ERA UMA VEZ NO OESTE (1968)

(Once Upon a Time in West) 

5 Estrelas

 

Obra-Prima

 

Videoteca do Beto #7

Dirigido por Sergio Leone.

Elenco: Henry Fonda, Charles Bronson, Claudia Cardinale, Jason Robards, Gabriele Ferzetti, Frank Wolff, Paolo Stoppa, Jack Elam, Woody Strode, Keenan Wynn e Lionel Stander. 

Roteiro: Sergio Donati e Sergio Leone, baseado em estória de Dario Argento, Sergio Leone e Bernardo Bertolucci. 

Produção: Fulvio Morsella.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Obra superior de um dos maiores diretores que já existiram no cinema mundial, Era uma vez no Oeste se estabelece como um festival de imagens belíssimas que narram uma história maravilhosa e emblemática, servindo de metáfora para o começo da modernização e o fim do mundo mítico do velho oeste. É um canto de despedida de personagens clássicos e de um estilo de vida característico de uma época distinta da sociedade americana. Nas palavras de um personagem em certo momento do filme, é algo que tem a ver com a morte (“Something to do with death”).

Um irlandês visionário compra uma propriedade afastada da cidade em um local que viria a ser no futuro a rota da estrada de ferro. Em virtude do lugar estratégico que se instalou, ele e toda sua família são assassinados por um matador de aluguel. O que ninguém sabia é que este homem havia se casado há pouco tempo atrás com uma prostituta de New Orleans que acaba de chegar à cidade e que passa a ser defendida por um misterioso homem solitário.

Com sua costumeira habilidade e perfeccionismo para construir cenas antológicas, Leone inicia o filme mostrando uma velha estação, protegida por um senhor de idade e uma índia. A trilha sonora sempre competente de Ennio Morricone cede lugar aqui ao som de um moinho de vento que, auxiliado pela lentidão da construção da cena, ajuda a criar um clima crescente e insuportável de tensão. As gotas caindo no chapéu de um pistoleiro, a mosca voando no rosto de outro e o som do telégrafo só aumentam o clima de expectativa. Quando ouvimos o barulho do trem chegando à estação já imaginamos o que está para acontecer. A excelente introdução do filme serve também para introduzir o personagem mais enigmático da narrativa: o Gaita (Charles Bronson). Sua primeira aparição já deixa bem claro para o espectador que se trata de alguém extremamente perigoso. Na cena seguinte, vemos a família que servirá de base para toda a trama e mais uma vez os momentos silenciosos falam mais que as palavras. Somente os olhares daquelas pessoas já nos indicam que algo se aproxima, o que de fato acontece minutos depois. Temos então outra excelente introdução de personagem. Observe como a câmera prolonga ao máximo o momento em que o rosto de Frank é revelado, criando uma enorme expectativa na platéia (movimento também utilizado em outra cena do filme, quando Jill abre uma porta). Além de ter muito estilo, esta introdução tem também um contexto histórico. Em uma época sem internet, as pessoas não sabiam quem faria qual papel nos filmes, e Fonda era um ator marcado por fazer papel de mocinho. Ao apresentá-lo em cena como o cruel bandido, Leone provocou um enorme choque na platéia. A cena termina com uma elipse maravilhosa que corta do som de um tiro para o som dos freios de um trem. Estes são apenas dois exemplos de mais uma espetacular direção de Sergio Leone. Ele alterna closes muito próximos dos rostos dos atores, que são capazes de revelar cada cicatriz, com planos gerais distantes que exploram muito bem as maravilhosas paisagens da região. Além da condução perfeita da narrativa, Leone abusa também da criação de planos e movimentos de câmera cheios de estilo. Em duas oportunidades Jill (Claudia Cardinale) chega à ambientes desconhecidos por ela, e o visual da cena já nos faz sentir isso. Observe como o foco se concentra no rosto da atriz e todo o ambiente atrás dela fica fora de foco. O diretor cria um contraste interessante com o ambiente em que ela está chegando, sempre filmado através de um plano geral e com foco em toda a cena, demonstrando o quanto ela está deslocada e intimidada, ao contrário das outras pessoas que já estavam ali. Leone cria ainda muitos momentos de tensão, como na cena em que a algema presa à Cheyenne (Jason Robards) é cortada.

O diretor italiano demonstra também seu talento na direção de atores, extraindo performances de alto nível. O grande destaque fica para Charles Bronson como o frio e determinado Gaita, sempre com a expressão séria e focado em seu objetivo. Suas introduções em cena com o som da gaita anunciando sua presença são maravilhosas. Henry Fonda também está muito bem como o expressivo vilão Frank. Seu olhar penetrante caiu como uma luva no personagem, que conta ainda com um jeito lento de andar, característico de quem é extremamente autoconfiante. O ponto alto da grande atuação de Jason Robards são os momentos de humor. Cheyenne é um vilão divertido e ambíguo, e Robards transmite essa idéia em muitas cenas com extrema habilidade. Sua conversa com Jill sobre a importância que tem para um trabalhador ver uma mulher linda como ela é hilária. Ele também tem um bom desempenho dramático, como na cena em que diz para Jill que ela o faz lembrar sua mãe. Sua expressão sincera é marcante e estabelece uma conexão com ela, além de conseguir respeito da parte dela. Claudia Cardinale está belíssima como Jill. Sua memorável última cena, quando ela se mistura aos trabalhadores para lhes dar água, é também extremamente simbólica. Seu olhar penetrante fascina os outros personagens, que vão descobrindo aos poucos o poder que aquela mulher tem naquele ambiente hostil. Ela é o centro da narrativa, tudo gira ao seu redor. Interessante notar como os três homens chave da trama têm alguma relação mais intima com ela de diferentes formas. O Gaita é mais violento, Frank mais romântico (com a concessão dela), e Cheyenne é mais bem humorado (e abusado também). Também merece destaque a cena em que Morton (Gabriele Ferzetti) vê o quadro do mar e sente que jamais conseguira ver o que tanto desejava, pois sabe que seu fim está próximo. Ferzetti transmite toda a angústia do personagem através do olhar triste e da respiração pausada.

O roteiro é coeso e aborda temas interessantes como a vingança e o poder do dinheiro, além de mostrar a corrupção que envolvia todo o processo de construção das ferrovias. Os deliciosos diálogos, sempre presentes nos filmes de Leone, não poderiam faltar aqui. Podemos destacar a sensacional conversa entre o Gaita e Cheyenne dentro do bar (“Eu vi três casacos como estes na estação. Dentro dos casacos haviam três homens. Dentro dos três homens, três balas.”), dois excelentes diálogos entre Jill e Cheyenne (quando ele sente que ela pensa em atacá-lo e quando ela explica porque decidiu morar no campo) e uma outra tirada sensacional que faz referência à Judas, recheada de bom humor. Temos também a seqüência em que o atendente de um bar diz que jamais gostou da idéia de morar em uma cidade grande pois prefere a vida tranqüila do campo, o que se revela uma engraçada ironia, já que aquele lugar é perigoso o bastante para não se ter uma vida tranqüila.

O filme conta também com um excelente trabalho de montagem, que permite à narrativa fluir de forma agradável e nunca arrastada. Observe as excelentes transições de planos, como na ocasião em que Cheyenne pergunta à Jill se o café dela é bom. A resposta “nada mal” vem em outra cena, com Morton fazendo uma outra pergunta a Frank. Tonino Delli Colli colabora significativamente para a criação daquele universo através de sua excelente direção de fotografia. As cores que predominam, como preto, bege e marrom, tornam ainda mais árido o ambiente. Ele também conseguiu tornar imperceptível a diferença de cor na poeira das locações, que ficavam em lugares totalmente diferentes (EUA e Espanha). Quando Jill deita em sua cama muito triste pela perda do marido, a fotografia a envolve em cores pretas, numa demonstração visual da escuridão que ela está mergulhada. O belo trabalho de direção de arte cria uma cidade em construção impressionante, vista pela primeira vez em um admirável travelling de Leone, além de cuidar de todos os detalhes dos cenários, como os envelhecidos talheres e toda a mobília da casa de Jill. Os figurinos sensacionais criam todo o ambiente característico do velho oeste, com botas, casacos e cinturões, além dos belos vestidos das mulheres. A maquiagem também é excelente, marcando aqueles rostos queimados pelo sol com perfeição. Ennio Morricone dá mais um show, compondo uma trilha sonora sensacional. Cada personagem tem sua própria e bem característica trilha. Jill tem um tema delicado e arrebatador, com uma melodia lenta e uma voz aguda. Frank tem um tema tenso, com notas pesadas e longas. O tema de Cheyenne é alegre, com notas rápidas e divertidas. Já o Gaita tem um tema sombrio, com notas contínuas e pesadas misturadas ao som de uma gaita estridente.

(se não viu o filme, pule este parágrafo) Como não poderia deixar de ser em um filme de Sergio Leone, o esperado duelo final é conduzido lentamente e com enorme brilhantismo. A câmera alterna planos gerais com closes no rosto dos atores, ao som de uma trilha primorosa que mistura os temas dos dois personagens. A movimentação é orquestrada, e eles vão se posicionando para o duelo lentamente. Os olhares fixos demonstram a tensão daquele momento e o auge acontece através de um close extraordinário que praticamente entra nos olhos do Gaita, seguido de um flash-back que explica porque ele evitou a morte de Frank antes. O prazer da vingança era o seu maior desejo. Observe que após o duelo, quando Frank é baleado, ele está numa posição de comando no plano, com a câmera filmando-o de baixo pra cima. Quando ele cai, imediatamente o Gaita assume esta posição, tomando assim o controle da situação. Frank, agora derrotado, passa a ser filmado de cima pra baixo, e seu último plano, com a gaita na boca, remete visualmente ao motivo de sua perseguição e morte. Toda esta composição visual característica de Leone demonstra sua enorme habilidade como diretor.

Os elementos característicos dos filmes dirigidos por Sergio Leone são utilizados de forma mais perfeita do que nunca nesta produção. O clima tenso e a sensação sempre presente de que aquelas pessoas dificilmente sobreviverão mantém o espectador sempre atento à narrativa. Extremamente bem fotografado e colecionando cenas inesquecíveis, Era uma vez no Oeste é uma fábula lenta e triste sobre o fim de uma era e o início de outra na sociedade americana. À chegada da ferrovia trouxe o progresso para aquelas pessoas, mas trouxe também o fim de um período memorável, recheado de personagens inesquecíveis. Todos estes elementos fazem do filme uma obra-prima marcante e eterna. 

Texto publicado em 18 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira

2001 – UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO (1968)

(2001: A Space Odissey) 

5 Estrelas

 

Obra-Prima 

Videoteca do Beto #6

Dirigido por Stanley Kubrick.

Elenco: Keir Dullea, Gary Lockwood, William Sylvester, Leonard Rossiter, Margaret Tyrack, Robert Beatty, Sean Sullivan, Daniel Richter e Douglas Rain (voz de HAL 9000). 

Roteiro: Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke. 

Produção: Stanley Kubrick. 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quando a famosa e poderosa trilha sonora tocou pela última vez e os créditos começaram a aparecer na tela, senti uma enorme sensação de inquietude e perturbação, misturadas a um sentimento de prazer e alegria por ter testemunhado uma obra-prima de um gênio em plena forma. 2001 – Uma Odisséia no Espaço é um filme genial, que caminha lentamente para um final capaz de criar um enorme ponto de interrogação na cabeça daqueles que não querem pensar mais a respeito do que acaram de ver. E, infelizmente, este é o perfil da maioria do público (o que explica bilheterias absurdas para filmes medíocres), que prefere narrativas mais mastigadas e óbvias por pura preguiça de pensar e refletir sobre o que assiste.

Há quatro milhões de anos, um misterioso objeto negro aparece na Terra causando furor naqueles que lá viviam. Já na era moderna, após aparecer misteriosamente no terreno lunar e ser investigado por especialistas, a conclusão é de que o objeto pode ser a chave para a descoberta de uma nova civilização fora do planeta. No século XXI, uma experiente tripulação, liderada por David Bowman (Keir Dullea) e Frank Poole (Gary Lockwood), é enviada ao planeta Júpiter para investigar a origem do misterioso objeto, viajando a bordo da nave espacial Discovery, controlada pelo computador mais perfeito do mundo, o Hall 9000 (voz de Douglas Rain).

No primeiro ato, Kubrick desenvolve lentamente e sem nenhuma palavra a base da narrativa. Com planos distantes que enquadram perfeitamente a linda paisagem (a cena do ataque da Onça é belíssima), alguns cortes secos e a utilização de fades, Kubrick representa visualmente a ascensão do homem sobre os outros animais. A cena do homem batendo com um osso em outros ossos de um animal morto representa visualmente o momento em ele já está ciente deste poder. Toda esta introdução leva a uma cena arrepiante, quando o misterioso objeto aparece no mundo do homem pré-histórico. A reação dos homens e a poderosa trilha com vozes misturadas são capazes de enlouquecer qualquer um. Este objeto será o elo de ligação da história.

Em um trabalho conjunto excepcional de direção e montagem, Kubrick cria uma elipse de milhões de anos e salta da pré-história para os anos de exploração do espaço através da queda de um osso que repentinamente é substituído por uma nave espacial. E a partir daí o filme explora o universo criado por Kubrick em um tempo onde a exploração do espaço era apenas um sonho. Incrível como ele conseguiu imaginar mecanismos tão próximos da realidade há tantos anos atrás. Todo o mundo criado, com portas automáticas, identificadores de voz, chamadas telefônicas através do espaço, movimentos de ponta cabeça entre outras coisas, é genial. O show de direção de Kubrick não para por aí. Observe por exemplo a cena em que dois funcionários revelam dados do objeto que acharam na superfície lunar. A câmera se mantém fixa dentro da nave, num plano sem cortes que torna o diálogo ainda mais interessante, pois nos permite acompanhar todos os movimentos dentro e fora da nave. Em outro momento, um astronauta está treinando dentro da nave e a câmera acompanha seus movimentos em círculos, chegando ao ponto de deixar o homem em posição vertical na tela. A coleção de planos criativos é tão grande que fica até cansativo citar todos eles. Temos momentos em que os personagens estão de ponta cabeça, temos o ponto de vista do computador Hall 9000, um plano que alinha o Sol, a Terra e a Lua, e tudo isto demonstra a genialidade de Kubrick ao nos jogar pra dentro da viagem pelo espaço com extrema elegância.

As atuações de todo o elenco são muito competentes. Com expressões sempre sérias e focadas, eles transmitem com sucesso ao espectador a importância da missão em que estão envolvidos. Keir Dullea é o grande destaque como o inteligente David Bowman. Preste atenção na cena em que ele tenta recuperar um colega perdido no espaço. Seu movimento brusco dos ombros pra cima e pra baixo demonstra a respiração ofegante e a tensão que ele está vivendo naquele momento. Gary Lockwood também tem boa atuação como Frank Poole, o parceiro de David. Observe como os dois conseguem transmitir através do tom de voz a preocupação eminente de ambos com as respostas do computador Hall 9000 às perguntas que eles fazem. Já Douglas Rain consegue dar vida ao computador Hall 9000 através de uma voz serena e ao mesmo tempo firme, que insinua em diversos momentos as intenções obscuras da máquina. Hall passa a sensação em certos momentos de que tem sentimentos próprios, como se fosse um ser humano, ou pelo menos um ser com vida.

Todo o trabalho técnico do filme é espetacular. A começar pelos efeitos visuais que nos dão à sensação de estarmos realmente explorando o espaço, quando na verdade o filme foi feito em estúdios. O trabalho se torna ainda mais espetacular se pensarmos que em 1968 o homem ainda não tinha realizado este feito. Kubrick criou todo aquele universo somente com sua imaginação. Através dos movimentos da nave e das pessoas fora da gravidade e da visão da Terra sob o ponto de vista de uma nave espacial podemos ter a exata noção da precisa visão que ele tinha do espaço. A fotografia destaca cores brancas criando uma atmosfera tranqüila no inicio da missão. Observe como as cores vão aparecendo na medida em que o filme avança para o momento mais tenso, destacando o amarelo primeiramente para gradualmente chegar ao vermelho. E finalmente, quando David está em seu momento de maior raiva, a fotografia destaca o vermelho, numa demonstração visual inteligente do sentimento do personagem. O som também merece destaque, participando decisivamente da narrativa em diversos momentos. Repare como o som da respiração de um astronauta é repentinamente cortado na cena em que ele é atacado, acompanhado de um movimento incomum de uma cápsula espacial, nos antecipando o que estava acontecendo sem a necessidade de palavras. O som da respiração, aliás, é inteligentemente utilizado para nos demonstrar quando os astronautas estão tensos (ofegantes) e quando estão tranqüilos (respiração mais pausada e longa). A estupenda maquiagem em David, demonstrando seu envelhecimento ao viajar pelo espaço, também merece destaque. Assim como toda a direção de arte e figurinos, que criam um mundo totalmente verossímil no espaço sideral, prestando atenção aos mínimos detalhes como a bandeja de alimentação dos astronautas e as roupas especiais que estes utilizam para sair da nave.

O filme aborda ainda temas interessantes como o confronto homem versus máquina e o sigilo máximo adotado pelas pessoas responsáveis quando o assunto é relacionado à vida inteligente fora do planeta, buscando evitar um pânico geral nos habitantes da Terra. Além disso, o festival de imagens belíssimas de naves bailando no espaço, ao som de músicas clássicas de valsa e balé, cria imagens difíceis de serem apagadas de nossa memória. É o cinema em seu estado mais puro, onde as imagens falam por si só. Como se não bastasse, Kubrick ainda criou uma obra enigmática. O final do filme é tão complexo que muitas pessoas sequer se esforçam em tentar interpretar o filme, concluindo precipitadamente que se trata de uma obra falha ou confusa. Muito pelo contrário, a quantidade enorme de possibilidades de interpretação que o filme abre em sua conclusão faz dele uma obra de arte, onde cada espectador tira suas próprias conclusões.

Após uma série de acontecimentos inesperados, o filme caminha para este final tão genial quanto perigoso, onde a minha perturbação citada no inicio do texto se justifica. (e a partir de agora, peço que se você ainda não viu o filme, pule para o último parágrafo). Após sobreviver ao ataque surpresa e assustador do computador Hall 9000, David se aproxima do planeta Júpiter para finalmente revelar o segredo do misterioso monolito. Quando ele finalmente entra no campo espacial de Júpiter, o misterioso objeto aparece repentinamente e um festival de imagens psicodélicas, que mais lembram um clipe do Pink Floyd, começa a aparecer na tela. A sensação de estar delirando é aumentada sensivelmente pelo som que acompanha a cena, que dura um tempo considerável. Quando a viagem (literal e mental) termina, temos uma curiosa imagem, supostamente sob o ponto de vista de David, de um local vazio, claro e limpo. A fotografia destaca o branco, como se estivéssemos em um local intocado, um local puro. Mas na medida em que a cena vai progredindo, David começa a se ver mais velho em outro ponto da casa e logo em seguida, seu ponto de vista se transfere para o que ele estava vendo anteriormente. Sucessivamente, ele vai caminhando até se ver deitado em um leito de morte, muito envelhecido e praticamente imóvel. Quando seu ponto de vista muda para o da cama, ele vê o misterioso monolito à sua frente, e repentinamente se transforma em um bebê dentro de uma bolha azul. A poderosa trilha sonora tema do filme começa a tocar e o bebê aparece pela última vez olhando para o planeta Terra. Este final tão misterioso abre diversas possibilidades de interpretação. A que mais me agrada é a de que Kubrick fez um resumo genial da existência do homem no universo, dividido em quatro etapas. Na primeira delas, o foco é o surgimento do homem na terra e sua ascensão até o domínio completo deste sobre as outras espécies. Na segunda parte, o homem parte para o espaço, chegando à Lua e, portanto, dominando o território mais próximo do planeta. Na terceira etapa, o homem enfrenta sua mais inteligente criação, a máquina, e consegue vencê-la. E na última fase, a mais enigmática, o homem tenta desvendar os mistérios do universo, mas acaba sendo derrotado por ele e sua era chega ao fim. O homem se torna uma estrela, ou apenas uma parte da história, e uma nova era se inicia com outra espécie. Assim como os dinossauros, o homem teve o seu tempo de domínio e um dia deixou de existir. Acredito que o misterioso final seja uma metáfora sobre a queda do homem no universo. Mas muitas outras possibilidades existem. Teria David, ao viajar pelo espaço, acelerado seu processo de envelhecimento e chegado ao fim de sua vida, dando origem a um novo ser que seria encarnado em seguida? Seria uma ilusão ou um estado alucinatório criado em sua mente através do impacto causado no momento em que entrou na atmosfera de Júpiter? Todas estas perguntas certamente são cabíveis, mas o mais importante é que o filme gera uma discussão infinitamente maior do que a existência de vida fora do planeta.

Utilizando a parte técnica como apoio para uma narrativa genial, Kubrick cria uma obra-prima intrigante, inteligente e perturbadora, que exige muito mais do que atenção do espectador e em troca devolve muito mais do que entretenimento. 2001 – Uma Odisséia no Espaço é o cinema puro, a imagem falando no lugar das palavras e o significado delas sendo absorvido por cada espectador de uma forma diferente. Uma obra eterna de um gênio no auge de sua forma.

 

Texto publicado em 13 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira

O PLANETA DOS MACACOS (1967)

(The Planet of the Apes) 

4 Estrelas

 

Videoteca do Beto #5

Dirigido por Franklin J. Schaffner.

Elenco: Charlton Heston, Roddy McDowall, Maurice Evans, Kim Hunter, James Daly, James Whitmore, Robert Gunner, Lou Wagner, Buck Kartalian, Linda Harrison, Wright King, Jeff Burton e Woodrow Parfrey. 

Roteiro: Michael Wilson e Rod Serling, baseado em livro de Pierre Boulle. 

Produção: Arthur P. Jacobs. 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Grande sucesso no final dos anos 60 e responsável por quatro continuações inspiradas nele (De Volta ao Planeta dos Macacos em 1970, Fuga do Planeta dos Macacos em 1971, A Conquista do Planeta dos Macacos em 1972 e A Batalha do Planeta dos Macacos em 1973), O Planeta dos Macacos é um filme que, embora sua narrativa competente seja suficiente para agradar, para ser completamente entendido e para que sua qualidade seja totalmente absorvida pelo espectador, deve ser corretamente contextualizado.

Um grupo de astronautas viaja pelo espaço por séculos em estado de hibernação quando acidentalmente cai em um planeta desconhecido, avariando imediatamente a nave espacial, que demonstra no visor o ano de 3978. Sem contato com a Terra e com provisão somente para três dias, eles decidem explorar o planeta para descobrir se há vida. Logo após essa introdução, somos jogados dentro de um mundo estranho e proporcionalmente assustador. Os tons em marrom captados pela excelente fotografia de Leon Shamroy e os planos gerais, que buscam destacar as gigantescas planícies desertas e os montes áridos e desocupados, nos dão a sensação de estarmos testemunhando um terreno completamente desabitado. A sensação de solidão é tão grande que os protagonistas, ao avistarem uma árvore e um lago (com um zoom deselegante de Schaffner), ignoram algo importante que haviam avistado e se jogam na água para se divertir.

A primeira aparição de vida habitada no planeta desconhecido é extremamente bem realizada por Schaffner. Enquanto vemos os astronautas caminhando, podemos perceber no segundo plano, em tamanhos minúsculos devido a distância, a presença de seres que correm para acompanhar a caminhada deles. A tensão que começa a ser criada aqui só vai terminar quando o encontro inevitável acontece, e de uma forma contrária à expectativa criada, já que os habitantes do planeta, além de apresentarem uma aparência igual à do ser humano terrestre, demonstram ser extremamente inofensivos. Quando Taylor (Charlton Heston) faz uma piada sobre dominar o planeta em breve, os verdadeiros donos daquele lugar se apresentam em uma fantástica introdução de personagens. Somente o som vindo da selva é suficiente para causar verdadeiro pânico naqueles presentes (e um grande impacto no espectador), iniciando uma das belas cenas do filme, a feroz caçada dos seres humanos. Ao aparecerem pela primeira vez, os macacos que originam o título se mostram seres extremamente avançados, montados em cavalos, com armas poderosas e se comunicando através da fala. A partir daí o filme explora com competência dois temas interessantes: o tratamento dado aos animais por nós seres humanos e o confronto ciência versus religião.

A parte técnica é o grande destaque da produção. A direção de arte, em conjunto com os figurinos, consegue criar um planeta totalmente caracterizado como o habitat dos macacos evoluídos. Observe como as casas são feitas em um formato que lembra os locais onde os macacos normalmente ficam nos zoológicos. Os seres humanos, que não têm o dom da fala, se vestem com panos rasgados e pouco coloridos, lembrando muito o homem pré-histórico. As jaulas onde estes ficam presos passam a sensação de claustrofobia que os personagens sentem, graças também à câmera sempre próxima do rosto deles. A trilha sonora oscila momentos em que ajuda a criar tensão com momentos em que não consegue criar conexão com a cena. E finalmente, o grande trabalho técnico do filme fica por conta da maquiagem. O impressionante trabalho realizado para dar veracidade aos macacos hoje pode parecer estranho, mas na época foi uma verdadeira revolução causando grande impacto e gerando inclusive um prêmio Oscar honorário ao filme, muitos anos depois. Os macacos têm os traços perfeitos, falam e tem expressões faciais, como se fossem verdadeiros macacos falantes.

As atuações de todo o elenco de apoio são competentes. Repare como os seres humanos conseguem transmitir a sensação de serem selvagens através de expressões faciais e corporais. Eles se penduram nas jaulas, chacoalham e mexem as mãos, como verdadeiros homens primatas. Já entre o elenco principal, o destaque fica para o simpático casal de macacos cientistas formado por Dr. Cornelius (Roddy McDowall) e Dra. Zira (Kim Hunter). Observe a expressão de pena no rosto de Hunter quando Taylor é preso e a reação dela ao ler a frase escrita por Taylor em um papel. Da mesma forma, McDowall expressa suas emoções conflitantes de forma brilhante ao mudar de posição sobre determinado assunto em certo momento da projeção, nos causando grande impacto. Já Charlton Heston tem uma atuação apenas razoável, se limitando a gritar e correr em diversos momentos do filme. A sua última e emocionada aparição é o ponto alto de sua atuação.

O roteiro de Michael Wilson e Rod Serling, baseado em livro de Pierre Boulle, aborda (como já citado) dois temas extremamente interessantes e delicados. O primeiro deles, menos polêmico, é uma alusão à forma brutal que o ser humano trata todo e qualquer tipo de animal aqui na terra. Ao inverter os papéis, ele nos coloca numa situação desconfortável, nos sentindo ofendidos pela forma como os seres humanos são tratados no filme. Inteligentemente, nos leva a uma série de questionamentos através da simples inversão dos papéis. Observe a forma como os humanos são caçados com redes e laços, as jaulas, a forma de alimentação e de tomar banho, a escolha arbitrária de um casal para acasalamento e a forma como os humanos são utilizados “para o bem da ciência” em estudos experimentais. Tudo isto é uma crítica pouco sutil à forma que nós agimos contra os animais aqui na terra. Já o outro tema abordado é muito mais profundo e polêmico. O filme aborda o poder que a religião tem de controlar a sociedade, demonstrando como ela pode ser perigosa quando seguida cegamente e sem questionamentos. Neste caso foi o macaco quem criou uma religião para controlar sua população, contornando e moldando o mundo em que vivem de acordo com o que lhes interessa. E aqui também existe o conflito religião versus ciência quanto à teoria da evolução, só que a teoria se apresenta de forma invertida, o que se revela uma engraçada ironia.

[se você ainda não viu o filme, pule para o próximo parágrafo] Mas é o final de O Planeta dos Macacos que causa um impacto devastador no espectador. Confesso que durante o filme identifiquei diversos problemas no mundo criado: o planeta supostamente distante tinha luz do sol, plantas, água, cavalos, bonecas e óculos. Além disso, em determinado momento questionei uma frase dita por um macaco, que faz uma piada com a palavra “terno”. Como eles conheciam a existência do terno? Mas no último plano, o filme revela um dos mais surpreendentes finais que já tive oportunidade de testemunhar, causando uma enorme subversão de expectativa e corrigindo todos os problemas que apontei acima. O inteligente final torna o planeta em questão totalmente verossímil e amarra perfeitamente o roteiro de forma mais que brilhante. Como se não fosse suficiente, ainda aponta em 1967 para algo extremamente discutido nos dias de hoje, a falta de cuidado do homem com o seu planeta.

Discutindo temas polêmicos, utilizando um visual diferente e belo e contando ainda com uma atraente narrativa, é no último ato que O Planeta dos Macacos demonstra sua força de verdade, causando um forte impacto no espectador. Com inteligência e criatividade, o filme consegue prender a atenção e nos faz refletir sobre diversos temas controversos, o que é sempre agradável de se ver.

PS: Ao citar o perigo que a religião representa quando seguida cegamente e sem questionamentos, não pretendo ser interpretado como um ateu. Tenho minha fé, acredito em DEUS e no senhor Jesus Cristo. Só entendo que as pessoas jamais devem seguir qualquer religião que seja sem buscar esclarecer todas suas dúvidas e sem fazer questionamentos.

Texto publicado em 11 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira

TRÊS HOMENS EM CONFLITO (1966)

(Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo) 

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #4

Dirigido por Sergio Leone.

Elenco: Clint Eastwood, Lee Van Cleef, Eli Wallach, Aldo Giuffrè, Mario Brega, Luigi Pistilli, Rada Rassimov, Antonio Casale, John Bartho, Angelo Novi e Antonio Casas. 

Roteiro: Agenore Incrocci, Sergio Leone, Furio Scarpelli e Luciano Vincenzoni. 

Produção: Alberto Grimaldi. 

Três Homens em Conflito é o ponto alto da parceria entre o diretor italiano Sérgio Leone e o hoje astro de Holywood Clint Eastwood. Pouco conhecidos na época, conseguiram alcançar o sucesso através da trilogia dos dólares, que marcou o western para sempre e simbolizou uma época onde o estilo Western Spaghetti ficou conhecido. Depois de “Por um punhado de dólares” e “Por uns dólares a mais”, a dupla alcançou seu melhor resultado em “Três homens em conflito” e brindou o cinema com uma obra que atravessa gerações graças à extraordinária qualidade que têm.

Já na apresentação dos créditos podemos perceber a originalidade de Leone através da montagem de imagens acompanhada da maravilhosa trilha de Ennio Morricone. O filme narra à estória de Tuco Benedito Pacifico Juan Maria Ramirez (isso tudo mesmo!), apelidado de “O Feio” (Eli Wallach), Angel Eyes Sentenza, apelidado de “O Mau” (Lee Van Cleef) e Blondie, apelidado de “O Bom” (Clint Eastwood). Estes três homens atravessam o velho oeste em meio a Guerra Civil americana à procura de 200 mil dólares que foram roubados. A introdução do filme e dos personagens é absolutamente perfeita. Na primeira delas, sem utilizar nenhuma palavra, o diretor cria um clima absurdamente tenso e demonstra com as imagens o quão perigoso é “O Feio”. Na introdução de “O Mau”, ele também cria este mesmo clima de tensão, e quando as primeiras palavras são ditas no filme, já sabemos o que está para acontecer. “O Bom” tem uma introdução de personagem mais bem humorada, e que ao mesmo tempo, serve para demonstrar a habilidade do personagem com a arma e um traço importante de sua personalidade: a esperteza.

A montagem de Eugenio Alabiso e Nino Baragli ajuda a manter a narrativa dos três personagens igualmente interessante, apesar de nos identificarmos mais com “O Bom”, talvez influenciados pela introdução deste personagem, onde ele é apresentado como o menos cruel dos três. Os bons diálogos do roteiro que Leone ajudou a escrever também merecem destaque, como a conversa entre dois personagens sobre as porcentagens que cada um merecia na parceria que tinham e outra conversa entre estes mesmos personagens em um quarto do Hotel sobre cinturões e esporas. O roteiro cruza os caminhos dos três personagens em diversos momentos da narrativa de forma inteligente e jamais cansativa, mantendo o espectador sempre atento ao que acontece. Também utiliza alguns artifícios como um diálogo expositivo entre “O Feio” e seu irmão padre (Luigi Pistilli), mas o truque é utilizado de forma inteligente, já que o conflito é bastante verossímil. Além disso, algumas frases são verdadeiras pérolas como o momento em que “O Feio” diz: “Na hora de atirar atire, não fale”. Leone também cria momentos de alívio cômico interessantes, como a bem humorada e muito inteligente cena com o exército azul empoeirado e parecendo cinza.

A atuação de Clint Eastwood é minimalista, com poucas mudanças de feição. O ator não expressa muitas emoções, o que cai bem no personagem frio e calculista que é “O Bom”. Um dos momentos de inspiração de Clint é quando “O Feio” pede que ele coloque a cabeça na corda e ele move a sobrancelha levemente, como quem está pensando “Fazer o que…”. Bem humorado. Interessante como seu personagem utiliza inteligentemente a seu favor o fato de ser o único que sabe algo extremamente importante na trama, permitindo-lhe trocar de parceria à qualquer momento, já que ele sabe que é o mais importante do trio. Já Lee Van Cleef tem uma atuação mais exagerada como “O Mau”, usando caras e bocas em diversos momentos da trama como na cena em que o personagem aparece pela primeira vez, o que acaba fazendo um contraponto interessante para a fria atuação de Clint. Mas é Eli Wallach quem consegue maior destaque entre os três personagens. Seu “Feio” é ao mesmo tempo ameaçador e ingênuo. Por diversas vezes sentimos pena dele e em outras tantas vezes sentimos raiva. Wallach consegue transmitir a personalidade insegura e ao mesmo tempo gananciosa do personagem em diversos momentos, como no momento em que ele é salvo pela primeira vez por seu comparsa. O sorriso misturado com tensão fica claro no rosto de Wallach, muito bem captado pela câmera próxima de Leone.

Também impressionante é o excelente trabalho de Ennio Morricone. A trilha sonora de Três Homens em Conflito é sensacional, com toda cara do velho oeste. Os assovios e os gritos que ouvimos em sua melodia principal se encaixam perfeitamente na melancólica e assustadora visão do velho oeste proposta por Leone. Ao longo de toda projeção somos presenteados com belíssimas melodias, além da maravilhosa música instrumental “The Ecstasy of Gold”, executada na íntegra em um momento chave e extremamente belo do filme. O trabalho de figurino e direção de arte também é competente, situando-nos na época com roupas bem características do velho oeste americano, além da excepcional maquiagem em certo momento da trama, onde um personagem está praticamente desfigurado por caminhar muitos dias sob o sol. A Fotografia de Tonino Delli Colli destaca as cores marrom, cinza, bege e em poucos momentos o azul escuro, demonstrando a aridez do velho oeste. Também demonstra visualmente o mundo seco, de pessoas com corações frios onde viviam os personagens.

Mas o grande destaque do filme é, sem dúvida nenhuma, a aula de direção dada por Sérgio Leone. O diretor italiano tem controle total do filme e demonstra como cada plano é cuidadosamente planejado. Observe por exemplo o talento de Leone ao criar planos e composições extremamente belas, muitas vezes utilizando somente as imagens para passar sentimentos ao espectador. Ele sabe cadenciar perfeitamente a alternância entre estes planos amplos com os closes, utilizados para acentuar o traço surrado daqueles personagens queimados pelo sol. Estes closes também demonstram a frieza com que eles encaram momentos extremamente tensos, como os duelos armados. O filme todo é recheado de momentos bem orquestrados, uma verdadeira coleção de cenas absolutamente perfeitas. Para citar algumas, repare a composição visual da cena do trem cortando a corrente presa a um determinado personagem, a tensa cena da invasão de um quarto de Hotel, a já citada cena acompanhada da música “The Ecstasy of Gold”, a explosão da ponte e o ataque aos comparsas de “O Mau”. São momentos de puro cinema, com imagens belíssimas e cheias de estilo, narrando uma trama inteligente diante de nossos olhos.

[se você ainda não viu o filme, pule este parágrafo] Entre todas as lindas cenas, a que merece maior destaque é a sensacional cena final do duelo anunciado entre os três personagens. O momento tão esperado mais parece um balé extremamente bem orquestrado por Leone, com movimentos de câmera sensacionais, cortes perfeitos, closes espetaculares e um crescente clima de tensão que aumenta ainda mais com a ótima trilha sonora, criando uma cena incrivelmente bela e inesquecível. Somente esta cena já serviria de referência para o belíssimo trabalho de um diretor extremamente inteligente e competente que podemos testemunhar neste filme.

Representante maior do estilo Western Spaghetti, Três Homens em Conflito encanta pela quantidade enorme de cenas esplendidamente bem filmadas, explorando todo o potencial das paisagens do velho oeste e extraindo o máximo da trama criada, demonstrando toda a competência de Sergio Leone como diretor. Mesmo muitos anos depois de seu lançamento, ainda se mantêm como um dos maiores westerns já lançados no cinema. Com cenas inesquecíveis, momentos de extrema tensão e imagens belíssimas, o filme consegue criar empatia com o espectador e mantê-lo sempre interessado na narrativa, de uma forma absolutamente competente e imperdível.

 

Texto publicado em 02 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira

CASABLANCA (1942)

(Casablanca) 

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #3

Vencedores do Oscar #1942

Dirigido por Michael Curtiz.

Elenco: Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Paul Henreid, Claude Rains, Dooley Wilson, Conrad Veidt, Sydney Greenstreet, Peter Lorre e Madeleine LeBeau.

Roteiro: Julius J. Epstein, Philip G. Epstein e Howard Koch, baseado em peça de Murray Burnett e Joan Alison. 

Produção: Hal B. Wallis. 

Quando os créditos começam a aparecer no final de Casablanca temos aquela sensação de satisfação por saber que o cinema é algo mágico, com uma capacidade enorme de transmitir emoções através de imagens. O clássico de Hollywood consegue de forma muito competente realizar aquilo que todo filme deveria. É um casamento perfeito de direção, fotografia, roteiro e atuações, conseguindo ser emocionante sem ser melodramático.

Fugindo da ocupação nazista durante a segunda guerra mundial, pessoas de diversas partes da Europa tinham como seu destino final a cidade de Casablanca, no Marrocos, onde esperavam por um visto salvador que lhes permitisse entrar em Lisboa e viajar para a América. Lá vive o americano Rick (Humphrey Bogart), dono de um bar de sucesso na cidade e com enorme prestígio e influencia naquela comunidade. Rick é uma pessoa amarga, que só pensa em si próprio e, como ele mesmo diz, não arrisca seu pescoço por ninguém.

A introdução do personagem Rick é excelente. Antes mesmo de sua aparição notamos que se trata de alguém muito importante, somente pela conversa em uma mesa de seu bar. Os convidados pedem para que ele beba com eles e o garçom diz que ele nunca faz isto. O convidado responde que era o segundo maior banqueiro de Amsterdã e ouve do garçom que o primeiro hoje está fazendo os salgados no bar de Rick, e que o pai dele é o carregador de malas. Somente este diálogo já revela a influência de Rick e o quanto ele é respeitado na cidade, além de fazer uma interessante demonstração do enfraquecimento dos países europeus dominados durante a guerra.

A direção de Michael Curtiz é bastante segura e cria inúmeros momentos inesquecíveis, além de procurar manter a câmera sempre próxima nos momentos dramáticos para captar melhor as reações dos atores. Logo no início do filme, a câmera se movimenta em direção à placa com o lema francês “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” no momento em que um reacionário francês é morto a tiros abaixo dela. A composição do plano, com o com o hino da França ao fundo, demonstra a inteligência de Curtiz ao transmitir a mensagem sem precisar utilizar palavras. Um dos grandes momentos de impacto acontece quando Rick entra no salão ao som de “As time goes by” e olha para a mulher que vai nos fazer entender a razão de toda sua amargura. Ilsa (Ingrid Bergman), que já está com os olhos marejados, estava sentada na mesa de seu bar. (se você ainda não viu o filme pule para o próximo parágrafo). É o suficiente para demonstrar que os dois já se conhecem e deixar subentendido que eles viveram algo no passado. É mágico. O diretor consegue falar com a platéia sem palavras, somente com imagens. Outro grande momento acontece quando Lazslo (Paul Henreid) e Rick estão tendo uma conversa reveladora e escutam os alemães cantando músicas germânicas. Lazslo pede para que um músico toque a Marselhesa (hino francês) que é cantada com enorme paixão pelos franceses presentes no bar. O enorme patriotismo evocado naquelas pessoas, perceptível em cada rosto emocionado, revela aos alemães o risco que estão correndo deixando Lazslo à solta. A situação não estava sob controle. Interessante também é notar que a farsa existente em alguns Cassinos já era revelada em 1942 (mesmo assim milhões de pessoas lotam Cassinos pelo mundo afora até os dias de hoje), na tocante cena em que Rick “sugere” a um rapaz o número 22 na roleta e ele consegue o dinheiro que precisava para sair de Casablanca. Momentos antes sua esposa havia explicado para Rick o quanto eles precisavam daquele dinheiro.

As atuações são menos exageradas do que o costumeiro na época. Humphrey Bogart está muito bem, conseguindo transmitir toda a amargura de Rick. Cínico e irônico, ele passa uma imagem de alguém amargo que não acredita em nada além de si mesmo. Existem momentos onde a atuação de Bogart deixa isto bem claro, como na cena em que ele manda uma mulher que se diz apaixonada por ele se retirar do bar e pede ao funcionário dele que a leve pra casa. A feição fria de Bogart demonstra que ele não acredita mais no amor. Claude Rains tem uma atuação extremamente simpática como o Capitão Renault. Ele se revela uma pessoa divertidamente inteligente, apesar de sem escrúpulos, procurando ficar sempre do lado mais forte. A boa atuação de ambos pode ser notada quando um determinado personagem é assassinado. O sorriso de canto de boca de Rick e Renault e os olhares de ambos demonstram que a solução do conflito aconteceu de forma satisfatória para os dois. Já Paul Henreid, como o intrigante líder da resistência tcheca Victor Laszlo perseguido duramente pelos alemães liderados pelo Major Strasser (Conrad Veidt), tem uma atuação segura e de papel fundamental na trama, já que os acontecimentos giram em torno dele. Mas a grande força de Casablanca está na personagem enigmática de Ingrid Bergman. Ilsa é uma mulher dividida e Bergman demonstra toda a ambigüidade da personagem com uma atuação magnífica. Observe como ela transmite de forma equivalente o sentimento de carinho que sente por Rick e por Laszlo. Quando ela conversa com o primeiro no bar somos levados a pensar que ela o ama, mas quando ela conversa com Rick no quarto do hotel sentimos que ela na realidade ama Laszlo. Ela jamais deixa transparecer a preferência da personagem. Quando finalmente toma uma decisão nos sentimos incomodados, pois também não temos certeza de que seja a mais correta.

A trilha sonora marca os momentos de maior tensão aumentando o volume, como na cena em que Ilsa aponta uma arma para Rick para tentar conseguir o que precisa. A fotografia de Arthur Edeson é marcante, deixando em evidência o forte contraste do preto com o branco em diversos momentos. Repare como Rick está mergulhado nas sombras quando está bebendo no bar para tentar esquecer que viu Ilsa momentos antes. Quando ela repentinamente aparece na porta toda de branco, temos a sensação de estar vendo um anjo e não uma pessoa entrando no bar devido ao enorme contraste provocado na cena. Ao final da conversa, Rick está com o rosto escondido entre seus braços debruçados na mesa, novamente mergulhado nas sombras, numa cena forte que demonstra visualmente toda a escuridão, tristeza e depressão do personagem naquele momento. [se não viu o filme, pule novamente para o próximo parágrafo 😉 ] Na cena da despedida, o casal Ilsa e Laszlo desaparece na neblina, assim como o avião some entre as nuvens, demonstrando visualmente que mais uma vez Ilsa está escapando da vida de Rick. Como se fosse um sonho, ela se esvai entre as nuvens e simultaneamente desaparece de sua vida.

Mas o grande destaque da produção é com certeza o roteiro, recheado de diálogos marcantes e inteligentes. Alguns deles ficaram marcados para sempre, como a tocante frase “Nós sempre teremos Paris”. Exemplos para ilustrar a qualidade do trabalho de Julius J. Epstein, Philip G. Epstein e Howard Koch não faltam, como o excelente trecho em que o Sr. Ferrari (Sydney Greenstreet) quer contratar o músico Sam (Dooley Wilson), talvez o único verdadeiro amigo de Rick. Eles vão perguntar a Sam se ele aceitaria trabalhar pra o Sr. Ferrari e ele responde que não. Rick diz que ele ganharia o dobro se aceitasse, mas Sam responde que não adiantaria porque ele não tem tempo para gastar o que ganha. Outro exemplo de diálogo inteligente é quando o major Strasser oferece os vistos para Laszlo e Ilsa viajarem à Lisboa em troca dos nomes dos líderes da resistência nas cidades dominadas pelo exército alemão. Ele responde: “Se não entreguei os nomes quando estava no campo de concentração, onde vocês tinham métodos muitos mais persuasivos, não será agora que vou entregar”. Para evitar escrever o roteiro inteiro aqui, cito apenas mais um trecho maravilhoso que acontece quando o Capitão Renault pergunta à Rick se ele está realmente com os salvo-condutos deixados no bar por Ugarte (Peter Lorre). Ele responde com outra pergunta: “Você é a favor ou contra a ocupação da França?”. Ora, o capitão Renault é francês e obviamente é contra. Mas como está trabalhando para os alemães não pode afirmar sua opinião em público. Entendendo a sagacidade da pergunta de Rick ele responde: “Isso é o que acontece quando fazemos perguntas diretas. Assunto encerrado”. Maravilhoso.

Representante de um seleto grupo de filmes que jamais envelhecem, Casablanca é um excelente exemplo de como o cinema pode ser mágico. Repleto de imagens e momentos belíssimos, o filme demonstra a mudança que um verdadeiro amor pode realizar em uma pessoa, transformando-a completamente. Sem melodramas ou fórmulas prontas, o filme consegue nos emocionar e fica guardado pra sempre em nossa memória. E exatamente por isso se tornou um dos grandes clássicos da história do cinema.

 

Texto publicado em 25 de Junho de 2009 por Roberto Siqueira

Submarino.com.br

CIDADÃO KANE (1941)

(Citizen Kane)

5 Estrelas

     

Obra-Prima

 

Videoteca do Beto #2

Dirigido por Orson Welles.

Elenco: Orson Welles, Everett Sloane, Joseph Cotten, Dorothy Comingore, George Coulouris, Agnes Moorehead, Ruth Warrick, Ray Collins, Erskine Sanford, William Alland, Paul Stewart, Fortunio Bonanova, Georgia Backus. 

Roteiro: Herman J. Mankiewicz e Orson Welles. 

Produção: Orson Welles. 

Escrever sobre Cidadão Kane é sem dúvida uma tarefa bastante complexa, já que este é considerado por muitos o filme mais importante de todos os tempos e já foi dissecado por inúmeros especialistas ao longo dos anos. De qualquer forma, vou me atrever a deixar aqui registradas as minhas impressões sobre esta obra-prima. Dirigido e produzido por Orson Welles, Cidadão Kane deu ao jovem e promissor gênio de Hollywood a oportunidade de utilizar toda sua criatividade, e também toda sua excelente equipe de apoio, para criar um filme que está muitas décadas à frente de seu tempo.

Normalmente não considero correto falar sobre os bastidores de uma produção já que em nada agregam à análise do filme. Mas Cidadão Kane é uma exceção. Os bastidores do filme têm uma importância tão grande que ganharam inclusive um documentário indicado ao Oscar chamado “A Batalha por Cidadão Kane”, disponível no maravilhoso DVD Duplo do filme. Welles se tornou conhecido devido alguns trabalhos no teatro e principalmente à narração histórica de “A Guerra dos Mundos” que fez na rádio CBS causando pânico na cidade, já que as pessoas que pegaram a transmissão do meio pra frente acreditaram que a humanidade realmente estava sob o ataque de marcianos. A produtora RKO contratou Welles e lhe deu carta branca para fazer o que bem entendesse, o que era o sonho de qualquer diretor na época. Ele decidiu filmar a vida do milionário William Randolph Hearst (no filme, Charles Foster Kane), homem de sucesso no meio jornalístico e dono de um império. O resultado é uma obra que alterou o futuro do cinema e influenciou praticamente tudo que surgiu depois dela. E o curioso é que esta maravilha correu o risco de jamais chegar ao público, já que Hearst tentou evitar o seu lançamento de todas as formas possíveis.

O filme começa com a visão da gigantesca mansão do milionário Charles Foster Kane (Orson Welles), chamada Xanadu. Já no início temos uma idéia da qualidade do trabalho de direção e de direção de fotografia da dupla Orson Welles e Gregg Toland (não por acaso creditado ao lado de Welles no fim do filme, em atitude rara de qualquer diretor). Eles filmam o império de Kane de diversos pontos de vista diferentes, mostrando jaulas com animais e o reflexo da mansão na água com barcos, mas sempre com a luz do quarto de Kane em destaque e no mesmo ponto da tela. Quando a câmera se aproxima da janela do quarto e a luz se apaga, repentinamente notamos que já estamos do lado de dentro do quarto, num trabalho genial de fotografia, direção e montagem. O milionário antes de morrer pronuncia a palavra “Rosebud” e dá inicio a uma busca por parte dos jornalistas para saber o que (ou quem?) era “Rosebud”.

O roteiro de Herman J. Mankiewicz (também creditado para Welles) é inovador e criativo, contando a história fora da ordem cronológica e sempre em círculos, voltando para o ponto onde o jornalista parou sua última conversa. Além disso, logo no início do filme temos o resumo de toda a vida de Kane através de um vídeo com transições de imagens rápidas e aparência de velho para dar um ar documental. O importante não é somente a história que será contada, mas sim a forma que será mostrada.

Mas porque Cidadão Kane é tão importante e influente? Olhando hoje, mais de seis décadas depois, podemos ter a sensação de que nada demais acontece ali. Mas é exatamente por isso que, para entender e saborear esta obra por completo, é preciso entender o contexto da época. Mankiewicz e principalmente a dupla Welles e Toland utilizaram neste filme praticamente todos os recursos técnicos e narrativos disponíveis na época. Observe por exemplo o número de vezes em que nossa noção de profundidade é enganada no filme. Na cena em que Kane tem que assinar a perda de tudo que tinha, a parede parece estar próxima devido à sombra de uma cadeira, mas na realidade está bem longe e a sala que parecia pequena se revela enorme. A janela parecia pequena e quando ele se aproxima dela percebemos que na verdade é gigante. Também existe um simbolismo nesta cena, já que Kane está sendo diminuído pela perda de seu poder. Sensacional! Outros exemplos de cenas em que os dois brincam com essa noção de profundidade são a cena dentro da Biblioteca onde o repórter vai ler sobre o Sr. Thatcher (George Coulouris) e no momento em que Susan Alexander (Dorothy Comingore) brinca com o quebra-cabeça e Kane se aproxima dela. Na primeira cena a sala não parece tão grande, mas quando o guarda vai mexer no cofre, dá a exata noção do tamanho da sala. Já na segunda cena, inicialmente a lareira ao fundo parece normal, mas quando Kane se aproxima acaba revelando o tamanho real dela.

Esta inovação na forma de filmar se deu devido ao uso do foco em toda a cena, e não somente onde acontece a ação principal como era costume na época. Ao filmar desta forma, Welles e Toland nos permitem observar ações que acontecem no primeiro plano e também no segundo plano. Preste atenção, por exemplo, na cena onde Kane é vendido pelos seus pais ao Sr. Thatcher. Podemos observar ao mesmo tempo o diálogo entre os três no primeiro plano e, através da janela, podemos ver o menino Kane jogando bolas de neve no segundo plano. Esta técnica é utilizada por diversas vezes em Cidadão Kane. Outro exemplo da genial fotografia de Toland é a cena onde Kane, Susan, Jim Gettys (Ray Collins) e Mary Kane (Agnes Moorehead) estão discutindo na casa de Susan. Kane está nas sombras, diminuído pela situação, e quando ele resolve entrar na conversa sai das sombras e fica em foco, se agigantando na cena.

As atuações em Cidadão Kane são todas um pouco acima da média para a época, apesar de ainda manter um pouco do estilo exagerado das primeiras décadas do cinema. Orson Welles, por exemplo, está muito bem, com um sorriso permanente, típico de quem é muito autoconfiante. Este sorriso também demonstra a falsidade típica entre os homens poderosos, utilizada para conseguir favores e para alcançar seus objetivos a qualquer preço. Ao ouvir sua esposa dizer que o seu tio era o presidente dos EUA, o que ele não era, Kane sorri ironicamente e diz que este era um erro que seria reparado um dia. Este tipo de reação demonstra o tamanho da autoconfiança do personagem. A direção de Welles também ajuda a criar a imponência do personagem, já que ele deixa a câmera muitas vezes próxima ao chão, filmando Kane de baixo pra cima, dando a impressão de que ele era enorme, poderoso, imbatível. Todo o restante do elenco mantém o bom nível das atuações, com destaque para Ray Collins, como o inescrupuloso e inteligente Jim Gettys e Joseph Cotten como o amigo de Kane, Jedediah Leland. Cotten demonstra com sutileza em diversos momentos sua discordância com os métodos de Kane e durante o filme vamos percebendo que o racha entre os dois era somente questão de tempo, como na cena onde Kane apresenta um número musical para seus novos funcionários do Inquire. A feição de Leland demonstra sua desaprovação com o que estava vendo.

Outros pontos de destaque na produção são o som e os efeitos visuais. Repare como em diversos momentos o som de uma cena continua na próxima criando elipses enormes. Um exemplo disso acontece quando o Sr. Thatcher deseja feliz natal para Kane ainda criança. No plano seguinte a montagem salta muitos anos e, ao completar sua frase dizendo feliz ano novo, já o vemos bem velho enquanto Kane, agora completando 25 anos, está na Europa. Outra elipse interessante é quando a câmera foca o número 185 da casa de Susan Alexander no momento em que Emily Norton (Ruth Warrick) deixa a casa e, no plano seguinte, a entrada da casa com o número está na capa do jornal concorrente que denunciou o escândalo de Kane. Na cena da apresentação de Susan Alexander todo o som da platéia é composto por efeitos sonoros, já que não existia ninguém fisicamente ali. Já na famosa seqüência do discurso de Kane, além do som, a própria platéia foi criada a partir de desenhos e posteriormente montada na película do filme, dando aquela visão incrível de um local completamente lotado. A montagem, aliás, é outro trunfo de Cidadão Kane. Além da já citada montagem manual, que acontece em diversos momentos do filme (algumas vezes havia três ou mais takes colados manualmente no mesmo plano), a fluidez da narrativa e o ritmo sempre dinâmico do roteiro de Mankiewicz são também méritos do excelente trabalho de montagem de Robert Wise.

Corajoso e inovador, Cidadão Kane é sem dúvida um filme ímpar na história do cinema que afetou diretamente a vida daqueles que se envolveram com ele. O impressionante travelling final sobre as caixas e os bens de Kane, que sobraram amontoados em sua casa, dá a impressão em certo momento de estar sobrevoando uma grande metrópole, um império, agora decadente e abandonado. Este final reflete bem o que aconteceu na vida de Orson Welles e William Hearst após Cicadão Kane. Duas pessoas com um ego enorme e que foram destruídas após esta obra devastadora. Orson Welles nos brinda com esta obra-prima recheada de novidades técnicas e narrativas que marcaram e mudaram o cinema para sempre.

Texto publicado em 24 de Junho de 2009 por Roberto Siqueira

E O VENTO LEVOU (1939)

(Gone With the Wind)

4 Estrelas

 

Videoteca do Beto #1

Vencedores do Oscar #1939

Dirigido por Victor Fleming.

Elenco: Clark Gable, Vivien Leigh, Leslie Howard, Hattie McDaniel, Olivia de Havilland e Thomas Mitchell.

Roteiro: Sidney Howard, baseado em livro de Margaret Mitchell. 

Produção: David O. Selznick. 

Dirigido por quatros pessoas diferentes e com uma duração que praticamente bate nas quatro horas, a trajetória de Scarlett O’Hara firmou-se como um épico grandioso com imagens belíssimas e uma linda trilha sonora, marcando a história do cinema, mesmo que em diversos momentos seja melodramático demais. A superprodução de David O. Selznick muitas vezes lembra as telenovelas que ainda fazem sucesso nos dias de hoje, com atuações caricatas e situações escancaradamente óbvias, com a importante diferença de que este filme é de 1939. Para entender sua importância é preciso saber que na época em que foi feito o cinema era deste modo, com atuações exageradas, cheias de caras e bocas e normalmente com um roteiro óbvio, meio auto-explicativo, para que as pessoas pudessem entender corretamente o filme.

Scarlett O’Hara (Vivien Leigh) era a menina mimada que sonhava casar-se com Ashley Wilkes (Leslie Howard). Adorada por praticamente todos os homens de sua comunidade, só não conseguia o amor da pessoa que realmente a interessava. Ao saber que seu amado iria se casar, Scarlett parte para tentar conquistá-lo, sem sucesso. Ao receber o convite para morar junto com ele e sua esposa em Atlanta ela deixa Tara, sua terra natal, para viver uma odisséia cheia de dificuldades, em um período de guerra entre o norte e o sul dos EUA, e paralelamente a tudo isto, um romance com o igualmente interesseiro Rett Butler (Clark Gable). A primeira etapa do filme se concentra basicamente na decadência de Tara e da família O’Hara e a segunda se concentra na relação entre Scarlett e Butler e no estudo da personalidade de Scarlett O’Hara.

O roteiro de Sidney Howard apresenta diálogos bem interessantes, apesar da obviedade de algumas situações como duas mortes idênticas, em que a segunda delas se torna totalmente previsível, e de incluir momentos melodramáticos e desnecessários como a cena em que Butler volta de Londres. O destaque fica por conta dos diálogos envolvendo Scarlett, sempre egoísta e mimada, e Butler, sempre sarcástico. A conversa dos dois na Biblioteca após a revelação dela para Ashley é no mínimo muito bem humorada. Além disso, algumas frases ditas por Scarlett são muito bem sacadas e explicam a idolatria que a personagem teria em sua época, representando a força da mulher que hoje já podemos ver em praticamente todos os setores da sociedade, mas que naquele tempo soavam bastante ousadas. Frases como “Acho que cometi um assassinato, mas não vamos pensar nisso hoje, só amanhã” e “Ashley vai voltar. Vamos plantar mais algodão, o preço vai disparar” são momentos sensacionais que demonstram como Scarlett era ao mesmo tempo uma mulher egoísta e, por outro lado, extremamente ousada e independente.

A atuação de Vivien Leigh é bem exagerada, com mudanças constantes de humor e feição, como na cena em que sua amiga Melanie (Olivia de Havilland) pede para que ela cuide de seu marido caso ela morra no parto. Repare como ela muda repentinamente de um rosto triste para um rosto alegre, sem muita elegância na transição. Isto não deve ser um demérito para a atuação dela, já que na época, como já dito, era bem comum este tipo de atuação. Além disso, seu carisma nos faz ter uma identificação com o personagem, mesmo sabendo que Scarlett não é necessariamente um exemplo a ser seguido. Ela é egoísta, ambiciosa além do limite, deseja o marido da melhor amiga e faz qualquer negócio, inclusive casar três vezes sem amor, para atingir seus objetivos. Mesmo assim o espectador acaba torcendo por ela, o que é mérito da atuação carismática de Vivien. Clark Gable se destaca como o irônico Butler. Repare como ele sorri sutilmente nas inúmeras vezes em que irrita Scarlett e como demonstra com fervor sua dor quando perde alguém importante em sua vida. Já Hattie McDaniel, apesar de também ter uma atuação bastante caricata como Mammy, consegue destaque também por se tornar uma personagem extremamente simpática e importante na trama.

Mas é a direção (que teve o crédito final para Victor Fleming) e a trilha sonora de Max Steiner que realmente se destacam neste imponente épico. Com planos belíssimos e enquadramentos perfeitos, o diretor cria imagens de grande impacto como o impressionante travelling sobre os homens mortos na guerra terminando com o plano da bandeira dos EUA. Destaca-se também a cena da fuga de Atlanta com a cidade em chamas, criada a partir de um incêndio real dos estúdios onde foram filmadas cenas de King Kong, e que por isso, consegue obter tamanho realismo. Além disso, os planos sempre procuram valorizar os belos cenários e paisagens, criando um visual esplêndido. A trilha sonora, que praticamente não para durante toda a projeção, além de bela, tem papel fundamental na trama marcando momentos importantes da estória. Observe como nos três principais momentos do filme o conjunto cenário, movimento de câmera e trilha sonora é exatamente idêntico. Além disso, o tema das cenas é o mesmo: a terra. Não é por acaso. O diretor cria ali momentos crucias da trama, interligados exatamente por serem idênticos. No primeiro deles o pai de Scarlett, Gerald O’Hara (Thomas Mitchell), explica a importância da terra para ela. A árvore, a vista, o movimento da câmera se afastando deles e a belíssima trilha sonora marca o momento. Na segunda cena, Scarlett jura jamais passar fome em sua terra com o mesmo cenário de fundo, a mesma árvore, o mesmo movimento de câmera e a mesma trilha. E na última delas, ela volta para Tara e promete se reerguer, próxima da mesma árvore, com o mesmo travelling, no mesmo cenário e com a mesma belíssima e famosa trilha.

A direção de fotografia de Ernest Haller e Ray Rennahan acertadamente destaca em diversos momentos o vermelho, cor da paixão, tão presente na vida daquelas pessoas, fosse ela paixão por alguma pessoa ou pela terra em que viveram. Na cena em que Scarlett e Butler dançam em um salão os dois estão de preto, destoando de todo o resto, simbolizando o quanto eles são diferentes daquelas pessoas. A direção de arte também consegue criar um cenário marcante, com a ajuda dos figurinos, com vestidos característicos da época vistos na festa inicial do filme.

Com planos belíssimos e cenas memoráveis, E o Vento Levou marca pela imponência em uma época onde obras grandiosas eram raridades. Apesar de escorregar em momentos exageradamente melosos, consegue criar empatia com o espectador e marcar aqueles que assistem. Não à toa resistiu ao tempo e se tornou um dos grandes clássicos da história do cinema.

Texto publicado em 23 de Junho de 2009 por Roberto Siqueira

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