Feliz Natal!

Vídeo publicado em 24 de Dezembro de 2013 por Roberto Siqueira

MONTY PYTHON – O SENTIDO DA VIDA (1983)

(The Meaning of Life)

5 Estrelas 

Filmes em Geral #120

Dirigido por Terry Jones e Terry Gilliam.

Elenco: Graham Chapman, John Cleese, Eric Idle, Terry Gilliam, Michael Palin e Terry Jones.

Roteiro: Graham Chapman, John Cleese, Terry Gilliam, Eric Idle e Terry Jones.

Produção: John Goldstone.

Monty Python - O Sentido da Vida[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após realizarem dois dos mais engraçados e influentes filmes de comédia da história, os britânicos do Monty Python decidiram tentar o impossível e, à sua maneira muito peculiar, explicar o sentido da vida, misturando muito bom humor com críticas ácidas a diversos setores da sociedade britânica. Contando com o talento e a criatividade ímpar de seus integrantes, o grupo realizou mais um bom trabalho, ainda que as gargalhadas conquistadas com tanta frequência nos longas anteriores não surjam com a mesma intensidade aqui. Por outro lado, desta vez o espectador deixará o filme não apenas com um largo sorriso no rosto, mas também com interessantes reflexões.

Dividindo a narrativa em vários capítulos que funcionam como esquetes, o roteiro escrito por cinco dos integrantes clássicos do Monty Python nos leva por várias fases da vida, começando no nascimento e obviamente terminando na morte, enquanto tenta neste processo descobrir algum sentido para tudo que vivemos. Assim, se por um lado a quebra em diversos capítulos pode prejudicar um pouco o ritmo da narrativa, por outro o espectador sabe que se por acaso algum segmento não lhe agradar, o próximo pode trazê-lo de volta ao filme, o que mantém a nossa expectativa constantemente.

Menos engraçado e mais cerebral que os longas anteriores, “O Sentido da Vida” dispara críticas ácidas contra a falta de humanidade de alguns partos e hospitais contemporâneos, num esquete rápido e eficiente. Critica também a cegueira imposta pela igreja na sociedade, desta vez através de uma sequência hilária que começa na casa de um casal católico lotada de crianças e termina na sensacional música “Todo esperma é sagrado”, entoada pelas crianças como se fosse um hino. Há também uma ácida crítica a imbecilidade dos conflitos bélicos, primeiro num segmento divertido em que os soldados presenteiam seu comandante e depois durante a Guerra Zulu, duas sátiras que apostam no exagero para expor os absurdos da guerra.

Mais uma vez comprovando ser o mais engraçado dentre todo o elenco, Michael Palin nos diverte quase sempre que entra em cena, seja como o pai católico ou como o divertido Sargento do exército. Por sua vez, Graham Chapman, John Cleese, Eric Idle, Terry Gilliam e Terry Jones também se divertem em diversos papeis, abusando do humor sutil e inteligente tão característico dos britânicos em atuações bastante niveladas e consistentes.

Todo esperma é sagradoDivertido Sargento do exércitoAnimações datadasTerry Jones e Terry Gilliam, aliás, também mantém características marcantes do grupo na condução da narrativa, quebrando convenções e abusando do visual propositalmente “tosco” que marca a filmografia do Monty Python, seja através das animações datadas, seja através de sequências que escancaram o baixo orçamento do longa. Quase anárquicos, os diretores não hesitam, por exemplo, em utilizar o curta-metragem que abre o filme para interromper a narrativa em determinado instante, pedindo desculpas pela interrupção minutos depois, numa escolha criativa e divertida.

O curta que abre “O Sentido da Vida”, aliás, também destila seu veneno, desta vez utilizando a metáfora para criticar o feroz sistema financeiro e suas selvagens especulações através da revolta dos funcionários da Crimson Permanent Assurance, que navegam até Wall Street e invadem os prédios lotados de Yuppies. A crítica à ganância do capitalismo não poderia passar em branco na filmografia do Monty Python.

Em “O Sentido da Vida”, os diretores se mostram inclusive mais inventivos visualmente, como no plano em que o casal de protestantes fala dos católicos (num diálogo hilário, aliás) enquanto dezenas de crianças saem em fila indiana da casa ao fundo ou na engraçada aula de educação sexual, em que a composição do plano nos permite ver a reação dos alunos enquanto o professor ensina na prática como ter uma relação sexual. Finalmente, temos até mesmo um interessante plano-sequência que nos permite acompanhar o garçom Gaston enquanto este fala sobre as coisas importantes em sua vida, num instante, aliás, em que outra convenção narrativa é deixada de lado, já que o personagem fala diretamente com a câmera e quebra a quarta parede.

Navegam até Wall StreetEngraçada aula de educação sexualSistema de doação de órgãosEscorregando numa piada escatológica totalmente sem graça num restaurante, “O Sentido da Vida” provoca boas reflexões na excelente sequência musical que fala sobre o tamanho do universo e a nossa insignificância diante dele, logo após outra cena muito engraçada que aborda o sistema de doação de órgãos. Divertida também é a aparição do Senhor Morte, num esquete que brinca com a figura icônica normalmente associada à morte ao mesmo tempo em que nos leva ao encerramento da narrativa.

Após tudo que vimos, a pergunta é: temos a resposta para o sentido da vida? Não, não temos, mas talvez a vida ganhe mais sentido quando buscamos pensar nela de maneira bem humorada e criativa. O bom humor é uma excelente válvula para expor os nossos problemas e nos fazer refletir sobre eles. É isto que o Monty Python sempre buscou fazer.

Monty Python - O Sentido da Vida foto 2Texto publicado em 06 de Dezembro de 2013 por Roberto Siqueira

A Vida de Brian

Continuando a semana Monty Python, informo que transformei em crítica os comentários divulgados anteriormente sobre “A Vida de Brian”. Para ler a crítica, basta clicar aqui.

Um abraço.

Texto publicado em 04 de Dezembro de 2013 por Roberto Siqueira

Em Busca do Cálice Sagrado

Pra inaugurar a semana Monty Python, informo que transformei em crítica os comentários divulgados anteriormente sobre “Em Busca do Cálice Sagrado”. Para ler a crítica, basta clicar aqui.

Um abraço.

Texto publicado em 02 de Dezembro de 2013 por Roberto Siqueira

Semana Monty Python

Olá pessoal,

Nos próximos dias, prestarei minha pequena homenagem ao Monty Python e divulgarei críticas dos três filmes consagrados do lendário grupo britânico. Dois deles já tinham recebido comentários na aposentada categoria “Filmes Comentados”, mas agora terão críticas divulgadas no formato tradicional.

Aproveito também para lançar a página “Monty Python”, que você pode acessar na página inicial (lado direito da tela).

Espero que gostem!

Um grande abraço.

Texto publicado em 01 de Dezembro de 2013 por Roberto Siqueira

OSCAR 1998: TITANIC X LOS ANGELES – CIDADE PROIBIDA

Seguindo minha comparação entre o vencedor do Oscar de Melhor filme e aquele que eu considerei como a melhor produção do ano, chega à vez do ano de 1997 (Premiação em 1998). Qualquer análise fria a respeito da safra de 1997 perde completamente o sentido sem a devida contextualização. Revendo hoje, tantos anos depois, fica mais fácil apontar “Los Angeles – Cidade Proibida” e “Contato” como filmes superiores ao vencedor do Oscar. Mas o fato é que “Titanic” foi um sucesso tão avassalador de crítica e público que era praticamente impossível não vencer tudo naquele ano. Ano, aliás, que trouxe ainda excelentes filmes como “Boogie Nights”, “Jackie Brown”, “Cop Land” e “Gênio Indomável”, além dos lindíssimos “A Vida é Bela” e “Central do Brasil”, que travaram uma batalha a parte pelo prêmio de filme estrangeiro (adoro “Central do Brasil”, mas considerei justa a escolha da obra-prima italiana). Uma ótima safra, sem dúvida.

Porque “Titanic” é melhor?

Como um filme que classifiquei como “obra-prima” pode ser pior do que um filme que não recebeu este selo? Resposta: não pode. No entanto, eu seria hipócrita demais ao dizer hoje, mais de uma década depois, que votaria em “Los Angeles” naquele Oscar. Ainda que compreenda as qualidades narrativas superiores do filme de Curtis Hanson, não posso negar que o fenômeno “Titanic” foi algo raro, destes momentos que ficam marcados na história do cinema. Assim, meu voto seria para o filme de James Cameron, por mais que “Los Angeles” seja de fato um filme superior. Mas isto não chega a ser um pecado, não é mesmo? “Titanic” continua sendo um belíssimo filme, tecnicamente perfeito e dramaticamente envolvente, apesar dos clichês. E se o Oscar é resultado de marketing e política, sinto-me no direito de ao menos uma vez votar com o coração e não com a razão. Se você discorda, tudo bem. Eu também adoro “Los Angeles”. Ah, e ainda tem “Contato” hein? Que ano!

E pra você, qual o melhor filme de 1997 e por quê?

Um abraço e bom debate.

TitanicLos Angeles - Cidade ProibidaTexto publicado em 27 de Novembro de 2013 por Roberto Siqueira

VIDAS EM JOGO (1997)

(The Game)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #180

Dirigido por David Fincher.

Elenco: Michael Douglas, Sean Penn, Deborah Kara Unger, James Rebhorn, Peter Donat, Carroll Baker, Anna Katarina, Armin Mueller-Stahl e Spike Jonze.

Roteiro: John D. Brancato e Michael Ferris.

Produção: Ceán Chaffin e Steve Golin.

Vidas em Jogo[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Somente um diretor talentoso como David Fincher pode transformar a implausível premissa deste “Vidas em Jogo” num thriller tão interessante. Não concorda? Pois então pare e pense por alguns minutos na complexidade do jogo criado pela empresa CRS e nas inúmeras possibilidades de rumos que a história poderia tomar dependendo das ações do “alvo” e você perceberá que nem o melhor planejamento do mundo poderia evitar colocar em risco toda a empreitada. Mudemos a pergunta então: pode um roteiro com um potencial tão grande para o fracasso se transformar num filme interessante? Nas mãos de um grande diretor a resposta sempre será: “sim”.

Escrito por John D. Brancato e Michael Ferris, “Vidas em Jogo” nos apresenta ao milionário Nicholas Van Orton (Michael Douglas), um acionista bem sucedido que ganha um inusitado presente de aniversário de seu irmão Conrad (Sean Penn): um cartão com os dados de contato de uma empresa especializada em entretenimento. Desconfiado, ele comparece ao local, preenche todos os formulários e realiza os testes físicos e psíquicos, mas sua inscrição é rejeitada. No entanto, após esbarrar com a garçonete Christine (Deborah Kara Unger) em seu restaurante favorito, coisas estranhas começam a acontecer e ele repentinamente percebe que está sendo envolvido em algo muito maior.

Bastam poucos minutos para que o espectador tenha acesso a algumas informações essenciais a respeito de Nicholas Van Orton. Seu escritório milimetricamente planejado, sua imponente casa (design de produção de Jeffrey Beecroft) e suas roupas finas e elegantes (figurinos de Michael Kaplan) evidenciam que estamos diante de alguém muito rico, enquanto as lembranças de sua infância e uma rápida conversa com a ex-esposa escancaram sua fragilidade emocional. Assim, não demora muito para que o vulnerável protagonista dispa-se da roupa de homem bem sucedido e apresente sua faceta frágil e humana, conquistando a empatia da plateia tão fundamental para o sucesso da narrativa.

Vivendo uma versão menos gananciosa e mais contida de seu personagem mais famoso no cinema, Michael Douglas novamente encarna um acionista bem sucedido, com a diferença de que aqui seu Nicholas Van Orton (ou Nick) é também um personagem claramente afetado por um forte trauma da infância: a perda do pai. Falando quase sempre num tom de voz baixo, Nick lentamente vai perdendo o controle da situação e a oscilação em seu tom de voz indica isto com precisão. Conforme a narrativa avança, o acionista se transforma numa pessoa constantemente tensa, que deixa sua zona de conforto para enfrentar situações inusitadas e extremamente perigosas que o levam ao limite extremo – e o ator demonstra tudo isto muito bem em seu semblante cada vez mais pesado. Irmãos muito diferentes, Nick preza pela discrição e pelo bom senso, enquanto o bon vivant Conrad não hesita em chamar a atenção de um restaurante lotado apenas porque deseja fumar. Mesmo surgindo poucas vezes em cena, Sean Penn tem participação fundamental em “Vidas em Jogo”, soando convincente especialmente quando seu Conrad mostra-se totalmente desesperado numa conversa no carro do irmão, enganando não apenas o protagonista como também o próprio espectador.

Acionista bem sucedidoSemblante cada vez mais pesadoDesesperadoAinda mais importante é a competente participação de Deborah Kara Unger como Christine, a misteriosa garçonete demitida que acompanha boa parte da trajetória do protagonista e que, em diversos momentos, direciona a linha de raciocínio dele e da plateia. Soando simultaneamente convincente e misteriosa, Unger se sai muito bem num papel difícil que poderia arruinar o projeto nas mãos de alguém menos talentosa, já que a dúvida que sua personagem gera no espectador é fundamental para o sucesso da narrativa. Assim, quando ela diz rispidamente para Nick acordar e perceber que foi pego num golpe, nós acreditamos nela – e o chá seguido pela notícia das contas zeradas nos faz cair de vez na armadilha preparada pela CRS. Encarnando um funcionário da CRS de maneira convincente, James Rebhorn é outro que mantém a aura de mistério que ronda a narrativa com precisão.

O engenhoso roteiro envolve praticamente todos os personagens numa aura misteriosa que torna tudo muito suspeito, chegando a pecar pelo excesso de planejamento, o que não prejudica totalmente a qualidade do filme, mas torna alguns momentos bastante implausíveis, como quando um taxi é atirado no rio com o protagonista dentro. E se ele não se lembrasse da maçaneta ou sofresse uma grave lesão na queda? Existiam mergulhadores de plantão, mas valeria o risco? Momentos como este existem em profusão em “Vidas em Jogo”, o que pode irritar espectadores mais céticos. Se pensarmos friamente, seria necessário envolver praticamente a cidade inteira para que o tal jogo funcionasse corretamente; e, o que é ainda mais complicado, seria necessário antever praticamente todos os passos de Nick e preparar-se para eventuais mudanças de rota. Como evitar o desastre então? A resposta está na maneira como a narrativa é conduzida.

Convincente e misteriosaAura de mistérioTaxi é atirado no rioEmpregando seus costumeiros planos simétricos e movimentos elegantes de câmera, David Fincher parece bem mais contido e discreto na maior parte do tempo, o que não impede que ele altere o ritmo drasticamente quando necessário, como na empolgante fuga de Nick e Christine da CRS em que um cachorro quase os alcança e nas eletrizantes perseguições noturnas pelas ruas da cidade. Obviamente, o visual obscuro obtido pela fotografia de Harris Savides colabora bastante para ampliar a tensão nestes instantes. Utilizando imagens desgastadas de arquivo para revelar as trágicas lembranças da infância de Nick, Savides prioriza cores sóbrias durante a maior parte do tempo, destacando-se pelo excelente uso das sombras nas predominantes cenas noturnas para realçar a aura de mistério da narrativa, reforçada ainda pela trilha sonora dissonante de Howard Shore.

Empolgante fuga de Nick e ChristineVisual obscuroTrágicas lembrançasContando ainda com a montagem dinâmica de James Haygood para conferir um ritmo crescente que ilustra a mente cada vez mais conturbada do protagonista, Fincher conduz a narrativa com destreza, construindo um suspense eficiente através de escolhas inteligentes. Observe, por exemplo, como o sorriso discreto de um dos homens no bar indica que Nick havia sido fisgado pelo jogo, funcionando também como uma discreta dica para o espectador. A conversa com o apresentador do telejornal logo em seguida confirma que ele já estava envolvido no jogo – e neste instante, o espectador também já está completamente envolvido pela narrativa. A estratégia é clara. Fincher nos coloca sempre na mesma posição do protagonista. O tempo inteiro, nós temos acesso às mesmas informações que ele e compartilhamos das mesmas dúvidas e angústias do personagem, numa escolha, aliás, que não é comum em suspenses. Normalmente, o suspense é potencializado quando sabemos algo que o personagem não sabe, mas neste caso, nós não temos nenhuma informação além das que Nick já tem. Assim, somos forçados a montar aquele quebra cabeça sob a perspectiva dele, o que é essencial para que “Vidas em Jogo” funcione.

Após cairmos em inúmeras armadilhas e nos envolvermos completamente com o drama de Nick, somos levados a chocante sequência final no prédio da CRS, na qual a tragédia completa parece se configurar, mas uma reviravolta interessante revela o grande truque por trás das cortinas e garante o final feliz. O problema é que este final, apesar de impactante, soa um tanto implausível quando passamos a pensar mais a respeito. Ainda assim, graças ao ótimo trabalho de Fincher e do seu elenco, o longa funciona bem.

Sorriso discretoConversa com o apresentador do telejornalChocante sequência finalConfirmando a teoria de que um bom diretor pode salvar um roteiro por mais falhas que este tenha, David Fincher fez deste “Vidas em Jogo” um thriller empolgante, capaz de manter o espectador tenso na maior parte do tempo, ainda que, quando repensamos a narrativa de uma maneira mais lógica, esta tensão possa se transformar em questionamentos e gerar certa frustração.

Vidas em Jogo foto 2Texto publicado em 25 de Novembro de 2013 por Roberto Siqueira

TITANIC (1997)

(Titanic)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #179

Vencedores do Oscar #1997

Dirigido por James Cameron.

Elenco: Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, Billy Zane, Kathy Bates, Frances Fisher, Gloria Stuart, Bill Paxton, Bernard Hill, David Warner, Victor Garber, Jonathan Hyde, Suzy Amis, Danny Nucci e Ioan Gruffudd.

Roteiro: James Cameron.

Produção: James Cameron e Jon Landau.

Titanic[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Não é difícil entender as razões do sucesso avassalador de “Titanic”, superprodução grandiosa de James Cameron que alcançou números impressionantes nas bilheterias e ainda igualou o recorde de “Ben-Hur” ao levar 11 estatuetas do Oscar. Também não é tão complicado entender porque, ao longo do tempo, o filme ganhou a antipatia de parte do público e até mesmo de alguns cinéfilos, tamanha foi a sua exposição ao longo dos anos (pense, por exemplo, quantas vezes na sua vida você já ouviu tocar sua famosa música tema em algum lugar). Mas o fato é que, mesmo com seus pecadilhos aqui e ali, o longa estrelado pelos então jovens astros Leonardo DiCaprio e Kate Winslet é mesmo um grande filme, destes que merecem serem lembrados eternamente e, não à toa, conquistou seu lugar cativo na história do cinema.

Escrito pelo próprio Cameron, “Titanic” narra a história de amor entre Jack (Leonardo DiCaprio), um jovem quase nômade que ganha sua passagem numa partida de pôquer, e Rose (Kate Winslet na juventude e Gloria Stuart na velhice), a noiva do rico Cal (Billy Zane) que viaja ao lado de sua mãe (Frances Fisher) em busca de uma nova e promissora vida. Mas o destino de todos eles e dos mais de dois mil passageiros do transatlântico muda completa e tragicamente quando o imponente navio se choca com um iceberg.

Usando a busca por um artefato raro no que restou do Titanic no fundo do mar como ponto de partida, o roteiro de James Cameron nos traz o típico romance já visto inúmeras vezes anteriormente (“A Dama e o Vagabundo”, por exemplo) entre a menina rica cansada da vida aborrecida que leva e o menino pobre e cheio de vida. No entanto, Cameron sabe muito bem que no seu cinema (e no cinema de maneira geral), a forma é muito mais importante do que o conteúdo. Assim, sua preocupação não está apenas na história que será contada, mas na maneira pela qual aquela história será contada. Não que o diretor/roteirista não se preocupe com a estruturação de sua narrativa. Observe, por exemplo, como ele insere dicas que serão essenciais no clímax de “Titanic”, como a explicação técnica do naufrágio que permite ao espectador antecipar como o navio afundará (sabemos, por exemplo, que ele se partirá ao meio, o que aumenta a tensão no ato final). Repare também como a primeira conversa entre Jack e Rose faz questão de mencionar a temperatura da água, o que também será importante após o naufrágio, assim como o roteiro também tem o cuidado de mencionar a famosa frase “Nem Deus afunda o Titanic”, dando às plateias mais jovens a dimensão do tamanho daquela tragédia para a época.

Busca por um artefato raroExplicação técnica do naufrágioPrimeira conversa entre Jack e RoseTransitando com elegância do presente para o passado através dos escombros do navio que se transformam no imponente transatlântico e fazendo o caminho inverso através do olho de Winslet que de repente se transforma no de Stuart, a montagem de Conrad Buff, Richard A. Harris e Cameron é essencial para que o longa não se torne enfadonho ao longo de suas três horas de projeção (egocêntrico, Cameron faz questão de colocar seu nome, mas todo bom diretor participa do processo de montagem dos filmes). Assim, Cameron e seus montadores investem um bom tempo na construção lenta daquele romance, sedimentando a empatia pelo casal na plateia e permitindo que a narrativa respire, o que é crucial para que o espectador sinta toda a escalada dramática da tragédia com intensidade durante o segundo e terceiro atos. A partir do momento em que o espectador realmente se identifica e se importa com Rose e Jack, a tragédia também tocará a plateia com a mesma intensidade e, desde então, o sucesso de “Titanic” está garantido.

Imponente transatlânticoOlho de WinsletOlho de StuartÉ claro que existem os excessos. O escorregão dela na proa do navio, por exemplo, é desnecessário, assim como toda a sequência em que Cal persegue o casal, que culmina na cena em que eles tentam salvar um garoto e quase morrem afogados. Este melodrama todo surge também quando Jack é incriminado por roubo, o que também soa desnecessário, mas por outro lado cria o cenário para a tensa busca de Rose por ele, nos permitindo passear pelo navio enquanto ele afunda e ver alguns detalhes do processo internamente. Assim, aqueles longos corredores brancos se tornam aterrorizantes quando as luzes começam a falhar e a água começa a subir, chegando a níveis insuportáveis de tensão graças também ao design de som que cria com precisão os barulhos daquele gigante que se desfaz e à trilha sonora que emula a batida acelerada de um coração neste instante.

Cal persegue o casalLongos corredores brancosÁgua começa a subirO espetacular design de som, aliás, nos permite notar desde os pequenos movimentos nos talheres durante um jantar até o barulhento impacto da água durante o naufrágio, sendo essencial na imersão do espectador naquele ambiente. Enquanto isto, o ótimo James Horner cria uma trilha sonora grandiosa, alcançando a escala épica exigida pela história sem jamais deixar de lado o romantismo que emana da narrativa, inserindo trechos da melodia da música tema “My heart will go on” (imortalizada na voz de Celine Dion) e encontrando espaço ainda para criar variações interessantes que incluem elementos tipicamente irlandeses nas sequências que se passam na terceira classe e composições agitadas que embalam os momentos de tensão.

O trabalho técnico formidável liderado pelo perfeccionista Cameron segue com a reconstituição precisa das roupas usadas na época (figurinos de Deborah L. Scott), que servem também para diferenciar as classes sociais que embarcaram no navio, além é claro dos objetos utilizados na decoração dos ambientes e até mesmo das louças e talheres utilizados nos luxuosos jantares (design de produção de Peter Lamont). Assim, “Titanic” mostra-se um verdadeiro deleite para os olhos, um esplendor visual que ganha contornos épicos através dos planos belíssimos do transatlântico navegando pelo oceano tanto durante os dias ensolarados como sob a luz das estrelas ao anoitecer.

Reconstituição precisa das roupasDecoração dos ambientesTalheres utilizados nos luxuosos jantaresEssencial na criação deste visual marcante, a fotografia de Russell Carpenter prioriza tons azulados em diversos momentos do presente, transmitindo a melancolia que a história evoca e a nostalgia de Rose, transitando com precisão para o visual vivo e iluminado durante o início da viagem que realça não apenas o brilho e o luxo do navio, como também a empolgação daquele jovem casal que se conhece. Já no ato final, os tons mais escuros e o predomínio das cenas noturnas ajudam a criar na plateia a mesma sensação de angústia dos personagens.

Tons azuladosVisual vivo e iluminadoTons mais escurosPersonagens que são interpretados por um elenco heterogêneo, encabeçado por dois nomes que despontavam na época. Ainda bem jovem, mas já dono de grande talento (conforme atestam “Gilbert Grape” e “Diário de um Adolescente”), Leonardo DiCaprio vive Jack com a intensidade e a empolgação que se espera de um jovem que consegue embarcar naquele luxuoso navio, conseguindo ainda uma ótima química com Kate Winslet, o que é essencial para o sucesso do romance. Winslet, por sua vez, confere carisma e vivacidade a jovem Rose, mostrando-se inteligente para compreender o ambiente em que está inserida e, ao mesmo tempo, passional o bastante para se atirar de cabeça num verdadeiro romance impossível. São deles alguns dos momentos mais icônicos do longa, como o lindo primeiro beijo ao pôr-do-sol na proa do navio (“Estou voando Jack”, diz ela) e o famoso grito “Eu sou o rei do mundo!”. A coleção de lindas cenas continua quando Jack desenha Rose nua e especialmente na clássica cena em que a mão dela indica o sexo e o romance alcança seu clímax, segundos antes do impacto no Iceberg que mudaria aquela história para sempre.

Lindo primeiro beijoJack desenha Rose nuaMão dela indica o sexoRose seguiria sua vida, constituiria família e viveria muito ainda, até que finalmente encontrasse coragem para embarcar novamente no Titanic. Aos 86 anos, Gloria Stuart tem uma atuação sensível e emocionante, transmitindo o quanto aquelas lembranças eram importantes para Rose através de seu olhar, participando ainda da desnecessária narração que mastiga alguns acontecimentos para o público. Ainda entre os destaques, Kathy Bates diverte-se na pele da espirituosa e divertida Molly, ao passo que Bill Paxton está apenas discreto como o caçador de tesouros Brock Lovett.

Atuação sensível e emocionanteEspirituosa e divertida MollyCaçador de tesouros Brock LovettInfelizmente, “Titanic” também tem sua porção de personagens unidimensionais e odiáveis, como o canalha Cal de Billy Zane que, além de atormentar a vida do casal principal, ainda é capaz de usar uma criança abandonada a seu favor no ato final. Já Frances Fisher encarna a Sra. Ruth de maneira tão gélida e impassível que por vezes chegamos a duvidar que ela seja mesmo a mãe de Rose, salvando-se apenas por demonstrar preocupação genuína ao ver a filha voltar para o transatlântico enquanto este afunda e pelo pequeno momento de humanidade quando tenta justificar sua maneira de agir e seu interesse financeiro acima da própria vontade (“Somos mulheres, nossas escolhas nunca foram fáceis”). E finalmente, não posso deixar de mencionar alguns dos oficiais que agem de maneira irracional, segurando a terceira classe já durante o naufrágio e não utilizando toda a capacidade dos botes, chegando ao ápice quando um deles atira num dos amigos de Jack e suicida-se depois, o que ao menos demonstra remorso.

Canalha CalGélida e impassívelAtira num dos amigos de JackE por falar em ápice, chegamos então aos momentos que fizeram de “Titanic” um longa tão impactante. Conduzida de maneira vigorosa por Cameron, a cena do acidente é tensa o bastante para envolver o espectador, com a câmera trêmula do diretor nos colocando dentro do ambiente e criando uma sensação de urgência sem que, por isso, deixemos de ter a exata noção de tudo que acontece na tela. O desespero e o egoísmo durante o naufrágio e o verdadeiro comportamento de manada que toma conta das pessoas após o acidente simboliza o ser humano em seu estado mais cru, em momentos captados com precisão pelos closes e planos fechados de Cameron que buscam valorizar as expressões de medo e angústia das pessoas.

Cena do acidenteComportamento de manadaExpressões de medo e angústiaMas o diretor sabe ser sutil também. Em certo momento do naufrágio, um plano geral mostra os fogos de artifício estourando no centro da tela com o navio pequeno ao fundo, dando a exata noção da insignificância daquele transatlântico diante da magnitude do oceano. E se a banda tocando até o último instante é o mais puro símbolo do melodrama que permeia “Titanic”, a linda sequência embalada por uma das músicas da banda exemplifica muito bem como Cameron sabe utilizar isto a seu favor, quando vemos um casal de idosos esperando a morte e uma mãe contando histórias para os filhos enquanto a água invade aqueles compartimentos. Da mesma forma, o tocante momento em que o capitão Smith (Bernard Hill, em boa atuação) se recolhe desolado para esperar o fim torna o personagem ainda mais interessante.

Fogos de artifícioBanda tocando até o último instanteMãe contando histórias para os filhosObviamente, se toda a produção preza pelo primor técnico, a impactante cena do naufrágio é a cereja do bolo de “Titanic”. Colocando o espectador dentro do navio enquanto vemos as pessoas caindo na água e sua estrutura desmoronando, Cameron e sua equipe criam um momento tão sublime tecnicamente e poderoso dramaticamente que é praticamente impossível não reconhecer seus méritos. Assim, a força devastadora da água preenche a tela com tanta verossimilhança que o espectador praticamente se encolhe na poltrona, buscando segurar-se em algo enquanto aquele gigante se prepara para finalmente afundar. Após o naufrágio, a fotografia azulada e a boa atuação do elenco transmite com precisão a histeria coletiva que toma conta do local, nos fazendo em seguida quase sentir o frio que os personagens sentem no meio do oceano. E então o momento que levou milhões de espectadores às lágrimas chega e Jack finalmente se torna apenas uma lembrança para Rose.

Impactante cena do naufrágioGigante se prepara para finalmente afundarHisteria coletivaO final delicado e sensível nos mostra rapidamente a vida que Rose levou através de algumas fotografias e nos permite uma última visita ao mais famoso transatlântico da história, recriado com precisão nesta obra grandiosa, tecnicamente perfeita e dramaticamente poderosa, com alguns excessos é verdade, mas que jamais chegam a prejudicar sua qualidade soberba. James Cameron pode ser egocêntrico e megalomaníaco. Certamente, os criadores do “Titanic” também eram. Mas, ironicamente, a junção entre o primeiro e a história trágica do segundo criaram um dos filmes mais emblemáticos dos anos 90 e, certamente, um dos grandes da história do cinema em todos os tempos.

Titanic foto 2Texto publicado em 17 de Novembro de 2013 por Roberto Siqueira

O MUNDO PERDIDO: JURASSIC PARK (1997)

(The Lost World: Jurassic Park)

3 Estrelas 

Videoteca do Beto #178

Dirigido por Steven Spielberg.

Elenco: Jeff Goldblum, Julianne Moore, Pete Postlethwaite, Richard Attenborough, Vince Vaughn, Arliss Howard, Vanessa Lee Chester, Camilla Belle, Peter Stormare, Richard Schiff, Joseph Mazzello e Mark Pellegrino.

Roteiro: David Koepp, baseado em livro de Michael Crichton.

Produção: Gerald R. Molen e Colin Wilson.

O Mundo Perdido - Jurassic Park[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Preocupado com a possibilidade da franquia “Jurassic Park” seguir o mesmo caminho de “Tubarão” (ou seja, ser deturpada nas mãos de pessoas menos talentosas), Steven Spielberg decidiu dirigir a continuação “O Mundo Perdido: Jurassic Park” quatro anos após o primeiro filme assombrar o mundo com seus efeitos visuais espetaculares e sua história envolvente. No entanto, as semelhanças entre o primeiro e o segundo filme se restringem apenas aos efeitos visuais assombrosos, já que apesar de contar com algumas cenas marcantes, esta sequência é bastante inferior tanto nos aspectos narrativos quanto no carisma de seus personagens.

Escrito novamente por David Koepp baseado em livro que o próprio Spielberg pediu para Michael Crichton escrever, “O Mundo Perdido: Jurassic Park” tem início quando o Dr. Ian Malcolm (Jeff Goldblum) é chamado para conversar com John Hammond (Richard Attenborough) e descobre que sua namorada, a Dra. Sarah (Julianne Moore), havia sido enviada para uma ilha conhecida como “Sítio B”, vizinha daquela onde o antigo Parque dos Dinossauros se localizava e que era utilizada na criação dos animais. Acompanhado de uma equipe, ele chega ao local com a missão de estudar os dinossauros, mas outra equipe comandada por Roland Tembo (Pete Postlethwaite) invade a ilha com a intenção de capturá-los e levá-los para San Diego, onde um novo Parque seria inaugurado.

Expondo o que aconteceu entre o final do primeiro filme e o ponto de partida deste segundo através de um diálogo expositivo nada orgânico, David Koepp constrói um arremedo de narrativa que se transforma numa boa aventura graças ao talento de Spielberg atrás das câmeras. Ainda assim, o roteirista resgata alguns pontos interessantes do longa original, como as tiradas engraçadas de Ian que, por outro lado, acabam tirando um pouco da humanidade do personagem em alguns instantes, como por exemplo quando ele pede ironicamente três cheeseburgers pendurado num penhasco – e, pra piorar, é acompanhado na piada pelos outros dois personagens que se encontram à beira da morte. Em parte, a culpa é também de Jeff Goldblum, que desta vez ganha mais espaço na narrativa, mas não consegue reverter os problemas do roteiro e convencer como um pai ou namorado realmente preocupado.

Pra piorar, Koepp tenta conferir profundidade dramática ao protagonista através de conflitos que jamais convencem com sua filha Kelly (Vanessa Lee Chester) e a namorada Sarah, o que, somado ao comportamento deles em situações de alto risco, cria personagens rasos e inverossímeis, dificultando nossa identificação com aquele grupo. Ao menos, Spielberg corrige parcialmente esta falha ao criar cenas tensas o bastante para nos envolver, independente do grau de envolvimento que temos com os personagens. Quem também ajuda é Julianne Moore, que compõe a Dra. Sarah com mais competência, convencendo como alguém realmente apaixonada pelo que faz – repare sua expressão de alegria ao constatar que a mamãe T-Rex estava mesmo à procura do filhote. Sua personagem serve também para apresentar ao espectador conceitos e características importantes dos dinossauros, o que aumenta a tensão quando eles surgem por já sabermos os atributos mortais do Velociraptor e do T-Rex, por exemplo.

Três cheeseburgersFilha KellyExpressão de alegriaQuem também tem a função de deixar a plateia mais tensa são os caçadores cruéis e unidimensionais liderados pelo odiável Roland Tembo (Pete Postlethwaite), que ao menos tem raros momentos de humanidade, como quando pede pra ninguém contar pra Kelly que um homem tinha morrido ou quando lamenta a perda de um parceiro de equipe e diz que está cansado de andar ao lado da morte.

Mas, com o perdão do trocadilho infame, nem tudo está perdido. É fácil notar, por exemplo, que esta continuação é mesmo dirigida por Spielberg, já que o diretor demonstra sua habilidade na construção de narrativas capazes de prender nossa atenção desde os primeiros instantes, criando expectativa através do ataque à menina na Ilha no qual vemos os pequenos dinossauros cercando a garota, ouvimos seus gritos e acompanhamos a reação apavorada de seus pais, mas não vemos as consequências violentas daquele ato – infelizmente, o diretor já dava sinais da falta de coragem que marcaria sua fase seguinte ao fazer questão de ressaltar que a garota estava viva. Assim, o espectador mal pode esperar o reencontro com os gigantes animais jurássicos. Quando finalmente nos deparamos com eles, Spielberg novamente faz questão de primeiro ressaltar o olhar maravilhado dos personagens, para somente depois nos permitir admirar os imponentes dinossauros concebidos pelos impecáveis efeitos visuais da Stan Winston Studio – que, por sua vez, não apresentam grande evolução quando comparados ao primeiro filme (este sim um fenômeno na área). Finalmente, o diretor também constrói alguns planos interessantes e muito funcionais, como aquele em que vemos os Velociraptors se aproximando do grupo que caminha pela selva segundos antes do ataque arrasador.

Ataque à meninaOlhar maravilhado dos personagensVelociraptors se aproximandoAlém dos efeitos visuais, Spielberg conta também com o auxilio de sua equipe premiada por “A Lista de Schindler”, começando pelo diretor de fotografia Janusz Kaminski, que cria um visual sombrio e sufocante ao explorar muito bem o predomínio de cenas noturnas e as muitas chuvas que permeiam a narrativa. Da mesma forma, a montagem ágil de seu parceiro Michael Kahn confere um dinamismo interessante ao longa, o que é essencial numa aventura. E finalmente, se a trilha sonora de John Williams também aumenta a tensão em diversos instantes, acertando ainda ao utilizar a ótima música tema somente em momentos pontuais para evitar o desgaste da mesma, o ótimo design de som é parte fundamental no processo de dar vida aos dinossauros, tornando tudo ainda mais real aos olhos da plateia.

No entanto, a salvação de “O Mundo Perdido: Jurassic Park” está mesmo nas mãos de Steven Spielberg. Criando cenas de impacto que vão desde pequenos sustos – como no ataque repentino à base de operações durante a apresentação do projeto do Parque em San Diego – a momentos de alta tensão, o diretor confirma seu talento em sequências eletrizantes, como aquela em que acompanhamos Kelly e Sarah cavando simultaneamente aos Velociraptors que tentam invadir o esconderijo do qual elas tentam sair – numa cena, aliás, que reserva outro susto monumental ao espectador.

Cenas noturnas e as muitas chuvasAtaque repentino à base de operaçõesKelly e Sarah cavando simultaneamente aos VelociraptorsE se os “Raptors” garantem boas cenas, o que dizer então do T-Rex, que agora surge acompanhado e, portanto, duas vezes mais perigoso. Indicando novamente sua aproximação através da água (desta vez, uma poça faz a função do copo no primeiro filme), Spielberg conduz o ataque ao acampamento com maestria, gerando suspense ao trabalhar com elementos aparentemente inofensivos. Repare que, momentos antes, Sarah comenta sobre o sangue do filhote que não secou em sua blusa, o que nos faz grudar na cadeira enquanto o T-Rex cheira a blusa pendurada na cabana, gerando a correria histérica que resulta numa das raras mortes violentas do longa dentro de uma cachoeira.

Indicando aproximação através da águaSarah comenta sobre o sangue do filhoteT-Rex cheira a blusa pendurada na cabanaMas é mesmo a primeira aparição dos T-Rex que novamente se garante como o melhor momento do longa. Trabalhando mais uma vez com a noite, a chuva forte e agora agregando o telefone que toca sem parar e os gritos do filhote de T-Rex de dentro do trailer, Spielberg prepara o cenário ideal para a aparição do astro principal. Assim, o som indica a aproximação enquanto as árvores balançam e um carro arremessado confirma a fúria do predador, que surge com seu olhar penetrante na lateral do trailer, acompanhado por outro olhar que provoca a surpresa dos personagens e da plateia: eles vieram em casal. A sequência eletrizante continua com a entrega do filhote e o ataque que deixa o trailer pendurado no penhasco, chegando ao auge quando Sarah cai sobre o vidro, num momento de pura tensão que só termina quando o veículo finalmente despenca morro abaixo após deslizar pelo terreno. Após a cena de tirar o fôlego, a morte violenta de Eddie Carr (Richard Schiff) funciona como um sarcástico alívio cômico, assim como ocorria no primeiro filme com o homem sentado no vaso sanitário, só que desta vez com os animais brincando com o corpo dele.

Olhar penetranteTrailer pendurado no penhascoSarah cai sobre o vidroInfelizmente, o terceiro ato de “O Mundo Perdido: Jurassic Park” soa totalmente desnecessário, com o T-Rex surgindo na cidade de San Diego apenas para garantir alguns gritos e sustos a mais. Ao menos, garante uma boa piada quando um garoto diz para os pais que “tem um dinossauro no quintal”, mostrando ainda a curiosidade mórbida das pessoas que correm olhando para o T-Rex, num comportamento estranho do ser humano captado com precisão por Spielberg que nós voltaríamos a ver em “Guerra dos Mundos”.

No fim das contas, a continuação de “O Parque dos Dinossauros” funciona exatamente como o “Sítio B”, ou seja, seria muito mais assustadora e interessante se permanecesse apenas na imaginação dos fãs. No entanto, assim como seu terceiro ato, “O Mundo Perdido” é uma continuação desnecessária, porém divertida.

O Mundo Perdido - Jurassic Park foto 2Texto publicado em 27 de Outubro de 2013 por Roberto Siqueira

MELHOR É IMPOSSÍVEL (1997)

(As good as it gets)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #177

Dirigido por James L. Brooks.

Elenco: Jack Nicholson, Helen Hunt, Greg Kinnear, Cuba Gooding Jr., Skeet Ulrich, Shirley Knight, Yeardley Smith, Lupe Ontiveros, Missi Pyle, Maya Rudolph, Lawrence Kasdan, Julie Benz, Harold Ramis, Kathryn Morris, Todd Solondz e Jesse James.

Roteiro: Mark Andrus e James L. Brooks.

Produção: James L. Brooks, Bridget Johnson e Kristi Zea.

Melhor é Impossível[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Recordista de indicações ao Oscar, Jack Nicholson levou seu terceiro prêmio após sua brilhante atuação neste “Melhor é Impossível”, que, com seus personagens simultaneamente problemáticos e agradáveis, conquista o espectador quase que da mesma maneira como o protagonista conquista a personagem brilhantemente interpretada por Helen Hunt. Assim, não são raros os momentos graciosos que são quebrados por alguma grosseria e vice-versa, numa mistura eficiente de instantes dramaticamente densos e outros recheados de humor negro; e é ao balancear estes polos opostos com tanto cuidado que o longa dirigido por James L. Brooks alcança seu sucesso.

Escrito pelo próprio Brooks ao lado de Mark Andrus, “Melhor é Impossível” narra o cotidiano do obsessivo-compulsivo e preconceituoso escritor Melvin Udall (Jack Nicholson), um homem repleto de cinismo e sarcasmo que adora tirar uma onda com seu vizinho homossexual Simon (Greg Kinnear) e que faz questão de ser sempre atendido pela mesma garçonete no restaurante onde almoça todos os dias. A garçonete é Carol (Helen Hunt), uma mãe solteira que se desdobra para cuidar do filho, que sofre com uma grave doença respiratória.

Desenvolvendo muito bem seus personagens, o roteiro de “Melhor é Impossível” ajuda a humanizar cada um deles, demonstrando aos poucos as qualidades e defeitos de pessoas que facilmente poderiam tornar-se caricatas e odiáveis em mãos menos cuidadosas – e na pele de atores menos talentosos. Neste caso, o que ocorre é exatamente o contrário. Os personagens conquistam o espectador justamente por escancararem seus defeitos de maneira tão humana, o que naturalmente os aproximam da plateia.

Atrás das câmeras, Brooks faz um trabalho discreto e eficiente que busca valorizar as atuações através do uso de planos americanos e closes, empregando ainda o zoom para realçar momentos de impacto dramático e saindo-se muito bem na condução de cenas fortes como aquela em que um grupo de jovens de rua espanca Simon (numa rápida participação dos atores Skeet Ulrich e Jamie Kennedy, de “Pânico”, na qual se destaca o ótimo trabalho de maquiagem que torna realistas os machucados no rosto dele na cena seguinte no hospital). Igualmente discreta, a fotografia de John Bailey aposta em cenas diurnas e filtros que realçam cores leves, ao passo em que a gostosa trilha sonora de Hans Zimmer apresenta um tema principal inspirado, mas que também surge apenas em momentos pontuais. Desta forma, quem acaba chamando mais a atenção é o trabalho do montador Richard Marks, que transita muito bem entre o drama de Carol com a doença do filho, as rotinas de Melvin e o trabalho de Simon e Frank, integrando os personagens de maneira orgânica e mantendo a narrativa sempre atraente e fluída.

Planos americanosGrupo de jovens de rua espanca SimonCores levesNo entanto, é inegável que o grande atrativo de “Melhor é Impossível” é mesmo o seu elenco talentoso e inspirado, que oferece performances simultaneamente divertidas e tocantes. Vivendo um personagem preconceituoso e (desculpe o termo) escroto, Nicholson tem um desempenho excepcional, saindo-se muito bem na difícil tarefa de conquistar a empatia da plateia mesmo na pele de alguém tão desprezível. Destilando veneno em muitas de suas frases sarcásticas, Melvin poderia tornar-se ainda mais irritante por sofrer de TOC (transtorno obsessivo-compulsivo), o que faz com que ele sente sempre na mesma mesa do restaurante, evite pisar nas linhas do chão, deteste ser tocado por outras pessoas, organize milimetricamente os sabonetes da mesma marca em seu armário e feche a porta do apartamento cinco vezes. E se ainda assim nós gostamos dele, grande parte do mérito é mesmo do lendário ator.

Senta sempre na mesma mesaEvita pisar nas linhas do chãoOrganiza milimetricamente os sabonetesPersonagem complexo, Melvin consegue ser egoísta e egocêntrico e, ao mesmo tempo, é capaz de agir com surpreendente gentileza e encantar Carol com a bela frase “Você me faz querer ser um homem melhor”, somente para, minutos depois, estragar tudo com outra frase detestável. Este comportamento imprevisível fica ainda mais claro quando ele choca uma fã na editora, escancarando a intrigante diferença entre o autor sensível e o ser humano desprezível que conflitam dentro dele.

Mas se Nicholson surge solto e diverte-se no papel, Hunt não fica atrás, demonstrando excelente química com o consagrado ator numa atuação sensível e poderosa. Externando os traumas ocasionados por relacionamentos passados (“Não vou dormir com você!”, diz ela para Melvin), Carol emociona pela maneira como admite sua carência num belíssimo diálogo com a mãe, num dos grandes momentos da atuação de Hunt, que se destaca ainda na reação dramaticamente poderosa de Carol após Melvin mencionar seu filho no restaurante, que dá os primeiros sinais de sua vulnerabilidade e, especialmente, quando demonstra a alegria genuína da personagem diante do médico que oferece tratamento para seu filho, num momento tocante. Lentamente, Carol vai reencontrando a felicidade, algo simbolizado até mesmo por suas roupas (figurinos de Molly Maginnis), que evoluem lentamente das cores sem vida de seu uniforme para o vestido vermelho e chamativo que ela usa durante um jantar.

Belíssimo diálogo com a mãeReação dramaticamente poderosaAlegria genuínaCom seus trejeitos e a forte tendência para o overacting, Cuba Gooding Jr. diverte-se como Frank, o amigo engraçado e falastrão de Simon que se impõe fisicamente diante de Melvin, enquanto Kinnear demonstra muito bem a sensibilidade de Simon, emocionando em momentos especiais como quando vê seu rosto desfigurado pela primeira vez num espelho ou quando, com a ajuda de Carol, se empolga após conseguir romper o bloqueio criativo. Aliás, sua bagunçada casa reflete não apenas sua mente agitada (essencial em sua profissão), mas também sua instabilidade emocional, o que ressalta o bom design de produção de Bill Brzeski.

Amigo engraçado e falastrãoSensibilidade de SimonBagunçada casaQuem também tem participação importante na narrativa é o cachorro de Simon, explorado com competência pela câmera de Brooks, como no close que capta sua reação após Melvin receber a notícia que terá que devolvê-lo – numa das primeiras cenas que escancaram a fragilidade daquele homem solitário, que se esconde sob aquela capa de cinismo e sarcasmo. E fechando o elenco, temos a simpática mãe de Carol interpretada por Shirley Knight e a participação do diretor Lawrence Kasdan como o Dr. Green.

Quando o casal se desentende e se separa durante a viagem, sabemos que estamos perto do final conciliador, típico das comédias românticas. Mas até mesmo este clichê funciona muito bem em “Melhor é Impossível”, justamente pela maneira sincera e coerente que os personagens se comportam, buscando a reaproximação sem exigir que o outro mude completamente. E o que é mais interessante, o espectador sabe que eles continuarão exibindo os mesmos defeitos, e mesmo assim nós torcemos pelo sucesso daquela relação. Afinal, somos mesmo assim, repletos de defeitos e virtudes e eternamente buscando alguém que nos compreenda em toda nossa complexidade e vulnerabilidade.

Cachorro de SimonSimpática mãe de CarolCasal se desentendeFilme com alma e coração, “Melhor é Impossível” beneficia-se das atuações de alto nível para tocar o espectador sem jamais pender para o melodrama ou soar piegas, divertindo e emocionando com a mesma eficiência. Não é o caso de dizer que melhor que isso é impossível. Mas quase.

Melhor é Impossível foto 2Texto publicado em 20 de Outubro de 2013 por Roberto Siqueira