A VIDA É BELA (1997)

(La Vita è bella)

5 Estrelas 

Obra-Prima

Videoteca do Beto #169

Vencedores do Oscar #1998* (FILME ESTRANGEIRO)

* Estreou na Itália em 1997, mas só concorrereu ao Oscar em 1999, porque foi lançado comercialmente nos Estados Unidos apenas em 1998.

Dirigido por Roberto Benigni.

Elenco: Roberto Benigni, Nicoletta Braschi, Giorgio Cantarini, Giustino Durano, Sergio Bini Bustric, Marisa Paredes, Horst Buchholz, Lidia Alfonsi, Giuliana Lojodice, Amerigo Fontani, Pietro De Silva, Francesco Guzzo e Raffaella Lebboroni.

Roteiro: Vincenzo Cerami e Roberto Benigni.

Produção: Gianluigi Braschi e Elda Ferri. John M. Davis (versão dublada em inglês).

A Vida é Bela[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Conhecido no Brasil por ter vencido o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro num ano em que tínhamos um filme com possibilidades reais na disputa (o ótimo “Central do Brasil”, de Walter Sales), “A Vida é Bela” ganhou a antipatia de muitos brasileiros – e a performance exagerada de Roberto Benigni na cerimônia após vencer injustamente o Oscar de Melhor Ator não contribuiu em nada para melhorar esta situação. No entanto, misturar a premiação com a análise do filme é um erro que jamais devemos cometer, não apenas por fugir dos aspectos cinematográficos da obra como também por permitir que elementos superficiais interfiram neste processo e nos levem a cometer injustiças. Pois a verdade é que “A Vida é Bela” é um grande filme, digno de todos os elogios e prêmios que recebeu e capaz de levar as lágrimas o mais durão dos espectadores.

Escrito, estrelado e dirigido pelo próprio Roberto Benigni, “A Vida é Bela” evidencia sua atmosfera fabulesca desde os primeiros segundos quando uma voz solene (do próprio protagonista) anuncia que acompanharemos a história de Guido (Roberto Benigni), um homem de descendência judaica que vive no interior da Itália e acaba se apaixonando pela bela Dora (Nicoletta Braschi), a professora da escola local que, por sua vez, já era noiva de outro homem. Muitos anos mais tarde, ele e seu pequeno filho Giosué (Giorgio Cantarini) são levados para um campo de concentração nazista, o que leva Dora a pedir para seguir o mesmo destino. Afastado da amada e diante de um cenário terrível, ele passa a usar a imaginação para fazer o menino acreditar que tudo não passa de um jogo que premiará o vencedor com um verdadeiro tanque de guerra.

Claramente dividida em duas partes distintas, a narrativa de “A Vida é Bela” começa de maneira bem leve, com Benigni apostando alto no humor pastelão, mas sem jamais perder a mão e ultrapassar a linha do aceitável. Assim, ele consegue algo difícil, que é arrancar o riso da plateia com piadas inocentes que lembram muito o cinema do gênio Charles Chaplin. Não são poucas as cenas divertidas que permeiam a primeira metade do longa, destacando-se a sequência em que ele tenta entrar com uma petição pública para abrir uma livraria, o ensaio com seu tio sobre como ele deveria servir os clientes no restaurante do hotel e a engraçada apresentação dele para os alunos na escola.

Tenta entrar com uma petição públicaEnsaio com seu tioApresentação para os alunosAinda nesta etapa mágica em solo italiano, Benigni busca valorizar o belo centro histórico de Arezzo com seus planos amplos e a fotografia viva de Tonino Delli Colli, colaborador de Sergio Leone em seus melhores filmes e que aqui acerta na escolha lentes que realçam a arquitetura local. O trabalho deles é essencial ainda para que algumas cenas marcantes funcionem tão bem, como o lindo passeio romântico de Guido e Dora debaixo de chuva, a colorida e animada festa de noivado em que eles se beijam embaixo da mesa e o passeio de bicicleta do casal pela cidade.

Belo centro histórico de ArezzoLindo passeio romântico de Guido e DoraSe beijam embaixo da mesaTambém essencial nesta divisão da narrativa, a montagem de Simona Paggi nos presenteia com uma elipse muito elegante, quando após fugirem da festa montados num cavalo, Guido e Dora vão para a velha casa do tio dele e um longo plano das flores do jardim acompanhado pela voz de fundo que chama pelo menino Giosué indica a passagem do tempo. Este é também o primeiro passo para o ponto de virada da narrativa, que começa a ganhar forma quando Guido sai para andar pela cidade já completamente mudada, com o exercito alemão presente e placas que proíbem a entrada de judeus espalhadas por diversos comércios. Aqui temos também o primeiro indício da maneira criativa e tocante que Guido encontrará para amenizar os efeitos trágicos daqueles acontecimentos na vida de seu filho, quando ele explica para o menino porque judeus e cachorros não eram permitidos num determinado local.

Fogem montados num cavaloFlores do jardimExercito alemãoOutro elemento que ajuda a indicar esta mudança radical é a trilha sonora de Nicola Piovani, que adota um tema delicioso na primeira metade da narrativa e passa a usar um tema sombrio com mais frequência na segunda metade, raramente cedendo lugar ao tom alegre de antes. Antes disso, um acorde rápido indica o assalto à casa do tio de Guido, dando os primeiros sinais do futuro nebuloso que os aguardava, que seriam reforçados ainda pela invasão da casa e pela pintura do cavalo dele. E então, a trilha sombria e a casa revirada anunciam que Guido e Giosué foram levados pelos alemães, iniciando a etapa obscura de “A Vida é Bela”.

A partir daí, o visual alegre e vivo adotado por Delli Colli cede espaço para os tons mais carregados e as cores sem vida como cinza e marrom – e repare como o plano que mostra a chegada do trem ao campo de concentração é dominado pelas sombras, num indício claro da vida sufocante que eles teriam ali. Da mesma forma, o fantástico design de produção de Danilo Donati recria os campos de concentração com precisão e, auxiliado pelos figurinos dele próprio, nos transporta pra dentro daquele local – o que contrasta com o asséptico hotel em Arezzo, com suas paredes brancas e decoração leve.

Chegada do trem ao campo de concentraçãoCampos de concentraçãoAsséptico hotel em ArezzoNa chegada ao campo de concentração, Dora está vestida de vermelho, mas logo é obrigada a usar os opacos uniformes listrados, numa mudança que simboliza a alegria deixada na Itália e minada naquele local. Vivendo Dora de maneira encantadora, a atriz italiana Nicoletta Braschi oferece uma atuação tocante nos poucos momentos em que surge no campo de concentração, demonstrando sua dor por estar distante do marido e do filho e arrancando lágrimas da plateia na linda cena em que Guido coloca uma música italiana para tocar pra ela na janela. Aliás, mesmo num ambiente opressor e terrível como aquele, Benigni consegue nos presentear com cenas belíssimas, como aquela em que Guido e Giosué falam no sistema de som para que Dora possa ouvir – e repare a cor da roupa que ela segura nas mãos neste instante. Outro momento tocante ocorre no reencontro entre Guido e seu amigo alemão, o Dr. Lessing interpretado por Horst Buchholz, que neste instante consegue nos comover somente através da expressão de seu rosto, dizendo muito sem necessitar de palavras e mostrando o incômodo do médico ao ver o amigo naquela situação.

Dora vestida de vermelhoOpacos uniformesIncômodo do médicoTambém muito importante para o sucesso da narrativa, a atuação do menino Giorgio Cantarini é muito eficiente, com seu olhar cheio de vida e suas expressões inocentes conquistando o coração da plateia. Mas o grande destaque fica mesmo para o carismático Roberto Benigni, que com seu jeito espalhafatoso e suas expressões marcantes cria um personagem absolutamente adorável, seja na primeira parte em que luta para conquistar Dora (“Buongiorno, Principessa!”), seja na segunda, quando tenta proteger o filho daquele ambiente hostil apenas através do uso da imaginação. Tocando num tema universal como a relação entre pai e filho, Benigni acerta em cheio o coração do espectador, abusando da sensibilidade para criar momentos de uma pureza desconcertante, que ganham contornos ainda mais belos naquele cenário extremamente degradante.

Expressões inocentesBuongiorno, Principessa!Tenta proteger o filho“A Vida é Bela” traz ainda uma série de rimas narrativas interessantes, como quando Giosué não quer tomar banho no campo, assim como ele fazia na Itália – o que gera tensão na plateia, que a esta altura já sabe o que acontece nos “banhos”, ao passo em que Guido ainda não conhecia os procedimentos nazistas para dizimar as crianças. Na medida em que nos aproximamos do ato final, os momentos de tensão começam a ganhar mais espaço, chegando ao auge quando Giosué fala “Grazie” e chama a atenção de um soldado num jantar reservado para alemães. Mas nada que se compare ao assustador plano que traz uma pilha de judeus mortos, que dá a exata noção do tamanho do massacre ocorrido ali, funcionando como um choque de realidade para o espectador.

Giosué não quer tomar banhoGraziePilha de judeus mortosMarcado pelo visual sombrio, o tenso terceiro ato traz Guido tentando de tudo para salvar seu filho naquela trágica noite, enquanto os alemães tentam eliminar todos os prisioneiros após perderem a guerra. E após tanto horror, Benigni ainda encontra espaço para nos surpreender, nos fazendo rir e chorar no lindo momento em que Guido se despede do filho fingindo estar brincando com um soldado armado, segundos antes de ser assassinado pelo mesmo. O tanque de guerra e o reencontro com a mãe só tornam tudo um pouco menos dolorido para uma plateia certamente já sensibilizada e conquistada por tamanha pureza.

Guido se despede do filhoTanque de guerraReencontro com a mãeAbordando temas universais de maneira tão humana que fica quase impossível não se comover, “A Vida é Bela” é um trabalho memorável que traz a essência dos grandes filmes que o cinema italiano já foi capaz de produzir. Usando os fortes laços familiares como combustível para nos levar através de uma narrativa sombria, Benigni realizou um filme fantástico, repleto de magia e inocência mesmo num ambiente horrível como o da guerra.

A Vida é Bela foto 2Texto publicado em 01 de Junho de 2013 por Roberto Siqueira

A FELICIDADE NÃO SE COMPRA (1946)

(It’s a Wonderful Life)

5 Estrelas

 

Obra-Prima 

Filmes em Geral #107

Dirigido por Frank Capra.

Elenco: James Stewart, Donna Reed, Thomas Mitchell, Lionel Barrymore, Henry Travers, Beulah Bondi, Frank Faylen, Ward Bond, Samuel S. Hinds, Todd Karns e H.B. Warner.

Roteiro: Frances Goodrich, Albert Hackett e Frank Capra, baseado em história de Philip Van Doren Stern.

Produção: Frank Capra.

A Felicidade não se Compra[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O otimismo e a exaltação do estilo de vida norte-americano são marcas registradas da filmografia de Frank Capra. Por vezes exagerado, o diretor ítalo-americano não hesitava um segundo antes de rechear seus longas com mensagens positivas e esperançosas, o que lhe garantiu uma carreira de sucesso numa época tão marcada por conflitos e até mesmo pela Segunda Guerra Mundial. No entanto, foi na obra-prima “A Felicidade não se Compra” que Capra conseguiu alcançar seu melhor resultado, equilibrando o riso e o drama com precisão e realizando um filme simplesmente encantador, capaz de inspirar gerações ao longo de décadas.

Baseado no conto “The Greatest Gift” de Philip Van Doren Stern, o roteiro escrito pelo próprio Capra ao lado de Frances Goodrich e Albert Hackett narra a vida de George Bailey (James Stewart), um jovem que queria deixar a cidade natal para estudar na universidade e depois viajar pelo mundo, mas que se vê obrigado a ficar e tocar os negócios da família após a morte do pai (Samuel S. Hinds). Após casar-se com a bela Mary Hatch (Donna Reed) e enfrentar credores como o cruel Sr. Potter (Lionel Barrymore) ao longo dos anos, George finalmente se vê numa situação muito complicada quando seu tio Billy (Thomas Mitchell) perde uma importante quantia que poderia levar o negócio a falência, o que faz George pensar no suicídio. Mas uma intervenção divina promete mudar o rumo desta história.

Capra nunca foi um diretor preocupado com a estilização da imagem. Seus filmes normalmente tinham um visual clássico, sem invencionismos e técnicas mais ousadas, limitando-se aos tradicionais planos americanos, closes e alguns raros planos gerais. Para ele, importava muito mais a história que seria contada do que o estilo visual. Em alguns casos, o diretor pesava demais a mão na abordagem sentimentalista (como no fraco “Adorável Vagabundo”), mas por outro lado, Capra sabia como poucos inserir o bom humor em suas narrativas, realizando filmes divertidos e marcantes (como o pioneiro “Aconteceu Naquela Noite”). Contudo, em nenhuma outra ocasião ele foi tão feliz como aqui.

Criando uma atmosfera natalina no início, Capra mantém o estilo discreto na movimentação da câmera, mas abusa da criatividade na construção da narrativa, como fica evidente desde a divertida conversa entre Deus, José e o anjo Clarence. Auxiliado pela montagem de Dimitri Tiomkin, Capra cria uma estrutura narrativa interessante, utilizando a conversa divina como ponto de partida para um enorme flashback que narra a vida do protagonista desde a infância até a noite de natal que abre o filme – e vale destacar o divertido momento em que Capra congela a imagem do adulto George para que Jose explique para Clarence o que aconteceu na vida dele. A ousadia do diretor não para por aí, já que a cena em que o Sr. Gower (H.B. Warner) bate na orelha do pequeno George traz uma carga de violência incomum para a época.

Mas este é um raro momento mais pesado numa narrativa predominantemente marcada pela leveza e pelo alto astral. Este espírito alegre pode ser notado em diversos momentos, como na recepção de Harry Bailey (Todd Karns) na estação de trem quatro anos depois que ele partiu para estudar no lugar do irmão, na divertida cena da dança numa festa que acaba num banho coletivo na piscina e no jantar de despedida de George em que ele e o irmão carregam a mãe (Beulah Bondi) nos braços. Mais interessante, no entanto, é a maneira como Capra equilibra este bom humor com momentos extremamente humanos, como a conversa entre pai e filho antes da suposta saída de George da cidade, que de tão sincera chega a comover.

A boa relação com os pais, aliás, é um reflexo de um traço marcante da personalidade de George, um homem que parece incapaz de pensar somente em si mesmo, ainda que tenha seus sonhos e tente correr atrás deles por diversas vezes. Somente esta benevolência já justificaria a simpatia do espectador pelo personagem, mas o enorme carisma de James Stewart torna a tarefa ainda mais fácil. Ao lado da encantadora e charmosa Donna Reed, que surge pela primeira vez num close que só realça sua beleza, Stewart oferece uma atuação vibrante, convencendo como o homem simples e de coração puro que enfrenta os credores para continuar oferecendo aos cidadãos locais a possibilidade de conquistar a casa própria. Juntos, George e Mary protagonizam cenas belíssimas como aquela em que ele promete laçar a lua e dar pra ela (num diálogo icônico imortalizado ao longo dos anos) ou a engraçada sequência que culmina com Mary nua num arbusto, que tem seu clima totalmente quebrado pela triste notícia do derrame que levou o pai de George a morte.

Conversa entre Deus, José e o anjoBanho coletivo na piscinaGeorge promete laçar a lua e dar pra elaIntercalando estes momentos doces com outros amargos, Capra reflete em sua fábula a própria situação do protagonista, um homem feliz na maior parte do tempo, mas que é levado pelos caminhos da vida a desistir de sonhos como estudar na universidade e viajar pelo mundo – algo simbolizado sutilmente pelos panfletos de viagem que ele joga fora. Poucos temas são mais humanos que a renúncia, algo que constantemente faz parte de nossas vidas. O próprio visual do longa reflete esta gangorra de sentimentos através do contraste entre os dias ensolarados e os chuvosos; e a própria chuva tem papel simbólico em muitos instantes, como no belo plano em que o casal acompanha pelo vidro molhado do carro a multidão que se forma em frente a empresa de George, indicando que mais uma vez ele deixaria seus sonhos de lado para ajudar as pessoas. Seguindo esta estratégia, a fotografia de Joseph Biroc e Joseph Walker lentamente abandona as cenas mais claras e iluminadas da primeira metade do filme para ceder lugar aos tons mais sombrios conforme a narrativa avança, chegando ao auge na assombrosa sequência em que George pensa em suicidar-se debaixo de neve.

“A Felicidade não se Compra” conta ainda com sua porção de cenas marcantes, como aquela em que George e Mary seguram um aparelho telefônico e acabam se beijando, numa cena típica do cinema clássico de Hollywood que funciona muito bem. Além dela, vale citar também a noite de núpcias preparada pelos amigos para o casal, numa decoração criativa que reforça o bom trabalho de direção de arte de Jack Okey. E finalmente, podemos citar a interessante explicação dada pelo protagonista sobre como funciona o crédito concedido por sua empresa para que as pessoas consigam comprar suas casas, num raciocínio que ainda hoje pode ser aplicado ao sistema bancário.

A escalada dramática do protagonista começa a ganhar força quando Potter tenta contratá-lo – e Stewart demonstra com precisão o conflito de sentimentos do personagem, que inicialmente se mostra surpreso e feliz com a proposta, mas depois percebe as reais intenções de Potter e se revolta. Mesmo se negando a aceitar a proposta, a possibilidade de oferecer uma vida melhor para sua família fica martelando em sua mente por um bom tempo. Assim, não nos surpreendemos quando ele explode e quase agride seu tio após descobrir que ele perdeu uma importante quantia em dinheiro, voltando transtornado para casa para chorar com os filhos no braço antes de maltratar sua amada esposa e as próprias crianças. Prestes a ser enviado para a cadeia por Potter, ele decide sair da casa e suicidar-se, numa cena que parte o coração da plateia.

Casal acompanha pelo vidro molhado do carroGeorge e Mary acabam se beijandoPotter tenta contratá-loEm seguida, o zoom que nos aproxima de seu rosto suado no bar praticamente nos permite sentir seu desespero. Bêbado, ele perambula pela cidade e a neve que cai só reforça o sentimento de angústia da plateia. E então chegamos à sequência mais genial do longa, quando o anjo Clarence finalmente entra em cena e mostra como seria a vida sem George, provocando reflexões não apenas no personagem, mas no próprio espectador. Sua alegria genuína quando “volta à vida” e ao lar é comovente, assim como a inesperada ajuda dos amigos e as doces palavras deixadas pelo anjo no livro: “Lembre-se, George: nenhum homem é um fracasso quando tem amigos”. Por isso, é quase inevitável chegar ao fim de “A Felicidade não se Compra” com o ânimo renovado e os olhos marejados.

Realizando um filme otimista como quase todos de sua longa carreira, Capra acertou em cheio neste “A Felicidade não se Compra”, uma obra-prima humana, sensível e capaz de lavar nossa alma e elevar nosso espírito como poucos filmes foram capazes até hoje.

A Felicidade não se Compra foto 2Texto publicado em 23 de Maio de 2013 por Roberto Siqueira

ADORÁVEL VAGABUNDO (1941)

(Meet John Doe)

2 Estrelas 

 

Filmes em Geral #106

Dirigido por Frank Capra.

Elenco: Gary Cooper, Barbara Stanwyck, Walter Brennan, Edward Arnold, Spring Byington, Gene Lockhart, Sterling Holloway, James Gleason, Rod La Rocque e Regis Toomey.

Roteiro: Robert Riskin, baseado em história de Richard Connell e Robert Presnell Sr.

Produção: Frank Capra e Robert Riskin (não creditados).

Adorável Vagabundo[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Reconhecido pela capacidade de conduzir filmes com mensagens otimistas que ilustravam como poucos o sonho norte-americano daquela época, Frank Capra era um diretor popular, é verdade, mas que tinha também o reconhecimento da crítica justamente pela maneira como utilizava estas características marcantes para realizar bons filmes. Infelizmente, isto não é o que acontece em “Adorável Vagabundo”, longa sofrível estrelado por Gary Cooper e Barbara Stanwyck que, além de narrar uma história extremamente previsível, ainda peca pela abordagem exageradamente melodramática do diretor.

O roteiro escrito por Robert Riskin com base em história de Richard Connell e Robert Presnell Sr. até parte de uma premissa interessante: após ser demitida pelo novo editor do jornal onde trabalhava, Ann Mitchell (Barbara Stanwyck) publica sua última matéria contando a história de John Doe, um homem amargurado que iria suicidar-se na noite do natal como um protesto contra o que ele achava que estava errado na sociedade. A coluna chama a atenção do público e de toda a mídia, mas o problema é que Ann tinha inventado toda a história e, diante da enorme repercussão da matéria, ela é chamada de volta ao jornal. Após decidirem levar a farsa adiante, eles passam a procurar por alguém que personifique este personagem inventado e escolhem John Willoughby (Gary Cooper), que assume a nova personalidade e passa a rodar o país levando adiante a ideologia criada para o personagem.

Nos primeiros planos de “Adorável Vagabundo”, Capra faz questão de mostrar centenas de pessoas felizes trabalhando ou servindo ao exército, passando a ideia que será à base da narrativa: a força do cidadão comum. Em seguida, a simples troca de uma placa com dizeres sobre a imprensa livre já anuncia a mudança no comando de um jornal que culminará na demissão de todos os 40 funcionários e levará Ann a escrever a matéria que revolucionará o país. E então os diversos problemas do longa vem à tona, a começar por piadas nada inspiradas como no embaraçoso monólogo de Bert (Regis Toomey) na prefeitura e na chegada de John ao jornal, quando um dos presentes diz que não se suicidaria no natal por ser supersticioso.

Capra também erra a mão quando tenta colocar peso dramático na narrativa, apelando para a trilha sonora de Dimitri Tiomkin em diversos momentos desnecessários e acertando em raras ocasiões, como quando a trilha inspiradora embala o momento em que a mãe de Ann entrega o diário do pai contendo o texto que inspiraria o discurso de esperança de John Doe. Aliás, esta abordagem melodramática ganha força no próprio visual do filme. Repare, por exemplo, como Capra e seu diretor de fotografia de George Barnes procuram valorizar os rostos das pessoas comuns, expondo suas imperfeições através da maneira como iluminam as cenas e forçando nossa identificação com eles, até por contrastar diretamente com as cenas dominadas pelos tons mais escuros que acompanham os homens poderosos como Norton (Edward Arnold), o dono do jornal.

Pessoas felizes trabalhandoRostos das pessoas comunsHomens poderososPor outro lado, “Adorável Vagabundo” também tem sua parcela de acertos. É interessante, por exemplo, acompanhar a guerra nos bastidores da imprensa e os interesses de Norton naquela manifestação popular. Repare também como os instantes que antecedem o primeiro discurso de John Doe são tensos justamente pela maneira que Capra conduz a sequência, não permitindo que o espectador antecipe qual dos dois textos ele vai ler – e aqui vale notar o trabalho de Cooper, que gagueja no início, como se não soubesse exatamente o que fazer, mas com o passar do tempo ganha confiança e começa a gostar da reação das pessoas àquelas palavras, falando com mais firmeza e empolgação. Seria uma grande cena, não fosse o conteúdo da mensagem, que joga para o próprio povo a responsabilidade de buscar soluções para a resolução de seus problemas, praticamente isentando os políticos de seus deveres diante da sociedade.

O problema do roteiro está justamente em seu discurso previsível e apelativo, que dificulta bastante o trabalho dos atores, ainda que o elenco tenha gente talentosa como Gary Cooper e Barbara Stanwyck. Vivendo a esperta e ambiciosa Ann, Stanwyck oscila entre bons momentos, como quando se emociona ao ouvir as palavras de seu pai sendo lidas por Doe, e cenas embaraçosas, como aquela que encerra o longa (voltaremos a ela em instantes). Já a atuação mais contida de Gary Cooper cai bem no personagem, um homem simples que é lentamente sugado pra dentro daquele turbilhão e acaba se envolvendo sem perceber exatamente o que estava acontecendo. Repare, por exemplo, como Cooper olha para a comida com desejo e para os objetos de decoração com deslumbramento quando chega ao jornal, saindo-se bem numa das raras vezes em que o longa consegue nos fazer rir, quando Doe está distraído mexendo na estatua de uma mulher nua e se assusta ao ouvir um empolgado “Olá!”, sem notar que Ann havia chegado ao local.

No restante do elenco, Edward Arnold compõe um Norton imponente com sua voz grave e em tom sempre controlado, destacando-se em momentos especiais como o jantar em que presenteia uma desconfiada Ann e anuncia seu plano eleitoral, provocando a mesma reação nela e na plateia: “Uau!”. Além disso, tanto Arnold quanto Cooper têm um bom desempenho na forte discussão entre John e Norton durante a reunião do poderoso dono do jornal com importantes homens da cidade que precede o clímax da narrativa. Mas o grande destaque do elenco vai mesmo para a atuação de James Gleason na cena em que Connell revela o plano de Norton para Doe num bar, soando convincente como um homem amargurado diante de tudo que estava prestes a acontecer e emocionando quando menciona a morte do pai. No entanto, o problema desta cena reside no teor nacionalista e recheado pelo idealismo norte-americano tão comum na filmografia de Capra, evidenciado nas diversas menções do personagem ao “país livre” e à liberdade de expressão.

Primeiro discurso de John DoeSe emociona ao ouvir as palavras de seu paiForte discussão entre John e NortonEssencial para o sucesso de sequências como aquela que acompanha as viagens de John sobrepondo planos e imagens do mapa dos EUA num ritmo empolgante, a montagem de Daniel Mandell é responsável também pela sensação de desconforto causada no tumulto durante a “Convenção John Doe”, obtida através da rápida justaposição de planos e dos próprios enquadramentos confusos de Capra – que, se soam deselegantes, ao menos tem função narrativa. Além do rápido plano geral empregado por Capra que revela o grande número de pessoas no local, o que impressiona durante a “Convenção John Doe” é o design de som, que capta com precisão o burburinho da plateia, a chuva e a distorção do microfone, além da revolta que explode na multidão após os homens comandados por Norton cortarem os microfones e incentivarem as vaias.

Infelizmente, Capra pesa demais a mão no ato final e, além do visual exageradamente escuro da última cena no alto do prédio, o tom carregado pelo melodrama excessivo e a atuação over de Stanwyck criam um dramalhão típico das novelas mexicanas.

Conhecido como um grande defensor dos ideais norte-americanos, o ítalo-americano Frank Capra desta vez pesou a mão e fez deste “Adorável Vagabundo” um longa decepcionante, com uma mensagem óbvia demais e incrivelmente piegas.

PS: A ideologia associada a John Doe torna o assassino de “Seven” ainda mais especial pela ironia que a escolha de seu nome naturalmente carrega.

Adorável Vagabundo foto 2Texto publicado em 22 de Maio de 2013 por Roberto Siqueira

A MULHER FAZ O HOMEM (1939)

(Mr. Smith Goes to Washington)

5 Estrelas 

Filmes em Geral #105

Dirigido por Frank Capra.

Elenco: James Stewart, Jean Arthur, Claude Rains, Ruth Donnelly, Eugene Pallette, H.B. Warner, Beulah Bondi, Thomas Mitchell, Guy Kibbee, Edward Arnold, Harry Carey e Grant Mitchell.

Roteiro: Sidney Buchman, baseado em história de Lewis R. Foster.

Produção: Frank Capra (não creditado).

A Mulher faz o Homem[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Segundo filme da famosa e bem sucedida parceria entre o diretor Frank Capra e o ator James Stewart, “A Mulher faz o Homem” é também um dos mais notáveis trabalhos realizados por ambos em suas marcantes carreiras no cinema. Mais uma vez trazendo a história de um homem comum que enfrenta os poderosos com sua determinação e moral inabalável, Capra realizou um filme corajoso, que já na década de 30 debatia o conturbado e complexo jogo político e seus bastidores recheados de interesses escusos – um tema que, como sabemos, continua bastante atual.

O roteiro escrito por Sidney Buchman com base em história de Lewis R. Foster nos apresenta a curiosa trajetória de Jefferson Smith (James Stewart), um homem do interior que é convidado a se tornar senador dos Estados Unidos somente porque sua falta de experiência serviria como uma luva para que seus companheiros pudessem levar adiante um corrupto projeto. O problema é que Smith, auxiliado pela inteligente secretária Clarissa Saunders (Jean Arthur), acaba se empolgando com sua posição e propõe outro projeto social que, por ironia, inviabilizaria o primeiro, criando um conflito de interesses que leva o senador Joseph Paine (Claude Rains), um amigo de seu falecido pai, a acusá-lo em plena câmara do senado de se beneficiar do projeto para enriquecer, o que faz com que Smith passe a questionar os valores e os ideais dos líderes de seu país.

Apesar de um garoto dizer em certo momento que Smith é “o melhor americano que nós temos”, os valores norte-americanos tão presentes na filmografia de Capra são questionados em boa parte de “A Mulher faz o Homem”, o que chega a ser surpreendente. É verdade que no final o homem justo e idealista acaba vencendo os poderosos corruptos e a mensagem otimista do diretor ganha força, mas em grande parte do longa a sensação que temos é a de que aquele complexo jogo político realmente seria capaz de minar aquele pobre homem; e o fato é que mesmo saindo vitorioso, Smith certamente não mantém a visão pura e simplista que tinha quando chegou a Washington. Assim, se este suposto ufanismo é aparentemente reforçado pelo clipe que apresenta as estátuas de ex-presidentes dos EUA intercaladas com trechos da constituição e embalado pelos hinos da Inglaterra e dos Estados Unidos na chegada do protagonista à capital, esta reverência à história norte-americana terá reflexo no impecável terceiro ato, quando o próprio Smith questiona onde aqueles valores estavam.

É fascinante também como Capra aborda o jogo de interesses políticos nos bastidores do senado desde o início frenético do longa, quando, auxiliado pela montagem ágil de Al Clark e Gene Havlick, anuncia a morte de um importante senador e, através da maneira acelerada com que a notícia se espalha, evidencia para o espectador a importância daquele cargo para o qual Smith seria escolhido. Observe também como o movimento de câmera que revela a imponente câmara do senado concebida pela direção de arte de Lionel Banks nos insere naquele ambiente sob a perspectiva do protagonista, assim como o lento travelling que apresenta o grande número de pessoas presentes no local, fazendo com que o espectador perceba como aquilo tudo poderia intimidar Smith e forçando nossa identificação com ele.

Da mesma forma, Capra faz questão de engrandecer o Presidente do Senado durante o juramento de Smith, novamente nos colocando em sua posição e fazendo com que o espectador sinta a pressão que o próprio personagem sente por estar ali. O diretor usa a câmera com inteligência também em outros momentos, como numa conversa com Susan, a filha do senador Paine por quem Smith se apaixona, na qual Capra sequer mostra o rosto dele, ilustrando seu nervosismo através de planos de suas mãos mexendo no chapéu, o que só realça a timidez do rapaz.

Refletindo a euforia de Smith e a sua visão romantizada da capital, a fotografia de Joseph Walker prioriza os tons mais claros, o que torna ainda mais triste a sequência em que ele pensa em desistir e voltar para sua cidade, com o personagem afundado nas sombras após voltar ao Memorial de Lincoln e constatar que os valores de seu povo não passavam de ideais distantes da realidade. Por outro lado, observe como as sombras encobrem o rosto de Jim Taylor quando este discute o nome que será indicado para o cargo no senado, num contraste interessante que reforça a estratégia visual adotada. Já o design de som apresenta oscilações ainda mais fortes, especialmente nos debates no senado, o que vira motivo de piada, por exemplo, quando Smith fala pela primeira vez na câmara.

Estátuas de ex-presidentes dos EUAImponente câmara do senadoVolta ao Memorial de LincolnE se de maneira geral as atuações parecem um pouco exageradas (o que era comum na época), alguns nomes conseguem se destacar, como o manipulador Jim Taylor interpretado por Edward Arnold, que impõe respeito com seu corpo avantajado e sua expressão ameaçadora – aliás, é interessante como muitos políticos surgem gordos e envelhecidos, num indício da vida farta e sedentária que levam. Vale citar também o simpático Presidente do Senado interpretado por Harry Carey, que sorri constantemente, mas nem por isso deixa de contar com o respeito de todos, além é claro do imprevisível senador Paine de Claude Rains, que demonstra bem o conflito do personagem diante daquele ambiente obscuro e corrompido. É ele quem protagoniza um dos momentos tocantes do longa, quando explica para Smith que pra conseguir realizar coisas boas na política é preciso se comprometer e jogar o jogo, demonstrando um incômodo que será essencial para que sua mudança de comportamento no final faça sentido. Até por isso, é chocante o momento em que ele acusa Smith no senado e muda o foco dos debates, provocando a investigação do amigo e a proposta de expulsão dele.

Enojada diante deste desgastante jogo de interesses – especialmente após a paixão por Susan ser usada contra Smith – e cansada daquela vida vazia, a determinada Clarissa Saunders vivida com intensidade por Jean Arthur reencontra alguma razão para seguir naquela jornada somente após a chegada de Smith, que, com seu jeito simples e sonhador, devolve os valores outrora perdidos por ela diante de tanta corrupção. Conhecido como a personificação do homem comum, Stewart cai muito bem no papel do interiorano Smith, surgindo com a voz oscilante, gaguejando e evitando o olhar no início, demonstrando estar claramente assustado diante de tantas mudanças repentinas em sua vida.

Talentoso como poucos, Stewart realiza aqui um de seus melhores trabalhos, encarnando muito bem o tipo caipira que chega a cidade grande e se encanta, demonstrando deslumbramento, por exemplo, diante de obras como a estátua de Lincoln ou o Capitólio dos Estados Unidos. Além disso, os diálogos ágeis da maioria dos personagens só reforçam a grande atuação dele, que fala pausadamente no inicio, evidenciando seu deslocamento naquele local e criando uma aura de inocência que, por exemplo, faz a imprensa se aproveitar para espalhar notícias sensacionalistas com base em pequenas declarações, o que leva o protagonista a distribuidor socos e pontapés – num momento crucial que marca a perda da inocência de Smith, que passa a enxergar a dura realidade da política.

Quando Saunders explica o complexo sistema para aprovar um projeto no senado, Smith demonstra fascínio com seu queixo apoiado em suas mãos, enquanto ela demonstra tédio diante de tamanha burocracia. No entanto, com o passar do tempo o idealismo dele emociona a experiente secretária e a empatia entre eles começa a aflorar, assim como os melhores momentos da marcante atuação de Jean Arthur. Repare, por exemplo, como ela convence quando surge bêbada conversando com Diz ou quando revela a verdade para Smith sobre o esquema de propinas que impediria seu projeto de sair do papel. Já na apresentação do projeto ao senado é Stewart quem dá um show, novamente surgindo nervoso com sua voz trêmula e expressão retraída, o que torna sua postura no ato final ainda mais impressionante, quando surge confiante, determinado e se mantém firme até cair exausto após horas defendendo sua posição, numa atuação soberba e digna de aplausos.

Paine acusa SmithDeterminada Clarissa SaundersConfiante, determinado e se mantém firmeApoiando-se na força de Saunders (daí a origem do inventivo nome do filme em português), Smith encontra forças para defender-se das acusações que sofre no senado, numa batalha comovente que gruda o espectador na cadeira durante todo o eletrizante ato final, quando o poder de Taylor fica ainda mais evidente, controlando a máquina, a imprensa e praticamente todos os integrantes do estado no senado, numa verdadeira luta de gigantes contra um mero cidadão comum – o que, por razões óbvias, força ainda mais nossa identificação com o protagonista e nos leva a torcer por seu sucesso.

Assim, “A Mulher faz o Homem” é um grande filme sobre o complexo jogo de interesses que move a política desde a origem da humanidade. Como podemos perceber, este não é um problema recente, ainda que isto não sirva de desculpa para justificar nossa acomodação diante dos escândalos que de tempos em tempos surgem por aí. Ao que parece, no embate entre o idealismo e os interesses obscuros, foi o primeiro quem levou a pior e ficou esquecido no passado.

A Mulher faz o Homem foto 2Texto publicado em 21 de Maio de 2013 por Roberto Siqueira

ACONTECEU NAQUELA NOITE (1934)

(It Happened One Night)

5 Estrelas 

Filmes em Geral #104

Vencedores do Oscar #1934

Dirigido por Frank Capra.

Elenco: Clark Gable, Claudette Colbert, Walter Connolly, Roscoe Karns, Jameson Thomas, Alan Hale, Arthur Hoyt, Blanche Friderici, Charles C. Wilson, Irving Bacon, Ward Bond e Eddy Chandler.

Roteiro: Robert Riskin e Samuel Hopkins Adams.

Produção: Frank Capra.

Aconteceu Naquela Noite[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Primeiro filme da história a vencer os cinco principais prêmios da Academia de Hollywood, “Aconteceu Naquela Noite” marcou época também por ser a primeira comédia-romântica de sucesso da história do cinema, misturando dois gêneros com forte apelo popular de maneira orgânica e bastante divertida. Apoiando-se no ótimo texto e nas boas atuações de Gable e Colbert, Frank Capra realizou um longa delicioso, repleto de cenas memoráveis e responsável por estabelecer alguns padrões narrativos que são religiosamente seguidos no gênero ainda hoje.

Escrito por Robert Riskin e Samuel Hopkins Adams, “Aconteceu Naquela Noite” tem início quando o jornalista desempregado Peter Warren (Clark Gable) encontra Ellie (Claudette Colbert), a filha foragida do milionário Alexander Andrews (Walter Connolly) que abandonou seu iate após este não aprovar seu casamento com o também bem sucedido King Westley (Jameson Thomas). Interessado no potencial jornalístico da trajetória da moça, Peter decide acompanhá-la numa longa viagem, mas acaba se envolvendo com ela no caminho.

Determinada e convicta desde os primeiros segundos em cena, Claudette Colbert compõe a arredia Ellie como uma mulher de personalidade forte, dedicada a conquistar seus objetivos independentemente do que seja preciso para alcançá-los, mas sem jamais perder seu lado frágil e sensual por causa disto. Assim, não surpreende o fato de Peter se apaixonar por ela, já que o próprio espectador é fisgado pelo carisma da personagem. Encarnando um protagonista típico da filmografia de Capra (o homem comum que se vê numa situação desconfortável, mas consegue mudar seu destino através do esforço), Gable se sai bem ao ilustrar como Peter vê em Ellie a grande chance de dar uma resposta ao seu antigo chefe após perder o emprego sem que, para isto, precise adular a moça, o que faz com que os primeiros contatos entre eles sejam rudes, já que ambos têm personalidades muito marcantes.

No entanto, lentamente eles começam a se aproximar, e Capra conduz este processo com exatidão, tornando esta aproximação verossímil e praticamente inevitável – e repare a expressão de Gable quando ela coloca as mãos no peito dele no ônibus que, assim como a reação dela ao acordar, evidencia como eles gostam do contato, ainda que evitem demonstrar isso para o outro. Assim como é fácil entender porque ele é atraído por ela, também não é difícil compreender o que chama a atenção da garota, já que Gable cria um Peter estiloso, com seu charme natural sendo realçado por pequenos detalhes como o uso constante do chapéu e pela aura misteriosa conferida pela fumaça de seu charuto. Determinado a escrever sobre a aventura dela (“Vou escrever um livro sobre isso”, diz sempre que algo lhe interessa), Peter deixa claro que não é tão bom quando parece quando ameaça entregar a garota para o pai, mas este traço só enriquece o personagem e torna sua mudança de comportamento ainda mais interessante.

Arredia EllieHomem comumExpressão de GableSeu conflito de sentimentos começa a ganhar força quando ele decide ajudar Ellie a cuidar de seu dinheiro, num dos primeiros sinais de preocupação por parte dele. Com o passar dos dias, este interesse vai se tornando evidente na medida em que ambos demonstram mudanças no comportamento. Prisioneira da vida luxuosa que levava, ela se encanta com coisas simples da vida como uma música popular cantada por todos no ônibus; e Peter meio que simboliza esta mudança pra ela. Obviamente, tudo isto soa verdadeiro graças à empatia entre Gable e Colbert, que mantém uma dinâmica muito boa e carregam a narrativa com facilidade.

Mas “Aconteceu Naquela Noite” se beneficia também dos excelentes momentos de bom humor espalhados pela narrativa, como o passageiro que ronca e o que fala sem parar no ônibus, a sequência em que Peter e Ellie roubam o carro do homem que roubava quem pedia carona (uma ousadia para a época) e a hilária cena em que Peter explica sua teoria dos polegares pedindo carona, na qual Ellie encontra uma solução prática que realça o lado sensual de sua personagem, também evidenciado em outros momentos como quando ela pendura as roupas no cobertor que separa as camas deles – uma barreira física que simboliza muito bem a tensão sexual existente entre eles. Aliás, Capra procura valorizar sua atriz em diversos momentos, utilizando o rack focus nos closes em seu rosto, numa técnica que era muito usada para amenizar imperfeições na pele das atrizes.

Esta, no entanto, é uma das raras técnicas utilizadas por Capra que chamam a atenção, já que o diretor preza pela discrição adotando poucos movimentos de câmera inventivos e preferindo os planos estáveis que, reforçados pela iluminação da fotografia de Joseph Walker, buscam valorizar os atores, tornando raros os movimentos mais ousados como o travelling que acompanha Ellie indo do quarto para o banho pelo ambiente externo; mas, por outro lado, criando cenas visualmente belíssimas como aquela em que as luzes refletem na água enquanto Peter e Ellie atravessam um rio durante a noite. Obviamente, a montagem de Gene Havlick é importante neste processo, surgindo igualmente discreta apesar do uso constante dos fades com deslocamento lateral da imagem.

Solução práticaCobertor que separa as camas delesPeter e Ellie atravessam um rioCapra encontra espaço ainda para uma pequena crítica social na sequência em que uma mãe passa fome com seu filho no ônibus, mas acerta mesmo na condução de cenas memoráveis, como aquela em que Peter e Ellie fingem ser um casal discutindo diante dos detetives e aquela em que Peter finge ser o sequestrador dela para protegê-la do ambicioso Oscar Shapeley (Roscoe Karns), assustando o pobre homem que desiste de seguir viagem com eles. Além disso, o diretor se sai ainda melhor nas cenas românticas, como quando eles quase se beijam deitados na palha, numa cena em que o silêncio que predomina torna tudo ainda mais interessante, acertando também na bela cena em que ela sai detrás do cobertor e se declara.

Após uma sequência de mal entendidos, “Aconteceu Naquela Noite” finalmente chega ao seu clímax, gerando um conflito que separa o casal e traz tensão à narrativa – um recurso narrativo criado na época e utilizado tantas vezes em filmes do gênero desde então que se tornou um clichê quase insuportável, mas que funciona bem aqui justamente pelo contexto histórico. Desesperado, Peter quase desiste de Ellie – e um plano do pneu de seu carro murchando ilustra perfeitamente seu sentimento diante da eminente perda da amada. Mas, pra sua sorte, uma conversa entre pai e filha antes da cerimônia de casamento com Westley não apenas confirma a inteligência e o grande coração do homem interpretado com carisma por Walter Connolly como abre caminho para que Ellie siga seu desejo, nos levando a divertida e surpreendente fuga da cerimônia que fecha tão bem a narrativa e garante o final feliz.

Comédia leve e repleta de boas atuações, “Aconteceu Naquela Noite” é um marco na história do cinema, exercendo influência num dos gêneros mais conhecidos e rentáveis de Hollywood até os dias de hoje.

Aconteceu Naquela Noite foto 2Texto publicado em 20 de Maio de 2013 por Roberto Siqueira

CONTATOS IMEDIATOS DO TERCEIRO GRAU (1977)

(Close Encounters of the Third Kind)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #168

Dirigido por Steven Spielberg.

Elenco: Richard Dreyfuss, Bob Balaban, Teri Garr, François Truffaut, Melinda Dillon, J. Patrick McNamara, Warren J. Kemmerling, Cary Guffey e Roberts Blossom.

Roteiro: Steven Spielberg.

Produção: Julia Phillips e Michael Phillips.

Contatos Imediatos do Terceiro Grau[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após o sucesso avassalador de “Tubarão”, Steven Spielberg teria carta branca para tocar o projeto que quisesse. Não surpreende, portanto, que o próximo longa do diretor seja justamente aquele que marca sua primeira incursão num de seus gêneros favoritos. Contando novamente com Richard Dreyfuss no elenco e conseguindo ainda a participação de uma lenda do cinema francês (o diretor François Truffaut), Spielberg tinha tudo nas mãos para emplacar outro grande sucesso e, felizmente, ele não decepcionou. “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” é uma ficção científica cativante, que mantém seu encanto mesmo décadas após seu lançamento.

“Contatos Imediatos do Terceiro Grau” era um projeto tão pessoal que Spielberg não apenas dirigiu o filme como também se encarregou de escrever o roteiro, que tem início quando o tranquilo Roy (Dreyfuss) começa a ter visões de uma misteriosa montanha ao mesmo tempo em que presencia estranhas luzes cortarem o céu da pequena cidade em que vive no interior dos EUA. Obcecado pela estranha montanha, ele acaba se distanciando da família e, após ser abandonado, parte em busca de respostas. Em paralelo, o cientista Claude Lacombe (Truffaut) investiga a estranha aparição de um grupo de aviões desaparecidos há muitos anos, enquanto Jillian Guiler (Melinda Dillon) ganha destaque na mídia após afirmar que seu pequeno filho Barry (Cary Guffey) foi levado por uma nave espacial.

Com sua costumeira habilidade na construção de narrativas que misturam eventos grandiosos com dramas extremamente pessoais, Spielberg e seu montador Michael Kahn conduzem as três linhas narrativas de “Contatos Imediatos” num ritmo agradável, priorizando a trajetória de Roy sem jamais tornar os segmentos que acompanham Lacombe ou Jillian menos interessantes. Assim como ocorria em “Tubarão” (e, posteriormente, na maioria dos filmes de Spielberg), a ausência da figura paterna é um tema marcante, surgindo primeiro na casa do menino Barry, criado por uma mãe forte e solitária, e depois na própria trajetória de Roy, que larga mulher e filhos para ir atrás dos OVNI’s e acaba embarcando no disco voador com os extraterrestres. Apesar disto, este não será o tema central do longa, que concentra sua força nas imagens marcantes conseguidas com efeitos visuais extremamente eficientes e na sensação de encanto das pessoas diante do que veem – algo que o diretor faz questão de ressaltar em diversos momentos com planos que realçam o olhar de admiração dos personagens.

Efeitos visuais extremamente eficientesEncanto das pessoasOlhar de admiraçãoPara isto, Spielberg capricha na composição dos planos, como fica evidente desde o impressionante plano geral que mostra toda a cidade escurecendo após a queda da energia elétrica e, logicamente, no deslumbrante ato final. Além disso, o diretor usa sua câmera com habilidade para criar suspense, por exemplo, na cena em que a luz do farol de um carro atrás da caminhonete de Roy se movimenta para o lado quando este o ultrapassa e, minutos depois, outra luz também se movimenta, só que desta vez para cima, indicando para a plateia a presença de algo estranho. Repare ainda como o diretor sabe trabalhar muito bem a expectativa do espectador na cena em que acompanhamos os controladores de voo captando a presença dos OVNI’s e, especialmente, quando nos coloca dentro da casa junto com Barry e sua mãe, criando uma cena absolutamente tensa que culmina no impressionante plano em que ela sai correndo pra fora e vê as naves sumindo no horizonte distante com seu filho.

Cidade escurecendoCarro atrás da caminhonete de RoyDentro da casaObviamente, o diretor de fotografia Vilmos Zsigmond tem participação fundamental neste processo, trabalhando na maior parte do tempo com paletas claras e cenas diurnas que criam um contraste interessante com o espetacular visual do ato final, que se passa praticamente o tempo todo à noite, num cenário perfeito para o festival de cores e luzes que toma conta da tela após a chegada das espaçonaves. Quem também dá um show em “Contatos Imediatos” é o design de som, que se destaca logo de cara ao captar com precisão o barulho do vento e as vozes dos personagens na sequência que abre o longa no México. E finalmente, a trilha sonora do mestre John Williams é responsável por criar as cinco notas icônicas que estabelecem contato com os extraterrestres, além de servir também para aumentar a tensão em alguns momentos pontuais, como na chegada dos ET’s à casa de Barry.

Paletas clarasFestival de cores e luzesCinco notas icônicasEm outro momento bem conduzido por Spielberg, acompanhamos Roy conversando com a esposa por telefone e, no segundo plano, a imagem da montanha Devil’s Tower na televisão – e o próprio movimento de câmera que revela a montanha real é belíssimo. No entanto, “Contatos Imediatos” não se resume apenas ao apuro técnico, já que o diretor é competente também ao extrair boas atuações de praticamente todo o elenco, a começar pelo próprio Richard Dreyfuss, que demonstra a determinação do personagem através de suas expressões marcantes, evidenciando também o quanto sua vida foi afetada por aquele evento incomum – algo que sua esposa e seus filhos não demoram a perceber, o que os leva a deixar a casa (com razão) após um surto de loucura do pai. E se a esposa de Roy vivida por Teri Garr não ganha grande destaque, Melinda Dillon quase rouba a cena com seu desempenho envolvente na pele da desesperada mãe de Barry, comovendo pela maneira determinada com que parte em busca do filho.

Roy conversando com a esposa por telefoneExpressões marcantesDesesperada mãe de BarryApesar de serem impulsionados por motivações distintas (ela vai atrás do filho enquanto ele se distancia deles), Jillian e Roy compartilham a obstinação por algo que eles sequer têm certeza que vão conseguir encontrar, o que justifica a identificação dos personagens e, por consequência, conquista também a empatia da plateia. Assim como eles, nós não sabemos exatamente aonde a narrativa irá nos levar, mas aguardamos ansiosamente pelo contato que dá nome ao filme.

Inteligente, Spielberg constrói o clímax cuidadosamente, criando uma atmosfera perfeita e fazendo com que a plateia aguarde ansiosamente pelo contato com os extraterrestres através de planos belíssimos como aquele que mostra a montanha preparada para a chegada dos discos voadores. Quando o aguardado momento chega, o diretor segue uma linha diferente da maioria das obras relacionadas à invasão de alienígenas, nos apresentando seres pacíficos e interessados somente em comunicar-se com a raça humana. E isto acontece de maneira mágica, num espetáculo de luzes e sons que dificilmente é apagado da memória do espectador. Neste instante, os olhares fascinados dos personagens se confundem com os da própria plateia, maravilhada diante de tamanho espetáculo visual.

Montanha preparadaLuzes e sonsOlhares fascinadosConfirmando sua habilidade ímpar de construir narrativas absolutamente cativantes, Steven Spielberg se consolidava como um diretor com rara capacidade de agradar público e crítica, narrando histórias visualmente marcantes sem jamais deixar de se preocupar com o lado humano de seus personagens. Envolvente e espetaculoso, “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” é um trabalho memorável na carreira de Spielberg, o que não deixa de ser um feito, considerando a filmografia deste aclamado diretor.

Contatos Imediatos do Terceiro Grau foto 2Texto publicado em 14 de Maio de 2013 por Roberto Siqueira

AS DUAS FACES DE UM CRIME (1996)

(Primal Fear)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #167

Dirigido por Gregory Hoblit.

Elenco: Richard Gere, Edward Norton, Laura Linney, John Mahoney, Frances McDormand, Alfre Woodard, Terry O’Quinn, Andre Braugher, Steven Bauer, Joe Spano, Tony Plana, Maura Tierney e Jon Seda.

Roteiro: Steve Shagan e Ann Biderman, baseado em romance de William Diehl.

Produção: Gary Lucchesi.

As Duas Faces de um Crime[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após a desistência do então astro em ascensão Leonardo Di Caprio de participar de “As Duas Faces de um Crime”, os produtores do projeto passaram a procurar desesperadamente por alguém que pudesse encarnar o personagem chave da trama, chegando a testar mais de dois mil candidatos. Entre eles, um jovem desconhecido conseguiu se destacar de tal maneira que, após conseguir o disputado papel e ter o vídeo de seu teste circulando por toda Hollywood, ele acabou sendo contratado para trabalhar em mais dois filmes importantes daquele ano, dirigidos por ninguém menos que Woody Allen e Milos Forman. Obviamente, estamos falando do talentosíssimo Edward Norton.

A atuação ambígua de Norton é essencial para que “As Duas Faces de um Crime” funcione tão bem, mas o ótimo roteiro escrito por Steve Shagan e Ann Biderman (baseado em romance de William Diehl) também tem grandes méritos, com sua estrutura perfeita funcionando em diversas camadas e desenvolvendo muito bem este precioso personagem, além é claro de contar com reviravoltas atordoantes. A narrativa começa nos mostrando o assassinato de um conhecido Arcebispo de Chicago (Stanley Anderson) e a prisão quase imediata de um de seus coroinhas, o jovem Aaron Stampler (Edward Norton), que é encontrando todo ensanguentado numa ferrovia perto do local do crime. A cobertura midiática do evento chama a atenção do competente advogado Martin Vail (Richard Gere), que decide defender o rapaz sem cobrar nada, apenas pela exposição que teria no caso. Do outro lado, a promotora Janet Venable (Laura Linney), que já viveu um caso com Vail no passado, é contratada pelo estado para tentar a pena de morte.

Além de se destacar pela maneira envolvente com que constrói a relação entre o advogado de defesa e seu cliente, o corajoso roteiro aborda ainda a influencia da Igreja nos negócios do bairro e os crimes sexuais cometidos pelo Arcebispo, criando um complexo jogo de interesses que só prende ainda mais nossa atenção. Por isso, talvez o único escorregão do inteligente roteiro seja o desnecessário caso entre Vail e Janet, que além de não colaborar em nada para o andamento da narrativa, acaba tirando o foco da ação principal sempre que as provocações entre eles ganham espaço na tela.

Relação entre o advogado de defesa e seu clienteCrimes sexuaisDesnecessário casoAuxiliado pela montagem de David Rosenbloom, o diretor Gregory Hoblit conduz a narrativa de maneira fluida, intercalando o trabalho no escritório de Vail, os duelos verbais entre ele e Janet, as conversas com Stampler, sua análise psiquiátrica e as audiências no tribunal, que ganham mais foco somente no empolgante terceiro ato. Até lá, o diretor demonstra habilidade na construção de uma atmosfera tensa e misteriosa, trabalhando em pequenos detalhes que ajudam a confundir o espectador. Mostrando Stampler rapidamente durante a apresentação do coral de coroinhas, Hoblit inicialmente nos faz acreditar que ele é mesmo o assassino, intercalando as fortes imagens do assassinato com planos rápidos de sua fuga alucinada da polícia. No entanto, observe como na prisão o diretor engrandece Vail e diminui Stampler na tela durante as primeiras conversas, o que, somado às expressões vulneráveis de Norton, força nossa identificação com o personagem e faz com que a plateia realmente acredite em sua inocência.

Imagens do assassinatoFuga alucinada da políciaExpressões vulneráveisCompetente também na direção de atores, Hoblit evita distrair nossa atenção com invencionismos, realçando as fortes atuações de seu elenco. Repare, por exemplo, como a câmera se aproxima lentamente do rosto dos personagens conforme os diálogos evoluem, como na primeira conversa entre Vail e Stampler e em muitos outros diálogos, num movimento discreto que jamais chama a atenção para si. Da mesma forma, a fotografia de Michael Chapman cria um mundo acinzentado que realça a frieza necessária na profissão dos advogados – e descobriremos mais tarde que esta frieza remete também ao próprio Stampler -, assim como o design de produção de Jeannine Claudia Oppewall, que concebe ambientes simétricos e organizados como o escritório de Vail e os tribunais. Até por isso, nos raros momentos em que o visual foge ao padrão, o espectador sente claramente o que o diretor pretende transmitir, como na conversa entre Vail e um repórter num bar, onde os tons avermelhados que predominam na cena indicam o inferno astral vivido pelo personagem após a descoberta da suposta doença de Stampler.

Mundo acinzentadoAmbientes simétricosInferno astralEssencial num filme de tribunal onde os argumentos dos advogados precisam ser captados com clareza, o design de som ainda se destaca em sequências especiais, como no próprio assassinato do Arcebispo, no qual um cidadão escuta da rua os violentos golpes desferidos contra ele, e especialmente numa das audiências, onde as vozes de um interessante debate entre os advogados se sobrepõem às imagens da chegada deles ao tribunal. E fechando os destaques da parte técnica, a trilha sonora discreta de James Newton Howard sublinha muito bem momentos especiais, como quando indica a mudança de comportamento de Stampler segundos antes de sua primeira transformação através de uma nota sombria que lentamente ganha força, destoando deste tom discreto somente durante a acelerada perseguição de Alex (Jon Seda) pelas ruas.

Bem vestido e com um corte de cabelo impecável, Richard Gere encarna Vail como um advogado extremamente competente e, por isso, autoconfiante ao ponto de dizer que a única verdade que interessa é aquela em que ele acredita. Com um sorriso falso e um olhar penetrante, o ator faz bem o papel do advogado dissimulado, que faz tudo que está ao seu alcance para defender seus clientes, mantendo ainda um bom relacionamento com eles fora do tribunal, como atesta sua conversa com o traficante Joey Pinero (Steven Bauer). Assumindo inicialmente uma postura dominante que se reflete nas cores fortes de seus ternos (figurinos de Betsy Cox), o advogado lentamente vai sendo domado por seu cliente, o que cria uma confusão momentânea em sua mente tão acostumada a controlar este tipo de situação, refletida até mesmo na falta de cor de seus ternos no segundo ato. Quando finalmente compreende o que se passa com Stampler, Gere volta a adotar uma postura confiante e os ternos escuros novamente aparecem.

Advogado extremamente competenteSorriso falsoPostura dominanteIgualmente confiante profissionalmente, a Janet interpretada por Laura Linney se sai bem nos embates diante do ardiloso Vail, mantendo uma postura firme também fora do âmbito profissional ante as investidas nada elegantes do ex-amante. Vivendo a personagem de maneira centrada e inteligente, Linney confere credibilidade aos julgamentos, fazendo com que a plateia realmente acredite que ela será capaz de vencer Vail e conseguir a condenação de Stampler. Outra presença feminina marcante é a de Frances McDormand, que está serena como a psiquiatra Molly, transmitindo a tranquilidade esperada em sua profissão e demonstrando segurança diante dos fortes questionamentos da promotora Janet no tribunal (numa atuação minimalista que, por contraste, realça sua qualidade como atriz quando comparada a determinada policial Marge, que ela viveu naquele mesmo ano em Fargo”). Fechando o elenco secundário, vale citar o ameaçador John Shaughnessy interpretado por John Mahoney.

Janet postura firmeCentrada e inteligentePsiquiatra MollyE chegamos então ao grande responsável pelo sucesso de “As Duas Faces de um Crime”. Em seu papel de estreia no cinema, Edward Norton entrega uma atuação assombrosa, encarnando duas personalidades tão distintas de maneira mais do que convincente na pele do acusado Stampler. Enquanto o tímido Aaron surge com uma notável gagueira, um tom de voz baixo e evita olhar diretamente para as pessoas, seu alter-ego Roy é exatamente o oposto, surgindo confiante com sua voz firme, o olhar ameaçador e a postura corporal imponente e agressiva. Observe, por exemplo, como sua expressão ameaçadora no primeiro lapso diante da Dra. Molly se contrapõe diretamente ao seu olhar assustado durante as audiências no tribunal. Assim, quando Roy finalmente surge em cena, Norton complementa sua transformação de maneira sensacional, atacando Vail violentamente e se impondo com incrível firmeza, numa postura diametralmente oposta ao reprimido Aaron.

Tímido AaronRoy é exatamente o opostoPrimeiro lapsoSó que “As Duas Faces de um Crime” ainda nos reserva outra reviravolta em seus instantes finais. Preparando cuidadosamente seu explosivo terceiro ato durante toda a narrativa, Hoblit nos leva ao julgamento final e ao esperado depoimento da Dra. Molly, seguido pelo interrogatório do próprio suspeito, no qual os advogados alcançarão o ápice de suas estratégias cuidadosamente elaboradas. Incluindo planos rápidos das mãos ansiosas de Aaron durante o interrogatório, o diretor e seu montador aceleram a sequência através de planos cada vez mais curtos que só ampliam a tensão, nos permitindo antecipar o iminente ataque de fúria do acusado, que inevitavelmente acontece e deixa todos atônitos. Desta forma, o espectador termina a cena pensando que sabe mais do que a maioria dos personagens, só que quando Stampler finalmente revela seu truque para Vail, o choque torna-se inevitável tanto para o advogado quanto para a plateia. Como ilustram os planos finais em plongè que o diminuem em cena, Vail deixa o tribunal completamente desolado por constatar que aquele jovem aparentemente inofensivo foi capaz de enganá-lo durante tanto tempo.

Mãos ansiosas de AaronIminente ataque de fúriaStampler finalmente revela seu truqueQuem não se importa por ter sido enganado é o espectador, que deixa a projeção totalmente atordoado e completamente satisfeito com o que acabou de assistir. Contando com um bom elenco e uma atuação simplesmente fantástica de Edward Norton, “As Duas Faces de um Crime” é um grande filme, que vai além dos tribunais e nos faz refletir sobre até que ponto a primeira impressão é realmente a que fica. Ao menos, a impressão de que este é um dos melhores filmes da década de 90 continua intacta.

As Duas Faces de um Crime foto 2Texto publicado em 29 de Abril de 2013 por Roberto Siqueira

ESQUECERAM DE MIM 2 – PERDIDO EM NOVA YORK (1992)

(Home Alone 2: Lost in New York)

3 Estrelas 

 

Videoteca do Beto #166

 

Dirigido por Chris Columbus.

Elenco: Macaulay Culkin, Joe Pesci, Daniel Stern, Catherine O’Hara, Brenda Fricker, John Heard, Devin Ratray, Hillary Wolf, Maureen Elisabeth Shay, Kieran Culkin, Tim Curry, Dana Ivey, Rob Schneider, Eddie Bracken, Ally Sheedy e Chris Columbus.

Roteiro: John Hughes.

Produção: John Hughes.

Esqueceram de Mim 2[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O primeiro “Esqueceram de mim” é um filme que depende essencialmente da predisposição do espectador em embarcar em sua premissa absurda para funcionar, mas que por outro lado diverte bastante aqueles que se deixam levar por sua narrativa leve através da sádica estratégia do pequeno Kevin para defender sua casa. Este mesmo raciocínio pode ser aplicado na sequência “Esqueceram de mim 2 – Perdido em Nova York”, que, lançada somente dois anos após o primeiro filme, aposta exatamente na mesma estrutura narrativa para funcionar, alterando apenas pequenos detalhes que pouco interferem no objetivo final. Assim, se por um lado temos a oportunidade de dar algumas gargalhadas com as novas peripécias de Kevin, por outro temos a constante sensação de estarmos assistindo ao mesmo filme novamente.

Também escrito e produzido por John Hughes, “Esqueceram de mim 2” tem inicio quando a família McAllister se prepara para passar o natal na Flórida. Assim como ocorreu no natal anterior, eles perdem a hora, mas desta vez o pequeno Kevin (Macaulay Culkin) está junto com eles na van que sai desesperada para o Aeroporto. Só que ao chegar ao terminal de embarque, Kevin se perde de seu pai (John Heard) e acaba embarcando acidentalmente num voo para Nova York, onde ele aproveita para se hospedar num hotel renomado, já que está com o cartão de crédito de seu pai. O problema é que Harry (Joe Pesci) e Marv (Daniel Stern), exatamente os mesmos bandidos que tentaram invadir sua casa antes, também estão na cidade após fugirem da prisão.

Como podemos notar, Hughes não hesita em abusar das coincidências para criar a mesma situação que proporcionou os melhores momentos de “Esqueceram de mim”. Assim, mais uma vez temos a casa tumultuada na véspera da viagem (captada com os mesmos movimentos de câmera agitados de Chris Columbus), a mesma época do ano e os mesmos conflitos entre o pequeno Kevin e sua problemática família – especialmente com o irritante Buzz. Ao menos, estas repetições também geram algumas divertidas rimas narrativas com o primeiro longa, como quando a família assiste “A Felicidade não se compra” em versão dublada no hotel. Porém, basta raciocinar um pouquinho para que a inevitável pergunta surja: Que pais deixariam o filho para trás duas vezes? Ou seja, a premissa desta continuação é ainda mais ridícula que a do filme anterior, mas se você conseguir superar isto e embarcar na história será parcialmente recompensado por alguns bons momentos.

Casa tumultuadaConflitosFamília assiste “A Felicidade não se compra”Ciente disto, Columbus aposta outra vez numa abordagem descontraída e se sai bem em alguns momentos particularmente inspirados, como quando os próprios pais de Kevin fazem piada com a situação (“Está virando uma tradição da família”), evidenciando que ao menos o longa não se leva a serio e quer apenas nos divertir – o que até funciona, mas não serve como desculpa para perdoar seus claros equívocos narrativos. O diretor acerta também quando revela que Kevin está no veículo antes de sair da casa, numa subversão de expectativa interessante que quebra pela primeira vez a sensação de estarmos vendo “mais do mesmo”.

Pais fazem piada com a situaçãoKevin está no veículoChegada do garoto ao hotelEnxergando a história como uma fábula, o diretor realça o deslumbramento de Kevin através do tom de cenas como a da chegada do garoto ao hotel e seu passeio de limusine comendo pizza – algo que também ocorria no primeiro filme, já que, nas duas situações, o protagonista vive uma situação desejada por muitas crianças (ficar sozinho em casa e viajar sem a companhia dos pais). Também repetindo o que fizera antes, Columbus procura espalhar dicas importantes no primeiro ato que serão importantes durante a narrativa, como num plano detalhe de um rádio relógio com a hora alterada e nas cenas em que busca destacar o gravador de Kevin. Finalmente, o diretor ainda emprega interessantes movimentos de câmera, como quando acompanha uma espécie de telefone sem fio na descoberta de que Kevin não está com a família, criando também planos divertidos como aquele em que uma estátua indica o caminho que o menino deve seguir.

Passeio de limusine comendo pizzaRádio relógioEstátua indica o caminhoMas isto não seria suficiente para salvar “Esqueceram de mim 2” do fracasso, até porque o trabalho técnico da equipe liderada por Columbus limita-se a repetir as mesmas estratégias do primeiro filme, o que pode ser interpretado como algo coerente, mas acaba reforçando a sensação de “mais do mesmo”. Assim, a trilha sonora do ótimo John Williams outra vez utiliza composições agitadas, como aquela que acompanha todos acordando atrasados; a fotografia de Julio Macat novamente prioriza cores quentes no início – que, aliás, permitem a composição de belos planos da cidade de Nova York -, mudando para um tom sombrio na medida em que a narrativa avança (repare como o parque parece assustador à noite); e, finalmente, se os coloridos figurinos de Jay Hurley mais uma vez reforçam o clima agradável pretendido por Columbus, por outro lado à escolha da mesma roupa para o pai de Kevin e o homem que se parece com ele no Aeroporto, que obviamente tenta justificar a confusão do garoto, acaba soando forçada demais. Ou seja, tudo muito adequado, mas parecido demais com o que já tínhamos visto.

Cores quentesParque parece assustadorMesma roupaSeguindo a saga, novamente temos um trecho de um filme sendo usado para assustar personagens, mas apesar da falta de originalidade, a cena em que Kevin assusta os funcionários do hotel é ótima e ilustra o que “Esqueceram de mim 2” tem de melhor: o bom humor. E neste aspecto, assim como na direção de atores, Columbus faz um bom trabalho, extraindo gargalhadas da plateia em sequências inspiradas que contam com a montagem de Raja Gosnell para funcionar, como quando a mãe de Kevin diz que ele não sabe usar cartão de crédito e, em seguida, o vemos usando seu cartão VISA no hotel. Gosnell, aliás, cria também algumas transições bem elegantes, como no “boa noite” à distancia de Kevin e sua mãe ou quando o sorriso de uma animação e do Concierge do hotel (Tim Curry) se misturam logo após este descobrir que o cartão usado por Kevin tinha sido denunciado na polícia.

Trecho de um filmeSorriso da animaçãoSorriso do Concierge do hotelNo elenco, Devin Ratray continua chato como Buzz, mas ao menos temos alguns personagens novos e interessantes, como a moradora de rua vivida por Brenda Fricker, que tem exatamente a mesma função do homem da neve no filme anterior e, assim como ocorria com o personagem interpretado por Roberts Blossom, também rouba a cena numa conversa com o pequeno protagonista – aliás, nesta bela cena temos um raro momento de crítica social (“As pessoas não me querem na cidade deles”). Temos também o Concierge do hotel interpretado por Tim Curry que, com seu jeito levemente afeminado, consegue provocar o riso da plateia, além da adorável participação de Eddie Bracken como o Sr. Duncan, o simpático dono da loja de brinquedos, e do conhecido e nada talentoso Rob Schneider, que vive Cedric.

Moradora de ruaConciergeSimpático dono da loja de brinquedosE chegamos então ao sádico Kevin, novamente interpretado pelo carismático Macaulay Culkin, que carrega a narrativa com grande desenvoltura e facilidade, sentindo-se ainda mais à vontade no papel, como notamos, por exemplo, em sua conversa com uma recepcionista logo na chegada ao hotel. Vivendo um dos sonhos de qualquer garoto, ele se esbalda num quarto repleto de guloseimas e sai para passear sozinho pelas ruas de Nova York, mas o aparecimento dos bandidos que tentaram roubar sua casa traz novamente a tona sua faceta sarcástica, escondida sob seu rosto angelical. Ainda criança, mas claramente mais desenvolvido, Culkin baseia sua atuação muito mais nos diálogos do que nas caretas que marcaram o primeiro filme – e que aqui só surgem com quase uma hora de projeção. Finalmente, o desempenho divertido do garoto é essencial para que o reencontro com os bandidos funcione.

Sádico KevinConversa com a recepcionistaCaretasEncurtando a sequência de preparação da defesa da casa, Columbus ganha tempo para explorar o que o primeiro filme tinha de melhor, criando outra hilária tentativa de invasão dos ladrões, repleta de gags engraçadas e momentos inspirados que se baseiam puramente no humor pastelão, como na cena dos tijolos atirados por Kevin no pobre Marv – este humor físico, aliás, está presente desde o princípio na cena do canto das crianças no coral de natal. Desta vez vagando por em Nova York após fugirem da prisão (que coincidência, não?), os ladrões estúpidos vividos por Pesci e Stern jamais soam ameaçadores, o que, somado ao que já vimos no filme anterior, faz com que a plateia jamais tema pelo destino de Kevin. Ao menos, os atores mais uma vez não hesitam e se entregam ao humor físico sem reservas.

Tijolos atirados por KevinLadrões estúpidosReencontro de Kevin com a moradora de ruaApós o festival de gargalhadas, “Esqueceram de mim 2” chega ao seu final repleto de clichês, com a redenção de Buzz e o reencontro de Kevin com a moradora de rua, que ao menos emociona pela simplicidade de ambos. Além disso, a piada da conta do hotel encerra o filme com o astral lá em cima, o que é ótimo.

Apesar de seus inúmeros problemas, “Esqueceram de mim 2” ainda consegue nos divertir graças ao enorme carisma de seu protagonista e à engraçada sequência de defesa da casa. Por outro lado, a constante repetição de elementos usados no primeiro filme já evidenciava que a franquia poderia muito bem terminar por ali. E se você observar quantas vezes eu utilizei expressões como “novamente”, “outra vez” e “mais uma vez” neste texto, talvez concorde comigo. Ou simplesmente me considere um péssimo escritor.

Esqueceram de Mim 2 foto 2Texto publicado em 22 de Abril de 2013 por Roberto Siqueira

ALADDIN (1992)

(Aladdin)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #165

Dirigido por Ron Clements e John Musker.

Elenco: Vozes de Scott Weinger, Linda Larkin, Robin Williams, Bruce Adler, Douglas Seale, Gilbert Gottfried, Frank Welker, Jonathan Freeman, Brad Kane e Lea Salonga.

Roteiro: Ron Clements, John Musker, Ted Elliott e Terry Rossio.

Produção: Ron Clements e John Musker.

Aladdin[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após atravessar décadas numa crise criativa que praticamente extinguiu as animações do estúdio, a Disney voltou a emplacar um sucesso com “A Pequena Sereia”, em 1989, e conseguiu a primeira indicação ao Oscar de Melhor Filme para uma animação com “A Bela e a Fera” dois anos depois. Diante deste cenário positivo, chegava aos cinemas a megaprodução “Aladdin”, que repetiria o sucesso de seus antecessores nas bilheterias e consolidaria de vez a ressurreição do estúdio, apostando novamente na mistura de canções marcantes, bom humor e uma clássica história de amor.

Escrito pelos diretores Ron Clements e John Musker ao lado de Ted Elliott e Terry Rossio, “Aladdin” nos leva ao fantástico mundo árabe onde a bela Princesa Jasmine (voz de Linda Larkin) precisa se casar para manter a tradição das terras de Agrabah, onde seu pai é o Sultão (voz de Douglas Seale). Interessado no posto, o conselheiro do Sultão conhecido como Jafar (voz de Jonathan Freeman) descobre que o pobre Aladdin (voz de Scott Weinger) é o único que pode entrar numa misteriosa caverna no deserto e recuperar uma lâmpada mágica, onde adormece um Gênio (voz de Robin Williams) que pode realizar até três desejos daquele que o despertar.

Como de costume, os animadores da Disney confirmam seu talento na criação de imagens belíssimas e permitem aos diretores Clements e Musker nos levarem pelo deslumbrante deserto árabe, com seu céu rosado e as típicas casas sem telhado nos transportando pra dentro da romântica Arábia dos contos clássicos. Pintados em cores quentes como o amarelo, o vermelho e o roxo, os cenários de “Aladdin” são um espetáculo a parte, um verdadeiro deleite para os olhos do espectador dentre os quais vale destacar a sinistra caverna que guarda a lâmpada e seu impressionante interior, além do lindo palácio onde vive Jasmine.

Romântica ArábiaSinistra cavernaLindo palácioAlém do visual arrebatador, “Aladdin” traz ainda um leve rompimento com o estilo narrativo clássico da Disney ao inserir ousadias de linguagem incomuns na filmografia do estúdio, como quando a câmera bate no rosto do comerciante/narrador (voz de Bruce Adler) logo na abertura. É verdade que a trilha sonora incessante continua lá, assim como as tradicionais musicais que permeiam a narrativa, mas ao menos as músicas compostas por Alan Menken mantém a jovialidade que consagrou “A Pequena Sereia”, como fica evidente na agitada canção de apresentação de Aladdin ou no sensacional número musical protagonizado pelo Gênio.

Câmera bate no rosto do narradorApresentação de AladdinNúmero musical protagonizado pelo GênioPor outro lado, a estrutura narrativa de “Aladdin” não traz nenhuma novidade e segue o padrão clássico das histórias de amor, com a Princesa rica se apaixonando pelo pobre protagonista, que deverá superar grandes desafios para finalmente conquistá-la. Mas isto não prejudica em nada a qualidade do longa, já que os diretores conduzem a narrativa com uma leveza desconcertante, jamais permitindo que ela se torne enfadonha. Além disso, o carisma dos personagens faz com que a plateia se identifique com eles e embarque nesta aventura.

Quando Jafar afirma que precisa encontrar o diamante bruto que pode entrar na caverna e resgatar a lâmpada, um corte seco do montador H. Lee Peterson nos leva até Aladdin, que surge fugindo dos guardas no mercado ao lado de seu fiel macaco Abu (voz de Frank Welker), evidenciando desde então a origem humilde do personagem, que sobrevive dos pequenos furtos que comete na feira da cidade. Divertido e vulnerável, Aladdin carrega alguns dos ingredientes básicos para criar empatia com a plateia, o que é essencial para que o espectador torça por seu sucesso. Assim, quando ele se apaixona por Jasmine, nós já estamos dispostos a acompanhar sua jornada até o fim, por maiores que sejam os obstáculos que surgem diante dele. E neste trajeto reside uma das principais mensagens do longa, que é a importância de assumir quem você é, já que tanto Aladdin quanto Jasmine passam por dificuldades quando tentam ser pessoas diferentes.

Fugindo dos guardasFiel macaco AbuDivertido e vulnerávelApresentada num zoom rápido que nos leva pelo mercado e revela sua aproximação de Aladdin, a encantadora Jasmine confirma a tendência de fortalecer as personagens femininas do estúdio apresentada antes em “A Pequena Sereia” e “A Bela e a Fera”, mostrando-se corajosa para enfrentar seu bondoso, porém facilmente manipulável pai e o cruel Jafar quando necessário, tendo participação ativa ainda no tenso terceiro ato que marca o confronto entre o protagonista e o grande vilão. Vestido com cores fortes como o preto e o vermelho, Jafar é o típico vilão caricatural da Disney, sempre empunhando um cajado em formato de cobra e com um olhar penetrante que busca assustar o público infantil.

Encantadora JasmineBondoso paiJafar o típico vilãoNo entanto, o personagem mais carismático de “Aladdin” é mesmo o divertido Gênio que ganha vida através da marcante voz de Robin Williams, com suas falas rápidas e seu jeito espalhafatoso conquistando o espectador assim que ele entra em cena. Dono de tiradas engraçadíssimas e um coração enorme, o Gênio ainda encontra espaço para nos emocionar ao falar sobre a solidão que enfrenta ao viver sozinho na lâmpada, num dos raros momentos melodramáticos de uma narrativa marcada pelo bom humor.

Divertido GênioJeito espalhafatosoTiradas engraçadíssimasAs piadas, aliás, surgem em profusão em “Aladdin”, seja em gags envolvendo a origem do nariz quebrado da Esfinge, seja na utilização de objetos distantes da realidade daquele ambiente (como carros) ou até mesmo na rápida referencia a “Pinocchio”, quando o Gênio diz que Aladdin está mentindo – e eu juro que vi o Gênio usar o rosto de Jack Nicholson quando falava sobre como Aladdin deveria cortejar Jasmine. Por outro lado, tanto o macaco Abu quanto o papagaio Iago (voz de Gilbert Gottfried) deveriam funcionar como alivio cômico, mas são raros os momentos realmente inspirados envolvendo estes personagens.

Origem do nariz quebrado da EsfingeReferencia a PinocchioRosto de Jack NicholsonO que não são raras em “Aladdin” são as grandes cenas, como a sensacional fuga da caverna após o herói encontrar a lâmpada, o lindo voo no tapete mágico de Aladdin e Jasmine embalado pela ainda mais bela música tema “A whole new world” e o empolgante terceiro ato em que Jafar assume o reino, repleto de imagens surreais e dominado por tons avermelhados que conferem uma aura infernal a sequência até que uma jogada inteligente do protagonista coloque as coisas no lugar e garanta o final feliz.

Sensacional fuga da cavernaLindo vooJafar assume o reinoMais leve e engraçado que as tradicionais animações Disney, “Aladdin” é uma boa diversão que se apoia no visual impactante e no carisma de seus personagens para funcionar e, felizmente, faz isto muito bem. Se não tem a genialidade que origina o nome de seu mais carismático personagem, ao menos esbanja o bom humor que tão bem caracteriza o prisioneiro da lâmpada mágica.

Aladdin foto 2Texto publicado em 14 de Abril de 2013 por Roberto Siqueira

ESQUECERAM DE MIM (1990)

(Home Alone)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #164

Dirigido por Chris Columbus.

Elenco: Macaulay Culkin, Joe Pesci, Daniel Stern, John Heard, Roberts Blossom, Catherine O’Hara, Angela Goethals, Devin Ratray, Gerry Bamman, Hillary Wolf, John Candy, Kieran Culkin e Hope Davis.

Roteiro: John Hughes.

Produção: John Hughes.

Esqueceram de mim[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Dono de uma das carreiras infantis mais bem sucedidas da história do cinema, Macaulay Culkin tornou-se o exemplo perfeito de como os problemas externos podem prejudicar as estrelas de Hollywood. Após emplacar um sucesso atrás do outro e registrar uma ascensão meteórica no início dos anos 90, o jovem astro simplesmente sumiu das telonas, ganhando espaço na mídia apenas pela disputa jurídica que travou com seus pais para poder administrar sua fortuna, por seus problemas com drogas e por sua amizade com o astro pop Michael Jackson. E mesmo não sendo o filme de estreia do ator, foi justamente este divertido “Esqueceram de mim” que alçou aquele menino carismático à fama e tornou seu rosto um dos mais conhecidos da época.

Escrito e produzido por John Hughes, responsável por muitos filmes de sucesso voltados para o público adolescente nos anos 80, “Esqueceram de mim” parte de uma premissa que, de tão absurda, deixa evidente desde o princípio que a narrativa não pretender ser levada a serio, funcionando como um leve passatempo que busca simplesmente nos fazer rir. Afinal, por mais relaxados que sejam, que pais em sã consciência seriam capazes de esquecer o próprio filho em casa e partir numa viagem para o exterior? Pois é exatamente o que faz a atrapalhada família de Kevin (Macaulay Culkin), um menino de oito anos que é deixado acidentalmente em casa no Natal enquanto seus parentes viajam para a França. Sozinho, o garoto se torna uma aparente presa fácil para os ladrões Harry (Joe Pesci) e Marv (Daniel Stern), que pretendem aproveitar a ausência dos pais para invadir a casa dele. No entanto, esta tarefa não será tão fácil quanto parece.

Partindo desta premissa pouco crível, Chris Columbus procura conferir a “Esqueceram de mim” uma atmosfera quase fabulesca, conduzindo a narrativa com uma leveza que encontra reflexo na fotografia de Julio Macat, com seu visual colorido nas cenas diurnas e às chamativas luzes que enfeitam as casas durante a noite. Da mesma forma, os figurinos de Jay Hurley utilizam cores vivas e coerentes com o espírito do longa, assim como a boa trilha sonora de John Williams faz diversas referências ao Natal (uma festa sempre associada à alegria), mudando o tom somente quando Marley (Roberts Blossom), o “homem da neve”, surge em cena, ao criar uma atmosfera de suspense que funciona corretamente, sem jamais quebrar o clima festivo que permeia as ótimas canções selecionadas por Williams.

Cenas diurnasChamativas luzesCores vivasTambém desde o início, Columbus trabalha bem elementos importantes da narrativa, como o grande número de pessoas presentes na casa de Levin, captado com precisão pela câmera inquieta do diretor. Esta sensação incômoda que sentimos ao ver aquelas pessoas transitando pela casa é importante para estabelecer a confusão que impera no local e tornar menos absurdo o esquecimento do garoto. Assim, quando eles acordam atrasados, fazem a contagem apressada das crianças (atrapalhada pela presença de um garoto vizinho) e partem sem Kevin, o absurdo da situação não deixa de existir, mas acaba funcionando no filme.

Grande número de pessoasSensação incômodaAcordam atrasadosIsto ocorre também porque o roteiro tem o cuidado de inserir elementos que colaboram na construção deste momento crucial, como os problemas de Kevin com a família e a evidente falta de atenção de seus pais, que conseguem se atrapalhar até mesmo no simples pagamento de uma pizza. Da mesma forma, diversas dicas espalhadas ainda no primeiro ato terão reflexo no clímax da narrativa, como o dente dourado do policial Harry, a lenda do homem da neve e a aranha de Buzz (Devin Ratray), o que é sempre divertido. Finalmente, os movimentos de câmera de Columbus ajudam a compreender a geografia da casa, o que é essencial para que a sequência da invasão dos ladrões funcione – e tanto a escolha da mansão como a dos objetos usados por Kevin para evitar a invasão são importantes neste processo, o que é mérito do design de produção de John Muto.

Problemas de Kevin com a famíliaDente dourado do policial HarryAranha de BuzzEmpregando closes nas inúmeras caretas e nos diversos gritos de Macaulay Culkin, Chris Columbus busca valorizar ao máximo seu carismático protagonista, o que se revela uma estratégia inteligente por parte do diretor. Indefeso e maltratado pela família, Kevin logo se coloca numa posição vulnerável e, desta forma, conquista a empatia da plateia com tranquilidade. É claro que o carisma de Culkin é crucial neste processo e, mesmo sendo ainda tão jovem, o garoto se sai muito bem, carregando a narrativa com facilidade. Seu rosto angelical evoca uma aura de inocência que tornará ainda mais surpreendente sua sádica estratégia para proteger a casa (“Fiz minha família desaparecer”, diz sorridente ao descobrir que estava sozinho). Em suma, a presença de Culkin é fundamental para que “Esqueceram de mim” funcione tão bem como comédia.

Indefeso e maltratado pela famíliaRosto angelicalSádica estratégiaComo era de se esperar, Kate, a mãe de Kevin vivida por Catherine O’Hara, se desespera assim que descobre o que aconteceu, mas não ao ponto de quebrar o clima leve da narrativa. Ainda assim, a atriz vive um grande momento quando, com os olhos marejados, implora para embarcar em um avião, demonstrando que está realmente sofrendo pelo que aconteceu com seu filho. Já os outros personagens, como o chato Buzz, obviamente não apresentam muita profundidade, mas isto não é exatamente um problema grave numa comédia leve e despretensiosa como esta. Até por isso, Roberts Blossom consegue roubar a cena nos poucos minutos em que ganha destaque como o homem da neve Marley, emocionando a plateia ao confessar para o pequeno Kevin os problemas de sua família; e aqui impressiona também a desenvoltura de Culkin, que desenvolve o diálogo com naturalidade, sem jamais ser ofuscado pelo momento brilhante de Blossom.

Implora para embarcar em um aviãoConfessa para o pequeno Kevin os problemas de sua famíliaDesenvoltura de Culkin“Esqueceram de mim” traz ainda outras cenas emocionantes, como o inocente pedido de Kevin para um “ajudante” do Papai Noel (“Sei que você não é o Papai Noel, mas pode dar um recado pra ele?”) e o instante em que ele contempla uma família de vizinhos curtindo a noite de Natal, além é claro do esperado reencontro entre Marley e sua família. Mas são mesmo os momentos engraçados que garantem o sucesso do longa, começando pelos excelentes truques do garoto que buscam enganar os ladrões, como a festa promovida com brinquedos e cartazes e o trecho de um filme repetido diversas vezes, além da empolgante sequência de preparação da defesa da casa, que, auxiliada pela montagem dinâmica de Raja Gosnell e pela trilha sonora agitada, consegue criar o clima ideal para o engraçadíssimo terceiro ato.

Reencontro entre Marley e sua famíliaFesta promovida com brinquedosTrecho de um filmeE então chegamos à hilária tentativa de invasão promovida pelos bandidos, recheada de gags divertidas baseadas no humor físico, numa verdadeira sucessão de trapalhadas dignas dos “Três Patetas” ou das animações de Chuck Jones – e se tudo funciona muito bem, é também porque Pesci e Stern se entregam completamente ao humor pastelão, sem jamais hesitarem ou temerem cair no ridículo. Depois dela, até perdoamos a óbvia mensagem moralista sobre a importância da família e a previsível trajetória de redenção do protagonista.

Hilária tentativa de invasãoHumor físicoHumor pastelãoUma boa comédia é aquela que consegue envolver o espectador e fazê-lo rir das situações que apresenta, por mais incoerentes que estas possam parecer. Sendo assim, “Esqueceram de mim” é uma ótima diversão, que cumpre muito bem o que se propõe a fazer.

Esqueceram de mim foto 2Texto publicado em 04 de Abril de 2013 por Roberto Siqueira