IRREVERSÍVEL (2002)

(Irreversible) 

5 Estrelas 

Filmes em Geral #6

Dirigido por Gaspar Noé.

Elenco: Monica Bellucci, Vincent Cassel, Albert Dupontel, Philippe Nahon, Jo Prestia, Stéphane Drouot, Mourad Khima, Jean-Luis Costes e Gaspar Noé.

Roteiro: Gaspar Noé.

Produção: Christophe Rossignon.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Poucas vezes me senti tão angustiado e incomodado por um período tão longo de tempo durante um filme como nesta impressionante obra dirigida pelo argentino Gaspar Noé. Durante 54 minutos somos bombardeados com uma dose cavalar de agonia e pura tensão, causando quase uma sensação de taquicardia. Poucas vezes também me senti tão impotente e incapaz, já que no decorrer da estória, meu coração ia se acalmando pelo ritmo cada vez menos angustiante da narrativa, mas sempre com o pensamento cruel de que o destino daquelas pessoas era irreversível.

Alex (Monica Bellucci) é a atual namorada de Marcus (Vincent Cassel) e ex-namorada de Pierre (Albert Dupontel). Os três convivem numa boa, apesar de esporádicas demonstrações de ciúme – como numa conversa dentro do metrô – até que um crime brutal altera o destino de todos eles para sempre.

Surpreendente desde o início, Irreversível apresenta os créditos da produção antes mesmo da primeira cena e, posteriormente, narra de forma invertida (do final pra o início) como uma pessoa normal pode se transformar no mais cruel assassino quando impulsionado pela paixão e pelo desejo de vingança. Ao percorrer este caminho, o espectador será surpreendido com duas cenas violentas, chocantes e incrivelmente realistas e terminará com a estranha sensação de alívio pelo que vê, misturada com uma angústia pelo que ele sabe que irá acontecer na vida daquelas pessoas.

Os primeiros minutos de Irreversível são muito difíceis de suportar, em grande parte por mérito de Noé, que utiliza uma câmera inquieta, que se movimenta aleatoriamente, fazendo até mesmo círculos e chegando a ficar de ponta-cabeça, além de diversas vezes utilizar um close em lâmpadas acesas que contrasta fortemente com o escuro ambiente. Auxiliado pelo ótimo trabalho de som, que simula o barulho de uma sirene aumentando e diminuindo o volume, e pela fotografia avermelhada, o espectador tem uma crescente sensação de náuseas que faz a cena parecer um pesadelo. Contribui também o ambiente extremamente pesado e incomodo dentro de uma boate gay, com cenas explícitas e uma linguagem extremamente ofensiva. Esta inquietação reflete também o estado mental de Marcus, que está completamente atordoado, fora de si. O diretor também demonstra sua capacidade ao controlar esta angústia que o espectador sente, diminuindo esta sensação na medida em que o filme vai passando (e a estória vai voltando). Noé é responsável também, ao lado de Benoît Debie, pelo excelente trabalho de direção de fotografia que é extremamente importante durante todo o filme, refletindo o estado psicológico dos personagens. Após o início obscuro e avermelhado, a fotografia passa a ser grossa e granulada na cena do ataque dentro da boate, o que ilustra bem o ambiente sujo e o momento obscuro que Marcus e Pierre estão vivendo. Já quando eles são perseguidos por travestis, a câmera de mão (handycam) cria o ar documental necessário à cena, o que a torna muito mais realista e tensa. Na casa de Alex e Marcus a fotografia é mais limpa, destacando a cor branca, e a câmera já se movimenta lentamente, o que nos dá uma sensação de paz. A trilha sonora também é extremamente diferente ao longo do filme, mudando de uma trilha pesada e alta no inicio (e até mesmo na festa heterossexual) para uma música romântica e lenta no lar do casal. Gradualmente o filme vai retirando aquele clima tenso e o trabalho em conjunto de direção, montagem e direção de fotografia é diretamente responsável por isto. Finalmente, Noé é inteligente até em pequenos detalhes, como nos interessantes movimentos de câmera em que ele circula objetos (sirene e a mangueira no jardim) no sentido anti-horário, o que é coerente com a narrativa que volta no tempo. A excelente montagem (também responsabilidade de Noé) acerta ao separar a narrativa em grandes blocos, o que evita confundir demais o espectador, já preocupado em remontar a história em sua cabeça. Completando o excelente trabalho técnico, podemos destacar o extraordinário resultado alcançado pelos efeitos visuais, como na cena do ataque com o extintor que cria o rosto do ator sendo massacrado com perfeição.

O excelente roteiro, escrito pelo próprio Noé, tem trechos sutis que refletem no restante da narrativa, como a cena em que Alex diz para Pierre que para ela o importante é saber que está dando prazer para o homem numa relação sexual. Obviamente as palavras dela devem ser corretamente interpretadas, já que na cena mais violenta do filme ela claramente só tem dor (física e psicológica). Em outro momento, Alex conta sobre o livro que está lendo, dizendo que o futuro já está definido e não temos o que fazer a respeito, numa clara alusão à própria estória contada pelo filme. O livro também diz que os sonhos revelam parte deste futuro, o que tem relação com o sonho de Alex sobre o túnel vermelho que se divide em dois. O roteiro coeso também serve de base para as impecáveis interpretações do elenco. Vincent Cassel explora muito bem a enorme transformação de Marcus. Típico machão, ele bebe muito e paquera todas as mulheres em uma festa, mas por outro lado, quando está normal, é um cara atencioso, carinhoso e engraçado. Ele não pensa duas vezes na hora de trair Alex no banheiro desta mesma festa, e ao mesmo tempo, vai até o fim do mundo em busca de vingança quando sua mulher é violentada. Quando Marcus vê Alex ensangüentada (em um incrível trabalho de efeitos visuais), por exemplo, o som do coração e o zoom da câmera refletem a angústia dele e a realista reação de Cassel é extremamente bem captada pelo close de Noé. Observe como ele estava bebendo água e sorrindo e, ao ver Alex, sua mudança no rosto causa um enorme impacto, complementada pelo seu comovente e angustiante choro, jogado em cima dela. Um pequeno detalhe nesta cena mostra como julgamos por aparências, quando uma pessoa comenta: “uma prostituta foi estuprada”. Alex não é prostituta, só estava no lugar errado na hora errada.

Pierre, interpretado com competência por Albert Dupontel, é o oposto do descolado Marcus. Centrado e inseguro, consegue o carinho de Alex, mas talvez pela diferença de gostos entre os dois (ela adora dançar e ele não gosta, por exemplo) não conseguiu manter o seu namoro com ela, se tornando “apenas um amigo”. Observe como Dupontel é hábil ao demonstrar que ainda é apaixonado por Alex através de pequenos detalhes como o seu jeito tímido de dançar com ela na festa, como se evitasse um contato maior para evitar ceder à paixão, e a frase preocupada (“É imprudência!”) que só falamos para pessoas que temos carinho, quando ela está saindo da festa. Pierre é também o personagem que tomará a mais surpreendente atitude, mostrando que até mesmo o mais centrado dos homens pode perder a cabeça em algum momento de sua vida. A cena do extintor é com certeza uma das cenas mais violentas e angustiantes que já presenciei em um filme. Completando o elenco principal, Monica Bellucci oferece uma interpretação segura como Alex, e é o grande destaque do longa. Observe a sutileza com que ela diz para uma amiga na festa que está vivendo um momento especial em sua vida. Posteriormente saberemos que ela está grávida, mas a dica já foi dada aqui. Quando faz o teste de gravidez, ela sai do banheiro lentamente, senta, coloca a mão na boca e, levantando os olhos, dá um sorriso. Ainda com a mão na boca, Bellucci dá um suspiro, apóia os cotovelos no joelho e pensa, olhando para o nada. Lentamente ela vai mudando para um olhar mais sério e uma feição de quem está pensativa, demonstrando que está ciente da grande mudança que estaria para acontecer na sua vida. Esta detalhada composição de Bellucci mostra o misto de alegria e preocupação tão comum neste momento. Em seguida ela acaricia a barriga, num movimento típico de quem sabe que está carregando um filho. Mas é na longa e angustiante cena do estupro que Bellucci demonstra todo o seu talento. Cometendo um erro típico das pessoas que estão com raiva, Alex age sem pensar e sai sozinha da festa, recusando o pedido do embriagado Marcus de acompanhá-la. E neste caminho ela irá encontrar o cruel destino que infelizmente estava reservado pra ela. Confesso que mesmo com a absurda cena do extintor, o momento que mais me incomodou foi esta longa cena do estupro, este crime abominável que é cometido contra a mulher. Nesta cena Noé fixa a câmera no chão, como se nós fossemos testemunhas impotentes do terrível ato de violência. E a interpretação de Bellucci é simplesmente perfeita, com as mãos trêmulas, os gritos e os olhos arregalados nos transmitindo com perfeição o tamanho de sua dor e desespero.

O final de Irreversível causa um interessante contraste de sentimentos no espectador. Ao ver Alex com a mão na barriga, Noé faz um travelling que passa pelo quadro de “2001 – Uma Odisséia no espaço”, numa alusão ao filme de Kubrick, que pode ser interpretada como uma referência ao ser que está sendo criado dentro da barriga dela, assim como o bebê do quadro. A referência se repetirá no final com as imagens em preto e branco piscando na tela, o que remete a outro momento de 2001, com a diferença de que lá eram imagens psicodélicas. Ao sair pela janela, o plano termina no jardim, com Alex lendo o citado livro e muitas crianças correndo em volta dela. A fotografia é colorida (toalha laranja, grama verde) e a câmera começa a girar no sentido horário em volta da mangueira, como se fosse o relógio voltando para a realidade. Esta bela cena nos causa uma sensação de alívio, ao ver aquela moça em paz, sonhando com o futuro, num ambiente tão tranqüilo. Porém, as imagens em preto e branco e a frase final “O tempo destrói tudo” nos faz voltar para a triste realidade, lembrando que o final daquela estória era mesmo irreversível. Alex, Pierre e Marcus teriam suas vidas destruídas em ambientes semelhantes, dentro de um corredor vermelho (eles quando entram no Rectum e ela quando entra na passagem subterrânea) e nós não podemos fazer nada a respeito.

Extremamente incômodo e desagradável, Irreversível é o tipo de filme que dificilmente queremos ver novamente. Ao mesmo tempo, é um exemplo claro de que um filme pode ser competente sem necessariamente ser agradável. O impacto provocado pelas cenas realistas, a qualidade das interpretações e a ótima direção nos garantem um filme impecável, que nos obriga refletir sobre importantes questões, mesmo que utilize o choque para isto. É inevitável o sentimento de desconforto quando o filme termina, mas com o passar do tempo, percebemos que é inegável também a grande qualidade da obra.

Irreversivel 

Texto publicado em 17 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira

ROCKY, UM LUTADOR (1976)

(Rocky)

5 Estrelas 

Filmes em Geral #5

Vencedores do Oscar #1976

Videoteca do Beto #18 (Adquirido quando a Videoteca estava no filme #17; crítica já havia sido publicada na categoria “Filmes em Geral”).

Dirigido por John G. Avildsen.

Elenco: Sylvester Stallone, Talia Shire, Burt Young, Carl Weathers, Burgess Meredith, Thayer David, Joe Spinell, Jimmy Gambina, Bill Baldwin Sr. e Jodi Letizia.

Roteiro: Sylvester Stallone.

Produção: Robert Chartoff e Irwin Winkler.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quantas pessoas gostariam de ter uma chance na vida de mostrar o seu verdadeiro potencial e jamais conseguiram, somente porque a nossa sociedade e o nosso modo de viver raramente oferecem esta oportunidade? A tocante história do lutador amador que recebe a oportunidade de sua vida ao enfrentar o campeão mundial nos abre a possibilidade de refletir sobre este tema e observar como uma pessoa comum pode se tornar um verdadeiro campeão na vida, independente de ter ou não ter fama perante a sociedade. Escrito pelo próprio Sylvester Stallone, “Rocky, um Lutador” é muito mais que um filme sobre boxe, abordando questões delicadas de forma surpreendentemente competente.

Rocky Balboa (Sylvester Stallone) é um lutador amador de boxe que trabalha, paralelamente aos treinos, como cobrador (ou uma espécie de capanga) de um agiota na cidade de Filadélfia. A grande oportunidade de sua vida aparece quando o campeão mundial dos pesos-pesados Apollo Creed (Carl Weathers) decide, como uma estratégia de marketing, oferecer uma luta contra um desconhecido e Rocky é o escolhido. O “garanhão italiano”, como é chamado, decide se dedicar ao máximo para pelo menos sair do ringue ao término da luta sem ser nocauteado pelo campeão.

O grande trunfo do carismático filme é com certeza Sylvester Stallone. Escrito pelo próprio Stallone, Rocky é resultado de um projeto pessoal do astro, na época desconhecido do grande público. O roteiro trata basicamente da luta do homem comum para superar as adversidades em uma sociedade que não abre espaço para o seu crescimento. Podemos até considerar que existe um pouco da típica história americana, ou seja, se você trabalhar muito duro será um vencedor um dia. Mas a realidade do dia-a-dia daquelas pessoas é bem diferente, como podemos observar em pequenos detalhes da produção, como a vizinhança suja e arredia de Rocky e Paulie (Burt Young). Além disso, o filme conta com a segura direção de John G. Avildsen, que consegue criar alguns momentos inesquecíveis, como o treinamento de Rocky, recheado de belíssimos planos com o lutador correndo na beira da água e o sol nascendo, correndo pelo porto com o navio ancorado ao fundo e o belo plano no palácio da justiça da Filadélfia com Rocky subindo as escadarias e erguendo os braços lá em cima, com a bela cidade ao fundo. Ele também cria planos que dizem muito somente através da composição visual, como aquele em que Rocky está treinando no frigorífico ao vivo, enquanto Apollo e sua equipe (de costas para a televisão) fazem contas e debatem sobre o dinheiro ganho, demonstrando que para Apollo a luta contra Rocky é apenas um negócio menor. Ele é um astro e está mais preocupado com seus negócios do que com a luta em si, já que Rocky não é um adversário que o preocupe.

Stallone também é a grande força dentro do elenco do filme, oferecendo aquela que talvez seja a maior atuação de sua vida. Observe como ele vai dando pistas do temperamento explosivo de Rocky ao ficar irritado e começar a bater na carne crua no frigorífico ou quando ele reage e vence a primeira luta do filme. Observe como o ator soca o ar constantemente, como um lutador de boxe provavelmente faria, além de andar sempre com os ombros em movimento, como se estivesse prestes a desferir um soco em alguém. Além disso, ao ficar socando o ar ele também demonstra a determinação de Rocky em alcançar o seu objetivo na luta contra Apollo. Stallone também fala sempre com a boca mole, refletindo a personalidade de Rocky, que é alguém com pouco recurso intelectual, como ele mesmo diz na bela cena da patinação com Adrian. Até mesmo em cenas bem humoradas ele demonstra talento (em certo momento ele aperta uma carne crua e faz Mooo!). Repare como ele dá um leve sorriso ao ouvir as piadas de Apollo na televisão, e nem mesmo quando Paulie o repreende, dizendo que Apollo está tirando uma com a cara dele, ele para de sorrir, demonstrando que mal percebe o que está acontecendo, além de mostrar sua admiração pelo campeão. Rocky é um ser puro, simples e direto, que exatamente por ser assim, tem enorme dificuldade para viver em uma sociedade hipócrita e cheia de regras de comportamento. Finalmente, duas cenas refletem bem o talento de Stallone na composição deste personagem icônico em Hollywood. Na primeira delas, Rocky tenta conversar com Adrian, mas ela fica trancada no quarto e ele tem que falar com a porta. Stallone reflete bem o embaraço de Rocky, olhando para Paulie e depois pra baixo, indo e voltando em direção à porta e falando meio sem jeito com a garota, demonstrando sua hesitação e desconforto ao ter que passar por aquilo. A outra cena é quando Rocky discute com Mickey (Burgess Meredith). Ao ver Mickey sair, ele fica gritando e olhando para a porta com o canto do olho, demonstrando a revolta de Rocky com a vida que ele teve. Ele balança o corpo e soca a porta, explodindo em raiva quando Mickey sai, já que naquele momento Rocky estava expondo toda a dor que sentia por não ter conseguido o sucesso que seu talento permitia.

Talia Shire também tem uma grande atuação formando o par perfeito com Rocky. Nos primeiros contatos que ela tem com ele, na loja de animais, ela sorri de canto de boca com as piadas do rapaz, além de olhar quase sempre pra baixo, demonstrando a enorme timidez de Adrian. Ela só olha pra Rocky quando ele não está olhando pra ela. Na linda cena do primeiro beijo, observe como ela se entrega lentamente, recusando inicialmente o contato com ele até lentamente ir cedendo à paixão. O desajeitado beijo é extremamente realista e reflete a enorme dificuldade que aquelas duas pessoas têm de se relacionar com alguém. Burgess Meredith também está bem, demonstrando sua raiva por saber que Rocky desperdiçou a chance de ser alguém na vida, como ele deixa claro na discussão dentro da academia. O fracasso de Rocky reflete o próprio fracasso de Mickey, que também é uma pessoa amarga por não ter sido alguém no boxe, como ele deixa claro na discussão com Rocky na casa dele. Observe como nesta cena ele range os dentes, grita com raiva e olha sempre com os olhos arregalados, refletindo muito bem a ira do personagem. Carl Weathers está bastante caricato como o campeão mundial Apollo Creed, mais parecendo um astro pop entrando no palco do que um lutador de boxe entrando no ringue, provocando risos inclusive na equipe de seu adversário com a imitação de George Washington na luta final. Em todo caso, não compromete o filme. Burt Young completa o elenco principal como Paulie, o amigo fiel e explosivo de Rocky.

A dura caminhada do boxeador para chegar ao sucesso é extremamente bem refletida pelo bom trabalho técnico do filme. A começar pela direção de fotografia de James Crabe, que destaca propositalmente cores como o marrom e o preto, e cria muitos ambientes escuros. O filme se passa a maior parte do tempo à noite, refletindo a vida daquelas pessoas amarguradas e à margem da hipócrita sociedade, que parece se recusar a aceitar que existem pessoas que não são felizes com suas vidas e sequer tem a chance de mudar esta situação. Quando Rocky aconselha uma garota a parar de fumar e ficar por aí na rua até tarde, ela diz que ele não é ninguém pra falar isso pra ela. A trilha sonora toca o tema principal do filme com uma melodia lenta e triste, refletindo o momento de Rocky, que é mergulhado nas sombras da rua. Ele ficou mal com as palavras da garota, e o visual da cena, reforçado pela trilha sonora, reflete este estado psicológico do personagem. A excelente direção de arte de James H. Spencer cria ruas sujas, cheias de lixo e com paredes pichadas, mostrando um submundo de pessoas que vivem uma realidade muito diferente daquela pregada pelo “american way of life”. A casa de Rocky reflete bem sua decadência como pessoa. Observe o colchão rasgado perto da parede, as coisas bagunçadas, as paredes descascadas e a janela pichada. Ele não tem dinheiro pra nada. Os figurinos de Robert Cambel e Joanne Hutchinson colaboram na criação deste ambiente, com roupas pouco coloridas e sem vida. A trilha sonora, famosa nos dias de hoje, é muito empolgante. A música tema é cheia de energia e casa muito bem com a força do personagem. Finalmente, o trabalho de montagem de Scott Conrad e Richard Halsey mantém a narrativa sempre atraente ao focar a vida pessoal de Rocky (e não as lutas de boxe), além de colaborar com perfeição em dois momentos memoráveis do filme: o treinamento e a luta final.

Canalizando toda a frustração de sua vida para dentro do ringue, o lutador amador consegue transformar aquela simples luta em um verdadeiro embate entre as pessoas comuns e aquelas que têm o poder. Ao olhar para Rocky no ringue, a maioria dos espectadores reconhece características próprias e este é o segredo da empatia do personagem com a platéia (além é claro do carisma de Stallone). Torcemos loucamente pelo seu sucesso, mesmo sabendo da enorme dificuldade que ele precisa enfrentar para alcançá-lo. O filme acerta em cheio no realismo da luta final, já que Rocky, mesmo derrubando o campeão, perde por pontos após lutar todos os rounds. Seria difícil mesmo ele vencer o campeão mundial, mas a forma como é derrotado se torna uma vitória pessoal pra ele e, conseqüentemente, para o espectador também. O seu grito por Adrian no final da luta mostra o quanto ela foi importante para que ele buscasse forças e alcançasse seu objetivo, numa das mais belas cenas do filme.

Mostrando com extremo realismo como as pessoas comuns precisam lutar constantemente neste mundo que oferece tão poucas oportunidades para alcançar seus objetivos, “Rocky, um Lutador” consegue ser direto e ao mesmo tempo tocante. Com um personagem principal extremamente carismático, simples e inocente, mas cheio de força e garra, outros personagens muito bem desenvolvidos e boas interpretações, consegue se estabelecer como um filme maduro, que ultrapassa a barreira do esporte e simboliza a luta de toda uma vida. 

Texto publicado em 13 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira

MONTY PYTHON – EM BUSCA DO CÁLICE SAGRADO (1975)

(Monty Python and the Holy Grail)

5 Estrelas 

Filmes em Geral #118

Filmes Comentados #4 (Comentários transformados em crítica em 02 de Dezembro de 2013)

Dirigido por Terry Gilliam e Terry Jones.

Elenco: John Cleese, Graham Chapman, Eric Idle, Terry Gilliam, Terry Jones, Michael Palin, Coonie Booth e Carol Cleveland.

Roteiro: Graham Chapman, John Cleese, Eric Idle, Terry Gilliam e Terry Jones.

Produção: Mark Forstater e Michael White.

Em Busca do Cálice Sagrado[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Criadores e intérpretes da série cômica de enorme sucesso na televisão no final dos anos 60 intitulada como Monty Python’s Flying Circus, o Monty Python estreou no cinema com este divertido “Em Busca do Cálice Sagrado”, filme que carrega em cada fotograma as principais marcas do influente grupo britânico. Abusando da criatividade e apostando em cenas tão surreais que beiram o absurdo, o sexteto deixou sua marca eternizando um estilo autêntico de fazer comédia que é exaustivamente explorado (na maioria das vezes muito mal) até hoje.

Escrito por cinco dos seis integrantes clássicos do grupo e dirigido pela dupla Terry Gilliam e Terry Jones, “Em Busca do Cálice Sagrado” se passa na Inglaterra durante a Idade Média e narra a jornada do lendário Rei Arthur em busca dos famosos Cavaleiros da Távola Redonda. Após reunir todo o grupo, ele recebe a missão divina de encontrar o cálice sagrado, há muito tempo perdido em algum lugar esquecido da ilha britânica.

Por ser a primeira incursão do Monty Python no cinema (antes eles haviam apenas compilado alguns esquetes no longa “E agora para algo completamente diferente”), “Em Busca do Cálice Sagrado” não hesita em fazer inúmeras brincadeiras com a falta de recursos do projeto, numa abordagem irreverente que surge já nas legendas dos créditos iniciais e que acompanhará toda a narrativa, por exemplo, através do som da batida de metades de coco simbolizando o som dos cavalos. Além disso, Gilliam e Jones não tem medo de ousar e conduzir a narrativa de maneira nada convencional, quebrando a quarta parede em diversos momentos e brincando com a ideia do filme ser “apenas um filme”, como na piada envolvendo o cartunista e na cena final do ataque ao castelo abruptamente interrompido. Outro recurso narrativo muito bem utilizado é aquele conhecido como “dica e recompensa”, através da piada envolvendo andorinhas numa ponte já no ato final que remete ao primeiro diálogo do longa.

Já tecnicamente o longa é bem simplório. A começar pela fotografia dessaturada de Terry Bedford que, em conjunto com os uniformes dos soldados (figurinos de Hazel Pethig) e os castelos concebidos pelo design de produção de Roy Smith (na realidade, maquetes, como comenta um dos personagens), remetem a época medieval, mas sempre num tom muito mais cômico e surreal do que propriamente numa recriação que busca apoiar-se no realismo, ainda que a trilha sonora remeta às composições triunfais típicas de filmes sobre aquela época. Este surrealismo ganha ainda mais força através das animações propositalmente “toscas” que surgem durante a narrativa em diversos momentos, que também fazem piadas constantes com a falta de recursos e abusam da metalinguagem. Por outro lado, a montagem de John Hackney é essencial para que o excelente timing cômico de algumas piadas funcione, assim como é responsável pelo ritmo dinâmico que intercala as histórias dos Cavaleiros através de uma sequência inspirada de esquetes que mantém o espectador sempre interessado.

Batida de metades de cocoMorte do cartunistaAnimações propositalmente toscasAssim, o grande mérito de “Em Busca do Cálice Sagrado” fica mesmo por conta do roteiro extremamente criativo, nada convencional e recheado pelo típico humor autodepreciativo britânico (como nas muitas piadas envolvendo a histórica rivalidade entre ingleses e franceses), que fica ainda melhor graças às interpretações inspiradas de todo o elenco. Encarnando diversos papéis ao longo da narrativa, John Cleese, Graham Chapman, Eric Idle, Terry Gilliam, Terry Jones e Michael Palin se divertem enquanto protagonizam cenas antológicas, que se tornam ainda mais engraçadas pela maneira como eles pronunciam as palavras e pela imprevisibilidade que caracteriza a narrativa, que impede que o espectador antecipe o que vai acontecer. Inteligentes, os integrantes do Monty Python ensinam como utilizar o perigoso humor pastelão de maneira ousada e criativa, o que está longe de ser uma tarefa simples.

Destacar os momentos cômicos de “Em Busca do Cálice Sagrado” é tarefa hercúlea. A luta contra o temível cavaleiro negro e o ataque do coelho assassino certamente estão entre os meus favoritos, mas não posso deixar de citar o resgate repleto de piadas sexuais de Sir Gahlard num castelo repleto de mulheres, o curioso diálogo sobre as andorinhas que abre o filme, as aparições dos cavaleiros que dizem “Ní”, as perguntas que antecedem a travessia da ponte, o resgate do príncipe preso na torre e o temível monstro Aaahhhhrrrrgggghhhh.

Luta contra o temível cavaleiro negroAtaque do coelho assassinoCavaleiros que dizem “Ní”Mesmo com tantos momentos surreais, o longa não deixa de fazer interessantes críticas, como no diálogo entre o Rei Arthur e um camponês sobre o que dá direito ao Rei de comandar ou não um país, que, além de ser muito engraçado, toca em um tema bastante polêmico: a monarquia. Da mesma forma, a sequência em que uma jovem é acusada de ser bruxa demonstra como o povo medieval era ignorante (será que evoluímos?), utilizando argumentos estúpidos para condenar mulheres à morte. Morte que é utilizada durante a perseguição do monstro ao grupo, na primeira inserção de um recurso conhecido como “Deus ex-macchina”, que será essencial na piada que encerra a narrativa – e quando policiais surgem investigando os vestígios deixados por Arthur e companhia, a narrativa indica o que acontecerá no excelente final, em que as viaturas interrompem as gravações e prendem os protagonistas.

Apostando no humor irreverente que influencia muitos comediantes ainda hoje, “Em Busca do Cálice Sagrado” confirmou o enorme talento do grupo Monty Python, cravando seu nome na história do cinema. Mesmo décadas depois, o longa ainda serve como referência e deveria ser obrigatório para todo e qualquer comediante, para evitar que piadas frustrantes e sem criatividade alguma invadissem nossas vidas como acontece hoje. Não é preciso ser politicamente incorreto para ser engraçado, mas se decidir seguir por este caminho, que o faça com competência.

PS: Depois de assistir “A Vida de Brian” e “Em Busca do Cálice Sagrado” ficou evidente pra mim a influencia do grupo inglês sobre a “TV Pirata” e o “Casseta & Planeta”. Pena que os brasileiros, principalmente no segundo caso, não conseguiram realizar um trabalho do mesmo nível.

PS2: Comentários divulgados em 26 de Agosto de 2009 e transformados em crítica em 02 de Dezembro de 2013.

Em Busca do Cálice Sagrado foto 2Texto atualizado em 02 de Dezembro de 2013 por Roberto Siqueira

ROCKY BALBOA (2006)

(Rocky Balboa)

4 Estrelas 

Filmes em Geral #98

Filmes Comentados #2 (Comentários transformados em crítica em 22 de Dezembro de 2012)

Videoteca do Beto #222 (Filme comprado após ter a crítica divulgada no site e transferido para a Videoteca em 20 de Fevereiro de 2016)

Dirigido por Sylvester Stallone.

Elenco: Sylvester Stallone, Burt Young, Antonio Tarver, Milo Ventimiglia, Geraldine Hughes, Pedro Lovell, James Francis Kelly III, Tony Burton, A.J. Benza, Henry G. Sanders, Ana Gerena, Ângela Boyd, Louis Giansante, Carter Mitchell, Vinod Kumar e Robert Michael Kelly.

Roteiro: Sylvester Stallone.

Produção: William Chartoff, Kevin King, Charles Winkler e David Winkler.

Rocky Balboa[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

No sexto e último filme da série, Sylvester Stallone encerra de forma correta a saga do lutador que transformou sua vida e fez dele um dos nomes mais importantes de Hollywood entre os anos 70 e 80. Em certo momento de “Rocky Balboa”, o astro decadente reflete sua própria realidade, dando autógrafos pelas ruas e demonstrando o quanto permanece preso ao passado. E é justamente este tom melancólico que garante uma de despedida digna de Stallone para seu melhor personagem em toda a carreira.

Escrito e dirigido pelo próprio Stallone, “Rocky Balboa” nos traz seu personagem título (Sylvester Stallone) já envelhecido e distante dos dias de glória, vivendo de seu pequeno restaurante Adrian’s, batizado em homenagem à sua falecida esposa, enquanto seu filho Rocky Jr. (Milo Ventimiglia) luta para conseguir sucesso na vida profissional sem a ajuda da fama do pai. Só que uma simulação de computador feita pela ESPN coloca o atual campeão mundial dos pesos pesados Mason Dixon (Antonio Tarver) para lutar contra Rocky e gera uma enorme polêmica, chamando a atenção de empresários que, imediatamente, tentam convencer o lendário ex-lutador a voltar aos ringues.

Logo no primeiro minuto de projeção, “Rocky Balboa” evidencia seu tom nostálgico ao destacar a foto de Adrian ao lado da cama do protagonista, que, somada a versão melancólica da famosa trilha sonora de Bill Conti e a fotografia azulada de J. Clark Mathis, transmite ao espectador o mesmo sentimento de tristeza do lutador. Vivendo numa casa simples em um bairro humilde da cidade, Rocky escancara a diferença gritante de realidade entre os esportistas do passado e do presente quando comparamos suas posses com a mansão e o carro de luxo do atual campeão mundial. A partir daí, ganha espaço a eterna discussão existente em quase todos os esportes: passado versus presente. Perguntas como “Quem seria melhor?” ou “Quem venceria?” jamais encontrarão uma resposta definitiva, por isso, a comparação entre épocas é sempre um assunto polêmico e complicado. É óbvio que numa luta realizada no presente um campeão do passado não teria chances, mas se ambos estivessem no auge o vencedor poderia ser outro.

Ainda neste contexto, “Rocky Balboa” aproveita para abordar outro tema interessante, primeiro através de uma metáfora quando Rocky vai comprar um cachorro junto com Steps (James Francis Kelly III) e cada personagem defende seu ponto de vista com alguma dose de razão. O lutador opta pelo cão mais velho e experiente, contrariando o garoto que preferia o mais jovem e cheio de vitalidade. Aliás, até mesmo Steps serve para ilustrar como temos a tendência de julgar pela aparência, já que inicialmente ele parece um marginal, mas na realidade é um bom garoto. O preconceito contra a velhice surge novamente quando jornalistas dizem que Rocky venceria uma improvável luta contra Dixon e muitos respondem que ele é um velho acabado ou ainda quando Marie (Geraldine Hughes) recusa o convite para ser recepcionista do restaurante por entender que sua aparência não seria boa para o negócio dele.

Foto de AdrianRocky compra um cachorro junto com StepsJornalistas dizem que Rocky venceriaFinalmente oferecendo outra grande atuação, Stallone demonstra a falta que sente de Adrian com perfeição na tocante conversa que tem com Paulie (Burt Young) no frigorífico, quando afirma emocionado que é muito difícil conviver com a besta que existe dentro dele, convencendo também na realista discussão entre Rocky e seu filho através da oscilação do tom de voz, do olhar e das marcantes expressões faciais. Sempre com o olhar triste e amargurado, o ator retrata com competência o jeito grosseiro e encantador que o lutador tem de enfrentar a vida, jamais conseguindo esconder seus sentimentos e carregando uma simplicidade desconcertante que fica evidente na brilhante cena em que ele tenta convencer a comissão de que está em condições de voltar a lutar.

Também se destacando na citada discussão entre pai e filho, Milo Ventimiglia transmite muito bem a amargura de Rocky Jr. por ter a sombra da fama do pai sempre por perto. Mostrando-se constrangido por achar que a sombra de Rocky impede que ele evolua por conta própria, o garoto sequer consegue reagir quando os amigos assistem a luta virtual de seu pai num bar, sorrindo sem jeito enquanto todos vibram e falam com ele. Finalmente, vale citar ainda a boa participação de Burt Young, que, vivendo mais uma vez o rabugento Paulie, revela de maneira surpreendente e tocante o arrependimento dele por ter maltratado a irmã Adrian ao longo dos anos.

Besta que existe dentro deleTenta convencer a comissãoDiscussão entre pai e filhoAlém de acertar no ritmo mais lento e coerente com a proposta da narrativa, a montagem de Sean Albertson brinda novamente os fãs com uma sequência que remete a toda à saga, com Rocky correndo pelas ruas, bebendo ovos crus, socando a carne no frigorífico e chegando às escadarias do Museu de Arte da Filadélfia com a empolgante “Gonna Fly Now” tocando ao fundo. Aliás, até mesmo as músicas escolhidas por Bill Conti para a esperada luta casam bem com os personagens, com Rocky entrando no ringue ao som de Frank Sinatra enquanto Dixon escolhe um sucesso de sua época. E já que citei a luta final em que até mesmo Mike Tyson dá as caras, vale destacar a boa forma de Stallone, que colabora para tornar o confronto mais real.

Preparado com cuidado durante toda a narrativa, o grande clímax traz uma brincadeira metalinguística que evoca sentimentos intensos ao trabalhar com a memória afetiva dos fãs do lutador. E é este pequeno detalhe que faz toda a diferença e dá a dimensão da importância daquele momento. Quando o narrador diz que não acredita que vai narrar uma luta de Rocky, muito provavelmente aquele jovem ator também está querendo dizer que jamais pensou que participaria de um filme da saga, assim como boa parte da plateia imaginou que não assistiria Rocky Balboa nos cinemas novamente. Apesar de castigado pelas continuações distantes da qualidade do primeiro filme (“Rocky II – A Revanche é a exceção), um personagem importante da história do cinema está se despedindo; e todos, inclusive o espectador, sabem disso. Daí a carga emocional daquela cena e de todo o filme.

Misturando ficção e realidade, a luta carregada de energia é um dos pontos altos do filme, ainda que seja difícil de acreditar que um homem de 60 anos poderia apresentar aquele desempenho diante de um campeão mundial em plena forma. Mas este é um deslize perdoável e até mesmo compreensível, já que ninguém gostaria de ver Rocky levando uma surra sem tamanho em sua última luta.

Os créditos finais de “Rocky Balboa” trazem a imagem de dezenas de pessoas subindo às escadarias do Museu de Arte da Filadélfia e imitando os gestos de Rocky. Somente este instante já serviria para demonstrar a importância deste personagem na história recente do cinema. Goste dele ou não, é dever do bom cinéfilo respeitar personagens deste calibre.

PS: Comentários divulgados em 17 de Agosto de 2009 e transformados em crítica em 22 de Dezembro de 2012.

Rocky Balboa foto 2Texto atualizado em 22 de Dezembro de 2012 por Roberto Siqueira

PSICOSE (1960)

(Psycho)

5 Estrelas 

Obra-Prima

 

Filmes em Geral #4

Videoteca do Beto #23 (Adquirido quando a Videoteca estava no filme #22; crítica já havia sido publicada na categoria “Filmes em Geral”).

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Anthony Perkins, Janet Leigh, Martin Balsam, John Gavin, Vera Miles, Simon Oakland, Vaughn Taylor e John McIntire. 

Roteiro: Joseph Stefano, baseado em livro de Robert Bloch. 

Produção: Alfred Hitchcock. 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quando o extremamente talentoso diretor Alfred Hitchcock resolveu filmar o livro Psicose de Roberto Bloch, ele sabia exatamente o que queria: chocar a platéia. E o resultado final não poderia ter sido melhor. Ao terminar de assistir pela primeira vez este clássico do mestre do suspense, fiquei imaginando como teria sido a reação das pessoas na época de seu lançamento, há quase 50 anos atrás. Porque se em pleno ano de 2009 eu tive nada menos do que três choques de arrebentar com a espinha de qualquer um, imagina o que sentiram as pessoas que presenciaram esta maravilha do cinema na tela grande?

É praticamente impossível fazer uma crítica de Psicose sem escrever sobre trechos essenciais da narrativa. Por esta razão, peço educadamente que só leiam esta crítica se já tiverem assistido ao filme. Caso ainda não tenha visto o filme, sugiro parar a leitura por aqui e voltar somente depois de vê-lo. Ver o filme sem saber o que acontece é essencial para viver uma experiência inesquecível.

Marion Crane (Janet Leigh) é apaixonada por Sam Loomis (John Gavin), um homem que, apesar de muito trabalhador, não tem boas condições financeiras. Apesar de hesitar, ela não perde a chance de roubar 40 mil dólares de um velho rico quando esta se oferece, e foge de carro para a cidade de seu amor. Devido a uma forte chuva no caminho, ela decide parar em um Hotel para descansar. É onde conhece Norman Bates, um jovem simpático que parece ter sérios problemas com sua velha mãe. 

A narrativa de Psicose inicia focando o relacionamento amoroso de Marion e Sam, um casal apaixonado e que aparentemente enfrenta problemas para poder viver seu romance. Ele é separado e sofre com os problemas financeiros causados pela pensão. Ela sonha em casar-se, mas sabe que não poderá viver somente de amor, e precisa ajudar Sam a conquistar sua liberdade financeira. É quando a vida oferece uma chance para Marion. Mesmo sendo uma atitude perigosa e totalmente fora dos padrões morais e éticos, ela resolve arriscar e rouba 40 mil dólares que lhe foram confiados para um deposito. No caminho da fuga, ela despista um policial desconfiado e termina sua trajetória em um Hotel escondido na beira da estrada. E termina mesmo! Aqui está um dos primeiros choques que Psicose causa no espectador. Até a primeira metade da narrativa, somos levados a acreditar que a história que será contada é sobre Marion. Só que antes de uma hora de filme ela é brutalmente assassinada, naquela que se tornaria uma das cenas mais famosas do cinema, o assassinato na banheira com a trilha sonora arrepiante de Bernard Herrmann. Auxiliado pelo ótimo roteiro de Joseph Stefano, Hitchcock quebra o eixo da narrativa com brilhantismo, chocando o espectador. Uma confusão se estabelece em nossas mentes neste momento. Qual seria o rumo da história agora? A estrutura convencional dos filmes é quebrada, alterando todo o foco da narrativa. A brilhante fotografia de John L. Russel ajuda a criar um truque essencial para o suspense da trama. Observe como na famosa cena o jogo de luz e sombras esconde os traços principais do rosto da senhora Bates e a revelação de seu rosto só acontece no último ato. Desta forma, temos a dica, mas não a solução para o caso. A excelente montagem de George Tomasini também é essencial na construção do suspense. A rápida troca de imagens aumenta ainda mais o impacto da cena na banheira. Seu talento também pode ser observado na cena final, que sincroniza perfeitamente as diversas ações paralelas que culminam na monumental cena em que a identidade da assassina é revelada. Outros dois momentos são essenciais para que o espectador não descubra a solução da trama antes da hora. O primeiro deles é quando o detetive Arbogast vê a senhora Bates na janela da casa e em seguida é abordado por Norman Bates na frente do Hotel. O segundo acontece quando o xerife Chambers (John McIntire) conta para Sam e Lila (Vera Miles) que a Sra. Bates morreu há dez anos. No plano seguinte, podemos ver a porta do quarto da Sra. Bates e ouvir ela e Norman dialogando. Em seguida, vemos Norman carregando sua mãe para o porão. Apesar de jamais mostrar o rosto dela, Hicthcock praticamente anula em nossas mentes a possibilidade de Norman e sua mãe serem a mesma pessoa. O diretor cria ainda seqüências visualmente interessantes, como o corte seco do plano do ralo para o plano do olho de Marion morta. Através de um travelling, ele sai do olho da moça, passa pelo dinheiro na cômoda e termina a cena com um plano distante da casa. Este movimento não é feito à toa. O diretor quer mostrar todo o cenário do crime, para nos ambientar e relembrar tudo que está envolvido naquele assassinato.

O elenco de Psicose colabora muito para o sucesso do longa. O grande destaque fica para Anthony Perkins, que cria um Norman Bates simpático inicialmente e enigmático no final do filme. Seu olhar para baixo, as mãos cruzadas e seu gaguejar ao falar, além do sorriso contido quando conversa com Marion, demonstram a aparente timidez do rapaz e nos causa simpatia pelo personagem. É perfeitamente aceitável que um rapaz isolado do mundo fique extremamente ansioso ao se deparar com uma jovem bonita como Marion. Sentimos pena dele ao ser maltratado pela mãe e entendemos ser um rapaz muito bom quando ele oferece comida para a moça. Sua transformação ao longo da trama é gradual, mas ele nos dá dicas do que poderá acontecer. Sua reação nervosa diante da insinuação de Marion sobre uma possível internação de sua mãe e a forma com que ele responde as perguntas do detetive Arbogast (Martin Balsam) são indícios da personalidade do rapaz. É claro que são dicas praticamente imperceptíveis em um primeiro momento, já que Hitchcock jamais entregaria o segredo da trama assim de bandeja. Quando a revelação final é feita, o espanto é tão grande que o espectador se sente traído (no bom sentido é claro, já que o roteiro propositalmente nos leva a isso), já que todos os bons sentimentos que pensava ter em relação a Norman são atirados de volta contra ele. Janet Leigh também está muito bem. Observe como ela demonstra toda ambigüidade de Marion na cena do roubo, quando hesita em pegar o dinheiro por diversas vezes enquanto arruma a mala. Ela olha para o dinheiro, respira fundo, coloca roupas na mala, olha novamente, pensa mais um pouco, até que finalmente decide colocar o dinheiro na bolsa. O Sam Loomis de John Gavin é um homem sério, honesto e muito determinado. Sua reação quando o detetive pergunta se Marion está com ele e lhe conta que ela roubou o dinheiro ilustra muito bem a seriedade do personagem. Martin Balsam demonstra firmeza e determinação na busca do que aconteceu no papel do detetive Arbogast. Também se mostra alguém desconfiado nos diálogos que tem com Sam e Lila, e posteriormente com Norman, como é de se esperar na profissão dele. Podemos destacar ainda Vera Miles como Lila Crane, a determinada irmã de Marion, e Simon Oakland, como o didático (mas essencial na época) doutor Fred Richmond.

Como se o primeiro grande choque ocorrido na morte de Marion não fosse suficiente, Psicose conta ainda com mais dois momentos espetaculares que podem servir tranquilamente como inspiração para qualquer filme do gênero (e com certeza serviram ao longo dos anos). O segundo assassinato, ocorrido dentro da casa dos Bates, é um exemplo de como dirigir com perfeição uma cena de suspense. Observe como Hitchcock nos ambienta na casa primeiramente e depois nos leva lentamente através dos passos do detetive pelas escadas, aumentando a tensão nos espectadores. O silencio é a chave para o clima quase palpável de suspense. Quando ele se aproxima do quarto, a câmera muda de posição, filmando por cima e simultaneamente a escada, o detetive e a porta entreaberta do quarto da Sra. Bates. Testemunhamos em poucos segundos a porta se abrir, o reflexo da luz do quarto invadir o corredor e a assassina sair como um raio de dentro do quarto para esfaquear a vítima, ao som da trilha sonora aterrorizante. O choque é inevitável e inesquecível.

A trama caminha com consistência para o terceiro ato, onde o último choque encerrará com perfeição a obra-prima do mestre Hitchcock. As investigações levam a dupla Sam e Lila para o Hotel de Norman, onde supostamente Marion e Arbogast teriam sumido. O espectador sabe que a razão dos assassinatos não era o dinheiro, mas eles não sabem. Ao se apresentarem como um casal e hospedar-se no Hotel, a trama cria a situação ideal para o final mais que perfeito. Somos levados a imaginar que os dois vão ser as últimas vitimas da velha maluca. Até que Lila invade a casa sozinha para tentar falar com a mãe de Norman e, ameaçada pela chegada do rapaz, se esconde na escada que leva aos porões. Ela decide entrar e é exatamente ali que será revelada a grande surpresa da trama e o verdadeiro significado do nome do filme (e do livro) em uma cena absolutamente genial. O conjunto de fatos que levam à cena antológica nos causa um choque atordoante no momento em que descobrimos a verdadeira identidade da assassina. A didática explicação sobre a dupla personalidade de Norman que precede o genial encerramento do filme com ele vestido na camisa de força, era mais do que necessária na época para que as pessoas entendessem a personalidade perturbada do personagem. Talvez hoje não fosse necessária, mas retirar esta cena não tornaria de forma alguma o filme melhor.

Psicose é o cinema em seu estado puro. É a manipulação das emoções da platéia feita com competência e genialidade. É a prova real de que para ser assustador, um filme não precisa necessariamente de acordes altíssimos ou monstros aparecendo repentinamente na tela. É claro que a trilha tem participação importante no longa, mas o que nos causa medo (e não susto) é a situação em que os personagens estão envolvidos. E isto é resultado do trabalho de uma equipe competente, de atores capacitados e de um diretor genial. Não é preciso mais nada.

Texto publicado em 29 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira

BATMAN – O CAVALEIRO DAS TREVAS (2008)

(The Dark Knight) 

5 Estrelas 

Filmes em Geral #3

Dirigido por Christopher Nolan.

Elenco: Christian Bale, Heath Ledger, Aaron Eckhart, Maggie Gyllenhall, Michael Caine, Morgan Freeman, Gary Oldman, Eric Roberts, Cillian Murphy, Anthony Michael Hall, Monique Curnen, Nestor Carbonell, Joshua Harto, Melinda McCraw e Nathan Gamble. 

Roteiro: Jonathan Nolan e Christopher Nolan, baseado em estória de Christopher Nolan e David S. Goyer e nos personagens criados por Bob Kane. 

Produção: Christopher Nolan, Charles Roven e Emma Thomas. 

Cavaleiro das Trevas

Filmes baseados em heróis dos quadrinhos costumam oferecer boas produções no cinema, sejam eles mais famosos (Homem-Aranha) ou menos conhecidos por parte do grande público (V de Vingança). Melhor ainda é quando estes filmes oferecem mais do que diversão, contendo narrativas inteligentes e personagens complexos. Pois este excelente Batman – O Cavaleiro das Trevas consegue ser muito mais que apenas um filme de super-herói, alcançando um peso dramático e uma carga de tensão do mais alto nível, tornando-se um filme de ação diferenciado e acima da média. Ao contrário do visual esplendido que Tim Burton empregava em seus filmes do homem-morcego, recheado de personagens rasos e propositalmente distantes da realidade, Christopher Nolan investe no peso dramático e na ambigüidade, oferecendo personagens fascinantes e uma narrativa maravilhosa.

Desde que Batman (Christian Bale) iniciou sua luta contra o crime organizado na cidade, os criminosos não conseguem mais ter vida fácil. Com o apoio do incorruptível promotor de justiça Harvey Dent (Aaron Eckhart) e do inteligente tenente James Gordon (Gary Oldman), o misterioso homem mascarado conseguiu sucesso em sua empreitada e despertou a ira dos criminosos. Ciente do poder de inibição que o herói provoca nos criminosos, Gordon utiliza a imagem projetada no céu com freqüência para controlar o crime. Por outro lado, pessoas comuns passaram a se vestir como Batman, o que evidentemente se tornou algo perigoso, já que estas pessoas não são capacitadas para combater os perigosos criminosos. Desesperados e sem muita saída, um grupo de mafiosos aceita a proposta de um estranho homem que usa maquiagem para esconder suas cicatrizes conhecido como Coringa (Heath Ledger), que ofereceu seus serviços para eliminar o homem-morcego da cidade.

Dirigido com competência por Christopher Nolan, o filme inicia em ritmo alucinante mostrando diversas ações paralelas que formarão a base da narrativa. Auxiliado pelo excelente trabalho de montagem de Lee Smith, que consegue manter o foco em todas estas ações paralelas e este ritmo acelerado durante todo o filme sem se tornar cansativo, Nolan consegue captar a atenção do espectador e nos jogar pra dentro da trama de forma muito convincente. Além disso, o inicio consegue introduzir de maneira exemplar o personagem mais fascinante do longa, o assustador Coringa. Nolan também é competente na criação de cenas plasticamente belas, como os travellings que sobrevoam as cidades e as empolgantes seqüências de ação e perseguição. Além disso, o diretor utiliza interessantes movimentos de câmera, como podemos notar durante o diálogo entre Gordon, Dent e Batman no terraço. A excelente fotografia azulada cria um ambiente frio e assustador, além de mergulhar os personagens em sombras e escuridão por diversas vezes, refletindo muito bem o sombrio universo do super-herói amargurado. Mas, apesar de cuidar muito bem de todos estes detalhes, é no desenvolvimento de personagens que Nolan demonstra toda sua competência, extraindo atuações do mais alto nível.

Apoiando-se no excelente roteiro escrito por ele próprio e seu irmão Jonathan Nolan, o diretor consegue criar personagens complexos e carregados dramaticamente, o que é sempre um prato cheio para os grandes atores. A narrativa dos irmãos Nolan tem como tema principal o lado egoísta e cruel existente dentro de cada ser humano, apontado através dos jogos propostos pelo vilão. O roteiro também aborda com competência outros temas interessantes, como a corrupção dentro das autoridades que deveriam oferecer segurança à sociedade, além de manter o espectador sempre grudado na tela devido às surpreendentes armadilhas do Coringa. Conta ainda com bons momentos de alivio cômico como a piada dos desaparecimentos do Batman, o nome alternativo que Alfred utiliza para bebidas alcoólicas e a frase do mesmo Alfred sobre o uso do Lamborghini.

Ciente de que toda a história da origem do homem-morcego foi corretamente abordada no filme anterior (Batman Begins), Nolan aproveita para focar ainda mais no desenvolvimento de seus pergonagens, o que possibilita ao elenco de primeira grandeza oferecer performances maravilhosas. Michael Caine está muito bem novamente como Alfred, firme em seus conselhos para Bruce Wayne e com seu ótimo senso de humor. A conversa entre eles sobre o ladrão de pedras preciosas revela muito sobre a personalidade caótica do grande vilão da trama. Christian Bale tem uma boa atuação como Bruce Wayne. Sua reação à insinuação de Alfred sobre seu interesse em Rachel é notável, quando ele vira o rosto e sai evitando o olhar do amigo. Seu momento mais tocante é quando chora a perda de alguém muito importante e reflete sobre o tipo de reação que causou na sociedade quando decidiu ser o Batman. Já com a máscara do homem-morcego seu desempenho é ainda melhor. Com a voz mais grave (e distorcida na pós-produção) e com muita segurança, ele consegue criar um herói ambíguo e amargurado pelas marcas do passado, dando muito peso dramático ao personagem. Morgan Freeman faz seu papel com extrema competência mais uma vez. Repare o sorriso contido de satisfação quando Wayne lhe pede para cancelar o acordo e ele responde “Você já sabia?”. Outra grande cena é quando Reese (Joshua Harto), o consultor das empresas Wayne, ameaça revelar a identidade secreta do Batman. Ele ri com muito cinismo e dá uma resposta muito inteligente ao rapaz, que demonstra através de seu rosto o arrependimento que sentiu. Ainda nas atuações, Aaron Eckhart também merece destaque como o promotor Harvey Dent. Seu arco dramático é incrível, transformando seu personagem de uma pessoa séria e comprometida com a causa para um vingador implacável e cruel que não tem mais código ético e moral após o duro golpe que sofreu. Sua transformação no vilão “Duas-Caras” é extremamente competente e tem total coerência com a narrativa, tornando o personagem mais próximo da realidade, o que o aproxima do público. Dent acaba se tornando o personagem símbolo da ideologia do vilão, que tenta provar que todos nós temos um lado mais obscuro. O momento da revelação de seu rosto é uma grande cena do filme. Interessante notar como a moeda utilizada por Dent se torna ainda mais simbólica após a tragédia que destruiu a vida do personagem, com o lado queimado passando a simbolizar a morte. Impressionante também é a comovente reação de Eckhart quando nota a moeda em seu leito.  Maggie Gyllenhall, apesar de não conseguir criar empatia com Christian Bale, consegue sucesso em sua relação com Eckhart, destacando-se na dramática cena em que aceita se casar com Dent. Gary Oldman completa o qualificado elenco de apoio oferecendo uma boa atuação, com destaque para a cena final do filme, quando demonstra sua aflição de forma muito convincente.

Entre tantas boas performances, uma chamou a atenção em particular. A histórica atuação de Heath Leadger compôs um personagem fascinante e temível. O Coringa dele é alguém sem apego a dinheiro ou regras, que tenta provar que no fundo de sua alma todo ser humano tem seu lado ruim e cruel. Sua intenção é provar que, quando colocadas em alguma situação de risco, as pessoas sempre tentarão salvar a própria pele, como fica evidente na cena dos barcos e em sua engraçada metáfora com os cães de um mafioso. Seu plano lembra por muitas vezes o de John Doe em Se7en, já que ambos não têm mais esperança no ser humano. Incrível como ele trabalhou em cada pequeno detalhe de sua atuação. Observe o tique da língua saindo da boca e os olhos nunca fixos, que demonstram a personalidade psicótica do rapaz. Repare o jeito de andar encurvado, o cabelo bagunçado, a voz anasalada, além é claro do rosto de palhaço extremamente realista, fruto do grande trabalho de maquiagem. A oscilação nada comum de seu senso de humor manifestada através das risadas estridentes e gritos que alternam repentinamente para um tom de voz baixo. Em momentos de extrema tensão ele mantém o controle dos nervos como se não tivesse nada a perder, como na cena em que, com um policial como refém, pede tranquilamente pra fazer uma ligação. Seu bom humor é irônico, e ele demonstra isso com competência, por exemplo, quando chama Rachel de gatinha e ajeita seu cabelo ou quando diz para Batman que ele escolheu as palavras incorretas. Seu momento mais genial é o diálogo com Batman dentro da sala de entrevistas da cadeia, revelando a parte cruel de seu plano e causando a ira em seu oponente (em bom momento de Bale que explode em cena). Nesta cena você pode notar todos os detalhes citados acima em Ledger, além de descobrir que na realidade o Coringa respeita o Batman e entende que eles são dependentes um do outro, pensamento este que fica evidente minutos depois, quando pede em público a morte de um determinado cidadão. Nota-se também nesta cena a excelente composição visual de Nolan, filmando no primeiro plano o comissário correndo pra abrir a porta e no segundo plano o irritado Batman indo trancá-la, ao som da risada do Coringa.

O trabalho técnico do filme também é extremamente competente. Desde a trilha sonora típica de filmes de ação, pesada e com picos de volume para criar tensão, até os espetaculares trabalhos de som e efeitos sonoros, capazes de captar cada pequeno detalhe como o som do pescoço do Coringa estalando e da capa do Batman voando. Os efeitos especiais trabalham para ajudar o filme (e não se tornam a razão de ser dele), como podemos notar nos perfeitos ferimentos no rosto do Duas-Caras e nas maravilhosas seqüências de ação.

Com um ou outro escorregão típico dos arrasta-quarteirões norte-americanos, como a cena do tribunal que faz uma piada patriota sobre armas e a eficiente contagem de votos nos barcos (engraçado como um país tão ineficiente na contagem de votos tenha uma contagem tão rápida), o filme consegue um peso dramático e um terceiro ato capaz de desnortear qualquer um. O diálogo entre Batman e Dent, logo após este último ameaçar de matar um esquizofrênico, revela muito sobre a linha de raciocínio da dupla Coringa e Batman e o que está em jogo. Dent não poderia sujar sua imagem de incorruptível perante a sociedade, ele era o herói que Gotham precisava naquele momento. E a decisão final do homem-morcego de assumir os crimes de outra pessoa e manchar de vez sua reputação naquela sociedade demonstra sua nobreza e seu comprometimento com a causa, jamais levando o crédito pra si mesmo em prol da criação de um mito que ajude na defesa contra o crime organizado. Um herói capaz de uma decisão pesada, cruel e altruísta como esta demonstra sua magnitude e grandeza. Grande também é o filme de Nolan, adulto, pesado e extremamente complexo.

Utilizando os personagens dos quadrinhos como fio condutor de uma produção ambiciosa e oferecendo uma narrativa brilhante e repleta de detalhes, Batman – O Cavaleiro das Trevas é um filme acima da média, com uma atuação antológica e outras muito competentes, que levam o espectador a um enorme cansaço emocional devido à carga psicológica envolvida na trama. Quem dera todo filme de ação tivesse como base para explosões e perseguições uma narrativa tão coesa e complexa como esta. Esta é uma franquia que tem muito ainda a oferecer. Robin, Pingüim, Charada, entre outros, são personagens que podem render outros excelentes roteiros. Espero que venham mais ótimos filmes como estas duas produções de Nolan.

Coringa

Texto publicado em 24 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira

MARLEY & EU (2008)

(Marley & Me) 

4 Estrelas

 

Filmes em Geral #2

Dirigido por David Frankel.

Elenco: Owen Wilson, Jennifer Aniston, Alan Arkin, Eric Dane, Kathleen Turner, Haley Bennett, Haley Hudson, Tom Irwin, Alec Mapa, Joyce Van Patten, Sandy Martin, Nathan Gamble, Finley Jacobsen e Lucy Merrian. 

Roteiro: Scott Frank e Don Roos, baseado em livro de John Grogan. 

Produção: Gil Netter e Karen Rosenfelt. 

Quando decidi assistir Marley & Eu cometi um erro que jamais deveria ao subestimar o filme antes mesmo de assisti-lo por puro preconceito. Pensei se tratar de mais um filme bobo sobre cachorros super inteligentes que praticamente eram seres humanos, como nos acostumamos a ver ao longo dos anos. Logo na primeira cena, a excelente piada sobre o cão tranqüilo que passeia com o dono me alertou para me despir do preconceito e assistir ao filme com outros olhos. Lição aprendida. Marley & Eu consegue sair da mesmice ao utilizar o cão apenas como instrumento para uma análise mais interessante do amadurecimento do casal principal e a construção de sua família.

John (Owen Wilson) e Jennifer (Jennifer Aniston) são recém-casados, acabaram de comprar um imóvel e trabalham como jornalistas na Flórida, para onde se mudaram recentemente. Ela é muito bem sucedida profissionalmente e ele ainda busca a felicidade neste campo de sua vida. Indeciso quanto a ser pai, John aceita a sugestão de seu amigo Sebastian (Eric Dane) e decide comprar um cachorro de presente para sua esposa. A partir deste momento, o cotidiano do casal ao lado do cachorro servirá de pano de fundo para uma análise mais profunda sobre a evolução da vida dos dois, os sonhos, as frustrações e as realizações de ambos. É claro que o animal de estimação tem papel fundamental na trama, influenciando a vida do casal em diversos momentos, mas de uma forma bem próxima daquilo que acontece no dia a dia de qualquer pessoa que tenha um animal de estimação. Eles não são tão importantes quanto os seres humanos, mas fazem parte das famílias pelo mundo afora.

O trabalho técnico no filme é discreto e competente. Observe por exemplo como a fotografia destaca a cor branca na cena pós-casamento, representando visualmente a paz de espírito do casal naquele momento. As penas brancas flutuando completam esta composição visual e encerram muito bem a cena. Observe como o visual muda completamente quando a trama chega a Florida, destacando cores vivas, que representam a alegria de uma cidade litorânea no verão. O que não posso considerar discreta é a montagem do filme, que em pelo menos duas vezes nos apresenta momentos muito interessantes. Para demonstrar a passagem do tempo na vida do casal, acompanhamos a leitura de um texto de John sobre seu dia a dia com Marley, enquanto a espetacular montagem demonstra visualmente o que o texto diz com imagens que mudam em uma velocidade impressionante. Também merecem destaque as excelentes músicas que tocam no filme.

O roteiro baseado no livro de John Grogan é previsível. Confesso que em poucos minutos de trama eu já imaginei o que aconteceria e acertei em cheio. Isso não desqualifica o trabalho de Scott Frank e Don Ross, já que a trama não deixa de ser interessante em nenhum momento. O foco aqui não é saber o que vai acontecer, e sim a forma como aquelas pessoas vão reagindo aos acontecimentos. Incomoda um pouco a típica mensagem do sonho americano, ou seja, se você se esforça e trabalha muito vai ter sucesso, o que não é uma verdade absoluta no mundo de hoje. (se não viu o filme, pule para o próximo parágrafo). Quanto ao final previsível, trata-se de uma tragédia anunciada. Não por falha do roteiro, mas pelo simples fato de que os cães vivem muito menos que os seres humanos. Na própria vida real as pessoas se recusam a aceitar que, inevitavelmente, um dia isso acontecerá com aquele animal que preencheu tantos vazios ao longo de sua jornada. Conseguir tratar este assunto de forma adulta e sem muitos melodramas é um ponto muito positivo para Marley & Eu.

Owen Wilson tem uma atuação muito irregular, explorando muito pouco o arco dramático que o personagem oferece. Nada o abala. Diversos acontecimentos bons, ruins, de extrema alegria e a mais cruel tristeza acontecem com ele e as reações de John são sempre extremamente frias. Ele é inerte a tudo, é uma pessoa insegura e indecisa. Observe por exemplo com na marcante cena do ultra-som ele reage como se nada tivesse acontecido, assim como sua reação ao saber que Jennifer está grávida é assustadoramente fria. Já nos momentos em que seu personagem demonstra certa inquietação e tristeza por não saber o que quer da vida ele consegue um bom resultado, como nas conversas com seu chefe Arnie Klein (Alan Arkin). Por outro lado, Jennifer Aniston (uma atriz que admiro muito desde os tempos de Friends) oferece um desempenho digno da grande atriz que é. Na mesma cena do ultra-som, podemos notar a diferença de reação entre os atores, com a emoção extremamente humana que Jennifer transmite na cena em um choro contido, mas muito tocante. (se não viu o filme, pule este parágrafo também) Quando Marley está doente, repare como ela abraça carinhosamente o cão e chora ao colocá-lo no carro, pressentindo o que está para acontecer. Seu choro contido vai aumentando gradativamente, transmitindo emoção ao espectador sem apelar para uma atuação exagerada. Já Alan Arkin tem atuação discreta como o chefe de redação de John, com alguns ótimos momentos de bom humor como na despedida de John de seu jornal. Finalmente, Eric Dane faz seu papel de forma correta como o eterno solteirão Sebastian.

Uma agradável surpresa é a boa direção de David Frankel. Utilizando a criatividade, ele consegue compor planos interessantes sem que soem deslocados ou vazios. Ele utiliza por diversas vezes um leve travelling da direita para a esquerda durante as conversas do casal, mantendo o foco no diálogo sem utilizar cortes e closes, o que sempre é interessante. No momento em que Marley dispara em uma corrida pela praia, Frankel faz um excelente travelling acompanhando o cachorro, em uma bela composição visual. Ele também cria uma inteligente elipse através do som, em determinado momento que a palavra incorrigível é pronunciada. É verdade que o treinamento de Marley nunca nos convence de que ele vai aprender algo (e aqui Kathleen Turner tem uma atuação pífia como a Sra. Kornblut) e que em diversos momentos duvidamos da enorme paciência que o casal tem com o rebelde cachorro. Somente depois de muito tempo é que Jennifer explode e se rebela contra o furacão chamado Marley, já demonstrando a mudança em sua personalidade, agora alterada pela vida. Ela já não trabalha mais e passa o dia inteiro cuidando da casa e das crianças. Aqui Jennifer Aniston tem outro momento brilhante, demonstrando claramente o incômodo que Jennifer sente por ter mudado tanto sua vida ao longo dos anos, o que é muito comum na maioria das mulheres que largam o emprego para cuidar dos filhos.

Utilizando o cachorro de estimação como fio condutor das mudanças ocorridas na vida do casal, Marley & Eu é na realidade um belo estudo de dois personagens. John, que era um homem sem ambição, indeciso e inseguro, evolui e se torna um profissional de sucesso e um verdadeiro pai de família. Este amadurecimento fica evidente quando John encontra o amigo Sebastian pelas ruas de Filadélfia. A conversa entre eles e a forma como o amigo aborda duas mulheres depois que eles se despedem serve para lembrar John o quanto ele amadureceu durante os últimos anos de sua vida. Jennifer também passa por transformações, mudando de profissional de sucesso e realizada para uma mãe pouco confortável em sua nova realidade. E acompanhando todo este processo estava Marley, “o pior cão do mundo”. Em um momento tocante do filme, Jennifer percebe que sua família havia começado com ele. E é interessante pensar como todo animal de estimação normalmente acompanha a evolução de seus donos, e quando eles se vão, parte da vida de seus donos vai com eles também.

Conseguindo ser emocionante sem apelar para melodramas, Marley & Eu se destaca pela forma adulta que encara o animal de estimação. Marley não é superdotado, não é extremamente inteligente e sequer é obediente. Sua virtude é apenas ser parte de uma família, um animal de estimação normal, como todos os outros. E é aí que mora seu encanto, na identificação que a maioria das pessoas tem com ele enquanto assistem ao filme.

Marley & Eu 

 Texto publicado em 06 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira

PERFUME: A HISTÓRIA DE UM ASSASSINO (2006)

(Perfume: The Story of a Murderer)

5 Estrelas

Filmes em Geral #1

Dirigido por Tom Tykwer.

Elenco: Ben Whishaw, Dustin Hoffman, Alan Rickman, Karoline Herfurth, Rachel Hurd-Wood, Ramón Pujol, Corinna Harfouch e a voz de John Hurt.

Roteiro: Andrew Birkin, Tom Tykwer e Bernd Eichinger, baseado em livro de Patrick Süskind.

Produção: Bernd Eichinger.

Captar em imagens e som o sentido do olfato sempre foi um grande desafio para o cinema e conseguir realizar este feito é apenas um dos diversos pontos positivos deste grande filme, dirigido por Tom Tykwer.

Adaptado do livro homônimo de Patrick Süskind, o roteiro de Andrew Birkin, Bernd Eichinger e do próprio Tom Tykwer narra à estória de Jean-Baptiste Grenouille (Ben Whinsaw). Nascido em Paris no período pré-revolução industrial e abandonado pela mãe ainda bebê, descobriu muito jovem que contava com um olfato extremamente aguçado, uma capacidade ímpar de distinguir os mais diversos odores mesmo que estivesse distante deles. Inconformado após não conseguir manter o cheiro que mais lhe atraiu em sua vida, ele decidiu tentar aprender as técnicas para captar e preservar os cheiros que quisesse. Após passar por um período de aprendizado com o decadente perfumista Giuseppe Baldini (Dustin Hoffman), parte em busca de experimentar as técnicas que aprendeu na tentativa de manter os mais diversos odores, inclusive de seres humanos.

Logo no inicio somos apresentados ao ambiente hostil em que Grenouille cresceu. Sempre com a câmera próxima, Tykwer nos mostra inicialmente imagens de peixes dilacerados, ratos e toda sujeira da feira livre de Paris, o que faz o espectador imaginar e praticamente sentir o péssimo odor daquele local. Para demonstrar o poder do olfato de Grenouille, ele faz travellings através dos objetos e pessoas, como na cena em que ele sente pela primeira vez o cheiro de uma bela moça. A câmera chega tão próxima das pessoas que praticamente entra dentro delas. A fotografia nesta primeira etapa da vida de Grenouille é suja, sempre com cores tristes como cinza e marrom predominando na tela. Os figurinos sem vida e a atmosfera suja da cidade ajudam a criar este clima triste nesta etapa do filme. Quando ele deixa Paris e parte para cumprir sua missão a fotografia se torna mais alegre, com cores vivas predominando como o verde.

A atuação de Ben Whishaw é bem convincente, demonstrando a obsessão de Grenouille em aprender a explorar melhor o seu talento. Repare como ele repete em tom baixo os nomes até então desconhecidos que o famoso perfumista Baldini pronuncia em seu treinamento, como quem tenta memorizar algo que lhe é novo. Abandonado pela mãe e odiado pelas outras crianças em sua infância, ele se torna um adulto que mal consegue viver em sociedade, vendo o mundo de uma forma totalmente diferente das outras pessoas. Na verdade ele não só vê o mundo, ele sente o mundo através de seu olfato. Quando é vendido a Baldini ele sorri sutilmente no canto da boca, demonstrando satisfação contida por atingir seu objetivo. Este mesmo sorriso aparece na cena em que o cachorro de uma de suas vitimas reconhece o cheiro de sua dona nas mãos de Grenouille, comprovando que sua técnica obteve sucesso. Dustin Hoffman também está bem como o famoso e ultrapassado perfumista Baldini. Ao conseguir a fórmula que procurava através de Grenouille ele dispensa o rapaz sem ao menos experimentar o resultado final, mas quando ele sai, repare na feição do ator demonstrando enorme prazer e satisfação por ter em suas mãos o perfume desejado. Neste momento, o movimento de câmera ao redor de Baldini com flores ao fundo e música nos dá a exata sensação de prazer que ele sente, numa escolha acertada do diretor. Alan Rickman tem uma atuação segura como Antoine Richis, o pai da moça que Grenouille busca para completar sua obra.

Ao deixar Baldini e partir para uma nova etapa de sua vida, Grenouille passa a buscar os 13 componentes que precisa para criar a fórmula perfeita, baseada no cheiro de corpos femininos. Só que para manter o cheiro das belas moças ele precisa matá-las. E assim como John Doe em Se7en, Grenouille acredita que sua obra tem uma importância muito maior do que as pessoas que precisam ser sacrificadas por ela. O filme aqui já apresenta um clima mais próximo do que o título sugere, criando momentos de enorme tensão e expectativa, como na cena que se passa nos jardins do palácio e principalmente no excelente plano onde podemos ver Grenouille à espera da filha de Antoine Richis que se aproxima, em uma das escuras vielas de Paris. Veja como o perfeito enquadramento do plano nos permite acompanhar os lentos passos da moça e observar ao mesmo tempo as reações dele à sua espera.

Mas é o final do filme que o eleva ao status de grande obra, ao abrir uma série de questões e possibilidades (e se você ainda não viu o filme pare por aqui). Seria Grenouille um anjo (ou um salvador), enviado para libertar as pessoas de seus medos e pudores? Repare como todos aqueles que se despedem dele acabam ficando mais tristes, e muitos deles inclusive morrem. Sua presença, e principalmente a presença de sua obra, libertou as pessoas para uma nova realidade de prazer e realização, como na surreal cena de sexo entre milhares de pessoas ao ar livre. Reforça esta tese o fato de Grenouille não possuir cheiro, como ele mesmo nota em certo momento. Além disso, Grenouille tem um comportamento atípico desde o seu nascimento, resistindo a uma séria de ataques de outras crianças de forma incomum. E quando deixa este mundo, o faz de maneira igualmente atípica, simplesmente desaparecendo. Outro ponto de vista é de que Grenouille sequer teria existido, sendo apenas um mito criado em torno dos assassinatos ocorridos na cidade e que acabou ganhando o status de lenda para algumas pessoas daquela comunidade, como apresentado através da voz do narrador (John Hurt, excelente, assim como em Dogville). Desta forma, criam-se duas correntes: uma daqueles que acreditam que Grenouille existiu, fez a fórmula perfeita, inspirou o sexo em massa e desapareceu. E outra daqueles que acham que ele jamais existiu, que nada daquilo realmente aconteceu e que as moças foram assassinadas por outra pessoa, que teria sido justamente enforcada, num paralelo interessante com o que acontece hoje em dia com Jesus Cristo, que também jamais teve cientificamente sua existência comprovada.

Misturando momentos de tensão com metáforas e simbolismos, Perfume é um filme acima da média que abre diversas possibilidades de interpretação de forma inteligente, o que é sempre interessante para aqueles que buscam mais do que apenas entretenimento no cinema.

Perfume

Texto publicado em 22 de Junho de 2009 por Roberto Siqueira