Pitacos da Copa das Confederações 2013 – Parte 1

Em meio às belíssimas manifestações de nossa gente, encontro um espaço para comentar rapidamente a Copa das Confederações, limitando-me ao que aconteceu dentro de campo – e que foi muito bom.

A julgar pelo futebol mostrado na primeira rodada, podemos esperar um torneio de bom nível técnico. Aliás, com o Brasil em recuperação, Itália, França e Inglaterra formando equipes competitivas, Argentina e Holanda atuando em bom nível e Espanha e Alemanha dando show, a Copa de 2014 (se vier mesmo a existir) tem tudo para apresentar um excelente nível técnico.

Gostei da atuação da seleção brasileira, por mais que ajustes ainda precisem ser feitos e que o Japão tenha jogado mal. Não concordo que o Japão, com tantos jogadores atuando na Europa, seja uma equipe fraca. Acho que o Brasil tornou o jogo mais fácil graças ao bom futebol.

Agora, daí a dizer que teremos vida tranquila na competição existe uma grande distância. Até acho que o México não oferecerá resistência, mas o jogo contra a Itália promete. E promete porque a Azzurra mostrou um futebol agradável, mais ofensivo, com a genialidade de Pirlo no meio e a agressividade de Balotelli na frente. Será um duelo interessante.

Foi muito legal também ver os brasileiros curtirem o futebol destes craques, gritando o nome de Pirlo no Maracanã (que momento!) e apoiando a squadra azzurra. Assim como foi lindo ver a Arena Pernambuco render-se ao espetacular futebol da fúria espanhola após iniciar o jogo torcendo contra. É um privilégio poder ver esta brilhante geração da Espanha em campo e o povo brasileiro, que adora futebol tanto quanto os europeus, sabe bem disto.

Divertido também foi ver a torcida pelo Taiti, ainda que o futebol da equipe esteja muito longe do esperado numa competição deste nível. A expectativa agora fica para o jogo Brasil x Itália e para um provável confronto entre a nossa seleção e a máquina espanhola. Seria um deleite para os amantes do futebol e um grande teste para nossa seleção.

É uma pena, portanto, que estas competições tão legais sejam manchadas pelos problemas extracampo, causados pela ganância de nossos líderes e do pessoal da FIFA. Dentro das quatro linhas, o futebol vive um momento muito especial, com uma geração de grandes jogadores espalhados pelo planeta loucos para atuar em nossos gramados neste ano e no ano que vem.

Logomarca da Copa das Confederações 2013Texto publicado em 19 de Junho de 2013 por Roberto Siqueira

Verás que um filho teu não foge a luta…

Não é segredo pra nenhum leitor deste blog que o filme mais importante da minha vida é “Coração Valente”, mas o que o filme vencedor do Oscar 96 tem a ver com o momento que vivemos? Quase nada.

Mas recapitulemos parte da trama: William Wallace volta pra Escócia, encontra o país ainda dominado por lordes ingleses, se casa em segredo para evitar a prima nocte e vê sua esposa ser friamente assassinada por se defender do ataque de um soldado. A punição desproporcional gera a revolta da plebe e se torna o estopim para a luta que levaria a independência da Escócia.

São Paulo, 13 de Junho de 2013. Manifestantes protestam contra o aumento de 20 centavos na tarifa do ônibus. A polícia, comandada por Geraldo Alckmin, reage violentamente. A reação desproporcional gera revolta em quase todo o país e se transforma no estopim para protestos não apenas contra o aumento, mas contra décadas de descaso do poder para com o nosso povo.

Diferente do épico, no entanto, o nosso movimento não tem líder. Também não tem partido (apesar dos espertinhos que tentam e continuarão tentando se apropriar dele). Não tem interesses obscuros. É a manifestação genuína de um povo farto, que acompanhou por muitos anos escândalos e mais escândalos e finalmente resolveu dizer “Basta!”.

E agora é mesmo a hora de deixar preferências políticas de lado. Se todo brasileiro for sincero consigo mesmo, verá que no fim das contas, PT, PSDB, PMDB, PSTU, (PQP!) são tudo farinha do mesmo saco, com raras exceções. São tantos os absurdos ao longo de décadas que fica difícil enumerá-los. Porque o nosso metrô evolui tão lentamente? Porque nossos hospitais estão nas condições que estão? Porque nossos filhos precisam de escola particular para aprender de verdade? Porque não podemos sair mais para jantar sem ter medo de sermos assaltados ou até assassinados? São tantas as perguntas sem respostas…

A realização da Copa do Mundo, superfaturada e que praticamente não deixará legado para a população, criou o ambiente perfeito. O mundo está de olho no Brasil. Os 20 centavos foram o estopim. E agora será difícil calar a população e conter uma manifestação linda, que a cada dia ganha mais força.

Após muitos anos, voltei a ter orgulho de ser brasileiro. Orgulho dos nossos jovens, orgulho do nosso povo, dos senhores e senhoras que aderiram à manifestação. Das pessoas que não precisam de transporte público, nem dos hospitais públicos e nem das escolas públicas por terem condições de bancar os caros serviços privados, mas que nem por isso deixaram de apoiar o manifesto. Afinal, como já disse o ex-prefeito de Bogotá Enrique Peñalosa, “uma boa cidade não é aquela em que até os pobres andam de carro, mas aquela em que até os ricos usam transporte público”.

São tantas as razões para protestar que fica até difícil definir prioridades. Espero que as manifestações tomem um rumo definitivo e tragam resultados positivos. O primeiro passo já foi dado. E como é lindo ver a população tomando as ruas para reivindicar o que é de nosso direito. A emblemática imagem do povo tomando o palácio do planalto pode virar o símbolo de uma revolução. O símbolo do momento em que o Brasil começou a mudar de verdade.

Sou fã da Copa do Mundo. É certamente o evento esportivo que mais gosto e que espero ansiosamente a cada quatro anos. Adoraria ter a chance de ver de perto seleções maravilhosas como as atuais de Espanha, Alemanha e Argentina. Adoraria torcer pelo Brasil em nossa casa. Mas se ficar sem Copa do Mundo for o preço a pagar para finalmente termos transporte, educação, segurança e saúde de qualidade, que assim seja!

O PovoTexto publicado em 18 de Junho de 2013 por Roberto Siqueira

Dia histórico

Parabéns povo brasileiro!

Em Progresso

Imagem publicada em 17 de Junho de 2013 por Roberto Siqueira

Abre o olho Brasil!

Protestos em SP

Imagem publicada em 16 de Junho de 2013 por Roberto Siqueira

BOOGIE NIGHTS – PRAZER SEM LIMITES (1997)

(Boogie Nights)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #170

Dirigido por Paul Thomas Anderson.

Elenco: Mark Wahlberg, Burt Reynolds, Julianne Moore, Heather Graham, Don Cheadle, John C. Reilly, Luis Guzmán, William H. Macy, Alfred Molina, Philip Seymour Hoffman, Melora Walters, Thomas Jane, Philip Baker Hall e Joanna Gleason.

Roteiro: Paul Thomas Anderson.

Produção: Paul Thomas Anderson, Lloyd Levin, John Lyons e Joanne Sellar.

Boogie Nights – Prazer sem Limites[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Paul Thomas Anderson tinha apenas um filme no currículo quando “Boogie Nights – Prazer sem Limites” chegou aos cinemas, chamando a atenção não apenas pelos virtuosismos técnicos e narrativos do diretor/roteirista, mas também por seu elenco igualmente numeroso e talentoso. Abordando um universo nada convencional e trazendo inúmeros personagens interessantes, o longa sinalizava claramente que um grande diretor estava chegando para ficar, confirmando ainda o enorme talento de atores como Mark Wahlberg, Julianne Moore, John C. Reilly, William H. Macy e Philip Seymour Hoffman, além é claro do veterano Burt Reynolds.

Escrito pelo próprio Anderson, “Boogie Nights” narra a trajetória de ascensão e queda de Eddie Adams (Mark Wahlberg), um jovem que é descoberto pelo grande cineasta pornô Jack Horner (Burt Reynolds) e acaba se tornando o grande astro do meio, já sob o nome artístico de Dirk Diggler. Lá, ele conhece a famosa Amber Waves (Julianne Moore), uma das muitas pessoas extravagantes que frequentam as agitadas festas recheadas com muito álcool e cocaína, além é claro do próprio sexo. Mas esta vida de excessos obviamente não permitiria que eles saíssem ilesos daquilo tudo.

O primeiro grande desafio de “Boogie Nights” começa no próprio roteiro, que consegue a proeza de criar uma estrutura narrativa interessante e desenvolver bem seus muitos personagens através de linhas narrativas paralelas que eventualmente se cruzam durante a trama. Além disso, Anderson tem o mérito de criar empatia com a plateia mesmo num universo claramente distante da maioria dos espectadores e que normalmente é visto com reservas pelo público através de personagens que fogem de estereótipos e se tornam mais humanos aos nossos olhos graças também ao talento dos atores.

Mas se o roteiro chama a atenção, atrás das câmeras Anderson não fica atrás, dando um show de direção com seus movimentos elegantes como o belíssimo plano-sequência que passeia pelos personagens espalhados na casa noturna e nos ambienta àquele submundo logo na abertura do longa. Movimento de câmera sempre chamativo, o plano-sequência (que viria a se tornar uma marca registrada do diretor) surge em outros diversos momentos de “Boogie Nights”, como na primeira festa na casa de Jack e na excelente sequência em que acompanhamos a trajetória de Bill (William H. Macy) na noite em que ele mata sua mulher e se suicida. O diretor é competente também na utilização de técnicas mais simples, como os closes em objetos que muitas vezes enfatizam a sensibilidade aguçada daqueles personagens, os inúmeros planos que trazem o uso explícito de cocaína e ilustram a trajetória de autodestruição daquele grupo e os planos fechados que realçam o espanto das pessoas diante dos atributos físicos de Eddie que garantem seu sucesso na indústria pornográfica.

Passeia pelos personagensPrimeira festa na casa de JackNoite em que ele mata sua mulherContando com a ajuda do diretor de fotografia Robert Elswit, Anderson cria um universo colorido que, além de ilustrar a intensidade com que aquelas pessoas viviam e enxergavam o mundo, ainda mostra-se coerente com a época em que se passa à narrativa. No entanto, o diretor e seu diretor de fotografia são inteligentes o bastante para mudar este aspecto quando necessário, como na briga de Eddie com sua mãe em que os personagens surgem mergulhados nas sombras, ampliando a sensação sufocante do momento. Repare ainda como a imagem surge granulada em alguns instantes, especialmente quando vemos as filmagens dos controversos longas dirigidos por Jack – numa alusão a natureza “B” destas produções -, e compare com as cenas ultra coloridas e repletas de luzes na casa noturna e nas festas.

Briga de Eddie com sua mãeFilmagens dos controversos longasLuzes na casa noturnaColoridos também são os figurinos de Mark Bridges, que reforçam o visual bem anos 70, assim como a fantástica trilha sonora de Michael Penn é muito coerente com a época, com suas músicas animadas e chamativas. Realçando traços da personalidade de Eddie através da decoração de seu quarto repleto de pôsteres de carros, mulheres e Bruce Lee, o design de produção de Bob Ziembicki mantém a coerência na nova casa dele, com cômodos chamativos e nada discretos como o quarto oriental que escancara sua admiração pelo ícone das artes marciais, inteligentemente demonstrada anteriormente e que refletiria também em sua carreira como ator depois que ele viesse a ganhar poder e passasse a interferir na trama das produções.

Coloridos figurinosPôsteres de carros, mulheres e Bruce LeeQuarto orientalEssencial num filme com tantas linhas narrativas paralelas, a montagem de Dylan Tichenor consegue evitar que a narrativa se torne confusa, mantendo o espectador interessado no que acontece mesmo com tantos personagens e ainda nos brindando com elegantes transições como aquela que sai de Jack sentado na cadeira observando o desempenho de Eddie e vai para a mãe do garoto sentada na cadeira esperando sua chegada.

E já que falamos em desempenho, a grande atuação de praticamente todo o elenco de “Boogie Nights” dificulta muito a tarefa de apontar destaques. Mesmo atores com participações menores chamam a atenção, como é o caso de William H. Macy na pele de Bill, o pobre homem constantemente humilhado pela esposa que encontra uma maneira trágica de solucionar a situação. John C. Reilly confirma seu talento como o acelerado Reed e Philip Seymour Hoffman está excelente como o afeminado Scotty J., demonstrando com sutileza sua atração por Dirk através do olhar e da expressão corporal quanto está diante dele, destacando-se ainda na cena do carro novo em que tenta beijar o amigo a força e se arrepende logo em seguida.

Bill constantemente humilhado pela esposaAcelerado ReedAfeminado Scotty J.Entre os personagens com mais tempo em cena, Burt Reynolds tem presença marcante como o centrado Jack Horner, o cérebro que faz toda aquela engrenagem funcionar e que sonha em realizar um filme pornográfico significante, mas que tem dificuldade para compreender os caminhos que a indústria seguiria após tantos anos de sucesso. Quase sempre ao seu lado, Julianne Moore dá vida a doce e sensual Amber com muita competência, comovendo a plateia quando assume sua verdadeira identidade e demonstra o quanto Maggie sofre por não poder ver seu filho, especialmente na cena da audiência que culmina em seu choro devastador. Tanto ela quanto a Patinadora vivida por Heather Graham são pessoas carentes que encontram consolo uma na outra, mas Amber é mais complexa, exalando este lado terno e maternal com a mesma naturalidade com que lida com o vício em cocaína e o sexo profissional. E no centro de todo este turbilhão está Mark Wahlberg, que constrói o astro Dirk com precisão, passando do garoto simpático e carismático que conquista as pessoas em volta para um egocêntrico e nojento superstar de maneira convincente.

Centrado Jack HornerDoce e sensual AmberAstro DirkNum momento brilhante, Anderson expõe a decadência geral daquelas pessoas através de duas ações paralelas que dialogam entre si, com Jack e a Patinadora espancando um homem na rua exatamente da mesma forma que um grupo de jovens faz com Dirk, como se fosse um acerto de contas entre os pilares da discussão que levou a destruição da bem sucedida parceria entre eles – um momento, aliás, que exemplifica bem a violência gráfica que permeia a narrativa. Além disso, o diretor também brinda a plateia com cenas extremamente tensas, como o assalto à loja de Donut´s e especialmente a angustiante negociação na casa de um traficante, na qual a música alta, os explosivos e os próprios diálogos deixam personagens e plateia com os nervos à flor da pele. E finalmente, a conversa de Dirk com o espelho exatamente como fez Jake La Motta em “Touro Indomável” faz uma referência óbvia à outra trajetória de ascensão e queda.

Jack e a Patinadora espancando um homemGrupo de jovens agride DirkAssalto à loja de Donut´sApós tantas menções ao órgão sexual do garoto, Paul Thomas Anderson finalmente revela a razão de seu sucesso naquela indústria, numa cena explícita que poderia soar gratuita, mas que neste caso – com o perdão do trocadilho – se encaixa perfeitamente à narrativa. Mas se a superficialidade é algo inerente às produções pornográficas, “Boogie Nights” tem muito mais a dizer do que sua embalagem chamativa faz parecer, trazendo reflexões a respeito de questões delicadas como a dependência química e o abuso de menores, além de tratar os excessos dos personagens e suas consequências de maneira ambígua.

Se por um lado temos a maneira preconceituosa como a sociedade vê aquele mundo na audiência de Maggie e na tentativa frustrada de conseguir crédito para abrir uma loja de aparelhos de som de um ator pornô (Don Cheadle), por outro vemos como aquela vida de excessos pode realmente ser muito prejudicial – e o momento mais emblemático neste sentido é quando Maggie é acusada em juízo de usar drogas e prontamente nega, sabendo que a verdade neste caso só a afastaria ainda mais do filho. É como se “Boogie Nights” erguesse um painel com os prós (glamour, dinheiro, carrões, sexo fácil, festas) e contras (baixa escolaridade, preconceito, afastamento da família, dificuldade para sair do ramo, vício em drogas) deste complexo e desconhecido universo.

Angustiante negociação na casa de um traficanteTentativa frustrada de conseguir créditoMaggie é acusada em juízo de usar drogasClaramente influenciado por cineastas geniais como Martins Scorsese (no aspecto visual) e Robert Altman (na estrutura narrativa), Paul Thomas Anderson fincou de vez o pé na indústria de Hollywood com o belíssimo trabalho feito em “Boogie Nights”, demonstrando capacidade para conduzir um grande elenco e extrair excelentes atuações de praticamente todos eles. O resultado é um filme simultaneamente delicioso e sombrio, que aborda um segmento polêmico da indústria sem jamais soar panfletário ou careta, mas que nem por isso esconde os riscos que oferece para aqueles que decidem se aventurar nele.

Boogie Nights – Prazer sem Limites foto 2Texto publicado em 09 de Junho de 2013 por Roberto Siqueira

Trilhas #005 – “Son of a preacher man”, do filme “Pulp Fiction”

Vídeo publicado em 06 de Junho de 2013 por Roberto Siqueira

A VIDA É BELA (1997)

(La Vita è bella)

5 Estrelas 

Obra-Prima

Videoteca do Beto #169

Vencedores do Oscar #1998* (FILME ESTRANGEIRO)

* Estreou na Itália em 1997, mas só concorrereu ao Oscar em 1999, porque foi lançado comercialmente nos Estados Unidos apenas em 1998.

Dirigido por Roberto Benigni.

Elenco: Roberto Benigni, Nicoletta Braschi, Giorgio Cantarini, Giustino Durano, Sergio Bini Bustric, Marisa Paredes, Horst Buchholz, Lidia Alfonsi, Giuliana Lojodice, Amerigo Fontani, Pietro De Silva, Francesco Guzzo e Raffaella Lebboroni.

Roteiro: Vincenzo Cerami e Roberto Benigni.

Produção: Gianluigi Braschi e Elda Ferri. John M. Davis (versão dublada em inglês).

A Vida é Bela[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Conhecido no Brasil por ter vencido o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro num ano em que tínhamos um filme com possibilidades reais na disputa (o ótimo “Central do Brasil”, de Walter Sales), “A Vida é Bela” ganhou a antipatia de muitos brasileiros – e a performance exagerada de Roberto Benigni na cerimônia após vencer injustamente o Oscar de Melhor Ator não contribuiu em nada para melhorar esta situação. No entanto, misturar a premiação com a análise do filme é um erro que jamais devemos cometer, não apenas por fugir dos aspectos cinematográficos da obra como também por permitir que elementos superficiais interfiram neste processo e nos levem a cometer injustiças. Pois a verdade é que “A Vida é Bela” é um grande filme, digno de todos os elogios e prêmios que recebeu e capaz de levar as lágrimas o mais durão dos espectadores.

Escrito, estrelado e dirigido pelo próprio Roberto Benigni, “A Vida é Bela” evidencia sua atmosfera fabulesca desde os primeiros segundos quando uma voz solene (do próprio protagonista) anuncia que acompanharemos a história de Guido (Roberto Benigni), um homem de descendência judaica que vive no interior da Itália e acaba se apaixonando pela bela Dora (Nicoletta Braschi), a professora da escola local que, por sua vez, já era noiva de outro homem. Muitos anos mais tarde, ele e seu pequeno filho Giosué (Giorgio Cantarini) são levados para um campo de concentração nazista, o que leva Dora a pedir para seguir o mesmo destino. Afastado da amada e diante de um cenário terrível, ele passa a usar a imaginação para fazer o menino acreditar que tudo não passa de um jogo que premiará o vencedor com um verdadeiro tanque de guerra.

Claramente dividida em duas partes distintas, a narrativa de “A Vida é Bela” começa de maneira bem leve, com Benigni apostando alto no humor pastelão, mas sem jamais perder a mão e ultrapassar a linha do aceitável. Assim, ele consegue algo difícil, que é arrancar o riso da plateia com piadas inocentes que lembram muito o cinema do gênio Charles Chaplin. Não são poucas as cenas divertidas que permeiam a primeira metade do longa, destacando-se a sequência em que ele tenta entrar com uma petição pública para abrir uma livraria, o ensaio com seu tio sobre como ele deveria servir os clientes no restaurante do hotel e a engraçada apresentação dele para os alunos na escola.

Tenta entrar com uma petição públicaEnsaio com seu tioApresentação para os alunosAinda nesta etapa mágica em solo italiano, Benigni busca valorizar o belo centro histórico de Arezzo com seus planos amplos e a fotografia viva de Tonino Delli Colli, colaborador de Sergio Leone em seus melhores filmes e que aqui acerta na escolha lentes que realçam a arquitetura local. O trabalho deles é essencial ainda para que algumas cenas marcantes funcionem tão bem, como o lindo passeio romântico de Guido e Dora debaixo de chuva, a colorida e animada festa de noivado em que eles se beijam embaixo da mesa e o passeio de bicicleta do casal pela cidade.

Belo centro histórico de ArezzoLindo passeio romântico de Guido e DoraSe beijam embaixo da mesaTambém essencial nesta divisão da narrativa, a montagem de Simona Paggi nos presenteia com uma elipse muito elegante, quando após fugirem da festa montados num cavalo, Guido e Dora vão para a velha casa do tio dele e um longo plano das flores do jardim acompanhado pela voz de fundo que chama pelo menino Giosué indica a passagem do tempo. Este é também o primeiro passo para o ponto de virada da narrativa, que começa a ganhar forma quando Guido sai para andar pela cidade já completamente mudada, com o exercito alemão presente e placas que proíbem a entrada de judeus espalhadas por diversos comércios. Aqui temos também o primeiro indício da maneira criativa e tocante que Guido encontrará para amenizar os efeitos trágicos daqueles acontecimentos na vida de seu filho, quando ele explica para o menino porque judeus e cachorros não eram permitidos num determinado local.

Fogem montados num cavaloFlores do jardimExercito alemãoOutro elemento que ajuda a indicar esta mudança radical é a trilha sonora de Nicola Piovani, que adota um tema delicioso na primeira metade da narrativa e passa a usar um tema sombrio com mais frequência na segunda metade, raramente cedendo lugar ao tom alegre de antes. Antes disso, um acorde rápido indica o assalto à casa do tio de Guido, dando os primeiros sinais do futuro nebuloso que os aguardava, que seriam reforçados ainda pela invasão da casa e pela pintura do cavalo dele. E então, a trilha sombria e a casa revirada anunciam que Guido e Giosué foram levados pelos alemães, iniciando a etapa obscura de “A Vida é Bela”.

A partir daí, o visual alegre e vivo adotado por Delli Colli cede espaço para os tons mais carregados e as cores sem vida como cinza e marrom – e repare como o plano que mostra a chegada do trem ao campo de concentração é dominado pelas sombras, num indício claro da vida sufocante que eles teriam ali. Da mesma forma, o fantástico design de produção de Danilo Donati recria os campos de concentração com precisão e, auxiliado pelos figurinos dele próprio, nos transporta pra dentro daquele local – o que contrasta com o asséptico hotel em Arezzo, com suas paredes brancas e decoração leve.

Chegada do trem ao campo de concentraçãoCampos de concentraçãoAsséptico hotel em ArezzoNa chegada ao campo de concentração, Dora está vestida de vermelho, mas logo é obrigada a usar os opacos uniformes listrados, numa mudança que simboliza a alegria deixada na Itália e minada naquele local. Vivendo Dora de maneira encantadora, a atriz italiana Nicoletta Braschi oferece uma atuação tocante nos poucos momentos em que surge no campo de concentração, demonstrando sua dor por estar distante do marido e do filho e arrancando lágrimas da plateia na linda cena em que Guido coloca uma música italiana para tocar pra ela na janela. Aliás, mesmo num ambiente opressor e terrível como aquele, Benigni consegue nos presentear com cenas belíssimas, como aquela em que Guido e Giosué falam no sistema de som para que Dora possa ouvir – e repare a cor da roupa que ela segura nas mãos neste instante. Outro momento tocante ocorre no reencontro entre Guido e seu amigo alemão, o Dr. Lessing interpretado por Horst Buchholz, que neste instante consegue nos comover somente através da expressão de seu rosto, dizendo muito sem necessitar de palavras e mostrando o incômodo do médico ao ver o amigo naquela situação.

Dora vestida de vermelhoOpacos uniformesIncômodo do médicoTambém muito importante para o sucesso da narrativa, a atuação do menino Giorgio Cantarini é muito eficiente, com seu olhar cheio de vida e suas expressões inocentes conquistando o coração da plateia. Mas o grande destaque fica mesmo para o carismático Roberto Benigni, que com seu jeito espalhafatoso e suas expressões marcantes cria um personagem absolutamente adorável, seja na primeira parte em que luta para conquistar Dora (“Buongiorno, Principessa!”), seja na segunda, quando tenta proteger o filho daquele ambiente hostil apenas através do uso da imaginação. Tocando num tema universal como a relação entre pai e filho, Benigni acerta em cheio o coração do espectador, abusando da sensibilidade para criar momentos de uma pureza desconcertante, que ganham contornos ainda mais belos naquele cenário extremamente degradante.

Expressões inocentesBuongiorno, Principessa!Tenta proteger o filho“A Vida é Bela” traz ainda uma série de rimas narrativas interessantes, como quando Giosué não quer tomar banho no campo, assim como ele fazia na Itália – o que gera tensão na plateia, que a esta altura já sabe o que acontece nos “banhos”, ao passo em que Guido ainda não conhecia os procedimentos nazistas para dizimar as crianças. Na medida em que nos aproximamos do ato final, os momentos de tensão começam a ganhar mais espaço, chegando ao auge quando Giosué fala “Grazie” e chama a atenção de um soldado num jantar reservado para alemães. Mas nada que se compare ao assustador plano que traz uma pilha de judeus mortos, que dá a exata noção do tamanho do massacre ocorrido ali, funcionando como um choque de realidade para o espectador.

Giosué não quer tomar banhoGraziePilha de judeus mortosMarcado pelo visual sombrio, o tenso terceiro ato traz Guido tentando de tudo para salvar seu filho naquela trágica noite, enquanto os alemães tentam eliminar todos os prisioneiros após perderem a guerra. E após tanto horror, Benigni ainda encontra espaço para nos surpreender, nos fazendo rir e chorar no lindo momento em que Guido se despede do filho fingindo estar brincando com um soldado armado, segundos antes de ser assassinado pelo mesmo. O tanque de guerra e o reencontro com a mãe só tornam tudo um pouco menos dolorido para uma plateia certamente já sensibilizada e conquistada por tamanha pureza.

Guido se despede do filhoTanque de guerraReencontro com a mãeAbordando temas universais de maneira tão humana que fica quase impossível não se comover, “A Vida é Bela” é um trabalho memorável que traz a essência dos grandes filmes que o cinema italiano já foi capaz de produzir. Usando os fortes laços familiares como combustível para nos levar através de uma narrativa sombria, Benigni realizou um filme fantástico, repleto de magia e inocência mesmo num ambiente horrível como o da guerra.

A Vida é Bela foto 2Texto publicado em 01 de Junho de 2013 por Roberto Siqueira

Tarantino’s Mind

Excepcional curta-metragem estrelado por Selton Mello e Seo Jorge.

Vídeo publicado em 31 de Maio de 2013 por Roberto Siqueira

Danke!

Danke Dortmund

Imagem publicada em 28 de Maio de 2013 por Roberto Siqueira

A FELICIDADE NÃO SE COMPRA (1946)

(It’s a Wonderful Life)

5 Estrelas

 

Obra-Prima 

Filmes em Geral #107

Dirigido por Frank Capra.

Elenco: James Stewart, Donna Reed, Thomas Mitchell, Lionel Barrymore, Henry Travers, Beulah Bondi, Frank Faylen, Ward Bond, Samuel S. Hinds, Todd Karns e H.B. Warner.

Roteiro: Frances Goodrich, Albert Hackett e Frank Capra, baseado em história de Philip Van Doren Stern.

Produção: Frank Capra.

A Felicidade não se Compra[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O otimismo e a exaltação do estilo de vida norte-americano são marcas registradas da filmografia de Frank Capra. Por vezes exagerado, o diretor ítalo-americano não hesitava um segundo antes de rechear seus longas com mensagens positivas e esperançosas, o que lhe garantiu uma carreira de sucesso numa época tão marcada por conflitos e até mesmo pela Segunda Guerra Mundial. No entanto, foi na obra-prima “A Felicidade não se Compra” que Capra conseguiu alcançar seu melhor resultado, equilibrando o riso e o drama com precisão e realizando um filme simplesmente encantador, capaz de inspirar gerações ao longo de décadas.

Baseado no conto “The Greatest Gift” de Philip Van Doren Stern, o roteiro escrito pelo próprio Capra ao lado de Frances Goodrich e Albert Hackett narra a vida de George Bailey (James Stewart), um jovem que queria deixar a cidade natal para estudar na universidade e depois viajar pelo mundo, mas que se vê obrigado a ficar e tocar os negócios da família após a morte do pai (Samuel S. Hinds). Após casar-se com a bela Mary Hatch (Donna Reed) e enfrentar credores como o cruel Sr. Potter (Lionel Barrymore) ao longo dos anos, George finalmente se vê numa situação muito complicada quando seu tio Billy (Thomas Mitchell) perde uma importante quantia que poderia levar o negócio a falência, o que faz George pensar no suicídio. Mas uma intervenção divina promete mudar o rumo desta história.

Capra nunca foi um diretor preocupado com a estilização da imagem. Seus filmes normalmente tinham um visual clássico, sem invencionismos e técnicas mais ousadas, limitando-se aos tradicionais planos americanos, closes e alguns raros planos gerais. Para ele, importava muito mais a história que seria contada do que o estilo visual. Em alguns casos, o diretor pesava demais a mão na abordagem sentimentalista (como no fraco “Adorável Vagabundo”), mas por outro lado, Capra sabia como poucos inserir o bom humor em suas narrativas, realizando filmes divertidos e marcantes (como o pioneiro “Aconteceu Naquela Noite”). Contudo, em nenhuma outra ocasião ele foi tão feliz como aqui.

Criando uma atmosfera natalina no início, Capra mantém o estilo discreto na movimentação da câmera, mas abusa da criatividade na construção da narrativa, como fica evidente desde a divertida conversa entre Deus, José e o anjo Clarence. Auxiliado pela montagem de Dimitri Tiomkin, Capra cria uma estrutura narrativa interessante, utilizando a conversa divina como ponto de partida para um enorme flashback que narra a vida do protagonista desde a infância até a noite de natal que abre o filme – e vale destacar o divertido momento em que Capra congela a imagem do adulto George para que Jose explique para Clarence o que aconteceu na vida dele. A ousadia do diretor não para por aí, já que a cena em que o Sr. Gower (H.B. Warner) bate na orelha do pequeno George traz uma carga de violência incomum para a época.

Mas este é um raro momento mais pesado numa narrativa predominantemente marcada pela leveza e pelo alto astral. Este espírito alegre pode ser notado em diversos momentos, como na recepção de Harry Bailey (Todd Karns) na estação de trem quatro anos depois que ele partiu para estudar no lugar do irmão, na divertida cena da dança numa festa que acaba num banho coletivo na piscina e no jantar de despedida de George em que ele e o irmão carregam a mãe (Beulah Bondi) nos braços. Mais interessante, no entanto, é a maneira como Capra equilibra este bom humor com momentos extremamente humanos, como a conversa entre pai e filho antes da suposta saída de George da cidade, que de tão sincera chega a comover.

A boa relação com os pais, aliás, é um reflexo de um traço marcante da personalidade de George, um homem que parece incapaz de pensar somente em si mesmo, ainda que tenha seus sonhos e tente correr atrás deles por diversas vezes. Somente esta benevolência já justificaria a simpatia do espectador pelo personagem, mas o enorme carisma de James Stewart torna a tarefa ainda mais fácil. Ao lado da encantadora e charmosa Donna Reed, que surge pela primeira vez num close que só realça sua beleza, Stewart oferece uma atuação vibrante, convencendo como o homem simples e de coração puro que enfrenta os credores para continuar oferecendo aos cidadãos locais a possibilidade de conquistar a casa própria. Juntos, George e Mary protagonizam cenas belíssimas como aquela em que ele promete laçar a lua e dar pra ela (num diálogo icônico imortalizado ao longo dos anos) ou a engraçada sequência que culmina com Mary nua num arbusto, que tem seu clima totalmente quebrado pela triste notícia do derrame que levou o pai de George a morte.

Conversa entre Deus, José e o anjoBanho coletivo na piscinaGeorge promete laçar a lua e dar pra elaIntercalando estes momentos doces com outros amargos, Capra reflete em sua fábula a própria situação do protagonista, um homem feliz na maior parte do tempo, mas que é levado pelos caminhos da vida a desistir de sonhos como estudar na universidade e viajar pelo mundo – algo simbolizado sutilmente pelos panfletos de viagem que ele joga fora. Poucos temas são mais humanos que a renúncia, algo que constantemente faz parte de nossas vidas. O próprio visual do longa reflete esta gangorra de sentimentos através do contraste entre os dias ensolarados e os chuvosos; e a própria chuva tem papel simbólico em muitos instantes, como no belo plano em que o casal acompanha pelo vidro molhado do carro a multidão que se forma em frente a empresa de George, indicando que mais uma vez ele deixaria seus sonhos de lado para ajudar as pessoas. Seguindo esta estratégia, a fotografia de Joseph Biroc e Joseph Walker lentamente abandona as cenas mais claras e iluminadas da primeira metade do filme para ceder lugar aos tons mais sombrios conforme a narrativa avança, chegando ao auge na assombrosa sequência em que George pensa em suicidar-se debaixo de neve.

“A Felicidade não se Compra” conta ainda com sua porção de cenas marcantes, como aquela em que George e Mary seguram um aparelho telefônico e acabam se beijando, numa cena típica do cinema clássico de Hollywood que funciona muito bem. Além dela, vale citar também a noite de núpcias preparada pelos amigos para o casal, numa decoração criativa que reforça o bom trabalho de direção de arte de Jack Okey. E finalmente, podemos citar a interessante explicação dada pelo protagonista sobre como funciona o crédito concedido por sua empresa para que as pessoas consigam comprar suas casas, num raciocínio que ainda hoje pode ser aplicado ao sistema bancário.

A escalada dramática do protagonista começa a ganhar força quando Potter tenta contratá-lo – e Stewart demonstra com precisão o conflito de sentimentos do personagem, que inicialmente se mostra surpreso e feliz com a proposta, mas depois percebe as reais intenções de Potter e se revolta. Mesmo se negando a aceitar a proposta, a possibilidade de oferecer uma vida melhor para sua família fica martelando em sua mente por um bom tempo. Assim, não nos surpreendemos quando ele explode e quase agride seu tio após descobrir que ele perdeu uma importante quantia em dinheiro, voltando transtornado para casa para chorar com os filhos no braço antes de maltratar sua amada esposa e as próprias crianças. Prestes a ser enviado para a cadeia por Potter, ele decide sair da casa e suicidar-se, numa cena que parte o coração da plateia.

Casal acompanha pelo vidro molhado do carroGeorge e Mary acabam se beijandoPotter tenta contratá-loEm seguida, o zoom que nos aproxima de seu rosto suado no bar praticamente nos permite sentir seu desespero. Bêbado, ele perambula pela cidade e a neve que cai só reforça o sentimento de angústia da plateia. E então chegamos à sequência mais genial do longa, quando o anjo Clarence finalmente entra em cena e mostra como seria a vida sem George, provocando reflexões não apenas no personagem, mas no próprio espectador. Sua alegria genuína quando “volta à vida” e ao lar é comovente, assim como a inesperada ajuda dos amigos e as doces palavras deixadas pelo anjo no livro: “Lembre-se, George: nenhum homem é um fracasso quando tem amigos”. Por isso, é quase inevitável chegar ao fim de “A Felicidade não se Compra” com o ânimo renovado e os olhos marejados.

Realizando um filme otimista como quase todos de sua longa carreira, Capra acertou em cheio neste “A Felicidade não se Compra”, uma obra-prima humana, sensível e capaz de lavar nossa alma e elevar nosso espírito como poucos filmes foram capazes até hoje.

A Felicidade não se Compra foto 2Texto publicado em 23 de Maio de 2013 por Roberto Siqueira