre ameaçador. Repare como o ator utiliza uma voz rouca que colabora com este poder de intimidação do personagem. E mesmo quando interpreta o velho Biff o ator convence, mostrando que a vida dura que levou após as mudanças no passado não tirou o seu apetite pelo poder. Já quando interpreta o jovem Griff, Wilson exagera e acaba soando caricato, mas nada que comprometa sua atuação. Quem também repete a excelente atuação do primeiro longa é Christopher Lloyd, com todos os trejeitos do maluco doutor Emmett. Seu “Doc” é um personagem extremamente carismático e o ator tem todo o mérito por isso. E finalmente, Elisabeth Shue pouco aparece com sua Jennifer, não permitindo uma atuação além de discreta.

Mas apesar de toda qualidade do elenco e do ótimo trabalho técnico, novamente o grande destaque do longa é o roteiro de Zemeckis e Bob Gale. Ainda mais intrincado que no primeiro filme, o roteiro permite uma viagem através do tempo e faz constantes referências ao primeiro e (melhor ainda) ao terceiro filme, provando a qualidade da engenhosa criação da trilogia por parte dos roteiristas. Não é raro notar menções ao velho oeste, como quando vemos um vídeo sobre o tio de Biff ou quando “Doc” diz que se arrepende de não ter visitado o velho oeste, o que já prepara o terreno para a parte final da trilogia. Zemeckis e Gale também aproveitam praticamente todas as oportunidades que a situação oferece para explorar ao máximo estas idas e vindas no tempo, como quando McFly comemora o fato de morar em determinado bairro que, na realidade, se tornou o mais perigoso da cidade devido às mudanças do passado, como fica evidente nas palavras de um taxista. O roteiro abusa ainda das elegantes rimas narrativas com o primeiro filme, como quando McFly sai com o skate pelas ruas da cidade sendo perseguido por Biff. Mais interessantes ainda são os momentos marcantes do primeiro longa que podemos reviver sob outra perspectiva, como quando Marty toca guitarra enquanto podemos ver o outro Marty andando por cima da estrutura do palco ao fundo.

Por tudo isto, “De Volta para o Futuro 2” pode ser considerado um filme tão qualificado quanto o primeiro da trilogia. Além disso, o longa tem ainda o mérito de preparar o espectador para a parte final da série, como podemos notar quando a Western Union entrega a carta de Doc para Marty com data de 1885. Isto acontece porque em outro momento muito importante, porém sutil, o acidente com o Deloren zera a máquina do tempo e altera a data para 1885, o que também reflete no terceiro filme da série. Desta forma, além de se deliciar com este segundo filme, o espectador praticamente se sente obrigado a assistir o terceiro, o que não deixa de ser inteligente.

Belíssima aventura que nos permite viajar através do tempo, passando pelos anos de 2015, 1985, 1955 e finalizando em 1855, “De Volta para o Futuro 2” é extremamente criativo e cativante, permitindo ao espectador notar claramente as diferenças entre cada época, tanto no aspecto cultural quanto no aspecto visual, além de proporcionar um delicioso exercício de imaginação por parte de cada espectador. É maravilhoso viajar com Marty e Doc através do tempo e por isso, mal podemos esperar pelo terceiro filme da série. Ainda bem que hoje em dia, com a trilogia disponível em DVD, não precisamos de um Deloren para avançar no tempo, como os espectadores certamente desejaram fazer quando o segundo filme foi lançado nos cinemas.

Texto publicado em 11 de Agosto de 2010 por Roberto Siqueira

CONDUZINDO MISS DAISY (1989)

(Driving Miss Daisy)

 

Videoteca do Beto #60

Vencedores do Oscar #1989

Dirigido por Bruce Beresford.

Elenco: Morgan Freeman, Jessica Tandy, Dan Aykroyd, Patti LuPone, Esther Rolle, Jo Ann Havrilla, William Hall Jr., Alvin M. Sugarman, Clarice F. Geigerman, Muriel Moore, Sylvia Kahler e Crystal R. Fox.

Roteiro: Alfred Uhry, baseado em peça teatral de Alfred Uhry.

Produção: Lili Fini Zanuck e Richard D. Zanuck.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

De forma simples e eficiente, o diretor Bruce Beresford nos traz esta tocante estória sobre uma senhora judia que hesita em aceitar seu novo motorista negro após sofrer um leve acidente com seu novo carro. A trajetória de aceitação, quebra de preconceitos e aproximação de duas pessoas solitárias, e acima de tudo, o olhar humano, despido de preconceito racial ou religioso (ele é negro, ela judia), torna este “Conduzindo Miss Daisy” um lindo filme sobre o valor do caráter humano e da verdadeira amizade.

Uma rica judia de 72 anos de idade (Jessica Tandy) acidentalmente joga seu carro novo no jardim do vizinho. Seu filho Boolie (Dan Aykroyd) tenta convencê-la de que ela precisa de um motorista, mas ela resiste à idéia. Mesmo assim, seu filho contrata o motorista Hoke (Morgan Freeman), provocando a imediata recusa de sua mãe. Mas gradativamente ela quebra a barreira da diferença cultural e racial existente entre eles, aceita suas próprias limitações e permite nascer e crescer um sentimento puro e sincero de amizade que durará décadas.

Embalado pela leve e descontraída trilha sonora do sempre ótimo Hans Zimmer, o diretor Bruce Beresford conduz este singelo “Conduzindo Miss Daisy” com enorme segurança, permitindo que os ótimos desempenhos de todo o elenco sejam a principal atração do longa. Ainda assim, a parte técnica merece destaque, a começar pelo excelente trabalho de direção de arte de Victor Kempster que, auxiliado pelos figurinos de Elizabeth McBride, cria um visual coerente com a época da narrativa, notável através do interior das casas, dos carros e da própria maneira de se vestir dos personagens. Vale observar também como a fotografia discreta e sem muita vida de Peter James reflete a personalidade de Miss Daisy, que detesta chamar a atenção, como ela mesma deixa claro ao reclamar quando Hoke para o carro na porta da igreja. Por outro lado, James explora muito bem a beleza dos jardins e ruas arborizadas da cidade, criando um interessante contraste visual. Já a maquiagem da dupla Manlio Rocchetti e Kevin Haney é simplesmente espetacular, refletindo com precisão o envelhecimento dos personagens, notável principalmente no terceiro ato do longa. E finalmente, a montagem de Mark Warner flui muito bem, cobrindo muitos anos da vida dos personagens sem jamais soar cansativa ou episódica, além de fazer a transição do tempo de forma elegante em muitos momentos, por exemplo, através do crescimento das flores no jardim. O diretor Beresford também é competente na criação de planos interessantes, como aquele em que podemos ver o reflexo de Hoke no belíssimo Hudson que ele vai dirigir por muitos anos ou na magnífica composição visual da viagem feita por Miss Daisy e seu motorista, além é claro da elegante câmera lenta que indica a morte de Idella (Esther Rolle).

Sem fugir do clichê “eles se odeiam e depois viram grandes amigos” (que neste caso é muito bem utilizado, pois o desentendimento inicial é perfeitamente aceitável, assim como o nascimento da relação de respeito e carinho entre eles), o bom roteiro de Alfred Uhry, baseado em peça teatral do próprio Uhry, estuda minuciosamente os efeitos do envelhecimento no ser humano, normalmente resistente às mudanças provocadas pela passagem do tempo. Esta resistência provoca uma enorme dificuldade em aceitar que não podemos mais fazer as mesmas coisas de antes, como quando Miss Daisy resiste em aceitar que não pode mais dirigir. Além disso, o roteiro acertadamente aborda temas complicados, como o racismo (os negros são empregados e motoristas), tão forte naquele período da história dos EUA, e a discriminação religiosa, escancarados na frase preconceituosa do policial que pára os dois idosos na estrada. Finalmente, o roteiro de Uhry conta ainda com diálogos dinâmicos, inteligentes e repletos de ironia, principalmente entre a dupla principal e entre Miss Daisy e seu filho.

