FORREST GUMP – O CONTADOR DE HISTÓRIAS (1994)

(Forrest Gump)

 

Videoteca do Beto #103

Vencedores do Oscar #1994

Dirigido por Robert Zemeckis.

Elenco: Tom Hanks, Robin Wright, Gary Sinise, Sally Field, Haley Joel Osment, Mykelti Williamson e Michael Conner Humphreys.

Roteiro: Eric Roth, baseado em livro de Winston Groom.

Produção: Wendy Finerman, Steve Starkey e Steve Tisch.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O mundo não vivia um bom momento em 1994. Diante de uma recessão econômica global, provocada pela crise mexicana, e da explosão da preocupação com o meio ambiente, era difícil ter fé no futuro da humanidade. Além disso, um ano antes, o sombrio “A Lista de Schindler” tornou-se sucesso mundial ao relembrar um período negro de nossa história, reforçando a aura pessimista que dominava o público. Em meio a este cenário pessimista surgia “Forrest Gump”, que contrariava o sentimento geral e contava, com muita sensibilidade, uma história humana e positiva, estrelada pelo astro norte-americano do momento, o amado Tom Hanks. Não à toa, o filme tornou-se um mega sucesso e abocanhou (injustamente) os principais prêmios Oscar num ano extremamente competitivo e repleto de obras marcantes.

Com um QI inferior ao normalmente aceito nas escolas, o jovem Forrest Gump (Tom Hanks) é criado com carinho por sua mãe (Sally Field), que luta para conseguir lhe dar as mesmas condições de estudo que as outras crianças. Na escola, ele conhece Jenny (Robin Wright), uma jovem que cruzará seu caminho por muitos anos de sua vida, assim como Forrest participará, ainda que por acaso, dos fatos mais importantes da história recente dos Estados Unidos.

Desde seu início elegante, quando a câmera acompanha uma pena voando até os pés do protagonista, “Forrest Gump” é um filme belíssimo. E esta beleza, em grande parte, é mérito do inventivo Robert Zemeckis, que emprega movimentos de câmera estilizados e aproveita a oportunidade para criar planos marcantes, como aquele em que Forrest e Jenny estão sentados de mãos dadas numa árvore com o pôr-do-sol ao fundo ou o travelling que nos leva das crianças rezando no milharal para os pássaros que voam dali, numa ilustração do desejo de Jenny de fugir do pai. Em outros momentos, o diretor usa a câmera para destacar o semblante do protagonista enquanto ele se concentra nas lembranças do passado, como quando um zoom nos aproxima dele antes do primeiro flashback, que conta o episódio dos “sapatos mágicos” – na realidade, um curioso eufemismo para as pernas mecânicas do garoto. Zemeckis cria ainda lindos planos enquanto Forrest atravessa o país em sua corrida seguido por diversas pessoas que o admiram, além de conduzir muito bem cenas emocionantes, como aquela em que Forrest tenta discursar para os hippies e reencontra Jenny (num plano geral belíssimo).

Além da direção eficiente de Zemeckis, a montagem de Arthur Schmidt é um capitulo a parte e merece muitos elogios. Em primeiro lugar, porque a narrativa cobre muitos anos de maneira eficiente e jamais cansativa, intercalando os flashbacks com o presente num ritmo delicioso. Além disso, Schmidt faz a transição no tempo de maneira eficaz, como quando Forrest e Jenny, ainda crianças, estão juntos na cama e, em seguida, estão indo para a escola, já adultos – e aqui também acontecerá uma interessante rima narrativa, quando Jenny pede para Forrest correr dos vizinhos. A montagem faz ainda interessantes transições de Forrest para Jenny e vice-versa, por exemplo, através da televisão que eles assistem ou da lua. Finalmente, a passagem do tempo também é indicada no presente, através das pessoas que ouvem a história do protagonista, que mudam ao longo da narrativa enquanto Forrest continua contando sua vida.

Escrito por Eric Roth, baseado em livro de Winston Groom, o roteiro de “Forrest Gump” balanceia o tom leve e cômico com momentos dramáticos, espalhando ainda frases marcantes como “A vida parece uma caixa de bombons, nunca se sabe o que vamos encontrar” e o grito desesperado de Jenny: “Corra, Forrest, Corra!”. Além das frases marcantes, o roteiro cruza de maneira eficiente a história de Forrest Gump com momentos históricos dos EUA, como quando ele ensina alguns passos para Elvis, se torna destaque de um time de futebol americano, conversa com John Lennon, inventa slogans (“Shit happens”), compra ações da “empresa de fruta” Apple, entre outras coisas.

O tom leve da narrativa é reforçado ainda pela fotografia de Don Burgess, que emprega cores vivas e muitas cenas diurnas na maior parte do tempo. Por outro lado, os momentos difíceis de Forrest são normalmente pontuados pela chuva, como quando ele chega ao exército ou quando surpreende Jenny transando com outro num carro, numa estratégia visual inteligente por parte de Burgess e Zemeckis, pois a chuva sempre realça a melancolia dos personagens. Da mesma maneira, quando Forrest sente falta da mãe e de Jenny no exército, as sombras que predominam na tela ilustram o momento triste do personagem. Mas a melancolia tem pouco espaço em “Forrest Gump”, o que é refletido até mesmo na bela trilha sonora de Alan Silvestri, recheada de clássicos do rock de cada período em que a história se passa (que servem ainda para ilustrar a passagem do tempo), alternados com a triste e linda música tema. Além disso, Silvestri pontua muito bem as cenas, como quando Forrest começa a correr e larga a perna mecânica para trás, acompanhado pela trilha triunfal. Quem também merece destaque é o bom trabalho de design de som e efeitos sonoros, que se destaca especialmente na guerra, e os excelentes efeitos visuais da Industrial Light & Magic, que, por exemplo, amputam as pernas do tenente Dan (Gary Sinise) com perfeição – observe a cena em que ele se movimenta em cima de um muro antes de pular na água e sair nadando -, além de inserir com realismo o protagonista em vídeos reais e históricos de arquivos, colocando Forrest ao lado de alguns ex-presidentes dos EUA, como John Kennedy, e de astros como John Lennon. E além de misturar ficção e realidade com competência, “Forrest Gump” faz ainda diversas menções a grandes filmes norte-americanos como “Nascido para Matar” (na chegada ao exército, com o tenente gritando), “Apocalypse Now” (na chegada ao Vietnã, com a trilha psicodélica, as cervejas espalhadas pelo acampamento e o sol brilhando ao fundo) e “Perdidos na Noite” (quando Forrest sai com Dan pelas ruas e um carro quase os atropela, provocando a reação do tenente, que grita “Estou andando aqui!”, com a trilha do clássico estrelado por Dustin Hoffman e Jon Voight ao fundo), além de inserir imagens de “O Nascimento de uma Nação” quando Forrest cita a Klu Klux Klan.

Pra completar, praticamente todas as atuações de “Forrest Gump” são excelentes, a começar por Michael Conner Humphreys, que interpreta muito bem o jovem Forrest Gump, transmitindo a dificuldade do garoto de se relacionar socialmente através do olhar perdido e da movimentação lenta. Já adulto, Gump é interpretado pelo excepcional Tom Hanks, numa atuação marcante, notável através da entonação de sua voz, que prende nossa atenção enquanto conta as histórias, do olhar distante e da simplicidade com que compõe um personagem marcante e belo. Repare, por exemplo, como Hanks olha para o lado, ofegante e assustado, quando Jenny tira o sutiã, demonstrando o incomodo do personagem com aquela situação inusitada pra ele. Inocente, Forrest não percebe os abusos do pai de Jenny na infância (“Ele era um pai carinhoso, vivia tocando e beijando as filhas”, diz) e nem o cruel destino da garota, afirmando que ela realizou seu sonho ao vê-la cantando no palco de uma boate. Por outro lado, Forrest apresenta uma capacidade de concentração incrível que lhe permite, por exemplo, montar e desmontar uma arma com enorme velocidade e jogar pingue-pongue com incrível habilidade. Hanks demonstra muito bem todos estes aspectos fascinantes de um protagonista que enxerga o mundo da sua maneira singela e inocente, emocionando a platéia quando Forrest pergunta para Jenny se seu filho (Haley Joel Osment) é esperto e, principalmente, quando conversa com o túmulo da esposa. E até mesmo as cores leves de suas roupas (figurinos de Joanna Johnston) e a clareza de sua casa (direção de arte de Leslie McDonald e William James Teegarden) ilustram a pureza de sua alma.

Além do excelente protagonista, “Forrest Gump” conta ainda com uma gama interessante de personagens coadjuvantes, como o divertido Bubba (Mykelti Williamson), que morre na guerra, mas vive uma amizade tão verdadeira com Forrest que é homenageado por ele através da “Cia. de Camarões Bubba Gump”. Na chegada de Forrest ao exército, é ele quem cede lugar para Gump no ônibus, assim como Jenny havia feito na infância no ônibus escolar, em outra elegante rima narrativa. Interpretada com carisma por Robin Wright, Jenny gosta de Forrest e se preocupa com ele, como deixa claro quando se despede numa ponte antes dele partir pra guerra, pedindo que ele corra sempre que estiver em perigo. Mas o destino foi cruel com a garota e os traumas da infância ainda pesavam em sua vida, algo que fica evidente quando ela joga pedras na casa do pai. E é tocante o momento em que Jenny anuncia ter um vírus que “os médicos não conhecem bem”, provavelmente se referindo à AIDS (na época, um mistério para a medicina). Quem também tem uma grande atuação é Gary Sinise na pele do revoltado tenente Dan, que, após ter as pernas amputadas, se revolta contra Deus. Observe como o ator soa convincente, por exemplo, quando reclama na cama do hospital e, principalmente, quando desafia o todo Poderoso em alto-mar. Fechando os destaques do elenco, vale citar ainda a envelhecida Sally Field, que se sai muito bem na pele da batalhadora mãe de Forrest, especialmente na cena em que se despede do filho, momentos antes de morrer. E se a maquiagem acerta no envelhecimento de Field, erra ao não envelhecer Forrest ao longo dos anos, mas esta é uma falha insignificante num filme tão belo.

Após cruzar toda a história norte-americana recente, Forrest Gump se vê novamente esperando o ônibus escolar numa pequena cidade do interior, desta vez para que seu filho possa ir à escola. E quando o garoto entra no ônibus, deixando claro sua esperteza diante dos olhos do pai e do espectador, a pena voa novamente e encerra o filme. Durante mais de duas horas, fomos levados por uma história bela, empolgante e repleta de significados, e quando os créditos surgem na tela, sentimos que a viagem valeu à pena.

“Forrest Gump” é uma bela fábula da história recente dos Estados Unidos, que conta com um otimismo raro em grandes filmes, sustentado pela direção eficiente de Robert Zemeckis e pela grande atuação de Tom Hanks. A vida pode ser trágica e pode ser bela, dependendo da forma como encaramos cada etapa de nossa jornada. Incapaz de olhar o mundo com nosso costumeiro cinismo, o inocente Gump certamente levará ótimas lembranças da vida.

Texto publicado em 11 de Julho de 2011 por Roberto Siqueira

ENTREVISTA COM O VAMPIRO (1994)

(Interview with the Vampire: The Vampire Chronicles)

 

Videoteca do Beto #102

Dirigido por Neil Jordan.

Elenco: Tom Cruise, Brad Pitt, Antonio Banderas, Stephen Rea, Christian Slater, Kirsten Dunst, Thandie Newton, Virginia McCollam, John McConnell, Mike Seelig e Bellina Logan.

Roteiro: Anne Rice, baseado em livro de Anne Rice.

Produção: David Geffen e Stephen Wooley.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A trajetória da lenda dos vampiros no cinema é curiosa. Após um início mórbido, onde eram retratados como seres malditos e relegados ao papel de senhores das trevas (“Nosferatu, uma Sinfonia de Horrores” é um bom exemplo disto), a figura do vampiro foi ganhando “glamour” e versões cada vez mais romantizadas destes seres (especialmente do Conde Drácula) passaram a predominar as produções, o que talvez explique o pensamento generalizado de que ser um vampiro é algo “legal”. E é justamente este pensamento que “Entrevista com o Vampiro” tenta questionar, através da história de dois vampiros que vivem uma espécie de relação de amor e ódio por séculos.

Num apartamento em São Francisco, o repórter Daniel Malloy (Christian Slater) tenta entrevistar o misterioso Louis (Brad Pitt), que afirma ser um vampiro com mais de duzentos anos de vida. Ao contar sua trajetória, ele revela como conheceu Lestat (Tom Cruise), com quem viveu a maior parte do tempo uma relação instável, principalmente após a chegada da pequena Claudia (Kirsten Dunst).

Escrito por Anne Rice, baseado em seu próprio best-seller, “Entrevista com o Vampiro” aborda a lenda dos vampiros sem maquiá-la, de maneira crua e realista, questionando o glamour que eles conquistaram ao longo dos anos e mostrando que ser um vampiro não é algo tão belo e romântico. A estrutura narrativa se divide entre o presente, onde Malloy entrevista Louis num apartamento, e o passado, que surge através de longos flashbacks, que inteligentemente ocupam mais tempo na narrativa, graças ao bom trabalho dos montadores Mick Audsley e Joke van Wijk, que priorizam a linha mais interessante da história. A dupla de montadores acerta ainda ao cobrir muitos anos (na verdade, séculos) da história de Lestat e Louis sem jamais tornar a narrativa cansativa, realizando saltos no tempo de maneira orgânica, como quando Louis retorna ao local onde mordeu Claudia e diz que evitou aquele lugar por 30 anos (em tempo de projeção, passaram-se apenas alguns minutos). Por outro lado, com a saída momentânea de Lestat após um conflito com Claudia, a narrativa enfraquece, já que ele é o grande personagem da trama. Por isso, praticamente toda a seqüência que se passa na Europa – que aborda a atração entre Armand (Antonio Banderas) e Louis – tem um ritmo inferior ao restante do longa.

Como era de se esperar num filme sério sobre vampiros, a fotografia de Philippe Rousselot é bastante obscura, já que a história se passa quase que exclusivamente à noite. Além disso, Rousselot utiliza pouca iluminação, reforçando a atmosfera “dark” que predomina na maior parte do longa, o que permite ao diretor Neil Jordan criar planos marcantes em cemitérios, vielas e mesmo ao ar livre, normalmente somente sob a luz do luar. Este clima sombrio é ampliado pela trilha sonora de Elliot Goldenthal, que utiliza um coral de vozes para cantar musicas eruditas, sempre acompanhado por um piano clássico dos filmes de terror. Goldenthal acerta ainda ao inserir rápidas batidas que simulam um coração pulsando quando Lestat transforma Louis em vampiro, simbolizando o nascimento de um novo ser – e esta estratégia se confirma no “nascimento” de Claudia, quando as batidas voltam a aparecer. Mas, infelizmente, em diversos momentos a trilha apela para altos acordes tentando assustar o espectador, como quando Lestat ressurge pela primeira vez para assombrar Louis e Claudia, o que funciona, mas soa falso e chama demais a atenção, nos tirando do clima do filme.

Empregando elegantes travellings, como aquele que nos leva pela cidade de São Francisco e se encerra no quarto onde Malloy entrevistará Louis, Neil Jordan apresenta uma direção eficiente na maior parte do tempo, mas perde a mão na condução do segundo ato, não conseguindo amenizar a perda de seu melhor personagem. Ainda assim, Jordan cria uma atmosfera coerente com a proposta da narrativa, com seus planos obscuros e o predomínio das sombras em grande parte do longa. Além disso, o diretor acerta na criação de planos emblemáticos, como aquele que destaca a veia da empregada de Louis, ilustrando a maneira como os vampiros vêem as pessoas quando estão famintos. O diretor acerta ainda ao não economizar na violência gráfica – afinal de contas, numa história sobre seres que se alimentam de sangue, o líquido vital vermelho não poderia faltar -, criando um visual assustador, que pode ser exemplificado na primeira “morte” de Lestat, quando Claudia corta sua garganta e o joga no rio, onde também merece destaque a excelente maquiagem de Michele Burke, que transforma Tom Cruise, mas mantém os traços principais que permitem ao espectador reconhecer o personagem. Aliás, auxiliado pelos ótimos efeitos visuais, o trabalho da equipe comandada por Burke é um dos destaques do longa, tornando os vampiros em seres verossímeis e transformando completamente os personagens durante a narrativa. Finalmente, Jordan acerta na escolha das locações, como o assustador lar dos vampiros embaixo do teatro, que revela o excelente trabalho de direção de arte de Malcolm Middleton. Observe, por exemplo, o cuidado com os detalhes, como as velas espalhadas entre as covas que dão um toque especial ao local, criando uma atmosfera coerente com a vida dos vampiros. E até mesmo a peça que precede a aparição das covas é sinistra, terminando com o assassinato de uma bela moça e nos preparando para a apresentação do local.

E já que citei o excepcional trabalho de direção de arte de Middleton, vale destacar também a perfeita recriação de diversas épocas, começando pela New Orleans do final do século XVIII, com as tavernas e carroças que se espalham a beira mar, passando pela gótica Paris do século XIX e chegando à San Francisco dos dias atuais, com os edifícios modernos e os carros que passam em alta velocidade pelas ruas da cidade. Observe ainda a riqueza de detalhes na mansão onde Lestat e Louis iniciam sua vida, por exemplo, durante a cena do jantar, onde os talheres requintados e as taças imponentes revelam muito sobre o passado de riquezas de Louis – o que nos ajuda a compreender a tristeza do personagem, que provavelmente se sentia solitário naquela enorme mansão. Auxiliado ainda pelos figurinos de Sandy Powell, que também mudam de acordo com a época e reconstituem cada período de maneira impecável, “Entrevista com o Vampiro” ambienta o espectador com competência.

Todo este cenário cria a atmosfera perfeita para que o elenco apresente um bom desempenho na pele destas lendárias criaturas. E quem melhor aproveita a oportunidade é Tom Cruise, que tem um excelente desempenho como Lestat, criando um personagem aterrorizante com seu olhar penetrante e sua risada sarcástica. Inteligente e sedutor, Lestat compreende muito bem sua situação (ou pelo menos a aceita e tenta se adaptar), ao contrário de Louis, que luta contra sua nova realidade desde o momento em que é transformado. Aliás, a introdução de Lestat é rápida demais e, por isso, não cria expectativa no espectador, mas pelo menos provoca um efeito surpresa quando ele surge na tela, evidenciando sua sede de sangue. Mas existe algo que incomoda Lestat: a solidão. E somente por precisar de uma companhia é que ele transforma Louis em vampiro. Já o Louis de Brad Pitt se mostra desconfortável desde o seu “nascimento” no cemitério, quando passa a ver o mundo de outra maneira. Pitt demonstra bem o conflito de Louis através da voz contida e do olhar desconfiado de quem tenta evitar seu instinto assassino ao mesmo tempo em que vê sua sede de sangue crescer, o que faz com que tenha momentos explosivos, principalmente quando provocado por Lestat. Lentamente, Louis compreende o que é ser um vampiro e o perigo que isto representa para aqueles que estão a sua volta, o que o leva a incendiar sua mansão e pedir que seus escravos fujam, num plano marcante em que Louis grita que é o diabo com o reflexo das chamas em seus olhos. Juntos, Cruise e Pitt são responsáveis pelos melhores momentos do longa, como o sensacional duelo verbal na cena em que Lestat tenta convencer Louis a terminar de matar uma jovem, quando o experiente vampiro desafia o novato gritando para que ele aceite o fato de que é um assassino. Louis aceita o fato de maneira inusitada, atacando uma criança e, logo em seguida, afirmando que só sentia paz daquela maneira. A criança, interpretada brilhantemente por Kirsten Dunst, se chama Claudia, e é transformada em vampiro por Lestat, passando a integrar o grupo e a desafiar seu mentor. Demonstrando a mesma sede de sangue de Lestat, Claudia se mostra uma ameaça real ao experiente vampiro, especialmente quando começa a questionar o fato de não envelhecer (o que não lhe permitirá ter um corpo de mulher), iniciando uma série de reflexões que a narrativa propõe a respeito dos vampiros – e Dunst se destaca especialmente nestes momentos em que desafia Lestat, mostrando convicção e soando ameaçadora, por exemplo, quando tenta cortar o próprio cabelo para mudar o visual e corta o rosto do vampiro. Completando o elenco, Antonio Banderas tem uma atuação discreta como Armand, o personagem que evidencia o subtexto homossexual de “Entrevista com o Vampiro” através de sua relação com Louis. Apesar de jamais consumarem a atração fisicamente, fica claro que existe uma química entre eles, o que também acontece, de maneira mais sutil, entre Lestat e Louis – na realidade, a relação entre os dois principais personagens do longa é mais explosiva e menos afetiva. E assim como Claudia, Armand também nos faz refletir sobre alguns aspectos da natureza dos vampiros.

E que reflexões são estas? Tome como exemplo o momento em que Armand afirma que tudo que os vampiros conhecem na vida morre um dia, mas eles sempre continuam vivos. “Esta é a ironia”, afirma ele, resumindo uma das mensagens do filme. Afinal, qual é a graça de viver eternamente, se tudo que amamos ou criamos laços vai embora? Existem ainda outros aspectos melancólicos abordados pela narrativa, como o fato deles não poderem ver a luz do dia e a beleza de um nascer ou pôr-do-sol (“Uma maravilha tecnológica me permitiu ver o sol nascer novamente”, diz Louis, se referindo ao cinema). E até mesmo o citado visual obscuro do filme reflete a infelicidade de Louis, que fica evidente quando o repórter Malloy afirma, no final da entrevista, que gostaria de ser igual a ele, de ter o poder dele, e Louis se irrita profundamente, gritando que falhou novamente em sua missão. Felizmente, “Entrevista com o Vampiro” não falha neste aspecto, desmistificando a imagem romantizada dos vampiros. Se o homem sente fascinação pela vida eterna e pelo poder dos vampiros, eles próprios não enxergam desta maneira.

Antes dos créditos finais, Lestat ainda ressurge para encerrar o filme, pois, afinal de contas, é o grande personagem do longa. E o faz de maneira empolgante, deixando o espectador com uma sensação de alegria momentânea, que contraria o clima pesado da narrativa. Mas em grande parte do tempo, “Entrevista com o Vampiro” cumpre bem o seu propósito, com sua atmosfera pesada, seu visual sombrio e uma narrativa interessante, que nos propõe uma nova linha de raciocínio a respeito destes seres que, com o tempo, ganharam um status que contraria sua concepção original.

Texto publicado em 08 de Julho de 2011 por Roberto Siqueira

DEBI & LÓIDE – DOIS IDIOTAS EM APUROS (1994)

(Dumb and Dumber)

 

Videoteca do Beto #101

Dirigido por Peter Farrelly.

Elenco: Jim Carrey, Jeff Daniels, Lauren Holly, Mike Starr, Charles Rocket, Karen Duffy, Felton Perry, Teri Garr, Hank Brandt, Joe Baker, Victoria Roswell, Cam Neely e Harland Williams.

Roteiro: Peter Farrelly, Bobby Farrelly e Bennett Yelin.

Produção: Brad Krevoy, Steven Stabler e Charles B. Wessler.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Fazer rir não é fácil. Em primeiro lugar, o estado de espírito da pessoa pode influenciar bastante na maneira como ela recebe uma piada. Em certos dias, podemos rir de qualquer coisa, por mais simples que seja, mas em outros, parece que sorrir é uma tarefa hercúlea. Além disto, o tipo de humor que agrada ao espectador varia bastante. Existem aqueles (como eu) que gostam de um humor mais sarcástico, mais sutil e menos físico. Já outros preferem um humor pastelão, bem mais espalhafatoso – e não vejo nada de errado nisto, é bom dizer. E como isto não é uma regra imutável, qualquer tipo de humor pode agradar a qualquer pessoa, dependendo da forma como a piada (ou cena, ou filme) é contada. Este é o segredo deste excelente “Debi & Lóide”, um filme que faz piada “idiota”, mas que respeita a inteligência do espectador e não o trata como tal.

Lloyd Christmas (Jim Carrey) é um motorista frustrado que vê sua vida mudar completamente quando resgata uma mala deixada pela bela Mary Swanson (Lauren Holly) no saguão de um aeroporto, antes dela seguir viagem para Aspen. Ao lado de seu grande amigo Harry Dunne (Jeff Daniels), ele parte numa viagem que cruzará o país na tentativa de devolver o objeto para a moça, provocando muitas confusões pelas estradas norte-americanas. Pra piorar a situação, a mala continha o dinheiro do pagamento de um resgate e os seqüestradores partem em busca da dupla.

Escrito pelos irmãos Peter e Bobby Farrelly, auxiliados por Bennett Yelin, “Debi & Lóide” conta a história de dois verdadeiros idiotas, que decidem cruzar os Estados Unidos somente para devolver uma mala para uma desconhecida, que tentava fazer o pagamento de um resgate (descobriríamos depois que, como acontece na maioria dos casos, o seqüestro é organizado por alguém próximo da família). Partindo desta premissa simples, o criativo roteiro nos apresenta a uma série de situações inusitadas e divertidas desde a apresentação dos personagens principais que, nos dois casos, enfrentam problemas no trabalho antes de voltar para casa. Além disso, o roteiro é repleto de humor negro, como fica claro desde a ida ao aeroporto, quando Lloyd provoca diversos acidentes enquanto conversa com Mary, chegando ao auge do politicamente incorreto quando a dupla provoca a morte de um dos seqüestradores no restaurante “Dante’s Inferno”, dando pimentas para quem sofre com úlcera e, na tentativa de ajudá-lo, medicando-o acidentalmente com veneno pra ratos. Finalmente, vale destacar que o roteiro faz ainda uma interessante referência ao clássico “O Silêncio dos Inocentes”, quando Lloyd e Harry dizem que comeriam o fígado de uma mulher com Chianti e fazem um gesto com a boca similar ao de Hannibal Lecter.

Além de escrever o criativo roteiro, Peter Farrelly demonstra competência na condução da narrativa, mantendo o ritmo sempre dinâmico e a atmosfera alegre na maior parte do tempo. Inteligente, ele sabe que o sentimentalismo não combina com o clima do filme e, por isso, evita as cenas melodramáticas na maior parte do tempo – e mesmo quando elas aparecem, como quando Lloyd reclama da vida antes de partir pra Aspen, são sempre interrompidas por alguma piada. Além disso, Farrelly se sai bem na condução das cenas mais divertidas, como na genial seqüência da lanchonete, quando Lloyd consegue sair sem pagar e deixa tudo na conta do grandalhão Sea Bass (Cam Neely). O diretor conta ainda com a montagem de Christopher Greenbury para criar muitos momentos engraçados, como quando Lloyd pede para uma velhinha cuidar de suas coisas e, em seguida, entra em casa gritando “Fui roubado! Por uma velinha sentada numa cadeira de rodas!”. E até mesmo na criação de planos simbólicos Peter se sai bem, como quando diminui Harry na tela quando ele volta pra casa, ilustrando seu sentimento de solidão na estrada, ou quando Mary está deitada entre os amigos na cama, simbolizando que aquela amizade estava novamente dividida por uma mulher, ainda que temporariamente – sem falar no engraçado sonho de Lloyd, quando as asas dos pombos atrás de Mary simbolizam que ela é um anjo na vida dele. Pra completar, a fotografia de Mark Irwin utiliza cores vivas e muitas cenas diurnas, reforçando a atmosfera leve da narrativa.

A coleção de cenas engraçadas é tão grande que fica difícil citar apenas algumas. Basta dizer que a narrativa apresenta uma sucessão quase ininterrupta de boas piadas, graças ao trabalho do montador Greenbury, em conjunto com a direção eficiente de Farrelly, que emprega um ritmo acelerado à narrativa, além, é claro, de contar também com o talento da dupla principal de atores. Ainda assim, vale destacar a divertida cena em que um policial para a dupla na estrada para multá-los, tomando a “cerveja” em seguida, numa das piadas escatológicas do longa – a outra piada deste tipo que também é sensacional acontece na casa de Mary, após um plano cruel de Lloyd.

Todas estas excelentes cenas ficam ainda melhores graças ao inspirado desempenho do ótimo Jim Carrey, que provou ao longo da carreira que é um ator não apenas talentoso, mas também versátil. É incrível como Carrey tem enorme facilidade para provocar o riso, seja através de suas expressões faciais, seja através de seu excelente timing cômico, como, por exemplo, na cena em que Lloyd conta para Harry que vendeu um pássaro morto para um menino cego (repare a tossida que o ator dá tentando disfarçar a revelação trágica). Aliás, a casa simples e bagunçada indica muito sobre a personalidade atrapalhada de Lloyd e Harry, o que evidencia o bom trabalho de direção de arte de Arlan Jay Vetter. “Que tipo de idiota criaria minhocas na sala?”, questiona uma das seqüestradoras ao invadir o local. Pra ajudar, seu cabelo (que remete a Jerry Lewis) e o dente quebrado dão um upgrade no visual cômico. Jeff Daniels também está muito bem, conseguindo sucesso na difícil missão de contracenar com um comediante tão talentoso como Carrey, além de protagonizar muitas das cenas marcantes de “Debi & Lóide” com competência, como quando prende a língua num teleférico e quando a privada quebra na casa de Mary. Demonstrando excelente química em cena, a dupla parece se conhecer a muito tempo, tamanho o entrosamento que apresentam. Repare, por exemplo, a alegria de Harry quando Lloyd troca o carro por uma moto, após os dois se perderem na estrada (“Achei que as rochosas eram mais rochosas”, diz Harry, após voltar metade do caminho). Eles se completam.

E se sem dinheiro a dupla consegue se divertir tanto na viagem, imagine o que acontece quando eles descobrem o que tem dentro da mala, já na cidade de Aspen? Embalados pela excelente trilha sonora de Todd Rundgren, repleta de músicas agitadas que colaboram com o clima leve da narrativa, a dupla parte para comprar novas roupas (sob o som de “Pretty Woman”), pois a noite haveria uma festa de gala, onde estariam presentes Mary e os seqüestradores (obviamente, eles não sabiam disto). E assim como a casa deles, as roupas escolhidas (figurinos de Mary Zophres) ilustram uma característica de Lloyd e Harry: a alegria. E após a hilária e surreal cena em que Lloyd mata uma coruja rara, os seqüestradores afirmam: “Foi um recado puro e simples. Matamos o pássaro deles e eles mataram o nosso”. Mas eles não eram bandidos e, acertadamente, se sairão bem de toda esta enrascada, ainda que voltem sem dinheiro, sem Mary e, pior que isto, a pé pra casa. Pra completar, o longa termina com uma piada perfeita, quando um ônibus lotado de mulheres de biquíni para na estrada a procura de dois rapazes para passar bronzeador nelas. Enquanto os créditos sobem na tela e os amigos se divertem na estrada, o espectador mantém o sorriso no rosto, o que é sinal de que o filme atingiu seu objetivo.

Leve e descontraído, “Debi & Lóide” é uma comédia eficiente, que conta com uma direção correta e duas atuações inspiradas para nos divertir. Misturando o humor pastelão com piadas que desafiam o limite do politicamente correto, o longa se transformou num dos símbolos da comédia nos anos 90. De quebra, lançou a consistente carreira dos irmãos Farrelly e consolidou a ascensão do ótimo Jim Carrey. Não é pouca coisa.

Texto publicado em 05 de Julho de 2011 por Roberto Siqueira

ASSASSINOS POR NATUREZA (1994)

(Natural Born Killers)

 

Videoteca do Beto #100

Dirigido por Oliver Stone.

Elenco: Woody Harrelson, Juliette Lewis, Tom Sizemore, Robert Downey Jr., Tommy Lee Jones, Rodney Dangerfield, Everett Quinton, Edie McClurg, Lanny Flaherty, O-Lan Jones, Richard Lineback, Kirk Baltz, Maria Pitillo, Melinda Renna, Dale Dye, Lorraine Farris, Steven Wright, Joe Grifasi, Robert Swan, Russell Means e Jared Harris.

Roteiro: David Veloz, Richard Rutowski e Oliver Stone, baseado em história de Quentin Tarantino.

Produção: Jane Hamsher, Don Murphy e Clayton Townse.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Oliver Stone já era bastante conhecido por provocar polêmicas quando decidiu lançar este excelente “Assassinos por Natureza”, uma ácida crítica a imprensa sensacionalista e ao culto aos assassinos em série, tão comuns nos Estados Unidos e em grande parte do mundo. E felizmente o diretor acertou novamente, entregando um filme empolgante, visualmente rico e que cumpre o seu propósito, mostrando com clareza (e uma dose de humor negro) os piores hábitos desta parte da imprensa (e de seu público) a partir da história de um perigoso casal de assassinos.

Após ser abusada constantemente pelo pai, a jovem Mallory (Juliette Lewis) conhece Mickey (Woody Harrelson) e se apaixona perdidamente. Cansado dos abusos sofridos por sua amada, Mickey assassina o pai e a mãe dela, com o auxílio da própria Mallory. Nascia ali uma dupla infernal de assassinos, que mataria dezenas de pessoas em poucas semanas pelas estradas empoeiradas dos Estados Unidos, sempre deixando alguém vivo no caminho para contar a história, o que, como eles previam, atrai a atenção da mídia sensacionalista, especialmente do repórter Wayne Gale (Robert Downey Jr.), que os coloca como atração principal do programa “American Maniacs”.

Não é novidade para ninguém que as tragédias (e os assassinatos fazem parte deste universo) exercem algum estranho fascínio na grande maioria das pessoas. Para constatar isto, basta observar o tumulto que se forma em volta de qualquer acidente no trânsito ou a grande audiência de telejornais especializados neste tipo de assunto. Mas existe uma considerável diferença entre noticiar uma tragédia (cumprindo o dever jornalístico) e explorá-la ao máximo, numa tentativa desesperada de conseguir audiência. Escrito por David Veloz, Richard Rutowski e Oliver Stone, baseado em história de Quentin Tarantino (ele mesmo!), “Assassinos por Natureza” é uma crítica feroz a esta parte da imprensa, que não mede esforços para explorar ao máximo os crimes que chamam a atenção do público, sem se importar com o sofrimento das vítimas e dos familiares. O longa narra a história do casal Mickey e Mallory, dois perigosos assassinos em série, que cruzam as estradas norte-americanas deixando vítimas por toda parte (sempre deixando alguém vivo para contar o que aconteceu e espalhar a fama do casal) e acabam se transformando em celebridades. Logo no início, o diretor Oliver Stone deixa claro que a dupla segue os seus instintos mais primitivos ao mostrar imagens de animais perigosos, remetendo ao instinto predador do casal. Aliás, Stone capricha no aspecto visual, criando diversos planos interessantes e diferenciados, como na primeira cena, onde o diretor apresenta planos em ângulo baixo e inclinados, além de misturar cenas muito coloridas com outras em preto e branco, numa característica marcante do longa, que é também mérito da excelente direção de fotografia de Robert Richardson.

Contando ainda com os bons efeitos visuais da Pacific Data Images, Stone cria cenas de violência bastante estilizadas, como no massacre do bar, onde vemos uma bala girando segundos antes de atingir uma atendente ou quando uma faca lentamente se choca contra o vidro de uma janela, segundos antes de atingir as costas de um homem que fugia da fúria do casal. Estilizadas também são as inúmeras cenas repletas de imagens psicodélicas, normalmente embaladas pela excelente trilha sonora de Brent Lewis, que ilustram a mente perturbada do casal. Aliás, além das excelentes músicas que pontuam a narrativa, vale destacar o ótimo trabalho de sons e efeitos sonoros, notável, por exemplo, na tempestade no deserto, onde podemos ouvir o vento, os cavalos galopando e os gritos das pessoas, e na rebelião na prisão, que capta perfeitamente o clima de tensão através dos tiros e dos gritos dos presos. E, finalmente, além de conduzir com muita energia a empolgante narrativa, Stone ainda cria belos planos, como no criativo casamento dos assassinos na ponte, onde também vale destacar o momento em que Mickey respira fundo quando um carro passa por trás deles e grita, se esforçando para conter seu instinto assassino (“Não vou matar ninguém no dia do nosso casamento”).

Além do apuro visual, existem pequenas seqüências que são um verdadeiro show de criatividade narrativa, como, por exemplo, o quadro “I Love Mallory”, que remete aos sitcoms norte-americanos, com risadas e aplausos ao fundo, ao mesmo tempo em que nos mostra a vida dura de Mallory, abusada pelo pai e “salva” por Mickey (em outra seqüência violenta, encerrada com o assassinato dos pais dela e as chamas que indicam a vida infernal da dupla dali em diante). Auxiliado pela espetacular montagem de Brian Berdan e Hank Corwin, Stone imprime um ritmo intenso à narrativa, intercalando imagens tanto de cenas que já vimos como de figuras não diegéticas (como desenhos animados), dando ao espectador a mesma sensação de euforia do casal principal. Este festival de cores, músicas, composição de planos distorcidos que fogem da realidade e imagens psicodélicas cria um mundo assustador, que, reforçado pelos figurinos coloridos e descolados de Richard Hornung, reflete a mente dos psicopatas assassinos.

Aliás, Woody Harrelson e Juliette Lewis demonstram excelente química em cena, mostrando empatia ao mesmo tempo em que soam assustadores e ameaçadores (“Só o amor pode matar o demônio”, diz Mickey). Alucinada na pele de Mallory, Lewis alterna bem entre o lado meigo e gentil da garota (quando está com Mickey) e os momentos de pura insanidade (observe sua risada demoníaca ao constatar que seu pai morreu). O trauma dos abusos do pai, aliás, acompanha a jovem por toda a vida, provocando brigas com seu parceiro e sendo fundamental na cena em que ela se entrega a um garoto no posto, mudando de idéia no meio do caminho e atirando nele (“Foi o pior sexo oral que já tive!”). Harrelson também está ameaçador na pele do maluco Mickey e, da mesma forma, oscila entre momentos de fúria e de autocontrole, por exemplo, durante a entrevista, quando fala com o tom de voz baixo e tranqüilo, e na rebelião, quando tira a arma de Wayne Gale, alegando que ele está descontrolado. Lewis e Harrelson se saem bem até mesmo nas brigas do casal (especialmente na seqüência do deserto) – e este desempenho é essencial para que o espectador não se afaste completamente da dupla após acompanhar todos os seus crimes. Curiosamente, podemos não concordar com seus atos, mas acabamos torcendo pelo casal em diversos momentos – o que, de certa forma, explica a fixação da maioria das pessoas, criticada pelo filme. Não concordamos com suas atitudes, mas temos curiosidade pelo tema, que é explorado pela imprensa na eterna busca por audiência. E esta fixação, somada à cobertura da imprensa sensacionalista, faz Mickey e Mallory se transformarem em celebridades. Eles não fizeram nada de bom para a humanidade (pelo contrário, tudo que fizeram foi matar pessoas), mas conquistaram muitos fãs pelo país.

Representando esta fatia da imprensa, Robert Downey Jr. vive o jornalista sem escrúpulos que apresenta um programa sensacionalista sobre os criminosos norte-americanos, deixando claro o pensamento predominante neste setor com frases como “Coloque qualquer coisa, é fastfood para o cérebro” e se referido ao seu público como “zumbis que vêem qualquer coisa”. Com suas reações viscerais que visam chamar a atenção do espectador, Downey Jr. faz bem o típico repórter destes programas, chegando a ficar alucinado quando tem uma arma na mão durante uma rebelião, atirando pra todos os lados e matando até mesmo policiais. E entre os policiais, o maior destaque fica mesmo para Tommy Lee Jones, que vive o chefe da prisão Dwight McClusky, um homem tão louco quanto aqueles que ele mantém presos, que não tem medo de andar entre eles e suspeita quando tudo está “bem” (“Este silêncio é perigoso”). Só que Jones exagera na tentativa de ilustrar a loucura e a raiva do personagem, chegando ao auge das “caras e bocas” após a explosão da rebelião, quando mais parece um lunático do que um homem assustado.

Ao contrário da loucura da maioria, o velho índio interpretado por Russell Means é talvez o personagem mais tranqüilo da narrativa, abrigando e alimentando o casal de assassinos. Mas a história que ele conta sobre a mulher que cuidou de uma cobra serve como metáfora para sua própria morte, algo que ele já previa e que fica claro quando revela um sonho e, principalmente, quando olha para o quadro da falecida esposa segundos antes de morrer, indicando seu desejo de encontrá-la. Só que Mickey não queria matar aquele homem e se desespera ao constatar o que fez, provocando também a revolta de Mallory. Atordoados, eles saem pelo deserto e se deparam com muitas cobras, que atacam impiedosamente o casal. Mas, nas palavras de Mickey, “vaso ruim não quebra” e eles conseguem chegar a uma farmácia na cidade, onde acabarão presos (ao vivo!) pelo violento detetive Jack Scagnetti, interpretado por Tom Sizemore, que cria um estilo agressivo e sacana, chegando a matar uma jovem num hotel e a tentar se relacionar sexualmente com Mallory na prisão (“Ela faz meu tipo”, diz). E é justamente na prisão que a ácida crítica de “Assassinos por Natureza” chega ao auge, com a entrevista ao vivo de Mickey feita por Gale, repleta de momentos interessantes, como a crítica às corporações que matam animais e destroem as florestas por razões econômicas e o momento em que Mickey fala sobre a natureza violenta do homem, se proclamando um assassino por natureza (vale destacar que Harrelson e Downey Jr têm um excelente desempenho na cena, mantendo a entrevista dinâmica e interessante). Repare ainda a crítica nada velada ao espectador de programas sensacionalistas, quando Mickey diz que “muitas pessoas já morreram por dentro” e Stone insere um plano triste, em preto e branco, de uma família que assiste atentamente a entrevista. Mas estas pessoas não veriam o fim da tão aguardada entrevista, pois uma rebelião explode no meio dela e transforma o local num verdadeiro inferno, algo ilustrado pela câmera agitada de Stone, que acompanha a fuga de Mickey e Mallory, e pela montagem ainda mais dinâmica, que intercala planos com mais rapidez. E mesmo no meio de toda esta confusão, a emissora ainda quer transmitir a rebelião ao vivo, colocando em risco a vida de seu repórter – e o desespero da apresentadora do programa que faz contato com Gale não se deve ao risco que corria o colega de profissão, mas sim à pressa dela para tentar transmitir o evento ao vivo o mais rápido possível.

Num simbolismo perfeito da parceria formada pela imprensa sensacionalista e os criminosos, Mickey e Mallory usam Gale como refém para fugir do local. E se a palavra “parceria” parece forte demais, este pensamento se desfaz ao constatarmos que o criminoso precisa da imprensa para ficar famoso e a imprensa precisa dele para ter audiência. Mas, seguindo seu instinto assassino, a dupla mata o jornalista e tudo que ele representa, deixando a câmera como testemunha do assassinato – afinal de contas, alguém precisa contar a história depois. E as imagens reais de programas norte-americanos sensacionalistas que aparecem no final do filme apenas comprovam a fixação da imprensa pelas tragédias e pelos criminosos, que existe em praticamente todos os cantos do planeta.

Com seu estilo ousado e corajoso, Oliver Stone critica o culto aos criminosos promovido pela imprensa sensacionalista neste “Assassinos por Natureza”, que conta ainda com um visual magnífico e excelentes atuações de Woody Harrelson e Juliette Lewis. Não há dúvida que tirar uma vida é um crime abominável. Mas também é abominável que pessoas usem este crime horrível para ganhar dinheiro, fazendo a fama de assassinos em todo o mundo e banalizando a vida.

Texto publicado em 03 de Julho de 2011 por Roberto Siqueira

A FRATERNIDADE É VERMELHA (1994)

(Trois Couleurs: Rouge)

 

Videoteca do Beto #99

Dirigido por Krzysztof Kieslowski.

Elenco: Irene Jacob, Jean-Louis Trintignant, Jean-Pierre Lorit, Teco Celio, Jean Schlegel, Frédérique Feder, Juliette Binoche, Benoít Régent, Julie Delpy, Zbigniew Zamachowski, Samuel Le Bihen e Marion Stalens.

Roteiro: Krzysztof Kieslowski e Krzysztof Piesiewicz.

Produção: Marin Karmitz.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após falar sobre a liberdade e a igualdade, Krzysztof Kieslowski encerra a excelente trilogia das cores com este “A Fraternidade é Vermelha”, abordando o tema da amizade através da relação sincera entre um juiz aposentado e uma jovem modelo. Mantendo o apuro visual e a sensibilidade dos outros dois filmes, o longa apresenta ainda um fechamento perfeito para a trilogia, que amarra toda a narrativa com elegância e deixa o espectador com a sensação de que toda a jornada realmente valeu a pena.

A modelo Valentine (Irene Jacob) atropela um cachorro e descobre, através do endereço em sua coleira, que o cão pertence a um juiz aposentado (Jean-Louis Trintignant). Ao devolver o animal, ela descobre também que o juiz tem o estranho hábito de escutar as conversas telefônicas de seus vizinhos, o que provoca repulsa na garota. Mas, com o passar do tempo, eles acabaram desenvolvendo uma bela amizade, que passaria por cima dos defeitos de cada um.

Após empregar um tom bastante melancólico em “A Liberdade é Azul” e flertar com o bom humor (na realidade, humor negro) em “A Igualdade é Branca”, Krzysztof Kieslowski equilibra tudo neste “A Fraternidade é Vermelha”, que narra à história da alegre Valentine e do amargo juiz aposentado que ela conhece. E depois da direção econômica de “A Igualdade é Branca”, Kieslowski volta a empregar movimentos de câmera muito elegantes, como os travellings que saem da rua e vão até os apartamentos de Valentine e Auguste (Jean-Pierre Lorit) no inicio do filme e logo após ela sair chorando da casa do juiz, além dos curiosos planos subjetivos que acompanham o som através dos fios de telefone na abertura do longa, indicando a importância deste aparelho na trama, ou o plano do farol do carro dela, momentos antes do atropelamento que mudaria tantos destinos. O diretor cria ainda belos planos, como quando Valentine recusa o beijo do fotógrafo (Samuel Le Bihen) sob o domínio das sombras na tela ou durante o ensaio fotográfico da garota, além de apresentar um interessante movimento de câmera, simulando a queda do livro que ajudou o juiz a passar numa importante prova no passado. E assim como nos filmes anteriores, Kieslowski repete o curioso momento em que uma velinha tenta jogar uma garrafa no lixo. Só que aqui, ao contrário de Karol e Julie, Valentine ajuda a velha senhora, numa ação que reflete sua própria felicidade, o que não acontecia com os outros dois personagens citados. O que a velinha estava fazendo em Genebra se nos outros dois filmes ela estava em Paris? Não importa. Como já afirmei antes, vejo o cinema de Kieslowski como um cinema de sensações. Não precisamos entender certas coisas, apenas sentir. E são as sensações provocadas no espectador e os sentimentos dos personagens que ligam os três filmes, não apenas a história deles.

Mantendo o apuro visual e o rigor estético da trilogia, a excelente fotografia de Piotr Sobocinski obviamente destaca o vermelho neste último filme, completando as cores da bandeira francesa e o lema da revolução. Além disso, a ótima direção de arte espalha pela narrativa diversos objetos vermelhos, como a fachada do café na rua, o carro de Auguste, a saia de Valentine na academia, os assentos do teatro, os detalhes das fotos no ensaio dela e, principalmente, o fundo da foto da propaganda de chicletes protagonizada pela garota. Além disso, a velha e mal cuidada casa do juiz, pouco iluminada e com cores sem vida, reflete a personalidade sombria de seu dono, que fica evidente quando ao ouvir Valentine dizer pra ele que “só falta parar de respirar”, o juiz responde que “é uma boa idéia”. Também mantendo o padrão da trilogia, a trilha sonora de Bertrand Lenclos é bela e econômica, pontuando apenas alguns momentos especiais, como o choro de Valentine após ouvir o juiz falar do problema de seu irmão com as drogas ou quando o tom sombrio da trilha acompanha a escalada de Auguste no apartamento da ex-namorada Karin (Frédérique Feder), momentos antes de vê-la transando com outro pela janela.

Com inteligência, o roteiro escrito por Krzysztof Kieslowski e Krzysztof Piesiewicz intercala as histórias de Valentine e Auguste, duas pessoas que sequer se conhecem, mas que se cruzam pelo caminho em diversos momentos da vida, e acertadamente mantém o foco da narrativa na garota, o que é mérito também da excelente montagem de Jacques Witta, que emprega um ritmo mais dinâmico que o adotado em “A Liberdade é Azul” e mais lento que o empregado em “A Igualdade é Branca”, reforçando o tom equilibrado de “A Fraternidade é Vermelha”. Desta forma, podemos acompanhar a trajetória da bela Valentine, interpretada por Irene Jacob, que se sai bem com seu jeito dócil, bastante coerente com a espirituosa personagem. Sempre sorridente e apaixonada pelo ciumento namorado Michel (que está viajando), Valentine transforma o velho juiz com seu espírito alegre e a atriz demonstra isto com competência em seu semblante. Esta mudança começa no momento em que Valentine atropela um cachorro, que ela descobriria ser do cético juiz, iniciando um relacionamento que se transformaria numa grande amizade em pouco tempo. Só que a relação não começa bem. Ao descobrir que o juiz escuta as conversas telefônicas dos vizinhos, ela decide contar para um deles (que tem um caso extraconjugal), mas desiste da idéia ao ver a família do homem na casa. Em seguida, o juiz fala sobre os problemas do irmão dela e Valentine desaba, num choro que faria o juiz se arrepender e se entregar, desencadeando diversas mudanças na vida deles e de outros personagens. Jean-Louis Trintignant também está muito bem, demonstrando a amargura do velho juiz em sua voz e seu semblante pesado, se transformando lentamente através do convívio com Valentine. Traumatizado pela profissão que escolheu e pelas decisões que tomou no passado, o juiz tenta justificar sua atitude ao dizer que antes não sabia quem estava certo, mas agora sabe quem tem razão, graças à escuta telefônica. Este trauma fica ainda mais evidente quando ele afirma, numa conversa tocante com Valentine, que poderia ter feito como no caso do marinheiro absolvido (que era culpado), que acabou construindo uma família depois (“Quantos outros eu poderia ter salvado?”, questiona). Mas, de alguma forma misteriosa, o juiz se comove com a reação de Valentine e se entrega, provocando a revolta dos vizinhos, que começam a atirar pedras na casa dele. Só que ele não guarda mágoa. Parece compreender aquelas pessoas e até guarda as pedras, como uma espécie de troféu, que simboliza sua atitude corajosa ao se entregar (“No lugar deles eu faria a mesma coisa”, diz, se referindo também aos que foram condenados por ele no passado). E nestas enormes coincidências da vida (o tema principal da trilogia), a decisão do juiz transformaria também a vida de Auguste, agora formado e responsável por julgar o caso do velho juiz, que, por sua vez, determinou o fim de seu namoro ao decidir se entregar – algo indicado num plano sutil no boliche, quando um travelling para a esquerda revela um copo de cerveja quebrado e o local abandonado (momentos antes, nós acompanhamos Auguste e a namorada combinando a ida ao boliche, mas ele não compareceu e ela acabou conhecendo outro homem).

Como podemos notar, a presença do acaso é ainda mais forte neste terceiro filme da trilogia. O que teria acontecido com todas aquelas pessoas se Valentine não tivesse atropelado o cachorro? Nunca saberemos. Kieslowski parece acreditar que a vida é feita de uma sucessão de coincidências, moldadas por uma força maior, que podemos interpretar como Deus, como destino ou como o que quer que seja. Mas o fato é que nos três filmes, acreditamos estar vendo pessoas reais e não personagens, que enfrentam problemas do cotidiano e que estão sujeitas ao acaso, seja este um acidente de carro, uma amizade feita no metrô ou uma amizade que surge de um atropelamento. E a verdade é que a amizade entre Valentine e o velho juiz se consolida naturalmente, como acontece na vida e não como usualmente acontece nos filmes. A prova da consolidação da amizade acontece quando o juiz vai assistir ao desfile de Valentine, onde uma conversa franca entre eles revelará muito sobre aquele homem. A traição da esposa o deixou amargo, mas, em outra coincidência da vida, o homem que conquistou sua mulher seria julgado e condenado por ele, que se aposentaria logo em seguida. Nesta mesma conversa, a linha tênue entre a amizade e o amor fica evidente quando o juiz diz que talvez não tenha conhecido Valentine na época certa, ao falar dos traumas amorosos do passado. Ao associar a cor vermelha, que simboliza a paixão, ao filme que aborda o tema da amizade, “A Fraternidade é Vermelha” parece dizer que a distancia entre o sentimento de amor e o de amizade não é tão grande assim. São sentimentos que exigem comprometimento, respeito, compreensão, admiração e muitas outras qualidades, e só se diferenciam pela questão da atração física, nada mais.

E assim como no boliche, um close num copo (agora no teatro) indica um evento futuro, revelando a tempestade que se aproxima e que ligará definitivamente os personagens dos três filmes. E da mesma forma que Valentine sabe que o juiz se entregou através de uma notícia no jornal, é no jornal que ele lê sobre a tempestade e a tragédia envolvendo a balsa na qual Valentine viajava no canal da Mancha, que também afundou um iate, com a ex-namorada de Auguste e seu novo parceiro. Observe novamente a sutileza da narrativa ao abordar as surpresas do destino, ao constatar que o sofrimento de Auguste por perder a namorada agora se transformaria em alívio ao descobrir que era ele quem deveria estar no iate ao lado dela. E é aí que a trilogia das cores se torna ainda mais intrigante e a razão para a escolha destas três histórias faz ainda mais sentido, quando os sete sobreviventes do acidente da balsa são anunciados na televisão. São eles: Julie, Karol, Dominique, Olivier, o barman Steven, o juiz Auguste e Valentine. É mágico ou não é? Kieslowski amarra toda a trilogia com elegância e, pra completar, compõe um plano belíssimo com a imagem de Valentine saindo do barco, que remete ao cartaz da propaganda que ela fez e encerra a trilogia das cores.

Tratando de seres humanos, com qualidades e defeitos, e também do acaso (ou destino) que afeta todos nós, a bela trilogia das cores é cinema da mais alta qualidade, destes que não explicam muita coisa, preferindo deixar o espectador interpretar cada obra à sua maneira. Com sensibilidade e competência, Kieslowski fecha sua trilogia nesteA Fraternidade é Vermelha”, questionando os valores da revolução francesa e mostrando que os seres humanos são imperfeitos, mas é justamente nesta imperfeição que está a graça de todos nós, seres capazes de amar e odiar, chorar e sorrir, se alegrar e sofrer. Isto nada mais é do que viver.

Texto publicado em 29 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

A IGUALDADE É BRANCA (1994)

(Trois Couleurs: Blanc)

 

Videoteca do Beto #98

Dirigido por Krzysztof Kieslowski.

Elenco: Zbigniew Zamachowski, Julie Delpy, Janusz Gajos, Jerzy Stuhr, Aleksander Bardini, Jerzy Trela, Jerzy Nowak, Cezary Harasimowicz, Michel Lisowski e Juliette Binoche.

Roteiro: Krzysztof Kieslowski e Krzysztof Piesiewicz.

Produção: Marin Karmitz.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após associar a sensação de liberdade à perda no belo “A Liberdade é Azul”, Krzysztof Kieslowski resolveu abordar o segundo tema do lema da revolução francesa, através da história de um casal em separação, formado por uma jovem francesa e por um polonês. Mas, ao apostar numa narrativa mais leve e bem humorada, o diretor faz deste “A Igualdade é Branca” o filme mais fraco da trilogia, o que não significa dizer que o longa não tenha muitas qualidades.

O polonês Karol (Zbigniew Zamachowski) decide voltar à Polônia após se divorciar de sua esposa Dominique (Julie Delpy), com quem vivia em Paris. Apósvoltar à terra natal, Karol consegue ganhar muito dinheiro e decide se vingar da esposa de uma maneira bastante diferente e criativa.

Ao contrário do triste filme inicial da trilogia das cores, este “A Igualdade é Branca” apresenta uma história mais leve, apesar de também conter muitos momentos intimistas, que demonstram a dor de seu personagem principal, um homem completamente apaixonado por sua esposa, mas que não consegue consumar esta paixão sexualmente. Claramente investindo num tom mais cômico, o roteiro escrito pela dupla Krzysztof Kieslowski e Krzysztof Piesiewicz, responsável por toda a trilogia, aborda sutilmente a dificuldade que cidadãos estrangeiros enfrentam tanto em Paris como em Varsóvia (e na maioria das grandes cidades do mundo), como fica evidente na dificuldade tanto de Karol quanto de Dominique quando são interrogados fora de seu país. Quando Karol questiona se o fato de não falar francês é motivo para não ouvir seus argumentos, na realidade o longa está questionando onde está a igualdade pregada pelo lema da revolução francesa. A igualdade existe para aqueles que são iguais, não para os que são diferentes. Só que o lado crítico não tem grande destaque na narrativa, que pende mais para o bom humor que nos outros dois filmes, com muitos momentos de alivio cômico, como quando Karol diz para Mikolaj (Janusz Gajos) sobre sua esposa apontando para um prédio ao sair do metrô e Mikolaj pergunta se sua ex-esposa é “Brigitte Bardot”, por causa do cartaz de “O Desprezo” ao lado do apartamento dela. Além deste momento, podemos citar muitos outros em que o riso contido é inevitável no espectador, como quando Mikolaj diz que havia um amigo dentro da mala extraviada no aeroporto e quando Karol diz que está em casa, após apanhar muito dos homens que roubaram sua mala e o encontraram lá dentro.

Também fugindo um pouco do padrão estabelecido no longa anterior, Kieslowski apresenta uma direção convencional, com poucos movimentos de câmera estilizados, apresentando planos mais discretos e menos inspirados que nos outros dois filmes. Ainda assim, o longa inicia com um curioso plano subjetivo, que acompanha uma mala pelas esteiras de um aeroporto, intercalando com imagens do polonês Karol, que se dirige a um tribunal de Paris, onde será confirmado o seu divórcio, para sua tristeza e dor. Mas nem tudo é tão diferente em “A Igualdade é Branca” e novamente Kieslowski abusa de closes e planos mais fechados, que realçam as reações dos personagens e nos aproximam deles, além de novamente utilizar o close para destacar objetos, como um copo de vodka e uma lista telefônica. Também estão presentes os momentos que remetem aos outros filmes da trilogia, como a rápida aparição de Julie (Juliette Binoche) no tribunal e a velinha que tenta colocar uma garrafa de vidro no lixo, observada atentamente pelo triste Karol, que tinha acabado de se separar e ouvir o banco dizer que seu cartão de crédito expirou. Assim como Julie, ele não tinha forças para ajudar aquela senhora (o que não aconteceria com a protagonista do terceiro filme da trilogia), mas pelo menos Karol notou sua presença, algo que Julie não fez. Auxiliado pela montagem de Urszula Lesiak, o diretor procura manter o foco da narrativa na vida de Karol, deixando Dominique de lado na maior parte do tempo, mas faz questão de ressaltar a importância que ela ainda tem na vida dele através de pequenos momentos simbólicos, como quando Karol beija uma estátua, evidenciando sua solidão numa cena silenciosa e tocante. Aliás, o silêncio predomina grande parte da narrativa graças à ausência da trilha sonora de Zbigniew Preisner, que, por outro lado, sempre que aparece, procura ilustrar os sentimentos dos personagens, como quando embala os felizes amigos poloneses na neve, após a tocante cena em que um tiro de festim tirou a idéia de suicídio da cabeça de Mikolaj. Após o tiro de Karol, ambos estavam aliviados e prontos para seguir em frente, algo reforçado pela fotografia clara de Edward Klosinski, que destaca o branco através da neve. Aliás, mantendo o rigor estético da trilogia, a cor branca tem destaque na maior parte da narrativa, numa óbvia referência ao nome do filme (o que também contribui para o citado clima leve do longa). Ainda assim, Klosinski sabe variar do tom leve para momentos sombrios, como quando Karol caminha sozinho na beira de um rio após chegar à Polônia ou quando ele compra um cadáver para simular a própria morte. E curiosamente, ainda que priorize a cor branca, o visual pouco colorido e os figurinos tristes e sem vida, que normalmente usam cores escuras, mantém uma atmosfera melancólica sob aquela superfície bem humorada, que ilustra bem o personagem principal, feliz e bem sucedido em sua volta à Polônia, mas ainda sofrendo por sua amada esposa.

Interpretada pela bela Julie Delpy, Dominique é a mulher responsável por todo este sofrimento de Karol, que só acontece porque, após o casamento, ele não consegue consumar a relação sexualmente, fazendo com que a jovem exija a separação. Após conseguir o divórcio na justiça, ela se vê livre para buscar outra pessoa, mas ainda tem um último encontro com Karol quando volta pra casa, numa tentativa desesperada daquele homem de manter a mulher que ama – o que não acontece porque ele novamente não consegue transar com ela. Demonstrando bem o quanto Dominique ainda deseja Karol através de seu olhar, sofrendo por não tê-lo como gostaria, Delpy mistura este olhar fatal com um ar de crueldade, evidenciando que ela certamente ama Karol, mas não se conforma com a falta de sexo e por isso decide deixá-lo. Esta crueldade vem à tona quando Dominique geme enquanto conversa com o ex-marido por telefone, deixando clara a razão pela qual o deixou pra trás. Triste e deprimido, Karol acaba pedindo esmola no metrô de Paris e, ironicamente, esta atitude mudaria novamente o seu destino e o de sua mulher, pois será ali que ele conhecerá o amigo Mikolaj. Após retornar à Polônia, Karol decide recomeçar a vida e, mostrando esperteza para lidar com o mundo dos negócios, acaba comprando um terreno antes dos interessados e revendendo por um valor dez vezes maior (“Só preciso de dinheiro”, responde ao ser acusado de ser desonesto), o que lhe permite abrir uma empresa e convidar o amigo Mikolaj, cedendo 30% do negócio pra ele. Momentos antes, ele havia acabado de salvar o amigo, que estava decidido a suicidar-se e desiste da idéia após um disparo com bala de festim, numa bela cena, conduzida em câmera lenta e sem trilha sonora por Kieslowski, que, desta forma, mantém uma atmosfera fria e realista e evita o melodrama. Aliás, a amizade entre Karol e Mikolaj é vital para o sucesso da narrativa é a dupla Zbigniew Zamachowski e Janusz Gajos se sai muito bem na tarefa. Aqueles dois homens sofrem por razões diferentes, e encontram nesta amizade uma força extra para sobreviver (“Todos nós sofremos”, diz Karol, e Mikolaj responde: “Eu sei, mas quero sofrer menos”).

Só que mesmo bem sucedido, Karol ainda pensa em Dominique e sofre por ela, como atesta o momento em que liga somente para escutar sua voz – e Zamachowski demonstra bem a emoção do personagem neste momento, especialmente quando ela desliga e o deixa novamente sozinho. Sem alternativa e desesperado para chamar a atenção dela, Karol decide simular a própria morte e deixar toda sua herança para Dominique, num momento de puro humor negro que novamente atesta o tom leve de “A Igualdade é Branca”. Para isto, conta com a ajuda de Mikolaj, que retribui a ajuda de Karol na hora de sua “morte” (repare que ambos colaboram com a suposta morte do outro, mas nos dois casos eles continuam vivos). Mas quando Karol observa a tristeza de Dominique no enterro, ao invés de se sentir bem (como provavelmente imaginou que aconteceria) ele fica triste, ao constatar que ela realmente o amava e não veio apenas por causa da herança. Por isso, decide aparecer para ela no quarto, provocando um susto enorme na moça, numa cena em que vale destacar a reação verossímil de Delpy ao vê-lo, bastante assustada e confusa com o que está acontecendo. Após o susto, eles se beijam e finalmente fazem amor, num momento em que as sombras tomam conta da tela, chegando a escurecê-la completamente, mas ficando totalmente clara quando Dominique chega ao tão sonhado orgasmo, somente para voltar à escuridãoem seguida. Umplano então destaca as mãos dadas do casal, indicando uma volta da relação que não acontece, porque Karol ainda tinha o desejo de vingança dentro dele. Após o sexo, Dominique dorme em lençóis vermelhos que simbolizam a volta da paixão, mas Karol já havia sumido e armado a prisão da ex-mulher, agora suspeita de participar de sua “morte”, consumando sua vingança (que teve um sabor ainda mais especial porque ela confessou ao amigo Mikolaj que o ama no telefone).

Quando a polícia invade o quarto e prende Dominique por suspeitar de sua participação no “assassinato” do marido, temos também a chave para compreender o tema de “A Igualdade é Branca”. Assim como no julgamento de Karol em Paris, o idioma é uma barreira para Dominique, que escuta as palavras do policial em polonês e é obrigada a aguardar a tradução para o francês, numa situação inversa ao julgamento que determinou a separação do casal. Também sendo discriminada fora de sua terra natal, ela é condenada e vai para a prisão, onde é visitada por Karol a distancia. Só que ao vê-la gesticulando, dizendo que não vai fugir e vai ficar na Polônia com ele, Karol se emociona, comprovando que ainda a ama, assim como ela também o ama. Após a vingança, eles estavam “quites”, estavam “iguais” e livres novamente para amar.

Ligeiramente mais leve que os outros dois filmes da trilogia das cores, “A Igualdade é Branca” mantém as melhores características do cinema de Kieslowski, ao contar com sensibilidade a história de um casal que se ama de verdade, mas que não consegue consumar este amor por diversas situações inusitadas. Novamente, o acaso interfere na vida dos personagens, as imagens falam mais do que as palavras e as sensações transmitidas ao espectador valem mais do que qualquer outra coisa. Novamente, o diretor questiona um dos lemas da revolução francesa, mas não de maneira ácida, preferindo uma forma mais delicada e singela, em outro filme repleto de simbolismos que abre muitas possibilidades de interpretação. E novamente, é o espectador quem sai ganhando. Se Dominique e Karol agora estavam iguais, certamente os cinéfilos têm uma enorme dívida com o grande diretor polonês.

Texto publicado em 26 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

Nova página: Charles Chaplin

Olá cinéfilos,

Há alguns meses, mais precisamente no fim do ano passado, fiz uma semana especial sobre “Chaplin” e escrevi sobre alguns dos filmes mais importantes de sua carreira. Só que, ao contrário do que fiz nas semanas Alfred Hitchcock e Disney, não preparei uma página a respeito deste gênio da história do cinema.

Por isso, corrijo esta falha hoje, divulgando a página oficial sobre Charles Chaplin, que vocês poderão acessar sempre que quiserem no link permanente (página inicial, lado direito).

Um abraço.

Texto publicado em 24 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

Um dos melhores agradecimentos da história do OSCAR

Joe Pesci, no Oscar 1991.

Para ver o vídeo, clique aqui. O Youtube não autorizou a incorporação.

Grande abraço.

Texto publicado em 23 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

Nova página: Walt Disney

Olá pessoal,

Assim como fiz com o especial sobre Alfred Hitchcock, decidi transformar em página o post original sobre a semana “Disney”. Desta forma, sempre que vocês quiserem, poderão acessar a matéria e até mesmo as críticas divulgadas direto no link (página inicial, lado direito).

Um abraço.

Texto publicado em 20 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

TRAMA MACABRA (1976)

(Family Plot)

 

Filmes em Geral #67

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Barbara Harris, Bruce Dern, William Devane, Karen Black, Ed Lauter, Cathleen Nesbitt, Katherine Helmond, Edith Atwater e William Prince.

Roteiro: Ernest Lehman, baseado em obra de Victor Canning.

Produção: Alfred Hitchcock.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Em seu filme de despedida, Alfred Hitchcock entrega um thriller divertido, que, se não alcança a mesma qualidade de suas grandes obras, também está longe de ser uma decepção. Com sua atmosfera leve e personagens carismáticos, “Trama Macabra” consegue agradar ao espectador, além de apresentar cenas memoráveis, com a marca registrada do mestre do suspense.

Arrependida por ter forçado sua irmã já falecida a doar o filho na juventude, a Sra. Julia Rainbird (Cathleen Nesbitt) oferece uma recompensa para a médium Madame Blanche (Barbara Harris) reencontrá-lo. Com a ajuda de seu parceiro George Lumley (Bruce Dern), a falsa vidente começa a procurar o sobrinho, numa busca que trará à tona acontecimentos macabros do passado. Paralelamente, o joalheiro Arthur Adamson (William Devane) e sua parceira Fran (Karen Black) seguem fazendo fortuna com seqüestros muito bem orquestrados. De alguma maneira, os caminhos destes dois casais se cruzarão.

Ainda que tenha cenas tensas, “Trama Macabra” apresenta uma narrativa leve, recheada de humor negro e bastante divertida. Escrito por Ernest Lehman, baseado em romance de Victor Canning, o roteiro é repleto de tiradas, muito bem exploradas pelo elenco, especialmente por Barbara Harris, que aproveita os aspectos cômicos da profissão de Madame Blanche Tyler, nos fazendo rir com seus olhares por entre os dedos e gritos durante as sessões, além de se sair muito bem, por exemplo, ao mal conseguir conter a euforia com a oferta da Sra. Rainbird, logo na primeira cena. Demonstrando excelente química com Harris, Bruce Dern vive o engraçado taxista Lumley, que se divide entre ajudar sua amante maluca e tentar manter o emprego que, afinal de contas, garante seu sustento. Dern se destaca, entre outros momentos, quando Lumley finge ser um advogado, interrogando pessoas na busca de informações (sua pose, com o cachimbo no canto da boca, é hilária). Quem também se sai bem é William Devane, com seu tom de voz baixo e seu aspecto sempre sereno, que demonstra um autocontrole coerente com o metódico Arthur, um ser capaz de planejar a morte dos pais e simular a própria morte. E, fechando os destaques do elenco, Karen Black vive Fran, a falsa loira gelada da vez (repare que ela guarda a peruca dentro da geladeira), que tenta convencer o amante a deixar aquela vida criminosa ao mesmo tempo em que não consegue deixar de se envolver em seus próximos seqüestros.

Apesar do tom sombrio durante a primeira sessão de Madame Blanche, a trilha sonora de John Williams emprega um tom alegre na maior parte do tempo, o que soa coerente com o humor negro que recheia a trama. Também na primeira sessão, o sofá e as flores vermelhas da sala da Sra. Rainbird tornam o ambiente aconchegante e, ao mesmo tempo, indicam o futuro violento daquele pedido dela, o que, somado ao criativo cativeiro na garagem da casa de Arthur, demonstra o bom trabalho de direção de arte de Henry Bumstead. Ainda na parte técnica, destaque para os figurinos da eterna colaboradora de Hitchcock, Edith Head, que, com as roupas coloridas e espalhafatosas de Blanche, reforça o clima leve do longa.

Na direção, além de extrair boas atuações de todo o elenco, Alfred Hitchcock conduz a narrativa de maneira direta, o que sempre facilita a compreensão da platéia. Apesar disso, a descida sem freios de Lumley e Blanche pela estrada (uma das melhores seqüências do longa) pode soar datada, talvez pelos efeitos pouco verossímeis, que dão a sensação de que o veículo passa dentro dos carros e motos que sobem o monte. Por outro lado, é inegável que a cena ainda consegue prender a respiração daqueles que embarcam no clima leve da história, sem levar tudo muito a sério. Também merece destaque o interessante plano geral que mostra a viúva de Maloney (Katherine Helmond) tentando escapar de Lumley no cemitério. Pressionada pelo taxista, ela acaba confessando o crime do marido e entregando o segredo de Arthur. Hitchcock demonstra ainda seu enorme domínio da linguagem cinematográfica quando, através de uma freada, nos apresenta ao outro casal importante da narrativa, num movimento de câmera interessante que deixa o carro de Lumley para trás e segue os passos da misteriosa loira negociante, quase atropelada pelo taxista. A “negociante” em questão é Fran, a companheira de Arthur Adamson, que recolhe um diamante como pagamento pela libertação de uma pessoa e parte para encontrar o comparsa seqüestrador. Já em casa, ela pergunta onde Arthur escondeu o diamante e Hitchcock nos revela o local através de outro interessante movimento de câmera.

E se exibe excelente forma nos elegantes movimentos, Hitchcock também demonstra habilidade na condução da narrativa, sugando o espectador pra dentro de uma história que ganha força no segundo ato, quando somos envolvidos pela investigação de Lumley sobre o passado de Eddie Shoebridge, introduzido personagens interessantes na trama, como o mal encarado dono de um posto Joseph P. Maloney (Ed Lauter). O diretor conta também com a boa montagem de J. Terry Williams, que jamais deixa cair o ritmo da trama, intercalando bem as duas linhas narrativas principais, com a investigação de Lumley e Blanche e a preocupação de Arthur e Fran com o aparecimento deles. Vale mencionar também a direção de fotografia de Leonard J. South, que evita cores sombrias na maior parte do longa (especialmente quando Blanche está em cena), o que é coerente com o clima divertido da trama. Já quando as cenas envolvem Arthur e Fran, a fotografia normalmente é mais sombria, assim como no terceiro ato, onde predominam cenas noturnas e o uso das sombras, criando uma atmosfera tensa e interessante para a seqüência final.

Quando Lumley entende a ligação entre Maloney e Eddie Shoebridge, ele chega a Arthur Adamson e as duas linhas narrativas finalmente se cruzam. Antes alvos da investigação, agora Arthur e Fran também passam a investigar a vidente e o taxista – o curioso é que eles pensam que o casal sabe dos seqüestros e não do passado de Arthur. E esta deliciosa confusão nos leva ao terceiro ato, que se passa praticamente dentro da casa de Arthur, prendendo a atenção do espectador em diversos momentos até o inteligente desfecho. Com muito bom humor e algumas cenas tensas, como quando Lumley anda só de meias na casa até encontrar o cativeiro, Hitchcock nos conduz até o encontro final entre os casais e fecha a trama com uma solução rápida e criativa. O bom humor ainda volta no último plano, com a piscada de Madame Blanche para a tela.

Alfred Hitchcock se despediu das telas de cinema com este divertido “Trama Macabra”, um longa que não figura entre as obras-primas deixadas pelo diretor, mas que é digno de pertencer à sua gloriosa filmografia. Se os poderes de Madame Blanche realmente funcionassem, quem sabe ela poderia contatar o mestre e dizer que não queremos mais nada, apenas agradecê-lo por tudo o que fez. Foi mais que suficiente.

Texto publicado em 17 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira