OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA (1981)

(Raiders Of The Lost Ark) 

 

Videoteca do Beto #24

Dirigido por Steven Spielberg.

Elenco: Harrison Ford, Karen Allen, Paul Freeman, Ronald Lacey, John Rhys-Davies, Alfred Molina, Denholm Elliott, Wolf Kahler, Don Fellows, William Hootkins, Fred Sorenson e Anthony Higgins. 

Roteiro: Lawrence Kasdan, baseado em estória de George Lucas e Philip Kaufman. 

Produção: Frank Marshall. 

 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O talentoso diretor Steven Spielberg tinha o sonho de dirigir um filme da série James Bond. Quando decidiu aceitar a oferta de seu amigo George Lucas, que estava se dedicando a outro projeto (nada mais nada menos que “Guerra nas Estrelas”), Spielberg realizou seu sonho e esta maravilhosa aventura chamada “Os Caçadores da Arca Perdida” ganhou vida nas telas, dando início a saga de um dos maiores heróis da história do cinema: Indiana Jones.

Tudo tem início quando o arqueólogo Indiana Jones (Harrison Ford) é contratado para encontrar a Arca da Aliança, que segundo as escrituras sagradas do cristianismo, continha os dez mandamentos que Moisés trouxe do Monte Horeb. Diz a lenda que quem possuir a arca será invencível, e por isso, Indiana terá que evitar que ela caia nas mãos do temível exército alemão, liderado por Adolf Hitler.

O grande mérito da aproximação que o herói Indiana Jones consegue criar com o público reside no fato de que ele parece sempre vulnerável. E isto ocorre porque Indiana é alguém de carne e osso, que comete erros e acertos, e não um super-herói que acerta em todas as decisões e jamais dá a sensação de que corre algum risco. Indiana, por muitas vezes, toma decisões erradas, que pioram ainda mais as coisas, como podemos perceber logo no início do filme, quando ao voltar de um local sagrado onde consegue um artefato indígena, ele passa o artefato para seu colega que se encontra do outro lado de um buraco onde só é possível passar com ajuda, somente para que este o abandone à beira deste abismo. É claro que além desta vulnerabilidade, a excelente atuação de Harrison Ford também é diretamente responsável pelo sucesso do icônico personagem. Sarcástico, ele encarna o arqueólogo de forma tão incrível que mal podemos imaginar outro ator na pele dele. Lembrando a dupla identidade comum em outros heróis (Superman, por exemplo), Indiana aparece como um professor sério e tímido na universidade, mas se transforma completamente quando está na pele do arqueólogo aventureiro. Toda a concepção do personagem é ótima. O chapéu e o chicote se tornaram marcas tão fortes que hoje em dia, qualquer pessoa, mesmo que não tenha visto o filme, sabe de quem se trata somente ao ver a sombra deles. Indiana é um herói que evita, a qualquer custo, trazer problemas para si, como fica claro na engraçada cena em que mata um especialista em espada com um tiro. Ele sempre opta por resolver a situação da forma mais simples possível. Egoísta, Indiana sempre vai tentar salvar sua pele, mas como não é infalível (e sabemos disso), muitas vezes toma decisões erradas e a situação piora ainda mais. E o fato de não sabermos se Indiana vai tomar a decisão correta torna ainda mais plausível um possível fracasso dele, o que aumenta a carga de tensão nas muitas cenas em que corre perigo.

O bom roteiro de Lawrence Kasdan é repleto de dicas e recompensas. Diversas situações ou objetos que aparecem terão reflexo no restante da narrativa, dando uma sensação de prazer ao espectador mais atento, como por exemplo, a mão queimada pelo artefato que serve de cópia para os alemães ou a capacidade de Marion (Karen Allen, em boa atuação) de tomar bebidas alcoólicas. Além disso, o roteiro espalha pelo filme diversos momentos bem humorados, o que, desde que bem realizado, é sempre bem vindo em filmes de ação. Observe, por exemplo, a cena em que Sallah (John Rhys-Davies, muito bem como o fiel amigo de Indiana) olha para o poço das almas e vê algo se mexendo no escuro. Quando a tocha cai e ele percebe que são cobras, dá um grito de susto e em seguida se desculpa com Indiana (“Sorry Indy!”), pois sabe que o amigo as detesta. Outro engraçado momento é a fuga de Indiana da América do Sul, sendo perseguido por índios ferozes e gritando para o amigo ligar o motor do avião.

Outro grande destaque da produção são os excelentes efeitos visuais, conseguidos através de movimentos mecânicos, em uma época onde os efeitos de computadores ainda engatinhavam. Por isso, as trucagens utilizadas para conseguir estes efeitos soam bastante reais, exatamente porque eram feitas com dublês e em estúdio. A enorme carga de ação do longa garante seqüências extremamente interessantes, como por exemplo, a empolgante cena da perseguição no caminhão. Fica evidente ali que os movimentos são reais. Sabemos que o ator (ou o dublê) realmente passou por baixo do caminhão, o que aumenta nossa aflição na cena. Além disso, o filme conta ainda com efeitos absolutamente inovadores na época, como o rosto derretendo (mérito principalmente da maquiagem) e as luzes saindo da arca. A maravilhosa trilha sonora de John Williams é destas trilhas que se tornaram tão famosas que até mesmo quem não viu o filme a reconhece.

Completando o bom trabalho técnico, a direção de fotografia de Douglas Slocombe destaca cores opacas, refletindo bem o local árido que é o deserto no Cairo, a excelente direção de arte de Leslie Dilley cria cenários absolutamente encantadores como o poço das almas, os belíssimos figurinos de Deborah Nadoolman dão um visual perfeitamente coerente com o ambiente (além de colaborar sensivelmente para o já citado visual de Indiana), e finalmente, a montagem de Michael Kahn ajuda a manter o ritmo ágil e empolgante da narrativa, além de criar duas seqüências muito famosas durante toda a saga de Indiana (o logo da Paramount se transformando no primeiro plano do longa e a linha vermelha marcando no mapa a trajetória das viagens do herói).

E finalmente, é claro que para que tudo isto funcionasse de forma tão perfeita seria necessária uma direção competente. E Spielberg merece todos os créditos por isso. Sua direção é segura, conduzindo a narrativa de forma coerente e extraindo grandes atuações do elenco. O diretor cria ainda planos belíssimos e cenas inesquecíveis, como Indiana fugindo da bola gigante, a fuga do poço das almas, a perseguição no caminhão e a abertura da arca. Não podemos dizer que “Os Caçadores da Arca Perdida” seja um filme perfeito. Os defeitos existem, como uma cena pouco verossímil em que Indiana viaja em cima de um submarino por muitos dias, mas a fantasia que cria e a forma que mexe com a imaginação compensam qualquer erro.

A deliciosa aventura “Os Caçadores da Arca Perdida” consegue misturar ação, suspense e bom humor, alcançando um resultado maravilhoso. É inevitável nossa identificação com o carismático personagem principal e, por isso, embarcamos juntos com ele nesta viagem maravilhosa através da imaginação. A grande direção de Spielberg e a ótima atuação de Harrison Ford criaram, junto com toda a equipe, um herói clássico, muito próximo de todos nós, e exatamente por isso, inesquecível.

 

Texto publicado em 08 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

TOURO INDOMÁVEL (1980)

(Raging Bull) 

 

Videoteca do Beto #22

Dirigido por Martin Scorsese.

Elenco: Robert De Niro, Cathy Moriarty, Joe Pesci, Frank Vincent, Nicholas Colasanto, Theresa Saldana, Mario Gallo, Frank Adonis, Joseph Bono, Frank Topham, Lori Anne Flax, Charles Scorsese e Michael Badalucco.

Roteiro: Paul Schrader e Mardik Martin, baseado em livro de Jake LaMotta, Joseph Carter e Peter Savage.

Produção: Robert Chartoff e Irwin Winkler.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Poucas vezes um sentimento foi captado de forma tão brilhante na tela do cinema como em “Touro Indomável”, obra-prima de Martin Scorsese que marcou os anos oitenta e mostrou como o ciúme e o descontrole emocional podem levar qualquer pessoa a total degradação, por mais sucesso que ela tenha na vida. Magnífico em todos os aspectos, o filme é uma aula de cinema de primeira grandeza, alcançando o mais alto nível de excelência técnica e narrativa, além de contar com uma atuação monumental de um dos grandes atores da história do cinema.

“Touro Indomável” conta a história da ascensão meteórica do pugilista peso-médio Jake La Motta (Robert De Niro), conhecido como o “touro do Bronx”, assim como seu incrível processo de decadência, graças ao temperamento explosivo e ao ciúme doentio.

Extremamente realista e ao mesmo tempo sensível, o filme conta com a direção impecável de Martin Scorsese, que como de costume utiliza planos muito criativos, principalmente durante as lutas, através de closes em La Motta, planos da lona e das cordas pingando sangue e até mesmo do uso da câmera lenta para acentuar o efeito de alguns golpes. Incrivelmente realista, a direção de Scorsese permite ao espectador praticamente sentir o peso das luvas, a emoção do combate e a vibração da platéia. O estilo inconfundível do diretor aparece também em um espetacular plano-sequência, que vai desde o vestiário até o ringue, nos mostrando a preparação de Jake e nos levando junto com ele até o local do combate. Podemos sentir o clima, o público, as luzes e o ringue, como se estivéssemos ali dentro da luta válida pelo titulo mundial dos pesos-médios entre La Motta e Cerdan, em 1949. É claro que a firmeza na condução da narrativa e a excelente direção de atores, duas características fortes do diretor, estão presentes também.

O roteiro de Paul Schrader e Mardik Martin, baseado em livro de Jake La Motta, Joseph Carter e Peter Savage, utiliza a linguagem de rua (verborrágica e repleta de palavrões) tradicional nos filmes de Scorsese para mostrar em detalhes como o temperamento explosivo de Jake o levou ao topo e ao fundo do poço, cobrindo muitos anos da vida do pugilista sem jamais soar cansativo. Mérito também da excelente montagem de Thelma Schoonmaker, que imprime um ritmo interessante ao longo de toda a narrativa, utilizando diferentes estilos visuais para demonstrar a passagem do tempo. Observe, por exemplo, o arquivo de fotos e imagens em câmera lenta das lutas de Jake, seguido por um divertido video colorido que resume os acontecimentos na família La Motta (como os casamentos dos irmãos), sublinhado por uma trilha sonora nostálgica, e que finaliza com imagens desgastadas em um video envelhecido, que lembra imagens de jornal. Esta seqüência dura apenas alguns minutos, mas cobre um período de mais de três anos da vida dele.

Tecnicamente impecável, o longa conta também com a excelente direção de fotografia de Michael Chapman. O lindo contraste entre o preto e o branco cria imagens belíssimas, evita um banho de sangue no espectador e ainda pode ser interpretado como o ponto de vista de Jake, já que teoricamente os “touros” também enxergam o mundo em preto e branco. O magnífico trabalho de som funciona perfeitamente, captando cada golpe desferido pelos boxeadores com um realismo incrível, misturado à veloz narração da luta e a intensa vibração da platéia. E por último, mas não menos importante, a belíssima música tema da linda trilha sonora de Robbie Robertson (Cavalleria Rusticana: Intermezzo, composta por Pietro Mascagni) reflete muito bem o estado de espírito nostálgico de La Motta, que jogou fora tudo que conquistou em sua vida.

Dito tudo isto, chegamos finalmente ao personagem que inspirou toda esta produção. Jake La Motta é um ser humano simples, inocente até, mas explosivo ao extremo, como podemos notar logo em sua primeira aparição fora do ringue, quando reclama do jantar e vira a mesa. Esta cena simboliza perfeitamente a estupenda atuação de Robert De Niro, quando ao ouvir o vizinho gritando na janela (um técnico da equipe colocado de propósito por Scorsese sem ele saber), improvisa um diálogo que não estava no roteiro. Ao invés de parar a gravação da cena, ele entrou no espírito da coisa e mandou ver palavrões no vizinho intrometido. Coisas de quem sabe. Além das inúmeras cenas em que seu talento salta aos olhos da platéia (o choro sentido de Jake após entregar uma luta é uma delas) sua transformação física também é notável logo na primeira transição de 1964 para 1941. Por muitas vezes ingênuo, Jake era dono de um talento enorme e de uma força brutal, capaz de assustar os amigos do irmão Joey (Joe Pesci) quando os dois praticam boxe. Deslocado socialmente, seu jeito direto é também responsável por conquistar a mulher de seus sonhos, a jovem Vickie (Cathy Moriarty). A paixão por Vickie, porém, seria a responsável por expor o quanto ele era possessivo e ciumento, gerando reações extremas. Desconfiado além do limite, como fica evidente em um jantar com os amigos do irmão, Jake começa a demonstrar seu ciúme doentio quando reage de forma grosseira a uma simples frase de sua esposa sobre um adversário que era “jovem e bonito”. Jake passa dias pensando naquilo, chegando a conversar com Vickie sobre o assunto e refletindo seriamente sobre ele, revelando o quanto aquilo lhe perturbava e machucava. O resultado desta frase de Vickie foi o massacre de Janiro, o “jovem bonito”, a ponto de um espectador na platéia dizer que “este aí não vai mais poder ser chamado de bonito”.

Por outro lado, sua grosseria não significava que ele não a amasse ou se preocupasse com ela. Da mesma forma que a ofendia, e até mesmo agredia, ele demonstrava preocupação e carinho, como quando pede para o irmão levá-la pra casa e cuidar dela. Os irmãos, aliás, também se tratavam de forma agressiva, mas tinham profundo respeito e admiração um pelo outro. Nesta mesma discussão na casa de Jake, o próprio Joey é grosseiro com sua esposa, mas trata de aconselhar o irmão a cuidar de Vickie, o que gera a reconciliação dos dois logo em seguida. Joe Pesci, aliás, oferece outra excelente atuação na pele do irmão que cuida da carreira de Jake e é capaz de surrar o amigo Salvy (Frank Vincent) para defendê-lo. Vickie, por sua vez, jamais deixa de conviver com seu ciclo de amizades, por mais que amasse o marido. Por muitas vezes solitária, devido à constante rotina de lutas e viagens dele, procura amenizar a solidão se divertindo, o que só colabora para aumentar a paranóia do pugilista. Interpretada com muita sensualidade por Cathy Moriarty, ela ultrapassa o limite quando beija o empresário Tommy (Nicholas Colasanto) na frente do marido, provocando sua violenta reação. Fica claro então que Jake, por mais que amasse o irmão e a esposa, não media as conseqüências de seus atos, agindo instintivamente. Totalmente emocional e nada racional, era capaz de desconfiar do próprio irmão, como deixa claro na conversa em que, completamente fora de forma e irritado com a televisão, questiona a razão de sua briga com Salvy e chega ao ponto de perguntar se Joey já tinha transado com Vickie. Neste momento, Joey demonstra o quanto conhecia o irmão, pois sabia que se falasse o que tinha acontecido no bar ele explodiria de uma forma que ninguém conseguiria segurar. Vickie, por outro lado, não teve a mesma sabedoria, e talvez até como uma forma de provocar o marido, afirmou que já tinha transado com Joey e todos os amigos dele, provocando a ira do touro que, indomável, sai em fúria para socar o irmão e a mulher na frente da família de Joey, numa cena incrivelmente realista. Ele não pensa, só age, como um verdadeiro animal.

A enorme transformação de De Niro na entrevista de La Motta com a família em casa, seguida por sua assombrosa performance na boate, confirma todo o talento deste incrível ator. Observe como ele, na frente das câmeras, tenta ser mais educado com a esposa, chegando a perguntar se ela já terminou de falar. O final deprimente de La Motta, como um dono de bar gordo e babaca, faz com que sua esposa finalmente consiga deixá-lo. Para piorar ainda mais, ele é preso por permitir a entrada de menores de idade em seu bar, e sequer consegue pagar a fiança, mesmo vendendo as jóias do cinturão de campeão. O plano em que Jake esmurra a parede da cela, afundado nas sombras (refletindo seu estado emocional) e gritando que é um idiota é comovente. Ele repete que “não é mau, não é um animal e não é este cara”, numa performance brilhante e emocionante de Robert De Niro. Ao sair da cadeia, se transforma num apresentador de boteco decadente e deplorável. Porém, sua última frase dentro dos ringues (“Você nunca me derrubou!”) demonstra o outro lado desta fúria interior que carregava, responsável por criar um mito nos ringues. Mesmo derrotado, o gigante nunca caiu.

A conversa de Jake com o espelho, citando Marlon Brando em “Sindicato dos Ladrões”, contém a grande mensagem do filme. Ele podia ter sido alguém muito melhor, mas não foi protegido, caindo repentinamente do topo (céu) para o chão (inferno). No perigoso jogo da fama, não se deslumbrar com o presente e planejar o futuro é essencial para evitar um final decadente como este. Quando a linda trilha sonora, acompanhada de uma passagem bíblica, encerra esta emocionante obra-prima de Scorsese, estamos ainda em estado de transe, completamente hipnotizados pela maravilhosa obra que acabamos de testemunhar. Deslumbrante visualmente e profundo em sua temática, o pungente, vibrante e incrivelmente realista “Touro Indomável” nocauteia o espectador da mesma forma que Jake La Motta destroçava adversários. E de quebra, deixa uma importante reflexão a respeito do estrago que a falta de controle emocional pode causar em nossas vidas.

 

Texto publicado em 02 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

O ILUMINADO (1980)

(The Shining)

 

Videoteca do Beto #21

Dirigido por Stanley Kubrick.

Elenco: Jack Nicholson, Shelley Duvall, Danny Lloyd, Scatman Crothers, Barry Nelson, Philip Stone, Joe Turkel, Anne Jackson, Tony Burton e Barry Dennen.

Roteiro: Diane Johnson e Stanley Kubrick, baseado em livro de Stephen King.

Produção: Robert Fryer e Stanley Kubrick.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Mais uma vez o diretor de clássicos como “2001 – Uma Odisséia no Espaço” e “Laranja Mecânica” deixa o espectador repleto de questionamentos ao misturar o estudo dos efeitos causados pelo isolamento sobre a mente humana com visões sobrenaturais que podem ter múltiplas interpretações. O constante clima de um eletrizante suspense, recheado com ingredientes assustadores capazes de provocar frio na espinha da mais incrédula das pessoas, faz deste “O Iluminado” o clássico fantasmagórico de Stanley Kubrick, reafirmando o incrível talento deste gênio da sétima arte.

Durante o inverno, Jack Torrance (Jack Nicholson) é contratado para cuidar de um hotel no Colorado, para onde vai com sua mulher Wendy (Shelley Duvall) e seu filho Danny (Danny Lloyd). O problema é que o isolamento começa a afetar sua mente e ele se torna cada vez mais perigoso, ao mesmo tempo em que seu filho descobre pertencer a um seleto grupo de pessoas conhecidas como os “iluminados” e começa a ter visões de acontecimentos ocorridos no passado.

O travelling inicial pelos montes, acompanhando o carro na estrada ao som da assustadora trilha sonora, nos ambienta perfeitamente ao clima de “O Iluminado”. Kubrick nos introduz lentamente aos assustadores elementos da narrativa, como o amigo imaginário de Danny e a história do hotel Overlook contada para Jack, utilizando uma angustiante divisão em capítulos que cria um clima crescente de suspense, atenuado pela conversa sobre canibalismo da família a caminho do Hotel, onde as falas parecem ser mais lentas, tendo pequenas pausas entre elas. Kubrick prova novamente seu talento gigantesco ao abusar de enquadramentos perfeitos, utilizando muitos planos gerais e criando imagens de forte impacto, além de utilizar seu tradicional zoom, por exemplo, quando Dick (Scatman Crothers) está deitado na cama e tem uma visão. Observe também o intimidante plano de Jack brincando com a bola no saguão, mostrando o quanto o hotel Overlook pode ser assustador. O diretor também cria, com a colaboração da excepcional montagem de Ray Lovejoy, uma transição espetacular da maquete admirada por Jack para o belíssimo labirinto de verdade, numa tomada incrivelmente distante e encantadora. Faz ainda um plano de Jack trancado na dispensa que lembra a cena em que Frank, na porta do banheiro, reconhece Alex em “Laranja Mecânica”, numa interessante auto-referência.

Como é de costume nos filmes dirigidos por Kubrick, a parte técnica é nada menos que espetacular. A fotografia branca, limpa, quase asséptica de John Alcott reflete a loucura e o vazio de Jack, isolado naquele hotel. Kubrick utilizou muitas luzes nas enormes janelas para criar um visual que aumentasse esta sensação, além das tradicionais lentes que captam com precisão praticamente todo o cenário. Com o passar do tempo e o aumento da loucura de Jack, a fotografia vai escurecendo, se tornando menos nítida, até finalmente se tornar fria, em tons azulados, com a neve atrapalhando completamente a visão, num reflexo do atordoado estado mental dele. Os cenários coloridos e incrivelmente iluminados (tapetes e paredes coloridos, luminárias e janelas enormes e reluzentes) criam um ambiente intimidador e praticamente com vida, graças ao talentoso trabalho de direção de arte de Leslie Tomkins. Repare como o tapete laranja, vermelho e marrom, em Danny brinca com carrinhos antes de ver a porta 237 aberta, tem um efeito hipnótico, nos levando pra dentro do quarto junto com ele quase que inconscientemente. Outro exemplo é o banheiro onde Jack e Grady (Philip Stone) se encontram e tem um diálogo decisivo, que propositalmente é colorido em vermelho e branco, simbolizando o sangrento caminho que Grady influenciaria Jack a seguir. O som também colabora com o clima de tensão através do uivo do vento durante a nevasca ou, por exemplo, quando Danny passeia de triciclo pelo Hotel e alterna entre o alto barulho dos tacos de madeira e o silencio absoluto do tapete. Note como Kubrick deixa a câmera no nível do triciclo, nos colocando na posição do garoto e, portanto, vulneráveis a qualquer perigo que possa aparecer. E finalmente, a assustadora trilha sonora de Wendy Carlos e Rachel Elkind tem um tom muito sombrio, além de pontuar muito bem algumas cenas, como na primeira aparição do Labirinto.

Com todo este trabalho técnico de primeiro nível, o diretor só precisava de atores capazes de extrair do excelente roteiro, escrito por Diane Johnson e pelo próprio Stanley Kubrick, atuações do mesmo nível. E felizmente, o elenco de “O Iluminado” é muito competente. A começar pela sensacional atuação do ótimo Jack Nicholson. Inicialmente uma pessoa tranqüila e de bem com vida, como podemos perceber quando chega ao Hotel e brinca com as garotas que estão saindo, seu Jack vai lentamente sendo tomado pela loucura causada pelo isolamento. Também colabora com sua perturbação o fato dele, pelo menos teoricamente, pertencer ao grupo dos “iluminados”, e por isso ter visões nada convencionais. O excelente roteiro, aliás, tem um mérito inquestionável, que é justamente jamais deixar claro se as visões de Jack, Danny e posteriormente Wendy, são realmente visões fantasmagóricas ou apenas alucinações provocadas pelo isolamento. A transição de Jack, de pessoa tranqüila para completamente enlouquecido, é lenta e consistente. Os sinais vão aparecendo lentamente (outro mérito do roteiro), como na conversa entre Jack e Wendy a respeito de sua dificuldade para escrever com ela ao lado, sua conversa com Danny no quarto, quando diz que jamais o machucaria e gostaria de ficar ali com ele pra sempre (significando mais do que aparenta) ou seu pesadelo em que corta o filho em pedacinhos. Por não saber conviver com as visões que tem ele acaba enlouquecendo. Os sinais de que Jack também pertence aos “iluminados” são sutis, como a frase do barman (“Seu dinheiro não vale aqui”), sua visita assustadora ao quarto 237 e a festa em que ele conhece o garçom Grady. Sua conversa com o barman antes da festa, aliás, é um momento sublime da atuação de Jack, com o movimento dos olhos, a boca, a alteração repentina na voz e o movimento das mãos indicando o estado psicológico dele. Observe o momento em que ele diz que já machucou Danny antes. Segundos antes de falar, ele abre as mãos e suspira, como se estivesse tomando coragem para confessar. Quando volta ao bar, durante a festa, presenciamos o momento arrepiante em o garçom Grady revela seu nome. Observe a tensa reação de Jack, mexendo as mãos e os dedos, ao ouvir o nome dele. A conversa que segue entre os dois, no banheiro, é decisiva. Finalmente, logo após seu assustador texto datilografado ser descoberto por Wendy e Danny aparecer com o pescoço marcado, ela começa a culpá-lo e percebe sua alteração de comportamento. Inicia-se então outro momento antológico de Jack, transtornado, imitando a voz e partindo, alucinado, pra cima dela, que grita de forma estridente. Aliás, a atuação exagerada de Shelley Duvall como Wendy é uma exigência de Kubrick. Ele entendia que este histerismo era coerente com a personagem e, principalmente, com a situação que ela vivia. O rosto angular e incrivelmente branco dela maximiza os choros e gritos.

Um dos grandes segredos da capacidade de aterrorizar que o filme tem reside no fato do personagem chave ser uma criança. A utilização de crianças como elemento chave do suspense é um artifício interessante, provocando ainda mais medo, já que teoricamente elas são inofensivas. E felizmente, Danny Lloyd tem uma excelente atuação como Danny, um menino ao mesmo tempo misterioso e inocente. Repare sua inocência enquanto brinca com os dardos, seguida por um olhar assustado, acompanhando da respiração ofegante, quando vê as duas garotas no Hotel. Quando começa a descobrir seu talento, indicado através do pensamento de Dick (“Quer um pouco de sorvete, Doc?”) e do esclarecedor diálogo que eles têm em seguida, Danny passa a ver imagens assustadoras com mais freqüência (como as meninas mortas e a macabra frase “Venha brincar conosco Danny, para sempre, e sempre, e sempre…”) o que só aumenta seu pânico. Outro momento inspirado do garoto acontece no grande clímax do filme, quando Jack parte para “resolver seus problemas”, enquanto Danny repete a assustadora palavra “Redrum” (Murder ao contrário, em português “assassinato”). Torcemos desesperadamente para Dick chegar a tempo no Hotel, enquanto Wendy vê a palavra no espelho e Jack tenta derrubar a porta à machadadas, dizendo a famosa frase “Here’s Jhonny!”. Os gritos e as caretas exageradas de Wendy aparecem novamente aqui e a barba por fazer de Jack acentua sua loucura. Wendy passa então a ver o mundo que não via, com pessoas no Hotel e imagens assustadoras, culminando na sensacional seqüência dentro do labirinto, onde é impossível desgrudar os olhos da tela.

O plano final com Jack no meio dos formandos de 1921 deixa muitas questões em aberto, como é tradicional nos filmes de Kubrick. Seria ele um fantasma? O que estaria fazendo ali no meio daquela turma? Esta é uma questão que o filme não responderá, deixando a cargo de cada espectador tirar suas próprias conclusões. Quanto às visões, prefiro pensar que eram reais, e não apenas fruto da imaginação, o que teria total coerência com o próprio nome do filme. Em todo caso, existem pessoas que as interpretam como resultado do extremo isolamento da família, pois nesta situação, o ser humano realmente pode ter alucinações e enlouquecer. Mas isto tudo é pra ser discutido em outro local. Mais importante é destacar que Kubrick, mais uma vez, nos brinda com um filme espetacular, tecnicamente perfeito e capaz de arrancar arrepios da mais incrédula das pessoas. Se a intenção era fazer um bom filme de terror e suspense, ele alcançou com louvor.

Reafirmando novamente seu incrível talento, Kubrick conseguiu fazer de “O Iluminado” um filme incrivelmente assustador, contanto com uma atuação antológica de Jack Nicholson. Com o seu apurado conhecimento técnico e narrativo, criou um filme de visual deslumbrante, com uma narrativa tensa e um resultado final absolutamente maravilhoso. Se existem ou não pessoas iluminadas não sou eu quem vai comprovar. O que posso dizer é que Stanley Kubrick era um diretor iluminado, capaz de criar obras marcantes e inesquecíveis como esta.

 

Texto publicado em 30 de Novembro de 2009 por Roberto Siqueira

MAD MAX (1979)

(Mad Max) 

 

Videoteca do Beto #20

Dirigido por George Miller.

Elenco: Mel Gibson, Joanne Samuel, Hugh Keays-Byrne, Steve Bisley, Tim Burns, Roger Ward, Lisa Aldenhoven, David Bracks, Bertrand Cadart, David Cameron, Max Fairchild e Sheila Florence. 

Roteiro: George Miller e James McCausland. 

Produção: Byron Kennedy. 

 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um pequeno orçamento de 400 mil dólares foi o responsável pela estréia de duas importantes carreiras no cinema mundial, além de gravar na história do cinema o nome desta aventura futurista com um ar decadente, que se tornou cult com o passar dos anos. Mad Max é um filme cheio de adrenalina, com uma densa carga dramática e personagens interessantes. O mundo cruel dominado por gangues retratado no longa serve de pano de fundo para as sensacionais cenas de perseguição na estrada, que se tornaram famosas ao longo dos anos e inspiraram duas continuações (o bom Mad Max 2: A caçada continua e o fraco Mad Max 3: Além da cúpula do trovão).

Num futuro caótico, o mundo foi dominado por gangues que vivem à procura de gasolina. Após o jovem e talentoso policial Max Rockatansky (Mel Gibson) matar acidentalmente um integrante de uma perigosa gangue, sua família e seu melhor amigo Goose (Steve Bisley) passam a ser perseguidos e as conseqüências trágicas desta perseguição despertam o pior dos sentimentos em Max, a vingança.

George Miller abusou da criatividade para realizar Mad Max. Como o orçamento do filme era extremamente limitado, muitos carros e motos foram remendados e reutilizados o que, somado às roupas nada convencionais das gangues, contribuiu para criar um visual diferente e atraente. O diretor acertou ao manter o ritmo ágil da narrativa, sem muitos floreios, utilizando criativos planos cheios de estilo nas cenas de perseguição – com a câmera no nível do asfalto, na frente de motos e carros, nos olhos de Max, entre outros – que aumentam ainda mais a alta carga de adrenalina. Em muitas destas cenas, Miller utiliza uma quantidade menor de frames (quadros por segundo) para dar uma sensação maior de velocidade, como na cena em que Max passa pelos motoqueiros e os joga da ponte. Nesta cena, aliás, ele alterna da alta velocidade para a câmera lenta durante a queda dos motoqueiros, mostrando em detalhes o impacto do choque. O diretor também utiliza a câmera para aumentar o suspense, como no plano onde vemos uma mão no tronco da árvore enquanto Jessie caminha até a praia. Toda esta tensa seqüência, desde a praia até a volta pra casa, passando por pombos, um cachorro morto e pelo deficiente Benno (Max Fairchild), culmina com a fuga de carro de Jessie (Joanne Samuel, em atuação que não compromete) e May (Sheila Florence) para a estrada, onde a tragédia se consumará. E nesta cena, que é a de maior impacto no espectador, Miller nos poupa ao mostrar um plano subjetivo, com a bola e o tênis do bebê na estrada indicando o resultado trágico. E se o resultado já seria trágico naturalmente, soa ainda mais dolorido porque o bom roteiro do próprio George Miller, auxiliado por James McCausland, acerta ao nos envolver no relacionamento cheio de amor e carinho de Max e Jessie. O impacto do drama vivido por Max após o ataque à sua família é maior justamente porque sentimos simpatia pelo casal. Também direto e sem muitos rodeios, o roteiro funciona perfeitamente, pecando apenas no terceiro ato, que é curto demais. Culpa também da montagem de Cliff Hayes e Tony Paterson, que por outro lado, acerta em cheio nas cenas de perseguição na estrada, criando seqüências de tirar o fôlego. A direção de fotografia de David Eggby explora ao máximo a beleza das estradas australianas e cria um visual quente e seco, aproveitando o maravilhoso brilho do sol naquele país. Finalizando a parte técnica, merece destaque a qualidade do som, principalmente na estrada com o barulho das motos e dos carros, e da trilha sonora de Brian May, rápida, alucinada e perfeita para aquele mundo.

O ataque ao jovem casal na estrada mostra o perigo que aquela gangue de motoqueiros representa. Malucos e arruaceiros, estes nômades não tem piedade de ninguém. A insanidade do grupo fica ainda mais evidente na cena em que Jessie vai comprar sorvete, quando todos partem como animais que cercam a presa para cima da moça, até que ela se aproveita do interesse do líder da gangue para se livrar dele e escapar. O próximo encontro entre eles só confirma a crueldade destes vilões. E mesmo que quisessem mudar este comportamento não poderiam, como fica evidente quando um dos motoqueiros se recusa a matar Goose da forma que seu líder queria, mas é obrigado a fazê-lo para evitar ser assassinado por eles. Por outro lado, as fracas interpretações de praticamente todos os atores do grupo prejudicam o tom ameaçador da gangue, que poderia soar muito mais perigosa e assustadora. O visual dos bandidos é muito mais assustador que eles próprios.

Para que “Mad Max” realmente funcionasse, seria necessário um personagem principal carismático, e Miller acertou em cheio na escolha. Desde sua excelente introdução (o diretor cria um suspense para lentamente revelar seu rosto, mostrando inicialmente as botas, óculos e luvas pretas) nos identificamos com Max, um policial destemido que não foge do choque e provoca a morte do até então temível “Dark Knight”. Vivido com competência por Mel Gibson, Max é uma pessoa simples, apaixonada pelo que faz, e que ama sua família. O ator é talentoso ao transmitir esta paixão de Max pela esposa, como podemos observar na bela cena em que, deitado na grama com Jessie, tenta dizer o quanto à ama usando como exemplo sua dificuldade em demonstrar afeto pelo falecido pai quando ainda era criança. Por outro lado, Max é também uma pessoa destemida e que gosta da adrenalina da estrada. Seu diálogo com Fifi Macafee (Roger Ward) deixa claro que ele está começando a gostar daquilo tudo e, se continuar nesta profissão, ficará tão louco quanto os baderneiros motoqueiros. Esta perigosa mistura de paixão e loucura o torna uma bomba relógio, pronta pra explodir caso algo aconteça às pessoas que ama. E a tragédia acontece, transformando Max no pior dos inimigos para aquela gangue, aquele que não tem mais nada a perder. O plano em que Max olha fixamente para a máscara do monstro é bastante simbólico, já que agora, sem a mulher, o filho e seu melhor amigo, ele se tornou o próprio monstro.

 

 

 

 

 

 

Além das excelentes cenas de perseguição que são um prato cheio para quem gosta de carros, colabora para o sucesso do filme (e o status de cult alcançado ao logo dos anos) o árido e sujo mundo futurista criado pela boa Direção de Arte de Jon Dowding (“Velocidade é só uma questão de dinheiro. Quão rápido você pode ir?” é a interessante frase de uma borracharia). Mais importante ainda são os excêntricos figurinos dos motoqueiros criados por Clare Griffin. Os figurinos, aliás, também tem função dramática no filme, pois indicam o estado psicológico de Max. Inicialmente, ele se veste muitas vezes de branco, colocando o preto somente pra trabalhar. Mas depois da morte de sua família, Max não abandona o preto, refletindo a escuridão que tomou conta de sua vida. E até mesmo o carro de perseguição colabora. Inicialmente utilizando o Interceptor amarelo, Max muda para o carro completamente preto na seqüência final. E aqui, Gibson também é competente ao retratar com o olhar a angústia, fúria e sede de vingança de Max.

Vingança, aliás, é o tema principal de “Mad Max”. O filme utiliza a vingança pessoal do policial como pano de fundo para as sensacionais cenas de perseguição. E mesmo que esta violência “justificada” não seja algo que eu, racionalmente, considere correto, é inegável que julgar a reação de Max ao enorme sofrimento que sentia seria leviano e hipócrita. Desta forma, ele parte sem medir conseqüências em busca da vingança, e o espectador torce por ele. Vale notar também como o modo cruel que Max faz sua última vítima inspirou um filme recente de bastante sucesso, com a sugestão de utilizar a serra como forma de escapar da morte.

O visual criativo e original se tornou um clássico com o passar dos anos, assim como as cenas em alta velocidade. Repleto de adrenalina, com um personagem carismático e cenas de perseguição de tirar o fôlego, “Max Mad” é um exemplo de que mesmo com orçamento baixo é possível fazer bons filmes, desde que se tenha talento para isto. Felizmente, este é o caso da dupla George Miller e Mel Gibson.

 

Texto publicado em 28 de Novembro de 2009 por Roberto Siqueira

ALIEN – O OITAVO PASSAGEIRO (1979)

(Alien)

 

Videoteca do Beto #19

Dirigido por Ridley Scott.

Elenco: Sigourney Weaver, Tom Skerritt, Veronica Cartwright, Harry Dean Stanton, John Hurt, Yaphet Kotto, Ian Holm e Eddie Powell (O Alien).

Roteiro: Dan O’Bannon, baseado em estória de Ronald Shusett e Dan O’Bannon.

Produção: Gordon Carroll, David Giler e Walter Hill.

 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Verdadeira máquina de assustar o espectador, “Alien – O Oitavo Passageiro” é uma ficção científica com alta carga de tensão e suspense, que deixa o espectador se sentindo encurralado praticamente o tempo inteiro, além de provocar a sensação contínua de que algo poderá surgir repentinamente na tela. Ridley Scott dirige este bom filme, que apresenta um terror mais psicológico que visual e conta com uma incrível capacidade de nos deixar grudados na cadeira o tempo todo, provocando sustos de forma magistral.

Ao retornar para a Terra, uma nave espacial recebe estranhos sinais vindos de um asteróide e seus tripulantes decidem investigar o local. Durante a investigação, um dos tripulantes é atacado por um estranho ser que, ao entrar na nave, passa a aterrorizar toda a tripulação. Parte da capacidade de “Alien – O Oitavo Passageiro” de provocar sustos vem do fato de não existir no elenco um grande astro da época. Todos os atores eram praticamente desconhecidos, e por isso, as pessoas não sabiam quem seria o próximo a ser atacado pela criatura, sequer imaginando quem iria sobreviver (normalmente, o astro sobrevive). Hoje em dia, com as inúmeras continuações de “Alien” com Sigourney Weaver, é fácil saber quem sobrevive neste primeiro filme, o que não impede o espectador de admirar o resultado alcançado. Basta, para isso, entender o contexto da época.

Ridley Scott demonstra seu talento na construção de visuais deslumbrantes, criando cenas de grande impacto, como o incrível ninho repleto de ovos alienígenas. Detalhista, nos ambienta em toda a nave logo no travelling inicial, o que permite notar também o bom trabalho de Direção de Arte de Roger Christian e Leslie Dilley, capaz de criar uma nave extremamente detalhada e assombrosa. Com um visual confuso e obscuro, repleta de corredores apertados que dão uma sensação de claustrofobia, a nave lembra muito uma casa mal assombrada. Scott também utiliza a câmera para aumentar o suspense, como no plano em que o Alien some do rosto de Kane (John Hurt), onde a câmera, no nível do chão, nos dá a sensação de que o Alien vai aparecer na tela a qualquer momento. Quando aparece, o susto é grande, também pela composição visual da cena, em que o espectador consegue vê-lo, mas a personagem não. Scott cria ainda duas cenas de extremo impacto. A morte de Dallas (Tom Skerritt) é de tirar qualquer um da poltrona e a famosa cena do nascimento do Alien é absolutamente chocante e inesquecível.

Quando o grupo decide pousar no asteróide para descobrir a origem do sinal, já sabemos que a decisão tomada é errada. O aviso no sistema de que aquilo não era um pedido de ajuda serve apenas como dica do que irá acontecer. Quando o embrião gruda no capacete de Kane, causando o primeiro grande susto do filme, confirmamos nossa expectativa. E é difícil julgar a decisão do grupo na cena seguinte, pois, teoricamente, eles tiveram boa intenção ao tentar salvar o amigo (descobriremos mais tarde que um dos tripulantes tinha outras intenções). A atitude humana de trazer Kane pra dentro da nave acaba sendo a razão da destruição da tripulação. Como podemos notar, o bom roteiro de Dan O’Bannon, baseado em estória dele próprio e Ronald Shusett, tem erros e acertos, com cenas em que sabemos que a decisão tomada é errada se contrapondo às cenas em que realmente não seria possível prever o que aconteceria. Um exemplo negativo é a desculpa idiota criada para que o Alien, já em seu tamanho final, faça sua primeira vítima, quando um integrante do grupo sai à procura do gato para que este não volte a “atrapalhar” a busca. Por outro lado, o roteiro acerta, por exemplo, ao nos apresentar os personagens durante um descontraído café, nos aproximando deles, o que aumenta o drama quando a caçada do invasor começa. E acerta principalmente na forma como cada um dos integrantes vai sendo eliminado, com exceção de Brett (Harry Dean Stanton), sem nos dar qualquer pista do que vai acontecer.

O relacionamento do grupo, aliás, mostra detalhes importantes da narrativa. Em certo momento, Ripley (Sigourney Weaver) deixa claro que não confia em Ash (Ian Holm), dizendo claramente para Dallas o seu pensamento. Ela já havia demonstrado, de forma sutil, que não gostava dele, quando Ash e Dallas entram na sala em que o Alien sumiu (ela diz “Cuidado Dallas!”, sem sequer citar o nome de Ash). Por outro lado, Dallas deixa claro que qualquer decisão científica é responsabilidade de Ash, o que demonstra seu respeito à hierarquia. Interessante notar também que ao dizer para Brett “isto aqui é que é trabalho”, Parker (Yaphet Kotto) evidencia um conflito comum em qualquer ambiente profissional, colocando em choque o trabalho físico e o mental. E se todos estes conflitos parecem realistas e nos aproximam dos personagens é devido à boa atuação de todo o elenco, com destaque para a transformação de Ripley ao longo do filme, tornando-se a líder do grupo na caça ao Alien. O comovente choro de Lambert (Veronica Cartwright) quando seus parceiros começam a ser assassinados também merece destaque. Um último exemplo do ótimo desempenho coletivo é a tensa cena da morte de Dallas, com todos tensos e desesperados narrando pelo rádio à chegada do Alien.

A tensão carregada em cada tomada conta com a enorme contribuição da Direção de Fotografia de Derek Vanlint. Inicialmente azulada e escura, refletindo a solidão daquele grupo a tanto tempo no espaço, se torna gradativamente colorida e alucinada, destacando o amarelo, vermelho e azul, na medida em que o Alien começa a perseguir a tripulação. Encurralados, eles tentam enfrentá-lo, mas acabam sendo caçados um a um, chegando ao clímax na fantástica perseguição do monstro a Ripley, em corredores apertados e cheios de luzes piscando que remetem ao pior dos pesadelos. A competente trilha sonora de Jerry Goldsmith, tensa e acelerada, colabora para esta sensação, assim como o som diegético na seqüência dentro do Shuttle, onde apenas a respiração dela pode ser ouvida. Pra finalizar, é obrigatório destacar os excelentes efeitos visuais, como podemos notar principalmente na cena do nascimento do Alien, e, obviamente, em seu visual final assustador, mais parecido com uma máquina do que com um ser vivo. Como diz determinado personagem, o Alien é um organismo perfeito, o que o torna ainda mais temível.

A revelação das intenções de Ash (manter o alienígena vivo) e, posteriormente, de que ele é um robô, provoca um choque na platéia e uma interessante reviravolta na narrativa. A ironia evidente traça um paralelo com o criativo método de criação do Alien. O inimigo do grupo estava dentro da nave, assim como o inimigo de Kane estava dentro dele. Ambos, de certa forma, foram incubados pelas suas próprias vítimas. Além disso, o robô Ash pode servir como uma crítica a cientistas que, por muitas vezes, colocam o resultado de uma pesquisa acima da própria vida humana.

A seqüência final de “Alien – O Oitavo Passageiro” fecha o longa com chave de ouro, com a realista contagem regressiva em que Ripley não consegue desativar a destruição da nave, seguida pela tensa seqüência no Shuttle. Construída de forma lenta, não permite que o espectador desgrude os olhos da tela por um segundo sequer. Do segundo ato em diante, Alien é um filme tenso, que praticamente não permite um minuto de relaxamento. Mérito da grande direção de Ridley Scott que cria, a partir do bom roteiro, um clima papável de suspense e terror, levando o espectador a realmente temer pelo destino dos personagens, o que é sempre louvável em filmes do gênero.

 

Texto publicado em 26 de Novembro de 2009 por Roberto Siqueira

TEMPOS MODERNOS (1936)

(Modern Times) 

 

 

Filmes em Geral #20

Filmes Comentados #11 (Comentários transformados em crítica em 22 de Outubro de 2010)

Dirigido por Charles Chaplin.

Elenco: Charles Chaplin, Paulette Goddard, Henry Bergman, Tiny Sandford, Chester Conklin, Hank Mann, Stanley Blystone, Al Ernest Garcia, Cecil Reynolds, Mira McKinney, Murdock McQuarrie e Richard Alexander. 

Roteiro: Charles Chaplin.

Produção: Charles Chaplin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

“Tempos Modernos” é uma fábula maravilhosa sobre a dificuldade de adaptação de uma pessoa racional e genial ao mundo mecânico e engessado das indústrias. Certamente é a crítica mais ácida de Chaplin ao capitalismo, feita de forma inteligente e bem humorada, mas sempre buscando demonstrar a visão de seu realizador a respeito da industrialização.

Um operário de uma linha de produção (Chaplin) é levado à loucura pela rotina frenética de seu trabalho, sendo internado num sanatório após uma crise nervosa. Desempregado, ela passa a tentar sobreviver num mundo caótico, onde uma crise generalizada, provocada pela falta de empregos, o leva a ser preso equivocadamente ao se misturar com um grupo que protestava nas ruas. Ao mesmo tempo, a jovem Ellen (Paulette Goddard), que roubava comida para matar a fome, tem seu pai assassinado e passa a viver vagando pela cidade, onde se encontrará com o operário. Juntos, eles tentarão encontrar um novo caminho para suas vidas.

Quando realizou “Tempos Modernos”, Chaplin ainda resistia à idéia de utilizar a fala, mas já abria espaço para o uso do som, ainda que em boa parte do filme este esteja restrito às máquinas e objetos, como uma tela onde podemos ouvir a voz do presidente, a porta que serve para atingir os bandidos ou o rádio da delegacia. Somente no final do longa é que Chaplin dá voz pela primeira vez ao seu querido vagabundo, o que indicava o caminho que ele seguiria dali em diante e, em contrapartida, apontava para o fim, cada vez mais próximo, deste marcante personagem em sua carreira. Com roteiro escrito pelo próprio Chaplin, o filme mostra de forma competente os problemas causados pelo desemprego, com grupos se formando para protestar e multidões na porta das empresas à procura de uma oportunidade. A importância de ter um trabalho para sobreviver no feroz mundo capitalista aparece novamente na cena em que um homem sai para trabalhar e sua esposa vem se despedir com um largo sorriso no rosto, contrastando com a pobreza do vagabundo e da órfã que estão sentados na grama em frente a casa. Outro problema causado pelo desemprego é a fome, que levou Ellen a roubar e ser presa, assim como levou o ex-companheiro de fábrica de Carlitos a roubar uma loja. Como podemos perceber, Chaplin não hesita em criticar duramente o capitalismo e à industrialização, que em nada valoriza o ser humano e visa somente o lucro para as grandes empresas. Finalmente, o roteiro não deixa de incluir os problemas com guardas e as cenas em que Carlitos mata sua fome, dois temas que sempre estiveram presentes nos filmes dele. Vale destacar também o curioso momento em que o presidente da empresa aparece montando um quebra cabeça e lendo jornal, enquanto os empregados trabalham arduamente o dia inteiro, confirmando as sutilezas com subtexto crítico costumeiras de Chaplin.

Responsável até mesmo pela alegre trilha sonora, Chaplin conduz a narrativa com segurança, mantendo um ritmo ágil através de sua direção e da montagem dinâmica, fazendo com que o espectador esteja sempre atento ao que se passa na tela. Sua tradicional montagem semântica aparece novamente aqui, intercalando imagens de ovelhas entrando aglomeradas no curral e de trabalhadores se amontoando na entrada da fábrica, ilustrando que o empregado não é tão diferente dos animais, tendo que seguir ordens e rotinas. Observe ainda como uma ovelha negra se destaca no meio das outras, simbolizando o personagem do vagabundo, que simplesmente não aceita o modo de vida imposto pela urbanização e industrialização e, portanto, é diferente dos demais. Chaplin faz ainda uma bela transição quando Ellen dança na rua e, em seguida, aparece vestida para dançar no salão.

Como dito, o vagabundo (assim como Chaplin) não se adapta facilmente ao mundo moderno e industrializado em que vive, o que o leva a se sentir melhor na prisão do que no mundo lá fora, onde as oportunidades eram escassas. Por isso, quando tem a chance, Carlitos aproveita para tirar uma casquinha dos policiais e matar sua fome sem pagar um centavo pela comida, o que resulta em seu retorno imediato para a prisão. É como se ele dissesse: “Eu quero comer, mas não tenho dinheiro, pois não me deram emprego. Portanto, pague você pra mim”. Os trabalhos de ajudante de mecânico e de auxiliar na construção de um navio servem para confirmar que o vagabundo, por mais que se esforce, não consegue se adaptar a nova realidade – e de quebra, ainda rendem duas cenas muito engraçadas. Em sua derradeira tentativa, ele tenta se ajeitar como garçom, mas sua atrapalhada (e engraçadíssima!) entrega de um pato assado para um cliente mostra que definitivamente ele não funciona como empregado. E se todas estas frustradas tentativas de se adaptar soam reais, é porque mais uma vez Chaplin confirma o seu talento como ator, provocando o riso e a emoção simplesmente através de suas expressões, sem necessitar das palavras. Já Paulette Goddard tem uma atuação bastante exagerada, algo justificável pela época em que o filme foi lançado e por ser um filme mudo, onde as expressões faciais têm um peso maior na representação.

Como é de se esperar num filme de Chaplin, o longa é repleto de gags visuais sensacionais, como a cena na linha de produção, em que Carlitos claramente satiriza a “revolucionária” forma de trabalhar que consagrou Taylor e Ford ao mostrar como uma simples coceira ou mosquito eram suficientes para atrapalhar todo o processo, ou quando ele sai na rua para apertar os botões da roupa de uma senhora que passava em frente à fábrica. Outro momento memorável é a engraçada cena da curiosa máquina auto-alimentadora, que também serve como crítica à produção em série, mostrando que por mais que inventem novas tecnologias, isto sempre se refletirá em mais trabalho para o homem comum. E é curioso notar como até hoje este raciocínio continua perfeito, já que por mais que tenham surgido diversas tecnologias capazes de acelerar nossa comunicação e até mesmo nossos métodos de produção, jamais o tempo de trabalho foi reduzido, resultando somente em pessoas cada vez mais atarefadas e conectadas o tempo inteiro ao seu ambiente de trabalho, seja através de celulares, de computadores ou de aparelhos como o Blackberry. Além da citada cena na linha de produção, outras duas merecem grande destaque. Aquela em que o vagabundo entra pela primeira vez na prisão, come o “pó proibido” e fica doido, culminando com o momento em que salva os guardas da cadeia de bandidos que vieram resgatar um preso. A outra cena é a casa imaginada por Chaplin e a Ellen, onde eles tiram o leite da vaca para beber, numa clara crítica à industrialização. É como se Chaplin quisesse dizer que ele não precisa de nada que estas fábricas produzem, apanhando frutas no pé e tirando leite da vaca para sobreviver. Já a famosa cena em que o vagabundo se move por dentro da máquina representa visualmente a integração homem-máquina, servindo também para ilustrar como o homem poderia ser engolido pelas máquinas neste ambicioso mundo das indústrias. Mas Carlitos não se entregaria fácil ao capitalismo e o surto de loucura do vagabundo serve também para que Chaplin se vingue das máquinas, destruindo-as e atacando a todos com seu óleo lubrificante. Finalmente, merece destaque a seqüência do conserto da máquina em que Carlitos auxilia o mecânico e a casa que Ellen consegue para viver com o vagabundo, que, como ela diz, não era exatamente o “palácio de Buckingham”.

Chegamos então ao momento histórico em que pela primeira vez foi possível ouvir a voz de um dos personagens mais icônicos da sétima arte. A dança final do vagabundo de Chaplin, improvisando a letra da música (inventando literalmente as palavras), é sensacional e confirma o enorme talento deste gênio da história do cinema. Comprova também que seu personagem se adaptava somente num único lugar neste novo mundo da industrialização: o palco. Ou seja, somente onde a imaginação e a criatividade são valorizadas é que ele era feliz, e não onde as pessoas são apenas peças de uma engrenagem maior que serve para dar lucro a alguns poucos escolhidos.

Divertido e inteligente, “Tempos Modernos” utiliza o humor para mostrar a visão de Chaplin sobre uma mudança na sociedade que resultou no mundo complicado que temos hoje. Percebe-se que desde aquela época alguém já alertava como a ganância, a luta por um lucro sempre crescente e a produção em série sem responsabilidade social e ambiental poderiam resultar num mundo pior. E resultou mesmo.

PS: Comentários divulgados em 23 de Novembro de 2009 e transformados em crítica em 22 de Outubro de 2010.

Texto atualizado em 22 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

BUTCH CASSIDY (1969)

(Butch Cassidy and the Sundance Kid) 

 

Videoteca do Beto #17

Dirigido por George Roy Hill.

Elenco: Paul Newman, Robert Redford, Katharine Ross, Strother Martin, Henry Jones, Jeff Corey, George Furth, Cloris Leachman, Ted Cassidy, Kenneth Mars e Donelly Rhodes. 

Roteiro: William Goldman.

Produção: John Foreman.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Extremamente alegre e divertido, a história da simpática e entrosada dupla de famosos bandidos do velho oeste norte-americano conquista pela leveza e inteligência que é contada. Recheada de diálogos deliciosos e cenas memoráveis, conta também com uma atuação marcante da dupla principal, além das belíssimas imagens captadas com competência pela câmera de George Roy Hill.

Butch Cassidy (Paul Newman) e Sundance Kid (Robert Redford) são dois amigos inseparáveis que lideram o Bando do Buraco na Parede e vivem de assaltar trens e bancos. Após escapar da perseguição implacável de um grupo formado pelo dono de uma poderosa companhia de trens, decidem mudar-se para a Bolívia, acompanhados de Etta (Katharine Ross), a namorada de Sundance. Quando chegam ao país sul-americano, descobrem que a vida não será tão fácil como imaginavam.

Logo na introdução dos personagens, durante um jogo de cartas no bar, percebemos o quanto a dupla de ladrões é respeitada no velho oeste, quando somente ao ouvir o nome de um deles, o adversário, durão até então, muda completamente de idéia e permite que a dupla leve o dinheiro. Esta cena, aliás, conclui a bela seqüência inicial do filme, feita com imagens antigas, em tom sépia, ocupando somente a metade esquerda da tela, enquanto os créditos são apresentados no lado direito. As imagens velhas e o som ao fundo dão à sensação de estar vendo um arquivo, como se fosse um jornal relatando os roubos de trem da gangue do buraco na parede. Em seguida, a fotografia (Direção de Conrad L. Hall) muda sutilmente para imagens coloridas, explorando ao máximo as lindas paisagens da região. Não são poucas as cenas em que salta aos olhos a beleza natural do local, como nas cachoeiras ou na fuga a cavalo da dupla. Mas não são apenas as paisagens que mostram a qualidade da boa direção de George Roy Hill. Observe como ele também faz interessantes movimentos de câmera, como no travelling que vai desde o Xerife (Jeff Corey) discursando para as pessoas sobre os assaltos do grupo até chegar ao ponto de vista de Butch e Sundance numa sacada, bem próxima dali. Posteriormente, vamos descobrir que o xerife e a dupla tem uma relação mais próxima do que imaginamos. Quando a dupla está de partida para a Bolívia, Hill cria um plano em close da bicicleta abandonada, simbolizando o fim da alegria na vida deles. Aquela bicicleta marcou um momento extremamente alegre do trio e agora é o gancho para uma mudança radical, demonstrada através de outro vídeo em tom sépia, desta vez com fotografias que aparentam antigas, embaladas por outra música ao fundo, mostrando o que aconteceu no período da viagem.

A citada cena da bicicleta nos apresenta também a linda canção “Raindrops Keep Fallin’ on My Head”, tão leve e deliciosa quanto o filme. Este momento em particular mostra como o cinema pode alcançar momentos únicos, com a mistura de imagens e som criando cenas de uma beleza magnífica na tela. Vemos os raios do sol passando entre o vão da madeira e a dupla Butch e Etta andando de bicicleta, num momento de extrema felicidade, que é praticamente palpável ao espectador. A trilha sonora, aliás, é um ponto de destaque no longa, pontuando momentos da narrativa. Além da bela canção, observe como no vídeo montado com fotos durante a viagem para a Bolívia a trilha inicia alegre e depois altera para um tom melancólico, indicando que o trio jamais voltaria a ser feliz como antes. Em outro momento, durante um assalto de Etta e Kid a um banco boliviano, a trilha acompanha exatamente o ritmo da cena, tornando-a ainda mais bem humorada. O filme, aliás, tem um humor refinado e bastante agradável, que casou muito bem com a simpática dupla de ladrões, facilitando a empatia com o público. Como exemplo de cenas divertidas, podemos citar aquela em que Woodcock (George Furth) não quer abrir o trem, o “tenso” primeiro encontro entre Kid e Etta, a hilária chegada à Bolívia e os problemas que Butch e Sundance enfrentam com o idioma espanhol.

É claro que para que tudo isto tivesse sucesso, seria necessária uma dupla de atores de talento. E felizmente este é o caso. Paul Newman está muito bem como o extremamente simpático Butch e Robert Redford é o parceiro perfeito, como o cínico Sundance. O entrosamento dos dois é essencial para o sucesso do longa. Juntos, formaram uma dupla graciosa e cativante. São muitas as cenas memoráveis, como o rosto de raiva de Redford antes de pular no rio, mostrando que ele, mesmo contrariado, seguia as idéias do amigo ou o engraçado momento em que demonstra com clareza sua surpresa e revolta ao descobrir que Butch não sabe falar espanhol tão bem quanto dizia. Finalmente, Katharine Ross interpreta com muito charme a apaixonada Etta, que larga sua profissão e sua vida pra trás para seguir os passos de Sundance, com a condição de não testemunhar a morte do amado. Quando decide voltar para os Estados Unidos, é por perceber que, por não conseguir largar aquela vida, a dupla está próxima de seu fim. As boas atuações do elenco deram ainda mais vida ao bom roteiro de William Goldman, repleto de diálogos maravilhosos e divertidos. Observe a franca conversa entre Butch e Woodcock, no segundo roubo de trem da Union Pacific. Os dois sabem que cada um está defendendo o seu lado e tratam a questão da forma mais direta possível, numa situação inusitada em se tratando de um assalto. Quando tentam escapar do grupo que os persegue implacavelmente, fugindo em um único cavalo e enviando o outro para despistá-los, Butch pergunta: “E se eles não seguirem o cavalo?”, e Kid responde: “Você é o cérebro Butch, vai pensar em algo”, demonstrando que Kid era habilidoso com a arma na mão, mas pouco se importava em utilizar o cérebro, deixando tudo com Cassidy. Outros trechos interessantes e divertidos que podemos citar são: “Se Hermann me pagasse o que ele gasta para me fazer parar de roubar, eu parava de roubar!”, “Quem sou eu, Smith ou Jones?”, dita na porta de um banco boliviano e a pergunta do general do exército boliviano indignado: “Dois homens??”, claramente espantado, já que o efetivo que trouxe era suficiente para uma guerra.

A discussão da dupla encurralada, cheia de brincadeiras irônicas, que acontece após o sensacional tiroteio contra os bolivianos, nos leva ao triste e coerente final. Os românticos e divertidos bandidos falam até com certa inocência de ir para a Austrália depois que saírem dali, mas no fundo já sabiam que aquele era o último momento deles. O elegante plano final nos poupa de ver o que o som nos indica e a cativante dupla de bandidos chega ao fim. Recheado de bom humor e com muito da áurea leve de sua época, “Butch Cassidy” é um western diferente, divertido e bastante agradável de assistir. Suas belas imagens, o delicioso roteiro e a talentosa dupla formada por Paul Newman e Robert Redford fazem deste filme uma maravilhosa experiência, conseguindo tornar graciosa a vida de dois bandidos e mostrando que o velho oeste tem mesmo um charme indiscutível na tela do cinema.

Texto publicado em 19 de Novembro de 2009 por Roberto Siqueira

TAXI DRIVER (1976)

(Taxi Driver) 

 

 

Videoteca do Beto #16

Dirigido por Martin Scorsese.

Elenco: Robert De Niro, Jodie Foster, Cybill Sheperd, Harvey Keitel, Albert Brooks, Leonard Harris, Peter Boyle, Norman Matlock, Diahnne Abbott e Martin Scorsese. 

Roteiro: Paul Schrader. 

Produção: Julia Phillips e Michael Phillips.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O homem solitário de Deus. A solidão nas grandes metrópoles, por mais paradoxal que possa parecer, é mesmo um mal comum. Mesmo com tantas pessoas em volta, por muitas vezes podemos nos sentir deslocados e sozinhos nestas enormes selvas de pedra, como é o caso de Nova York, São Paulo e tantas outras cidades. Em 1975, ano de produção deste maravilhoso “Taxi Driver”, esta sensação já existia, ainda mais em uma Nova York suja e repleta de viciados, criminosos e prostitutas. Logo no primeiro plano – um close no olhar do solitário taxista, seguido por imagens das ruas de Nova York – a obra-prima dirigida por Martin Scorsese mostra de forma sutil que o efeito daquele ambiente na mente desta pessoa será o fio condutor da narrativa.

O veterano de guerra do Vietnã Travis Bickle (Robert De Niro) decide se tornar taxista para ocupar seu tempo, já que não consegue dormir. Após se apaixonar pela bela Betsy (Cybill Sheperd), que trabalha na campanha política de um senador candidato à presidência, conhece a jovem Iris (Jodie Foster) a quem aconselha largar a prostituição e o cafetão Sport (Harvey Keitel) e retornar para a casa de seus pais. O problema é que durante este processo, Travis lentamente se revolta com o que vê à sua volta.

Scorsese gravou seu nome na história do cinema com esta direção impecável. O diretor abusa de planos criativos (a frente, o capô e o retrovisor do taxi, as ruas molhadas) sem medo de arriscar, conseguindo sucesso absoluto na firme condução da narrativa e utilizando os movimentos de câmera para traduzir sentimentos dos personagens. Repare, por exemplo, como o interessante plano do copo borbulhando pode ser considerado uma metáfora para o momento em que começam a borbulhar também idéias na cabeça de Travis. Outro exemplo é a seqüência de foras que Betsy dá no taxista por telefone, nos deixando em uma situação desconfortável. O movimento da câmera, que faz um travelling para a direita e mostra o corredor vazio enquanto ouvimos Travis, demonstra visualmente nosso embaraço com a situação. O diretor simboliza o que o espectador pensa no momento, como se dissemos: “Não quero mais ver isso…”.

O bom roteiro de Paul Schrader trabalha nos detalhes para demonstrar o sentimento crescente de revolta em Travis (“Só se é saudável quando se sente saudável”), além de fornecer a base para as ótimas atuações do elenco. A montagem de Thelma Schoonmaker abusa do estilo, como na caminhada de Travis após conseguir o emprego ou quando repete três vezes seguidas um semáforo verde, demonstrando a rotina que o sufoca e atenua sua solidão (os mesmos lugares, os mesmos problemas). Finalmente, temos transições que significam muito, como o salto do plano de Iris e Sport dançando para Travis treinando tiro ao alvo, demonstrando visualmente o embate que ocorreria depois entre os dois homens. A trilha sonora clássica de Bernard Herrmann tem muito da cara de Nova York e funciona bem como tema do solitário taxista. Na cena da chacina, por exemplo, o tema de Travis é corretamente alterado para um tom mais sombrio. O apartamento bagunçado, com a parede suja e decorado com panfletos de Palantine, diz muito sobre a personalidade atormentada de Travis, mostrando o bom trabalho de Direção de Arte de Charles Rosen. Finalmente, a fotografia granulada (Direção de Michael Chapman) reflete a mente conturbada dele, destacando o festival de cores e luzes da noite de Nova York. Chapman é sábio também ao destacar, por exemplo, a cor vermelha na dança entre Iris e Sport, refletindo a vida infernal da garota ali dentro.

Além da competente direção, Taxi Driver conta também com uma atuação antológica de Robert De Niro. Encarnando com perfeição o taxista solitário, ele é competente ao transmitir o aumento lento e gradual da revolta no personagem. Em seu primeiro diálogo, quando consegue o emprego de taxista, responde as perguntas com um sorriso debochado no rosto, pois a alegria ainda estava presente em sua vida. Travis, porém, é alguém com enorme dificuldade para conviver em sociedade, como podemos perceber no diálogo com a atendente do cinema pornográfico. Ele não sabe seguir as “regras” criadas para se comportar em público, chegando a ser ingênuo. Mas uma pequena esperança floresce quando conhece a bela Betsy. Seu modo direto de falar encanta a garota, que topa sair com ele (De Niro faz um gesto com o braço quando diz que vai protegê-la). Quando Betsy, por razões óbvias, o abandona na porta do cinema pornô, a desilusão se torna o estopim de sua eminente revolta (“Ei, imundos, aqui tem alguém que não agüenta mais. Sou um revoltado!”), já sinalizada anteriormente. Observe, por exemplo, como ele encara um viciado na rua sem piscar os olhos, mostrando seu desprezo por aquele mundo sujo e sua enorme vontade de tomar uma atitude (quando pôde, não hesitou em matar um assaltante). Também demonstra, em um diálogo com seu amigo taxista, que está se sentindo deprimido, tentando contar seus planos (“Estou tendo algumas idéias ruins”), mas o amigo não entende o que ele quer dizer, até mesmo pela sua enorme dificuldade em se expressar. Quando finalmente decide agir (a queima das flores simboliza sua decisão de eliminar de sua vida tudo que lhe incomoda), seu primeiro alvo é o senador, com quem teve uma conversa em seu taxi, causando espanto pela sua franqueza. É então que Travis compra quatro armas, entre elas a Magnum 44 citada por um passageiro (Scorsese, fazendo uma ponta na cena em que ameaça matar a mulher, em frente ao apartamento do amante), decide fazer musculação e não comer mais comidas “ruins”. Essa virada radical na vida simboliza também que ele está determinado a agir (“O germe de uma idéia está crescendo em mim”). O momento sublime da atuação de De Niro acontece aqui, na sensacional cena em que fala sozinho a famosa frase “Está falando comigo?”. Repare como ele olha pra trás quando fala “estou sozinho aqui”, mudando a feição e dando a sensação de que realmente está falando com alguém. Em seguida, Travis diz que descobriu “o único objetivo de sua vida”, e Scorsese, de forma inteligente, corta para o discurso de Palantine, dando a dica de sua intenção de matar o candidato. Na conversa com o agente do Serviço Secreto, De Niro para de falar enquanto dois rapazes passam, e seu sorriso sarcástico faz o homem se preocupar. A bela cena em que olha fixo para a televisão, com uma música triste ao fundo, simboliza muito bem sua solidão. Ao destruí-la, o taxista sinaliza que está enlouquecendo com aquelas idéias na cabeça. Finalmente, quando fala pela primeira vez com Sport, seu olhar fixo para o cafetão nos faz pressentir qual é sua vontade naquele momento (“É a pior escória do mundo”, diz para Iris). O problema com Betsy, a convivência com Iris e sua vivência nos guetos de Nova York criam um sentimento paranóico, dando um nó na cabeça de Travis.

Completando o elenco, podemos destacar Cybill Sheperd, como a bela Betsy. Repare como ela olha pra baixo quando Travis diz que “é a mulher mais linda que ele conheceu na vida”. Seu sorriso incontido e seu brilho no olhar demonstram sua satisfação ao ouvir aquilo. Betsy, porém, não consegue compreender Travis e, com razão, fica indignada ao sair do cinema, enquanto Travis não entende a ofensa que aquilo significa pra ela. Jodie Foster está muito bem como a garota revoltada que vende o corpo, solta, sorrindo e fazendo brincadeiras, em seu diálogo com Travis no café. Em sua primeira aparição, somos ambientados ao mundo sujo em que vive (repare que Travis guarda os 20 dólares amassados, mostrando a importância que a garota teve pra ele desde aquele momento). Harvey Keitel interpreta o cafetão que explora todas aquelas garotas e que curiosamente demonstra algum carinho por Iris quando dança com ela no quarto. Mesmo assim, não hesita em vender o corpo dela, como podemos observar em sua conversa com Travis.

Quando hesita em aceitar o convite de Iris para tomar café, podemos pensar que é efeito do trauma do último encontro com Betsy, mas na verdade Travis já tinha outro plano para o dia seguinte (matar o presidente). Ele não tinha intenções amorosas com Iris, como fica claro quando vai com a garota para o quarto apenas para conversar. O que Travis queria era tirá-la daquele lugar que ele tanto odiava. De Niro expõe a raiva de Travis ao pagar o homem na porta do quarto, dizendo que “voltará com certeza”. Mas apesar de sua atitude final, a conversa com Iris no café demonstra que Travis era uma boa pessoa.

O grande clímax do filme vai sendo construído lentamente. Observe como Scorsese gasta alguns segundos antes de finalmente mostrar o taxista com cabelo moicano, simbolizando sua mudança de atitude. A tensa seqüência em que tenta assassinar Palantine, sem sucesso, mostra que a diferença entre um herói e um monstro muitas vezes pode ser bem pequena. Se tivesse conseguido seu objetivo, Travis seria retratado perante a sociedade como um assassino cruel e lunático, e não como o herói que se transformou após “salvar” Iris. Quando o vemos em casa agitado e, posteriormente, saindo com o taxi sem parar pra ninguém, sabemos que está decidido a resolver seus “problemas”. Após a impressionante e realista seqüência em que mata Sport e entra atirando no prédio, Scorsese faz um excelente travelling, com a cena congelada, desde o quarto onde Travis termina sua chacina, passando pelos mortos e armas, até chegar à barulhenta rua cheia de pessoas curiosas. Este refinado visual do filme é fantástico e colabora para o impacto causado em nossas mentes.

Scorsese acertou em cheio neste maravilhoso estudo da solidão e do isolamento, nos oferecendo uma direção impecável, recheado com atuações maravilhosas e imagens de grande impacto. Taxi Driver se aprofunda na complicada questão do deslocamento social com sucesso absoluto. Diversas pessoas já se sentiram desta forma na vida (eu inclusive) e ao ver a emocionante história do taxista solitário na tela é inevitável a nossa identificação. O mecanismo da solidão é simples, porém perigoso. Gostamos do que não podemos ter, e não gostamos de nada que temos. Desta forma, a pessoa jamais está satisfeita, e a solidão funciona como um escudo, uma proteção contra tudo aquilo que julga estar errado. Todos nós temos momentos em que chegamos perto do nosso limite. A grande questão é como lidar com este sentimento. Travis escolheu a forma mais perigosa e por sorte saiu-se bem.

 

Texto publicado em 18 de Novembro de 2009 por Roberto Siqueira

AS VINHAS DA IRA (1940)

(The Grapes of Wrath)

 

 

Filmes em Geral #69

Filmes Comentados #10 (Comentários transformados em crítica em 10 de Agosto de 2011)

Dirigido por John Ford.

Elenco: Henry Fonda, Jane Darwell, John Carradine, Charley Grapewin, Dorris Bowdon, Russell Simpson, O.Z. Whitehead, John Qualen, Eddie Quillan, Zeffrie Tilbury, Frank Sully, Frank Darien, Darryl Hickman e Shirley Mills.

Roteiro: Nunnally Johnson, baseado em livro de John Steinbeck.

Produção: Darryl F. Zanuck.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A crise provocada pela grande depressão nos Estados Unidos é o pano de fundo para este “As Vinhas da Ira”, obra-prima humanista dirigida por John Ford, que escancara diversos problemas sociais provocados pela ganância de alguns numa época bastante difícil. Com um visual esplêndido, excelentes atuações e uma narrativa envolvente, o longa é acima de tudo um grito de liberdade de um povo sufocado pela opressão do sistema capitalista.

Tom Joad (Henry Fonda) volta para casa em liberdade condicional e encontra seu lar abandonado. Ao lado do pregador Casy (John Carradine), ele vai até a casa de seu tio John (Frank Darien) e descobre que sua família está sendo desabrigada por empresas que detém a propriedade daquelas terras. Sem ter onde ficar, eles partem para a Califórnia, empolgados com as promessas de emprego e de uma nova vida, mas a dura realidade era bem diferente do que eles imaginavam.

Escrito por Nunnally Johnson, baseado em livro de John Steinbeck, “As Vinhas da Ira” trata de um tema delicado com extrema sensibilidade enquanto acompanha a trajetória sofrida de migração de uma família simples do interior dos Estados Unidos. Acostumadas a um estilo de vida que a urbanização não permitiria existir mais, estas pessoas são forçadas a tentar a vida na cidade grande, numa mudança conturbada que só aumentará os problemas sociais do país, inchando ainda mais as metrópoles, já sem espaço para as pessoas que vivem lá. Por outro lado, como podemos esperar que estas pessoas fiquem num local sem oportunidades, tomado por grandes empresas que irão explorar aqueles que se aventurarem a ficar por lá? Como podemos perceber, os problemas gerados pelo sistema capitalista e, principalmente, pela ganância de alguns já ganhava espaço em 1940 e perdura até hoje. A urbanização e a evolução trouxeram mudanças drásticas na vida daquelas pessoas e infelizmente, ampliaram a pobreza e a miséria – e ainda bem que alguns cineastas, como Ford e Chaplin, tinham coragem de criticar este sistema já naqueles tempos.

Ford exalta o “amor a terra” logo no início da narrativa, quando um emocionado Muley (John Qualen) chora enquanto agarra a terra no chão (“Nasci aqui e vou morrer aqui!”, esbraveja). O diretor mostra também o outro lado da moeda, evidenciando os problemas causados pela migração quando um grupo de pessoas para o caminhão da família Joad e impede que eles entrem em determinada região, já repleta de pessoas famintas e desesperadas. Amontoados num caminhão caindo aos pedaços, a família Joad sofre durante praticamente toda a viagem, e a trilha sonora triste e melancólica simboliza a tristeza de quem teve que deixar a terra que ama. Nem todos agüentam o tranco e outra melodia triste surge para acompanhar o enterro do vovô, numa cena simples e comovente em que Ford demonstra toda sua sensibilidade. E o próprio caminhão simboliza a bagunça que aquela família estava vivendo longe de sua terra, num belo trabalho de direção de arte de Richard Day e Mark-Lee Kirk, que se destaca ainda no miserável acampamento que recebe os desabrigados na Califórnia.

Belos também são os movimentos de câmera de Ford, como aquele que inicia na família de Muley, passa pela casa destruída e, em seguida, corta para a sombra da família na terra, simbolizando que agora eles eram apenas sombra do que já foram um dia. Além disso, o diretor explora muito bem as longas planícies e plantações, sempre com a marcante linha do horizonte ao fundo, comprovando seu talento na composição de planos belíssimos. A bela direção de fotografia do ótimo Gregg Toland auxilia neste processo, especialmente durante a viagem da família. Além disso, a escolha do preto e branco reforça o tom melancólico da narrativa e ressalta a vida sofrida da família Joad. Repare ainda como quando Tom retorna pra casa, a fotografia sombria afunda o personagem nas sombras enquanto ele descobre o que aconteceu com seus vizinhos e familiares – e aqui vale destacar a atuação marcante de John Qualen como Muley, nos comovendo ao demonstrar sua paixão pela terra natal. Este clima sombrio é reforçado pela montagem de Robert L. Simpson, que utiliza alguns fades para fazer a transição das cenas, escurecendo completamente a tela por alguns segundos (o que hoje soa deselegante, mas na época não). Além disso, Simpson e Ford seguem uma linha narrativa clássica e, com exceção de um pequeno flashback no início, linear, em que a montagem jamais chama a atenção para si, numa decupagem cuidadosa que mostra apenas o que é necessário para o andamento da trama.

O curioso termo “cats” utilizado para os tratores Caterpillar que derrubam as casas não surge por acaso. Ele personifica uma empresa e a faz parecer algo palpável. Só que uma empresa não é uma pessoa e, portanto, não pode ser ameaçada (“Em quem nós atiramos?”, pergunta o filho de Muley). Naquele instante, as corporações passavam a dominar o cenário – e as terras que até então passavam de geração para geração – e ninguém podia fazer nada a respeito. E a situação só piorava. Tom começa a perceber isto quando um homem conta sobre sua experiência na cidade, onde as 800 vagas prometidas eram disputadas por milhares de pessoas, deixando muitos desempregados – e o momento em que ele fala sobre a morte dos filhos é tocante, revelando também a desonestidade do médico que apontou outra causa para a morte, evitando que as estatísticas de mortes por “fome” aumentassem. A fome também é o tema central de outra cena belíssima dentro de uma venda na beira da estrada, quando o dono (e depois a garçonete) percebe que a família está passando fome e vende os pães e doces por preços menores. Aliás, o rosto das crianças com fome, seja na venda ou no acampamento, é de cortar o coração de qualquer um.

Cativante e complexo desde sua introdução, quando revela seu passado criminoso e temperamento explosivo, o Tom Joad de Henry Fonda aprende lentamente a lidar com aquela situação, percebendo que o poder sempre esteve nas mãos do próprio povo. Esta mudança gradual é notável nas frases ácidas que demonstram o sentimento que crescia dentro dele, como quando diz que “o governo tem mais interesse pelos mortos do que pelos vivos” no enterro do avô. Ator talentoso e carismático, Fonda se destaca em diversos momentos, como quando reencontra sua mãe, partindo emocionado para abraçá-la (e o close de Ford em seu rosto realça sua bela atuação). Mas seu rosto aparentemente inofensivo esconde uma pessoa prestes a se revoltar contra tudo, como podemos notar quando ele responde rispidamente que seu nome “ainda” era Joad, após ser questionado diversas vezes num acampamento. “Não é preciso coragem se você não tem escolha”, diz para um policial antes de cruzar o deserto. O pior inimigo é aquele que não tem mais nada a perder e Tom estava nesta situação. Por isso, seu lado mais primitivo surge quando vê um homem atingir seu amigo Casy e ele volta a matar. Desesperado, se esconde nos braços da amada mãe, numa cena em que a simples visão da porta 63 abrindo e fechando, o som da sirene ao fundo e a posição da câmera de Ford – que não mostra o que se aproxima do local – criam muita tensão.

Além de Fonda, quem também dá um show é Jane Darwell como a mãe de Tom, emocionando a platéia com sutileza, como quando queima os objetos da família antes de partir. Sua conversa com o filho no final é uma linda cena, que simboliza o desmoronamento da família e, por outro lado, mostra o nascimento de um cidadão disposto a lutar por seus direitos e se opor a opressiva política das empresas capitalistas. Repare como ela olha para o horizonte com os olhos marejados, sabendo que seu filho estava partindo para, provavelmente, nunca mais voltar. Ela sabe que quando ele diz pensar em Casy, está deixando claro que lutará até o fim pela nova causa, assim como fez seu amigo – e as palavras de Tom (“Estarei em todo lugar…”) são marcantes e belíssimas, coroando a grande atuação de Fonda. Diretos e realistas, mãe e filho são muito parecidos, mas este jeito seco não os impede de amar um ao outro. Ao ouvir Ma Joad dizer que “Não somos do tipo que beija, mas…” e ver o abraço apertado deles, o espectador precisa segurar as lágrimas.

No restante do excelente elenco, merece destaque a atuação de Charley Grapewin como o vovô, especialmente quando ele se revolta antes de deixar sua casa. “Essa é a minha terra. Não é boa, mas é minha”, diz ele, numa excelente frase que sintetiza o quanto viver em sua própria terra era importante para aquelas pessoas. Também vale ressaltar a atuação de John Carradine como Casy, que se sai bem desde a primeira conversa com Tom e, principalmente, quando explica para o amigo o motivo da greve, momentos antes de morrer. A frase final “Nós viveremos para sempre, porque nós somos o povo!” deixa uma mensagem otimista, de que o povo, ainda que seja explorado, jamais deixará de existir (afinal, eles precisam do povo, não?). Seria interessante também que jamais deixasse de lutar por seus direitos.

“As Vinhas da Ira” é uma forte crítica ao sistema que tomou conta dos EUA depois da grande depressão, onde empregadores exploravam empregados, se aproveitando da situação para pagar salários insignificantes. De maneira tocante, John Ford entrega um filme humanista, melancólico e reflexivo, atingindo o coração do espectador. É preciso muita falta de sensibilidade para não se comover com a luta daquelas pessoas e não se revoltar com as atitudes dos mais favorecidos. A grande pergunta que fica é: depois de tantos anos, será que esta situação mudou?

PS: Comentários divulgados em 17 de Novembro de 2009 e transformados em crítica em 10 de Agosto de 2011.

Texto atualizado em 10 de Agosto de 2011 por Roberto Siqueira

FRANKENSTEIN DE MARY SHELLEY (1994)

(Mary Shelley’s Frankenstein)

 

Filmes em Geral #90

Filmes Comentados #9 (Comentários transformados em crítica em 17 de Outubro de 2012)

Dirigido Kenneth Branagh.

Elenco: Kenneth Branagh, Robert De Niro, Helena Bonham Carter, Ian Holm, Tom Hulce, Aidan Quinn, Richard Briers, John Cleese, Robert Hardy, Cherie Lunghi, Celia Imrie, Trevyn McDowell e Gerard Horan.

Roteiro: Steph Lady e Frank Darabont, baseado em livro de Mary Shelley.

Produção: Francis Ford Coppola, James V. Hart e John Veitch.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Extremamente criticado na época de seu lançamento, “Frankenstein de Mary Shelley” apresenta tantas qualidades que transforma o esforço para compreender sua má recepção numa tarefa inútil. Muito mais interessante é explorar a abordagem fiel de Branagh, as excelente atuações do elenco e a profundidade dramática do longa que, contando ainda com um visual arrebatador, se confirma como uma das melhores adaptações da obra de Mary Shelley.

Escrito por Steph Lady e Frank Darabont (que dirigiria a obra-prima “Um Sonho de Liberdade” naquele mesmo ano), “Frankenstein de Mary Shelley” chama a atenção desde sua excelente introdução, quando uma marcante voz narra o texto inicial da obra de Shelley. Através de um longo flashback que tem inicio no encontro casual entre Victor Frankenstein (Kenneth Branagh) e um determinado e inconsequente explorador no polo Ártico (Aidan Quinn), o filme narra à história do promissor médico que busca encontrar uma forma de trazer pessoas que já morreram de volta à vida, motivado especialmente pela morte precoce de sua mãe (Cherie Lunghi). Após conhecer o inteligente professor Walderman (John Cleese), seus experimentos finalmente funcionam e ele dá vida a uma Criatura (Robert De Niro) feita a partir dos restos mortais de um assassino e do cérebro de seu falecido mentor.

Além de desenvolver a narrativa e os personagens de maneira consistente, o elegante roteiro apresenta diversos diálogos interessantes, começando por aquele em que o capitão Walton de Aidan Quinn diz para Victor que deseja entrar para a história da humanidade e recebe uma resposta cheia de ressentimento: “Eu, mais do que ninguém, sei que você está errado”. Outro diálogo marcante acontece dentro de uma caverna gelada, quando a Criatura questiona Victor e nos leva a refletir sobre a situação: afinal, quem é o verdadeiro monstro? Incluindo ainda diversas menções ao nome de Deus para ilustrar a força da religião naquele período, o roteiro aborda com competência a questão do abandono, da falta de afeto, amor e carinho, mostrando também como as pessoas tendem a olhar para o exterior e não para o interior de seus semelhantes, numa atitude cruel capaz de destruir a autoestima de qualquer ser humano.

Auxiliado pela montagem dinâmica de Andrew Marcus, Branagh narra fatos importantes da história de maneira econômica, ganhando tempo para explorar seu melhor personagem, que é a Criatura interpretada por De Niro, assim como lhe permite dar mais foco à fase de estudos e experimentos que ressalta a obsessão de Victor. Juntos, diretor e montador abusam do virtuosismo técnico em momentos interessantes como o raccord que salta de Victor e Elizabeth brincando com água para o plano em que eles soltam pipa ou aquele em que Victor corta a corda do corpo enforcado do assassino e, em seguida, vemos um copo descendo na mesa de uma taverna como se continuasse o movimento de queda do cadáver. Ainda nos detalhes técnicos, chama a atenção como a trilha sonora de Patrick Doyle pontua muito bem as cenas, surgindo na maior parte do tempo para indicar momentos importantes, como quando a música triunfal acompanha a entrada de Victor no local onde ele dará vida à Criatura, acertando também no melancólico tema que embala a relação entre Victor e Elizabeth, que surge até mesmo na flauta da Criatura, indicando como esta interfere no relacionamento deles.

Utilizando inicialmente cores vivas, a fotografia de Roger Pratt demonstra bem a alegria de Victor até o momento em que perde sua mãe, criando um contraste marcante em sua obscura passagem por Inglostadt, que reflete sua mente conturbada e obstinada naquele instante, ressaltada inclusive pela bagunça generalizada do caótico local, repleto de objetos espalhados por todos os lados (design de produção de Tim Harvey). Branagh conta também com os figurinos coloridos e ricos em detalhes de James Acheson e com a decoração perfeita dos ambientes para dar um visual espetacular ao longa, escorregando apenas em alguns efeitos visuais, como na cena do monte em que os raios que caem sobre eles soam pouco verossímeis. Por outro lado, o diretor realça com sutileza momentos de importância narrativa, como quando o sapo testado por Victor quebra o vidro e indica a força que a nova criatura terá.

Demonstrando grande habilidade na direção, Branagh é responsável pela criação de inúmeros planos marcantes, como aquele que diminui o Barão Frankenstein (Ian Holm) na enorme escada azul logo após o trágico parto, indicando o quanto ele estava arrasado, o impressionante plano geral que acompanha a cruel morte de Justine (Trevyn McDowell) ou os planos belíssimos que exploram a beleza da região enquanto a Criatura caminha na neve. Observe ainda como o professor Krempe (Robert Hardy) é filmado por baixo de forma que fique imponente na sala durante a aula até o instante em que é questionado por Victor, quando a câmera inverte o eixo e o diminuí na cena, simbolizando que Frankenstein não respeita sua visão e quer ir além. Aliás, os movimentos de câmera tem grande importância na narrativa, algo ressaltado pelo simbolismo dos contra-plongès (filmado por baixo) que simbolizam a vida no nascimento da Criatura e de sua “Noiva” e dos plongès (filmado por cima) que simbolizam a morte do professor, do garoto Willie e de Elizabeth, numa lógica perfeita que demonstra o equilíbrio de maneira coerente na cena do parto, onde uma morte e um nascimento acontecem simultaneamente e a câmera se mantém no mesmo nível. Finalmente, Branagh confere energia à excelente sequência do nascimento da criatura, incluindo até mesmo uma referencia ao clássico da Universal de 1931 (“Está vivo! Está vivo!”).

Mas se tem grande destaque atrás das câmeras, na frente delas Branagh tem uma atuação apenas razoável, escancarando sua origem teatral ao exagerar nas expressões faciais, saindo-se bem apenas em raros momentos como quando Victor tenta convencer Elizabeth a ficar. Supostamente demonstrando grande apego à família, Victor lentamente revela-se um ser egoísta, que pensa somente em seu benefício sem levar em consideração as consequências de seus atos – o que o leva, por exemplo, a dizer “Graças a Deus” quando é informado que os recém-nascidos estão morrendo diante de uma epidemia, pensando apenas na Criatura e esquecendo-se das centenas de mães que choram naquele instante. Aliás, a própria obstinação de Victor em trazer os mortos de volta a vida revela um egoísmo profundo, já que este ato busca essencialmente a “sua” felicidade, esquecendo-se do que aquilo poderia provocar naqueles que já se foram – e neste sentido, a sequência em que Elizabeth é ressuscitada é crucial para compreender o mal que ele fez. Aliás, auxiliada pela excepcional maquiagem que torna as criaturas mais realistas, Helena Bonham Carter se sai muito bem nos poucos minutos em cena como a noiva de Frankenstein, convencendo e demonstrando em seu rosto expressivo a dor da personagem ao descobrir o que Victor tinha feito com ela.

Entretanto, o grande destaque do elenco fica mesmo para Robert De Niro, que surge inicialmente como o assassino do professor, o que é apropriado para dar credibilidade à Criatura que surgirá em seguida. Numa interpretação tocante, ele demonstra sensibilidade e raiva em proporções cavalares, destacando-se em diversos momentos como quando ajuda uma família de camponeses e recebe uma placa e uma flor como agradecimento, demonstrando uma alegria genuína capaz de nos levar as lágrimas. Aliás, toda esta sequência da família na floresta é linda e bastante simbólica, resumindo a mensagem do filme com precisão. Criando um ser ambíguo que, como ele mesmo diz, carrega amor e ódio em medidas iguais, De Niro cria um anti-herói que, mesmo cometendo atos insanos (como matar uma criança e incriminar a tia dela), consegue conquistar a empatia da plateia. Obviamente, o fato da Criatura já surgir indefesa, com as pessoas tentando agredi-la sob a alegação de que ela é a responsável pela terrível doença que assola a cidade, colabora bastante – e o plano em que a criatura se mistura aos mortos é muito simbólico, já que ele jamais deixa de ser uma espécie de morto-vivo, não por falta de humanismo, mas pela forma como é recebido pelos “seres humanos”.

Em certo momento, a Criatura afirma que “pela compaixão de um único ser humano, faria as pazes com todos”, nos levando a uma interessante reflexão. Porque não aceitamos aqueles que não entendemos ou que julgamos diferentes? O choro diante da morte de Victor e a frase “ele nunca me deu um nome” demonstram a dor e o ressentimento da Criatura diante da rejeição paterna. Já sua última e impactante frase, “Eu abandonei a humanidade”, demonstra seu ressentimento com toda a raça humana. Ele viu que as pessoas não seriam capazes de aceitá-lo. Nem o seu criador o fez.

Outras críticas interessantes sobre o filme você pode encontrar nos links abaixo:

– Análise completa por Pablo Villaça.

– Crítica de Alexandre Rivaben.

PS: Comentários divulgados em 03 de Novembro de 2009 e transformados em crítica em 17 de Outubro de 2012.

Texto atualizado em 17 de Outubro de 2012 por Roberto Siqueira