Colaboram para o dinamismo dos diálogos as excelentes atuações do elenco, com destaque para o trio principal formado por Tandy, Freeman e Aykroyd. Jessica Tandy está perfeita como a amargurada Miss Daisy. Teimosa e extremamente autoconfiante, ela demonstra enorme dificuldade em se despir de preconceitos e alterar sua rotina, como quando reclama por mudar o caminho para o mercado Piggly. Miss Daisy é tão ranzinza que canta enquanto o filho fala, simplesmente por não concordar com o que ouve. A ironia – traço forte do roteiro que garante o tom de comédia – também está presente nas frases da personagem, como quando ela fala sobre o nariz de sua nora Florine (Patti LuPone), assim como o olhar sempre negativo para o mundo, exemplificado no sorriso dela ao constatar que algo sumiu de sua dispensa, como se já esperasse por aquilo. Esta seqüência do “roubo do salmão”, aliás, reafirma o tom bem humorado do longa, perceptível até mesmo na trilha sonora, que dá um acorde alto criando suspense. Depois da resolução do “caso”, repare como o diretor inteligentemente cria um plano com a cozinha vazia, refletindo a sensação que o espectador sente naquele momento. Extremamente resistente no inicio, Miss Daisy completa sua gradual transformação ao longo dos anos quando confessa seu sentimento de amizade por Hoke (“Você é meu melhor amigo”), e esta transformação é notável graças ao excelente trabalho da atriz. Tandy também demonstra muito bem o desespero de Miss Daisy quando começa a enfrentar problemas de memória, descendo a escada para procurar “as provas que devem ser corrigidas” e falando repetitivamente, além de mostrar competência também quando recorda da primeira vez que viajou, aos doze anos de idade, num momento nostálgico e tocante. E o responsável por toda esta mudança na vida da rica judia é um senhor simples e de enorme coração, interpretado magnificamente por Morgan Freeman. A introdução de Hoke na narrativa é perfeita, apresentando logo de cara todos os trejeitos do personagem, como a voz calma e anasalada, o sotaque diferenciado, o andar encurvado e lento, o olhar por cima dos óculos e a gargalhada. Seu jeito tranqüilo e paciente é ideal para conseguir conviver diariamente com a difícil Miss Daisy. Repare como logo na entrevista com Boolie fica evidente a ótima caracterização do personagem, reforçando a qualidade da atuação de Freeman. Vale destacar em especial dois grandes momentos do ator. O primeiro, na emocionante cena em que Hoke procura a lápide de Bauer e escancara sua deficiência na leitura, onde o ator transmite toda a dificuldade e embaraço do personagem, provocando a imediata reação de Miss Daisy, que sorri de satisfação quando o motorista consegue encontrar a lápide. O outro momento acontece quando Hoke pede aumento para Boolie. Freeman demonstra com enorme sensibilidade, através do jeito de falar, da gargalhada e do tom de voz, a intenção do personagem, ainda que as palavras não digam claramente o que ele pretende. Finalizando os destaques do elenco, Dan Aykroyd se sai muito bem no papel do divertido Boolie, que sabe perfeitamente como é difícil conviver com sua amada mãe. Por isso, ele raramente dá ouvidos às constantes reclamações da velha senhora, e até mesmo quando o faz, é sempre com um pé atrás, como no caso do salmão roubado. Além disso, o ator demonstra com competência o modo sempre irônico com que Boolie lida com os problemas da família (“Carros não agem, as pessoas que agem com eles”), como quando sua esposa reclama por não ter coco ralado no natal.

Quando Hoke se rebela e diz que é um senhor de 70 anos de idade que precisa fazer xixi, ele finalmente ganha o respeito definitivo de Miss Daisy. Os dois, aliás, começam a dar sinais evidentes da relação de amizade entre eles quando ela lhe presenteia no natal (“Não é presente de Natal. Judeus não têm nada que ver com isso”, faz questão de ressaltar). Neste momento, ainda que as fortes tradições se mantenham (Hoke fica do lado de fora da casa), o livro que ele ganha simboliza que a relação entre os dois já não é apenas profissional. E é delicioso acompanhar a construção gradual e consistente de uma amizade verdadeira. Por isso, quando chegamos à seqüência final, com os dois amigos sentados à mesa conversando enquanto Hoke alimenta Miss Daisy, nos sentimos comovidos. E esta comoção não é provocada de forma artificial ou melodramática. É simplesmente belo ver como os velhos traços da amizade permanecem, com as alfinetadas e a ironia presentes no diálogo, mas o respeito e admiração são muito mais fortes.

A velhice é tratada com respeito neste sensível “Conduzindo Miss Daisy”, extremamente bem atuado e com um roteiro bastante inteligente, que nos deixa algumas reflexões. A vida passa, o corpo enfraquece, os filhos crescem, os amigos e familiares se vão, mas as lembranças ficam. E afinal de contas, o que levamos desta vida? Levamos o amor, as verdadeiras amizades e as histórias que vivemos para contar. Melhor ainda é quando chegamos ao final desta trajetória podendo contar com alguém, seja este (a) um (a) companheiro (a) ou um verdadeiro (a) amigo (a). É isto que vale a pena na vida.

Texto publicado em 31 de Julho de 2010 por Roberto Siqueira

CAMPO DOS SONHOS (1989)

(Field of Dreams)

 

Videoteca do Beto #59

Dirigido por Phil Alden Robinson.

Elenco: Kevin Costner, Amy Madigan, Gaby Hoffman, Ray Liotta, Timothy Busfield, James Earl Jones, Burt Lancaster, Frank Whaley, Dwier Brown, Fern Persons, Michael Milhoan, Steve Eastin, Charles Hoyes, Art LaFleur, Lee Garlington, Mike Nussbaum e James Andelin.

Roteiro: Phil Alden Robinson, baseado em livro de W.P. Kinsella.

Produção: Charles Gordon e Lawrence Gordon.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quão injusta é a morte? É triste pensar que jamais resolveremos algo que ficou pendente quando alguém nos deixa. Aquela bebida com um amigo depois do expediente, aquele churrasco com a família, aquela viagem tão sonhada, nada disto é possível se um dos participantes se vai. Pior ainda é quando estamos brigados, distantes ou com alguma situação mal resolvida. O remorso corrói aquele que fica, ainda que a recíproca fosse verdadeira numa situação inversa. A chance de reconciliar-se com o passado e realizar os sonhos é o tema deste belíssimo “Campo dos Sonhos”, dirigido por Phil Alden Robinson e que exemplifica perfeitamente como o cinema pode ser mágico. Quando os créditos começam a aparecer na tela, além de enxugar as inevitáveis lágrimas, o espectador pode tirar algumas lições, como aproveitar cada segundo da vida, fazer tudo que tiver vontade e não deixar nada pra depois. E principalmente, não se desentender com quem ama por besteiras.

O fazendeiro Ray Kinsella (Kevin Costner) caminha pelo seu milharal em Iowa quando ouve uma misteriosa voz que lhe diz “Se você construir, ele virá”. Após ter uma visão de um campo de beisebol no meio de suas plantações, ele entende que deverá construir este campo para que seu grande ídolo do beisebol no passado volte a jogar. O detalhe é que “Shoeless” Joe Jackson (Ray Liotta), o jogador em questão, está morto há muitos anos. Após construir o campo, a mágica acontece e Ray descobre que este local pode realizar muitos outros sonhos. Dentre eles, estaria algo que nem mesmo Ray poderia imaginar.

A trama de “Campo dos Sonhos” é simples. Homem de família estruturada, Ray vive muito bem com a esposa Annie (Amy Madigan) e a filha Karin (Gaby Hoffman). Na infância, foi criado pelo pai devido o falecimento de sua mãe e se acostumou a ouvir histórias sobre beisebol desde pequeno. O problema é que o beisebol se tornou algo como jogar o lixo na rua, como ele mesmo afirma. E então, na adolescência, Ray, após brigar com o pai, sai de casa dizendo que jamais respeitaria alguém cujo ídolo era um bandido. Ele se referia a “Shoeless” Joe Jackson, o ídolo de seu pai que foi suspenso por “entregar um campeonato”. Não houve tempo para reconciliação. Seu pai morreu antes que Ray se desculpasse. Já adulto e pai de família, Ray não esconde a mágoa por não ter acertado esta situação. É quando, no meio de seu milharal, uma misteriosa voz começa a mudar sua vida. A câmera se aproxima de Ray praticamente no mesmo nível do milharal e a voz surge como um sussurro no ouvido do protagonista e do espectador com as palavras “Se você construir, ele virá”. Um momento absolutamente marcante. Como podemos notar, não se trata de um longa apenas sobre beisebol. Por isso, mesmo que jamais tenha ouvido falar no esporte, o espectador pode ser completamente envolvido pela narrativa. Pense, por exemplo, nos seus grandes ídolos do esporte (seja ele futebol, voleibol ou outro qualquer) e entenderá o fascínio de Ray ao ver “Shoeless Joe” jogando em seu campo. Mérito da boa direção de Phil Alden Robinson, que conduz a narrativa com segurança e permite este envolvimento do espectador, criando ainda belos planos que exploram a imensidão dos milharais e lindos campos de Iowa, além do visual esplêndido nas cenas noturnas do iluminado campo de beisebol – graças também à boa direção de fotografia de John Lindley. Observe também como logo no início, o vídeo com imagens antigas e fotos introduz perfeitamente o espectador a trama, já dando pistas do problema de relacionamento entre Ray e seu pai. Ainda na parte técnica, a trilha sonora do ótimo James Horner tem um tom mágico, fabuloso, que se encaixa perfeitamente ao clima do filme. Além disso, conta com canções alegres e empolgantes que demonstram os sentimentos de Ray quando parte com sua perua Kombi em busca de Terence Mann (James Earl Jones).

Mas se na direção Robinson é competente com discrição, no roteiro seu grande trabalho é ainda mais notável. Além de mostrar a capacidade do esporte de marcar momentos de nossas vidas, o excelente roteiro, baseado em livro de W.P. Kinsella (qualquer semelhança não é mera coincidência), envolve o espectador de tal forma que este jamais questiona o que vê, deixando-se levar nesta viagem singular. Afinal de contas, “Campo dos Sonhos” não é um filme para entender lógica ou cientificamente, é um filme para sentir. E em seu último ato, desarma completamente as defesas do espectador e torna as lágrimas em algo inevitável. Seu ritmo delicioso e envolvente é mérito também da montagem de Ian Crafford, que além de ser direta, conta ainda com interessantes momentos, como a seqüência em que o plano do campo de beisebol coberto de neve indica a passagem do tempo antes da primeira aparição de “Shoeless” Joe. A cena que segue, aliás, é outro grande momento do longa, quando Karin interrompe a importante conversa sobre as finanças do casal para dizer “Papai, tem um homem no seu campo”. O espectador é levado pela narrativa sem saber muito bem pra onde, descobrindo depois que é para um final mágico e incrivelmente belo, um acerto de contas com o passado que leva a completa redenção de Ray. E apesar do grande tema central de “Campo dos Sonhos” ser revelado somente em seus minutos finais, podemos notar sua presença em diversos momentos da narrativa através de pequenos diálogos que remetem ao relacionamento entre Ray e seu pai, John Kinsella (Dwier Brown). Ray deixa claro, em conversas com Annie e Terence Man, a importância que sei pai teve em sua vida e a angústia que sentia por não ter conseguido se acertar com ele antes de sua partida. Além disso, ao dizer para Annie que tinha medo de estar ficando igual ao velho John, Ray ratifica que não desistiria da construção do campo, por mais absurda que pudesse parecer. Trata-se do dilema de qualquer ser humano que sente estar chegando a uma fase decisiva de sua vida sem ter realizado seus sonhos e desejos.

Seria essencial que o ator escolhido para viver Ray conquistasse a platéia e fizesse com que o espectador fosse cúmplice da busca do personagem, e Costner é muito competente nesta tarefa, graças à sua grande atuação e ao seu inegável carisma. Por isso, o espectador jamais questiona as atitudes de Ray, por mais absurdas e ilógicas que pareçam. Sua busca obstinada por algo que nem ele conseguia identificar com clareza comove e traz pra junto dele o espectador. O ator também mostra competência no timing cômico em diversos momentos, como quando sua mulher pergunta “se construir o que, quem virá?” e ele responde desapontado que “a voz não disse…” ou quando Annie questiona o que fazer caso a voz apareça enquanto ele está fora e ele responde ironicamente “pegue o recado”. A cumplicidade do casal, aliás, é essencial para o sucesso da narrativa e a dupla Costner/Amy Madigan se sai muito bem, demonstrando excelente química. Somente com o suporte de uma esposa como Annie um homem seria capaz de fazer o que Ray faz. Observe o sorriso de satisfação dele ao olhar para o campo assim que fica pronto e dizer “criei algo completamente ilógico”. Ele não desistiu de seu sonho, por mais absurdo que fosse, e se sentiu recompensado por isto. Madigan, por sua vez, se sai muito bem como a espontânea e confidente Annie, destacando-se na divertida discussão sobre livros numa escola, que serve também como uma crítica ao puritanismo. Quem também está bem é Ray Liotta no papel do lendário “Shoeless” Joe Jackson. Mantendo sempre um ar misterioso e ao mesmo tempo de deslumbramento, Liotta transmite perfeitamente a alegria do ex-jogador ao voltar a pisar num campo de beisebol, chegando a perguntar se ali era o paraíso. A cômica resposta de Ray “Não. É Iowa” será substituída no final por uma reflexão emocionada do fazendeiro, que ao ouvir seu pai dizer que o paraíso é o lugar onde os sonhos se realizam, enquanto vê sua esposa e filha brincando na varanda, responde “talvez aqui seja mesmo o paraíso”. James Earl Jones demonstra com competência a amargura de Terence Mann, um homem assombrado pela importância de seu passado diante de uma sociedade completamente diferente (e muito mais hipócrita). Sua revolta com os dias atuais fica clara quando grita para Ray “voltar aos anos sessenta”. O mundo é totalmente diferente pra ele hoje e o idealismo dos anos sessenta infelizmente não sobreviveu. A presença marcante de Earl Jones garante mais algumas seqüências de bom humor, como a “arma” de Ray ao invadir seu apartamento e a conversa dos dois antes de comprar um cachorro-quente. Sem falar na sua engraçada reação ao pensar o que diria para seu pai quando este anuncia seu desaparecimento no jornal. Completando o elenco, temos Burt Lancaster na pele do médico Moonlight Graham. Sua presença tem um tom mágico, reforçado pela nevoa que cai sobre a noite, pelo ar nostálgico dos carros antigos espalhados pelas ruas e até mesmo pelo anúncio de “O Poderoso Chefão” no cinema da cidade – o que é mérito também da boa direção de arte de Leslie McDonald. E a história do médico que quase foi jogador de beisebol é tocante, mostrando como às vezes, por mais que algo pareça ter dado errado, pode acabar sendo o melhor caminho. “Se eu tivesse sido médico por cinco minutos, isto sim teria sido uma tragédia filho”, diz ele, sem jamais negar o desejo frustrado de conseguir pelo menos uma rebatida como jogador de beisebol.

Quando Ray, já retornando pra casa, revela para Mann o motivo de sua mágoa com seu pai, fica claro para o espectador o quanto ele ainda sofre com a atitude intempestiva tomada na juventude. A morte de seu pai impediu sua reconciliação, e nas palavras sempre sábias de Terence Mann, “esta é sua penitência”. Mas felizmente, “Campo dos Sonhos” fala de redenção e reconciliação, e o acerto entre pai e filho acontece da forma mais inesperada e surpreendente possível. Ray, revoltado pelo fato de Mann ter sido convidado pelos jogadores a ir com eles para o misterioso milharal, questiona duramente seu ídolo “Shoeless” Joe e este responde: “É melhor ficar por aqui Ray”. O arrepio começa a subir nos espectadores mais atentos. Tudo indicava este final espetacular, de redenção. E Joe continua, dizendo “Se você construir… ele virá” e olha para o campo, onde vemos John Kinsella retirando a máscara e os acessórios. Então Ray, emocionado, desentala de sua garganta a frase “Quer jogar um pouco, pai?” e o choro é inevitável, independente do fato do espectador ter ou não perdido seus entes queridos. A mistura de sonho e realidade é perfeita, mexendo com sentimentos, elevando as emoções e desarmando completamente o espectador, que já não consegue mais pensar racionalmente sobre o que vê. O tema abordado, e principalmente, a forma como é abordado, supera pequenos detalhes. Obviamente, pessoas que já perderam os pais podem ter um impacto ainda maior nesta cena final, mas posso dizer – e aqui abro espaço para um comentário extremamente pessoal – que eu sempre me emociono demais nesta cena, e graças a Deus, tenho meus pais vivos.

Singelo e absolutamente tocante, “Campo dos Sonhos” é uma pérola, por vezes esquecida, que tem a incrível capacidade de fazer com que o espectador se envolva de tal forma com a narrativa que nada mais lhe importa. Muito bem dirigido e interpretado, é um filme mágico, que toca o lado mais sensível do ser humano, por mais frio que este possa ser. “Campo dos Sonhos” é mais que uma celebração do beisebol. É uma celebração do perdão, da reconciliação e da própria vida.

PS: Quando a jovem Karin diz que as pessoas viriam ver o campo de todos os lugares, estava inconscientemente fazendo uma profecia que transcende o filme, já que o “Campo dos Sonhos” em Iowa é visitado anualmente por milhares de fãs ainda nos dias de hoje.

Texto publicado em 26 de Julho de 2010 por Roberto Siqueira

NASCIDO PARA MATAR (1987)

(Full Metal Jacket)

 

Videoteca do Beto #58

Dirigido por Stanley Kubrick.

Elenco: Matthew Modine, Adam Baldwin, Vincent D’Onofrio, R. Lee Ermey, Dorian Harewood, Arliss Howard, Kevyn Major Howard, Ed O’Ross, John Terry, Kieron Kecchinis, Kirk Taylor, Jon Stafford, Ian Tyler, Papillon Soo e Bruce Boa.

Roteiro: Michael Herr e Stanley Kubrick, baseado em livro de Gustav Hasford.

Produção: Stanley Kubrick.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após dirigir uma seqüência incrível de grandes filmes entre 1960 e 1980, o genial Stanley Kubrick fez uma pausa de sete anos, voltando em grande estilo com este “Nascido para Matar”, visão peculiar do diretor sobre a guerra do Vietnã, conflito que inspirou tantas obras sensacionais na história recente do cinema. Apesar do ótimo resultado alcançado, o longa de Kubrick é claramente inferior aos excepcionais “Platoon”, lançado um ano antes, e à obra-prima “Apocalypse Now”, de 1979. Ainda assim, consegue ser um filme acima da média, que foca boa parte de sua narrativa em outro aspecto pouco explorado nos filmes do gênero, que é o treinamento que transforma jovens em verdadeiras máquinas de matar.

O rígido sargento Hartman (R. Lee Ermey) é o responsável pelo treinamento cruel, e por vezes até mesmo sádico, de jovens soldados norte-americanos que serão enviados para a guerra do Vietnã. Os métodos nada suaves do sargento transformarão aqueles jovens em combatentes impiedosos, mas nem todos eles têm estrutura psicológica para agüentar a pressão, o que leva a um resultado trágico. Após chegar ao Vietnã, os soldados terminarão seu processo de transformação total ao se deparar com os horrores da guerra. E aqueles que conseguirem voltar pra casa, já estarão mudados para sempre.

Se o espectador busca em “Nascido para Matar” um filme repleto de ação, com explosões e tiroteios ensandecidos, vai se decepcionar. O roteiro de Michael Herr e Stanley Kubrick, baseado em livro de Gustav Hasford, desenvolve os personagens com calma, permitindo ao espectador conhecer muitas de suas características durante o treinamento e acompanhar a completa transformação deles. Além disso, divide claramente a narrativa em duas partes: o treinamento e a guerra. Portanto, durante metade da projeção somos apresentados aos métodos cruéis utilizados para formar jovens soldados e somente na segunda metade é que os conflitos realmente entram em cena. Curiosamente, é na primeira metade que está a melhor parte da narrativa. É extremamente cativante acompanhar personagens fascinantes como o sargento Hartman e os soldados Pyle (Vincent D’Onofrio) e Hilário (Matthew Modine) durante a fase de treinamento. Ironicamente, o maior problema de “Nascido para Matar” acontece no ponto de virada entre o treinamento e a guerra, quando os dois melhores personagens do longa saem tragicamente de cena, o que claramente enfraquece a segunda metade do filme. Este problema poderia ser amenizado pela montagem de Martin Hunter, caso as duas histórias fossem contadas simultaneamente. Desta forma, o impacto da narrativa seria muito maior no espectador, que tentaria descobrir porque Pyle não seguiu com os outros para a guerra. “Teria ele desistido?” poderíamos pensar, e a surpresa viria no final com o impactante desfecho do treinamento. Infelizmente, este chocante final do treinamento é apresentado ainda na primeira metade do filme e deixa o espectador “órfão” dos melhores personagens até então. Apesar disto, a montagem trabalha muito bem durante toda a empolgante seqüência do treinamento, que segue num ritmo intenso e agradável, e também é competente nas seqüências no Vietnã, cheias de energia e realismo.

Mais uma vez, Kubrick extrai de sua equipe um trabalho técnico impecável que resulta no belíssimo visual do longa, como podemos notar através dos figurinos de Keith Denny e da direção de arte de Keith Pain, Nigel Phelps, Rod Stratfold e Leslie Tomkins, que ambientam com competência o espectador ao clima do filme tanto nos treinamentos quanto no combate, através dos uniformes de guerra e, principalmente, do excepcional visual dos destroços da cidade, já no terceiro ato. Vale ressaltar também a boa direção de fotografia de Douglas Milsome, que destaca o verde, cada vez menos vivo – assim como a esperança dentro daqueles corações endurecidos – misturado ao cinza, que simboliza a tristeza daqueles jovens soldados. Finalmente, vale destacar a boa trilha sonora de Vivian Kubrick, composta por excelentes canções.

Entre o elenco, vale destacar o citado trio de personagens, muito bem interpretados por Ermey, D’Onofrio e Modine. Kubrick costumava ser extremamente exigente com seus atores, repetindo tomadas inúmeras vezes até alcançar o resultado que desejava. Aqui, novamente o resultado é bastante competente. O close durante o corte de cabelo dos soldados, seguido por outro close, agora no tenente Hartman, serve como apresentação dos personagens e permite ao espectador se familiarizar com todos eles. E entre tantos interessantes personagens, o maior destaque vai mesmo para o sargento Hartman. A incrível capacidade de criar frases repletas de diversos palavrões deixam claro logo de cara o estilo durão do sargento, interpretado magnificamente por R. Lee Ermey, que utilizou seu conhecimento (ele era sargento de verdade) para improvisar todas aquelas frases. Firme e determinado a transformar aqueles jovens em soldados completos, o sargento não dá trégua para ninguém e busca enrijecer o coração de cada um deles. Hartman alcança seu objetivo, mas o resultado é trágico, principalmente pra ele. Outro interessante personagem é o recruta Hilário (Joker em inglês), que mostra sua capacidade de liderança durante o treinamento, conseguindo extrair melhores resultados do engraçado Pyle. Hilário, interpretado por Matthew Modine, será o fio condutor da narrativa e, apesar da boa atuação de Modine, claramente é um personagem sem a mesma força de Pyle e Hartman. Ainda sim, consegue a empatia do espectador. Finalmente, vale destacar a grande atuação de Vincent D’Onofrio na pele do gordinho Pyle (D’Onofrio teve que engordar muitos quilos para viver o personagem). Inicialmente tranqüilo e até mesmo inocente, o recruta vai lentamente sendo degradado pelo ambiente hostil e sua transformação se consuma quando é atacado de madrugada pelos companheiros, revoltados com as punições sofridas por sua culpa – observe como durante a surra dos soldados em Pyle, a fotografia azulada reflete a frieza de todos eles naquele momento. A partir deste instante, ele para de falar, muda o olhar e demonstra claramente sua revolta, numa atuação inspirada de Vincent D’Onofrio, acentuada ainda mais pela câmera de Kubrick, como no zoom em seu olhar raivoso, que simboliza sua completa transformação. O resultado daquele treinamento pesado foi trágico para Pyle, que enlouqueceu, e ainda mais trágico para Hartman.

Stanley Kubrick mantém em “Nascido para Matar” o seu costumeiro preciosismo na direção, com enquadramentos milimétricos e planos perfeitos. Mas o diretor também mostra competência nas cenas de combate, como podemos observar, por exemplo, durante uma invasão no Vietnã em que a câmera acompanha os soldados, conferindo bastante realismo à cena. Kubrick também estiliza o visual durante a morte de “Bola 8” (Dorian Harewood), utilizando a câmera lenta para aumentar o impacto do ataque enquanto o sangue jorra do corpo do soldado. O diretor cria ainda um belo plano, sob o ponto de vista de um atirador escondido num prédio, seguido por um zoom que nos aproxima da vítima segundos antes do tiro fatal. Além disso, demonstra sua competência também na condução das duas melhores seqüências do longa. A primeira delas, a sensacional seqüência dentro do banheiro (“7,62 milímetros, full metal jacket!”), é a melhor do filme, resultando na impactante morte de Hartman seguida pelo suicídio de Pyle. Infelizmente, acontece muito cedo e de certa forma esvazia o restante da narrativa. Mas o último ato reserva para o espectador outra grande seqüência, durante a tensa invasão do prédio em meio às chamas, que culmina com a execução da atiradora vietnamita em câmera lenta, num balé muito bem dirigido por Kubrick. Neste momento, Hilário encara sua hora da verdade e consuma sua completa transformação, assassinando a sangue frio a vítima indefesa. E seu pensamento final só confirma sua mudança, ratificando o único interesse de qualquer pessoa que se envolva desta maneira na guerra (“Estou num mundo de merda, mas estou vivo”), num contraponto excelente a frase dita por Pyle momentos antes de se suicidar (“Estou num mundo de merda!”) – o que reforça a tese de que se a montagem alternasse as duas histórias de forma paralela, o final seria ainda mais marcante.

Kubrick, assim como outros importantes cineastas ao longo da história do cinema, também fez seu estudo da guerra e dos efeitos que ela provoca na mente do ser humano. A insanidade da guerra levou, por exemplo, um fuzileiro a atirar em crianças e mulheres nos campos do Vietnã, em outra cena chocante do longa. Na visão do diretor, a distância entre a paz e a extrema violência é pequena na mente do ser humano. Basta que ele seja provocado e preparado para se transformar numa máquina assassina. Este pensamento é ilustrado no principal personagem do filme, através do broche da paz no peito e do capacete escrito “Nascido para Matar”, que simboliza perfeitamente a dualidade do homem, como o próprio Hilário diz em certo momento. Kubrick aborda também, de maneira mais sutil, a visão norte-americana do conflito, através da interessante entrevista dos soldados para uma televisão (“Estamos morrendo por eles…”).

“Nascido para Matar” mostra como o exército transforma jovens em verdadeiras máquinas de matar, assim como a guerra endurece seus corações, alterando sua visão do mundo para sempre. Dirigido e interpretado com competência, não deixa de ser um ótimo filme, mas poderia ser ainda melhor com alguns pequenos ajustes. De qualquer forma, deixa sua mensagem, ainda que não seja tão contundente como outras obras do excepcional diretor.

Texto publicado em 15 de Maio de 2010 por Roberto Siqueira

OS GOONIES (1985)

(The Goonies)

 

Videoteca do Beto #57

Dirigido por Richard Donner.

Elenco: Sean Astin, Josh Brolin, Jeff Cohen, Corey Feldman, Kerri Green, Martha Plimpton, Jonathan Ke Quan, John Matuszak, Robert Davi, Joe Pantoliano, Anne Ramsey, Lupe Ontiveros, Mary Ellen Trainor, Keith Walker e Paul Tuerpe.

Roteiro: Chris Columbus, baseado em estória de Steven Spielberg.

Produção: Harvey Bernhard e Richard Donner.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Baseada em estória de Steven Spielberg, esta deliciosa aventura juvenil dirigida pelo versátil e competente Richard Donner brinda o espectador com uma narrativa muito interessante, capaz de prender a atenção durante todo o longa e que conta ainda com algumas cenas simplesmente inesquecíveis. A excelente interpretação coletiva de um elenco jovem e muito competente – que conta com nomes como Josh Brolin e Sean Astin – é a cereja do bolo deste leve e delicioso “Os Goonies”, que marcou toda uma geração de cinéfilos pelo mundo, abordando temas recorrentes da adolescência, como o fortalecimento das amizades e a descoberta do sexo.

Prestes a deixar o local onde vivem, um grupo de adolescentes que se intitula “os Goonies” resolve organizar uma cerimônia de despedida do local e dos próprios integrantes do grupo. Mas ao descobrir o mapa de um tesouro perdido, resolvem partir em busca do misterioso tesouro para evitar a venda e demolição das casas onde moram.

O inteligente roteiro de Chris Columbus, baseado em estória de Steven Spielberg, mistura muito bem a ação e o humor, algo que fica ainda mais evidente graças à dinâmica montagem de Michael Kahn, que imprime um ritmo ágil à narrativa, bastante apropriado para uma aventura juvenil. Além disso, o roteiro aborda temas marcantes da adolescência, como o estabelecimento de fortes laços de amizade e a descoberta da atração pelo sexo oposto. Afinal de contas, o que seriam “os goonies” senão um grupo de amigos, destes que, ainda que o tempo distancie, guardamos na memória para sempre? Já a descoberta da atração pelo sexo oposto, um momento muito importante na vida de qualquer adolescente, é ilustrada, por exemplo, quando Michael (Sean Astin) acidentalmente beija Andy (Kerri Green), que esperava pelo irmão dele (Brandon, interpretado por Josh Brolin), numa das muitas cenas bem humoradas do longa. A criatividade, marca registrada do filme, aparece logo no início da narrativa, através da forma inteligente com que um dos bandidos foge da prisão, deixando claro desde então quem serão os vilões da estória. A criatividade volta a aparecer em diversos outros momentos, como no interessante método utilizado para abrir o portão dos Walsh e, principalmente, durante toda a aventura dos adolescentes na busca pelo tesouro escondido dentro de uma casa aparentemente abandonada. Além disso, o bom humor permeia toda a narrativa, como na cômica tradução de “Bocão” (Corey Feldman) para as palavras em espanhol da empregada e na acidental quebra da estátua da Sra. Walsh. Neste sentido, também merece destaque a ligação de “Bolão” (Jeff Cohen) para a polícia, que serve como lição nada sutil para crianças mentirosas.

Richard Donner dirige “Os Goonies” com extrema segurança, criando belas seqüências em diversos momentos, como no plano aéreo em que os garotos andam de bicicleta, seguido por um pequeno travelling para a esquerda que revela o local onde a aventura se passará. Em outro momento, o diretor movimenta a câmera rapidamente para a esquerda enquanto cada “goonie” fala uma frase, formando um interessante jogral. Já durante a descida por uma espécie de toboágua, a câmera agitada nos leva pra dentro da cena, conferindo realismo e garantido a emoção. Mas o principal destaque no trabalho de Donner vai mesmo para a direção de atores, que consegue extrair uma performance coletiva de alto nível de um elenco extremamente jovem. O drama familiar da eminente perda da casa motiva os jovens a seguir na busca pelo tesouro. E se nos identificamos e compramos a idéia deles, é devido às boas e convincentes atuações. Todos os nomes do elenco merecem destaque, com atenção especial para Jeff Cohen, que interpreta o “Bolão” e é o dono das melhores cenas do longa. Josh Brolin como Brandon Walsh, Sean Astin como Michael Walsh, Corey Feldman vivendo o “Bocão”, Jonathan Ke Quan como “Data” e Kerri Green interpretando Andy completam o coeso elenco juvenil. Ainda nas atuações, o marcante e deformado Sloth é interpretado por John Matuszak e entre os vilões, o destaque fica para a engraçada Mama Fratelli, muito bem interpretada por Anne Ramsey.

Assim como outro herói de Spielberg (o arqueólogo Indiana Jones), os “goonies” cometem erros constantemente, o que aumenta a empatia do espectador e faz com que este realmente tema pelo destino dos aventureiros. Colabora com este sentimento o fato de Donner não abrir mão da utilização de ameaças reais, como o uso de armas de fogo por parte dos bandidos, o que aumenta a sensação de perigo e transforma os vilões em personagens mais realistas. Mas ainda que o perigo pareça real, o clima alegre e divertido é o que prevalece. Os figurinos coloridos de Linda DeScenna e a trilha sonora divertida e empolgante (típica de aventuras) de Dave Grusin – que conta com música de Cindy Lauper – reafirmam a cara oitentista do filme. A fotografia (Direção de Nick McLean), também bastante colorida, reforça o clima alegre do filme. Além disso, capricha na iluminação e no jogo de luz e sombra, já que boa parte do filme se passa dentro de uma caverna.

A frase de Michael “Willie, você é o primeiro goonie” ilustra muito bem o espírito aventureiro do filme, que agrada em cheio tanto as crianças como os adultos – adultos estes que já foram adolescentes um dia e viveram todas as sensações desta fase tão cheia de dúvidas e, ao mesmo tempo, tão marcante em nossas vidas. Nem mesmo os efeitos visuais que hoje soam ultrapassados devem ser levados em conta na avaliação, já que não são mais importantes que a criativa narrativa do longa. Talvez o único pecado de “Os Goonies” seja mesmo o extenso terceiro ato, que demora demais para encerrar a narrativa após a resolução do principal conflito da trama, que é a descoberta do tesouro. Não fosse este pequeno detalhe, a pérola dirigida por Richard Donner seria um filme praticamente perfeito dentro daquilo que se propõe a fazer.

Extremamente leve e divertido, “Os Goonies” conta com um roteiro criativo e a direção competente de Richard Donner para brindar o espectador com uma aventura juvenil bastante agradável. Abordando temas marcantes da adolescência durante a empolgante jornada, consegue prender a atenção do espectador, que se identifica com diversas situações vividas por aquele grupo de jovens e realmente torce pelo sucesso deles. Por isso, pode-se dizer que “Os Goonies” é uma aventura acima da média, que consegue entreter espectadores de todas as idades de maneira bastante original.

Texto publicado em 09 de Maio de 2010 por Roberto Siqueira

MAD MAX 2 – A CAÇADA CONTINUA (1981)

(The Road Warrior)

 

Videoteca do Beto #56

Dirigido por George Miller.

Elenco: Mel Gibson, Bruce Spence, Michael Preston, Max Phipps, Vernon Wells, Kjell Nilsson, Emil Minty, Virginia Hey, William Zappa, Steve J. Spears, Syd Heylen, Moira Claux, David Downer e Arkie Whiteley.

Roteiro: Terry Hayes, George Miller e Brian Hannat.

Produção: Byron Kennedy.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Goste ou não de “Mad Max 2 – A Caçada Continua”, segundo filme da trilogia apocalíptica dirigida por George Miller e estrelada por Mel Gibson, uma coisa é certa: o espectador não sairá indiferente ao que viu. Utilizando um impressionante visual, que se tornou cult com o passar dos anos, o decadente mundo futurista retratado por Miller incomoda, chegando até mesmo a ser repulsivo e sufocante. Incomoda também a falta de diálogos do longa, algo proposital num mundo onde o relacionamento humano está extremamente desgastado. Por isso, apesar da importância do primeiro “Mad Max”, que até mesmo confere bagagem dramática para esta seqüência, este segundo filme se estabelece como o melhor da trilogia, já que o terceiro “Mad Max – Além da Cúpula do Trovão” é o responsável pela queda vertiginosa de qualidade da série.

Num futuro não muito distante, o bem mais precioso da terra passa a ser a gasolina, em virtude de uma guerra nuclear que acabou com os campos petrolíferos do Oriente Médio. Com o precioso combustível é possível se deslocar, fugir ou perseguir alguém. Sem ele, não é possível conseguir nada. É quando Max (Mel Gibson), um homem misterioso e amargurado pelo terrível passado, decide ajudar uma comunidade a defender sua refinaria contra uma gangue de motoqueiros em troca de gasolina.

Todas as palavras que precisam ser ditas em “Mad Max 2” estão resumidas na pequena e excelente introdução do filme, através de um vídeo que recorda a estória do primeiro “Mad Max” e conta como a guerra nuclear devastou o planeta. A partir dali, toda e qualquer palavra será desnecessária. As ações falam por si. Pra piorar, Max é sabidamente um personagem amargurado, de poucas palavras, devastado pela tragédia do passado que retirou as duas pessoas mais importantes de sua vida. Portanto, é absolutamente coerente e compreensível que o roteiro de Terry Hayes, George Miller e Brian Hannat se ressinta de palavras, o que inteligentemente abre espaço para a ação, tão bem conduzida pelo diretor.

Logo na primeira cena George Miller aproveita para matar a sede dos fãs, numa seqüência de perseguição muito bem dirigida e de tirar o fôlego, ainda que momentos depois, ele não resista ao susto barato, quando Max examina um caminhão abandonado e uma mão, seguida por uma cabeça, aparece repentinamente com um acorde alto da trilha sonora, provocando o susto forçado no espectador. Miller também não poupa o espectador ao mostrar o resultado deste novo e violento mundo, com pedaços de corpos mutilados, um estupro coletivo e muitas mortes, como na forte cena em que o garoto-fera (Emil Minty) mata com o bumerangue um dos integrantes da gangue. E ainda que valorize bastante a parte visual, Miller também cria planos simbólicos, como na cena após o terrível estupro, em que Max aparece para vingar o casal e o plano demonstra a grandeza do personagem ao torná-lo gigante na tela. Finalmente, o diretor volta a utilizar, assim como no primeiro filme, uma quantidade menor de frames para transmitir a sensação de velocidade, além de expor todo o excelente trabalho técnico de sua equipe através de planos distantes da Refinaria, inteligentemente apresentados como sendo a visão de Max.

Ainda sobre o esplêndido aspecto visual de “Mad Max 2”, devemos destacar que o visual árido do longa é resultado da fotografia sem vida de Dean Semler, que explora muito bem as locações em meio ao deserto, além de captar com precisão as sensacionais perseguições nas estradas. A empoeirada refinaria e os remendados automóveis e motocicletas atestam o ótimo trabalho de Direção de Arte de Graham Walker. Repare como cada detalhe é bem trabalhado nos cenários, como o ônibus que funciona como portão e toda a estrutura interna da refinaria. Também merecem destaque os interessantes figurinos de Norma Moriceau, com adereços extravagantes nos selvagens motoqueiros e a roupa preta de Max (que como afirmei na crítica de “Mad Max”, simboliza o estado de espírito do personagem), além das roupas brancas das pessoas dentro da refinaria, numa clara alusão ao conflito entre o bem e o mal representado no longa. Finalmente, o excelente trabalho de som é notável nas perseguições, com o nítido som dos carros, motos, caminhões e até mesmo do “helicóptero” cortando o céu, e a trilha sonora de Brian May, até mesmo pela falta de diálogos, marca presença em boa parte da narrativa e mantém um ritmo frenético que colabora com o clima de tensão.

Entre o elenco, o principal destaque vai mesmo para Mel Gibson, que tem atuação discreta, porém muito coerente com o personagem. Este não é o tipo de papel que exige muito do ator, mas Gibson é competente dentro da proposta do personagem. Afetado pelo trágico passado, Max é alguém que praticamente não fala, e o ator transmite muito bem a amargura do nômade, que claramente evita o contato com outras pessoas, como podemos notar quando se recusa a ficar na Refinaria. Solitário por natureza, percebemos até mesmo através de seu carro que Max é alguém completamente adaptado ao mundo em que vive. Seu Interceptor V8 é preparado contra invasores, com faca escondida próximo ao tanque e dispositivo anti-roubo de gasolina, prestes a explodir ao primeiro toque que não seja do próprio Max. Sua única companhia é um cachorro, já que este não fará perguntas e nem forçará Max a pronunciar uma única palavra que não queira. Ainda assim, o desespero daquelas pessoas para encontrar um salvador fez com que apostassem tudo em Max, que inicialmente recusou o rótulo. Obviamente, ele não ajudaria ninguém a não ser que tivesse alguma compensação e só decidiu levar o caminhão quando perdeu tudo que tinha, inclusive seu carro.Sem mais nada a perder e com sede de vingança (novamente, o tema recorrente da série), finalmente resolve dirigir o caminhão. E observe como na conversa em que Pappagallo fala a respeito da fuga, o plano da areia descendo pelo marcador de tempo indica o surpreendente desfecho da perseguição, já que a areia teria papel fundamental na fuga. Dentro do elenco, podemos citar ainda Bruce Spence, com uma atuação modesta na pele do capitão Gyro, responsável pelo mais engenhoso meio de transporte do longa (uma espécie de helicóptero para duas pessoas, feito com resto de material) e Michael Preston, que tem boa atuação como Pappagallo, o líder dos habitantes da refinaria, com destaque para o momento em que questiona a razão da amargura de Max (“Você não é nada!”).

Numa das poucas vezes em que abre a boca pra falar algo, Max demonstra sua coragem (“Se quiserem sair daqui, falem comigo”), facilmente compreendida se pensarmos que este homem não tem mais o que perder na vida. Na realidade, temos a constante sensação de que Max desafia a morte, como quando vai buscar o caminhão sabendo que na volta enfrentará sozinho os perigosos motoqueiros. Esta, aliás, é uma das melhores seqüências do longa, extremamente bem conduzida por George Miller, que confere um ritmo frenético à cena, graças também aos cortes rápidos que revelam o bom trabalho de montagem do trio Michael Balson, David Stiven e Tim Wellburn. Acompanhada pela agitada trilha sonora, a perseguição alterna entre planos aéreos, que dão uma visão panorâmica da perseguição, e planos fechados do rosto de Max, que transmitem sua tensão na angustiante corrida para chegar à refinaria, o que permite ao espectador compreender perfeitamente o que se passa na tela. Já a espetacular seqüência da perseguição final inicia com um impressionante travelling aéreo e, a partir daí, exibe um festival de imagens em alta velocidade, alternando planos diversos de dentro e de fora do caminhão com o uso da câmera lenta, permitindo ao espectador apreciar cada detalhe da frenética perseguição, como atropelamentos e manobras (entre elas, um sensacional giro em 180 graus do caminhão em alta velocidade). Tudo isto, pontuado por uma trilha empolgante e coroado com um final surpreendente, que revela a inteligente estratégia adotada pelos integrantes da refinaria para conseguir fugir com o precioso bem.

Pra finalizar, é importante dizer que “Mad Max 2” é um excelente filme de ação, com um ritmo muito forte e imagens marcantes, baseadas num roteiro simples, mas que diz muito mais através de imagens do que de palavras. Exibindo um futuro ainda mais sombrio que no primeiro filme da série, conta com um visual singular para despejar no espectador uma chuva de sensações, e com isso, fazer com que ele jamais saia indiferente ao que viu.

Texto publicado em 30 de Abril de 2010 por Roberto Siqueira

GOLPE DE MESTRE (1973)

(The Sting)

 

Videoteca do Beto #55

Vencedores do Oscar #1973

Dirigido por George Roy Hill.

Elenco: Paul Newman, Robert Redford, Robert Shaw, Charles Durning, Ray Walston, Eileen Brenann, Harold Gould, John Heffernan, Dana Elcar, Jack Kehoe, Dimitra Arliss e Robert Earl Jones.

Roteiro: David W. Maurer e David S. Ward.

Produção: Tony Bill, Julia Phillips e Michael Phillips.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quatro anos depois do sucesso “Butch Cassidy”, Paul Newman e Robert Redford voltaram a se reunir sob a direção de George Roy Hill para realizar este delicioso “Golpe de Mestre”, que conta com um roteiro primoroso e uma reconstituição de época impecável para narrar a interessante e divertida história de dois golpistas nos anos trinta.

Dois vigaristas dão um golpe num capanga de um importante chefe de quadrilha de Nova York, embolsando uma alta quantia em dinheiro que garantiria a aposentadoria de um deles. Não demora muito até que a reação chegue e, a pedido do “chefão” Doyle Lonnegan (Robert Shaw), um dos golpistas, conhecido como Luther Coleman (Robert Earl Jones), é assassinado. Johnny Hooker (Robert Redford), o outro golpista, consegue fugir e, seguindo o conselho do falecido Coleman, entra em contato com o experiente vigarista Henry Gondorff (Paul Newman), com quem arquiteta um gigantesco golpe contra o mafioso Lonnegan.

A seqüência de abertura de “Golpe de Mestre” dá o tom da narrativa, através da bem orquestrada simulação de um assalto, que resulta no primeiro golpe aplicado pelos vigaristas Luther e Hooker. Esta cena servirá também como base para todo o desenrolar da trama, que será contada através da divisão de capítulos, com transições como fade, zoom e páginas, garantindo uma característica de conto ou fábula ao longa e revelando o bom trabalho de montagem de William Reynolds, que além disso, ainda confere um ritmo delicioso à narrativa. O longa conta ainda com um excelente trabalho técnico, responsável pelo belíssimo visual. O conjunto formado pelos impecáveis figurinos de Edith Head, a excepcional Direção de Arte de Henry Bumstead e a fotografia dessaturada (Direção de Robert Surtees) criam uma reconstituição de época incrivelmente realista, ambientando perfeitamente o espectador à trama. Observe, por exemplo, os carros nas ruas de Nova York, a fachada das lojas e até mesmo os trajes utilizados pelos jogadores para notar como o trabalho técnico é irretocável. O diretor de fotografia Robert Surtees cria ainda um visual interessante nos ambientes internos, constantemente utilizando a sombra dos chapéus para encobrir o rosto dos personagens e usando o contraste luz e sombras de forma muito elegante. Finalmente, a ótima trilha sonora de Scott Joplin apresenta deliciosas canções e ainda utiliza o piano para compor divertidas melodias durante os jogos, o que reforça o clima leve e descontraído do longa.

A direção de George Roy Hill é segura e até mesmo discreta, apesar da freqüente utilização do zoom, como na espetacular jogada final de Gondorff durante o pôquer ou quando ele observa da janela a chegada de Lonnegan ao bar. Hill demonstra competência também na condução dos principais momentos do longa, como as cenas de pôquer, a falsa narração da corrida de cavalos e a perseguição de Snyder (Charles Durning) à Hooker. Outra seqüência muito bem dirigida é a fuga de Hooker do bar, que termina com o sugestivo plano da tampa do bueiro, indicando o esconderijo de emergência do rapaz. Finalmente, o diretor faz um interessante movimento de câmera que sai do quarto de Gondorff, corta para o quarto de Hooker e termina com o plano da misteriosa luva preta, que terá fundamental importância momentos depois, em outra cena surpreendente que termina com a morte de Loretta Salino (Dimitra Arliss).

Mas apesar da boa direção de George Roy Hill, o principal responsável pelo sucesso de “Golpe de Mestre” é o excepcional roteiro de David W. Maurer e David S. Ward. Inteligente e com ótimas reviravoltas, o delicioso texto da dupla prende a atenção do espectador e permite observar pacientemente como os dois vigaristas arquitetam cuidadosamente o grande golpe final. Mas ainda que seja interessante observar este aspecto da narrativa, para que ela funcionasse perfeitamente seria necessário algum tipo de ameaça ao plano. E a dupla Maurer e Ward insere este elemento na trama de forma muito inteligente, através do tenente William Snyder, interpretado corretamente por Charles Durning e que é o responsável pelo desequilíbrio da equação. Personagem chave para o sucesso da trama, Snyder é o responsável pelo temor gerado no espectador durante boa parte da narrativa – assim como sua participação é fundamental na espetacular seqüência final do longa, que reserva a maior e mais agradável surpresa do roteiro.

E que surpresas seriam estas? “Golpe de Mestre” é repleto de cenas em que o espectador é levado a acreditar que está vendo algo, somente para alguns minutos depois descobrir que foi enganado. E mesmo assim, jamais sabemos o que vai acontecer na próxima cena, graças à criatividade do roteiro e às ótimas interpretações do elenco, que tornam verossímeis personagens que poderiam soar cartunescos ou completamente irreais. Interpretado com muito carisma pelo ótimo Paul Newman, Gondorff, por exemplo, é um golpista experiente, que sabe cada passo necessário para alcançar seu objetivo. Extremamente irônico (repare como ele provoca o adversário durante o jogo de pôquer), Gondorff caminha com segurança pelo perigoso caminho que escolheu para viver e acreditamos nos ideais do personagem, por mais sem caráter que suas atitudes possam parecer. Já Robert Redford interpreta com competência o astuto Hooker, que apesar de sua esperteza, freqüentemente corre grande perigo durante suas escapadas. Observe, por exemplo, como Redford transmite muito bem a apreensão de Hooker dentro do quarto, momentos antes de supostamente trair o parceiro e entregá-lo aos federais. Após o surpreendente final, entendemos que sua apreensão pode ser interpretada como fruto da ansiedade pela resolução do plano (que aconteceria no dia seguinte) ou pela solidão do personagem, algo que fica claro quando este procura companhia para passar a noite. Mas inteligentemente, no momento em que vemos o personagem apreensivo, somos levados a pensar que ele realmente entregaria o parceiro, graças também à boa interpretação do ator. A química da dupla, aliás, é essencial para a empatia do público, pois mesmo sendo dois trapaceiros e golpistas, nos identificamos com os personagens graças às simpáticas atuações de Newman e Redford. Vale citar também a impressionante habilidade de Gondorff com as cartas na mão, notável quando as embaralha e sempre mostra o Às de Espadas. Fechando o elenco, além do já citado e importante personagem de Charles Durning, temos Robert Shaw, que vive o mal-humorado chefe da máfia Doyle Lonnegan. Determinado a recuperar o dinheiro que perdeu para os vigaristas (e mais do que isso, manter o respeito pelo seu nome), ele não mede esforços na caça ao astuto Hooker, raramente encontrando espaço para sorrisos e brincadeiras em seu cotidiano. Shaw é competente ao transmitir muito bem esta irritação constante do personagem, como podemos notar durante o jogo de pôquer no trem ou nas seguidas vezes em que ele entra para apostar na corrida de cavalos. Mesmo ganhando o prêmio, o homem é incapaz de sorrir, sempre mantendo um ar de desconfiado – o que não impede que ele sofra o incrível golpe no final.

Quando a última faceta do “golpe de mestre” é revelada ao espectador, sentimos uma gostosa mistura de desorientação e euforia. Apesar de acompanhar o engenhoso planejamento e a meticulosa execução do plano, descobrimos que um detalhe essencial foi ocultado e percebemos que a intenção era exatamente esta. O fato de não revelar propositalmente uma parte vital do golpe faz com que o espectador tema pelo futuro dos personagens, se envolva ainda mais com a trama e se surpreenda com o delicioso final. É como testemunhar um passe de mágica, com a diferença de que descobrimos os detalhes do truque segundos depois de sua execução.

Leve e descontraído, “Golpe de Mestre” soa como um delicioso truque que consegue ao mesmo tempo enganar e agradar ao espectador. Produzido numa época em que o termo “diversão sem compromisso” tinha outro significado, oposto às explosões e a ação frenética recheada de clichês narrativos dos dias de hoje, seu excelente roteiro, aliado às simpáticas interpretações, garante a diversão do espectador.

Texto publicado em 25 de Abril de 2010 por Roberto Siqueira