O HOMEM ERRADO (1956)

(The Wrong Man)

 

Filmes em Geral #60

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Henry Fonda, Vera Miles, Anthony Quayle, Harold Stone, John Heldabrand, Doreen Lang, Norma Connolly, Lola D’Annuzio, Robert Essen, Dayton Lummis, Charles Cooper, Esther Minciotti, Laurinda Barrett, Nehemiah Persoff, Kippy Campbell e Alfred Hitchcock.

Roteiro: Angus MacPhail, baseado em livro de Maxwell Anderson.

Produção: Alfred Hitchcock.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apesar do tom sombrio e da atmosfera noir, “O Homem Errado” é, na realidade, um estudo de personagem interessante, que foge do estilo de suspense tradicional de Alfred Hitchcock, apresentando uma narrativa assustadora, não por causa da atmosfera criada ou de grandes cenas cuidadosamente orquestradas pelo diretor, mas sim por contar uma história verídica e que, exatamente por isso, poderia acontecer com qualquer um de nós.

Em Janeiro de 1943, o músico Manny (Henry Fonda) vai a um escritório de Nova York tentar um empréstimo para o tratamento dentário de sua esposa Rose (Vera Miles) e é identificado pelas funcionárias do local. Segundo elas, ele teria assaltado o escritório um ano antes, o que leva a polícia a investigar o caso e a prendê-lo. Libertado após o pagamento da fiança, ele passa a viver um drama familiar, vendo a esposa se afundar em depressão ao mesmo tempo em que negocia com um advogado para tentar livrá-lo da acusação que sofrera.

Escrito por Angus MacPhail, baseado em livro de Maxwell Anderson, “O Homem Errado” aborda o tema favorito de Hitchcock, mostrando a história real de um homem inocente acusado de um crime que não cometeu. Este apreço do diretor pelo tema fica evidente em grande parte de sua filmografia, e, neste caso em especial, ele escancara isto ao fazer a introdução do longa pessoalmente (o próprio Hitchcock afirmava que seu grande medo era ser acusado de um crime injustamente). Por isso, o longa tem uma atmosfera triste e reflexiva, refletindo a visão do diretor sobre o tema. Além disso, a escolha do diretor de fotografia Robert Burks pelo preto e branco torna o longa mais sombrio, ilustrando o sentimento amargo do protagonista, sublinhado ainda pela trilha sonora sombria e excelente do ótimo Bernard Herrmann.

Logo na apresentação de Manny e Rose, o casal cria empatia com a platéia, demonstrando carinho enquanto conversam na cama sobre as dificuldades financeiras que enfrentam e mostrando-se apaixonados e comprometidos na busca de soluções. Além disso, eles mostram preocupação com os filhos – e, inegavelmente, a preocupação com a família e com a saúde financeira é um tema universal. Obviamente, o carisma de Henry Fonda e Vera Miles colabora muito com este sentimento. Mas, após a conversa, vemos aquele homem olhando atentamente para o jornal e fazendo anotações, revelando seu vício: simular apostas em corrida de cavalos. Este pequeno momento será crucial para desconfiarmos, ainda que por pouco tempo, do protagonista num momento chave da narrativa. Desesperado para conseguir o dinheiro que a esposa precisa, ele parte para tentar um empréstimo e a reação da recepcionista ao vê-lo indica algo suspeito. Em seguida, um close na conversa das mulheres realça a expressão assustada delas, indicando que ele é o homem que assaltou o local (segundo afirmação das próprias mulheres). Tem inicio então uma fase de investigação que culminará na prisão de Manny.

Durante o interrogatório na delegacia, a posição da câmera agiganta os policiais, demonstrando o quanto Manny está intimidado, algo realçado pela boa atuação de Fonda, que transmite a aflição do personagem em seu rosto. Esta é a intenção do diretor: deixar o espectador incomodado, como o próprio personagem. Por isso, mesmo com tantas pessoas afirmando que ele é culpado, nós acreditamos em sua inocência – e Fonda transmite seriedade e parece mesmo assustado com as acusações que recebe, o que reforça este sentimento. Já na cela, as sombras da grade envolvem Manny e, pontuadas pela trilha sonora melancólica, sublinham muito bem sua solidão, assim como, quando ele dorme na cadeia, o giro da câmera e a trilha mais rápida ilustram o pesadelo do personagem. Hitchcock reforça esta estratégia através de um zoom no buraco da cela, que nos faz atravessar a porta e entrar com o personagem naquele local, num interessante movimento de câmera que nos faz compartilhar seu sofrimento.

Também colabora a montagem de George Tomasini, que emprega um ritmo correto à narrativa, dando uma sensação de lentidão no desenrolar da história, que reflete a aflição do personagem durante o árduo processo de julgamento e prisão. Além disso, a montagem emprega saltos eficientes na narrativa, quando Rose liga para o escritório do advogado O’Connor (Anthony Quayle) e quando a assistente do advogado anota a declaração de Manny, já que, nos dois casos, iríamos apenas escutar novamente uma história que já tínhamos acompanhado. Com este ritmo lento, a fotografia triste e a trilha melancólica, somados a grande atuação do elenco, Hitchcock consegue fazer com que o espectador se importe com o drama do protagonista e sinta-se angustiado. Sua estratégia é clara. Ele quer nos colocar na posição de Manny, algo reforçado pelo constante uso da câmera subjetiva, que faz com que o espectador sinta a mesma aflição daquele homem, supostamente acusado de um crime que não cometeu. Desta forma, sofremos com ele e torcemos por ele. Repare, por exemplo, como quando ele olha de relance para a esposa no tribunal, a câmera subjetiva nos coloca em seu lugar, vendo lentamente a esposa ficar pra trás enquanto Manny é levado pelos guardas. Da mesma maneira, vemos os sapatos dos presos enquanto ele caminha para a prisão, num plano que reflete seu olhar cabisbaixo, de quem realmente está deprimido.

Interpretada com competência por Vera Miles, Rose começa a dar sinais de que está cansada daquela situação no escritório de O’Connor, quando parece estar presente somente de corpo enquanto o marido e o advogado conversam. Sentindo-se culpada pelo que aconteceu com Manny, ela chega até mesmo a desconfiar do marido, o que, de maneira inteligente, serve para plantar também a dúvida no espectador, que até aquele instante confia plenamente que Manny é inocente. Mas Rose entra num caminho aparentemente sem volta e sua depressão se torna visível, o que leva Manny a interná-la num hospital psiquiátrico. Novamente, Fonda demonstra muito bem como o personagem está arrasado diante de toda aquela situação. E Miles dá um show no hospital, olhando para o vazio e transmitindo a desilusão da personagem, completamente afetada pela tragédia que assolou sua família e mostrando-se incapaz de reagir através do olhar e do tom de voz reprimido.

E quando tudo parece perdido, um plano sensacional de Hitchcock revela o verdadeiro assassino, sobrepondo seu rosto ao rosto de Manny, que reza em frente ao espelho. O homem caminha tranqüilamente pela rua e entra numa loja, para tentar um novo assalto que, desta vez, o levará à prisão (e, neste aspecto, a escolha do ator John Heldabrand para viver o assaltante Tomasini é perfeita, dada a semelhança entre ele e Fonda quando eles estão de chapéu). Ao ver aquele homem inocente saindo da delegacia e cruzando as mulheres que o acusaram no caminho, sentimos uma sensação de alívio e, porque não, nos sentimos vingados.

Baseado numa história real, “O Homem Errado” nem de longe tem a atmosfera de suspense costumeira na filmografia de Hitchcock, já que se concentra, de maneira eficiente, nos efeitos que aquela falsa acusação provocou na vida de Manny e sua família. Nem por isso, pode ser considerado um filme menor, pois cumpre muito bem o seu propósito, nos fazendo refletir sobre a confiabilidade das investigações policiais, especialmente quando se baseiam em testemunhos de seres tão falhos como nós.

Texto publicado em 08 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

O HOMEM QUE SABIA DEMAIS (1956)

(The Man Who Knew Too Much)

 

Filmes em Geral #59

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: James Stewart, Doris Day, Brenda De Banzie, Bernard Miles, Ralph Truman, Daniel Gélin, Mogens Wieth, Alan Mowbray, Hillary Brooke, Christopher Olsen, Reggie Nalser, Noel Willman, Alix Talton, Carolyn Jones e Alfred Hitchcock.

Roteiro: John Michael Hayes, baseado em história de Charles Bennett e D.B. Wyndham-Lewis.

Produção: Alfred Hitchcock.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

As principais características que marcaram a carreira do mestre do suspense estão presentes neste ótimo “O homem que sabia demais”, remake superior ao filme original dirigido pelo próprio Hitchcock em 1934, no Reino Unido. Nas palavras dele próprio, o filme de 1956 é resultado do trabalho de um profissional, ao passo em que o filme de 1934 era o trabalho de um amador. E quando Hitchcock dizia que este thriller repleto de suspense era o trabalho de um profissional estava repleto de razão, pois o longa consegue prender o espectador de uma maneira que somente os filmes do mestre conseguiam fazer.

Viajando de férias pelo Marrocos, o casal Ben (James Stewart) e Jo McKenna (Doris Day), acompanhados do filho Hank (Christopher Olsen), se envolve acidentalmente numa trama internacional que planejava o assassinato de um líder político, quando o moribundo Bernard (Daniel Gélin), que o casal havia acabado de conhecer, sussurra no ouvido de Ben a terrível conspiração. Buscando evitar que o Dr. Ben conte à polícia o que ouviu do homem assassinado, os conspiradores resolvem seqüestrar seu filho.

Mantendo a mais pura tradição hitchcockiana, o roteiro de John Michael Hayes, baseado em história de Charles Bennett e D.B. Wyndham-Lewis, é bastante complexo e repleto de possibilidades, levando o espectador a temer constantemente pelo destino dos personagens. Hayes intercala muito bem as duas linhas narrativas principais, envolvendo o planejamento e execução do assassinato e o seqüestro do jovem Hank, auxiliado também pela montagem dinâmica de George Tomasini, que tem participação fundamental na melhor cena do longa, dentro do Albert Hall. A atmosfera de suspense que envolve “O homem que sabia demais” é construída minuciosamente através de pequenos detalhes, como a ajuda de Bernard, no incidente com o véu da mulher mulçumana no ônibus, que serve para levantar suspeita a respeito de seu caráter, como podemos notar na conversa entre Jo e Ben logo em seguida. Como sabemos, nos filmes de Hitchcock toda atitude é vista com certa desconfiança pelo espectador. Por isso, toda esta seqüência do Marrocos é repleta de mistério, graças também ao próprio ar enigmático do local – e neste sentido, vale destacar o bom trabalho de ambientação feito em conjunto pela direção de arte de Henry Bumstead e Hal Pereira e pelos figurinos de Edith Head. O roteiro de Hayes mantém ainda a principal característica dos filmes do mestre do suspense, apresentando um ponto de reviravolta completa na trama, através da ligação recebida por Ben na delegacia. Finalmente, as pessoas que ficam esperando o casal McKenna na casa deles servem de alivio cômico, algo essencial numa narrativa tão carregada, mas que infelizmente peca pelo exagero quando o casal volta pra casa e diz “Desculpem, tivemos que buscar Hank”. Apesar de divertido, este final não condiz com o clima tenso de todo o filme, mas este é apenas um pequeno deslize dentro de uma obra com importantes qualidades.

Colabora para o envolvimento do espectador com a trama a boa atuação de James Stewart, que transmite muito bem o crescente sentimento de desespero em Ben. Sempre carismático, o ator encarna perfeitamente o homem comum que de repente se vê numa situação inesperada e por isso provoca empatia imediata no espectador. E é comovente acompanhar sua gradual transformação num homem desesperado em busca do filho, ao mesmo tempo em que tenta controlar os seus nervos e os de sua esposa, interpretada por Doris Day. Cantora profissional, Day oferece uma atuação que, surpreendentemente, vai além do seu notável talento com a voz, destacando-se também nos momentos dramáticos, como quando recebe a notícia, já sob sedativos, de que seu filho havia sido seqüestrado, com um choro comovente e um desespero bastante verossímil. E até mesmo nos momentos que exigem uma atuação mais sutil a atriz se sai bem, como quando Bernard pergunta sobre seu passado e ela olha discretamente para o marido, com um ar de desconfiança. Observe também como a trilha misteriosa que sublinha a conversa dela com Bernard colabora com o clima de mistério, reforçado ainda pelo fato de Bernard falar o idioma local e tanto ela quanto o espectador ficarem sem entender nada quando ele conversa com os habitantes locais. Já o garoto Hank, interpretado por Christopher Olsen, oscila entre momentos de extremo carisma e simpatia, como na viagem de ônibus pelo Marrocos, e momentos em que é irritante, como no passeio pelas ruas de Marrakesh.

Completando o elenco, temos o misterioso casal Drayton, interpretado por Bernard Miles e Brenda De Banzie. Apresentados na engraçada cena do jantar, que mostra também os interessantes costumes locais, o casal Drayton se mostra bastante simpático e inicialmente não gera desconfiança em Jo e Ben, o que aumenta o choque no doutor (e no espectador) quando a bombástica notícia chega através do telefone. Mas, infelizmente, Miles não consegue jamais fazer com que seu personagem represente um perigo real como fez o sensacional Peter Lorre no filme original. Ainda assim, ele vive bons momentos, como na cena em que o Sr. Drayton diz que o bater de pratos é a deixa para o tiro, que faz o espectador se lembrar do inicio do filme, revelando uma elegante rima narrativa. Por outro lado, Brenda De Banzie oferece uma atuação ambígua na pela da Sra. Drayton, alternando entre a vontade de ajudar o marido e o sentimento maternal, que será elemento chave para a solução da trama. Quando Jo começa a cantar dentro da embaixada, nos lembrando da cena em que ela canta com Hank no hotel (outra rima narrativa interessante), a sugestão da Sra. Drayton para o garoto será responsável por sua salvação. E neste momento, vale observar atentamente a meticulosa condução da cena. Enquanto ouvimos a música de Jo, somos levados plano após plano até o quarto, ao mesmo tempo em que o som diminui o volume, dando a exata noção da importância da música naquela situação. Felizmente o som superou as barreiras e chegou ao quarto, assim como a Sra. Drayton superou suas convicções e abriu mão de seu plano para salvar aquele menino.

Obviamente, o mérito pela condução da cena citada é de Hitchcock, que conduz a câmera com segurança durante todo o filme, fazendo movimentos interessantes, como o travelling pelo quarto de hotel que mostra Jo e Hank cantando enquanto Bernard e Ben conversam. Além disto, ele utiliza a câmera para aumentar o suspense, como no plano em que podemos ver Ben caminhando pela rua enquanto um homem se aproxima dele e, logo em seguida, quando a câmera assume o seu ponto de vista e nos leva para dentro do local, mantendo a constante sensação de que algo aparecerá a nossa frente. Hitchcock sabia como poucos prolongar ao máximo o suspense e em “O homem que sabia demais” ele utiliza este artifício diversas vezes, como quando Ben telefona para Ambrose Chapel e algumas pessoas entram no apartamento, atrapalhando a conversa. O próprio trocadilho com o nome “Ambrose Chapel” serve para estender um pouco mais a trama, evitando que o casal vá direto à capela onde se encontra o jovem Hank. Mas o mestre reafirma toda sua qualidade como diretor em dois momentos especiais. O primeiro deles é a morte de Bernard, quando a câmera acompanha as costas do homem ferido até que este encontre o Dr. Ben e somente então revela seu rosto. O segundo e mais emblemático momento é a sensacional cena dentro do Albert Hall. Outra cena sensacional é o tenso encontro dentro da capela, onde a simples troca de olhares durante a ceia diz mais que qualquer palavra. Stewart e Day demonstram com competência a aflição dos personagens, algo que se repete com De Banzie e Miles. Vale destacar ainda aspectos menores, porém interessantes, da direção de Hitchcock, como o desmaio de Ben, que provoca uma distorção na imagem, transmitindo ao espectador a exata sensação do personagem (algo que seria ainda mais notável na obra-prima “Um corpo que cai”), assim como a utilização dos animais empalhados, que por si só colaboram com a aflição provocada no espectador (e que também seriam utilizados novamente por Hitchcock, na obra-prima “Psicose”). Observe ainda como o diretor encerra esta cena com um close no leão empalhado, simbolizando que Ben havia se transformado numa verdadeira fera em busca de seu filho.

Hitchcock conta ainda com a direção de fotografia de Robert Burks, que logo após o seqüestro de Hank, envolve o casal em sombras dentro do hotel, refletindo o abismo que eles haviam se metido, algo também ilustrado quando ambos conversam com Hank por telefone e o diretor filma em plongée (de cima pra baixo), diminuindo o casal na tela. Além de Burks, merece destaque o sempre excelente Bernard Herrmann, tradicional colaborador de Hitchcock e responsável pela boa trilha sonora do filme, que inclusive é homenageado através de um cartaz na entrada do Albert Hall. E já que citei a casa de espetáculos londrina, aproveito para voltar à cena mais sensacional de “O homem que sabia demais”, cuidadosamente planejada para aumentar lentamente o suspense até alcançar níveis insuportáveis. Hitchcock cria a atmosfera perfeita ao alternar entre os belíssimos planos gerais do teatro e os diversos planos que mostram a lenta construção do clímax. Observe, por exemplo, como apenas pela disposição das pessoas na platéia Jo pressente a execução do assassinato e gradualmente se desespera. Podemos ver a chegada de Ben, os preparativos do assassino, sua parceira acompanhando a letra da música, o primeiro ministro sentado, o coral cantando a ópera (a própria música confere uma aura épica à cena) e o homem responsável pelos pratos se ajeitando para entrar em ação, tudo isto numa seqüência angustiante e incrivelmente bem conduzida pelo diretor e pela montagem. Pra completar, temos o plano genial da arma aparecendo entre as cortinas e o surpreendente desfecho, quando Jo salva o ministro através de seu grito estridente.

Confirmando sua incrível capacidade de conduzir a narrativa, mantendo o espectador sempre atento ao que se passa na tela, Alfred Hitchcock nos brinda com outro grande filme neste “O homem que sabia demais”, que conta também com atuações inspiradas de James Stewart e, pasmem, Doris Day. O crescente clima de suspense e o desespero dos pais em busca do filho prendem o espectador do início ao fim. E assim como a perseverança de Hank é recompensada ao assoviar insistentemente a música tocada por sua mãe, o espectador se sente recompensado pelo tempo que investe neste ótimo filme feito “por um profissional”. Talvez, em se tratando de cinema, Hitchcock é quem deveria ser chamado de “o homem que sabia demais”.

Texto publicado em 07 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

JANELA INDISCRETA (1954)

(Rear Window)

 

 

Filmes em Geral #58

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Grace Kelly, James Stewart, Wendell Corey, Thelma Ritter, Raymond Burr, Judith Evelyn, Ross Bagdasarian, Georgine Darcy, Irene Winston e Alfred Hitchcock.

Roteiro: John Michael Hayes, baseado em estória de Cornell Woorich.

Produção: Alfred Hitchcock.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um homem discute com a esposa na janela de seu apartamento. Algum tempo depois, ela se deita no quarto, também com a janela aberta, e ele se senta no sofá da sala. Durante a madrugada, a janela do quarto está fechada, e o homem sai de casa com uma maleta. Volta pra casa muito tempo depois, somente para sair novamente, com a mesma maleta, mais algumas vezes. O quarto permanece fechado. Quando o dia amanhece, a esposa já não está mais lá. E como você ficou sabendo de tudo isto? Você ficou lá, na janela, vendo tudo acontecer, sem conseguir desviar o olhar ou fechar as cortinas. Esta pequena (e importante) seqüência de “Janela Indiscreta” é uma síntese perfeita do filme. A obra-prima de Alfred Hitchcock funciona, ao mesmo tempo, como um eficiente suspense e, principalmente, como um espelho erguido diante do espectador, que se descobre um verdadeiro voyeur na tela do cinema.

O fotógrafo profissional Jeffries (James Stewart) está preso em seu apartamento após quebrar a perna enquanto trabalhava no campo. Sem ter muito que fazer, ele passa a observar a vida dos vizinhos, apesar dos avisos de sua enfermeira Stella (Thelma Ritter) e da encantadora Lisa (Grace Kelly), que deseja se casar com ele. Só que esta pequena diversão se transformará numa verdadeira investigação quando ele vê algo suspeito acontecer num dos apartamentos vizinhos.

Confirmando a genialidade de Hitchcock já exposta em “Festim Diabólico” e “Disque M para Matar”, toda a narrativa de “Janela Indiscreta” se passa num único cenário, exigindo muito do talentoso diretor, que conta também com a excelente montagem de George Tomasini para evitar que a narrativa se torne cansativa, alternando muito bem entre os momentos de investigação do suposto crime e as divergências de Jeffries e Lisa. Além do bom ritmo, os movimentos de câmera de Hitchcock tornam o longa mais atraente, como quando a câmera passeia pela vizinhança até chegar ao apartamento onde Jeffries se encontra, nos ambientando logo de cara ao cenário da narrativa. Em seguida, a câmera passeia pelo apartamento dele também, passando por sua perna quebrada, pela foto de Lisa e pela máquina fotográfica, todos elementos essenciais na trama. Além disso, tanto a arquitetura do prédio como os objetos espalhados pelo apartamento – que falam muito sobre Jeffries – atestam o bom trabalho de direção de arte de J. McMillan Johnson e Hal Pereira. Mas o toque especial do trabalho de Hitchcock está na câmera subjetiva, que nos coloca na posição de Jeffries em muitos momentos, reforçando a tese de que o longa é uma metáfora para o próprio cinema. Ou seja, Hitchcock nos faz compartilhar da curiosidade do personagem pelas vidas particulares dos vizinhos. Assim como Jeffries, também estamos observando a vida alheia. Seja sincero: não é exatamente isto que procuramos quando vamos ao cinema?

Ainda na parte técnica, a fotografia dessaturada de Robert Burks muda gradualmente para tons mais obscuros na medida em que a narrativa avança (repare como as cenas noturnas predominam na parte final do longa), como podemos observar na cena em que Lisa e Jeffries fazem diversas suposições sobre o assassinato da esposa do vendedor, onde a fotografia sombria reforça a atmosfera tensa. Em outra cena, o olhar de Lisa indica algo estranho lá fora – algo reforçado pelo zoom de Hitchcock – e o casal se aproxima da janela para ver uma caixa enorme no apartamento do vendedor. O espectador passa a acreditar nas suposições do casal. Vale destacar também a trilha sonora “diegética” de Franz Waxman, que utiliza somente o som produzido pelos personagens (um pianista, por exemplo) para pontuar as cenas e até mesmo refletir os sentimentos de Jeffries.

Hitchcock é competente também na condução do elenco, afinal de contas, as atuações são essenciais para que o suspense de “Janela Indiscreta” funcione. Um dos atores preferidos do mestre do suspense, James Stewart mistura bem seu lado carismático com um delicioso sarcasmo, especialmente quando fala sobre casamento, como quando Lisa afirma que o compositor é um homem triste e ele responde que ele “provavelmente já foi casado”. Além disso, ele personifica muito bem o homem comum, o que facilita a empatia da platéia e reforça a tensão quando ele corre perigo. Num diálogo sobre o futuro, Jeffries deixa claro seu jeito simples e, ao mesmo tempo, seu espírito livre, de quem não quer ficar preso a um escritório e muito menos a uma relação estável e prefere viver viajando pelo mundo, ao contrário de Lisa, que sonha com um casamento e não esconde o desejo de ver seu amado de terno e gravata. E até mesmo os figurinos de Edith Head refletem estas características dos personagens, pois enquanto Lisa jamais repete uma roupa e se mostra sempre bem vestida, Jeffries mostra pouca preocupação com suas vestimentas, mostrando-se mais desleixado. Grace Kelly também está muito bem, mostrando empatia com Stewart e esbanjando charme e delicadeza, ao mesmo tempo em que se mostra incomodada com o “desprezo” de Jeffries pela vida que ela sonha em ter. E quando o casal passa a suspeitar do assassinato, as entonações das vozes tanto de Stewart quanto de Kelly envolvem a platéia completamente, nos fazendo embarcar junto com eles naquela investigação. Finalmente, a conversa sobre Lisa dormir no apartamento tem clara conotação sexual, também por causa da boa atuação da dupla, que mostra afinidade em cena. Apesar do rígido controle do “Código Hays” na época, Hitchcock sabia driblar a censura com destreza.

Quem também tem uma excelente atuação é Thelma Ritter, que vive a enfermeira Stella, com suas palavras diretas e seu jeito falastrão, que, segundo ela mesma afirma, fareja confusão. E é interessante notar como praticamente todos os personagens secundários do longa são interessantes, como os recém-casados que não param de transar, a mulher dona do cachorrinho, a “Srta. Coração Solitário”, a dançarina de balé e, obviamente, o vendedor, que terá participação importante na trama. Se a triste cena do jantar da “Srta. Coração Solitário”, embalada pela canção do vizinho compositor que toca piano, serve para nos emocionar, a briga entre o vendedor e a esposa servirá para plantar uma dúvida que nos atormentará durante boa parte da narrativa.

Esta dúvida começa a existir quando Jeffries observa a movimentação no apartamento do vendedor durante a madrugada – repare o interessante raccord que mostra o relógio dele e indica quanto tempo passou entre a saída do vendedor e o momento em que ele volta pro apartamento com a maleta. A chuva aumenta a angústia enquanto o homem repete o processo algumas vezes e, na manhã seguinte, o sumiço de sua esposa parece confirmar o crime. Inteligentemente, Hitchcock espalha alguns indícios do assassinato pela narrativa, como quando o vendedor limpa a mala, enrola um facão e uma serra num papel e, principalmente, quando o cachorro começa a fuçar no terreno em que o vendedor plantava flores. Só que os indícios de que não houve crime também existem e aparecem especialmente nas palavras do cético Thomas Doyle (Wendell Corey), criando um conflito na mente do espectador. Assim como entramos em conflito com os questionamentos de Lisa a respeito do que Jeffries estava fazendo. Mesmo assim, quando Lisa fecha as cortinas, após questionar se é ético observar a vida particular das pessoas, o espectador se sente incomodado, pois já foi envolvido por aquelas histórias paralelas e interessantes. Por isso, quando um grito rompe o silêncio lá fora, nós, assim como os personagens, queremos abrir a cortina imediatamente. E quando Lisa o faz, o cachorro morto reascende a teoria do assassinato, pois o vendedor é o único que não sai para escutar os gritos desesperados da dona do pobre animal. A teoria ganha mais força quando Jeffries compara as flores com uma foto tirada dias atrás e, conseqüentemente, a narrativa cresce em tensão.

Como de costume nos grandes filmes de Hitchcock, o clímax da narrativa é construído com perfeição. Quando Lisa e Stella decidem investigar as flores do jardim, a caída da noite aumenta a angústia da platéia, que, estrategicamente, está assistindo tudo sob o mesmo ponto de vista de Jeffries. Ou seja, assim como ele, estamos impotentes naquela situação. Quando Lisa decide invadir o apartamento do vendedor, o máximo que ele e o espectador podem fazer é torcer para que aquele homem não chegue a tempo de vê-la lá dentro. E então Hitchcock constrói um plano sensacional, onde vemos, simultaneamente, Lisa dentro do apartamento e o vendedor chegando, do lado de fora. Felizmente, a polícia atende ao chamado desesperado de Jeffries e chega a tempo de evitar a tragédia, levando a garota para a delegacia, mas deixando o vendedor livre. E enquanto a polícia prende Lisa, observe como Hitchcock faz questão de destacar o olhar do vendedor na direção da câmera, deixando claro que ele “nos descobriu”. Por isso, quando ele invade o apartamento de Jeffries minutos depois – em outra seqüência tensa muito bem conduzida pelo diretor, apenas com o som diegético indicando sua aproximação -, sua frase “O que você quer de mim?” serve tanto para Jeffries quanto para o espectador.

“Janela Indiscreta” é uma metáfora para o próprio cinema, que mostra como todos nós espectadores somos uma espécie de voyeur. Quer dizer então que somos todos bisbilhoteiros da vida dos personagens? Parece que sim. Mais uma vez, o mestre do suspense prova que com talento e criatividade (e um bom elenco), um cenário simples é suficiente para realizar um grande filme.

Texto publicado em 06 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

DISQUE M PARA MATAR (1954)

(Dial M For Murder)

 

Filmes em Geral #57

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Ray Milland, Grace Kelly, Robert Cummings, John Williams, Anthony Dawson, Patrick Allen, Leo Britt, George Leigh e Robin Hughes.

Roteiro: Frederick Knott, baseado em peça de Frederick Knott.

Produção: Alfred Hitchcock.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Alfred Hitchcock sabia como poucos extrair suspense de maneira simples e eficiente, seja através de uma festa (“Festim Diabólico”), seja através de uma noite num hotel de beira de estrada (“Psicose”) ou, simplesmente, através das observações de um homem parado numa cadeira de rodas (“Janela Indiscreta”). Mais impressionante ainda era sua habilidade de criar momentos tensos através de objetos do cotidiano, como a xícara de café em “Interlúdio” e, no caso deste ótimo “Disque M para Matar”, um aparelho telefônico. Com a costumeira simplicidade narrativa e um bom elenco nas mãos, o mestre nos brindou com outro longa marcante, repleto de suspense e reviravoltas.

O ex-tenista profissional Tony Wendice (Ray Milland) decide matar sua esposa Margot (Grace Kelly), numa tentativa de herdar seu dinheiro e evitar que ela se separe, após descobrir seu caso extraconjugal com o escritor Mark Halliday (Robert Cummings), que, ironicamente, está visitando o casal. Para isto, ele chantageia um colega dos tempos de faculdade, que deveria assassiná-la em troca de uma boa quantia de libras. Só que o plano não sai conforme o planejado e Tony se vê obrigado a contornar a situação, sem jamais perder de vista sua real intenção de tirar a esposa de seu caminho.

“Disque M para Matar” é uma adaptação para o cinema da peça de Frederick Knott, que é também o responsável pelo excelente roteiro, apresentando, além de diálogos marcantes e muito bem elaborados, desconcertantes reviravoltas durante a narrativa. Rodado na maior parte do tempo em um único cenário, o filme jamais se torna cansativo, graças à boa montagem de Rudi Fehr e aos deliciosos diálogos do roteiro, que ficam ainda mais atraentes devido à boa atuação do elenco comandado por Hitchcock. Aliás, o diretor tem grande parcela de responsabilidade pelo ritmo empolgante do longa, graças à firme condução da narrativa, que não perde tempo e busca apresentar logo em sua introdução os conflitos entre os personagens, deixando o espectador ciente dos problemas entre Tony e Margot e do caso dela com Mark. Em poucos minutos, já sabemos do caso extraconjugal, das cartas de amor interceptadas e do sumiço da bolsa numa estação de trem. Nesta mesma cena, o vestido vermelho de Margot faz alusão ao futuro violento que a aguardava (além de destacar a personagem) e a luxuosa casa em que eles vivem nos mostra a boa situação financeira do casal, revelando o bom trabalho de direção de arte de Edward Carrere. Ou seja, numa única cena, Hitchcock nos apresenta elementos vitais para o andamento da trama e que terão reflexo futuro na narrativa.

Um exemplo claro da qualidade dos diálogos de “Disque M para Matar” é a longa conversa entre Tony e Swan (Anthony Dawson), que, num primeiro momento, serve para nos apresentar aquele novo personagem e seu passado, e, em seguida, nos mostrar o poder de persuasão de Tony, que convence o colega a matar sua esposa através da chantagem de maneira convincente. Inteligente, Tony já havia estudado por muito tempo a vida de Swan e sabia que ele não teria como recusar a proposta. A cena se desenrola com incrível naturalidade, graças também a excelente atuação de Milland e Dawson, que se movimentam e falam como se estivessem num verdadeiro jogo de xadrez, onde cada palavra pode significar uma vantagem para o “oponente”. Nesta cena, vale destacar ainda como a câmera acompanha os movimentos de Tony enquanto ele simula como o assassinato acontecerá, preparando o espectador para aquele momento marcante. Após o diálogo, Swan finalmente pega o dinheiro – e a trilha sombria de Dimitri Tiomkin surge para reforçar que ele aceitou a proposta.

Em outro momento, Hitchcock enquadra Margot, Mark e Tony, que se despede da esposa enquanto coloca a chave disfarçadamente embaixo do tapete. Mark observa tudo, mas não percebe o que está acontecendo. Na despedida, Margot estranha o beijo do marido, como se pressentisse o que estava acontecendo – e Grace Kelly demonstra isto com precisão através de sua feição preocupada. Momentos antes, a conversa sobre o crime perfeito ajuda a criar a atmosfera ideal para o momento da execução do plano, além de ter reflexo na última cena, quando Tony recorda uma frase de Mark. E então, conforme o planejado, os homens vão para a festa e ela fica sozinha, a mercê do cruel destino arquitetado por seu marido. A trilha ainda mais sombria indica a tragédia enquanto Swan se aproxima da casa dos Wendice e até mesmo a fotografia de Robert Burks, que até então apresentava tons mais claros, carrega nas sombras e cria um visual bastante obscuro, que aumenta a aflição e colabora com a atmosfera de suspense. Como de costume, Hitchcock trabalha sua grande cena em cada detalhe, a começar pela diferença de horário entre os relógios de Swan e Tony, percebida antes pelo espectador e só depois pelos personagens. São estes pequenos detalhes que podem atrapalhar todo o planejamento da dupla e que servem para aumentar ainda mais a tensão. Além do relógio, Tony se depara com um homem no telefone, justamente na hora em que ele vai ligar para a esposa. E então, o telefone toca e seu toque parece disparar o coração do espectador. Hitchcock sabia extrair tensão de coisas simples e, neste caso, um objeto comum como o telefone parece capaz de hipnotizar a platéia e deixá-la em frangalhos. Quando ela finalmente atende, não sabemos onde se encontra Swan, que é revelado através de um belo movimento de câmera, girando em todo o cenário até nos mostrar o assassino no local combinado, bem atrás de Margot. Mas ele não consegue estrangular a pobre vítima (e seu olhar hesitante, segundos antes de atacá-la, indica que Swan não era um assassino frio e cruel como Tony esperava) e, após lutar por sua vida, Margot consegue pegar uma tesoura e atingi-lo, matando-o imediatamente. “Disque M para Matar” sofre então uma grande reviravolta. O que Tony faria agora? É justamente a meticulosa e orquestrada ação dele que acompanharemos, durante a tensa investigação que, sem ter uma única cena de ação (além de se passar praticamente num único cenário), consegue deixar o espectador grudado na cadeira o tempo todo.

Além desta grande cena, “Disque M para Matar” apresenta ainda pequenos momentos de pura tensão, como quando Margot procura algo na bolsa e diz “Estou procurando minha… aspirina”. O espectador pensa, por poucos segundos, que ela descobriria que sua chave não estava lá. Repare ainda a lenta condução da cena em que Tony aguarda a chegada da polícia ao mesmo tempo em que “prepara” a cena do crime, buscando incriminar a esposa. Mais uma vez, o mestre do suspense prolonga ao máximo os momentos tensos. Esta aí o segredo do sucesso da narrativa.

Durante a investigação do astuto Inspetor Hubbard (John Williams), Tony faz o jogo correto, não deixando clara sua real intenção de incriminar a esposa – e Ray Milland se sai bem neste aspecto, demonstrando segurança em suas palavras. Repare como sempre que pode, ele procura se mostrar solícito e preocupado em defender Margot, quando, na verdade, sabemos que ele quer mesmo é condená-la. Hitchcock faz com que o espectador saiba mais que muitos personagens em cena, criando, como ele mesmo afirmava, o verdadeiro clima suspense. Enquanto isto, Grace Kelly faz muito bem o papel da esposa indefesa e, com seu jeito dócil e carismático, conquista o espectador, algo essencial para que o público se envolva com a história e torça por seu sucesso. Observe o seu desespero com as insinuações da polícia de que ela teria premeditado o crime e, especialmente, seu rosto de decepção quando finalmente se dá conta de que Tony havia planejado tudo. Pelo menos, para alivio do espectador, ela se salva, graças também ao bom trabalho do Inspetor Hubbard, interpretado com competência por John Williams, que jamais deixa transparecer para os outros personagens suas intenções em cada visita ao local. Repare que em diversos momentos ele espera que um personagem saia de cena para, em seguida, investigar algo suspeito sobre aquela pessoa na casa, como quando compara as chaves no momento em que Tony entra no quarto. Já Robert Cummings dá vida ao seu Mark Halliday justamente por mostrar força na luta por salvar Margot, mostrando-se indignado com a passividade de Tony após a condenação.

Condenada a morte, Margot pouco poderia fazer em sua defesa. Mas a insistência de Mark e, principalmente, o faro do Inspetor trabalham a favor dela, mesmo com o comportamento meticuloso de seu marido, que faz tudo certo, mas se esquece de um pequeno detalhe. A cena final é conduzida novamente com muita habilidade por Hitchcock, que nos coloca do lado de dentro da casa e nos faz, assim como os personagens, torcer fervorosamente para que Tony abra a porta e, quando isto acontece, nada mais precisa ser dito. Ele já sabe que foi pego. Como previsto, um pequeno detalhe é, literalmente, a chave para a solução do caso, levando o Inspetor a soltar Margot e prender Tony.

Com muita criatividade, um bom elenco e um roteiro maravilhoso, Alfred Hitchcock fez de “Disque M para Matar” mais um dos grandes filmes de sua gloriosa carreira. É realmente impressionante a qualidade de sua filmografia e, acima de tudo, a simplicidade com que ele fazia o seu trabalho. Seus filmes parecem fáceis, mas, na realidade, esta facilidade com que somos envolvidos pela narrativa é fruto de seu árduo trabalho e de sua genialidade.

Texto publicado em 03 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

PACTO SINISTRO (1951)

(Strangers in a Train)

 

Filmes em Geral #56

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Farley Granger, Ruth Roman, Robert Walker, Leo G. Carroll, Patricia Hitchcock, Kasey Rogers, Marion Lorne, Jonathan Hale, Howard St. John, John Brown, Norma Varden, Robert Geist e Alfred Hitchcock.

Roteiro: Raymond Chandler, Czenzi Ormonde e Whitfield Cook, baseado em romance de Patricia Highsmith.

Produção: Alfred Hitchcock.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A premissa de “Pacto Sinistro” é excelente e até certo ponto bem desenvolvida pelo roteiro. A atmosfera do longa, que flerta com o noir, também é bastante interessante. Mas, infelizmente, Alfred Hitchcock não consegue extrair grandes atuações de seu elenco e, o que mais surpreende, não consegue criar muitas cenas marcantes, algo incomum nos filmes do mestre do suspense. Além disso, o longa apresenta algumas cenas que soam falsas e irreais, prejudicando o resultado final. Assim, “Pacto Sinistro” revela-se um filme comum, especialmente por se tratar de uma obra de Hitchcock, e não consegue empolgar.

O tenista profissional Guy Haines (Farley Granger) viaja de trem quando conhece Bruno (Robert Walker), um estranho que sabe muitos detalhes da vida do jogador. Sabendo que Guy planeja se divorciar, Bruno inicia uma conversa, afirmando que odeia seu pai e que tem uma teoria sobre o crime perfeito, onde duas pessoas desconhecidas “trocariam assassinatos” e, desta forma, evitariam suspeitas sobre os crimes. Guy ri da teoria, se despede e vai embora, mas Bruno entende que o tenista concordou com seu plano e parte para matar a esposa dele Miriam (Kasey Rogers), dando inicio a uma dupla perseguição. Enquanto a policia vai atrás de Guy por causa do assassinato, Bruno persegue o tenista para exigir que ele cumpra sua parte no “acordo”.

Escrito pelo trio Raymond Chandler, Czenzi Ormonde e Whitfield Cook, baseado em romance de Patricia Highsmith, “Pacto Sinistro” parte de uma idéia criativa e interessante, criando uma situação inusitada para seu protagonista. A partir de um simples diálogo no trem a respeito da idéia maluca dos assassinatos “cruzados”, o longa desenvolve um thriller de perseguição dupla, pois Guy foge ao mesmo tempo da polícia e do estranho que conheceu no trem. Mas, infelizmente, o longa jamais decola, e confesso que uma idéia mal aproveitada é algo que sempre me incomoda num filme. Apesar de sua atmosfera interessante e da complicada situação do protagonista, muitas cenas soam irreais e comprometem a obra, assim como as atuações artificiais do elenco.

Tecnicamente, “Pacto Sinistro” tem bons momentos, como quando a montagem de William H. Ziegler salta da cena em que Guyafirma querer estrangular Miriam para o plano das mãos de Bruno, num indício do que aconteceria depois. Aliás, o trabalho de Ziegler merece destaque, especialmente no momento em que Guyjoga uma partida de tênis ao mesmo tempo em que Brunose dirige para o local do crime, buscando deixar um isqueiro que incriminaria o famoso jogador. Nesta cena, Hitchcock faz o espectador ficar ainda mais ansioso quando Guy perde o terceiro set, esticando ao máximo aquele momento tenso, que se arrastará pelo quarto set, quando ele vence a partida enquanto Bruno recupera o isqueiro caído no bueiro de maneira artificial, numa improvável trombada com um estranho no parque. Por sinal, é no parque que o longa tem um de seus bons momentos, quando Miriam passeia de barco e vemos a aproximação de Bruno através das sombras na parede, seguido pelo plano vazio na saída do túnel e pelo grito dela que garante o primeiro susto no espectador. Miriam estava apenas brincando com os rapazes no barco. Mas a brincadeira termina quando ela encontra Bruno, que a mata estrangulada, numa cena marcante, em que vemos o crime através do reflexo na lente dos óculos da moça caídos no chão. Esta atmosfera sombria é mérito também da boa direção de fotografia de Robert Burks, que remete aos filmes noir com suas cenas predominantemente noturnas, destacando-se nas seqüências no trem e em locais fechados, com pequenos fachos de luz entrando pelas persianas das janelas. Além disso, o crime, a investigação policial e a trilha sombria de Dimitri Tiomkin reforçam a aura noir do longa.

Diante da situação complicada em que se meteu, Guy é um personagem interessante, mas infelizmente a atuação de Farley Granger é artificial em diversos momentos, como quando ele reage a noticia da morte da esposa Miriam. Por mais que já soubesse do ocorrido, era de se esperar que ele fingisse alguma emoção diante do senador, até para não levantar mais suspeitas sobre ele. Granger até tem bons momentos, mas, em geral, jamais transmite o incômodo que o personagem exige. Interpretada por Patricia Hitchcock, Barbara é a dona dos comentários sarcásticos que garantem o humor negro e que, aliados aos diálogos sobre assassinatos – como aquele da festa entre Bruno e uma velha senhora –, reforçam o tema na mente do espectador. É ela também que faz Bruno lembrar Miriam, algo indicado através do zoom em seu rosto e da trilha sonora, exatamente a mesma do momento em que ele cometeu o assassinato. Esta semelhança física entre elas, acentuada pelos óculos, será essencial para a solução do crime, fazendo com que Anne, interpretada por Ruth Roman de maneira doce e sensata, perceba a real ligação entre Guy e Bruno. Já Kasey Rogers faz de sua Miriam uma personagem odiável mesmo com poucos minutos em cena, irritando Guy até o limite, numa discussão em que tanto ela como Granger soam caricatos. Pelo menos, Robert Walker se sai bem como Bruno, mostrando-se inconveniente e assustador enquanto persegue a conclusão de seu plano. Como é comum nos filmes de Hitchcock, a relação de Bruno com a mãe (Marion Lorne) tem importância e acaba refletindo em seu comportamento, como fica claro quando ela conversa com Anne, defendendo o filho com unhas e dentes. Já a relação de Bruno com o pai é bastante complicada, pois o Sr. Antony (Jonathan Hale) sabe da personalidade conturbada do filho, evidenciada quando, sem mais nem menos, ele estoura uma bexiga de um garoto no parque. Bruno é a sombra na vida de Guy, perseguindo-o por todo tempo, seja num museu ou numa quadra de tênis, onde todos olham para a bola e ele foca o olhar em seu “amigo”. Este aspecto poderia tornar o filme mais interessante, mas não é o que acontece, porque Granger não cria empatia com a platéia e, por isso, não nos importamos tanto com seu drama.

Ainda assim, o longa tem uma cena marcante, bem ao estilo de Hitchcock, quando Guy visita a casa de Bruno, subindo as escadas na completa escuridão, num momento de alta tensão, acentuada pela presença do cão de guarda. O visual da cena é assombrosamente obscuro e a trilha marca o momento com perfeição. Tensa também será a descida de Guy, com a arma de Bruno apontada para sua cabeça o tempo todo, até o momento em que ele diz que não vai atirar, porque pensará em “algo melhor”, numa promessa capaz de atormentar o protagonista (e o espectador). Como podemos ver, Hitchcock prolonga ao máximo o embate entre Bruno e Guy. Mas esta é uma feliz exceção num longa repleto de cenas artificiais, como quando Bruno ataca uma senhora numa festa – repare como ela aceita facilmente que ele aperte seu pescoço – e, aparentemente, ninguém faz nada a respeito por muito tempo. Pra piorar, o grande clímax no carrossel é pouco verossímil, graças à implausível luta em altíssima velocidade entre Guy e Bruno e à duração excessiva da cena. Tudo isto, somado às atuações exageradas de Granger e Walker naquele momento, faz com que a cena soe bastante falsa.

Em resumo, “Pacto Sinistro” é um bom filme, mas que apresenta apenas uma grande cena e, conseqüentemente, não consegue o mesmo nível de tensão das grandes obras de Hitchcock. Apesar dos sempre elegantes movimentos de câmera do diretor e da fotografia sombria, as atuações caricatas e a falta de uma atmosfera de suspense que funcione comprometem o resultado final. Ainda assim, um filme apenas razoável de Alfred Hitchcock normalmente é melhor que a grande maioria dos filmes do gênero.

Texto publicado em 02 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

FESTIM DIABÓLICO (1948)

(Rope)

 

 

Filmes em Geral #55

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: James Stewart, Farley Granger, John Dall, Cedric Hardwicke, Constance Collier, Douglas Dick, Edith Evanson, Dick Hogan e Joan Chandler.

Roteiro: Hume Cronyn e Arthur Laurents, baseado em peça de Patrick Hamilton.

Produção: Alfred Hitchcock e Sidney Bernstein.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Até onde pode chegar a criatividade de um grande cineasta? No caso de Hitchcock, esta pergunta dificilmente poderá ser respondida, especialmente se observarmos a qualidade de sua celebrada filmografia e o número de soluções criativas que ele encontrava em seus filmes. Mas existiam momentos em que o mestre simplesmente se superava, brindando os cinéfilos com verdadeiras jóias, capazes de empolgar o mais cético dos críticos. Filmada em longos takes com cortes quase imperceptíveis, a obra-prima “Festim Diabólico” é um destes momentos fantásticos, em que o diretor emprega sua impressionante técnica para conduzir uma narrativa envolvente, recheada de grandes atuações e momentos eletrizantes.

Os amigos Brandon (John Dall) e Phillip (Farley Granger) matam o colega de escola David Kentley (Dick Hogan), apenas para sentir a sensação de cometer um assassinato. Na busca pelo crime perfeito, eles promovem uma festa com os amigos e a família do rapaz, servindo a comida em cima do baú onde está escondido seu corpo. Mas um dos convidados é o esperto professor Rupert Cadell (James Stewart), que começa a desconfiar de tudo na medida em que a festa se torna cada vez mais estranha.

Narrado em tempo real, durante um fim de tarde e num único cenário (o apartamento de Brandon), “Festim Diabólico” apresenta um caráter extremamente realista, reforçado pela técnica empregada por Hitchcock, que filma as cenas em oito tomadas, com pequenos cortes quase imperceptíveis a cada 10 minutos – e que só existem porque este era o tempo máximo que uma bobina podia filmar na época -, nos dando a sensação de estarmos vendo um único plano-seqüência (normalmente, Hitchcock dava um close num personagem ou objeto para poder inserir o corte). Na realidade, apenas em um momento o corte é perceptível, quando Phillip discute com Brandon e grita que “é mentira!” ao ser acusado de matar galinhas – um corte seco nos mostra a reação de Rupert em seguida. Mas, por estar prestando atenção na calorosa discussão, o espectador pode nem perceber este corte. Desta forma, somos sugados pra dentro da história de maneira única, como se estivemos dentro daquele cenário, vivendo a narrativa com incrível intensidade.

Escrito por Hume Cronyn e Arthur Laurents, baseado em peça de Patrick Hamilton, o roteiro de “Festim Diabólico” apresenta muitos diálogos marcantes, além de desenvolver a trama lentamente e com cuidado, tornando possível, por exemplo, que Rupert perceba, através de gestos sutis, o que está acontecendo, como quando Phillip fala sobre os livros mal amarrados e ele olha para a corda, já bastante desconfiado. Assim, na medida em que percebemos que o astuto convidado começa a captar o que se passa, o suspense aumenta e o longa se torna mais tenso. Obviamente, a condução excepcional de Hitchcock também é responsável por isso, desde o momento em que vemos uma rua tranqüila, com pessoas caminhando (Hitchcock é uma delas), e um movimento de câmera nos leva a janela do apartamento onde a narrativa se passará, interrompendo o silêncio com um grito antes de termos a imagem de David sendo enforcado por Brandon e Phillip. Hitchcock sabia que, ao nos mostrar o assassinato e onde o corpo de David estaria durante a festa, ficaríamos inquietos e apreensivos. Seguindo sua cartilha, o mestre faz o espectador saber mais do que a maioria dos personagens em cena, o que só aumenta a tensão e o suspense.

E ainda que comece tranqüilo durante a preparação para a festa, o relacionamento entre Brandon e Phillip já dá indícios das diferenças de temperamento entre eles, que será vital no grande clímax da narrativa. Se Brandon é mais sádico e controlado, Phillip se apresenta mais humano e, por conseqüência, assustado com tudo aquilo. Aliás, John Dall se sai muito bem na pele do cruel Brandon, um personagem extremamente racional, que parece não sentir emoção, a não ser quando acha que seu plano maquiavélico está saindo conforme planejou. Seu humor negro e sarcástico garante boas piadas a respeito da morte de David e de sua presença na festa, como quando Janet (Joan Chandler) diz que David pode chegar e surpreendê-la no quarto com Kenneth (Douglas Dick) e ele responde que seria “um choque” – e Dall tem mérito nisto, ao conferir um ar de cinismo na fala do personagem. Mas, no interessante diálogo sobre assassinatos, que faz referências a Nietzsche e Hitler, Brandon começa a dar sinais de seu plano diabólico e o astuto Rupert começa a perceber o que está acontecendo. Já Farley Granger está um pouco exagerado, mas funciona na pele do assustado Phillip, balanceando bem o destempero de seu personagem com o autocontrole absurdo de Brandon. Vale registrar também que na peça original de Patrick Hamilton, Brandon e Phillip eram homossexuais, mas devido ao controle rígido do Código Hays, Hitchcock foi obrigado a amenizar este aspecto da relação entre eles, tornando-o perceptível, mas de maneira muito sutil (a peça foi inspirada no caso dos jovens Leopold e Loeb, que, em 1924, raptaram e mataram o garoto Bobby, de 14 anos, na cidade de Chicago). Fechando os destaques do coeso elenco, James Stewart, sempre excelente, tem uma atuação muito boa, que cresce na medidaem que Rupert aumenta sua desconfiança diante do que vê. Repare com o ator consegue nos convencer de que o personagem está preocupado através de pequenos gestos como quando observa atentamente o comportamento de Phillip ao ver a corda. Além disso, o ator soa convincente quando confronta os autores do crime no terceiro ato, num monólogo belíssimo que escancara a mensagem do filme, numa crítica feroz ao sentimento de superioridade do ser humano que se julga capaz de tirar outras vidas supostamente “inferiores” (lembre-se que o filme é de 1948, pouco tempo depois do período de domínio nazista).

No restante do elenco, basta dizer que nenhum ator destoa e todos conseguem captar o espírito do longa, fazendo com que a festa soe bastante realista, apesar da absurda situação criada por Brandon e Phillip. E é interessante notar também como as roupas definem parte da personalidade dos personagens, num excelente trabalho da figurinista Adrian. Brandon, com seu comedido terno azul, é o mais controlado de todos. Janet, com seu vestido vinho, procura chamar a atenção dos rapazes e inclusive já namorou três dos quatro estudantes. Rupert esconde sob seu terno cinza muita sobriedade e inteligência, características vitais para que perceba o que está acontecendo. Kenneth, com seu terno marrom e apagado, é propositalmente o personagem mais apático da narrativa. Já Phillip procura se esconder sob seu terno marrom escuro, mas chama a atenção demais com seu jeito assustado. Discreta mesmo é a Sra. Wilson (Edith Evanson), com sua roupa preta de empregada que a torna quase imperceptível, ao ponto de Brandon repreender Phillip após o final da festa (“Calado, a Sra. Wilson ainda está aqui”). E finalmente, o Sr. Kentley (Cedric Hardwicke) exala seriedade em seu terno cinza claro, ao passo em que a Sra. Atwater (Constance Collier) chama a atenção para seu jeito espalhafatoso em seu vestido roxo.

Ainda na parte técnica, a trilha sonora de David Buttolph pontua os momentos de tensão, reforçada pela fotografia de William V. Skall e Joseph A. Valentine, que se torna mais sombria na medida em que a narrativa avança. E se o trabalho do montador William H. Ziegler se limita a inserir os pequenos e imperceptíveis cortes na narrativa devido à citada necessidade de trocar os rolos de filmagens, a direção de arte de Perry Ferguson merece ser citada por criar um cenário que permita o desenrolar da história de maneira tão eficiente, com a ampla sala da biblioteca servindo para recepcionar os convidados, o citado baú que esconde o segredo dos assassinos, o longo corredor que leva até a cozinha e a curiosa porta que divide os ambientes, com seu barulho irritante aumentando a tensão.

Finalmente, num filme dirigido por Hitchcock não poderiam faltar cenas marcantes e “Festim Diabólico” não seria diferente. A começar pela fantástica cena em que a câmera fica parada ao lado do baú, com os personagens conversando sobre David à direita da tela, nos permitindo ver apenas parte do corpo de Rupert e a Sra. Wilson limpando a mesa e trazendo os livros para guardar no baú. Observe a condução lenta da cena por parte de Hitchcock, criando um suspense crescente na medida em que se aproxima o momento que ela guardará os livros. A tensão chega ao auge quando ela começa a abrir o baú e é interrompida por Brandon, aumentado a suspeita de Rupert. Esta suspeita levaria aquele homem a voltar ao apartamento depois que todos foram embora, provocando pânico em Phillip e dando inicio a outra seqüência incrivelmente tensa. Determinado, Brandon se arma e abre a porta. O diretor então inicia a cena destacando a mão armada de Brandon dentro do bolso através de um zoom, enquanto quando Rupert fala sobre David. Em seguida, a câmera simula cada movimento do tenso diálogo em que ele diz como mataria o rapaz, da mesma maneira que Hitchcock fizera em “Rebecca”. Repare como a luz que pisca fora do apartamento e a noite que recai aumentam a tensão do momento, atingindo níveis insuportáveis até que Phillip, ao ver a corda nas mãos de Rupert, confessa tudo e ameaça matá-lo. Rupert consegue tomar a arma de sua mão e parte, sem querer acreditar no que verá, para abrir o baú. Neste momento, Stewart se destaca novamente, demonstrando a frustração de Rupert ao ver o corpo de David lá dentro e o incômodo por saber que Brandon havia distorcido suas palavras para fazer algo tão cruel. O longa termina num plano genial, com Phillip desolado no piano, Brandon tomando uma bebida tranqüilamente e Rupert sentado, aguardando a chegada da polícia.

Com sua narrativa envolvente, “Festim Diabólico” é uma obra-prima do suspense, conduzida com perfeição por Alfred Hitchcock, que desfila sua enorme capacidade de direção através dos criativos movimentos de câmera, da firme condução da narrativa e da excepcional composição da mise-en-scène, permitindo a excelente atuação coletiva do elenco, que transita no cenário de maneira eficiente, e entregando um filme marcante, criativo e incrivelmente tenso.

Texto publicado em 01 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

INTERLÚDIO (1946)

(Notorious)

 

Filmes em Geral #54

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Cary Grant, Ingrid Bergman, Claude Rains, Louis Calhern, Leopoldine Konstantin, Reinhold Schünzel, Moroni Olsen, Ivan Triesault, Alex Minotis e Alfred Hitchcock.

Roteiro: Ben Hecht.

Produção: Alfred Hitchcock.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Com uma narrativa impecável e excelentes atuações, “Interlúdio” comprova a capacidade de Alfred Hitchcock de criar suspense com eficiência, neste caso, misturando thriller de espionagem e romance com perfeição. Ao mesmo tempo em que torcemos pelo casal principal, queremos saber o resultado de uma investigação, que, por outro lado, compromete esta mesma relação amorosa. Está criado o cenário perfeito para que o diretor crie momentos marcantes, do mais puro suspense.

A jovem Alicia (Ingrid Bergman) passa a se afundar na bebida após seu pai alemão ser condenado como espião nos Estados Unidos. Numa das festas, ela sai bêbada com o misterioso Devlin (Cary Grant), que se revela um agente do governo e a convida para uma missão especial no Brasil. Relutante, ela aceita viajar para se infiltrar num grupo de nazistas, amigos de seu pai, na tentativa de descobrir como eles estão operando. No caminho, Alicia se apaixona pelo agente Devlin, mas é obrigada a se casar com o nazista Alexander Sebastian (Claude Rains), como parte do plano norte-americano para capturar os alemães.

O roteiro de “Interlúdio”, escrito por Ben Hecht, mistura com eficiência a trama que envolve a espionagem no Brasil e o dramático romance vivido por Devlin e Alicia, que, como parte do plano em que se envolveram, são obrigados a permanecer separados e evitar colocar em risco a missão. De maneira inteligente, a narrativa investe boa parte de seu primeiro ato no estabelecimento da relação do casal, criando empatia com a platéia e, desta forma, aumentando o drama quando eles são obrigados a ficarem distantes, enquanto tentam descobrir o que fazem os nazistas no país. A situação só piora quando Alicia anuncia a proposta de casamento de Alexander, criando uma situação inusitada para ela (literalmente, dormindo com o inimigo) e para ele, que passa a dividir-se entre a razão, sendo obrigado a concordar que Alicia é a melhor escolha para infiltrar-se no grupo alemão, e a emoção, tentando desesperadamente retirá-la da missão para poder viver sua paixão. Mas, orgulhoso e desconfiado do passado promíscuo da garota, ele jamais deixa claro pra ela sua intenção. Ela, por sua vez, não fala nada, esperando que ele demonstre que a deseja.

Com este bom roteiro nas mãos, Alfred Hitchcock mostra o costumeiro domínio sobre a narrativa, construindo lentamente momentos de alta tensão, numa escala crescente de suspense que atingirá seu auge em duas grandes cenas e amarrará as duas vertentes da narrativa num final emblemático. Além disso, o diretor cria planos curiosos e eficientes, como aquele que mostra a visão de Alicia dirigindo, deixando claro o seu estado deplorável, reforçado pelo momento em que ela acorda, já no dia seguinte, e vê Devlin se aproximando, quando a câmera simula seu olhar, girando completamente. E até mesmo técnicas hoje ultrapassadas, como a “back projection” (tradicional cena em que o carro está parado e as imagens se movem ao fundo), não soam datadas, talvez porque estamos mais interessados no diálogo do casal, relegando o visual para o segundo plano naquele momento. Felizmente, isto não ocorre em todo tempo, pois Hitchcock se preocupa em criar um visual elegante, com os belíssimos planos aéreos do Rio de Janeiro, por exemplo, além de planos sombrios e marcantes, especialmente na casa de Alexander, que muitas vezes são embalados pela trilha sonora de Roy Webb.

A preocupação com a parte visual é reforçada ainda pelos belos lustres e pela decoração da imponente sala na casa de Alexander, ilustrando o bom trabalho de direção de arte de Carroll Clark e Albert S. D’Agostino, que ainda inclui a enorme escadaria que leva ao quarto em que Alicia ficará escondida e que será essencial na cena final (repare como a quantidade de passos de Devlin é maior na descida, prolongando a angústia na platéia). Também merecem destaque os ternos elegantes dos homens e os belos vestidos das mulheres na festa, que confirmam o bom trabalho da figurinista Edith Head, além da direção de fotografia de Ted Tetzlaff, essencial na criação dos citados planos sombrios na casa dos Sebastian, e que se torna ainda mais obscura na medida em que Alicia adoece, refletindo a tristeza da personagem, já na parte final da narrativa.

Filha de um oficial alemão condenado pela justiça norte-americana após a segunda guerra mundial, Alicia é interpretada pela grande Ingrid Bergman, que confirma seu talento logo nas primeiras cenas, ao compor uma bêbada com precisão, demonstrando dificuldade em abrir os olhos enquanto fala na festa. Observe, por exemplo, com a atriz demonstra bem o misto de sentimentos de Alicia ao saber que o pai morreu, não sabendo se chora ou se fica aliviada, e note ainda como ela convence quando Alicia fica doente, mostrando grande dificuldade para falar e se movimentar. Já o personagem interpretado por Cary Grant se mostra misterioso desde sua primeira aparição, quando está de costas e demora pra mostrar o rosto, mas deixa claro sua importância quando apresenta a carteira para um guarda de trânsito, que o libera imediatamente. Apesar de durar pouco tempo, os momentos românticos do casal conquistam a platéia e são vitais no clímax da narrativa. Aliás, fica claro num diálogo no hotel que Alicia está apaixonada e não esconde isto, ao passo em que Devlin ainda tem desconfianças, tanto dela quanto do risco que a missão no Brasil representa e, conseqüentemente, que aquela paixão corria. Ainda assim, ele escancara seu sentimento quando fica nervoso com a proposta de casamento de Alexander, num momento em que Grant se sai muito bem. Este componente amoroso só serve para aumentar a tensão quando a situação de Alicia se complica de vez na casa de Alexander Sebastian. Alexander, aliás, que é bem interpretado por Claude Rains, que muda gradativamente seu comportamento após descobrir que Alicia é uma espiã de maneira convincente, conseguindo ainda conferir humanidade ao vilão quando se mostra completamente apaixonado. E como acontece em muitos filmes de Hitchcock, o papel da mãe tem grande importância em “Interlúdio”, desta vez na pele de Madame Sebastian, interpretada por Leopoldine Konstantin, que aconselha o filho desde o momento em que coloca os olhos em Alicia. Repare como Konstantin muda a feição no momento em que a mãe de Alex ouve que o filho foi traído, colocando um sorriso cínico no rosto antes de dizer que “já sabia”.

Evidentemente, não estamos interessados apenas na relação amorosa de Devlin e Alicia, mas também na espionagem aos alemães, especialmente depois que a jovem se infiltra na casa de Alexander. Ciente disto, Hitchcock trabalha minuciosamente na construção de duas grandes cenas, capazes de grudar os olhos do espectador na tela. Observe, por exemplo, como durante um jantar na casa de Alexander, Hitchcock emprega um zoom nas garrafas de vinho, já indicando a importância delas na trama. As garrafas chamam a atenção de Alicia, que organiza um plano para invadir a adega numa festa em que Devlin estará presente. Já na festa, o diretor destaca a chave da adega nas mãos de Alicia após passear por todo o salão, começando a preparar um clima tenso, especialmente porque, durante a festa, Alexander observa atentamente as conversas entre Devlin e Alicia, que disfarçam, sorrindo enquanto decidem como entrarão na adega. O diretor então passa a incluir planos da bandeja de champanhes e do estoque que diminui, mostrando a preocupação de Alicia com a quantidade de bebidas, pois, obviamente, Alexander vai precisar da chave. Em seguida, o casal desce na adega, mas Devlin derruba e quebra uma garrafa, revelando o conteúdo suspeito da mesma, ao mesmo tempo em que Alexander decide buscar mais bebidas para a festa. Auxiliado pela excelente montagem de Theron Warth, Hitchcock alterna entre a chegada de Alexander e as ações do casal na adega, tornando a cena ainda mais tensa. Rapidamente, enquanto Alexander se aproxima, Devlin limpa o local e decide beijar Alicia, despistando, ao menos por um tempo, o que a dupla de fato fazia ali. Mas Alexander sentirá falta da chave, criando uma suspeita que se confirmaria no dia seguinte, quando ela reaparece no quarto deles – acertadamente, Hitchcock destaca a chave com a palavra “UNICA”. Sentindo-se traído, ele entra na adega, descobre a garrafa quebrada e confirma sua expectativa. A narrativa sofre uma reviravolta. Nós sabemos que Alexander está ciente da função de Alicia, mas ela não sabe. Seguindo os conselhos da mãe para evitar ser acusado de assassinato, o marido passa a envenenar lentamente a esposa através do café – e Hitchcock faz questão de destacar as xícaras de café, fazendo com que o espectador, novamente, saiba mais que a personagem, que toma o café envenenado dia após dia. Aliás, a primeira vez que o diretor faz isso é num travelling genial, que se inicia na xícara de café, passa pela mãe de Alexander e termina na sonolenta Alicia, deixando claro para o espectador o que está acontecendo.

Mesmo doente, Alicia evita tocar no assunto quando encontra Devlin numa praça, num diálogo interessante que confirma o quanto ambos estão ressentidos pela relação que não deu certo. O orgulho impede que eles se aproximem e se abram, impedindo também que Devlin descubra o que acontece com Alicia. Mas ela mesma descobrirá porque está doente quando, em outra cena marcante, a câmera viaja pela xícara e vai até ela, segundos antes do médico ameaçar tomar o café de Alicia, provocando a reação imediata e impulsiva de Alexander e sua mãe. Alicia percebe na hora o que está acontecendo – algo destacado através de um zoom no rosto impaciente da mãe de Alex – e a câmera subjetiva distorce as imagens indicando que ela está passando mal. Desconfiado e sentindo falta da amada, Devlin decide visitar a casa dos Sebastian, nos levando ao tenso final em que ele foge com Alicia nos braços, inteligentemente usando os colegas alemães de Alexander para ameaçá-lo, descendo as longas escadarias da casa lentamente até sair pela porta. A frase final “Alex, não vai entrar?” é cruel e sela o destino do nazista.

Hitchcock usa uma história de espionagem como pano de fundo para nos contar outra história ainda mais interessante, sobre o amor de dois homens pela mesma mulher e sobre a paixão de duas pessoas orgulhosas e incapazes de se abrir. Alicia esperava que Devlin intercedesse por ela, mas nunca disse isto pra ele. Devlin esperava que Alicia desistisse da idéia do casamento, mas também nunca falou nada pra ela. E este silêncio poderia custar caro… Para ambos. Ainda que tenha muito suspense, “Interlúdio” revela-se uma grata surpresa na filmografia de Hitchcock, justamente por trazer no pacote do tradicional thriller, uma bela e clássica história de amor proibido.

Texto publicado em 31 de Maio de 2011 por Roberto Siqueira

REBECCA – A MULHER INESQUECÍVEL (1940)

(Rebecca)

 

Filmes em Geral #53

Vencedores do Oscar #1940

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Laurence Olivier, Joan Fontaine, George Sanders, Judith Anderson, Gladys Cooper, Nigel Bruce, Reginald Denny, C. Aubrey Smith, Florence Bates, Leonard Carey, Leo G. Carroll, Edward Fielding, Lumsden Hare, Forrester Harvey, Philip Winter e Alfred Hitchcock.

Roteiro: Robert E. Sherwood e Joan Harrison, baseado em livro de Daphne Du Maurier.

Produção: David O. Selznick.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Hitchcock era um prestigiado jovem diretor inglês quando aceitou o convite do produtor David O. Selznick para trabalhar nos Estados Unidos, dando início a uma fase marcante em sua carreira, que renderia muitas obras-primas e filmes de excelente qualidade como este “Rebecca, a mulher inesquecível”, que marcou sua estréia na fase “hollywoodiana”. E logo em sua estréia, Hitchcock deixou sua marca, entregando um filme instigante, dirigido com maestria e com uma narrativa surpreendente, que nos balança não apenas com uma, mas com duas reviravoltas desconcertantes.

Uma jovem de origem simples (Joan Fontaine) viaja como “acompanhante” da importante Sra. Edythe Van Hopper (Florence Bates) e acaba conhecendo o rico e nobre inglês George De Winter (Laurence Olivier), que a pede em casamento, mas ainda vive atormentado pelas lembranças do falecimento de sua esposa Rebecca, que morreu afogada no mar. Após chegar à imponente mansão dele em Manderlay, ela passa a viver ameaçada pelo fantasma da ex “Sra. De Winter”, sob os olhares atentos dos empregados, que simplesmente amavam a falecida esposa de George.

Escrito por Robert E. Sherwood e Joan Harrison, baseado em livro de Daphne Du Maurier, “Rebecca, a mulher inesquecível” conta a história de amor entre uma jovem humilde e um nobre inglês, mas jamais passa perto de um romance no sentido clássico da palavra. Criativo e com boas reviravoltas, o roteiro de Sherwood e Harrison usa o fantasma da morte da personagem título como agente criador de um suspense crescente, usando a falta de confiança da nova Sra. De Winter para plantar a dúvida na platéia sobre as reais intenções do rico George. Ciente do material que tinha em mãos, Alfred Hitchcock usa toda sua capacidade como diretor para criar uma atmosfera tensa desde a promissora introdução da narrativa, através da câmera subjetiva que nos leva pelos sonhos da protagonista enquanto ela recorda Manderlay. Esta sensação é reforçada pelos estranhos personagens que habitam a mansão, como a assustadora governanta Danvers (Judith Anderson), e pela própria mansão, fotografada brilhantemente por George Barnes, que mistura a luz que entra pelas janelas e as fortes sombras que se espalham pelo ambiente, permitindo ao diretor criar planos marcantes. Desta forma, a mansão parece ganhar vida e tornar-se ainda mais ameaçadora, especialmente na ala proibida, onde Rebecca vivia (observe como a trilha sombria embala o momento em que vemos a porta do quarto dela pela primeira vez). Aliás, Hitchcock faz questão de ressaltar o espanto da moça ao ver a imponente mansão pela primeira vez, já ilustrando o quanto ela se sentiria intimidada naquele ambiente (o espectador já tinha visto a mansão nos primeiros planos do filme e, por isso, não sente o mesmo impacto dela). Vale destacar ainda a capacidade de Hitchcock de criar suspense a partir de coisas simples, como quando usa o telefone tocando num quarto de hotel de maneira brilhante para provocar tensão quando a jovem tenta encontrar De Winter e evitar seguir viagem para Nova York.

Após um início desastroso, a jovem e o nobre inglês tem um diálogo interessante no café da manha no hotel, que dá início ao relacionamento entre a futura Sra. De Winter e seu pretendente. E graças à boa atuação da dupla, a forma como a relação se consolida é muito natural, crescendo dia após dia através dos encontros do casal. E são nestes encontros que surgirão as primeiras dicas da reviravolta na trama, como quando De Winter sai aborrecido após ela falar sobre o mar – só que, neste instante, pensamos que ele sofre pelo trauma da perda da esposa. Após esta fase de aproximação, com direito a flores antes da partida para Manderlay, o casal finalmente desembarca na famosa mansão onde a atuação de Joan Fontaine crescerá bastante. Esbanjando simplicidade, Fontaine vive a Sra. De Winter com seu jeito meigo e humilde, mas também ilustra bem o desconforto da garota diante de tanto luxo e das novas responsabilidades, demonstrando claramente o quanto ela está intimidada naquele ambiente. Este deslocamento fica evidente, por exemplo, quando por diversas vezes os empregados da mansão tentam fazer algo para ela (como servir o café ou abrir uma porta) e ela sempre se antecipa, justamente por não estar acostumada com este tratamento. Sentindo-se verdadeiramente um peixe fora d’água, ela não consegue assumir sua posição de “Sra. De Winter”, como fica claro quando ela atende uma ligação do jardineiro e responde que a Sra. De Winter morreu há um ano – e até mesmo suas roupas simples ilustram sua personalidade e sua origem humilde. Atormentada, quebra ainda um objeto precioso da casa e o esconde, num ato infantil que traria problemas para os empregados no futuro. Estes problemas só não se tornaram ainda maiores porque George é um homem direto, que resolve os problemas imediatamente e sem provocar grandes polêmicas. Interpretado por Laurence Olivier, George De Winter é, no entanto, um personagem atormentado pelo passado, que vive tentando esquecer a tragédia que assolou sua vida e, talvez por isso, apresenta uma oscilação radical de humor – algo que Olivier demonstra muito bem, mudando da serenidade para repentinas explosões com precisão. Ainda assim, ele parece de fato amar a nova Sra. De Winter, sempre se arrependendo de suas explosões logoem seguida. Oator é competente até mesmo ao manter o segredo de seu personagem, fazendo seu medo do mar parecer um trauma pela morte da esposa na maior parte do tempo, o que aumenta o impacto de sua revelação.

Entre o elenco, merece destaque também a atuação de Florence Bates como a falastrona Sra. Edythe Van Hopper, que consegue nos irritar de maneira encantadora com sua petulância, por exemplo, quando avisa sobre as intenções de De Winter, dizendo que ele quer apenas uma substituta para Rebecca e que a jovem não se enquadraria nesta função, plantando a dúvida que atormentaria a garota em grande parte do tempo. Já Judith Anderson tem uma atuação marcante como a fria governanta Danvers, com seu rosto gélido e sua expressão quase imutável sempre que entra em cena, se destacando na tensa seqüência em que tenta convencer a Sra. De Winter a se suicidar, sussurrando palavras em seu ouvido durante a festa à fantasia. Finalmente, Gladys Cooper vive a simpática e elegante irmã de Winter, Beatrice Lady, que parece de fato querer ajudar a nova Sra. De Winter e há também o curioso cachorro Jasper, que aparece muitas vezes, reforçando a predileção de Hitchcock pela aparição de animais em seus filmes.

Na parte técnica, destaque para a direção de arte de Lyle R. Wheeler, que cria cenários fabulosos, como a própria mansão Manderlay, decorando muito bem seus enormes cômodos e quartos com lustres marcantes, além da imponente mesa que se destaca na bela sala de jantar, apresentada através de um belo zoom out. Aliás, o bom trabalho de Wheeler fica evidente desde a decoração do hotel onde o casal se encontra pela primeira vez, como podemos notar nas habitações e no restaurante onde eles tomam café da manhã. E vale destacar também a estranha casa a beira-mar, que abriga as lembranças amargas de Winter e serve para reforçar a atmosfera sombria da narrativa. Destaque também para a trilha sonora de Franz Waxman, que aparece em grande parte do tempo, normalmente com melodias lentas, mas acentuando os momentos de suspense, como quando a Sra. De Winter caminha perto do mar, e para os bons efeitos visuais, que tornam o incêndio que destrói a mansão em algo realista para a época.

O grande truque da narrativa de “Rebecca, a mulher inesquecível” é que Hitchcock cria o “mito” Rebecca sem jamais mostrá-la de fato, a não ser através de um quadro na parede. O mestre sabe que desta maneira o espectador imagina a mulher ideal, num pensamento reforçado através de pequenos objetos com a letra “R”, que nos lembram constantemente da antiga esposa de Winter. E esta idealização da mulher perfeita é reforçada ainda pela forma como as pessoas se referem a ela, como quando Frith (Edward Fielding) afirma que “Rebecca era a criatura mais linda que ele já viu” (observe como o zoom out diminui os personagens neste momento, refletindo o sentimento da protagonista, que se sente inferiorizada). Desta forma, quando De Winter diz que ela era o demônio em pessoa, o choque no espectador é ainda maior, pois, até este instante, imaginávamos que Rebecca era uma mulher magnífica e amada pelo viúvo. Mas, numa discussão calorosa com sua nova esposa, Winter revela que não amava Rebecca, destruindo a imagem criada na mente do espectador e criando uma interessante reviravolta na narrativa (repare como a câmera de Hitchcock simula a movimentação de Rebecca no momento de sua morte, nos fazendo imaginar a cena). Agora que o barco dela havia sido descoberto, ele seria acusado de assassinato. Passamos então a temer por seu destino e, mesmo ao vê-lo afirmar que não a matou, ainda temos dúvida a respeito.

Chegamos então à longa (porém necessária) investigação do caso. E apesar de não termos certeza de que ele é inocente, torcemos por Winter, até porque neste momento já criamos empatia pelo casal principal (o que é mérito da narrativa bem conduzida por Hitchcock e das boas atuações de Olivier e Fontaine). Sabendo disto, Hitchcock, auxiliado pelo montador Hal C. Kern, prolonga ao máximo a resolução do caso, inserindo novos elementos que nos levam a pensar que Winter pode ser culpado, através do detestável Jack Favell (George Sanders), que afirma ser a gravidez de Rebecca a razão do assassinato. Esta angústia só terminará em outra reviravolta da narrativa, quando o médico afirma que Rebecca tinha câncer – o que, por outro lado, faz Winter pensar que ela premeditou tudo para incriminá-lo, destruindo de vez a imagem de Rebecca. Livre, ele volta para Manderlay, mas um incêndio provocado pela Sra. Danvers destrói o lugar que tanto o fez sofrer.

O controle absoluto da narrativa e a habilidade de criar suspense a partir de situações do cotidiano já apareciam neste ótimo “Rebecca, a mulher inesquecível”, que marcou a estréia de Hitchcock nos Estados Unidos e levou o Oscar de Melhor Filme. Usando o deslocamento normal de uma pessoa que passa a integrar um lar destruído por uma tragédia, Hitchcock consegue criar uma narrativa envolvente, prendendo a atenção da platéia do primeiro ao último plano e fazendo do filme uma obra tão inesquecível quanto sua personagem-título.

Texto publicado em 30 de Maio de 2011 por Roberto Siqueira

O REI LEÃO (1994)

(The Lion King)

 

 

Filmes em Geral #52

Videoteca do Beto #150 (Filme comprado após ter a crítica divulgada no site e transferido para a Videoteca em 06 de Janeiro de 2013)

Dirigido por Roger Allers e Rob Minkoff.

Elenco: Matthew Broderick, Rowan Atkinson, Whoopi Goldberg, Jeremy Irons, Nathan Lane, Niketa Calame, Jim Cummings, Robert Guillaume, James Earl Jones, Moira Kelly, Zoe Leader, Cheech Marin, Ernie Sabella, Madge Sinclair e Jonathan Taylor Thomas.

Roteiro: Irene Mecchi, Jonathan Roberts e Linda Woolverton, baseado em história de Jim Capobianco, Lorna Cook, Thom Enriquez, Andy Gaskill, Francis Glebas, Ed Gombert, Kevin Harkey, Barry Johnson, Mark Kausler, Jorgen Klubien, Larry Leker, Ricki Maki e Burny.

Produção: Don Hahn.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apesar de alguns tropeços ao longo de sua história, os estúdios Disney se especializaram em produzir animações de grande qualidade, que utilizam uma estrutura narrativa simples e o talento de seus animadores para deixar mensagens marcantes tanto para crianças como para adultos. Mas existem alguns momentos em que este trabalho em conjunto se supera e alcança a perfeição, entregando filmes capazes de marcar gerações, como é o caso deste lindo “O Rei Leão”, que consegue narrar uma história vigorosa, utilizando como pano de fundo a deslumbrante paisagem da selva africana para ensinar valores fundamentais de maneira tocante. Em outras palavras, trata-se de um filme belo tematicamente e deslumbrante visualmente. Em resumo, uma obra-prima.

O rei leão Mufasa (voz de James Earl Jones) apresenta seu filhote Simba (voz de Matthew Broderick) aos animais do reino, provocando a ira de seu invejoso irmão Scar (voz de Jeremy Irons), que arquiteta um plano cruel na busca pelo trono. Aproveitando a inocência e a curiosidade do pequeno Simba, Scar consegue colocar em prática seu plano, mas, com o passar do tempo e a ajuda do astuto macaco Rafiki (voz de Robert Guillaume), Simba volta para ocupar o seu lugar de direito.

Por razões óbvias, a selva africana é um local dos sonhos para animadores, que podem criar (ou reproduzir) cenários capazes de tirar o fôlego de qualquer um. Felizmente, a equipe da Disney não perdeu a oportunidade, permitindo aos diretores Roger Allers e Rob Minkoff viajarem pelos belíssimos cenários, nos levando por deslumbrantes paisagens e, auxiliados pela excelente trilha sonora de Hans Zimmer (que remete aos sons típicos da África), nos ambientando ao local onde se passará à narrativa. Na realidade, o trabalho de criação de cenários e o som – que, por exemplo, permite distinguir nitidamente gotas da chuva, raios e os ruídos de cada animal – fazem mais do que ambientar o espectador, conseguindo uma verdadeira imersão no universo de “O Rei Leão”. Impressiona também a fidelidade com que a narrativa recria os hábitos dos animais, como quando Scar diz que “é função das leoas trazerem comida para o bando”, assim como os animadores retratam com perfeição os movimentos dos leões, como quando Simba caminha de um lado para o outro pensativo, da mesma forma que um leão real faria. Repare ainda como os movimentos felinos de caça são idênticos à realidade, assim como o movimento de praticamente todos os animais, reforçando a qualidade do trabalho dos animadores. Captando este visual rico e cheio de cores com competência, Allers e Minkoff criam planos belíssimos, que soam como um verdadeiro deleite visual, seja na chuva, seja no sol, fazendo com que diversos momentos do longa mais pareçam um quadro vivo. E até mesmo os locais mais sombrios têm sua beleza, como o obscuro cemitério dos elefantes, apresentado lentamente ao espectador através de um zoom e habitado pelas cinzentas hienas, que criam um contraste interessante com os pardos leões. Aliás, não são poucos os momentos em que um movimento de câmera nos revela algo deslumbrante, como nos elegantes travellings que passeiam pela selva, ou algo importante para a narrativa, como quando somos apresentados às centenas de gnus que pastam no monte próximo ao local onde Simba se encontra. Quando os gnus aparecem na tela, o espectador sente o perigo e praticamente prevê a tragédia – ainda que neste momento esteja mais preocupado com Simba do que com Mufasa -, que se consumará na impressionante cena do estouro dos gnus.

Mantendo a tradição Disney, a trama é interrompida algumas vezes por canções diegéticas que tem alguma função narrativa, como quando Timão e Pumba apresentam sua filosofia “Hakuna Matata”, no momento mais leve do filme, que aproveita para fazer a transição do jovem Simba para o Simba adulto. Aliás, já que citei a divertida dupla, vale ressaltar que a narrativa é preenchida por diversos personagens coadjuvantes fascinantes, como o sábio macaco Rafiki, o fiel Zazu e os próprios Timão e Pumba, que surgem após o momento mais intenso dramaticamente, funcionando como um alívio cômico perfeito. E ainda que seja o vilão, Scar, com sua juba preta, não deixa de ser um personagem interessante, amargurado por ser relegado ao segundo plano diante do poderoso irmão e seu legítimo herdeiro, o que o leva a arquitetar um plano diabólico, revelado num número musical sombrio, quando ele canta para as hienas – repare como a fotografia migra de tons esverdeados para o amarelo e, finalmente, para o vermelho, o que é coerente com as intenções demoníacas do invejoso leão.

Auxiliados pela montagem de Tom Finan, a dupla de diretores acertadamente investe boa parte da narrativa na relação entre Simba e Mufasa, estabelecendo a importância da figura paterna na formação do caráter daquele jovem. Além disso, Finan cria elegantes transições entre planos, como quando Rafiki está sentado e reflexivo durante a posse de Scar e, no plano seguinte, aparece dormindo numa árvore, assim como a imagem de Simba numa pedra se transforma no próprio leão, agora deitado e dormindo no deserto. Escrito por Irene Mecchi, Jonathan Roberts e Linda Woolverton, “O Rei Leão” aborda temas fortes e universais, como o amor, a inveja e a morte – este último de maneira profunda e tocante. Desde o seu nascimento, Simba é festejado e reverenciado pelos outros animais. Mas, como seu pai lhe ensinaria a seguir, ser rei não era uma tarefa tão simples assim. E é justamente nos ensinamentos de Mufasa que reside a grande mensagem do longa, ao abordar o chamado “ciclo da vida” e a natureza finita de todos nós. Num destes diálogos, Mufasa explica para seu filhote que da mesma forma que eles se alimentam de antílopes, um dia eles morreriam, virariam grama e serviriam de alimento para estes mesmos animais, num exemplo interessante da vida selvagem, onde todos são importantes no equilíbrio do ecossistema. Em outro momento, o sábio Mufasa ensina ao filho que “o tempo de um reinado se levanta e se põe como o sol”, numa bela metáfora para a própria vida – que serve também para preparar o espectador para a perda de Mufasa. Da mesma forma que viemos para o mundo, um dia partiremos, deixando o lugar para outro ser, que dará continuidade à nossa espécie. Nossos antepassados tiveram o seu tempo, depois vieram nossos pais e, finalmente, a nossa geração, que será sucedida pela dos nossos filhos e assim por diante. A lição, forte e direta, cai como uma bomba nos jovens espectadores (e afirmo isto porque assisti ao filme pela primeira vez com 13 anos de idade e lembro muito bem o quanto fiquei impressionado). Um dia, mais cedo ou mais tarde, teremos que assumir responsabilidades e ser como nossos pais.

Para que esta mensagem marcante funcione, é vital que a relação entre pai e filho conquiste a platéia, e felizmente o roteiro trata esta questão com carinho, criando um vinculo excepcional entre Mufasa e Simba. Desde os primeiros momentos, o pai pacientemente ensina tudo ao filho, sempre com muito carinho e amor, preparando seu pequeno para a vida. E mesmo quando precisa ser enérgico, Mufasa é sábio na condução da situação, como quando salva Simba no cemitério e pede para Zazu acompanhar Nala enquanto ele ensinaria uma lição ao filho. Misturando autoridade e amor, Mufasa transita do recado claro sobre os perigos da atitude de Simba para a brincadeira descontraída, numa cena linda e marcante. É nesta cena também que Mufasa fala sobre as estrelas e os reis, num diálogo que refletirá em outra cena emocionante, quando Simba, deitado na grama ao lado de Timão e Pumba, olha para as estrelas e lembra o pai (e observe como no momento em que Mufasa fala com o filho, o zoom out diminui os personagens em cena, refletindo a aflição de Simba ao pensar que um dia perderia seu pai). Assustado, o garoto encontra conforto em outra frase marcante de seu velho, que lhe ensina o quanto aquele sentimento era normal: “Os reis também têm medo”.

Conduzida com muita energia, a triste cena da morte de Mufasa provocará a fuga de Simba, impulsionado pelos gritos de seu tio Scar, que lhe aconselha a fugir, segundos antes de ordenar sua morte. Mas o jovem leão tinha o sangue dos grandes e consegue escapar, fugindo para a savana, num plano belíssimo onde podemos ver as hienas observando o pequeno leão que se perde no horizonte. E após viver bons momentos ao lado de Timão e Pumba, Simba, agora um leão adulto, reencontra sua amiga Nala quando ela pula em cima dele durante uma caçada, numa interessante rima narrativa que remete a “Bambi”, onde o personagem principal também reencontrava sua amada da mesma maneira que a conhecera na infância. Embalados pela bela “Can you feel the Love tonight”, Simba e Nala se apaixonam, só que a paixão não seria suficiente para levar o leão de volta ao seu lugar. Cabe então ao macaco Rafiki a árdua missão de convencê-lo, algo que ele consegue de maneira marcante, provando para Simba que Mufasa estava vivo. Simba, empolgado com a notícia, corre para o local apontado pelo macaco e vê, no reflexo da água, sua própria imagem, compreendendo que uma parte de seu pai existia dentro dele agora – confesso que, após esta bela cena, pensei imediatamente na frase “ter um filho é uma maneira de continuar vivo” e me emocionei. Ainda sentindo-se culpado pela morte do pai e demonstrando grande carência afetiva, Simba finalmente compreende seu lugar no ciclo da vida e decide voltar.

Chegamos então ao esperado confronto final entre “vilão” e “mocinho”, onde, após reencontrar o tio, Simba se vê na mesma situação em que seu pai morreu e descobre a verdade sobre a morte dele (repare novamente no tom vermelho da fotografia, que cria uma atmosfera tensa e violenta, remetendo ao sangue, à própria raiva de Simba e ao seu desejo de matar o tio). Buscando forças após a bombástica revelação, Simba manda o tio pelos ares, dando às hienas a oportunidade de se vingar de Scar, num exemplo claro da famosa lei da selva. E então, Simba assume seu posto, na mesma pedra em que foi apresentado aos outros animais e onde apresentará o seu filhote, que, da mesma maneira, dará seqüência ao ciclo da vida.

Com grandes ensinamentos, um visual rico e uma mensagem marcante, “O Rei Leão” é um lindo filme, capaz de emocionar sem ser melodramático. De maneira simples e direta, ensina valores importantes, conquistando o espectador com seus personagens graciosos e seu interessante conceito de continuidade da vida e inevitabilidade da morte. E já que a morte é inevitável, nada melhor do que aproveitar a vida da melhor maneira possível, amando, sendo amado, e assistindo a grandes filmes como este. Hakuna Matata!

Texto publicado em 09 de Abril de 2011 por Roberto Siqueira

PETER PAN (1953)

(Peter Pan)

 

Filmes em Geral #51

Dirigido por Clyde Geronimi, Wilfred Jackson e Hamilton Luske.

Elenco: Vozes de Bobby Driscoll, Kathryn Beaumont, Hans Conried, Bill Thompson, Heather Angel, Paul Collins, Tommy Luske, Candy Candido, Tom Conway, Tony Butala, Robert Ellis, Johnny McGovern, Jeffrey, Stuffy Singer, June Foray, Connie Hilton e Margaret Kerry.

Roteiro: Milt Banta, William Cottrell, Winston Hibler, Bill Peet, Erdman Penner, Joe Rinaldi, Ted Sears e Ralph Wright, baseado em peça teatral de J.M. Barrie.

Produção: Walt Disney.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Sob a capa de aventura jovial e alegre da peça escrita por J.M. Barrie, “Peter Pan” esconde aspectos sombrios que abordam questões universais como a passagem do tempo, a perda da inocência e o mundo mais triste e cruel que todos nós somos obrigados a enfrentar quando deixamos a deliciosa fase da infância para trás. Infelizmente, esta essência da obra do dramaturgo escocês não foi captada com perfeição pelos estúdios Disney, que demonstravam através desta adaptação da obra para o cinema os primeiros sinais de desgaste na tradicional e outrora infalível fórmula de sucesso do estúdio.

A jovem e sonhadora Wendy Darling (voz de Kathryn Beaumont) espera ansiosamente pela visita de Peter Pan (voz de Bobby Driscoll), ao lado de seus irmãos João (voz de Paul Collins) e Miguel (voz de Tommy Luske). Após seus pais saírem de casa para passear, o “garoto que se recusa a crescer” aparece, levando Wendy e seus dois irmãos para a Terra do Nunca (uma ilha encantada onde ninguém cresce), para viver deliciosas aventuras ao lado da fada Sininho e dos garotos perdidos, que lutam contra o Capitão Gancho (voz de Hans Conried), um pirata cruel que jurou vingança quando, após uma briga com Peter, teve sua mão comida por um crocodilo – que, por sua vez, engoliu um despertador.

“Peter Pan” é uma fábula maravilhosa sobre a perda da inocência, sobre o momento em que a criança passa a perceber os desafios que enfrentará na vida e começa a deixar para trás o mundo mágico da infância, algo inevitável e que aconteceu (ou acontecerá) com todos nós. De maneira inteligente, o texto de J.M. Barrie cria um universo fantástico, repleto de personagens interessantes, que ilustram diversos aspectos desta fase da vida, como podemos perceber, por exemplo, no principal vilão da trama, que simboliza os terríveis adultos, responsáveis por destruir as fantasias das crianças (algo que, no longa da Disney, é inteligentemente representado na voz de Hans Conried, que faz ao mesmo tempo o capitão Gancho e George, o pai de Wendy). Outro exemplo notável dos simbolismos da fábula é o crocodilo que engoliu um despertador, que funciona como uma metáfora para o monstro implacável chamado “tempo”, cruel inimigo da infância. Afinal de contas, é justamente por causa da passagem do tempo que pessoas como George deixam de acreditar na existência de personagens como Peter Pan, como fica evidente nas primeiras cenas do longa, na casa da família Darling em Londres.

Após a bela introdução do narrador, vemos o pai irritado (e atrapalhado) separando as crianças e o cachorro e preparando a pequena Wendy para um momento de mudança. Ao sair do quarto dos irmãos, Wendy estava encarando uma nova fase e o fim de uma era de sonhos, um período mágico onde nossa imaginação nos leva a lugares fantásticos, sem que nada possa nos impedir. Mas ela ainda tinha direito a uma última aventura, e assim que seus pais saem de casa, uma sombra no telhado indica a presença do aguardado Peter Pan, o menino que não queria crescer e que levaria Wendy e seus irmãos para a Terra do Nunca, a ilha onde ninguém cresce. Os simbolismos são mais que evidentes. Só que esta não é uma crítica do texto de J.M. Barrie e, infelizmente, o longa da Disney não consegue captar sua essência, criando um filme leve e descontraído, mas que jamais alcança o impacto da obra que o inspirou. Talvez o grande problema do longa dirigido pelo trio Clyde Geronimi, Wilfred Jackson e Hamilton Luske seja exatamente sua leveza exagerada, que não consegue criar, por exemplo, um capitão Gancho temível e acaba tornando-se uma aventura leve e despretensiosa que minimiza os aspectos mais sombrios da obra original.

Talvez por isso, o longa apresenta um visual alegre, através das coloridas animações e dos criativos movimentos de câmera empregados, por exemplo, durante o vôo para a ilha. Este visual repleto de cores quentes e dias ensolarados ajuda a manter a atmosfera leve na ilha, criando um interessante contraste com as seqüências que se passam em Londres, sempre à noite e com cores mais frias. Ainda assim, existe espaço para pequenos momentos de tensão, como quando a sombra do capitão aparece na parede antes dele atacar Peter, seguindo a tradição Disney (inspirada no expressionismo alemão) de utilizar as sombras para provocar suspense. Em outro momento, quando Sininho desaparece, o visual obscuro que toma conta da tela indica o momento tenso. Mas nada que interfira no clima quase permanente de descontração da narrativa, embalado pelo bom ritmo da montagem de Donald Halliday, que alterna entre as cenas de Peter e as crianças e as cenas do Capitão Gancho e seus planos supostamente cruéis.

Outra tradição Disney que “Peter Pan” segue à risca é a presença constante da trilha sonora de Oliver Wallace e as canções espalhadas pela narrativa, como a triste e melancólica “Mamãe”, cantada momentos antes de o Capitão Gancho capturar Peter Pan. E até mesmo o som do despertador do crocodilo, que serve para indicar sua presença, é sempre embalado por uma trilha sonora leve e descontraída. Felizmente, a qualidade das animações também mantém o padrão do estúdio, criando cenários interessantes – como a árvore que abriga Peter e as crianças – e movimentos perfeitos para os personagens – como quando Sininho voa pela floresta. E talvez seja justamente por seguir a fórmula da maioria dos filmes anteriores que “Peter Pan” apresente um resultado apenas razoável, evitando o tom melancólico e não compreendendo todos os aspectos da obra que o inspirou. Por outro lado, o tom leve da narrativa apresenta momentos divertidos, especialmente quando Peter engana o Capitão – e que, ainda que sejam engraçados, servem também para enfraquecer ainda mais o vilão diante do espectador.

Pelo menos, os simbolismos continuam presentes e transmitem, ainda que de maneira pouco contundente, a mensagem principal da narrativa. Repare, por exemplo, como Wendy afirma com tristeza que “amanhã irá crescer”, momentos depois de afirmar para sua mãe que não queria crescer. Não à toa, ela se identifica com Peter, que com seu jeito sempre destemido e alegre, é um símbolo perfeito da juventude, chamando a atenção não só de Wendy, como de muitas outras crianças – e é curioso notar que tanto Sininho como as Sereias sentem ciúmes de Peter, o que será essencial para a execução do plano do Capitão Gancho de capturar o herói. Aliás, o carrancudo capitão Gancho, com seu mau humor e planos cruéis, representa os adultos e toda a aura sombria que os cerca. E fechando a gama de personagens da trama, temos ainda os divertidos índios que aparecem rapidamente no segundo ato.

Toda esta aventura juvenil chega ao seu clímax no navio pirata do Capitão Gancho, que nos leva ao esperado duelo entre Peter e o vilão. E, como esperado, Peter vence o duelo com facilidade. Então, a montagem faz um interessante raccord da lua para o Big Bang e dele para o relógio da casa de Wendy, nos levando de volta para Londres e para a conclusão da narrativa. E ao ver o navio de Peter nas nuvens, George afirma ter a sensação de já ter visto este navio antes, ainda quando era criança, reforçando o tema da “perda da inocência” abordado pela narrativa.

Ainda que tenha bons momentos, “Peter Pan” jamais alcança a qualidade de filmes como “Pinóquio” e “Dumbo” e, principalmente, não consegue transmitir em toda sua complexidade a mensagem agridoce da obra que o inspirou. Com seu clima leve e extremamente descontraído, mais parece uma simples aventura juvenil do que uma amarga reflexão a respeito da inexorabilidade do tempo, que nos leva ao triste momento em que perdemos a inocência, nos trazendo para um universo menos alegre, menos fantasioso e muito mais cínico. Se este dia não tivesse chegado para mim, talvez eu gostasse mais do filme. Mas, infelizmente, ele chegou, há muito tempo.

Texto publicado em 08 de Abril de 2011 por Roberto Siqueira