Balanço de 2018

Como expliquei em detalhes no texto anterior, o ano passado marcou uma mudança radical em minha vida, que afetou diretamente a rotina do blog, já desgastada nos últimos anos. Para ser mais direto: o Cinema & Debate flertou com o fim em 2018. Não que eu tenha de fato considerado a hipótese de encerrar este espaço que tanto amo, mas a falta de tempo para mantê-lo, aliada aos enormes desafios da minha vida profissional, ao planejamento e execução da mudança de país e as responsabilidades familiares resultantes desta mudança fizeram com que o tempo para assistir filmes e escrever fosse mais escasso do que nunca. Minha esposa dirá que eu também ocupei muito tempo em discussões políticas – o que é verdade, afinal era um ano eleitoral. O fato é que o ano foi turbulento sob diversos aspectos, ainda que no final tenha marcado a realização de um sonho de longa data para toda nossa família.

Se no “Balanço de 2017” eu sonhava com um ano melhor não apenas para o blog, como também para o nosso país, o resultado não poderia ter sido pior para ambos. Abraçamos a onda conservadora falso-moralista e mergulhamos fundo no retrocesso como sociedade. Ao mesmo tempo, o Cinema & Debate sobreviveu dos cliques e comentários de leitores fieis, já que foram raros os textos que consegui produzir por aqui. Felizmente, a turbulência parece ter passado – ao menos para o blog.

Ainda estamos no processo de adaptação, passei um mês estudando alemão intensivo e continuo focado na evolução do idioma, mas aos poucos vou encontrando espaço para reestruturar o blog e novas ideias vão surgindo. Independente do que minha vida profissional me reserve, quero aproveitar os momentos vagos para devolver a força que o C&D já teve, com textos mais frequentes e até mesmo novas abordagens que estou estudando.

Que 2019 marque de fato o recomeço sonhado para o C&D e que eu consiga oferecer o que vocês leitores merecem. Agradeço o carinho de todos que seguem buscando textos e comentando neste espaço e espero que gostem do que está por vir. E que o blog viva dias felizes como eu e minha família estamos vivendo nesta nova caminhada.

Vamos então aos números oficiais do Cinema & Debate em 2018:

– 2 críticas divulgadas na Videoteca do Beto (espero nunca mais ter que divulgar um resultado desastroso assim).

Segundo dados do WordPress, os 5 textos mais acessados em 2018 foram:

5° lugar = “Perfume de Mulher

4° lugar = “2001 – Uma Odisséia no Espaço

3° lugar = “Um Dia de Fúria

2° lugar = “Um Sonho de Liberdade

1° lugar = “A Missão

Temos duas novidades no ranking, “Perfume de Mulher” e “Um Dia de Fúria” – curiosamente, dois filmes do início dos anos 90.

E agora, a lista dos 106 filmes assistidos em 2018 com a cotação no tradicional formado das estrelinhas.

Um grande abraço, obrigado e que 2019 seja um ano cinematográfico para todos nós!

Texto publicado em 10 de Março de 2019 por Roberto Siqueira

Recomeço

Nem eu e nem minha esposa sabíamos, mas nossas vidas – e de todos que nos cercam – começaram a mudar no dia 06 de Agosto de 2012, no instante em que pousamos pela primeira vez na vida na capital alemã. Nós já éramos apaixonados pelo estilo de vida europeu desde a deliciosa viagem de lua-de-mel realizada ainda em 2007 e falávamos abertamente que adoraríamos viver nesta região do mundo, mas nossa admiração nunca se concretizou em ações que pudessem de fato nos levar a uma mudança. Foram os dias maravilhosos que passamos em Berlim e, posteriormente, em Munique que nos levaram a conclusão de que era preciso agir.

Curiosamente, foi somente na terceira viagem ao velho continente que incluímos a Alemanha no roteiro, talvez por conta do estereótipo mentiroso que temos no Brasil sobre o país, que já desmenti neste post. Nós já tínhamos nos encantado com cidades como Paris, Amsterdam, Roma e Barcelona, mas somente quando conhecemos o país de Goethe que a ficha verdadeiramente caiu. Nós tínhamos que morar ali. Não propriamente ali, em Berlim ou Munique, mas a admiração pela Alemanha – que ganhou mais força ainda ao longo dos anos e das novas visitas – foi o motor para concretizar o que era apenas um sonho e dar início ao nosso projeto de mudança para a Europa.

Na volta daquela viagem, iniciamos o processo de cidadania italiana por parte da família da minha esposa e, já em 2013, eu iniciei o estudo do idioma alemão, ainda que o primeiro ano tenha sido praticamente perdido pelo método caseiro que escolhi, o que me motivou a buscar uma escola especializada em 2014. Pela primeira vez, nós tínhamos um plano concreto e agíamos em direção ao sonho.

Passaram-se os anos, nós quase mudamos em 2015, mas uma proposta de trabalho me segurou no Brasil – e que decisão acertada ela se revelou. Vivi anos maravilhosos numa experiência profissional marcante que deixou saudades e que me fez crescer como profissional e como pessoa. Até por isso, não foi nada fácil decidir partir. Obviamente que ficar longe de familiares e amigos era o que mais dificultava a decisão de mudar de país, mas deixar um emprego que eu de fato amava também não era algo simples.03

Por outro lado, a onda conservadora que nasceu nas manifestações de 2013 e que nos levou a eleição de você-sabe-quem facilitou bastante a decisão de mudar. A cada ano que passava e a cada debate que eu tinha sobre ideias políticas e visão de mundo com amigos, familiares e em redes sociais (sim, cometi este erro), eu percebia que estava me desconectando do Brasil e que, se o modelo de sociedade que eu defendo é visto de maneira totalmente distorcida em nosso país, era mais fácil abandonar o inútil debate que já estava me trazendo problemas de saúde e viver logo de uma vez onde ele já é aplicado, afinal, como diz o brilhante texto de Ivana Ebel, o brasileiro de classe média acha chique a Europa, mas critica toda e qualquer política progressista do velho continente quando alguém tenta aplicá-la no Brasil, como por exemplo as ciclovias em São Paulo e programas que visem o bem-estar social, igualdade de gênero, etc.

O sombrio cenário eleitoral somado aos anos de planejamento e ao timing para que nossos filhos não fossem prejudicados em sua formação escolar fizeram com que Dezembro de 2018 fosse a data ideal para nossa sonhada mudança. E assim aconteceu. Desde então, vivemos em Lisboa, numa fase de adaptação ao velho continente que pode tornar-se definitiva, já que estamos adorando viver aqui. Eu ainda passei o mês de Janeiro em Berlim fazendo um curso intensivo de alemão que, além da experiência de imersão que obviamente me ajudou bastante, ainda me rendeu boas amizades, e agora estou novamente com a família em terras lusitanas.

O fato é que não sabemos onde iremos viver em definitivo até que eu encontre um novo emprego – o que pode me levar a algum outro país europeu. Até lá, quem sabe consigo voltar a focar no blog e talvez dar um passo adiante, tratando-o de maneira mais profissional e não apenas como um hobby. Ideias para isso eu tenho aos montes, o que faltava realmente era tempo.

E como o Cinema & Debate sofreu nestes últimos anos. Eu praticamente não conseguia escrever mais, ainda que conseguisse assistir filmes num ritmo razoavelmente bom para quem viajava tanto a trabalho, estudava alemão e, claro, tinha uma família e uma vida social. O blog praticamente sobreviveu respirando por aparelhos, com textos esporádicos, idas e vindas, sumiços e retornos, ainda que o número de acessos jamais tenha caído.

A minha paixão pelo cinema, no entanto, nunca morreu, assim como minha vontade de manter o blog vivo, que era renovada a cada comentário que recebia mesmo com a longa ausência. Talvez esteja na hora de retribuir o carinho de todos vocês que, com comentários e cliques, mantiveram acesa a chama da esperança neste espaço criado para debater a sétima arte de uma maneira mais profunda.

A chama ganhou força. É chegada a hora do recomeço.

Texto publicado em 03 de Março de 2019 por Roberto Siqueira

3…2…1…

Novos caminhos

Boa noite amigos leitores,

Estamos chegando ao fim da corrida eleitoral e meu sentimento é apenas de cansaço.

Ao longo dos últimos meses (quem sabe anos?) eu tentei defender minhas posições com base em argumentos, dados oficiais, matérias de jornais nacionais e estrangeiros, estatísticas, experiências nacionais e de outros países, informações históricas, dicas de livros, filmes, documentários e músicas. Ganhei até o apelido de Linkman por isso.

Busquei o diálogo não apenas com os que concordam comigo, mas especialmente com quem discorda. Vi pessoas que sempre foram críticas ao PT passarem por cima da rejeição em nome da democracia. Perdi amizades por conta de valores inegociáveis pra mim como o respeito e amor ao próximo, mas vi outros tantos amigos se agigantarem em meu coração em sua luta diária por uma sociedade democrática e que prefira o amor ao ódio e os livros as armas.

Dei a cara a tapa, especialmente no segundo turno em que me vi obrigado a defender um projeto que teve diversos problemas e também várias virtudes, mas que não era meu favorito no 1o turno.

Agora só nos resta aguardar. Se Haddad vencer, vou gritar, chorar, sorrir e comemorar, para já na segunda feira começar a cobrar do PT à autocrítica que até agora somente ele próprio Haddad fez, ao lado de defensores da democracia como Mano Brown e Cid Gomes.

Se o outro ganhar, irei parabenizar e desejar sorte ao lado vencedor e me recolher em meu lamento e tristeza pelo Brasil abraçar o discurso autoritário e de ódio. Mas também já na segunda feira irei levantar a voz de oposição e honrar o sangue nordestino misturado ao sangue negro e índio que corre em minhas veias, em defesa dos meus amigos gays, das mulheres que cercam minha vida, da luta que travo há anos pela diminuição da desigualdade e pela igualdade de oportunidades, por mais Estado e não menos, provendo saúde, educação, segurança, transporte, infraestrutura, energia e tudo mais que é estratégico ao país.

Seguirei defendendo o progresso, a educação sexual nas escolas, o Estado Laico e a liberdade religiosa, as escolhas individuais, as diferentes orientações sexuais, a descriminalização do aborto e da maconha, a desmilitarização da polícia e o melhor treinamento e remuneração para esta profissão tão difícil, o direito de ser ativista e de protestar, o direito de discordar e fazer oposição, a luta por moradia, por saneamento e acesso a água, o fim da guerra falida ao tráfico e o início de ações planejadas e inteligentes contra o crime, a defesa dos direitos humanos, o respeito ao imigrante e a defesa da miscigenação, os incentivos a cultura e a arte, o investimento nos esportes, entre tantas outras bandeiras.

Enfim, seguirei lutando por uma sociedade mais justa e próxima do que temos de melhor no mundo hoje.

Agradeço aos que trocaram ideia e me ajudaram a evoluir mais um pouco nesta etapa da vida.

E mesmo distante, sei que muitos dos meus amigos que despertaram agora ou bem antes para a importância da política em nossas vidas serão os primeiros a levantar a voz ao menor sinal de que o autoritarismo prometido irá mesmo se concretizar. E estarei a distância torcendo e lutando como for possível para que possamos impedir a barbárie de se consolidar no nosso amado país.

Bom voto amanhã para todos e aos indecisos envio abaixo algumas dicas de filmes que podem ajudar na decisão entre hoje e o momento em que você estará sozinho, de frente pra urna, sem os amigos, o chefe ou qualquer pessoa para lhe recriminar por sua escolha.

Lembre-se sempre. Muitas pessoas foram torturadas e outras morreram para que você tivesse esse direito. E mais do que nunca, amanhã o seu voto vale o sangue de muitos.

Grande abraço.

Roberto Siqueira

Dicas de filme:

Batismo de Sangue
O ano em que meus pais saíram de férias
Condor
A lista de Schindler
A vida é bela
O pianista
O menino do pijama listrado
O dia que durou 21 anos
A onda
Lamarca 
Cabra-cega
O grande ditador
Ele está de volta
Manhã cinzenta
Pra frente, Brasil!
Cabra marcado para morrer

Texto publicado em 27 de Outubro de 2018 por Roberto Siqueira

Raul: 5 anos

“Por isso, eu prefiro sorrisos e os presentes que a vida trouxe pra perto de mim”.

Há 5 anos a vida nos trouxe nosso menino lindo, vibrante, determinado e desconcertantemente sincero, ao ponto de nos obrigar a esconder o riso com suas falas diretas. Inteligente e destemido, meu pequeno herói esconde sob a capa de sinceridade poderes mais que especiais, como um coração doce e um jeito de ser apaixonante, que desarma qualquer um.

Obrigado por completar nossa família com seu jeito único, seu sorriso tímido, suas tiradas hilárias e o amor maior que a galáxia.

Parabéns meu pequeno goleiro! O papai te ama muito!

Que Deus abençoe cada passo seu e te ilumine como você ilumina a nossa vida.

Texto publicado em 08 de Julho de 2018 por Roberto Siqueira

MISSÃO: IMPOSSÍVEL 2 (2000)

(Mission: Impossible II)

 

 

Videoteca do Beto #239

Dirigido por John Woo.

Elenco: Tom Cruise, Dougray Scott, Thandie Newton, Ving Rhames, Richard Roxburgh, John Polson, Brendan Gleeson, Rade Serbedzija, William Mapother, Dominic Purcell, Anthony Hopkins, Daniel Roberts e Patrick Marber.

Roteiro: Robert Towne.

Produção: Tom Cruise e Paula Wagner.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quatro anos após o enorme sucesso de “Missão: Impossível”, a franquia de Tom Cruise inspirada na série de TV criada por Bruce Geller estava de volta aos cinemas. Após iniciar a trajetória do agente Ethan Hunt sob a direção do autoral Brian de Palma, desta vez o astro resolveu apostar no chinês John Woo, já estabelecido em Hollywood como um bem sucedido diretor de filmes de ação. Ainda que a característica peculiar e o talento de Woo na direção das sequências de ação sejam notáveis, o resultado é claramente inferior ao seu antecessor, mas eficiente o bastante para garantir a continuidade da franquia e a alegria dos fãs.

Mais uma vez escrito por Robert Towne, desta vez sem a colaboração de David Koepp, “Missão: Impossível 2” nos traz o agente secreto Ethan Hunt (Tom Cruise) sendo resgatado durante suas férias com a missão de recuperar e destruir um vírus letal desenvolvido para impulsionar as vendas do remédio capaz de curá-lo fabricado pela empresa de John C. McCloy (Brendan Gleeson), chamando a atenção do ex-agente Sean Ambrose (Dougray Scott), que enxerga no vírus uma grande oportunidade de fazer fortuna. Hunt é então convocado a montar sua equipe com uma única condição: encontrar e recrutar a ladra profissional Nyah (Thandie Newton), que é também ex-namorada de Sean.

Apostando num relacionamento amoroso que visa complicar o sempre interessante trabalho de investigação dos agentes secretos, o roteiro do experiente Towne ao menos sabe que o que o espectador busca de fato ao assistir “Missão: Impossível 2” são as mirabolantes estratégias da equipe da IMF, os aparatos tecnológicos envolvidos no processo e as coreografadas cenas de ação, investindo pouco tempo no citado caso de Ethan e em conflitos sentimentais. Por outro lado, talvez preocupado com as críticas sobre os furos do primeiro filme, o roteirista insere diversos diálogos expositivos que visam explicar as absurdas tecnologias utilizadas e as estratégias dos espiões, como se quisesse certificar-se de que o espectador está compreendendo a trama.

Ainda assim, sobra espaço suficiente para Woo se preocupar em fazer o que sabe melhor, comandando sequências de tirar o fôlego desde a eficiente abertura que já prende o espectador enquanto narra o roubo do vírus Quimera durante um voo de Sidney a Atlanta. Em seguida, reencontramos Ethan em outra pequena sequência simples e eficiente na qual acompanhamos o agente escalando uma montanha, recheada com uma dose de tensão que é minimizada pelo fato de sabermos que Ethan sobreviverá (mas admirável por sabermos que Tom Cruise dispensou o uso de dublês). Auxiliado pelos montadores Steven Kemper e Christian Wagner, o diretor mantém a narrativa sempre dinâmica, permitindo poucos momentos de relaxamento, como no primeiro encontro amoroso de Ethan e Nyah em Sevilha – e aqui vale notar como a trilha sonora de Hans Zimmer encontra espaço para composições inspiradas na música espanhola, que contrastam com as enérgicas variações baseadas na música-tema criada por Lalo Schifrin.

Abusando do uso da câmera lenta e dos movimentos circulares característicos de sua direção, Woo nos brinda com cenas eletrizantes como a perseguição de carros na montanha na qual Ethan convence Nyah a entrar para o grupo, nos colocando dentro dos carros em alta velocidade em planos que se alternam sem jamais soarem confusos, assim como ocorre na longa perseguição de motos que culmina num coreografado embate braçal entre Ethan e Sean que remete as lutas marciais. Outra sequência carregada de tensão é a que se passa no jóquei, onde o jogo de câmeras e a narração diegética da equipe de Ethan criam uma escala de suspense crescente quase palpável, assim como vale destacar a absurda e divertida entrada no prédio da Biocyte, que encontra espaço até mesmo para homenagear o primeiro filme com a clássica parada de Ethan pendurado pelo cabo há centímetros do chão.

