PSICOSE (1960)

(Psycho)

5 Estrelas 

Obra-Prima

 

Filmes em Geral #4

Videoteca do Beto #23 (Adquirido quando a Videoteca estava no filme #22; crítica já havia sido publicada na categoria “Filmes em Geral”).

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Anthony Perkins, Janet Leigh, Martin Balsam, John Gavin, Vera Miles, Simon Oakland, Vaughn Taylor e John McIntire. 

Roteiro: Joseph Stefano, baseado em livro de Robert Bloch. 

Produção: Alfred Hitchcock. 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quando o extremamente talentoso diretor Alfred Hitchcock resolveu filmar o livro Psicose de Roberto Bloch, ele sabia exatamente o que queria: chocar a platéia. E o resultado final não poderia ter sido melhor. Ao terminar de assistir pela primeira vez este clássico do mestre do suspense, fiquei imaginando como teria sido a reação das pessoas na época de seu lançamento, há quase 50 anos atrás. Porque se em pleno ano de 2009 eu tive nada menos do que três choques de arrebentar com a espinha de qualquer um, imagina o que sentiram as pessoas que presenciaram esta maravilha do cinema na tela grande?

É praticamente impossível fazer uma crítica de Psicose sem escrever sobre trechos essenciais da narrativa. Por esta razão, peço educadamente que só leiam esta crítica se já tiverem assistido ao filme. Caso ainda não tenha visto o filme, sugiro parar a leitura por aqui e voltar somente depois de vê-lo. Ver o filme sem saber o que acontece é essencial para viver uma experiência inesquecível.

Marion Crane (Janet Leigh) é apaixonada por Sam Loomis (John Gavin), um homem que, apesar de muito trabalhador, não tem boas condições financeiras. Apesar de hesitar, ela não perde a chance de roubar 40 mil dólares de um velho rico quando esta se oferece, e foge de carro para a cidade de seu amor. Devido a uma forte chuva no caminho, ela decide parar em um Hotel para descansar. É onde conhece Norman Bates, um jovem simpático que parece ter sérios problemas com sua velha mãe. 

A narrativa de Psicose inicia focando o relacionamento amoroso de Marion e Sam, um casal apaixonado e que aparentemente enfrenta problemas para poder viver seu romance. Ele é separado e sofre com os problemas financeiros causados pela pensão. Ela sonha em casar-se, mas sabe que não poderá viver somente de amor, e precisa ajudar Sam a conquistar sua liberdade financeira. É quando a vida oferece uma chance para Marion. Mesmo sendo uma atitude perigosa e totalmente fora dos padrões morais e éticos, ela resolve arriscar e rouba 40 mil dólares que lhe foram confiados para um deposito. No caminho da fuga, ela despista um policial desconfiado e termina sua trajetória em um Hotel escondido na beira da estrada. E termina mesmo! Aqui está um dos primeiros choques que Psicose causa no espectador. Até a primeira metade da narrativa, somos levados a acreditar que a história que será contada é sobre Marion. Só que antes de uma hora de filme ela é brutalmente assassinada, naquela que se tornaria uma das cenas mais famosas do cinema, o assassinato na banheira com a trilha sonora arrepiante de Bernard Herrmann. Auxiliado pelo ótimo roteiro de Joseph Stefano, Hitchcock quebra o eixo da narrativa com brilhantismo, chocando o espectador. Uma confusão se estabelece em nossas mentes neste momento. Qual seria o rumo da história agora? A estrutura convencional dos filmes é quebrada, alterando todo o foco da narrativa. A brilhante fotografia de John L. Russel ajuda a criar um truque essencial para o suspense da trama. Observe como na famosa cena o jogo de luz e sombras esconde os traços principais do rosto da senhora Bates e a revelação de seu rosto só acontece no último ato. Desta forma, temos a dica, mas não a solução para o caso. A excelente montagem de George Tomasini também é essencial na construção do suspense. A rápida troca de imagens aumenta ainda mais o impacto da cena na banheira. Seu talento também pode ser observado na cena final, que sincroniza perfeitamente as diversas ações paralelas que culminam na monumental cena em que a identidade da assassina é revelada. Outros dois momentos são essenciais para que o espectador não descubra a solução da trama antes da hora. O primeiro deles é quando o detetive Arbogast vê a senhora Bates na janela da casa e em seguida é abordado por Norman Bates na frente do Hotel. O segundo acontece quando o xerife Chambers (John McIntire) conta para Sam e Lila (Vera Miles) que a Sra. Bates morreu há dez anos. No plano seguinte, podemos ver a porta do quarto da Sra. Bates e ouvir ela e Norman dialogando. Em seguida, vemos Norman carregando sua mãe para o porão. Apesar de jamais mostrar o rosto dela, Hicthcock praticamente anula em nossas mentes a possibilidade de Norman e sua mãe serem a mesma pessoa. O diretor cria ainda seqüências visualmente interessantes, como o corte seco do plano do ralo para o plano do olho de Marion morta. Através de um travelling, ele sai do olho da moça, passa pelo dinheiro na cômoda e termina a cena com um plano distante da casa. Este movimento não é feito à toa. O diretor quer mostrar todo o cenário do crime, para nos ambientar e relembrar tudo que está envolvido naquele assassinato.

O elenco de Psicose colabora muito para o sucesso do longa. O grande destaque fica para Anthony Perkins, que cria um Norman Bates simpático inicialmente e enigmático no final do filme. Seu olhar para baixo, as mãos cruzadas e seu gaguejar ao falar, além do sorriso contido quando conversa com Marion, demonstram a aparente timidez do rapaz e nos causa simpatia pelo personagem. É perfeitamente aceitável que um rapaz isolado do mundo fique extremamente ansioso ao se deparar com uma jovem bonita como Marion. Sentimos pena dele ao ser maltratado pela mãe e entendemos ser um rapaz muito bom quando ele oferece comida para a moça. Sua transformação ao longo da trama é gradual, mas ele nos dá dicas do que poderá acontecer. Sua reação nervosa diante da insinuação de Marion sobre uma possível internação de sua mãe e a forma com que ele responde as perguntas do detetive Arbogast (Martin Balsam) são indícios da personalidade do rapaz. É claro que são dicas praticamente imperceptíveis em um primeiro momento, já que Hitchcock jamais entregaria o segredo da trama assim de bandeja. Quando a revelação final é feita, o espanto é tão grande que o espectador se sente traído (no bom sentido é claro, já que o roteiro propositalmente nos leva a isso), já que todos os bons sentimentos que pensava ter em relação a Norman são atirados de volta contra ele. Janet Leigh também está muito bem. Observe como ela demonstra toda ambigüidade de Marion na cena do roubo, quando hesita em pegar o dinheiro por diversas vezes enquanto arruma a mala. Ela olha para o dinheiro, respira fundo, coloca roupas na mala, olha novamente, pensa mais um pouco, até que finalmente decide colocar o dinheiro na bolsa. O Sam Loomis de John Gavin é um homem sério, honesto e muito determinado. Sua reação quando o detetive pergunta se Marion está com ele e lhe conta que ela roubou o dinheiro ilustra muito bem a seriedade do personagem. Martin Balsam demonstra firmeza e determinação na busca do que aconteceu no papel do detetive Arbogast. Também se mostra alguém desconfiado nos diálogos que tem com Sam e Lila, e posteriormente com Norman, como é de se esperar na profissão dele. Podemos destacar ainda Vera Miles como Lila Crane, a determinada irmã de Marion, e Simon Oakland, como o didático (mas essencial na época) doutor Fred Richmond.

Como se o primeiro grande choque ocorrido na morte de Marion não fosse suficiente, Psicose conta ainda com mais dois momentos espetaculares que podem servir tranquilamente como inspiração para qualquer filme do gênero (e com certeza serviram ao longo dos anos). O segundo assassinato, ocorrido dentro da casa dos Bates, é um exemplo de como dirigir com perfeição uma cena de suspense. Observe como Hitchcock nos ambienta na casa primeiramente e depois nos leva lentamente através dos passos do detetive pelas escadas, aumentando a tensão nos espectadores. O silencio é a chave para o clima quase palpável de suspense. Quando ele se aproxima do quarto, a câmera muda de posição, filmando por cima e simultaneamente a escada, o detetive e a porta entreaberta do quarto da Sra. Bates. Testemunhamos em poucos segundos a porta se abrir, o reflexo da luz do quarto invadir o corredor e a assassina sair como um raio de dentro do quarto para esfaquear a vítima, ao som da trilha sonora aterrorizante. O choque é inevitável e inesquecível.

A trama caminha com consistência para o terceiro ato, onde o último choque encerrará com perfeição a obra-prima do mestre Hitchcock. As investigações levam a dupla Sam e Lila para o Hotel de Norman, onde supostamente Marion e Arbogast teriam sumido. O espectador sabe que a razão dos assassinatos não era o dinheiro, mas eles não sabem. Ao se apresentarem como um casal e hospedar-se no Hotel, a trama cria a situação ideal para o final mais que perfeito. Somos levados a imaginar que os dois vão ser as últimas vitimas da velha maluca. Até que Lila invade a casa sozinha para tentar falar com a mãe de Norman e, ameaçada pela chegada do rapaz, se esconde na escada que leva aos porões. Ela decide entrar e é exatamente ali que será revelada a grande surpresa da trama e o verdadeiro significado do nome do filme (e do livro) em uma cena absolutamente genial. O conjunto de fatos que levam à cena antológica nos causa um choque atordoante no momento em que descobrimos a verdadeira identidade da assassina. A didática explicação sobre a dupla personalidade de Norman que precede o genial encerramento do filme com ele vestido na camisa de força, era mais do que necessária na época para que as pessoas entendessem a personalidade perturbada do personagem. Talvez hoje não fosse necessária, mas retirar esta cena não tornaria de forma alguma o filme melhor.

Psicose é o cinema em seu estado puro. É a manipulação das emoções da platéia feita com competência e genialidade. É a prova real de que para ser assustador, um filme não precisa necessariamente de acordes altíssimos ou monstros aparecendo repentinamente na tela. É claro que a trilha tem participação importante no longa, mas o que nos causa medo (e não susto) é a situação em que os personagens estão envolvidos. E isto é resultado do trabalho de uma equipe competente, de atores capacitados e de um diretor genial. Não é preciso mais nada.

Texto publicado em 29 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira

Cena dirigida pelo destino

Quinta-feira passada eu e a Dri estávamos voltando do trabalho quando ela parou o carro no farol vermelho. Neste momento, ela me disse uma frase terrivelmente cruel, que não vou dizer aqui porque ela falou em tom de brincadeira e não vem ao caso o que era. O fato é que, no momento em que ela dizia as palavras, o reflexo da lanterna vermelha acessa no carro da frente refletiu em seu rosto que, acentuado pela forte chuva que caia, passou a brilhar avermelhado na minha frente. Eu disse para ela que, se fosse um filme, poderíamos dizer que o Diretor de Fotografia havia feito um grande trabalho, utilizando o rosto vermelho para simbolizar o conteúdo diabólico da frase que ela falava ;). Depois de muitas risadas, eu disse pra ela que ia escrever um post sobre o momento cômico. E aqui está. Foi uma cena dirigida pelo destino. Merecia o Oscar.

Um abraço.

Texto publicado em 28 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira

Emburrecimento geral

É notório que o nível de conhecimento geral no país não é dos melhores. Obviamente, esta falta de cultura generalizada atende os interesses de alguns setores que se beneficiam dela, como a política (basta ver as pessoas que são eleitas como deputados ou senadores) e a mídia (principalmente a televisão). Basta dar uma rápida olhada na grade de programação da televisão aberta brasileira para ver que eles se esforçam ao máximo para manter este nível sempre baixo, com programas idiotas e que insultam a inteligência de pessoas com alguma cultura. A começar pelos reality shows, passando por novelas cada vez mais óbvias e fáceis de entender, telejornais e até programas de humor. Miguel Falabella disse recentemente que os programas de humor no Brasil são direcionados a pessoas com QI de uma criança de nove anos de idade. Não me surpreende. Como ele mesmo disse, provando que tem coragem, o brasileiro de uma forma geral é um cidadão que não se interessa por cultura. A título de comparação, um jovem francês lê anualmente em média dez livros por ano. Um jovem brasileiro lê quatro. Isto é um pouco de culpa do próprio povo? Sim. Mas é também resultado desta enxurrada de programas que não exigem esforço do espectador, que por sua vez, está cada dia mais preguiçoso.

Digo tudo isto para chegar ao tema que pretendo debater com vocês: filmes. A trajetória de um filme na televisão aberta brasileira é simples: estréia no horário nobre, reprisa em um sábado ou domingo e termina nas madrugadas. Se o filme exigir pouco esforço do espectador, é reprisado exaustivamente durante anos a fio. Se for um filme mais requintado, mais “intelectual” ou que exija um pouco mais de inteligência do público, é relegado ao segundo plano ou até mesmo arquivado. Isto é mais uma prova de que a televisão, de uma forma geral, não tem interesse em aumentar o nível intelectual das pessoas. Ou então, como a grande massa está preguiçosa e não tem interesse em aprender ou tentar entender nada, provavelmente trocaria de canal quando um filme como “2001 – Uma Odisséia no Espaço” estivesse passando. O resultado disto é: se você quiser aprender sobre cinema, assistir as grandes obras do passado e se tornar alguém mais culto cinematograficamente, (o que eu mesmo decidi fazer recentemente) terá que alugar ou comprar os grandes filmes do passado, pois muito dificilmente vai ter a oportunidade de assisti-lo na televisão aberta. Eu, particularmente, não gosto de ver filmes na televisão, porque o comercial quebra o clima do filme, além do formato ser 4×3 e muitas vezes o filme ser editado para atender a grade de programação. Graças a Deus tenho a opção de alugar filmes e assisti-los. Mas e quem não tem esta opção? O que fazer? A resposta é: assistir a programação imbecil da televisão aberta e aumentar a estatística de pessoas com o nível intelectual que interessa aos grandes manipuladores das marionetes.

Gostaria de saber qual é a sua opinião a respeito do tema.

Um abraço e vamos debater.

Texto publicado em 27 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira

Qual seu super-herói favorito?

Depois de assistir “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, fiquei curioso em saber qual seria o super-herói favorito das pessoas aqui no blog. Quando criança, gostava muito do homem-aranha, principalmente por causa dos quadrinhos e do desenho animado. Porém, após assistir os dois filmes do Nolan, mudei de opinião. Hoje acho que o Batman é um herói mais intenso, amargo, com uma história muito mais densa e interessante.

E pra vocês: Quem é o seu super-herói favorito?

Um abraço e vamos debater.

Texto publicado em 26 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira

BATMAN – O CAVALEIRO DAS TREVAS (2008)

(The Dark Knight) 

5 Estrelas 

Filmes em Geral #3

Dirigido por Christopher Nolan.

Elenco: Christian Bale, Heath Ledger, Aaron Eckhart, Maggie Gyllenhall, Michael Caine, Morgan Freeman, Gary Oldman, Eric Roberts, Cillian Murphy, Anthony Michael Hall, Monique Curnen, Nestor Carbonell, Joshua Harto, Melinda McCraw e Nathan Gamble. 

Roteiro: Jonathan Nolan e Christopher Nolan, baseado em estória de Christopher Nolan e David S. Goyer e nos personagens criados por Bob Kane. 

Produção: Christopher Nolan, Charles Roven e Emma Thomas. 

Cavaleiro das Trevas

Filmes baseados em heróis dos quadrinhos costumam oferecer boas produções no cinema, sejam eles mais famosos (Homem-Aranha) ou menos conhecidos por parte do grande público (V de Vingança). Melhor ainda é quando estes filmes oferecem mais do que diversão, contendo narrativas inteligentes e personagens complexos. Pois este excelente Batman – O Cavaleiro das Trevas consegue ser muito mais que apenas um filme de super-herói, alcançando um peso dramático e uma carga de tensão do mais alto nível, tornando-se um filme de ação diferenciado e acima da média. Ao contrário do visual esplendido que Tim Burton empregava em seus filmes do homem-morcego, recheado de personagens rasos e propositalmente distantes da realidade, Christopher Nolan investe no peso dramático e na ambigüidade, oferecendo personagens fascinantes e uma narrativa maravilhosa.

Desde que Batman (Christian Bale) iniciou sua luta contra o crime organizado na cidade, os criminosos não conseguem mais ter vida fácil. Com o apoio do incorruptível promotor de justiça Harvey Dent (Aaron Eckhart) e do inteligente tenente James Gordon (Gary Oldman), o misterioso homem mascarado conseguiu sucesso em sua empreitada e despertou a ira dos criminosos. Ciente do poder de inibição que o herói provoca nos criminosos, Gordon utiliza a imagem projetada no céu com freqüência para controlar o crime. Por outro lado, pessoas comuns passaram a se vestir como Batman, o que evidentemente se tornou algo perigoso, já que estas pessoas não são capacitadas para combater os perigosos criminosos. Desesperados e sem muita saída, um grupo de mafiosos aceita a proposta de um estranho homem que usa maquiagem para esconder suas cicatrizes conhecido como Coringa (Heath Ledger), que ofereceu seus serviços para eliminar o homem-morcego da cidade.

Dirigido com competência por Christopher Nolan, o filme inicia em ritmo alucinante mostrando diversas ações paralelas que formarão a base da narrativa. Auxiliado pelo excelente trabalho de montagem de Lee Smith, que consegue manter o foco em todas estas ações paralelas e este ritmo acelerado durante todo o filme sem se tornar cansativo, Nolan consegue captar a atenção do espectador e nos jogar pra dentro da trama de forma muito convincente. Além disso, o inicio consegue introduzir de maneira exemplar o personagem mais fascinante do longa, o assustador Coringa. Nolan também é competente na criação de cenas plasticamente belas, como os travellings que sobrevoam as cidades e as empolgantes seqüências de ação e perseguição. Além disso, o diretor utiliza interessantes movimentos de câmera, como podemos notar durante o diálogo entre Gordon, Dent e Batman no terraço. A excelente fotografia azulada cria um ambiente frio e assustador, além de mergulhar os personagens em sombras e escuridão por diversas vezes, refletindo muito bem o sombrio universo do super-herói amargurado. Mas, apesar de cuidar muito bem de todos estes detalhes, é no desenvolvimento de personagens que Nolan demonstra toda sua competência, extraindo atuações do mais alto nível.

Apoiando-se no excelente roteiro escrito por ele próprio e seu irmão Jonathan Nolan, o diretor consegue criar personagens complexos e carregados dramaticamente, o que é sempre um prato cheio para os grandes atores. A narrativa dos irmãos Nolan tem como tema principal o lado egoísta e cruel existente dentro de cada ser humano, apontado através dos jogos propostos pelo vilão. O roteiro também aborda com competência outros temas interessantes, como a corrupção dentro das autoridades que deveriam oferecer segurança à sociedade, além de manter o espectador sempre grudado na tela devido às surpreendentes armadilhas do Coringa. Conta ainda com bons momentos de alivio cômico como a piada dos desaparecimentos do Batman, o nome alternativo que Alfred utiliza para bebidas alcoólicas e a frase do mesmo Alfred sobre o uso do Lamborghini.

Ciente de que toda a história da origem do homem-morcego foi corretamente abordada no filme anterior (Batman Begins), Nolan aproveita para focar ainda mais no desenvolvimento de seus pergonagens, o que possibilita ao elenco de primeira grandeza oferecer performances maravilhosas. Michael Caine está muito bem novamente como Alfred, firme em seus conselhos para Bruce Wayne e com seu ótimo senso de humor. A conversa entre eles sobre o ladrão de pedras preciosas revela muito sobre a personalidade caótica do grande vilão da trama. Christian Bale tem uma boa atuação como Bruce Wayne. Sua reação à insinuação de Alfred sobre seu interesse em Rachel é notável, quando ele vira o rosto e sai evitando o olhar do amigo. Seu momento mais tocante é quando chora a perda de alguém muito importante e reflete sobre o tipo de reação que causou na sociedade quando decidiu ser o Batman. Já com a máscara do homem-morcego seu desempenho é ainda melhor. Com a voz mais grave (e distorcida na pós-produção) e com muita segurança, ele consegue criar um herói ambíguo e amargurado pelas marcas do passado, dando muito peso dramático ao personagem. Morgan Freeman faz seu papel com extrema competência mais uma vez. Repare o sorriso contido de satisfação quando Wayne lhe pede para cancelar o acordo e ele responde “Você já sabia?”. Outra grande cena é quando Reese (Joshua Harto), o consultor das empresas Wayne, ameaça revelar a identidade secreta do Batman. Ele ri com muito cinismo e dá uma resposta muito inteligente ao rapaz, que demonstra através de seu rosto o arrependimento que sentiu. Ainda nas atuações, Aaron Eckhart também merece destaque como o promotor Harvey Dent. Seu arco dramático é incrível, transformando seu personagem de uma pessoa séria e comprometida com a causa para um vingador implacável e cruel que não tem mais código ético e moral após o duro golpe que sofreu. Sua transformação no vilão “Duas-Caras” é extremamente competente e tem total coerência com a narrativa, tornando o personagem mais próximo da realidade, o que o aproxima do público. Dent acaba se tornando o personagem símbolo da ideologia do vilão, que tenta provar que todos nós temos um lado mais obscuro. O momento da revelação de seu rosto é uma grande cena do filme. Interessante notar como a moeda utilizada por Dent se torna ainda mais simbólica após a tragédia que destruiu a vida do personagem, com o lado queimado passando a simbolizar a morte. Impressionante também é a comovente reação de Eckhart quando nota a moeda em seu leito.  Maggie Gyllenhall, apesar de não conseguir criar empatia com Christian Bale, consegue sucesso em sua relação com Eckhart, destacando-se na dramática cena em que aceita se casar com Dent. Gary Oldman completa o qualificado elenco de apoio oferecendo uma boa atuação, com destaque para a cena final do filme, quando demonstra sua aflição de forma muito convincente.

Entre tantas boas performances, uma chamou a atenção em particular. A histórica atuação de Heath Leadger compôs um personagem fascinante e temível. O Coringa dele é alguém sem apego a dinheiro ou regras, que tenta provar que no fundo de sua alma todo ser humano tem seu lado ruim e cruel. Sua intenção é provar que, quando colocadas em alguma situação de risco, as pessoas sempre tentarão salvar a própria pele, como fica evidente na cena dos barcos e em sua engraçada metáfora com os cães de um mafioso. Seu plano lembra por muitas vezes o de John Doe em Se7en, já que ambos não têm mais esperança no ser humano. Incrível como ele trabalhou em cada pequeno detalhe de sua atuação. Observe o tique da língua saindo da boca e os olhos nunca fixos, que demonstram a personalidade psicótica do rapaz. Repare o jeito de andar encurvado, o cabelo bagunçado, a voz anasalada, além é claro do rosto de palhaço extremamente realista, fruto do grande trabalho de maquiagem. A oscilação nada comum de seu senso de humor manifestada através das risadas estridentes e gritos que alternam repentinamente para um tom de voz baixo. Em momentos de extrema tensão ele mantém o controle dos nervos como se não tivesse nada a perder, como na cena em que, com um policial como refém, pede tranquilamente pra fazer uma ligação. Seu bom humor é irônico, e ele demonstra isso com competência, por exemplo, quando chama Rachel de gatinha e ajeita seu cabelo ou quando diz para Batman que ele escolheu as palavras incorretas. Seu momento mais genial é o diálogo com Batman dentro da sala de entrevistas da cadeia, revelando a parte cruel de seu plano e causando a ira em seu oponente (em bom momento de Bale que explode em cena). Nesta cena você pode notar todos os detalhes citados acima em Ledger, além de descobrir que na realidade o Coringa respeita o Batman e entende que eles são dependentes um do outro, pensamento este que fica evidente minutos depois, quando pede em público a morte de um determinado cidadão. Nota-se também nesta cena a excelente composição visual de Nolan, filmando no primeiro plano o comissário correndo pra abrir a porta e no segundo plano o irritado Batman indo trancá-la, ao som da risada do Coringa.

O trabalho técnico do filme também é extremamente competente. Desde a trilha sonora típica de filmes de ação, pesada e com picos de volume para criar tensão, até os espetaculares trabalhos de som e efeitos sonoros, capazes de captar cada pequeno detalhe como o som do pescoço do Coringa estalando e da capa do Batman voando. Os efeitos especiais trabalham para ajudar o filme (e não se tornam a razão de ser dele), como podemos notar nos perfeitos ferimentos no rosto do Duas-Caras e nas maravilhosas seqüências de ação.

Com um ou outro escorregão típico dos arrasta-quarteirões norte-americanos, como a cena do tribunal que faz uma piada patriota sobre armas e a eficiente contagem de votos nos barcos (engraçado como um país tão ineficiente na contagem de votos tenha uma contagem tão rápida), o filme consegue um peso dramático e um terceiro ato capaz de desnortear qualquer um. O diálogo entre Batman e Dent, logo após este último ameaçar de matar um esquizofrênico, revela muito sobre a linha de raciocínio da dupla Coringa e Batman e o que está em jogo. Dent não poderia sujar sua imagem de incorruptível perante a sociedade, ele era o herói que Gotham precisava naquele momento. E a decisão final do homem-morcego de assumir os crimes de outra pessoa e manchar de vez sua reputação naquela sociedade demonstra sua nobreza e seu comprometimento com a causa, jamais levando o crédito pra si mesmo em prol da criação de um mito que ajude na defesa contra o crime organizado. Um herói capaz de uma decisão pesada, cruel e altruísta como esta demonstra sua magnitude e grandeza. Grande também é o filme de Nolan, adulto, pesado e extremamente complexo.

Utilizando os personagens dos quadrinhos como fio condutor de uma produção ambiciosa e oferecendo uma narrativa brilhante e repleta de detalhes, Batman – O Cavaleiro das Trevas é um filme acima da média, com uma atuação antológica e outras muito competentes, que levam o espectador a um enorme cansaço emocional devido à carga psicológica envolvida na trama. Quem dera todo filme de ação tivesse como base para explosões e perseguições uma narrativa tão coesa e complexa como esta. Esta é uma franquia que tem muito ainda a oferecer. Robin, Pingüim, Charada, entre outros, são personagens que podem render outros excelentes roteiros. Espero que venham mais ótimos filmes como estas duas produções de Nolan.

Coringa

Texto publicado em 24 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira

Arbitragem

Os erros grotescos da rodada de ontem no campeonato brasileiro me fizeram pensar a respeito da arbitragem no país. Porque os árbitros têm tanto poder? Porque não utilizar a tecnologia a favor da justiça, evitando que campeonatos sejam decididos por erros de arbitragem? Pontos como os perdidos ontem por São Paulo e Palmeiras podem fazer a diferença no final do campeonato. E o árbitro nunca é punido de forma exemplar por isso. Eu acho que os árbitros deveriam dar entrevistas coletivas depois do jogo. Tem que dar a cara pra bater, ouvir a opinião publica através da imprensa e justificar seus erros. Não podemos mais aceitar que o trabalho duro de jogadores, treinadores e até dirigentes seja prejudicado por erros como os de ontem.

E pra você, qual seria a solução para a arbitragem nacional?

Um abraço e vamos debater.

Texto publicado em 23 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira

LARANJA MECÂNICA (1971)

(A Clockwork Orange) 

5 Estrelas

 

Obra-Prima

 

Videoteca do Beto #8

Dirigido por Stanley Kubrick.

Elenco: Malcolm McDowell, Patrick Magee, Michael Bates, Anthony Sharp, Warren Clarke, Carl Duering, Adrienne Corri, Paul Farrell, Clive Francis, Michael Glover, James Marcus, Godfrey Quigley e Aubrey Morris. 

Roteiro: Stanley Kubrick, baseado em livro de Anthony Burgess. 

Produção: Stanley Kubrick.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quando terminei de assistir mais este grande filme de Stanley Kubrick, a única palavra que me veio à cabeça foi “gênio”. Incrivelmente atual e polêmico, com imagens que dificilmente sairão de minha memória e uma empolgante jovialidade na tela, Laranja Mecânica se estabelece desde já como uma das mais agradáveis experiências que tive ao ver um filme, tornando-se uma referência obrigatória para mim de agora em diante. Extremamente visual, com muitas cenas violentas e diversas imagens que fazem referencia ao sexo, tornou-se polêmico antes mesmo de seu lançamento, sendo liberado no Brasil somente muitos anos depois de sua estréia, e mesmo assim, com tarjas pretas nos órgãos sexuais que aparecem durante o filme. Cito este fato somente para comentar como é engraçado e intrigante pensar que muita gente se incomoda muito mais com o sexo do que com a violência, o que é certamente motivo para reflexão.

Em um futuro indefinido, sombrio e incrivelmente parecido com os dias de hoje, Alex (Malcolm McDowell) é o líder de uma gangue de delinqüentes baderneiros que cometem diversos crimes noturnos pelas ruas. Ao ser pego pela polícia em uma noite de insucesso, ele passa a servir de experimento para uma nova técnica de tratamento de criminosos, antes de retornar para a sociedade.

O primeiro ato de Laranja Mecânica é muito próximo da perfeição. O fascinante ambiente futurista e decadente criado por Kubrick e sua equipe e a extrema segurança com que ele conduz a narrativa exerce uma inevitável atração em quem assiste. As cenas viscerais e extremamente violentas criam um impacto tão grande no espectador que no restante do filme somos praticamente levados pelo magnetismo do que vimos até então. Kubrick se mantém fiel ao seu estilo, com planos e enquadramentos criativos, como o caminhar em câmera lenta dos quatro drugues à beira da água (que claramente influenciou o inicio do filme Cães de Aluguel, de Tarantino). Observe como ele mantém a câmera fixa em determinados lugares mostrando as pessoas distantes na tela, num plano característico de seus filmes. Progressivamente elas vão se aproximando e crescendo, como no inicio da cena da revista das celas, que se passa no corredor. Ele também cria uma coleção de cenas memoráveis, como os quatro ataques da turma de Alex antes de sua prisão, o encontro na loja de discos (aqui Kubrick faz uma auto-referencia com a capa do disco 2001) e sua divertida seqüência embalada pela ótima trilha e finalmente, a tensa e maravilhosa cena que Alex hesita em tomar uma taça de vinho. Além disso, o filme tem muitos momentos de humor negro, como a divertida cena em que o protagonista e uma enfermeira estão gemendo e a forma diferente que ele encontra para ler a Bíblia.

Malcolm McDowell oferece a atuação de sua vida no papel do violento e carismático Alex. Com os olhos sempre arregalados e uma energia contagiante, ele cria uma empatia estranha no espectador que, mesmo discordando da maioria de suas atitudes, acaba sempre torcendo para que ele de alguma forma tenha sucesso. Fã incondicional da nona sinfonia de Bethoween (a quem chama de Ludwig van), ele é alguém cerebral na mesma proporção em que é infernal. Explosivo e visceral, encontra na violência a sua razão de viver, e seu prazer no que faz é impressionante. O ator transmite com extrema habilidade a personalidade doentia de Alex. Observe como ele se mantém sempre em movimento, demonstrando que é uma pessoa inquieta e que jamais para de pensar no que vai fazer. Quando fixa seu olhar, transmite uma sensação de hipnose, de poder absoluto, resultado obtido através da técnica do ator que mantém os olhos arregalados e sem piscar. Ele também capricha nos pequenos detalhes. Na prisão, o guarda exige que ele decore seu numero de inscrição, e ele olha pra cima como quem tenta decorar o que ouve. Ao ouvir a resposta do ministro quando o padre diz que um ser humano tem que poder escolher o que faz, sua reação de satisfação é perfeita, com um sorriso sarcástico no rosto. E o mais impressionante de tudo é a já citada empatia que ele consegue criar no espectador, mesmo sendo uma pessoa desprezível do ponto de visa ético e social. Isto tudo se deve ao talento absurdo de McDowell na criação de um personagem magnético e inesquecível, além da inteligência de Kubrick ao misturar momentos de violência com coisas que normalmente nos agradam, como músicas clássicas, quadros belíssimos e a arquitetura maravilhosa do velho cassino. No restante do elenco, podemos destacar as atuações de Patrick Magee como o velho escritor Frank Alexander (observe seu rosto repleto de raiva no jantar que tem com Alex e mais três pessoas) e Anthony Sharp como o Ministro do Interior, exalando cinismo nos momentos finais do filme, quando seu diálogo com Alex expõe todo o jogo político envolvido no tratamento. Michael Bates, apesar de caricato, está engraçado como o exagerado chefe Barnes, gritando para tentar impor respeito junto aos delinqüentes.

O próprio Kubrick escreveu o roteiro, adaptado do livro homônimo de Anthony Burgess. Os diálogos são sempre atraentes, utilizando inclusive a linguagem criada no livro, uma mistura de inglês e russo que só Alex e seus amigos entendem. A narrativa se divide claramente em três partes que se concentram no tema da violência, que é (na visão do diretor) algo intrínseco ao ser humano e que se espalha na sociedade de diversas formas. Na primeira, vemos a violência social através dos delinqüentes que agem sem motivos, só por diversão. Na segunda, a violência organizada sob a máscara do governo e da policia. E na terceira, a violência reativa daquelas pessoas que sofreram com os ataques de Alex. É como se Kubrick quisesse dizer que a violência é algo que temos que conviver de qualquer forma, algo inevitável. O ritmo sempre interessante da narrativa é mérito também da excelente montagem de Bill Butler, responsável por seqüências alucinantes que grudam nossas retinas na tela, como os ataques dos delinqüentes e o curioso método de tratamento de Alex.

A fotografia de John Alcott propositalmente mistura cores vivas, já que vemos o mundo filtrado através dos olhos do narrador. Observe como as cores da sala de sua casa são divididas entre o vermelho e o azul e como os ambientes que ele freqüenta sempre têm cores fortes em destaque. Por outro lado, quando se isola do mundo ou está ao lado de seus drugues a fotografia destaca a cor branca, já que neste momento Alex está em paz de espírito. As roupas brancas dos delinqüentes revelam também o excelente trabalho de figurino, que busca harmonia visual com a direção de fotografia. Seu disco favorito tem a capa branca e seu quarto é predominantemente branco, incluindo o curioso quadro da moça nua que revela também o cuidadoso e competente trabalho de Direção de Arte. Estes pequenos detalhes, como as pichações na entrada de sua casa e a cobra que ele cria em seu quarto, ajudam a demonstrar a personalidade perturbada de Alex. Finalmente, a excepcional trilha sonora recheada de músicas clássicas dá um tom de fábula ao filme, nos colocando em dúvida sobre a seriedade dos atos que vemos em cena. Kubrick nos obriga a associar músicas que normalmente gostamos a atitudes que normalmente repudiamos, como na excelente cena em que Alex canta “Singing in the Rain” (em outro momento de estupenda atuação de McDowell).

Laranja Mecânica é agressivo e visionário. Antevê diversos problemas sociais e até grupos que surgiriam anos depois do filme, como o movimento punk. Existe também uma sutil crítica ao autoritarismo, quando Alex tenta ler o que está assinando e o guarda da prisão grita pra ele assinar sem ler. Alex demonstra que, apesar de delinqüente, é alguém que pensa, ao contrario do guarda que só cumpre ordens sem questioná-las. Fica evidente também que um delinqüente não é necessariamente alguém sem cultura ou sem condições de ser alguém na vida, o que só agrava o problema, já que dificulta ainda mais a tarefa de mapear a causa da agressividade do jovem. O confronto de métodos fica evidente quando Alex é transferido para se submeter ao novo tratamento. É intencional, Kubrick quer chocar. Por outro lado, a cena final deixa claro que não importa o método utilizado, a pessoa perturbada sempre vai ver as coisas com seu próprio olhar. Em resumo, o que o genial diretor claramente pretende é escancarar uma discussão sobre a violência. O espectador é obrigado a pensar em diversos temas controversos. De onde se origina toda esta violência? Seria a violência das ruas diferente da violência organizada que os órgãos públicos exercem? Não seria a violência algo intrínseco do ser humano, que é um animal? Qual a sensação que sentimos ao ver Alex sendo atacado pelas pessoas que ele agrediu anteriormente? Confesso que, apesar de não concordar com suas atitudes, fiquei mais incomodado quando Alex foi agredido do que quando ele agrediu um grupo de estupradores, por exemplo, exatamente porque ele não tinha como se defender. Já a cena em que ele Alex comete um estupro me causou um grande incomodo, estranhamente aliviado pela canção alegre que ele cantava. Mas por que quando ele atacou um bêbado na rua eu achei graça? Kubrick me fez pensar em como devo olhar para a violência e para mim mesmo. Será que eu não sou tão bom quanto eu imaginava? Independente das respostas, a satisfação pelo questionamento gerado é suficiente para me agradar. É maravilhoso ser incomodado por um filme e ser obrigado a questionar valores desta forma.

Com uma atuação magnética e uma energia capaz de causar inveja a qualquer diretor de filmes de ação, Laranja Mecânica é o filme ideal para quem procura entretenimento inteligente e de qualidade. Abordando de forma audaciosa um tema extremamente complicado e controverso, Kubrick consegue criar um filme antológico, com imagens muito fortes e que dificilmente serão esquecidas. Recheado de humor negro e de seqüências inesquecíveis, propõe uma discussão muito interessante sobre a violência e leva a uma importante auto-reflexão da sociedade como um todo. O resultado final de tudo isto é uma obra-prima incrivelmente polêmica e proporcionalmente genial.

PS: Só espero que nenhum maluco justifique seus atos de violência por influencia deste filme, como era costume na época de seu lançamento. Como é um filme dos anos setenta acho difícil isto acontecer hoje em dia, mas nunca é demais ter cuidado. Vale lembrar que filmes recentes sofreram injustamente com este tipo de acusação, casos de “Clube da Luta” e “Assassinos por Natureza”.

Texto publicado em 22 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira

Filmes antigos ou filmes não vistos?

Observo na sociedade de hoje uma enorme resistência aos filmes mais velhos, o que me causa uma enorme tristeza. Eu mesmo não tinha o costume de assistir filmes antigos, muito mais por preguiça de procurá-los do que por achar que não sejam bons filmes. Ao montar minha videoteca e começar a assisti-la de forma cronológica, entendi porque estes filmes são conhecidos até hoje. A razão é simples: são filmes muito bons! Minha curiosidade ficou muito aguçada e agora estou à procura de obras importantes do cinema desde os primeiros anos da sétima arte. E aconselho a todos vocês fazer o mesmo. Vale muito a pena. Mas o que quero discutir aqui é a seguinte afirmação: Não existem filmes antigos, só existem filmes que você ainda não viu.

Você concorda?

Um abraço e vamos debater.

Texto publicado em 21 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira

Coração acelerado

Sábado fomos fazer ultra-som. Chegamos logo cedo no Laboratório Fleury e aguardamos alguns minutos até o Doutor entrar na sala. Nós estávamos nervosos, mas a simpática auxiliar nos ajudou a manter a calma. Muito educado e com a voz tranqüila, o Doutor iniciou o exame. E como ele mesmo disse, iniciou pela parte mais importante, mostrando nosso bebê e as batidas do seu coraçãozinho. Quando o som acelerado e alto das batidas do nosso bebê invadiu a sala, a Dri desabou em lágrimas e eu fiquei em transe, paralisado, olhando para aquela telinha preta e branca e sonhando. A Dri chorou as duas vezes que mostrou o coração batendo, e eu até agora não sei qual batimento estava mais rápido, o do bebê a 168 batidas por minuto ou o nosso. Um momento lindo e inesquecível em nossas vidas.

O exame foi ótimo, tudo está indo muito bem. De brinde, o Doutor imprimiu a primeira foto colorida do nosso bebê e eu disse pra Dri que tem os meus traços. Ela riu, já que com 1,7 cm ela acha que não dá pra ver nada disso, e o Doutor disse também que não dá pra ver ainda, mas eu vejo, fazer o que… 😉 De lá fomos direto pra casa dos meus pais. Mostramos primeiro pra minha mãe, que chorou e se emocionou com o som e a primeira foto do nosso bebê. Depois meu pai chegou e eu mostrei pra ele o DVD. Quando a batida do coração começou, ele começou a chorar e tremer e me abraçou. Foi lindo!

Depois fomos almoçar e conversamos bastante sobre aquela emoção gostosa que todos estávamos sentindo. Nosso bebê já é muito amado, desde hoje, e deixo registrado tudo aqui, porque um dia ele vai ser grande, ter sua vida com muita saúde e paz se Deus quiser. E sempre que precisar, ele sabe que poderá contar com o papai e a mamãe, com o vovô e as vovós, com a titia e com todas as pessoas que desde já o amam. Que Deus abençoe esta criança e que ela venha ao mundo com saúde e cheia das bênçãos de Deus.

Beijos do papai e da mamãe.

Texto publicado em 20 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira

ERA UMA VEZ NO OESTE (1968)

(Once Upon a Time in West) 

5 Estrelas

 

Obra-Prima

 

Videoteca do Beto #7

Dirigido por Sergio Leone.

Elenco: Henry Fonda, Charles Bronson, Claudia Cardinale, Jason Robards, Gabriele Ferzetti, Frank Wolff, Paolo Stoppa, Jack Elam, Woody Strode, Keenan Wynn e Lionel Stander. 

Roteiro: Sergio Donati e Sergio Leone, baseado em estória de Dario Argento, Sergio Leone e Bernardo Bertolucci. 

Produção: Fulvio Morsella.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Obra superior de um dos maiores diretores que já existiram no cinema mundial, Era uma vez no Oeste se estabelece como um festival de imagens belíssimas que narram uma história maravilhosa e emblemática, servindo de metáfora para o começo da modernização e o fim do mundo mítico do velho oeste. É um canto de despedida de personagens clássicos e de um estilo de vida característico de uma época distinta da sociedade americana. Nas palavras de um personagem em certo momento do filme, é algo que tem a ver com a morte (“Something to do with death”).

Um irlandês visionário compra uma propriedade afastada da cidade em um local que viria a ser no futuro a rota da estrada de ferro. Em virtude do lugar estratégico que se instalou, ele e toda sua família são assassinados por um matador de aluguel. O que ninguém sabia é que este homem havia se casado há pouco tempo atrás com uma prostituta de New Orleans que acaba de chegar à cidade e que passa a ser defendida por um misterioso homem solitário.

Com sua costumeira habilidade e perfeccionismo para construir cenas antológicas, Leone inicia o filme mostrando uma velha estação, protegida por um senhor de idade e uma índia. A trilha sonora sempre competente de Ennio Morricone cede lugar aqui ao som de um moinho de vento que, auxiliado pela lentidão da construção da cena, ajuda a criar um clima crescente e insuportável de tensão. As gotas caindo no chapéu de um pistoleiro, a mosca voando no rosto de outro e o som do telégrafo só aumentam o clima de expectativa. Quando ouvimos o barulho do trem chegando à estação já imaginamos o que está para acontecer. A excelente introdução do filme serve também para introduzir o personagem mais enigmático da narrativa: o Gaita (Charles Bronson). Sua primeira aparição já deixa bem claro para o espectador que se trata de alguém extremamente perigoso. Na cena seguinte, vemos a família que servirá de base para toda a trama e mais uma vez os momentos silenciosos falam mais que as palavras. Somente os olhares daquelas pessoas já nos indicam que algo se aproxima, o que de fato acontece minutos depois. Temos então outra excelente introdução de personagem. Observe como a câmera prolonga ao máximo o momento em que o rosto de Frank é revelado, criando uma enorme expectativa na platéia (movimento também utilizado em outra cena do filme, quando Jill abre uma porta). Além de ter muito estilo, esta introdução tem também um contexto histórico. Em uma época sem internet, as pessoas não sabiam quem faria qual papel nos filmes, e Fonda era um ator marcado por fazer papel de mocinho. Ao apresentá-lo em cena como o cruel bandido, Leone provocou um enorme choque na platéia. A cena termina com uma elipse maravilhosa que corta do som de um tiro para o som dos freios de um trem. Estes são apenas dois exemplos de mais uma espetacular direção de Sergio Leone. Ele alterna closes muito próximos dos rostos dos atores, que são capazes de revelar cada cicatriz, com planos gerais distantes que exploram muito bem as maravilhosas paisagens da região. Além da condução perfeita da narrativa, Leone abusa também da criação de planos e movimentos de câmera cheios de estilo. Em duas oportunidades Jill (Claudia Cardinale) chega à ambientes desconhecidos por ela, e o visual da cena já nos faz sentir isso. Observe como o foco se concentra no rosto da atriz e todo o ambiente atrás dela fica fora de foco. O diretor cria um contraste interessante com o ambiente em que ela está chegando, sempre filmado através de um plano geral e com foco em toda a cena, demonstrando o quanto ela está deslocada e intimidada, ao contrário das outras pessoas que já estavam ali. Leone cria ainda muitos momentos de tensão, como na cena em que a algema presa à Cheyenne (Jason Robards) é cortada.

O diretor italiano demonstra também seu talento na direção de atores, extraindo performances de alto nível. O grande destaque fica para Charles Bronson como o frio e determinado Gaita, sempre com a expressão séria e focado em seu objetivo. Suas introduções em cena com o som da gaita anunciando sua presença são maravilhosas. Henry Fonda também está muito bem como o expressivo vilão Frank. Seu olhar penetrante caiu como uma luva no personagem, que conta ainda com um jeito lento de andar, característico de quem é extremamente autoconfiante. O ponto alto da grande atuação de Jason Robards são os momentos de humor. Cheyenne é um vilão divertido e ambíguo, e Robards transmite essa idéia em muitas cenas com extrema habilidade. Sua conversa com Jill sobre a importância que tem para um trabalhador ver uma mulher linda como ela é hilária. Ele também tem um bom desempenho dramático, como na cena em que diz para Jill que ela o faz lembrar sua mãe. Sua expressão sincera é marcante e estabelece uma conexão com ela, além de conseguir respeito da parte dela. Claudia Cardinale está belíssima como Jill. Sua memorável última cena, quando ela se mistura aos trabalhadores para lhes dar água, é também extremamente simbólica. Seu olhar penetrante fascina os outros personagens, que vão descobrindo aos poucos o poder que aquela mulher tem naquele ambiente hostil. Ela é o centro da narrativa, tudo gira ao seu redor. Interessante notar como os três homens chave da trama têm alguma relação mais intima com ela de diferentes formas. O Gaita é mais violento, Frank mais romântico (com a concessão dela), e Cheyenne é mais bem humorado (e abusado também). Também merece destaque a cena em que Morton (Gabriele Ferzetti) vê o quadro do mar e sente que jamais conseguira ver o que tanto desejava, pois sabe que seu fim está próximo. Ferzetti transmite toda a angústia do personagem através do olhar triste e da respiração pausada.

O roteiro é coeso e aborda temas interessantes como a vingança e o poder do dinheiro, além de mostrar a corrupção que envolvia todo o processo de construção das ferrovias. Os deliciosos diálogos, sempre presentes nos filmes de Leone, não poderiam faltar aqui. Podemos destacar a sensacional conversa entre o Gaita e Cheyenne dentro do bar (“Eu vi três casacos como estes na estação. Dentro dos casacos haviam três homens. Dentro dos três homens, três balas.”), dois excelentes diálogos entre Jill e Cheyenne (quando ele sente que ela pensa em atacá-lo e quando ela explica porque decidiu morar no campo) e uma outra tirada sensacional que faz referência à Judas, recheada de bom humor. Temos também a seqüência em que o atendente de um bar diz que jamais gostou da idéia de morar em uma cidade grande pois prefere a vida tranqüila do campo, o que se revela uma engraçada ironia, já que aquele lugar é perigoso o bastante para não se ter uma vida tranqüila.

O filme conta também com um excelente trabalho de montagem, que permite à narrativa fluir de forma agradável e nunca arrastada. Observe as excelentes transições de planos, como na ocasião em que Cheyenne pergunta à Jill se o café dela é bom. A resposta “nada mal” vem em outra cena, com Morton fazendo uma outra pergunta a Frank. Tonino Delli Colli colabora significativamente para a criação daquele universo através de sua excelente direção de fotografia. As cores que predominam, como preto, bege e marrom, tornam ainda mais árido o ambiente. Ele também conseguiu tornar imperceptível a diferença de cor na poeira das locações, que ficavam em lugares totalmente diferentes (EUA e Espanha). Quando Jill deita em sua cama muito triste pela perda do marido, a fotografia a envolve em cores pretas, numa demonstração visual da escuridão que ela está mergulhada. O belo trabalho de direção de arte cria uma cidade em construção impressionante, vista pela primeira vez em um admirável travelling de Leone, além de cuidar de todos os detalhes dos cenários, como os envelhecidos talheres e toda a mobília da casa de Jill. Os figurinos sensacionais criam todo o ambiente característico do velho oeste, com botas, casacos e cinturões, além dos belos vestidos das mulheres. A maquiagem também é excelente, marcando aqueles rostos queimados pelo sol com perfeição. Ennio Morricone dá mais um show, compondo uma trilha sonora sensacional. Cada personagem tem sua própria e bem característica trilha. Jill tem um tema delicado e arrebatador, com uma melodia lenta e uma voz aguda. Frank tem um tema tenso, com notas pesadas e longas. O tema de Cheyenne é alegre, com notas rápidas e divertidas. Já o Gaita tem um tema sombrio, com notas contínuas e pesadas misturadas ao som de uma gaita estridente.

(se não viu o filme, pule este parágrafo) Como não poderia deixar de ser em um filme de Sergio Leone, o esperado duelo final é conduzido lentamente e com enorme brilhantismo. A câmera alterna planos gerais com closes no rosto dos atores, ao som de uma trilha primorosa que mistura os temas dos dois personagens. A movimentação é orquestrada, e eles vão se posicionando para o duelo lentamente. Os olhares fixos demonstram a tensão daquele momento e o auge acontece através de um close extraordinário que praticamente entra nos olhos do Gaita, seguido de um flash-back que explica porque ele evitou a morte de Frank antes. O prazer da vingança era o seu maior desejo. Observe que após o duelo, quando Frank é baleado, ele está numa posição de comando no plano, com a câmera filmando-o de baixo pra cima. Quando ele cai, imediatamente o Gaita assume esta posição, tomando assim o controle da situação. Frank, agora derrotado, passa a ser filmado de cima pra baixo, e seu último plano, com a gaita na boca, remete visualmente ao motivo de sua perseguição e morte. Toda esta composição visual característica de Leone demonstra sua enorme habilidade como diretor.

Os elementos característicos dos filmes dirigidos por Sergio Leone são utilizados de forma mais perfeita do que nunca nesta produção. O clima tenso e a sensação sempre presente de que aquelas pessoas dificilmente sobreviverão mantém o espectador sempre atento à narrativa. Extremamente bem fotografado e colecionando cenas inesquecíveis, Era uma vez no Oeste é uma fábula lenta e triste sobre o fim de uma era e o início de outra na sociedade americana. À chegada da ferrovia trouxe o progresso para aquelas pessoas, mas trouxe também o fim de um período memorável, recheado de personagens inesquecíveis. Todos estes elementos fazem do filme uma obra-prima marcante e eterna. 

Texto publicado em 18 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira