HOOLIGANS (2005)

(Green Street Hooligans)

3 Estrelas 

Filmes em Geral #97

Filmes Comentados #6 (Comentários transformados em crítica em 21 de Dezembro de 2012)

Dirigido por Lexi Alexander.

Elenco: Elijah Wood, Claire Forlani, Charlie Hunnam, David Alexander, Leo Gregory, Marc Warren, Joel Beckett, Geoff Bell, Kieran Bew, David Carr, Brendan Charleson, Jacob Gaffney, Henry Goodman, Christopher Hehir, Terence Jay e Ross McCall.

Roteiro: Dougie Brimson, Lexi Alexander e Josh Shelov.

Produção: Deborah Del Prete, Gigi Pritzker e Donald Zuckerman.

Hooligans[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um tema muito interessante é discutido de forma duvidosa neste “Hooligans”, filme em que o diretor Lexi Alexander perde uma boa oportunidade de explorar melhor o universo das torcidas organizadas. Apesar de tentar ilustrar a visão peculiar destes integrantes de torcidas, Alexander parece evitar tratar o tema com a seriedade que ele merece, buscando justificativas para cada ato e, desta forma, esvaziando bastante a discussão que o longa poderia suscitar. É uma pena, ainda mais se considerarmos a escassez de filmes a respeito.

Escrito pelo próprio Alexander ao lado de Dougie Brimson e Josh Shelov, “Hooligans” tem inicio quando Matt Buckner (Elijah Wood) decide visitar a irmã Shannon (Claire Forlani) em Londres após ser expulso injustamente da Universidade de Harvard. Assim que chega à capital inglesa, ele faz amizade com o cunhado Pete (Charlie Hunnam), que lhe apresenta aos integrantes de uma temida torcida local. Em pouco tempo, Matt passa a conhecer melhor e se envolver neste universo marcado pela violência.

Apesar da premissa interessante, o roteiro de “Hooligans” escorrega em tantos aspectos que fica até difícil citar todos eles. Indo desde diálogos fraquíssimos como aquele em que Pete e Matt debatem sobre as diferenças entre seus países, passando pela ridícula brincadeira com o Sr. Miyagi (como o jovem Matt poderia inspirar um filme de 1984 é algo que nunca compreenderei) e chegando ao diálogo expositivo entre Matt e Shannon que só serve para nos mostrar os conflitos da família e a razão da garota morar em Londres, o roteiro é um verdadeiro festival de problemas. Observe, por exemplo, como o diário de Matt é citado somente após uma hora de projeção e praticamente na cena seguinte já tem uma função importante na narrativa, revelando uma falta de cuidado preocupante dos roteiristas. Pra finalizar, é difícil entender como Shannon, mesmo casada e já com um filho, nunca contou para o marido que o irmão estudava jornalismo em Harvard. Por mais que estivessem distantes, ter um irmão estudando em Harvard é algo que qualquer pessoa se orgulharia de contar, portanto, fica evidente que esta “revelação” surge apenas para justificar o conflito antecipado entre as torcidas rivais num bar.

Bares (ou pubs) que surgem logo no início, quando Alexander tenta criar empatia entre o grupo e o espectador ao mostrá-los reunidos, tomando cerveja e cantando as músicas da torcida – só que a lembrança da primeira cena de “Hooligans” nos recorda que eles não são tão amáveis assim. Mas se acerta ao aproximar o grupo da plateia, Alexander erra justamente nas cenas que deveriam ser a força central da narrativa. Com sua câmera trêmula, cortes rápidos e a trilha sonora acelerada de Christopher Franke, o diretor deixa claro desde a primeira briga que não tem grande controle da misé-en-scene. Já o segundo confronto, apesar de também ser agitado, é melhor que o primeiro, com cenas mais realistas e menos picotadas. Entretanto, ao utilizar menos quadros por segundo para acelerar a imagem, Alexander torna a briga tão confusa que chega a provocar náuseas na plateia. Ao menos a briga em Manchester é bastante realista quanto às agressões e os ferimentos, apesar de ser implausível (como um pequeno grupo venceria 40 homens daquela forma?). Por outro lado, a sequência da invasão do bar no esperado confronto entre os torcedores do West Ham e do Millwall é bastante tensa e bem conduzida pelo diretor.

Reunidos tomando cerveja e cantando as músicas da torcidaBriga em ManchesterInvasão do barMas Alexander não erra sozinho. A montagem de Paul Trejo também falha bastante ao cortar muitas cenas de forma abrupta, não deixando o espectador curtir o momento, como ocorre, por exemplo, quando os garotos freiam um trem e, repentinamente, já estamos acompanhando o grupo descendo as escadas correndo. Por outro lado, a montagem se destaca no sorteio dos grupos da FA Cup, onde podemos acompanhar todos em seus respectivos postos de trabalho ansiosos e a explosão de alegria com o resultado, que dá a exata noção da importância do confronto. Vale destacar ainda a fotografia azulada de Alexander Buono, que ilustra a frieza daqueles personagens, assim como as ruas sujas evocam uma Londres coerente com o submundo dos hooligans, o que é mérito do design de produção de Rosanna Weswood – repare também a sigla da torcida GSE (Green Street Elite) pichada na parede do banheiro do bar, num capricho que confirma o bom trabalho dela.

Se não conseguem compensar as falhas do roteiro, as atuações também não comprometem em nada a narrativa. Inicialmente inexpressivo como o personagem deve ser, Elijah Wood se transforma ao longo de “Hooligans” e consegue transmitir o envolvimento de Matt com aquele mundo de maneira convincente. Assim, se no principio ele sequer tem forças para lutar contra o colega influente que o incrimina em Harvard, com o passar do tempo Matt passa a reagir diante das provocações de Bovver e até mesmo demonstra o ressentimento diante do pai ausente, numa conversa direta que termina com Carl Buckner (Henry Goodman) desistindo de falar algo para o filho, se limitando a abraçá-lo por saber que de nada adiantaria tentar mudar seu pensamento agora. Vale citar ainda dois bons momentos de Wood. O primeiro quando Shannon diz que ele está fazendo o correto ao decidir voltar para os EUA, mas seu olhar fixo para a janela demonstra que seu pensamento está em outro lugar; e o segundo no ótimo diálogo com o Major (Marc Warren) dentro do bar, que apresenta um pouco do valor moral e ético que tanto falta ao restante da narrativa.

Chorando praticamente o tempo inteiro, a Shannon de Claire Forlani tem raros momentos de destaque, como quando se revolta com o cunhado após o ataque ao seu marido ou quando cerra a sobrancelha sutilmente ao ouvir Matt explicar sua expulsão de Harvard, como se estivesse duvidando da versão do irmão. Por sua vez, Geoff Bell demonstra a agressividade de Tommy Hatcher desde sua excelente introdução num restaurante, na qual a mulher que acompanha o rapaz agredido comete o grave erro de incitá-lo a responder às provocações dele. Mas nem mesmo isto impediu que Bovver traísse seu grupo e, o que é pior, por motivos nada convincentes, já que seu ciúme diante da amizade entre Pete e Matt e sua desconfiança do americano não justificam esta atitude extrema. Leo Gregory, aliás, tem um bom desempenho como Bovver, com seus poucos sorrisos, olhar desconfiado e postura defensiva típica de quem carrega uma fúria interior, que tornam o personagem crível apesar do fraco roteiro.

No entanto, quem rouba a cena mesmo é Charlie Hunnam na pele do despojado Pete Dunham. Falastrão e destemido, ele intimida ao mesmo tempo em que chama a atenção desde sua primeira aparição na casa de seu irmão, quando chega com as mãos no bolso e já abrindo a geladeira, evidenciando seu estilo de vida despreocupado. Violento ao extremo, ele também encontra espaço para a gentileza ao ceder o lugar para uma mulher no metrô, demonstrando um curioso código de ética que remete aos mafiosos, reforçado pelo diálogo em que afirma gostar de brigar, mas não de sair atirando na rua e matando meninas de oito anos como fazem as gangues norte-americanas. Mas nem mesmo frases como “não se chuta alguém que está caído, independente do que ele tenha feito” servem para amenizar as péssimas ações de sua torcida, é bom deixar claro.

Sorteio dos grupos da FA CupPensamento está em outro lugarArrependido Bovver desabaUm dos grandes momentos da atuação da dupla Hunnam e Gregory acontece dentro do hospital, na realista discussão em que Pete demonstra sua ira, enquanto um arrependido Bovver desaba, seguida pela reação descontrolada de Shannon, que agride o cunhado enquanto este sequer esboça reação, por saber que ela tinha todos os motivos do mundo para ter raiva dele. Motivos que faltam para justificar a ida de Shannon ao local do confronto final. Apesar de amar o irmão, dificilmente alguém arriscaria a vida de seu filho daquela forma entrando numa briga de torcidas organizadas.

Escorregando principalmente na questão ética ao justificar atos de vandalismo através de questões pessoais, “Hooligans” parece tentar maquiar a triste realidade: essas torcidas não precisam de motivos para fazer o que fazem. Se terminasse na ida dos irmãos para o Aeroporto após a morte de Pete, o filme até poderia provocar uma interessante reflexão sobre este universo violento, mas infelizmente a desnecessária vingança de Matt contra Van Holden (Terence Jay) e o plano final com ele cantando pelas ruas parecem exaltar a experiência que ele viveu no hooliganismo, o que é muito ruim. Seria mais interessante e daria uma densidade maior ao que vimos se ele refletisse sobre tudo que perdeu somente por que um grupo de pessoas quer brigar com outro grupo. E o que é pior, por causa de um time de futebol.

PS: Comentários divulgados em 05 de Outubro de 2009 e transformados em crítica em 21 de Dezembro de 2012.

Hooligans foto 2Texto atualizado em 21 de Dezembro de 2012 por Roberto Siqueira

Luxemburgo – vencedor do concurso para o melhor emprego do mundo!

O texto abaixo foi escrito por um amigo meu, santista e que entende de futebol. O crédito do texto é dele, por isso não estranhe o nome diferente. 

Não seria de se estranhar se víssemos esta noticia saindo na mídia.

Quando veio mais uma vez para o Santos Futebol Clube, Luxemburgo já sabia que teria mais uns meses de descanso na cidade de Santos. Ali, sempre amparado pelo amigo Marcelo Teixeira, não sofre qualquer pressão. A maior torcida organizada, que adora pegar no pé de jogadores e treinadores, poderia exercer seu direito de cobrar Luxemburgo, mas pega leve, pois sabe que terá sua ajudinha para fazer o carnaval do ano que vem. E assim Luxemburgo vai engordando seu orçamento, sem muito stress… Bem diferente da grande maioria dos outros treinadores e profissionais de todas as áreas.

Quando chegou elogiou o clube, os jogadores, funcionários, etc… Agora fala mal do planejamento do Santos no inicio da temporada, do gramado, do tempo em Santos e também do elenco. Enfim, quando está bem é mérito dele, quando está mal ele arruma um culpado, excelente profissional.

No final do ano tem eleição no Santos, e mais uma vez a mesma balela. Teixeira primeiro fala que não quer e no dia seguinte já promete um 2010 campeão, cheio de grandes jogadores e promessas. E a novela vai se repetir, contratações ridículas (ou de desconhecidos, ou do Iratí ou de medalhões aposentados como Emerson) ou, ao invés disto, veremos todos os clubes contratando os melhores jogadores e o Santos naquela inércia de sempre esperando alguém bater na porta e se oferecer para jogar.

Teixeira teve sorte em 2002, depois foi fácil administrar. Desde então não conseguiu formar uma diretoria competente. Quantos anos ele precisa para fazer isto?

Esperar o que do Santos nesta situação?

Luxa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Texto publicado em 04 de Outubro de 2009 por Eduardo Brito

Olimpíadas 2016: Rio de Janeiro é a cidade escolhida

Brazil Rio 2016 Olympic Games

 

 

 

 

 

 

 

 

Madri é uma bela cidade. Tive a oportunidade e o imenso prazer de conhecer a capital espanhola em minha lua de mel. Organizada, moderna, limpa, a cidade é um espetáculo. Por outro lado, o Rio de Janeiro (que fica aqui pertinho) eu ainda não tive o prazer de conhecer. Mas sei que é com certeza, dentre as cidades brasileiras, a mais atraente para turismo. Talvez seja uma das mais belas cidades do mundo. Mas sabemos que têm problemas. Assim como a maioria de nossas cidades. O coração brasileiro queria as Olimpíadas aqui. A razão não queria. E os dois sentimentos têm razões plausíveis.

Receber as Olimpíadas é a grande oportunidade de qualquer cidade para finalmente resolver uma série de problemas, além de possibilitar um grande avanço na economia. Melhor ainda dois anos depois de receber a final da Copa do Mundo. Como aconteceu em Barcelona, o Rio pode se tornar uma cidade muito melhor, mais segura, e que traga ainda mais turistas para o país. Além disso, a própria população poderá desfrutar de uma cidade muito melhor, caso o trabalho seja feito corretamente (e principalmente, honestamente). Por outro lado, receber a Copa em 2014 e as Olimpíadas em 2016 será também uma enorme oportunidade para os “espertinhos” de plantão levarem vantagem com superfaturamentos e obras que ficarão abandonadas depois, como aconteceu no Pan-Americano. Dependendo do caminho escolhido, o meu coração ficará feliz. Ou então, minha razão dirá: “Eu já sabia”.

Temos sete anos para saber qual dos dois estava certo neste histórico dia 02 de Outubro de 2009. Torço para que seja o primeiro.

Parabéns à cidade do Rio de Janeiro. Parabéns ao Brasil! E que as pessoas, principalmente a população, abram os olhos e cobrem honestidade neste importante momento do nosso país. Temos nas mãos a grande chance de impulsionar de vez esta terra amada, e espero que não seja desperdiçada pela ganância de poucos.

Brasil: É agora ou nunca!

Um abraço.

Festa Rio 2016 

Texto publicado em 02 de Outubro de 2009 por Roberto Siqueira

Categoria Músicas

Em meu primeiro post no Cinema & Debate, chamado “A Sétima Arte” (que também é uma página, basta clicar à direita para acessar), comentei sobre o meu gosto musical eclético. Hoje crio no blog uma categoria exclusiva para músicas. E meu primeiro trabalho nesta categoria será comentar os álbuns da minha vida. Ficará evidente que meu gosto não é tão eclético assim, pois o bom e velho rock n’ roll predomina a lista, mas vale reforçar que eu gosto sim de outros estilos e vou comentar sobre eles também. Acontece que o rock realmente marcou boa parte da minha vida e é normal que predomine uma lista deste tipo. Segue abaixo a lista dos 20 álbuns, em ordem de importância:

1 – Blood Sugar Sex Magik – Red Hot Chili Peppers

2 – Appetite for Destruction – Guns n’ Roses

3 – And Justice for All – Metallica

4 – P.u.l.s.e. – Pink Floyd

5 – The Best of Black Sabbath – Black Sabbath

6 – Rappa Mundi – O Rappa

7 – Millennium: Raul Seixas – Raul Seixas

8 – Young Lust: The Aerosmith Anthology – Aerosmith

9 – Live After Death – Iron Maiden

10 – Nevermind – Nirvana

11 – Cabeça Dinossauro – Titãs

12 – Thriller – Michael Jackson

13 – The Immaculate Collection – Madonna

14 – Live at Santa Barbara – Bob Marley (DVD)

15 – 30 1# Hits – Elvis Presley

16 – Sultans of Swing: The Very Best of Dire Straits – Dire Straits

17 – The Doors – The Doors

18 – The Best of 1980-1990 – U2

19 – Californication – Red Hot Chili Peppers

20 – Kill’em All – Metallica

Um abraço.

Red Hot Chili Peppers

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Texto publicado em 01 de Outubro de 2009 por Roberto Siqueira

Arthur Reis Siqueira

Hoje fui com a Dri fazer o ultra-som que confirmaria o sexo do nosso bebê. Após o paciente (e excelente!) doutor Paulo nos mostrar que está tudo bem com ele, a expectativa era grande para saber qual é o sexo do nosso presente de Deus. E eis que alguns minutinhos depois do suspense, meu príncipe mostrou sem deixar dúvidas que é um lindo menino.

E muito pouco tempo depois, ele (que já ganhou um monte de presentes antes!) ganhou o primeiro presentinho de menino, do tio Thiago e da tia Mandinha. À noite, ganhou mais presentes do vovô, da vovó Jô e da tia Karina e todos eles, junto com a vovó Neuza, se deliciaram com a linda foto dele.

Arthur, meu príncipe, que você venha ao mundo cheio de saúde, alegria e paz. Que Deus te abençoe, ilumine e prepare todos os passos de sua vida abençoada. Estamos muito felizes e te amamos muito!

Um milhão de beijos do papai e da mamãe.

Nós te amamos!

bebê

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Texto publicado em 30 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira

DOZE HOMENS E UMA SENTENÇA (1957)

(12 Angry Men) 

5 Estrelas 

Obra-Prima 

Videoteca do Beto #13

Dirigido por Sidney Lumet.

Elenco: Henry Fonda, Lee J. Cobb, E. G. Marshall, Jack Klugman, Ed Begley, Martin Balsam, John Fiedler, Ed Binns, Jack Warden, Joseph Sweeney, George Voskovec, Robert Webber. 

Roteiro: Reginald Rose. 

Produção: Henry Fonda e Reginald Rose. 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

“É sempre difícil deixar o preconceito fora de uma questão dessas. Não importa pra que lado vá, o preconceito sempre obscurece a verdade”. A poderosa frase dita por um personagem chave em determinado momento da trama resume bem a mensagem principal deste filme absolutamente corajoso, envolvente e surpreendentemente original. Filmado quase que em sua totalidade dentro de uma única sala (somente 3 minutos acontecem fora dela), “Doze Homens e uma Sentença” é a prova de que um filme pode sim ser do mais alto nível sem a necessidade de grandes investimentos, apenas utilizando a criatividade e o talento.

Doze jurados têm a responsabilidade de decidir se um jovem garoto, acusado de matar o próprio pai, é culpado ou inocente. Com base na enorme quantidade de provas apresentadas pela promotoria, onze deles têm absoluta certeza de que o menino é culpado. Mas um dos jurados não pensa desta forma. Como a lei exige unanimidade na decisão, todos tentarão argumentar para convencer o último jurado de que eles têm razão.

A obra-prima de Lumet nos leva inicialmente ao tribunal onde o julgamento do garoto está acontecendo. Minutos depois, somos transportados, junto com os atores, para dentro da sala onde a importante decisão será tomada. O close no garoto antes de nos jogar dentro dela, auxiliado pela lenta e triste trilha sonora, nos lembra o que está em jogo naquele momento. Um dos grandes méritos do filme, aliás, é que o roteiro de Reginald Rose nunca nos diz se o garoto é de fato inocente ou culpado. Mesmo assim, a perfeita argumentação de apenas um jurado é suficiente para nos fazer concordar com ele logo no início do filme. Desta forma, quando a segunda votação proposta pelo personagem de Henry Fonda tem inicio, nos pegamos torcendo para alguém ter escrito “não culpado” no papel, pois os argumentos apresentados por ele foram convincentes e nos provam que não temos a certeza necessária para acusar o menino.

A direção de Lumet é absolutamente competente na direção de atores, evitando que o filme se torne maçante (o que seria compreensível em um filme que se passa o tempo todo no mesmo local). Observe como os atores sempre fazem algo para ter um pouco de movimentação em cena, como tirar os casacos, mexer nos óculos, levantar, olhar pela janela, ligar o ventilador ou mudar de posição na mesa. Este absoluto controle da movimentação em cena (misè-en-scene) pode ser observado em detalhes na cena em que um jurado preconceituoso (Ed Begley) começa a fazer seu discurso inflamado contra o garoto. Os outros jurados começam a se levantar e ficar de costas pra ele, demonstrando que não concordam com o que ele fala. A câmera se distancia lentamente, diminuindo o personagem na cena. Simultaneamente, ele vai diminuindo o tom de voz, até ficar desolado e sentar numa cadeira. O elenco atua em conjunto e a cena visualmente é perfeita na tradução do sentimento de todos. Além disso, Lumet explora ao máximo as possibilidades que a situação oferece, utilizando a câmera para nos transmitir sentimentos. Em uma das votações, Lumet vai aproximando lentamente a câmera do imigrante enquanto eles contam nove a três para “culpado”. Quando a câmera está bem próxima, ele muda de opinião e vota inocente. A câmera traduz visualmente o momento em que ele se convence e muda, engrandecendo-o na tela, como se a coragem para mudar estivesse crescendo dentro dele até o ponto de externar esta decisão. Outro detalhe perceptível é que a câmera inicia o longa filmando a maioria do tempo por cima, em plano geral. Com o passar do tempo ela vai descendo e filma os atores pela metade do corpo e quando se aproxima o final do filme, Lumet abusa da utilização de close no rosto deles. Desta forma, o diretor traduz visualmente o aumento da tensão e da sensação de angústia dos jurados. A chuva também é um artifício muito bem utilizado para aumentar esta sensação de incomodo e desconforto, como se eles estivessem se sentindo enclausurados. Finalmente, Lumet capta muito bem as excelentes atuações de todo o elenco. Repare, por exemplo, a cena em que os jurados discutem sobre a velocidade dos passos de uma das testemunhas do caso. Um jurado diz que “um velho daquele jamais saberia precisar esta informação” e a câmera da um close nele exatamente no momento em que percebe ter escancarado seu preconceito, o que se agrava pela presença de um senhor de idade na sala.

É preciso dizer que, para o sucesso absoluto do filme, a excepcional direção de Lumet não seria suficiente. Seria preciso também um elenco extremamente capaz. E felizmente, este é o caso. Isto porque mesmo quando não estão diretamente ligados à cena, os atores estão sempre aparecendo, mesmo que seja em segundo plano, o que os obriga a “atuar” praticamente durante todo o filme. Logo na primeira votação dois detalhes já mostram sutilmente como é o ser humano, graças à fenomenal interpretação coletiva do elenco. Ao perguntar quem considera o garoto culpado, alguns erguem as mãos na hora. Outros aguardam alguns segundos, observam e só depois erguem, claramente seguindo a opinião da maioria sem a menor convicção. Já quando começa a contagem, ao ver que Fonda não ergueu a mão, o rapaz que conta faz uma pausa, mostrando-se impressionado com o voto dele. Todos olham pra ele como forma de intimidá-lo pela atitude tomada. Henry Fonda encabeça o elenco com uma atuação do melhor nível. Inicialmente pensativo, ele vai lentamente mostrando que os seus argumentos são mais do que suficientes para não condenar o garoto. Quando o jurado nº 1 (Martin Balsam) pergunta: “Você não acha que ele é culpado?”, ele responde: “Eu não sei”. Esta é à base do seu argumento, e a grande lição do filme, ou seja, se você não tem certeza absoluta, não pode condenar uma pessoa à morte. Um dos seus grandes momentos acontece logo após a demonstração de que a testemunha não conseguiria correr determinada distância em 15 segundos. Um dos jurados (interpretado magnificamente por Lee J. Cobb) diz que eles estão loucos, sendo convencidos por contos de fadas e deixando o garoto escapar pelas mãos. Ao ser provocado por Fonda, Cobb explode em cena, rangendo os dentes, cerrando os olhos e furiosamente partindo pra cima dele. Fonda, cinicamente, prova que estava certo antes ao afirmar que nem sempre queremos fazer o que dizemos. Lee J. Cobb reafirma seu talento quando altera seu voto, mostrando com muita emoção o motivo de sua posição firme até ali. É até difícil apontar destaques no elenco, já que todos têm atuações de alto nível. O jurado nº 7 (Jack Warden), por exemplo, se mostra logo no inicio como alguém fanático por esporte e que pouco se importa com o que está em jogo. Seu desinteresse fica ainda mais evidente quando muda seu voto sem nenhum motivo plausível, o que gera a revolta do jurado imigrante, interpretado por George Voskovec. John Fiedler, como o jurado nº 2, mostra através da voz sua timidez e insegurança. Martin Balsam conduz a votação com firmeza e se mostra bem justo e convicto de suas opiniões. O jurado nº 4 (E. G. Marshall) também mostra a mesma postura e quando Fonda questiona o que ele fez nos últimos dias, suas respostas são rápidas, como quem quer mostrar que tem certeza do que está falando. Joseph Sweeney, como o jurado nº 9, fala com muita propriedade sobre os motivos que levariam uma testemunha a mentir, numa alusão clara a ele mesmo, que também é um senhor de idade. Observe como ele faz uma pequena pausa quando alguém tosse e depois prossegue no discurso. Estes pequenos detalhes mostram a qualidade da interpretação de todo elenco.

O roteiro de Reginald Rose também tem grande mérito no sucesso do filme. Com diálogos ágeis e sempre interessantes, consegue prender a atenção do espectador em todos os momentos. Aborda também diversos temas polêmicos e escancara preconceitos, o que é bastante válido. Na primeira votação, por exemplo, os jurados começam a explicar porque votaram em “culpado”. E já no primeiro jurado podemos ver um erro que é freqüentemente cometido pelas pessoas, quando ele diz que acha que é culpado porque ninguém provou o contrário. Ora, como diz o personagem de Fonda, o ônus da prova é da promotoria, ou seja, o réu pode ficar calado. Quem tem que provar é quem acusa. Só que infelizmente o ser humano tem a tendência de julgar imediatamente como culpado alguém que é apenas acusado de algo. Outro trecho interessante do roteiro é a cena em que um jurado diz que o menino não sabe nem falar o inglês correto (“He don’t speak good english”. O imigrante corrige: “He doesn’t”). Este trecho irônico mostra que o preconceito dele é idiota, já que o imigrante fala inglês melhor do que ele próprio.

Como se não bastassem todas estas qualidades, “Doze Homens e uma Sentença” propõe ainda uma reflexão interessante no espectador, ao abordar o já citado preconceito de diversas formas diferentes. Temos o preconceito contra a origem da pessoa (um dos homens diz que o cortiço é uma escola de bandidos), contra os imigrantes (o esportista diz: “eles vêm para o nosso país e já querem dar opinião”), o preconceito contra os mais velhos e até mesmo contra os jovens, que é o grande motor da fúria de um dos jurados que havia brigado com o filho e deixou este problema pessoal afetar sua decisão no caso. Em resumo, o filme nos mostra claramente que jamais devemos nos deixar levar pelas aparências. Por tudo isso, podemos dizer que a parte técnica discreta e limitada pelo ambiente único não faz nenhuma falta. O filme é completo e não precisa de mais nada.

Sidney Lumet conseguiu realizar em “Doze Homens e uma Sentença” uma verdadeira aula de cinema, utilizando de forma excepcional o seu talentoso elenco, abusando de sua qualidade como diretor e criando, no fim das contas, uma verdadeira obra-prima. Admiradores do cinema devem saborear este filme singular, que é a prova de que mesmo sem grandes recursos técnicos o cinema pode nos oferecer grandes obras.

PS: Para ver outra crítica interessante do filme no Blog Cinepapo, de meu amigo Augusto, clique aqui.

Texto publicado em 29 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira

Quais filmes você gostaria de rever no cinema em 3D?

Ao olhar as notícias na internet hoje à noite, vi a reportagem abaixo no site do Yahoo e pensei que seria um tema interessante para colocar no blog. O trecho abaixo foi retirado do site do Yahoo, reportagem de 27 de Setembro de 2009:

“Nesta semana o que chamou a atenção dos internautas – e fez com que procurassem muito a respeito – foram os boatos sobre o relançamento do filme “Titanic” em 3D. Pois é, fontes do estúdio Lightstorm Entertainment sugerem que em menos de um ano o grande clássico do cinema possa ser assistido em novo formato. O estúdio já realizou testes em dois dos filmes mais famosos de James Cameron: “Titanic” e “O Exterminador do Futuro 2 – O Julgamento Final”. Mesmo que vários grandes estúdios enveredem por esse caminho, não podemos nos animar muito: o gasto de conversão de 2D para 3D é justificável somente para os mais conhecidos clássicos do cinema.”

Com base nesta reportagem, deixo aqui a pergunta do dia: Quais filmes você gostaria de rever no cinema em 3D?

Um abraço e bom debate.

Titanic 

Texto publicado em 28 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira

CANTANDO NA CHUVA (1952)

(Singin’in the Rain) 

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #12

Dirigido por Gene Kelly e Stanley Donen.

Elenco: Gene Kelly, Donald O’Connor, Debbie Reynolds, Jean Hagen, Millard Mitchell, Douglas Fowley, Rita Moreno, Madge Blake e Cyd Charisse. 

Roteiro: Betty Comden e Adolph Green. 

Produção: Arthur Freed.

 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Qualquer pessoa que nunca assistiu por inteiro “Cantando na Chuva” com certeza já ouviu sua canção mais famosa ou assistiu pelo menos um trecho da belíssima cena que dá nome ao filme, com Gene Kelly literalmente cantando na chuva. Só que o importante e belo musical dirigido pelo próprio Gene Kelly, em parceria com Stanley Donen, além de apresentar excelentes números musicais, ainda mostra com eficiência e bom humor como foi um importante momento da história do cinema: a chegada do som.

Don Lockwood (Gene Kelly) e Lina Lamont (Jean Hagen) são as maiores estrelas de Hollywood, gerando inclusive boatos de que os dois teriam um caso. Seus filmes são sucessos absolutos até que uma novidade chega para abalar as estruturas do cinema mundial. Com a chegada do som, todos na indústria do cinema precisam se adaptar à nova forma de fazer filmes, e nem mesmo os grandes astros terão vida fácil neste difícil momento de transição.

Alegre e extremamente divertido, a comédia romântica conta com um roteiro bem escrito por Betty Comden e Adolph Green, que explora muito bem as possibilidades que a situação oferece. Observe por exemplo o momento em que Lockwood conta que vai fazer um filme sobre a revolução francesa e o seu amigo Cosmo Brown (Donald O’Connor) advinha toda a estória (“Se você viu um filme, viu todos”). Esta crítica sutil à exploração de clichês mostra que o cinema precisava se renovar (algo que caberia hoje às telenovelas, mas o público é muito menos exigente neste caso e engole a repetição de estórias). O roteiro aborda também outro tema interessante, a resistência das pessoas às novidades tecnológicas. O video de exibição do cinema falado causa diversas reações. Alguns acham que o som vai estragar o cinema, outros que o som nunca vai vingar. É comum a rejeição às inovações técnicas no cinema, foi assim também com o filme colorido. Mostra ainda o conflito entre cinema e teatro, resumido no primeiro diálogo entre Lockwood e Kathy Selden (Debbie Reynolds).

A direção da dupla Gene Kelly e Stanley Donen é segura, conseguindo maior destaque nos esplêndidos números musicais (músicas creditadas para Nacio Herb Brown e Lennie Hayton). A dupla é competente também na condução da narrativa, escorregando apenas no número musical sobre a chegada à Broadway que parece deslocado, fora do foco principal da estória. Por outro lado, a excelente montagem de Adrienne Fazan compensa este deslize com outros momentos belíssimos, como a sutil transição entre Kathy e Lina cantando a mesma música (nítida a diferença de qualidade de voz das duas). Podemos ver Kathy ensaiando, Lina ensaiando, Lina cantando com a voz de Kathy ao fundo e finalmente, Lina com a voz de Kathy já na tela do cinema, na exibição teste.

As atuações são, de uma forma geral, extremamente caricatas, como podemos observar nas exageradas expressões do público e da apresentadora na cena inicial na porta do cinema. Em compensação, Gene Kelly demonstra todo o seu talento nos números musicais, além de mostrar qualidade também em outros momentos, como na cena em que coloca a mão em Kathy no carro dela e fala que os astros do cinema são solitários, dando uma olhada de canto de olho pra ver a reação dela. Quando Lina chega à festa, ele olha para o outro lado, mostrando claramente que não a suporta, evidenciando que aquele relacionamento é mesmo somente de fachada, apesar de Lina demorar pra entender isto. Lina Lamont, aliás, é muito bem representada pela excelente Jean Hagen. Ingênua, porém ambiciosa, ela se torna uma espécie de vilã, mas sempre com muita graça. Sua voz irritante e o sorriso escancarado caem bem na personagem. O talento de Hagen pode ser percebido na cena em que colocam um microfone nela. Lina ri ao levar uma bronca, achando que o homem está fazendo graça, sem perceber que estava atrapalhando todo o trabalho. Na cena em que fala do contrato com o produtor ela exala cinismo e mostra que não é tão ingênua quanto parece. Donald O’Connor, como Cosmo Brown, é o mais divertido do elenco. Com falas rápidas e cheio de energia, ele garante o toque de bom humor, como no musical “Make them Laugh”, que hoje pode parecer um pouco ultrapassado, mas na época funcionava bem. Debbie Reynolds completa o elenco como a graciosa e decidida Kathy. Depois de dizer que atores de cinema só faziam caretas, ela revela acidentalmente que na realidade é fã dos filmes e do trabalho de Lockwood logo após ser contratada para trabalhar com ele, em uma cena charmosa. Um dos mais belos momentos do filme acontece quando Lockwood vai se declarar pra Kathy e prepara passo a passo a montagem do cenário. O plano é belíssimo, com o pôr-do-sol artificial ao fundo, ele olhando para ela na escada e o vento batendo nos dois. Este detalhe dos bastidores de uma produção, aliás, é outro ponto positivo do longa. É muito interessante observar como um filme é feito, com o diretor sentado na cadeira, a câmera rodando, a equipe de som, o estúdio, a iluminação e todos os pequenos detalhes de uma produção cinematográfica. Interessante também a pitada histórica perceptível na cena dentro do cinema. Observe como os filmes, ainda sem o som, adotavam frases escritas para mostrar a fala dos personagens e a trilha sonora era tocada ao vivo por uma orquestra embaixo da tela.

Tecnicamente, o filme conta com a direção de fotografia bastante colorida de Harold Rosson, assim como os também coloridos figurinos de Walter Plunkett (principalmente nos números musicais), que contribuem para o clima alegre do filme. O som, apesar de oscilar bastante na cena inicial na porta do cinema, funciona corretamente no restante e colabora para o sucesso das canções. A caprichada direção de arte de Randall Duell e Cedric Gibbons pode ser observada, por exemplo, nos detalhados bastidores de uma produção, assim como na cena do curso de dicção, onde podemos ver os quadros com o movimento da boca em cada letra. A trilha sonora se destaca obviamente pelas canções, mas também funciona quando é apenas instrumental, como na cena em que Lockwood tem uma crise existencial, achando ser um péssimo ator. Quando eles encontram uma solução (transformar o filme em musical) a trilha sonora triunfal ilustra a empolgação deles.

Com a chegada do som, muitos atores e atrizes tiveram que enfrentar um grande problema. Teriam que revelar suas vozes e interpretar de uma nova maneira, o que causou um grande impacto na indústria do cinema. O filme retrata isso quando Lina Lamont, por exemplo, é impedida de falar em público, pois os produtores sabem que sua voz é péssima. Como o cinema era mudo, ela era reconhecida como uma grande atriz. Durante as filmagens, o produtor chega ao set dizendo que o filme falado é a grande sensação do momento. Lockwood fica em choque, mas o produtor tenta animá-lo dizendo que eles só precisavam falar: “O público vai saber que Don Lockwood e Lina Lamont falam”. Lina responde com sua voz irritante e todos se olham espantados, percebendo o problema que tinham nas mãos. A desastrosa apresentação inicial do filme falado, com o trecho improvisado por Lockwood (“Eu te amo, eu te amo, eu te amo!”) e muitos outros problemas técnicos mostra que algo precisava ser feito. Até mesmo grandes astros deveriam se adaptar, como podemos ver depois quando Lockwood faz um curso de dicção.

Obviamente, a narrativa criada em torno da chegada do som serve como base para a exibição de todo o talento de Gene Kelly e seu elenco nos sensacionais números musicais. Desde o primeiro número dos violinos, quando Lockwood narra sua trajetória com muito bom humor, passando pelo espetacular show de sapateado de Kelly e O’Connor na maravilhosa música “Moses” e pela bela “Good Morning”, cantada pelo trio Kathy, Lockwood e Cosmo, podemos apreciar o enorme talento do elenco para criar coreografias e interpretar as canções. Justamente após um destes musicais, Cosmo tem uma idéia brilhante, que pode salvar a carreira de Lockwood, e este é o ponto de partida para a grande cena do filme. Feliz por ter salvado a carreira e encontrado o seu amor, ele se despede da garota e sai literalmente cantando e dançando debaixo de uma grande chuva. O detalhe aqui é que a chuva, normalmente associada a momentos tristes, se torna a parceira dele em um momento de extrema alegria (“I’m happy again” diz em uma parte da música). É a mágica transformação de algo triste em algo alegre. É como um grupo de garotos que, frustrados por não poder jogar bola debaixo do mau tempo, decidem jogar na chuva mesmo, o que geralmente se torna algo muito divertido (vivi momentos inesquecíveis assim na infância). Gene Kelly dá um show nesta cena, explorando todo o cenário, sorrindo e mostrando com propriedade toda a alegria do personagem, além de interpretar e cantar muito bem a música.

Apesar do final previsível e do citado deslize no longo número musical da Broadway (“Broadway Rhythm Ballet”), “Cantando na Chuva” é bastante agradável e deixa o espectador com uma gostosa sensação de satisfação com o que viu. Além disso, a clássica cena que dá origem ao título já seria motivo suficiente para a apreciação do filme. Goste ou não de musicais, o espectador tem o privilégio de assistir um grande espetáculo e ainda entender melhor um momento importante da história do cinema. Pode ainda fazer uma última reflexão. Até mesmo nos dias mais chuvosos podemos encontrar a felicidade.

Texto publicado em 27 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira

Versailles

Há dois anos, vivi um momento especial em minha lua de mel exatamente no dia 25 de Setembro. Tive a oportunidade de conhecer um dos lugares mais belos de toda minha vida: Versailles.

Ainda vou escrever mais sobre minha lua de mel, mas por enquanto, deixo apenas uma foto aqui e o registro desta data inesquecível em minha vida, e na da Dri também.

Em breve vou divulgar uma série de críticas que já estão engatilhadas da Videoteca do Beto.

Por enquanto é só pessoal.

Um abraço.

Versailles

Texto publicado em 25 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira

A PONTE DO RIO KWAI (1957)

(The Bridge of the River Kwai) 

5 Estrelas 

Filmes em Geral #7

Vencedores do Oscar #1957

Videoteca do Beto #151 (Filme comprado após ter a crítica divulgada no site e transferido para a Videoteca em 08 de Janeiro de 2013)

Dirigido por David Lean.

Elenco: William Holden, Alec Guinness, Jack Hawkins, Sessue Hayakawa, James Donald, Geoffrey Horne, André Morell, Peter Williams, John Boxer, Harold Goodwin e Percy Herbert. 

Roteiro: Carl Foreman e Michael Wilson, baseado em livro de Pierre Boulle. 

Produção: Sam Spiegel. 

A Ponte do Rio Kwai foto 2

 

 

 

 

 

 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um trilho de trem no meio de uma linda paisagem é o ponto inicial do belo filme dirigido por David Lean sobre a cegueira mental que a guerra e as ordens seguidas sem questionamentos podem causar no ser humano. Loucura (“Madness!”) é a palavra final, diante de outro belo cenário com o mesmo trilho e a destruída ponte que dá origem ao título, ilustrando bem a linha de pensamento do filme. Segundo a visão de Lean, o ser humano parece ser incapaz de conviver em sociedade sem deixar que a ganância e a obsessão pelo poder tomem conta e sejam extremamente prejudiciais para todos. E eu concordo com ele.

Durante a Segunda Guerra Mundial, um grupo de soldados britânicos se torna prisioneiro em um campo de concentração japonês. Após uma guerra de egos entre o Coronel Saito (Sessue Hayakawa) e o Coronel Nicholson (Alec Guinness), o segundo é o encarregado de comandar a construção de uma ponte em prazo recorde. Por outro lado, o fugitivo Major Shears (William Holden) lidera a chegada ao local de um grupo comandado pelo Major Warden (Jack Hawkins) que foi escolhido pelo exército britânico para explodir a ponte.

Dirigido com elegância por David Lean, “A Ponte do Rio Kwai” mostra como o ser humano pode, de diversas formas, deixar a própria existência humana em segundo plano em prol de seguir ordens e regras ditadas por alguém que, invariavelmente, pouco se importa com o que se perde para atingir este determinado objetivo. Afinal de contas, qual a diferença entre o rígido e inflexível Coronel Saito e o tranqüilo Coronel Nicholson? Embora tenham estilos completamente diferentes, ambos seguem cegamente as ordens que lhes são dadas, sem questionar ética ou moralmente o que está sendo feito. Desta forma, quando o esperto Major Shears diz que a coragem de Nicholson é do “tipo de coragem que mata”, ele não deixa de ter razão, pois Nicholson seria mesmo capaz de morrer em benefício do cumprimento dos objetivos. Por outro lado, Shears é o típico covarde (ou malandro) que consegue de alguma forma sobreviver naquele inferno.

A primeira aparição do Coronel Saito é intimidadora, muito por causa da excelente atuação de Sessue Hayakawa, mas fruto também da competente direção de David Lean, que busca filmar o coronel sempre de baixo pra cima (ele inclusive sobe em um banco), de forma que ele sempre olhe para os britânicos com um ar superior. Além disso, Lean acerta em cheio na escolha dos belíssimos planos que exploram ao máximo a beleza natural da região, como na caminhada do Major Shears e seu grupo até a ponte, passando por lindas cachoeiras. O diretor também é sutil em diversos momentos, como no interessante plano que inicia a seqüência nas cachoeiras, mostrando os morcegos que serão justamente os integrantes do plano final da mesma cena, quando o tiro for disparado e as granadas explodirem. Plasticamente maravilhoso, o trabalho de Lean se torna ainda melhor porque trabalha em benefício do filme, evitando que as maravilhosas imagens que vemos na tela soem sem conteúdo.

A primeira metade do filme oferece a oportunidade para Sessue Hayakawa demonstrar todo seu talento como o rígido coronel Saito. Sempre com o olhar firme, a voz alta e um sotaque perfeito quando fala inglês, Saito encontra no corajoso Nicholson a possibilidade de demonstrar o seu poder, mas acaba sendo derrotado. Observe como ele tenta agradar o coronel britânico no jantar, cinicamente oferecendo carne inglesa, whiskey, charuto e até mesmo dizendo que Nicholson obviamente não precisaria trabalhar. Sua reação no momento em que cede ao desejo de Nicholson é extremamente realista, chorando e engolindo sua raiva, sozinho em seus aposentos. Esta cena oferece também ao ótimo Alec Guinness a oportunidade de demonstrar o seu talento, já evidenciado em cenas anteriores, como quando está no “forno” e seu amigo vem lhe trazer água e comida. Ele fala com a voz rouca e baixa, como faria alguém que estivesse tanto tempo sem beber nada e, portanto, com a garganta seca. Além disso, ele abre o olho com enorme dificuldade, já que a luz que entra incomoda quem estava trancado no escuro. Quando vai até a sala de Saito, ele caminha com enorme dificuldade e ao entrar, mal consegue se sustentar, balançando as pernas, pois está muito fraco. Já na citada cena do jantar, no momento em que Saito demonstra fraqueza, Nicholson cresce e assume o comando do diálogo, mandando o líder japonês sentar e ouvir sua estratégia para construir a ponte (Hayakawa bate os dedos na perna enquanto escuta, demonstrando sua ansiedade). O evidente choque de estilos entre os dois domina a primeira metade do filme e mostra como a pressão e a rigidez não são garantias de bons resultados. Nicholson é um líder nato, utilizando o que cada pessoa tem de melhor, sem a necessidade de gritar ou ameaçar seus comandados para alcançar seus objetivos. Por outro lado, quando assume o comando da construção da ponte, ele mostra a importância de respeitar a hierarquia, utilizando aqueles que têm talento para liderar em suas devidas funções. Adquirir o respeito dos seus comandados é fundamental para o sucesso. Observe a clara mudança de comportamento na construção da ponte. No início, mal organizados e mal liderados, podemos testemunhar um verdadeiro caos, também porque os britânicos queriam ser liderados por Nicholson e sabotam os japoneses. Com os britânicos no comando, a ordem volta e o resultado é alcançado com sucesso. Fechando o elenco principal, temos William Holden como o esperto Major Shears, que logo em sua primeira cena mostra que ele faz qualquer coisa para sobreviver ali, sem se importar com ética ou regras, tentando subornar o guarda para conseguir ficar sem trabalhar. Seu melhor momento acontece quando ele diz que Warden deixaria a própria mãe para trás para seguir suas regras e objetivos, rangendo os dentes, olhando firme e alterando o tom de voz. “Você e aquele Nicholson querem morrer como heróis, com coragem e seguindo regras, quando na verdade o que importa é viver como um ser humano”. Esta é a mensagem do filme, resumida neste trecho do bom roteiro de Carl Foreman e Michael Wilson (baseado em livro de Pierre Boulle). A estupidez da guerra e de seguir ordens sem questionar ou pensar no que está fazendo pode trazer grandes prejuízos para a humanidade.

O trabalho técnico em um filme que explora muito bem as belezas naturais do local também merece destaque. A fotografia pálida e seca de Jack Hildyard, que prioriza cores quentes como o marrom e o amarelo, demonstra a tristeza daqueles soldados dominados, que são tratados como escravos no inicio do filme. Observe a mudança na fotografia quando Shears está descansando no hospital. O azul do mar, a grama verde e a predominância da cor branca (até mesmo nos figurinos, por ser um hospital), refletem também a paz de espírito dele naquele lugar. A primeira aparição dos soldados ingleses, assoviando a famosa e bela canção principal do filme (mérito de Malcolm Arnold), é uma cena extremamente marcante. Mal vestidos, com roupas velhas e sujas (em certo momento Lean dá um close em um sapato rasgado de um soldado), eles demonstram sua união ao chegar assoviando a canção e se recusando seguir ordens dos japoneses, aceitando somente as ordens de Nicholson. A trilha sonora alta e empolgante ilustra bem a alegria deles quando Nicholson é solto.

Apesar de conter um pouco de ufanismo, com a mensagem clara de que os ingleses são bons e organizados e os japoneses não são, a construção da ponte mostra que com organização e liderança é mais fácil alcançar os objetivos do grupo. Mas a discussão proposta por “A Ponte do Rio Kwai” não é esta. Não se trata de uma disputa entre os melhores métodos de liderança, mesmo que o filme trabalhe bem este lado, e sim de uma reflexão sobre até que ponto devemos seguir regras sem pensar no que estamos fazendo. No exército, assim como em muitas organizações hoje em dia, a pessoa está em segundo plano e os valores morais e éticos também, como fica evidente no caso de Shears, que não queria voltar para o local e foi obrigado a participar, mesmo que sua importância na “missão” tenha sido drasticamente reduzida ao longo do caminho. A tensa cena em que os explosivos são colocados na ponte cria também um conflito de sentimentos no espectador. Na medida em que o momento da explosão se aproxima, não sabemos se queremos ou não que a ponte venha abaixo. Momentos antes do grande clímax perfeitamente construído por David Lean, testemunhamos o orgulhoso Nicholson, ao lado de Saito, observar o belíssimo trabalho que foi feito (e a ponte é mesmo bela!) e refletir sobre sua vida. Mesmo sem ter vivido com a família, ele entende que foi bom tudo o que conquistou na carreira militar. Some a este pensamento o desespero de Saito ao pensar no que aconteceria se ele não conseguisse terminar a ponte no prazo e a frase desumana (“Não espere o trem, faça agora!”) dita por Warden quando os soldados começam a passar pela ponte (assoviando a música e provocando um leve sorriso de Shears), sem se importar com as vidas que seriam tiradas se a ponte explodisse naquele momento. A conclusão é a mesma: para este tipo de gente as pessoas não importam, importa o objetivo.

Talvez o único presente com a cabeça realmente no lugar, o médico diz que não concorda com o que foi feito e prefere ver de longe, chegando à conclusão de que ele não entendia mesmo nada sobre o exército. E de onde estava, pôde observar de camarote o coronel Nicholson perceber algo errado com a ponte (Lean aproxima a câmera lentamente do rosto dele) momentos antes do trem chegar ao local. Ao seguir o fio, acompanhado de Saito, ele gera um verdadeiro conflito generalizado que causa a morte de Saito, Shears e a sua própria morte. A ironia é que Shears encontrou seu fim justamente no único momento em que decidiu ser corajoso. E a visão de Shears morrendo à beira do rio fez Nicholson refletir sobre os seus atos também, segundos antes de cair morto e acionar a explosão da ponte. O resultado final de toda esta obediência cega às ordens que foram dadas é trágico. Todos mortos e a ponte destruída.

Discutindo com inteligência até que ponto é válido seguir ordens sem reflexão, além de tratar de questões interessantes como os diferentes estilos de liderança e o sentido da guerra, “A Ponte do Rio Kwai” nos brinda com imagens belíssimas e consegue alcançar o seu objetivo com louvor, demonstrando claramente que infelizmente, quando nós seres humanos deixamos a ganância e a ambição tomar o controle de nossas vidas, as relações humanas e a própria humanidade ficam em segundo plano.

A Ponte do Rio Kwai 

 

 

 

 

 

 

Texto publicado em 23 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira