(Citizen Kane)


Videoteca do Beto #2
Dirigido por Orson Welles.
Elenco: Orson Welles, Everett Sloane, Joseph Cotten, Dorothy Comingore, George Coulouris, Agnes Moorehead, Ruth Warrick, Ray Collins, Erskine Sanford, William Alland, Paul Stewart, Fortunio Bonanova, Georgia Backus.
Roteiro: Herman J. Mankiewicz e Orson Welles.
Produção: Orson Welles.
Escrever sobre Cidadão Kane é sem dúvida uma tarefa bastante complexa, já que este é considerado por muitos o filme mais importante de todos os tempos e já foi dissecado por inúmeros especialistas ao longo dos anos. De qualquer forma, vou me atrever a deixar aqui registradas as minhas impressões sobre esta obra-prima. Dirigido e produzido por Orson Welles, Cidadão Kane deu ao jovem e promissor gênio de Hollywood a oportunidade de utilizar toda sua criatividade, e também toda sua excelente equipe de apoio, para criar um filme que está muitas décadas à frente de seu tempo.
Normalmente não considero correto falar sobre os bastidores de uma produção já que em nada agregam à análise do filme. Mas Cidadão Kane é uma exceção. Os bastidores do filme têm uma importância tão grande que ganharam inclusive um documentário indicado ao Oscar chamado “A Batalha por Cidadão Kane”, disponível no maravilhoso DVD Duplo do filme. Welles se tornou conhecido devido alguns trabalhos no teatro e principalmente à narração histórica de “A Guerra dos Mundos” que fez na rádio CBS causando pânico na cidade, já que as pessoas que pegaram a transmissão do meio pra frente acreditaram que a humanidade realmente estava sob o ataque de marcianos. A produtora RKO contratou Welles e lhe deu carta branca para fazer o que bem entendesse, o que era o sonho de qualquer diretor na época. Ele decidiu filmar a vida do milionário William Randolph Hearst (no filme, Charles Foster Kane), homem de sucesso no meio jornalístico e dono de um império. O resultado é uma obra que alterou o futuro do cinema e influenciou praticamente tudo que surgiu depois dela. E o curioso é que esta maravilha correu o risco de jamais chegar ao público, já que Hearst tentou evitar o seu lançamento de todas as formas possíveis.


O filme começa com a visão da gigantesca mansão do milionário Charles Foster Kane (Orson Welles), chamada Xanadu. Já no início temos uma idéia da qualidade do trabalho de direção e de direção de fotografia da dupla Orson Welles e Gregg Toland (não por acaso creditado ao lado de Welles no fim do filme, em atitude rara de qualquer diretor). Eles filmam o império de Kane de diversos pontos de vista diferentes, mostrando jaulas com animais e o reflexo da mansão na água com barcos, mas sempre com a luz do quarto de Kane em destaque e no mesmo ponto da tela. Quando a câmera se aproxima da janela do quarto e a luz se apaga, repentinamente notamos que já estamos do lado de dentro do quarto, num trabalho genial de fotografia, direção e montagem. O milionário antes de morrer pronuncia a palavra “Rosebud” e dá inicio a uma busca por parte dos jornalistas para saber o que (ou quem?) era “Rosebud”.


O roteiro de Herman J. Mankiewicz (também creditado para Welles) é inovador e criativo, contando a história fora da ordem cronológica e sempre em círculos, voltando para o ponto onde o jornalista parou sua última conversa. Além disso, logo no início do filme temos o resumo de toda a vida de Kane através de um vídeo com transições de imagens rápidas e aparência de velho para dar um ar documental. O importante não é somente a história que será contada, mas sim a forma que será mostrada.


Mas porque Cidadão Kane é tão importante e influente? Olhando hoje, mais de seis décadas depois, podemos ter a sensação de que nada demais acontece ali. Mas é exatamente por isso que, para entender e saborear esta obra por completo, é preciso entender o contexto da época. Mankiewicz e principalmente a dupla Welles e Toland utilizaram neste filme praticamente todos os recursos técnicos e narrativos disponíveis na época. Observe por exemplo o número de vezes em que nossa noção de profundidade é enganada no filme. Na cena em que Kane tem que assinar a perda de tudo que tinha, a parede parece estar próxima devido à sombra de uma cadeira, mas na realidade está bem longe e a sala que parecia pequena se revela enorme. A janela parecia pequena e quando ele se aproxima dela percebemos que na verdade é gigante. Também existe um simbolismo nesta cena, já que Kane está sendo diminuído pela perda de seu poder. Sensacional! Outros exemplos de cenas em que os dois brincam com essa noção de profundidade são a cena dentro da Biblioteca onde o repórter vai ler sobre o Sr. Thatcher (George Coulouris) e no momento em que Susan Alexander (Dorothy Comingore) brinca com o quebra-cabeça e Kane se aproxima dela. Na primeira cena a sala não parece tão grande, mas quando o guarda vai mexer no cofre, dá a exata noção do tamanho da sala. Já na segunda cena, inicialmente a lareira ao fundo parece normal, mas quando Kane se aproxima acaba revelando o tamanho real dela.


Esta inovação na forma de filmar se deu devido ao uso do foco em toda a cena, e não somente onde acontece a ação principal como era costume na época. Ao filmar desta forma, Welles e Toland nos permitem observar ações que acontecem no primeiro plano e também no segundo plano. Preste atenção, por exemplo, na cena onde Kane é vendido pelos seus pais ao Sr. Thatcher. Podemos observar ao mesmo tempo o diálogo entre os três no primeiro plano e, através da janela, podemos ver o menino Kane jogando bolas de neve no segundo plano. Esta técnica é utilizada por diversas vezes em Cidadão Kane. Outro exemplo da genial fotografia de Toland é a cena onde Kane, Susan, Jim Gettys (Ray Collins) e Mary Kane (Agnes Moorehead) estão discutindo na casa de Susan. Kane está nas sombras, diminuído pela situação, e quando ele resolve entrar na conversa sai das sombras e fica em foco, se agigantando na cena.


As atuações em Cidadão Kane são todas um pouco acima da média para a época, apesar de ainda manter um pouco do estilo exagerado das primeiras décadas do cinema. Orson Welles, por exemplo, está muito bem, com um sorriso permanente, típico de quem é muito autoconfiante. Este sorriso também demonstra a falsidade típica entre os homens poderosos, utilizada para conseguir favores e para alcançar seus objetivos a qualquer preço. Ao ouvir sua esposa dizer que o seu tio era o presidente dos EUA, o que ele não era, Kane sorri ironicamente e diz que este era um erro que seria reparado um dia. Este tipo de reação demonstra o tamanho da autoconfiança do personagem. A direção de Welles também ajuda a criar a imponência do personagem, já que ele deixa a câmera muitas vezes próxima ao chão, filmando Kane de baixo pra cima, dando a impressão de que ele era enorme, poderoso, imbatível. Todo o restante do elenco mantém o bom nível das atuações, com destaque para Ray Collins, como o inescrupuloso e inteligente Jim Gettys e Joseph Cotten como o amigo de Kane, Jedediah Leland. Cotten demonstra com sutileza em diversos momentos sua discordância com os métodos de Kane e durante o filme vamos percebendo que o racha entre os dois era somente questão de tempo, como na cena onde Kane apresenta um número musical para seus novos funcionários do Inquire. A feição de Leland demonstra sua desaprovação com o que estava vendo.


Outros pontos de destaque na produção são o som e os efeitos visuais. Repare como em diversos momentos o som de uma cena continua na próxima criando elipses enormes. Um exemplo disso acontece quando o Sr. Thatcher deseja feliz natal para Kane ainda criança. No plano seguinte a montagem salta muitos anos e, ao completar sua frase dizendo feliz ano novo, já o vemos bem velho enquanto Kane, agora completando 25 anos, está na Europa. Outra elipse interessante é quando a câmera foca o número 185 da casa de Susan Alexander no momento em que Emily Norton (Ruth Warrick) deixa a casa e, no plano seguinte, a entrada da casa com o número está na capa do jornal concorrente que denunciou o escândalo de Kane. Na cena da apresentação de Susan Alexander todo o som da platéia é composto por efeitos sonoros, já que não existia ninguém fisicamente ali. Já na famosa seqüência do discurso de Kane, além do som, a própria platéia foi criada a partir de desenhos e posteriormente montada na película do filme, dando aquela visão incrível de um local completamente lotado. A montagem, aliás, é outro trunfo de Cidadão Kane. Além da já citada montagem manual, que acontece em diversos momentos do filme (algumas vezes havia três ou mais takes colados manualmente no mesmo plano), a fluidez da narrativa e o ritmo sempre dinâmico do roteiro de Mankiewicz são também méritos do excelente trabalho de montagem de Robert Wise.


Corajoso e inovador, Cidadão Kane é sem dúvida um filme ímpar na história do cinema que afetou diretamente a vida daqueles que se envolveram com ele. O impressionante travelling final sobre as caixas e os bens de Kane, que sobraram amontoados em sua casa, dá a impressão em certo momento de estar sobrevoando uma grande metrópole, um império, agora decadente e abandonado. Este final reflete bem o que aconteceu na vida de Orson Welles e William Hearst após Cicadão Kane. Duas pessoas com um ego enorme e que foram destruídas após esta obra devastadora. Orson Welles nos brinda com esta obra-prima recheada de novidades técnicas e narrativas que marcaram e mudaram o cinema para sempre.
Texto publicado em 24 de Junho de 2009 por Roberto Siqueira