DE OLHOS BEM FECHADOS (1999)

(Eyes Wide Shut)

5 Estrelas 

 

Videoteca do Beto #226

Dirigido por Stanley Kubrick.

Elenco: Tom Cruise, Nicole Kidman, Sydney Pollack, Todd Field, Leelee Sobieski, Madison Eginton, Alan Cumming, Jackie Sawiris, Vinessa Shaw, Christiane Kubrick e Leon Vitali.

Roteiro: Stanley Kubrick e Frederic Raphael, com base em livro de Arthur Schnitzler.

Produção: Stanley Kubrick.

De olhos bem fechados[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Último filme do genial Stanley Kubrick, “De olhos bem fechados” dividiu público e crítica na época do seu lançamento. Com uma atmosfera perturbadora, narrativa lenta e, como de costume na filmografia do diretor, abrindo diversas possibilidades de interpretação, o longa parece um tanto difícil, especialmente por abordar temas polêmicos e, principalmente, por sugerir uma sensualidade e erotismo que jamais chegam a se concretizar. Por isso, a sensação provocada no espectador que cria expectativa é de frustração, mas o fato é que mais uma vez Kubrick entregou uma obra complexa, instigante e repleta de simbolismos, que permite debates acalorados sobre os temas levantados em suas duas horas e meia de projeção.

Baseado no livro de Arthur Schnitzler, Kubrick desenvolveu o roteiro ao lado de Frederic Raphael, acumulando ainda a produção e, obviamente, a direção do longa. Como de costume, ele aproveita o material de origem para levantar questões complexas através de decisões sutis que nem sempre são perceptíveis ao grande público. Assim, cabe ao espectador interpretar algumas cenas para desenvolver sua linha de raciocínio – o que é sempre ótimo. Basicamente, “De olhos bem fechados” nos apresenta ao casal formado pela curadora de arte Alice (Nicole Kidman) e pelo médico Bill Harford (Tom Cruise) momentos antes de uma festa de gala promovida pelo milionário Victor Ziegler (Sydney Pollack). Durante a festa, ambos flertam com pessoas desconhecidas, o que leva a uma discussão acalorada no dia seguinte, na qual ela confessa ter sentido atração por outro homem no passado. À partir daí, Bill parte numa jornada por um mundo desconhecido e simultaneamente fascinante e assustador.

Logo na primeira cena, vemos a bela Alice se despindo de costas para a câmera até que, logo após ela ficar completamente nua, a tela escureça completamente, num enquadramento que simula um olhar curioso e, justamente por isso, coloca o espectador na posição de voyeur – o que, além de indicar um dos temas do filme, ainda funciona como o primeiro momento em que o erotismo é interrompido. Somada a olhada rápida dela para o espelho na única cena em que troca carícias com o marido, esta sequência inicial é essencial para compreender uma das chaves da narrativa – ou ao menos explicar uma linha de raciocínio possível. Mais pra frente, a revelação do sonho envolvendo pessoas a observando numa orgia reforça a ideia do voyeurismo e de quebra levanta a probabilidade dela ao menos ter curiosidade pelo tema, ainda que possa ser apenas um desejo sexual e nada mais. Esta complexa relação entre sonho e realidade, entre desejo e rotina, será o ponto central de “De olhos bem fechados”.

O tema dos desejos frustrados surge já na festa inicial, regada a champanhe e frequentada pela alta sociedade, na qual Alice e Bill flertam com pretendentes, chegam ao limite, mas jamais concretizam a traição. Os tons dourados que dominam a festa e as roupas elegantes escolhidas pela figurinista Marit Allen criam um cenário repleto de pompa que surge como o contraponto ideal para a sequência vindoura que Bill viveria, numa espécie de transposição do desejo carnal não realizado para o local onde ele poderia se concretizar, também numa festa da alta sociedade, mas agora distante das formalidades daquela que abre o filme. Secretamente, a elite podia se despir (sem trocadilhos) das convenções sociais e mergulhar nos mais primitivos desejos. Enquanto na festa inicial as pessoas falam, falam e quase nunca concretizam seus desejos, no ritual secreto as palavras mal são pronunciadas, deixando espaço apenas para o corpo agir em busca de seu prazer.

Alice se despindoAlice e Bill flertam com pretendentesCenário repleto de pompa

Adotando uma estrutura narrativa quase investigativa, Kubrick mantem o espectador grudado na tela enquanto acompanha Bill sendo sugado por aquele mundo misterioso, nos deixando tão curiosos, fascinados e assustados quanto ele. Assim, se no primeiro dia temos a sensação de estarmos descobrindo um universo novo através dos olhos dele, no dia seguinte, quando ele passa pelos mesmos lugares, acompanhamos seu acerto de contas com a surreal noite anterior compartilhando os mesmos questionamentos do personagem. Empregando movimentos de câmera suaves e elegantes, Kubrick cria uma atmosfera de pesadelo, reforçada pelos diálogos lentos e pela montagem de Nigel Galt, que cria uma narrativa episódica, conduzida sem pressa alguma pelo diretor. Ainda assim, as principais características da carreira de Kubrick estão presentes. Os enquadramentos perfeitos, as imagens impactantes e até mesmo o uso do plano-sequência, que aqui surge rapidamente antes da entrada de Bill no apartamento de um paciente falecido no qual será beijado pela filha dele e, com maior duração, no passeio pela orgia secreta que abordaremos em mais detalhes em instantes.

Sempre exigente na direção de atores, Kubrick extrai mais uma vez atuações marcantes, com destaque entre o elenco secundário para a jovem Leelee Sobieski na surreal cena dentro de uma loja de fantasias, na qual sua presença quase hipnótica como a filha do dono rouba nossa atenção sem que ela precise dizer quase nenhuma palavra. Sydney Pollack também convence como o rico amigo de Bill que o convida para a festa e Todd Field tem importante participação como o pianista que introduz Bill aquele mundo secreto.

Demonstrando coragem para surgir nua muitas vezes, Nicole Kidman tem uma boa atuação como Alice, ganhando destaque especialmente nas discussões com o marido e até mesmo na cena em que eles dois surgem drogados (criticada por alguns) que, apesar de algum exagero, convence. No diálogo mais importante do filme, Kidman demonstra muito bem o ressentimento de Alice com a visão de mundo do marido, questionando tabus e convenções sociais extremamente machistas ao afirmar que a mulher tem tantos desejos quanto o homem, escancarando que às vezes elas são mais comedidas apenas em função das limitações impostas pela sociedade. E aqui, vale observar como o tom azulado atrás dela já indica a melancolia que tomará conta da personagem após a revelação, enquanto o vermelho que domina o cenário atrás de Bill indica o caminho da paixão carnal e do “pecado” que ele irá seguir a partir dali. Após fumar maconha e abordar um assunto delicado que traz à tona segredos bem guardados, a tensão toma conta da narrativa enquanto Alice revela seus pensamentos eróticos, especialmente pela boa performance dos atores e pelos closes de Kubrick que ampliam esta tensão.

Presença quase hipnóticaTom azulado atrás delaVermelho atrás de Bill

No entanto, a boa performance de Kidman é superada pela atuação memorável de Cruise. Com mais tempo de tela e a responsabilidade de carregar a narrativa, o ator demonstra bem os conflitos de Bill e a aflição dele ao caminhar por um terreno desconhecido e lidar com o misto de curiosidade e medo diante daquilo tudo. Atormentado sempre que pensa na esposa com outro, algo reforçado pelo uso do preto e branco que simboliza sua angústia, ele decide partir em busca dos próprios desejos sufocados pela rotina da vida conjugal, mas sempre hesitante diante da culpa que, talvez inconscientemente, não deixa ele concretizar a traição – ao menos não sexualmente, já que ele tem um beijo roubado em certo momento. Curioso também é notar como ele não hesita em usar o fato de ser médico para conseguir o que quer, numa falta de ética que, por outro lado, reforça a necessidade de lembrar sua verdadeira identidade diante daquele universo que estava descobrindo.

Após a revelação da esposa, o predomínio de tons escuros, a roupa preta de Bill e a noite conferem um clima mais pesado à narrativa, reforçado pelo uso da música clássica – outra marca da carreira de Kubrick, aliás. E então, após a conversa com seu amigo pianista num bar, somos levados a sequência mais misteriosa de “De olhos bem fechados”, repleta de simbolismos e cercada de mistério. Trabalhando em riqueza de detalhes como só um perfeccionista como Kubrick poderia fazer, o diretor cria uma atmosfera incrivelmente misteriosa nos instantes prévios à festa secreta, nos levando para dentro do ambiente com a mesma sensação de aflição e ansiedade do protagonista. A extraordinária trilha sonora de Jocelyn Pook começa a martelar em nossa cabeça (especialmente a música “Backwards Priest”, executada no sentido inverso como nos rituais de magia negra) enquanto vemos Bill descobrindo aqueles corpos cobertos de roupas pretas, as máscaras venezianas e o líder vestido de vermelho no centro daquele ritual ocultista ocorrido dentro do antigo palácio Mentmore Towers – que, não por acaso, ficou marcado justamente pelas orgias em festas mascaradas da elite na vida real. Enfeitado com adereços que criam o clima perfeito para o ritual (design de produção de Les Tomkins e Roy Walker), o ambiente se torna ainda mais impactante pela iluminação magistral do diretor de fotografia Larry Smith, que realça o círculo central onde as belas jovens serão despidas antes de seguirem com seus parceiros para os outros cômodos do local.

Pensa na esposa com outroPredomínio de tons escuros, a roupa preta de Bill e a noiteRitual

As palavras da música pronunciadas ao contrário confirmam a intenção de soar como algo profano e o som das batidas do cajado no chão, reforçado pelo silêncio das pessoas, aumentam a sensação de aflição no espectador, criando a atmosfera de pesadelo defendida por algumas linhas de interpretação do filme. Para completar, a trilha sonora exótica que acompanha os travellings pelo salão repleto de pessoas transando e o mistério reforçado pelo uso das máscaras provocam um estranhamento que se mistura a curiosidade tanto do protagonista quanto do espectador. Da mesma forma, seu julgamento após ser descoberto provoca a mesma agonia na plateia, numa cena em que a tensão palpável quase salta da tela, tamanha a competência da direção de Kubrick.

Mas se tecnicamente “De olhos bem fechados” é perfeito, tematicamente o longa é ainda mais complexo, especialmente pelos simbolismos espalhados por Kubrick por toda a narrativa. Enquanto os espelhos funcionam como uma válvula para Alice enxergar quem ela verdadeiramente é, o arco-íris, que surge primeiro nas palavras das belas jovens que cortejam Bill e depois na fachada da loja de fantasias, representa a passagem da terra para o céu, a caminhada de Bill do lado de cá para o lado de lá, onde, segundo as jovens, seus desejos se realizariam. Some a isso todos os símbolos ocultos que permeiam o ritual da elite e temos um prato cheio para diversas interpretações.

No entanto, o fato é que o prazer sempre é interrompido na narrativa, evidenciando um dos temas centrais de “De olhos bem fechados”, que é o citado conflito entre a realidade e o sonho, o desejo carnal e as fantasias eróticas em contraposição à rotina da vida conjugal. Seria possível viver uma relação sem dar vazão às próprias fantasias ou este sufocamento leva as pessoas a imaginarem e sentirem desejos incontroláveis fora dali? Tudo que ocorre naquela noite é envolto em um ar de mistério. Por isso, até o diálogo revelador com o amigo Victor que parece solucionar o enigma na realidade também permite diversas leituras. Apesar de fazer todo sentido, não necessariamente precisamos acreditar naquela versão. Kubrick não quer entregar uma solução fácil e nos permite diversas interpretações, dentre elas aquela que afirma que tudo não passa de um sonho do médico – e que não descarto, apesar de não concordar totalmente com ela.

Os espelhosO arco-írisDiálogo revelador com o amigo Victor

Apesar da crise provocada pela revelação de Alice e da noite nada comum de Bill, a verdade é que nenhum deles chega de fato a transar com outra pessoa, ainda que as marcas da intenção de ambos de trair fiquem. Por isso, a conclusão da narrativa é perfeita e, curiosamente, constata um dos fatores que levou muitos dos fãs a se decepcionarem – especialmente aqueles que esperavam cenas tórridas do casal do momento na época. Após conversarem muito sobre tudo que viveram naquelas lúdicas 48 horas, Alice diz para Bill que eles precisavam urgentemente transar. Depois de tantas tentativas sem sucesso de ter algum prazer carnal, estava na hora deles resolverem este problema.

Escolhendo um casal extremamente famoso para protagonizar uma narrativa que envolve mistério, temas polêmicos e ainda questiona a rotina das relações conjugais, Kubrick não seguiu pelo caminho mais fácil e, mais uma vez, entregou uma obra capaz de levantar inúmeros questionamentos e reflexões. Assim, “De olhos bem fechados” acaba sendo a conclusão perfeita de uma carreira genial, ainda que soe melancólico justamente por marcar o fim da linha para um diretor extremamente talentoso e corajoso. Uma pena que o cinema tenha perdido Kubrick tão cedo.

De olhos bem fechados foto 2Texto publicado em 11 de Abril de 2016 por Roberto Siqueira

CLUBE DA LUTA (1999)

(Fight Club)

5 Estrelas

 

 

obra-prima 

 

Videoteca do Beto #225

Dirigido por David Fincher.

Elenco: Edward Norton, Brad Pitt, Helena Bonham Carter, Meat Loaf, Zach Grenier, Jared Leto, Eion Bailey, Rachel Singer, David Andrews, Thom Gossom Jr., Pat McNamara, Tim DeZarn, Ezra Buzzington, Peter Iacangelo, Carl Ciarfalio, Holt McCallany, Matt Winston, Richmond Arquette, George Maguire e Bob Stephenson.

Roteiro: Jim Uhls, baseado em romance de Chuck Palahniuk.

Produção: Ross Grayson Bell, Cean Chaffin e Art Linson.

Clube da Luta[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Solenemente ignorado pela Academia no Oscar com apenas uma indicação técnica, “Clube da Luta” rapidamente se tornou cult, sendo celebrado como um dos melhores filmes da década de 90. Intenso, inteligente e visceral, o longa dirigido por David Fincher provoca forte impacto no espectador, seja por sua narrativa criativa, seja pelas reflexões que provoca. No entanto, uma análise mais profunda revela que a obra-prima estrelada por Edward Norton e Brad Pitt tem muito mais a oferecer do que simplesmente uma ótima reviravolta e sangrentas cenas de luta.

Escrito por Jim Uhl, baseado em romance homônimo de Chuck Palahniuk, “Clube da Luta” acompanha o cotidiano de um investidor de seguros consumista (Edward Norton) que sofre de insônia e, para tentar se curar, passa a frequentar grupos de terapia coletiva até a chegada do subversivo Tyler Durden (Brad Pitt) transformar completamente sua vida. Juntos, eles formam um clube secreto onde homens trocam socos após seus estressantes dias de trabalho para relaxar. No entanto, o clube começa a ganhar grande proporção e passa a ter objetivos maiores.

Superficialmente, “Clube da Luta” é um excelente filme repleto de ação sobre homens que resolvem extravasar suas frustrações em clubes secretos de luta até ganhar outra dimensão após sua reviravolta narrativa, daquelas que pertencem ao seleto grupo de plot twits que nos dá vontade de rever o filme imediatamente. Entretanto, uma leitura mais profunda da mensagem nada subliminar do filme é que nos oferece seu verdadeiro tesouro – mas, ao contrário do ritmo alucinante do longa, vamos com calma.

Levando-nos através de uma curiosa viagem pelo cérebro do narrador logo em seus créditos de abertura, acompanhados pela moderna e inquietante trilha sonora dos Dust Brothers (John King e Michael Simpson), o diretor David Fincher imprime uma direção enérgica em boa parte da narrativa, ainda que inicialmente ele e seu montador James Haygood se esforcem para transmitir os efeitos angustiantes da insônia sofrida pelo protagonista. Assim, da mesma forma que o narrador, nós também nos sentimos cansados no primeiro ato e encontramos até certo alívio nos grupos de terapia coletiva, onde a câmera se torna mais estável e o ritmo menos acelerado. A montagem ágil, aliás, colabora na excitação provocada em boa parte do filme, deixando o espectador sempre ansioso pelo que verá a seguir sem jamais nos deixar confusos, contando ainda com transições ousadas como quando acompanhamos o narrador contando em detalhes o encontro de Tyler com Marla enquanto vemos as imagens do ocorrido.

Da mesma forma, a narrativa não linear jamais faz com que o espectador se perca, graças à segurança com que Fincher conduz cada sequência e à ótima estrutura do roteiro. No entanto, não é apenas na maneira como conduz o longa que Fincher se destaca. A atmosfera subversiva de “Clube da Luta” é construída meticulosamente através do excepcional trabalho de Fincher e sua equipe técnica. Assim, se o apartamento decorado com móveis de revistas de decoração representava o executivo “bem sucedido” do mundo atual, a casa praticamente abandonada e suja em que ele passa a viver após a explosão representa sua nova fase na vida, guiada pelo desapego material pregado por Durden, o que é mérito do design de produção de Alex McDowell, responsável também por criar ambientes maravilhosos como o próprio clube que dá nome ao filme.

Viagem pelo cérebro do narradorEfeitos angustiantes da insôniaApartamento decorado com móveis de revistas de decoração

Também colabora nesta transformação os figurinos de Michael Kaplan, que criam o contraste entre as roupas sóbrias que o narrador veste e as roupas coloridas e estridentes de Durden, além é claro, do visual mórbido de Marla, a amante de Durden vivida pela sempre sombria Helena Bonham Carter. Sombrio também é o visual de “Clube da Luta”, obtido através das escolhas de Fincher e seu diretor de fotografia Jeff Cronenweth, que apostam numa paleta dessaturada recheada de cores sóbrias e no uso de cenas noturnas durante quase todo o filme, criando o ambiente obscuro necessário para o surgimento de uma revolução que nasce do lado mais selvagem e degradante do ser humano – e neste sentido, a ideia de uma fábrica de sabonetes que usa a banha das próprias clientes para sobreviver é simplesmente genial. Assim, uma das raras vezes em que vemos a luz do dia fora de ambientes fechados surge justamente após o sumiço de Tyler, ilustrando o despertar inconsciente de um novo homem que não mais necessitava de seu alter ego, apesar de ainda não saber disso. O tom azulado que predomina o ato final confere uma inesperada melancolia que prepara o espectador para a forte reflexão que surgirá após os créditos finais. Apesar da excitação provocada ao longo da narrativa, Fincher não quer que o espectador saia feliz com o que viu.

Roupas coloridas e estridentes de DurdenVisual mórbido de MarlaCenas noturnas durante quase todo o filme

Representação simbólica e gráfica da volta ao estado primitivo, as lutas repletas de sangue e suor são captadas com precisão por Fincher, que, auxiliado pelo excelente design de som, nos permite sentir cada golpe como se estivéssemos lá dentro. Visualmente impactantes, os combates provocam excitação e asco em igual proporção, num efeito curioso que ocorre mesmo em pessoas pacifistas como este que vos escreve. Obviamente, a empolgação dos personagens em cena colabora intensamente para este efeito, já que jamais sentimos que eles sofrem ou correm risco nestas lutas, mesmo quando são literalmente massacrados pelos adversários, pois os combates normalmente se encerram com sorrisos e abraços entre homens que entendem aquilo como uma válvula de escape brutal diante da sociedade opressora em que vivem.

Este estilo de vida sufocante é muito bem refletido pelo narrador interpretado brilhantemente por Edward Norton. Desde o semblante abatido até a voz cansada, Norton compõe o personagem com competência, transmitindo sua falta de forças diante de tudo que o cerca e sua inabilidade para reagir ao que tanto lhe incomoda, sendo incapaz de demonstrar grandes emoções até mesmo quando seu apartamento explode (e compreenderemos isto melhor mais para frente na narrativa). Assim, a ideia da insônia também é interessante, representando muito bem o estado de espirito do personagem (“Quando se tem insônia, você nunca dorme de verdade e nunca acorda de verdade”).

Lutas repletas de sangue e suorSemblante abatido até a voz cansadaEnérgico e confiante

Diametralmente contrário a letargia do narrador, Tyler Durden representa exatamente o oposto em termos de personalidade. Enérgico, confiante e sempre pronto a desafiar o padrão estabelecido, ele representa tudo que o narrador quer ser e não consegue. Obviamente, a atuação monstruosa de Brad Pitt é vital para o sucesso da narrativa, já que ele esbanja carisma e vitalidade no papel e jamais nos faz ter dúvidas quanto às suas motivações, ainda que suas ações possam ser questionadas sob o ponto de vista ético. Dono dos discursos mais ácidos e interessantes do longa, Durden leva o narrador ao limite extremo durante os dois primeiros atos, até que simplesmente desaparece e abre espaço para a impactante revelação – muito bem conduzida por Fincher, aliás – que faz a cabeça do espectador borbulhar e dá início ao surreal terceiro ato.

“Se você acorda num tempo diferente, num lugar diferente, você pode acordar como uma pessoa diferente?”

Apesar do choque, a reviravolta de “Clube da Luta” é indicada diversas vezes na narrativa de maneira sutil, seja visualmente, seja através de frases ou momentos vividos pelo narrador (e o próprio fato dele não ter nome já é uma dica em si). Aliás, todo o primeiro ato é trabalhado cuidadosamente para criar o cenário para o surgimento de Durden. Sufocado pelo próprio estilo de vida, o narrador questiona não apenas o próprio consumismo, mas toda a sociedade que o cerca, buscando desesperadamente uma saída. Para simbolizar esta transformação gradual em seu pensamento, Fincher insere quatro flashes rápidos de Tyler até que ele finalmente entre em cena numa conversa trivial dentro de um avião – observe como as malas de ambos são idênticas. Instantes antes, a primeira aparição sem ser em flashes acontece justamente quando o narrador questiona se ao andar por tantos aeroportos e acordar em tantos lugares diferentes ele poderia acordar como uma pessoa diferente um dia – e ele acorda mesmo.

Flashes rápidos de TylerMalas de ambos são idênticasPrimeira aparição sem ser em flashes

Em outro instante, Tyler conversa com o narrador sobre seu pai e a resposta indica mais uma vez o segredo da narrativa: “Mesma história”. Além disso, outros personagens nunca dirigem a palavra aos dois ao mesmo tempo, o que revela o capricho da estrutura narrativa, nos levando a momentos como quando Marla ouve o narrador falando com Tyler e questiona: “Com quem você estava falando?”. Preste atenção ainda no instante em que o narrador fala como se fosse Tyler quando seu chefe encontra as regras do clube da luta impressas na copiadora da empresa. Durden representa o lado mais selvagem do narrador. Assim, quando a revelação vem à tona e a confusão mental se estabelece no personagem e no espectador, somos sugados por um conflito psicológico muito bem representado pelo último diálogo entre eles, no qual o protagonista simbolicamente assassina seu alter ego, numa cena surreal e muito rica em significados. Significados estes que ganham ainda mais força ao reler o filme em sua camada mais profunda.

“Trabalhamos em empregos que odiamos para comprar porcarias de que não precisamos”

Apesar de sua visceralidade e da marcante reviravolta que nos leva ao ato final, é mesmo na ácida crítica ao capitalismo e à sociedade baseada no consumo exagerado e sem controle que reside o trunfo de “Clube da Luta”. Desde a excepcional sequência em que acompanhamos como o narrador decorou seu apartamento, somos apresentados a ideia revolucionária de uma narrativa que simplesmente despreza a vida voltada para o consumo, explícita em frases como: “As coisas que você possui acabam possuindo você”. Esta revolta contra o capitalismo ganha contornos trágicos em cenas como aquela em que Tyler ameaça matar Raymond (Joon B. Kim), o atendente de uma loja de conveniências que desistiu dos sonhos para se entregar a um trabalho que não gosta, poupando a vida dele em seguida em troca da promessa de que iria começar a estudar para ingressar na área que ama.

“Clube da Luta” não teme sequer recorrer a ideias extremistas para escancarar sua mensagem, como ao deixar claro que o próprio protagonista explodiu o apartamento em que vivia para se entregar a um novo estilo de vida (“Apenas depois de perdermos tudo, estamos livres para fazer o que queremos”). Questiona também a mentira de que todos chegarão ao topo através do esforço, constatando o fato de que só alguns terão esta oportunidade e, nem sempre, por mérito (“Fomos criados através da TV para acreditar que um dia seríamos milionários”). Esta ideia subversiva é constantemente criticada por aqueles que defendem uma sociedade baseada simplesmente na ideia de consumir sempre o máximo que puder (base da economia norte-americana, aliás), mas Fincher não poupa esta fatia sociedade e nem faz concessões, mantendo frases que podem soar agressivas aos ouvidos mais consumistas, como: “Você não é seu emprego”.

Trabalhamos em empregos que odiamos para comprar porcarias de que não precisamosTyler ameaça matar RaymondApenas depois de perdermos tudo, estamos livres para fazer o que queremos

Assim, a metralhadora giratória impiedosa de “Clube da Luta” encerra sua mensagem em planos finais simplesmente perfeitos em seu simbolismo diante desta construção narrativa primorosa, com a implosão do sistema financeiro de uma grande metrópole, numa clara mensagem contrária ao capitalismo, ao capital especulativo, ao consumismo, à nossa sociedade supérflua e ao foco nos bens materiais. Goste você ou não da mensagem, não dá para negar que o filme é extremamente competente naquilo que se propõe a fazer.

Polêmico no Brasil devido ao assassinato em massa ocorrido em São Paulo, no qual injustamente tentaram imputar culpa ao longa, “Clube da Luta” é destes casos raros de filme em que podemos extrair muito mais do que superficialmente pode parecer. Ácida, enérgica e subversiva, a obra-prima de David Fincher cativa tanto quanto seu personagem mais famoso. E diferentemente da geração criticada por Tyler por não ter peso algum na história, este certamente é um trabalho que será lembrado pela eternidade.

Clube da Luta foto 2Texto publicado em 28 de Março de 2016 por Roberto Siqueira

BELEZA AMERICANA (1999)

(American Beauty)

5 Estrelas 

 

Videoteca do Beto #224

Vencedores do Oscar #1999

Dirigido por Sam Mendes.

Elenco: Kevin Spacey, Annette Bening, Thora Birch, Wes Bentley, Mena Suvari, Chris Cooper, Peter Gallagher, Allison Janney, Scott Bakula, Sam Robards e Barry Del Sherman.

Roteiro: Alan Ball.

Produção: Bruce Cohen e Dan Jinks.

Beleza Americana[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Casas enormes e bonitas, carros modernos, verdadeiros lares de comercial de margarina. Quem não conhece algum local assim, seja nos subúrbios de classe média e alta dos EUA ou aqui mesmo no Brasil? Bom, se você imaginou que a resposta é “qualquer um”, provavelmente está distante da realidade de muitas pessoas do país. Só que, ao contrário do que os sorrisos tentam nos dizer nestes comerciais, estas famílias são compostas por seres humanos que, como qualquer outro, são repletos de problemas, com suas angústias, dúvidas e anseios e, o que é pior, muitas vezes sonhos reprimidos num estilo de vida maçante e padronizado pelo consumo exacerbado e a preocupação com as aparências. Desde o primeiro plano deste excepcional “Beleza Americana”, Sam Mendes nos faz mergulhar num destes bairros, nos convidando a olhar mais de perto tudo que ocorre ali.

Escrito por Alan Ball, “Beleza Americana” nos mostra o cotidiano da família tradicional de classe média norte-americana formada por Lester Burnham (Kevin Spacey), sua esposa Carolyn (Annette Bening) e sua filha Jane (Thora Birch), que vivem uma crise familiar oculta sob a aparência de família perfeita e que vem à tona quando o novo vizinho Ricky (Wes Bentley) e a jovem Angela (Mena Suvari) entram no convívio deles.

Quebrando uma regra narrativa logo de cara ao anunciar a morte do protagonista, “Beleza Americana” já deixa claro que veio para quebrar os padrões estabelecidos e questionar tudo que estiver ao seu alcance. No caso, seu alcance se resume a um típico bairro de classe média nos EUA, do qual nos aproximamos através de um lento zoom empregado pelo diretor Sam Mendes, numa estratégia que se repetirá ao longo da narrativa alternada com o uso do zoom out, reforçando sua intenção de nos colocar como meros observadores daquele cotidiano. Neste aspecto, Ricky assume um papel muito importante ao observar tudo através de sua câmera, numa representação interessante do nosso papel enquanto espectadores. Vivido de maneira centrada e coerente com o personagem por Wes Bentley, Ricky é o canal que o diretor utiliza para nos mostrar aquele mundo de aparências, tendo tanto no lar dos vizinhos como dentro de sua própria casa exemplos de como – com o perdão do clichê – estas aparências enganam.

Até por isso é compreensível que Ricky e Jane tenham empatia, já que ambos dividem as mesmas frustações por saberem as máscaras que escondem os problemas de suas famílias. Ainda assim, Jane resiste à sua aproximação até o momento em que ele diz, novamente escancarando a função de seu personagem: “Não estou obcecado, apenas curioso”. Interpretada como uma pessoa reclusa e até certo ponto revoltada com tudo aquilo, a Jane de Thora Birch faz uma parceria perfeita com o centrado Ricky, o que os torna o ponto de equilíbrio de um filme repleto de personagens emocionalmente instáveis.

Assumindo uma abordagem quase investigativa, Sam Mendes aproveita para criar uma atmosfera de suspense em diversos momentos, com a trilha sonora de Thomas Newman evocando este tom de mistério, alternando muito bem com a composição exótica que acompanha os pensamentos de Lester e complementando momentos muito interessantes como quando Ricky se emociona ao ver uma sacola plástica dançando no ar, demonstrando sua sensibilidade. E se os figurinos de Julie Weiss são importantes para demonstrar tanto o bom poder aquisitivo daquelas pessoas como as diferenças entre as personalidades delas (a mãe sempre com roupas de grife e a filha com seu visual dark, por exemplo), o design de produção de Naomi Shohan também é essencial para dar vida àquele ambiente, com casas muito bem decoradas e simetricamente organizadas, ilustrando a enorme preocupação com as aparências.

Típico bairro de classe média nos EUAObserva tudo através de sua câmeraRicky se emociona ao ver uma sacola plástica dançando no ar

Essencial numa narrativa que salta do cotidiano de uma família para a outra sem nos fazer perder a atenção, a montagem de Tariq Anwar e Christopher Greenbury ainda nos presenteia com momentos muito elegantes, como a sarcástica sequência de abertura em que Lester descreve seu cotidiano e a bela sequência de encerramento em que ele recorda passagens marcantes da vida. No entanto, o grande destaque da parte técnica vai para a direção de fotografia de Conrad L. Hall, que explora as cores e os dias ensolarados da vida naquele subúrbio norte-americano com precisão, mais parecendo em diversos momentos estar filmando casas de bonecas, tamanha a perfeição da simetria entre as casas e a bela iluminação do sol, numa representação da artificialidade daquilo tudo que reforça a abordagem ácida da narrativa quanto aquele estilo de vida muitas vezes vazio. Mas a fotografia não se resume a isso somente. Observe, por exemplo, como quase sempre que Lester está empolgado, temos a presença de algum objeto vermelho em cena (seu carro novo é vermelho, assim como seu carrinho de controle remoto, por exemplo), simbolizando sua excitação ao mesmo tempo que nos faz lembrar da flor que dá nome ao filme. Típica dos subúrbios norte-americanos, a American Beauty é uma flor muito bela quando vista de longe, mas ao chegarmos mais perto descobrimos que ela não tem cheiro e nem espinhos, o que explica o slogan “olhe mais de perto”, pois ao nos aproximarmos dela compreendemos sua artificialidade, assim como ocorre naqueles bairros.

Quando Lester e Angela finalmente se beijam, observe como o zoom (olha ele aí!) realça um vaso de flores vermelhas à frente do casal e, lentamente, exclui as flores do quadro e foca naquele beijo triste entre um homem marcado pela vida sufocante que levou até ali e uma moça que encontrou na superficialidade uma forma de se defender dos constantes assédios que sofria. A chuva ao fundo complementa o tom melancólico que antecede a surpreendente revelação de Angela, que tornará a personagem mais triste, sofrida e muito mais humana do que parecia até então. Aliás, repare como Conrad L. Hall e Sam Mendes abandonam os tons vivos e adotam as sombras no ato final, reforçadas pela chuva e o cair da noite, aumentando a tensão, como quando o coronel Frank (Chris Cooper) ataca o próprio filho após achar que ele era homossexual, nos deixando ainda mais oprimidos pela clausura e pela escuridão que dominam a cena.

Objeto vermelho em cenaLester e Angela finalmente se beijamCoronel ataca o próprio filho

Assim como Mena Suvari, que encarna Angela como a representação da mulher superficial que só pensa na imagem que as pessoas terão dela, o coronel Frank Fitts interpretado por Chris Cooper é o estereótipo do miliar durão que acredita na disciplina e nas regras, mas que esconde muitos segredos exatamente por não ter coragem de enfrentar o autoritarismo e se expor. Realizando exames periódicos para manter o filho “na linha”, Frank é uma figura triste, amargurada e presa a um estilo de vida imposto e no qual ele acredita ser o único meio correto de viver. E novamente como Angela, o coronel reserva uma grande revelação para o ato final, quando tenta beijar Lester e mostra que na verdade luta para sufocar seus desejos homossexuais, numa cena surpreendente, tocante e triste.

Por sua vez, Ricky aprendeu a lidar com o pai desde cedo, evitando o confronto e dizendo exatamente o que ele quer ouvir, o que talvez seja a única forma de sobreviver ao conviver com ignorantes. Já sua mãe Barbara (Allison Janney) escolheu outro caminho para conviver com um homem tão amargurado, apenas vegetando naquele ambiente, possivelmente esgotada após tantos anos tendo que se defender de um homem extremamente autoritário. Enquanto o filho prefere dizer o que o pai quer ouvir, ela simplesmente se calou e preferiu viver reclusa.

Mas não são somente os Fitts que tem problemas escondidos sob aquelas casas perfeitas. Evidenciando o distanciamento do casal nos planos que acompanham os luxuosos jantares e que colocam marido e mulher em lados opostos da mesa, Sam Mendes quer mesmo é nos mostrar a família Burnham. Verdadeiro símbolo do tipo de pessoa obcecada pelo “sucesso” (como se isso pudesse ser medido pela posição que ocupa numa empresa ou pelo dinheiro que se tem), Carolyn representa uma caricatura da mulher falsa e preocupada com as aparências e, apesar da personagem exigir uma atuação exagerada, Bening até faz um bom trabalho, ainda que soe um pouco over em alguns instantes. Irritante em sua busca pela perfeição no sentido mais pejorativo que esta palavra possa ter, ela sequer é capaz de demonstrar alegria ao ver a apresentação da filha (“Você não fez nada de errado”), tornando-se humana somente diante de seu concorrente num jantar, demonstrando a admiração que sente por ele e, mais do que isso, pelo estilo de vida dele que ela tanto deseja ter.

Figura tristeLuxuosos jantaresCaricatura da mulher falsa

Assim como sua posição na mesa de jantar, Lester se coloca no espectro oposto ao de sua esposa quando falamos de visão de mundo. Infeliz em seu escritório de trabalho cinza e sem vida, Lester – vivido com brilhantismo por Spacey – é o típico homem que se entregou às convenções da sociedade que o cerca, descartando seus sonhos em função das expectativas alheias. Assim, não é surpresa quando constatamos que ele não ouve as músicas que gosta há anos e que jamais cogitou a possibilidade de comprar o carro que amava, mesmo tendo capacidade financeira para tal. Só que a mesma mesa de jantar presenciará o instante em que tudo começa a mudar, após Lester despertar do sono profundo ao ver a amiga da filha dançando na quadra da escola. Na briga durante o jantar, Lester tira das costas todo o peso da vida letárgica que levava até então e decide revolucionar a própria história (“Sou só um cara comum sem nada a perder”), voltando a fazer tudo que sentia vontade sem culpa – observe seu sorriso de pura felicidade e alívio quando briga com a esposa na cama e diz o que estava engasgado há muito tempo, numa das inúmeras cenas que demonstram a qualidade da interpretação de Spacey.

Escritório de trabalho cinza e sem vidaAmiga da filha dançandoPrestes a derramar cerveja no sofá

O casal, aliás, vive cenas simultaneamente divertidas e tristes, daquelas que nos provocam sorrisos no canto da boca e reflexões profundas, algo típico do humor politicamente incorreto da mais pura qualidade, que toca em questões centrais sem ser ofensivo. Entre elas, podemos destacar o instante em que Carolyn descobre que Lester fuma maconha e ele e Ricky não conseguem conter o riso e aquela em que Lester finalmente volta a sentir atração por Carolyn e, mesmo excitada, ela encontra espaço para observar que ele está prestes a derramar cerveja no sofá, colocando os valores materiais acima do próprio relacionamento com o marido. Há espaço também para momentos singelos, como o sorriso genuíno dele ao ouvir que a filha está feliz e o choro desesperado da esposa ao saber que o marido foi assassinado, demonstrando que mesmo com tantos problemas, ainda existia amor ali. A sequência final é coerente, inquietante e elegante, conduzida com calma através dos belos movimentos de câmera de Mendes e com poder suficiente para deixar o espectador bastante reflexivo diante de tudo que viu.

“Beleza Americana” desmonta estereótipos e mitos do american way of life. A trilha melancólica que acompanha o zoom out que nos distancia daquele bairro nos leva a refletir: quantos casos semelhantes temos em nossa sociedade? Quantas vidas baseadas na aparência e preocupadas com o que os outros pensam de nós? Uma tragédia moderna.

Beleza Americana foto 2Texto publicado em 22 de Março de 2016 por Roberto Siqueira

À ESPERA DE UM MILAGRE (1999)

(The Green Mile)

5 Estrelas 

 

Videoteca do Beto #223

Dirigido por Frank Darabont.

Elenco: Tom Hanks, David Morse, Michael Clarke Duncan, Bonnie Hunt, James Cromwell, Jeffrey DeMunn, Barry Pepper, Doug Hutchison, Michael Jeter, Graham Greene, Sam Rockwell, Patricia Clarkson, Harry Dean Stanton, Bill McKinney, Brent Briscoe, Gary Sinise, Rachel Singer, William Sadler, Dabbs Greer e Eve Brent.

Roteiro: Frank Darabont.

Produção: Frank Darabont e David Valdes.

À Espera de um Milagre[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Frank Darabont parece ter nascido para adaptar os livros de Stephen King para o cinema. Após realizar um dos filmes mais marcantes de sua geração (a obra-prima “Um Sonho de Liberdade”), o diretor resolveu retornar ao ambiente prisional e aos contos de King e, mais uma vez, nos presenteou com um filme tocante, capaz de prender nossa atenção mesmo com sua longa duração e, ao final dela, nos jogar para fora da sala (de projeção ou não) com a sensação de termos testemunhado algo realmente impactante.

Escrito, dirigido e produzido pelo próprio Darabont (a produção dividida com David Valdes), “À Espera de um Milagre” narra uma parte importante do passado do ex-chefe da guarda de um corredor da morte nos anos 30 chamado Paul (Tom Hanks/Dabbs Greer), que vê sua vida mudar completamente após a chegada do condenado John Coffey (Michael Clarke Duncan), acusado de estuprar e matar duas crianças. Tendo que lidar com o complicado cotidiano da “milha verde” (nome dado ao local pela cor de seu chão) ao lado dos colegas de profissão Brutus Howell (David Morse), Dean Stanton (Barry Pepper), Harry Terwilliger (Jeffrey DeMunn) e Percy (Doug Hutchison), Paul vive uma experiência que refletirá no resto de sua vida nos poucos dias que convive com aquele homem diferenciado.

Apostando numa estrutura narrativa que utiliza um longo flashback após uma pequena introdução, Darabont nos leva aos anos 30 com competência através da precisa ambientação do design de produção de Terence Marsh e dos figurinos de Karyn Wagner, responsáveis pelos carros, uniformes, objetos de decoração das casas e da prisão, entre outros detalhes importantes para nos transportar para aquela época. No entanto, este nível de realismo contrasta diretamente com a abordagem fabulesca escolhida pelo diretor, evidente através dos tons em sépia utilizados pelo diretor de fotografia David Tattersall que, como de costume, remetem ao passado, mas ao mesmo tempo reforçam esta atmosfera de fábula pretendida por Darabont, o que se revela uma decisão inteligente e coerente com o material que inspira o longa, já que o roteiro traz elementos nada naturais como os misteriosos milagres de John e a presença de um rato nada comum.

A metáfora envolvendo o rato, aliás, é bem interessante. Enquanto alguns têm o impulso inicial de querer pisar no rato por considerá-lo impuro e nada digno de conviver conosco, outros preferem adotá-lo, dar carinho e proteção, compreendendo seu universo, exatamente como fazem a maioria daqueles guardas diante dos condenados à pena de morte. Assim, “À Espera de um Milagre” claramente questiona a nossa postura enquanto sociedade diante daqueles homens. Enquanto alguns tentam criar um clima ameno antes das execuções (“Você devia ver esse lugar como uma ala de tratamento intensivo”, diz Paul para Percy), representando a parcela da sociedade que tenta encontrar alguma humanidade naqueles condenados, outros são representados pelo agressivo Percy, que inferniza cada minuto de vida restante deles (já ouviu o jargão “Bandido bom é bandido morto”?).

Até por isso, a atmosfera fabulesca dá lugar a uma aura muito mais pesada na noite das execuções, especialmente na execução de Delacroix, na qual a chuva que cai e os raios que iluminam o local antecipam a sensação de que algo terrível iria acontecer – até mesmo a trilha sonora de Thomas Newman (parceiro de Darabont em “Um Sonho de Liberdade”) reflete isso em seus acordes mais pesados. E de fato sua execução é a que tem o maior impacto visual, servindo para escancarar a crueldade do processo de aplicação da pena de morte e arrancando expressões de dor e angústia até mesmo das pessoas que assistiam antes satisfeitas à tudo aquilo – e, provavelmente, do próprio espectador, que naquele instante já estava familiarizado com Delacroix e, por isso, sofre ainda mais.

Tons em sépiaMetáfora envolvendo o ratoExecução de Delacroix

Aliás, um dos segredos do sucesso de “À Espera de um Milagre” está no excelente desenvolvimento de seus personagens, conduzido com cuidado e sem pressa alguma, mesmo que para isso o ritmo empregado pelo montador Richard Francis-Bruce (outro que trabalhou em “Um Sonho de Liberdade”) torne o filme mais extenso. Ao longo da narrativa, nos tornamos tão próximos daquelas pessoas que praticamente somos confidentes de suas frustações, anseios e pensamentos mesmo dentro de um ambiente tão cruel. Ao fazer isso, o roteiro nos coloca do outro lado do corredor da morte, nos fazendo sentir o peso das horas que aproximam cada vez mais aquelas pessoas do fim. Por isso, quando vemos a forte imagem do rosto de Bitterbuck (Graham Greene) após sua execução, por exemplo, imediatamente lembramos seu tocante diálogo com Paul momentos antes e sentimos.

Assim como ocorre na parte técnica, alguns nomes do elenco também haviam trabalhado com Darabont em “Um Sonho de Liberdade”, como William Sadler que aqui tem rápida participação como o pai das garotas. Outra parceria que se repete rapidamente é entre Tom Hanks e o ótimo Gary Sinise, na cena em que o advogado de defesa Burt fala sobre John Coffey e o compara ao seu vira-lata, num discurso racista ofensivo e nojento que representa o pensamento de boa parte da sociedade daquela época. Já o arruaceiro Wild Bill é interpretado por Sam Rockwell de maneira estridente e com boas doses de humor, o que funciona para quebrar o ritmo pesado que a narrativa poderia ter ali. Assim, apesar do ambiente hostil, tanto esteticamente quanto pela maneira como conduz a narrativa, Darabont não transforma “À Espera de um Milagre” num filme pesado em boa parte do tempo, o que é essencial para que o espectador não sinta sua longa duração.

Ainda entre o elenco secundário, Brutus Howell é vivido por David Morse como alguém forte, determinado, mas dono de um grande coração, convencendo como um guarda competente em sua função e muito humano. Doug Hutchison, por sua vez, cria um Percy extremamente odiável e unidimensional, parecendo agir somente pelo prazer de ver aqueles condenados sofrerem. O contraste entre eles, aliás, reforça a tese de que Darabont deseja erguer um espelho diante do espectador e perguntar com quem ele se identifica. Ator ideal para um papel que exige a confiança e a credibilidade do espectador, Tom Hanks assume Paul com seu carisma inegável, mostrando firmeza quando necessário, mas conferindo imensa humanidade aquele homem que tem sua vida transformada após a chegada de John – e se acreditamos em tudo que vemos na tela é também por que sabemos que o narrador da história é ele.

No entanto, é inegável que o dono de “À Espera de um Milagre” é mesmo Michael Clarke Duncan. Ciente disso, Darabont segura ao máximo até revelar o rosto de John Coffey, brincando com nossa expectativa o quanto pode até revelar aquele homem imponente fisicamente e dono de uma voz tão marcante, mas que, ao contrário do que o preconceito pode nos fazer pensar, se destaca mesmo pela sensibilidade. O sucesso do personagem, obviamente, passa muito pela performance estupenda de Duncan, numa atuação hipnótica que conquista o espectador com seu carisma e a dor palpável do personagem diante de tanto sofrimento neste mundo. Transbordando amor e compaixão, ele transforma aquele condenado em nosso porto seguro no filme, encarnando o papel de uma espécie de anjo naquela fábula sobre a vida e a morte – e o plano final da linda cena em que ele assiste a um filme pela primeira vez escancara isso. Quando John finalmente diz que está cansado, compreendemos suas motivações e aceitamos sua decisão, mesmo contrariados por entender o que ela representa. Jamais sabemos desde quando John perambula pela Terra ajudando as pessoas, mas seu olhar pesado e sua expressão cansada nos dão a entender que já faz tempo suficiente para que ele decida deixar tudo isso para trás.

Talvez o único senão do roteiro seja a previsibilidade da revelação de que John é inocente, evidente desde o princípio. Uma confirmação de que ele era culpado teria um peso dramático infinitamente maior, mas destoaria da natureza bondosa do personagem, por isso, imaginamos desde o início que ele estava na realidade tentando salvar as meninas quando foi capturado. Por outro lado, o roteiro acerta em cheio ao não explicar a natureza do dom de John, deixando no campo da imaginação qualquer explicação e reforçando a característica fabulesca da narrativa.

Imensa humanidadeEspécie de anjoCura de Melinda

São tantos os belos momentos do filme que fica difícil destacar alguns, mas podemos citar a cura de Melinda (Patricia Clarkson), carregada de energia e que é um destes instantes em que podemos sentir a dor de John, além do diálogo entre Paul e Brutus sobre a imaginária Mouseville com Delacroix, que reforça o forte traço de humanidade presente naqueles personagens, numa cena interrompida de maneira brusca pela ação cruel de Percy, que pisa no rato e nos leva a outro milagre de John.

Conduzindo a narrativa com segurança e sem medo de investir um longo tempo na construção dos personagens e suas relações, Darabont chega ao ato final ciente do tamanho da carga emocional que a execução de John terá. Assim, conduz a cena com calma, nos colocando ao lado do prisioneiro sem jamais nos deixar esquecer a dor daqueles pais que perderam suas preciosas filhas, numa cena tocante e triste. A qualidade das interpretações de todo o elenco neste momento torna tudo ainda mais real, levando personagens e plateia às lágrimas.

Tocando mesmo que superficialmente no difícil tema da pena de morte, “À Espera de um Milagre” acaba se revelando como uma reflexão sobre a natureza da morte. Qual o papel dela em nossas vidas? Conseguiríamos lidar com o fardo do passar dos anos e da perda das pessoas amadas caso fossemos agraciados com a eternidade? São inúmeras questões levantadas em meio a uma narrativa repleta de amor, bondade e empatia. Tudo isso, no menos improvável dos ambientes. Darabont é mesmo um milagreiro.

À Espera de um Milagre foto 2Texto publicado em 14 de Março de 2016 por Roberto Siqueira

ROCKY V (1990)

(Rocky V)

3 Estrelas 

 

Videoteca do Beto #221

Dirigido por John G. Avildsen.

Elenco: Sylvester Stallone, Talia Shire, Burt Young, Sage Stallone, Burgess Meredith, Tommy Morrison, Richard Gant, Tony Burton, Jimmy Gambina, Delia Sheppard, Paul Micale, Stu Nahan e Michael Buffer.

Roteiro: Sylvester Stallone.

Produção: Robert Chartoff e Irwin Winkler.

Rocky V[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Cinco anos depois de beijar a lona artisticamente com o fraco “Rocky IV”, Stallone tentava reerguer seu personagem e dar-lhe uma despedida digna – na época ele não imaginava retornar de maneira triunfal 16 anos mais tarde. Assim, “Rocky V” se caracteriza pela saída de cena do famoso pugilista da Filadélfia, que passa a focar os esforços no treinamento de um substituto. O resultado é um filme honesto, ainda que distante dos melhores momentos da franquia.

Apesar de novamente assumir o roteiro, Stallone desta vez aposta no retorno de John G. Avildsen à direção, o que se mostra uma decisão acertada especialmente pelos diversos momentos que buscam homenagear “Rocky, um Lutador”, construindo uma atmosfera nostálgica que certamente encontra eco nos sentimentos dos fãs. Basicamente, aqui vemos Rocky (Stallone, óbvio) impedido de voltar a lutar por conta de uma lesão permanente. Após ser enganado por seu contador, ele se vê obrigado a voltar para o bairro em que vivia e decide ajudar a impulsionar a carreira do jovem Tommy (Tommy Morrison), porém tudo muda com a chegada de um empresário (Richard Gant) que oferece muito dinheiro para assumir a carreira do promissor lutador.

Seguindo boa parte da estrutura narrativa clássica da franquia (o início relembra o filme anterior, temos uma luta no final, etc.), “Rocky V” aposta também na volta do tom melancólico ao trazer o protagonista enfrentando problemas de saúde e financeiros, retornando a uma vida difícil e, principalmente, constatando a passagem do tempo e a decadência de lugares importantes pra ele como a abandonada academia de Mickey. Assim, enquanto a direção de fotografia de Steven Poster ajuda a criar esta atmosfera através da escolha de cores escuras e ambientes sombrios, John G. Avildsen aproveita para também inserir a mencionada nostalgia, resgatando diversos elementos do primeiro filme que estabelecem uma conexão imediata com o espectador mais saudosista, como quando Rocky coloca seu chapéu preto e os óculos em Adrian.

Volta para o bairro em que viviaAbandonada academia de MickeyNostalgia

Confirmando esta estratégia, a trilha sonora de Bill Conti também relembra “Rocky, um Lutador” ao trazer a música “Tack it back”, os lentos acordes da clássica música tema que embalam suas lembranças do início de carreira, entre outros momentos. Por outro lado, em “Rocky V” não temos a famosa sequência do treinamento acompanhada pela empolgante trilha sonora presente nos outros filmes da franquia. Aliás, a trilha sonora surge apenas pontualmente, contrariando a presença tão marcante anteriormente. Talvez o excesso de clipes em “Rocky IV” tenha motivado a escolha de uma trilha sonora econômica em “Rocky V”.

Mais relaxado e a vontade na pele de seu personagem que no filme anterior, Stallone demonstra bem o peso da idade nas expressões de dor que o acompanham, tornando Rocky ainda mais falível e humano. Além disso, seu relacionamento cheio de carinho com o filho (Sage Stallone, que segura bem o papel) reforça seu carisma, especialmente ao constatar sua alegria por reviver etapas da vida através do garoto, em momentos simplesmente lindos. Até mesmo quando está nervoso Rocky não perde a humanidade e o bom coração, como fica claro em seus primeiros diálogos com Tommy. Nem mesmo a mídia e sua voracidade por notícias polêmicas conseguem tirá-lo do sério. No entanto, a possibilidade de reviver a adrenalina do boxe e de poder fazer o papel de Mickey empolgam Rocky, que se vê naquele jovem boxeador – ou ao menos tenta ver na luta daquele rapaz a sua luta para encontrar um lugar ao sol. Por isso, a decepção é ainda maior quando Tommy o deixa para trás para seguir o caminho mais fácil.

Infelizmente, este ponto de virada do roteiro é extremamente previsível. Imaginamos muito antes que Tommy largará Rocky e cederá ao assédio do ganancioso empresário vivido por Richard Gant através de sinais nada sutis como o conflito familiar que sua chegada provoca – e, principalmente, por causa da atuação de Tommy Morrison. Ao contrário do que poderíamos imaginar, Rocky passa a ignorar o próprio filho e a esposa (Talia Shire, em sua despedida da série) e a centrar sua vida somente em Tommy, numa atitude que ele certamente não teria e que destoa do personagem humano que conhecíamos até então. Some a isto a revolta natural do filho, a aproximação sorrateira do empresário e a evidente ambição do jovem lutador e temos a receita pronta para a mudança do personagem.

Relacionamento cheio de carinho com o filhoJovem boxeadorGanancioso empresário

Igualmente previsível é o confronto entre eles, que obviamente surge no ato final, mas ao menos resgata a energia que faltou no confronto com Drago em “Rocky IV”, trazendo ainda um ar de novidade justamente por acontecer nas ruas, de maneira quase primitiva. Mantendo a câmera agitada e próxima do rosto dos personagens, Avildsen consegue criar a atmosfera desejada sem nos fazer perder a noção geográfica do que vemos na tela, o que é muito importante. O confronto é cru, repleto de sentimentos reprimidos que são jogados pra fora e, por isso, funciona. O esperado desfecho com a vitória de Rocky e sua reconciliação com a família apenas confirmam a ideia de encerrar sua carreira no cinema de maneira simples, porém digna.

Ainda que não seja um excelente filme, “Rocky V” resgata alguns aspectos importantes ao voltar a focar no desenvolvimento dos personagens e ao trazer a atmosfera melancólica e a faceta humana tão presentes nos melhores momentos da franquia. Determinado a encerrar a carreira de seu protagonista no cinema, “Rocky V” tem um final com cara de despedida, relembrando momentos de todos os filmes anteriores – afinal, Stallone não imaginava naquele momento que Rocky voltaria 16 anos depois com o ótimo “Rocky Balboa”. Ainda bem que ele desistiu da ideia.

Rocky V foto 2Texto publicado em 19 de Fevereiro de 2016 por Roberto Siqueira

ROCKY IV (1985)

(Rocky IV)

2 Estrelas 

 

Videoteca do Beto #220

Dirigido por Sylvester Stallone.

Elenco: Sylvester Stallone, Talia Shire, Burt Young, Carl Weathers, Dolph Lundgren, Brigitte Nielsen, Tony Burton, Michael Pataki, James Brown, Sylvia Meals e Stu Nahan.

Roteiro: Sylvester Stallone.

Produção: Robert Chartoff e Irwin Winkler.

Rocky IV[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Rever “Rocky IV” foi uma experiência quase tão traumática quanto seria enfrentar o pugilista da Filadélfia num ringue. Ainda com a memória afetiva de um longa que marcou minha geração, vi lentamente os mitos sendo desconstruídos um a um numa narrativa mal formulada e repleta de ideologia distorcida, que foge totalmente do que tinha de melhor na franquia até ali. No entanto, é preciso contextualizar o longa para melhor compreender as razões que levaram Stallone a adotar aquela abordagem. Não que isto sirva para salvar o filme do fracasso, pois não serve, mas ao menos para entender o que levou uma franquia tão sólida a sofrer um escorregão tão marcante.

Como de costume, Stallone escreveu o roteiro e assumiu a direção do projeto. Só que, ao contrário da abordagem que investia no desenvolvimento dos personagens, aqui ele decide trazer o campeão mundial dos pesos-pesados Rocky Balboa (o próprio Stallone, claro) treinando o ex-campeão Apollo Creed (Carl Weathers) para uma luta de exibição contra o soviético Ivan Drago (Dolph Lundgren), na qual uma tragédia desencadeará uma nova luta que promoverá não apenas a vingança pessoal de Rocky, como também de toda a “América” (como eles gostam de se intitular).

Evidente já na premissa do longa, a influência do cenário político faz-se presente em diversos momentos repletos de estereótipos da época da guerra fria que predominavam produções hollywoodianas. Antes da tradicional abertura que relembra o filme anterior, as primeiras imagens de “Rocky IV” já trazem duas luvas com as bandeiras dos EUA e da URSS embaladas pelo sucesso “Eye of the tiger”, dando de cara o tom político e ideológico que destruirá as intenções do longa. Como de costume, Stallone investe na construção do relacionamento familiar na primeira metade da narrativa, o que mantém parte das características marcantes da franquia, mas infelizmente esta abordagem é abandonada sempre que o adversário russo e sua equipe entram em cena, transformando “Rocky IV” num confronto muito mais ideológico do que qualquer outra coisa.

Infelizmente, ao decidir desenvolver temas políticos, Stallone acaba deixando de lado o interessante desenvolvimento dos personagens notável nos longas anteriores e responsável por tornar a franquia Rocky tão especial. Frases como “isso é nós contra eles” deixam clara a visão política deturpada de Stallone, reforçada pela entrada no ringue de Apollo diante de Drago que mais parece uma propaganda política do “american way of life”, com o nacionalismo exacerbado praticamente saltando da tela.

Felizmente, nem tudo está perdido. A empatia entre Rocky e Apollo está novamente presente, o que é essencial para ampliar o impacto da tragédia que ocorrerá. Por outro lado, são tantos os sinais de que Apollo morrerá que parte deste impacto é perdido, como na conversa entre Rocky, Adrian (Talia Shire), Apollo e Paulie (Burt Young) num almoço de família em que Adrian já se mostrava preocupada com as condições físicas de Apollo, que afirma: “Sem guerra é melhor o guerreiro estar morto”, escancarando de vez o que viria a acontecer. Por tudo isso, a morte de Apollo é bem previsível, mas ainda assim sentimos o impacto da cena, muito mais pelo carisma do personagem do que pela construção dramática da narrativa em si.

Luvas com as bandeiras dos EUA e da URSSEntrada no ringueEmpatia entre Rocky e Apollo

Cada vez mais confiante e diferente da garota tímida de “Rocky, um Lutador”, Adrian pela primeira vez diz que Rocky não poderá vencer uma luta, demonstrando sua crescente insatisfação com o risco que ele corre sempre que sobe ao ringue, mas o atrito é resolvido e ela se reconcilia com ele antes da luta final. Estes conflitos tão humanos e estas preocupações tão comuns aos casais é que tornam Rocky e Adrian tão próximos do espectador. Não é o que ocorre do outro lado. Tratados de maneira diametralmente oposta pelo roteiro, Drago e sua esposa Ludmilla (Brigitte Nielsen) soam totalmente unidimensionais, exatamente como muitos dos vilões dos anos 80.

Treinando muitas vezes sob uma luz vermelha que faz uma pouco sutil alusão ao regime soviético e que serve também para criar uma aura que demoniza o adversário, Drago surge quase como uma máquina criada pelos “terríveis” soviéticos para destruir tudo que surgir pela frente. Em sua apresentação, ele não fala uma palavra sequer. Posteriormente, apenas algumas poucas palavras, sempre com intenção de intimidar quem está ao redor. Na realidade, Dolph Lundgren praticamente não atua, ganhando destaque apenas quando surge no ringue para demonstrar sua força, o que teoricamente deveria intimidar Rocky, mas não o faz. Stallone, por sua vez, tem menos tempo para desenvolver o lado humano de Rocky, surgindo mais como um garoto propaganda de academias em diversos clipes que acompanham seus treinamentos.

Clipes que, a partir de certo instante, nos dão a sensação de estarmos assistindo a um musical. Num momento relembramos a amizade de Rocky com Apollo, em outro acompanhamos Rocky e Drago treinando com tantos closes de músculos que mais parece um exercício narcisista de um já mega astro Stallone; e assim seguimos por longos minutos durante boa parte do segundo ato. Ao menos, estes clipes nos trazem belas imagens da gélida Rússia, captadas com precisão pelo diretor de fotografia Bill Butler. A esperada luta final surge também em forma de clipe após alguns minutos de bom combate, o que tira boa parte da adrenalina do confronto entre dois homens tão poderosos fisicamente e torna esta a luta menos enérgica de toda a franquia – o que é curioso ao olhar em retrospectiva, já que Drago notabilizou-se, especialmente para minha geração, como o principal adversário de Rocky.

Rocky e AdrianTreinando sob uma luz vermelhaBelas imagens da gélida Rússia

Para piorar, Stallone decide finalizar o longa com um discurso patético que envolve política de maneira totalmente distorcida e tenta, de maneira desesperada, nos fazer acreditar que o público soviético concordaria com aquilo. Se olharmos para os adversários de seu outro grande personagem na carreira a partir de “Rambo II” e até mesmo o “poderoso” inimigo em “Os Mercenários”, teremos a confirmação de que a visão política de Stallone é realmente bastante distorcida e irrelevante.

Enfim, influenciado pelo ambiente político de sua época, “Rocky IV” investe em algo novo de maneira desajeitada e acaba perdendo as melhores características da série. Uma pena. 

Rocky IV foto 2Texto publicado em 18 de Fevereiro de 2016 por Roberto Siqueira

ROCKY III – O DESAFIO SUPREMO (1982)

(Rocky III)

3 Estrelas 

 

Videoteca do Beto #219

Dirigido por Sylvester Stallone.

Elenco: Sylvester Stallone, Talia Shire, Burt Young, Carl Weathers, Burgess Meredith, Tony Burton, Mr. T, Hulk Hogan, Ian Fried, Bob Minor, Frank Stallone e Stu Nahan.

Roteiro: Sylvester Stallone.

Produção: Robert Chartoff e Irwin Winkler.

Rocky III - O Desafio Supremo[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Novamente após um intervalo de 3 anos após o lançamento do filme anterior, Stallone voltava as telonas com o terceiro filme da franquia “Rocky”, algo completamente esperado após o sucesso dos longas anteriores. Desta vez abandonando um pouco o tom intimista e sombrio que cercava aquele universo recheado de personagens interessantes, ele decide apostar numa abordagem mais leve e direta, com toda a cara da época em que foi criada. Assim, “Rocky III – O Desafio Supremo” surge com todos os excessos oitentistas, o que tira parte do peso dramático característico do personagem, ao menos até que uma tragédia resgate o tom melancólico.

Mais uma vez assumindo roteiro e direção, Stallone nos apresenta em “Rocky III” a evolução da carreira do agora astro Rocky Balboa, até que ele finalmente volte a ser derrotado, desta vez por um lutador promissor chamado Clubber Lang (Mr. T), que aproveita muito bem a chance de bater o campeão quando este surge abalado pelo estado de saúde de seu treinador – que, infelizmente, faleceria após a luta. Transtornado, Rocky aceita a proposta do ex-adversário Apollo Creed (Carl Weathers), que deseja treiná-lo para uma revanche com Lang em troca de um favor.

Como de costume, Stallone inicia o filme recordando o final do anterior, o que além de refrescar a memória dos espectadores (lembremos que 3 anos separavam um longa do outro), também resgata o espírito de superação que caracteriza a série, reforçado pelo clipe que surge em seguida e resume as inúmeras vitórias de Rocky ao som da empolgante “Eye of the tiger”, do Survivor, que se tornaria uma referência automática às lutas de boxe a partir dali. Desta vez abrindo mais espaço para Paulie, como fica evidente logo no início quando ele demonstra suas angústias e frustrações na infantil discussão com Rocky num estacionamento, o roteiro não investe tanto no desenvolvimento dos personagens como este início faz parecer, adotando uma abordagem bem humorada em boa parte do tempo, exemplificada perfeitamente na participação do então astro de luta livre Hulk Hogan como o canastrão Thunderlips, numa luta arranjada tão caricatural que chega a ser divertida.

Igualmente espalhafatoso é o Clubber Lang interpretado por Mr. T, que tenta chamar a atenção com sua postura agressiva e polêmica, algo muito característico também no mundo do boxe. Enquanto Rocky havia se transformado num astro que agora finalmente conseguia estrelar propagandas e cujo os treinamentos mais pareciam fazer parte do show business, Clubber Lang pega pesado para entrar na melhor forma possível, especialmente após derrotar Rocky no primeiro confronto e aceitar a revanche.

No entanto, a primeira luta é que reserva o momento de maior peso dramático do longa, indicado algumas vezes antes de se consumar através da resistência de Mickey (Burgess Meredith, novamente bem no papel) em abandonar a aposentadoria e treinar Rocky uma última vez, das dores que ele sente e de alguns diálogos e até mesmo movimentos de câmera. Observe, por exemplo, como a câmera lentamente nos aproxima de Rocky e Mickey quando ele convence o treinador a largar a aposentadoria e treiná-lo em mais uma luta através de um lento zoom, simbolizando a reaproximação de ambos, e compare com o movimento inverso que diminui ambos no fim do treinamento que antecede a luta, indicando sutilmente a nova separação de ambos e a tragédia que viria a acontecer. É como se Rocky tivesse uma última oportunidade de se aproximar do amigo e treinador antes da despedida.

Astro de luta livreEspalhafatoso Clubber LangFim do treinamento

Agora com a carreira engrenada, Rocky equilibra muito bem a profissão e a vida pessoal, reservando momentos para cuidar do filho que se tornam singelos e ajudam na solidificação do personagem, reforçando seu carisma junto ao público. Só que sua postura demasiadamente confiante quando se trata do boxe denota que o sucesso talvez tenha lhe subido a cabeça, mesmo que por um curto período de tempo. Assim, quando ele finalmente volta a ser derrotado, o choque de realidade se concretiza e traz um conflito pessoal firmado na desconfiança. Repare que, diferente da estrutura narrativa dos dois primeiros filmes, aqui temos uma luta antes de uma hora de projeção, o que alimenta o desejo dos fãs de ver Rocky mais tempo no ringue, mas a comovente morte de Mickey transforma a atmosfera do filme – e Stallone transmite a dor do personagem com tanta paixão que nos faz sofrer ainda mais.

A fotografia de Bill Butler então muda radicalmente e traz à tona o visual sombrio, notável quando Apollo surge para convencer Rocky a voltar a lutar e ser treinado por ele. Só que, devastado psicologicamente, Rocky não consegue render nos primeiros treinamentos, mesmo com todo o apoio do amigo Apollo. Adotando uma postura mais tranquila, Carl Weathers confere mais humanidade ao personagem e sua empatia com Stallone é essencial para o sucesso do longa. A amizade dos dois, aliás, é um dos pontos altos do filme. Quem também mostra enorme evolução é Adrian, agora uma mulher muito mais confiante e segura, capaz de falar com autoridade no marcante diálogo na praia em que questiona Rocky e todo seu sofrimento e o faz encontrar forças para voltar a treinar com a mesma determinação de antes, nos levando a já tradicional sequência de treinamento embalada pela clássica “Gonna fly now”, mas que agora não surge tão inspirada e empolgante como as anteriores, talvez por conta do ambiente diferente e do ritmo empregado pelos montadores Mark Warner e Don Zimmerman.

Cuida do filhoApollo convence Rocky a voltar a lutarMarcante diálogo na praia

Ainda que consiga transmitir emoção ao nos colocar dentro do ringue com a câmera se movimentando bastante sem nos deixar confusos e o design de som dando maior realismo ao que vemos na tela através do som dos golpes e das reações do público e dos narradores, a luta final segue a mesma fórmula das anteriores e demonstrava um certo desgaste. Ciente disto, o roteiro nos reserva um momento intimista, simpático e extremamente importante para nos aproximar ainda mais de Rocky e Apollo ao trazê-los divertindo-se numa revanche privada, escondida do grande público. Ali, eles deixam o panteão dos campeões e se tornam duas pessoas normais, com dúvidas, anseios, angústias e vontades, tirando a limpo de forma descontraída algo que por algum tempo os incomodou. O filme acerta ainda ao encerrar antes do primeiro golpe, deixando a dúvida sobre quem venceria aquele duelo privado, já que, no fim das contas, o resultado pouco importa. Já sabemos o mais importante sobre aqueles dois grandes homens.

Apesar de ter bons momentos e de manter algumas características importantes da série, “Rocky III – O Desafio Supremo” demonstrava os primeiros sinais de desgaste da fórmula que consagrou o lutador. Felizmente, assim como seu personagem, Stallone sabia como se reinventar e não seguiria este caminho por muito tempo.

Rocky III - O Desafio Supremo foto 2Texto publicado em 17 de Fevereiro de 2016 por Roberto Siqueira

ROCKY II – A REVANCHE (1979)

(Rocky II)

4 Estrelas

 

Videoteca do Beto #218

Dirigido por Sylvester Stallone.

Elenco: Sylvester Stallone, Talia Shire, Burt Young, Carl Weathers, Burgess Meredith, Tony Burton, Joe Spinell, Sylvia Meals, Frank McRae, Leonard Gaines, John Pleshette, Allan Warnick, Stuart K. Robinson, Paul Micale, Fran Ryan, Taurean Blacque, Stu Nahan, Taaffe O’Connell, Paul McCrane e Frank Stallone.

Roteiro: Sylvester Stallone.

Produção: Robert Chartoff e Irwin Winkler.

Rocky II – A Revanche[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após o enorme sucesso de público e crítica que tirou Sylvester Stallone do ostracismo, a continuação de “Rocky, um lutador” era ansiosamente aguardada e não apenas em Hollywood. Foram necessários 3 anos para que a espera terminasse e, felizmente, o resultado seria novamente satisfatório. Apostando mais uma vez no desenvolvimento de seu carismático personagem e do universo em que ele vive, o longa deixa a aguardada revanche em segundo plano, provando que Stallone não estava somente preocupado com os milhões de dólares que certamente viriam das bilheterias. Para ele, aquele personagem era mais do que uma fonte de renda, era também um reflexo nas telas da luta que ele próprio enfrentou para chegar ali.

Novamente escrito pelo próprio Stallone, que agora acumula também a direção, “Rocky II – A Revanche” começa relembrando os momentos finais de seu antecessor, resgatando imediatamente o espírito do longa e ambientando novamente o espectador naquele universo. No entanto, desta vez Rocky (Stallone) surge determinado a desfrutar de uma nova vida ao lado de sua esposa Adrian (Talia Shire), buscando um emprego que o mantenha distante dos ringues. Só que a dura realidade do mercado de trabalho tornaria as coisas mais difíceis e levaria o lutador a repensar sobre a proposta do campeão mundial Apollo Creed (Carl Weathers), que deseja uma revanche para provar que não venceu Rocky por sorte.

De maneira inteligente e até mesmo corajosa, Stallone descontrói aquele que era o motor do sucesso do filme anterior, desmistificando o tal sonho americano em que um desconhecido (o underdog) consegue conquistar seu lugar ao sol quando a oportunidade surge, mostrando que a realidade não era bem essa para a maioria das pessoas (algo que, de alguma forma, já existia em “Rocky, um lutador” se pensarmos nos tantos outros boxeadores que frequentavam a academia em que ele treinava sem terem grandes perspectivas pela frente a não ser os poucos dólares que recebiam para lutar). E longe dos ringues, mesmo Rocky era apenas mais um buscando um emprego digno e boas condições para viver, numa realidade distante daquela pregada pelos defensores do american dream. É verdade que ele até consegue um emprego, mas não da maneira que gostaria, utilizando novamente sua força física, agora no frigorífico onde Paulie trabalhava. Só que, em tempos de crise, a empresa decide demiti-lo alegando que ele não tem muito tempo de casa, numa desculpa qualquer que não ameniza em nada a situação e que acontece ano após ano nas corporações mundo afora.

Antes disso, Rocky surge empolgado com a chance recebida na vida e com os dólares que lucrou na luta, rapidamente mudando de status ao comprar uma nova casa, um carro e roupas – observe a jaqueta com um tigre nas costas que, somada às cores do uniforme que ele usa na luta e ao tigre que presencia o pedido de casamento, curiosamente faz uma alusão talvez não intencional à famosa música que surgiria no terceiro filme (figurinos de Sandy Berke Jordan e Tom Bronson). Enquanto Rocky se empolga, Adrian se mantém mais comedida e reticente, ciente de que o mercado de trabalho não seria tão complacente com um homem que mal sabia ler e que se destacava pela força física. O primeiro choque de realidade surge já na tentativa de explorar a imagem de Rocky num comercial, quando ele mal consegue ler as falas e muito menos interpretá-las de maneira adequada, levando o raivoso diretor (John Pleshette) a desistir.

Coerente com o andamento da narrativa, a direção de fotografia de Bill Butler inteligentemente aposta num tom menos sombrio nesta primeira etapa do longa, ilustrando que Rocky e Adrian estão mais felizes somente para retornar ao visual afundado nas sombras no período mais difícil em que ele tentar conseguir um emprego. Observe, por exemplo, como o sol brilhando e a trilha sonora criam um clima alegre quando Rocky surge brincando com crianças na rua e, em seguida, Adrian confirma a gravidez. Compare este momento com a melancólica conversa entre Rocky e seu treinador Mickey no apartamento deste último, na qual o rosto de ambos surge parcialmente encoberto pelas sombras, num momento aliás em que Stallone demonstra seu talento ao dizer com dor quase palpável que precisa daquele ambiente, admitindo que não consegue viver longe dos ringues e daquela rotina de treinamentos. Burgess Meredith também não fica atrás, transmitindo seu incomodo ao ver aquele homem desperdiçando seu potencial. Novamente convincente na pele do treinador Mickey, ele demonstra com seu temperamento explosivo sua obsessão em tirar o melhor de Rocky.

Jaqueta com um tigreRocky brincando com criançasEncoberto pelas sombras

Ao investir todo o primeiro ato na afirmação do relacionamento do casal, Stallone não abre muito espaço para Apollo, que surge esporadicamente para nos lembrar que uma luta estava por vir. Isto ocorre por que o diretor prefere focar nos personagens ao invés do evento que fechará a narrativa, transformando “Rocky II” num filme muito mais sobre o relacionamento entre Rocky e Adrian do que sobre a revanche em si (apesar do subtítulo brasileiro indicar o contrário). Agora mais confiantes e entrosados, Stallone e Shire demonstram grande empatia, o que ajuda bastante a tornar a relação crível e conquistar o espectador. Surgindo num vestido vermelho quando Rocky deixa o hospital que simboliza sua nova fase na vida, superando em parte a timidez e se permitindo viver uma paixão, a Adrian de Talia Shire é mais do que o clichê machista “todo grande homem tem uma grande mulher por trás” sugere, assumindo o comando da casa e o sustento do lar. Mesmo grávida, ela trabalha para trazer dinheiro enquanto Rocky tenta se encontrar.

Já Carl Weathers surge menos caricato (mas não tanto), demonstrando nos poucos instantes em cena como Apollo remói a luta vencida por pontos contra Rocky e, principalmente, a repercussão daquela histórica luta. Agindo de maneira irracional e irritadiça muitas vezes, como no encontro dos pugilistas no hospital logo após a primeira luta, ele mantém as reações exageradas que se contrapõem ao lado centrado e até ingenuamente sarcástico de Rocky. Observe, por exemplo, como na entrevista coletiva, Apollo está mais agitado, bancando o durão, enquanto o deboche típico destes eventos pré-luta surge na voz de Rocky, que faz diversas piadas e diverte os repórteres.

Esta inocência ilustra uma das características mais fortes e marcantes de Rocky: a humanidade. Vivendo o personagem que parece ter nascido para interpretar, Stallone confere este lado humano com precisão ao boxeador, algo que fica evidente quando ele visita o quarto do oponente no hospital e pergunta se ele deu o seu melhor, demonstrando que ele próprio duvidava se o campeão tinha lutado com afinco. E que boxeador que não o humano Rocky pararia na frente da Igreja instantes antes de subir ao ringue somente para pedir aos berros no meio da rua a benção do padre? Este tipo de atitude humaniza Rocky Balboa e o aproxima do espectador. Só que Rocky também tem seus segredos, como podemos notar quando ele ri ao ver a caricatura de Apollo lhe esmagando num jornal, mas ao entrar no banheiro e isolar-se dos demais, demonstra estar chateado, algo reforçado pela câmera em plongée que o diminui em cena. Rocky é assim, um ser humano com qualidades e defeitos e não um destemido e perfeito herói.

Grande empatiaEncontro dos pugilistas no hospitalChateado

Reticente quanto a possibilidade de Rocky voltar a lutar, Adrian passa mal e o bebê nasce de forma prematura, colocando em risco a vida da mãe, o que leva o protagonista a sofrer muito e pensar em desistir da luta. Neste instante, Stallone e seus montadores Stanford C. Allen e Janice Hampton empregam um ritmo mais lento, que alterna entre silenciosas cenas na igreja e o sofrimento do protagonista diante do leito da esposa no hospital, o que cria o contraponto ideal para o momento em que ela acorda e, surpreendentemente, pede que ele vença a luta. A trilha sonora e a reação do treinador anunciam a mudança de ritmo da narrativa e dão início a mais uma empolgante sequência de treinamento embalada pela clássica música tema de Bill Conti. Consciente do poder desta sequência, Stallone trabalha na construção da imagem icônica do personagem, abusando de closes e planos que valorizam as corridas pelas ruas da Philadelphia e encerrando em câmera lenta já nas famosas escadarias do Museu de Arte, chegando a congelar a imagem do protagonista para gravá-la ainda mais na memória do espectador.

Chegamos então a aguardada revanche, numa luta mais circense e menos realista que a do filme anterior, com Rocky mal se defendendo dos violentos golpes do adversário – ainda que a maquiagem que cria os machucados nos boxeadores novamente impressione. Ainda assim, o bom ritmo, o excelente design de som que nos joga dentro do ringue e a interpretação dos atores tornam tudo mais crível, nos levando ao ápice no round final onde o suspense (de certa forma até exagerado, mas que funciona) antecede a vitória de Rocky, fazendo a plateia na tela e fora dela explodir de alegria. Vale ainda observar como após a luta Apollo se redime e admite a grandeza de Rocky, num indício do que seria a relação entre eles a partir do terceiro filme.

“Rocky II – A Revanche” cumpre sua proposta ao trazer novamente Rocky para o ringue, mas outra vez decide ir além da luta e, assim como o treinador Mickey faz com o boxeador, consegue explorar todo o potencial dramático que o personagem tem.

Rocky II – A Revanche foto 2Texto publicado em 16 de Fevereiro de 2016 por Roberto Siqueira

ROBOCOP 3 (1993)

(RoboCop 3)

2 Estrelas

 

 

Videoteca do Beto #217

Dirigido por Fred Dekker.

Elenco: Robert John Burke, Nancy Allen, Mario Machado, Remy Ryan Hernandez, Jodi Long, John Posey, Rip Torn, Mako, John Castle, S.D. Nemeth, CCH Pounder, Bradley Whitford e Daniel von Bargen.

Roteiro: Fred Dekker.

Produção: Patrick Crowley.

RoboCop 3[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Mesmo após uma continuação claramente inferior ao longa original, a marca RoboCop ainda seguia em alta e justificava a produção de outra continuação, ao menos em termos comerciais. No entanto, se “RoboCop 2” já evidenciava a falta de criatividade dos envolvidos para explorar o interessante tema de maneira eficaz, “RoboCop 3” abandona de vez qualquer pretensão mais ousada tematicamente e investe na criação de um super-herói, falhando miseravelmente na missão e determinando o fim da linha para o policial do futuro – ao menos até a recente refilmagem comandada pelo brasileiro José Padilha.

Assumindo roteiro e direção, Fred Dekker não consegue explorar com eficiência o futuro distópico e o pano de fundo político e social tão presente na franquia, falhando também quando tenta explorar a questão filosófica envolvendo a existência de um robô com resquícios de humanidade, algo que funcionava tão bem no primeiro filme. Contudo, ainda que as discussões provocadas pela ideia da existência do RoboCop, tanto do ponto de vista filosófico quanto pelo social, garantissem boa parte da qualidade de “RoboCop – O policial do futuro”, o fato é que tanto o primeiro quanto o segundo filme contavam também com boas cenas de ação, mas aqui não podemos enumerar uma cena sequer que seja realmente marcante. Assim, Dekker perde a chance de suavizar ou ao menos maquiar a pobreza temática de seu roteiro através das cenas de ação, o que acaba tendo efeito contrário e ressalta ainda mais os problemas do filme.

A trama é simples. Numa Detroit ainda dominada pelo crime, a PCO em parceria com uma empresa japonesa inicia um projeto de realocação de pessoas que vivem em bairros mais pobres conhecido como “Rehab”, retirando-as de maneira forçada para, na realidade, abrir caminho para a construção da nova e lucrativa metrópole chamada Delta City. Mas durante uma destas operações o grupo é surpreendido pela resistência do RoboCop (Robert John Burke), que passa a lutar ao lado dos menos favorecidos e ser encarado como um fora da lei.

Apostando na inversão de papéis ao colocar o protagonista e o espectador do lado oposto ao da lei, “RoboCop 3” até poderia funcionar não fosse a latente falta de talento de Fred Dekker. Ainda assim, o diretor ao menos consegue inserir elementos interessantes, como ao realçar os óbvios interesses econômicos que norteiam as decisões da empresa que comanda a polícia, numa denúncia que, infelizmente, não se tornou anacrônica. Auxiliado pela direção de fotografia de Gary B. Kibbe, o diretor também consegue criar uma boa contraposição entre o visual sombrio do bairro em que as pessoas mais pobres vivem com as cenas coloridas e vivas de Delta City, a cidade prometida. Além disso, o visual acinzentado da PCO reforça as intenções nada nobres do projeto de reabilitação, que nada mais é do que uma pouco disfarçada alusão ao nazismo.

Bairro mais pobreDelta CityProjeto de reabilitação

Repleto de estereótipos, “RoboCop 3” mais parece ter caricaturas do que personagens, algo escancarado no visual punk dos arruaceiros criado pela figurinista Ha Nguyen e em pequenas decisões nada sutis como a escolha do nome da doutora Lazarus (Jill Hennessy). Nada sutil também é a trilha sonora de Basil Poledouris, que surge deslocada em diversos momentos, como quando RoboCop é atacado por policiais. Na mesma linha, as atuações caricatas de grande parte do elenco secundário não ajudam a suavizar o tom estridente do longa.

Ao contrário dos filmes anteriores, a introdução do RoboCop aqui é pouco inspirada e o próprio personagem destoa bastante do robô com resquícios de humanidade e de certa forma amargurado que conhecíamos até ali. Desta vez vivido por Robert John Burke, o personagem até tem momentos interessantes, como ao tomar uma decisão consciente (algo que já ocorrera antes) e ao viver uma cena sentimental com uma criança, mas já não possui o carisma inegável de antes.

E se o protagonista não funciona como antes, as cenas de ação são ainda piores, falhando miseravelmente em praticamente todo o longa. Incapaz de gerar tensão ou orquestrar ações interessantes ao lado de seu montador Bert Lovitt, Dekker ainda atenua a violência, reduzindo o impacto das ações dos vilões; vilões estes que surgem nada ameaçadores, como é o caso do ninja Kanemitsu vivido por Mako. A luta dele com RoboCop é péssima e serve como exemplo da ineficácia das cenas comandadas pelo diretor. Para piorar, os efeitos visuais soam totalmente datados, o que fica evidente quando o RoboCop surge voando no ato final, numa decisão que confirma a intenção de transformá-lo num super-herói e garantir a venda de alguns milhares de bonecos para as crianças da época.

ArruaceirosJá não possui o carisma de antesNinja Kanemitsu

E se o clímax é fraco como o restante do filme, ao menos temos uma boa cena, talvez a única, quando os policiais largam o emprego e decidem lutar ao lado do herói (ok, vamos assumir logo a transformação).

Pra quem começou a trajetória no cinema propondo ao mesmo tempo reflexões filosóficas e questionamentos políticos e sociais, RoboCop encerrava sua passagem pelas telonas de forma melancólica, num desfecho tão desolador quanto o futuro distópico que o cerca.

RoboCop 3 foto 2Texto publicado em 31 de Janeiro de 2016 por Roberto Siqueira

ROBOCOP 2 (1990)

(RoboCop 2)

3 Estrelas 

 

Videoteca do Beto #216

Dirigido por Irvin Kershner.

Elenco: Peter Weller, Nancy Allen, Belinda Bauer, Dan O’Herlihy, Felton Perry, Gabriel Damon, Mario Machado, Tom Noonan, Wanda De Jesus, Tzi Ma, John Glover, John Ingle, Roger Aaron Brown, Mark Rolston, Thomas Rosales Jr., Brandon Smith, Michael Medeiros, Angie Bolling, Robert DoQui e Stephen Lee.

Roteiro: Walon Green e Frank Miller.

Produção: Jon Davison.

RoboCop 2[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Responsável por dirigir a continuação de um enorme sucesso de público e crítica e entregar um filme ainda melhor que seu antecessor, Irvin Kershner parecia o nome indicado para assumir a continuação do sucesso “RoboCop – O Policial do Futuro” após o excelente trabalho realizado em “Star Wars Episódio V – O Império Contra-Ataca”. No entanto, os 10 anos de distância entre uma continuação e outra parecem ter enferrujado o diretor. Sem saber balancear muito bem a ação e o humor, “RoboCop 2” parece mais uma das criações problemáticas da PCO, atirando em diversas direções para acertar em algumas delas e, infelizmente, errar muito também.

Escrito por Walon Green e ninguém menos do que Frank Miller, “RoboCop 2” nos transporta para uma Detroit ainda mais dominada pelo crime e pelas drogas após os policiais locais decidirem entrar em greve até que tenham melhores salários. Entre os poucos que se arriscam nas zonas restritas, RoboCop (Peter Weller) e sua parceira Lewis (Nancy Allen) tentam combater os traficantes da droga nuke, mas os líderes da PCO estão desenvolvendo uma nova versão do ciborgue, com base nos estudos promovidos pela Dra. Juliette Faxx (Belinda Bauer), que promete aprimorar a versão anterior.

Em sua sequência de abertura, “RoboCop 2” retoma uma das principais reflexões trazidas no filme anterior através da propaganda de um sistema antirroubo que simplesmente assassina o assaltante do veículo, levando o espectador a questionar se um crime justifica o outro. Em seguida, as notícias do telejornal nos levam a uma Detroit ainda mais decadente e tomada pelo crime, numa consequência direta da greve promovida pelos policiais em busca de maior reconhecimento. O roteiro aborda ainda outras questões interessantes até mesmo de caráter político, como o domínio da corporação PCO sobre a cidade através da privatização de serviços que teoricamente deveriam ser prestados pelo governo local, privilegiando os interesses obscuros dos empresários em detrimento do bem comum da população, além do envolvimento de policiais no mundo do crime, ainda que este aspecto seja explorado de maneira bem rasa.

Rasos também são muitos dos personagens de “RoboCop 2”, como atesta o odiável chefe da PCO interpretado de maneira totalmente unidimensional por Dan O’Herlihy e o prefeito Kuzak, vivido com muito abuso do overacting por Willard Pugh, numa tentativa de tornar o personagem engraçado que raramente funciona. Quem também não funciona por boa parte do tempo são os vilões liderados por Cain, que não soam ameaçadores até o instante em que capturam RoboCop e devolvem o ciborgue esquartejado, numa cena forte que, somada a tortura do corrupto policial Duffy (Stephen Lee), finalmente consegue fazer o espectador temer pelo destino do protagonista. Esta ameaça é reforçada quando o vilão interpretado por Tom Noonan é assassinado pela Dra. Faxx e transformado no RoboCop 2, criando um oponente a altura de um RoboCop que, até então, parecia indestrutível.

Sistema antirrouboOdiável chefe da PCOTransformado no RoboCop 2

A psiquiatra Faxx, aliás, apresenta conceitos muitos interessantes durante a fase de estudos para simplesmente abandoná-los e tornar-se unidimensional no decorrer da narrativa, num desperdício de boas ideias e do potencial da personagem que é imperdoável, abandonando temas como as motivações que levam alguém a entrar para o mundo do crime e o peso do contexto social naquela formação de personalidade para focar apenas na construção de uma verdadeira máquina de matar. Assim, uma personagem que poderia trazer fortes questionamentos se transforma numa vilã maquiavélica sem razão aparente para isto – e a atuação de Belinda Bauer também se divide em duas etapas bem distintas, surgindo meiga inicialmente e mudando radicalmente para um tom agressivo na metade final da narrativa.

Mais uma vez apresentado numa sequência cuidadosamente planejada, desta vez acompanhando uma série de crimes pela cidade que só serão interrompidos pela presença dele, RoboCop continua impondo respeito com sua armadura intransponível e sua lógica inabalável, que fazem com que o espectador raramente tema por seu futuro. Desta vez oferecendo mais espaço para Peter Weller atuar, o ciborgue continua uma incógnita. Não sabemos se ele age estritamente conforme sua programação ou se ainda existe humanidade dentro dele, como sugere a sequência do diálogo com a esposa no início – num drama que poderia ser melhor explorado, mas que também é descartado pelo roteiro sem razão aparente. Em certo momento, RoboCop toma uma decisão consciente e leva um choque, reiniciando sua configuração, o que depõe contra a visão de que ele deveria agir somente de acordo com o programa, mas esta resposta nunca é dada com certeza, apesar do forte indício de que ele finge seguir as diretrizes, mas na realidade tem consciência própria.

Na condução de toda esta bagunça, Irvin Kershner jamais consegue acertar o tom, oscilando demasiadamente entre a ação e o humor. Enquanto as cenas de ação raramente empolgam, as piadas nitidamente carecem de inspiração, como quando RoboCop surge todo atrapalhado após sua recuperação. Ao menos, se falha miseravelmente como sequência cômica, serve para mostrar como não é simples combater o crime sem ter uma postura mais agressiva e como é tênue a linha que separa um policial de, na tentativa de manter todos dentro da lei, infringi-la. Estes, no entanto, não são os piores momentos, ainda que a sequência que traz crianças assaltando uma loja com roupas de beisebol se esforce para tal. Mais ridículo ainda é o instante em que o RoboCop 2 tenta seduzir uma moça com um pênis de metal (sério?) que, além de descartável e de extremo mau gosto, traz um machismo inacreditável implícito na cena. E se traz crianças participando do mundo do crime, porque não incluir o filho do RoboCop entre os vilões? A óbvia decisão dos roteiristas é escancarada com segundos de filme, estragando algo que poderia até conferir certo peso dramático ao longa.

Psiquiatra FaxxRoboCop continua impondo respeitoRoboCop surge todo atrapalhado

Ao menos os efeitos sonoros e visuais continuam excelentes e a trilha sonora de Leonard Rosenman marca forte presença sublinhando as sequências de ação com frequência maior que no longa anterior. Por outro lado, a fotografia claramente mais colorida de Mark Irwin e o menor grau de violência gráfica escancaram os interesses puramente comerciais por trás do projeto, algo que dificilmente ocorreria caso Paul Verhoeven continuasse na cadeira de diretor. Até temos momentos violentos, como a citada tortura ao policial Duffy, mas nada comparado ao estilo bem mais agressivo do diretor holandês.

Mesmo com tantos problemas, “RoboCop 2” se recupera com o interessante clímax que traz o esperado confronto entre os dois ciborgues, num embate enérgico bem conduzido por Irvin Kershner, obviamente beneficiado pelos excepcionais efeitos visuais. Contudo, esta conclusão não apaga os inúmeros equívocos de um longa que até diverte, mas, assim como o personagem que dá nome ao filme, está bem abaixo de seu antecessor.

RoboCop 2 foto 2Texto publicado em 22 de Janeiro de 2016 por Roberto Siqueira