Repare ainda como a bela fotografia de Jeffrey L. Kimball alterna entre as cores quentes na Espanha e na Austrália e as cores frias dentro da empresa farmacêutica, quebrando a regra apenas nos tons de vermelho que dominam a tela instantes antes da chegada de Sean ao local, sinalizando o perigo que Ethan corre antes do tiroteio dentro da Biocyte que termina no ato heroico e inteligente de Nyah. E se normalmente o design de som chama a atenção pelo volume dos tiros e o ronco dos motores nas cenas de ação, aqui sua importância é realçada por contraste na sequência em que Ethan invade o local da negociação entre Sean e McCloy, na qual o agente utiliza as pombas (também características do cinema de Woo) para abafar seus próprios movimentos.

Outra vez criando empatia com o espectador ao nos colocar dentro da equipe de Ethan, nos fazendo sentir-se parte do grupo durante todo o processo de investigação, “Missão: Impossível 2” acerta também ao trazer uma nova gama de aparatos tecnológicos curiosos e as instalações modernas concebidas pelo design de produção de Tom Sanders tanto na casa de Sean quanto na sede da Biocyte. No entanto, o maior destaque vai mesmo para a introdução do absurdamente divertido conceito das máscaras que transformam os espiões em outra pessoa, abrindo um enorme leque de possibilidades, mas infelizmente perdendo a força ao longo da narrativa pelo uso excessivo do recurso, o que quase estraga o melhor momento do filme, num plot twist inteligente conduzido com calma por Woo, que revela a artimanha através de um simples dedo ferido – e que espectadores mais atentos podem antecipar justamente pelo uso abusivo das máscaras até ali.

Os personagens continuam rasos, ainda que a boa química entre Ethan e Nyah, a convincente discussão em Sevilha que de certa forma humaniza ambos e a inédita vulnerabilidade do agente que coloca em risco sua missão consigam ao menos conferir um pouco mais de densidade aos dois, por mais que a forma em que ele a convence a aceitar a missão seja pouco crível. Mais uma vez encarnando Ethan com uma intensidade alucinante, Tom Cruise carrega com facilidade a narrativa, apesar do excesso de sorrisos que chega a motivar uma piada do interessante vilão composto por Dougray Scott, que torna-se ainda mais perigoso justamente por ser um ex-agente e conhecer muito sobre a IMF. Thandie Newton também consegue sucesso ao balancear a sensualidade latente de sua Nyah com a faceta humana já citada e Brendan Gleeson completa os destaques do elenco vivendo o inescrupuloso dono da Biocyte.

Divertido e recheado de ótimas cenas de ação, “Missão: Impossível 2” curiosamente escorrega ao tentar conferir mais humanidade e tridimensionalidade ao seu protagonista, quebrando levemente o ritmo da narrativa e enfraquecendo-o como agente secreto ao inserir uma história de amor que o torna mais vulnerável. Nada que atrapalhe a diversão.

Texto publicado em 30 de Maio de 2018 por Roberto Siqueira

GLADIADOR (2000)

(Gladiator)

 

 

Videoteca do Beto #238

Vencedores do Oscar #2000

Dirigido por Ridley Scott.

Elenco: Russell Crowe, Joaquin Phoenix, Connie Nielsen, Oliver Reed, Richard Harris, Djimon Hounsou, Ralf Moeller, Tommy Flanagan, Spencer Treat Clark, Tomas Arana, Derek Jacobi, David Schofield, John Shrapnel, David Hemmings, Sven-Ole Thorsen, Giannina Facio, Giorgio Cantarini, Omid Djalili, David Bailie e Tony Curran.

Roteiro: David Franzoni, John Logan e William Nicholson.

Produção: David Franzoni, Branko Lustig e Douglas Wick.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quando foi lançado no início dos anos 2000, “Gladiador” rapidamente tornou-se sucesso de público e crítica, tornando-se um legítimo representante dos grandes épicos e coroando sua trajetória na noite do Oscar, quando venceu o prêmio de melhor filme. No entanto, nos anos seguintes o longa rapidamente entrou para o rol dos filmes vencedores do prêmio da Academia que passam de queridinhos a odiados, sendo tratado de forma pejorativa entre muitos cinéfilos. Felizmente, o distanciamento histórico permite constatar que o filme de Ridley Scott não é a obra-prima que se dizia em seu lançamento e muito menos a porcaria que outros afirmaram ser nos anos seguintes. Trata-se de um épico digno, com belíssimos momentos e uma boa dose de cenas impactantes, que merece o reconhecimento dentro daquilo que se propõe a fazer.

Escrito a seis mãos por David Franzoni, John Logan e William Nicholson, o roteiro de “Gladiador” é uma salada histórica repleta de acertos e erros desnecessários, que desenvolve seus personagens de maneira irregular, mas consegue achar um fio condutor no arco dramático de seu protagonista, o general romano Maximus (Russell Crowe) que, após anos sendo o homem de confiança do imperador Marcus Aurelius (Richard Harris), acaba sendo condenado à morte por Commodus (Joaquin Phoenix), o filho do imperador que assassina o pai para herdar o comando do império. Após sobreviver e fugir, Maximus é capturado, vendido como escravo e retorna a Roma para lutar como gladiador.

Se acerta ao mostrar como a política romana era movida por interesses pessoais, traições e o desejo pelo poder, o que nada difere do cenário político atual em muitas partes do planeta, “Gladiador” escorrega ao fazer desnecessárias alterações na história que não agregam a narrativa e nem reforçam o impacto emocional que o longa naturalmente carrega, como ao ocultar o fato de Marcus Aurelius ter preparado o filho para ser seu sucessor em seus últimos anos de vida e, o que é pior, transformar Commodus no assassino do pai, quando na verdade ele de fato exilou e mandou executar alguém de sua família, mas foi a irmã Lucilla (Connie Nielsen), algo que é ignorado pelo roteiro, que ainda traz a irmã discursando sobre o corpo do egocêntrico imperador morto no Coliseu (o que também não ocorreu, já que ele foi estrangulado enquanto tomava banho).

É verdade que Commodus adorava as lutas e chegou mesmo a entrar na arena como gladiador (ele se considerava o novo Hércules), assim como o Imperador sabia da força política do pão e circo como forma de controle da população – e seu pai jamais proibiu os jogos, ao contrário do que é dito no filme. Da mesma forma, o roteiro acerta ao retratar Lucilla articulando politicamente com o Senado para assassinar o irmão, o que motivou sua morte na história real. Nota-se, portanto, que as alterações no roteiro não precisavam existir, já que a história verdadeira é impactante e funcionaria muito bem, sendo perfeitamente possível inserir a trajetória fictícia de Maximus neste contexto.

Igualmente responsável pela versão nada fiel da história que retrata, já que é um diretor que quase sempre teve direito ao “final cut”, Ridley Scott ao menos compensa este deslize com uma direção vigorosa nos momentos mais importantes do longa. Focando muito mais na trajetória de Maximus do que na articulação política em volta dele, Scott e seu montador Pietro Scalia acertam em momentos importantes como as batalhas no Coliseu e imprimem um ritmo interessante que não deixa jamais a narrativa tornar-se cansativa. Além disso, o diretor consegue extrair boas atuações de praticamente todo seu elenco, mesmo diante de personagens desenvolvidos de maneira tão irregular.

Obviamente, o mais completo deles é o protagonista Maximus, interpretado pelo talentoso Russell Crowe, que se impõe compondo um homem sério e que transmite a virilidade exigida tanto de um general quanto de um gladiador, mas que encontra espaço para demonstrar valores caros ao personagem como a lealdade ao imperador que servia e o amor a família que deixou para trás, assim como o desejo de vingança que exala em momentos como quando ele anuncia seu verdadeiro nome para Commodus em pleno Coliseu. O raro momento em que as expressões rígidas de Maximus se quebram quando encontra a família assassinada é também aquele que comprova a capacidade de Crowe, que carrega “Gladiador” com enorme facilidade.

 

Já o Juba de Djimon Hounsou não conta com a mesma atenção do roteiro, surgindo de maneira arbitrária e rapidamente sendo transformado no grande amigo de Maximus, sendo descartado com a mesma facilidade com que aparece na trajetória do protagonista. Ainda assim, consegue criar empatia com ele, demonstrando força e lealdade até o momento final, ainda que, diferentemente da forma como é mostrado no longa, os gladiadores não faziam amizade justamente por saber que poderiam se enfrentar numa batalha em que apenas um sobreviveria.

Commodus, por sua vez, faz a completa transição do inicialmente cansado e até mesmo frágil Imperador sugado pela politicagem ao redor para o sociopata cruel e desprovido de traquejo político que não hesita em usar o sobrinho como ferramenta para ameaçar a irmã, pela qual era apaixonado. Dissimulado e exagerando nas lamentações que enfraquecem o Imperador, Joaquin Phoenix se recupera no ato final, transmitindo a insanidade de um homem que era tão egocêntrico que chegou a mudar o nome de Roma para Commodiana – algo que “Gladiador” também oculta.

Extremamente política, a Lucilla de Connie Nielsen sabe que a loucura do irmão jamais lhe permitiria conquistar o respeito do Senado e enxerga na morte dele a chance de assumir o comando do império, enquanto o Proximo de Oliver Reed é um personagem confuso, que hora parece motivado apenas pelo lucro que sua atividade lhe traz e, em outros momentos, assume um código moral incoerente com sua postura até então. Finalmente, Richard Harris completa o elenco principal vivendo um Marcus Aurelius complexo, que transmite sabedoria em seus poucos minutos em cena.

Ao contrário da irregularidade de seus personagens, a parte técnica de “Gladiador” é extremamente coesa em sua competência, a começar pela direção de fotografia de John Mathieson que realça os tons áridos da província, transmitindo a angústia do protagonista escravizado que nem mesmo na imponente Roma se dissipa, com seus tons dourados que reforçam o poderio econômico da capital do império, concluindo seu coerente trabalho no sombrio ato final que realça o sentimento de Commodus durante a tensa conversa com o sobrinho na qual ele descobre a traição da irmã. Da mesma forma, o design de produção de Arthur Max também merece destaque pela forma detalhista em que trabalha desde pequenos objetos até a decoração das imponentes construções, assim como os impecáveis figurinos de Janty Yates que complementam o ótimo trabalho de ambientação.

E enquanto a solene trilha sonora de Lisa Gerrard e Hans Zimmer cria composições que, além de belas e coerentes com a época em que se passa a narrativa, permanecem na memória do espectador por um longo período, o design de som transforma os gritos dos romanos ainda mais impactantes dentro da arena, assim como nos permite distinguir o barulho das armas, dos cavalos e o eco dos gritos na batalha que abre o longa. Por outro lado, a batalha em si não impressiona e empalidece diante de tantas outras marcantes, como a de Stirling no quase contemporâneo “Coração Valente”, lançado 5 anos antes de “Gladiador”, talvez por que Scott abuse dos planos fechados e crie uma confusão mental no espectador, que não compreende muito bem o espaço geográfico onde ocorre a cena, além da falta de planos gerais que impede que tenhamos noção da magnitude do conflito.

Planos gerais que quando surgem nos permitem contemplar a esplendorosa Roma recriada com efeitos visuais impressionantes, nos levando de volta aos anos de glória do império. Dentre as inúmeras construções grandiosas da imponente capital, é claro que o Coliseu é a grande estrela (ainda hoje, diga-se) e o trabalho de recriar a gigantesca arena é digno de aplausos. Ciente disso, na primeira vez que o adentramos, Ridley Scott nos coloca num plano baixo que acompanha os gladiadores e engrandece ainda mais o local, reforçando o impacto dele sobre os personagens e o espectador. Aliás, a primeira batalha no Coliseu é muito interessante, especialmente pelas escolhas do diretor, que desta vez acerta ao abusar de planos gerais que realçam a estratégia militar adotada por Maximus e seguida pelos companheiros. Além disso, mais uma vez o design de som colabora para nos jogar dentro da arena e tornar tudo aquilo ainda mais empolgante.

Trazendo ainda momentos emocionantes como o citado retorno de Maximus para encontrar a família cruelmente assassinada, a bela cena do beijo entre ele e Lucilla e a tocante sequência final em que deixa este mundo e reencontra sua família em outro plano qualquer, não há como negar a força deste épico grandioso, mesmo com erros históricos facilmente evitáveis. Talvez se você for frio ou cruel como Commodus. 

Texto publicado em 25 de Maio de 2018 por Roberto Siqueira

Videoteca do Beto: novas aquisições

Olá pessoal,

Abaixo as últimas novidades em DVD:

O Máskara (1994)

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) (2014)

Creed: Nascido para Lutar (2015)

Hotel Transilvânia 2 (2015)

Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros (2015)

 

E em Blu-ray:

Boyhood: Da Infância à Juventude (2014)

Mad Max: Estrada da Fúria (2015)

 

Um abraço.

Texto publicado em 19 de Maio de 2018 por Roberto Siqueira

Ausência e retorno

Olá pessoal,

Como todos devem ter notado, estou ausente do blog desde Janeiro, mas ao contrário de outros momentos em que não consegui encontrar tempo para escrever, desta vez a razão foi uma grave lesão que sofri e que me afastou de diversas atividades por um longo período.

Voltei a assistir filmes para escrever no último domingo e espero conseguir divulgar a próxima crítica em breve.

Agradeço a compreensão.

Um abraço.

Texto publicado em 14 de Maio de 2018 por Roberto Siqueira

Balanço de 2017

Em termos de cinema, o ano de 2017 praticamente inexistiu até meados de Agosto para mim. Não apenas praticamente não divulguei críticas, como também assisti bem poucos filmes. Os motivos são diversos. Muitas viagens a trabalho, diversas preocupações que me tiraram o foco no cinema e a falta de motivação que me assombrou por boa parte do ano para escrever por aqui.

No entanto, logo após a maravilhosa viagem que fiz com a família e amigos nas férias, recarreguei as baterias e voltei motivado a retomar minha paixão pela sétima arte. Consegui assistir mais filmes, especialmente nos finais de semana, e voltei a frequentar o cinema. Aliás, 2017 marcou a realização de um sonho, graças aos clássicos Cinemark.

Em 31 de Outubro, tive o imenso prazer de assistir pela primeira vez na telona ao filme mais importante da minha vida, ao lado da minha amada esposa. E que experiência inesquecível foi assistir “Coração Valente”, com qualidade de som e imagem impecáveis e toda a imersão que somente o escuro do cinema é capaz de proporcionar. Pude uma vez mais me envolver, emocionar e viver junto com William Wallace cada etapa de sua épica trajetória. Confesso que não pude conter as lágrimas em diversos instantes, não mais pelo impacto dramático, já que assisti ao longa inúmeras vezes na vida, mas justamente por poder assistir tudo aquilo onde sempre sonhei e pelas lembranças que em muitos momentos vinham em minha memória. A fase difícil da vida que superei graças aquela emocionante narrativa, tudo de bom que vivi desde então, a família que construí após vencer a depressão, etc. Em resumo, um dia mágico que jamais esquecerei.

O ano ainda reservou momentos marcantes como a primeira vez que meus filhos assistiram clássicos como “King Kong” e o divertido “O Máskara”, além de marcar a volta de um hábito que adoro, que é assistir séries com minha esposa.

Novamente, anseio por um ano melhor não apenas no C&D, mas principalmente no Brasil e no mundo, onde a onda de retrocesso parece não ter fim. Ao menos, aparentemente o velho continente segue sendo o foco de resistência ao avanço de conservadores extremistas, como atestaram eleições na França e na Holanda, o que é um bom sinal. Tomara que o Brasil também volte a trilhar o caminho da evolução e deixe de lado o falso moralismo e o extremismo que vêm ganhando força por aqui – e este ano será crucial neste processo.

Se 2017 foi desastroso para o Cinema & Debate, só me resta torcer que mais uma vez o amor da minha família, o apoio dos amigos e o carinho de vocês leitores me motivem a retomar o ritmo que este blog que tanto amo merece. Aliás, continuo surpreso com o bom número de acessos e comentários mesmo com minha ausência. Espero poder voltar a escrever com frequência e justificar o carinho dos leitores.

Vamos então aos números oficiais do Cinema & Debate em 2017:

– 5 críticas divulgadas na Videoteca do Beto (pffff).

Segundo dados do WordPress, os 5 textos mais acessados em 2017 foram:

            5° lugar = “As duas faces de um crime

            4° lugar = “2001 – Uma Odisséia no Espaço

            3° lugar = “Um Estranho no Ninho

            2° lugar = “Um Sonho de Liberdade

            1° lugar = “A Missão

Ou seja, nenhuma novidade no ranking – e nem deveria esperar outra coisa dada a inatividade do blog.

E agora, a lista dos 104 filmes assistidos em 2017 com a cotação no tradicional formado das estrelinhas.

Um grande abraço, obrigado e que 2018 seja um ano cinematográfico para todos nós!

Texto publicado em 03 de Janeiro de 2018 por Roberto Siqueira