CARRUAGENS DE FOGO (1981)

(Chariots of Fire)

3 Estrelas 

Filmes em Geral #93

Vencedores do Oscar #1981

Dirigido por Hugh Hudson.

Elenco: Ben Cross, Ian Charleson, Ian Holm, Alice Krige, Nicholas Farrell, John Gielgud, Cheryl Campbell, Lindsay Anderson, Nigel Davenport, Dennis Christopher e Richard Griffiths.

Roteiro: Colin Welland.

Produção: David Puttnam.

Carruagens de Fogo[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Se você já assistiu qualquer edição dos Jogos Olímpicos ou viu alguma matéria a respeito, certamente também já ouviu a música tema de “Carruagens de Fogo”, mesmo que jamais tenha assistido um minuto sequer do longa vencedor do Oscar de 1982 dirigido por Hugh Hudson. Emblemática, a canção se imortalizou como um dos símbolos da maior competição esportiva do mundo, graças à composição simultaneamente graciosa e imponente do grego Vangelis. É uma pena, portanto, que mesmo apresentando qualidades, no fim das contas o filme seja apenas mais uma entre tantas outras histórias de superação no esporte.

Escrito por Colin Welland, “Carruagens de Fogo” narra a história dos jovens Harold Abrahams (Ben Cross) e Eric Liddell (Ian Charleson), que se destacam nas competições nacionais e acabam sendo convocados para os Jogos Olímpicos de 1924, em Paris. O escocês Eric é missionário e afirma correr em nome de Deus, enquanto Abrahams, inglês descendente de judeus, corre para conquistar a fama e, desta forma, aliviar o preconceito que sofre por sua origem. Derrotado por Eric numa disputa caseira, Abrahams decide contratar o treinador Sam Mussabini (Ian Holm), o que desagrada os líderes da faculdade onde ele treina.

Ainda que o fio condutor da narrativa seja a competição entre Eric e Abrahams, “Carruagens de Fogo” tem uma abordagem mais intimista que toca em outros temas interessantes como a xenofobia e o preconceito contra os judeus, responsável pelo sofrimento de Abrahams evidenciado num jantar com Sybil (Alice Krige), e também contra outros povos, evidente na rejeição dos supervisores de Cambridge ao treinador Sam Mussabini, descendente de italianos e árabes. “Sou inglês em primeiro e último lugar”, afirma Abrahams em certo momento, ilustrando sua preocupação em ser aceito numa sociedade extremamente preconceituosa. Ilustrando este sofrimento de maneira convincente, Ben Cross leva bem o papel, demonstrando ainda a determinação do personagem em sua busca constante pela vitória, que é também uma das marcas de seu concorrente. Essencial nesta busca, o treinador Sam conta com o carisma de Ian Holm, que rouba a cena sempre que surge, passando muita confiança no que diz e convencendo tanto Abrahams quanto o espectador de que ele conhece muito sobre o assunto.

Busca constante pela vitóriaTreinador SamCorda bamba emocionalEvidenciando o peso da religião em sua formação, o Eric de Ian Charleson tenta conciliar sua fé com o prazer pelo esporte, equilibrando-se numa corda bamba emocional que constantemente faz com que ele tenha dúvidas sobre o caminho que deve seguir. Ilustrando este conflito através do semblante e do jeito introspectivo, o ator se sai bem, especialmente quando Eric decide abrir mão de competir no sábado, mostrando-se firme diante do irritado presidente da confederação britânica, num momento que provoca reflexão sobre até onde o estado pode interferir na fé pessoal e vice-versa. Fechando o elenco, temos as mulheres que, de maneiras distintas, interferem no desempenho dos dois atletas centrais. Enquanto Alice Krige confere charme a sua Sybil e se torna mais do que uma namorada para Abrahams, funcionando como conselheira e amiga nos momentos difíceis, a fanática religiosa Jennie interpretada por Cheryl Campbell só colabora para aumentar o dilema do irmão Eric, demonstrando seguir a religião mais por medo do que por convicção – algo que, convenhamos, não é tão incomum.

Conduzindo a trajetória de Eric e Abrahams em paralelo na primeira metade do longa, o diretor Hugh Hudson foca mais nos personagens e em seus dilemas do que na competição entre eles, o que confere um ritmo lento que eventualmente é quebrado pelas competições e, ao mesmo tempo, nos prepara para o encontro deles nos esperados Jogos Olímpicos. Para isto, ele conta com a montagem de Terry Rawlings, que não consegue fugir da abordagem episódica, utilizando até mesmo letreiros para indicar a passagem do tempo e saltar de 1978 para 1924 e, em seguida, para 1919, sobressaindo-se apenas em momentos especiais como os treinamentos e as competições oficiais. Da mesma forma, são raros os momentos em que a direção de Hudson chama a atenção, como quando a câmera passeia pelos personagens na chegada dos alunos a Cambridge. E de tanto utilizar a câmera lenta, Hudson acaba esvaziando o impacto desta técnica no terceiro ato, desgastando o efeito ao longo da projeção.

Por sua vez, os figurinos de Milena Canonero reproduzem com precisão os uniformes utilizados pelos atletas na época e, auxiliados pelos cenários detalhados em Cambridge e pelos carros antigos (design de produção de Jonathan Amberston, Len Huntingford, Anna Ridley e Andrew Sanders), nos jogam para dentro dos anos 20, da mesma forma que o estádio pequeno e os impecáveis trajes formais do público evocam a atmosfera dos primeiros Jogos Olímpicos nas disputas oficiais. Captando esta atmosfera, a fotografia de David Watkin aposta em cores claras e cenas diurnas, destacando-se também nos belos planos que realçam a beleza dos campos escoceses.

Uniformes dos atletasCambridgeAtmosfera dos primeiros Jogos OlímpicosEntretanto, o grande destaque – não apenas da parte técnica, mas de todo o filme – fica para a trilha sonora magistral e inesquecível do ótimo Vangelis, que se tornou um dos símbolos das Olimpíadas com o passar dos anos. Surgindo de maneira econômica, a trilha pontua momentos marcantes dos atletas nas competições através de variações interessantes, utilizando o tema principal somente na abertura e no encerramento de “Carruagens de Fogo”, enquanto acompanhamos aqueles jovens correndo pela praia. Certamente, este casamento perfeito entre som e imagem é um dos melhores momentos do longa, já que, apesar da construção gradual da narrativa, o clímax está bem longe de ser empolgante, nem tanto por ser previsível, mas principalmente devido à condução burocrática de Hudson, que repete a câmera lenta exatamente como fez em todo o filme, com exceção da primeira vez em que acompanhamos Abrahams nas finais dos cem metros rasos – e que, exatamente por isso, é a corrida que mais empolga no ato final.

Ainda que saia da mesmice ao abordar temas interessantes como a xenofobia e o fanatismo religioso e ganhe créditos por priorizar os personagens e não as competições, a belíssima trilha sonora de Vangelis é mesmo o que “Carruagens de Fogo” tem de melhor.

Carruagens de Fogo foto 2Texto publicado em 17 de Dezembro de 2012 por Roberto Siqueira

Semana do Esporte

Olá pessoal,

Hoje inicio a terceira e última semana especial de 2012, um ano complicado e difícil que, por outro lado, serviu como um grande aprendizado.

Antes de todos os problemas que enfrentei no C&D este ano, minha intenção era preparar uma semana especial sobre os jogos olímpicos, escrevendo sobre filmes que abordassem os mais diversos esportes. Infelizmente, fatores externos impediram a realização desta semana na época que eu pretendia (ou seja, algumas semanas antes dos Jogos Olímpicos) e adiaram a ideia por pelo menos quatro anos.

Outras ideias também se perderam durante este atribulado ano, mas felizmente estas “semanas especiais” poderão ser divulgadas em 2013. Por outro lado, todos sabem que pretendo transformar todos os “Filmes Comentados” em críticas e, neste sentido, nada melhor do que criar uma semana que envolva filmes de esporte, já que ainda restam três filmes nesta quase extinta categoria que tem ligação com o tema.

Tentando amenizar a situação e, ao mesmo tempo, resolver outras pendências, resolvi juntar na mesma semana filmes que abordem os mais diversos aspectos que envolvem as competições esportivas, passando pelas duas maiores competições do mundo e também por narrativas que foquem em atletas, treinadores, torcedores e agentes esportivos (ou empresários).

Por isso, a lista de filmes que selecionei pode parecer estranha num primeiro momento, mas, transparente como gosto de ser, prefiro deixar claro que minha intenção é justamente tentar unir o útil ao agradável através de uma semana só. Até porque ainda pretendo criar semanas especiais sobre temas específicos relacionados ao esporte, como a já citada semana olímpica, além de outras que abordem filmes sobre futebol, documentários, boxe, automobilismo, entre outros.

Sendo assim, a partir de amanhã teremos um filme sobre os Jogos Olímpicos, um sobre a Copa do Mundo, um sobre um atleta em decadência, um sobre treinadores, um sobre a relação conturbada entre atletas e agentes e um sobre o universo dos torcedores.

Não é a semana dos sonhos, está longe de ser a semana que planejei inicialmente, mas espero que faça algum sentido e agrade a você leitor.

Um grande abraço.

Semana do EsporteTexto publicado em 16 de Dezembro de 2012 por Roberto Siqueira

OSCAR 1997: O PACIENTE INGLÊS X FARGO

Seguindo minha comparação entre o vencedor do Oscar de Melhor filme e aquele que eu considerei como a melhor produção do ano, chega à vez do ano de 1996 (Premiação em 1997).

E finalmente, pela primeira vez desde que comecei a escrever sobre os filmes cronologicamente, a revisão me fez mudar de opinião. Sim, eu continuo achando “O Paciente Inglês” um ótimo filme, mas já não o considero o melhor do ano. Ano, aliás, que teve uma safra bem inferior aos anteriores, o que talvez justifique a enxurrada de prêmios que o bom filme de Anthony Minghella recebeu. Mas o fato é que mesmo com dramas pesados e sensíveis como “Segredos e Mentiras” e “Shine”, o surpreendente “As Duas Faces de um Crime”, o explosivo (e ótimo!) “Missão: Impossível” (que jamais seria sequer indicado), o belo “O Corcunda de Notre Dame”, o polêmico “O Povo contra Larry Flynt” e os divertidos “Pânico” e “Trainspotting – Sem limites” no páreo, o melhor filme do ano é mesmo o criativo “Fargo”, que só confirma o talento assombroso dos irmãos Coen, comprovado inúmeras vezes nos anos seguintes.

Porque “Fargo” é melhor?

Não é difícil compreender porque “O Paciente Inglês” levou tantos prêmios. Tecnicamente, o filme de Minghella é deslumbrante, o que, aliado a um elenco talentoso, ao seu tom épico e à sua abordagem clássica de uma trágica história de amor, compõe uma formula praticamente infalível de conquistar o coração da Academia. Se considerarmos ainda a falta de concorrentes de peso e o já conhecido lobby da Miramax, fica difícil pensar que o resultado poderia ser outro. Mas, de fato, poderia, se o humor cínico e ácido dos irmãos Coen já fosse palatável para os padrões Hollywoodianos da época. Não era. Mas o fato é que “Fargo” é um show de eficiência narrativa, com sua história simples e interessante sendo contada de maneira divertida e inteligente, recheada de ótimas atuações e com o toque especial que só os Coen conseguem dar. Meu voto do ano, sem dúvida alguma.

E pra você, qual o melhor filme de 1996 e por quê?

Um abraço e bom debate.

O Paciente InglêsFargoTexto publicado em 15 de Dezembro de 2012 por Roberto Siqueira

TRAINSPOTTING – SEM LIMITES (1996)

(Trainspotting)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #146

Dirigido por Danny Boyle.

Elenco: Ewan McGregor, Pauline Lynch, Ewen Bremner, Robert Carlyle, Jonny Lee Miller, Kevin McKidd, Kelly Macdonald e Peter Mullan.

Roteiro: John Hodge, baseado em livro de Irvine Welsh.

Produção: Andrew Macdonald.

Trainspotting - Sem Limites[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um dos grandes problemas de filmes que abordam o mundo das drogas é que, na tentativa de deixar uma mensagem que ajude a afastar as pessoas do vício, eles acabam distanciando-se da realidade e, por consequência, perdem a credibilidade junto àqueles que conhecem o tema. Pois o fato é que para o viciado, o mundo das drogas é alegre, divertido e colorido num primeiro momento e, em alguns casos, pode levar anos para se transformar de fato num pesadelo. Por isso, ao exagerar nas consequências do vício, certos filmes acabam soando falsos e trabalham no sentido contrário ao desejado. Não é o que acontece neste interessante “Trainspotting – Sem Limites”, que evita a panfletagem e o moralismo barato ao trazer o mundo sob o olhar dos viciados, ainda que não fuja à responsabilidade de mostrar as graves consequências do uso constante de heroína para alguns personagens do grupo.

Baseado em livro homônimo de Irvine Welsh, o roteiro de John Hodge narra a história sob a perspectiva de Mark Renton (Ewan McGregor), um jovem escocês que, para escapar da vida entediante e frustrante de sua cidade, se entrega ao uso da heroína ao lado dos amigos Spud (Ewen Bremner), Lizzy (Pauline Lynch), Sick Boy (Jonny Lee Miller) e Tommy (Kevin McKidd). Entre pesadas sessões e idas aos bares, o grupo se mete em diversas confusões, ainda mais quando o estourado Begbie (Robert Carlyle) está por perto. Só que a chegada da garota Diane (Kelly Macdonald) fará com que Renton pense em seguir novos caminhos.

Desde os primeiros instantes de “Trainspotting”, Danny Boyle evidencia que tentará simular a euforia de seus personagens através do visual e do ritmo insano de sua narrativa, empregando constantemente a aceleração da imagem num ritmo histriônico que já deixava claro seu estilo inquieto e exagerado de dirigir. Neste caso, porém, este estilo casa perfeitamente com os personagens e funciona muito bem – algo que não acontece, por exemplo, em outros bons filmes como “127 horas” ou “Quem Quer Ser um Milionário?”. Auxiliado pela montagem rápida e empolgante de Masahiro Hirakubo, o diretor cria momentos memoráveis, como a sequência em que todos (ou quase todos) os amigos transam – na qual, aliás, Boyle faz questão de mostrar órgãos genitais em profusão. Além disso, ele filma as baladas com intensidade, utilizando câmeras subjetivas para nos colocar dentro da pista e, com o auxilio de excelentes músicas, fazer com que o espectador se sinta vivo – vale notar também as curiosas legendas utilizadas para reforçar o que está sendo dito pelos personagens devido ao volume da música ambiente.

Todos os amigos transamDentro da pistaCuriosas legendasA trilha sonora, aliás, é um capitulo a parte. Na tentativa de ilustrar a euforia do grupo, Boyle fez uma verdadeira seleção de músicas empolgantes que vão de clássicos do rock britânico como Iggy Pop até sucessos da cena Techno como Underworld, criando inúmeras sequências memoráveis que casam perfeitamente a canção com as imagens, como a cena de abertura em que os jovens surgem correndo pelas ruas. Por sua vez, a fotografia de Brian Tufano contrasta as cores chamativas das viagens de heroína com as tonalidades frias e acinzentadas tão comuns na Escócia que predominam quando os jovens tentam deixar o vício, refletindo a tristeza deles quando estão distantes da droga.

Cena de aberturaViagens de heroínaJovens tentam deixar o vícioPor outro lado, o ambiente escuro e sombrio em que eles se drogam só ganha vida no apertado espaço em que compram heroína, onde o vermelho ganha destaque e realça o aspecto infernal do local. Repleto de objetos espalhados pelo chão, o ambiente é apenas mais um entre os vários que ilustram a degradação do grupo, contrastando diretamente com os apartamentos limpos e claros que Renton vende em Londres e realçando o bom trabalho de design de produção de Kave Quinn. Finalmente, os figurinos de Rachael Fleming auxiliam em nossa imersão naquele ambiente ao utilizar roupas bem joviais como calças jeans e camisetas básicas.

Ambiente escuro e sombrioAspecto infernalApartamentos limpos e clarosMas se por um lado o trabalho técnico é todo voltado para nos proporcionar a mesma euforia de Renton e seu grupo, por outro os personagens nada simpáticos que permeiam a narrativa reequilibram a balança, fazendo com que o espectador reflita um pouco mais a respeito do que vê. Utilizando a narração de Ewan McGregor por todo o filme, Boyle evidencia desde o início que Renton será o personagem central da trama, injetando adrenalina na plateia enquanto acompanhamos o garoto correndo pela cidade. Por isso, o desempenho de McGregor é essencial para o sucesso do longa e, felizmente, o ator consegue carregar a trama com facilidade. Sendo assim, Boyle se sente a vontade para nos colocar na posição dele em diversos instantes, como quando as alucinações chegam ao auge após seu tratamento, numa cena inspirada em que praticamente todos os personagens surgem no quarto enquanto ele sofre com a forte crise de abstinência.

Garoto correndo pela cidadeAlucinações chegam ao augeForte crise de abstinênciaAs alucinações, aliás, trazem alguns dos melhores momentos de “Trainspotting”, como a viagem de Renton pelo banheiro, que é capaz de revirar qualquer estômago, assim como o café da manhã escatológico de Spud. Entretanto, estes momentos de humor negro abrem espaço para a tragédia na chocante morte do bebê de Lizzy, que ilustra perfeitamente os problemas que o vício pode trazer, chegando a provocar náuseas quando o grupo não encontra outra saída para aliviar a dor que não seja usar mais uma vez a heroína – e, neste aspecto, a boa atuação do restante do elenco colabora bastante para o resultado final. É a degradação total.

Viagem de Renton pelo banheiroCafé da manhã escatológicoChocante morte do bebê de LizzyOscilando entre a euforia e a tristeza, a vida de Renton segue indefinida até que Diane surge em sua vida e, sem querer, lhe dá a dica que pode mudar seu destino. Após deixar os amigos para trás e mudar-se para Londres, ele consegue emprego e escapa ileso dos perigos que o cercavam, mas apenas por pouco tempo. Após seu sucesso, era apenas uma questão de tempo para que seus amigos fossem atrás dele. No entanto, aparentemente Renton estava mesmo mudado e, com inteligência, ele consegue se livrar deles outra vez. Só que a morte de Tommy traz todos de volta a Escócia e, desta reunião, surge uma oportunidade de ganhar dinheiro fácil que eles não irão desperdiçar. Renton é sugado pelos amigos de volta às drogas e, neste instante, o espectador se questiona se este não seria um caminho sem volta.

Consegue emprego e escapa ilesoReuniãoRenton é sugado de volta às drogasMas Boyle não está preocupado em criar rótulos ou em transformar “Trainspotting” num libelo antidrogas e, desta complicada situação, nasce uma sequência tensa e marcante onde acompanhamos a negociação dos jovens com experientes traficantes e, em seguida, a comemoração no bar onde mal podemos prever o que acontecerá somente por causa da troca de olhares e do diálogo dos personagens. Em seguida, a traição de Renton não nos surpreende tanto quanto o sentimento de satisfação parcial que surge ao vê-lo agindo daquela maneira – e este sentimento é reforçado pelo plano final em que Spud é recompensado. Boyle encerra o longa com uma excelente rima narrativa que remete a abertura, nos jogando pra fora da projeção com um estranho sentimento de euforia que, erroneamente, faz com que muitas pessoas acusem o filme de fazer apologia às drogas.

Negociação dos jovensComemoração no barTraição de RentonNa verdade, Boyle fez um excelente estudo sobre o vício, sem se colocar a favor ou contra ele. Somos nós que devemos tirar nossas conclusões após tudo que vimos – e isto é ótimo.

Trainspotting - Sem Limites foto 2Texto publicado em 13 de Dezembro de 2012 por Roberto Siqueira

PÂNICO (1996)

(Scream)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #145

Dirigido por Wes Craven.

Elenco: Neve Campbell, Courteney Cox, David Arquette, Drew Barrymore, Skeet Ulrich, Rose McGowan, Matthew Lillard, Liev Schreiber, W. Earl Brown, Linda Blair, Wes Craven e Jamie Kennedy.

Roteiro: Kevin Williamson.

Produção: Cathy Konrad e Cary Woods.

Pânico[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Extremamente populares nos anos 70 e 80, os slasher movies ganharam uma verdadeira legião de fãs em todo o mundo, notabilizando-se por narrativas simples que se baseavam na capacidade de assustar a plateia. Com o passar dos anos, no entanto, a repetição contínua de fórmulas repletas de clichês desgastou o gênero de tal maneira que os próprios realizadores passaram a adotar a autoparódia como forma de ainda lucrar com suas longínquas franquias. Entre os nomes de maior destaque daquele período estava Wes Craven, que escreveu e dirigiu “A Hora do Pesadelo” e, mesmo se recusando a participar das continuações, jamais abandonou o gênero que ajudou a consagrar. E foi justamente ele que, em 1996, ressuscitou os slasher movies através deste ótimo “Pânico”, que nos diverte e nos assusta com a mesma intensidade ao brincar com os mais batidos clichês do terror adolescente.

Escrito por Kevin Williamson, “Pânico” tem inicio quando um casal de jovens é assassinado numa pequena cidade dos EUA exatamente um ano após outro crime aterrorizar a cidade. As investigações levam a policia a desconfiar do Sr. Prescott, viúvo da mulher morta há um ano e que sumiu da cidade na noite do crime. Enquanto ele está fora, sua filha Sidney (Neve Campbell) passa a ser ameaçada com estranhos telefonemas, o que leva o diretor de sua escola a suspender as aulas, para a alegria de seus amigos Stuart (Matthew Lillard), Riley (Rose McGowan) e de seu namorado Billy (Skeet Ulrich). Toda a situação chama a atenção da repórter sensacionalista Gale Weathers (Courteney Cox), que, ao cobrir os acontecimentos, acaba se apaixonando pelo xerife Dwight (David Arquette).

Adotando um tom de paródia, o excelente roteiro de “Pânico” revisa os principais clichês do gênero (a moça virgem, as festas repletas de adolescentes bêbados, as casas enormes e solitárias, as atitudes estúpidas das vítimas, etc.), abusando da metalinguística para nos provocar o riso e quebrar a tensão que predomina a narrativa. Desta forma, não são poucas as referências visuais e menções aos clássicos do terror que fazem com que o espectador se identifique com o que vê, incluindo diversas piadas divertidas como quando Riley diz que só o primeiro “A Hora do Pesadelo” era bom ou quando Sidney diz que nestes filmes as moças peitudas sempre corriam para o quarto ao invés de saírem da casa, além do instante em que Riley diz que Sidney está falando como num filme de Wes Craven. Aliás, o próprio Craven surge vestido como Freddy Krueger em certo momento e até mesmo presença de Linda Blair, famosa por viver a garota Regan em “O Exorcista”, reforça este tom nostálgico.

Casas enormes e solitáriasVestido como Freddy KruegerPresença de Linda BlairContudo, ao mesmo tempo em que homenageia, Craven subverte o gênero que o consagrou, demonstrando todo seu talento na construção de uma narrativa tensa, capaz de prender nossa atenção constantemente através do ritmo ágil empregado pelo diretor em conjunto com seu montador de Patrick Lussier. Assim, se num instante estamos nos deliciando com as inúmeras referencias aos clichês dos saudosos slasher movies, no outro estamos tensos diante da possibilidade dos personagens sofrerem com as mesmas atitudes que eles condenam e, simultaneamente, ainda somos cativados pela sempre interessante busca da verdadeira identidade do assassino (o famoso “whodunit”). Abusando de movimentos rápidos de câmera que nos provocam certa desorientação, além de empregar em diversos momentos câmeras subjetivas que simulam o olhar do suposto assassino enquanto acompanhamos as vítimas distraídas, o diretor nos cativa desde os primeiros minutos de “Pânico”.

Inúmeras referencias aos clichêsMovimentos rápidos de câmeraCâmeras subjetivasO início do longa, aliás, é simplesmente eletrizante. Um toque de telefone nos apresenta à indefesa Casey Becker (Drew Barrymore) na cozinha de sua casa espelhada, localizada numa cidade pequena do interior dos EUA, e um diálogo intrigante sobre filmes de terror se inicia. Em poucos minutos, temos uma verdadeira convenção de elementos típicos dos slashers, com planos que destacam as facas de cozinha, o silencio sendo quebrado apenas pelos diálogos e pelo toque do telefone, a trilha sonora que repentinamente sobe o tom e nos assusta, além, é claro, do senso de isolamento já estabelecido pela misè-en-scene. Quando o misterioso homem do outro lado da linha mostra que a brincadeira é séria, o espectador se assusta tanto quanto a protagonista. Entretanto, o grande segredo do sucesso da cena está na escolha do elenco. Habituados a verem a estrela principal sobreviver, os espectadores sofrem um choque tremendo quando Drew Barrymore, a atriz mais conhecida de “Pânico” na época, é assassinada brutalmente antes dos 15 minutos de projeção. Ao matar sua estrela tão precocemente, Craven desarma a plateia, nos fazendo perder as referencias e temer por todos os personagens, já que, a partir deste instante, não sabemos mais o que esperar nem quem irá sobreviver (algo que não voltaria mais a acontecer na franquia, já que Neve Campbell se consolidou como a estrela de “Pânico”).

Indefesa Casey BeckerFacas de cozinhaAssassinada brutalmenteDesde então, o foco passa a ser Sidney Prescott, filha da mulher assassinada um ano antes e amiga de Casey. Escondendo sua determinação sob a aparência frágil, Neve Campbell compõe a personagem como a típica mocinha que se transforma em heroína, repleta de traumas e inseguranças, mas dona de uma força surpreendente nos momentos de perigo. Insegura depois do que aconteceu com sua mãe, ela passa a suspeitar do próprio namorado, e as atitudes dele na noite do crime de fato não colaboram em nada para limpar sua barra. Da mesma forma, o comportamento dos amigos dela na escola após o assassinato faz com que até mesmo o espectador levante suspeita sobre todos eles, o que só reforça a atmosfera de suspense. E se Matthew Lillard faz “Stu” parecer um maluco completo desde os primeiros minutos em cena, Skeet Ulrich nos confunde ao transitar entre o normal e o louco com seu Billy, o que, somado ao comportamento estranho de outros personagens como o cinéfilo Randy (Jamie Kennedy) e ao sumiço do pai de Sidney, também colabora para aumentar o número de suspeitos.

Aparência frágilStu, um maluco completoBillyFamosa por interpretar Mônica no ótimo seriado “Friends”, Courteney Cox assume aqui o papel da repórter chata e sem escrúpulos que fará qualquer coisa para conseguir uma boa reportagem, ainda que para isso precise passar por cima das pessoas que a cercam. Talentosa como é, a atriz consegue se sair muito bem, transformando Gale Weathers numa personagem irritante, é verdade, mas que se torna agradável ao demonstrar atração pelo atrapalhado xerife Dwight, interpretado por David Arquette (que se casaria com Cox três anos depois).

Repórter chataQualquer coisa para conseguir uma boa reportagemAtrapalhado xerife DwightBaseando-se no visual tradicional dos filmes voltados para o público adolescente, os figurinos de Cynthia Bergstrom apostam nas saias curtas e calças apertadas que realçam as pernas torneadas das garotas, ao passo em que os meninos usam camisas modernas (para a época). Da mesma forma, a fotografia de Mark Irwin emprega cores quentes nas sequências diurnas, criando um visual alegre que contrasta diretamente com o tom obscuro das cenas noturnas. Este contraste, por si só, já serve como alerta para os perigos que os personagens correm quando o sol se põe. Finalmente, o design de produção de Bruce Alan Miller se destaca na escolha das casas enormes e espelhadas que só aumentam a tensão na plateia, além é claro da icônica máscara que caracteriza o assassino, que se tornaria uma das marcas do gênero nos anos 90. Já a trilha sonora de Marco Beltrami também segue o padrão slasher ao ser usada constantemente para nos assustar através de subidas repentinas no tom, mas também emprega melodias sombrias em diversos momentos para sublinhar ainda mais o suspense. Apesar disso, existem momentos em que apenas o som diegético consegue nos assustar, como no início da tensa sequência em que Sidney é atacada no banheiro da escola, evidenciando o bom trabalho de design de som.

Saias curtasIcônica máscaraSidney é atacada no banheiroIntrigante até o ultimo instante, “Pânico” ainda nos presenteia com um terceiro ato simplesmente hipnótico, onde, com a ajuda de uma câmera deixada por Weathers num móvel, podemos acompanhar as ações de diversas maneiras diferentes enquanto a garotada, numa casa distante e numa noite sombria, se reúne para assistir filmes de terror. O cenário está montado para o massacre final. Assim, enquanto Randy repassa as três principais regras para sobreviver num filme de terror, acompanhamos Sidney perder a virgindade com Billy e, de acordo com a lógica do cinéfilo, se tornar uma vítima potencial do assassino. Os ataques começam e, como em todo o filme, nos vemos em meio a uma mistura de sensações, com medo do assassino e nos divertindo com as piadas que permeiam a noite (como quando Randy grita “atrás de você” para a televisão com o assassino em pé atrás dele). Em meio a um mar de reviravoltas e surpresas, somos apresentados “aos assassinos”, conhecemos suas motivações e, finalmente, chagamos a conclusão perfeita da narrativa com todos os buracos preenchidos com coerência.

Randy repassa as três principais regrasAtrás de vocêAssassinosDivertido e tenso na medida certa, “Pânico” representou um sopro de vida num gênero fadado ao esquecimento após décadas de sucesso e, o que é mais legal, permitiu a toda uma nova geração (na qual eu me incluo) ter o gostinho de comprar pipoca e se esconder no escuro do cinema enquanto somos aterrorizados por um bom slasher movie.

Pânico foto 2Texto publicado em 10 de Dezembro de 2012 por Roberto Siqueira

Videoteca do Beto: novas aquisições

Olá pessoal,

Abaixo o saldo da Black Friday, que, aliás, não poderia ter sido mais decepcionante aqui no Brasil. Ao menos consegui, com muito custo e após inúmeras tentativas, comprar os seguintes filmes:

Em DVD:

Harry Potter e a Pedra Filosofal (2001)

Harry Potter e a Câmara Secreta (2002)

Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (2004)

Harry Potter e o Cálice de Fogo (2005)

Harry Potter e a Ordem da Fênix (2007)

Harry Potter e o Enigma do Príncipe (2009)

Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte I (2010)

Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte II (2011)

Videoteca 032

Em Blu-ray:

2001 – Uma Odisséia no Espaço (1968)** – Crítica já divulgada na Videoteca

Um Estranho no Ninho (1975)** – Crítica já divulgada

Era uma vez na América (1984)*

Dança com Lobos (1990)** – Crítica já divulgada na Videoteca

As Duas Faces de Um Crime (1996)*

Contato (1997)

Na Natureza Selvagem (2007)

Os Vingadores (2012)

*Como sempre, os filmes que chegaram depois de sua posição na ordem cronológica das críticas “Videoteca do Beto” serão assistidos e avaliados na medida do possível e serão encaixados na seqüência da Videoteca. Por exemplo, se a Videoteca estiver no filme #144 e eu divulgar em seguida a crítica do filme “Era uma vez na América”, este será o filme Videoteca do Beto #145.

Um abraço.

Videoteca 033Texto publicado em 06 de Dezembro de 2012 por Roberto Siqueira

O PREÇO DE UM RESGATE (1996)

(Ransom)

3 Estrelas 

Videoteca do Beto #144

Dirigido por Ron Howard.

Elenco: Mel Gibson, Rene Russo, Gary Sinise, Delroy Lindo, Liev Schreiber, Lili Taylor e Brawley Nolte.

Roteiro: Richard Price e Alexander Ignon.

Produção: Brian Grazer, B. Kipling Hagopian e Scott Rudin.

O Preço de um Resgate[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Poucas situações devem ser mais desesperadoras do que aquela que move “O Preço de um Resgate”. Por isso, é uma pena constatar que Ron Howard e sua equipe falhem ao não explorar todas as possibilidades oferecidas pelo tema abordado, ainda que, dramaticamente, o diretor consiga provocar impacto, baseando-se essencialmente nas ótimas atuações de seu elenco. O resultado é um filme eficiente que, nas mãos de um diretor um pouco mais ousado, poderia ser um complexo estudo sobre os efeitos trágicos que tal situação pode provocar em uma família.

Escrito a quatro mãos por Richard Price e Alexander Ignon (baseado no filme “Decisão Amarga”, de 1956), “O Preço de um Resgate” nos apresenta Tom Mullen (Mel Gibson), o milionário dono de uma companhia de aviação que tem o filho Sean (Brawley Nolte) sequestrado num evento na cidade e se vê obrigado a pagar os dois milhões de dólares exigidos pelos criminosos em troca do resgate do filho. Apoiado pela esposa Kate (Rene Russo) e sob a orientação do agente Lonnie (Delroy Lindo), ele decide seguir as orientações, mas devido à inesperada interferência do FBI, a operação falha e culmina na morte de um dos bandidos, levando à ira o mentor do sequestro Jimmy Shaker (Gary Sinise). Pai e sequestrador passam então a discutir por telefone com frequência e, com os ânimos elevados, Mullen começa a agir de maneira completamente irracional.

Apresentada inicialmente como uma família feliz e bem sucedida, os Mullen (como toda família, aliás) também escondem seus problemas sob aquela fachada de riqueza e prosperidade escancarada em sua vistosa mansão (design de produção de Michael Corenblith), o que é bom, pois aproxima a família do espectador. Neste sentido, aliás, é ótimo que o roteiro evite transformar o longa numa disputa entre mocinho e bandido, driblando o maniqueísmo e a santificação de Tom logo de cara através de seu problema com Jackie Brown. Fugindo de clichês básicos através de pequenos detalhes (repare, por exemplo, que a primeira ligação após o sequestro não é do sequestrador), os roteiristas anunciam gradativamente que a narrativa tomará um caminho diferente do usual, preparando o espectador para o que virá pela frente após o sequestro do garoto. Vale notar ainda como, ainda que apenas superficialmente, o roteiro aborda temas adjacentes interessantes, como o comportamento nada racional da imprensa nestas situações.

Família feliz e bem sucedidaVistosa mansãoComportamento nada racional da imprensaPreparando a plateia para o sequestro desde os primeiros minutos de projeção, Ron Howard faz questão de ressaltar num plano detalhe a tatuagem no pescoço de uma garçonete durante o evento que abre o longa, da mesma maneira que faz com um dos sequestradores enquanto este prepara o cativeiro. Assim, quando vemos a mão tatuada pegando um copo acompanhada pela trilha sonora sombria (e clichê!), já sabemos que os criminosos estão presentes no parque, iniciando o sequestro que se confirmará num movimento de câmera interessante, no qual num instante estamos acompanhando Sean andando pelo parque e, após a câmera passar por trás de uma pilastra, já não vemos mais o garoto. Além de demonstrar de maneira eficiente o drama dos pais neste momento, o diretor também acerta na tensa sequencia da entrega do dinheiro, contando com o auxilio da montagem dinâmica de Dan Hanley e Mike Hill para imprimir um ritmo intenso que deixa a plateia em frangalhos, reforçada pela trilha acelerada de James Horner. Mas, se acerta no tom de urgência empregado nos momentos de tensão, Horner cai num velho clichê ao utilizar o rock pesado para embalar as ações dos sequestradores, esvaziando seu trabalho na composição da trilha sonora.

Tatuagem no pescoço de uma garçoneteMão tatuada pegando um copoO sequestroAtravés das cores frias da fotografia de Piotr Sobocinski e dos figurinos de Rita Ryack, Howard cria um visual acinzentado que ajuda a manter o tom sóbrio exigido pela narrativa. Por outro lado, o diretor aposta no uso frequente do zoom in e do zoom out para realçar as reações dos atores, transmitindo a atmosfera de tensão que é complementada pelo movimento agitado da câmera em diversos momentos, como quando os sequestradores entram em contato com os pais do garoto. O diretor ainda reflete bem a angústia que as horas representam para qualquer pai que enfrente esta situação, mostrando-o prostrado diante do telefone, como se implorasse pela chamada que determinaria as condições exigidas pelos criminosos para acabar com aquele pesadelo.

Cores friasAtmosfera de tensãoProstrado diante do telefoneFuncionando como um porto seguro para aqueles pais desesperados, o agente Lonnie de Delroy Lindo é obrigado a andar no fio da navalha, tentando equilibrar todos os lados daquela equação. Demonstrando autoridade quando preciso, mas também sabendo ser compreensivo nos momentos mais delicados, o agente se sai bem na difícil tarefa e o ator é responsável direto por isso. Entretanto, para que esta situação funcione dramaticamente, é essencial que o espectador acredite que o garoto corre perigo de fato e, por isso, é fundamental que os sequestradores surjam falando abertamente em matar o garoto, deixando claro que aqueles criminosos representam uma ameaça real. Por outro lado, os conflitos entre os sequestradores são essenciais para que a reviravolta provocada pela oferta de Tom tenha algum efeito na plateia, já que, desta forma, nós acreditamos que uma recompensa milionária poderia provocar o desequilibro daquele grupo pouco homogêneo.

Agente LonnieAmeaça realConflitos entre os sequestradoresSurgindo inicialmente como um policial interessado no comportamento de um suspeito numa loja, Jimmy Shaker invade a casa e revela sua participação no sequestro, pra surpresa da plateia. Exibindo um ar ameaçador convincente, Gary Sinise impõe respeito como o mentor do sequestro, demonstrando a autoridade esperada de um líder e, o que é ainda melhor, evidenciando o desequilíbrio que as atitudes de Tom causam no personagem, como notamos, por exemplo, logo após o anúncio da recompensa que o deixa transtornado. A presença imponente de Sinise é essencial também para que Gibson não ofusque o sequestrador com suas explosões, já que o espectador, ainda que inconscientemente, carrega na memória a persona cinematográfica do ator, normalmente associado a heróis que enfrentam a tudo e a todos para conseguirem o que querem.

Policial interessado no comportamento de um suspeitoMentor do sequestroTranstornadoDemonstrando uma química também já conhecida pelo público desde “Máquina Mortífera 3”, Gibson e Russo convencem como casal, demonstrando afinidade e cumplicidade na mesma intensidade em que enfrentam seus problemas, o que é natural em qualquer relacionamento. Entretanto, as atuações de ambos ganham força mesmo após o sequestro, quando ilustram muito bem o drama dos pais e os conflitos entre o casal que as circunstâncias naturalmente evocam. A partir deste instante, praticamente podemos sentir a dor de Kate graças ao ótimo desempenho de Russo, sempre com o olhar expressivo e desesperado que qualquer mãe lançaria nesta situação. Gibson, por sua vez, parece sempre prestes a explodir, algo também natural na condição dele. Pra completar, a conversa inicial entre Tom e Sean na cama logo após o evento inicial serve para demonstrar a afinidade entre eles e criar empatia com a plateia, o que é essencial para aumentar o impacto que a cena do sequestro naturalmente já provocaria.

Afinidade e cumplicidadeDor de KateConversa inicial entre Tom e SeanPor tudo isso, nós não nos surpreendemos quando Tom, ao ver as imagens do filho numa televisão, decide mudar o jogo e inverter a situação – e a expressão no rosto de Gibson permite que a plateia antecipe seus pensamentos, num momento em que não sabemos pelo que torcer, já que esta atitude ousada poderia colocar em risco a vida de seu filho. Com a voz firme, o olhar frio e o coração cheio de ódio, o pai desesperado anuncia que o resgate agora seria uma recompensa paga a quem trouxer o sequestrador “vivo ou morto”, dividindo opiniões não apenas no ambiente diegético (repare os olhares das pessoas que acompanham o anúncio no estúdio), mas também na plateia. Se por um lado aquele ato poderia significar a desestabilização completa do grupo de sequestradores, por outro poderia definir a morte de seu filho – algo que, convenhamos, é um risco que pai algum no mundo gostaria de correr. Pode até funcionar no filme, mas está bem distante da realidade. Ciente disto, Howard faz questão de inserir imagens da cova sendo preparada para Sean logo após o anúncio, criando um conforto artificial no espectador ou, em outras palavras, manipulando nossa visão do tema ao aliviar a loucura cometida por Tom (o que é uma pena, pois esvazia completamente a discussão que a cena poderia gerar). É como se o diretor e os roteiristas dissessem: “Está tudo bem, eles iam matar o garoto de qualquer jeito”.

Expressão no rostoOlhares das pessoas no estúdioCova preparada para SeanCom este cenário de tensão montado, chegamos ao grande momento de “O Preço de um Resgate”, quando sequestrador e pai discutem ao telefone e levam o publico a pensar que Sean foi morto. Demonstrando o desespero do pai de maneira tocante, Gibson se destaca na cena, indo da ira ao desespero e às lagrimas em segundos, seguido de perto pela explosão de Russo (e a distancia pela ira de Sinise), numa cena dramaticamente densa que, infelizmente, é quase destruída graças a um plano rápido que revela que Sean está vivo. Infelizmente, Howard não teve coragem de estender mais o suspense, o que poderia suscitar reflexões interessantes na plateia. Ainda assim, o diretor (e os montadores) se sai bem ao criar um clima tenso através da troca rápida de planos, encerrando a cena num belo plongè que diminui o casal e ilustra sua tristeza, embalado pela trilha melancólica.

Sequestrador e pai discutem ao telefoneDa ira ao desespero e às lagrimasSean está vivoA discussão, reforçada pelo aumento da recompensa, leva os sequestradores ao desequilíbrio total. Esperto, Shaker decide então eliminar o grupo e sair como herói, numa saída inteligente que poderia elevar “O Preço de um Resgate” a outro patamar. Só que, mais uma vez, Howard e seus roteiristas demonstram covardia e optam por encerrar o longa da maneira convencional, apostando no velho confronto entre mocinho e bandido, ainda que, para isto, nos entreguem outra grande cena, quando o garoto escuta a voz de Shaker e, através da troca de olhares com o pai, indica estar diante do criminoso.

HeróiMocinho e bandidoTroca de olharesAbordando um tema delicado e de alta carga dramática, “O Preço de um Resgate” flerta com a possibilidade de ser um grande filme, mas escorrega sempre que depende de escolhas mais ousadas de seus realizadores. No fim das contas, temos um filme tenso e razoavelmente bem conduzido, mas que acaba fugindo um pouco da realidade e tornando-se apenas um bom entretenimento, ainda que as atuações centrais sejam dignas de aplausos.

O Preço de um Resgate foto 2Texto publicado em 02 de Dezembro de 2012 por Roberto Siqueira

Videoteca do Beto: novas aquisições

Olá pessoal,

Mais novidades na Videoteca em DVD:

Diário de uma Paixão (2004)

007 – Cassino Royale (2006)

A Vida dos Outros (2006)

Anjos da Vida – Mais Bravos que o Mar (2006)

Um abraço.

Videoteca 031Texto publicado em 30 de Novembro de 2012 por Roberto Siqueira

O POVO CONTRA LARRY FLYNT (1996)

(The People vs. Larry Flynt)

Videoteca do Beto #143

Dirigido por Milos Forman.

Elenco: Woody Harrelson, Courtney Love, Edward Norton, Brett Harrelson, Donna Hanover, James Cromwell, Crispin Glover, Vincent Schiavelli, Miles Chapin, James Carville, Richard Paul e Burt Neuborne.

Roteiro: Scott Alexander e Larry Karaszewski.

Produção: Michael Hausman, Oliver Stone e Janet Yang.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Numa época em que deputados tentam proibir a exibição de filmes no Brasil, nada melhor do que recordar a trajetória do exótico editor da revista Hustler, adaptada para os cinemas neste excelente “O Povo contra Larry Flynt”. Sendo assim, não deixa de ser curioso que somente agora eu possa escrever sobre o filme, já que originalmente eu pretendia terminar 1996 ainda no primeiro trimestre deste ano, quando a polêmica envolvendo o filme “TED” sequer existia e a discussão sobre “Um Filme Sérvio” já fazia parte do passado. Dirigido pelo ótimo Milos Forman, o longa tem todos os ingredientes necessários para provocar polêmica (algo que certamente atraiu a atenção do produtor Oliver Stone), misturando temas bombásticos como religião, política e pornografia.

Baseado na biografia de Larry Flynt, o roteiro de Scott Alexander e Larry Karaszewski narra a trajetória do editor da revista Hustler, que rivalizou com a Playboy ao apresentar pornografia explícita e se transformou numa verdadeira febre nos anos 70. Após o sucesso, Larry (Woody Harrelson) tornou-se um dos homens mais poderosos dos Estados Unidos, casou-se com a ex-prostituta Althea (Courtney Love) e, ao lado do irmão Jimmy (Brett Harrelson), construiu um verdadeiro império, mas também sofreu pesados processos judiciais e até mesmo um atentado por causa disto. Coube então ao jovem advogado Alan Isaacman (Edward Norton) a árdua missão de defendê-lo nos tribunais.

Se existe um tema que ainda é tabu na nossa sociedade, este tema é o sexo. Mesmo quando tratamos apenas da nudez, muitas pessoas ainda se comportam como se estivessem diante da maior das aberrações, num comportamento puritano que muitas vezes é proporcionalmente inverso ao que elas de fato sentem. Aproveitando-se deste interessante traço da sociedade e com o auxilio do material original que inspirou a obra, o afiado roteiro de “O Povo contra Larry Flynt” é repleto de discursos no mínimo interessantes, como aquele em que Larry constrói um raciocínio divertidíssimo a respeito da origem do homem, da mulher e, consequentemente, do órgão genital feminino. Outro discurso marcante é aquele em que Larry questiona porque as pessoas consideram o sexo obsceno, mas aceitam os horrores da guerra, levando o espectador a uma importante reflexão. Entretanto, entre todos os discursos, aquele que melhor resume a mensagem do longa acontece quando Isaacman ilustra para o júri como a censura pode significar o fim da liberdade de toda a sociedade, trabalhando como um vírus que começa agindo em coisas pequenas e se agiganta com o passar do tempo – uma discussão, aliás, que é muito bem vinda atualmente após os episódios envolvendo “Um Filme Sérvio” e “TED”.

Censura pode significar o fim da liberdadeA fórmula do sucesso do longa, entretanto, vai além do ótimo roteiro, passando diretamente pela escolha de diretor e elenco. Historicamente, personagens excêntricos sempre despertaram o interesse de Forman (lembre-se de “Um Estranho no Ninho” e “Amadeus”), que, por sua vez, sempre demonstrou competência para extrair atuações marcantes de seus protagonistas. Se considerarmos ainda que poucos atores poderiam encarnar Larry Flynt com a mesma desenvoltura de Woody Harrelson, temos a combinação perfeita para dar vida ao folclórico personagem nas telonas. Debochado e expressivo, o ator se sai muito bem na pele do polêmico editor, chamando a atenção pelo comportamento excêntrico nos tribunais, pela relação nada convencional com Althea e pela decadência gradual que transforma Flynt a partir do acidente e que o ator demonstra muito bem (repare como até sua voz muda após a cirurgia).

Aliás, a breve introdução na infância de Larry já nos apresenta um importante traço de sua personalidade: ele fará qualquer coisa para ter sucesso comercialmente. Por isso, chega a ser brilhante o momento em que Forman traz Flynt em primeiro plano e uma cruz vermelha no segundo, indicando que aquela decisão seria trágica para o futuro dele. E não é apenas neste momento que o aspecto visual diz muito sobre o personagem, já que os objetos eróticos espalhados por seu escritório (design de produção de Patrizia von Brandenstein) e as roupas que ele usa nos julgamentos (“Fuck this court”) só confirmam sua personalidade conturbada (figurinos de Arianne Phillips e Theodor Pistek). Neste sentido, o Jimmy Flynt de Brett Harrelson mostra-se o contraponto ideal para que o espectador não seja totalmente influenciado pela visão de Larry, funcionando como o outro lado da moeda em diversas situações, já que ele é o único membro da equipe capaz de questionar as ideias do irmão.

Se considerarmos seu comportamento fora dos palcos, não chega a ser surpreendente o bom desempenho de Courtney Love na pele da maluca Althea Flynt. Ainda assim, pouca gente poderia esperar uma atuação tão segura da cantora, que demonstra a degradação da personagem com precisão na medida em que o tempo passa, chegando até mesmo a emagrecer sensivelmente e a falar com mais dificuldade no ato final, quando já está infectada com o vírus da AIDS. E finalmente, para viver um advogado jovem e promissor, ninguém melhor que um ator igualmente jovem e promissor como Edward Norton, que interpreta Isaacman com uma desenvoltura notável, demonstrando com competência como o advogado se sente desnorteado diante de seu cliente, parecendo incapaz de prever quais serão seus próximos passos mesmo convivendo o tempo todo com ele. Ainda assim, Norton acerta o tom quando Isaacman se revolta com Larry, finalmente se impondo diante dele, além de nos convencer plenamente durante os julgamentos de que Isaacman defenderá até o fim o direito de Larry se manifestar, ainda que não goste do resultado do trabalho dele.

Ciente de que todo cuidado é pouco numa biografia, Forman não teme explorar o lado cômico de seu protagonista, criando sequências hilárias como aquela em que Larry é cercado pelo FBI em sua mansão e acompanha tudo enlouquecido pela televisão até finalmente ser preso. Em outro momento, logo após Larry afirmar que mudará para onde os pervertidos são bem vindos, temos a imagem dos famosos letreiros de Hollywood, numa transição divertida que conta com o trabalho do montador Christopher Tellefsen. Saltando de tempos em tempos de maneira episódica (até mesmo letreiros são utilizados para indicar a passagem do tempo), Tellefsen compensa este erro com muito dinamismo na primeira metade do longa, mantendo a atenção do espectador até o instante em que Larry é baleado. Desde então, o filme sofre uma queda sensível no ritmo, tornando-se um pouco arrastado ao focar demasiadamente nos julgamentos e na decadência do casal.

Demonstrando visualmente esta decadência através do quarto escuro e sombrio em que eles passam os últimos dias juntos, Forman chega ao auge na chocante cena da morte de Althea, criando um plano assustador com a moça afogada dentro da banheira, seguido pelo tocante choro desesperado de Larry (num dos inúmeros momentos inspirados de Harrelson). Entretanto, esta abordagem sombria destoa do restante do longa. Buscando ilustrar a mente criativa de seu protagonista, a fotografia de Philippe Rousselot abusa de cores vivas, priorizando sempre que possível as cores da bandeira norte-americana, o que, somado a trilha sonora repleta de músicas típicas do país de Thomas Newman, reforça o sentimento nacionalista tão evidente no longa. Mas isto tudo tem um propósito. Lembre-se que Milos Formam é tcheco e, portanto, não teria razão alguma para exaltar o ufanismo. Na verdade, sua intenção é espelhar as ações de seu protagonista e tocar na ferida da nação mais poderosa do mundo. Afinal de contas, como um país que diz prezar tanto pela liberdade pode ser tão preconceituoso? Existe uma sequência em especial que, sutilmente, indica como o radicalismo tem grande espaço na sociedade norte-americana, quando, em questão de segundos, os integrantes da equipe de Larry levantam suspeita sobre diversos grupos distintos como a máfia, a KKK e até mesmo a CIA.

Entre todos estes grupos, os fanáticos religiosos são os que ganham mais espaço em “O Povo contra Larry Flynt”. Sem medo de tocar num tema tão polêmico, Forman aproveita muito bem a história verdadeira do personagem para nos levar a interessantes reflexões. E ainda que tenha um tom folclórico em diversos instantes, o longa não hesita em criticar acidamente algumas instituições religiosas norte-americanas. Chega a provocar náuseas a forma como o reverendo Jerry Falwell usa a morte de Althea para se promover, num comportamento que não é unânime, mas que se repete em muitas das instituições religiosas contemporâneas, contrariando um dos ensinamentos básicos do Cristianismo que é a compaixão. Por outro lado, a sequência final na suprema corte dos EUA tem um tom leve e descontraído que encerra bem o filme, ainda que as lembranças de Larry confiram um tom nostálgico ao ato final.

Com muito talento, “O Povo contra Larry Flynt” transporta para o cinema o espírito controverso de seu protagonista, levando o espectador a refletir sobre sua trajetória e, o que é mais interessante, a debater sobre conceitos importantíssimos da nossa sociedade. Podemos detestar a obra de qualquer pessoa, mas jamais devemos impedi-la de realizar seu trabalho. É neste direito que reside à essência da liberdade.

Texto publicado em 26 de Novembro de 2012 por Roberto Siqueira

O PACIENTE INGLÊS (1996)

(The English Patient)

Videoteca do Beto #142

Vencedores do Oscar #1996

Dirigido por Anthony Minghella.

Elenco: Ralph Fiennes, Kristin Scott Thomas, Juliette Binoche, Willem Dafoe, Naveen Andrews, Colin Firth, Julian Wadham e Jürgen Prochnow.

Roteiro: Anthony Minghella, baseado em romance de Michael Ondaatje.

Produção: Saul Zaentz.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Sucesso de crítica e público na época de seu lançamento, “O Paciente Inglês” sofreu com a síndrome dos vencedores do Oscar nos anos seguintes, sendo massacrado por boa parte dos cinéfilos sob a acusação de ser “chato demais”. Esta afirmação, no entanto, não poderia estar mais longe da verdade. Apresentando um tom solene e elegante que casa muito bem com os grandes épicos, o longa dirigido por Anthony Minghella utiliza os efeitos da guerra e o nacionalismo exacerbado que surge nestas épocas para narrar uma complexa e trágica história de amor.

Considerada uma obra complicada de se adaptar para o cinema devido a sua estrutura narrativa complexa, baseada nos pensamentos de seu protagonista que não seguem ordem cronológica alguma, “O Paciente Inglês” era um dos grandes sonhos do aclamado produtor Saul Zaentz (“Um Estranho no Ninho”, “Amadeus”), que incumbiu a Anthony Minghella a missão de escrever e dirigir o roteiro baseado no romance de Michael Ondaatje. Abordando épocas e cenários distintos numa história que se passa antes, durante e depois da segunda guerra mundial, o longa tem inicio quando a enfermeira Hana (Juliette Binoche) recebe um misterioso homem que teve o corpo totalmente queimado durante a queda de seu avião e que, por não lembrar a sua origem, foi apelidado de paciente inglês (Ralph Fiennes). Entretanto, ele carrega um livro repleto de recortes que ajudam a recordar o passado, trazendo a tona lembranças de seu relacionamento amoroso com Katharine (Kristin Scott Thomas), a esposa de seu amigo Geoffrey (Colin Firth) que ele conheceu durante uma expedição pelo norte da África. Mas quando David Caravaggio (Willem Dafoe) chega ao local, o paciente passa a enfrentar recordações que ele gostaria de ter esquecido.

Deslumbrante visualmente, “O Paciente Inglês” poderia simplesmente se apoiar nos aspectos técnicos para chamar a atenção, mas felizmente Minghella soube explorar a história que o inspirou e, com o auxilio do próprio Ondaatje, construiu uma narrativa que se baseia na força dos seus personagens. Para isso, o diretor apostou num elenco talentoso e coeso, obtendo um resultado impressionante que torna a tarefa de indicar os destaques do longa numa missão ingrata. Comecemos pela trama do passado. Indicando que a falta de atenção do marido poderia motivar sua traição desde sua primeira aparição na qual conta a história do rei Giges, Katharine é uma mulher sensual e decidida, que não hesita em tomar a iniciativa e procurar o conde Almàsy (nome verdadeiro do personagem título) sem jamais soar oferecida ou desesperada. Conferindo com precisão esta personalidade forte à personagem, a ótima Kristin Scott Thomas entrega uma performance elogiável, acertando no tom e oscilando com destreza entre os momentos em que precisa agir com sobriedade, especialmente ao lado do marido, e aqueles em que pode se entregar à paixão tórrida e avassaladora, como quando reencontra Almàsy durante uma festa. Aliás, ao criarem uma relação realista através da aproximação lenta e da maneira crua com que se entregam aos desejos quando podem, Thomas e Fiennes tornam seus personagens mais humanos, aproximando-os da plateia e fugindo dos clichês básicos de alguns épicos, que costumam enfeitar demais a vida romântica de seus protagonistas.

No outro vértice do triangulo amoroso temos Geoffrey, um homem aparentemente despreocupado mesmo sendo o único que viaja acompanhado no grupo, mas que demonstra sutilmente o incômodo diante da troca de olhares entre Katharine e Almàsy, ainda que raramente tenha força para questionar a esposa ou lutar por ela – e é justamente nesta ambiguidade que reside à força da atuação de Colin Firth, que raramente permite ao espectador perceber o que ele de fato está pensando, o que é essencial, por exemplo, para que a finalidade de sua viagem revelada por Katharine em determinado momento tenha impacto e para que a plateia tenha dúvida sobre o quanto ele sabe do caso extraconjugal de sua mulher.

Personagem central da narrativa, o complexo conde Laszlo de Almàsy é interpretado pelo ótimo Ralph Fiennes, que demonstra a ambiguidade do paciente com competência desde os primeiros instantes, quando ilustra sua dor ao falar com muita dificuldade e agonizar na maior parte do tempo, mas ainda assim se mostra forte o bastante para questionar seu interrogador (“Meus órgãos estão parando, que diferença faz…?”) e reclamar do barulho para Hana (“Pensei que o exército alemão tinha chegado”). Funcionando como ponte entre as diferentes épocas abordadas, Almàsy ganha vida mesmo quando surge imóvel na cama, o que é mérito da boa atuação de Fiennes – aliás, seu rosto desfigurado revela também o ótimo trabalho de maquiagem. E se mesmo imóvel e com o rosto desfigurado ele consegue transmitir emoções distintas como a dor, a saudade e a alegria, quando está livre destas amarras (ou seja, no passado) o ator não tem nenhuma dificuldade para expressar os sentimentos conflituosos do personagem, destacando-se em sequências especiais como quando surge bêbado num jantar, escancarando sua dor após afastar-se de Katharine.

No entanto, o sofrimento não está restrito aos personagens do passado. Após perder o namorado e uma grande amiga na guerra, a enfermeira Hana busca conforto no trabalho, focando seus esforços no tratamento do misterioso paciente. Demonstrando seu grande talento sempre que surge em cena, Binoche cria uma personagem adorável, que esconde seu lado carinhoso e emotivo, já tão castigado pela guerra, sob a carcaça de mulher dedicada e batalhadora, roubando a cena praticamente todas as vezes que aparece. Já William Dafoe empresta seu ar sempre ameaçador a David Caravaggio, mas escapa do maniqueísmo em momentos singelos, como quando demonstra preocupação com o choro de Hana ou quando se compadece ao descobrir as razões da traição de Almàsy. Finalmente, vale citar a presença de Naveen Andrews, eternizado anos depois como o Sayid da série “Lost”, que confere leveza e carisma ao especialista em desarmar bombas Kip.

Captado de maneira exemplar pela bela fotografia de John Seale, o deserto desempenha papel importante na narrativa, oscilando entre momentos de beleza estonteante e outros onde surge ameaçador, como numa tempestade de areia que soterra um carro da expedição. Ciente disto, Minghella demonstra preocupação não apenas com a estética, mas também com detalhes importantes que conferem realismo a narrativa, como ao fazer com que os personagens surjam bebendo água em diversos momentos. Da mesma forma, o design de produção de Stuart Craig acerta em cheio na escolha das locações, ambientando perfeitamente o espectador ao período da guerra através de lugares como o monastério parcialmente destruído na Itália, assim como colaboram os figurinos de Ann Roth, que surgem impecáveis em sua diversidade, através dos uniformes dos soldados ingleses e alemães, das roupas árabes e dos elegantes ternos dos integrantes da expedição. E se os efeitos visuais são discretos, o mesmo não se pode dizer do design de som, que permite captar com precisão desde barulhos mais sutis como a respiração de Almàsy até os sons mais chamativos como as hélices dos aviões e as bombas que explodem – uma delas, em especial, tem a função narrativa de informar a morte de um importante personagem.

Conduzindo as duas linhas narrativas de maneira igualmente competente, Minghella emprega um tom contemplativo típico dos grandes épicos, permitindo que o espectador desfrute das lindas imagens que surgem na tela com tranquilidade. Ainda assim, a trama que envolve Katharine e Almàsy soa levemente mais atrativa ao misturar elementos como guerra, paixão e traição de maneira envolvente, ao passo em que a trama no presente concentra sua força no carisma de Hana e no mistério envolvendo as intenções de Caravaggio. A montagem de Walter Murch, aliás, é o grande destaque da parte técnica, alternando entre o passado e o presente de maneira orgânica e permitindo que o espectador acompanhe as tramas paralelas de maneira clara e sem jamais tornar a narrativa cansativa. Além disso, Murch cria transições muito elegantes, como quando as deformações no terreno do deserto se transformam nas ondas irregulares dos lençóis do paciente ou quando Katharine passa os dedos no vidro do carro e lentamente o segundo plano traz o rosto desfigurado de Almàsy no presente, dando a sensação de que ela está acariciando o rosto dele.

Estes belos momentos surgem em profusão em “O Paciente Inglês”. Observe, por exemplo, a linda cena do voo dos aviões no início da exploração, que parece indicar no tom melancólico da bela trilha sonora de Gabriel Yared o futuro trágico daquele triangulo amoroso. Mas, se é repleto de momentos inspiradores, como quando Kip espalha velas pelo chão e indica o caminho para Hana ou quando ele a leva numa capela para ver de perto as pinturas na parede, “O Paciente Inglês” também tem seus momentos de tensão, dentre os quais vale destacar a cena em que Kip desarma uma bomba durante a chegada dos tanques norte-americanos, que comemoram a rendição germânica. Finalmente, Minghella encontra espaço até mesmo para pequenos alívios cômicos que são conduzidos com uma leveza desconcertante, como quando Hana, Kip e Caravaggio levam Almàsy para debaixo da chuva, realizando um desejo dele e arrancando o riso genuíno do espectador.

Chegamos então ao emocionante terceiro ato de “O Paciente Inglês”, que reúne toda a beleza plástica do longa numa sequência também carregada dramaticamente, onde as razões para a traição de Almàsy são reveladas, deixando a plateia tão perplexa quanto aqueles que ouvem sua versão. Ao acompanharmos aquele homem enfrentando os mais cruéis obstáculos enquanto luta para cumprir sua promessa, o espectador se comove naturalmente, num final poético que foge do melodrama e mantém-se fiel ao tom empregado em todo o filme. Ele traiu seu grupo e o seu país pelo amor de Katharine e nós não podemos julgá-lo por isso, assim como não podemos julgar a reação intempestiva do marido traído. Assim somos nós, seres humanos repletos de falhas e virtudes.

Utilizando a guerra como pano de fundo para narrar uma bela história de amor, “O Paciente Inglês” é um bom representante dos épicos clássicos, que conseguem ser apaixonantes e grandiosos na medida certa. Talvez a chuva de prêmios que recebeu tenha prejudicado sua trajetória ao longo dos anos. Entretanto, se não mereceu sair ovacionado na noite do Oscar, o longa também não merece o injusto tratamento que recebeu após aquela noite.

Texto publicado em 18 de Novembro de 2012 por Roberto Siqueira