PACTO SINISTRO (1951)

(Strangers in a Train)

 

Filmes em Geral #56

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Farley Granger, Ruth Roman, Robert Walker, Leo G. Carroll, Patricia Hitchcock, Kasey Rogers, Marion Lorne, Jonathan Hale, Howard St. John, John Brown, Norma Varden, Robert Geist e Alfred Hitchcock.

Roteiro: Raymond Chandler, Czenzi Ormonde e Whitfield Cook, baseado em romance de Patricia Highsmith.

Produção: Alfred Hitchcock.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A premissa de “Pacto Sinistro” é excelente e até certo ponto bem desenvolvida pelo roteiro. A atmosfera do longa, que flerta com o noir, também é bastante interessante. Mas, infelizmente, Alfred Hitchcock não consegue extrair grandes atuações de seu elenco e, o que mais surpreende, não consegue criar muitas cenas marcantes, algo incomum nos filmes do mestre do suspense. Além disso, o longa apresenta algumas cenas que soam falsas e irreais, prejudicando o resultado final. Assim, “Pacto Sinistro” revela-se um filme comum, especialmente por se tratar de uma obra de Hitchcock, e não consegue empolgar.

O tenista profissional Guy Haines (Farley Granger) viaja de trem quando conhece Bruno (Robert Walker), um estranho que sabe muitos detalhes da vida do jogador. Sabendo que Guy planeja se divorciar, Bruno inicia uma conversa, afirmando que odeia seu pai e que tem uma teoria sobre o crime perfeito, onde duas pessoas desconhecidas “trocariam assassinatos” e, desta forma, evitariam suspeitas sobre os crimes. Guy ri da teoria, se despede e vai embora, mas Bruno entende que o tenista concordou com seu plano e parte para matar a esposa dele Miriam (Kasey Rogers), dando inicio a uma dupla perseguição. Enquanto a policia vai atrás de Guy por causa do assassinato, Bruno persegue o tenista para exigir que ele cumpra sua parte no “acordo”.

Escrito pelo trio Raymond Chandler, Czenzi Ormonde e Whitfield Cook, baseado em romance de Patricia Highsmith, “Pacto Sinistro” parte de uma idéia criativa e interessante, criando uma situação inusitada para seu protagonista. A partir de um simples diálogo no trem a respeito da idéia maluca dos assassinatos “cruzados”, o longa desenvolve um thriller de perseguição dupla, pois Guy foge ao mesmo tempo da polícia e do estranho que conheceu no trem. Mas, infelizmente, o longa jamais decola, e confesso que uma idéia mal aproveitada é algo que sempre me incomoda num filme. Apesar de sua atmosfera interessante e da complicada situação do protagonista, muitas cenas soam irreais e comprometem a obra, assim como as atuações artificiais do elenco.

Tecnicamente, “Pacto Sinistro” tem bons momentos, como quando a montagem de William H. Ziegler salta da cena em que Guyafirma querer estrangular Miriam para o plano das mãos de Bruno, num indício do que aconteceria depois. Aliás, o trabalho de Ziegler merece destaque, especialmente no momento em que Guyjoga uma partida de tênis ao mesmo tempo em que Brunose dirige para o local do crime, buscando deixar um isqueiro que incriminaria o famoso jogador. Nesta cena, Hitchcock faz o espectador ficar ainda mais ansioso quando Guy perde o terceiro set, esticando ao máximo aquele momento tenso, que se arrastará pelo quarto set, quando ele vence a partida enquanto Bruno recupera o isqueiro caído no bueiro de maneira artificial, numa improvável trombada com um estranho no parque. Por sinal, é no parque que o longa tem um de seus bons momentos, quando Miriam passeia de barco e vemos a aproximação de Bruno através das sombras na parede, seguido pelo plano vazio na saída do túnel e pelo grito dela que garante o primeiro susto no espectador. Miriam estava apenas brincando com os rapazes no barco. Mas a brincadeira termina quando ela encontra Bruno, que a mata estrangulada, numa cena marcante, em que vemos o crime através do reflexo na lente dos óculos da moça caídos no chão. Esta atmosfera sombria é mérito também da boa direção de fotografia de Robert Burks, que remete aos filmes noir com suas cenas predominantemente noturnas, destacando-se nas seqüências no trem e em locais fechados, com pequenos fachos de luz entrando pelas persianas das janelas. Além disso, o crime, a investigação policial e a trilha sombria de Dimitri Tiomkin reforçam a aura noir do longa.

Diante da situação complicada em que se meteu, Guy é um personagem interessante, mas infelizmente a atuação de Farley Granger é artificial em diversos momentos, como quando ele reage a noticia da morte da esposa Miriam. Por mais que já soubesse do ocorrido, era de se esperar que ele fingisse alguma emoção diante do senador, até para não levantar mais suspeitas sobre ele. Granger até tem bons momentos, mas, em geral, jamais transmite o incômodo que o personagem exige. Interpretada por Patricia Hitchcock, Barbara é a dona dos comentários sarcásticos que garantem o humor negro e que, aliados aos diálogos sobre assassinatos – como aquele da festa entre Bruno e uma velha senhora –, reforçam o tema na mente do espectador. É ela também que faz Bruno lembrar Miriam, algo indicado através do zoom em seu rosto e da trilha sonora, exatamente a mesma do momento em que ele cometeu o assassinato. Esta semelhança física entre elas, acentuada pelos óculos, será essencial para a solução do crime, fazendo com que Anne, interpretada por Ruth Roman de maneira doce e sensata, perceba a real ligação entre Guy e Bruno. Já Kasey Rogers faz de sua Miriam uma personagem odiável mesmo com poucos minutos em cena, irritando Guy até o limite, numa discussão em que tanto ela como Granger soam caricatos. Pelo menos, Robert Walker se sai bem como Bruno, mostrando-se inconveniente e assustador enquanto persegue a conclusão de seu plano. Como é comum nos filmes de Hitchcock, a relação de Bruno com a mãe (Marion Lorne) tem importância e acaba refletindo em seu comportamento, como fica claro quando ela conversa com Anne, defendendo o filho com unhas e dentes. Já a relação de Bruno com o pai é bastante complicada, pois o Sr. Antony (Jonathan Hale) sabe da personalidade conturbada do filho, evidenciada quando, sem mais nem menos, ele estoura uma bexiga de um garoto no parque. Bruno é a sombra na vida de Guy, perseguindo-o por todo tempo, seja num museu ou numa quadra de tênis, onde todos olham para a bola e ele foca o olhar em seu “amigo”. Este aspecto poderia tornar o filme mais interessante, mas não é o que acontece, porque Granger não cria empatia com a platéia e, por isso, não nos importamos tanto com seu drama.

Ainda assim, o longa tem uma cena marcante, bem ao estilo de Hitchcock, quando Guy visita a casa de Bruno, subindo as escadas na completa escuridão, num momento de alta tensão, acentuada pela presença do cão de guarda. O visual da cena é assombrosamente obscuro e a trilha marca o momento com perfeição. Tensa também será a descida de Guy, com a arma de Bruno apontada para sua cabeça o tempo todo, até o momento em que ele diz que não vai atirar, porque pensará em “algo melhor”, numa promessa capaz de atormentar o protagonista (e o espectador). Como podemos ver, Hitchcock prolonga ao máximo o embate entre Bruno e Guy. Mas esta é uma feliz exceção num longa repleto de cenas artificiais, como quando Bruno ataca uma senhora numa festa – repare como ela aceita facilmente que ele aperte seu pescoço – e, aparentemente, ninguém faz nada a respeito por muito tempo. Pra piorar, o grande clímax no carrossel é pouco verossímil, graças à implausível luta em altíssima velocidade entre Guy e Bruno e à duração excessiva da cena. Tudo isto, somado às atuações exageradas de Granger e Walker naquele momento, faz com que a cena soe bastante falsa.

Em resumo, “Pacto Sinistro” é um bom filme, mas que apresenta apenas uma grande cena e, conseqüentemente, não consegue o mesmo nível de tensão das grandes obras de Hitchcock. Apesar dos sempre elegantes movimentos de câmera do diretor e da fotografia sombria, as atuações caricatas e a falta de uma atmosfera de suspense que funcione comprometem o resultado final. Ainda assim, um filme apenas razoável de Alfred Hitchcock normalmente é melhor que a grande maioria dos filmes do gênero.

Texto publicado em 02 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

FESTIM DIABÓLICO (1948)

(Rope)

 

 

Filmes em Geral #55

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: James Stewart, Farley Granger, John Dall, Cedric Hardwicke, Constance Collier, Douglas Dick, Edith Evanson, Dick Hogan e Joan Chandler.

Roteiro: Hume Cronyn e Arthur Laurents, baseado em peça de Patrick Hamilton.

Produção: Alfred Hitchcock e Sidney Bernstein.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Até onde pode chegar a criatividade de um grande cineasta? No caso de Hitchcock, esta pergunta dificilmente poderá ser respondida, especialmente se observarmos a qualidade de sua celebrada filmografia e o número de soluções criativas que ele encontrava em seus filmes. Mas existiam momentos em que o mestre simplesmente se superava, brindando os cinéfilos com verdadeiras jóias, capazes de empolgar o mais cético dos críticos. Filmada em longos takes com cortes quase imperceptíveis, a obra-prima “Festim Diabólico” é um destes momentos fantásticos, em que o diretor emprega sua impressionante técnica para conduzir uma narrativa envolvente, recheada de grandes atuações e momentos eletrizantes.

Os amigos Brandon (John Dall) e Phillip (Farley Granger) matam o colega de escola David Kentley (Dick Hogan), apenas para sentir a sensação de cometer um assassinato. Na busca pelo crime perfeito, eles promovem uma festa com os amigos e a família do rapaz, servindo a comida em cima do baú onde está escondido seu corpo. Mas um dos convidados é o esperto professor Rupert Cadell (James Stewart), que começa a desconfiar de tudo na medida em que a festa se torna cada vez mais estranha.

Narrado em tempo real, durante um fim de tarde e num único cenário (o apartamento de Brandon), “Festim Diabólico” apresenta um caráter extremamente realista, reforçado pela técnica empregada por Hitchcock, que filma as cenas em oito tomadas, com pequenos cortes quase imperceptíveis a cada 10 minutos – e que só existem porque este era o tempo máximo que uma bobina podia filmar na época -, nos dando a sensação de estarmos vendo um único plano-seqüência (normalmente, Hitchcock dava um close num personagem ou objeto para poder inserir o corte). Na realidade, apenas em um momento o corte é perceptível, quando Phillip discute com Brandon e grita que “é mentira!” ao ser acusado de matar galinhas – um corte seco nos mostra a reação de Rupert em seguida. Mas, por estar prestando atenção na calorosa discussão, o espectador pode nem perceber este corte. Desta forma, somos sugados pra dentro da história de maneira única, como se estivemos dentro daquele cenário, vivendo a narrativa com incrível intensidade.

Escrito por Hume Cronyn e Arthur Laurents, baseado em peça de Patrick Hamilton, o roteiro de “Festim Diabólico” apresenta muitos diálogos marcantes, além de desenvolver a trama lentamente e com cuidado, tornando possível, por exemplo, que Rupert perceba, através de gestos sutis, o que está acontecendo, como quando Phillip fala sobre os livros mal amarrados e ele olha para a corda, já bastante desconfiado. Assim, na medida em que percebemos que o astuto convidado começa a captar o que se passa, o suspense aumenta e o longa se torna mais tenso. Obviamente, a condução excepcional de Hitchcock também é responsável por isso, desde o momento em que vemos uma rua tranqüila, com pessoas caminhando (Hitchcock é uma delas), e um movimento de câmera nos leva a janela do apartamento onde a narrativa se passará, interrompendo o silêncio com um grito antes de termos a imagem de David sendo enforcado por Brandon e Phillip. Hitchcock sabia que, ao nos mostrar o assassinato e onde o corpo de David estaria durante a festa, ficaríamos inquietos e apreensivos. Seguindo sua cartilha, o mestre faz o espectador saber mais do que a maioria dos personagens em cena, o que só aumenta a tensão e o suspense.

E ainda que comece tranqüilo durante a preparação para a festa, o relacionamento entre Brandon e Phillip já dá indícios das diferenças de temperamento entre eles, que será vital no grande clímax da narrativa. Se Brandon é mais sádico e controlado, Phillip se apresenta mais humano e, por conseqüência, assustado com tudo aquilo. Aliás, John Dall se sai muito bem na pele do cruel Brandon, um personagem extremamente racional, que parece não sentir emoção, a não ser quando acha que seu plano maquiavélico está saindo conforme planejou. Seu humor negro e sarcástico garante boas piadas a respeito da morte de David e de sua presença na festa, como quando Janet (Joan Chandler) diz que David pode chegar e surpreendê-la no quarto com Kenneth (Douglas Dick) e ele responde que seria “um choque” – e Dall tem mérito nisto, ao conferir um ar de cinismo na fala do personagem. Mas, no interessante diálogo sobre assassinatos, que faz referências a Nietzsche e Hitler, Brandon começa a dar sinais de seu plano diabólico e o astuto Rupert começa a perceber o que está acontecendo. Já Farley Granger está um pouco exagerado, mas funciona na pele do assustado Phillip, balanceando bem o destempero de seu personagem com o autocontrole absurdo de Brandon. Vale registrar também que na peça original de Patrick Hamilton, Brandon e Phillip eram homossexuais, mas devido ao controle rígido do Código Hays, Hitchcock foi obrigado a amenizar este aspecto da relação entre eles, tornando-o perceptível, mas de maneira muito sutil (a peça foi inspirada no caso dos jovens Leopold e Loeb, que, em 1924, raptaram e mataram o garoto Bobby, de 14 anos, na cidade de Chicago). Fechando os destaques do coeso elenco, James Stewart, sempre excelente, tem uma atuação muito boa, que cresce na medidaem que Rupert aumenta sua desconfiança diante do que vê. Repare com o ator consegue nos convencer de que o personagem está preocupado através de pequenos gestos como quando observa atentamente o comportamento de Phillip ao ver a corda. Além disso, o ator soa convincente quando confronta os autores do crime no terceiro ato, num monólogo belíssimo que escancara a mensagem do filme, numa crítica feroz ao sentimento de superioridade do ser humano que se julga capaz de tirar outras vidas supostamente “inferiores” (lembre-se que o filme é de 1948, pouco tempo depois do período de domínio nazista).

No restante do elenco, basta dizer que nenhum ator destoa e todos conseguem captar o espírito do longa, fazendo com que a festa soe bastante realista, apesar da absurda situação criada por Brandon e Phillip. E é interessante notar também como as roupas definem parte da personalidade dos personagens, num excelente trabalho da figurinista Adrian. Brandon, com seu comedido terno azul, é o mais controlado de todos. Janet, com seu vestido vinho, procura chamar a atenção dos rapazes e inclusive já namorou três dos quatro estudantes. Rupert esconde sob seu terno cinza muita sobriedade e inteligência, características vitais para que perceba o que está acontecendo. Kenneth, com seu terno marrom e apagado, é propositalmente o personagem mais apático da narrativa. Já Phillip procura se esconder sob seu terno marrom escuro, mas chama a atenção demais com seu jeito assustado. Discreta mesmo é a Sra. Wilson (Edith Evanson), com sua roupa preta de empregada que a torna quase imperceptível, ao ponto de Brandon repreender Phillip após o final da festa (“Calado, a Sra. Wilson ainda está aqui”). E finalmente, o Sr. Kentley (Cedric Hardwicke) exala seriedade em seu terno cinza claro, ao passo em que a Sra. Atwater (Constance Collier) chama a atenção para seu jeito espalhafatoso em seu vestido roxo.

Ainda na parte técnica, a trilha sonora de David Buttolph pontua os momentos de tensão, reforçada pela fotografia de William V. Skall e Joseph A. Valentine, que se torna mais sombria na medida em que a narrativa avança. E se o trabalho do montador William H. Ziegler se limita a inserir os pequenos e imperceptíveis cortes na narrativa devido à citada necessidade de trocar os rolos de filmagens, a direção de arte de Perry Ferguson merece ser citada por criar um cenário que permita o desenrolar da história de maneira tão eficiente, com a ampla sala da biblioteca servindo para recepcionar os convidados, o citado baú que esconde o segredo dos assassinos, o longo corredor que leva até a cozinha e a curiosa porta que divide os ambientes, com seu barulho irritante aumentando a tensão.

Finalmente, num filme dirigido por Hitchcock não poderiam faltar cenas marcantes e “Festim Diabólico” não seria diferente. A começar pela fantástica cena em que a câmera fica parada ao lado do baú, com os personagens conversando sobre David à direita da tela, nos permitindo ver apenas parte do corpo de Rupert e a Sra. Wilson limpando a mesa e trazendo os livros para guardar no baú. Observe a condução lenta da cena por parte de Hitchcock, criando um suspense crescente na medida em que se aproxima o momento que ela guardará os livros. A tensão chega ao auge quando ela começa a abrir o baú e é interrompida por Brandon, aumentado a suspeita de Rupert. Esta suspeita levaria aquele homem a voltar ao apartamento depois que todos foram embora, provocando pânico em Phillip e dando inicio a outra seqüência incrivelmente tensa. Determinado, Brandon se arma e abre a porta. O diretor então inicia a cena destacando a mão armada de Brandon dentro do bolso através de um zoom, enquanto quando Rupert fala sobre David. Em seguida, a câmera simula cada movimento do tenso diálogo em que ele diz como mataria o rapaz, da mesma maneira que Hitchcock fizera em “Rebecca”. Repare como a luz que pisca fora do apartamento e a noite que recai aumentam a tensão do momento, atingindo níveis insuportáveis até que Phillip, ao ver a corda nas mãos de Rupert, confessa tudo e ameaça matá-lo. Rupert consegue tomar a arma de sua mão e parte, sem querer acreditar no que verá, para abrir o baú. Neste momento, Stewart se destaca novamente, demonstrando a frustração de Rupert ao ver o corpo de David lá dentro e o incômodo por saber que Brandon havia distorcido suas palavras para fazer algo tão cruel. O longa termina num plano genial, com Phillip desolado no piano, Brandon tomando uma bebida tranqüilamente e Rupert sentado, aguardando a chegada da polícia.

Com sua narrativa envolvente, “Festim Diabólico” é uma obra-prima do suspense, conduzida com perfeição por Alfred Hitchcock, que desfila sua enorme capacidade de direção através dos criativos movimentos de câmera, da firme condução da narrativa e da excepcional composição da mise-en-scène, permitindo a excelente atuação coletiva do elenco, que transita no cenário de maneira eficiente, e entregando um filme marcante, criativo e incrivelmente tenso.

Texto publicado em 01 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

INTERLÚDIO (1946)

(Notorious)

 

Filmes em Geral #54

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Cary Grant, Ingrid Bergman, Claude Rains, Louis Calhern, Leopoldine Konstantin, Reinhold Schünzel, Moroni Olsen, Ivan Triesault, Alex Minotis e Alfred Hitchcock.

Roteiro: Ben Hecht.

Produção: Alfred Hitchcock.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Com uma narrativa impecável e excelentes atuações, “Interlúdio” comprova a capacidade de Alfred Hitchcock de criar suspense com eficiência, neste caso, misturando thriller de espionagem e romance com perfeição. Ao mesmo tempo em que torcemos pelo casal principal, queremos saber o resultado de uma investigação, que, por outro lado, compromete esta mesma relação amorosa. Está criado o cenário perfeito para que o diretor crie momentos marcantes, do mais puro suspense.

A jovem Alicia (Ingrid Bergman) passa a se afundar na bebida após seu pai alemão ser condenado como espião nos Estados Unidos. Numa das festas, ela sai bêbada com o misterioso Devlin (Cary Grant), que se revela um agente do governo e a convida para uma missão especial no Brasil. Relutante, ela aceita viajar para se infiltrar num grupo de nazistas, amigos de seu pai, na tentativa de descobrir como eles estão operando. No caminho, Alicia se apaixona pelo agente Devlin, mas é obrigada a se casar com o nazista Alexander Sebastian (Claude Rains), como parte do plano norte-americano para capturar os alemães.

O roteiro de “Interlúdio”, escrito por Ben Hecht, mistura com eficiência a trama que envolve a espionagem no Brasil e o dramático romance vivido por Devlin e Alicia, que, como parte do plano em que se envolveram, são obrigados a permanecer separados e evitar colocar em risco a missão. De maneira inteligente, a narrativa investe boa parte de seu primeiro ato no estabelecimento da relação do casal, criando empatia com a platéia e, desta forma, aumentando o drama quando eles são obrigados a ficarem distantes, enquanto tentam descobrir o que fazem os nazistas no país. A situação só piora quando Alicia anuncia a proposta de casamento de Alexander, criando uma situação inusitada para ela (literalmente, dormindo com o inimigo) e para ele, que passa a dividir-se entre a razão, sendo obrigado a concordar que Alicia é a melhor escolha para infiltrar-se no grupo alemão, e a emoção, tentando desesperadamente retirá-la da missão para poder viver sua paixão. Mas, orgulhoso e desconfiado do passado promíscuo da garota, ele jamais deixa claro pra ela sua intenção. Ela, por sua vez, não fala nada, esperando que ele demonstre que a deseja.

Com este bom roteiro nas mãos, Alfred Hitchcock mostra o costumeiro domínio sobre a narrativa, construindo lentamente momentos de alta tensão, numa escala crescente de suspense que atingirá seu auge em duas grandes cenas e amarrará as duas vertentes da narrativa num final emblemático. Além disso, o diretor cria planos curiosos e eficientes, como aquele que mostra a visão de Alicia dirigindo, deixando claro o seu estado deplorável, reforçado pelo momento em que ela acorda, já no dia seguinte, e vê Devlin se aproximando, quando a câmera simula seu olhar, girando completamente. E até mesmo técnicas hoje ultrapassadas, como a “back projection” (tradicional cena em que o carro está parado e as imagens se movem ao fundo), não soam datadas, talvez porque estamos mais interessados no diálogo do casal, relegando o visual para o segundo plano naquele momento. Felizmente, isto não ocorre em todo tempo, pois Hitchcock se preocupa em criar um visual elegante, com os belíssimos planos aéreos do Rio de Janeiro, por exemplo, além de planos sombrios e marcantes, especialmente na casa de Alexander, que muitas vezes são embalados pela trilha sonora de Roy Webb.

A preocupação com a parte visual é reforçada ainda pelos belos lustres e pela decoração da imponente sala na casa de Alexander, ilustrando o bom trabalho de direção de arte de Carroll Clark e Albert S. D’Agostino, que ainda inclui a enorme escadaria que leva ao quarto em que Alicia ficará escondida e que será essencial na cena final (repare como a quantidade de passos de Devlin é maior na descida, prolongando a angústia na platéia). Também merecem destaque os ternos elegantes dos homens e os belos vestidos das mulheres na festa, que confirmam o bom trabalho da figurinista Edith Head, além da direção de fotografia de Ted Tetzlaff, essencial na criação dos citados planos sombrios na casa dos Sebastian, e que se torna ainda mais obscura na medida em que Alicia adoece, refletindo a tristeza da personagem, já na parte final da narrativa.

Filha de um oficial alemão condenado pela justiça norte-americana após a segunda guerra mundial, Alicia é interpretada pela grande Ingrid Bergman, que confirma seu talento logo nas primeiras cenas, ao compor uma bêbada com precisão, demonstrando dificuldade em abrir os olhos enquanto fala na festa. Observe, por exemplo, com a atriz demonstra bem o misto de sentimentos de Alicia ao saber que o pai morreu, não sabendo se chora ou se fica aliviada, e note ainda como ela convence quando Alicia fica doente, mostrando grande dificuldade para falar e se movimentar. Já o personagem interpretado por Cary Grant se mostra misterioso desde sua primeira aparição, quando está de costas e demora pra mostrar o rosto, mas deixa claro sua importância quando apresenta a carteira para um guarda de trânsito, que o libera imediatamente. Apesar de durar pouco tempo, os momentos românticos do casal conquistam a platéia e são vitais no clímax da narrativa. Aliás, fica claro num diálogo no hotel que Alicia está apaixonada e não esconde isto, ao passo em que Devlin ainda tem desconfianças, tanto dela quanto do risco que a missão no Brasil representa e, conseqüentemente, que aquela paixão corria. Ainda assim, ele escancara seu sentimento quando fica nervoso com a proposta de casamento de Alexander, num momento em que Grant se sai muito bem. Este componente amoroso só serve para aumentar a tensão quando a situação de Alicia se complica de vez na casa de Alexander Sebastian. Alexander, aliás, que é bem interpretado por Claude Rains, que muda gradativamente seu comportamento após descobrir que Alicia é uma espiã de maneira convincente, conseguindo ainda conferir humanidade ao vilão quando se mostra completamente apaixonado. E como acontece em muitos filmes de Hitchcock, o papel da mãe tem grande importância em “Interlúdio”, desta vez na pele de Madame Sebastian, interpretada por Leopoldine Konstantin, que aconselha o filho desde o momento em que coloca os olhos em Alicia. Repare como Konstantin muda a feição no momento em que a mãe de Alex ouve que o filho foi traído, colocando um sorriso cínico no rosto antes de dizer que “já sabia”.

Evidentemente, não estamos interessados apenas na relação amorosa de Devlin e Alicia, mas também na espionagem aos alemães, especialmente depois que a jovem se infiltra na casa de Alexander. Ciente disto, Hitchcock trabalha minuciosamente na construção de duas grandes cenas, capazes de grudar os olhos do espectador na tela. Observe, por exemplo, como durante um jantar na casa de Alexander, Hitchcock emprega um zoom nas garrafas de vinho, já indicando a importância delas na trama. As garrafas chamam a atenção de Alicia, que organiza um plano para invadir a adega numa festa em que Devlin estará presente. Já na festa, o diretor destaca a chave da adega nas mãos de Alicia após passear por todo o salão, começando a preparar um clima tenso, especialmente porque, durante a festa, Alexander observa atentamente as conversas entre Devlin e Alicia, que disfarçam, sorrindo enquanto decidem como entrarão na adega. O diretor então passa a incluir planos da bandeja de champanhes e do estoque que diminui, mostrando a preocupação de Alicia com a quantidade de bebidas, pois, obviamente, Alexander vai precisar da chave. Em seguida, o casal desce na adega, mas Devlin derruba e quebra uma garrafa, revelando o conteúdo suspeito da mesma, ao mesmo tempo em que Alexander decide buscar mais bebidas para a festa. Auxiliado pela excelente montagem de Theron Warth, Hitchcock alterna entre a chegada de Alexander e as ações do casal na adega, tornando a cena ainda mais tensa. Rapidamente, enquanto Alexander se aproxima, Devlin limpa o local e decide beijar Alicia, despistando, ao menos por um tempo, o que a dupla de fato fazia ali. Mas Alexander sentirá falta da chave, criando uma suspeita que se confirmaria no dia seguinte, quando ela reaparece no quarto deles – acertadamente, Hitchcock destaca a chave com a palavra “UNICA”. Sentindo-se traído, ele entra na adega, descobre a garrafa quebrada e confirma sua expectativa. A narrativa sofre uma reviravolta. Nós sabemos que Alexander está ciente da função de Alicia, mas ela não sabe. Seguindo os conselhos da mãe para evitar ser acusado de assassinato, o marido passa a envenenar lentamente a esposa através do café – e Hitchcock faz questão de destacar as xícaras de café, fazendo com que o espectador, novamente, saiba mais que a personagem, que toma o café envenenado dia após dia. Aliás, a primeira vez que o diretor faz isso é num travelling genial, que se inicia na xícara de café, passa pela mãe de Alexander e termina na sonolenta Alicia, deixando claro para o espectador o que está acontecendo.

Mesmo doente, Alicia evita tocar no assunto quando encontra Devlin numa praça, num diálogo interessante que confirma o quanto ambos estão ressentidos pela relação que não deu certo. O orgulho impede que eles se aproximem e se abram, impedindo também que Devlin descubra o que acontece com Alicia. Mas ela mesma descobrirá porque está doente quando, em outra cena marcante, a câmera viaja pela xícara e vai até ela, segundos antes do médico ameaçar tomar o café de Alicia, provocando a reação imediata e impulsiva de Alexander e sua mãe. Alicia percebe na hora o que está acontecendo – algo destacado através de um zoom no rosto impaciente da mãe de Alex – e a câmera subjetiva distorce as imagens indicando que ela está passando mal. Desconfiado e sentindo falta da amada, Devlin decide visitar a casa dos Sebastian, nos levando ao tenso final em que ele foge com Alicia nos braços, inteligentemente usando os colegas alemães de Alexander para ameaçá-lo, descendo as longas escadarias da casa lentamente até sair pela porta. A frase final “Alex, não vai entrar?” é cruel e sela o destino do nazista.

Hitchcock usa uma história de espionagem como pano de fundo para nos contar outra história ainda mais interessante, sobre o amor de dois homens pela mesma mulher e sobre a paixão de duas pessoas orgulhosas e incapazes de se abrir. Alicia esperava que Devlin intercedesse por ela, mas nunca disse isto pra ele. Devlin esperava que Alicia desistisse da idéia do casamento, mas também nunca falou nada pra ela. E este silêncio poderia custar caro… Para ambos. Ainda que tenha muito suspense, “Interlúdio” revela-se uma grata surpresa na filmografia de Hitchcock, justamente por trazer no pacote do tradicional thriller, uma bela e clássica história de amor proibido.

Texto publicado em 31 de Maio de 2011 por Roberto Siqueira

REBECCA – A MULHER INESQUECÍVEL (1940)

(Rebecca)

 

Filmes em Geral #53

Vencedores do Oscar #1940

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Laurence Olivier, Joan Fontaine, George Sanders, Judith Anderson, Gladys Cooper, Nigel Bruce, Reginald Denny, C. Aubrey Smith, Florence Bates, Leonard Carey, Leo G. Carroll, Edward Fielding, Lumsden Hare, Forrester Harvey, Philip Winter e Alfred Hitchcock.

Roteiro: Robert E. Sherwood e Joan Harrison, baseado em livro de Daphne Du Maurier.

Produção: David O. Selznick.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Hitchcock era um prestigiado jovem diretor inglês quando aceitou o convite do produtor David O. Selznick para trabalhar nos Estados Unidos, dando início a uma fase marcante em sua carreira, que renderia muitas obras-primas e filmes de excelente qualidade como este “Rebecca, a mulher inesquecível”, que marcou sua estréia na fase “hollywoodiana”. E logo em sua estréia, Hitchcock deixou sua marca, entregando um filme instigante, dirigido com maestria e com uma narrativa surpreendente, que nos balança não apenas com uma, mas com duas reviravoltas desconcertantes.

Uma jovem de origem simples (Joan Fontaine) viaja como “acompanhante” da importante Sra. Edythe Van Hopper (Florence Bates) e acaba conhecendo o rico e nobre inglês George De Winter (Laurence Olivier), que a pede em casamento, mas ainda vive atormentado pelas lembranças do falecimento de sua esposa Rebecca, que morreu afogada no mar. Após chegar à imponente mansão dele em Manderlay, ela passa a viver ameaçada pelo fantasma da ex “Sra. De Winter”, sob os olhares atentos dos empregados, que simplesmente amavam a falecida esposa de George.

Escrito por Robert E. Sherwood e Joan Harrison, baseado em livro de Daphne Du Maurier, “Rebecca, a mulher inesquecível” conta a história de amor entre uma jovem humilde e um nobre inglês, mas jamais passa perto de um romance no sentido clássico da palavra. Criativo e com boas reviravoltas, o roteiro de Sherwood e Harrison usa o fantasma da morte da personagem título como agente criador de um suspense crescente, usando a falta de confiança da nova Sra. De Winter para plantar a dúvida na platéia sobre as reais intenções do rico George. Ciente do material que tinha em mãos, Alfred Hitchcock usa toda sua capacidade como diretor para criar uma atmosfera tensa desde a promissora introdução da narrativa, através da câmera subjetiva que nos leva pelos sonhos da protagonista enquanto ela recorda Manderlay. Esta sensação é reforçada pelos estranhos personagens que habitam a mansão, como a assustadora governanta Danvers (Judith Anderson), e pela própria mansão, fotografada brilhantemente por George Barnes, que mistura a luz que entra pelas janelas e as fortes sombras que se espalham pelo ambiente, permitindo ao diretor criar planos marcantes. Desta forma, a mansão parece ganhar vida e tornar-se ainda mais ameaçadora, especialmente na ala proibida, onde Rebecca vivia (observe como a trilha sombria embala o momento em que vemos a porta do quarto dela pela primeira vez). Aliás, Hitchcock faz questão de ressaltar o espanto da moça ao ver a imponente mansão pela primeira vez, já ilustrando o quanto ela se sentiria intimidada naquele ambiente (o espectador já tinha visto a mansão nos primeiros planos do filme e, por isso, não sente o mesmo impacto dela). Vale destacar ainda a capacidade de Hitchcock de criar suspense a partir de coisas simples, como quando usa o telefone tocando num quarto de hotel de maneira brilhante para provocar tensão quando a jovem tenta encontrar De Winter e evitar seguir viagem para Nova York.

Após um início desastroso, a jovem e o nobre inglês tem um diálogo interessante no café da manha no hotel, que dá início ao relacionamento entre a futura Sra. De Winter e seu pretendente. E graças à boa atuação da dupla, a forma como a relação se consolida é muito natural, crescendo dia após dia através dos encontros do casal. E são nestes encontros que surgirão as primeiras dicas da reviravolta na trama, como quando De Winter sai aborrecido após ela falar sobre o mar – só que, neste instante, pensamos que ele sofre pelo trauma da perda da esposa. Após esta fase de aproximação, com direito a flores antes da partida para Manderlay, o casal finalmente desembarca na famosa mansão onde a atuação de Joan Fontaine crescerá bastante. Esbanjando simplicidade, Fontaine vive a Sra. De Winter com seu jeito meigo e humilde, mas também ilustra bem o desconforto da garota diante de tanto luxo e das novas responsabilidades, demonstrando claramente o quanto ela está intimidada naquele ambiente. Este deslocamento fica evidente, por exemplo, quando por diversas vezes os empregados da mansão tentam fazer algo para ela (como servir o café ou abrir uma porta) e ela sempre se antecipa, justamente por não estar acostumada com este tratamento. Sentindo-se verdadeiramente um peixe fora d’água, ela não consegue assumir sua posição de “Sra. De Winter”, como fica claro quando ela atende uma ligação do jardineiro e responde que a Sra. De Winter morreu há um ano – e até mesmo suas roupas simples ilustram sua personalidade e sua origem humilde. Atormentada, quebra ainda um objeto precioso da casa e o esconde, num ato infantil que traria problemas para os empregados no futuro. Estes problemas só não se tornaram ainda maiores porque George é um homem direto, que resolve os problemas imediatamente e sem provocar grandes polêmicas. Interpretado por Laurence Olivier, George De Winter é, no entanto, um personagem atormentado pelo passado, que vive tentando esquecer a tragédia que assolou sua vida e, talvez por isso, apresenta uma oscilação radical de humor – algo que Olivier demonstra muito bem, mudando da serenidade para repentinas explosões com precisão. Ainda assim, ele parece de fato amar a nova Sra. De Winter, sempre se arrependendo de suas explosões logoem seguida. Oator é competente até mesmo ao manter o segredo de seu personagem, fazendo seu medo do mar parecer um trauma pela morte da esposa na maior parte do tempo, o que aumenta o impacto de sua revelação.

Entre o elenco, merece destaque também a atuação de Florence Bates como a falastrona Sra. Edythe Van Hopper, que consegue nos irritar de maneira encantadora com sua petulância, por exemplo, quando avisa sobre as intenções de De Winter, dizendo que ele quer apenas uma substituta para Rebecca e que a jovem não se enquadraria nesta função, plantando a dúvida que atormentaria a garota em grande parte do tempo. Já Judith Anderson tem uma atuação marcante como a fria governanta Danvers, com seu rosto gélido e sua expressão quase imutável sempre que entra em cena, se destacando na tensa seqüência em que tenta convencer a Sra. De Winter a se suicidar, sussurrando palavras em seu ouvido durante a festa à fantasia. Finalmente, Gladys Cooper vive a simpática e elegante irmã de Winter, Beatrice Lady, que parece de fato querer ajudar a nova Sra. De Winter e há também o curioso cachorro Jasper, que aparece muitas vezes, reforçando a predileção de Hitchcock pela aparição de animais em seus filmes.

Na parte técnica, destaque para a direção de arte de Lyle R. Wheeler, que cria cenários fabulosos, como a própria mansão Manderlay, decorando muito bem seus enormes cômodos e quartos com lustres marcantes, além da imponente mesa que se destaca na bela sala de jantar, apresentada através de um belo zoom out. Aliás, o bom trabalho de Wheeler fica evidente desde a decoração do hotel onde o casal se encontra pela primeira vez, como podemos notar nas habitações e no restaurante onde eles tomam café da manhã. E vale destacar também a estranha casa a beira-mar, que abriga as lembranças amargas de Winter e serve para reforçar a atmosfera sombria da narrativa. Destaque também para a trilha sonora de Franz Waxman, que aparece em grande parte do tempo, normalmente com melodias lentas, mas acentuando os momentos de suspense, como quando a Sra. De Winter caminha perto do mar, e para os bons efeitos visuais, que tornam o incêndio que destrói a mansão em algo realista para a época.

O grande truque da narrativa de “Rebecca, a mulher inesquecível” é que Hitchcock cria o “mito” Rebecca sem jamais mostrá-la de fato, a não ser através de um quadro na parede. O mestre sabe que desta maneira o espectador imagina a mulher ideal, num pensamento reforçado através de pequenos objetos com a letra “R”, que nos lembram constantemente da antiga esposa de Winter. E esta idealização da mulher perfeita é reforçada ainda pela forma como as pessoas se referem a ela, como quando Frith (Edward Fielding) afirma que “Rebecca era a criatura mais linda que ele já viu” (observe como o zoom out diminui os personagens neste momento, refletindo o sentimento da protagonista, que se sente inferiorizada). Desta forma, quando De Winter diz que ela era o demônio em pessoa, o choque no espectador é ainda maior, pois, até este instante, imaginávamos que Rebecca era uma mulher magnífica e amada pelo viúvo. Mas, numa discussão calorosa com sua nova esposa, Winter revela que não amava Rebecca, destruindo a imagem criada na mente do espectador e criando uma interessante reviravolta na narrativa (repare como a câmera de Hitchcock simula a movimentação de Rebecca no momento de sua morte, nos fazendo imaginar a cena). Agora que o barco dela havia sido descoberto, ele seria acusado de assassinato. Passamos então a temer por seu destino e, mesmo ao vê-lo afirmar que não a matou, ainda temos dúvida a respeito.

Chegamos então à longa (porém necessária) investigação do caso. E apesar de não termos certeza de que ele é inocente, torcemos por Winter, até porque neste momento já criamos empatia pelo casal principal (o que é mérito da narrativa bem conduzida por Hitchcock e das boas atuações de Olivier e Fontaine). Sabendo disto, Hitchcock, auxiliado pelo montador Hal C. Kern, prolonga ao máximo a resolução do caso, inserindo novos elementos que nos levam a pensar que Winter pode ser culpado, através do detestável Jack Favell (George Sanders), que afirma ser a gravidez de Rebecca a razão do assassinato. Esta angústia só terminará em outra reviravolta da narrativa, quando o médico afirma que Rebecca tinha câncer – o que, por outro lado, faz Winter pensar que ela premeditou tudo para incriminá-lo, destruindo de vez a imagem de Rebecca. Livre, ele volta para Manderlay, mas um incêndio provocado pela Sra. Danvers destrói o lugar que tanto o fez sofrer.

O controle absoluto da narrativa e a habilidade de criar suspense a partir de situações do cotidiano já apareciam neste ótimo “Rebecca, a mulher inesquecível”, que marcou a estréia de Hitchcock nos Estados Unidos e levou o Oscar de Melhor Filme. Usando o deslocamento normal de uma pessoa que passa a integrar um lar destruído por uma tragédia, Hitchcock consegue criar uma narrativa envolvente, prendendo a atenção da platéia do primeiro ao último plano e fazendo do filme uma obra tão inesquecível quanto sua personagem-título.

Texto publicado em 30 de Maio de 2011 por Roberto Siqueira

Especial Hitchcock

Olá pessoal,
 
Resolvi transformar o post divulgado ontem em página (link na página inicial, lado direito). Desta forma, você poderá acessar sempre que quiser o “Especial Hitchcock“. Pretendo fazer o mesmo com os especiais “Disney” e “Chaplin” em breve.
 
Um grande abraço e aguardem, pois hoje sai a primeira crítica da semana Hitchcock.

Texto publicado em 29 de Maio e atualizado em 30 de Maio de 2011 por Roberto Siqueira

Imagens: Psicose (1960)

Olá pessoal!

Para preparar o clima da nossa próxima semana especial, resolvi seguir com o projeto de atualização das críticas com imagens, desta vez com a crítica do clássico “Psicose” (1960), agora devidamente ilustrada. Vale lembrar que o texto permanece o mesmo do dia de divulgação.

Um abraço.

Texto publicado em 28 de Maio de 2011 por Roberto Siqueira

Cinegibi

Nas últimas semanas, comecei a viver uma experiência única e marcante na minha vida. Após passar pela fase em que não conseguia olhar por mais de 2 minutos para a televisão, o Arthur finalmente começou a dedicar boa parte de seu tempo na deliciosa tarefa de assistir desenhos animados, o que levou o papai e a mamãe a conferir as novidades do Discovery Kids e, conseqüentemente, me obrigou a rever alguns dos meus conceitos sobre estes desenhos.

De fato, ainda considero que os desenhos da minha época na televisão aberta eram melhores, mas sou obrigado a concordar que a qualidade dos desenhos da Discovery (que não é televisão aberta) é muito boa e, o que é melhor, os desenhos costumam ser muito educativos. Mas, divago, afinal, esta não é uma análise da qualidade dos desenhos.

Em função disto, finalmente pude começar a assistir alguns dos DVD’s que comprei pra ele (e ver meu meninão olhando todo feliz para a tela é algo que, não nego, me enche de orgulho). A Dri teve a felicidade de assistir primeiro alguns deles, até que neste fim de semana nos sentamos para acompanhar o primeiro “Cinegibi” de Mauricio de Souza.

E que maravilhosa surpresa foi acompanhar este DVD! Obviamente, o talento de Mauricio de Souza nos quadrinhos é notório, mas já fazia muito tempo que eu não assistia a um filme da “Turma da Mônica”, e, sinceramente, não sabia o que esperar. Mas, tirando as intervenções nada agradáveis de artistas (que até podem funcionar com as crianças hoje, mas que perderão a graça no futuro), posso afirmar que me diverti bastante com as historinhas inocentes de Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali. E me diverti ainda mais com o clipe de abertura do DVD, que deixo como brinde pra vocês leitores logo abaixo.

Assistir um bom filme é algo maravilhoso. E que bom que nossas crianças podem contar com pessoas talentosas como o Mauricio para embarcar neste mundo tão fascinante.

Parabéns Mauricio!

Excelente abertura do “Cinegibi”, de Mauricio de Souza, que homenageia grandes filmes do passado.

Texto publicado em 25 de Maio de 2011 por Roberto Siqueira

Libertadores

Pra variar, um pitaco sobre futebol em época de Libertadores.

Já questionei inúmeras vezes a superioridade do chamado “melhor futebol do mundo”. Considero o futebol brasileiro “um dos” melhores praticados no planeta, mas discordo totalmente da superioridade pregada por torcedores e jornalistas ao longo dos anos. Superioridade tem os EUA no basquete e ponto final. Até mesmo no vôlei temos mais condições de nos considerar melhores que no futebol atualmente.

E se nas seleções este domínio já foi colocado em xeque nos últimos anos, é nos clubes que isto fica ainda mais evidente, quando ficamos perplexos com “miercollazos” da vida, como na quarta-feira histórica em que fomos eliminados, quase que ao mesmo tempo, por uruguaios, paraguaios, chilenos e colombianos na Copa Libertadores.

Dito isto, volto a repetir que considero nosso futebol muito forte, só não acho que somos tão superiores aos outros. Nas seleções, temos a forte concorrência do sempre eficiente futebol alemão, da nova força mundial Espanha, além das tradicionais Itália (hoje em baixa), França (em recuperação) e Argentina (sempre perigosa). Nos clubes, nossa “superioridade” é ainda mais questionável, tendo em vista que nos últimos 10 anos ganhamos apenas 3 Copas Libertadores, contra 4 títulos argentinos – Equador, Paraguai e Colômbia ganharam uma vez cada. Somos bons, mas existem muitas equipes boas espalhadas pela América do Sul (e não é surpresa que muitos dos grandes nomes do futebol brasileiro hoje sejam estrangeiros, como Conca, Montillo e Valdívia, além dos recentes sucessos de Tevez e Petkovic, pra citar apenas alguns deles).

A Copa Libertadores é uma competição diferente, onde não apenas a técnica leva ao título, mas também a tradição, o espírito de luta (a famosa garra) e, obviamente, a disciplina tática das equipes.

Por tudo isso, acredito que neste ano temos um forte candidato a manter a taça em nosso país, já que o Santos de Muricy conta com muito talento (Neymar é craque, Ganso também), mas também sabe portar-se taticamente e jogar pelo resultado.

Por outro lado, acompanhei algumas partidas do Velez e fiquei bastante impressionado com a qualidade da equipe argentina, nem tanto tecnicamente, mas pelo jogo coletivo de excelente qualidade. A vitória sobre o Libertad mostrou uma consistência impressionante no meio campo formado por Razzotti, Alvarez, Fernández e Zapata, com Moralez fazendo o papel do “enganche” na articulação das jogadas para o matador “el tanque” Santiago Silva.

Sei que posso quebrar a cara novamente ao arriscar prever resultados, mas arrisco dizer que a final será entre Santos e Velez, por mais que Cerro e, principalmente, Peñarol também tenham camisas tradicionais e possam complicar.

E aí, na final, não arrisco mais nada. Só torço por dois bons jogos. E se esta for a final, com certeza veremos o que de melhor temos na América do Sul hoje.

E você, o que acha do futebol brasileiro atualmente e que times gostaria de ver na final da Copa Libertadores?

Um abraço.

Santos de Neymar X Velez de Moralez: a grande final?

Texto publicado em 23 de Maio de 2011 por Roberto Siqueira

OSCAR 1994: A LISTA DE SCHINDLER X O PIANO

Seguindo minha comparação entre o vencedor do Oscar de Melhor filme e aquele que eu considerei como a melhor produção do ano, chega à vez do ano de 1993 (Premiação em 1994), outro ano em que concordei com o escolhido da Academia. O ano de 1993 apresentou uma safra respeitável de filmes, como atestam os thrillers “A Firma” e “O Fugitivo”, os respeitáveis “Vestígios do dia” e “Em nome do pai”, o criativo “Short Cuts – cenas da vida” e os empolgantes “Kalifornia” e “Um Dia de Fúria”. Além destes bons filmes, tivemos o tocante “A Liberdade é Azul”, o corajoso “Filadélfia” e o eletrizante “Jurassic Park”, com os dinossauros de Spielberg detonando nas bilheterias. O ano ainda apresentou o excepcional “Um Mundo Perfeito”, que já revelava os novos caminhos que Clint Eastwood seguiria na direção. Mas os filmes que monopolizaram as premiações daquele ano foram mesmo “A Lista de Schindler” e “O Piano”. E, sinceramente, apesar de gostar do longa estrelado por Holly Hunter, não entendo como obras como “Um Mundo Perfeito” e “A Liberdade é Azul” não foram reconhecidas nas premiações daquele ano. Por outro lado, a academia acertou ao reconhecer a atuação de Tom Hanks em “Filadélfia” e os méritos técnicos de “Jurassic Park”. E acertou mais ainda ao premiar a obra-prima “A Lista de Schindler”, que, com todos os méritos, levou a grande maioria dos prêmios da noite e confirmou o ano excepcional de Steven Spielberg.

Porque “A Lista de Schindler” é melhor?

Por mais interessante que seja “O Piano” ou qualquer outro filme do ano, seria uma tremenda injustiça não reconhecer a importância da obra de Spielberg, que retrata a vida de Oskar Schindler com enorme sensibilidade e competência. O filme tem momentos melodramáticos? Tem. Mas são momentos coerentes com a vida daquele homem. Não chorar neste filme é praticamente impossível e requer um esforço enorme (ou um coração de pedra). E além de toda a carga dramática que a história narrada naturalmente evoca, o longa é praticamente perfeito em todos os aspectos técnicos, além de contar com atuações inspiradas. Por tudo isso, eu votaria de olhos fechados em “A Lista de Schindler” naquele ano.

E pra você, qual o melhor filme de 1993 e por quê?

Um abraço e bom debate.

PS: Para ver Spielberg vencendo seu primeiro Oscar, clique aqui. Para ver o anúncio do vencedor de melhor filme, clique aqui.

Texto publicado em 18 de Maio de 2011 por Roberto Siqueira

UM MUNDO PERFEITO (1993)

(A Perfect World)

 

Videoteca do Beto #97

Dirigido por Clint Eastwood.

Elenco: Kevin Costner, Clint Eastwood, Laura Dern, T.J. Lowther, Keith Szarabajka, Leo Burmester, Paul Hewitt, Bradley Whitford, Ray McKinnon, Jennifer Griffin, Leslie Flowers, Belinda Flowers e Darryl Cox.

Roteiro: John Lee Hancock.

Produção: Clint Eastwood, Mark Johnson e David Valdes.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Depois de ressuscitarem o western e arrebatarem 2 Oscar de melhor filme num período de apenas 3 anos, Clint Eastwood e Kevin Costner decidiram se juntar neste belo “Um Mundo Perfeito”, um drama comovente sobre a amizade entre um seqüestrador e sua vítima, um garoto de apenas 8 anos de idade. Aliás, o longa faz mais do que isso, analisando com cuidado os problemas provocados pela falta da figura paterna e os traumas que o meio em que somos criados podem deixar em nossas vidas, seja este um bordel ou um lar de rígida criação religiosa.

Nos anos 60, Butch Haynes (Kevin Costner) foge de uma prisão no Texas junto com Terry Pugh (Keith Szarabajka). No caminho, eles acabam invadindo uma casa e acordando toda a vizinhança com o barulho, o que força a dupla a levar o menino Phillip (T.J. Lowther), de apenas 8 anos de idade, como refém. Tem inicio então uma verdadeira caçada, liderada pelo Texas Ranger Red Garnett (Clint Eastwood) e pela inteligente Sally Gerber (Laura Dern). Mas o que ninguém imaginava acontece e, durante a fuga, Butch e Phillip acabam se tornando amigos.

Poucas situações devem ser tão desesperadoras quanto o seqüestro de um filho. E este terrível crime é o ponto de partida deste “Um Mundo Perfeito”, que, curiosamente, praticamente não mostra o sofrimento da mãe desesperada do garoto Phillip, a não ser pelo breve zoom que destaca, por alguns segundos, sua aflita feição ao ver o carro levando seu menino. Escrito por John Lee Hancock, o roteiro aborda, na maior parte do tempo, o relacionamento que nasce desta situação, entre o criminoso Butch e o menino seqüestrado. Em certo momento, a personagem Sally diz que “num mundo perfeito, estas coisas não aconteceriam”, e é justamente aí que reside a mensagem principal da narrativa. O mundo não é perfeito, as pessoas não são perfeitas e, por isso, é difícil rotular alguém como “bom” ou “mau” e definir o que é certo e errado.

Tecnicamente, “Um Mundo Perfeito” é discreto e eficiente, como podemos notar na fotografia de Jack N. Green, que explora bem a beleza das paisagens que cercam as estradas, auxiliando Eastwood a criar belos planos, mas evita usar cores muito alegres, refletindo o tom melancólico da narrativa. Além disso, Green cria um visual sombrio tanto na cena da fuga como no momento do seqüestro, o que soa correto, dado a tensão destes dois momentos. Já a direção de arte de Jack G. Taylor Jr. colabora na ambientação aos anos 60, com os carros de época e a arquitetura das casas, e a trilha sonora de Lennie Niehaus alterna momentos de pura melancolia com outros mais empolgantes, refletindo o estado de espírito da dupla Butch e Phillip, além de rechear a narrativa com belas canções dos anos 60, como na linda cena em que Butch fala sobre o pai de Phillip e sobre o próprio pai (“Nossos velhos não valem nada”), deixando claro que ambos sentiam falta da figura paterna.

Com a costumeira segurança e eficiência, Eastwood conduz a narrativa de maneira envolvente, graças também a montagem de Joel Cox e Ron Spang, que alterna num ritmo delicioso entre as seqüências que mostram a fuga de Butch e Phillip e as que focam na perseguição conduzida por Red, sabendo dar prioridade a linha narrativa principal, claramente mais interessante que aquela envolvendo os conflitos entre Red e Sally. Além disso, o diretor mostra a costumeira elegância na construção de momentos belíssimos, como a cena de abertura, em que Butch, deitado na grama, olha para o céu, com a máscara do gasparzinho jogada ao seu lado, dinheiro voando e o som do helicóptero ao fundo – este início misterioso será perfeitamente compreendido no emblemático final de “Um Mundo Perfeito”. O diretor sabe ainda quando sair do costumeiro estilo clássico e contemplativo, empregando movimentos de câmera diferenciados, como o plano subjetivo que nos coloca sob o ponto de vista de Pugh enquanto ele observa a mãe de Phillip, segundos antes de ele invadir a casa, ou através da câmera que sacoleja durante a perseguição em que Butch despista os policiais, além de acertar a mão nas cenas mais tensas do longa, como o seqüestro de Phillip, que só ocorre após a chegada de um vizinho, ou a tensa fuga da loja “Friendly’s”, com a policia cercando Butch com dois carros e Phillip esperando na porta da loja, com a fantasia de gasparzinho escondida sob a blusa. Repare ainda que, nesta cena, Eastwood destaca o rosto de Phillip através de um zoom, evidenciando o momento em que ele decide ir com Butch, vencendo um conflito interno provocado pela forte criação religiosa, como ficaria evidente mais pra frente, quando ele diz pra Butch que iria para a cadeia e para o inferno por roubar a fantasia. Aliás, é exatamente nestes momentos que exigem sensibilidade que o trabalho de Clint tem maior destaque, conduzindo as cenas com perfeição, como quando o garoto Phillip, triste por não poder participar do Halloween, fica olhando para a rua, enquanto os outros garotos da sua idade se divertem e jogam frutas no vidro da janela dele. Finalmente, o diretor mostra ainda versatilidade e balanceia a pesada narrativa com pequenos momentos de alivio cômico, como quando Phillip faz xixi enquanto Butch rouba um carro ou quando ele solta o freio do carro numa ladeira, além do engraçado momento em que o governador se gaba do novo veículo para a imprensa e, no plano seguinte, vemos os policiais a pé e o veículo batido nas árvores.

Além de saber o que fazer com a câmera, Eastwood também consegue extrair excelentes atuações de todo elenco, a começar por Keith Szarabajka, que se sai bem como Pugh, especialmente na cena que conversa com Phillip enquanto o garoto aponta uma arma pra ele. Já Laura Dern se sai muito bem quando Sally confronta Red no carro, tentando pensar estrategicamente e não apenas seguir os instintos policiais, além de se destacar quando a personagem fala como se fosse Butch, tentando pensar como ele, o que funciona também como forma de apresentar o passado difícil do criminoso ao espectador. Com seu estilo pratico de resolver os problemas e o chapéu de “durão”, o Red de Eastwood parece mesmo estar numa caçada, algo reforçado pelo constante uso do termo “man hunt” (algo como “caçada humana”). Eastwood também se sai bem na cena em que Red ameaça um federal por mexer com Sally, mostrando autoridade e soando convincente. Aliás, a dupla Eastwood e Dern também se destaca na sincera conversa sobre o passado de Butch, quando Red admite ter subornado um juiz para mandar o garoto ao reformatório e livrá-lo do pai criminoso, num dialogo que também funciona como uma crítica a estas instituições, que, em muitas vezes, acabam piorando o jovem ao invés de recuperá-lo.

Mas o grande destaque fica mesmo para a dupla vivida por Kevin Costner e T.J. Lowther. Convincente no papel de um criminoso fugitivo, Costner impõe respeito, por exemplo, nas discussões com Pugh, como quando “explica” pra ele a diferença entre ameaça e fato. Só que, curiosamente, mesmo sendo um bandido e mostrando que é perigoso ao matar o parceiro de fuga, o espectador acaba simpatizando por Butch, talvez pelo carisma de Kevin Costner, mas também por causa da maneira afetiva que o ladrão trata o garoto Phillip. Por exemplo, logo após matar Pugh, Butch não obriga o garoto a vir com ele, perguntando se ele prefere ficar. A resposta do garoto marca o inicio de uma relação praticamente de “pai e filho”, que duraria somente alguns dias, mas marcaria a vida dele eternamente. Obviamente, a empatia entre Costner e o garoto Lowther é essencial para o sucesso da narrativa e a dupla se sai muito bem. Aliás, Lowther tem uma ótima atuação, misturando a inocência da criança e a curiosidade de alguém que sente falta não apenas da figura paterna, mas de poder fazer o que as outras crianças de sua idade fazem. Para ele, Butch representa o pai que tanto lhe faz falta, permitindo ao garoto fazer coisas que ele sempre sonhou, como tomar refrigerantes à vontade, brincar de “montanha russa” em cima do carro, comer doces e dirigir um carro. Aliás, o próprio Butch sabe a falta que um pai faz, como fica evidente quando ele revela a razão da escolha do Alasca como destino de sua viagem. Juntos, eles vivem momentos que só um pai vive com um filho, como quando Butch diz que o pênis de Phillip tem um bom tamanho pra idade dele e o garoto abre um largo sorriso no rosto. Esta relação amigável e sincera nos leva a emblemática cena em que o criminoso para na beira da estrada e encosta no carro, sendo imitado por Phillip em seguida. O garoto já tinha desenvolvido uma enorme admiração por ele. Esta admiração se transforma em carinho de verdade quando ele diz que não pode brincar de “travessuras e gostosuras” por causa da religião, provocando a revolta de Butch (e Eastwood diminui o garoto no plano nesta cena, mostrando seu sentimento de inferioridade por causa disto). O criminoso pergunta se ele quer brincar e ele aceita, ficando tão feliz que chega a pegar na mão do bandido enquanto caminha em direção a casa. E apesar de resistir inicialmente, Butch acaba pegando na mão do garoto. Os dois chegam inclusive a viver um pequeno conflito, quando Phillip vê Butch transando com uma atendente num bar, que resulta numa interessante conversa entre eles. E após rirem do episódio, Butch pede para que Phillip faça uma lista de desejos, num momento tocante. Em pouco tempo, Butch ensinou mais sobre a vida para o garoto do que os pais haviam feito até então.

Só que ao contrário do que indica o nome do filme, o mundo não é perfeito. E, obviamente, Butch também não é. E começamos a ter indícios de seu comportamento violento quando ele fica muito bravo ao ver uma mãe maltratando suas crianças (algo que Costner demonstra com o semblante), revelando um lado de sua personalidade que seria vital no clímax da narrativa. E apesar de admirar uma pessoa controlada, como deixa claro ao elogiar Bob por não reagir ao roubo do carro, protegendo a família (“Este é o melhor tipo de pessoa que um homem pode ser”, afirma), ele não conseguirá se controlar ao ver outra criança apanhando. Justamente por isso, a cena na casa do caseiro é essencial para compreender a ambígua personalidade de Butch. Seu lado mais violento vem à tona quando vê pela segunda vez o dono da casa batendo no filho (repare a expressão de ódio de Costner, que explode em cena). Numa síntese de todo o filme, a cena é dominada pelo clima tenso e, ao mesmo tempo, comovente, quando Butch, pacientemente, amarra toda a família para executar o pai, sob o som da música que, momentos antes, embalava a dança suave de todos eles. Neste momento, o espectador se questiona se aquele é o mesmo homem que vimos ensinando tantas coisas legais para Phillip e a resposta vem no diálogo entre ele e a mulher da casa, que afirma que Butch é um homem bom. Sua resposta é emblemática: “Não sou um homem bom, mas também não sou o pior deles”. O trauma da infância fez com que Butch sentisse ódio ao ver um pai agredindo o filho e ele perde os limites, despertando seus piores instintos. Mas, surpreendentemente, Phillip, chorando muito, atira nele e joga a arma num poço, salvando a família.

Somos levados então ao comovente final de “Um Mundo Perfeito”, com Butch negociando com a mãe de Phillip, pedindo que ela prometa deixar o garoto fazer tudo que gosta. E é difícil segurar as lágrimas ao ver o garoto abraçar emocionado seu seqüestrador antes de partir, de mãos dadas com ele, em direção a polícia. Mas estamos falando de um filme dirigido por Clint Eastwood e, por isso, o final ainda nos reserva um momento dramático, que deixará o espectador perturbado e questionando muita coisa. Os policiais, sem saber que Butch estava desarmado, se preparam para evitar uma tragédia e, por isso, quando ele coloca a mão no bolso, atiram nele. Só que o espectador já sabe que ele está desarmado, e sente, assim como Red e Sally, um gosto amargo na boca ao ver aquele desfecho trágico, em que ninguém pode ser culpado (apesar das agressões ao federal que não obedeceu à ordem de Red). Enquanto o garoto chora e clama por seu amigo, pensamos o quanto a vida pode ser injusta.

Clint Eastwood acerta novamente neste belíssimo “Um Mundo Perfeito”, um drama humano, que comove não apenas pela relação desenvolvida por Butch e Phillip, mas por nos fazer questionar até que ponto nós podemos julgar as pessoas tão superficialmente, sem compreendê-las em toda sua complexidade. Após passar por tudo aquilo e ver o garoto comovido com a morte de seu seqüestrador, Red afirma: “Eu não sei de nada”. Nós também não.

Texto publicado em 15 de Maio de 2011 por Roberto Siqueira