LAWRENCE DA ARÁBIA (1962)

(Lawrence of Arabia)

 

Videoteca do Beto #111

Vencedores do Oscar #1962

Dirigido por David Lean.

Elenco: Peter O’Toole, Alec Guinness, Anthony Quinn, Omar Sharif, Jack Hawkins, José Ferrer, Anthony Quayle, Claude Rains e Arthur Kennedy.

Roteiro: Robert Bolt e Michael Wilson, baseado nos textos de T.E. Lawrence.

Produção: Sam Spiegel.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Entre a segunda metade da década de 50 e o início dos anos 60, o cinema viveu um período repleto de produções grandiosas como “Os Dez Mandamentos”, “Ben-Hur”, “Spartacus” e “A Queda do Império Romano”, que utilizavam uma quantidade enorme de figurantes para narrar momentos históricos, recriados caprichosamente sob a condução competente de diretores como William Wyler, Cecil B. DeMille, Stanley Kubrick e Anthony Mann. Em 1962, David Lean se juntou ao grupo com este “Lawrence da Arábia”, que narra com riqueza de detalhes como um tenente inglês liderou os árabes na luta contra os turcos durante a primeira guerra mundial.

Escrito por Robert Bolt e Michael Wilson (baseado nos textos do próprio Lawrence), “Lawrence da Arábia” inicia em 1935 com a morte de T.E. Lawrence (Peter O’Toole) num acidente de motocicleta. Em seu funeral, um longo flashback surge para narrar sua trajetória e explicar a razão de sua fama, revelando como ele passou de um tenente infeliz para um respeitado (e improvável) líder, responsável pela união das tribos árabes na guerra contra os turcos. No caminho, o roteiro aproveita para expor os conflitos entre as diversas tribos árabes, abordando também os interesses políticos da Inglaterra na região, além de explicar, através da figura do repórter, como a fama de Lawrence se espalhou pelo mundo.

Auxiliado pela montagem clássica de Anne V. Coates, David Lean emprega um ritmo lento, que nos permite contemplar a beleza do deserto e desfrutar cada etapa da transformação do protagonista. Afinal de contas, em “Lawrence da Arábia” as sensações têm papel fundamental, fazendo o espectador se sentir parte daquele universo. Observe, por exemplo, como o diretor prepara cuidadosamente a invasão de Aqaba, prolongando a expectativa no espectador e nos fazendo compartilhar o minucioso planejamento estratégico do protagonista. E apesar de soar lenta para os padrões atuais, a montagem funciona bem e consegue evitar que o longa se torne cansativo. Além disso, Coates cria elegantes raccords, como quando o fogo de uma vela é substituído pelo plano do céu avermelhado no deserto ou quando ele salta das pernas dos camelos para as pernas dos soldados durante uma batalha.

Sem se preocupar em comprimir a narrativa nas tradicionais duas horas de duração, David Lean toma o tempo que julga necessário para explorar o deserto, criando lindos planos que aproveitam o nascer do sol e a exuberância daquele mar de areia. Contando ainda com a deslumbrante fotografia de Freddie Young, o diretor cria um visual arrebatador, que se confirma até mesmo nas cenas noturnas, iluminadas com destreza por Young e que servem para criar um contraste com a luz poderosa das cenas diurnas. O diretor é competente ainda na condução das cenas de forte impacto, como as guerras (que voltaremos a abordar em instantes), e nos momentos intimistas, como as lentas caminhadas de Lawrence pelo deserto. Observe ainda como o silêncio aumenta nossa expectativa segundos antes do beduíno Sherif Ali (Omar Sharif) surgir no horizonte longínquo. Já quando Lawrence resgata Gasim (I.S. Johar) no deserto, a trilha triunfal indica com antecedência que ele salvou o rapaz – Gasim ainda protagoniza outro momento marcante, quando descobrimos que ele é o assassino que deve ser executado por Lawrence, pouco tempo depois de ser salvo por ele. Estes dois instantes nos quais alguém surge no horizonte demonstram como Lean trabalha com as nossas sensações, nos fazendo compartilhar a angustiante experiência de caminhar no deserto escaldante como se estivéssemos ali, olhando para o horizonte sem saber se o que estamos vendo é real ou apenas uma miragem. Em outras palavras, “Lawrence da Arábia” é uma experiência cinematografia sensorial, que merece ser vivida na tela grande (ou algo que se assemelhe).

Interpretado pelo carismático Peter O’Toole, Lawrence surge inicialmente como um homem misterioso, capaz de cativar muitas pessoas que mal o conheceram, como descobriremos no final, quando uma interessante rima narrativa nos revela o homem que introduziu o flashback apertando a mão de Lawrence “somente para dizer que fez isto”. Mas uma conversa na tenda do príncipe Feisal (Alec Guinness) estabelece os objetivos da guerra e escancara alguns dos traços da forte personalidade do protagonista, um improvável herói de guerra, que foge dos padrões estereótipos do tipo. Magro e levemente afeminado, o Lawrence de O’Toole é um personagem repleto de nuances, que, contrariando sua aparência frágil, lentamente descobre sentir prazer ao matar seus inimigos. Apesar de se assustar num primeiro momento, Lawrence confirma este sentimento numa das batalhas, algo que O’Toole transmite muito bem com seu semblante insano durante o conflito. Durante seu processo de transformação, Lawrence conhece ainda o líder dos Howeitat, Auda Abu Tayi, vivido de maneira divertida por Anthony Quinn, e também o príncipe Feisal de Alec Guinness, que demonstra sabedoria nas decisões e sabe jogar o jogo político dos ingleses. Fechando o talentoso elenco, Claude Rains vive o político Sr. Dryden, Omar Sharif interpreta muito bem Sherif Ali e Jack Hawkins marca presença como o general Allenby.

David Lean conta ainda com a trilha sonora triunfal do ótimo Maurice Jarre na construção da atmosfera épica do longa, além de nos ambientar com perfeição naquele universo através do ótimo trabalho técnico de sua equipe, a começar pelo design de som, que realça o barulho do vento no deserto, as explosões e gritos durante as batalhas e os aviões que rasgam o céu. Quem também colabora bastante são os figurinos de Phyllis Dalton e a direção de arte de John Stoll que, somadas a enorme quantidade de figurantes utilizada nas batalhas, conferem realismo a narrativa – além de realçarem a magnitude da produção quando destacados pelos planos gerais de Lean. Finalmente, os figurinos têm ainda função narrativa, já que a mudança de roupa de Lawrence ilustra também sua mudança de comportamento e o respeito que ele passa a ter diante dos árabes.

Entre as grandes cenas de “Lawrence da Arábia”, vale destacar a invasão de Aqaba, uma seqüência de tirar o fôlego, captada num lindo plano geral de Lean que, no final, revela através de um elegante travelling o canhão apontado para o mar (e que belo mar!), exatamente como Lawrence tinha previsto. Outra batalha sensacional acontece antes da chegada a Damasco, numa seqüência que ilustra bem a grande quantidade de figurantes utilizada, exigindo muita habilidade do diretor na condução da mise-en-scène – vale lembrar que, ao contrário do que acontece atualmente, as batalhas não utilizavam efeitos digitais. E além das cenas marcantes de guerra, merece destaque a melancólica morte de um garoto na areia movediça, que parece servir para endurecer ainda mais o coração de Lawrence.

“Lawrence da Arábia” é um épico grandioso que retrata a vida de um personagem complexo, repleto de qualidades e defeitos como qualquer ser humano. Seu espírito de liderança e seu carisma uniram os povos árabes na luta contra os turcos, mas ele também sofreu profundas transformações nesta trajetória, captada com habilidade pela câmera de David Lean – um especialista em produções de grande escala e notável beleza plástica. O resultado é um filme empolgante, repleto de cenas marcantes e que, mesmo com quase quatro horas de duração, consegue cativar o espectador sem se tornar cansativo.

PS: Para quem tiver curiosidade, Rodrigo Carreiro explica em detalhes as dificuldades enfrentadas durante as filmagens de “Lawrence da Arábia” nesta crítica.

Texto publicado em 29 de Agosto de 2011 por Roberto Siqueira

OS DEZ MANDAMENTOS (1956)

(The Ten Commandments)

 

Videoteca do Beto #110

Dirigido por Cecil B. DeMille.

Elenco: Charlton Heston, Anne Baxter, Yul Brynner, Edward G. Robinson, Yvonne De Carlo, Vincent Price, Richard Farnsworth, Debra Paget, John Derek, Cedric Hardwicke, Nina Foch, Martha Scott, Judith Anderson, John Carradine, Olive Deering, Douglass Dumbrille e Robert Vaughn.

Roteiro: Eneas McKenzie, Jesse Lasky Jr., Jack Gariss e Fredric M. Frank, baseado nos livros de J.H. Ingraham, A.E. Southom e Dorothy Clarke Wilson.

Produção: Cecil B. DeMille.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Poucos livros têm tanto potencial cinematográfico como a Bíblia Sagrada. Recheado de histórias grandiosas, o livro sagrado cristão é um prato cheio para cineastas ousados, que podem projetar na tela a sua visão sobre aqueles acontecimentos. Por outro lado, histórias bíblicas podem causar aversão em pessoas não cristãs e, nas mãos de diretores errados, podem se transformar em mera propaganda religiosa. Não é o caso de “Os Dez Mandamentos”, épico grandioso e muito bem conduzido por Cecil B. DeMille, que narra à trajetória de Moisés desde que foi colocado ainda bebê num rio até o momento em que lidera a libertação de seu povo do Egito.

Após o Faraó decretar a morte de todos os bebês do sexo masculino, o recém-nascido Moisés (Charlton Heston) é deixado nas águas de um rio, dentro de um cesto, e encontrado por uma princesa egípcia. Já adulto, ele disputa a atenção da jovem Nefretiri (Anne Baxter) com Ramsés (Yul Brynner), o filho do Faraó e herdeiro do trono. Protegido até mesmo pelo Faraó, Moisés vê tudo mudar quando sua verdadeira origem é revelada e ele é condenado à morte. Ramsés, no entanto, não o mata, preferindo expulsá-lo do Egito. Anos depois, Moisés tem um encontro com Deus e descobre sua missão, voltando para o Egito para libertar seu escravizado povo.

Baseado nos livros bíblicos, “Os Dez Mandamentos” explora muito bem o enorme potencial da história original graças à condução precisa de DeMille, que tinha tanto apreço pela obra que decidiu até mesmo fazer a introdução da narrativa pessoalmente. O roteiro acompanha todas as etapas da vida de Moisés, o que torna a narrativa bastante extensa, ainda que jamais deixe de ser envolvente, graças também ao bom ritmo da montagem de Anne Bauchens. Auxiliado pela direção de fotografia de Loyal Griggs, o diretor cria um universo bastante colorido e vivo, explorando muito bem as belas paisagens para criar planos marcantes, como na linda marcha dos camelos pelo deserto de Sur e na impressionante imagem do anjo destruidor que desce em forma de fumaça para matar os primogênitos egípcios. E se esteticamente o diretor se sai muito bem, é na criação de momentos imponentes que a direção segura de Cecil B. DeMille se destaca, explorando muito bem o visual magnífico das locações e a impressionante quantidade de figurantes, como no plano geral que acompanha a saída dos israelitas do Egito. Neste e em outros momentos, como a famosa seqüência no mar vermelho, fica evidente a excelente condução da mise-en-scène do diretor, que coordena aquele enorme grupo de pessoas com eficiência.

Eficiente também é a citada montagem de Anne Bauchens, ainda que hoje o filme soe pouco comercial devido a sua longa duração e alguém possa argumentar que algumas cenas poderiam ser cortadas. Pessoalmente, me senti sugado por aquele universo e aproveitei cada minuto da jornada sem notar o tempo passar. E isto acontece também porque os excelentes figurinos (crédito para Arnold Friberg, Edith Head, Dorothy Jeakins, John Jensen e Ralph Jester), com as armaduras dos soldados e o manto de Moisés, por exemplo, e a direção de arte (crédito para Albert Nozaki, Hal Pereira e Walter H. Tyler), que recria cenários imponentes como os palácios e trabalha em pequenos detalhes como as carroças e as armas, ambientam perfeitamente o espectador. Além disso, a montagem de Bauchens indica com inteligência os saltos da narrativa evitando que ela se torne episódica, por exemplo, quando o filho pequeno de Moisés surge e nos mostra que se passaram alguns anos desde que ele saiu do Egito.

Embalado ainda pela trilha sonora triunfal de Elmer Bernstein, “Os Dez Mandamentos” é recheado de cenas marcantes e grandiosas, como o momento em que Deus fala pela primeira vez com Moisés, a própria inscrição na pedra dos mandamentos e a descida de Moisés do monte, irado diante de um povo infiel, que havia acabado de presenciar um milagre divino e já tinha se entregado a outro ídolo – e vale citar o belo momento em que o fogo se funde ao bezerro de ouro, numa transição elegante de planos. A conversa com Deus, aliás, revela também os bons efeitos visuais, que funcionam perfeitamente na maior parte do tempo, como quando os cajados são transformados em cobras. Mesmo que hoje soem datados, até mesmo os efeitos menos realistas – como o fogo que segura os egípcios do outro lado do mar – eram muito eficientes na época e não comprometem a narrativa. E se os efeitos visuais parecem envelhecidos em alguns momentos, o design de som e os efeitos sonoros continuam simplesmente espetaculares, destacando-se na fuga do Egito e na passagem pelo mar vermelho.

Já na condução do elenco DeMille não é tão feliz, extraindo atuações irregulares que oscilam entre momentos bons e outros de “overacting”. Heston, por exemplo, jamais foi um ator sutil e, ainda que tenha suas limitações, se sai bem como Moisés, mostrando-se inicialmente viril e retratando muito bem o envelhecimento do personagem com o passar dos anos. Sempre seguro, ele passa a demonstrar cansaço no decorrer da narrativa, através da voz e da forma lenta de caminhar, o que, auxiliado pela excelente maquiagem, da uma boa noção da degradação física de Moisés. Por outro lado, o grande Edward G. Robinson cria um Dathan irregular e até mesmo unidimensional, chegando a ser irritante em sua resistência diante dos milagres divinos. Anne Baxter também oscila bastante, mas cria uma Nefretiri insinuante e decidida, que consegue persuadir Ramsés em muitos momentos. Interpretado por Yul Brynner, Ramsés é duro e autoritário sempre que está em cena, também pela voz firme do ator e por sua postura, que impõe respeito na pele do grande vilão da narrativa (repare a sintonia entre o deus Sokar e as roupas pretas de Ramsés, indicando a aura sombria do personagem).

Envolta em magia, a conversa entre Moisés e Deus no monte Sinai determina sua volta para libertar o povo no Egito. Respeitado pelo pai de Ramsés, que chega a pronunciar seu nome antes de morrer, o hebreu volta a terra em que foi criado, desta vez para retirar seu povo escravo de lá. “Egípcio ou hebreu, sou o mesmo Moisés”, afirma em certo momento, mas isto não era verdade. Ele estava mudado após a conversa no monte Sinai e agora sabia a sua missão na terra. E após Deus castigar o Egito com pragas, Ramsés finalmente se convence e liberta os hebreus, dando início a melhor seqüência de “Os Dez Mandamentos”, que começa com a gloriosa saída do Egito e chega ao seu grande momento diante do mar vermelho. Mesmo após tantos anos, a cena da abertura do mar ainda é impactante e prende a atenção do espectador de maneira impressionante. Os ótimos efeitos visuais, a trilha sonora e a forma como DeMille conduz a seqüência criam uma cena poderosa. Após este grande momento, Ramsés volta derrotado e é envolvido, ao lado de Nefretiri, por tons vermelhos no trono, simbolizando o inferno astral do casal. Mas nem mesmo este milagre amoleceria os corações do povo israelita, que ainda marcharia por 40 anos no deserto até alcançar a terra prometida.

Independente de sua crença, o espectador sai satisfeito com o belo espetáculo visual de “Os Dez Mandamentos”. E é justamente na força de suas grandes cenas que reside o sucesso da narrativa. Espetaculoso, Cecil B. DeMille sabia que a história de Moisés atrairia o grande público e conduziu com muito carinho este ousado projeto. Acabou conseguindo mais do que sucesso de público, entregando um filme que marcou a história do cinema.

Texto publicado em 26 de Agosto de 2011 por Roberto Siqueira

Videoteca do Beto: novas aquisições

Antes da tradicional foto dos novos integrantes da Videoteca, uma foto ainda mais importante pra mim. Quem me conhece, sabe que sempre fui fã incondicional da série abaixo. Portanto, quando acordei na manhã de domingo do dia dos pais e fui presenteado pelo Arthur (e pela mamãe também) com o box abaixo, confesso que fiquei alguns segundos sem pronunciar uma única palavra, apenas digerindo a enorme surpresa e satisfação daquele momento inesquecível.

Esta série já marcou muitos momentos da minha vida. Agora, ela retorna para acompanhar uma nova fase, repleta de felicidade ao lado da minha amada família. Acordar nos finais de semana para assistir “Friends” com meus amores será uma experiência única, que não vejo à hora de tornar rotina.

Eu jamais imaginei acordar naquele domingo e ser surpreendido com este box maravilhoso, com todas as 10 temporadas, extras e livrinho sobre a série. Com certeza, esta é uma coleção que não podia faltar na minha Videoteca. Mas não esperem textos, pois “Friends” é para mim como um momento de alívio cômico, relaxante, para curtir sem se preocupar em escrever a respeito depois ;).

Obrigado Tu e Dri por este presente lindo!

Agora sim, abaixo a foto dos 23 novos integrantes da Videoteca do Beto, que, com isso, chega aos 300 DVD’s:

Os Dez Mandamentos (1956)*

Lawrence da Arábia (1962)*

Quem tem medo de Virginia Woolf? (1966)*

Sem Destino (1969)*

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977)*

Os Embalos de Sábado à Noite (1977)*

Curtindo a Vida Adoidado (1986)*

Duro de Matar (1988)*

Duro de Matar 2 (1990)*

Don Juan DeMarco (1995)

Duro de Matar – A Vingança (1995)

O Preço de um Resgate (1996)

X-Men – O Filme (2000)

Encontros e Desencontros (2003)

X-Men 2 (2003)

X-Men: O Confronto Final (2006)

Conduta de Risco (2007)

Duro de Matar 4.0 (2007)

Homem de Ferro (2008)

Madagascar 2 (2008)

A Era do Gelo 3 (2009)

Up – Altas Aventuras (2009)

X-Men Origens: Wolverine (2009)

E finalmente, as 7 novidades da videoteca em Blu-ray:

A Bela e a Fera (1991)*

Coração Valente (1995)

A Paixão de Cristo (2004)

Os Infiltrados (2006)

300 (2007)

Batman – O cavaleiro das trevas (2008)

Tropa de Elite 2 (2010)

*Os filmes que chegaram depois de sua posição na ordem cronológica das críticas “Videoteca do Beto” serão assistidos e avaliados na medida do possível e serão encaixados na seqüência da Videoteca. Por exemplo, se a Videoteca estiver no filme #109 e eu divulgar em seguida a crítica do filme “Os Dez Mandamentos”, este será o filme Videoteca do Beto #110.

Um abraço.

Texto publicado em 24 de Agosto de 2011 por Roberto Siqueira

Categoria: Viagens

Após escrever sobre algumas cidades que conheci, resolvi facilitar a busca destes textos relacionados às viagens. Sendo assim, está criada a categoria “Viagens”, que você pode acessar no menu categorias (lado direito da pagina inicial).

Um abraço.

Texto publicado em 21 de Agosto de 2011 por Roberto Siqueira

Barcelona

Desde pequeno, meu grande sonho era conhecer a Europa. Cresci acompanhando os campeonatos europeus de futebol e me familiarizei com aquelas cidades. Além disso, acompanhei de perto as copas de 1990 (na Itália), 1998 (na França) e 2006 (na Alemanha), o que só aumentou minha vontade de conhecer alguns lugares, mostrados em reportagens especiais. Isto sem contar os filmes que mostravam a beleza de cidades como Paris, Roma, Londres, entre outras. E Deus permitiu que eu realizasse este sonho justamente ao lado do amor da minha vida e em minha lua de mel. Você pode imaginar a euforia que eu sentia ao entrar naquele avião da Ibéria, um dia depois de me casar e de viver emoções tão fortes. Por isso, o dia em que pisei pela primeira vez em território europeu é um dos mais marcantes da minha vida (o nascimento do Arthur não entra em comparações, pois é inigualável!). E lembro muito bem de cada detalhe daquele momento. Apesar de também ter me apaixonado por Madri, Paris e Amsterdã (as outras cidades que visitamos na lua de mel), coube a Barcelona a “honra” de ser a primeira cidade européia que eu conheci na vida.

Antes de chegarmos à Barcelona, no entanto, passamos pelo enorme aeroporto de Madri. E mesmo que seja apenas um aeroporto, aquele local me deixou boas lembranças, com exceção da tensão ao passar pela imigração (na época, os espanhóis estavam deportando muitos brasileiros). Mas levamos toda documentação necessária para provar que éramos turistas e foi tudo bem. Corremos para alcançar a conexão e chegamos à Barcelona pouco tempo depois. Já era noite, mas encontramos o hotel com facilidade, já que a estrutura da cidade é excelente e o metrô te deixa quase na porta do hotel. Para o nosso azar (ou sorte), o hotel tinha problemas com o sistema de ar condicionado, e eles gentilmente nos realocaram em outro hotel, o Park hotel, ao lado do Parc del Ciudadella e há poucos metros de onde ficaríamos inicialmente. Chegando lá, informamos que estávamos em lua de mel e fomos presenteados com uma suíte na cobertura. Saímos um pouco para caminhar pela noite e jantar num barzinho delicioso, onde comemos nossa primeira “paella” em terras espanholas. Minha primeira caminhada em Barcelona foi marcada por olhares atentos em cada detalhe, num passeio pelo bairro gótico que me levou às agitadas Ramblas.

No dia seguinte, a Dri estava com dores nas pernas pela longa viagem e preferiu dormir um pouco mais. Eu saí logo cedo para uma caminhada que marcaria minha vida. Naquela manhã, eu senti a atmosfera daquela cidade alegre e diferente, que mistura a arquitetura genial de Gaudí a um estilo de vida mais light, costumeiro das cidades litorâneas. A ficha caiu. Depois de vagar pelo porto velho, voltei correndo ao hotel e, já com a Dri, comecei a desfrutar cada detalhe desta cidade linda.

Começamos pela impressionante catedral gótica La Sagrada Família, há muito tempo em construção, passamos pelo porto velho e seu bairro charmoso, andamos pela praia e aproveitamos os pequenos mercados com seus queijos e o “jamón”. Em outro dia, visitamos o diferente Parc Güell, com seus mosaicos criativos e a casa de Gaudí, e terminamos no Parc del Ciudadella, um lugar delicioso para passar a tarde, com suas árvores e lagos.

Não dá pra falar sobre Barcelona e esquecer o futebol. Por isso, aproveitei para realizar outro antigo sonho e comprei ingressos para um jogo da Champions League entre Barcelona e Olympique Lyon, que aconteceria numa terça à noite. E a Dri, mesmo sem gostar de futebol, adorou a experiência. Visitamos o estádio do Barça, o museu, as lojas e saímos com os ingressos na mão. Na hora do jogo, me surpreendi com a diferença gritante entre os jogos europeus e os brasileiros. Organização, lugares marcados e nada de filas gigantescas. Tudo em perfeita ordem e sempre com muito respeito ao torcedor. E o mais importante, lógico, é que vi um grande jogo, com Ronaldinho Gaúcho (na época em boa fase), Messi e Henry em campo, além de Juninho Pernambucano pelo Lyon, entre outros.

Na hora de comer e beber, Barcelona também tem seus encantos. Além da famosa “paella”, temos diversas opções nos inúmeros restaurantes espalhados pela cidade, além de ótimos bares para tomar aquela cervejinha e desfrutar a noite. Noite, aliás, que não termina, varando a madrugada com baladas agitadíssimas. E quando o dia amanhece ainda podemos caminhar novamente pelo porto velho, desfrutando a linda paisagem e o belo mar Mediterrâneo. E se estiver cansado, não tem problema. O transporte público é eficiente e te levará aonde desejar de ônibus ou metrô, sempre com preços acessíveis. Além disso, só em Barcelona eu vi uma escada rolante no meio da rua, para nos ajudar a enfrentar uma enorme subida – e me chamou a atenção a limpeza do local e o excelente estado da escada. Seja sincero: é diferente ou não é?

Para curtir Barcelona, vale à pena sair sem rumo, caminhando e descobrindo cada cantinho da cidade. A magia está no ar, na arquitetura diferenciada da cidade e na alegria contagiante das pessoas. Neste lugar, a euforia é quase inevitável. Por tudo isto, esta é uma das cidades que nos faz pensar muitas vezes em viver fora do Brasil e está entre as que mais deixaram saudades. Não é a toa que Romário, Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho brilharam em solo catalão. O talento foi o principal fator, é verdade, mas a atmosfera local ajuda, e muito!

Por isso, sem nem perceber, estávamos lá, no meio da multidão, gritando não apenas pelo time, mas pela paixão que passamos a sentir por esta cidade. Assim com o time, a cidade de Barcelona é apaixonante.

Barça! Barça! Baaaaarrrrçaa!

Eu e a Dri filmando o jogo do Barcelona – vídeo em baixa resolução, porque o original é muito grande.

PS: Para quem quiser acompanhar, o trecho do hino do Barça cantado no estádio em catalão:

Tot el camp, és un clam

som la gent blaugrana,

Tant se val d’on venim

si del sud o del nord

ara estem d’acord, ara estem d’acord,

una bandera ens agermana.

Blaugrana al vent, un crit valent

tenim un nom, el sap tothom:

Barça , Barça, Baaarça!

Texto publicado em 17 de Agosto de 2011 por Roberto Siqueira

Feliz dia dos Pais

Três gerações: Obrigado por tudo pai!

Mamãe, papai e meu bebê incrível. Obrigado por me fazer tão feliz Dri!

Rei Arthur, que me deu o privilégio de ser chamado de pai. Te amo filho!

Texto publicado em 14 de Agosto de 2011 por Roberto Siqueira

O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA (1962)

(The Man Who Shot Liberty Valance)

 

Filmes em Geral #72

Dirigido por John Ford.

Elenco: John Wayne, James Stewart, Vera Miles, Lee Marvin, Edmond O’Brien, Andy Devine, Ken Murray, John Carradine, Jeanette Nolan, Denver Pyle, John Qualen, Woody Strode e Lee Van Cleef.

Roteiro: James Warner Bellah e Willis Goldbeck, baseado em história de Dorothy M. Johnson.

Produção: John Ford e Willis Goldbeck.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apesar do sucesso de seus dramas, John Ford se notabilizou por dirigir westerns clássicos, explorando com maestria belas paisagens para criar um visual esplêndido. Não é o caso de “O homem que matou o facínora”. Apesar de utilizar algumas das características marcantes do gênero, o longa foge bastante do estilo tradicional do faroeste, apresentando uma narrativa melancólica, ambientes fechados, personagens ambíguos e uma série de simbolismos que ilustram o fim de uma era. Contando ainda com um ótimo elenco, trata-se de um filme sóbrio e triste, um verdadeiro canto do cisne do gênero preferido do diretor.

O senador Ransom Stoddard (James Stewart) e sua esposa Hallie (Vera Miles) chegam numa pequena cidade para o funeral de um amigo. Interessado pela ilustre visita, um repórter decide entrevistar o senador e descobre que Tom Doniphon, o amigo morto e hoje desconhecido, acolhera o senador na cidade há muitos anos. Recém formado em advocacia na época em que chegou ao local, Stoddard tentava deter um terrível pistoleiro chamado Liberty Valance (Lee Marvin) por meio da lei, enquanto Tom acreditava em sua arma. Apesar das diferentes formas de pensar, eles se respeitavam e ainda compartilhavam o amor por Hallie, na época a garçonete do saloon.

Escrito por James Warner Bellah e Willis Goldbeck, baseado em história de Dorothy M. Johnson, “O homem que matou o facínora” utiliza um longo flashback para contar a história da chegada do hoje senador Ransom Stoddard ao oeste, uma terra dominada por uma lei própria, onde a justiça era feita pelas próprias mãos. Naquele ambiente hostil, o culto Stoddard descobre rapidamente que tudo que ele estudou tinha pouco valor, após ser roubado e espancado por um grupo de bandidos, liderados pelo temido Liberty Valance. E é justamente a trajetória de mudança deste personagem, amparada por outro personagem ainda mais fascinante, que acompanharemos durante a narrativa. Stoddard simboliza a chegada do progresso num local onde a única lei que era respeitada era a “lei das armas”, simbolizada pelos antagonistas Tom e Liberty. Ele será transformado por aquele ambiente hostil, mas também trará mudanças irreversíveis ao local.

Como de costume, a direção de Ford é sóbria e discreta, jamais chamando a atenção a não ser em alguns momentos em que o zoom realça as reações dos personagens. Desta vez (até por limitações financeiras impostas pela Paramount), o diretor foca as ações em ambientes fechados, valorizando o trabalho de direção de arte de Eddie Imazu e Hal Pereira em detrimento das paisagens que ele normalmente utilizava em seus filmes, que aqui surgem somente no treinamento de Stoddard. A arquitetura da cidade segue o tradicional do oeste, com o saloon, as casas de madeira e as diligências que aguardam seus passageiros para cruzar as estradas poeirentas. Também por imposição dos estúdios, a direção de fotografia de William H. Clothier é discreta, limitando-se a criar um visual mais claro que explora o contraste entre o preto e o branco através da iluminação destes ambientes fechados.

Quem segue o estilo tradicional do western são os personagens secundários, com o xerife medroso (Andy Devine), o jornalista sem escrúpulos e o médico bêbado marcando presença na narrativa. Entre estes personagens secundários, vale destacar dois atores que participariam dos famosos westerns spaghetti de Sergio Leone: Lee Van Cleef, que vive um dos comparsas de Liberty chamado Reese, e Woody Strode, que interpreta Pompey, o ajudante de Tom. John Carradine também integra o elenco como o major Cassius Starbuckle e Lee Marvin cria um temível vilão na pele de Liberty Valance. Mas, entre todos eles, o destaque fica mesmo para Vera Miles, que vive Hallie, a garçonete disputada por Tom e Stoddard no passado, agora casada com o senador – e o pouco convincente envelhecimento de Stewart e Miles no presente é um problema pequeno demais para comprometer uma obra tão madura.

Demonstrando interesse por Stoddard logo de cara, a Hallie de Miles oscila entre a alegria ao lado do jovem advogado e os momentos em que fica brava, como quando o xerife chega ao saloon pedindo comida. A atriz ainda demonstra com competência a emoção de Hallie ao voltar ao local, com os olhos marejados e um semblante abatido, reforçados pela trilha sonora melancólica que embala o momento em que ela vê uma velha casa, indicando a importância daquele local (e de quem viveu nele) em sua vida. Esta mesma trilha triste acompanhará o momento em que Hallie vê o caixão que guarda o corpo do amigo Tom, num momento tocante e universal. Afinal, todos nós sabemos (ou infelizmente saberemos) como é doloroso ver uma pessoa querida daquela forma, já sem vida, apenas esperando que seus restos mortais sejam enterrados enquanto os momentos vividos se eternizam na memória dos que ficam. São estas memórias que guiam a narrativa de “O homem que matou o facínora”.

Este importante homem é Tom Doniphon, interpretado por John Wayne, que naturalmente impõe respeito com seu porte físico e olhar ameaçador. Sempre gentil com as mulheres, especialmente com sua paixão Hallie, Tom é o típico homem do oeste, que confia muito mais em seu revólver do que na lei e na ordem. Fruto daquele ambiente hostil, ele adverte o advogado Stoddard sobre os perigos que corre ali (“Estes livros de direito valem muito pra você, mas aqui não valem nada”, afirma). E apesar do jeito grosseiro, o tempo se encarregará de mostrar o grande homem que ele é. Quem descobrirá isto é o advogado Stoddard de James Stewart, que cai bem no papel do homem intelectual e notoriamente mais frágil que aqueles que habitam o oeste. Carismático, o ator conquista o espectador ao longo da narrativa, ainda que demore a se adaptar ao ambiente em que estava inserido. Entre os principais momentos de sua atuação, vale destacar a alegria genuína quando ouve Hallie dizer que quer aprender a ler. E apesar de derrubar o ritmo da narrativa por um instante, a aula serve para criar empatia entre Stoddard e a platéia, ao mostrar aquele homem dedicado tentando mudar uma sociedade naturalmente arredia aos estudos (até pela falta de acesso). No fundo, Tom e Stoddard também simbolizam o conflito entre a força física e o intelecto.

E será a força física que salvará o intelecto, primeiro na chegada dos bandidos ao restaurante, onde o silêncio que predomina na cena só amplia a tensão – repare como o zoom realça o rosto assustado de Hallie. Quando Liberty derruba Stoddard e, junto com ele, o bife de Tom, Wayne surge ameaçador e se agiganta na tela, colocando o bandido pra correr do local, numa das melhores cenas do filme. Após este momento, Stoddard vive o conflito entre cumprir a lei e fazer justiça com as próprias mãos – e um plano simbólico em que ele apaga do quadro a frase “a educação é a base para a lei e a ordem” começa a indicar sua mudança de comportamento. Mudança que só se consolida após o divertido treinamento em que ele dá um soco em Tom (que leva numa boa) e, principalmente, após ver a morte do amigo jornalista, brutalmente espancado por Liberty. Conforme ele fora avisado, sua placa na entrada do jornal havia sido destruída pelo temível bandido e ele agora estava decidido a enfrentá-lo.

A fotografia sombria amplia a angustia do espectador enquanto Stoddard aguarda Liberty na rua para o duelo. E ele vence, atirando no vilão a queima roupa, pra surpresa geral. Teria mesmo Stoddard mudado seus conceitos? Momentos depois, Tom aparece na cidade, se embebeda e queima a própria casa (num grande momento de Wayne), indicando sua desilusão amorosa ao ver Hallie nos braços do advogado. Chegamos até mesmo a pensar que ele saiu da cidade na esperança de que Liberty mataria Stoddard, mas suas ações prévias (como o treinamento) não indicavam isto. Chegam às eleições e com elas o nojento jogo político, evidenciado quando um dos candidatos usa o “crime” de Stoddard contra ele. E então o grande momento de “O homem que matou o facínora” surge, quando Tom confessa a autoria do crime para Stoddard e prova seu altruísmo, num flashback dentro do flashback que surge através da fumaça expelida pela boca dele (um momento belíssimo, aliás). Somos levados novamente à cena do crime, desta vez sob outro ponto de vista que revelará a verdade. Tom salvou Stoddard e saiu sem deixar rastros. Ainda assim, sofreu bastante por não ter Hallie, como deixa claro na frase “devia não ter salvado você, Hallie agora é sua”, mas sua atitude só comprova seu caráter. Ele abriu mão da fama (afinal de contas, matou o pior bandido da região) e da mulher que ama e só revelou que salvou Stoddard para que este não desistisse de sua candidatura. “Ambíguo” é pouco para um personagem como este. A importância do papel da imprensa na criação de mitos também entra em cena aqui. Ao contrário da lenda criada, foi Tom, e não Stoddard, quem matou o facínora. Mas, como diz um repórter na frase mais famosa do filme, “quando a lenda é mais famosa que a realidade, imprima-se a lenda”.

Western diferente e até mesmo pessimista, “O homem que matou o facínora” faz um excelente estudo sobre o fim de uma era, abordando temas importantes como a passagem do tempo, a criação de mitos, as formas de combater a violência e o papel da imprensa. Além disso, apresenta dois personagens ambíguos e fascinantes. Enquanto Tom se manteve fiel aos seus princípios, Stoddard se viu obrigado a rever seus conceitos e se adaptar ao cenário em que estava inserido, ainda que de certa forma tenha colaborado para mudar o local. Carregou consigo uma fama que ele sabia não merecer, mas que tinha grande importância na formação de sua imagem pública. Mas tanto ele quanto Hallie sabiam quem foi o homem que matou o facínora.

Texto publicado em 12 de Agosto de 2011 por Roberto Siqueira

Rastros de Ódio

Continuando a semana John Ford, informo que transformei em crítica os comentários divulgados anteriormente sobre “Rastros de Ódio”. E pela segunda vez, John Ford é responsável por uma alteração de nota no Cinema & Debate (de 4 para 5 estrelas).

Para ler a crítica, basta clicar aqui.

Um abraço.

Texto publicado em 11 de Agosto de 2011 por Roberto Siqueira

COMO ERA VERDE MEU VALE (1941)

(How Green Was My Valley)

 

Filmes em Geral #70

Vencedores do Oscar #1941

Dirigido por John Ford.

Elenco: Donald Crisp, Roddy McDowall, Barry Fitzgerald, Walter Pidgeon, Maureen O’Hara, Sara Allgood, Anna Lee, John Loder, Lionel Pape, Patric Knowles, Morton Lowry, Arthur Shields, Ann Todd, Frederick Worlock, Richard Fraser, Evan S. Evans, James Monks, Rhys Williams, Ethel Griffies e Marten Lamont.

Roteiro: Philip Dunne, baseado em romance de Richard Llewellyn.

Produção: Darryl F. Zanuck.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Premiações nunca serviram como atestado de qualidade na história do cinema. Por isso, evito citar prêmios em meus textos e tento focar apenas no filme analisado. Mas quando falamos de “Como era verde meu vale” é inevitável lembrar que este foi o filme que derrotou o atemporal “Cidadão Kane”, obra-prima incontestável de Orson Welles, no Oscar. Talvez porque o primeiro ressalta o valor da família, a importância do trabalho e a América como uma terra de esperanças, numa época em que este sentimento otimista era tudo que os norte-americanos queriam. Não importa. Apesar de suas qualidades, o longa de John Ford está longe de ser um grande filme.

A história se passa no País de Gales e é contada num longo flashback a partir das memórias do protagonista Huw Morgan (Roddy McDowall), que já tem mais de 50 anos. Ele recorda a época em que era uma criança e convivia com seu pai Gwilym (Donald Crisp), sua mãe Beth (Sara Allgood), sua irmã Angharad (Maureen O’Hara) e seus irmãos mais velhos, que trabalhavam numa mina de carvão ao lado do pai. Tudo ia bem até que o Sr. Evans (Lionel Pape), o proprietário da mina, decide diminuir os salários e provoca uma greve geral que se arrasta por meses e divide a família Morgan.

Os primeiros minutos de “Como era verde meu vale” já indicam seu tom nostálgico através da narração em off do protagonista, que relembra com saudade dos tempos em que sua família vivia unida. Apostando neste sentimento universal de apego às raízes, o roteiro escrito por Philip Dunne, baseado em romance de Richard Llewellyn, investe numa visão romantizada da vida no campo, como se tudo fosse perfeito até a chegada das empresas de mineração. A crítica a industrialização se confirma nas palavras do narrador, que acusa o preto do carvão de manchar “seu vale”, mas o próprio roteiro se encarrega de suavizar este aspecto através da postura de seu pai, que defende os empregadores quando os salários diminuem e autoriza o casamento da filha com o filho do chefe, sem se preocupar com a felicidade dela. Quando os salários começam a diminuir (resultado do excesso de operários que Ford estuda de maneira mais eficiente em “As Vinhas da Ira”), o conflito político entra em cena e torna a trama mais interessante, com o conservador Gwilym defendendo seu empregador enquanto seus filhos, tachados de socialistas, buscam a união entre os empregados. O ódio ao socialismo, aliás, imperava até mesmo na igreja, como fica claro nas palavras do detestável parceiro do pastor Gruffydd (Walter Pidgeon). Revoltados com a postura do pai, os irmãos de Huw deixam a casa e, infelizmente, a narrativa perde força, com o interessante confronto político cedendo lugar para a doença de Beth e Huw, congelados após caírem num lago na volta do inflamado discurso dela em defesa do marido.

Seguindo a cartilha de John Ford, a montagem de James B. Clark é discreta e eficiente, mas ainda assim utiliza alguns fades que escurecem a tela completamente, em raros momentos de sofisticação – Ford entendia que a montagem deveria ser “transparente” e jamais chamar a atenção. Por outro lado, o visual do filme é rico e as cenas nas minas e no próprio vale são lindas (a cidade de mineradores foi totalmente criada nas colinas do rancho da Fox, nas Montanhas de Santa Mônica), ressaltando o bom trabalho de direção de arte de Richard Day e Nathan Juran e, especialmente, do diretor de fotografia Arthur C. Miller, que alterna do visual claro e alegre do início para um final obscuro, que reflete a tristeza do narrador. Vale lembrar também que estamos vendo apenas lembranças filtradas pela memória do protagonista, o que explica aquele mundo perfeito e belo. E se Ford utiliza mais planos fechados que de costume, ainda assim cria seus tradicionais planos gerais que exploram a bela paisagem, além de empregar interessantes movimentos de câmera, como o travelling para a direita que revela a saída de casa de Owen (James Monks) e Gwilym Morgan Jr (Evan S. Evans), dois dos irmãos de Huw.

Huw que é interpretado pelo carismático Roddy McDowall, que convence especialmente quando está doente e indefeso, mas falha quando começa a trabalhar, parecendo inseguro, por exemplo, nas conversas com Bronwyn e com sua irmã Angharad. Ainda criança, ele se apaixona pela mulher do irmão e acompanha o casamento dela com pesar. Interpretada por Anna Lee, Bronwyn é uma moça encantadora, de fato, mas, assim como a maioria das mulheres do longa, sem atitude e passiva. Diferente delas é a Sra. Beth Morgan de Sara Allgood, uma típica “mãezona” que defende a família com unhas e dentes e sofre ao ver cada filho partir – e a atriz, apesar de alguns exageros, consegue convencer no papel. Capaz de oferecer comida para toda a comunidade do vale – numa cena pouco realista em que ela parece esquecer rapidamente tudo que passou (e custo a acreditar que seria tão fácil alimentar toda aquela gente) -, Beth só não consegue perceber o sofrimento da filha, apaixonada pelo pregador da região. E neste aspecto, vale destacar a atuação de Maureen O’Hara, que demonstra bem o incômodo de Angharad com o casamento, deixando claro seu amor por Gruffydd.

Chamado de “Sir” pelos próprios filhos, Gwilym Morgan é um personagem autoritário e unidimensional. Apesar disto, Donald Crisp até que diverte no papel, mas jamais consegue criar empatia com a platéia – algo que, diga-se de passagem, nem mesmo o protagonista consegue, comprometendo a narrativa. Aliás, personagens unidimensionais não faltam em “Como era verde meu vale”, como atestam o professor Jonas vivido por Morton Lowry, a governanta da casa de Angharad e as puritanas mulheres que fofocam durante a semana e vão à igreja aos domingos. Pelo menos, Rhys Williams nos diverte com seu boxeador Dai Bando – especialmente quando ensina ao professor como tratar os alunos – e Ford consegue nos emocionar ao mostrar a reação de Angharad à morte do marido Ivor (Patric Knowles). Embalada por uma trilha sombria, esta é uma das cenas mais tristes do filme.

E já que citei a trilha sonora de Alfred Newman, observe como ela também alterna do tom alegre inicial para o tom melancólico que acompanha o trágico final. Além disso, segue uma tradição galesa ao espalhar muitos cantos pela narrativa, criando uma interessante trilha diegética enquanto os mineradores vão para o trabalho. Por outro lado, por vezes o filme mais parece uma novela, com seus momentos melodramáticos e atuações caricatas, como quando o médico diz que o garoto Huw não conseguirá mais andar. Para compensar, Ford acerta a mão na condução da excelente cena em que o pastor Gruffydd critica a hipocrisia daquelas pessoas na igreja, que olham mais para a vida dos outros do que pra elas próprias, num momento de destaque da atuação de Walter Pidgeon. E justamente por estes altos e baixos (além da falta de empatia dos personagens) é que a frase que encerra a narrativa (“Homens como meu pai não podem morrer”) não provoca o impacto esperado.

Maniqueísta e com personagens unidimensionais, “Como era verde meu vale” retrata a visão otimista que o sonho americano vendia e que foi desconstruída ao longo dos anos diante da dura realidade. Não sou contrário a filmes otimistas, longe disto, mas prefiro que este sentimento seja criado de maneira orgânica e não induzido pela narrativa. Neste aspecto, prefiro o pessimismo sóbrio de “As Vinhas da Ira”.

Texto publicado em 10 de Agosto de 2011 por Roberto Siqueira

As Vinhas da Ira

Continuando a semana John Ford, informo que transformei em crítica os comentários divulgados anteriormente sobre “As Vinhas da Ira”.

Aproveito para informar também que pela primeira vez na história do Cinema & Debate eu alterei uma nota (de 4 para 5 obra-prima). Ainda que não faça tanta diferença, considero importante esta alteração, já que nesta revisão percebi que qualquer problema eventual não pode tirar o brilho de um filme tão humanista, com direção e atuações fantásticas.

Para ler a crítica, basta clicar aqui.

Um abraço.

Texto publicado em 10 de Agosto de 2011 por Roberto Siqueira