Três pitacos sobre futebol…

1 – O Palmeiras acertou ao demitir Luxa?

Acho muito perigoso e extremamente incoerente demitir um treinador no meio de um campeonato. Ainda mais o campeonato Brasileiro, tão longo e difícil. O tempo já provou que os grandes trabalhos feitos no futebol brasileiro foram de técnicos que permaneceram no cargo por um longo tempo. Mesmo com a eliminação da Copa Libertadores entendo que Luxemburgo vinha fazendo um bom trabalho no Palmeiras, que merecia pelo menos chegar ao final deste ano. A renovação do time foi bem feita, faltam alguns ajustes é verdade, mas acho que o time poderia fazer um bom papel no Brasileiro. O problema é que o torcedor é apressado, quer resultados imediatos, mas entendo que para disputar o título do campeonato brasileiro é preciso planejamento, montar um elenco ao longo de um ou dois anos e fazer pequenos ajustes, como fizeram Inter e Corinthians (pra mim os grandes favoritos) de dois anos pra cá. O Palmeiras deixa a sensação de que vai começar do zero novamente, o que é ruim. E tendo Beluzzo como presidente, não deixa de ser decepcionante uma atitude como esta.

E pra você, a demissão de Luxemburgo foi correta?

2 – Brasil campeão da Copa das Confederações

Em uma final eletrizante contra o surpreendente time dos EUA (o qual eu pensava ser limitadíssimo e provou ser pelo menos competitivo) o Brasil chegou ao terceiro título da Copa das Confederações. Minhas considerações:

– Kaká é craque, mas Luis Fabiano jogou mais que ele nesta Copa.

– Lúcio realmente jogou muita bola. A zaga formada por ele e Juan é o ponto forte desta seleção.

– O outro ponto de destaque é o contra-ataque mortal da seleção, talvez o melhor do mundo hoje. Com jogadores de velocidade e que carregam a bola, o Brasil é um time formado para contra-atacar.

– Por falar em contra-ataque, que belo gol dos EUA o segundo hein? Aula de contra-ataque.

– O problema da seleção aparece quando o adversário se tranca na defesa, diminui os espaços e chama o Brasil pra cima. Aí o time precisa tocar a bola, abrir o jogo dos lados, e por enquanto o time de Dunga sente enorme dificuldade em fazer isso. Basta lembrar dos jogos contra Bolívia, Colômbia e África do Sul.

– Temos um ano até a Copa. Que 2006 fique bem vivo na memória de todos. Não podemos achar que somos os melhores. Humildade, pés no chão e vamos lutar pelo título. Se subir no salto, esqueçam…

– Nunca um atual campeão da Copa das Confederações foi campeão mundial. Que em 2010 esta escrita seja quebrada.

Agora faltam 11 meses para a Copa. No momento acho que Brasil e Espanha jogam o melhor futebol no mundo. Mas até lá, muita coisa pode mudar.

E pra você, quais são as melhores seleções do planeta hoje?

3 – Final da Copa do Brasil 2009

Pra mim o Corinthians deve ser o campeão da Copa do Brasil amanhã. Tem um time muito entrosado, joga muito bem fora de casa e atravessa um melhor momento que o Internacional. O time gaúcho tem craques e força pra reverter, mas sinceramente não acredito.

E pra você, quem será o campeão da Copa do Brasil 2009?

Brasil campeão Copa Confederações 

Texto publicado em 30 de Junho de 2009 por Roberto Siqueira

Fim de semana mágico e inesquecível

Meu fim de semana mágico começou na quinta-feira, quando o teste de gravidez da Dri deu positivo. Ainda na empresa já tive momentos muito legais com as brincadeiras do pessoal sobre a cegonha estar à solta no departamento (além do meu bebê, temos mais dois no departamento. A filhinha do Edu já nascida e o bebê do Alexandre, também recém gerado). Na sexta, com a confirmação do resultado através do exame de sangue, marcamos o ultra-som. Meu coração acelera quando me lembro das imagens no monitor, daquele pequeno ser que já é tão nosso. Nós nos emocionamos na sala do exame, choramos.

Depois fomos para a casa dos meus pais. Eu havia comprado um macacão de bebê (0 a 3 meses) do Palmeiras, como a Dri tinha pedido. Embrulhamos para presente. Ao chegar a casa deles, reunimos meu pai, minha mãe e minha irmã na cozinha e entregamos o presente. Jamais vou me esquecer daquele momento lindo, tão mágico e belo. Meu pai abriu o presente e tirou o macacão. Fez uma cara de dúvida e eu falei: “O presente vem daqui a nove meses”. A explosão de alegria, choro, felicidade em cada um daqueles rostos é uma imagem que me faz chorar até na hora de escrever. Meu pai pulando igual uma criança, minha mãe chorando e abraçando a Dri e minha irmã chorando de soluçar. Sentimento mais puro e sincero de felicidade não existe neste mundo. Foi lindo demais! Depois desta apoteose de emoção, fomos contar pra mãe da Dri e foi muito legal também. A Dri falou que tinha algo pra contar e ela falou: “Você está grávida?!”. Elas choraram abraçadas.

Fomos contar pra tia Lúcia e também foi bem emocionante. Nunca vou me esquecer do brinde que o Tio Gilberto fez com a gente. Eu e o Renis rindo das brincadeiras do Giba e da Tia Lúcia para adivinhar o sexo do bebê. Segundo ele, é menina. Ele garante que nunca falha. (rs) De lá fomos para a tia Rita para viver outro momento mágico. A tia abriu lentamente o presente e nem mesmo terminou de retirar o macacão já estava gritando. O choro e a alegria estampada na cara dela foi algo mais do que tocante. Lembro exatamente de cada feição deles. Do sorriso e lágrima da Vãn e da Bia. Do rosto iluminado de emoção, riso, lágrimas e tudo misturado do Thi (meu primo irmão). Do meu tio Du emocionado e sorridente, demonstrando toda felicidade que sentia naquele momento. Não me lembro bem, mas acho que até o Boy (cachorro do meu primo) deve ter ficado muito feliz! E algo que ficou marcado pra mim foi a expressão pura e sincera de alegria, o choro explosivo que surgiu instantaneamente no rosto da Mandinha (noiva do meu primo) na hora que a tia Rita começou a gritar. Difícil conter as lágrimas ao recordar momentos tão belos.

Para finalizar a noite fomos ao churrasco do Luisinho. Meus eternos amigos me abraçaram e me levantaram, se emocionaram comigo. O Léo adivinhou antes mesmo que eu começasse a contar. O Cris, o Adauto e o Luis me abraçaram. E o Léo e o Luis me levantaram. O Mau me deu os Parabéns. O Tom e o Betoween também me deram os parabéns. Assim como a Iara e a Irmã dela e a Marina. Foi muito legal. A noite perfeita, um momento mágico e inesquecível em nossas vidas.

mágico

Texto publicado em 29 de Junho de 2009 por Roberto Siqueira

Presente de Deus

O dia 25 de Junho de 2009 ficará pra sempre marcado em minha memória e na memória da Dri. Acordei, e como sempre, fui me trocar para ir ao trabalho. Enquanto me vestia, escutei a Dri gritar do banheiro: “Beto, vem aqui!”. Meu coração disparou, pensei que tinha alguém na casa ou algo assim… Mas o motivo do grito era o melhor possível, o mais esperado e abençoado de todos… Ao entrar no banheiro, vi a Dri segurando o teste de gravidez… com dois riscos!

O motivo é a confirmação do nosso presente de Deus. Nós nos abraçamos, eu chorava, nós tremíamos… Nosso amor agora terá um fruto eterno, uma nova pessoinha que virá para nos encher ainda mais de alegria e amor. Hoje, 26 de Junho, saiu o resultado do teste do exame de sangue, somente para comprovar o que já sabíamos ontem. Vamos ser papai e mamãe! É indescritível em palavras a alegria que estamos sentindo!

Mal posso esperar pelo momento em que vamos segurar nosso bebê no colo, dormir com ele entre nós, acordar com seu chorinho, passear, brincar, sorrir, amar… Quero curtir cada dia desta gravidez. Quero beijar muito minha amada esposa, acariciar e beijar sua barriguinha, tomar café na cama como de costume para planejarmos como será nossa vida, acompanhar cada ultra-som, sonhar, sonhar, sonhar. Melhor do que sonhar é ver os sonhos se realizando, e assim é nossa vida, uma eterna realização dos sonhos. Obrigado meu Deus por este sonho maravilhoso estar começando a se realizar. Eu e a Dri agradecemos, de coração.

Que DEUS nos abençoe, que Deus abençoe e ilumine nosso bebê… Que nossas vidas sejam ainda mais repletas de felicidade e amor…

Mil beijos pra você Rafaela ou Arthur. Que Deus abençoe sua vinda ao mundo, com muita saúde, amor e paz.

Nós já te amamos desde hoje e sempre. 

Papai e Mamãe.

P S: Não publiquei este post antes para não estragar a surpresa que planejamos fazer para a família.

Texto publicado em 28 de Junho de 2009 por Roberto Siqueira

Descanse em paz Rei do Pop

Não vou escrever muito sobre o assunto, não é nada agradável. Gostaria apenas de deixar registrado aqui meu respeito e minha profunda admiração pela obra deste gênio da música, que influenciou gerações e deu ao mundo pérolas como “Billie Jean”, “Beat it”, “Bad”, “Thriller”, “Smooth Criminal” (meu clip favorito) e a bela e lenta “Heal the World”. Pouco me importa sua vida pessoal, se fez coisas erradas é problema da justiça julgá-las, não meu. Aqui me refiro ao artista, muito importante em seu tempo e que deixará saudades. Michael pertence a uma rara espécie de músicos, aquele que vieram para mudar o que existia antes deles.

Poucas vezes houve um manifesto universal pela morte de um astro como agora. E isto aconteceu porque a obra de Michael é mesmo universal, é única, é eterna. Seu talento é o que ficará, e ficará para sempre…

Descanse em paz Michael. Que DEUS o tenha.

Michael Jackson 

 

 

 

 

Texto publicado em 27 de Junho de 2009 por Roberto Siqueira

CASABLANCA (1942)

(Casablanca) 

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #3

Vencedores do Oscar #1942

Dirigido por Michael Curtiz.

Elenco: Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Paul Henreid, Claude Rains, Dooley Wilson, Conrad Veidt, Sydney Greenstreet, Peter Lorre e Madeleine LeBeau.

Roteiro: Julius J. Epstein, Philip G. Epstein e Howard Koch, baseado em peça de Murray Burnett e Joan Alison. 

Produção: Hal B. Wallis. 

Quando os créditos começam a aparecer no final de Casablanca temos aquela sensação de satisfação por saber que o cinema é algo mágico, com uma capacidade enorme de transmitir emoções através de imagens. O clássico de Hollywood consegue de forma muito competente realizar aquilo que todo filme deveria. É um casamento perfeito de direção, fotografia, roteiro e atuações, conseguindo ser emocionante sem ser melodramático.

Fugindo da ocupação nazista durante a segunda guerra mundial, pessoas de diversas partes da Europa tinham como seu destino final a cidade de Casablanca, no Marrocos, onde esperavam por um visto salvador que lhes permitisse entrar em Lisboa e viajar para a América. Lá vive o americano Rick (Humphrey Bogart), dono de um bar de sucesso na cidade e com enorme prestígio e influencia naquela comunidade. Rick é uma pessoa amarga, que só pensa em si próprio e, como ele mesmo diz, não arrisca seu pescoço por ninguém.

A introdução do personagem Rick é excelente. Antes mesmo de sua aparição notamos que se trata de alguém muito importante, somente pela conversa em uma mesa de seu bar. Os convidados pedem para que ele beba com eles e o garçom diz que ele nunca faz isto. O convidado responde que era o segundo maior banqueiro de Amsterdã e ouve do garçom que o primeiro hoje está fazendo os salgados no bar de Rick, e que o pai dele é o carregador de malas. Somente este diálogo já revela a influência de Rick e o quanto ele é respeitado na cidade, além de fazer uma interessante demonstração do enfraquecimento dos países europeus dominados durante a guerra.

A direção de Michael Curtiz é bastante segura e cria inúmeros momentos inesquecíveis, além de procurar manter a câmera sempre próxima nos momentos dramáticos para captar melhor as reações dos atores. Logo no início do filme, a câmera se movimenta em direção à placa com o lema francês “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” no momento em que um reacionário francês é morto a tiros abaixo dela. A composição do plano, com o com o hino da França ao fundo, demonstra a inteligência de Curtiz ao transmitir a mensagem sem precisar utilizar palavras. Um dos grandes momentos de impacto acontece quando Rick entra no salão ao som de “As time goes by” e olha para a mulher que vai nos fazer entender a razão de toda sua amargura. Ilsa (Ingrid Bergman), que já está com os olhos marejados, estava sentada na mesa de seu bar. (se você ainda não viu o filme pule para o próximo parágrafo). É o suficiente para demonstrar que os dois já se conhecem e deixar subentendido que eles viveram algo no passado. É mágico. O diretor consegue falar com a platéia sem palavras, somente com imagens. Outro grande momento acontece quando Lazslo (Paul Henreid) e Rick estão tendo uma conversa reveladora e escutam os alemães cantando músicas germânicas. Lazslo pede para que um músico toque a Marselhesa (hino francês) que é cantada com enorme paixão pelos franceses presentes no bar. O enorme patriotismo evocado naquelas pessoas, perceptível em cada rosto emocionado, revela aos alemães o risco que estão correndo deixando Lazslo à solta. A situação não estava sob controle. Interessante também é notar que a farsa existente em alguns Cassinos já era revelada em 1942 (mesmo assim milhões de pessoas lotam Cassinos pelo mundo afora até os dias de hoje), na tocante cena em que Rick “sugere” a um rapaz o número 22 na roleta e ele consegue o dinheiro que precisava para sair de Casablanca. Momentos antes sua esposa havia explicado para Rick o quanto eles precisavam daquele dinheiro.

As atuações são menos exageradas do que o costumeiro na época. Humphrey Bogart está muito bem, conseguindo transmitir toda a amargura de Rick. Cínico e irônico, ele passa uma imagem de alguém amargo que não acredita em nada além de si mesmo. Existem momentos onde a atuação de Bogart deixa isto bem claro, como na cena em que ele manda uma mulher que se diz apaixonada por ele se retirar do bar e pede ao funcionário dele que a leve pra casa. A feição fria de Bogart demonstra que ele não acredita mais no amor. Claude Rains tem uma atuação extremamente simpática como o Capitão Renault. Ele se revela uma pessoa divertidamente inteligente, apesar de sem escrúpulos, procurando ficar sempre do lado mais forte. A boa atuação de ambos pode ser notada quando um determinado personagem é assassinado. O sorriso de canto de boca de Rick e Renault e os olhares de ambos demonstram que a solução do conflito aconteceu de forma satisfatória para os dois. Já Paul Henreid, como o intrigante líder da resistência tcheca Victor Laszlo perseguido duramente pelos alemães liderados pelo Major Strasser (Conrad Veidt), tem uma atuação segura e de papel fundamental na trama, já que os acontecimentos giram em torno dele. Mas a grande força de Casablanca está na personagem enigmática de Ingrid Bergman. Ilsa é uma mulher dividida e Bergman demonstra toda a ambigüidade da personagem com uma atuação magnífica. Observe como ela transmite de forma equivalente o sentimento de carinho que sente por Rick e por Laszlo. Quando ela conversa com o primeiro no bar somos levados a pensar que ela o ama, mas quando ela conversa com Rick no quarto do hotel sentimos que ela na realidade ama Laszlo. Ela jamais deixa transparecer a preferência da personagem. Quando finalmente toma uma decisão nos sentimos incomodados, pois também não temos certeza de que seja a mais correta.

A trilha sonora marca os momentos de maior tensão aumentando o volume, como na cena em que Ilsa aponta uma arma para Rick para tentar conseguir o que precisa. A fotografia de Arthur Edeson é marcante, deixando em evidência o forte contraste do preto com o branco em diversos momentos. Repare como Rick está mergulhado nas sombras quando está bebendo no bar para tentar esquecer que viu Ilsa momentos antes. Quando ela repentinamente aparece na porta toda de branco, temos a sensação de estar vendo um anjo e não uma pessoa entrando no bar devido ao enorme contraste provocado na cena. Ao final da conversa, Rick está com o rosto escondido entre seus braços debruçados na mesa, novamente mergulhado nas sombras, numa cena forte que demonstra visualmente toda a escuridão, tristeza e depressão do personagem naquele momento. [se não viu o filme, pule novamente para o próximo parágrafo 😉 ] Na cena da despedida, o casal Ilsa e Laszlo desaparece na neblina, assim como o avião some entre as nuvens, demonstrando visualmente que mais uma vez Ilsa está escapando da vida de Rick. Como se fosse um sonho, ela se esvai entre as nuvens e simultaneamente desaparece de sua vida.

Mas o grande destaque da produção é com certeza o roteiro, recheado de diálogos marcantes e inteligentes. Alguns deles ficaram marcados para sempre, como a tocante frase “Nós sempre teremos Paris”. Exemplos para ilustrar a qualidade do trabalho de Julius J. Epstein, Philip G. Epstein e Howard Koch não faltam, como o excelente trecho em que o Sr. Ferrari (Sydney Greenstreet) quer contratar o músico Sam (Dooley Wilson), talvez o único verdadeiro amigo de Rick. Eles vão perguntar a Sam se ele aceitaria trabalhar pra o Sr. Ferrari e ele responde que não. Rick diz que ele ganharia o dobro se aceitasse, mas Sam responde que não adiantaria porque ele não tem tempo para gastar o que ganha. Outro exemplo de diálogo inteligente é quando o major Strasser oferece os vistos para Laszlo e Ilsa viajarem à Lisboa em troca dos nomes dos líderes da resistência nas cidades dominadas pelo exército alemão. Ele responde: “Se não entreguei os nomes quando estava no campo de concentração, onde vocês tinham métodos muitos mais persuasivos, não será agora que vou entregar”. Para evitar escrever o roteiro inteiro aqui, cito apenas mais um trecho maravilhoso que acontece quando o Capitão Renault pergunta à Rick se ele está realmente com os salvo-condutos deixados no bar por Ugarte (Peter Lorre). Ele responde com outra pergunta: “Você é a favor ou contra a ocupação da França?”. Ora, o capitão Renault é francês e obviamente é contra. Mas como está trabalhando para os alemães não pode afirmar sua opinião em público. Entendendo a sagacidade da pergunta de Rick ele responde: “Isso é o que acontece quando fazemos perguntas diretas. Assunto encerrado”. Maravilhoso.

Representante de um seleto grupo de filmes que jamais envelhecem, Casablanca é um excelente exemplo de como o cinema pode ser mágico. Repleto de imagens e momentos belíssimos, o filme demonstra a mudança que um verdadeiro amor pode realizar em uma pessoa, transformando-a completamente. Sem melodramas ou fórmulas prontas, o filme consegue nos emocionar e fica guardado pra sempre em nossa memória. E exatamente por isso se tornou um dos grandes clássicos da história do cinema.

 

Texto publicado em 25 de Junho de 2009 por Roberto Siqueira

Submarino.com.br

CIDADÃO KANE (1941)

(Citizen Kane)

5 Estrelas

     

Obra-Prima

 

Videoteca do Beto #2

Dirigido por Orson Welles.

Elenco: Orson Welles, Everett Sloane, Joseph Cotten, Dorothy Comingore, George Coulouris, Agnes Moorehead, Ruth Warrick, Ray Collins, Erskine Sanford, William Alland, Paul Stewart, Fortunio Bonanova, Georgia Backus. 

Roteiro: Herman J. Mankiewicz e Orson Welles. 

Produção: Orson Welles. 

Escrever sobre Cidadão Kane é sem dúvida uma tarefa bastante complexa, já que este é considerado por muitos o filme mais importante de todos os tempos e já foi dissecado por inúmeros especialistas ao longo dos anos. De qualquer forma, vou me atrever a deixar aqui registradas as minhas impressões sobre esta obra-prima. Dirigido e produzido por Orson Welles, Cidadão Kane deu ao jovem e promissor gênio de Hollywood a oportunidade de utilizar toda sua criatividade, e também toda sua excelente equipe de apoio, para criar um filme que está muitas décadas à frente de seu tempo.

Normalmente não considero correto falar sobre os bastidores de uma produção já que em nada agregam à análise do filme. Mas Cidadão Kane é uma exceção. Os bastidores do filme têm uma importância tão grande que ganharam inclusive um documentário indicado ao Oscar chamado “A Batalha por Cidadão Kane”, disponível no maravilhoso DVD Duplo do filme. Welles se tornou conhecido devido alguns trabalhos no teatro e principalmente à narração histórica de “A Guerra dos Mundos” que fez na rádio CBS causando pânico na cidade, já que as pessoas que pegaram a transmissão do meio pra frente acreditaram que a humanidade realmente estava sob o ataque de marcianos. A produtora RKO contratou Welles e lhe deu carta branca para fazer o que bem entendesse, o que era o sonho de qualquer diretor na época. Ele decidiu filmar a vida do milionário William Randolph Hearst (no filme, Charles Foster Kane), homem de sucesso no meio jornalístico e dono de um império. O resultado é uma obra que alterou o futuro do cinema e influenciou praticamente tudo que surgiu depois dela. E o curioso é que esta maravilha correu o risco de jamais chegar ao público, já que Hearst tentou evitar o seu lançamento de todas as formas possíveis.

O filme começa com a visão da gigantesca mansão do milionário Charles Foster Kane (Orson Welles), chamada Xanadu. Já no início temos uma idéia da qualidade do trabalho de direção e de direção de fotografia da dupla Orson Welles e Gregg Toland (não por acaso creditado ao lado de Welles no fim do filme, em atitude rara de qualquer diretor). Eles filmam o império de Kane de diversos pontos de vista diferentes, mostrando jaulas com animais e o reflexo da mansão na água com barcos, mas sempre com a luz do quarto de Kane em destaque e no mesmo ponto da tela. Quando a câmera se aproxima da janela do quarto e a luz se apaga, repentinamente notamos que já estamos do lado de dentro do quarto, num trabalho genial de fotografia, direção e montagem. O milionário antes de morrer pronuncia a palavra “Rosebud” e dá inicio a uma busca por parte dos jornalistas para saber o que (ou quem?) era “Rosebud”.

O roteiro de Herman J. Mankiewicz (também creditado para Welles) é inovador e criativo, contando a história fora da ordem cronológica e sempre em círculos, voltando para o ponto onde o jornalista parou sua última conversa. Além disso, logo no início do filme temos o resumo de toda a vida de Kane através de um vídeo com transições de imagens rápidas e aparência de velho para dar um ar documental. O importante não é somente a história que será contada, mas sim a forma que será mostrada.

Mas porque Cidadão Kane é tão importante e influente? Olhando hoje, mais de seis décadas depois, podemos ter a sensação de que nada demais acontece ali. Mas é exatamente por isso que, para entender e saborear esta obra por completo, é preciso entender o contexto da época. Mankiewicz e principalmente a dupla Welles e Toland utilizaram neste filme praticamente todos os recursos técnicos e narrativos disponíveis na época. Observe por exemplo o número de vezes em que nossa noção de profundidade é enganada no filme. Na cena em que Kane tem que assinar a perda de tudo que tinha, a parede parece estar próxima devido à sombra de uma cadeira, mas na realidade está bem longe e a sala que parecia pequena se revela enorme. A janela parecia pequena e quando ele se aproxima dela percebemos que na verdade é gigante. Também existe um simbolismo nesta cena, já que Kane está sendo diminuído pela perda de seu poder. Sensacional! Outros exemplos de cenas em que os dois brincam com essa noção de profundidade são a cena dentro da Biblioteca onde o repórter vai ler sobre o Sr. Thatcher (George Coulouris) e no momento em que Susan Alexander (Dorothy Comingore) brinca com o quebra-cabeça e Kane se aproxima dela. Na primeira cena a sala não parece tão grande, mas quando o guarda vai mexer no cofre, dá a exata noção do tamanho da sala. Já na segunda cena, inicialmente a lareira ao fundo parece normal, mas quando Kane se aproxima acaba revelando o tamanho real dela.

Esta inovação na forma de filmar se deu devido ao uso do foco em toda a cena, e não somente onde acontece a ação principal como era costume na época. Ao filmar desta forma, Welles e Toland nos permitem observar ações que acontecem no primeiro plano e também no segundo plano. Preste atenção, por exemplo, na cena onde Kane é vendido pelos seus pais ao Sr. Thatcher. Podemos observar ao mesmo tempo o diálogo entre os três no primeiro plano e, através da janela, podemos ver o menino Kane jogando bolas de neve no segundo plano. Esta técnica é utilizada por diversas vezes em Cidadão Kane. Outro exemplo da genial fotografia de Toland é a cena onde Kane, Susan, Jim Gettys (Ray Collins) e Mary Kane (Agnes Moorehead) estão discutindo na casa de Susan. Kane está nas sombras, diminuído pela situação, e quando ele resolve entrar na conversa sai das sombras e fica em foco, se agigantando na cena.

As atuações em Cidadão Kane são todas um pouco acima da média para a época, apesar de ainda manter um pouco do estilo exagerado das primeiras décadas do cinema. Orson Welles, por exemplo, está muito bem, com um sorriso permanente, típico de quem é muito autoconfiante. Este sorriso também demonstra a falsidade típica entre os homens poderosos, utilizada para conseguir favores e para alcançar seus objetivos a qualquer preço. Ao ouvir sua esposa dizer que o seu tio era o presidente dos EUA, o que ele não era, Kane sorri ironicamente e diz que este era um erro que seria reparado um dia. Este tipo de reação demonstra o tamanho da autoconfiança do personagem. A direção de Welles também ajuda a criar a imponência do personagem, já que ele deixa a câmera muitas vezes próxima ao chão, filmando Kane de baixo pra cima, dando a impressão de que ele era enorme, poderoso, imbatível. Todo o restante do elenco mantém o bom nível das atuações, com destaque para Ray Collins, como o inescrupuloso e inteligente Jim Gettys e Joseph Cotten como o amigo de Kane, Jedediah Leland. Cotten demonstra com sutileza em diversos momentos sua discordância com os métodos de Kane e durante o filme vamos percebendo que o racha entre os dois era somente questão de tempo, como na cena onde Kane apresenta um número musical para seus novos funcionários do Inquire. A feição de Leland demonstra sua desaprovação com o que estava vendo.

Outros pontos de destaque na produção são o som e os efeitos visuais. Repare como em diversos momentos o som de uma cena continua na próxima criando elipses enormes. Um exemplo disso acontece quando o Sr. Thatcher deseja feliz natal para Kane ainda criança. No plano seguinte a montagem salta muitos anos e, ao completar sua frase dizendo feliz ano novo, já o vemos bem velho enquanto Kane, agora completando 25 anos, está na Europa. Outra elipse interessante é quando a câmera foca o número 185 da casa de Susan Alexander no momento em que Emily Norton (Ruth Warrick) deixa a casa e, no plano seguinte, a entrada da casa com o número está na capa do jornal concorrente que denunciou o escândalo de Kane. Na cena da apresentação de Susan Alexander todo o som da platéia é composto por efeitos sonoros, já que não existia ninguém fisicamente ali. Já na famosa seqüência do discurso de Kane, além do som, a própria platéia foi criada a partir de desenhos e posteriormente montada na película do filme, dando aquela visão incrível de um local completamente lotado. A montagem, aliás, é outro trunfo de Cidadão Kane. Além da já citada montagem manual, que acontece em diversos momentos do filme (algumas vezes havia três ou mais takes colados manualmente no mesmo plano), a fluidez da narrativa e o ritmo sempre dinâmico do roteiro de Mankiewicz são também méritos do excelente trabalho de montagem de Robert Wise.

Corajoso e inovador, Cidadão Kane é sem dúvida um filme ímpar na história do cinema que afetou diretamente a vida daqueles que se envolveram com ele. O impressionante travelling final sobre as caixas e os bens de Kane, que sobraram amontoados em sua casa, dá a impressão em certo momento de estar sobrevoando uma grande metrópole, um império, agora decadente e abandonado. Este final reflete bem o que aconteceu na vida de Orson Welles e William Hearst após Cicadão Kane. Duas pessoas com um ego enorme e que foram destruídas após esta obra devastadora. Orson Welles nos brinda com esta obra-prima recheada de novidades técnicas e narrativas que marcaram e mudaram o cinema para sempre.

Texto publicado em 24 de Junho de 2009 por Roberto Siqueira

Enquanto isso, no mundo da bola…

Falando um pouquinho da minha outra paixão (A Adriana é mais que paixão, é o amor da minha vida), achei o nível desta Copa das Confederações bem baixo.

Eu me decepcionei com a Squadra Azzurra, atual campeã do mundo e que não mostrou nada além de um time envelhecido e fraco tecnicamente. Pior, nem no famoso estilo italiano de muita marcação e contra-ataque eles conseguiram jogar. Sou a favor do futebol ofensivo, desde que você tenha jogadores para isso. De qualquer forma, deve estar na próxima Copa e é sempre uma candidata pela tradição que tem. Nova Zelândia e Iraque nem merecem comentários. E o Egito começou como uma sensação e me impressionou bastante no primeiro jogo contra o Brasil, mas depois deixou a vaga escapar vergonhosamente para o limitadíssimo time dos Estados Unidos. Já a seleção dona da casa jogou um futebol muito fraco na estréia e depois, com a entrada de Pieenar, melhorou sensivelmente, mas não ainda ao ponto de conseguir fazer frente ao forte e acertado time de Dunga. Acho que a África do Sul de Joel Santana chegou aonde poderia chegar e já está mais do que satisfeita.

A final deve ser mesmo entre Brasil e Espanha, estas sim duas seleções de nível e que talvez sejam as melhores do mundo no momento. Este confronto será um teste verdadeiro para sabermos a força desta seleção de Dunga. Acho que o estilo de jogo do Brasil se encaixa contra a Espanha, já que eles atacam bastante. O problema é que os espanhóis normalmente têm uma posse de bola muito superior aos adversários, e por isso oferecem poucas chances para o contra-ataque, que é o que o time de Dunga faz melhor. De qualquer forma, provavelmente teremos um grande jogo no próximo domingo, e que com certeza vale a pena parar pra assistir. Depois dele assista um bom filme, seu domingo será completo. 😉

Um abraço.

“Caixinha de Surpresas”

Escrevi o post acima no dia 23 de Junho, porém devido alguns problemas em minha internet não consegui enviar a tempo. E pra surpresa geral, o “limitadíssimo” time dos Estados Unidos surpreendeu novamente e eliminou a badalada Espanha. Quebrei a cara, tudo bem. Mas é exatamente por isso que o futebol é emocionante, é um esporte imprevisível. Caminho livre para o Brasil levar o caneco (não aprendi a lição?!). Por outro lado, fico triste, pois entendo que Brasil x Espanha seria um jogo muito mais atraente do que o repeteco Brasil x EUA.

Confederations Cup

Texto publicado em 24 de Junho de 2009 por Roberto Siqueira

E O VENTO LEVOU (1939)

(Gone With the Wind)

4 Estrelas

 

Videoteca do Beto #1

Vencedores do Oscar #1939

Dirigido por Victor Fleming.

Elenco: Clark Gable, Vivien Leigh, Leslie Howard, Hattie McDaniel, Olivia de Havilland e Thomas Mitchell.

Roteiro: Sidney Howard, baseado em livro de Margaret Mitchell. 

Produção: David O. Selznick. 

Dirigido por quatros pessoas diferentes e com uma duração que praticamente bate nas quatro horas, a trajetória de Scarlett O’Hara firmou-se como um épico grandioso com imagens belíssimas e uma linda trilha sonora, marcando a história do cinema, mesmo que em diversos momentos seja melodramático demais. A superprodução de David O. Selznick muitas vezes lembra as telenovelas que ainda fazem sucesso nos dias de hoje, com atuações caricatas e situações escancaradamente óbvias, com a importante diferença de que este filme é de 1939. Para entender sua importância é preciso saber que na época em que foi feito o cinema era deste modo, com atuações exageradas, cheias de caras e bocas e normalmente com um roteiro óbvio, meio auto-explicativo, para que as pessoas pudessem entender corretamente o filme.

Scarlett O’Hara (Vivien Leigh) era a menina mimada que sonhava casar-se com Ashley Wilkes (Leslie Howard). Adorada por praticamente todos os homens de sua comunidade, só não conseguia o amor da pessoa que realmente a interessava. Ao saber que seu amado iria se casar, Scarlett parte para tentar conquistá-lo, sem sucesso. Ao receber o convite para morar junto com ele e sua esposa em Atlanta ela deixa Tara, sua terra natal, para viver uma odisséia cheia de dificuldades, em um período de guerra entre o norte e o sul dos EUA, e paralelamente a tudo isto, um romance com o igualmente interesseiro Rett Butler (Clark Gable). A primeira etapa do filme se concentra basicamente na decadência de Tara e da família O’Hara e a segunda se concentra na relação entre Scarlett e Butler e no estudo da personalidade de Scarlett O’Hara.

O roteiro de Sidney Howard apresenta diálogos bem interessantes, apesar da obviedade de algumas situações como duas mortes idênticas, em que a segunda delas se torna totalmente previsível, e de incluir momentos melodramáticos e desnecessários como a cena em que Butler volta de Londres. O destaque fica por conta dos diálogos envolvendo Scarlett, sempre egoísta e mimada, e Butler, sempre sarcástico. A conversa dos dois na Biblioteca após a revelação dela para Ashley é no mínimo muito bem humorada. Além disso, algumas frases ditas por Scarlett são muito bem sacadas e explicam a idolatria que a personagem teria em sua época, representando a força da mulher que hoje já podemos ver em praticamente todos os setores da sociedade, mas que naquele tempo soavam bastante ousadas. Frases como “Acho que cometi um assassinato, mas não vamos pensar nisso hoje, só amanhã” e “Ashley vai voltar. Vamos plantar mais algodão, o preço vai disparar” são momentos sensacionais que demonstram como Scarlett era ao mesmo tempo uma mulher egoísta e, por outro lado, extremamente ousada e independente.

A atuação de Vivien Leigh é bem exagerada, com mudanças constantes de humor e feição, como na cena em que sua amiga Melanie (Olivia de Havilland) pede para que ela cuide de seu marido caso ela morra no parto. Repare como ela muda repentinamente de um rosto triste para um rosto alegre, sem muita elegância na transição. Isto não deve ser um demérito para a atuação dela, já que na época, como já dito, era bem comum este tipo de atuação. Além disso, seu carisma nos faz ter uma identificação com o personagem, mesmo sabendo que Scarlett não é necessariamente um exemplo a ser seguido. Ela é egoísta, ambiciosa além do limite, deseja o marido da melhor amiga e faz qualquer negócio, inclusive casar três vezes sem amor, para atingir seus objetivos. Mesmo assim o espectador acaba torcendo por ela, o que é mérito da atuação carismática de Vivien. Clark Gable se destaca como o irônico Butler. Repare como ele sorri sutilmente nas inúmeras vezes em que irrita Scarlett e como demonstra com fervor sua dor quando perde alguém importante em sua vida. Já Hattie McDaniel, apesar de também ter uma atuação bastante caricata como Mammy, consegue destaque também por se tornar uma personagem extremamente simpática e importante na trama.

Mas é a direção (que teve o crédito final para Victor Fleming) e a trilha sonora de Max Steiner que realmente se destacam neste imponente épico. Com planos belíssimos e enquadramentos perfeitos, o diretor cria imagens de grande impacto como o impressionante travelling sobre os homens mortos na guerra terminando com o plano da bandeira dos EUA. Destaca-se também a cena da fuga de Atlanta com a cidade em chamas, criada a partir de um incêndio real dos estúdios onde foram filmadas cenas de King Kong, e que por isso, consegue obter tamanho realismo. Além disso, os planos sempre procuram valorizar os belos cenários e paisagens, criando um visual esplêndido. A trilha sonora, que praticamente não para durante toda a projeção, além de bela, tem papel fundamental na trama marcando momentos importantes da estória. Observe como nos três principais momentos do filme o conjunto cenário, movimento de câmera e trilha sonora é exatamente idêntico. Além disso, o tema das cenas é o mesmo: a terra. Não é por acaso. O diretor cria ali momentos crucias da trama, interligados exatamente por serem idênticos. No primeiro deles o pai de Scarlett, Gerald O’Hara (Thomas Mitchell), explica a importância da terra para ela. A árvore, a vista, o movimento da câmera se afastando deles e a belíssima trilha sonora marca o momento. Na segunda cena, Scarlett jura jamais passar fome em sua terra com o mesmo cenário de fundo, a mesma árvore, o mesmo movimento de câmera e a mesma trilha. E na última delas, ela volta para Tara e promete se reerguer, próxima da mesma árvore, com o mesmo travelling, no mesmo cenário e com a mesma belíssima e famosa trilha.

A direção de fotografia de Ernest Haller e Ray Rennahan acertadamente destaca em diversos momentos o vermelho, cor da paixão, tão presente na vida daquelas pessoas, fosse ela paixão por alguma pessoa ou pela terra em que viveram. Na cena em que Scarlett e Butler dançam em um salão os dois estão de preto, destoando de todo o resto, simbolizando o quanto eles são diferentes daquelas pessoas. A direção de arte também consegue criar um cenário marcante, com a ajuda dos figurinos, com vestidos característicos da época vistos na festa inicial do filme.

Com planos belíssimos e cenas memoráveis, E o Vento Levou marca pela imponência em uma época onde obras grandiosas eram raridades. Apesar de escorregar em momentos exageradamente melosos, consegue criar empatia com o espectador e marcar aqueles que assistem. Não à toa resistiu ao tempo e se tornou um dos grandes clássicos da história do cinema.

Texto publicado em 23 de Junho de 2009 por Roberto Siqueira

Submarino.com.br

PERFUME: A HISTÓRIA DE UM ASSASSINO (2006)

(Perfume: The Story of a Murderer)

5 Estrelas

Filmes em Geral #1

Dirigido por Tom Tykwer.

Elenco: Ben Whishaw, Dustin Hoffman, Alan Rickman, Karoline Herfurth, Rachel Hurd-Wood, Ramón Pujol, Corinna Harfouch e a voz de John Hurt.

Roteiro: Andrew Birkin, Tom Tykwer e Bernd Eichinger, baseado em livro de Patrick Süskind.

Produção: Bernd Eichinger.

Captar em imagens e som o sentido do olfato sempre foi um grande desafio para o cinema e conseguir realizar este feito é apenas um dos diversos pontos positivos deste grande filme, dirigido por Tom Tykwer.

Adaptado do livro homônimo de Patrick Süskind, o roteiro de Andrew Birkin, Bernd Eichinger e do próprio Tom Tykwer narra à estória de Jean-Baptiste Grenouille (Ben Whinsaw). Nascido em Paris no período pré-revolução industrial e abandonado pela mãe ainda bebê, descobriu muito jovem que contava com um olfato extremamente aguçado, uma capacidade ímpar de distinguir os mais diversos odores mesmo que estivesse distante deles. Inconformado após não conseguir manter o cheiro que mais lhe atraiu em sua vida, ele decidiu tentar aprender as técnicas para captar e preservar os cheiros que quisesse. Após passar por um período de aprendizado com o decadente perfumista Giuseppe Baldini (Dustin Hoffman), parte em busca de experimentar as técnicas que aprendeu na tentativa de manter os mais diversos odores, inclusive de seres humanos.

Logo no inicio somos apresentados ao ambiente hostil em que Grenouille cresceu. Sempre com a câmera próxima, Tykwer nos mostra inicialmente imagens de peixes dilacerados, ratos e toda sujeira da feira livre de Paris, o que faz o espectador imaginar e praticamente sentir o péssimo odor daquele local. Para demonstrar o poder do olfato de Grenouille, ele faz travellings através dos objetos e pessoas, como na cena em que ele sente pela primeira vez o cheiro de uma bela moça. A câmera chega tão próxima das pessoas que praticamente entra dentro delas. A fotografia nesta primeira etapa da vida de Grenouille é suja, sempre com cores tristes como cinza e marrom predominando na tela. Os figurinos sem vida e a atmosfera suja da cidade ajudam a criar este clima triste nesta etapa do filme. Quando ele deixa Paris e parte para cumprir sua missão a fotografia se torna mais alegre, com cores vivas predominando como o verde.

A atuação de Ben Whishaw é bem convincente, demonstrando a obsessão de Grenouille em aprender a explorar melhor o seu talento. Repare como ele repete em tom baixo os nomes até então desconhecidos que o famoso perfumista Baldini pronuncia em seu treinamento, como quem tenta memorizar algo que lhe é novo. Abandonado pela mãe e odiado pelas outras crianças em sua infância, ele se torna um adulto que mal consegue viver em sociedade, vendo o mundo de uma forma totalmente diferente das outras pessoas. Na verdade ele não só vê o mundo, ele sente o mundo através de seu olfato. Quando é vendido a Baldini ele sorri sutilmente no canto da boca, demonstrando satisfação contida por atingir seu objetivo. Este mesmo sorriso aparece na cena em que o cachorro de uma de suas vitimas reconhece o cheiro de sua dona nas mãos de Grenouille, comprovando que sua técnica obteve sucesso. Dustin Hoffman também está bem como o famoso e ultrapassado perfumista Baldini. Ao conseguir a fórmula que procurava através de Grenouille ele dispensa o rapaz sem ao menos experimentar o resultado final, mas quando ele sai, repare na feição do ator demonstrando enorme prazer e satisfação por ter em suas mãos o perfume desejado. Neste momento, o movimento de câmera ao redor de Baldini com flores ao fundo e música nos dá a exata sensação de prazer que ele sente, numa escolha acertada do diretor. Alan Rickman tem uma atuação segura como Antoine Richis, o pai da moça que Grenouille busca para completar sua obra.

Ao deixar Baldini e partir para uma nova etapa de sua vida, Grenouille passa a buscar os 13 componentes que precisa para criar a fórmula perfeita, baseada no cheiro de corpos femininos. Só que para manter o cheiro das belas moças ele precisa matá-las. E assim como John Doe em Se7en, Grenouille acredita que sua obra tem uma importância muito maior do que as pessoas que precisam ser sacrificadas por ela. O filme aqui já apresenta um clima mais próximo do que o título sugere, criando momentos de enorme tensão e expectativa, como na cena que se passa nos jardins do palácio e principalmente no excelente plano onde podemos ver Grenouille à espera da filha de Antoine Richis que se aproxima, em uma das escuras vielas de Paris. Veja como o perfeito enquadramento do plano nos permite acompanhar os lentos passos da moça e observar ao mesmo tempo as reações dele à sua espera.

Mas é o final do filme que o eleva ao status de grande obra, ao abrir uma série de questões e possibilidades (e se você ainda não viu o filme pare por aqui). Seria Grenouille um anjo (ou um salvador), enviado para libertar as pessoas de seus medos e pudores? Repare como todos aqueles que se despedem dele acabam ficando mais tristes, e muitos deles inclusive morrem. Sua presença, e principalmente a presença de sua obra, libertou as pessoas para uma nova realidade de prazer e realização, como na surreal cena de sexo entre milhares de pessoas ao ar livre. Reforça esta tese o fato de Grenouille não possuir cheiro, como ele mesmo nota em certo momento. Além disso, Grenouille tem um comportamento atípico desde o seu nascimento, resistindo a uma séria de ataques de outras crianças de forma incomum. E quando deixa este mundo, o faz de maneira igualmente atípica, simplesmente desaparecendo. Outro ponto de vista é de que Grenouille sequer teria existido, sendo apenas um mito criado em torno dos assassinatos ocorridos na cidade e que acabou ganhando o status de lenda para algumas pessoas daquela comunidade, como apresentado através da voz do narrador (John Hurt, excelente, assim como em Dogville). Desta forma, criam-se duas correntes: uma daqueles que acreditam que Grenouille existiu, fez a fórmula perfeita, inspirou o sexo em massa e desapareceu. E outra daqueles que acham que ele jamais existiu, que nada daquilo realmente aconteceu e que as moças foram assassinadas por outra pessoa, que teria sido justamente enforcada, num paralelo interessante com o que acontece hoje em dia com Jesus Cristo, que também jamais teve cientificamente sua existência comprovada.

Misturando momentos de tensão com metáforas e simbolismos, Perfume é um filme acima da média que abre diversas possibilidades de interpretação de forma inteligente, o que é sempre interessante para aqueles que buscam mais do que apenas entretenimento no cinema.

Perfume

Texto publicado em 22 de Junho de 2009 por Roberto Siqueira

Organizando o Blog

Como disse em meu primeiro post, tenho a intenção de aprender mais sobre cinema e venho trabalhando neste sentido nos últimos meses. Além de fazer o curso de linguagem e crítica cinematográfica do crítico de cinema Pablo Villaça em São Paulo, estou lendo muito sobre o assunto recentemente. Comprei meu primeiro livro sobre cinema este mês (As Principais Teorias do Cinema, de J. Dudley Andrew) e estou pesquisando na internet para entender movimentos importantes como expressionismo alemão, Dogma 95, etc… Outra forma que encontrei de treinar e aprender mais sobre o cinema foi a própria criação deste blog, onde pretendo debater diversos assuntos e divulgar minhas críticas sobre filmes para que eu possa evoluir e quem sabe um dia me tornar um crítico de cinema de alto nível.

Sendo assim, preciso organizar em minha mente e no próprio blog a forma que irei divulgar minhas críticas sobre os filmes que assisto. E a forma que entendi ser a mais justa de avaliar os filmes é assistir minha coleção de DVD’s em ordem cronológica, escrevendo sobre todos os filmes que tenho independente de ser um clássico do cinema ou um filme sem nenhum prestígio. Assim, posso acompanhar a evolução do cinema e entender a importância de certos filmes em sua época. Aqui no blog esta será a categoria “Videoteca do Beto” – sim, meu apelido é este! ;). Vale ressaltar que o número de seqüência do filme na categoria representa apenas a ordem em que escrevi as críticas, servindo até como uma referencia histórica. Por exemplo, a primeira crítica que escreverei será a do filme “E o Vento Levou” (categoria Videoteca do Beto #1), o que não quer dizer que seja o filme número um em minha preferência.

Como não tenho muitos filmes antigos (vocês vão reparar que o salto dos anos 40 para os anos 80 será muito rápido), será necessário alugar outros filmes do mesmo período daqueles que tenho para poder ter uma visão melhor do que era produzido na época. Para consolidar meu crescimento como crítico, precisarei também ver o maior número de filmes possível de qualquer época. Além disso, não posso deixar de acompanhar o que vem acontecendo atualmente e muito menos deixar de ir ao cinema, e por isso, sempre que eu escrever sobre algum filme que não seja da minha videoteca este pertencerá à categoria “Filmes em Geral”. Aqui também se aplica o raciocínio da categoria Videoteca do Beto, ou seja, o filme #1 não necessariamente será o meu favorito.

Finalmente, como tenho certa atração por premiações mesmo sabendo que elas não significam muita coisa, pretendo discuti-las sempre que acontecerem e a forma que encontrei de homenagear os vencedores de prêmios (mesmo que alguns deles não mereçam) é escrever críticas dos vencedores da categoria melhor filme na principal premiação do cinema mundial, estabelecendo assim a categoria “Vencedores do Oscar”. Nesta categoria a numeração será uma referência ao ano de produção da obra, como por exemplo, “O Poderoso Chefão” (categoria Vencedores do Oscar #1972).

É claro que não faltará no blog textos diversos sobre assuntos do cotidiano como economia, política, futebol, mas com uma freqüência muito menor do que o que é realmente o foco deste espaço, que é o cinema. Espero que este blog seja um espaço interessante para debater a sétima arte e que eu possa evoluir junto com ele e entender cada vez mais de cinema.

Um abraço e até breve.

Minha videoteca
Minha videoteca

 

 

 

 

 

Texto publicado em 21 de Junho de 2009 por Roberto Siqueira