BRAVURA INDÔMITA (2010)

(True Grit)

 

Filmes em Geral #81

Dirigido por Joel Coen e Ethan Coen.

Elenco: Hailee Steinfeld, Jeff Bridges, Matt Damon, Josh Brolin, Barry Pepper, Doomhall Gleeson, Elizabeth Marvel, Leon Russom, Ed Corbin, Paul Rae, Nicholas Sadler, Bruce Green, Dakin Matthews, Brian Brown e Philip Knobloch.

Roteiro: Joel Coen e Ethan Coen, baseado em livro de Charles Portis.

Produção: Scott Rudin, Joel Coen, Ethan Coen e Steven Spielberg.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Refilmagem do longa que rendeu o único Oscar da carreira de John Wayne, este belo “Bravura Indômita” confirma o talento dos irmãos Coen ao trazer, além de imagens belíssimas e ótimas atuações, uma surpreendente abordagem clássica de um gênero quase extinto, é verdade, mas que sempre rende ótimos filmes quando pessoas talentosas resolvem investir nele. É uma pena, portanto, que os estúdios (e o público!) não estimulem a produção dos chamados westerns, pois o mais americano dos gêneros já provou inúmeras vezes que pode nos brindar com maravilhas como esta dirigida pelos Coen.

Escrito pelos próprios Joel e Ethan Coen com base no romance de Charles Portis, “Bravura Indômita” narra a história de Mattie Ross (Hailee Steinfeld), uma garota de apenas 14 anos que parte em busca de vingança após seu pai ser assassinado por Tom Shaney (Josh Brolin). Para isto, ela resolve contratar o agente federal J. Cogburn (Jeff Bridges), que após recusar a proposta inicial, acaba aceitando a oferta. Só que o Texas Ranger LaBoeuf (Matt Damon) também está perseguindo o criminoso por causa de outro crime ocorrido em seu estado.

Como de costume, os diálogos escritos pelos Coen são um espetáculo à parte, desta vez chamando a atenção por surgirem realistas em sua simplicidade, refletindo a brutalidade daquelas pessoas movidas por um código de honra próprio que normalmente busca defender valores familiares (Mattie) e até mesmo suas origens (LaBoeuf). Por outro lado, o humor negro marcante dos Coen aparece pouco desta vez (como quando o índio sequer pode falar suas últimas palavras antes do enforcamento), o que não quer dizer que o bom humor não esteja presente, como podemos notar quando LaBoeuf passa a falar com dificuldade após quase perder a língua – num momento divertido da atuação de Damon – e quando eles disputam quem tem a melhor mira durante a viagem – agora num momento de destaque de Bridges, que cai do cavalo totalmente sem jeito e mal consegue mirar corretamente graças à bebedeira.

Mostrando um amadurecimento louvável, os Coen conduzem a narrativa de maneira direta e sem invencionismos, recheando a narrativa com planos belíssimos que poderiam ser transformados em quadros, numa abordagem classicista que John Ford teria orgulho de assinar. Responsáveis também pela ótima montagem, eles empregam um ritmo contemplativo coerente com o gênero, fugindo da abordagem subversiva tão comum em sua filmografia. Além disso, eles conduzem os grandes momentos do longa com tranqüilidade, como na cena em que Cogburn e Mattie observam à distancia uma cabana, repleta de tensão, especialmente porque a câmera subjetiva nos coloca na posição deles. O uso da câmera subjetiva, aliás, surge também em planos similares que revelam a visão de Mattie nos braços de Cogburn quando ela deixa o derradeiro confronto e quando ela deixa seu cavalo morto para trás. Por sua vez, a beleza plástica de “Bravura Indômita” surge logo em seu plano inicial, quando a câmera, embalada pela linda trilha sonora e pela narração poética da protagonista, lentamente revela o corpo do pai dela na entrada de um saloon.

Empregando um nostálgico tom sépia, o grande Roger Deakins cria um visual árido e colabora na elaboração destes lindos planos, explorando com maestria a paisagem e destacando-se também nos ambientes fechados que são banhados pelos raios solares – como no julgamento de Cogburn -, além de criar um visual fascinante nas cenas noturnas e até mesmo na neve – note, por exemplo, a iluminação marcante da cena em que Cogburn assassina um homem dentro de uma cabana à noite (também marcada pela violência gráfica e realista). Em certo momento, um trem de ferro se move e revela ao fundo a bela cidade típica do velho oeste, que realça o ótimo design de produção de Stefan Dechant e Christina Ann Wilson, notável também quando Cogburn é encontrado dormindo nos fundos de uma venda chinesa através dos patos mortos pendurados, da desgastada cama de cordas e dos objetos espalhados por todo o local que refletem o estado de espírito do personagem.

Colaborando na tarefa de ambientar o espectador à época da narrativa, os impecáveis figurinos de Mary Zophres também merecem destaque, especialmente pelos detalhes nas botas de LaBoeuf e pelas roupas sempre pretas de Mattie, que ilustram seu luto eterno. E fechando a competente parte técnica de “Bravura Indômita”, a trilha sonora de Carter Burwell confere uma aura clássica ao longa, empregando interessantes variações da linda “Leaning on the Everlasting Arms”.

Vivendo Mattie como uma garota decidida e sempre dura nas negociações, Hailee Steinfeld tem uma ótima atuação, sobressaindo-se até mesmo nos duelos verbais com os ótimos Matt Damon e Jeff Bridges. Movida por um desejo de vingança e um imutável código de honra, a garota transmite a sensação de que nada a impedirá de alcançar seu objetivo. Exatamente por isso, sua reação chega a ser comovente no único momento em que Mattie surge vulnerável, quando, após ouvir Cogburn dizer que a abandonará, praticamente implora à LaBoeuf que não desista da perseguição – e repare como a chuva torna a cena ainda mais sufocante, refletindo a angústia da garota. Da mesma forma, seu rosto expressivo cede lugar à sutileza quando ela sorri levemente ao perceber que convencerá o dono do estábulo a comprar seus pôneis, o que só confirma a qualidade de seu desempenho.

Introduzido com competência na narrativa, Cogburn rapidamente nos apresenta características importantes de sua personalidade através da forma irritada que responde às perguntas de Mattie de dentro da latrina. Em seguida, seu jeito debochado no julgamento confirma sua personalidade conturbada, numa cena em que vale observar também como os Coen atrasam ao máximo a revelação de seu rosto, com a câmera subjetiva simulando a visão de Mattie. Conferindo carisma e ambigüidade ao personagem, Bridges tem um excepcional desempenho, com sua voz alterada e rouca, a dificuldade de pronunciar certas palavras e a oscilação de humor que revelam a instabilidade daquele homem explosivo e quase sempre alcoolizado, mas que guarda valores admiráveis – como descobriremos no terceiro ato. Matt Damon, por sua vez, confere uma interessante tridimensionalidade ao seu Texas Ranger, que surge inicialmente como um homem atrapalhado, mas ganha força nas discussões com Cogburn e, especialmente, ao conquistar o respeito de Mattie com o passar do tempo. Ambos, aliás, protagonizam instantes aparentemente despretensiosos que servem como preparação para o clímax da narrativa, quando Cogburn conta como conseguiu vencer sozinho sete homens armados (e a forma como Bridges conta a história faz o espectador acreditar nele) e quando LaBoeuf fala sem tanta convicção das proezas de sua arma, capaz de acertar alvos muito distantes.

Despretensioso também é o encontro entre Mattie e Tom Shaney, que dá inicio ao clímax da narrativa. Interpretado por Josh Brolin, Shaney é o bandido ignorante que se meteu numa enrascada e não sabe como sair dela, agindo de maneira sempre instintiva, o que também lhe coloca em situações perigosas – aqui, leva um tiro por menosprezar a garota. Entretanto, o bandido jamais soa caricato ou unidimensional, exatamente pela forma como Brolin confere vulnerabilidade ao personagem. Ainda assim, ele consegue seqüestrar a intempestiva Mattie, o que nos leva ao esperado confronto entre os “bandidos” e os “mocinhos” (assim, entre aspas mesmo). O tiroteio realista traz Cogburn enfrentando quatro homens armados, num confronto conduzido de maneira primorosa pelos irmãos Coen, especialmente depois que ele cai ferido e passamos a acompanhar a cena sob o ponto de vista de LaBoeuf, que atira e nos faz torcer para que o inimigo caia do cavalo – o que acontece alguns (longos) segundos depois.

O final poético de “Bravura Indômita” então começa a ganhar forma quando Mattie atira em Tom Shaney e, como Cogburn alertou que aconteceria, é jogada para trás, caindo num enorme buraco e sendo picada por uma cobra antes que o agente federal consiga retirá-la de lá. Desesperado para salvar a valente garota, ele parte numa linda cavalgada noite adentro, embalada pela marcante trilha sonora e repleta de planos memoráveis sob a neve. A seqüência final traz a adulta Mattie de volta à cidade e confirma que seu esforço valeu à pena. Ambos encontraram no outro o papel que faltava em suas vidas. Enquanto Mattie sentiu nos braços de Cogburn o carinho perdido com a morte do pai, Cogburn teve a chance de se redimir após o fim do relacionamento conturbado com seu filho. E enquanto ela se afasta do túmulo de Cogburn e a trilha embala os créditos finais, temos a sensação de que algo realmente marcante está chegando ao fim.

Recheado de imagens belíssimas e trazendo personagens marcantes, esta refilmagem de “Bravura Indômita” comprova a versatilidade dos irmãos Coen e a competência de atores como Bridges e Damon. Revelando ainda o talento da jovem Steinfeld, o longa revigorou um gênero quase sempre esquecido, mas sempre capaz de nos presentear com bons filmes.

Texto publicado em 16 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira

A REDE SOCIAL (2010)

(The Social Network)

 

 

Filmes em Geral #80

Dirigido por David Fincher.

Elenco: Jesse Eisenberg, Andrew Garfield, Justin Timberlake, Rooney Mara, Joseph Mazzello, Armie Hammer, Bryan Barter, John Getz, Rashida Jones, Max Minghella, Brenda Song e John Hayden.

Roteiro: Aaron Sorkin, baseado em livro de Ben Mezrich.

Produção: Dana Brunetti, Ceán Chaffin, Michael De Luca e Scott Rudin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Extremamente competente no comando de narrativas baseadas no raciocínio lógico, David Fincher encontrou na trajetória dos inventores do Facebook a oportunidade ideal de comprovar (mais uma vez!) seu enorme talento. Contando com um elenco jovem e talentoso e um roteiro fabuloso, Fincher fez de “A Rede Social” uma obra-prima moderna, que, além de fazer um primoroso estudo de personagem, capta com precisão a essência de sua época, a chamada “era da informação”.

Adaptado por Aaron Sorkin com base em livro de Ben Mezrich, “A Rede Social” apresenta a história de Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg), um analista de sistemas estudante de Harvard que, revoltado após terminar o namoro com Erica (Rooney Mara), resolve criar um programa que compara garotas fisicamente na internet, derrubando a rede da universidade pouco tempo depois. Sua genialidade chama a atenção dos irmãos Winklevoss (Armie Hammer), que o convidam para desenvolver uma rede social exclusiva para os alunos locais. Mas, após compartilhar a idéia com seu amigo brasileiro Eduardo (Andrew Garfield), Zuckerberg abandona o projeto dos Winklevoss e cria o Facebook, revolucionando a “vida virtual” em todo o planeta e se tornando o mais jovem bilionário da história. O problema é que neste processo – especialmente depois de conhecer o fundador do Napster Sean Parker (Justin Timberlake) – ele coleciona problemas em sua vida pessoal.

Adotando uma estrutura narrativa que alterna entre dois julgamentos e flashbacks que narram os acontecimentos citados pelos advogados, David Fincher e seus montadores Kirk Baxter e Angus Wall conseguem imprimir um ritmo interessante que evita tornar cansativa uma narrativa baseada em diálogos – ainda que estes sejam excepcionais. Empregando movimentos de câmera discretos e criando planos simétricos, o diretor procura demonstrar visualmente a maneira racional que Zuckerberg enxerga o mundo, algo ressaltado também pela fotografia em tons azulados e acinzentados de Jeff Cronenweth, que também ilustra a frieza do protagonista. Esta lógica visual se confirma através das linhas retas da arquitetura dos prédios de Harvard realçadas em diversos planos, que confirmam o alinhamento entre o trabalho de Cronenweth e o design de produção, como notamos também através das poltronas cinzas do auditório, do sofá vinho do alojamento de Zuckerberg e até mesmo dos figurinos de Virginia Johnson, que priorizam roupas sóbrias e cores sem vida na maior parte do tempo. Pra finalizar, o diretor ainda utiliza uma profundidade de campo reduzida, que simula o desinteresse de Zuckerberg pelo que acontece ao seu redor.

Pontuando a narrativa sem chamar muito a atenção, a excelente trilha sonora de Trent Reznor confere uma aura moderna e coerente com a época em que se passa a história ao inserir sons de computador em sua melodia. Além disso, alterna entre momentos de euforia, normalmente através de músicas diegéticas que tocam nas festas e bares freqüentados pelos personagens, e momentos melancólicos que ilustram a solidão do protagonista. Mas apesar do excelente trabalho técnico, é mesmo no inteligente e ágil roteiro de Aaron Sorkin que reside à força de “A Rede Social”. Fazendo um profundo estudo de seu complexo protagonista, o texto de Sorkin até tenta mostrar quem é o homem por trás do inventor do Facebook, mas evita o julgamento ao expor sem hesitar sua notável genialidade e seus mais asquerosos defeitos.

Outro aspecto curioso abordado em “A Rede Social” está na irônica diferença entre a personalidade de Zuckerberg e a faceta jovem e alegre de sua criação. Como pode alguém tão anti-social criar a maior rede de relacionamentos do planeta? A resposta está na inteligência de Zuckerberg. Se lhe falta traquejo social, sobra inteligência e astúcia para aproveitar a oportunidade no momento certo. Aliás, as próprias redes sociais representam um paradoxo, já que se por um lado servem para nos aproximar de amigos distantes, oferecendo até mesmo a oportunidade de reencontrar pessoas que há muito tempo não vemos (o que é ótimo!), por outro podem servir como muleta, fazendo com que a conversa através da tela do computador substitua o encontro real, sempre mais prazeroso.

Felizmente, Fincher é inteligente o bastante para extrair o melhor do roteiro e de seu elenco, conseguindo sucesso até mesmo nos momentos bem humorados, como na piada envolvendo Bill Gates e o engraçado instante em que os irmãos Winklevoss visitam a sala do diretor de Harvard. Entretanto, o diretor prioriza corretamente os diálogos ágeis e cortantes como navalha, que demonstram a velocidade de raciocínio do protagonista, algo notável até quando ouvimos seus pensamentos, como quando ele digita códigos de programação no computador.

Extremamente inteligente e até mesmo superior intelectualmente à maioria das pessoas, Zuckerberg chega a ser arrogante e frio, baseando sua vida no raciocínio lógico sem perceber quando fere os sentimentos das pessoas, como fica evidente no ótimo diálogo que abre “A Rede Social”, quando ele percebe que a namorada de fato está terminando o relacionamento com ele (“Está falando sério?”; “Sim”; “Me desculpe… Vamos comer?”). Sua arrogância fica ainda mais evidente no julgamento, quando exclama que poderia comprar o clube Phoenix e transformá-lo num pingue-pongue ou ainda quando, ironicamente, confere uma soma feita pela advogada de Eduardo (num dos momentos em que o humor sarcástico do texto de Sorkin se destaca). Dando vida a este personagem marcante com competência, Jesse Eisenberg chama a atenção não apenas pela já citada rapidez com que pronuncia as palavras, mas também pela expressão blasé de quem despreza as pessoas à sua volta, além das reações que ressaltam a astúcia do rapaz, como quando ele tem a idéia sobre o “status de relacionamento” e larga um estudante falando sozinho, saindo correndo para colocar em pratica sua idéia.

Curiosamente, a frustração amorosa também motiva Zuckerberg a criar, como notamos novamente em seu reencontro com Erica, numa cena que contém uma das frases emblemáticas de “A Rede Social”: “A internet não escreve a lápis”. O raciocínio perfeito de Erica reflete algo que muitas pessoas ainda parecem não enxergar, compreendendo o mundo virtual como um local onde podemos despejar nossas frustrações, ameaçar e ofender pessoas e destilar nossos pensamentos sem sofrer penalizações por causa disto. Aliás, mesmo com poucos minutos em cena, Rooney Mara confere carisma e sensibilidade a sua Erica Albright, especialmente na citada cena do reencontro. Já Brenda Song mostra o lado negro das redes sociais na pele da ciumenta Christy, que faz a vida de Eduardo virar um inferno (literalmente!) somente porque ele não alterou seu status na rede de relacionamentos, em outra crítica interessante à sociedade moderna, que tanto valoriza a vida virtual.

Interpretado por Andrew Garfield de maneira carismática, Eduardo é responsável por garantir a estabilidade financeira do projeto, além de ser o criador da fórmula que resultou no “Facemash” e popularizou o criador do Facebook, mas, por outro lado, falha ao não perceber o potencial comercial da rede social que ajudou a criar. Como se não bastasse, ele também é conhecido por conseguir algo raro: ser chamado de “amigo” de Zuckerberg. Na realidade, talvez ele seja à única pessoa com quem Zuckerberg realmente se importa, como fica claro quando recebe imediatamente um pedido de desculpas após ser ofendido numa festa (“Desculpe, foi cruel”). Ciente da importância que entrar num clube tinha para Zuckerberg, ele hesita antes de contar ao amigo que passou para a segunda fase da seleção do Phoenix, alegando que provavelmente foi escolhido por fazer parte da cota – algo que Zuckerberg prontamente faz questão de concordar. Por tudo isso, ainda que os sentimentos não ganhem destaque na narrativa, chega a ser tocante o desfecho trágico desta amizade, algo que Fincher realça muito bem quando foca a cadeira de Eduardo vazia no julgamento logo após Zuckerberg afirmar que ele era seu melhor amigo – convenhamos, uma ironia cruel em se tratando do criador do Facebook.

Mais preocupados com a forma que serão vistos pela sociedade, os irmãos Winklevoss interpretados por Hammer fazem questão de destacar sempre que podem suas origens nobres e suas “conquistas” (repare como a bandeira da equipe de remo ganha destaque em seu alojamento), ainda que evitem se aproveitar da riqueza do pai para conseguirem o que querem. O diagnostico perfeito da dupla é feito por Zuckerberg: eles não estão me processando por roubo de propriedade intelectual, estão me processando porque pela primeira vez na vida algo não saiu como eles planejaram. E fechando os destaques do elenco, não deixa de ser irônica a escolha de Justin Timberlake para viver aquele que balançou as estruturas da indústria da música. Desde sua excelente introdução na narrativa, quando surge acompanhado de uma estudante de Stanford, o Sean Parker de Timberlake espalha carisma e conquista o espectador, o que também explica o fascínio que seus pensamentos exercem sobre Zuckerberg. Responsável pelo polêmico Napster, ele traz conflito e instabilidade à relação entre Zuckerberg e Eduardo, especialmente pela maneira irônica com que trata o brasileiro (algo, aliás, que Timberlake faz muito bem). Enxergando Eduardo como um entrave no projeto, Sean mal consegue conter a euforia ao saber que ele não veio para a Califórnia e lentamente consegue convencer Zuckerberg a tirar espaço do brasileiro – o que, obviamente, abre espaço para o próprio Parker.

Numa interessante conversa na balada, Parker expõe suas idéias novamente e convence Zuckerberg de que ele deveria esperar mais tempo para ver até onde iria à valorização do Facebook – e o tempo provou que ele estava certo. O problema é que, para isto, eles arquitetam uma situação que enfraquece o poder de Eduardo na empresa. Irado diante da traição, Eduardo parte pra cima do ex-amigo, num momento tenso em que todos se destacam: enquanto Garfield explode violentamente, Timberlake faz Parker soar ainda mais irritante, ao passo em que Eisenberg demonstra com precisão o incomodo de Zuckerberg com a situação. Algum tempo depois, a decepção no rosto de Zuckerberg ao ouvir a notícia da prisão de Parker retrata seu breve momento de reflexão.

Reflexão que volta a surgir – desta vez na mente do espectador – na emblemática cena final, em que o solitário Zuckerberg tenta seguidas vezes conquistar a amizade virtual da ex-namorada Erica. O criador do maior site de relacionamentos do mundo, que revolucionou o comportamento da sociedade moderna (quem sabe eternamente), surge solitário, evidenciando sua incapacidade de estabelecer conexão afetiva com alguém. Se os grandes filmes são aqueles que captam com precisão a sua época, Fincher pode se orgulhar, pois “A Rede Social” é um retrato perfeito da sociedade contemporânea, cada vez mais “conectada” ao mundo virtual, sem perceber a ausência de valores dos tempos em que vivemos.

Texto publicado em 15 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira

A ORIGEM (2010)

(Inception)

 

 

Filmes em Geral #79

Dirigido por Christopher Nolan.

Elenco: Leonardo DiCaprio, Marion Cotillard, Joseph Gordon-Levitt, Ellen Page, Ken Watanabe, Cillian Murphy, Tom Berenger, Michael Caine, Lukas Haas, Tohoru Masamune, Dileep Rao e Tom Hardy.

Roteiro: Christopher Nolan.

Produção: Christopher Nolan e Emma Thomas.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Dono de uma filmografia impecável, o diretor Christopher Nolan já comprovou diversas vezes que é possível comandar blockbusters sem que para isto tenha que ofender a inteligência do espectador. Mas se acertou em cheio nas experiências anteriores, na obra-prima “A Origem” o diretor inglês foi ainda mais longe, trazendo uma narrativa extremamente complexa e desafiadora que explora de maneira inteligente o universo dos sonhos e suga o espectador pra dentro da trama, apresentando ainda proezas técnicas impressionantes e excelentes atuações.

Escrito pelo próprio Nolan, o inteligente e muito bem estruturado roteiro de “A Origem” traz o espião Don Cobb (Leonardo DiCaprio), um especialista em invadir a mente das pessoas e roubar segredos durante os sonhos, que não pode voltar aos Estados Unidos por ser suspeito de assassinar a própria esposa Mal (Marion Cotillard). Desesperado para rever seus filhos, ele aceita a missão proposta pelo empresário Saito (Ken Watanabe) de implantar uma idéia na mente do concorrente Fischer (Cillian Murphy) – que herdará a empresa do pai doente assim que ele falecer -, tendo a promessa de poder voltar ao seu país como recompensa. Para cumprir sua tarefa, ele contará com a ajuda dos parceiros Arthur (Joseph Gordon-Levitt) e Eames (Tom Hardy), do especialista em sedação Yusuf (Dileep Rao) e da novata arquiteta Ariadne (Ellen Page).

Exigindo ao máximo o raciocínio lógico do espectador, “A Origem” parte de uma premissa inteligente e complexa, explorando o universo dos sonhos de maneira bastante lógica e racional, ainda que abra espaços para visões oníricas e desconexas tão comuns quando estamos sonhando, como quando Cobb se esfrega entre duas paredes tentando escapar de perseguidores (num momento digno de um pesadelo) ou quando um trem atravessa uma rua cheia de carros – e o mais interessante é que estas visões sempre têm alguma ligação com os sonhadores, como neste caso em que o trem é reflexo de uma frase marcante dita por Cobb. Também de forma inteligente, Nolan justifica estes ambientes pouco confusos, que fogem completamente do que esperamos num ambiente onírico, ao utilizar arquitetos para projetar o mundo dos sonhos – Nash (Lukas Haas), no começo, e depois Ariadne. Ainda assim, é interessante notar como o mundo real interfere diretamente nos sonhos, como quando Cobb cai na banheira enquanto dorme e, imediatamente, a água invade seu sonho, assim como a chuva no sonho de Yusuf apenas reflete sua vontade de urinar (“Não podia ter urinado antes!”, reclama Arthur).

Logo de cara, Nolan insere uma premissa importante que faz o espectador se acostumar com a complexa idéia das várias camadas de sonhos, trazendo Cobb e Saito de volta de dois sonhos até acordarem num trem, o que é essencial para que compreendamos melhor o excepcional terceiro ato de “A Origem”. Mantendo-se fiel à lógica interna da narrativa, Nolan também explica de maneira clara e coerente alguns conceitos importantes, como o interessante conceito da diferença na passagem do tempo em cada nível de sonho. Mas apesar desta complexidade narrativa, “A Origem” jamais deixa o espectador confuso, graças à clareza com que o diretor conduz o projeto, confiando na inteligência do espectador ao evitar o excesso de informações que poderia poluir a narrativa.

Contando com um elenco numeroso e de muito talento, Nolan também consegue extrair ótimas atuações de praticamente todos os envolvidos, ainda que estejam em papéis menores, como no caso de Tom Berenger, que vive o tio Browning, e de Michael Caine como o professor. Vivendo a projeção de esposa Mal, Marion Cotillard convence no papel e consegue até mesmo plantar a dúvida na cabeça de Cobb (e do espectador) em determinado momento, assim como Ken Watanabe transmite segurança na pele do empresário Saito. E se Cillian Murphy surge corretamente fragilizado como o indeciso Fischer, Joseph Gordon-Levitt faz de seu Arthur um personagem cativante, especialmente quando precisa tomar as rédeas em determinado momento sob o risco de colocar toda a ação da equipe em perigo – e o faz muito bem.

Fechando o elenco, temos ainda Tom Hardy, que vive o camaleão Eames e tem papel fundamental em diversos momentos (vale notar a sutileza com que ele se “transforma” no tio Browning e vice-versa, especialmente quando está sentado nas pedras após sair da água no sonho de Yusuf), além da arquiteta Ariadne de Ellen Page (a eterna Juno!), que funciona como uma espécie de guia para o espectador, com seus questionamentos trazendo à tona explicações vitais para compreendermos o que está acontecendo na tela, mas que também colabora muito com a equipe durante a missão. Mas o grande destaque de “A Origem” fica mesmo para o astro Leonardo DiCaprio, que confirma seu talento e carisma ao carregar este projeto complexo com facilidade. Desejando apenas poder voltar para casa e rever os filhos, seu Cobb comove em sua luta para esquecer Mal, colocada em cheque todas as vezes que ele entra em um sonho, projetando involuntariamente a esposa “morta” e colocando em risco suas missões, num reflexo direto da morte traumática dela que DiCaprio demonstra muito bem. Transmitindo o dilema de Cobb com precisão quando suas convicções são questionadas pela esposa, o ator faz com que o espectador compartilhe de seus sentimentos, demonstrando ainda a angústia crescente do personagem de maneira convincente no decorrer da narrativa.

Exibindo enquadramentos perfeitos e planos simétricos, além de belos movimentos de câmera como o travelling que revela a estrutura do limbo, Nolan capricha no aspecto visual, utilizando também a câmera lenta com precisão em momentos cruciais, como quando objetos começam a explodir em Paris após Cobb revelar que Ariadne está num sonho, num momento que confirma também a qualidade dos efeitos visuais de “A Origem”. E o que dizer do estranho e magnífico momento em que a cidade se curva e une os tetos dos prédios? Além disto, Nolan mostra competência também na condução das cenas de ação, como as perseguições, os tiroteios e a invasão da fortaleza, mas sempre inserindo estas seqüências de maneira orgânica e contribuindo para o andamento da narrativa, comprovando sua capacidade de comandar blockbusters com cérebro, já revelada antes nos excelentes “Batman Begins” e “O Cavaleiro das Trevas”.

Obviamente, ele conta com uma equipe técnica talentosa para conseguir este apuro visual. Observe, por exemplo, a diferença entre tons da fotografia de Wally Pfister, que ajuda a identificar com clareza em que sonhos os personagens estão, além de revelar características importantes de cada sonhador. Repare que o primeiro sonho, caótico e chuvoso, reflete o modo impulsivo de agir de Yusuf, enquanto que no segundo, o hotel organizado, limpo e simétrico revela o perfeccionismo de Arthur, ao passo em que a neve do terceiro sonho confirma a personalidade fria de Eames. Da mesma maneira, o design de produção busca diferenciar cada sonho, mantendo uma lógica fiel à personalidade de cada um (“Julgando pela decoração este é o seu sonho Arthur”, diz Mal em certo momento), além de se destacar na criação do impressionante e surreal limbo, repleto de construções imaginadas por Cobb e Mal, trazendo ainda o objeto símbolo do filme, que é o totem que revela ao protagonista o que é real e o que é sonho.

Os espetaculares efeitos visuais citados acima tornam tudo mais convincente e realista, destacando-se também na briga que ocorre no sonho de Arthur, em que os personagens flutuam na tela devido à alteração da gravidade, num reflexo interessante do que ocorre no ambiente caótico em que eles estão sonhando na camada anterior. Também se destacam os ótimos efeitos sonoros e o design de som, que captam cada movimento dos personagens, os tiros, o barulho dos carros e até mesmo o estalar de uma taça quebrada, vital em certo momento da narrativa. Já a trilha sonora de Hans Zimmer chama pouca atenção para si, surgindo apenas em momentos pontuais e ganhando força nas grandes cenas, especialmente através da música diegética de Edith Piaf que conecta os sonhos – que faz ainda uma referencia ao papel que rendeu o Oscar a Marion Cotillard. Fechando a parte técnica, a excepcional montagem de Lee Smith mantém um ritmo dinâmico durante toda a narrativa, chegando quase à perfeição durante os quatro sonhos simultâneos (que abordaremos em instantes) ao transitar entre cada um deles de maneira fluída e orgânica.

Após cumprirem à risca o plano traçado, os agentes finalmente conseguem invadir a mente de Fischer, iniciando a sensacional seqüência em que eles invadem sonhos dentro de sonhos, chegando a percorrer três camadas até que o jovem empresário seja atingido no último estágio, colocando em risco toda a missão. É quando eles decidem salvar Fischer e buscar Saito, também ferido e já abandonado no limbo, indo para uma quarta camada e criando um desafio interessante para o espectador, agora obrigado a acompanhar quatro ações paralelas, em diferentes níveis de tempo e com objetivos distintos. Nolan conduz toda a seqüência com maestria e atinge a perfeição técnica naquele que certamente é o grande momento de “A Origem”, quando o “chute” começa a trazer de volta os sonhadores para a realidade – e impressiona como ele respeita com rigidez quase militar a lógica interna da narrativa, não apenas neste momento, mas em todo o filme. Contando novamente com o ótimo trabalho do montador Lee Smith, Nolan cria uma seqüência belíssima e potencialmente tensa, capaz de nos fazer grudar na tela enquanto acompanhamos os personagens despertando sucessivamente. A câmera lenta mostrando a queda da van no primeiro sonho, a queda do elevador no segundo, a explosão da fortaleza que segue o momento em que Fischer abre o cofre no terceiro e o instante em que Ariadne joga Fischer do prédio e se joga no quarto sonho são seqüências memoráveis, conduzidas num ritmo perfeito por Nolan, que ainda amarra a narrativa com perfeição ao trazer Cobb acordando na praia do limbo novamente, assim como no primeiro plano do longa.

Como se não bastasse, ainda temos o belo final, com todos acordando no avião e Cobb confirmando que sua missão foi bem sucedida ao ver Saito pegando o telefone, permitindo-lhe passar pela imigração e reencontrar os filhos. E então Nolan decide brincar com nossa percepção ao encerrar esta obra-prima da ficção científica com um plano polêmico, em que vemos o totem girando, mas não vemos sua queda, criando duas possibilidades interessantes de interpretação. Na primeira e mais plausível delas, Cobb retorna pra casa, reencontra os filhos na “vida real” e o totem cai após o encerramento do filme. Mas o fato de cortar o plano antes de mostrar a queda do objeto levanta outra curiosa possibilidade, ventilada algumas vezes durante a narrativa (especialmente por Mal e por um senhor que ministra sedação). Estaria Cobb vivendo um longo e complexo sonho? O fato de ser perseguido por inimigos e até mesmo por autoridades, assim como os “sonhadores” são perseguidos nos sonhos que ele invade, reforça esta teoria – e Nolan é inteligente o bastante para não mostrar a queda do totem, plantando assim a dúvida em nossas mentes, especialmente porque Mal afirma com convicção em diversos momentos que Cobb é quem ficou preso no mundo dos sonhos, e não ela. E desta forma, o diretor faz o espectador compartilhar da mesma dúvida do personagem, que, diante de tudo que testemunhou e viveu, já não sabe mais o que é sonho e o que é realidade. Não é genial?

Se Cobb estava sonhando ou não, pouco interessa. O importante é que os cinéfilos podem comemorar, pois “A Origem” é uma realidade, um filme sensacional dirigido por um realizador competente e cada vez mais ousado, recheado por um elenco do mais alto nível. Complexo e inteligente, pertence ao seleto grupo de filmes que desafiam a mente do espectador, fazendo-o sair da cômoda posição de “platéia” e participar da narrativa, usando seu cérebro para algo mais do que comer pipoca e tomar refrigerante. Se você não se incomoda em ser estimulado desta forma, certamente acompanhar a trajetória de Cobb e sua turma foi uma experiência memorável.

Texto publicado em 14 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira

127 HORAS (2010)

(127 Hours)

 

Filmes em Geral #78

Dirigido por Danny Boyle.

Elenco: James Franco, Treat Williams, Kate Mara, Lizzy Caplan, Kate Burton, Amber Tamblyn, John Lawrence, Clémence Poésy, Fenton Quinn, Pieter Jan Brugge, Rebecca C. Olson, Jeffrey Wood, Norman Lehnert, Darin Southam, Sean Bott e Parker Hadley.

Roteiro: Danny Boyle e Simon Beaufoy, baseados em livro de Aron Ralston.

Produção: Danny Boyle, Christian Colson e John Smithson.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Em 2003, o jovem Aron Ralston ficou famoso por ter sido obrigado a amputar o próprio braço depois de ficar preso por uma rocha num cânion. Mas, apesar de lançar um livro logo no ano seguinte, ele teve que aguardar alguns anos para ver sua história ganhar vida nas telas do cinema, talvez pela curiosa dualidade que o projeto naturalmente carrega. Se por um lado a experiência de Aron possui carga dramática suficiente para se tornar um filme, por outro as extensas 127 horas do título poderiam resultar num longa monótono demais para os padrões cinematográficos contemporâneos. Coube então a Danny Boyle a missão de transportar para a telona esta marcante história. Felizmente, o resultado é satisfatório, ainda que os invencionismos do diretor amenizem o impacto que a narrativa poderia ter.

Escrito pelo próprio Boyle ao lado de Simon Beaufoy e com base no livro do verdadeiro Aron, “127 Horas” apresenta a complicada situação vivida pelo jovem Aron Ralston (James Franco) após cair na fenda de um cânion e ter seu braço preso entre a parede e uma rocha. Desde o início, Boyle faz questão de ressaltar o contraste entre as diversas imagens de multidões reunidas em locais como estádios e shows e a imagem do solitário Aron saindo de casa na madrugada, numa alusão ao espírito aventureiro e solitário do rapaz. Aliás, eu não me recordo qual era a frase que promovia “127 Horas”, mas certamente a mensagem do filme poderia se resumir à frase “Sempre avise alguém aonde você vai estar” – algo, aliás, que o letreiro final deixa claro que Aron aprendeu. O evento que muda radicalmente a narrativa (e a vida de Aron) acontece logo aos 15 minutos de projeção – numa cena de forte impacto visual, amplificada pela boa atuação de Franco, que transmite muito bem a dor e a raiva de Aron. A partir dali, o letreiro com o título do longa anuncia que acompanharemos as angustiantes 127 horas que o jovem passou no local.

Mas esta expectativa se revela levemente falsa, já que as escolhas de Boyle e sua equipe sempre buscam amenizar esta experiência potencialmente sufocante. Repare, por exemplo, como a fotografia inicialmente viva e cheia de cores de Enrique Chediak e Anthony Dod Mantle corretamente dá lugar aos tons mais escuros quando Aron se prende à rocha, mas as constantes interrupções através de flashbacks e delírios evitam que o visual reflita a angústia dele. Da mesma forma, a montagem de Jon Harris surge inicialmente acelerada (ele chega a dividir a tela em três partes) e, reforçada pela trilha sonora agitada de A. R. Rahman, reflete corretamente a euforia do personagem naquele instante. Repare, por exemplo, a seqüência em que ele anda de bicicleta até chegar ao cânion, que intercala diversos planos rapidamente buscando conferir energia à narrativa. Repleta de imagens belíssimas que transmitem ao espectador a mesma alegria dele, dentre as quais vale destacar o local onde ele mergulha com duas garotas, toda esta seqüência inicial deveria servir de contraste para o sufocante restante da narrativa, mas, infelizmente, Harris e Boyle decidem utilizar diversos recursos narrativos que buscam amenizar o aspecto claustrofóbico e monótono que o longa naturalmente evoca.

Além da beleza local, os planos gerais destacam também a imponência da natureza e a nossa insignificância diante dela, algo ressaltado pelo ótimo travelling que revela o quão inúteis são os gritos de Aron, com a câmera saindo de seu rosto para mostrar a imensidão do inabitado local onde ele está preso – a enorme fenda parece minúscula quando observamos toda a região. Boyle acerta também ao destacar a importância da água através de closes no líquido e no rosto do protagonista enquanto bebe (praticamente compartilhamos de sua sede quando vemos garrafas de Gatorade e Coca-Cola), assim como a importância do sol é realçada pela primeira vez num belo momento, quando a luz invade a sombria fenda. Porém, numa decisão puramente comercial que buscava evitar cansar o espectador (e, desta forma, atrair mais público para os cinemas), Boyle acelera a montagem e abusa de transições estilísticas que, reforçadas pela trilha sonora agitada, até alcançam seu objetivo original, mas enfraquecem o drama do protagonista por não transmitir ao espectador a mesma sensação dele. Além disso, o uso de flashbacks e os delírios de Aron com a ex-namorada, por exemplo, aliviam a sensação de isolamento no espectador e, por isso, também enfraquecem o peso dramático da narrativa.

Por sorte, James Franco se sai muito bem na difícil tarefa de carregar “127 Horas” sozinho, evitando que o espectador “se canse” do personagem com seu carisma. Realçando o desespero pontual de Aron através de decisões pouco racionais – como raspar a rocha com um canivete -, o ator expõe com clareza os conflitantes sentimentos de Aron, o sofrimento causado pela fome, pelo frio e pela sede e, especialmente, seu esforço para evitar perder o controle diante da complicada situação em que se meteu – e que por vezes dá espaço às inevitáveis explosões de raiva e desespero, como quando ele grita por ajuda. Aliás, é impressionante notar como Aron consegue manter o raciocínio lógico e até mesmo criar estratégias para sobreviver por mais tempo, ainda que saiba que não resistirá por muitos dias se continuar preso, como na mórbida idéia de gravar suas conversas com a câmera digital, que acaba se transformando numa forma de sair mentalmente do local, uma espécie de janela para o mundo em que ele se refugia – e chega a ser tocante o momento em que ele ameaça se masturbar vendo a imagem de uma das garotas, refutando a idéia logo em seguida por perceber o absurdo da situação.

Em outra idéia inteligente que busca tirá-lo mentalmente dali, Aron imita um programa de rádio e aproveita para externar seus sentimentos, exorcizar os demônios e deixar mensagens gravadas para os pais, o que revela uma comovente conformidade diante da morte eminente e uma tocante esperança de que um dia a câmera seria encontrada a tempo de que eles ouvissem suas palavras. Aron chega até mesmo a imaginar (ou sonhar? ou delirar?) que a chuva moveu a pedra e lhe tirou da fenda, mas seu choro doloroso nos traz de volta à realidade junto com ele.

Este sofrimento se arrasta até que o som de fortes batidas de coração avise ao espectador que algo está prestes a acontecer momentos antes dele enfiar o canivete no braço e iniciar o doloroso processo que resultará na cena mais forte de “127 horas” algum tempo depois. Antes disso, o símbolo da bateria acabando na filmadora serve como uma metáfora para o próprio Aron, que se aproxima da morte e chega à triste conclusão de que aquela rocha o esperava há bilhões de anos (levantando uma interessante tese para discutir entre amigos). Em seguida, são necessários coragem e estômago forte para acompanhar o momento em que Aron decide amputar o próprio braço (com um canivete cego!) para sobreviver, captado em detalhes pela câmera de Danny Boyle. Coragem, aliás, que não faltou ao rapaz, que buscou força nas lembranças da família e na visão do filho que ele ainda não tinha para tomar esta atitude – e confesso que me identifiquei muito neste momento, já que sempre temi morrer antes de ter um filho. Chegava ao fim sua árdua jornada; e as imagens do verdadeiro Aron ao lado da esposa e do filho revelam que aquela dolorosa decisão valeu à pena.

Apesar das equivocadas escolhas de seu diretor, “127 Horas” é um filme sufocante, que poderia ser infinitamente mais angustiante caso Boyle tivesse ousado um pouco mais. Em todo caso, a traumática experiência vivida pelo protagonista e a ótima atuação de James Franco são suficientes para fazer deste um grande filme. Aron descobriu da pior maneira o quanto a natureza pode ser simultaneamente fascinante e implacável.

Texto publicado em 13 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira

Especial Oscar 2011

Estamos próximos do Oscar 2012 e para entrar de vez no clima da premiação, resolvi aproveitar a oportunidade para criar uma “quinzena especial” que foge dos padrões estabelecidos até agora. Mesmo sendo apenas resultado de uma votação política que não serve como atestado de qualidade para os filmes vencedores, os prêmios da Academia sempre chamam nossa atenção, seja por curiosidade ou apenas pela torcida por algum filme, ator ou diretor dos quais gostamos. Como alguns dos filmes que concorrerão ao prêmio principal neste ano sequer foram lançados no Brasil ainda, nesta quinzena especial resolvi recordar a premiação passada. Sendo assim, nas próximas duas semanas divulgarei críticas dos 10 filmes que concorreram ao prêmio de melhor filme em 2011, algo que, como vocês sabem, me obriga a quebrar algumas regras do Cinema & Debate:

1 – Escreverei sobre filmes recentes, algo que eu pretendia fazer apenas quando a Videoteca chegasse próxima dos últimos anos (hoje estou escrevendo sobre filmes de 1995).

2 – Divulgarei a crítica de “Toy Story 3” antes da crítica dos dois primeiros filmes, o que é incomum, mas não é inédito no site, já que escrevi sobre “Batman, o cavaleiro das trevas” antes de “Batman Begins” – importante deixar claro que, obviamente, eu assisti aos filmes anteriores.

3 – Escreverei sobre filmes que “fisicamente” já pertencem à Videoteca, mas que farão parte da contagem oficial apenas quando chegar à vez de 2011. Ou seja, ainda que eu já tenha em DVD ou Blu-ray alguns destes filmes, eles só farão parte oficialmente da Videoteca do Beto no futuro, quando eu chegar em 2010 – algo, aliás, que já acontece também com “Batman, o cavaleiro das trevas”.

Dito isto, vamos em frente. Entendo que esta é uma boa oportunidade para apresentar ao leitor os caminhos que o Cinema & Debate pretende seguir em breve, alternando entre críticas dos filmes do passado (uma característica marcante do site), filmes recentes e, em breve, também de lançamentos.

Espero que gostem das novidades!

Um grande abraço.

Texto publicado em 12 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira

Comentário: Eu sou a Lenda (2007)

Olá pessoal,

Fiz um pequeno comentário sobre o filme “Eu sou a Lenda” no Ilha de Lost, blog do qual participo junto com meu primo e amigo Thiago e sua esposa e minha amiga Amanda. Para acessar, clique aqui.

Fiquem à vontade para ler e comentar.

Um abraço.

Texto publicado em 11 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira

Porque “Coração Valente” é o filme mais importante da minha vida

Escrever sobre “Coração Valente” não foi uma tarefa fácil. O impacto emocional que este filme teve na minha vida provocou um bloqueio criativo que se arrastou por semanas. Quando finalmente decidi escrever a crítica do filme, tive que me segurar em cada parágrafo para não misturar a análise técnica com os sentimentos que afloram todas as vezes que eu assisto ao épico de Mel Gibson. Mas porque tudo isto, você certamente está se perguntando?

Como escrevi na crítica de “Um Sonho de Liberdade”, “Coração Valente” é responsável, ao lado do longa de Frank Darabont, pela minha paixão pelo cinema. Venho de uma família apaixonada pela sétima arte e desde pequeno minha mãe e meus primos me ensinaram a amar o cinema, mas foi apenas entre 1995 e 1996, quando assisti a estes dois filmes pela primeira vez, que minha paixão se consolidou. Só que naquela época eu vivia um período difícil – algo que já expliquei quando falei da importância dos “Red Hot Chili Peppers” na minha vida. Como escrevi naquela oportunidade, eu sempre fui uma pessoa feliz, mas especialmente em 1996 eu vivia uma fase de questionamentos, que iam desde o meu futuro profissional até a minha vida pessoal, provocando uma verdadeira crise existencial que me levava constantemente à depressão e me fazia até mesmo a questionar a religião. Na escola, eu vivia um inferno astral, distante da maioria dos amigos que estudei nos sete anos anteriores e, pra piorar, numa classe opressora (eu era quieto e tinha poucos amigos, mas, por outro lado, eram amizades verdadeiras, que duram até hoje). Como resultado, pouco tempo depois eu parei de frequentar a igreja e mudei radicalmente, passando a viver na noite e fazer tudo que tinha vontade – e somente com o tempo encontrei o equilíbrio que julgo ser o ideal entre todas estas áreas da minha vida.

E o fator que me fez questionar tudo e lutar contra aquele inimigo silencioso que me sufocava tanto foi justamente o épico de Mel Gibson. Se “Um Sonho de Liberdade” consolidou de vez minha paixão pelo cinema, “Coração Valente” foi além e impactou diretamente em minha vida. Mas o que tem a ver um filme como “Coração Valente” e uma crise depressiva? Para mim a resposta é “tudo a ver”. Foi somente após acompanhar a saga daquele homem que lutou até o fim por um objetivo (no caso, a liberdade de seu povo) que eu passei a me questionar o que EU esperava da vida. Onde eu queria chegar? Quem eu realmente queria ser? Até então, eu vivia na inércia sem perceber, sendo levado por motivações que a sociedade determina (estudar, trabalhar, ir à igreja aos domingos), mas jamais havia questionado o que EU queria. Isto tudo era o que as pessoas esperavam de mim, mas o que eu mesmo esperava? O que eu realmente gostaria de estar fazendo? Ao ver William Wallace gritando “Liberdade”, o choque que sofri foi tão grande (e a cena foi feita para chocar mesmo) que ao chegar à cozinha da minha casa, sentei-me à mesa e fiquei olhando para o nada, perplexo, até ser interrompido algum tempo depois por minha mãe, que perguntou preocupada: “O que foi meu filho?”. Respondi: “Nada mãe, estou refletindo sobre o filme que assisti”. E ela falou: “É forte este “Coração Valente” né?”. “É sim”, respondi. E era mesmo. Chacoalhou meus pensamentos de uma forma que, meses depois, eu ainda estava sofrendo transformações por causa dele.

Curiosamente, os dois filmes que mudaram minha vida têm em comum o mesmo tema e, se considerarmos que eu também carrego eternamente na memória filmes como “Dança com Lobos” e “Na Natureza Selvagem”, podemos chegar a uma interessante conclusão. Não sou nenhum psicólogo, mas é óbvio que o tema “liberdade” realmente mexe comigo. E aqui não se trata de largar tudo para trás e morar num ônibus mágico ou numa reserva indígena, nem mesmo fugir de uma prisão ou lutar contra um império. Minha luta era interior, eu precisava encontrar meu caminho, precisava ser “livre” para buscar o que eu realmente queria. E foi isto que a saga de William Wallace me fez enxergar. Se a música dos Peppers me fez encontrar a alegria e energia que faltavam, “Coração Valente” me fez levantar da poltrona e lutar pelo que eu queria.

Por isso, durante anos considerei este como o melhor filme que eu já tinha assistido, num equívoco que misturava o impacto emocional que ele teve sobre mim com as qualidades artísticas do filme (que são muitas, mas não permitem comparações com obras-primas como “2001, uma odisseia no espaço” ou “O Poderoso Chefão”, por exemplo). Após criar o Cinema & Debate e assistir/rever muitos destes grandes clássicos, percebi imediatamente que “Coração Valente” já não era mais o melhor filme de todos os tempos pra mim, mas até hoje seu impacto continua o mesmo daquele dia memorável em que o assisti pela primeira vez.

Desde então, consegui encontrar o equilíbrio entre os diversos setores da minha vida. Hoje, graças a Deus, me sinto confortável espiritualmente, me sinto bem com meus amigos e família, me sinto realizado como pai e marido. Ou seja, sou uma pessoa feliz, longe de qualquer possibilidade de ter uma nova crise de depressão. E é bom deixar claro: se um dia eu estive perto disto, não foi por culpa de ninguém a não ser eu mesmo, que me acomodei e precisei de um choque para despertar.

Para mim, pouco importa quem é Mel Gibson fora das telas. Ele dirigiu o filme que mudou minha vida e isto é o suficiente para que eu o respeite como artista. Por tudo isto, “Coração Valente” pode não ser mais o melhor filme que eu já assisti, mas certamente ele continua sendo o filme mais importante da minha vida.

Texto publicado em 06 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira