OSCAR 2012 – Palpites

Olá pessoal,

Mais uma vez vou cometer a insanidade de deixar registrados os meus palpites aqui no blog, somente para que vocês possam tirar um barato dos meus erros depois. Até agora, tudo indica que “O Artista” será o grande vencedor, por isso, minhas apostas se concentram no longa de Michel Hazanavicius.

Como assisti a poucos filmes indicados neste ano, minha torcida será pura e simplesmente por afinidade. Adoraria ver Scorsese (pela segunda vez na carreira) ou Brad Pitt (pela primeira vez) no palco recebendo a estatueta, assim como seria memorável ver o reconhecimento da genialidade de Terrence Malick, mas não posso negar que ver um filme mudo e em preto e branco saindo vencedor do Kodak Theater seria algo muito bem vindo. Quem sabe assim o público não se interessa em revisitar as pérolas produzidas na época em que os filmes eram mudos ou mesmo os que eram falados, mas em preto e branco. O cinema tem tanto a oferecer para aqueles que resolvem respeitar sua bela história e quem sabe este seja o incentivo que esteja faltando. Ouço tanta gente reclamando quando descobre que algum filme é em preto e branco ou mudo que chego a me entristecer, por saber que muitas obras marcantes do cinema jamais serão descobertas por estas pessoas.

Além disso, a vitória de “O Artista” premiará a coragem de investir numa boa história, independente do formato adotado (colorido ou preto e branco, mudo ou falado), o que seria ótimo para o futuro do cinema. Mas mesmo que o filme não saia vencedor, seu lugar na história do cinema já está garantido.

De volta à premiação, espero que neste ano as piadas sejam mais criativas e a cerimônia mais dinâmica, mas duvido que isto aconteça. Em todo caso, estarei lá, assistindo ao vivo, acompanhando os comentários do Pablo Villaça na internet e deixando meus comentários no twitter (para aqueles que estiverem interessados em acompanhar as besteiras que “twitto” durante a transmissão, podem me seguir no @cinemaedebate).

Finalmente, meus palpites para o Oscar 2012:

Melhor filme

 “O Artista”

Melhor direção

Michel Hazanavicius, “O Artista”

Melhor ator

Jean Dujardin, “O Artista”

Melhor atriz

Meryl Streep, “A Dama de Ferro”

Melhor ator coadjuvante

Christopher Plummer, “Beginners

Melhor atriz coadjuvante

Octavia Spencer, “Histórias Cruzadas”

Melhor roteiro original

“Meia-Noite em Paris”, de Woody Allen

Melhor roteiro adaptado

“Os Descendentes”, de Alexander Payne and Nat Faxon & Jim Rash

Melhor animação

“Rango”

Melhor filme estrangeiro

“A Separação” (Irã)

Melhor direção de arte

“A Invenção de Hugo Cabret”

Melhor fotografia

“A Árvore da Vida”

Melhor figurino

“A Invenção de Hugo Cabret”

Melhor montagem

“O Artista”

Melhor maquiagem

Harry Potter e as Relíquias da Morte Parte 2

Melhor trilha sonora original

“O Artista”, Ludovic Bource

Melhor canção original

Man or Muppet”, de “Os Muppets” (música e letra de Bret McKenzie)

Melhores efeitos visuais

“Planeta dos Macacos: A Origem”

Melhor mixagem de som

“Millenium – Os homens que não amavam as mulheres”

Melhor edição de som

“Millenium – Os homens que não amavam as mulheres”

Melhor documentário

Pina

Melhor documentário em curta-metragem

Incident in New Baghdad

Melhor curta-metragem

Pentecost

Melhor curta-metragem de animação

La Luna

Agora só nos resta aguardar pela cerimônia e, como acontece em todos os anos, comentar as escolhas feitas pela Academia. Mas vale lembrar, o Oscar é apenas uma festa, não é atestado de qualidade hein pessoal! Portanto, não precisamos levá-lo tão a sério, por mais interessante que seja vermos os artistas que gostamos sendo reconhecidos.

Um abraço e bom OSCAR para todos!

Texto publicado em 26 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira

TOY STORY 3 (2010)

(Toy Story 3)

 

 

Filmes em Geral #87

Dirigido por Lee Unkrich.

Elenco: Vozes de Tom Hanks, Tim Allen, Michael Keaton, Joan Cusack, Bonnie Hunt, Timothy Dalton, R. Lee Ermey, John Ratzenberger, John Morris, Laurie Metcalf, Wallace Shawn, Don Rickles, Jodi Benson e Ned Beatty.

Roteiro: Michael Arndt.

Produção: Darla K. Anderson.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Antes mesmo de assistir ao último filme da impecável trilogia “Toy Story”, fui tomado por um sentimento nostálgico somente ao imaginar que, após acompanharmos a trajetória de Andy e seus queridos brinquedos nos excepcionais filmes anteriores, aquela seria a minha despedida de Woody, Buzz e companhia. Se me emocionei em “Toy Story” e quase não contive as lágrimas em “Toy Story 2” – especialmente no clipe que conta a história de Jesse e sua dona -, era muito provável que as lágrimas seriam inevitáveis em “Toy Story 3”. Mas eu não estava preparado para esta verdadeira catarse. A verdade é que a obra-prima dirigida por Lee Unkrich mexe em nossos sentimentos mais profundos, remetendo a mais nostálgica fase de nossas vidas.

Desta vez escrito por Michael Arndt, “Toy Story 3” traz Andy (voz de John Morris) já com 17 anos e prestes a ir para a Faculdade. Enquanto arruma seu quarto, ele decide levar apenas o cowboy Woody (voz de Tom Hanks) e deixar todos seus outros brinquedos no sótão, entre eles Buzz Lightyear (voz de Tim Allen), Jessie (voz de Joan Cusack) e o Sr. Cabeça de Batata (voz de Don Rickles). Mas, por engano, sua mãe confunde o saco que ele separou para os brinquedos e eles acabam no lixo. O grupo consegue escapar, se infiltra numa caixa onde está Barbie (voz de Jodi Benson) e acaba sendo levado para a creche Sunnyside, onde eles conhecerão novos brinquedos como Ken (voz de Michael Keaton) e o urso Lotso (voz de Ned Beatty).

Esbanjando criatividade, o roteiro de Arndt traz Woody novamente numa situação complicada, tendo que salvar os amigos antes da partida de Andy, o que nos leva a novas e empolgantes aventuras. Remetendo em alguns instantes a estrutura narrativa do primeiro filme (a reunião entre os brinquedos, a “fuga involuntária” da casa), Arndt tem ainda o cuidado de revelar o destino de personagens marcantes como Wheezy, a boneca de porcelana Beth e os soldados de plástico, num indício sutil do clima nostálgico que permeia a narrativa, acertando também nos momentos bem humorados, como ao “resetar” Buzz e trazer de volta sua adorável dedicação ao “comando estelar”, além da hilária mudança de seu idioma para o espanhol. Abordando temas como a inexorabilidade do tempo (como atestam o gordo e cansado Buster e o rosto adolescente de Andy) e a importância da amizade verdadeira, “Toy Story 3” emociona não apenas as crianças, mas também (e especialmente!) os adultos.

A espetacular seqüência de abertura dá o tom da narrativa, iniciando com a empolgante aventura (que descobriremos existir apenas na cabeça de Andy) envolvendo os principais personagens da trilogia e terminando nas gravações que mostram o crescimento do garoto. Esta oscilação entre a euforia e a nostalgia é uma das marcas de “Toy Story 3”, graças à direção firme de Unkrich que transforma o capítulo final da trilogia num festival de sensações. Contando com o bom trabalho do montador Ken Schretzmann, a narrativa transita muito bem entre emoções extremas, passando pela adrenalina das aventuras, pela tensão dos momentos de suspense e pela delicadeza de cenas tocantes, como o melancólico e sublime final, intercalando tudo isso com momentos de bom humor. Além disso, o trabalho de montagem se destaca também pela fluidez em diversos momentos, como na citada abertura e na apresentação do sistema de segurança de Lotso, que transforma Sunnyside numa prisão.

Tecnicamente, mais uma vez a qualidade das animações impressiona pela riqueza de detalhes, sendo capaz de dar vida aos brinquedos através da leveza de seus movimentos e da expressividade deles – observe a expressão de desaprovação de Woody quando chega a Sunnyside, por exemplo. Além disso, chega a ser quase inacreditável a capacidade de criação dos animadores da Pixar, que desenvolvem uma enorme variedade de brinquedos (muitos deles remetem diretamente a minha infância, aliás), assim como o roteiro novamente aproveita a oportunidade para criar gags divertidas baseadas nas características deles, como no sensacional encontro entre Ken e Barbie e no divertido desfile que ele faz pra ela, nas constantes piadas sobre a origem dele (“Não sou brinquedo de menina!”) e no corpo improvisado pelo Sr. Cabeça de Batata.

Ainda na parte técnica, vale destacar mais uma vez o excepcional design de som, que dá vida ao mundo criado pelos animadores e nos insere dentro dele com precisão. E se desta vez a bela “You’ve got a friend in me” soa ainda mais nostálgica devido às circunstâncias, a trilha sonora de Randy Newman se destaca também por pontuar com precisão as cenas de aventura e suspense, injetando adrenalina e tensão sempre na medida certa, além de mostrar criatividade nos acordes tipicamente espanhóis que embalam a divertida dança “caliente” de Buzz.

Voltando aos aspectos visuais, vale observar como a fotografia colorida e cheia de vida na chegada dos brinquedos à creche Sunnyside cria uma expectativa totalmente contrária à realidade do lugar, evidenciada somente pela reação dos brinquedos locais segundos antes da invasão das agitadas crianças que detonam todos eles. Esta subversão de expectativa, aliás, também acontece com o personagem Lotso, que surge como um urso tranqüilo e amigável – e a voz contida de Ned Beatty é essencial para isto -, mas lentamente se revela como o grande vilão da trama. Será ele o agente da mudança brusca da fotografia, que troca as cores vivas pelos tons obscuros durante todo o segundo ato após Woody ouvir a história de Lotso, em outra cena que transita de tons dourados para cores sombrias e sufocantes que, realçadas pela chuva, ilustram os sentimentos do urso abandonado.

Além de imprimir um ritmo delicioso à narrativa, Unkrich se destaca, por exemplo, na condução de seqüências empolgantes e visualmente belíssimas como a primeira fuga de Woody de Sunnyside, a acrobática saída de Buzz da sala Lagarta e a segunda fuga da creche, capaz de grudar o espectador na cadeira, especialmente quando os personagens são deixados no assombroso depósito de lixo – e confesso que cheguei a temer pelo destino dos heróis nesta sombria seqüência, que é certamente o momento mais tenso da narrativa. Através destes interessantes movimentos de câmera que acompanham as peripécias dos personagens, Unkrich confere agilidade e dinamismo ao longa, o que é essencial numa aventura infantil. Mas “Toy Story 3” está longe de direcionar seus esforços apenas para a fatia mais jovem do público. Por isso, quando os personagens escapam da difícil situação no depósito e conseguem voltar para casa, o final devastador se aproxima e o espectador já sabe o que esperar.

Quando Andy brinca pela última vez com seus queridos brinquedos e apresenta cada um deles para a garota, nós sabemos que também estamos nos despedindo daqueles personagens adoráveis. Sabemos ainda que, para Andy, não se trata apenas de deixar aqueles brinquedos legais para trás, mas também de despedir-se definitivamente dos áureos tempos da infância, época em que o mundo era filtrado pela pureza do olhar de uma criança. Por isso, a identificação do espectador adulto é inevitável e fica difícil segurar as lágrimas. Após o carro perder-se no horizonte e Andy deixar tudo isto para trás, aqueles momentos mágicos sobreviverão apenas na memória – e quem já passou por esta fase sabe bem o que é isto. Finalmente, esta cena final é ainda mais emblemática para aqueles que eram crianças no lançamento do primeiro “Toy Story”, já que, devido a distancia de 15 anos entre os filmes, estes jovens provavelmente também estavam na faculdade em 2010 e, portanto, o crescimento de Andy reflete a própria trajetória deles.

Ao contrário de Andy, que foi obrigado a deixar seus brinquedos para trás, as novas gerações podem comemorar, pois os filmes da trilogia “Toy Story” são brinquedos que podemos guardar eternamente e até mesmo voltar a “brincar” com eles sempre que quisermos. Esta é a magia do cinema. Esta é a magia da Pixar, que provou nesta trilogia ter o poder de – com o perdão do trocadilho – ir “ao infinito e além!”.

Texto publicado em 24 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira

O VENCEDOR (2010)

(The Fighter)

 

Filmes em Geral #86

Dirigido por David O. Russell.

Elenco: Mark Wahlberg, Christian Bale, Amy Adams, Melissa Leo, Jack McGee, Melissa McMeekin, Bianca Hunter, Erica McDermott, Jill Quigg, Dendrie Taylor, Kate B. O’Brien, Jenna Lamia, Mickey O’Keefe, Frank Renzulli, Caitlin Dwyer e Ross Bickell.

Roteiro: Scott Silver, Paul Tamasy e Eric Johnson.

Produção: Dorothy Aufiero, David Hoberman, Ryan Kavanaugh, Todd Lieberman, Paul Tamasy e Mark Wahlberg.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

É sempre interessante ver um bom filme de boxe – não fosse assim, este esporte não teria inspirado tantos filmes de sucesso ao longo da história do cinema. Ainda mais interessante é quando o esporte funciona apenas como pano de fundo para um complexo estudo de personagens, como é o caso deste “O Vencedor”, que, além de trazer a história real de dois irmãos boxeadores e sua complicada família, ainda nos apresenta um elenco afinado, liderado pelo ótimo Mark Wahlberg e que conta ainda com a excepcional atuação de Christian Bale.

Escrito por Scott Silver, Paul Tamasy e Eric Johnson, “O Vencedor” conta a história real dos irmãos Dicky Eklund (Christian Bale) e Micky Ward (Mark Wahlberg), quando o primeiro, famoso por ter derrotado o campeão mundial Sugar Ray e hoje viciado em drogas, está treinando o segundo na pequena cidade de Lowell, sob o olhar atento da mãe e empresária Alice (Melissa Leo). Só que os problemas do irmão e a influência de sua namorada Charlene (Amy Adams) fazem Micky buscar uma alternativa para levar a carreira de forma mais profissional, criando um conflito com seus familiares.

Apresentando uma família disfuncional – um tema apreciado pelo cinema “alternativo” de Hollywood -, a narrativa de “O Vencedor” trabalha cuidadosamente no estabelecimento das relações entre os personagens durante o primeiro ato, preparando o espectador para os conflitos que surgirão, o que, por exemplo, aumenta o impacto da reação de Micky após a prisão de Dicky, que delata sua intenção de abandonar o apoio da família e buscar uma alternativa para a carreira. Quando isto ocorre, o espectador pode até se surpreender pela forma ríspida como Micky responde o irmão, mas compreende perfeitamente sua decisão justamente por já estar familiarizado com seus problemas. Da mesma forma, a platéia se surpreende novamente com a reaproximação deles no terceiro ato, exatamente pela maneira realista que a narrativa aborda o conturbado relacionamento entre eles, o que também é bastante interessante.

Ao priorizar (corretamente) o conturbado relacionamento de Micky e sua família, a montagem de Pamela Martin abre pouco espaço para as cenas de luta, que ainda assim surgem intensas e realistas, graças à câmera movimentada de Russel e ao excepcional design de som, que nos ambienta perfeitamente através do barulho dos golpes, gemidos, gritos da torcida e vozes dos narradores. Vale destacar também como Martin e Russel cobrem as primeiras vitórias de Micky com dinamismo, saltando na narrativa de maneira elegante, e contando ainda com a agitada trilha sonora de Michael Brook, que ilustra a euforia do personagem em seu momento de virada na carreira. Variando entre músicas agitadas, que combinam perfeitamente com a natureza destrutiva do boxe, e canções melancólicas como “Strip my mind” (dos Chili Peppers), a trilha ilustra perfeitamente o carrossel de emoções enfrentado pelo protagonista.

Utilizando imagens de arquivo da verdadeira luta entre Dicky e Sugar Ray, a fotografia de Hoyte Van Hoytema busca manter o realismo através do uso de uma paleta natural, que chega a ser crua em diversos momentos, conferindo um ar documental ao longa. Esta abordagem é confirmada também na direção segura de David O. Russell, que utiliza a câmera de mão constantemente, buscando justamente reforçar a atmosfera realista que a narrativa pede, como na conturbada cena da prisão de Dicky, que ganha ainda mais adrenalina em sua câmera agitada. Além disso, o diretor busca nos aproximar de seus personagens ao abusar dos closes, como nas intensas discussões entre Charlene, Micky e sua conturbada família e na forte cena da crise de abstinência de Dicky.

Apresentando um impressionante emagrecimento que chega perto do inacreditável resultado alcançado no ótimo “O Operário”, Bale interpreta o despojado Dicky com intensidade, movimentando-se constantemente e até mesmo soando um pouco freak, mas se destaca mesmo ao demonstrar muito bem os efeitos do crack através do olhar arregalado, da fala acelerada e da falta de sincronismo quando conversa com alguém – repare como ele mal consegue olhar diretamente para as pessoas, como quando discute com Micky na casa de sua mãe, mas ainda assim é capaz de prestar atenção na conversa. Sempre agitado e em constante movimento, Dicky vive da histórica vitória contra Sugar Ray, talvez porque sua própria família parece não perceber que o tempo passou e o boxeador vitorioso do passado foi substituído por um homem problemático que necessita de ajuda.

Inicialmente mais contido que o irmão, Micky lentamente se rebela contra a família opressora e conquista seu espaço, algo que Wahlberg ilustra muito bem demonstrando confiança no tom de voz e no olhar, como em sua discussão com Dicky dentro do presídio. Esta mudança é perfeitamente compreensível diante da situação complicada em que ele vive. Rodeado por sete irmãs e uma mãe superprotetora, Micky ainda sente a pressão de ter que ser vencedor no boxe assim como foi seu irmão – e novamente, o ator transmite esta aflição do personagem muito bem em seu comportamento inicialmente retraído. Além disso, a amargura de sua ex-esposa indica que eles tiveram sérios problemas no passado, o que só piora sua situação. Talvez por isso ele encontre conforto em Charlene, que representa a tão desejada paz que ele procura e não consegue encontrar em sua família.

Sensual e bastante direta, a Charlene de Amy Adams surge confiante desde o instante em que aceita o convite de Micky para sair, crescendo ao longo da narrativa ao enfrentar a família do boxeador sem medo, o que leva a um inevitável confronto na frente de sua casa que chega às vias-de-fato – numa cena tensa e bem conduzida por Russel. Adams se sai maravilhosamente bem nos afiados diálogos que precedem o conflito, jamais se intimidando diante da resistência das ciumentas irmãs dele, e sua personagem ainda protagoniza um momento curioso, quando reclama de filmes legendados, mostrando uma característica do povo americano (e, infelizmente, que aos poucos está dominando o espectador brasileiro também). Também despojada e até mesmo intrometida, a falastrona Alice de Melissa Leo é a típica mãe superprotetora que não enxerga o quanto interfere na vida de seus filhos – e o fato de fechar os olhos para o problema de Dicky só ressalta seu medo de “perder” a proximidade que tem com eles. Mas, apesar de tudo, ela realmente ama os filhos e expressa isto de corpo e alma, vibrando em cada luta de Micky – ainda que arranje lutas desiguais apenas por dinheiro – e acompanhando Dicky numa canção com uma voz tremula que reflete sua tristeza diante da situação do filho. Por isso, chega a ser tocante o momento em que ela, após ver as filhas brigando com Charlene, demonstra não compreender porque Micky se afasta dela, evidenciando sua cegueira quanto ao próprio comportamento superprotetor.

Além de fazer um belo estudo dos irmãos Dicky e Micky, “O Vencedor” ainda acerta ao mostrar os devastadores efeitos do crack, resumidos no momento em que a HBO transmite um filme sobre Dicky e toda a sua família se envergonha do que está vendo – incluindo o próprio ex-boxeador. Ao levar a questão a sério sem jamais julgar o viciado e, especialmente, ao mostrá-lo como um ser humano normal, capaz de vencer um título mundial no passado e de ajudar o irmão no presente, o filme aborda o vício de maneira adulta, estimulando a discussão e a reflexão a respeito do tema.

Apesar de discutir rispidamente com o irmão, Micky ouve seus conselhos e acaba vencendo a luta contra Sanchez por causa disto. Mas nem por isso ele aceita o irmão de volta quando ele sai da prisão e revela sua insatisfação batendo nele num treinamento, o que gera outra discussão forte que culmina no rompimento de Micky com a namorada e o treinador Mickey O’Keefe (o próprio). E, vejam só, é justamente Dicky quem trata de reatar as relações, confirmando a ambigüidade dos personagens de “O Vencedor”. Aqui não existe certo e errado, pois todos pensam estarem agindo corretamente, por mais absurdas que pareçam suas atitudes. Esta ambigüidade chega ao auge na luta pelo título mundial, quando mesmo contrariados eles se juntam em torno de um único objetivo: fazer Micky ser campeão. Sugando o espectador pra dentro do ringue desde o canto entoado pelos irmãos ao lado do treinador O’Keefe, a luta final é marcante e repleta de energia, impressionando ainda por revelar a incrível mudança física de Wahlberg, que surge musculoso e bem diferente do homem barrigudo que acompanhamos em determinado momento da narrativa. E novamente subvertendo nossa expectativa, Dicky se confirma como peça fundamental na vitória do irmão, estimulando-o com palavras e gritos de incentivo o tempo todo.

Após a vitória, todos sobem juntos no ringue e deixam os problemas pelo menos por um instante para trás, num momento emblemático que fecha muito bem “O Vencedor”. Contando com excelentes atuações e trazendo uma história real, o longa dirigido por David O. Russell entra para a galeria dos bons filmes de boxe, para a alegria dos fãs do esporte – e dos cinéfilos também.

Texto publicado em 23 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira

Feliz Aniversário

Uma pausa na semana Oscar 2011 por uma razão mais que especial: há exatos dois anos minha vida mudou para sempre.

Por isso, hoje é dia de comemorar!

Feliz aniversário meu filho, que Deus te abençoe sempre!

Beijos do papai e da mamãe.

E olha quem apareceu pra também te dar os parabéns. Ele mesmo! O Woody, ou, como você gosta de falar fazendo bico, o Wudiiiiii!

Texto publicado em 22 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira

O DISCURSO DO REI (2010)

(The King’s Speech)

 

Filmes em Geral #85

Vencedores do Oscar #2010

Dirigido por Tom Hooper.

Elenco: Colin Firth, Helena Bonham Carter, Geoffrey Rush, Guy Pearce, Timothy Spall, Michael Gambon, Derek Jacobi, Andrew Havill, Calum Gittins, Jennifer Ehle, Dominic Applewhite, Ben Wimsett, Jake Hathaway, Claire Bloom, Orlando Wells e Tim Downie.

Roteiro: David Seidler.

Produção: Iain Canning, Emile Sherman, Gareth Unwin, Simon Egan e Peter Heslop.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apresentando um protagonista com uma deficiência que afeta diretamente uma das mais importantes atribuições exigidas de alguém em sua posição, “O Discurso do Rei” agrada justamente por nos mostrar uma bela história de superação, ainda que este seja um tema recorrente. Até aqui, tudo bem, já que não há problema algum em repetir um tema tantas vezes explorado pelo cinema, desde que o resultado final não soe desgastado ou repetitivo. Felizmente, este não é o caso do longa dirigido por Tom Hooper, ainda que o diretor falhe na construção visual da narrativa. Apesar do escorregão, as ótimas atuações e a bela trajetória de superação do protagonista sustentam o filme.

Escrito por David Seidler, “O Discurso do Rei” narra a história do duque de York (Colin Firth), que se vê obrigado a assumir o trono como George VI após a morte de seu pai (Michael Gambon) e a saída repentina de seu irmão (Guy Pearce), perdidamente apaixonado por uma mulher divorciada. O problema é que ele sofre de gagueira, o que implica em sérias dificuldades todas as vezes que ele precisa discursar em público, algo cada vez mais necessário após a difusão do rádio. Diante do drama do marido, a esposa Elizabeth (Helena Bonham Carter) resolve pedir ajuda a um fonoaudiólogo nada convencional chamado Lionel (Geoffrey Rush).

Como podemos perceber somente através de sua premissa, “O Discurso do Rei” teria tudo para se tornar um drama melodramático ou uma comédia pastelão, mas felizmente o roteiro de Seidler acerta no tom e alcança um equilíbrio agradável que jamais descamba para um lado ou para o outro, ainda que falhe na construção de personagens maniqueístas e exagere pontualmente nas piadas que visam dar leveza a narrativa. Ainda assim, é interessante notar como Seidler aproveita para inserir raras e interessantes alfinetadas na monarquia através de Lionel, como quando ele senta na cadeira da igreja e provoca o rei, que se irrita e solta a voz sem gaguejar. Já o discurso que abre o filme serve para nos apresentar a dificuldade do protagonista e ganhar a empatia da platéia, algo que até mesmo a trilha sonora de Alexandre Desplat evidencia ao criar uma atmosfera tensa antes das primeiras palavras dele, mudando para um tom melancólico que, associado ao olhar incomodado do público, garante a identificação imediata do espectador com o vulnerável duque de York.

Numa atuação excepcional, Firth transmite muito bem a aflição do rei George VI por não conseguir se expressar, além de oscilar de maneira convincente entre os momentos de alegria (ao lado das filhas, por exemplo) e as constantes explosões provocadas pelo trauma de infância que tanto o sufoca. Este lado sombrio torna o personagem ambíguo e misterioso, o que é essencial para que o espectador não antecipe suas reações e se choque, por exemplo, quando ele humilha Lionel no meio da rua após uma discussão – e aqui temos uma demonstração da falta de habilidade de Hooper, que começa a cena corretamente com um movimento de câmera que diminui Lionel no fundo do plano, simbolizando sua impotência, mas abandona a estratégia cortando abruptamente para um plano fechado que destaca o personagem e destrói a construção dramática da cena. Mas se por um lado George VI demonstra que pode ser cruel a este ponto, por outro confirma sua vulnerabilidade de diversas maneiras, como ao perguntar se pode mexer no brinquedo do filho de Lionel ou, de maneira mais clara, ao chorar compulsivamente após o irmão deixar o trono, temendo a pressão de ser rei – num momento que destaca a importância do apoio da esposa e como ele se sente à vontade diante dela.

Mostrando-se preocupada e até mesmo comovida com o drama do marido, a Elizabeth de Helena Bonham Carter é a verdadeira companheira que oferece o apoio necessário na hora exata; e a atriz faz bem este papel, soando compreensiva na maior parte do tempo. Da mesma forma, o Lionel de Geoffrey Rush é o contraponto ideal para o explosivo George, com sua tranqüilidade e autoconfiança servindo como refúgio para o atormentado protagonista. Saindo-se bem nos duelos verbais com Firth, Rush cria um Lionel bastante carismático e convence o espectador como uma espécie de conselheiro do rei, graças também à boa química entre eles. Por outro lado, o unidimensional Rei Edward VIII de Guy Pearce chega a ser irritante em sua devoção à esposa e se torna definitivamente odiável quando zomba da gagueira do irmão, numa cena que começa a denunciar a origem da doença do protagonista, que será confirmada num momento tocante em que ele relembra os traumas vividos diante da família e de uma babá. Fechando o elenco, também vale citar a participação pequena e caricata de Timothy Spall como Winston Churchill, conhecido pelos discursos durante a segunda guerra mundial e que também tinha problema na fala, algo que ele chega a citar durante a narrativa.

A vida triste do protagonista é claramente refletida na paleta dessaturada da fotografia de Danny Cohen, que cria um visual cinzento, reforçado pelos tons escuros de suas roupas (figurinos de Jenny Beavan). Já as paredes descascadas do consultório indicam a situação financeira pouco confortável de Lionel e sua origem humilde, que será usada por George para ofendê-lo em determinado momento da narrativa, evidenciando o bom trabalho de direção de arte de Netty Chapman, que também nos ambienta perfeitamente à Inglaterra das primeiras décadas do século passado através dos carros, da imponente mesa de jantar do rei, dos próprios microfones e da decoração interna dos ambientes.

Cobrindo muitos anos da vida do rei, a montagem de Tariq Anwar é eficiente, ainda que utilize deselegantes letreiros para indicar a passagem do tempo. E finalizando a parte técnica, o design de som merece destaque especialmente nos discursos que abrem e fecham “O Discurso do Rei”, onde podemos ouvir claramente o público levantando, o volume diferenciado do microfone de acordo com o ambiente em que estamos e até mesmo a reação contida das pessoas ao ouvirem suas palavras. Também vale citar o momento em que o som diegético trabalha a favor da narrativa, quando ouvimos a música junto com o duque e não sabemos se ele conseguiu ou não falar enquanto Lionel grava o áudio – apesar do resultado daquele teste ser mais do que previsível.

Imprevisível mesmo é a direção de Tom Hooper. Inicialmente, ele parece ter total controle visual da narrativa, mostrando o rei George VI sempre do lado esquerdo (o mais fraco da tela) e Lionel sempre do lado direito (o mais forte) na primeira conversa deles, algo que, além de demonstrar o lado psicologicamente mais fraco daquela relação, ainda reflete a forma distorcida que o protagonista enxerga o mundo. Mas quando seu pai questiona duramente sua atitude passiva, tanto o duque quanto o rei George V aparecem do lado mais fraco da tela, o que denuncia, ainda que sutilmente, que Hooper sequer sabia o que estava fazendo. Isto fica ainda mais evidente na medida em que a narrativa avança, como na conversa seguinte à morte do rei George V, em que o duque aparece do lado direito da tela no plano geral, mas volta a surgir do lado esquerdo nos planos fechados. Se mantivesse as posições e gradualmente invertesse os lados dos personagens, Hooper estaria simbolizando o crescimento da confiança do personagem, o que seria genial. O mais curioso é que sabendo ou não o que estava fazendo, o diretor encerra “O Discurso do Rei” justamente com George VI do lado direito da tela e Lionel surgindo por último do lado esquerdo, o que, não fossem as constantes trocas durante a narrativa, poderia significar o fortalecimento do rei naquela relação. Pra piorar, o diretor insiste nesta visão distorcida até mesmo quando as cenas não envolvem George VI, o que é uma pena. Mas Hooper também acerta, como quando a câmera vai e volta em direção ao duque em seu tratamento, simulando o movimento respiratório tão importante naquele processo de cura do personagem. Além disso, o diretor obviamente tem créditos por extrair as excelentes atuações do elenco citadas acima.

E por falar em atuações, Firth dá outro show durante o ensaio de George VI, cantando, dançando e até mesmo gritando palavrões sob a observação atenta de Lionel, momentos antes do esperado discurso do título. E quando este momento chega, a tensão toma conta das pessoas presentes – e mesmo imaginando o que irá acontecer, o espectador compartilha deste sentimento. Ainda assim, Hooper estica ao máximo a cena antes de George pronunciar as primeiras palavras e fazer um belo discurso, com raras falhas (“Eu tinha que gaguejar para eles saberem que sou eu”, diz ele), na melhor cena do longa, que destaca ainda a reação das pessoas diante daquelas palavras ao mesmo tempo em que nos mostra o esforço do protagonista para evitar gaguejar. Apesar de previsível, este final feliz faz com que o espectador saia satisfeito com o que viu.

Mesmo com falhas visíveis, “O Discurso do Rei” é um filme agradável, feito sob medida para alegrar o espectador e que de quebra ainda nos brinda com ótimas atuações. Contando uma história interessante e verdadeira de superação, o longa conquista imediatamente a simpatia da platéia, mas, assim como a cura de seu protagonista, é apenas uma questão de tempo para que ele caia no esquecimento.

Texto publicado em 22 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira

MINHAS MÃES E MEU PAI (2010)

(The Kids Are All Right)

 

Filmes em Geral #84

Dirigido por Lisa Cholodenko.

Elenco: Annette Bening, Julianne Moore, Mark Ruffalo, Mia Wasikowska, Josh Hutcherson, Zosia Mamet, Lisa Eisner, Yaya DaCosta, Kunal Sharma, Eddie Hassell, Joaquin Garrido, Rebecca Lawrence e Eric Eisner.

Roteiro: Lisa Cholodenko e Stuart Blumberg.

Produção: Gary Gilbert, Celine Rattray, Daniela Taplin Lundberg e Jeffrey Levy-Hinte.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apostando no interesse do público por famílias que fogem de padrão estabelecido pela sociedade, “Minhas mães e meu pai” tem todos os ingredientes do chamado “cinema alternativo”, apresentando os dilemas e conflitos de uma família formada por duas mulheres homossexuais e seus filhos gerados a partir de inseminação artificial. O problema é que o roteiro falho e repleto de personagens que mais parecem caricaturas raramente consegue criar piadas interessantes e tampouco funciona como drama, ficando num perigoso meio termo que evidencia seus problemas não solucionados pela diretora Lisa Cholodenko. Ainda assim, é possível extrair pontos positivos da experiência.

Escrito pela própria Cholodenko em conjunto com Stuart Blumberg, “Minhas mães e meu pai” apresenta os irmãos Joni (Mia Wasikowska) e Laser (Josh Hutcherson), filhos do casal homossexual Jules (Julianne Moore) e Nic (Annette Bening), quando estes resolvem conhecer seu pai biológico sem o conhecimento das mães. Entretanto, o relacionamento da família começa a se deteriorar quando Paul (Mark Ruffalo), o pai biológico, passa a fazer parte do cotidiano deles.

Logo no primeiro encontro entre Paul e seus filhos, podemos notar uma das marcas de “Minhas mães e meu pai”, que é a estranheza dos diálogos, o que neste caso funciona bem se levarmos em consideração o desconforto de todos naquele instante. O problema é que estes diálogos, digamos, desconexos continuam a aparecer mesmo quando Paul passa a fazer parte do cotidiano da família e, o que é pior, também nas conversas entre as mães e seus filhos, como quando Laser revela que conheceu o pai biológico, onde as mães parecem sequer fazer idéia do que o rapaz está tentando dizer. Além disso, a suposta dúvida das mães sobre a vida sexual do rapaz jamais convence e tampouco funciona como piada, tornando a cena ainda mais artificial por causa das reações agressivas de Nic.

Demonstrando inabilidade na construção de piadas, Cholodenko tenta compensar a falha logo no primeiro ato criando uma atmosfera juvenil através de músicas agitadas e do sexo, numa tentativa de conquistar o público jovem que falha terrivelmente nas duas primeiras oportunidades, em cenas que envolvem um vídeo pornô. Mantendo as ações banhadas pela luz do dia na maior parte do tempo e apostando num visual colorido (reforçado pelos figurinos de Mary Claire Hannan), o diretor de fotografia Igor Jadue-Lillo reforça esta atmosfera leve, coerente com o propósito cômico da narrativa. Mas se falha na condução dos momentos cômicos, pelo menos Cholodenko acerta na seqüência em que Nic descobre a traição de Jules, contando com o apoio do design de som para simular o choque da personagem, que sequer consegue ouvir as conversas na mesa. Também é interessante a forma natural que a narrativa aborda o casamento e seus problemas normais depois de tantos anos de convivência – e neste aspecto, o fato de serem duas mulheres em nada impede casais heterossexuais de compartilharem a sensação de desgaste das personagens, o que é ótimo.

Felizmente, nem mesmo o fraco roteiro impede que o elenco de “Minhas mães e meu pai” entregue boas atuações. Vivendo a jovem Joni com surpreendente desenvoltura e segurança, Mia Wasikowska demonstra carisma e cria empatia com Mark Ruffalo, demonstrando ainda de maneira consistente a paixão que nutre pelo amigo, que jamais percebe os sentimentos da garota. Por isso, é uma pena que o montador Jeffrey M. Werner priorize as sequências que envolvem o relacionamento dos adultos ao invés de focar no impacto que a chegada do pai biológico provoca nos filhos, que certamente renderia um filme bem mais interessante e complexo. Pelo menos, Werner acerta ao criar piadas através de elipses, como quando Paul e Jules afirmam que não devem seguir transando e, na cena seguinte, surgem juntos na cama novamente.

Da mesma forma, não dá pra entender a importância dada aos patéticos amigos de Joni e Laser, os unidimensionais Sasha (Zosia Mamet) e Clay (Eddie Hassell), que em nada contribuem para a narrativa, sendo descartados repentinamente como se fossem MacGuffins, assim como Paul subitamente se torna um inimigo da família e deixa à narrativa, como um adolescente que é largado pela namorada e nunca mais volta a ter contato com ela. Aliás, o título em inglês poderia muito bem se referir não só aos jovens Joni e Laser, mas também às mães e ao pai do título em português, que não passam de crianças “crescidas” que ainda não encontraram a melhor forma de enfrentar os dilemas da vida.

Fazendo de Jules a personagem mais interessante do “triangulo amoroso”, Julianne Moore expõe de maneira interessante os conflitos e as dúvidas da personagem, por mais absurdos que pareçam (o que é culpa do roteiro, e não dela), conseguindo protagonizar um belo momento, quando afirma ver expressões dos filhos em Paul, num raro instante de sutileza de uma narrativa predominada por histrionismos. Desprezada pela parceira e constantemente criticada por suas escolhas profissionais, Jules começa a se interessar por Paul (sério? ela não é homossexual?!), e confirma a atração num beijo acidental. E apesar da implausibilidade da situação, Moore e Ruffalo conseguem o milagre de estabelecer uma química entre os personagens, o que salva cenas que deveriam soar patéticas por motivos óbvios, que a própria personagem ressalta no final. Além disso, uma das poucas piadas que realmente funciona acontece durante uma cena de sexo entre eles e envolve o também divertido empregado dela.

Se Ruffalo e Moore se mostram soltos no papel, Bening surge inicialmente caricata, tentando soar como uma verdadeira “mulher macho”, sempre durona e dando sinais de seu ciúme doentio. Chegando a ser irritante em diversos momentos – como quando briga com Joni por andar de moto ou quando briga com Jules num restaurante -, Bening transita com facilidade para o outro lado e faz Nic parecer adorável no jantar na casa de Paul, confirmando seu talento como atriz, desperdiçado numa personagem tão estereotipada. Apesar de tudo, ela tem bons momentos, como na discussão seguinte à descoberta da traição, que confirma o talento das duas atrizes ao transmitir a dor das personagens de maneira convincente. Entretanto, a traição provoca um conflito bastante artificial e insere o dramalhão que faz a narrativa despencar no terceiro ato – o jantar de despedida de Joni chega a ser chato, graças à mão pesada da diretora que carrega no melodrama, especialmente após a chegada de Paul.

Apresentando alguns aspectos interessantes e tentando de maneira corajosa abordar um tema que ainda é tabu na sociedade contemporânea, “Minhas mães e meu pai” falha terrivelmente na tentativa de criar conflitos e conferir peso dramático à narrativa, apelando para situações que beiram o absurdo para tentar mexer com o espectador. Sem funcionar também como comédia, o longa se salva apenas pelo bom desempenho de seu talentoso elenco, mas está longe de alcançar um resultado satisfatório.

Texto publicado em 21 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira

INVERNO DA ALMA (2010)

(Winter’s Bone)

 

Filmes em Geral #83

Dirigido por Debra Granik.

Elenco: Jennifer Lawrence, Isaiah Stone, Ashlee Thompson, John Hawkes, Dale Dickey, Valerie Richards, Shelley Waggener, Garret Dillahunt, Lauren Sweetser, Cody Brown, Cinnamon Schultz, Casey MacLaren, Kevin Breznahan, Sheryl Lee e Tate Taylor.

Roteiro: Debra Granik e Anne Rosellini, baseado em livro de Daniel Woodrell.

Produção: Anne Rosellini, Alix Madigan-Yorkin e Kate Dean.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Tão frio quanto seu título indica, “Inverno da Alma” apresenta de maneira crua e direta a luta de uma garota para proteger sua família, sem jamais apelar para o melodrama como forma de chocar o espectador. Repleto de diálogos adultos e verdadeiros que jamais dão a sensação de pertencer ao roteiro de um filme, o longa dirigido por Debra Granik impressiona justamente pelo realismo e, mesmo apresentando um ambiente deplorável, conquista o espectador.

Em “Inverno da Alma” acompanhamos a jovem de 17 anos Ree Dolly (Jennifer Lawrence), que parte em busca de seu pai quando este sai da cadeia após ser preso por envolvimento na fabricação de metanfetamina e dá a casa da família como garantia do financiamento de sua fiança, desaparecendo logo em seguida. Sem notícias do paradeiro do pai e com dois irmãos e uma mãe doente para cuidar, ela sai em busca de pistas, entrando em conflito com os arredios vizinhos e até mesmo com os seus próprios familiares.

O roteiro escrito pela própria Debra Granik ao lado de Anne Rosellini e baseado em livro de Daniel Woodrell acertadamente foca na trajetória da jovem que busca proteger sua família, sem se importar com detalhes pouco relevantes no desenvolvimento da personagem (como revelar quem assassinou o pai dela ou o destino final de seu tio). Além disso, a narrativa aborda sem rodeios a vida dura daquela região dos EUA, indo diretamente contra a idéia do “país das oportunidades” ao mostrar um ambiente hostil onde os habitantes pouco se importam com a vida alheia, sem por isso transformá-los em personagens unidimensionais justamente por nos apresentar razões para o comportamento de todos eles, acertando ainda ao evitar o maniqueísmo e a generalização barata através dos vizinhos solidários da jovem Ree e do próprio arco dramático do tio da garota.

A melancólica canção que abre “Inverno da Alma” dá o tom da narrativa, nos apresentando aquela região fria e distante das montanhas Ozark, no Missouri, onde o frio parece ter congelado também o relacionamento entre as pessoas, até porque é sempre mais difícil sair de casa e manter uma vida social nestas condições. Pra piorar, todos parecem ter algum grau de parentesco, o que faz a questão “sangue” perder força e obriga a garota a lutar praticamente sozinha contra o silêncio velado daqueles que preferem evitar o envolvimento no caso, evitando também desentendimentos desnecessários com a polícia e com os comparsas do pai dela. Além disso, a suposta traição de seu pai faz com que toda sua família também sofra a rejeição imediata dos moradores locais. Como podemos notar, os problemas do pai complicaram de mais a já sofrida vida de Ree, o que facilita a identificação do espectador com o drama da garota, especialmente porque os problemas que ela enfrenta são reais e passíveis de acontecer com muitos de nós.

Entretanto, o que não é muito comum é o ambiente selvagem e hostil em que ela vive, captado com realismo pela câmera precisa de Granik. Realismo, aliás, que está sempre presente em “Inverno da Alma”, praticamente nos inserindo naquele ambiente, por exemplo, através da aparência desgastada das cabanas de madeira e até mesmo de objetos como os utensílios utilizados para fazer comida. Da mesma forma, a fotografia crua de Michael McDonough aposta em cores frias que refletem a personalidade dos personagens, além de garantir um visual pouco colorido que, auxiliado pelas blusas e tocas dos figurinos de Rebecca Hofherr, transmite ao espectador a sensação térmica congelante do local. Além disso, a fotografia gradualmente deixa o visual iluminado pelo sol para trás e passa a priorizar seqüências noturnas, que conferem uma aura sufocante à narrativa, ampliando a tensão enquanto acompanhamos o desenrolar da busca da garota. Por sua vez, a trilha sonora econômica de Dickon Hinchliffe realça esta atmosfera realista, aproveitando ainda de maneira inteligente (e diegética) as canções cantadas pelos personagens, subindo o tom apenas em momentos pontuais, como quando Ree grita por Thump Milton (Ronnie Hall) enquanto este caminha entre o gado.

Conduzindo todo este trabalho com segurança, a diretora Debra Granik realça as ótimas atuações de seu elenco através do uso constante do close, criando ainda planos interessantes que realçam a aspereza do local, seja através do close-up em objetos ou através dos planos gerais que destacam a região – e é impressionante como a diretora consegue criar planos lindos naquele lugar tão sofrido, como se fossem quadros tristes e belos. Além disso, a diretora constrói cuidadosamente a atmosfera de suspense da trama, reforçada pelos personagens arredios e pouco sociáveis que fazem com que o espectador nunca saiba o que esperar de cada um deles, tornando cada diálogo potencialmente tenso. Contudo, existe uma cena que resume perfeitamente “Inverno da Alma”, quando Ree ensina ao irmão Sonny (Isaiah Stone) como tirar a pele de um esquilo. A frieza do diálogo ilustra claramente o modo racional que a garota enxerga as coisas, mas sob aquela carcaça puramente racional se escondem os mais primitivos sentimentos de defesa da família. Apesar de soar fria, na verdade Ree está apenas preocupada em preparar o garoto para enfrentar o mundo opressivo à sua volta. Estenda este raciocínio aos outros habitantes locais e você entenderá melhor as motivações de cada um deles.

Interpretada de maneira convincente pela ótima Jennifer Lawrence, Ree surge como a irmã mais velha e decidida que, forçada a assumir a casa diante dos problemas dos pais, não hesitará nem por um segundo até que consiga atingir seu objetivo, nem que para isto tenha que sofrer às mais terríveis ameaças. Transmitindo confiança no papel, Lawrence faz o espectador acreditar na personagem e embarcar na jornada junto com ela ao desafiar com autoridade as pessoas mais velhas, o que é muito importante para o sucesso da trama. Além disso, a atriz se sai muito bem em momentos mais sutis, externando sentimentos escondidos sob aquela fachada durona, como na única cena em que surge vulnerável chorando no colo da mãe. Observe também o olhar confuso da garota quando ouve de um sincero soldado a dura realidade sobre sua condição, fazendo-a desistir da idéia de servir o exército e priorizar a defesa da família – o que, ironicamente, era exatamente o que ela buscava ao tentar a inscrição no exército, sem perceber que para isto teria que deixá-los para trás. Ree sabia que não poderia demonstrar fraqueza naquele ambiente hostil, mas ainda assim jamais soa como uma personagem sem sentimentos, o que é mérito da atriz.

Numa cena capaz de assustar o espectador, somos apresentados ao Teardrop Dolly de John Hawkes, o ameaçador tio de Ree que demonstra seu lado explosivo ao segurar com violência o rosto dela. Mas apesar desta introdução assustadora, Teardrop é um personagem fascinante, que começa a demonstrar sua ambigüidade quando aconselha a sobrinha a vender as madeiras antes que perca a casa, completando seu arco dramático quando assume de vez a missão de proteger a garota ao buscá-la num momento crucial da narrativa. Aliás, a captura de Ree por parte dos irritados vizinhos é uma cena surpreendente e tensa, que faz o espectador realmente temer pelo destino da personagem. Da mesma forma, é marcante a atuação de Dale Dickey como Merab, a esposa de Thump Milton, que demonstra compreender o drama da garota, mas deixa claro que não permitirá que esta situação complique sua vida, o que dificulta antecipar o que acontecerá quando ela convida Ree a encontrar os restos do pai.

A tensão chega ao extremo quando o xerife interpretado por Garret Dillahunt para o carro de Teardrop na estrada, iniciando um diálogo lento que nos leva a temer constantemente pela reação deles. Momentos depois, a tensão é ampliada pelo suspeito convite dos vizinhos de Ree, que afirmam saber onde estão os ossos do pai dela. Toda a seqüência, desde a saída do carro, passando pelo barco, o rio congelado, o visual obscuro e o som da serra elétrica nos fazem temer pelo pior, mas a reação da garota ao tocar os braços do pai morto confirma que eles tinham razão – e este momento mórbido chega a ser tocante graças ao fabuloso desempenho de Lawrence. Ao afirmar que “estaria perdida sem o peso dos irmãos nas costas”, Ree evidencia que a luta para proteger a família era tudo que lhe restava naquele local, escancarando a triste realidade de sua vida. “Inverno da Alma” chega ao fim com a imagem de uma garota obrigada pela vida a interromper a adolescência e se tornar a cabeça de um lar, acompanhada dos irmãos que certamente crescerão igualmente arredios, simplesmente porque só assim conseguirão sobreviver ali.

Em suma, “Inverno da Alma” não trata da busca de redenção na relação entre pai e filha. Muito pelo contrário. O que vemos é uma busca seca pela sobrevivência, sem enfeites e sem jamais apelar para o melodrama. Ree precisava saber do paradeiro do pai, não porque sentia falta dele ou algo assim, mas apenas porque precisava desta informação para sobreviver. E é justamente este aspecto cru que chama a atenção, ainda mais quando observamos que a heroína em questão é somente uma garota, que certamente teve seus sonhos e desejos interrompidos de maneira cruel, apenas como consequência do ambiente hostil em que está inserida.

Texto publicado em 20 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira

CISNE NEGRO (2010)

(Black Swan)

 

Filmes em Geral #82

Dirigido por Darren Aronofsky.

Elenco: Natalie Portman, Vincent Cassel, Mila Kunis, Winona Ryder, Barbara Hershey, Toby Hemingway, Janet Montgomery, Kristina Anapau e Ksenia Solo.

Roteiro: Andres Heinz e Mark Heyman, baseado em história de Andres Heinz.

Produção: Scott Franklin, Mike Medavoy, Arnold Messer e Brian Oliver.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Dona de uma das raras carreiras consistentes na infância e adolescência, Natalie Portman chegou à maturidade profissional confirmando o talento que seu início promissor sugeria – algo que ficou evidenciado no ótimo “Closer”. Mas foi sob a direção de Darren Aronofsky neste excepcional “Cisne Negro” que a atriz ofereceu seu melhor desempenho, justamente reconhecido pela academia de Hollywood com o prêmio Oscar. Oferecendo uma atuação nada menos que sensacional, ela transmite com precisão e intensidade o doloroso processo de metamorfose de uma talentosa e recalcada bailarina, profundamente afetada por distúrbios psicológicos.

Adaptado para o cinema por Mark Heyman, John J. McLaughlin e Andres Heinz a partir de argumento do próprio Heinz, “Cisne Negro” tem início quando um grupo de bailarinas passa a competir pelo papel principal de uma adaptação de “O Lago dos Cisnes”, após a aposentadoria forçada da estrela Beth MacIntyre (Winona Ryder). Escolhida para o desafiador papel principal, a talentosa Nina (Natalie Portman) passa a ser pressionada pelo exigente diretor artístico Thomas Leroy (Vincent Cassel), mas enfrenta sérias dificuldades, especialmente após a chegada da sensual Lilly (Mila Kunis). Pra piorar, ela sequer pode contar com o apoio de sua mãe, a ex-bailarina Erica (Barbara Hershey).

Trazendo elementos de suspense e terror, “Cisne Negro” faz um maravilhoso estudo de personagem, explorando os conflitos psicológicos de sua protagonista ao mesmo tempo em que narra sua trajetória dentro da companhia de balé. Não por acaso, a câmera constantemente acompanha Nina por trás dos ombros, já que acompanhamos a narrativa sempre sob o ponto de vista dela, o que faz com que o espectador compartilhe suas angústias e até mesmo suas alucinações – que só descobriremos serem distúrbios psicológicos depois de muito tempo de projeção. Empregando closes que, além de realçar a marcante atuação de Portman, nos aproximam mais da personagem, Aronofsky torna quase palpável o sofrimento da garota através do detalhe de seu pé girando – repare que o ótimo design de som permite escutar até mesmo o estalar dos dedos de seus pés -, de planos fechados de suas unhas sangrando e da exposição crua de seus ferimentos nas costas. Da mesma forma, o diretor praticamente nos coloca dentro dos ensaios de Nina, com a câmera girando e acompanhando seus movimentos, conferindo ainda extremo realismo à narrativa ao nos apresentar a rotina desgastante das bailarinas – o que não deixa de ser também uma bela homenagem ao próprio balé.

Utilizando as músicas diegéticas dos ensaios, de uma caixa de música ou até mesmo do celular de Nina, Clint Mansell emprega variações interessantes do tema do “Lago dos Cisnes”, criando uma trilha sonora fabulosa que aumenta a carga de tensão da narrativa, reforçada pelo ritmo dinâmico da montagem de Andrew Weisblum que, auxiliado pela câmera agitada de Aronofsky, nos transmite a sensação de confusão mental da protagonista. O montador se destaca ainda nas ótimas cenas de balé, especialmente no ato final, quando a troca rápida de imagens empolga sem jamais deixar o espectador perdido na cena, como já havia acontecido no sonho que abre “Cisne Negro”. Aliás, estas duas seqüências realçam também o ótimo trabalho do diretor de fotografia Matthew Libatique, que cria um belo contraste entre o preto e branco, cores predominantes na narrativa que simbolizam a dualidade da protagonista.

Mantendo a unidade visual pretendida por Aronofsky, o design de produção de David Stein mantém o predomínio do preto e branco na decoração dos ambientes (observe o apartamento de Thomas, por exemplo), assim como os figurinos de Amy Westcott também optam por roupas nestes tons na maior parte do tempo. Talvez o único local em que estas cores não predominam, o quarto rosa de Nina funciona quase como um refúgio, mas ainda assim sua mãe surge como um fantasma quando ela resolve seguir um conselho de Thomas, assustando a garota que interrompe a masturbação e se esconde como uma criança embaixo do edredom. Esta infantilização fica mais evidente quando, em pleno processo de transformação, ela decide se livrar da caixa de música e dos bichos de pelúcia, deixando as lembranças da infância para trás.

A explicação para este comportamento talvez esteja na figura superprotetora de sua mãe, que chega a ser autoritária e opressora em diversos momentos, criando um enorme bloqueio psicológico em Nina que a impede de liberar a sexualidade tão necessária no papel de cisne negro (repare como até os desenhos sinistros da mãe dela intimidam a garota). Demonstrando este lado explosivo e temperamental com precisão, por exemplo, na cena em que ameaça jogar um bolo no lixo, Barbara Hershey cria uma figura gradualmente assustadora, que caminha entre a preocupação extrema e uma suspeita crueldade ao falar das dificuldades que Nina enfrentará, num comportamento que reflete a frustração por ter abandonado a carreira de bailarina para ter sua filha. Mas como diz Thomas em certo momento, o maior obstáculo de Nina é ela mesma, algo que Aronofsky faz questão de ressaltar ao utilizar muitos espelhos, ilustrando a dupla personalidade da garota, que vê seu próprio rosto em outras pessoas, como quando sonha com Lilly e quando cruza alguém no túnel de acesso ao metrô. Aliás, na primeira vez que Nina vê Lilly no metrô, os movimentos parecidos e as roupas (branca de Nina e preta de Lilly) indicam que a ameaça representada pela espontânea Lilly será o agente motivador da mudança de Nina, pois a garota simboliza o lado ainda inexplorado de sua personalidade.

Surgindo indefesa com seu rosto meigo e sua sensibilidade extrema, Natalie Portman demonstra com perfeição o medo que Nina demonstra do mundo, assim como seu controle absoluto sobre tudo que faz, num perfeccionismo exagerado que reflete a criação rígida que recebeu e a impede de se soltar (“Eu quero ser perfeita”, diz). Por isso, a garota representa um verdadeiro paradoxo para Thomas: por um lado, sua técnica refinada lhe garante o posto de bailarina ideal para o papel puramente técnico do cisne branco, mas por outro, sua timidez lhe impede de encarnar o incisivo papel do cisne negro. Ainda assim, ela é a escolhida – e chega a ser comovente o momento em que Nina conta chorando para a mãe que foi escolhida para o papel principal. Transmitindo ainda a timidez da personagem através do baixo tom de voz, como quando fala de sexo com Thomas, e ao desviar o olhar, como quando briga com Lilly, Portman oferece um desempenho magnífico que garante a empatia instantânea da platéia, demonstrando ainda enorme dedicação ao papel por não usar dublê nas cenas de balé e, especialmente, pela forma física extremamente magra que demonstra a fragilidade de Nina.

Chegando a soar ameaçador, o Thomas de Vincent Cassel se mostra um líder controverso, que por um lado extrai o melhor de sua estrela, mas por outro utiliza métodos nada convencionais para conseguir isto. Ainda assim, Cassel confere tridimensionalidade ao personagem, transmitindo a sensação de que ele realmente se importa com a garota (“Você pode ser brilhante, mas é covarde!”, diz). Ainda que pareça duro demais em diversos momentos, sua alegria ao ver o sucesso da apresentação de Nina parece genuína, graças ao bom desempenho do ator. Também genuína parece a felicidade de Lilly com o sucesso da colega, o que não deixa de ser intrigante. Bastante solta e sensual no papel, Mila Kunis oferece um desempenho competente, deixando o espectador sempre na dúvida quanto às reais intenções da garota. E fechando o elenco, Winona Ryder aproveita muito bem as poucas cenas em que aparece, demonstrando a amargura de Beth por não aceitar o fim dos dias de glória.

Num momento crucial, Nina se rebela contra a mãe e sai com Lilly, iniciando sua transformação – algo ilustrado de maneira sutil por Aronofsky quando a garota coloca uma roupa preta por cima da roupa branca no banheiro. Após a noitada, Nina volta para casa acompanhada por Lilly (e repare o plano escolhido pelo diretor quando elas entram no apartamento, filmado através do espelho, numa dica sutil da natureza daquele momento). Mais uma vez inspirada, Portman nos convence de que Nina realmente está alcoolizada, o que é essencial para o sucesso da cena. Em seguida, a forte cena de sexo termina com Nina mais uma vez vendo seu rosto no corpo de Lilly, em mais um sinal de sua transformação – e nesta cena vale destacar também os ótimos efeitos visuais, que fazem a tatuagem de Lilly simular as asas do cisne negro. Após a “noitada”, a transformação estaria completa, não fosse o temor que ela ainda tinha de perder o lugar para Lilly, comprovado quando ela chega atrasada ao ensaio e encontra a outra em seu lugar.

Enxergando penas saindo das costas, imaginando seu pé se entortando e vendo os dedos grudados no pé (novamente, mérito dos bons efeitos visuais), Nina passa a encarnar de vez o papel do cisne (e só temos certeza de que tudo aquilo não passa de alucinação quando a vemos dançando com asas negras e olhos vermelhos e, num plano rápido sob o ponto de vista da platéia, ela surge com braços e olhos normais). E então um verdadeiro espetáculo de direção, fotografia e montagem amarra tematicamente a narrativa com perfeição, com a “morte” da velha Nina, ferida com um pedaço de espelho que ela imaginou ter usado para assassinar Lilly, dando lugar à nova Nina – e impressiona a mudança de Portman na pele do cisne negro, exalando confiança com seus olhos arregalados, seus gemidos e seus leves movimentos corporais, deixando para trás o olhar tímido, a respiração ofegante e os movimentos calculados de antes. Quando retorna ao palco novamente na pele do cisne branco, a trilha triunfal indica o desfecho trágico e a conclusão perfeita surge no salto de Nina, que pode ou não ser um salto para a morte regido pelos intensos aplausos da platéia, numa despedida marcante da personagem. Assim como em “O Lutador”, o final em aberto sugere, mas não confirma a morte da protagonista, permitindo que cada espectador interprete à sua maneira.

Ao afirmar que “foi perfeito” após o salto final, Nina poderia muito bem estar se referindo ao pensamento do espectador, que sai extasiado diante da intensidade do que viu. Contando com a atuação fabulosa de Natalie Portman para expor o cruel processo criativo de uma artista, “Cisne Negro” praticamente insere o espectador dentro da mente de sua protagonista, explorando temas complexos como a sexualidade retraída e a dupla personalidade de maneira extremamente sensorial. Assim como a apresentação apaixonada de Nina no “Lago dos Cisnes”, este magnífico estudo psicológico de personagem repleto de simbolismos e com requintes de terror merece os aplausos da platéia.

Texto publicado em 17 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira

BRAVURA INDÔMITA (2010)

(True Grit)

 

Filmes em Geral #81

Dirigido por Joel Coen e Ethan Coen.

Elenco: Hailee Steinfeld, Jeff Bridges, Matt Damon, Josh Brolin, Barry Pepper, Doomhall Gleeson, Elizabeth Marvel, Leon Russom, Ed Corbin, Paul Rae, Nicholas Sadler, Bruce Green, Dakin Matthews, Brian Brown e Philip Knobloch.

Roteiro: Joel Coen e Ethan Coen, baseado em livro de Charles Portis.

Produção: Scott Rudin, Joel Coen, Ethan Coen e Steven Spielberg.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Refilmagem do longa que rendeu o único Oscar da carreira de John Wayne, este belo “Bravura Indômita” confirma o talento dos irmãos Coen ao trazer, além de imagens belíssimas e ótimas atuações, uma surpreendente abordagem clássica de um gênero quase extinto, é verdade, mas que sempre rende ótimos filmes quando pessoas talentosas resolvem investir nele. É uma pena, portanto, que os estúdios (e o público!) não estimulem a produção dos chamados westerns, pois o mais americano dos gêneros já provou inúmeras vezes que pode nos brindar com maravilhas como esta dirigida pelos Coen.

Escrito pelos próprios Joel e Ethan Coen com base no romance de Charles Portis, “Bravura Indômita” narra a história de Mattie Ross (Hailee Steinfeld), uma garota de apenas 14 anos que parte em busca de vingança após seu pai ser assassinado por Tom Shaney (Josh Brolin). Para isto, ela resolve contratar o agente federal J. Cogburn (Jeff Bridges), que após recusar a proposta inicial, acaba aceitando a oferta. Só que o Texas Ranger LaBoeuf (Matt Damon) também está perseguindo o criminoso por causa de outro crime ocorrido em seu estado.

Como de costume, os diálogos escritos pelos Coen são um espetáculo à parte, desta vez chamando a atenção por surgirem realistas em sua simplicidade, refletindo a brutalidade daquelas pessoas movidas por um código de honra próprio que normalmente busca defender valores familiares (Mattie) e até mesmo suas origens (LaBoeuf). Por outro lado, o humor negro marcante dos Coen aparece pouco desta vez (como quando o índio sequer pode falar suas últimas palavras antes do enforcamento), o que não quer dizer que o bom humor não esteja presente, como podemos notar quando LaBoeuf passa a falar com dificuldade após quase perder a língua – num momento divertido da atuação de Damon – e quando eles disputam quem tem a melhor mira durante a viagem – agora num momento de destaque de Bridges, que cai do cavalo totalmente sem jeito e mal consegue mirar corretamente graças à bebedeira.

Mostrando um amadurecimento louvável, os Coen conduzem a narrativa de maneira direta e sem invencionismos, recheando a narrativa com planos belíssimos que poderiam ser transformados em quadros, numa abordagem classicista que John Ford teria orgulho de assinar. Responsáveis também pela ótima montagem, eles empregam um ritmo contemplativo coerente com o gênero, fugindo da abordagem subversiva tão comum em sua filmografia. Além disso, eles conduzem os grandes momentos do longa com tranqüilidade, como na cena em que Cogburn e Mattie observam à distancia uma cabana, repleta de tensão, especialmente porque a câmera subjetiva nos coloca na posição deles. O uso da câmera subjetiva, aliás, surge também em planos similares que revelam a visão de Mattie nos braços de Cogburn quando ela deixa o derradeiro confronto e quando ela deixa seu cavalo morto para trás. Por sua vez, a beleza plástica de “Bravura Indômita” surge logo em seu plano inicial, quando a câmera, embalada pela linda trilha sonora e pela narração poética da protagonista, lentamente revela o corpo do pai dela na entrada de um saloon.

Empregando um nostálgico tom sépia, o grande Roger Deakins cria um visual árido e colabora na elaboração destes lindos planos, explorando com maestria a paisagem e destacando-se também nos ambientes fechados que são banhados pelos raios solares – como no julgamento de Cogburn -, além de criar um visual fascinante nas cenas noturnas e até mesmo na neve – note, por exemplo, a iluminação marcante da cena em que Cogburn assassina um homem dentro de uma cabana à noite (também marcada pela violência gráfica e realista). Em certo momento, um trem de ferro se move e revela ao fundo a bela cidade típica do velho oeste, que realça o ótimo design de produção de Stefan Dechant e Christina Ann Wilson, notável também quando Cogburn é encontrado dormindo nos fundos de uma venda chinesa através dos patos mortos pendurados, da desgastada cama de cordas e dos objetos espalhados por todo o local que refletem o estado de espírito do personagem.

Colaborando na tarefa de ambientar o espectador à época da narrativa, os impecáveis figurinos de Mary Zophres também merecem destaque, especialmente pelos detalhes nas botas de LaBoeuf e pelas roupas sempre pretas de Mattie, que ilustram seu luto eterno. E fechando a competente parte técnica de “Bravura Indômita”, a trilha sonora de Carter Burwell confere uma aura clássica ao longa, empregando interessantes variações da linda “Leaning on the Everlasting Arms”.

Vivendo Mattie como uma garota decidida e sempre dura nas negociações, Hailee Steinfeld tem uma ótima atuação, sobressaindo-se até mesmo nos duelos verbais com os ótimos Matt Damon e Jeff Bridges. Movida por um desejo de vingança e um imutável código de honra, a garota transmite a sensação de que nada a impedirá de alcançar seu objetivo. Exatamente por isso, sua reação chega a ser comovente no único momento em que Mattie surge vulnerável, quando, após ouvir Cogburn dizer que a abandonará, praticamente implora à LaBoeuf que não desista da perseguição – e repare como a chuva torna a cena ainda mais sufocante, refletindo a angústia da garota. Da mesma forma, seu rosto expressivo cede lugar à sutileza quando ela sorri levemente ao perceber que convencerá o dono do estábulo a comprar seus pôneis, o que só confirma a qualidade de seu desempenho.

Introduzido com competência na narrativa, Cogburn rapidamente nos apresenta características importantes de sua personalidade através da forma irritada que responde às perguntas de Mattie de dentro da latrina. Em seguida, seu jeito debochado no julgamento confirma sua personalidade conturbada, numa cena em que vale observar também como os Coen atrasam ao máximo a revelação de seu rosto, com a câmera subjetiva simulando a visão de Mattie. Conferindo carisma e ambigüidade ao personagem, Bridges tem um excepcional desempenho, com sua voz alterada e rouca, a dificuldade de pronunciar certas palavras e a oscilação de humor que revelam a instabilidade daquele homem explosivo e quase sempre alcoolizado, mas que guarda valores admiráveis – como descobriremos no terceiro ato. Matt Damon, por sua vez, confere uma interessante tridimensionalidade ao seu Texas Ranger, que surge inicialmente como um homem atrapalhado, mas ganha força nas discussões com Cogburn e, especialmente, ao conquistar o respeito de Mattie com o passar do tempo. Ambos, aliás, protagonizam instantes aparentemente despretensiosos que servem como preparação para o clímax da narrativa, quando Cogburn conta como conseguiu vencer sozinho sete homens armados (e a forma como Bridges conta a história faz o espectador acreditar nele) e quando LaBoeuf fala sem tanta convicção das proezas de sua arma, capaz de acertar alvos muito distantes.

Despretensioso também é o encontro entre Mattie e Tom Shaney, que dá inicio ao clímax da narrativa. Interpretado por Josh Brolin, Shaney é o bandido ignorante que se meteu numa enrascada e não sabe como sair dela, agindo de maneira sempre instintiva, o que também lhe coloca em situações perigosas – aqui, leva um tiro por menosprezar a garota. Entretanto, o bandido jamais soa caricato ou unidimensional, exatamente pela forma como Brolin confere vulnerabilidade ao personagem. Ainda assim, ele consegue seqüestrar a intempestiva Mattie, o que nos leva ao esperado confronto entre os “bandidos” e os “mocinhos” (assim, entre aspas mesmo). O tiroteio realista traz Cogburn enfrentando quatro homens armados, num confronto conduzido de maneira primorosa pelos irmãos Coen, especialmente depois que ele cai ferido e passamos a acompanhar a cena sob o ponto de vista de LaBoeuf, que atira e nos faz torcer para que o inimigo caia do cavalo – o que acontece alguns (longos) segundos depois.

O final poético de “Bravura Indômita” então começa a ganhar forma quando Mattie atira em Tom Shaney e, como Cogburn alertou que aconteceria, é jogada para trás, caindo num enorme buraco e sendo picada por uma cobra antes que o agente federal consiga retirá-la de lá. Desesperado para salvar a valente garota, ele parte numa linda cavalgada noite adentro, embalada pela marcante trilha sonora e repleta de planos memoráveis sob a neve. A seqüência final traz a adulta Mattie de volta à cidade e confirma que seu esforço valeu à pena. Ambos encontraram no outro o papel que faltava em suas vidas. Enquanto Mattie sentiu nos braços de Cogburn o carinho perdido com a morte do pai, Cogburn teve a chance de se redimir após o fim do relacionamento conturbado com seu filho. E enquanto ela se afasta do túmulo de Cogburn e a trilha embala os créditos finais, temos a sensação de que algo realmente marcante está chegando ao fim.

Recheado de imagens belíssimas e trazendo personagens marcantes, esta refilmagem de “Bravura Indômita” comprova a versatilidade dos irmãos Coen e a competência de atores como Bridges e Damon. Revelando ainda o talento da jovem Steinfeld, o longa revigorou um gênero quase sempre esquecido, mas sempre capaz de nos presentear com bons filmes.

Texto publicado em 16 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira

A REDE SOCIAL (2010)

(The Social Network)

 

 

Filmes em Geral #80

Dirigido por David Fincher.

Elenco: Jesse Eisenberg, Andrew Garfield, Justin Timberlake, Rooney Mara, Joseph Mazzello, Armie Hammer, Bryan Barter, John Getz, Rashida Jones, Max Minghella, Brenda Song e John Hayden.

Roteiro: Aaron Sorkin, baseado em livro de Ben Mezrich.

Produção: Dana Brunetti, Ceán Chaffin, Michael De Luca e Scott Rudin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Extremamente competente no comando de narrativas baseadas no raciocínio lógico, David Fincher encontrou na trajetória dos inventores do Facebook a oportunidade ideal de comprovar (mais uma vez!) seu enorme talento. Contando com um elenco jovem e talentoso e um roteiro fabuloso, Fincher fez de “A Rede Social” uma obra-prima moderna, que, além de fazer um primoroso estudo de personagem, capta com precisão a essência de sua época, a chamada “era da informação”.

Adaptado por Aaron Sorkin com base em livro de Ben Mezrich, “A Rede Social” apresenta a história de Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg), um analista de sistemas estudante de Harvard que, revoltado após terminar o namoro com Erica (Rooney Mara), resolve criar um programa que compara garotas fisicamente na internet, derrubando a rede da universidade pouco tempo depois. Sua genialidade chama a atenção dos irmãos Winklevoss (Armie Hammer), que o convidam para desenvolver uma rede social exclusiva para os alunos locais. Mas, após compartilhar a idéia com seu amigo brasileiro Eduardo (Andrew Garfield), Zuckerberg abandona o projeto dos Winklevoss e cria o Facebook, revolucionando a “vida virtual” em todo o planeta e se tornando o mais jovem bilionário da história. O problema é que neste processo – especialmente depois de conhecer o fundador do Napster Sean Parker (Justin Timberlake) – ele coleciona problemas em sua vida pessoal.

Adotando uma estrutura narrativa que alterna entre dois julgamentos e flashbacks que narram os acontecimentos citados pelos advogados, David Fincher e seus montadores Kirk Baxter e Angus Wall conseguem imprimir um ritmo interessante que evita tornar cansativa uma narrativa baseada em diálogos – ainda que estes sejam excepcionais. Empregando movimentos de câmera discretos e criando planos simétricos, o diretor procura demonstrar visualmente a maneira racional que Zuckerberg enxerga o mundo, algo ressaltado também pela fotografia em tons azulados e acinzentados de Jeff Cronenweth, que também ilustra a frieza do protagonista. Esta lógica visual se confirma através das linhas retas da arquitetura dos prédios de Harvard realçadas em diversos planos, que confirmam o alinhamento entre o trabalho de Cronenweth e o design de produção, como notamos também através das poltronas cinzas do auditório, do sofá vinho do alojamento de Zuckerberg e até mesmo dos figurinos de Virginia Johnson, que priorizam roupas sóbrias e cores sem vida na maior parte do tempo. Pra finalizar, o diretor ainda utiliza uma profundidade de campo reduzida, que simula o desinteresse de Zuckerberg pelo que acontece ao seu redor.

Pontuando a narrativa sem chamar muito a atenção, a excelente trilha sonora de Trent Reznor confere uma aura moderna e coerente com a época em que se passa a história ao inserir sons de computador em sua melodia. Além disso, alterna entre momentos de euforia, normalmente através de músicas diegéticas que tocam nas festas e bares freqüentados pelos personagens, e momentos melancólicos que ilustram a solidão do protagonista. Mas apesar do excelente trabalho técnico, é mesmo no inteligente e ágil roteiro de Aaron Sorkin que reside à força de “A Rede Social”. Fazendo um profundo estudo de seu complexo protagonista, o texto de Sorkin até tenta mostrar quem é o homem por trás do inventor do Facebook, mas evita o julgamento ao expor sem hesitar sua notável genialidade e seus mais asquerosos defeitos.

Outro aspecto curioso abordado em “A Rede Social” está na irônica diferença entre a personalidade de Zuckerberg e a faceta jovem e alegre de sua criação. Como pode alguém tão anti-social criar a maior rede de relacionamentos do planeta? A resposta está na inteligência de Zuckerberg. Se lhe falta traquejo social, sobra inteligência e astúcia para aproveitar a oportunidade no momento certo. Aliás, as próprias redes sociais representam um paradoxo, já que se por um lado servem para nos aproximar de amigos distantes, oferecendo até mesmo a oportunidade de reencontrar pessoas que há muito tempo não vemos (o que é ótimo!), por outro podem servir como muleta, fazendo com que a conversa através da tela do computador substitua o encontro real, sempre mais prazeroso.

Felizmente, Fincher é inteligente o bastante para extrair o melhor do roteiro e de seu elenco, conseguindo sucesso até mesmo nos momentos bem humorados, como na piada envolvendo Bill Gates e o engraçado instante em que os irmãos Winklevoss visitam a sala do diretor de Harvard. Entretanto, o diretor prioriza corretamente os diálogos ágeis e cortantes como navalha, que demonstram a velocidade de raciocínio do protagonista, algo notável até quando ouvimos seus pensamentos, como quando ele digita códigos de programação no computador.

Extremamente inteligente e até mesmo superior intelectualmente à maioria das pessoas, Zuckerberg chega a ser arrogante e frio, baseando sua vida no raciocínio lógico sem perceber quando fere os sentimentos das pessoas, como fica evidente no ótimo diálogo que abre “A Rede Social”, quando ele percebe que a namorada de fato está terminando o relacionamento com ele (“Está falando sério?”; “Sim”; “Me desculpe… Vamos comer?”). Sua arrogância fica ainda mais evidente no julgamento, quando exclama que poderia comprar o clube Phoenix e transformá-lo num pingue-pongue ou ainda quando, ironicamente, confere uma soma feita pela advogada de Eduardo (num dos momentos em que o humor sarcástico do texto de Sorkin se destaca). Dando vida a este personagem marcante com competência, Jesse Eisenberg chama a atenção não apenas pela já citada rapidez com que pronuncia as palavras, mas também pela expressão blasé de quem despreza as pessoas à sua volta, além das reações que ressaltam a astúcia do rapaz, como quando ele tem a idéia sobre o “status de relacionamento” e larga um estudante falando sozinho, saindo correndo para colocar em pratica sua idéia.

Curiosamente, a frustração amorosa também motiva Zuckerberg a criar, como notamos novamente em seu reencontro com Erica, numa cena que contém uma das frases emblemáticas de “A Rede Social”: “A internet não escreve a lápis”. O raciocínio perfeito de Erica reflete algo que muitas pessoas ainda parecem não enxergar, compreendendo o mundo virtual como um local onde podemos despejar nossas frustrações, ameaçar e ofender pessoas e destilar nossos pensamentos sem sofrer penalizações por causa disto. Aliás, mesmo com poucos minutos em cena, Rooney Mara confere carisma e sensibilidade a sua Erica Albright, especialmente na citada cena do reencontro. Já Brenda Song mostra o lado negro das redes sociais na pele da ciumenta Christy, que faz a vida de Eduardo virar um inferno (literalmente!) somente porque ele não alterou seu status na rede de relacionamentos, em outra crítica interessante à sociedade moderna, que tanto valoriza a vida virtual.

Interpretado por Andrew Garfield de maneira carismática, Eduardo é responsável por garantir a estabilidade financeira do projeto, além de ser o criador da fórmula que resultou no “Facemash” e popularizou o criador do Facebook, mas, por outro lado, falha ao não perceber o potencial comercial da rede social que ajudou a criar. Como se não bastasse, ele também é conhecido por conseguir algo raro: ser chamado de “amigo” de Zuckerberg. Na realidade, talvez ele seja à única pessoa com quem Zuckerberg realmente se importa, como fica claro quando recebe imediatamente um pedido de desculpas após ser ofendido numa festa (“Desculpe, foi cruel”). Ciente da importância que entrar num clube tinha para Zuckerberg, ele hesita antes de contar ao amigo que passou para a segunda fase da seleção do Phoenix, alegando que provavelmente foi escolhido por fazer parte da cota – algo que Zuckerberg prontamente faz questão de concordar. Por tudo isso, ainda que os sentimentos não ganhem destaque na narrativa, chega a ser tocante o desfecho trágico desta amizade, algo que Fincher realça muito bem quando foca a cadeira de Eduardo vazia no julgamento logo após Zuckerberg afirmar que ele era seu melhor amigo – convenhamos, uma ironia cruel em se tratando do criador do Facebook.

Mais preocupados com a forma que serão vistos pela sociedade, os irmãos Winklevoss interpretados por Hammer fazem questão de destacar sempre que podem suas origens nobres e suas “conquistas” (repare como a bandeira da equipe de remo ganha destaque em seu alojamento), ainda que evitem se aproveitar da riqueza do pai para conseguirem o que querem. O diagnostico perfeito da dupla é feito por Zuckerberg: eles não estão me processando por roubo de propriedade intelectual, estão me processando porque pela primeira vez na vida algo não saiu como eles planejaram. E fechando os destaques do elenco, não deixa de ser irônica a escolha de Justin Timberlake para viver aquele que balançou as estruturas da indústria da música. Desde sua excelente introdução na narrativa, quando surge acompanhado de uma estudante de Stanford, o Sean Parker de Timberlake espalha carisma e conquista o espectador, o que também explica o fascínio que seus pensamentos exercem sobre Zuckerberg. Responsável pelo polêmico Napster, ele traz conflito e instabilidade à relação entre Zuckerberg e Eduardo, especialmente pela maneira irônica com que trata o brasileiro (algo, aliás, que Timberlake faz muito bem). Enxergando Eduardo como um entrave no projeto, Sean mal consegue conter a euforia ao saber que ele não veio para a Califórnia e lentamente consegue convencer Zuckerberg a tirar espaço do brasileiro – o que, obviamente, abre espaço para o próprio Parker.

Numa interessante conversa na balada, Parker expõe suas idéias novamente e convence Zuckerberg de que ele deveria esperar mais tempo para ver até onde iria à valorização do Facebook – e o tempo provou que ele estava certo. O problema é que, para isto, eles arquitetam uma situação que enfraquece o poder de Eduardo na empresa. Irado diante da traição, Eduardo parte pra cima do ex-amigo, num momento tenso em que todos se destacam: enquanto Garfield explode violentamente, Timberlake faz Parker soar ainda mais irritante, ao passo em que Eisenberg demonstra com precisão o incomodo de Zuckerberg com a situação. Algum tempo depois, a decepção no rosto de Zuckerberg ao ouvir a notícia da prisão de Parker retrata seu breve momento de reflexão.

Reflexão que volta a surgir – desta vez na mente do espectador – na emblemática cena final, em que o solitário Zuckerberg tenta seguidas vezes conquistar a amizade virtual da ex-namorada Erica. O criador do maior site de relacionamentos do mundo, que revolucionou o comportamento da sociedade moderna (quem sabe eternamente), surge solitário, evidenciando sua incapacidade de estabelecer conexão afetiva com alguém. Se os grandes filmes são aqueles que captam com precisão a sua época, Fincher pode se orgulhar, pois “A Rede Social” é um retrato perfeito da sociedade contemporânea, cada vez mais “conectada” ao mundo virtual, sem perceber a ausência de valores dos tempos em que vivemos.

Texto publicado em 15 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira