ENTRE DOIS AMORES (1985)

(Out of Africa)

 

Videoteca do Beto #34

Vencedores do Oscar #1985

Dirigido por Sydney Pollack.

Elenco: Meryl Streep, Robert Redford, Klaus Maria Brandauer, Michael Kitchen, Joseph Thiaka, Stephen Kinyanjui, Michael Gough, Suzanna Hamilton, Rachel Kempson, Graham Crowden, Leslie Phillips, Shane Rimmer, Mike Bugara, Job Seda e Mohammed Umar.

Roteiro: Kurt Luedtke, baseado nas memórias de Isak Dinesen.

Produção: Sydney Pollack.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A história real de um romance vivido no Quênia entre uma dinamarquesa da alta classe social e um solitário caçador inglês embala este belo filme dirigido por Sydney Pollack. Baseado nas memórias de Isak Dinesen (no filme a baronesa Karen Blixen-Finecke), “Entre dois amores” retrata muito bem como duas pessoas podem se amar, mesmo tendo enormes diferenças entre si. Mostra também como, por outro lado, estas mesmas diferenças podem prejudicar uma relação que tinha tudo para dar certo.

Karen Blixen (Meryl Streep) é uma rica dinamarquesa que decide morar em uma fazenda no Quênia com o barão Bror Blixen-Finecke (Klaus Maria Brandauer), com quem se casou por conveniência para desfrutar dos benefícios que o casamento lhe garantiria em sua família. O problema é que este casamento entre amigos não é o suficiente para segurar Bror, que simplesmente não consegue viver na fazenda, saindo para caçar constantemente. Pra piorar a situação, pouco tempo depois o barão decide participar da guerra. Sozinha, Karen trabalha pra tocar a vida na fazenda e se adaptar ao novo lar. A situação começa a mudar quando conhece o aventureiro aristocrata inglês Denys Finch Hatton (Robert Redford), por quem se apaixona e tem uma relação amorosa que marca sua vida para sempre.

“Entre dois amores” é um festival de lindas imagens. Os belos planos que exploram a beleza da região, acompanhados de elegantes movimentos de câmera e travellings que sobrevoam as lindas paisagens, são capazes de tirar o fôlego do espectador. O diretor Sydney Pollack – sempre com enquadramentos perfeitos que poderiam se transformar em lindos quadros – apresenta uma direção segura e competente também nas raras seqüências de ação, como nas caçadas em meio à savana africana. Mas Pollack deixa claro que a África (neste caso o Quênia) não é feita somente de belezas naturais, contrapondo com precisão o luxo dos britânicos à miséria dos africanos logo na chegada de Karen ao local, graças ao excelente trabalho de direção de arte do trio Colin Grimes, Cliff Robinson e Herbert Westbrook e aos figurinos de Milena Canonero. Além disso, Pollack consegue criar momentos de incrível realismo e tensão em todas às vezes que envolve os temíveis leões, criando cenas fantásticas e incrivelmente bem montadas. A primeira cena em que uma leoa aparece, colocando a vida de Karen em perigo, é capaz de causar um frio na espinha do espectador. Por outro lado, o diretor também demonstra sensibilidade e capricha nas cenas românticas, com destaque para o primeiro vôo de Denys e Karen, a mais bela cena do filme. Um momento sublime, repleto de imagens de tirar o fôlego, acompanhado pela lenta e linda trilha sonora de John Barry. As imagens não necessitam de palavras para criar um espetáculo visual de primeira grandeza.

Complementando a excelente direção de Pollack, destaca-se o belo trabalho de montagem (crédito para Pembroke J. Herring, Sheldon Kahn, Fredric Steinkamp e William Steinkamp), perceptível no clipe em que Karen conta histórias pela primeira vez, onde o fogo da vela e da fogueira simboliza a passagem do tempo, mostrando também a capacidade de prender a atenção dos visitantes que ela tem. Outra transição interessante acontece quando Karen sabe da doença de Berkeley (Michael Kitchen) e na cena seguinte já vemos o enterro dele. A montagem também confere um ritmo lento, porém agradável à narrativa, o que é essencial num épico de longa duração. Interessante notar como os momentos ao lado de Denys parecem passar mais rápido que os demais, o que se revela bastante coerente, já que a estória é narrada sob o ponto de vista de Karen, obviamente entediada quando distante dele.

A cena em que Karen corre perigo diante de uma leoa marca também o momento de seu reencontro com Denys já no Quênia, após terem se conhecido durante a viagem de trem. O bom roteiro de Kurt Luedtke constrói lentamente o romance entre eles, desenvolvendo com calma os personagens e conferindo consistência para o ponto alto das atuações de Streep e Redford, quando finalmente os conflitos aparecem. Neste momento, suas motivações ficam claras para o espectador, pois sabemos que ela quer um casamento oficial, ao passo que ele deseja “apenas” ser feliz com ela, sem assinar papel e se prender às responsabilidades. “Eu viveria a vida inteira com alguém. Um dia de cada vez.”, explica Denys. Luedtke também acerta ao respeitar a cultura dos nativos africanos, mostrando sua resistência aos costumes ingleses e o sentido de liberdade existente nas tribos da região (especialmente os Masai), notável quando Denys diz que eles não pensam no futuro, vivem somente o presente. Por isso, se são presos morrem. Não conseguem pensar que um dia sairão da prisão. Outra sutileza do roteiro aparece na belíssima resposta de Denys ao Barão (“Devia ter perguntado antes Denys”. “Eu perguntei, ela disse sim”), que obviamente se referia à autorização dele para que Denys ficasse com Karen. A resposta diz muito sobre o personagem, que não entende que as pessoas pertençam a alguém. Em sua visão, todos são livres.

Denys, aliás, é um personagem fascinante, interpretado com competência por Redford, que oferece uma atuação sem excessos, coerente com o simples e idealista aventureiro. Inicialmente, ele parece não dar muita bola para Karen, o que só serve para chamar ainda mais a atenção dela. Por outro lado, a presenteia com uma caneta e uma bússola, o que dá sinais de seu possível interesse. Exímio caçador e profundo conhecedor da região, Denys é um homem livre, que sente prazer nas coisas simples da vida, como uma noite estrelada ou a paisagem das savanas. Seu jeito de viver passa a sensação de que jamais deixaria de fazer algo que gosta para ficar com Karen. Este, pelo menos, é o pensamento dela, o que não a encoraja largar o casamento de fachada, pois se sente insegura. Entretanto, ele é responsável pelos momentos mais marcantes da vida dela. Redford também se sai bem nos momentos cômicos, como nas duas cenas em que brinca com a palavra “Xô” dita por Karen. Klaus Maria Brandauer convence como o Barão Bror Blixen-Finecke, deixando sempre claro que realmente é casado por conveniência, traindo a esposa constantemente e sem fazer questão de esconder isto dela. Sua sinceridade é espantosa, mas como ela mesma propôs o “acordo”, não faria sentido reclamar. E finalmente, Meryl Streep confirma seu enorme talento, numa atuação marcante (repare o perfeito sotaque britânico). Seu casamento de conveniência começa a fazê-la infeliz e sua obrigação de tomar as rédeas da fazenda transforma Karen numa mulher forte, porém extremamente carente afetivamente. Ao conhecer Denys, seu coração balança. Ela sonha viver ao lado dele, mas infelizmente Denys não é este tipo de homem. Curiosamente, ele também não se adapta à vida na fazenda, mas diferentemente de Bror, demonstra carinho quando está com Karen. Durante uma festa de ano novo, o primeiro embate entre a ambição de Karen e a simplicidade de Denys acontece, assim como o primeiro beijo. Posteriormente, a realista discussão na fazenda entre o casal, a respeito do casamento e do compromisso que ele traz, mostra a filosofia do aventureiro em oposição à necessidade dela de sentir que o possui. Ela nunca o teve da forma que queria, mas sempre teve o seu amor e carinho. O problema é que Karen gostava de se sentir segura, como se um papel de casamento fosse garantir que Denys era dela. Ele era dela de fato, mas porque queria, e não porque um papel o obrigava. Só que Karen não entendia desta forma.

O triste e belo final da história é também uma lição. Karen foi forte o suficiente para se adaptar em um país totalmente diferente de seu local de origem. Conheceu pessoas maravilhosas, demonstrou seu lado mais nobre ao se preocupar em deixar seus empregados com algum lugar para viver, mas fracassou na tentativa de compreender o homem que mais amou na vida. Por outro lado, Karen viveu ao lado dele seus momentos mais marcantes, e com certeza, também marcou a vida dele, como Denys deixa claro ao dizer que ela fez sua vida solitária perder a graça.

Contando com duas grandes atuações, “Entre dois amores” capta com precisão a experiência de duas pessoas que se apaixonam lentamente, vivem esta imensa paixão, mas jamais conseguem compreender a natureza um do outro. Lindamente fotografado e dirigido com competência, seu ritmo lento parece prolongar sua duração, mas esta impressão é amenizada pelas lindas paisagens e a bela história de amor que narra. Por isso, se estabelece como um filme sensível, poético e inegavelmente belo.

Texto publicado em 07 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira

Próxima crítica

Em 2010, além de divulgar muitas críticas (especialmente da Videoteca do Beto), pretendo melhorar a cara do Cinema & Debate, sempre com a intenção de torná-lo um blog mais atraente visualmente e, principalmente, de fácil navegação.

E dando início à série de mudanças que tenho em mente, segui a dica do meu primo Thiago (Brasil Inteligente) e de sua noiva e minha amiga Amanda (Intelecto Digital) e coloquei no canto direito superior da página inicial a imagem da próxima crítica que será divulgada no Blog. Vi este recurso no blog deles e achei uma idéia interessante, já que permite aos leitores saber qual será a próxima crítica que poderão ler.

Tenho inúmeras outras novidades em mente e vou colocá-las em prática com o tempo. Espero que gostem.

Um grande abraço.

Texto publicado em 06 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira

DE VOLTA PARA O FUTURO (1985)

(Back to the Future) 

 

 

Videoteca do Beto #33

Dirigido por Robert Zemeckis.

Elenco: Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Lea Thompson, Crispin Glover, Thomas F. Wilson, Claudia Wells, Mark McClure, Wendie Jo Sperber, George DiCenzo, Lee McCain, James Tolkan e Billy Zane.

Roteiro: Robert Zemeckis e Bob Gale.

Produção: Neil Canton e Bob Gale. Produção Executiva de Steven Spielberg.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A curiosidade comum à maioria dos filhos sobre a época em que seus pais eram jovens é o fio condutor desta produção absolutamente encantadora dirigida por Robert Zemeckis e produzida por Steven Spielberg. Como eles eram? O que faziam? Será que tinham os mesmos dilemas, dúvidas e preocupações? Como se divertiam? Todas estas respostas são apresentadas ao jovem McFly de forma maravilhosa, explorando ao máximo um roteiro incrivelmente inteligente e original. “De Volta para o Futuro” é uma obra-prima da ficção que mostrou a cara dos anos oitenta como poucas obras fizeram.

A trama do filme é criativa e eficiente. O jovem Marty McFly (Michael J. Fox) aciona acidentalmente uma máquina do tempo criada pelo seu amigo e cientista Dr. Emmett Brown (Christopher Lloyd), retornando ao ano de 1955, onde conhece seu pai, ainda jovem, e posteriormente sua mãe. O problema é que ela acaba se apaixonando por ele e, conseqüentemente, colocando em risco sua própria existência. Desta forma, Marty deverá criar uma maneira para que seus pais se encontrem e fiquem juntos, evitando alterar o curso da história e permitindo o seu próprio nascimento.

Lendo assim, da forma que está, parece complicado. Mas o roteiro perfeito escrito por Robert Zemeckis e Bob Gale faz com que tudo se torne mais simples. Sem nenhum furo, ele consegue fazer com que todas as cenas tenham importância na trama, normalmente apresentando elementos que refletem em outros instantes da narrativa. Não é raro encontrar em uma mesma cena dois ou três elementos que podem ter importância em eventos futuros (ou refletirem atitudes do passado). Note, apenas como exemplo, como o verso do papel onde Jennifer (Claudia Wells) anota seu telefone será de suma importância para que Marty consiga voltar aos anos oitenta posteriormente. Além disso, o roteiro não perde as excelentes oportunidades criadas pela viagem no tempo e oferece piadas impagáveis, como aquela em que Marty toca “Johnny B. Goode”, fazendo com que o primo de Chucky Berry ligue imediatamente pra ele, e logo em seguida, quando Marty toca guitarra com o marcante estilo roqueiro de ser e assusta a platéia, somente para dizer que “eles não estava preparados para aquilo ainda, mas os filhos deles iriam adorar”. Genial.

É claro que a competente direção de Robert Zemeckis também tem muita importância. A começar pelo travelling inicial, que nos mostra os muitos relógios do Dr. Brown (ou “Doc”) simbolizando o tempo, tão importante na narrativa, e as noticias no jornal, rádio e televisão, que servem para nos situar no ano de 1985. Além disso, é perceptível já no primeiro plano do filme a enorme criatividade do Dr. Brown, através da parafernália criada para dar comida ao seu cachorro (não por acaso chamado Einstein) e fazer café. Vale à pena observar também como ao chegar ao centro da cidade, em 1955, Zemeckis diminui Marty em um plano geral que, além de mostrar como era a cidade na época (destacando o ótimo trabalho de direção de arte de Todd Hallowell), ilustra como Marty está perdido naquele local. O diretor cria outro plano excepcional na primeira vez em que pai e filho, agora com a mesma idade, aparecem juntos, colocando-os lado a lado. Este plano é de um simbolismo imenso. Podemos comparar as gerações e até mesmo a personalidade de cada um deles, além de observar o misto de encanto e susto do garoto ao ver o pai tão jovem. Zemeckis também tem mérito na criativa forma utilizada para viajar no tempo. O uso do carro, que lembra uma nave espacial, é genial, pois permite que ele viaje junto e sirva para voltar novamente ao presente.

Outro segredo da enorme empatia que o filme cria no espectador está na química perfeita entre o jovem Marty e o cientista “Doc”. Mérito das excelentes atuações de Michael J. Fox, que esbanja jovialidade e simpatia, e Christopher Lloyd, com seu jeito maluco e exagerado que casa muito bem com o personagem (seu visual se inspirou em Einstein, que dá nome ao seu já citado cachorro). Sempre inquieto, seu olhar arregalado e sua energia refletem muito bem a ansiedade do criativo cientista, sempre em busca de novas descobertas. Já o jovem Marty é o elo perfeito entre o filme e o público. É maravilhoso acompanhar, através do olhar dele, como seus pais eram jovens normais, que tinham paixões, dilemas, dúvidas e até mesmo vícios. Sua família problemática (tio preso, pai recatado e sufocado pelo chefe, mãe alcoólatra e irmãos inúteis) colabora com nossa imediata identificação com o personagem, além é claro do inegável carisma de Fox. E aqui o filme também cria conexões com o passado, já que a forma de agir no presente apenas reflete atitudes tomadas na juventude do casal. Repare como Lorraine McFly (Lea Thompson) recorda com nostalgia a forma que conheceu George (Crispin Glover), que nem sequer presta atenção, pois está ligado no programa de televisão. O desempenho do casal, aliás, merece grande destaque. Crispin Glover oferece um ótimo desempenho como o fracassado George, deixando claro como os traumas da juventude refletiam em sua vida de adulto. Por outro lado, a excelente atuação de Lea Thompson cresce muito durante a juventude de Lorraine. Observe a forma apaixonada com que ela olha para Marty, com a fala ofegante, demonstrando ansiedade ao pedir que ele a convide para o baile. Em outro momento, seu sorriso mistura embaraço e satisfação, ao ouvir Marty falar sobre a possibilidade de um dia ela e George terem filhos. E mesmo quando representa Lorraine já adulta ela não compromete, primeiro passando uma imagem de mãe conservadora, e depois, como reflexo das mudanças no passado, se mostrando uma mãe moderna e muito mais feliz. Lorraine era uma garota como outra qualquer, impulsiva, apaixonada e romântica. Como muitos jovens, tinha vícios (fumava e bebia, o que provoca um choque em Marty), porém, como a maioria dos adultos, pedia ao filho que não tivesse. Lorraine fazia tudo que posteriormente, já como adulta e mãe, proibia os filhos de fazer. Esta atitude, que normalmente é uma forma de tentar proteger os filhos, acaba tendo um efeito contrário em muitos casos, e é interessante notar como até mesmo este tema o filme aborda de forma inteligente e divertida. Finalmente, merece destaque o excepcional desempenho de Thomas F. Wilson como o cruel Biff.

Somente para não deixar passar batido, vale a pena destacar a excepcional maquiagem, notável tanto nos jovens atores, quando estes estão interpretando os pais de Marty, como no envelhecimento de Christopher Lloyd (repare seu pescoço e suas rugas no rosto). A bela trilha sonora é mérito de Chris Hayes e Alan Silvestri. Destaca-se também a excelente montagem de Harry Keramidas e Arthur Schmidt, que mantém um ritmo perfeito para o filme, misturando momentos de ficção, humor, aventura, ação e drama, sempre na medida certa. Existem momentos de ação, aliás, que deixam o espectador grudado na cadeira, como a perseguição em que Marty foge e, acidentalmente, “inventa” o skate e a seqüência angustiante que marca sua volta para 1985 (observe a inteligente transição feita através do plano do relógio). Além disso, o final coerente com as atitudes de Marty no passado (seus pais estão muito bem na vida e Biff é empregado de George), ainda deixa em aberto a seqüência da trilogia.

Explorando com muito talento a enorme curiosidade que os filhos têm de saber como eram os pais na juventude, o filme aproveita para deixar algumas mensagens interessantes. A mais importante delas é a de que as atitudes da juventude ecoam no resto de sua vida. George, por exemplo, era um jovem sem autoconfiança e isto refletia num adulto completamente indefeso e submisso. Pequenas mudanças de atitude no passado mudariam todo o curso de sua história, como o filme mostraria mais pra frente.

Sempre fico me perguntando o que eu faria se tivesse a oportunidade de viajar no tempo. Qual seria minha escolha, a nostalgia do passado ou o mistério do futuro? Mais divertido ainda é pensar que meu primeiro filho, que hoje está na barriga da mamãe, poderia voltar no tempo e testemunhar a enorme alegria que sua chegada nos proporcionou. Viajar nesta interessante premissa é só uma das muitas possibilidades que “De Volta para o Futuro” oferece. Experimente, por exemplo, rever o filme, observando pequenos detalhes que passaram batidos na primeira vez. Será sempre uma experiência divertida e reveladora. Clássico absoluto dos anos oitenta, esta maravilhosa aventura brinda o espectador com uma das idéias mais criativas já exploradas pelo cinema. Com personagens fascinantes, estimula nossa imaginação e nos diverte de uma forma intensa, inteligente e absolutamente inesquecível.

Texto publicado em 05 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira

Balanço de 2009

No primeiro post de 2010 aproveito para fazer o balanço do ano anterior e divulgá-lo. Se considerar que iniciei o blog em 20 de Junho, o saldo de críticas divulgadas pode ser considerado positivo. Já o número de filmes assistidos é apenas razoável, considerando que só posso assisti-los durante a noite e nos finais de semana. Vale ressaltar que só conto uma vez cada filme, mesmo que eu tenha assistido alguns por duas ou três vezes durante o ano. Sendo assim, segue abaixo os números oficiais do Cinema & Debate em 2009, assim como a lista de filmes assistidos por este que vos escreve.

– 38 críticas divulgadas em 2009, sendo 32 na Videoteca do Beto e 6 nos Filmes em Geral (“Rocky, um Lutador” e “Psicose” mudaram de Filmes em Geral para Videoteca do Beto).

– 14 Filmes comentados em 2009.

Lista dos 111 filmes assistidos em 2009:

…E O VENTO LEVOU
2001 – UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO
9 1/2 SEMANAS DE AMOR
A BATALHA POR CIDADÃO KANE
A LISTA DE SCHINDLER
A MISSÃO
A PONTE DO RIO KWAI
A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM
A TROCA
ALIEN – O 8º PASSAGEIRO
AMADEUS
AMORES POSSÍVEIS
ANTES DO AMANHECER
APOCALYPSE NOW
APOCALYPTO
AS LOUCURAS DE DICK E JANE
AS PONTES DE MADISON
BARRY LYNDON
BATMAN – O CAVALEIRO DAS TREVAS
BEN-HUR
BLADE RUNNER – O CAÇADOR DE ANDRÓIDES
BOLT – O SUPERCÃO
BUTCH CASSIDY
CABO DO MEDO
CÃES DE ALUGUEL
CANTANDO NA CHUVA
CASABLANCA
CIDADÃO KANE
CIDADE DE DEUS
CREPÚSCULO
CREPÚSCULO DOS DEUSES
DE VOLTA PARA O FUTURO
DIÁRIOS DE MOTOCICLETA
DOZE HOMENS E UMA SENTENÇA
E.T. – O EXTRATERRESTRE
ENTRE DOIS AMORES
ERA UMA VEZ NO OESTE
FILADÉLFIA
FILHOS DA ESPERANÇA
FRANKENSTEIN DE MARY SHELLEY
FRENESI
GANDHI
HOOLIGANS
INDIANA JONES E O TEMPLO DA PERDIÇÃO
INSTINTO SECRETO
IRREVERSÍVEL
KALIFORNIA
LADRÕES DE BICICLETA
LARANJA MECÂNICA
LAVOURA ARCAICA
LUZES DA CIDADE
MAD MAX
MARLEY & EU
MEU NOME NÃO É JOHNNY
MONTY PYTHON – A VIDA DE BRIAN
MONTY PYTHON – EM BUSCA DO CÁLICE SAGRADO
O BEBÊ DE ROSEMARY
O CASAMENTO DE ROMEU E JULIETA
O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON
O EXORCISTA
O EXTERMINADOR DO FUTURO
O FABULOSO DESTINO DE AMÈLIE POULAIN
O FEITIÇO DE AQUILA
O FRANCO-ATIRADOR
O GRANDE DITADOR
O ILUMINADO
O LABIRINTO DO FAUNO
O NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO
O ÓLEO DE LORENZO
O PLANETA DOS MACACOS
O PODEROSO CHEFÃO
O PODEROSO CHEFÃO – PARTE II
O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN
O TESOURO DE SIERRA MADRE
ÔNIBUS 174
OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA
PACTO DE SANGUE
PERFUME: A HISTÓRIA DE UM ASSASSINO
PLATOON
PSICOSE (1960)
PULP FICTION – TEMPO DE VIOLÊNCIA
QUEIME DEPOIS DE LER
QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?
QUEM VAI FICAR COM MARY?
RAMBO – PROGRAMADO PARA MATAR
RASTROS DE ÓDIO
RATATOUILLE
REDE DE MENTIRAS
REQUIÉM PARA UM SONHO
ROCKY – UM LUTADOR
ROCKY BALBOA
SCARFACE
SEABISCUIT – ALMA DE HERÓI
SIDEWAYS – ENTRE UMAS E OUTRAS
SOB O SOL DA TOSCANA
SPARTACUS
TAXI DRIVER
TEMPOS MODERNOS
TOP GUN – ASES INDOMÁVEIS
TOURO INDOMÁVEL
TRAMA MACABRA
TRÊS HOMENS EM CONFLITO
TUBARÃO
UM DIA DE CÃO
UM ESTRANHO NO NINHO
UM MUNDO PERFEITO
UM SONHO DE LIBERDADE
UMA SAÍDA DE MESTRE
VICKY CRISTINA BARCELONA
VINHAS DA IRA
VINICIUS

Um abraço.

PS: Vale ressaltar que muitos destes filmes terão suas críticas divulgadas em breve.

Texto publicado em 04 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira

Feliz 2010

Chega o ano mais importante da minha vida. Que Deus abençoe mais este ano!

Quero desejar um ano novo cinematográfico para todos vocês!

Um abraço e Feliz 2010!

Texto publicado em 31 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

O EXTERMINADOR DO FUTURO (1984)

(Terminator)

 

Videoteca do Beto #32

Dirigido por James Cameron.

Elenco: Arnold Schwarzenegger, Michael Biehn, Linda Hamilton, Paul Winfield, Lance Henriksen, Rick Rossovich, Bess Motta, Earl Boen, Shawn Schepps, Franco Columbu e Bill Paxton.

Roteiro: James Cameron e Gale Anne Hurd.

Produção: Gale Anne Hurd.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A premissa de “O Exterminador do Futuro”, filme que alavancou a carreira do diretor James Cameron, é de uma inteligência e criatividade assombrosa, estabelecendo o filme como uma ficção científica de alta qualidade, recheada com elementos de suspense e terror, além é claro, de contar com maravilhosas seqüências de ação. Além disso, conta com um vilão absolutamente assustador e aparentemente indestrutível. E o que é melhor, tudo isto trabalha a favor de um roteiro inteligente, que desenvolve personagens complexos e fascinantes, interpretados com competência por todo o elenco.

E que premissa inteligente e criativa seria esta? Num futuro próximo, os humanos entraram em guerra com as máquinas, e sua aniquilação total só não foi consumada graças à liderança de um homem. É então que as máquinas decidem enviar ao passado um andróide (Arnold Schwarzenegger) com a única e exclusiva missão de matar a mãe deste homem, chamada Sarah Connor (Linda Hamilton), evitando assim o seu nascimento. Entretanto, os humanos também conseguem enviar ao passado um representante, chamado Kyle Reese (Michael Biehn), que terá a missão de proteger esta mulher e garantir o futuro da humanidade. É ou não é de uma criatividade extrema?

Mas uma idéia criativa não basta para garantir a qualidade de um filme. Felizmente, o roteiro seco e direto do próprio James Cameron e de Gale Anne Hurd desenvolve a narrativa com competência e sem rodeios, explorando corretamente os personagens e envolvendo completamente o espectador na trama. A introdução dos três personagens que conduzem a narrativa é perfeita. Primeiro testemunhamos o aparecimento do andróide, que trata de nos apresentar em poucos minutos o seu jeito nada sutil, quando se depara com um grupo de jovens. Depois acompanhamos o surgimento de Kyle Reese, que também aparece do nada para, de uma forma menos agressiva (apesar de roubar um mendigo e chamar acidentalmente a atenção da policia), conseguir suas roupas e partir para sua missão. E finalmente, Sarah Connor é apresentada como uma mulher simples, que trabalha como garçonete e não tem a menor noção do que sua vida se tornaria deste dia em diante. O cenário para uma angustiante caçada está pronto.

James Cameron explora o maravilhoso roteiro de forma bastante segura, utilizando movimentos de câmera e enquadramentos que funcionam perfeitamente. Observe como na seqüência do primeiro ataque do exterminador contra Sarah, dentro da danceteria Technoir, a câmera lenta de James Cameron ajuda a atenuar o suspense, além de captar com precisão cada detalhe da reação dela e de Reese. Além disso, o diretor mostra todo seu talento nas sensacionais seqüências de ação, garantindo adrenalina e tensão na medida certa. Cameron mantém a câmera em movimento, utilizando muitos planos, mas sem exageros, evitando que as cenas sejam confusas ou enjoativas. Para isso, conta com a excelente montagem de Mark Goldblatt, que alterna entre os planos de maneira empolgante sem exceder o número ideal de cortes, o que permite ao espectador entender perfeitamente o que se passa na tela. Outro exemplo do bom trabalho de Goldblatt é a elegante transição quando Reese está pensando e olhando para um trator trabalhando. Através do próprio trator, somos transportados para o futuro, e no pesadelo de Reese, voltamos para o presente. O inteligente roteiro aproveita este pensamento para nos situar em sua missão. Ainda na parte técnica, a fotografia azulada (Direção de Adam Greenberg) reflete a frieza do exterminador, que não tem sentimentos, somente um objetivo a cumprir. Além disso, o fato da maioria das cenas se passarem à noite ajuda a aumentar a carga de suspense. A trilha sonora de Brad Friedel é envolvente e coerente com o ritmo do filme. Nas perseguições é cheia de batidas rápidas e repetitivas, conferindo um ritmo ainda mais alucinado à cena (em certos momentos lembra trilhas típicas de videogames). Pra completar, o som e os efeitos sonoros são espetaculares, captando desde os pequenos detalhes, como o barulho mecânico do movimento dos olhos do exterminador, até os atordoantes tiros das potentes armas utilizadas por Reese e pelo andróide. Finalmente, os efeitos visuais, que hoje podem parecer ultrapassados, na época eram bastante realistas. E Cameron sabe muito bem utilizá-los a favor do filme, e não transformar o filme em refém deles.

E então chegamos aos personagens de “O Exterminador do Futuro”. O andróide T-800 (o papel perfeito para Arnold Schwarzenegger) se revela um vilão aterrorizante, que parece ser indestrutível e, pior que isso, não desiste jamais de sua missão. Pragmático e direto, não para e nunca descansa. Sua missão é sua razão de existir, e ele não vai parar até alcançá-la. Mal encarado e com poucas falas, suas reações intuitivas e diretas – como no momento em que expulsa um homem de um caminhão – e seus movimentos robóticos de pescoço e cabeça – como quando entra na delegacia de policia – mostram que Arnold acertou em cheio neste papel, interpretando de forma competente e marcante. Interessante notar também o inventivo modo como ele escolhe as respostas que dará através de seu campo visual, reafirmando a criatividade do longa. A agressividade do Exterminador é demonstrada através de atitudes simples, como no plano do caminhão de brinquedo que é esmagado pela chegada de seu carro. Ele simplesmente quer cumprir a missão para qual foi programado. É um vilão temível (o olho vermelho é assustador), pois nada parece ser capaz de detê-lo. Afinal de contas, como não temer alguém que não é parado por balas, que não descansa e que invade sozinho um distrito policial (onde teoricamente estaríamos mais seguros)?

Por outro lado, Sarah Connor se mostra inicialmente uma mulher simples, que trabalha e sai pra namorar como outra qualquer. Um dos raros momentos cômicos do filme acontece nesta fase, quando o namorado de Ginger (Bess Motta) fala com Sarah no telefone sem saber. Vulnerável, a moça cria empatia com o espectador facilmente, o que aumenta o drama quando ela passa a ser caçada. Porém, a transformação de Sarah é impressionante. Após superar o susto inicial quando percebe que está sendo perseguida, ela se transforma numa mulher forte e corajosa, e é interessante notar o paralelo entre Sarah Connor e Maria, mãe de Jesus, já que ambas eram pessoas humildes e carregavam no ventre homens responsáveis pela “salvação” da humanidade. O desespero de Sarah ao conferir a lista telefônica e sair do bar olhando para todos os lados, como se qualquer pessoa na rua fosse suspeita, comprova a qualidade da interpretação de Linda Hamilton, que consegue transmitir a angústia da personagem através do olhar. Observe também como ela reage de forma convincente à morte da amiga Ginger, com um choro compulsivo na delegacia. Michael Biehn convence como Kyle Reese, conseguindo expor todo o drama de seu personagem, que viaja no tempo para salvar a humanidade e, além disso, encontrar a mulher por quem se apaixonou no futuro. Ironicamente, e talvez este pensamento já existisse em seu subconsciente, ele será o pai de John Connor. E foi exatamente o amor e, nas palavras dele, “a oportunidade de conhecer o mito”, que fizeram Reese voltar no tempo. Observe a convincente explicação de Reese para Sarah dentro do carro, num diálogo esclarecedor, que expõe toda a originalidade do excelente roteiro. E como era de se esperar, a compreensível incredulidade e ironia dos policias diante da história contada por Reese acaba por condenar a todos no local, deixando o caminho livre para que o temível Exterminador continue sua caçada.

Quando vemos Sarah e Reese iniciando uma relação sexual, sabemos, mesmo que de forma intuitiva, que ali está sendo gerado o lendário John Connor. Mérito do roteiro que, mesmo sem dizer muito, nos leva a imaginar que isto aconteça, nos compensando depois com a confirmação da gravidez dela no final do filme. A forma com que eles se relacionam, tornando-se amigos e confidentes, além das razões que levam Reese a voltar no tempo, são indícios de que eles teriam uma ligação maior do que imaginavam inicialmente. E a espetacular seqüência final nas máquinas é de um simbolismo tremendo. A máquina, que tanto lutou para destruir o homem, foi destruída por outra máquina. É claro que a inteligência humana teve participação nisto, mas a ironia é evidente ao ver o exterminador ser esmagado por uma máquina industrial. Porém o lado mais obscuro (e fascinante) de “O Exterminador do Futuro” reside no fato de que, mesmo após toda esta batalha, o terrível futuro da humanidade não havia sido evitado. Sarah e Reese garantiram o nascimento de John Connor, mas não o fim da guerra entre humanos e máquinas. Por isso, quando ouve o menino mexicano dizer que uma tempestade se aproxima, ela responde: “Eu sei”.

Pesado, seco, tenso e direto, “O Exterminador do Futuro” é um exemplo raro de ficção científica inteligente que consegue misturar elementos angustiantes de terror com cenas espetaculares de ação, alcançando um resultado final bastante agradável. Dirigido com competência por James Cameron e contando ainda com um elenco afiado, garante ao espectador entretenimento de primeira qualidade. Se o futuro da humanidade será sombrio como no filme eu não sei. Mas o passado nos concedeu obras maravilhosas, e este filme com certeza é uma delas.

Texto publicado em 31 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

INDIANA JONES E O TEMPLO DA PERDIÇÃO (1984)

(Indiana Jones and the Temple of Doom)

 

Videoteca do Beto #31

Dirigido por Steven Spielberg.

Elenco: Harrison Ford, Kate Capshaw, Jonathan Ke Quan, Amrish Puri, Roshan Seth, Philip Stone, Roy Chiao, David Yip, Ric Young, Chua Kah Joo, Philip Tan e Dan Aykroyd.

Roteiro: Willard Huyck e Gloria Katz, baseado em estória de George Lucas.

Produção: Robert Watts.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Segundo filme da deliciosa saga do arqueólogo, “Indiana Jones e o Templo da Perdição” infelizmente apresenta um resultado claramente inferior ao primeiro longa, se salvando somente pelo carisma do protagonista e pelas engenhosas seqüências de ação que caracterizam a série. Steven Spielberg dirige aqui um filme mais sombrio, menos realista e, conseqüentemente, menos interessante. Nada, porém, que comprometa o filme ao ponto de classificá-lo como um fracasso total. Longe disso. O grande pecado é que ele não atinge a excelente expectativa, inevitavelmente criada após o maravilhoso filme que o precedeu.

O arqueólogo Indiana Jones (Harrison Ford) escapa de Shangai, acompanhado de Willie Scott (Kate Capshaw) e do pequeno Round (Jonathan Ke Quan), mas na fuga é forçado a parar na Índia, onde encontra um povoado que lhe solicita resgatar as pedras roubadas por um feiticeiro que escraviza as crianças do local. Na busca destas pedras, ele encontrará diversos obstáculos e enfrentará poderes mágicos vindos do fanatismo de um culto obscuro que sacrifica seres humanos.

O início empolgante em Shangai, seguido pela clássica linha vermelha que acompanha o avião no mapa, além é claro do logo da Paramount se transformando no primeiro plano do filme, dão a sensação de que vamos presenciar outra maravilhosa produção, tão qualificada quanto “Os Caçadores da Arca Perdida”. Porém esta sensação se desfaz logo na primeira grande cena de ação, repleta de momentos irreais, mas que por outro lado, revela o ponto positivo de “Templo da Perdição”, o humor refinado. Os momentos bem humorados aparecem em número maior que no primeiro filme, como na cena em que Willie pergunta desesperada para Indy se ele sabe pilotar, e ele responde: “Não. Você sabe?”. Logo em seguida, quando pulam do avião num bote e conseguem pousar (?!), caindo de um penhasco (numa das seqüências absurdamente irreais) e aparentemente conseguem se salvar, Indy diz que “não foi tão ruim assim”, somente para depois despencar dentro de um rio. Em outro trecho bastante engraçado, Willie se desespera com os animais na selva, enquanto Indy joga cartas com Round e comenta com o garoto que o problema dela é a gritaria. A cena do jantar no palácio também garante boas gargalhadas.

O garoto interpretado por Jonathan Ke Quan, aliás, é extremamente divertido, com um ótimo timing cômico. Já Kate Capshaw exagera nas caretas e gritos de Willie Scott, tornando a personagem muito irritante. Por outro lado, os apuros que ela passa garantem boas risadas, o que reforça o argumento de que o humor é o destaque do longa. Felizmente, o carisma inegável de Harrison Ford garante a simpatia do espectador. Novamente muito confortável no papel do arqueólogo, seu ótimo senso de humor, suas engraçadas reações e até mesmo suas caretas (bem mais comedidas que de sua parceira, porém muito eficientes) garantem a diversão. Até mesmo porque Indiana Jones continua sendo um herói diferente, tomando decisões erradas, que comprometem sua segurança, o que é sempre divertido e garante autenticidade ao herói. Observe, por exemplo, a cena em que ele joga uma pedra em um homem que maltrata as crianças escravas, somente para chamar a atenção dele e de todos os outros presentes, já que de nada adiantaria tomar aquela atitude intempestiva. Em outro momento, após escapar de ser esmagado junto com Willie e Round, ele volta para pegar o chapéu, numa atitude que somente Indy seria capaz de tomar. Este enorme carisma do herói é o que evita a antipatia da platéia pelo filme, mesmo com o tema sombrio abordado.

Notavelmente mais sombrio, o longa afunda o herói em um mundo que explora coisas claramente repugnantes, como um ritual (uma espécie de magia negra) que sacrifica seres humanos e a escravidão de crianças. A fotografia vermelha (Direção de Douglas Slocombe) durante as cenas do ritual soa muito apropriada, numa referencia clara ao inferno. Por outro lado, a ótima trilha sonora (John Williams) característica de Indy garante alguns momentos de alegria e, especialmente na cena em que Indy finalmente coloca a mão nas pedras dentro do altar, alcança momentos poderosos. Finalmente, a espetacular seqüência nos carrinhos de trem é de uma criatividade e engenhosidade incrível, garantindo emoção e ação de alta qualidade, apesar de alguns pequenos exageros, perdoáveis neste caso. E perdoáveis justamente porque a criatividade, nesta cena, não faltou, o que não permite que o espectador se atente aos detalhes exagerados. “Templo da Perdição” apresenta ainda uma referência sensacional ao primeiro filme, quando novamente um homem habilidoso empunhando uma espada chega para atacar Indy. Ele repete a mesma cara de desdém e leva à mão para sacar a arma. O detalhe é que aqui ele não estava com ela, tornando a cena muito bem humorada.

Em resumo, o problema de “Templo da Perdição” não é necessariamente o exagero de algumas cenas de ação, também existentes no primeiro filme, mas sim a falta de criatividade do roteiro.  Se a narrativa fosse mais envolvente e criativa, as seqüências irreais passariam batidas, como acontece em “Os Caçadores da Arca Perdida”. O roteiro de Willard Huyck e Gloria Katz é extremamente fraco, sem criatividade, o que prejudica o resultado final do filme. Desta forma, a enorme quantidade de cenas irreais soa falsa e exagerada, sendo salva apenas pelo enorme carisma do personagem principal, que é realmente sensacional. Além disso, os poucos efeitos especiais que aparecem no filme soam apenas razoáveis hoje, mas na época funcionavam muito bem. Exatamente por isso que os efeitos mecânicos funcionam de maneira muito mais eficiente, pois jamais envelhecem ou perdem o realismo.

Infelizmente menos inspirado e atraente que “Caçadores da Arca Perdida”, o segundo filme do arqueólogo Indiana Jones consegue algum sucesso somente pelo enorme carisma de seu personagem principal. Apesar da boa direção de Steven Spielberg, principalmente nas engenhosas cenas de ação, o roteiro fraco e pouco criativo compromete até mesmo estas cenas, chamando à atenção para o exagero, que no primeiro longa soava até mesmo charmoso. Sombrio em demasia, “Indiana Jones e o Templo da Perdição” não consegue jamais alcançar a qualidade esperada, e exatamente por isso, decepciona. Felizmente, o herói que o inspira, assim como seus produtores, também comete erros e acertos, e exatamente por isso, a esperança de um filme melhor para a seqüência da saga renasce.

PS: Vale destacar que ainda não assisti “A Última Cruzada”, assim como não havia assistido aos dois primeiros filmes da série, o que esclarece minha última frase da crítica.

Texto publicado em 29 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

AMADEUS (1984)

(Amadeus)

 

Videoteca do Beto #30

Vencedores do Oscar #1984

Dirigido por Milos Forman.

Elenco: F. Murray Abraham, Tom Hulce, Elizabeth Berridge, Simon Callow, Roy Dotrice, Christine Ebersole, Jeffrey Jones, Charles Kay, Kenny Baker, Lisabeth Bartlett, Barbara Bryne, Martin Cavina, Roderick Cook, Milan Demjanenko e Peter DiGesu.

Roteiro: Peter Shaffer, baseado em peça de Peter Shaffer.

Produção: Saul Zaentz.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A vida e a obra de um verdadeiro gênio da música são apresentadas de forma louvável neste lindo filme dirigido pelo competente Milos Forman, através da visão de outro compositor que conviveu com Mozart, admirou o seu magnífico trabalho e desejou ter o mesmo talento que ele. A forma como foi obrigado a aceitar sua “mediocridade”, como ele mesmo diz, é tocante e diz muito sobre a frustração comum à maioria das pessoas que se aproximam da velhice e percebem que não conseguiram ser o que sonhavam.

Após tentar o suicídio, Antonio Salieri (F. Murray Abraham) resolve confessar a um padre que foi o responsável pela morte do gênio Wolfgang Amadeus Mozart (Tom Hulce), contando em detalhes como conheceu, conviveu e lentamente viu crescer seu ódio pelo jovem irreverente e criativo que, segundo ele, compunha como se sua música tivesse sido abençoada pelo próprio Deus. Baseado na peça de Peter Shaffer e com o roteiro escrito pelo próprio Shaffer, “Amadeus” nos conta a vida de Mozart curiosamente sob o ponto de vista de outro compositor da época, que conviveu com ele e que, apesar de ter talento, jamais conseguiu se igualar à genialidade dele. E é exatamente o efeito que a aparição daquele homem, com uma capacidade criativa muito acima da média, causaria em Salieri que iremos testemunhar ao longo da projeção.

Dirigido maravilhosamente por Milos Forman, o filme conta uma história triste e melancólica de forma absolutamente convincente e encantadora, o que não impede a existência de ótimos momentos de alívio cômico, notáveis principalmente nas falas de Salieri contra Deus, como na cena em que diz “de agora em diante somos inimigos”, e o plano seguinte mostra a imagem de Cristo. Cômica também é a forma que Salieri descreve como seu caminho se abriu para explorar seu talento musical inibido por seu pai, na engraçada cena da morte do Sr. Francesco Salieri. Milos Forman utiliza muitos closes nas reações de Salieri quando Mozart é elogiado, realçando sua inveja, que crescia paralelamente à sua admiração por ele. O filme mostra como ele ouvia e absolvia as músicas do gênio de uma maneira muito charmosa e encantadora, utilizando o inteligente recurso de tocar a canção que ele lia nas partituras para que o espectador sinta o que ele sentia. Forman também é inteligente ao mostrar o processo criativo do gênio, que enxergava música em coisas banais, como na interessante tirada em que ele, ao ouvir os brados de uma velha senhora quando sua mulher vai embora, se inspira para compor uma de suas mais famosas canções.

A interessante idéia de contar a história através da experiência de Salieri funciona muito bem, também porque a excelente montagem de Michael Chandler e Nena Danevic salta do narrador para a história em um ritmo muito bom, jamais sendo cansativo e mantendo-se sempre atraente. Alternando com agilidade do presente para o passado (em certo momento, a montagem salta ao presente somente para que Salieri diga que “aquele garoto obsceno, engatinhando no chão, era Mozart! Aquele era Mozart!”, indignado por esperar um ser humano “à altura do talento que tinha”), a montagem também faz elegantes transições de tempo, como quando Madame Cavalieri (Christine Ebersole) tem aulas com Salieri e pergunta sobre a nova ópera de Mozart, e no plano seguinte, está cantando na ópera citada. Aliás, o trabalho técnico de “Amadeus” é formidável, perceptível na excepcional direção de arte de Karel Cerny e nos fabulosos figurinos de Theodor Pistek, que ambientam o espectador na Viena da época com perfeição, além da notável maquiagem em Salieri já velho e em Mozart doente. O estado emocional de Mozart é refletido com competência através da excelente direção de fotografia de Miroslav Ondrícek. Inicialmente colorida, demonstra o mundo alegre e iluminado que o criativo e elétrico Mozart enxergava. Porém quando seu pai morre, o reflexo imediato vem em sua próxima ópera, sem cores, obscura e até mesmo fantasmagórica. E na medida em que Mozart vai enlouquecendo, a fotografia cada vez menos colorida e menos viva apenas reflete seu estado mental. Destaca-se também o ótimo trabalho de som, que capta com clareza cada instrumento das precisas composições. Finalmente, nem precisaríamos citar a maravilhosa trilha sonora de John Strauss, que espalha a vasta e deliciosa obra de Mozart por todo o filme.

Ao ouvir a experiência de Salieri ser contada para o Padre, praticamente podemos sentir sua tristeza e decepção por não ter nascido com o talento que aquele “jovem irreverente e obsceno” tinha graças ao magnífico desempenho de F. Murray Abraham. Observe como ele narra a história com paixão, demonstrando através do olhar, do tom de voz e de cada gesto, o forte sentimento de frustração que amargurava ao relembrar a história que viveu com o gênio. A fala precisa, pausada e com boa entonação garante um tom emocionado à narração. Sua feição enquanto conta a história denota uma tristeza incontida por não ter tido o talento do rival, refletida também na fotografia obscura. Por outro lado, sempre que pode Salieri deixa claro sua admiração pelo trabalho de Mozart. Sua emoção é palpável ao ouvir as músicas dele, às vezes até fazendo-o chorar. Observe como uma simples troca de olhares entre os presentes, quando Mozart começa a tocar e melhorar a música criada por Salieri na sala do Imperador – causando o espanto de todos com o talento dele – provoca um sorriso forçado de Salieri, que na realidade sentia inveja. Quando descreve para o Padre seu plano para matar o rival, Abraham transmite muita emoção, olhando para as mãos ao dizer que “planejar a morte de alguém é fácil, mas fazer o serviço com as próprias mãos não é”. “Como se mata um homem? Como é que se faz isso?” diz ele, numa das mais espetaculares cenas do filme.

Mas porque todo este ódio por parte de Salieri? A resposta está no talento do personagem que dá nome ao filme, Wolfgang Amadeus Mozart. Interpretado com muita energia por Tom Hulce, Mozart era dono de um talento absurdo para compor musica, o que o tornava um gênio, acima de todos os outros compositores de sua época. Apresentado como um jovem cheio de alegria quando persegue uma garota, percebemos através de um simples jogo de palavras que ele faz com ela a incrível velocidade de seu raciocínio. Desinibido e irreverente, como podemos perceber quando desafia o arcebispo em seu próprio palácio, abrindo à porta para que este escute os aplausos à sua música, Mozart era – como ele mesmo dizia – um homem vulgar. Mas sua música não era. Hulce demonstra a ansiedade do gênio de forma competente, como podemos observar quando o Imperador vai emitir uma opinião sobre sua música e faz uma pausa. Seu olhar arregalado, sua fala presa na boca e a respiração ofegante demonstram que ele mal podia esperar para ouvir a opinião dele. Jovial e descompromissado, ele tocava seu noivado enquanto se divertia, até ser desmascarado. Observe seu claro desconforto quando madame Cavalieri descobre que ele é noivo de Constanze (Elizabeth Berridge). Ele mal sabe para qual delas olhar. Também é marcante a engraçada e aguda risada criada por Hulce, que caracteriza muito bem o excêntrico personagem. Após se tornar um homem de família, Mozart valoriza muito a esposa, como fica claro em sua discussão com o pai, assim como é interessante notar como ele observa atentamente as reações do filho em uma ópera, demonstrando uma clara preocupação com o gosto do garoto. Mas a vida do gênio não era um mar de rosas. A inveja de Salieri criava problemas em sua vida (e se é verídico ou não, não é relevante neste caso), como a proibição de um balé em uma de suas óperas, a obrigação de fazer teste para dar aulas à filha do Imperador e, principalmente, a assombração do fantasma do pai que o levaria à morte. O teste, aliás, levanta uma interessante questão. Porque os melhores têm que ser tratados como os outros? Porque gênios devem se igualar aos medíocres? Quando afirma ser o melhor compositor, Mozart escuta que um pouco de humildade lhe faria bem. Por quê? A genialidade deve ser exaltada, e não igualada ao restante das pessoas. E é irônico notar como foi justamente em Salieri que Mozart encontrou alguém capaz de entender perfeitamente a grandiosidade de sua obra. Nem mesmo a ópera que fez o Imperador dormir desagradou ao rival (num paralelo interessante com o próprio cinema, onde a maioria do público não compreende obras que exijam um esforço intelectual maior). Sabendo do peso que seu pai representava, Salieri arquiteta um plano cruel, que vai lentamente degradando Amadeus, e fazendo com que ele se afunde na bebida, algo peculiar à maioria dos gênios. Normalmente dedicados àquilo em que são excepcionais, não conseguem ter uma vida normal, tendo muitos vícios e, não raramente, dificuldades financeiras. Mozart era assim. Precisando de dinheiro, se entregou à música popular e fez sucesso, mas jamais escondeu seu embaraço, como podemos notar quando pergunta à Salieri o que achou de sua ópera, somente para dizer depois que era “apenas um vaudeville”.

Durante a maravilhosa seqüência em que Mozart e Salieri trabalham juntos na criação de uma ópera (que ironicamente seria sobre a própria morte de Amadeus) podemos notar o fascinante processo de criação de um gênio. É notável sua agilidade, empolgação e paixão pelo que faz, assim como é assombrosa a sua facilidade para compor. Salieri, por outro lado, era talentoso, mas não era gênio, e por isso demonstra enorme dificuldade em acompanhar o raciocínio de Mozart. Também por isso, não se contentava com seu talento. Ao perceber que Amadeus se alegrava com sua ajuda e reconhecimento, provavelmente Salieri gostaria de voltar atrás, percebendo finalmente que mesmo sem o talento dele, sua existência era importante de alguma forma. Mas era tarde demais. A degradação e a loucura de Mozart o levaram ao fim. E a culpa seria o fardo pesado que Salieri levaria pelo resto da vida.

“Amadeus” mostra como a inveja corrói um ser humano. Frustrado por não ter conseguido ser aquilo que sonhou, Salieri sentia inveja, misturada com grande admiração pelo trabalho de Mozart, que segundo ele, era o próprio Deus fazendo música. A chuva, a trilha melancólica e a fotografia escura demonstram a tristeza dele no enterro do gênio. Mais triste ainda são as palavras finais de Salieri: “Medíocres em toda parte, eu os absolvo. Sou o campeão dos medíocres”. Não há problema algum em não ser gênio, isto é privilégio de poucos. O problema é deixar a frustração corroer sua alma e o levar a invejar alguém mais talentoso. Salieri se intitulava o campeão dos medíocres. Forman não pode dizer o mesmo. E Amadeus, o filme, está bem longe de ser medíocre. Pelo contrário, trata-se de uma obra que encantaria até mesmo o gênio que a inspirou.

Texto publicado em 28 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

Feliz Natal!

Para todos os visitantes do Cinema & Debate, para os meus familiares, para os meus amigos e para todos os cinéfilos, quero desejar um Feliz Natal! Assim como no “Expresso Polar”, peguem o tiquete e embarquem nesta viagem repleta de paz, amor e alegria. Que esta seja uma noite mágica para todos nós!

Um abraço.

Texto publicado em 24 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

 

SCARFACE (1983)

(Scarface)

 

Videoteca do Beto #29

Dirigido por Brian De Palma.

Elenco: Al Pacino, Steven Bauer, Michelle Pfeiffer, Mary Elizabeth Mastrantonio, Robert Loggia, Miriam Colon, F. Murray Abraham, Paul Shenar, Harris Yulin, Ángel Salazar, Arnaldo Santana, Pepe Serna, Michael P. Moran e Al Israel.

Roteiro: Oliver Stone.

Produção: Martin Bregman.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Scarface é um filme violento. O mundo em que é ambientado também. E é exatamente por retratar com muita veracidade o perigoso e sanguinário mundo do tráfico de drogas que o grande filme dirigido por Brian De Palma acerta em cheio e agrada bastante. É claro, o carisma e o talento de Al Pacino na criação de um personagem absolutamente fascinante, por mais nojento e sem escrúpulos que seja, colabora e muito para o sucesso do longa. E é justamente este personagem que, aliado à violência gráfica e a dinâmica das cenas criadas por De Palma, consegue fazer de Scarface um filme empolgante.

Em Maio de 1980, Fidel Castro abriu o porto de Mariel, em Cuba, com a aparente intenção de liberar os cubanos para visitar seus familiares nos Estados Unidos. Em menos de 72 horas, as três mil embarcações que chegaram a Cuba perceberam que não só os civis embarcavam, mas também todos os tipos de criminosos, que eram obrigados por Castro a deixar o país. Entre eles estava Tony Montana (Al Pacino), que pouco tempo depois de chegar à Miami, começa a trabalhar pra o chefão do tráfico local. Será apenas questão de tempo para que Tony passe por cima de todos e alcance o topo da organização criminosa, conquistando tudo que desejava: poder, dinheiro e Elvira (Michelle Pfeiffer), a mulher de seus sonhos.

Scarface começa, acertadamente, descrevendo a situação política que levou o criminoso Tony Montana de Cuba até os EUA. A legenda e o vídeo mostram a saída dos exilados, deixando claro em que circunstâncias aquelas pessoas estavam deixando o país de Fidel, resultando numa invasão de criminosos latinos em Miami. Esta ótima introdução do filme é mérito do bom roteiro de Oliver Stone, que desenvolve muito bem os personagens e cria uma cadeia de relacionamentos responsável pelo crescimento, e posteriormente, pela queda trágica de Tony. O roteiro tem o mérito ainda de mostrar sem constrangimentos como funciona o mundo do crime, através de um diálogo entre Tony e um policial na boate. Com um bom roteiro em mãos, o talentoso Brian De Palma abusa do estilo e da elegância na criação de planos ousados e travellings, como na cena em que a câmera sai do meio da revolta na prisão e vai até o local onde Rebenga será morto, ou em outro momento ainda mais inspirado, em que o travelling vai desde o quarto do Hotel onde Tony e um amigo estão acuados até o carro onde Manny (Steven Bauer) paquera uma garota, somente para voltar ao banheiro do hotel logo em seguida, onde podemos ouvir o som da serra elétrica já atacando o amigo de Tony. Nos retorcemos na cadeira e nos desesperamos, torcendo para que os amigos cheguem à tempo de salvá-lo. De Palma é competente também no extremo realismo das cenas, que muitas vezes apenas sugerem o que acontece, como nesta do banheiro, onde podemos ver o sangue espirrando na cortina ao som da serra elétrica. Muitas outras cenas se destacam, como o tiroteio na boate, que é o estopim para o grande salto de Tony, a pesada morte de Frank (quando o diretor mostra o relógio apontando três horas e volta para Frank, sabemos que ele vai morrer), a simbólica cena em que Tony olha para o balão com a frase “O mundo é seu” e o belo clipe que mostra a construção do império Montana (a negociação com o banco, o casamento, o salão de beleza para a irmã). Além disso, De Palma demonstra sensibilidade naquela que talvez seja a cena com a maior carga emocional do longa: a triste morte de Manny. De certa forma previsível, devido ao temperamento explosivo de Tony, a cena não deixa de ser chocante e a câmera lenta diminui o impacto no espectador, ao mesmo tempo em que realça as reações dos personagens, principalmente de Gina (Mary Elizabeth Mastrantonio).

Mas se Tony é um criminoso tão podre e desprezível, porque torcemos tanto pelo seu sucesso? O segredo está na excelente introdução do personagem. Quando vemos Tony Montana pela primeira vez, ele está numa posição altamente vulnerável, cercado por policiais, sendo interrogado e claramente acuado. Até o movimento de câmera (na altura da visão dele e mostrando os policiais da cintura pra baixo) influencia em nossa identificação, fazendo com que o espectador também se sinta intimidado. Esta ligação criada no começo do filme será o elo para que, mesmo rejeitando grande parte das atitudes de Montana, o espectador torça pelo seu sucesso, ou pelo menos, por sua salvação. Colabora, é claro, o grande talento e carisma de Al Pacino, e sua atuação é espetacular. Com sotaque perfeito, olhar desconfiado e provocador, oscilações repentinas no tom de voz, poucos sorrisos e mostrando claramente a obstinação em alcançar o topo (“Neste país, primeiro é necessário ganhar dinheiro, depois poder e só depois as mulheres”), ele cria um criminoso mais que temível. Sua fala é sempre convicta. Tony não tem piedade, não teme ninguém e não respeita nenhuma regra. Sua ética se resume a não matar mulheres e crianças inocentes. Por outro lado, seu frio coração é capaz de demonstrar sentimentos também. O primeiro deles é a verdadeira obsessão pela mulher de Frank (Robert Loggia), o chefão do crime na cidade. Elvira é uma mulher sensual, que mais parece um troféu do que uma pessoa para Tony. E ele não sossega enquanto não a conquista, somente para depois tratá-la de forma desprezível. Os outros sentimentos são por aquela que talvez seja a única pessoa que ele ama de verdade, sua irmã Gina. O olhar dele quando vê a irmã dançando – reforçado pela trilha e pelo close em seus olhos – indica a fúria que sentia ao imaginar que alguém pudesse fazer mal a ela. Extremamente ciumento e super protetor, não permite que sua irmã cuide da própria vida, o que não deixa de ser egoísta da parte dele. Egoísmo e ganância, aliás, são palavras que definem muito bem a personalidade de Montana. Ele critica o capitalismo, mas nas palavras de Elvira, “é o maior capitalista” que ela já conheceu. Seu palácio demonstra o quanto gostava de ostentar riqueza, com objetos dourados e luxuosos (Direção de Arte de Edward Richardson). Em uma discussão dentro dele com Elvira e Manny, expõe todo seu egoísmo, dizendo que não precisa de ninguém. O criminoso até ensaia uma auto-reflexão num jantar com a esposa e o amigo, onde bêbado, questiona o que conquistou com o dinheiro (“Então é isso… Bebidas, comidas, cocaína, chegar aos cinqüenta anos barrigudo e com o fígado estragado… Foi pra isso que trabalhei tanto?”), mas, diante de tantos aspectos podres, o único que se salva mesmo é a sua decisão de não matar mulheres e crianças, que fica evidente na forte cena em que mata um comparsa para evitar uma tragédia (o que, ironicamente, leva ao seu fim).

Nos restante do elenco, o maior destaque fica para Mary Elizabeth Mastrantonio, muito bem como Gina, a irmã de Tony, como podemos observar na cena dentro do banheiro, quando se revolta contra o irmão, e no final do filme, quando explode contra ele. Fica evidente quando Montana tenta cuidar dela, já morta, que seu sentimento era muito difícil de entender, até mesmo pra Gina. Cego, ao tentar protegê-la, impedia que ela vivesse e fosse feliz. Michele Pfeifer tem atuação irregular como Elvira, uma mulher que despreza aquelas pessoas ao mesmo tempo em que não consegue largar o luxo que elas proporcionam. Pfeifer fracassa na cena mais dramática, dentro do restaurante, não mostrando a agressividade que o momento pedia. Por outro lado, vai muito bem quando é irônica, como quando diz que não entra no carro de Tony (gerando um olhar muito engraçado de Pacino para o Cadillac), além de demonstrar sutilmente seu interesse por Tony dando um leve sorriso quando ele coloca um chapéu feminino. Já a atuação de Miriam Colon como a mãe de Tony merece grande destaque, como podemos perceber logo em sua primeira aparição, demonstrando que não teme o criminoso e nem o respeita. Ele é uma decepção na vida dela e Colon deixa isto bem claro, de forma explosiva. F. Murray Abraham interpreta sem muito destaque o criminoso Omar e a forte cena de sua execução mostra que não existe lealdade neste mundo do tráfico. Completando o elenco, Steven Bauer tem boa atuação como Manny Ray, o amigo fiel de Tony, sempre tentando controlar os impulsos do parceiro. Malando, sabe exatamente os seus limites, como deixa claro na conversa com Gina no carro. O curioso é que justamente quando achou que podia cruzar esta linha, Manny encontrou a morte. E claro, vale a pena citar a engraçada reação de Arnaldo Santana, que interpreta Earnie, quando Montana, após matar Frank, pergunta pra ele: “Quer um emprego Earnie? Me liga amanhã”.

Tecnicamente, Scarface é muito competente. A montagem de Gerald B. Greenberg e David Ray é ágil e mantém o ritmo empolgante da narrativa (em certo momento faz uma interessante transição no tempo através dos ponteiros do relógio), enquanto o som funciona muito bem, por exemplo, durante o tiroteio no Hotel, onde podemos ouvir os gritos das pessoas na rua e nos quartos ao lado. A trilha sonora alterna momentos delicados, especialmente quando envolve as mulheres, com momentos de ritmo acelerado, principalmente nas cenas de ação. Observe como na primeira aparição de Elvira, a trilha sonora (reforçada pelo olhar fixo dele) indica o interesse de Tony por ela. A direção de fotografia de John A. Alonzo mistura as tradicionais sombras dos filmes de gângster com o festival de cores da cidade de Miami.

Scarface apresenta o mundo do tráfico de forma crua, sem jamais tentar discuti-lo, se resumindo a mostrar da forma mais violenta possível como se vive neste meio. Desta forma, evita criar um debate, por exemplo, sobre os motivos que levam alguém a vender, comprar ou utilizar drogas. Tony até tenta argumentar que o governo não quer autorizar a legalização porque todos ganham com isso (o próprio governo, a policia e os traficantes), o que merece discussão. Mas o propósito do filme não é este. O plano de Tony com quilos de cocaína em volta dele demonstra visualmente como aquela droga e o poder que ela trouxe engoliram o criminoso. Ele foi tragado pelo poder, pela ganância, e destruiu sua vida. Mesmo assim, o durão e destemido vilão não cai com as balas, num final que remete à “Touro Indomável”, quando La Motta diz que seu adversário não o derrubou. Mas Montana, ao contrário de La Motta, não resistiu ao último golpe, e o tiro de misericórdia o jogou na piscina, enfeitada com o irônico letreiro “o mundo é seu”. Tony desejou o mundo e o teve, mas este mesmo mundo o destruiu.

Mostrando a ascensão e queda de um dos maiores criminosos já retratados em celulóide, Scarface consegue causar impacto através de imagens chocantes, realistas e extremamente violentas. Por outro lado, cria empatia com o espectador, graças a um personagem que, mesmo sendo uma pessoa absolutamente desprezível do ponto de vista ético e moral, consegue ser fascinante. O mérito é da excelente direção de Brian De Palma e da grande atuação de Al Pacino. A ambição de Tony o levou ao topo e também o derrubou. A ambição de Brian De Palma e Al Pacino nos brindou com um grande filme. E este não vai cair, nem mesmo com o tempo.

Texto publicado em 23 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira