Retomada na Videoteca

Nas últimas semanas consegui uma boa seqüência na divulgação de críticas da Videoteca do Beto em ordem cronológica. Mas devido às aquisições que fiz recentemente de filmes anteriores ao ano atual de divulgação (1986), vou dar uma parada nesta seqüência. São exatamente sete filmes anteriores ao ano de 1986. Após divulgar as críticas desta pequena série de grandes clássicos, voltarei à seqüência da Videoteca com “Platoon”, de Oliver Stone.

Um grande abraço.

Texto publicado em 24 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira

Videoteca do Beto: novas aquisições

Abaixo a foto dos 17 novos integrantes da Videoteca do Beto:

Crepúsculo dos Deuses (1950)*

Ben-Hur (1959)*

Barry Lyndon (1975)*

Top Gun – Ases Indomáveis (1986)

Cinema Paradiso (1988)

O Mistério da Libélula (2002)

Simplesmente Amor (2003)

Madagascar (2005)

A Casa Monstro (2006)

Os Sem Floresta (2006)

Pequena Miss Sunshine (2006)

300 (2007)

Bee Movie (2007)

O Orfanato (2007)

REC (2007)

Kung Fu Panda (2008)

Guerra ao Terror (2009)

*Os filmes que chegarem depois de sua posição na ordem cronológica das críticas “Videoteca do Beto” serão assistidos e avaliados na medida do possível e serão encaixados na seqüência da Videoteca. Por exemplo, se a Videoteca estiver no filme #37 e eu divulgar em seguida a crítica do filme “Crepúsculo dos Deuses”, este será o filme Videoteca do Beto #38.

Um abraço.

Texto publicado em 22 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira

OSCAR 2006: CRASH – NO LIMITE X SYRIANA – A INDÚSTRIA DO PETRÓLEO

Seguindo minha comparação entre o vencedor do Oscar de Melhor filme e aqueles que eu considerei como a melhor produção do ano, chega à vez do ano de 2005 (Premiação em 2006). Ao contrário de muitas pessoas que conheço, considero “Crash – No Limite” um grande filme, que trata de uma questão absolutamente delicada de forma honesta e bem intencionada, assim como outro grande filme daquele ano (O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee). Por outro lado, entendo que o filme exagera em alguns momentos no melodrama, o que é um problema perdoável diante da coragem do filme dirigido por Paul Higgins. Por outro lado, Syriana – A Indústria do Petróleo também aborda um tema delicado de forma extremamente competente, pintando um quadro complexo sobre os diversos integrantes da enorme indústria do petróleo, sem jamais pender para qualquer lado. É como se George Clooney fizesse um painel gigantesco e deixasse o espectador refletir sobre as causas, conseqüências e a forma ideal de combater o problema.

Porque “Syriana – A Indústria do Petróleo” é melhor?

Exatamente por tratar de assuntos polêmicos de forma muito competente, é difícil apontar qual destes três filmes é melhor. Porém, como não existe a possibilidade de votar em todos, preciso escolher. E por pura questão de empatia com o tema, escolho Syriana. Mas com certeza, de todos os anos que divulguei até agora, este seria o voto mais difícil.

Gostaria de saber sua opinião. Pra você, qual o melhor filme de 2005 e por quê?

Um abraço e bom debate.

Texto publicado em 21 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira

Coincidência?

A crítica de “A Missão”, divulgada ontem aqui no Cinema & Debate, tem exatamente 1500 palavras. Por tratar do tema “colonização”, o número de palavras ficou bastante apropriado, já que 1500 também é o ano oficial do descobrimento do Brasil.

Com base nisto, deixo a seguinte pergunta no ar: Você acha que o número de palavras revela um preciosismo extremo de minha parte ou é apenas uma incrível coincidência?

Fiquem à vontade para responder, mas sem solicitar minha internação num hospício, ok?

Um grande abraço.

Texto publicado em 20 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira

A MISSÃO (1986)

(The Mission)

 

Videoteca do Beto #37

Dirigido por Roland Joffé.

Elenco: Robert De Niro, Jeremy Irons, Ray McAnally, Aidan Quinn, Cherie Lunghi, Ronald Pickup, Chuck Low, Liam Neeson, Daniel Berrigan e Monirak Sisowath.

Roteiro: Robert Bolt.

Produção: Fernando Ghia e David Puttnam.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

As belíssimas paisagens da divisa entre Brasil, Argentina e Paraguai, capitaneadas por uma incrível cachoeira em meio à floresta, são o pano de fundo para a história da chegada de espanhóis e portugueses em território indígena, onde os jesuítas tocavam o projeto das missões, criando comunidades e vivendo em harmonia com os povos nativos. A forma como as decisões políticas e os interesses econômicos determinaram o fim das missões e o meio violento utilizado para este fim é o que poderemos testemunhar no bom filme dirigido por Roland Joffé. “A que preço este continente foi dominado, colonizado e encontrou o progresso?” é a reflexão que surge na mente do espectador quando o último plano do filme desaparece na tela.

“A Missão” narra à história do padre Gabriel (Jeremy Irons), um jesuíta de bom coração que luta para defender os interesses indígenas ao lado de Fielding (Liam Nesson), e ao mesmo tempo tenta convertê-los para o cristianismo, no final do século XVIII. Gabriel passa a enfrentar problemas com o mercenário mercador de escravos Rodrigo Mendoza (Robert De Niro), mas vê a oportunidade de guiá-lo em sua redenção quando, após matar o próprio irmão Felipe (Aidan Quinn) num duelo pelo amor da jovem Carlotta (Cherie Lunghi), Rodrigo sequer consegue continuar vivendo. Decidido a se regenerar, e como forma de pagar penitencia pelo peso de seu passado, o mercenário se torna padre e parte para viver na missão jesuíta, junto aos índios que perseguia. Os problemas começam quando os interesses econômicos na região entram em conflito com a missão jesuíta.

Não é difícil imaginar a dificuldade que os primeiros europeus encontraram quando chegaram ao continente sul-americano, ao se deparar com os povos nativos da região. Imagina-se também o choque cultural provocado nestes povos, ao perceberem que não estavam sozinhos e serem invadidos por pessoas de culturas tão diferentes. Por isso, quando vemos a forte cena em que um padre, amarrado em uma cruz, desce uma cachoeira para encontrar a morte, podemos imaginar os motivos que causaram este terrível fim. Mesmo assim, os chamados jesuítas tiveram sucesso em suas missões, se estabelecendo na região e convivendo pacificamente com os povos indígenas.

Roland Joffé é preciso na criação de planos incrivelmente belos, enquadrando perfeitamente as lindas paisagens do local. Conduzindo a narrativa com segurança, o diretor consegue manter um bom ritmo, falhando apenas na confusa seqüência final, quando o combate se inicia. A sutileza do diretor é perceptível na cena em que Rodrigo mata seu irmão Felipe, onde a câmera sequer mostra o irmão morto, fixando a imagem no rosto de Rodrigo e captando o impacto daquela ação em sua mente, já que este momento mudaria sua vida para sempre. Joffé também é competente na condução de uma das mais belas cenas do filme, quando padre Gabriel toca flauta para fazer contato com os índios, mostrando o poder da musica como linguagem universal, rompendo a barreira do idioma e permitindo a comunicação entre povos distintos. Esta cena, aliás, é marcada pela linda música tema composta por Ennio Morricone, que é o destaque da bela trilha sonora do filme.

O roteiro de Robert Bolt pode parecer bastante maniqueísta, ao retratar praticamente todos os europeus como vilões sem coração e todos os índios e jesuítas como pessoas boas. Porém, o filme escapa do maniqueísmo ao utilizar um inteligente artifício narrativo. Toda a história é contada sob o ponto de vista de Altamirano (Ray McAnally), que amargurado, generaliza em seu relato, transformando todos os europeus em pessoas más e todos os índios em pessoas boas. Além disso, o próprio arrependimento do narrador e a mudança de Rodrigo ao longo da narrativa reforçam este argumento. O roteiro também aborda de forma convincente como o jogo de interesses políticos determinou as ações tomadas na região, sem eximir de culpa o governo espanhol, português e a igreja. Fica claro para o espectador que a igreja trabalhou muito mais para fins políticos do que para defender a mensagem divina de amor e paz. Finalmente, Bolt teve o cuidado de desenvolver muito bem dois personagens antagônicos, que caminham juntos durante certo momento da narrativa, somente para tomar caminhos distintos em defesa da mesma causa no final. Obviamente, estamos falando de Rodrigo Mendoza e padre Gabriel. Por outro lado, ao não conseguir criar empatia com nenhum dos índios, o roteiro parece diminuir o impacto da terrível seqüência final, mas de certa forma, ajuda a entender o problema como algo generalizado, e não concentrado em um único personagem. Assim, o espectador sofre, mas não por um único índio por quem tenha criado empatia, e sim por todos eles, o que é mais tocante.

A citada cena em que Gabriel faz contato com os índios através da música serve também para iniciar a ligação do espectador com o bom padre, que será importante durante toda a narrativa. Irons está muito bem nesta cena, demonstrando a tensão misturada com coragem que sentia no momento, com o olhar atento para todos os lados e os gestos minimamente calculados. A grande atuação de Jeremy Irons cresce ainda mais no terceiro ato, quando Gabriel sofre o dilema entre defender os nativos utilizando a força e respeitar os ensinamentos cristãos de paz e amor. Mesmo sofrendo (e o ator é competente na transmissão deste sentimento), se mantém firme em sua fé, como podemos notar em sua importante conversa com Rodrigo, quando este pede para ser abençoado. Irons demonstra bem a insegurança de Gabriel, afinal de contas, o padre também é um ser humano. Mesmo assim, decide seguir pelo caminho do amor, nem que pague com a vida por isso.

Quem também decide pagar com a vida para defender os índios, só que de uma forma diferente e mais violenta, é Rodrigo Mendoza. Inicialmente apresentado como um homem cruel, capturando índios e negociando-os, ele se transforma completamente após a tragédia que destrói sua vida.  Após matar seu irmão, que havia se interessado por Carlotta (a mulher com quem Mendoza se relacionava), desiste de viver, sendo convencido por Gabriel a seguir com os Jesuítas para a missão, aceitando apenas como forma de penitência. Porém, sua transformação ao longo da trama é notável, graças ao bom desempenho do sempre competente Robert De Niro. A cena em que ele desaba num choro sentido diante dos índios é extremamente comovente e exemplifica muito bem o bom trabalho do ator. Rodrigo é um personagem muito importante na trama, e a câmera de Joffé traduz isso algumas vezes. Observe, por exemplo, como em dois momentos distintos, ao ouvir palavras mentirosas ou agressivas dos europeus, a câmera se aproxima dele (primeiro através de um close, depois através de um travelling para a esquerda), realçando seu incomodo com o que ouvia. Repare também o simbolismo óbvio na cena em que um pequeno índio encontra e entrega para Rodrigo sua espada perdida. O menino sabia que no íntimo Rodrigo queria lutar. As palavras não precisam ser ditas, o gesto resume tudo. Observe também como através da expressão facial e do olhar, De Niro transmite todo o sentimento do personagem na cena. Completando os destaques no elenco, Aidan Quinn tem uma participação discreta e pequena como Felipe Mendoza, enquanto Liam Nesson tem uma atuação discreta e competente na pele de Fielding, crescendo nos momentos finais, quando ajuda Rodrigo a liderar os índios contra a invasão européia.

O bom trabalho de direção de fotografia de Chris Menges é o destaque na parte técnica, explorando com competência a absurda beleza das cachoeiras, dos rios e da floresta local. Repare como a fotografia é dessaturada quando a ação se passa nas vilas e cidades, mudando para uma imagem muito mais viva na floresta e na comunidade dos índios e jesuítas, refletindo o estado de paz e pureza do local, em oposição à sujeira e aridez da vida na cidade. Também tem função narrativa quando o exército europeu chega ao local retirando mulheres e crianças, utilizando uma paleta escura e até mesmo a chuva para refletir a tristeza que os nativos sentiam. Os figurinos de Enrico Sabbatini e a direção de arte de John King e George Richardson são responsáveis pela competente ambientação à época, enquanto a montagem de Jim Clark é responsável pelos belos clipes que embalam a adaptação de Rodrigo ao meio indígena. Clark também cria boas elipses, como quando escutamos alguém comentar com Gabriel que Rodrigo havia assassinado o irmão há seis meses, logo depois da cena do duelo.

Mostrando claramente os interesses políticos de Espanha, Portugal e da igreja católica na região sul-americana, e como este interesse foi determinante para que os nativos fossem dizimados, abrindo espaço para a chegada destas nações e a construção da civilização que vemos hoje em dia, “A Missão” não chega a emocionar como poderia, mas cumpre um papel histórico importante. Além disso, mostra como duas pessoas podem defender a mesma causa de formas distintas, de acordo com o que acreditam, e nos tocar da mesma forma. Respondendo à pergunta inicial deste texto, o próprio narrador Altamirano deixou sua opinião: o preço da colonização foi muito alto.

Texto publicado em 19 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira

Globo de Ouro 2010 – Vencedores

Na noite de ontem foram conhecidos os vencedores do Globo de Ouro 2010. A homenagem ao grande Martin Scorsese, um dos diretores mais talentosos de sua geração, valeu à noite. O clipe com cenas de todos os filmes de um dos meus diretores favoritos foi realmente sensacional, além é claro, da aula de conhecimento cinematográfico que o mestre deu em seus agradecimentos. A noite ainda teve alguns outros bons momentos, como os discursos de Robert Downey Jr. e da elegantíssima (e nem é preciso mais dizer, talentosíssima) Meryl Streep. Além disso, Sandra Bullock parece ganhar força para uma indicação ao Oscar por sua atuação em “O Lago Cego”.

Segue a lista dos vencedores do Globo de Ouro 2010 (incluindo também as categorias de séries):

MELHOR FILME – DRAMA
Avatar

MELHOR FILME – COMÉDIA/MUSICAL
Se Beber, Não Case!

MELHOR DIRETOR
James Cameron (Avatar)

MELHOR ATOR – DRAMA

Jeff Bridges (Coração Louco)

MELHOR ATOR – COMÉDIA/MUSICAL

Robert Downey Jr. (Sherlock Holmes)

MELHOR ATRIZ – DRAMA
Sandra Bullock (O Lado Cego)

MELHOR ATRIZ – COMÉDIA/MUSICAL
Meryl Streep (Julie & Julia)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Christoph Waltz (Bastardos Inglórios)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Mo’nique (Preciosa)

MELHOR ROTEIRO
Amor Sem Escalas

MELHOR TRILHA SONORA
Up – Altas Aventuras

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“The Weary Kind” (Coração Louco)

MELHOR FILME DE ANIMAÇÃO

Up – Altas Aventuras

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
A Fita Branca

MELHOR SÉRIE DE TV – DRAMA
Mad Men

MELHOR SÉRIE DE TV – COMÉDIA/MUSICAL
Glee

MELHOR MINISSÉRIE/FILME PARA TV
Grey Gardens

MELHOR ATOR – MINISSÉRIE/FILME PARA TV
Kevin Bacon (O Retorno do Herói)

MELHOR ATRIZ – MINISSÉRIE/FILME PARA TV
Drew Barrymore (Grey Gardens)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE TV – DRAMA
Michael C. Hall (Dexter)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE TV – DRAMA
Julianna Margulies (The Good Wife)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE TV – MUSICAL/COMÉDIA
Alec Baldwin (30 Rock)

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE TV – MUSICAL/COMÉDIA
Toni Collette (United States of Tara)

MELHOR ATOR COADJUVANTE – SÉRIE/MINISSÉRIE OU FILME PARA TV
John Lithgow (Dexter)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE – SÉRIE/MINISSÉRIE OU FILME PARA TV
Chloë Sevigny (Big Love)

Agora resta esperar pelo Oscar para saber se James Cameron e seu “Avatar” vão mesmo bater “Guerra ao Terror” e “Amor sem Escalas”, aparentemente seus grandes rivais na disputa. É esperar pra ver.

Um abraço.

Texto publicado em 18 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira

LADRÕES DE BICICLETA (1948)

(Ladri di Biciclette)

 

Filmes Comentados #16

Dirigido por Vittorio De Sica.

Elenco: Lamberto Maggiorani, Enzo Staiola, Lianella Carell, Gino Saltamerenda, Vittorio Antonucci, Michele Sakara, Fausto Guerzoni, Sergio Leone, Giulio Chiari, Elena Altieri e Carlo Jachino.

Roteiro: Cesare Zavattini, baseado em estória de Oreste Biancoli, Suso Cecchi d’Amico, Vittorio De Sica, Adolfo Franci, Gerardo Guerrieri e Cesare Zavattini e em romance de Luigi Bartolini.

Produção: Giuseppe Amato e Vittorio De Sica.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de esclarecer que os filmes comentados não são críticas. Tratam-se apenas de impressões que tive sobre o filme, que divulgo por falta de tempo para escrever uma crítica completa e estruturada de todos os filmes que assisto. Gostaria de pedir que só leia estes comentários se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

– A estória de Antonio Ricci (Lamberto Maggiorani), um humilde trabalhador italiano que tem sua bicicleta (utilizada para trabalhar) roubada durante os difíceis anos pós-guerra, é contada com extrema sensibilidade neste tocante “Ladrões de Bicicleta”, dirigido por Vittorio De Sica.

– O filme retrata com fidelidade o período negro do pós-guerra na Itália (e em toda Europa) – o que é uma característica do neo-realismo italiano – através da dificuldade para conseguir emprego, da degradação das casas e da dificuldade para conseguir andar no transporte público, por exemplo. A enorme dificuldade financeira e a escassez de produtos fizeram da vida daquelas pessoas a mais difícil que se possa imaginar.

– A terrível sensação de ser assaltado é retratada com muita fidelidade quando a bicicleta de Antonio Ricci é roubada. O olhar incrédulo e a falta de saber o que fazer e pra onde ir demonstram a boa atuação de Lamberto Maggiorani.

– A policia não dá muita atenção ao caso, já que é “apenas uma bicicleta” e a enorme dificuldade em encontrá-la é de dar dó. O que fazer naquela situação? Esta dúvida será utilizada como justificativa para a atitude final de Ricci.

– A alegria de Ricci e seu filho Bruno (Enzo Staiola) na trattoria e a reflexão do pai sobre o que poderia ter se tivesse o emprego de volta são comoventes.

– O diretor Vittorio De Sica utiliza muitos planos gerais, evitando o close, normalmente utilizado para gerar emoção na platéia ao potencializar as reações dos atores. Desta forma, o longa soa distante, frio e cru, o que era exatamente a intenção de De Sica ao retratar aquele momento triste da humanidade. O plano final, misturando Ricci na multidão, simboliza que ele é apenas um exemplo entre tantos outros que enfrentavam enormes dificuldades para conseguir sobreviver.

– A direção de fotografia de Carlo Montuori também merece destaque, por utilizar o foco em toda a cena e explorar bem o “novo conceito” (na época) de profundidade de campo, que ficou realmente famoso com “Cidadão Kane” em 1941. Desta forma, podemos acompanhar com nitidez diversas ações paralelas que ocorrem em segundo plano que, acompanhadas dos elegantes movimentos de câmera de De Sica, criam um belo visual.

– Apesar do tom realista do longa, podemos notar algumas características que normalmente não são associadas aos filmes que prezam pelo realismo, como a trilha sonora (presente em momentos importantes do filme) e a câmera elegante de Vittorio De Sica, com movimentos perfeitos e em nada parecidos com a câmera agitada, normalmente utilizada para conferir realismo às cenas.

– Não podemos julgar a atitude final do pai desesperado que não vê alternativa para sobreviver. Ele evita que o filho veja e pede que vá embora por pura vergonha, para em seguida tentar roubar uma bicicleta e “consertar” sua vida. A ironia é que ele é pego, mas por sorte (e piedade do proprietário da bicicleta), se salva de ser preso. A vida, ou o destino, o levou a tomar aquela atitude. Ele não era uma pessoa ruim, mas a situação o tornou um desesperado em busca de alguma solução. Um final arrebatador, emocionante e que nos faz pensar muito sobre a questão.

– Maior representante do neo-realismo italiano, “Ladrões de Bicicleta” destaca-se pela sensibilidade com que conta a história tocante do pai que tem sua bicicleta (e meio de trabalho) roubada e pela forma realista que retrata um período tão amargo da humanidade. E mesmo utilizando propositalmente uma abordagem mais fria e distante, quase que como um registro fiel da época, não deixa de ser emocionante o irônico final deste belo filme.

Texto publicado em 16 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira

9 ½ SEMANAS DE AMOR (1986)

(Nine 1/2 Weeks)

 

Videoteca do Beto #36

Dirigido por Adrian Lyne.

Elenco: Mickey Rourke, Kim Basinger, Margaret Whitton, David Margulies, Christine Baranski, Karen Young, William De Acutis, Dwight Weist e Roderick Cook.

Roteiro: Sarah Kernochan, Zalman King e Patricia Louisianna Knop, baseado em livro de Elizabeth McNeill.

Produção: Mark Damon, Antony Rufus Isaacs, Sidney Kimmel e Zalman King.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Tramas baseadas em cenas eróticas andam na perigosa linha entre o agradável e o ridículo, dependendo da forma como o assunto é abordado. Por isso, filmes com alto teor erótico e relações pouco convencionais correm o risco de se tornarem um enorme fracasso (não pelo sexo, já que o grande público adora o apelo sexual), ainda mais em uma sociedade hipócrita como a nossa. Felizmente, “9 ½ Semanas de Amor” consegue um resultado satisfatório, já que humaniza seus personagens, estudando as alterações provocadas em suas mentes através dos jogos sexuais em que se envolvem. Acerta, portanto, ao separar os experimentos sexuais do casal, vividos entre quatro paredes, da personalidade humana de cada um, algo infinitamente mais importante e valioso.

A bela e sexy Elizabeth (Kim Bassinger) trabalha em uma galeria de arte e vê sua vida mudar quando conhece o misterioso John (Mickey Rourke), com quem acaba rapidamente se envolvendo. O casal inicia então a pratica de jogos sexuais, que gradativamente vão se tornando mais perigosos e acabam complicando o relacionamento até um ponto difícil de ser controlado.

O diretor Adrian Lyne consegue criar uma atmosfera muito sensual – utilizando o caprichado jogo de luz e sombras do diretor de fotografia Peter Biziou – em cenas extremamente eróticas que sugerem muito mais do que mostram, como o strip-tease de Elizabeth. Em outros momentos, é praticamente possível sentir os toques do casal e a sensação provocada por eles, graças aos muitos closes utilizados por Lyne, como por exemplo, no gelo pingando ou nas frutas tocando os lábios da garota, além dos closes no rosto dos personagens, que colaboram para demonstrar a excitação de ambos. Além disso, o som contribui captando pequenos detalhes, como o barulho de uma lata sendo aberta. Este erotismo mais sugerido que explicito é essencial para o sucesso das cenas, pois deixa a imaginação do espectador fluir. Lyne escorrega, porém, na desnecessária cena da perseguição do casal na chuva, que serve apenas como desculpa do roteiro para a tórrida (e acrobática) cena de sexo que segue, inclusive pecando pela falta de realismo durante a briga com os baderneiros.

Escrito por Sarah Kernochan, Zalman King e Patricia Louisianna Knop (baseado em livro de Elizabeth McNeill), o roteiro acerta ao mostrar a vida social de ambos, que trabalham normalmente durante o dia e enfrentam problemas usuais, deixando claro para o espectador que os jogos eróticos do casal funcionam apenas como uma fuga consciente da realidade. Interessante notar também como ambos participam de forma consensual, simplesmente atendendo aos seus mais profundos desejos eróticos. John quer ter o controle, Elizabeth quer se entregar, e ambos vivem estas fantasias da forma que desejam. Finalmente, o roteiro acerta ao apresentar Elizabeth como uma mulher carente afetivamente devido à recente separação, o que poderia tranquilamente facilitar sua entrega a uma relação com um homem misterioso e enigmático como John. A montagem (crédito para Caroline Biggerstaff, Ed Hansen, Tom Rolf e Mark Winitsky) alterna corretamente entre os sensuais jogos, que lentamente vão evoluindo para algo mais perigoso, e o dia-a-dia do casal, que tem uma vida social normal. Esta fluidez funciona como um lembrete ao espectador de que eles não podem ser julgados como “doentes” simplesmente por não praticarem o sexo da forma que se convencionou chamar “normal”. John e Elizabeth se entregam aos desejos sem medo e ninguém pode julgar o que fazem entre quatro paredes, pois esta é uma questão intima e que deve ser respeitada. Infelizmente, o roteiro escorrega em seu final moralista, praticamente castigando o casal por ter se envolvido daquela forma.

Como dito, a Elizabeth de Kim Bassinger é uma mulher carente afetivamente. Separada, não consegue encontrar alguém que satisfaça seus desejos e lhe complete, como fica claro quando a amiga sugere que faça um anúncio no jornal para encontrar um companheiro. Bassinger inicia sua atuação de forma inexpressiva e muito fria. Gradualmente, consegue melhorar sua performance, se soltando ao longo da trama e até mesmo alcançando um bom desempenho dramático no triste terceiro ato, quando se mostra mais forte do que poderíamos imaginar. Ao testemunhar a relação do casal, algumas questões podem surgir na cabeça do espectador. Porque Lizzy aceita tudo que John pede? Seria a paixão, a curiosidade ou o mistério em torno dele capaz de fazer esta mulher (aparentemente bem resolvida profissionalmente, mas carente afetivamente) se entregar desta forma? Questões absolutamente pessoais. A verdade é que outra pergunta é cabível: Quem pode julgar a entrega dela aos desejos que sente? A verdade é que um dos grandes acertos de “9 ½ Semanas de Amor” é justamente mostrar Elizabeth como uma mulher, e não como um objeto do desejo masculino, ao mostrar seus questionamentos e a forma como esta relação afeta sua vida. Observe como no inicio da relação não é raro ver Elizabeth com o olhar perdido no horizonte enquanto trabalha na galeria, provavelmente sonhando com os encontros noturnos com John. Seus sentimentos, porém, se transformam em revolta, simbolizada na cena em que agride uma mulher e sai pela noite para vingar-se de forma reativa e pouco racional, mostrando que John foi longe demais. Ela não suportou (e nem deveria) o caminho que a relação seguiu e tomou a decisão que julgou correta, terminando o relacionamento. A empatia do publico com o casal é outro mérito de Bassinger, já que num filme como este, é essencial a química entre o casal principal. E os dois conseguem sucesso nesta tarefa, graças também ao ótimo Mickey Rourke. Quando John deixa Elizabeth presa na roda gigante e sai para tomar um café, está também sinalizando sua preferência por situações em que tenha o domínio psicológico. A relação que se estabelece entre os dois posteriormente, onde John comanda Elizabeth durante os jogos sexuais, mas em troca lhe entrega todo o seu amor e carinho até mesmo em pequenos gestos – como preparar o café da manhã (“você não lava pratos, eu te visto, te dou banho…”) – pode soar estranha para a maioria das pessoas, mas para eles era algo prazeroso e excitante. Rourke mantém um ar misterioso, muito coerente com o personagem. Seu John é um homem seguro, direto e pouco aberto quanto à sua vida particular. Só sabemos que teve outra mulher através de uma foto que Elizabeth encontra em seu guarda-roupa e ele só se abre pra falar da família quando ela já está de partida. Seu jeito sutil consegue magnetizar Elizabeth, que vai fundo na relação até não suportar mais, no limite da linha entre o jogo e a realidade. É justamente quando John cruza esta linha que Elizabeth se rebela e, mesmo sabendo que iria sofrer, mostra força para deixá-lo. Pra ela, ele cruzou o limite do aceitável ao começar a envolver outras pessoas num relacionamento que até então se resumia a jogos entre quatro paredes e exclusivamente entre o casal. Elizabeth manteve o respeito próprio e a dignidade, não aceitando aquilo, pois apesar de se entregar aos jogos, também queria uma relação estável. Além disso, o que parecia apenas um simples jogo erótico estava começando a soar como algo doentio da parte de John. É exatamente esta linha de limite determinada por Elizabeth que salva o filme de se transformar num simples thriller erótico, analisando os efeitos deste envolvimento na vida daquela mulher.

O longa conta também com uma empolgante trilha sonora que diverte em diversos momentos, como no animado clipe com cenas do casal embalado pela excelente “Slave to Love”. O único problema da trilha é tentar criar tensão em algumas cenas onde deveria ter um tom mais sexy, como no momento em que John venda os olhos de Elizabeth pela primeira vez. Esta tentativa de criar suspense, induzindo ao pensamento de que John poderia representar algum perigo, acaba tirando um pouco do alto teor erótico, o que é uma pena. Em contrapartida, observe como quando John passa gelo pelo corpo dela, o tema romântico funciona melhor, deixando a cena mais leve e agradável.

Recheado de cenas eróticas, mas nunca chegando a ser vulgar, “9 ½ Semanas de Amor” mostra uma faceta interessante ao não se resumir apenas aos simples jogos sensuais do casal, fazendo um interessante estudo do efeito psicológico que aquela relação causa, principalmente em Elizabeth. Moralista ou não, o final deixa a mensagem de que independente da relação que tenha, a pessoa sempre poderá encontrar força para sair dela se assim desejar. Por isso, mesmo apresentando os problemas citados, o filme consegue um resultado agradável.

Texto publicado em 14 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira

O FEITIÇO DE ÁQUILA (1985)

(Ladyhawke)

 

Videoteca do Beto #35

Dirigido por Richard Donner.

Elenco: Matthew Broderick, Rutger Hauer, Michelle Pfeiffer, Leo McKern, John Wood, Alfred Molina, Giancarlo Prete, Loris Loddi, Alessandro Serra, Nicolina Papetti, Charles Borromel e Ken Hutchinson.

Roteiro: Edward Khmara, Michael Thomas, Tom Makiewicz e David Webb Peoples, baseado em estória de Edward Khmara.

Produção: Richard Donner e Lauren Shuler Donner.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O tema universal do amor impossível é o fio condutor deste simpático “O Feitiço de Áquila”, aventura medieval interessante e consideravelmente criativa dirigida pelo subestimado Richard Donner. Sua premissa inteligente já seria suficiente para garantir doses respeitáveis de drama e romantismo, mas este pequeno conto medieval vai além, apresentando uma estória encantadora, com boas atuações e uma direção competente. Por isso, mesmo apresentando pequenos defeitos, consegue envolver o espectador de maneira bastante agradável.

No século XII, a pequena cidade européia de Áquila é o palco para uma incrível história de amor. Ao perceber que sua amada Isabeau (Michelle Pfeiffer) está apaixonada pelo líder de sua guarda – o cavaleiro Navarre (Rutger Hauer) – o Bispo de Áquila (John Wood), enlouquecido de ciúme, lança uma terrível maldição sobre o casal. Durante o dia ela se transforma em um falcão e durante a noite ele se transforma em um lobo, impedindo assim que o casal consiga viver o seu amor. Mas a fuga de Phillipe Gaston (Matthew Broderick) da prisão da cidade e a inesperada ajuda do Padre Imperius (Leo McKern) será a luz de esperança que o casal precisava para finalmente poder ser feliz.

A premissa de “O Feitiço de Áquila” é muito interessante e inegavelmente criativa. O casal Navarre e Isabeau funciona como uma metáfora para o sol e a lua, que assim como os dois pombinhos (ou seria falcão e lobo?), nunca se encontram. Desta forma, o sempre atraente tema do amor impossível toma formas ainda mais dramáticas, impossibilitando até mesmo o contato físico entre os dois amantes. Os animais em que ambos se transformam também foram cuidadosamente escolhidos, já que o falcão é um conhecido símbolo de beleza, enquanto o lobo é um animal normalmente solitário – além do fato de ambos serem monogâmicos, como o próprio Navarre diz em certo momento. Até mesmo o uivo triste do lobo se encaixa perfeitamente ao lamento eterno de Navarre, o que se revela outra interessante sacada do inteligente roteiro de Edward Khmara, Michael Thomas, Tom Makiewicz e David Webb Peoples, baseado em estória de Edward Khmara.

Com um bom roteiro nas mãos, Richard Donner consegue imprimir um ritmo ágil à narrativa, mantendo a atenção do espectador constantemente, sem por isso deixar de criar uma crescente expectativa para o esperado reencontro do casal. Dentro da proposta do filme faz um excelente trabalho, deixando a narrativa se desenvolver de forma leve e divertida. Infelizmente, os vilões (no caso, a guarda do Bispo) não conseguem representar uma série ameaça, soando patéticos sempre que tentam atacar Phillipe e Navarre, o que impede que tenhamos a sensação de que a missão do casal corra realmente algum perigo. Além disso, as cenas de luta são pouco verossímeis, dando a sensação de que Phillipe e Navarre são super-heróis. E quando finalmente acontece o grande momento do reencontro do casal, por mais que seja uma bela cena, não consegue atender à expectativa criada devido à falta de emoção dos atores. Felizmente, o foco principal da narrativa se mantém na impossibilidade do casal se encontrar e o sofrimento que isto representa, e neste aspecto, Donner consegue sucesso absoluto.

Outro fator que conquista a simpatia do espectador é a presença do engraçado Phillipe Gaston, mais conhecido como “o rato”. Matthew Broderick surpreende com uma excelente atuação desde o primeiro momento em que surge no meio da lama, fugindo da prisão de Áquila. Alegre, com ótimo timing cômico e bastante solto, ele é o elo entre o espectador e o casal, sendo responsável também pelas melhores piadas do filme, como a brincadeira que faz com o cavalo “Golias” ao dizer que precisa lhe contar a história de Davi. Rutger Hauer consegue transmitir a angústia de Navarre na maior parte do tempo, além de mostrar a frieza esperada de um homem amargurado como ele. Firme no papel do “mocinho que salvará a princesa”, consegue sucesso nas cenas de combate, mas falha no momento mais importante dramaticamente, que é o reencontro com Isabeau. Mesmo assim, consegue fazer com que o espectador torça pelo sucesso de sua jornada e se identifique com o drama do casal. Merece grande destaque a excelente atuação de Leo McKern como o arrependido Padre Imperius. Observe como ele transmite toda a amargura do personagem, na bela cena em que conta a triste história da origem do feitiço para Phillipe. Notável também é a imponente figura do Bispo, interpretado de forma cruel por John Wood, e que representa o poder da Igreja católica naquele período. Vale observar como Donner constantemente filma o bispo por baixo, de forma que ele sempre pareça grande na tela, simbolizando seu poder. Finalmente, chegamos à personagem que dá nome ao filme (no original, em inglês). Michelle Pfeiffer, com sua beleza estonteante, cai muito bem no papel da donzela que embala os sonhos de Navarre (e até mesmo de Phillipe, como ele mesmo confessa). Carismática, consegue transmitir emoção durante os angustiantes segundos em que vê o amado como humano, e seu triste semblante ao se transformar em falcão novamente é tocante. Suas aparições noturnas, normalmente envolta em sombras, acentuam ainda mais o brilho de seu olhar e de sua beleza. Por outro lado, ainda que demonstre mais emoção que Hauer, Pfeiffer também falha no momento alto do romance, quando os dois finalmente se reencontram. Felizmente, sua alegria espontânea no último plano do filme recupera parte de seu prestígio e esta pequena escorregada não impede que o espectador se satisfaça com o final feliz do casal.

“O Feitiço de Áquila” conta também com um bom trabalho técnico, especialmente pela citada agilidade da narrativa, que é mérito também da boa montagem de Stuart Baird. Os figurinos de Nanà Cecchi e a bela direção de arte de Ken Court e Giovanni Nataluci conferem realismo à cidade medieval, repleta de montanhas nevadas, masmorras, castelos e catedrais belíssimas, enquanto a direção de fotografia de Vittorio Storaro explora muito bem as lindas paisagens da região. Além disso, Storaro capta com precisão os lindos momentos em que o sol surge e desaparece no horizonte, que também tem importante função narrativa, destacando o marcante contraste entre a noite e o dia. A trilha sonora acelerada e moderna de Andrew Powell não é coerente com a época retratada, se redimindo na linda cena do vôo do falcão sobre o rio, com um tom melancólico e belo. Os efeitos especiais não conseguem alcançar o realismo necessário nas transformações do casal, apelando para truques de montagem, mas nem por isso comprometem o resultado final. De certa forma, exige algo a mais da imaginação do espectador, o que é sempre bom.

Mesmo com os problemas citados, “O Feitiço de Áquila” consegue manter seu encanto. O duelo de cavaleiros dentro da Igreja funciona enquanto os cavalos estão em cena. Quando a luta passa a ser corpo a corpo, a falta de realismo demonstrada em todo o filme volta a aparecer, com escapadas exageradas de Navarre. Curioso notar também como todos na igreja ficam simplesmente olhando, como se fosse um espetáculo e não uma briga que colocaria em risco a vida do bispo, que até então não apresentava motivos para ser odiado por aquelas pessoas. De todo modo, o duelo final tem emoção e se estabelece como um grande momento do longa. Nada comparado, porém, a mais bela cena do filme, que acontece no breve encontro entre Navarre e Isabeau durante a transição da noite para o dia. Enquanto o sol lentamente espalha seus raios pela superfície, podemos testemunhar em câmera lenta os breves segundos em que os amantes podem se ver ainda como humanos, antes que Isabeau se transforme em falcão novamente. A montagem joga imagens na tela que simbolizam sua transformação, enquanto a câmera lenta tem a importante função de prolongar este prazeroso momento para o espectador, por mais que em tempo real ele dure apenas alguns segundos. Um grande momento, capaz de emocionar ao mais frio dos espectadores.

A terrível maldição que assola o casal é repleta de simbolismo e é um prato cheio para provocar lágrimas nos casais apaixonados. “Sempre juntos, eternamente separados” é a frase dita por Phillipe Gaston, que representa muito bem o drama vivido pelo casal. O previsível final feliz neste caso é muito bem-vindo e agrada em cheio ao espectador, que testemunha durante quase todo o tempo o sofrimento quase palpável de Navarre e Isabeau, aliviado apenas pela simpatia do divertido Gaston. Mesmo com pequenos problemas, “O Feitiço de Áquila” é simpático o suficiente para atrair a atenção do espectador e a linda história de amor que o embala é inegavelmente envolvente.

Texto publicado em 12 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira

CABO DO MEDO (1991)

(Cape Fear)

 

Filmes Comentados #15

Dirigido por Martin Scorsese.

Elenco: Robert De Niro, Nick Nolte, Jessica Lange, Juliette Lewis, Joe Don Baker, Robert Mitchum, Gregory Peck, Martin Balsam, Illeana Douglas, Fred Dalton Thompson e Zully Montero.

Roteiro: Wesley Strick, baseado em livro de John D. MacDonald.

Produção: Barbara De Fina e Robert De Niro.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de esclarecer que os filmes comentados não são críticas. Tratam-se apenas de impressões que tive sobre o filme, que divulgo por falta de tempo para escrever uma crítica completa e estruturada de todos os filmes que assisto. Gostaria de pedir que só leia estes comentários se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

– Remake de “Círculo do Medo”, de 1962, este thriller interessante dirigido por Scorsese garante bons sustos, mas jamais alcança o nível de excelência de outras obras do renomado diretor.

– Scorsese mantém uma de suas características marcantes ao criar planos interessantes e criativos, como aquele em que Sam escova os dentes diante do espelho, além de utilizar muitos zooms para realçar as reações assustadas dos atores. O diretor também demonstra durante uma revista policial o enorme desejo de vingança de Max, através de diversos closes nas tatuagens espalhadas pelo seu corpo de versículos bíblicos como “A vingança será minha” e “O tempo nos vingará”.

– O roteiro de Wesley Strick, baseado em livro de John D. MacDonald, utiliza de forma inteligente o dialogo expositivo para explicar o motivo da perseguição de Max, quando Sam explica para um colega que sonegou a informação de que a vitima era promiscua no caso dele. Além disso, cria um clima crescente de suspense, culminando com a exagerada (e tensa!) seqüência final no barco.

– A ameaça provocada pela presença de Max causa um conflito na relação entre Sam e Leigh, expondo problemas do passado e criando dúvida sobre o presente do casal. Impressionante como um erro cometido há muito tempo pode prejudicar tanto a vida de uma pessoa. Interessante notar também que com este erro o roteiro evita caracterizar Sam como herói, fugindo do maniqueísmo. Como podemos perceber, não dá pra rotular Sam como uma pessoa boa ou má. E nem mesmo os outros personagens podem ser rotulados desta forma, já que até mesmo Max tem suas qualidades como ser humano.

– Max parece uma sombra na vida de Sam, um verdadeiro pesadelo. Ciente de seus direitos, ele jamais cruza a linha permitida pela lei, mas consegue infernizar a vida de Sam ao ponto de fazê-lo chegar (e ultrapassar) seu limite. Seja no restaurante, seja no cinema, seja na porta da sua própria casa, a imagem de Max dentro de seu conversível persegue Sam.

– A tensa cena em que Max se rebela contra os agressores contratados por Sam e sai à procura dele simboliza também uma inversão de valores na cabeça do espectador (e dentro própria da narrativa). A partir de agora, Max é a vítima.

– Thelma Schoonmaker, responsável pela montagem e costumeira colaboradora de Scorsese, dita um ritmo intenso ao longa, o que é essencial em um filme de suspense.

– Robert de Niro tem outra atuação de alto nível como o determinado e psicopata Max Cady, criando através da fala e dos gestos um vilão aterrorizante. Extremamente inteligente (estudou na prisão livros de direito e filosofia, além de ler a Bíblia), Max é temível até por saber utilizar muito bem a lei a seu favor, o que o transforma num personagem assustador, mas que ao mesmo tempo consegue ser fascinante. Suas ações são calculadas para atingir Sam de uma forma que ele não possa se defender, como quando ataca sua colega de trabalho (numa cena de forte impacto visual) sabendo que ela jamais iria testemunhar contra ele para não expor sua relação com Sam. Cady quer provar que Sam também pode se transformar num criminoso, e alcança seu objetivo.

– Nick Nolte como Sam e Jessica Lange como sua esposa Leigh atuam com competência, mas são ofuscados pela excelente atuação de Robert De Niro. Por outro lado, Juliette Lewis consegue uma atuação fantástica como a rebelde adolescente Danielle, mostrando inocência e agressividade em quantidades colossais. Ela teme e admira Max, agindo como se fosse uma criança fascinada com o perigo. Danielle sabe que corre riscos, mas seu desejo de conhecer melhor aquele homem que ameaça sua família é maior do que seu medo.

– Na cena mais tensa do filme, o encontro entre Max e Danielle no teatro da escola apresenta também um show de interpretação da dupla Lewis e De Niro. Danielle exala sensualidade e inocência diante de um sombrio e ameaçador Max, que por sua vez, utiliza muito bem o sentimento de rebeldia da garota a seu favor.

– Interessante como a lei é ineficaz na defesa de pessoas em constante ameaça. Desde que se conheça a lei (como era o caso de Max) é possível atormentar a vida de alguém e, dependendo da reação do perseguido, ainda sair como vitima do caso.

– O final soa irreal com as muitas tentativas de matar Max, que sempre consegue escapar. Este exagero praticamente o transforma em um super-herói, o que não é coerente com o restante da narrativa. Por outro lado, toda a seqüência é incrivelmente eletrizante e assustadora, cumprindo bem o propósito do filme, que é gerar medo no espectador.

– Vale destacar também na seqüência final o tom obscuro da direção de fotografia de Freddie Francis. O visual sombrio, com o barco desgovernado vagando pelo cabo do medo, cria uma série de imagens marcantes.

– De uma forma geral, “Cabo do Medo” cumpre seu propósito, mas não dá um passo sequer além, o que não é comum nos filmes dirigidos por Martin Scorsese.

Texto publicado em 08 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira