CORRA QUE A POLÍCIA VEM AÍ (1988)

(The Naked Gun: From the Files of Police Squad!)

3 Estrelas 

 

Videoteca do Beto #215

Dirigido por David Zucker.

Elenco: Leslie Nielsen, George Kennedy, Ricardo Montalban, Priscilla Presley, O.J. Simpson, Susan Beaubian, Nancy Marchand, Raye Birk, Ed Williams e ‘Weird Al’ Yankovic.

Roteiro: Jerry Zucker, Jim Abrahams, David Zucker e Pat Proft.

Produção: Robert K. Weiss.

Corra que a Polícia vem aí[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apesar de não ter muita conexão com o restante da narrativa, a cena de abertura de “Corra que a Polícia vem aí” resume bem o que é o filme. Se por um lado funciona para gerações mais velhas ao satirizar líderes mundiais da época, por outro as pessoas mais jovens e que não conheçam as figuras ali representadas certamente não verão muita graça naquilo tudo (ainda que seja sempre interessante estudar a história e conhecer o passado, não é mesmo?). Este é o problema de sátiras muito focadas nos acontecimentos de sua época. Com o passar dos anos, elas ficam datadas. No entanto, mesmo deixando de lado estas piadas centradas nos acontecimentos dos anos 80, ainda temos outras muito divertidas que funcionam bem até hoje.

Escrito a oito mãos por Jerry Zucker, Jim Abrahams, David Zucker e Pat Proft (três deles roteiristas da série televisiva que inspirou o filme), “Corra que a Polícia vem aí” traz o atrapalhado detetive Frank Drebin (Leslie Nielsen) numa investigação sobre a tentativa de assassinar seu parceiro Nordberg (O.J. Simpson), que acaba levando-o a colidir com o magnata Vincent Ludwig (Ricardo Montalban) justamente durante a visita da Rainha Elizabeth II (Jeannette Charles) a cidade de Los Angeles.

Após a abertura em Beirut, somos transportados para uma Los Angeles ensolarada e alegre que contrasta bem com os ambientes sombrios percorridos pelo detetive durante a noite, numa composição visual do diretor de fotografia Robert Stevens que remete claramente aos filmes noir. A referência se torna ainda mais óbvia graças à divertida narração em off de Nielsen e a trilha sonora composta por Ira Newborn, que ajudam a construir o clima noir sem jamais perder de vista a atmosfera leve que uma comédia pede, numa mistura não tão simples de se conseguir como parece.

No entanto, mais importante que o visual é a criatividade dos roteiristas na concepção de piadas e gags interessantes, que se acumulam num ritmo agradável graças ao bom trabalho do montador Michael Jablow e a condução do diretor David Zucker. Apostando num humor baseado no exagero e no choque através do absurdo, Zucker demonstra habilidade para manter o interesse do espectador através de sequências como o incêndio na casa de Ludwig, que se apoia em outra cena ocorrida antes em que o proprietário da casa explica detalhadamente o valor de alguns objetos que obviamente serão destruídos pelo desajeitado detetive Drebin, ocasionando o incêndio e a fuga atrapalhada do protagonista.

Ambientes sombriosIncêndio na casa de LudwigLetreiros na tela

O humor baseado no exagero vem acompanhado de muitas piadas sobre o cotidiano dos policiais norte-americanos e referências à cultura pop da época, como numa sequência embalada pela música I’m into something good que termina com letreiros na tela exatamente como era feito nos videoclipes da MTV. Ao satirizar elementos populares da cultura norte-americana, “Corra que a Polícia vem aí” naturalmente cria conexão com grande parte da plateia, mas nada disso funcionaria tão bem não fosse o talento de Leslie Nielsen.

Já famoso pelo sucesso de “Apertem os Cintos… O Piloto Sumiu!”, Nielsen novamente se mostra muito a vontade como protagonista de uma comédia de absurdos, compondo o detetive Drebin como um sujeito sério que não tem a menor noção do que ocorre ao seu redor e que sequer percebe as consequências de seus atos – algo que ele comprova toda vez que estaciona seu carro. Repare, por exemplo, a naturalidade com que ele se pronuncia no engraçado diálogo com a esposa de Nordberg no hospital, diminuindo as esperanças da moça sem piedade e, o que é pior, sem perceber que está fazendo isso. E justamente nesta falta de travas e até mesmo certa inocência que reside o sucesso do personagem.

Sujeito sérioEngraçado diálogoComida chinesa vencida

Particularmente, os momentos que mais me agradam são a piada com comida chinesa vencida na casa dele (a reação de Nielsen ao abrir a embalagem é hilária) e a sequência da partida de beisebol em que ele é o árbitro, na qual as reações exageradas de Nielsen arrancam boas gargalhadas.

Gerações mais novas podem não entender algumas piadas de “Corra que a Polícia vem aí”, mas ainda assim a capacidade de envolver o espectador e de lhe proporcionar diversão está mantida. Ou seja, o longa estrelado por Leslie Nielsen pode até já estar datado, mas ainda continua muito divertido.

Corra que a Polícia vem aí foto 2Texto publicado em 12 de Janeiro de 2016 por Roberto Siqueira

ROBOCOP – O POLICIAL DO FUTURO (1987)

(RoboCop)

4 Estrelas

 

 

Videoteca do Beto #214

Dirigido por Paul Verhoeven.

Elenco: Peter Weller, Nancy Allen, Dan O’Herlihy, Ronny Cox, Kurtwood Smith, Miguel Ferrer, Robert DoQui, Ray Wise, Felton Perry, Paul McCrane, Jesse D. Goins, Del Zamora, Lee de Broux, Calvin Jung, Rick Lieberman, Mark Carlton, Edward Edwards, Michael Gregory, Gene Wolande e Angie Bolling.

Roteiro: Edward Neumeier e Michael Miner.

Produção: Arne Schmidt.

RoboCop – O Policial do Futuro[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Num cenário dominado pela criminalidade, o surgimento de alguém capaz de oferecer real proteção aos cidadãos deveria ser algo a se comemorar. No entanto, oferecer proteção e permanecer dentro da lei não é algo tão simples quanto parece, ainda mais quando, dominadas pelo medo, as pessoas tendam a apoiar a justiça feita pelas próprias mãos, mesmo que, para isso, seja preciso deixar a lei de lado, num paradoxo complexo que oferece elementos para uma discussão quase infinita. Qual é a solução? O ideal seria uma sociedade que não gere criminosos, mas este é outro tema ainda mais complexo que não pretendo desenvolver aqui. E o que isto tem a ver com “RoboCop – O Policial do Futuro”? Simples. Apesar de uma leitura superficial apontar o longa de Verhoeven como um ótimo filme de ação, é perfeitamente possível extrair reflexões muito interessantes sobre a natureza da violência urbana e, principalmente, sobre o nosso comportamento diante dela.

Roteirizado por Edward Neumeier e Michael Miner, “RoboCop – O Policial do Futuro” nos leva a um violento futuro distópico no qual a cidade de Detroit é totalmente tomada pelo crime. É neste ambiente que o policial Alex J. Murphy (Peter Weller) é brutalmente assassinado por traficantes e se transforma na cobaia de um projeto ambicioso que cria um ciborgue de titânio, capaz de enfrentar praticamente sozinho os criminosos locais. No entanto, resquícios de memórias começam a surgir na mente dele e colocam em risco o projeto justamente pela presença de elementos humanos como a saudade e o desejo de vingança.

Auxiliado pelo design de produção de William Sandell e pela fotografia acinzentada de Jost Vacano, Paul Verhoeven concebe uma Detroit extremamente suja e deteriorada que, reforçada pelas notícias de crimes no telejornal e até mesmo pelos violentos comerciais de brinquedos, gera a atmosfera de apreensão e medo pretendida pelo diretor. Neste contexto de extrema violência urbana, fica mais fácil trazer o espectador para o lado da polícia, sem que este se importe muito com as razões pelas quais aquela sociedade caminhou naquela direção extrema, onde um casal de idosos é assaltado por um homem armado até os dentes e moças são atacadas brutalmente pelas ruas.

Desde a abertura, aliás, Verhoeven já estabelece o tom sombrio através da trilha sonora de Basil Poledouris, que sublinha perfeitamente a narrativa e ainda ilustra a adrenalina do espectador quando RoboCop começa a agir nas raras inserções da empolgante música tema. Sempre relevantes num filme futurista como este, os efeitos visuais também funcionam muito bem, ainda que algumas cenas já estejam datadas, especialmente quando envolvem o robô ED209, mas este é um pecadilho quase inofensivo diante do impacto visual proporcionado em “RoboCop – O Policial do Futuro”.

Notícias no telejornalSequência de apresentação de ED209Brutal assassinato de Murphy

É verdade que grande parte deste impacto vem através da violência gráfica que se tornou uma das marcas de Verhoeven, como atestam a sequência de apresentação de ED209 e o brutal assassinato de Murphy, conduzidos sem concessões pelo diretor, que faz questão de realçar o violento resultado de cada tiro contra as vítimas. Além disso, Verhoeven e seu montador Frank J. Urioste imprimem um ritmo seco e direto à narrativa, que torna tudo ainda mais realista por não recorrer a invencionices. Também marcante em sua filmografia, o senso de humor peculiar dá as caras em alguns momentos, como na reação de muitos dos funcionários presentes no massacre promovido por ED209 contra um deles na citada apresentação, na qual parecem nem se importar com o que acabaram de testemunhar. É um tipo de humor sarcástico, quase trágico, que nos faz rir mais pelo absurdo da situação do que por ter alguma graça ali. E é neste tipo de reação provocada no espectador que reside um dos maiores méritos de Verhoeven.

Ganhando destaque como a fiel parceira do protagonista, Nancy Allen compõe Lewis como uma policial determinada, demonstrando real preocupação com o parceiro e destoando das atuações unidimensionais de grande parte do elenco. Isto por que Ronny Cox encarna Dick Jones como um homem detestável, não deixando nenhum espaço para que o espectador compreenda suas motivações, assim como fazem Kurtwood Smith, Ray Wise, Paul McCrane e Jesse D. Goins na pele dos integrantes da gangue que assassina Murphy e comanda o tráfico local. Miguel Ferrer também não colabora ao compor Morton simplesmente como um ambicioso sem escrúpulos, ainda que diante de Dick Jones ele empalideça. Talvez a rara exceção fique por conta de Dan O’Herlihy, que vive o líder da PCO como alguém igualmente ambicioso e obviamente interessado apenas nos lucros que os projetos podem trazer, mas que ao menos tem sabedoria para ouvir todos os envolvidos nos projetos da empresa e demonstra alguma sensibilidade em momentos específicos.

Policial determinadaHomem detestávelLíder da PCO

É curioso notar, aliás, como o roteiro tem o cuidado de abordar aspectos interessantes envolvendo os personagens secundários, como a preocupação dos policiais com o surgimento do RoboCop (“Vão nos substituir?”) e a ligação de um empresário com o tráfico de drogas, ainda que estas questões sejam ofuscadas diante da quantidade de questionamentos que envolvem a criação do personagem título, seja pelo aspecto moral e ético, seja pela reação da plateia diante de suas ações.

Indicando o futuro trágico do policial vivido por Peter Weller através de um close na plaqueta com seu nome no armário que ecoa outra cena ocorrida minutos antes, Verhoeven e sua equipe criam um herói icônico com seu visual metalizado e extremamente funcional após ser transformado num ciborgue, reforçado pelo excepcional design de som que realça a imagem de policial indestrutível através do impacto de seus passos e dos pequenos sons que acompanham cada movimento dele. Além disso, os planos subjetivos durante a cirurgia e nos primeiros momentos da nova vida como RoboCop nos colocam na pele de Murphy e criam a identificação necessária para que o espectador se importe ainda mais com o protagonista, que se torna mais humano através das lembranças de sua família que tanto o atormentam, nos colocando em dúvida sobre a sua natureza. Seria ele somente um programa de computador ou ainda existia algum traço de humanidade ali? O que define a nossa condição humana, afinal? O corpo em que vivemos ou o que se passa em nossas mentes?

Futuro trágicoPlanos subjetivos durante a cirurgiaApresentado com toda a pompa e circunstância

Esta identificação torna mais intensas sequências como o chocante ataque dos policiais contra RoboCop, que se torna ainda mais marcante pela concepção visual de Verhoeven, com seus planos nos colocando sob a mira dos tiros e, posteriormente, envoltos na cortina de poeira que emana do chão. O diretor, aliás, trabalha seu protagonista com esmero desde sua impactante apresentação, quando o vemos rapidamente numa pequena televisão, depois andando atrás de um vidro que deturpa a visão, até que finalmente ele é apresentado com toda a pompa e circunstância. Não são raras as cenas que reforçam a aura icônica do personagem, como quando ele surge em frente às chamas que tomaram conta de um posto ou nos momentos em que a sombra indica sua chegada.

Com o espectador completamente conectado ao protagonista, fica fácil justificar toda e qualquer ação dele. Afinal de contas, numa sociedade tomada pela violência, quem não gostaria de ter um super policial para protegê-lo? E aí reside a grande reflexão provocada pela subversiva obra de Verhoeven. Quais são as nossas reações diante das ações de RoboCop? Obedecendo às suas diretrizes, em teoria ele não pode ser considerado culpado mesmo quando pune um criminoso cometendo outro crime, certo? Então assassinar um criminoso inescrupuloso como Dick Jones a sangue frio somente por que ele acabara de ser demitido e, portanto, não se enquadrava mais em sua quarta diretriz não tem problema algum? Quando RoboCop comete um assassinato, isto não o torna um criminoso também? O final eletrizante na siderúrgica repleto de momentos graficamente violentos (como um dos bandidos sendo corroído pelo lixo tóxico) e a tensa sequência seguinte na PCO nos faz vibrar com a vingança de RoboCop. Justificável? Estamos certos? Que cada espectador reflita a respeito, pois as questões abordadas por “RoboCop – O Policial do Futuro” levam o filme muito além de sua superfície.

Não que esta superfície deva ser menosprezada. Afinal, trata-se de um ótimo filme de ação, com o diferencial que, além das boas sequências regadas a tiros e muito sangue, consegue também levantar uma série de reflexões interessantes.

RoboCop – O Policial do Futuro foto 2Texto publicado em 25 de Novembro de 2015 por Roberto Siqueira

IMPÉRIO DO SOL (1987)

(Empire of the Sun)


5-estrelas

 

Videoteca do Beto #213

Dirigido por Steven Spielberg.

Elenco: Christian Bale, John Malkovich, Miranda Richardson, Nigel Havers, Joe Pantoliano, Leslie Phillips, Masatô Ibu, Emily Richard, Rupert Frazer, Peter Gale, Ben Stiller, J.G. Ballard e Burt Kwouk.

Roteiro: Tom Stoppard, baseado em romance de J.G. Ballard.

Produção: Kathleen Kennedy, Frank Marshall e Steven Spielberg.

Império do Sol[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Dois anos após dirigir seu filme considerado tematicamente mais sério até então, Spielberg voltaria a flertar com uma narrativa menos voltada para o entretenimento puro neste “Império do Sol”, ainda que neste caso a pureza e a inocência trazidas pelo protagonista alivie um pouco o peso de um longa que utiliza a Segunda Guerra Mundial como pano de fundo. Já famoso por sua habilidade na construção de narrativas empolgantes após enfileirar sucessos como “Tubarão”, “Os Caçadores da Arca Perdida” e “E.T. – O Extraterrestre”, entre outros, o diretor parecia trilhar neste instante de sua carreira o caminho da busca pelo reconhecimento artístico que só viria a se consolidar com a obra-prima “A Lista de Schindler”, alguns anos mais tarde. Engana-se, no entanto, quem pensa que os inúmeros sucessos anteriores de Spielberg não tenham grande valor, como prova este sensorial e excelente longa estrelado por um ainda muito jovem Christian Bale.

Escrito por Tom Stoppard com base em romance de J.G. Ballard, “Império do Sol” nos leva ao cotidiano do jovem britânico Jim Graham (Christian Bale) na China, dias antes da invasão japonesa que culminaria na separação de sua família e deixaria o garoto solitário em meio à opressão nipônica, sendo obrigado a encontrar maneiras de sobreviver ao sangrento período da Segunda Guerra Mundial. Levado a um campo de concentração, ele encontra refúgio na companhia de pessoas especiais como o soldado norte-americano Basie (John Malkovich) ou a elegante Sra. Victor (Miranda Richardson), que de maneiras distintas ajudariam o garoto a superar aqueles tempos difíceis.

Auxiliado pela competente direção de fotografia de Allen Daviau, Spielberg aproveita muito bem o famoso nascer e o pôr-do-sol do oriente para criar cenas visualmente belíssimas, que se apoiam na eficiente reconstituição de época do design de produção de Norman Reynolds para transportar o espectador para aquela região do planeta, nesta que foi a primeira produção de Hollywood a conseguir permissão para filmar dentro da República da China, algo que o diretor soube aproveitar em tomadas externas que valorizam as locações, como na invasão dos japoneses em Hong Kong. Mas o cuidado não é apenas estético e o diretor faz questão, por exemplo, de ressaltar o forte contraste entre o luxo que envolve o menino inglês e a miséria representada pelo mendigo que ele observa da janela do carro quando deixa sua mansão e tem contato com a dura realidade dos pobres chineses. Além disso, seu quarto decorado com diversos aviões já anuncia a paixão do garoto pelo tema, o que seria crucial em alguns momentos da narrativa. Finalmente, não dá para deixar de citar o gigante e belo outdoor do filme “E o Vento Levou”, que faz referência a outro épico em que a guerra serve de pano de fundo para a narrativa.

Imagens pôr do solInvasão japonesaPaixão por aviões

Colaborando para criar uma atmosfera épica, a trilha sonora evocativa de John Williams marca presença em diversos momentos de impacto, como quando Jim brinca dentro de um avião caído no gramado próximo a sua residência e imagina estar voando nele, momentos antes de dar de cara com homens do exército e ter seu primeiro contato mais próximo com a realidade da guerra. Igualmente competente, o design de som se destaca em pequenas sutilezas como ao nos permitir distinguir o ricochete de objetos metálicos em meio às bombas que explodem durante a invasão dos japoneses. Spielberg conta ainda com a montagem de seu parceiro Michael Kahn para estabelecer um ritmo contemplativo em diversos momentos, reforçando a natureza épica do longa, destacando-se ainda na sutileza de belas transições como aquela que transforma o sangue de uma vítima na fumaça que surge no horizonte ou nos raros momentos em que acelera o ritmo da narrativa, como na empolgante sequência em que Jim corre pelo campo de concentração enquanto faz diversas tarefas.

Entre o elenco, vale destacar John Malkovich, que transmite sabedoria vivendo o verdadeiro porto seguro de Jim no campo e faz de seu Basie um personagem cativante, assim como Miranda Richardson, que vive a amável Sra. Victor como uma personagem curiosa ao despertar sentimentos díspares no garoto, servindo em certos momentos como a figura materna que tanto lhe fazia falta e, justamente por não ser a mãe biológica do garoto, despertando também sua curiosidade por detalhes da vida adulta como o relacionamento amoroso entre ela e o marido, já que não existia ali o distanciamento natural que a mãe biológica normalmente provoca nos filhos. A título de curiosidade, temos ainda a participação de um ainda desconhecido Ben Stiller como um dos norte-americanos.

Mas o que impressiona de fato é como Bale carrega o filme com facilidade, mesmo ainda criança e lidando com uma temática pesada e difícil. Transmitindo a inocência da infância ao mesmo tempo em que demonstra uma determinação tocante e uma esperteza vital para sobreviver naquele ambiente, Jim torna-se um personagem plausível na pele do talentoso ator exatamente pela maneira natural com que ele encara o desafio, sem jamais se entregar a melodramas e exageros que poderiam ser comuns naquela fase da vida.

Brincando com o aviãoPorto seguroCarrega o filme

É interessante notar também como nesta fase da carreira Spielberg também evita se entregar em demasia ao melodrama, humanizando os personagens de maneira natural e nada apelativa, como quando um menino japonês reencontra Jim e se alegra por isso, sendo assassinado em seguida pelos norte-americanos, reforçando a idiotice da guerra. Observe também como o diretor utiliza o símbolo do carro da família como um recurso narrativo interessante para nos informar a proximidade do reencontro entre o garoto e seus pais, que ocorreria de maneira igualmente natural, sem a necessidade de pesar a mão já que aquele reencontro já era emocionante por si só.

Esta ausência paterna (e aqui materna também) reforça o tema mais forte na filmografia de Spielberg como fio condutor da narrativa, abordando também, ainda que de maneira quase fabulesca, outro tema que lhe seria caro, a Segunda Guerra Mundial. Demonstrando seu enorme talento, Spielberg conduz o filme de maneira sensorial, destacando-se tanto em cenas dramaticamente mais intensas, como a forte separação entre Jim e seus pais em meio multidão desesperada sob o ataque dos japoneses, que transmite com precisão a sensação de urgência e o horror da guerra através da câmera agitada, como em momentos carregados de tensão, como a perseguição do sargento Nagata (Masatô Ibu) ao menino que rasteja pela lama e, especialmente, nos inúmeros instantes em que Spielberg parece parar o tempo para nos deleitar com imagens lindíssimas. Aliás, somente um diretor do calibre de Spielberg poderia transformar um bombardeio numa cena tão bela visualmente, transformando os terríveis efeitos da guerra em algo quase poético, assim como é lindo o momento em que Jim canta do alto do campo e repentinamente é interrompido pelos aviões norte-americanos que atacam os japoneses, provocando os gritos empolgados do garoto ao identificar os modelos dos aviões que cruzam o local.

Menino japonêsNagataVibra com os aviõesOutra cena linda dirigida com muita sensibilidade por Spielberg resume perfeitamente “Império do Sol”, quando ele utiliza um dos eventos mais trágicos da história da humanidade para simbolizar a morte de uma importante personagem. Trata-se de um momento poético, em que o horror da guerra é filtrado pelo olhar sonhador e inocente de uma criança. Talvez o próprio Spielberg ainda fosse como aquele menino e, com o amadurecimento e o inevitável ceticismo que vem ao longo dos anos, ele deixaria de lado a poesia para tratar o mesmo tema com mais crueza em breve.

Império do Sol foto 2Texto publicado em 02 de Novembro de 2015 por Roberto Siqueira

TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE (1976)

(All the President’s Men)

5-estrelas

 

obra-prima

 

Videoteca do Beto #211

Dirigido por Alan J. Pakula.

Elenco: Robert Redford, Dustin Hoffman, Jason Robards, Martin Balsam, Jack Warden, Hal Holbrook, Jane Alexander, Meredith Baxter e James Karen.

Roteiro: William Goldman, baseado em livro de Carl Bernstein e Bob Woodward.

Produção: Walter Coblenz.

Todos os Homens do Presidente[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

No dia 18 de Junho de 1972, o jornal Washington Post estampou em sua capa o assalto ocorrido na noite anterior à sede do Partido Democrata no hotel Watergate, que levou os cinco homens presentes a julgamento. A investigação que se seguiu levou a descoberta de um dos maiores crimes políticos da história dos Estados Unidos, culminando na renúncia do então presidente Richard Nixon, já em 09 de Agosto de 1974. Coube então a Alan J. Pakula a missão de transpor para as telonas o histórico processo de investigação. Com a ajuda de um elenco competente e a forte colaboração do influente Robert Redford, o diretor realizou seu maior trabalho atrás das câmeras, uma verdadeira obra-prima do cinema que ainda hoje serve como aula de jornalismo investigativo.

Adaptado por William Goldman com base no livro dos jornalistas do Washington Post diretamente envolvidos no caso Carl Bernstein e Bob Woodward (que aqui são interpretados por Dustin Hoffman e Robert Redford respectivamente), “Todos os Homens do Presidente” acompanha todo o processo investigativo desde a manhã seguinte ao assalto a Watergate ainda durante a campanha presidencial dos Estados Unidos em 1972 até a publicação da matéria que levaria o então presidente Nixon a renúncia. Condensar num filme de pouco mais de duas horas uma investigação envolvendo dezenas de pessoas e diversos diálogos reveladores sem ser maçante não é uma tarefa fácil, mas o trabalho de Goldman é digno de nota, não apenas por ser fiel aos acontecimentos, mas também por evitar que o espectador se perca diante de tantas informações. Com este excelente roteiro em mãos, restou a Alan J. Pakula a tarefa de dar vida ao material e o diretor se saiu maravilhosamente bem.

Baseando a narrativa no trabalho dos jornalistas, Pakula e seu montador Robert L. Wolfe imprimem um ritmo ágil que se revela essencial para manter o espectador envolvido no processo investigativo, colocando-nos na posição de investigadores ao lado de Bernstein e Woodward. Para auxiliar nesta aproximação entre a plateia e os jornalistas, Pakula utiliza a câmera muitas vezes próxima dos atores, nos permitindo praticamente sentir o que eles sentem e, ao compartilhar conosco o trabalho tanto no escritório quanto em suas residências, o diretor também faz com que o espectador processe as informações e se sinta parte da investigação. Observe, por exemplo, como na sequência em que eles buscam sem sucesso documentos que comprovem certa conexão dentro da Biblioteca Nacional, a câmera se afasta e diminui os personagens em cena, transmitindo a sensação de impotência de ambos naquele instante específico.

Por outro lado, sempre que eles conseguem alguma informação nova ou estão no meio de um diálogo importante, a câmera se movimenta com agilidade, transmitindo a empolgação dos personagens e o senso de urgência destes momentos, especialmente através dos travellings que acompanham Bernstein e Woodward correndo pela redação do Washington Post, servindo ainda para nos apresentar ao grande número de jornalistas presentes no local, o que realça o tamanho do feito da dupla principal, já que para encabeçar aquela importante investigação, eles tiveram que superar diversos concorrentes até mesmo mais experientes.

Câmera muitas vezes próxima dos atoresBiblioteca NacionalBernstein e Woodward correndo pela redaçãoA redação do Washington Post, aliás, realça o excepcional design de produção de George Jenkins, que além de reconstituir o local com precisão, ainda reflete através da profundidade de suas linhas retas e de seu ambiente amplo e caótico o universo de informações que os personagens estavam mergulhando (algo perfeitamente ilustrado também no plano plongè na biblioteca acima mencionado), servindo também para realçar traços da personalidade dos protagonistas. Repare, por exemplo, como as anotações de Woodward, ainda que desorganizadas, transmitem sua sede por informações relevantes e sua maneira de organizar o raciocínio, contrapondo-se muito bem ao comportamento mais atirado de Bernstein, que utiliza métodos mais agressivos para obter o que deseja, como quando engana uma secretária para conseguir falar com determinado personagem.

Redação do Washington PostAnotações de WoodwardMétodos mais agressivosEstabelecendo uma excelente dinâmica entre eles, Redford e Hoffman dão um show de interpretação, transmitindo a importância de cada informação obtida através de suas reações, realçadas pela câmera de Pakula – repare, por exemplo, o close no rosto de Redford durante o diálogo com Dahlberg, que se confirmaria como um importante passo na investigação, assim como ocorre com Bernstein já no ato final quando através de uma inteligente sacada ele arranca uma confirmação de uma fonte sem necessitar de uma palavra sequer.

Aliás, os dois exibem um verdadeiro arsenal de técnicas investigativas que se demonstram eficientes ao conseguir as informações desejadas sem, para isto, colocar os informantes em posição muito desconfortável. É óbvio que vez por outra é necessário jogar alguém contra a parede, mas este processo é sempre feito de maneira ética e sagaz pela dupla, como quando conseguem a ajuda de uma colega de redação, mesmo com Woodward se recusando a forçar a garota a dizer o que não queria – e a atuação de Lindsay Crouse neste instante é tocante, transmitindo o quão dolorido seria aquele ato pra ela somente através de sua expressão ao ouvir a proposta dos colegas. Trazendo uma verdadeira lição de jornalismo, os repórteres obtêm informações muitas vezes sem necessitar de declarações explícitas, trabalhando nas entrelinhas e, o que é mais importante, checando cada informação duas ou três vezes antes de publicar a matéria.

Vestidos em ternos sóbrios que transmitem a seriedade da dupla (figurinos de Bernie Pollack), Bernstein e Woodward se complementam num trabalho em equipe eficiente que abre espaço para opiniões divergentes, mas sempre com respeito pela posição contrária. Este é, aliás, o clima que predomina também na redação do Washington Post, liderada pelo excelente Jason Robards, que se destaca como o chefe Bradlee, mostrando-se um líder de verdade ao apoiar seus repórteres nos momentos mais difíceis e extrair o máximo deles durante a investigação, recusando-se a divulgar matérias quando entende faltar sustentação e, por outro lado, enfrentando a fúria dos poderosos quando acha que o material tem base suficiente para chegar ao público. Tomando a frente nas reuniões de pauta, Robards se destaca num elenco que conta ainda com atores talentosos como Martin Balsam, Jack Warden e Hal Holbrook, além é claro de Jane Alexander, que protagoniza uma das melhores cenas do longa ao lentamente ceder informações para Bernstein e escancarar a ameaça por trás daquilo tudo, num diálogo intenso e tocante ocorrido dentro da casa dela.

Ajuda de uma colega de redaçãoChefe BradleeDiálogo intenso e tocanteTambém dentro de uma residência, desta vez o apartamento de Woodward, ocorre outro momento interessante quando, para evitar ser ouvido pelo grampo instalado no local, Bernstein aumenta o volume da música, numa das raras ocasiões em que a discreta trilha sonora de David Shire chama a atenção, desta vez utilizando o som diegético e não sua composição minimalista. Nada discreta, porém, é a forma como o mestre Gordon Willis fotografa “Todos os Homens do Presidente”, abusando de momentos extremamente sombrios que contrastam com o visual mais claro da redação do jornal, simbolizando que ali revelações obscuras viriam à tona. Repare também como o uso das sombras torna ainda mais tensa à sequência do assalto à sede do Comitê Nacional Democrata em Watergate, conduzida com precisão pelo diretor. Da mesma forma, as citadas cenas chave dentro das residências surgem predominadas pelas sombras, assim como as conversas no estacionamento de um shopping entre Woodward e o misterioso “Garganta Profunda” (interpretado pelo ótimo Hal Holbrook), que mal pode ser identificado com seu rosto quase completamente imerso na escuridão.

Revelações obscuras viriam à tonaGarganta ProfundaPresidente NixonUtilizando ainda imagens de arquivo do presidente Nixon para conferir mais realismo a narrativa, Willis e Pakula conseguem transmitir o tom de seriedade que a história pedia ao ser levada às telas pouquíssimo tempo depois do ocorrido. Diante da sensibilidade do tema e da proximidade do fato, uma abordagem incorreta poderia afundar a carreira dos envolvidos, mas felizmente não foi o que aconteceu. Numa imagem que ilustra perfeitamente a força do chamado Quarto Poder, o plano final com Woodward e Bernstein escrevendo a matéria enquanto o reeleito Nixon faz sua declaração na televisão é sensacional, registrando a ironia de um instante em que o homem mais poderoso do país era glorificado enquanto dois jornalistas de um jornal nem tão importante trabalhavam duro na matéria que iria desmascará-lo pouco tempo depois.

Com sua narrativa envolvente, atuações competentes e a segura direção de Pakula, “Todos os Homens do Presidente” é uma obra-prima que não deveria servir apenas como aula de jornalismo investigativo. O longa estrelado por Redford e Hoffman é, na verdade, uma verdadeira aula de cinema.

Todos os Homens do Presidente - foto 2Texto publicado em 26 de Julho de 2015 por Roberto Siqueira

007 O MUNDO NÃO É O BASTANTE (1999)

(The World is not enough)

3 Estrelas 

Videoteca do Beto #209

Dirigido por Michael Apted.

Elenco: Pierce Brosnan, Sophie Marceau, Robert Carlyle, Denise Richards, Robbie Coltrane, Judi Dench, Desmond Llewelyn, John Cleese, Maria Grazia Cucinotta, Samantha Bond, Michael Kitchen, Colin Salmon e Ulrich Thomsen.

Roteiro: Neal Purvis, Robert Wade e Bruce Feirstein, com base nos personagens criados por Ian Fleming.

Produção: Michael G. Wilson e Barbara Broccoli.

007 O Mundo não é o bastante[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Se por um lado as cenas de ação não garantem o sucesso de um filme de James Bond, por outro a falta delas normalmente é sentida pelos fãs, ansiosos pelas sequências mirabolantes em que o agente secreto se livrará do perigo das mais diferentes e originais maneiras imagináveis. No entanto, uma boa narrativa e, especialmente, bons antagonistas costumam saciar parte desta ausência e, felizmente, este é o caso de “007 O Mundo não é o bastante”, longa dirigido por Michal Apted que, se não acerta na condução das sequências, digamos, mais agitadas, ao menos desenvolve bem uma das personagens chave da narrativa.

Escrito por Neal Purvis, Robert Wade e Bruce Feirstein com base nos personagens criados por Ian Fleming, “007 O Mundo não é o bastante” traz James Bond (Pierce Brosnan) incumbido de proteger Elektra King (Sophie Marceau), a herdeira de um bilionário assassinado em plena sede da MI6 que tinha sido sequestrada pelo terrorista Renard (Robert Carlyle), um homem atingido por uma bala de outro agente britânico e que, lentamente, perdeu alguns de seus sentidos – entre eles, a capacidade de sentir dor.

Repleta de adrenalina, a sequência de abertura de “007 O Mundo não é o bastante” dá a falsa sensação de que o longa repetirá o ritmo empolgante de seu antecessor, trazendo Bond fugindo de Bilbao com uma maleta cheia de dinheiro, a explosão de parte do centro da MI6 que resulta na morte de Sir Robert King (David Calder) e a perseguição de lancha pelo rio Tâmisa que culmina no suicídio da atiradora enviada por Renard do alto de um balão. No entanto, estes momentos não surgem com tanta frequência ao longo da narrativa e, quando surgem, nem sempre são conduzidos com destreza pelo diretor. O ataque ao galpão de Valentin Zukovsky (Robbie Coltrane) no mar Cáspio, por exemplo, é uma sequência bastante agitada, mas um pouco confusa, graças à montagem excessivamente dinâmica de Jim Clark e a fotografia às vezes sombria de mais de Adrian Biddle, que não nos permite enxergar com clareza o que está acontecendo. Da mesma forma, a sequência final dentro de um submarino jamais consegue nos empolgar e, pra piorar, ainda enfraquece o vilão Renard, que é facilmente derrotado por Bond.

Ainda assim, merecem destaque as belas imagens que surgem na intensa perseguição em que Bond e Elektra fogem esquiando e, principalmente, a cena em que Bond e Christmas Jones (Denise Richards) tentam desarmar uma bomba dentro de um oleoduto, certamente uma das mais tensas do filme. Embalando estes escassos momentos de tensão, a trilha sonora de David Arnold utiliza com mais frequência o tema clássico de 007, incluindo também as tradicionais variações da música tema – a interessante “The World is not enough”, do grupo Garbage.

Perseguição de lancha pelo rio TâmisaAtaque ao galpão de Valentin ZukovskyBond e Christmas Jones tentam desarmar uma bombaComo já mencionado, Robbie Coltrane dá as caras novamente como o divertido ex-agente da KGB Valentin Zukovsky, o “amigo” russo de James Bond que tem envolvimento com os negócios milionários da família King. Já Samantha Bond mantém o charme e o sarcasmo de Moneypenny, a sempre simpática secretária que nunca concretiza o romance com Bond e que, desta vez, tem uma rápida crise de ciúmes diante da médica dele. Escolhido para ser o substituto de “Q”, John Cleese encarna “R” com o mesmo sarcasmo de seu antecessor, numa escolha que me deixa feliz por gostar de Cleese, mas triste pela despedida do ótimo Desmond Llewelyn. Enquanto isso, Judi Dench ganha mais espaço para demonstrar seu talento como “M”, ao passo que Denise Richards se limita ao papel de parceira de Bond sem grande destaque na pele de Christmas Jones. E finalmente, Robert Carlyle até soa ameaçador inicialmente, mas Renard é suplantado por Elektra ao longo da narrativa e perde o posto de vilão mais interessante do longa.

Acompanhada pelo poético som de gaitas de fole em sua primeira aparição (referencia à sua participação em “Coração Valente”?), Sophie Marceau compõe uma Elektra frágil e indefesa que, ao mesmo tempo, exala charme e sensualidade, chamando imediatamente a atenção de Bond. No entanto, a boa atuação de Marceau não é suficiente para disfarçar a abordagem nada sutil do diretor Michal Apted, que parece gritar em diversos momentos que ela esconde algo, tornando perceptível para o espectador mais atento desde o início que Elektra está envolvida na morte do pai. Assim, logo no primeiro encontro entre Bond e Renard durante o roubo de uma bomba, o terrorista dá a dica daquilo que o espectador já desconfiava e escancara que Elektra não é tão inocente assim.

Por outro lado, este problema não diminui a complexidade da personagem, uma vítima da síndrome de Estocolmo que, apaixonada pelo sequestrador, enxerga nele também a oportunidade de recuperar o império da mãe que fora parar nas mãos de seu pai. Esta ambição, no entanto, esconde a fragilidade de uma mulher que enxerga sua sensualidade como a única arma que tem para se defender, como fica claro no envolvente diálogo que ela trava com Bond antes de morrer, um breve momento que diz muito sobre a personagem. Ela de fato acreditava que seu poder de sedução poderia salvá-la em qualquer situação, o que chega a ser melancólico.

Renard até soa ameaçador inicialmenteElektra frágil e indefesaIntensidade e carismaMais uma vez comprovando que pode tranquilamente sustentar o papel, Pierce Brosnan vive James Bond com a mesma intensidade e carisma dos filmes anteriores, destacando-se em momentos especiais como o confronto verbal entre Bond e “M” em que desafia sua liderança imediata e, como de costume, saindo-se muito bem nas cenas que exigem esforço físico. Além disso, o ator demonstra bem a determinação do agente em cumprir seu dever ao atirar a queima roupa contra Elektra na frente de “M”, num momento marcante que comprova a frieza do personagem.

Com uma trama interessante, “007 O Mundo não é o bastante” tem bons momentos, apoiando-se mais na narrativa e na qualidade de alguns de seus personagens do que na própria ação para funcionar. E funciona bem, ainda que não ganhe grande destaque na filmografia do agente mais famoso do planeta.

007 O Mundo não é o bastante foto 2Texto publicado em 05 de Junho de 2014 por Roberto Siqueira

007 O AMANHÃ NUNCA MORRE (1997)

(Tomorrow Never Dies)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #208

Dirigido por Roger Spottiswoode.

Elenco: Pierce Brosnan, Jonathan Pryce, Michelle Yeoh, Teri Hatcher, Ricky Jay, Götz Otto, Joe Don Baker, Vincent Schiavelli, Judi Dench, Desmond Llewelyn, Samantha Bond, Colin Salmon, Julian Fellowes, Gerard Butler, Hugh Bonneville e Philip Kwok.

Roteiro: Bruce Feirstein, inspirado nos personagens criados por Ian Fleming.

Produção: Michael G. Wilson e Barbara Broccoli.

007 O Amanhã nunca morre[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após uma estreia apenas morna na pele do agente secreto mais famoso do mundo, Pierce Brosnan finalmente teve a chance de estrelar um grande filme da franquia James Bond neste “007 O Amanhã nunca morre”, longa eletrizante dirigido por Roger Spottiswoode que, além das inúmeras boas cenas de ação, conta com uma narrativa envolvente e ótimos personagens para nos agradar, trazendo ainda uma interessante crítica em sua temática que ajuda a estabelecê-lo como um dos melhores de toda a série.

Inspirado nos personagens criados por Ian Fleming, Bruce Feirstein escreveu o roteiro de “007 O Amanhã nunca morre” e, mesmo não utilizando uma história concebida pelo escritor como base, conseguiu criar uma narrativa envolvente, que traz todas as características marcantes da obra de Fleming. Aqui, James Bond (Pierce Brosnan) tem dois dias para descobrir os planos do bilionário Elliot Carver (Jonathan Pryce), um poderoso homem da mídia que planeja provocar uma crise política mundial em troca de obter os direitos de transmissão exclusiva na China. Só que Carver não sabe que sua esposa Paris (Teri Hatcher) já teve um caso com Bond no passado e pode ser a chave do sucesso do agente ao lado da agente chinesa Wai Lin (Michele Yeoh).

Com um bom roteiro em mãos, Roger Spottiswoode e seus montadores Michel Arcand e Dominique Fortin imprimem um ritmo alucinante ao longa desde o início, quando acompanhamos Bond mais uma vez salvando a pátria enquanto um míssil enviado pelos próprios britânicos se aproxima perigosamente do acampamento na fronteira russa em que ele se encontra – e os planos que acompanham a viagem do míssil são muito interessantes e plasticamente belíssimos. Desde então, nota-se também a qualidade do excepcional design de som, que nos permite distinguir os diálogos das barulhentas explosões que tomam conta do local, numa sequência de abertura agitada que já estabelece o tom da narrativa.

Desta vez explorando a bela Hamburgo, no norte da Alemanha, e a exótica locação no Vietnã em que se passa o segundo ato da narrativa, a fotografia de Robert Elswit define muito bem a diferença entre o frio escritório do comando britânico, o visual mais vivo das sequências ao ar livre e o sufocante encerramento dentro dos navios no ato final, estabelecendo uma diferença que ajuda a gradualmente aumentar o clima de tensão. Obviamente, o ótimo design de produção de Allan Cameron contribui significativamente neste processo através das linhas retas do escritório de onde partem as ordens para Bond, da imponente casa noturna que recebe a festa de Elliot Carver e dos apertados compartimentos de onde os marujos seguem as ordens recebidas no mar. Substituindo Peter Lamont após muitos anos de serviços prestados, o trabalho de Cameron se destaca ainda pelo criativo equipamento de Lin que surge do nada em determinado momento e na divertida apresentação dos acessórios da BMW de 007, que mantém a tradição criativa e inovadora dos gadgets elaborados por Q (Desmond Llewelyn).

Viagem do míssilCriativo equipamento de LinAcessórios da BMWSublinhando muito bem as cenas de ação e servindo também para ampliar a atmosfera de tensão, a boa trilha sonora de David Arnold se destaca mesmo no encontro entre Bond e Paris Carver, criando uma atmosfera romântica sem jamais soar apelativa, trazendo ainda inserções pontuais e bem sucedidas do tema clássico do agente e criando boas variações para a bela música tema “Tomorrow Never Dies”, de Sheryl Crowe.

Numa ousadia rara na série, “007 O Amanhã nunca morre” traz em sua temática uma interessante crítica ao poder da mídia, representada pela figura megalomaníaca de Elliot Carver, o vilão midiático interpretado de maneira eficiente por Jonathan Pryce. Além disso, os diálogos bem construídos ajudam a criar uma dinâmica interessante entre os personagens, como ocorre no primeiro encontro entre Bond e Carver na festa, repleto de ironias de ambas as partes, numa sequência que também serve para evidenciar que a sensual Paris Carver vivida por Teri Hatcher ainda sente atração pelo agente secreto e, de quebra, introduz de maneira eficiente a agente chinesa Lin, que na pele de Michelle Yeoh ganha à agilidade e o carisma necessários para o sucesso da personagem – e a rápida Yeoh se sai muito bem, especialmente nas lutas corporais.

Entretanto, o destaque do elenco fica mesmo para Pierce Brosnan, que equilibra muito bem o charme e o carisma já tradicionais do personagem com seu lado mais agressivo, evidenciado no repentino e convincente ataque ao Dr. Kaufman (Vincent Schiavelli, sempre notável) que faz jus ao famoso bordão “licença para matar”. Já nas ótimas sequências de ação, Brosnan nos faz acreditar que Bond realmente corre perigo, fazendo um esforço físico enorme para livrar-se das arriscadas situações sem jamais perder o senso de humor peculiar do personagem.

Megalomaníaco Elliot CarverSensual Paris CarverCharme e carismaSeguramente o ponto forte do longa, as citadas cenas de ação se espalham por toda a narrativa, misturando sequências de alta tensão com outras extremamente divertidas, todas elas conduzidas com enorme segurança por Roger Spottiswoode. Entre as divertidas, destaca-se a sequência eletrizante que se passa dentro do estacionamento do hotel Atlantic, em Hamburgo, na qual Bond dirige sua BWM pelo controle remoto deitado no banco de trás do veículo – e o diretor nos coloca ao lado dele dentro do carro, nos permitindo ter as mesmas sensações do agente. Em outro instante, Bond se joga de um avião pra mergulhar diretamente no oceano e a câmera o acompanha por todo trajeto, novamente nos permitindo compartilhar a sensação do protagonista, que se transforma radicalmente durante esta investigação, terminando de maneira sufocante na fuga de Bond e Lin de dentro do navio afundado.

Eletrizante também é a sequência em que Bond e Lin fogem do prédio da CMGN e saem de moto pelas ruas algemados, seguidos de perto por um helicóptero. Além de estilosa, a cena é muito bem dirigida por Spottiswoode, que novamente conta com seus montadores para alternar entre planos gerais, planos médios e planos subjetivos num ritmo alucinante, nos permitindo compreender perfeitamente a geografia local e o que está acontecendo na tela. E finalmente, o ato final dentro dos navios também é tenso e agitado na medida certa, concluindo com precisão esta empolgante aventura.

Repleto de personagens interessantes e principalmente de excelentes cenas de ação, “007 O Amanhã nunca morre” representa outro ponto alto na franquia 007. Olhando em retrospectiva, é uma pena notar que este foi o último momento de destaque de Pierce Brosnan como James Bond, já que o ator tinha muitas das qualidades necessárias para viver o personagem. Ao menos, hoje já sabemos que seu substituto faria um trabalho ainda melhor.

007 O Amanhã nunca morre foto 2Texto publicado em 04 de Junho de 2014 por Roberto Siqueira

007 CONTRA GOLDENEYE (1995)

(GoldenEye)

3 Estrelas 

Videoteca do Beto #207

Dirigido por Martin Campbell.

Elenco: Pierce Brosnan, Sean Bean, Izabella Scorupco, Famke Janssen, Joe Don Baker, Judi Dench, Gottfried John, Robbie Coltrane, Alan Cumming, Tchéky Karyo, Desmond Llewelyn, Samantha Bond, Michael Kitchen e Serena Gordon.

Roteiro: Jeffrey Caine e Bruce Feirstein, baseado em história de Michael France e personagens criados por Ian Fleming.

Produção: Barbara Broccoli e Michael G. Wilson.

007 Contra GoldenEye[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após os dois ótimos filmes da curta passagem de Timothy Dalton como o agente 007, a franquia mais duradoura da história teve que esperar longos 6 anos por seu próximo longa, graças a uma batalha judicial pelos direitos da série. Assim, o ótimo ator acabou deixando a franquia e abriu espaço para a primeira aparição de Pierce Brosnan. Lançado após o fim da guerra fria, “007 Contra GoldenEye” traz ainda outras novidades, como o primeiro roteiro original da série e a introdução de uma mulher no papel de M. As novidades, no entanto, não garantem sozinhas o sucesso do longa, mas ainda que seja claramente inferior aos seus dois antecessores, o filme dirigido por Martin Campbell consegue agradar.

Escrito por Jeffrey Caine e Bruce Feirstein com base em história de Michael France e nos personagens criados por Ian Fleming, “007 Contra GoldenEye” é, como mencionado, o primeiro roteiro não inspirado em material de Fleming. Desta vez, James Bond (Pierce Brosnan) precisa encontrar uma perigosa arma espacial conhecida como GoldenEye, capaz de destruir tudo que tenha circuito elétrico na face da Terra. Após a arma letal destruir uma base de operações na Rússia, Bond descobre uma sobrevivente, a bela programadora de computadores Natalya Simonova (Izabella Scorupco), que aceita ajudá-lo. Só que o assassinato de seu amigo e agente secreto Alec Trevelyan (Sean Bean) em outra operação na Rússia tinha mais ligações com GoldenEye do que Bond poderia imaginar.

Assumindo pela primeira vez a direção de um filme da franquia, Martin Campbell e seu montador Terry Rawlings imprimem um ritmo dinâmico à narrativa desde seu interessante início em que marcam presença a ação absurda e o humor britânico tão característicos da série na sequência em que Bond invade uma base russa ao lado do amigo Alec. No entanto, este ritmo inicial não se mantém, sofrendo uma queda especialmente no sombrio segundo ato após a revelação de que Alec é, na verdade, o mentor do projeto envolvendo GoldenEye. Esta cena, aliás, é muito bem conduzida pelo diretor, explorando o visual afundado nas sombras criado pelo diretor de fotografia Phil Meheux para manter o suspense até o momento da revelação.

Enquanto o designer de produção Peter Lamont acerta novamente na criação de cenários imponentes como a ilha cubana que esconde os armamentos de Alec e os figurinos de Lindy Hemming mantém a elegância marcante de James Bond, a trilha sonora de Eric Serra aposta numa composição grandiosa em certos momentos, como na sequência da destruição da base russa em Severnaya, criando ainda variações para a pouco empolgante música tema “GoldenEye”, de Tina Turner.

Responsável por uma boa reviravolta na trama, o Alec de Sean Bean é um bom vilão, demonstrando inteligência e carisma na medida certa com sua postura agressiva e seu humor irônico. Por outro lado, Gottfried John cria um General Ourumov bastante caricato, ao passo que Robbie Coltrane nos diverte como Valentin Zukovsky, ex-agente da KGB que trava um interessante e engraçado diálogo com James Bond antes de ajudá-lo. E porque raios os russos falam inglês com um sotaque ridículo ao invés de simplesmente conversarem entre eles em russo é algo mais difícil de compreender do que o próprio idioma.

Bond invade uma base russa ao lado do amigo AlecAlec é o mentor do projetoGeneral Ourumov caricatoEntre as mulheres, a bela Natalya Simonova é vivida com carisma e leveza por Izabella Scorupco, criando boa empatia com 007 e estabelecendo um contraponto interessante para a postura mais rígida das outras atuações femininas, a começar por Judi Dench, que assume o papel de M com firmeza, numa subversão de expectativa que agrada e, de maneira elegante, se preocupa até mesmo em fazer uma menção ao seu antecessor. Por outro lado, a postura agressiva não combina muito bem com Onatopp (que nome hein!), a caricata personagem vivida por Famke Janssen que em nada agrega a narrativa. E fechando o elenco feminino, Samantha Bond mantém o tom bem humorado da interessante relação entre Bond e Moneypenny, demonstrando ainda uma curiosa e bem vinda evolução na autoconfiança da garota.

Com porte, carisma e timing cômico para viver 007, Pierce Brosnan se sai bem, carregando o projeto com facilidade e convencendo também nas cenas que exigem esforço físico, numa atuação equilibrada e coerente com o personagem. Com classe e estilo, Bond continua o mesmo de sempre, como fica evidente logo no início quando ele protagoniza uma eletrizante perseguição de carros numa montanha e, de quebra, ainda beija a psicóloga contratada para avalia-lo. Da mesma forma, o agente continua demonstrando enorme capacidade de improviso diante do perigo, além é claro do gosto refinado tão característico.

Bela Natalya SimonovaJudi Dench assume o papel de MPorte, carisma e timing cômico para viver 007No entanto, a queda de ritmo do segundo ato deixa a incômoda sensação de que faltam grandes cenas de ação em “007 Contra GoldenEye”, o que não é algo positivo, especialmente num filme de James Bond. A rigor, temos somente uma cena realmente marcante, que inicia na frenética fuga de Bond de uma base russa, seguida pela perseguição a bordo de um tanque de guerra pelas ruas da cidade em busca de Natalya Simonova. Além dela, somente o ato final contém momentos empolgantes, começando pelo movimento de câmera que revela que Bond deixou um explosivo na parede antes de ser levado pelos russos e terminando na esperada luta corporal entre o agente e o vilão, que é levemente prejudicada pelos pouco verossímeis efeitos visuais.

Assim, “007 Contra GoldenEye” diverte, mas o trabalho inicial de Pierce Brosnan representa uma leve queda no nível de qualidade apresentado na curta passagem de Timothy Dalton pela franquia. Nada, porém, que pudesse preocupar os fãs, especialmente se compararmos com os trabalhos que Brosnan seria obrigado a encarar alguns anos depois.

007 Contra GoldenEye foto 2Texto publicado em 03 de Junho de 2014 por Roberto Siqueira

007 PERMISSÃO PARA MATAR (1989)

(Licence to Kill)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #206

Dirigido por John Glen.

Elenco: Timothy Dalton, Benicio Del Toro, Anthony Zerbe, Robert Davi, Frank McRae, Desmond Llewelyn, Robert Brown, Carey Lowell, Talisa Soto, David Hedison, Anthony Starke, Everett McGill, Pedro Armendáriz Jr., Priscilla Barnes e Caroline Bliss.

Roteiro: Michael G. Wilson e Richard Maibaum, baseado nos personagens criados por Ian Fleming.

Produção: Albert R. Broccoli e Michael G. Wilson.

007 Permissão para Matar[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após resgatar o prestígio da franquia 007 com uma atuação bem mais próxima do que se espera de James Bond, Timothy Dalton teve sua segunda e última oportunidade de interpretar o agente britânico neste “007 Permissão para Matar” e, novamente, não decepcionou. Compreendendo perfeitamente a proposta mais realista da abordagem de John Glen, Dalton consolidou a recuperação da série com outra atuação firme e, o que é melhor, num filme envolvente e empolgante.

Escrito por Michael G. Wilson e Richard Maibaum a partir dos personagens criados por Ian Fleming, “007 Permissão para Matar” traz o agente James Bond (Timothy Dalton) numa missão independente de vingança pessoal contra um conhecido traficante de drogas (Robert Davi) que assassinou a esposa (Priscilla Barnes) de seu amigo Felix (David Hedison), contrariando as ordens do Serviço Secreto Britânico.

A abertura em ritmo frenético e com cenas de ação bem mais realistas que de costume estabelece muito cedo a proposta de John Glen em “007 Permissão para Matar”. Apostando numa atmosfera mais crível e no ritmo intenso da montagem de John Grover, a franquia tentava se adaptar ao cinema de ação realizado na época e, porque não, competir com os bem-sucedidos “macho movies” da era Stallone e Schwarzenegger, deixando definitivamente para trás a fase mais cômica e de auto-paródia da fase Roger Moore. Não que, para isto, Glen tenha retirado o charme e a elegância característicos do agente. James Bond continua lá, inteligente o bastante para farejar o perigo, incapaz de resistir ao charme feminino e ainda dono de um gosto refinado.

Mas o fato é que o realismo é notável, por exemplo, quando o diretor faz questão de nos mostrar as fortes imagens do ataque do tubarão ao agente Felix e, em seguida, a impactante imagem de sua esposa assassinada. Aliás, são raros os momentos em que esta abordagem verossímil falha, como por exemplo, na briga num bar em que os golpes desferidos parecem artificiais, numa das cenas em que chama a atenção a presença de Benicio Del Toro ainda muito jovem como o capanga Dario. Empregando bons movimentos de câmera, John Glen trabalha na construção de cenas mais tensas, como quando realça um guincho sendo retirado por Bond no primeiro plano e os pés de um guarda caminhando no segundo plano antes do confronto físico entre eles, incluindo ainda um leve travelling que destaca as enguias elétricas que serão essenciais na conclusão da cena.

Visualmente o longa também é interessante, com a fotografia de Alec Mills oscilando entre momentos de brilho intenso e cores vivas nas cenas a beira mar que exploram toda a beleza da Guatemala e instantes bem mais sombrios, especialmente no segundo ato com as cenas dentro do cassino de Sanchez e de sua negociação com os asiáticos na noite em que é atacado. Ainda entre os destaques da parte técnica, a sombria trilha sonora de Michael Kamen pontua os momentos de suspense, surgindo diversas vezes sem jamais abusar do famoso tema de 007, o que evita seu desgaste.

Impactante imagem de sua esposa assassinadaGuincho sendo retirado por BondNegociação com os asiáticosNo entanto, esta abordagem realista por si só não garante um bom filme e, felizmente, “007 Permissão para Matar” conta também com um bom roteiro que, nas mãos de Glen, torna a narrativa bastante envolvente. Utilizando um fundo político interessante através do interesse de governos de países da América Latina, dos EUA e da Inglaterra nos negócios de Sanchez, o roteiro mantém o espectador sempre atento com suas interessantes reviravoltas, como quando Sanchez pensa que Bond o salvou na noite do atentado e quando Bond pensa que a agente Pam (Carey Lowell) o traiu ao vê-la no local em que Sanchez negocia com os asiáticos. Além disso, mesmo num universo tradicionalmente unidimensional o roteiro consegue desenvolver bem seus personagens.

Observe, por exemplo, como a narrativa estabelece desde o início a importância de Sanchez, o bom vilão vivido por Robert Davi. Saindo da mesmice, as intenções de Sanchez soam plausíveis, ainda que condenáveis. Ele não quer dominar o mundo, quer “apenas” ser um traficante bilionário. Criando um vilão respeitável com sua postura simultaneamente elegante e firme diante de seus comandados, Davi se sai bem também na tradicional cena da conversa com Bond que, desta vez, traz um intrigante diálogo no primeiro encontro deles no cassino. Já as bondgirls vivem situações distintas em “007 Permissão para Matar”. Enquanto a inexpressiva Talisa Soto jamais cria empatia com Bond na pele de Lupe, Carey Lowell se sai bem nesta tarefa, obtendo sucesso também como a tradicional parceira feminina do agente britânico nas cenas de ação.

Novamente adotando uma postura séria e até mesmo agressiva, Timothy Dalton confirma ser um ator capaz de dar vida a James Bond, convencendo tanto na elegância quanto especialmente nas cenas que exigem esforço físico, soando ameaçador em diversos momentos de uma maneira que Moore raramente foi capaz de fazê-lo. Repare também como o ator demonstra o quanto Bond está devastado após a trágica morte de Della, a esposa de seu amigo assassinada pelos capangas de Sanchez. Determinado e agindo mais pela emoção do que pela razão, o Bond de Dalton chega a destoar um pouco do personagem tradicional, mas funciona muito bem justamente por trazer a energia que andava faltando para a franquia.

Importância de SanchezTradicional parceiraPostura séria e agressivaEsta energia é notável nas ótimas cenas de ação de “007 Permissão para Matar”, que surgem de maneira mais espaçada, porém sempre com eficiência, como quando Bond faz um avião de Jet Sky, sobe nele e joga o piloto no mar, numa sequência tão radical e absurda que o próprio roteiro faz piada com ela mais pra tarde ao trazer o capanga Krest (Anthony Zerbe) contando o que aconteceu para Sanchez e todos reagindo com desdém de sua versão do ocorrido. Existem também os momentos em que os inimigos tomam decisões convenientemente equivocadas, como quando um mergulhador corta o tubo de oxigênio de Bond embaixo d´água ao invés de cortar o próprio agente, mas podemos perdoar estes pequenos deslizes – até porque, caso contrário, não teríamos mais filme nem franquia.

Finalmente, apesar de durar mais tempo que o necessário e de conter dois momentos absurdamente exagerados envolvendo o caminhão dirigido por Bond, a sequência de ação que encerra a narrativa é extremamente empolgante. Alternando entre planos que nos colocam dentro dos caminhões e tomadas aéreas que além de nos orientar geograficamente ainda nos permitem acompanhar as ações de Pam no avião, Glen conduz a sequência com muita segurança durante toda a descida do morro até o inevitável confronto final entre Bond e Sanchez.

Após anos bastante irregulares, a franquia 007 finalmente parecia encontrar seu rumo ao atualizar seu famoso agente sem, por isso, perder seu charme. Com uma narrativa envolvente, boas cenas de ação, a segurança de Dalton e um bom vilão, John Glen acertou novamente e fez deste “007 Permissão para Matar” um dos bons filmes da série.

007 Permissão para Matar foto 2Texto publicado em 02 de Junho de 2014 por Roberto Siqueira

007 MARCADO PARA A MORTE (1987)

(The Living Daylights)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #205

Dirigido por John Glen.

Elenco: Timothy Dalton, Maryam d’Abo, Jeroen Krabbé, Joe Don Baker, John Rhys-Davies, Art Malik, Andreas Wisniewski, Desmond Llewelyn, Robert Brown, Geoffrey Keen, Walter Gotell, Caroline Bliss e John Terry.

Roteiro: Richard Maibaum e Michael G. Wilson, baseado em história de Ian Fleming.

Produção: Albert R. Broccoli e Michael G. Wilson.

007 Marcado para a Morte[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A saída de Roger Moore marcou o fim de uma fase complicada na franquia 007. Sem conseguir dosar muito bem a ação e o humor e contando com Moore cada vez menos interessado, John Glen acabou sendo responsável por dirigir alguns dos momentos mais embaraçosos do agente secreto (o grito do Tarzan é imperdoável!). Coube então a Timothy Dalton a missão de resgatar a abordagem mais séria neste “007 Marcado para a Morte” e, felizmente, o ator se saiu bem na missão, ainda que desta vez a dosagem peque justamente pela falta de alívios cômicos. Menos mal. Melhor exagerar na criação de uma atmosfera crível de ameaça ao protagonista do que ridicularizar o mesmo.

Pela quarta vez seguida, a missão de adaptar a história de Ian Fleming para o cinema ficou a cargo de Richard Maibaum e Michael G. Wilson. Em “007 Marcado para a Morte”, eles trazem James Bond (Timothy Dalton) ajudando o general Georgi Koskov (Jeroen Krabbé) a fugir da Cortina de Ferro, mas logo depois o russo é capturado e levado de volta a União Soviética. Antes de voltar, Koskov denuncia um plano do general Leonid Pushkin (John Rhys-Davies) que envolvia o assassinato de agentes secretos britânicos, o que leva Bond a investigar o caso e descobrir que, na realidade, o traficante de armas Brad Whitaker (Joe Don Baker) é quem tinha planos potencialmente perigosos.

Ainda que a trama não seja o mais importante num filme de James Bond, construir um roteiro minimamente interessante era o primeiro passo para recuperar o prestígio da franquia. Felizmente, a dupla responsável por roteiros bem fracos com o de “007 Contra Octopussy” surpreendeu neste “007 Marcado para a Morte”, elaborando uma trama com boas reviravoltas e que, mesmo com exageros, consegue prender a atenção do espectador. Por sua vez, John Glen procura conduzir a narrativa de maneira mais séria, já que, em pleno auge dos macho movies, seguir na linha cômica que marcou seus trabalhos anteriores poderia enterrar de vez a franquia.

Assim, o diretor procura criar uma atmosfera mais sóbria, ainda que abra espaço para momentos bem humorados como quando Bond e Kara (Maryam d’Abo) fogem para a Áustria utilizando um violoncelo e, ao passarem pela fronteira, gritam que não tem nada a declarar. Nesta mesma linha, a fotografia de Alec Mills aposta num visual predominantemente obscuro, especialmente nas sequências que se passam dentro da Cortina de Ferro, criando um contraste interessante com a fotografia árida em Tangier, no Marrocos, e com toda a beleza imperial de Viena.

Auxiliando ao estabelecer com clareza cada ambiente através da decoração detalhada, o design de produção de Peter Lamont mais uma vez chama a atenção através de cenários como a casa de Óperas na antiga Tchecoslováquia e a casa repleta de armas de Whitaker, assim como são importantes também os figurinos de Emma Porteous que diferenciam bem as elegantes vestimentas britânicas dos uniformes utilizados pelos soviéticos e, principalmente, das roupas despojadas dos afegãos.

Por sua vez, a trilha sonora de John Barry também oscila bastante de um ambiente para o outro, surgindo numa composição tensa na Cortina de Ferro, numa marcha triunfal na chegada ao Afeganistão após a fuga de 007 da prisão e com variações da música tema “The Living Daylights”, do A-ha, que segue a tendência mais dançante estabelecida no filme anterior com o Duran Duran, escorregando apenas na composição deslocada que acompanha o ataque do agente da KGB disfarçado de leiteiro.

Visual obscuro na Cortina de FerroCasa de Óperas na antiga TchecoslováquiaJames Bond mais sérioSuperando o natural incômodo inicial do espectador após sete filmes estrelados por Roger Moore, Timothy Dalton compõe um James Bond mais sério, adotando uma postura firme e até mesmo agressiva que recupera o respeito perdido em sequências ridículas dos filmes anteriores, ainda que falte um pouco do charme diante das mulheres que, por exemplo, Connery tinha. Mesmo assim, Dalton segue uma linha coerente com o histórico do personagem, por exemplo, ao hesitar na hora de assassinar uma atiradora, demonstrando no rosto o interesse de James Bond na garota, da mesma forma como seu semblante indica a fúria de 007 após a morte de Saunders (Thomas Wheatley) no parque Prater em Viena. Convencendo ainda nas lutas corporais, como no segmento de abertura, o ator se sai bem na difícil tarefa de assumir um personagem já bem estabelecido e com uma enorme quantidade de fãs.

Para a alegria destes mesmos fãs, “007 Marcado para a Morte” marca também a volta do estiloso Aston Martin, o carro de luxo super equipado que estrela a fuga alucinada de Bond com a violinista Kara, na qual somos apresentados aos engenhosos opcionais do veículo que ajudam o protagonista a se livrar dos inimigos. Interpretada por Maryam d’Abo, Kara divide-se entre o amor por Kostov e a atração momentânea por Bond até que reencontre o amado e, enganada por ele, traia o agente britânico, numa das interessantes reviravoltas do roteiro. Outro destaque feminino do elenco fica para a primeira aparição de Caroline Bliss como a nova Moneypenny, mantendo o estilo “esquisita, mas simpática” que marcou a adorável Lois Maxwell.

Volta do estiloso Aston MartinViolinista KaraRespeitável general Leonid PushkinEntre os vilões, o mais respeitável é o general Leonid Pushkin interpretado com firmeza por John Rhys-Davies com seu tom de voz imponente e expressão rígida. No entanto, Pushkin acaba servindo apenas como isca, escondendo os verdadeiros vilões Georgi Koskov e Brad Whitaker, vividos de maneira mais leve e caricata por Jeroen Krabbé e Joe Don Baker, o que infelizmente enfraquece a narrativa já que estes são personagens bem menos ameaçadores que Pushkin. E finalmente, Art Malik tem uma participação rápida e sem grande destaque na pele de Kamran Shah, o líder afegão que ajuda Bond a derrotar os russos.

A batalha no Afeganistão, aliás, dura mais tempo do que deveria, enquanto o confronto final com Whitaker acaba rápido demais, o que denuncia um problema na montagem de Peter Davies e John Grover que até ali caminhava muito bem. Em todo caso, a condução do restante da narrativa agrada e sua solução é satisfatória.

Para a alegria dos fãs, James Bond finalmente estava de volta com todo vigor após algumas escorregadas perigosas. E ainda que John Glen tenha seus méritos, é inegável que a presença de Timothy Dalton foi crucial neste processo, trazendo de volta parte da credibilidade e do respeito perdidos nos últimos anos de Roger Moore.

007 Marcado para a Morte foto 2Texto publicado em 30 de Maio de 2014 por Roberto Siqueira

007 NA MIRA DOS ASSASSINOS (1985)

(A View to a Kill)

3 Estrelas 

Videoteca do Beto #204

Dirigido por John Glen.

Elenco: Roger Moore, Christopher Walken, Grace Jones, Tanya Roberts, Patrick Macnee, Willoughby Gray, Patrick Bauchau, Robert Brown, Lois Maxwell, Desmond Llewelyn, Dolph Lundgren, David Yip, Fiona Fullerton, Maud Adams, Alison Doody e Walter Gotell.

Roteiro: Richard Maibaum e Michael G. Wilson, baseado em história de Ian Fleming.

Produção: Albert R. Broccoli e Michael G. Wilson.

007 Na Mira dos Assassinos[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Já contestado pelo peso da idade (na época, o ator estava com 57 anos), Roger Moore faria neste “007 Na Mira dos Assassinos” sua última aparição na pele de James Bond. Mesmo sem jamais alcançar o carisma de Sean Connery, o ator deixou sua contribuição para a franquia, criando um 007 mais cômico que seu antecessor e que, mesmo distante em tom e sem o mesmo charme, funcionava em muitos momentos. É uma pena, portanto, que os últimos trabalhos de Moore não estejam à altura de suas melhores aparições, nas quais ao menos o ator compensava as falhas da narrativa com atuações mais interessadas.

Escrito por Richard Maibaum e Michael G. Wilson novamente com base em história de Ian Fleming, “007 Na Mira dos Assassinos” narra à tentativa de James Bond (Roger Moore) de impedir que o milionário Max Zorin (Christopher Walken) controle o mercado de produção de chips através da execução de um plano que envolve a destruição de todas as indústrias do Vale do Silício, na Califórnia.

Em sua despedida da série, Roger Moore mais parece se divertir e relaxar na pele do personagem do que se preocupar em oferecer novas nuances a James Bond, saindo-se bem em alguns diálogos que denunciam seu tom quase sempre irônico, mas escancarando a flagrante falta de vigor nas lutas corporais. Claramente fora de forma e atuando quase no piloto automático, Moore oferece aqui sua pior atuação na pele de 007, numa despedida melancólica que dificulta a tarefa de apontar algum momento de destaque, com exceção dos comentários marcados por seu humor peculiar e pelo cavalheirismo na primeira noite com Sutton (Tanya Roberts), na qual Bond respeita o momento da moça e não dorme com ela – e a expressão de Moore evidencia esta abordagem respeitosa.

Entre gritos e expressões características da mocinha indefesa, Tanya Roberts oferece uma performance patética na pele de Stacey Sutton, não convencendo como uma moça rica e poderosa que decide bater de frente com Zorin e sequer conseguindo criar empatia com Moore, o que talvez explique a falta de cenas românticas entre os personagens. Já Grace Jones compõe May Day de maneira bastante caricata, mas a personagem ao menos funciona por representar alguma ameaça a Bond. Fechando os destaques femininos do elenco, “007 Na Mira dos Assassinos” marca também a última aparição de Lois Maxwell como a simpática Moneypenny – o que, com o perdão do infame trocadilho, é uma pena.

Roger Moore se diverte e relaxaMocinha indefesaMay DayVoltando ao elenco masculino, Patrick Macnee vive o simpático Tibbett, o amigo enviado para auxiliar Bond e que, passando-se por seu criado, vive alguns dos raros momentos bem humorados que realmente funcionam na narrativa. Repare, por exemplo, como Tibbett acaricia os cavalos após se esconder junto a eles no estábulo, num pequeno detalhe que demonstra o cuidado do ator na composição do personagem, já que para esconder-se ali por tanto tempo era necessário no mínimo que ele criasse alguma empatia com os animais.

Sorridente na frente de Bond e sério longe dele, Christopher Walken compõe um vilão interessante na pele de Max Zorin, demonstrando classe nas conversas em eventos públicos como a festa em seu palácio e evidenciando seu lado psicótico ao explicar seu plano para os parceiros. Aliás, a conversa com empresários para explanar o plano Main Strike remete diretamente a “007 Contra Goldfinger”, especialmente quando um deles se recusa a aceitar a proposta e é sumariamente assassinado.

Sublinhando a trama, a trilha sonora também convencional de John Barry surpreende apenas na sequência inicial em que o compositor ousa e insere um trecho de uma versão cover de “California Girls”, dos Beach Boys, fazendo uma brincadeira com as manobras radicais de James Bond sobre a neve e a água. Além disso, a dançante música tema do Duran Duran tem a cara dos anos 80 e traz uma boa energia para a série.

Tentando recuperar o tom mais sério após a piada “007 Contra Octopussy”, John Glen e seu diretor de fotografia Alan Hume ignoram o sol característico da Califórnia e apostam num visual mais obscuro que confere uma aura sombria a narrativa. Ainda assim, o diretor encontra espaço para criar belos planos, especialmente ao enquadrar toda a imponência da ponte Golden Gate em San Francisco e o charme de Paris, que finalmente é explorada na série. Além disso, o ótimo Peter Lamont capricha novamente no design de produção de ambientes como o luxuoso palácio de Zorin, a espaçosa e bem decorada casa de Sutton, a detalhada clínica que esconde o segredo do cavalo Pegasus e a impressionante mina que surge já no ato final.

Para balancear a falta de agilidade de Moore nos confrontos físicos, Glen tenta criar cenas de ação ainda mais mirabolantes, como a perseguição que inicia na Torre Eiffel e segue pelas ruas de Paris. Só que o convencional segmento de abertura envolvendo uma perseguição de esqui na neve já deixa claro que “007 Na Mira dos Assassinos” não trará grandes novidades neste aspecto também. O diretor tenta ainda utilizar a câmera para ampliar a tensão, como quando uma arma surge em primeiro plano enquanto Bond entra na casa de Sutton ao fundo, sinalizando a presença dos capangas de Zorin para o espectador, que passa a saber mais do que o personagem – o que é sempre eficiente na criação de uma atmosfera tensa. E finalmente, a morte de Tibbett no lava rápido é conduzida de maneira interessante pelo diretor.

Zorin, vilão interessanteImpressionante minaArma em primeiro planoMas o destaque das cenas de ação fica mesmo para o incêndio na prefeitura seguido pela perseguição envolvendo um carro de bombeiros e, principalmente, para a impactante destruição da mina, na qual o diretor utiliza planos subjetivos que nos colocam na posição dos personagens em diversos instantes enquanto a água domina o local sob os tiros alucinados do impiedoso Zorin. Além delas, a luta no alto da ponte Golden Gate também é tensa e diverte, mas a gritante lentidão de Moore e os efeitos visuais datados prejudicam a cena, ainda que no segundo caso a evolução em relação aos filmes anteriores seja perceptível.

Perceptível também é a tentativa de melhorar a imagem da franquia depois de seguidas derrapadas, mas infelizmente “007 Na Mira dos Assassinos” não conseguiu este feito. Roger Moore perdia aqui a sua licença para matar (ainda que, em certos momentos, tenha nos matado de vergonha), mas, para a alegria dos inúmeros fãs, James Bond ainda teria vida longa nas telonas.

007 Na Mira dos Assassinos foto 2Texto publicado em 29 de Maio de 2014 por Roberto Siqueira