ADORÁVEL VAGABUNDO (1941)

(Meet John Doe)

2 Estrelas 

 

Filmes em Geral #106

Dirigido por Frank Capra.

Elenco: Gary Cooper, Barbara Stanwyck, Walter Brennan, Edward Arnold, Spring Byington, Gene Lockhart, Sterling Holloway, James Gleason, Rod La Rocque e Regis Toomey.

Roteiro: Robert Riskin, baseado em história de Richard Connell e Robert Presnell Sr.

Produção: Frank Capra e Robert Riskin (não creditados).

Adorável Vagabundo[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Reconhecido pela capacidade de conduzir filmes com mensagens otimistas que ilustravam como poucos o sonho norte-americano daquela época, Frank Capra era um diretor popular, é verdade, mas que tinha também o reconhecimento da crítica justamente pela maneira como utilizava estas características marcantes para realizar bons filmes. Infelizmente, isto não é o que acontece em “Adorável Vagabundo”, longa sofrível estrelado por Gary Cooper e Barbara Stanwyck que, além de narrar uma história extremamente previsível, ainda peca pela abordagem exageradamente melodramática do diretor.

O roteiro escrito por Robert Riskin com base em história de Richard Connell e Robert Presnell Sr. até parte de uma premissa interessante: após ser demitida pelo novo editor do jornal onde trabalhava, Ann Mitchell (Barbara Stanwyck) publica sua última matéria contando a história de John Doe, um homem amargurado que iria suicidar-se na noite do natal como um protesto contra o que ele achava que estava errado na sociedade. A coluna chama a atenção do público e de toda a mídia, mas o problema é que Ann tinha inventado toda a história e, diante da enorme repercussão da matéria, ela é chamada de volta ao jornal. Após decidirem levar a farsa adiante, eles passam a procurar por alguém que personifique este personagem inventado e escolhem John Willoughby (Gary Cooper), que assume a nova personalidade e passa a rodar o país levando adiante a ideologia criada para o personagem.

Nos primeiros planos de “Adorável Vagabundo”, Capra faz questão de mostrar centenas de pessoas felizes trabalhando ou servindo ao exército, passando a ideia que será à base da narrativa: a força do cidadão comum. Em seguida, a simples troca de uma placa com dizeres sobre a imprensa livre já anuncia a mudança no comando de um jornal que culminará na demissão de todos os 40 funcionários e levará Ann a escrever a matéria que revolucionará o país. E então os diversos problemas do longa vem à tona, a começar por piadas nada inspiradas como no embaraçoso monólogo de Bert (Regis Toomey) na prefeitura e na chegada de John ao jornal, quando um dos presentes diz que não se suicidaria no natal por ser supersticioso.

Capra também erra a mão quando tenta colocar peso dramático na narrativa, apelando para a trilha sonora de Dimitri Tiomkin em diversos momentos desnecessários e acertando em raras ocasiões, como quando a trilha inspiradora embala o momento em que a mãe de Ann entrega o diário do pai contendo o texto que inspiraria o discurso de esperança de John Doe. Aliás, esta abordagem melodramática ganha força no próprio visual do filme. Repare, por exemplo, como Capra e seu diretor de fotografia de George Barnes procuram valorizar os rostos das pessoas comuns, expondo suas imperfeições através da maneira como iluminam as cenas e forçando nossa identificação com eles, até por contrastar diretamente com as cenas dominadas pelos tons mais escuros que acompanham os homens poderosos como Norton (Edward Arnold), o dono do jornal.

Pessoas felizes trabalhandoRostos das pessoas comunsHomens poderososPor outro lado, “Adorável Vagabundo” também tem sua parcela de acertos. É interessante, por exemplo, acompanhar a guerra nos bastidores da imprensa e os interesses de Norton naquela manifestação popular. Repare também como os instantes que antecedem o primeiro discurso de John Doe são tensos justamente pela maneira que Capra conduz a sequência, não permitindo que o espectador antecipe qual dos dois textos ele vai ler – e aqui vale notar o trabalho de Cooper, que gagueja no início, como se não soubesse exatamente o que fazer, mas com o passar do tempo ganha confiança e começa a gostar da reação das pessoas àquelas palavras, falando com mais firmeza e empolgação. Seria uma grande cena, não fosse o conteúdo da mensagem, que joga para o próprio povo a responsabilidade de buscar soluções para a resolução de seus problemas, praticamente isentando os políticos de seus deveres diante da sociedade.

O problema do roteiro está justamente em seu discurso previsível e apelativo, que dificulta bastante o trabalho dos atores, ainda que o elenco tenha gente talentosa como Gary Cooper e Barbara Stanwyck. Vivendo a esperta e ambiciosa Ann, Stanwyck oscila entre bons momentos, como quando se emociona ao ouvir as palavras de seu pai sendo lidas por Doe, e cenas embaraçosas, como aquela que encerra o longa (voltaremos a ela em instantes). Já a atuação mais contida de Gary Cooper cai bem no personagem, um homem simples que é lentamente sugado pra dentro daquele turbilhão e acaba se envolvendo sem perceber exatamente o que estava acontecendo. Repare, por exemplo, como Cooper olha para a comida com desejo e para os objetos de decoração com deslumbramento quando chega ao jornal, saindo-se bem numa das raras vezes em que o longa consegue nos fazer rir, quando Doe está distraído mexendo na estatua de uma mulher nua e se assusta ao ouvir um empolgado “Olá!”, sem notar que Ann havia chegado ao local.

No restante do elenco, Edward Arnold compõe um Norton imponente com sua voz grave e em tom sempre controlado, destacando-se em momentos especiais como o jantar em que presenteia uma desconfiada Ann e anuncia seu plano eleitoral, provocando a mesma reação nela e na plateia: “Uau!”. Além disso, tanto Arnold quanto Cooper têm um bom desempenho na forte discussão entre John e Norton durante a reunião do poderoso dono do jornal com importantes homens da cidade que precede o clímax da narrativa. Mas o grande destaque do elenco vai mesmo para a atuação de James Gleason na cena em que Connell revela o plano de Norton para Doe num bar, soando convincente como um homem amargurado diante de tudo que estava prestes a acontecer e emocionando quando menciona a morte do pai. No entanto, o problema desta cena reside no teor nacionalista e recheado pelo idealismo norte-americano tão comum na filmografia de Capra, evidenciado nas diversas menções do personagem ao “país livre” e à liberdade de expressão.

Primeiro discurso de John DoeSe emociona ao ouvir as palavras de seu paiForte discussão entre John e NortonEssencial para o sucesso de sequências como aquela que acompanha as viagens de John sobrepondo planos e imagens do mapa dos EUA num ritmo empolgante, a montagem de Daniel Mandell é responsável também pela sensação de desconforto causada no tumulto durante a “Convenção John Doe”, obtida através da rápida justaposição de planos e dos próprios enquadramentos confusos de Capra – que, se soam deselegantes, ao menos tem função narrativa. Além do rápido plano geral empregado por Capra que revela o grande número de pessoas no local, o que impressiona durante a “Convenção John Doe” é o design de som, que capta com precisão o burburinho da plateia, a chuva e a distorção do microfone, além da revolta que explode na multidão após os homens comandados por Norton cortarem os microfones e incentivarem as vaias.

Infelizmente, Capra pesa demais a mão no ato final e, além do visual exageradamente escuro da última cena no alto do prédio, o tom carregado pelo melodrama excessivo e a atuação over de Stanwyck criam um dramalhão típico das novelas mexicanas.

Conhecido como um grande defensor dos ideais norte-americanos, o ítalo-americano Frank Capra desta vez pesou a mão e fez deste “Adorável Vagabundo” um longa decepcionante, com uma mensagem óbvia demais e incrivelmente piegas.

PS: A ideologia associada a John Doe torna o assassino de “Seven” ainda mais especial pela ironia que a escolha de seu nome naturalmente carrega.

Adorável Vagabundo foto 2Texto publicado em 22 de Maio de 2013 por Roberto Siqueira

A MULHER FAZ O HOMEM (1939)

(Mr. Smith Goes to Washington)

5 Estrelas 

Filmes em Geral #105

Dirigido por Frank Capra.

Elenco: James Stewart, Jean Arthur, Claude Rains, Ruth Donnelly, Eugene Pallette, H.B. Warner, Beulah Bondi, Thomas Mitchell, Guy Kibbee, Edward Arnold, Harry Carey e Grant Mitchell.

Roteiro: Sidney Buchman, baseado em história de Lewis R. Foster.

Produção: Frank Capra (não creditado).

A Mulher faz o Homem[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Segundo filme da famosa e bem sucedida parceria entre o diretor Frank Capra e o ator James Stewart, “A Mulher faz o Homem” é também um dos mais notáveis trabalhos realizados por ambos em suas marcantes carreiras no cinema. Mais uma vez trazendo a história de um homem comum que enfrenta os poderosos com sua determinação e moral inabalável, Capra realizou um filme corajoso, que já na década de 30 debatia o conturbado e complexo jogo político e seus bastidores recheados de interesses escusos – um tema que, como sabemos, continua bastante atual.

O roteiro escrito por Sidney Buchman com base em história de Lewis R. Foster nos apresenta a curiosa trajetória de Jefferson Smith (James Stewart), um homem do interior que é convidado a se tornar senador dos Estados Unidos somente porque sua falta de experiência serviria como uma luva para que seus companheiros pudessem levar adiante um corrupto projeto. O problema é que Smith, auxiliado pela inteligente secretária Clarissa Saunders (Jean Arthur), acaba se empolgando com sua posição e propõe outro projeto social que, por ironia, inviabilizaria o primeiro, criando um conflito de interesses que leva o senador Joseph Paine (Claude Rains), um amigo de seu falecido pai, a acusá-lo em plena câmara do senado de se beneficiar do projeto para enriquecer, o que faz com que Smith passe a questionar os valores e os ideais dos líderes de seu país.

Apesar de um garoto dizer em certo momento que Smith é “o melhor americano que nós temos”, os valores norte-americanos tão presentes na filmografia de Capra são questionados em boa parte de “A Mulher faz o Homem”, o que chega a ser surpreendente. É verdade que no final o homem justo e idealista acaba vencendo os poderosos corruptos e a mensagem otimista do diretor ganha força, mas em grande parte do longa a sensação que temos é a de que aquele complexo jogo político realmente seria capaz de minar aquele pobre homem; e o fato é que mesmo saindo vitorioso, Smith certamente não mantém a visão pura e simplista que tinha quando chegou a Washington. Assim, se este suposto ufanismo é aparentemente reforçado pelo clipe que apresenta as estátuas de ex-presidentes dos EUA intercaladas com trechos da constituição e embalado pelos hinos da Inglaterra e dos Estados Unidos na chegada do protagonista à capital, esta reverência à história norte-americana terá reflexo no impecável terceiro ato, quando o próprio Smith questiona onde aqueles valores estavam.

É fascinante também como Capra aborda o jogo de interesses políticos nos bastidores do senado desde o início frenético do longa, quando, auxiliado pela montagem ágil de Al Clark e Gene Havlick, anuncia a morte de um importante senador e, através da maneira acelerada com que a notícia se espalha, evidencia para o espectador a importância daquele cargo para o qual Smith seria escolhido. Observe também como o movimento de câmera que revela a imponente câmara do senado concebida pela direção de arte de Lionel Banks nos insere naquele ambiente sob a perspectiva do protagonista, assim como o lento travelling que apresenta o grande número de pessoas presentes no local, fazendo com que o espectador perceba como aquilo tudo poderia intimidar Smith e forçando nossa identificação com ele.

Da mesma forma, Capra faz questão de engrandecer o Presidente do Senado durante o juramento de Smith, novamente nos colocando em sua posição e fazendo com que o espectador sinta a pressão que o próprio personagem sente por estar ali. O diretor usa a câmera com inteligência também em outros momentos, como numa conversa com Susan, a filha do senador Paine por quem Smith se apaixona, na qual Capra sequer mostra o rosto dele, ilustrando seu nervosismo através de planos de suas mãos mexendo no chapéu, o que só realça a timidez do rapaz.

Refletindo a euforia de Smith e a sua visão romantizada da capital, a fotografia de Joseph Walker prioriza os tons mais claros, o que torna ainda mais triste a sequência em que ele pensa em desistir e voltar para sua cidade, com o personagem afundado nas sombras após voltar ao Memorial de Lincoln e constatar que os valores de seu povo não passavam de ideais distantes da realidade. Por outro lado, observe como as sombras encobrem o rosto de Jim Taylor quando este discute o nome que será indicado para o cargo no senado, num contraste interessante que reforça a estratégia visual adotada. Já o design de som apresenta oscilações ainda mais fortes, especialmente nos debates no senado, o que vira motivo de piada, por exemplo, quando Smith fala pela primeira vez na câmara.

Estátuas de ex-presidentes dos EUAImponente câmara do senadoVolta ao Memorial de LincolnE se de maneira geral as atuações parecem um pouco exageradas (o que era comum na época), alguns nomes conseguem se destacar, como o manipulador Jim Taylor interpretado por Edward Arnold, que impõe respeito com seu corpo avantajado e sua expressão ameaçadora – aliás, é interessante como muitos políticos surgem gordos e envelhecidos, num indício da vida farta e sedentária que levam. Vale citar também o simpático Presidente do Senado interpretado por Harry Carey, que sorri constantemente, mas nem por isso deixa de contar com o respeito de todos, além é claro do imprevisível senador Paine de Claude Rains, que demonstra bem o conflito do personagem diante daquele ambiente obscuro e corrompido. É ele quem protagoniza um dos momentos tocantes do longa, quando explica para Smith que pra conseguir realizar coisas boas na política é preciso se comprometer e jogar o jogo, demonstrando um incômodo que será essencial para que sua mudança de comportamento no final faça sentido. Até por isso, é chocante o momento em que ele acusa Smith no senado e muda o foco dos debates, provocando a investigação do amigo e a proposta de expulsão dele.

Enojada diante deste desgastante jogo de interesses – especialmente após a paixão por Susan ser usada contra Smith – e cansada daquela vida vazia, a determinada Clarissa Saunders vivida com intensidade por Jean Arthur reencontra alguma razão para seguir naquela jornada somente após a chegada de Smith, que, com seu jeito simples e sonhador, devolve os valores outrora perdidos por ela diante de tanta corrupção. Conhecido como a personificação do homem comum, Stewart cai muito bem no papel do interiorano Smith, surgindo com a voz oscilante, gaguejando e evitando o olhar no início, demonstrando estar claramente assustado diante de tantas mudanças repentinas em sua vida.

Talentoso como poucos, Stewart realiza aqui um de seus melhores trabalhos, encarnando muito bem o tipo caipira que chega a cidade grande e se encanta, demonstrando deslumbramento, por exemplo, diante de obras como a estátua de Lincoln ou o Capitólio dos Estados Unidos. Além disso, os diálogos ágeis da maioria dos personagens só reforçam a grande atuação dele, que fala pausadamente no inicio, evidenciando seu deslocamento naquele local e criando uma aura de inocência que, por exemplo, faz a imprensa se aproveitar para espalhar notícias sensacionalistas com base em pequenas declarações, o que leva o protagonista a distribuidor socos e pontapés – num momento crucial que marca a perda da inocência de Smith, que passa a enxergar a dura realidade da política.

Quando Saunders explica o complexo sistema para aprovar um projeto no senado, Smith demonstra fascínio com seu queixo apoiado em suas mãos, enquanto ela demonstra tédio diante de tamanha burocracia. No entanto, com o passar do tempo o idealismo dele emociona a experiente secretária e a empatia entre eles começa a aflorar, assim como os melhores momentos da marcante atuação de Jean Arthur. Repare, por exemplo, como ela convence quando surge bêbada conversando com Diz ou quando revela a verdade para Smith sobre o esquema de propinas que impediria seu projeto de sair do papel. Já na apresentação do projeto ao senado é Stewart quem dá um show, novamente surgindo nervoso com sua voz trêmula e expressão retraída, o que torna sua postura no ato final ainda mais impressionante, quando surge confiante, determinado e se mantém firme até cair exausto após horas defendendo sua posição, numa atuação soberba e digna de aplausos.

Paine acusa SmithDeterminada Clarissa SaundersConfiante, determinado e se mantém firmeApoiando-se na força de Saunders (daí a origem do inventivo nome do filme em português), Smith encontra forças para defender-se das acusações que sofre no senado, numa batalha comovente que gruda o espectador na cadeira durante todo o eletrizante ato final, quando o poder de Taylor fica ainda mais evidente, controlando a máquina, a imprensa e praticamente todos os integrantes do estado no senado, numa verdadeira luta de gigantes contra um mero cidadão comum – o que, por razões óbvias, força ainda mais nossa identificação com o protagonista e nos leva a torcer por seu sucesso.

Assim, “A Mulher faz o Homem” é um grande filme sobre o complexo jogo de interesses que move a política desde a origem da humanidade. Como podemos perceber, este não é um problema recente, ainda que isto não sirva de desculpa para justificar nossa acomodação diante dos escândalos que de tempos em tempos surgem por aí. Ao que parece, no embate entre o idealismo e os interesses obscuros, foi o primeiro quem levou a pior e ficou esquecido no passado.

A Mulher faz o Homem foto 2Texto publicado em 21 de Maio de 2013 por Roberto Siqueira

ACONTECEU NAQUELA NOITE (1934)

(It Happened One Night)

5 Estrelas 

Filmes em Geral #104

Vencedores do Oscar #1934

Dirigido por Frank Capra.

Elenco: Clark Gable, Claudette Colbert, Walter Connolly, Roscoe Karns, Jameson Thomas, Alan Hale, Arthur Hoyt, Blanche Friderici, Charles C. Wilson, Irving Bacon, Ward Bond e Eddy Chandler.

Roteiro: Robert Riskin e Samuel Hopkins Adams.

Produção: Frank Capra.

Aconteceu Naquela Noite[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Primeiro filme da história a vencer os cinco principais prêmios da Academia de Hollywood, “Aconteceu Naquela Noite” marcou época também por ser a primeira comédia-romântica de sucesso da história do cinema, misturando dois gêneros com forte apelo popular de maneira orgânica e bastante divertida. Apoiando-se no ótimo texto e nas boas atuações de Gable e Colbert, Frank Capra realizou um longa delicioso, repleto de cenas memoráveis e responsável por estabelecer alguns padrões narrativos que são religiosamente seguidos no gênero ainda hoje.

Escrito por Robert Riskin e Samuel Hopkins Adams, “Aconteceu Naquela Noite” tem início quando o jornalista desempregado Peter Warren (Clark Gable) encontra Ellie (Claudette Colbert), a filha foragida do milionário Alexander Andrews (Walter Connolly) que abandonou seu iate após este não aprovar seu casamento com o também bem sucedido King Westley (Jameson Thomas). Interessado no potencial jornalístico da trajetória da moça, Peter decide acompanhá-la numa longa viagem, mas acaba se envolvendo com ela no caminho.

Determinada e convicta desde os primeiros segundos em cena, Claudette Colbert compõe a arredia Ellie como uma mulher de personalidade forte, dedicada a conquistar seus objetivos independentemente do que seja preciso para alcançá-los, mas sem jamais perder seu lado frágil e sensual por causa disto. Assim, não surpreende o fato de Peter se apaixonar por ela, já que o próprio espectador é fisgado pelo carisma da personagem. Encarnando um protagonista típico da filmografia de Capra (o homem comum que se vê numa situação desconfortável, mas consegue mudar seu destino através do esforço), Gable se sai bem ao ilustrar como Peter vê em Ellie a grande chance de dar uma resposta ao seu antigo chefe após perder o emprego sem que, para isto, precise adular a moça, o que faz com que os primeiros contatos entre eles sejam rudes, já que ambos têm personalidades muito marcantes.

No entanto, lentamente eles começam a se aproximar, e Capra conduz este processo com exatidão, tornando esta aproximação verossímil e praticamente inevitável – e repare a expressão de Gable quando ela coloca as mãos no peito dele no ônibus que, assim como a reação dela ao acordar, evidencia como eles gostam do contato, ainda que evitem demonstrar isso para o outro. Assim como é fácil entender porque ele é atraído por ela, também não é difícil compreender o que chama a atenção da garota, já que Gable cria um Peter estiloso, com seu charme natural sendo realçado por pequenos detalhes como o uso constante do chapéu e pela aura misteriosa conferida pela fumaça de seu charuto. Determinado a escrever sobre a aventura dela (“Vou escrever um livro sobre isso”, diz sempre que algo lhe interessa), Peter deixa claro que não é tão bom quando parece quando ameaça entregar a garota para o pai, mas este traço só enriquece o personagem e torna sua mudança de comportamento ainda mais interessante.

Arredia EllieHomem comumExpressão de GableSeu conflito de sentimentos começa a ganhar força quando ele decide ajudar Ellie a cuidar de seu dinheiro, num dos primeiros sinais de preocupação por parte dele. Com o passar dos dias, este interesse vai se tornando evidente na medida em que ambos demonstram mudanças no comportamento. Prisioneira da vida luxuosa que levava, ela se encanta com coisas simples da vida como uma música popular cantada por todos no ônibus; e Peter meio que simboliza esta mudança pra ela. Obviamente, tudo isto soa verdadeiro graças à empatia entre Gable e Colbert, que mantém uma dinâmica muito boa e carregam a narrativa com facilidade.

Mas “Aconteceu Naquela Noite” se beneficia também dos excelentes momentos de bom humor espalhados pela narrativa, como o passageiro que ronca e o que fala sem parar no ônibus, a sequência em que Peter e Ellie roubam o carro do homem que roubava quem pedia carona (uma ousadia para a época) e a hilária cena em que Peter explica sua teoria dos polegares pedindo carona, na qual Ellie encontra uma solução prática que realça o lado sensual de sua personagem, também evidenciado em outros momentos como quando ela pendura as roupas no cobertor que separa as camas deles – uma barreira física que simboliza muito bem a tensão sexual existente entre eles. Aliás, Capra procura valorizar sua atriz em diversos momentos, utilizando o rack focus nos closes em seu rosto, numa técnica que era muito usada para amenizar imperfeições na pele das atrizes.

Esta, no entanto, é uma das raras técnicas utilizadas por Capra que chamam a atenção, já que o diretor preza pela discrição adotando poucos movimentos de câmera inventivos e preferindo os planos estáveis que, reforçados pela iluminação da fotografia de Joseph Walker, buscam valorizar os atores, tornando raros os movimentos mais ousados como o travelling que acompanha Ellie indo do quarto para o banho pelo ambiente externo; mas, por outro lado, criando cenas visualmente belíssimas como aquela em que as luzes refletem na água enquanto Peter e Ellie atravessam um rio durante a noite. Obviamente, a montagem de Gene Havlick é importante neste processo, surgindo igualmente discreta apesar do uso constante dos fades com deslocamento lateral da imagem.

Solução práticaCobertor que separa as camas delesPeter e Ellie atravessam um rioCapra encontra espaço ainda para uma pequena crítica social na sequência em que uma mãe passa fome com seu filho no ônibus, mas acerta mesmo na condução de cenas memoráveis, como aquela em que Peter e Ellie fingem ser um casal discutindo diante dos detetives e aquela em que Peter finge ser o sequestrador dela para protegê-la do ambicioso Oscar Shapeley (Roscoe Karns), assustando o pobre homem que desiste de seguir viagem com eles. Além disso, o diretor se sai ainda melhor nas cenas românticas, como quando eles quase se beijam deitados na palha, numa cena em que o silêncio que predomina torna tudo ainda mais interessante, acertando também na bela cena em que ela sai detrás do cobertor e se declara.

Após uma sequência de mal entendidos, “Aconteceu Naquela Noite” finalmente chega ao seu clímax, gerando um conflito que separa o casal e traz tensão à narrativa – um recurso narrativo criado na época e utilizado tantas vezes em filmes do gênero desde então que se tornou um clichê quase insuportável, mas que funciona bem aqui justamente pelo contexto histórico. Desesperado, Peter quase desiste de Ellie – e um plano do pneu de seu carro murchando ilustra perfeitamente seu sentimento diante da eminente perda da amada. Mas, pra sua sorte, uma conversa entre pai e filha antes da cerimônia de casamento com Westley não apenas confirma a inteligência e o grande coração do homem interpretado com carisma por Walter Connolly como abre caminho para que Ellie siga seu desejo, nos levando a divertida e surpreendente fuga da cerimônia que fecha tão bem a narrativa e garante o final feliz.

Comédia leve e repleta de boas atuações, “Aconteceu Naquela Noite” é um marco na história do cinema, exercendo influência num dos gêneros mais conhecidos e rentáveis de Hollywood até os dias de hoje.

Aconteceu Naquela Noite foto 2Texto publicado em 20 de Maio de 2013 por Roberto Siqueira

Semana Frank Capra

Olá pessoal,

As semanas especiais estão de volta.

Nos próximos dias divulgarei críticas de quatro filmes dirigidos por Frank Capra, cineasta que ontem completaria 116 anos de idade e que certamente foi um dos maiores diretores da história do cinema mundial.

Como de costume, aproveito para lançar a página “Frank Capra”, que você pode acessar na página inicial (lado direito da tela), onde faço uma pequena análise da obra deste importante diretor.

Um grande abraço e espero que gostem.

Texto publicado em 19 de Maio de 2013 por Roberto Siqueira

Trilhas #004 – “Jaws Theme Song”, do filme “Tubarão”

Vídeo publicado em 16 de Maio de 2013 por Roberto Siqueira

CONTATOS IMEDIATOS DO TERCEIRO GRAU (1977)

(Close Encounters of the Third Kind)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #168

Dirigido por Steven Spielberg.

Elenco: Richard Dreyfuss, Bob Balaban, Teri Garr, François Truffaut, Melinda Dillon, J. Patrick McNamara, Warren J. Kemmerling, Cary Guffey e Roberts Blossom.

Roteiro: Steven Spielberg.

Produção: Julia Phillips e Michael Phillips.

Contatos Imediatos do Terceiro Grau[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após o sucesso avassalador de “Tubarão”, Steven Spielberg teria carta branca para tocar o projeto que quisesse. Não surpreende, portanto, que o próximo longa do diretor seja justamente aquele que marca sua primeira incursão num de seus gêneros favoritos. Contando novamente com Richard Dreyfuss no elenco e conseguindo ainda a participação de uma lenda do cinema francês (o diretor François Truffaut), Spielberg tinha tudo nas mãos para emplacar outro grande sucesso e, felizmente, ele não decepcionou. “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” é uma ficção científica cativante, que mantém seu encanto mesmo décadas após seu lançamento.

“Contatos Imediatos do Terceiro Grau” era um projeto tão pessoal que Spielberg não apenas dirigiu o filme como também se encarregou de escrever o roteiro, que tem início quando o tranquilo Roy (Dreyfuss) começa a ter visões de uma misteriosa montanha ao mesmo tempo em que presencia estranhas luzes cortarem o céu da pequena cidade em que vive no interior dos EUA. Obcecado pela estranha montanha, ele acaba se distanciando da família e, após ser abandonado, parte em busca de respostas. Em paralelo, o cientista Claude Lacombe (Truffaut) investiga a estranha aparição de um grupo de aviões desaparecidos há muitos anos, enquanto Jillian Guiler (Melinda Dillon) ganha destaque na mídia após afirmar que seu pequeno filho Barry (Cary Guffey) foi levado por uma nave espacial.

Com sua costumeira habilidade na construção de narrativas que misturam eventos grandiosos com dramas extremamente pessoais, Spielberg e seu montador Michael Kahn conduzem as três linhas narrativas de “Contatos Imediatos” num ritmo agradável, priorizando a trajetória de Roy sem jamais tornar os segmentos que acompanham Lacombe ou Jillian menos interessantes. Assim como ocorria em “Tubarão” (e, posteriormente, na maioria dos filmes de Spielberg), a ausência da figura paterna é um tema marcante, surgindo primeiro na casa do menino Barry, criado por uma mãe forte e solitária, e depois na própria trajetória de Roy, que larga mulher e filhos para ir atrás dos OVNI’s e acaba embarcando no disco voador com os extraterrestres. Apesar disto, este não será o tema central do longa, que concentra sua força nas imagens marcantes conseguidas com efeitos visuais extremamente eficientes e na sensação de encanto das pessoas diante do que veem – algo que o diretor faz questão de ressaltar em diversos momentos com planos que realçam o olhar de admiração dos personagens.

Efeitos visuais extremamente eficientesEncanto das pessoasOlhar de admiraçãoPara isto, Spielberg capricha na composição dos planos, como fica evidente desde o impressionante plano geral que mostra toda a cidade escurecendo após a queda da energia elétrica e, logicamente, no deslumbrante ato final. Além disso, o diretor usa sua câmera com habilidade para criar suspense, por exemplo, na cena em que a luz do farol de um carro atrás da caminhonete de Roy se movimenta para o lado quando este o ultrapassa e, minutos depois, outra luz também se movimenta, só que desta vez para cima, indicando para a plateia a presença de algo estranho. Repare ainda como o diretor sabe trabalhar muito bem a expectativa do espectador na cena em que acompanhamos os controladores de voo captando a presença dos OVNI’s e, especialmente, quando nos coloca dentro da casa junto com Barry e sua mãe, criando uma cena absolutamente tensa que culmina no impressionante plano em que ela sai correndo pra fora e vê as naves sumindo no horizonte distante com seu filho.

Cidade escurecendoCarro atrás da caminhonete de RoyDentro da casaObviamente, o diretor de fotografia Vilmos Zsigmond tem participação fundamental neste processo, trabalhando na maior parte do tempo com paletas claras e cenas diurnas que criam um contraste interessante com o espetacular visual do ato final, que se passa praticamente o tempo todo à noite, num cenário perfeito para o festival de cores e luzes que toma conta da tela após a chegada das espaçonaves. Quem também dá um show em “Contatos Imediatos” é o design de som, que se destaca logo de cara ao captar com precisão o barulho do vento e as vozes dos personagens na sequência que abre o longa no México. E finalmente, a trilha sonora do mestre John Williams é responsável por criar as cinco notas icônicas que estabelecem contato com os extraterrestres, além de servir também para aumentar a tensão em alguns momentos pontuais, como na chegada dos ET’s à casa de Barry.

Paletas clarasFestival de cores e luzesCinco notas icônicasEm outro momento bem conduzido por Spielberg, acompanhamos Roy conversando com a esposa por telefone e, no segundo plano, a imagem da montanha Devil’s Tower na televisão – e o próprio movimento de câmera que revela a montanha real é belíssimo. No entanto, “Contatos Imediatos” não se resume apenas ao apuro técnico, já que o diretor é competente também ao extrair boas atuações de praticamente todo o elenco, a começar pelo próprio Richard Dreyfuss, que demonstra a determinação do personagem através de suas expressões marcantes, evidenciando também o quanto sua vida foi afetada por aquele evento incomum – algo que sua esposa e seus filhos não demoram a perceber, o que os leva a deixar a casa (com razão) após um surto de loucura do pai. E se a esposa de Roy vivida por Teri Garr não ganha grande destaque, Melinda Dillon quase rouba a cena com seu desempenho envolvente na pele da desesperada mãe de Barry, comovendo pela maneira determinada com que parte em busca do filho.

Roy conversando com a esposa por telefoneExpressões marcantesDesesperada mãe de BarryApesar de serem impulsionados por motivações distintas (ela vai atrás do filho enquanto ele se distancia deles), Jillian e Roy compartilham a obstinação por algo que eles sequer têm certeza que vão conseguir encontrar, o que justifica a identificação dos personagens e, por consequência, conquista também a empatia da plateia. Assim como eles, nós não sabemos exatamente aonde a narrativa irá nos levar, mas aguardamos ansiosamente pelo contato que dá nome ao filme.

Inteligente, Spielberg constrói o clímax cuidadosamente, criando uma atmosfera perfeita e fazendo com que a plateia aguarde ansiosamente pelo contato com os extraterrestres através de planos belíssimos como aquele que mostra a montanha preparada para a chegada dos discos voadores. Quando o aguardado momento chega, o diretor segue uma linha diferente da maioria das obras relacionadas à invasão de alienígenas, nos apresentando seres pacíficos e interessados somente em comunicar-se com a raça humana. E isto acontece de maneira mágica, num espetáculo de luzes e sons que dificilmente é apagado da memória do espectador. Neste instante, os olhares fascinados dos personagens se confundem com os da própria plateia, maravilhada diante de tamanho espetáculo visual.

Montanha preparadaLuzes e sonsOlhares fascinadosConfirmando sua habilidade ímpar de construir narrativas absolutamente cativantes, Steven Spielberg se consolidava como um diretor com rara capacidade de agradar público e crítica, narrando histórias visualmente marcantes sem jamais deixar de se preocupar com o lado humano de seus personagens. Envolvente e espetaculoso, “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” é um trabalho memorável na carreira de Spielberg, o que não deixa de ser um feito, considerando a filmografia deste aclamado diretor.

Contatos Imediatos do Terceiro Grau foto 2Texto publicado em 14 de Maio de 2013 por Roberto Siqueira

Videoteca do Beto: novas aquisições

Olá pessoal,

Mais novidades em DVD:

Cop Land (1997)

Homem-Aranha (2002)

Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra (2003)

Closer – Perto Demais (2004)

Hellboy (2004)

Homem-Aranha 2 (2004)

Jogos Mortais (2004)

Piratas do Caribe: O Baú da Morte (2006)

Homem-Aranha 3 (2007)

Piratas do Caribe: No Fim do Mundo (2007)

Pixar Short Films Collection – Vol. 2 (2012)

Videoteca 036E em Blu-ray:

Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977)*

Rango (2011)

*Como sempre, os filmes que chegaram depois de sua posição na ordem cronológica das críticas “Videoteca do Beto” serão assistidos e avaliados na medida do possível e serão encaixados na seqüência da Videoteca. Por exemplo, se a Videoteca estiver no filme #167 e eu divulgar em seguida a crítica do filme “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, este será o filme Videoteca do Beto #168.

Um abraço.

 Videoteca 037Texto publicado em 02 de Maio de 2013 por Roberto Siqueira

O futebol alemão

Sempre fui fã do futebol alemão. Assistia ainda criança às saudosas transmissões da Bundesliga na TV Cultura, na incrível temporada 91/92 em que Eintracht Frankfurt, Borussia Dortmund e Stuttgart brigaram pelo título até a última rodada. Adorava a narração de José Goés e os comentários de Gerd Wenzel e José Trajano e, principalmente, curtia muito a possibilidade de conhecer um campeonato diferente, apesar de também acompanhar de perto a maravilhosa Série A Italiana – na época, o melhor campeonato do mundo.

Alguns anos mais tarde, eu comecei a acompanhar também a Uefa Champions League (na época conhecida como Copa dos Campões da Europa) e vi Milan e Ajax assombrarem o mundo com seus times mágicos. Mas só pude realmente assistir aos jogos em 98, quando consegui assinar a ESPN. Antes disso, ouvi duas decisões de Champions no rádio (acho que na Jovem Pan), uma delas ao lado do meu grande amigo Léo, no ano em que o Real Madrid finalmente voltou a dominar a Europa (1998, gol de Mijatovic).

Mas foi a temporada 96/97 que despertou minha paixão por outro time de futebol além do meu amado Palmeiras. Eu já simpatizava pela camisa amarela e pela torcida fanática do Borussia desde os tempos da TV Cultura, mas foi o time de Matthias Sammer, Andy Möller e Stephanie Chapuisat que me conquistou de vez. Ao ver o Dortmund levar a Champions e o Mundial (2×0 contra o Cruzeiro) eu me tornei seu torcedor. Escolhi o Borussia para jogar campeonatos de Fifa Soccer com meus amigos e passei a acompanhar de perto o time nas ótimas transmissões da Bundesliga na ESPN. Vi o time vencer o alemão mais uma vez, em 2002, com Amoroso jogando muita bola, mas logo depois veio o fundo do poço. Anos de tristeza, goleadas como um 5×0 do Bayern dentro do Westfalenstadion (hoje Signal Iduna Park). Mas os tempos de glória voltaram após a reconstrução do time e, junto com eles, a esperança de brilhar na Europa novamente – algo que eu previ um ano atrás, neste post.

Assim, a última terça-feira tornou-se um dia simbólico em minha trajetória como torcedor. Finalmente, poderei assistir meu time na Europa disputar uma final de Uefa Champions League. É óbvio que o colossal time do Bayern é favorito, mas não podemos subestimar este grande time do Borussia e seu poder letal. Quem acompanha a Bundesliga sabe que o Borussia complicou demais a vida do Bayern nos últimos anos e tem condições de surpreender os bávaros mais uma vez.

Mas a semana reservou ainda outro momento marcante. A primeira final alemã da história da Champions pode não significar nada (como a final italiana em 2003 não representou a volta do domínio do Calcio), mas os frutos do bom trabalho feito em solo germânico estão cada vez mais evidentes. Após muitos anos, o mundo finalmente voltou seus olhos novamente para o futebol alemão. Lembro-me de amigos rirem quando eu dizia que acompanhava a Bundesliga. Durante anos, esta risada era justificável. Hoje, não é mais. O campeonato alemão é muito interessante, ainda que o domínio do Bayern seja incontestável. Mas isto é normal em todos os campeonatos da Europa. Não concorda? Então veja só estes dados:

  • Nos últimos 20 anos, o Bayern de Munique venceu onze campeonatos alemães, o Borussia Dortmund venceu cinco e Stuttgart, Werder Bremen, Kaiserslautern e Wolfsburg venceram uma vez cada.
  • Nos últimos 20 anos, o Manchester United venceu doze campeonatos ingleses, Chelsea e Arsenal venceram três vezes e Blackburn Rovers e Manchester City venceram uma vez cada.
  • Nos últimos 20 anos, o Barcelona venceu nove campeonatos espanhóis, o Real Madrid venceu sete, o Valencia venceu dois e Deportivo La Coruña e Atlético de Madrid venceram uma vez cada.
  • E finalmente, nos últimos 20 anos a Juventus venceu sete campeonatos italianos (um deles revogado após o escândalo de compra de resultados), o Milan venceu seis, a Inter cinco e Lazio e Roma venceram uma vez cada.

Por tanto, afirmar que a Bundesliga não pode se tornar o melhor campeonato do planeta por causa do domínio do Bayern é fechar os olhos para o que acontece nas ligas rivais. Assim como tantos e tantos brasileiros parecem fechar os olhos para o que está acontecendo no futebol nos últimos anos. Leio comentários em blogs e vejo entrevistas de treinadores como Felipão (de quem sou fã, mas reconheço que está ultrapassado) e Parreira e só comprovo o que Paul Breitner afirmou em entrevista na ESPN: O futebol brasileiro parou no tempo. Ainda nos consideramos os melhores do mundo, mas estamos cada vez mais longe de tornar esta afirmação uma realidade. E muito comentarista/torcedor parece não perceber isto já há alguns anos (também discuti este tema na última Copa do Mundo).

O que fazer? Poderíamos aprender com o exemplo da própria Alemanha. Potência europeia detentora de muitos títulos e craques em sua história, a Alemanha entrou em decadência no final dos anos 90. A crise técnica fez com que os dirigentes alemães refletissem e buscassem se adaptar ao novo cenário futebolístico mundial. Um grande investimento foi feito na formação de jogadores. Clubes como o próprio Borussia, na época praticamente falido, passaram a buscar na base a solução para os problemas técnicos e financeiros. Mesmo com o vice-campeonato mundial em 2002, os resultados desta nova maneira de pensar começaram mesmo a aparecer em 2006, quando o mundo conheceu a geração de Podolski, Lahm, Schweinsteiger e Klose (este que já tinha brilhado quatro anos antes). Em 2010, novos craques deram as caras para o mundo, como Müller, Özil e Khedira, e quem acompanha a Bundesliga sabe que uma terceira fornada de craques está prontinha para brilhar na Copa, com Götze, Reus, Kroos e Gündogan chegando para completar o grupo da favorita ao título ao lado da ainda ótima seleção espanhola.

Mas esta brilhante geração parecia sofrer com uma síndrome que assolava outros países no passado e que parecia jamais ser capaz de preocupar a poderosa Alemanha nos tempos de outrora. O país que um dia inspirou a frase de Gary Lineker (“O futebol é um esporte jogado por 11 contra 11 e no qual a Alemanha sempre vence”), agora sofria com a falta de resultados. Jogava bonito, encantava o mundo, mas não conquistava nada. Esta síndrome deu o primeiro sinal na virada história do Manchester United contra o Bayern em 1999, no Camp Nou. É verdade que o próprio Bayern venceria uma Champions dois anos depois, naquele que seria o último titulo alemão no futebol internacional, mas depois disto o país sofreria muitas derrotas doloridas tanto nos clubes como na seleção. E foi justamente neste mesmo Camp Nou que nesta quarta-feira o futebol alemão finalmente consolidou seu reencontro com a vitória, com o passeio do Bayern sobre o melhor time do mundo até então e a confirmação da primeira final alemã na história da Champions.

Nem por isso o grande Barcelona deixará de ser maravilhoso e tampouco podemos cravar que a Alemanha vencerá tudo daqui pra frente. Mas como admirador do futebol germânico e do povo alemão, fiquei extremamente feliz com esta final. Torcerei pelo Borussia, é claro, mas de qualquer maneira o povo germânico já tem o que comemorar. Após a implementação do Fair-Play Financeiro pela UEFA (que já é aplicado na Alemanha há tempos) e com os investimentos feitos na base, a Bundesliga tem tudo para se consolidar como um dos melhores campeonatos do mundo; o que, para quem sempre curtiu a liga alemã, é motivo de grande alegria. Para isto, basta manter sua estrutura organizada, continuar respeitando seus torcedores apaixonados com ingressos a preços acessíveis, excelentes estádios, transporte, segurança e a atmosfera festiva que impera nos estádios mais lotados do planeta.

Se você ainda tem um pé atrás, experimente abrir uma boa cerveja num sábado ao meio-dia e assista a Bundesliga. Você não vai se arrepender.

Auf Wiedersehen!

Final da ChampionsTexto publicado em 02 de Maio de 2013 por Roberto Siqueira

AS DUAS FACES DE UM CRIME (1996)

(Primal Fear)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #167

Dirigido por Gregory Hoblit.

Elenco: Richard Gere, Edward Norton, Laura Linney, John Mahoney, Frances McDormand, Alfre Woodard, Terry O’Quinn, Andre Braugher, Steven Bauer, Joe Spano, Tony Plana, Maura Tierney e Jon Seda.

Roteiro: Steve Shagan e Ann Biderman, baseado em romance de William Diehl.

Produção: Gary Lucchesi.

As Duas Faces de um Crime[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após a desistência do então astro em ascensão Leonardo Di Caprio de participar de “As Duas Faces de um Crime”, os produtores do projeto passaram a procurar desesperadamente por alguém que pudesse encarnar o personagem chave da trama, chegando a testar mais de dois mil candidatos. Entre eles, um jovem desconhecido conseguiu se destacar de tal maneira que, após conseguir o disputado papel e ter o vídeo de seu teste circulando por toda Hollywood, ele acabou sendo contratado para trabalhar em mais dois filmes importantes daquele ano, dirigidos por ninguém menos que Woody Allen e Milos Forman. Obviamente, estamos falando do talentosíssimo Edward Norton.

A atuação ambígua de Norton é essencial para que “As Duas Faces de um Crime” funcione tão bem, mas o ótimo roteiro escrito por Steve Shagan e Ann Biderman (baseado em romance de William Diehl) também tem grandes méritos, com sua estrutura perfeita funcionando em diversas camadas e desenvolvendo muito bem este precioso personagem, além é claro de contar com reviravoltas atordoantes. A narrativa começa nos mostrando o assassinato de um conhecido Arcebispo de Chicago (Stanley Anderson) e a prisão quase imediata de um de seus coroinhas, o jovem Aaron Stampler (Edward Norton), que é encontrando todo ensanguentado numa ferrovia perto do local do crime. A cobertura midiática do evento chama a atenção do competente advogado Martin Vail (Richard Gere), que decide defender o rapaz sem cobrar nada, apenas pela exposição que teria no caso. Do outro lado, a promotora Janet Venable (Laura Linney), que já viveu um caso com Vail no passado, é contratada pelo estado para tentar a pena de morte.

Além de se destacar pela maneira envolvente com que constrói a relação entre o advogado de defesa e seu cliente, o corajoso roteiro aborda ainda a influencia da Igreja nos negócios do bairro e os crimes sexuais cometidos pelo Arcebispo, criando um complexo jogo de interesses que só prende ainda mais nossa atenção. Por isso, talvez o único escorregão do inteligente roteiro seja o desnecessário caso entre Vail e Janet, que além de não colaborar em nada para o andamento da narrativa, acaba tirando o foco da ação principal sempre que as provocações entre eles ganham espaço na tela.

Relação entre o advogado de defesa e seu clienteCrimes sexuaisDesnecessário casoAuxiliado pela montagem de David Rosenbloom, o diretor Gregory Hoblit conduz a narrativa de maneira fluida, intercalando o trabalho no escritório de Vail, os duelos verbais entre ele e Janet, as conversas com Stampler, sua análise psiquiátrica e as audiências no tribunal, que ganham mais foco somente no empolgante terceiro ato. Até lá, o diretor demonstra habilidade na construção de uma atmosfera tensa e misteriosa, trabalhando em pequenos detalhes que ajudam a confundir o espectador. Mostrando Stampler rapidamente durante a apresentação do coral de coroinhas, Hoblit inicialmente nos faz acreditar que ele é mesmo o assassino, intercalando as fortes imagens do assassinato com planos rápidos de sua fuga alucinada da polícia. No entanto, observe como na prisão o diretor engrandece Vail e diminui Stampler na tela durante as primeiras conversas, o que, somado às expressões vulneráveis de Norton, força nossa identificação com o personagem e faz com que a plateia realmente acredite em sua inocência.

Imagens do assassinatoFuga alucinada da políciaExpressões vulneráveisCompetente também na direção de atores, Hoblit evita distrair nossa atenção com invencionismos, realçando as fortes atuações de seu elenco. Repare, por exemplo, como a câmera se aproxima lentamente do rosto dos personagens conforme os diálogos evoluem, como na primeira conversa entre Vail e Stampler e em muitos outros diálogos, num movimento discreto que jamais chama a atenção para si. Da mesma forma, a fotografia de Michael Chapman cria um mundo acinzentado que realça a frieza necessária na profissão dos advogados – e descobriremos mais tarde que esta frieza remete também ao próprio Stampler -, assim como o design de produção de Jeannine Claudia Oppewall, que concebe ambientes simétricos e organizados como o escritório de Vail e os tribunais. Até por isso, nos raros momentos em que o visual foge ao padrão, o espectador sente claramente o que o diretor pretende transmitir, como na conversa entre Vail e um repórter num bar, onde os tons avermelhados que predominam na cena indicam o inferno astral vivido pelo personagem após a descoberta da suposta doença de Stampler.

Mundo acinzentadoAmbientes simétricosInferno astralEssencial num filme de tribunal onde os argumentos dos advogados precisam ser captados com clareza, o design de som ainda se destaca em sequências especiais, como no próprio assassinato do Arcebispo, no qual um cidadão escuta da rua os violentos golpes desferidos contra ele, e especialmente numa das audiências, onde as vozes de um interessante debate entre os advogados se sobrepõem às imagens da chegada deles ao tribunal. E fechando os destaques da parte técnica, a trilha sonora discreta de James Newton Howard sublinha muito bem momentos especiais, como quando indica a mudança de comportamento de Stampler segundos antes de sua primeira transformação através de uma nota sombria que lentamente ganha força, destoando deste tom discreto somente durante a acelerada perseguição de Alex (Jon Seda) pelas ruas.

Bem vestido e com um corte de cabelo impecável, Richard Gere encarna Vail como um advogado extremamente competente e, por isso, autoconfiante ao ponto de dizer que a única verdade que interessa é aquela em que ele acredita. Com um sorriso falso e um olhar penetrante, o ator faz bem o papel do advogado dissimulado, que faz tudo que está ao seu alcance para defender seus clientes, mantendo ainda um bom relacionamento com eles fora do tribunal, como atesta sua conversa com o traficante Joey Pinero (Steven Bauer). Assumindo inicialmente uma postura dominante que se reflete nas cores fortes de seus ternos (figurinos de Betsy Cox), o advogado lentamente vai sendo domado por seu cliente, o que cria uma confusão momentânea em sua mente tão acostumada a controlar este tipo de situação, refletida até mesmo na falta de cor de seus ternos no segundo ato. Quando finalmente compreende o que se passa com Stampler, Gere volta a adotar uma postura confiante e os ternos escuros novamente aparecem.

Advogado extremamente competenteSorriso falsoPostura dominanteIgualmente confiante profissionalmente, a Janet interpretada por Laura Linney se sai bem nos embates diante do ardiloso Vail, mantendo uma postura firme também fora do âmbito profissional ante as investidas nada elegantes do ex-amante. Vivendo a personagem de maneira centrada e inteligente, Linney confere credibilidade aos julgamentos, fazendo com que a plateia realmente acredite que ela será capaz de vencer Vail e conseguir a condenação de Stampler. Outra presença feminina marcante é a de Frances McDormand, que está serena como a psiquiatra Molly, transmitindo a tranquilidade esperada em sua profissão e demonstrando segurança diante dos fortes questionamentos da promotora Janet no tribunal (numa atuação minimalista que, por contraste, realça sua qualidade como atriz quando comparada a determinada policial Marge, que ela viveu naquele mesmo ano em Fargo”). Fechando o elenco secundário, vale citar o ameaçador John Shaughnessy interpretado por John Mahoney.

Janet postura firmeCentrada e inteligentePsiquiatra MollyE chegamos então ao grande responsável pelo sucesso de “As Duas Faces de um Crime”. Em seu papel de estreia no cinema, Edward Norton entrega uma atuação assombrosa, encarnando duas personalidades tão distintas de maneira mais do que convincente na pele do acusado Stampler. Enquanto o tímido Aaron surge com uma notável gagueira, um tom de voz baixo e evita olhar diretamente para as pessoas, seu alter-ego Roy é exatamente o oposto, surgindo confiante com sua voz firme, o olhar ameaçador e a postura corporal imponente e agressiva. Observe, por exemplo, como sua expressão ameaçadora no primeiro lapso diante da Dra. Molly se contrapõe diretamente ao seu olhar assustado durante as audiências no tribunal. Assim, quando Roy finalmente surge em cena, Norton complementa sua transformação de maneira sensacional, atacando Vail violentamente e se impondo com incrível firmeza, numa postura diametralmente oposta ao reprimido Aaron.

Tímido AaronRoy é exatamente o opostoPrimeiro lapsoSó que “As Duas Faces de um Crime” ainda nos reserva outra reviravolta em seus instantes finais. Preparando cuidadosamente seu explosivo terceiro ato durante toda a narrativa, Hoblit nos leva ao julgamento final e ao esperado depoimento da Dra. Molly, seguido pelo interrogatório do próprio suspeito, no qual os advogados alcançarão o ápice de suas estratégias cuidadosamente elaboradas. Incluindo planos rápidos das mãos ansiosas de Aaron durante o interrogatório, o diretor e seu montador aceleram a sequência através de planos cada vez mais curtos que só ampliam a tensão, nos permitindo antecipar o iminente ataque de fúria do acusado, que inevitavelmente acontece e deixa todos atônitos. Desta forma, o espectador termina a cena pensando que sabe mais do que a maioria dos personagens, só que quando Stampler finalmente revela seu truque para Vail, o choque torna-se inevitável tanto para o advogado quanto para a plateia. Como ilustram os planos finais em plongè que o diminuem em cena, Vail deixa o tribunal completamente desolado por constatar que aquele jovem aparentemente inofensivo foi capaz de enganá-lo durante tanto tempo.

Mãos ansiosas de AaronIminente ataque de fúriaStampler finalmente revela seu truqueQuem não se importa por ter sido enganado é o espectador, que deixa a projeção totalmente atordoado e completamente satisfeito com o que acabou de assistir. Contando com um bom elenco e uma atuação simplesmente fantástica de Edward Norton, “As Duas Faces de um Crime” é um grande filme, que vai além dos tribunais e nos faz refletir sobre até que ponto a primeira impressão é realmente a que fica. Ao menos, a impressão de que este é um dos melhores filmes da década de 90 continua intacta.

As Duas Faces de um Crime foto 2Texto publicado em 29 de Abril de 2013 por Roberto Siqueira

Epic War Battle Supercut

Vídeo publicado em 26 de Abril de 2013 por Roberto Siqueira