O adeus de São Marcos: para o jogador, nasce a lenda

Entre 1998 e 2002 eu provavelmente vivi o período de maior fanatismo pelo futebol da minha vida. Vi meu time dominar a América, chegando a cinco finais continentais entre 1998 e 2000, e cair vertiginosamente de uma hora pra outra; acompanhei a seleção de Felipão ganhando nossa quinta estrela no Japão; assisti a maioria dos campeonatos europeus da época e me apaixonei definitivamente pela Uefa Champions League; e, finalmente, vi um goleiro fazer coisas impossíveis, com atuações diferenciadas e defesas que eu jamais tinha visto igual – e que poucas vezes voltei a ver depois disto. Este goleiro, obviamente, era Marcos.

Era ele, “São Marcos”, que me permitia gritar pelos cantos da casa em cada grande defesa e nas históricas decisões por pênaltis na Libertadores (em nove disputas com ele, o Palmeiras venceu sete). Foi ele também que fez a defesa mais marcante das ultimas décadas, no famoso pênalti defendido contra o Corinthians, em chute de Marcelinho Carioca. Também contra o Corinthians, um ano antes, Marcos assumiria o lugar do machucado Velloso e brilharia naquela que considero a maior atuação que já vi de um goleiro, seguindo com atuações fantásticas até a conquista da Libertadores – aliás, Marcos foi o primeiro goleiro da história a vencer o prêmio de melhor jogador da competição. São Marcos, vale lembrar, também nos permitiu vibrar com os gols de Ronaldo na decisão da Copa, afinal, o que ele fez contra a Bélgica nas oitavas-de-final foi algo que poucos goleiros fariam e só por isso conseguimos chegar àquela final. E na própria decisão, Marcos impediu que a Alemanha saísse na frente no chute de Neuville, em outro milagre que entrou para a história. E mesmo depois de brilhar tanto, ele voltou para o Palmeiras, caiu para a segunda divisão e ficou no time até voltar para a elite, no ano seguinte. Mais do que isto, ficou até encerrar, no último dia 04 de Janeiro, sua gloriosa carreira.

Como é que é? É meu amigo (como diria Galvão Bueno), este dia chegou. E talvez por não acreditar no que estava vendo mesmo com tantos indícios de que Marcos pararia, eu não consegui escrever nada a respeito. Pode ser que, inconscientemente, eu precisava vê-lo falando para acreditar – e não ouvir a notícia através de outra pessoa. Mas hoje ele falou. Chorou, emocionou e confirmou a notícia mais triste que a torcida do Palmeiras, tão sofrida nos últimos anos, poderia esperar. São Marcos de Palestra Itália parou de jogar.

Sendo assim, mesmo com uma semana de atraso, eu finalmente criei coragem de expressar em palavras o que senti na última quarta-feira, ao ver o anúncio da aposentadoria do único jogador que mereceu ser chamado de ídolo em minha geração (único? OK, Rogério Ceni também merece). Sim, porque tivemos muitos bons jogadores, alguns craques e poucos gênios, mas nenhum jogador nas últimas décadas foi tão especial como Marcos. Ao ver aquele anúncio, senti uma tristeza tão grande, um vazio enorme ao pensar que jamais veria um jogo do Palmeiras com Marcos no gol novamente. Uma fase marcante da minha vida passava a viver apenas em vídeos do Youtube e livros de história. Ver Marcos parando significa romper de vez com uma época em que eu ia aos estádios e curtia o futebol de verdade, ao lado dos meus amigos e da minha família. Posso até voltar a amar o futebol como antes, mas certamente a magia daquela época deixou minha vida no momento em que Marcos deixou os gramados.

Li muita coisa boa por aí (deixei alguns links no final do post), me emocionei com muitos textos e me senti incapaz de escrever algo sobre meu único (na falta de outra palavra mais adequada) “ídolo” no futebol. E mesmo hoje, quando me sinto mais preparado para tal tarefa, são tantas as lembranças e fatos que tenho na memória que nenhum texto do mundo refletirá o que penso e sinto.

Deixemos de lado a parte técnica para evitar polêmicas (até porque, pouco importa neste momento). Basta uma olhada rápida pelos sites especializados para constatar que torcedores do São Paulo consideram Rogério Ceni o melhor de sua geração e a esmagadora maioria de torcedores/jornalistas de outros times concorda com os palmeirenses e considera Marcos o melhor (Taffarel também é bem lembrado, mas é de uma geração anterior). Como sou palmeirense, é óbvio que considero Marcos o melhor de seu tempo (entre 1999 e 2002 Marcos fez o impossível no gol do Palmeiras e da seleção brasileira), mas respeito à importância e a qualidade de Rogério Ceni (agora, o ultimo representante do praticamente extinto termo “amor à camisa”), assim como respeito outros grandes goleiros como Dida, Taffarel e os estrangeiros Preud’homme, Buffon, Oliver Kahn e Schmeichel.

Mas se debaixo do gol todos eram muito bons, Marcos se diferenciava mesmo fora das quatro linhas. E não apenas deles, mas de todos os outros jogadores de sua geração, incluindo aí alguns que eu admiro muito como Romário, Ronaldo e Rivaldo (aliás, ver esta geração especial deixando os gramados sem reposição à altura comprova a melancólica queda de qualidade do nosso futebol, que, aparentemente, dependerá de Neymar e Ganso por muito tempo). Marcos era diferente porque falava a linguagem da arquibancada, não dava entrevistas burocráticas e sempre externava o que pensava. Era um homem do povo, o torcedor que virou jogador. Falava e agia sempre com o coração, rendia ótimas entrevistas e matérias e, mesmo nas crises, espalhava carisma por onde passava. Por isso, recebeu lindas homenagens em diversos sites e blogs espalhados pela internet e até mesmo nos sites oficiais dos grandes rivais.

Com sua aposentadoria, o torcedor do Palmeiras fica órfão de ídolos, mas ele não está só. A imprensa está mais triste. Os jogadores estão mais tristes. Até mesmo as torcidas de outros times estão mais tristes. Enfim, o futebol brasileiro está mais triste. Quanto a mim, é triste pensar que não ouvirei mais os narradores anunciarem Marcos como goleiro do Palmeiras e nem verei mais suas incríveis defesas, mas pelo menos carregarei eternamente na memória suas atuações, desde o primeiro dia em que o vi jogar no estádio, num Palmeiras x Botafogo/RP em 1996, quando, ao lado do meu pai e do meu primo Thiago, vi Marcos defender um pênalti, provavelmente o primeiro de tantos que ele defendeu (vale lembrar que ele era o goleiro em atividade no Brasil que mais defendeu pênaltis na carreira).

Vi Marcos se tornar “Santo” nas partidas contra o Corinthians na Libertadores, vi ele falhar em Tóquio e ser recebido de braços abertos pela torcida no aeroporto, vi ele brilhar no penta da seleção e voltar para disputar a série B pelo meu time, recusando os milhões de euros oferecidos pelo Arsenal. E, infelizmente, vi Marcos agüentar firme por muitos anos num Palmeiras que sequer chega perto dos dias gloriosos. Por isso, posso me orgulhar de ter visto, além de um excepcional goleiro, um dos últimos representantes do futebol romântico – e será um prazer contar estas histórias para o meu filho no futuro. Marcos parou, Rogério deve parar em breve, e então o futebol terá perdido de vez suas últimas referências de uma época que eu sequer vivi, mas que posso imaginar o quanto era boa graças a estes dois.

Marcos ganhou tudo na carreira, mas sua principal conquista veio de fora dos gramados: poucos jogadores na história conseguiram ser tão respeitados e admirados pela imprensa e por todas as torcidas como ele foi.

Agradeço a São Marcos por cada defesa dentro de campo, mas, especialmente, por seu comportamento fora dele. Valeu Marcão! Você jamais será esquecido. Foi muito bom ter um jogador como você vestindo a camisa do meu time. Poucas torcidas podem se orgulhar assim!

De um palmeirense momentaneamente triste, mas eternamente grato.

MUITO OBRIGADO!

PS: Outros excelentes textos sobre a despedida do mito São Marcos nos blogs do PVC, Mauro Cezar, André Kfouri, Esporte Interativo, Clic+, Terra, Globo Esporte e até no site da FIFA. Veja também as notas oficiais nos sites de Corinthians e São Paulo.

Texto publicado em 11 de Janeiro de 2012 por Roberto Siqueira

Balanço de 2011

Pela terceira vez seguida, inicio o ano com um balanço do ano anterior e, pelo jeito, estou iniciando também uma tradição no Cinema & Debate. E fico extremamente feliz por apresentar resultados ainda melhores em 2011, num sinal muito positivo de que o site está conquistando seu espaço no concorrido mundo virtual e, principalmente, no coração de leitores tão especiais como vocês.

O último ano marcou um crescimento considerável no número de críticas divulgadas (86 em 2011 contra 72 em 2010), trouxe muitos novos leitores e interessantes debates e, finalmente, um aumento expressivo no número de acessos que representou mais do que o dobro dos acessos de 2010. Tudo isto é resultado de muita dedicação e trabalho (e aproveito para agradecer meus primos/amigos Amanda e Thiago pela ajuda em mais este ano), mas é também reflexo do interesse de vocês.

Nas semanas especiais, consegui atingir apenas metade do número que esperava, mas as seis semanas especiais me trouxeram enorme satisfação, especialmente a do mestre Hitchcock, que demandou muito tempo e estudo, mas teve um excelente resultado. Para quem não conseguiu acompanhar, as outras cinco semanas especiais foram: “Bons filmes de grandes diretores”, “Inovação”, “Disney”, “John Ford” e “Film Noir”. Entre as promessas que não cumpri está à semana especial “Neo-realismo italiano”, que será prioridade em 2012. Aliás, vocês não têm idéia da quantidade de idéias que tenho para as semanas especiais, mas infelizmente o tempo é escasso e não me permite colocar todas em prática.

Quanto aos filmes assistidos, novamente tenho a felicidade de anunciar que melhorei o meu desempenho do ano passado, o que significa que cada vez mais consigo equilibrar melhor o meu tempo entre trabalho, família, lazer e o site. Reforço novamente que só conto cada filme uma vez, mesmo que eu tenha assistido alguns por duas ou mais vezes durante o ano. Se em 2010 eu atingi a marca dos 144 filmes assistidos, neste ano este número subiu para 167 (a lista completa você pode conferir logo abaixo). Avancei apenas três anos na Videoteca (de 1992 a 1995), mas pretendo dar mais foco este ano e chegar pelo menos até o ano 2000. Em compensação, consegui me manter atualizado assistindo muitos filmes dos anos recentes, o que é sempre bom.

Mais uma vez, agradeço à minha esposa e ao meu filho pela paciência e companheirismo, aos meus amigos blogueiros e cinéfilos (especialmente aos citados Thi e Amanda e à nossa turma do curso de Maio de 2009 do Pablo Villaça, Achilles, Adriano, Alexandre, Augusto, Cecilia, Fernando, Jacqueline e Tiago), ao próprio Pablo Villaça por me dar o empurrão que faltava para criar o blog durante o curso e a você leitor, que faz deste espaço um local tão agradável e que me presenteia todos os dias com comentários tão inteligentes. Fico feliz ao ver que mesmo quando discordamos, o bom nível do debate se mantém, não é mesmo meus caros amigos Thiago, César e Francisco? ;). Aliás, eu adoraria citar o nome de cada um de vocês, mas como não posso correr o risco de esquecer alguém, deixo um enorme obrigado a todos!

Como afirmei no ano passado, este espaço existe para satisfazer a minha paixão pelo cinema e pela escrita, mas, principalmente, para compartilhar com você leitor o meu amor pela sétima arte. Vocês já fazem parte fundamental desta pequena história!

Mas agora chega de sentimentalismo (talvez seja o clima de fim de ano, não?) e vamos aos números oficiais do Cinema & Debate em 2011:

– 86 críticas divulgadas, sendo 40 na Videoteca do Beto e 46 nos Filmes em Geral.

– 9 Filmes Comentados transformados em crítica.

– 6 Semanas Especiais.

E finalmente, a lista dos 167 filmes assistidos em 2011 com a cotação no tradicional formado das estrelinhas:

127 HORAS ««««
A AGENDA SECRETA DO MEU NAMORADO «««««
A BELA E A FERA «««««
A DAMA E O VAGABUNDO «««««
A ÉTICA ««««
A FIRMA ««««
A FITA BRANCA ««««
A FRATERNIDADE É VERMELHA «««««
A IGUALDADE É BRANCA ««««
A LIBERDADE É AZUL «««««
A LISTA DE SCHINDLER «««««
A MARCA DA MALDADE «««««
A ORIGEM «««««
A REDE SOCIAL «««««
A REGRA DO JOGO «««««
ADAPTAÇÃO «««««
AEROPORTO ««««
ÁGUA PARA ELEFANTES «««
AMNÉSIA «««««
AMOR SEM FIM ««
ANTES DO AMANHECER «««««
ANTI-HERÓI AMERICANO «««««
APOLLO 13 ««««
AS INVASÕES BÁRBARAS «««««
AS LOUCURAS DE DICK E JANE «««
AS PONTES DE MADISON «««««
AS VINHAS DA IRA «««««
ASSASSINOS POR NATUREZA «««««
BAMBI ««««
BEE MOVIE ««
BICHO DE SETE CABEÇAS ««««
BRANCA DE NEVE E OS SETE ANÕES «««««
BRAVURA INDÔMITA «««««
BRUNA SURFISTINHA «««
BUSCA FRENÉTICA ««««
CAÇA AS BRUXAS ««
CACHÉ «««««
CAMINHANDO NAS NUVENS «««
CAPITALISMO – UMA HISTÓRIA DE AMOR «««««
CASSINO ««««
CENTRAL DO BRASIL «««««
CHINATOWN «««««
CIDADE BAIXA ««««
CISNE NEGRO «««««
CLICK «««
CLOSER – PERTO DEMAIS «««««
CLOVERFIELD – MONSTRO ««««
COMER, REZAR, AMAR «««
COMO ERA VERDE MEU VALE «««
COMO TREINAR O SEU DRAGÃO ««««
CONTATOS DE 4º GRAU ««
CORAÇÃO VALENTE «««««
CORPO FECHADO ««««
CORTINA RASGADA «««
CURTINDO A VIDA ADOIDADO «««««
DEBI & LÓIDE – DOIS IDIOTAS EM APUROS «««««
DESPEDIDA EM LAS VEGAS «««««
DISQUE M PARA MATAR «««««
DISTRITO 9 «««««
DON JUAN DEMARCO ««««
DR. FANTÁSTICO «««««
DUMBO ««««
DURO DE MATAR «««««
DURO DE MATAR 2 ««««
EM NOME DO PAI ««««
ENTRE OS MUROS DA ESCOLA «««««
ENTREVISTA COM O VAMPIRO ««««
FANTASIA ««««
FEITIÇO DO TEMPO «««««
FESTIM DIABÓLICO «««««
FILADÉLFIA «««««
FORREST GUMP – O CONTADOR DE HISTÓRIAS «««««
FRENESI ««««
HARRY E SALLY: FEITOS UM PARA O OUTRO «««««
INDIANA JONES E A ÚLTIMA CRUZADA «««««
INIMIGO DO ESTADO ««««
INTERLÚDIO «««««
INTRIGA INTERNACIONAL ««««
INVICTUS «««
JANELA INDISCRETA «««««
JURASSIC PARK – O PARQUE DOS DINOSSAUROS «««««
KALIFONIA ««««
KICK-ASS QUEBRANDO TUDO ««««
LAWRENCE DA ARÁBIA «««««
LOVE STORY «««
MARIA ANTONIETA ««
MAVERICK ««««
MEDO DA VERDADE «««««
MEIA-NOITE EM PARIS ««««
MISSÃO IMPOSSÍVEL: PROTOCOLO FANTASMA ««««
MONSTROS VS. ALIENÍGENAS «««
MOTHER – A BUSCA PELA VERDADE «««««
NEM QUE A VACA TUSSA «««
NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS «««««
NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA «««««
NOSSO LAR «««
O ALTO DA COMPADECIDA «««««
O CAMPEÃO «««
O CANTOR DE JAZZ ««««
O DISCURSO DO REI ««««
O ESCRITOR FANTASMA ««««
O EXPRESSO DA MEIA-NOITE ««««
O EXPRESSO POLAR ««««
O FALCÃO MALTÊS «««««
O GRANDE GOLPE ««««
O GRANDE LEBOWSKI «««««
O GRANDE TRUQUE «««««
O HOMEM ELEFANTE «««««
O HOMEM ERRADO ««««
O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA «««««
O HOMEM SEM FACE ««««
O HOMEM URSO «««««
O MENINO DO PIJAMA LISTRADO ««««
O NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO «««
O NEVOEIRO ««««
O OPERÁRIO ««««
O PIANO ««««
O REI LEÃO «««««
O SEGREDO DOS SEUS OLHOS «««««
O SHOW NÃO PODE PARAR ««««
O TERCEIRO HOMEM «««««
O TÚMULO DOS VAGALUMES «««««
O VINGADOR DO FUTURO «««
OLDBOY «««««
OS DEZ MANDAMENTOS «««««
OS DUELISTAS ««««
OS EMBALOS DE SÁBADO À NOITE «««««
OS EXCÊNTRICOS TENENBAUMS «««««
OS IMPERDOÁVEIS «««««
OS MERCENÁRIOS ««
OS PÁSSAROS ««««
PACTO DE SANGUE «««««
PACTO SINISTRO «««
PERDAS E DANOS «««
PERFUME DE MULHER ««««
PERSÉPOLIS «««««
PETER PAN «««
PROMESSAS DE UM CARA DE PAU «««
PULP FICTION – TEMPO DE VIOLÊNCIA «««««
QUANTO MAIS QUENTE MELHOR «««««
QUATRO CASAMENTOS E UM FUNERAL ««««
QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOOLF? «««««
RASTROS DE ÓDIO «««««
REBECCA – A MULHER INESQUECÍVEL «««««
SCOTT PILGRIM CONTRA O MUNDO «««««
SE BEBER, NÃO CASE «««
SE EU FOSSE VOCÊ «««
SENNA «««««
SUCKER PUNCH – MUNDO SURREAL «««
SUPERBAD – É HOJE «««««
SUPERMAN – O FILME (1978) ««««
SYNÉDOQUE, NOVA YORK «««««
TITÃS – A VIDA ATÉ PARECE UMA FESTA ««««
TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE «««««
TOPÁZIO ««
TRAMA MACABRA ««««
TROPA DE ELITE 2 «««««
ÚLTIMA PARADA 174 ««
UM BOM ANO «««
UM CORPO QUE CAI «««««
UM DIA DE FÚRIA ««««
UM MUNDO PERFEITO «««««
UM NOVO DESPERTAR «««
UM SONHO DE LIBERDADE «««««
VELOCIDADE MÁXIMA ««««
WYATT EARP «««
ZONA VERDE ««««

Um grande abraço, um enorme muito obrigado a todos vocês e um ótimo 2012 para todos nós!

PS: Como vocês sabem, alguns filmes citados na lista terão suas críticas divulgadas em breve.

Texto publicado em 01 de Janeiro de 2012 por Roberto Siqueira

Feliz Ano Novo!

Desejo a todos vocês um feliz 2012, repleto de saúde e paz!

See you…

Texto publicado em 31 de Dezembro de 2011 por Roberto Siqueira

AS PONTES DE MADISON (1995)

(The Bridges of Madison County)

 

Videoteca do Beto #122

Dirigido por Clint Eastwood.

Elenco: Meryl Streep, Clint Eastwood, Annie Corley, Victor Slezak, Jim Haynie, Sarah Kathryn Schmitt, Christopher Kroon, Phyllis Lyons, Debra Monk, Richard Lage e Michelle Benes.

Roteiro: Richard LaGravanese, baseado em livro de Robert James Waller.

Produção: Clint Eastwood e Kathleen Kennedy.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Normalmente associado a filmes “viris” por causa de sua trajetória no western e nos filmes do policial “Dirty Harry”, Clint Eastwood já apontava em “Um Mundo Perfeito” os caminhos que trilharia como diretor. Mas pouca gente podia esperar que ele dirigisse um longa como “As Pontes de Madison” com tamanha sensibilidade, confirmando seu enorme talento ao abordar com maturidade temas universais como o amor proibido e o sacrifício.

Baseado em livro de Robert James Waller e roteirizado por Richard LaGravanese, “As Pontes de Madison” narra a história de amor entre Francesca (Meryl Streep), uma proprietária rural do interior do Iowa, e Robert (Clint Eastwood), um fotógrafo da revista National Geographic, à partir de flashbacks que acompanham a leitura dos diários dela, entregues aos seus filhos após sua morte. Enquanto eles lêem e se envolvem com sua história, o espectador acompanha os quatro dias que ela passou com o fotógrafo durante uma viagem da família, vivendo um romance maduro e tocante, mas marcado por difíceis decisões.

Na época ainda marcado pelos papéis durões do passado, Clint Eastwood surpreendeu o público ao abordar com sensibilidade a história de renúncia de Francesca, uma mulher de meia-idade que, segundo ela mesma, largou os sonhos para priorizar o marido e os filhos. Emprestando um tom clássico à narrativa, o diretor emprega elegantes movimentos de câmera, como no plano-seqüência que acompanha Francesca correndo pra fora da casa para ver o carro de Robert sair na última noite, num dos momentos comoventes do longa. Auxiliado pela montagem de Joel Cox, Eastwood acerta ao alternar num bom ritmo entre planos médios e closes, evitando que a narrativa se torne cansativa, além de priorizar corretamente a linha narrativa do caso entre Robert e Francesca em detrimento daquela que acompanha os filhos dela. Explorando ainda a beleza da paisagem local com seus planos aéreos que destacam as fazendas e plantações da região, o diretor entrega um filme poético e repleto de planos simbólicos, como aquele em que Francesca fala com o marido ao telefone enquanto vê Robert partindo pela janela na primeira noite, indicando seus sentimentos conflitantes e sua melancólica situação. E não é belo notar que as próprias pontes de Madison simbolizam a possibilidade de alcançar novos caminhos? Não é à toa também que um crucifixo tem papel fundamental na trama, simbolizando o sacrifício da protagonista.

Quem também ressalta a melancolia da narrativa é a linda trilha sonora de Lennie Niehaus, especialmente em sua música tema, que embala os momentos especiais do casal. De maneira inteligente, Niehaus evita tornar a trilha repetitiva, utilizando as canções que tocam no rádio para embalar de maneira diegética o romance. Já a casa simples, típica do interior dos EUA (direção de arte de Jay Hart), e as roupas modestas dos personagens (figurinos de Colleen Kelsall) ambientam perfeitamente o espectador à época da narrativa, o que é importante para compreender o drama de Francesca, numa época em que largar marido e filhos para trás seria até mesmo uma afronta aos valores familiares – e o drama de uma mulher maltratada num restaurante porque traiu o marido só ressalta o pensamento dominante naquela pequena cidade do interior.

Empregando cores suaves e coerentes com a decoração da casa, a fotografia de Jack N. Green realça a sutileza com que Richard e Francesca se envolvem. Não existe um grande acontecimento que justifique a paixão repentina deles, não é um sentimento movido por algum acontecimento dramático, mas sim uma atração natural entre duas pessoas que enxergam na outra algo que não encontraram até então. Nada mais próximo da realidade e mais humano. Na medida em que a despedida se aproxima, Green passa a priorizar cenas noturnas e locais fechados, como um bar, refletindo a angústia do casal. Na cena do bar, aliás, o tom avermelhado também ressalta a paixão incandescente misturada ao sentimento de culpa de Francesca, indecisa entre seguir com Robert ou ficar com a família.

Interpretados por Victor Slezak, que vive Michael, e Annie Corley, que vive Caroline, os filhos de Francesca inicialmente se mostram revoltados com a carta e o pedido inusitado da mãe (ela quer ser cremada e ter as cinzas jogadas numa ponte). Michael é o mais inconformado e a situação só piora durante a leitura do diário. Caroline parece mais complacente, compreendendo o drama da mãe. Lentamente, ambos começam a refletir também sobre seus casamentos. Da mesma forma, eles descobrem que jamais notaram a vida triste que a mãe levava. Repare, por exemplo, o almoço em que Francesca se mostra sempre solícita aos pedidos do marido, enquanto os filhos, ainda que não percebam o que estão fazendo, sequer conversam com ela. Mas se por um lado eles podem se sentirem culpados, por outro eles se sentem traídos em certo momento da leitura, não pela paixão de Francesca, mas pela contradição entre seus ensinamentos e o que ela sentia.

Estes sentimentos contraditórios não são restritos aos filhos de Francesca, já que ela mesma viveu um complicado dilema. De maneira inteligente, o roteiro jamais apresenta seu marido Richard como um vilão (“Não consigo dormir sem você”, diz ele antes de viajar), o que só aumenta seu drama e evita que o espectador seja manipulado. Interpretado por Jim Haynie, Richard é um homem bom, que não percebe a infelicidade da esposa ou, como deixa claro no leito de morte, talvez até perceba, mas não sabe o que fazer para mudar esta situação. Sendo assim, como simplesmente largar sua família e fugir? O sofrimento de Francesca é compreensível, ainda mais numa época tão opressora. As mulheres de hoje, já muito mais independentes, podem se revoltar com a postura passiva dela. Porém, é importante relembrar a época e o local em que se passa a narrativa.

Responsável por balançar os alicerces de Francesca, o misterioso Robert é interpretado pelo diretor Clint Eastwood com desenvoltura e carisma, demonstrando com eficiência o sentimento que cresce no fotógrafo (“Não sei se consigo… Espremer toda uma vida entre hoje e sexta”, diz ele). Mas o grande destaque vai mesmo para Meryl Streep, que entrega uma atuação fabulosa desde os primeiros instantes, quando demonstra a timidez de Francesca no carro de Robert através da insegurança naquele primeiro contato mais próximo. Aliás, nesta seqüência vale destacar dois momentos especiais, quando ele toca a perna dela acidentalmente e quando ela não resiste e sorri ao ouvir que ele já esteve em Bari, sua cidade natal. Usando um sotaque convincente e coerente com a origem italiana da personagem, ela lentamente se solta e cria ótima química com Eastwood, chegando a fazer piada com as flores que ele colhe. Juntos, eles conseguem tornar os diálogos do ótimo roteiro ainda mais interessantes. Reforçando o cuidado na composição da personagem com pequenos detalhes, como ao tocar o corpo indicando que está com calor, Streep cria uma personagem trágica, demonstrando com competência a luta de Francesca para resistir àquela paixão. Observe, por exemplo, a tristeza com que ela afirma que os filhos “crescem” ou sua respiração ofegante, quase de adolescente, antes do primeiro beijo de Richard. Estes são apenas alguns momentos de uma atuação memorável.

A evolução do romance é lenta e verossímil, mas após o impulso inicial, Francesca parece saber o caminho que aquele relacionamento irá seguir. Ainda assim, ela não resiste e vive momentos inesquecíveis, sempre conduzidos com sensibilidade por Eastwood, como a dança na cozinha e a conversa ao lado da lareira. E se acerta nas cenas românticas, o diretor confirma sua habilidade nos momentos dramáticos, como o tocante diálogo na última noite em que as velas iluminam o melancólico jantar, chegando ao auge na última vez em que eles se vêem ao realçar a tristeza através da chuva e captar cada reação de Francesca com perfeição, em outro momento sublime da atuação de Streep. O nó na garganta é quase inevitável naquela troca de olhares, com Robert debaixo de uma forte chuva, que mais parece um lamento dos céus. E se toda a seqüência é emocionante, o plano da mão de Francesca ameaçando abrir a caminhonete é de partir o coração, numa cena que sintetiza a complexidade da situação. Por isso, assim como seus filhos, nós também compreendemos as ações dela e, mais do que isso, nos sentimos incapazes de julgá-la. E, no fim das contas, ninguém pode afirmar que ela seria feliz fugindo com ele. Como sabemos, o amor “idealizado” é sempre perfeito.

Com seu tom pessimista, “As Pontes de Madison” é um filme tocante, que aborda uma relação amorosa proibida entre duas pessoas da meia-idade de maneira sensível e verdadeira, sem jamais soar melodramático. Com grandes atuações – especialmente de Meryl Streep -, deixa inúmeros questionamentos ao final da projeção e confirma o talento de Eastwood na condução de dramas extremamente humanos. Na visão dele, a vida também é feita de sacrifícios. E ele tem razão.

Texto publicado em 27 de Dezembro de 2011 por Roberto Siqueira

Feliz Natal!

Desejo a todos um feliz natal e, principalmente, que tenham sempre pessoas especiais para curtir cada momento marcante como a noite de hoje.

FELIZ NATAL!

PS: Deixo a dica de dois vídeos interessantes sobre o Natal, aqui e aqui.

Feliz Natal!

Texto publicado em 24 de Dezembro de 2011 por Roberto Siqueira

APOLLO 13 (1995)

(Apollo 13)

 

Videoteca do Beto #121

Dirigido por Ron Howard.

Elenco: Tom Hanks, Bill Paxton, Kevin Bacon, Gary Sinise, Ed Harris, Kathleen Quinlan, Bryce Dallas Howard, Mary Kate Schellhardt, Emily Ann Lloyd, Miko Hughes, Max Elliott Slade, Jean Speegle Howard, David Andrews e Michele Little.

Roteiro: William Broyles Jr. e Al Reinert, baseado em livro de Jim Lovell e Jeffrey Kluger.

Produção: Brian Grazer.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Inspirado em fatos reais, “Apollo 13” é um filme interessante não apenas como entretenimento, mas também como registro de um momento importante da história das missões espaciais. Demonstrando segurança na condução da narrativa e contando ainda com um excelente trabalho técnico e um bom elenco, Ron Howard entrega um filme competente, que retrata com realismo as horas de aflição que aqueles astronautas provavelmente enfrentaram.

Escrito por William Broyles Jr. e Al Reinert, a partir de livro de Jim Lovell e Jeffrey Kluger, “Apollo 13” narra a história real da terceira missão tripulada do projeto Apollo à lua. Após uma inesperada explosão no módulo de serviço, os astronautas Jim Lovell (Tom Hanks), Fred Haise (Bill Paxton) e Jack Swigert (Kevin Bacon) se vêem obrigados a retornar a Terra sem sequer pisar na lua, correndo o risco de ficarem sem oxigênio no caminho, além da ameaça real de danificar a nave na reentrada na órbita terrestre.

Potencialmente tensa, a história da Apollo 13 certamente resultaria num bom filme nas mãos de um diretor competente. Felizmente, este é o caso de Ron Howard, que consegue imprimir uma escala crescente de tensão à narrativa do segundo ato em diante. Antes disso, no entanto, o filme escorrega levemente ao exagerar no ufanismo, quando os americanos comemoram a vitória na corrida espacial – e este patriotismo é reforçado pela trilha sentimental que embala o homem pisando na lua e pelo close em Jim, claramente emocionado com o que vê. Ainda no primeiro ato, chama a atenção como a imprensa não demonstra interesse pela Apollo 13, refletindo a progressiva falta de interesse do público pelos programas espaciais. Neste aspecto, vale lembrar que até mesmo a NASA questionava o alto investimento feito nestas missões depois do sucesso da Apollo 11, algo que o filme também retrata com fidelidade. Porém, quando a viagem se transforma numa tragédia potencial, a imprensa imediatamente se interessa pelo caso (“Agora ficou mais emocionante”, afirma um idiota da NASA), provocando a indignação de Marilyn (Kathleen Quinlan), a esposa de Jim.

Trabalhando com inteligência e cuidado em todo o primeiro ato, Ron Howard busca estabelecer o relacionamento entre os personagens e criar expectativa para o lançamento da nave. E apesar dos muitos termos técnicos, o espectador jamais se perde durante a narrativa, graças à clareza do roteiro e a condução do diretor. Observe, por exemplo, como ele usa a fase de testes para nos apresentar os possíveis problemas que a missão enfrentará e nos familiarizar com alguns destes termos. Por isso, quando Jack tenta acoplar o módulo de comando ao módulo lunar, o espectador sabe exatamente o perigo daquela operação. Também por isso, quando Jim Lovell diz a famosa frase “Houston, nós temos um problema”, o desespero toma conta da tela, pois sabemos que aquele problema não estava previsto.

Além da narrativa envolvente, “Apollo 13” apresenta também um espetáculo visual belíssimo, graças aos excelentes efeitos visuais da Digital Domain, que conferem realismo ao lançamento da nave, por exemplo. Nave, aliás, que é perfeitamente recriada pela direção de arte de David J. Bomba, Michael Coreblith e Bruce Alan Miller, assim como os uniformes são fiéis aos originais (figurinos de Rita Ryack), ambientando perfeitamente o espectador. Além disso, o ótimo design de som capta cada pequeno movimento dentro da nave, como quando o oxigênio estoura a lateral da Apollo 13 e provoca o acidente. Obviamente, o trabalho de câmera de Ron Howard é vital neste processo. Contando com a colaboração da fotografia de Dean Cundey, o diretor emprega movimentos de câmera estilizados e realiza verdadeiros malabarismos no espaço, acompanhando com fluência a perfeita movimentação dos astronautas nos módulos. Vale destacar ainda os giros em volta da nave e o elegante travelling de dentro pra fora dela, que dá a exata noção de onde os astronautas se encontram.

Ainda na parte técnica, merece destaque a excepcional montagem de Daniel P. Hanley e Mike Hill, que confere enorme dinamismo ao longa, intercalando o drama dos astronautas, o trabalho da NASA e o sofrimento dos familiares. Além disso, quando a Apollo 13 apresenta o grave problema, os montadores alternam rapidamente entre os planos, ampliando a angústia no espectador sem que este perca a noção do que está vendo. E ainda que usem descartáveis legendas para indicar a passagem do tempo, Hanley e Mill acertam ao usar o já ultrapassado fade, escurecendo a tela completamente e refletindo a angustia que predomina a narrativa. A trilha sonora de James Horner também acentua o clima de tensão, por exemplo, com a música agitada que embala os minutos prévios ao lançamento da nave. Por outro lado, a trilha parece exceder um pouco o tom adequado em certos momentos, soando melosa demais, como quando Jim se dá conta de que não vai pisar na lua.

E se exagera no melodrama neste aspecto, “Apollo 13” acerta na forma como aborda a preocupação da família Lovell, nos envolvendo com o sofrimento da esposa e dos filhos de Jim após a confirmação de sua ida à lua. Nós nos sentimos mais próximos dele justamente por acompanharmos seu relacionamento com a família, o que amplia a carga dramática quando os problemas surgem. É claro que as boas atuações de Tom Hanks e Kathleen Quinlan colaboram bastante. E além de estabelecer boa química com Quinlan, Hanks ainda transmite com precisão a crescente aflição do personagem, enquanto Bacon inicialmente parece mais tranqüilo e Paxton surge intimidado naquela difícil situação. Entretanto, quando os conflitos começam a surgir, os três atores se destacam, estabelecendo um clima palpável de tensão e refletindo muito bem o cansaço dos astronautas. Paxton, aliás, melhora ainda mais na medida em que Fred fica doente, transmitindo com competência o sofrimento do personagem.

No restante do ótimo elenco, Ed Harris se sai muito bem, demonstrando autoridade e liderança como Gene Kranz, e a citada Kathleen Quinlan está ótima como Marilyn Lovell, demonstrando muito bem a angústia da personagem com as notícias do marido. E se é emocionante o momento em que ela conta para a mãe de Jim o ocorrido, é ainda mais difícil conter as lágrimas quando ela dá a notícia de que a nave apresentou problemas para o filho e ouve a pergunta preocupada do menino: “Foi a porta?”. Finalmente, Gary Sinise confere realismo à decepção de Ken Mattingly quando é retirado da missão e se sai ainda melhor quando é convocado para auxiliar os companheiros, demonstrando muito profissionalismo e companheirismo.

Assim como antes do lançamento, os momentos prévios à volta para a Terra são bastante tensos. E o silêncio que predomina por alguns segundos só aumenta nossa expectativa, justificando a explosão de alegria de todos quando o paraquedas surge no céu. A emoção genuína dos personagens e do espectador comprova que a narrativa nos envolveu. Ainda nesta cena, não posso deixar de destacar a reação contida e emocionada de Gene, num momento sublime da atuação de Ed Harris. Se a história original já era potencialmente tensa e emocionante, Howard e sua equipe conseguiram traduzir estes sentimentos na tela com competência.

Excelente tecnicamente, “Apollo 13” narra um drama real de maneira envolvente, graças à eficiente direção de Howard e às boas atuações do elenco. Apesar da trilha sonora exagerada em alguns momentos e de não resistir ao ufanismo típico dos norte-americanos, o resultado é bastante agradável. Um bom exemplo do equilíbrio ideal entre a técnica e a emoção no cinema.

Texto publicado em 21 de Dezembro de 2011 por Roberto Siqueira

A Nova Videoteca

Trabalhei muito pra isto. Planejei bastante também. E finalmente, minha videoteca tem um lugar à sua altura. Abaixo, vocês podem compartilhar a minha alegria e conhecer o novo local que adquiri para a minha coleção de filmes.

Como vocês, a nova Videoteca do Beto (clique na imagem para ampliar):

Um abraço.

Texto publicado em 13 de Dezembro de 2011 por Roberto Siqueira

ANTES DO AMANHECER (1995)

(Before Sunrise)

 

 

Videoteca do Beto #120

Dirigido por Richard Linklater.

Elenco: Ethan Hawke, Julie Delpy, Andrea Eckert, Hanno Pöschl, Karl Bruckshwaiger, Tex Rubinowitz, Dominik Castell, Haymon Maria Buttinger e Harold Waiglein.

Roteiro: Richard Linklater e Kim Krizan.

Produção: Anne Walker-McBay.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Fugindo dos clichês e convenções do gênero, Richard Linklater apresenta um romance maduro, que acompanha o exato momento em que dois jovens se apaixonam de maneira natural e realista. Narrando uma história que poderia acontecer com qualquer um de nós, a obra-prima “Antes do Amanhecer” nos conquista por sua simplicidade, mas também pelas atuações magníficas da dupla principal. Durante quase duas horas, acompanhamos mais do que um momento mágico na vida dos protagonistas. Este é, na verdade, um momento mágico do cinema como forma de arte.

O norte-americano Jesse (Ethan Hawke) e a francesa Celine (Julie Delpy) se encontram casualmente num trem. Ele voltará para os Estados Unidos no dia seguinte. Ela deveria seguir para Paris, mas ele a convence a descer em Viena e acompanhá-lo no restante daquele dia. Enquanto passeiam pela capital austríaca, os dois se apaixonam lentamente. Mas a manhã se aproxima e, junto com ela, o momento de dizer adeus.

Escrito pelo próprio Richard Linklater junto com Kim Krizan, “Antes do Amanhecer” narra a apaixonante história de dois jovens que se conhecem casualmente e descobrem ter mais afinidade do que podiam imaginar. Repleto de diálogos interessantes, o excepcional roteiro nos dá a sensação de estarmos acompanhando um encontro em tempo real, testemunhando aquelas duas pessoas se apaixonando de verdade, simplesmente porque demonstram empatia enquanto conversam. Isto acontece porque Linklater e sua equipe trabalham em cada detalhe para tornar a narrativa realista, a começar pela montagem de Sandra Adair, que emprega o ritmo correto, transitando com elegância entre os planos e evitando a sensação de que estamos saltando no tempo, ainda que isto eventualmente aconteça. Além disso, são raros os momentos em que a trilha sonora não pertence ao universo do filme, como após a cena na cabine, em que a música continua tocando enquanto eles caminham pela cidade. Esta trilha diegética na maior parte do tempo reforça a sensação de realismo, aproveitando as músicas que tocam nos lugares que eles passam para embalar os momentos do casal.

Desde a primeira conversa no trem, Linklater nos coloca na posição de espectadores privilegiados, com sua câmera próxima aos personagens e atenta em todos os detalhes de suas reações. O diretor também reforça a atmosfera realista da narrativa, por exemplo, ao empregar um plano-seqüência que acompanha o interessante diálogo sobre as diferenças entre homens e mulheres ou quando a câmera fica parada enquanto eles passeiam pela cidade num bonde. Linklater sabe ainda destacar as excelentes atuações da dupla em momentos chave, como na linda cena na cabine de música, onde um evita o olhar do outro e a câmera nos permite observar aquele interessante jogo de sedução. Além disso, Linklater explora muito bem a beleza de Viena, escolhendo locações que ressaltam o charme especial que só algumas cidades européias têm. E é maravilhoso notar como um simples passeio na margem do rio Danúbio, uma música num bar, um passeio noturno no parque e até mesmo uma visita a um cemitério se tornam momentos especiais por causa da pessoa ao lado.

Em “Antes do Amanhecer”, este momento mágico surge naturalmente. Após uma discussão de um casal de alemães, Celine se sente incomodada e muda de lugar no trem, permitindo que Jesse inicie um diálogo com ela. A empatia do casal é imediata e a platéia percebe isto porque Ethan Hawke e Julie Delpy têm atuações simplesmente perfeitas, estabelecendo uma química extraordinária na tela. Impressiona também como eles dialogam com naturalidade, tornando tudo mais real sem jamais dar a sensação de que estão atuando. Acredite, apesar de parecerem improvisados, os diálogos de Jesse e Celine soam verdadeiros graças ao talento dos atores. Ao chegar a Viena, Celine tem que decidir entre seguir viagem e deixar a oportunidade de conhecer uma pessoa especial para trás ou ficar em Viena e arriscar viver uma experiência marcante. Felizmente, ela decide ficar, e a fotografia inicialmente clara de Lee Daniel ilustra a euforia daqueles jovens e o momento mágico que eles estão vivendo. Não por acaso, ele destaca a cor verde, simbolizando a esperança de um futuro feliz de Jesse e Celine. Com o passar do tempo e o cair da noite, Daniel e Linklater exploram a beleza da noite vienense, criando uma atmosfera ainda mais romântica sem jamais tornar a narrativa melosa ou piegas.

Duas pessoas inteligentes e cheias de idéias interessantes, Jesse e Celine são jovens normais, com dúvidas, aflições e questionamentos, mas também agradáveis e apaixonantes. E é interessante acompanhar a forma como eles desenvolvem cada raciocínio, a maneira como eles enxergam questões universais como a vida após a morte, o amor, os relacionamentos entre pais e filhos e até mesmo a religião. Também existe espaço para momentos descontraídos, como quando ela brinca com o fato dele falar apenas um idioma, numa alusão às diferenças entre norte-americanos e europeus. Celine demonstra ainda uma conexão especial com a avó, enquanto Jesse relata uma experiência que viveu ainda pequeno, relacionada com sua bisavó. E são estes momentos que tornam Jesse e Celine personagens tão reais, tão próximos do espectador. Ao ouvir o pensamento deles, suas histórias e a maneira como eles vêem a vida, nos tornamos íntimos e compartilhamos de suas angústias e sonhos.

Num momento divertido, uma cigana lê a mão de Celine, que se empolga com as palavras dela. Mas este instante, junto com o adorável poema do “vagabundo” à beira do Danúbio, expõe o lado cético de Jesse. E antes mesmo que ele diga alguma coisa, o espectador percebe seu incômodo, somente pelo semblante do ator. São estes pequenos detalhes na composição dos personagens que tornam as atuações de Julie Delpy e Ethan Hawke perfeitas. Repare, por exemplo, como Delpy ri espontaneamente quando Jesse pergunta se a avó de Celine está bem, demonstrando satisfação pelo interesse dele. Da mesma forma, quando eles percorrem a cidade num bonde, Jesse ameaça tirar o cabelo da frente do rosto dela, recolhendo a mão rapidamente quando ela se vira pra ele. Esta hesitação em tocá-la demonstra sua atração ao mesmo tempo em que evidencia sua timidez. Timidez que surge novamente na cabine e, especialmente, na linda cena do primeiro beijo na roda gigante.

Lindo também é o plano que surge após a divertida conversa num telefone imaginário. Como dizem os próprios personagens, tudo parece um sonho. Momentos antes, durante um jantar no Danúbio, eles evitam falar abertamente, mas dão indícios claros de que desejam ficar juntos e quebrar o “acordo racional e adulto”. Pra encerrar a noite, outra cena tocante acontece no parque, quando eles decidem não transar e apenas curtir o final de um momento especial. Por isso (e por tudo que acompanhamos), quando a manhã chega, o espectador compartilha com os personagens um sentimento de tristeza ao saber que o momento da despedida se aproxima. A seqüência de planos dos lugares em que eles estiveram cria um enorme vazio no coração do espectador e a despedida triste e ambígua fecha à narrativa, deixando a platéia livre para decidir o que aconteceria seis meses depois. Os céticos podem acreditar que tudo terminou ali, enquanto os românticos podem idealizar um novo encontro (a verdade só seria revelada na continuação “Antes do pôr-do-sol”, nove anos depois de “Antes do Amanhecer”). Mas o que importa é que aqueles momentos foram mágicos, não apenas para os personagens, mas também para o espectador.

Além das várias questões abordadas em cada diálogo, deixamos a projeção refletindo sobre o tema principal da narrativa. Quantas pessoas especiais passam pelas nossas vidas sem que a gente perceba? Será que estas pessoas continuariam especiais após anos de convivência? Não existe outra forma de descobrir a verdade que não seja “arriscar” viver ao lado delas, ainda que isto possa destruir a visão idealizada que criamos.

“Antes do Amanhecer” é uma história de amor que nos cativa e nos faz torcer contra um final que se anuncia logo em seus primeiros minutos. Ao longo da narrativa, nos tornamos íntimos de Jesse e Celine, torcemos por eles e nos entristecemos quando a anunciada separação finalmente chega. Ainda assim, a mensagem principal já foi gravada em nossas mentes: o amor vale à pena, mesmo que seja só por uma noite.

Texto publicado em 04 de Dezembro de 2011 por Roberto Siqueira

CHINATOWN (1974)

(Chinatown)

 

 

Filmes em Geral #77

Videoteca do Beto #210 (Filme comprado após ter a crítica divulgada no site e transferido para a Videoteca em 13 de Julho de 2015)

Dirigido por Roman Polanski.

Elenco: Jack Nicholson, Faye Dunaway, John Huston, Diane Ladd, Perry Lopez, John Hillerman, Darrell Zwerling, Roy Jenson, Richard Bakalyan, Joe Mantell, Bruce Glover, Nandu Hinds, Burt Young e Belinda Palmer.

Roteiro: Robert Towne.

Produção: Robert Evans.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apenas cinco anos após perder sua esposa Sharon Tate, assassinada no auge da contracultura pelo grupo liderado por Charles Manson, Roman Polanski voltou à Hollywood para dirigir este excepcional “Chinatown”, que com sua atmosfera noir e seu tom melancólico, reflete o estado de espírito de seu diretor e se confirma como uma das muitas obras-primas de Hollywood nos anos 70. Contando ainda com atuações inspiradas e um roteiro praticamente perfeito, o longa se estabelece também como uma das mais bem sucedidas incursões no gênero que se notabilizou nas décadas de 40 e 50.

Em “Chinatown”, acompanhamos a trajetória do detetive particular J. J. Gittes (Jack Nicholson) quando este é contratado pela esposa de Hollis Mulwray (Darrell Zwerling), o chefe do Departamento de Águas e Energia de Los Angeles, para descobrir se ele está tendo um caso extraconjugal. Após a confirmação da traição, Gittes descobre que a verdadeira esposa dele, Evelyn Mulwray (Faye Dunaway), jamais solicitou os seus serviços, exatamente no mesmo dia em que Hollis aparece morto. Gittes decide então investigar o assassinato e as possíveis ligações entre o crime e o pai de Evelyn, o poderoso Noah Cross (John Huston), que também era sócio de Hollis.

Escrito pelo ótimo Robert Towne, “Chinatown” apresenta uma estrutura narrativa perfeita, que gradativamente envolve o protagonista numa situação bastante complicada e, conseqüentemente, conquista também a atenção da platéia. Com um texto precioso e coeso, a narrativa intrincada e repleta de sutilezas aborda muitos temas complexos sob sua superfície de filme policial, apresentando personagens nada unidimensionais, que parecem sempre serem muito mais do que o que vemos na tela. Towne também espalha diversas pistas pela narrativa, que obrigam o espectador a prestar atenção em cada pequeno detalhe da investigação conduzida por Gittes, somente para descobrir momentos depois que muitas delas eram falsas. Além disso, ele constrói diversos diálogos marcantes, entre os quais vale destacar aquele no restaurante em que Evelyn confessa que também traía o marido e o embate entre Noah e Gittes, que também acontece num almoço e nos deixa em dúvida sobre o caráter do milionário e de sua filha.

Com este ótimo roteiro em mãos, Polanski conduz o longa com paciência até os 30 minutos de projeção, quando a morte de Hollis Mulwray insere o elemento noir que faltava para a narrativa definitivamente engrenar: o crime. Claramente inspirado na estética noir, como podemos notar através do terno do detetive Gittes (figurinos de Anthea Sylbert) e dos ambientes fechados, como o escritório dele e a casa dos Mulwray – que, por exemplo, indica a boa situação financeira do casal (direção de arte de W. Stewart Campbell) -, “Chinatown” só não apresenta o forte contraste entre o preto e o branco característico do gênero, mas ainda assim tem diversos momentos em que as sombras tomam conta da tela, como no diálogo entre Gittes e Evelyn num carro, logo após ela revelar quem é a sua irmã, onde podemos ver apenas parcialmente o rosto dos personagens. Além disso, os tradicionais ambientes esfumaçados e as sombras das persianas que invadem os escritórios criam o típico visual noir. Neste aspecto, vale destacar a fotografia de John A. Alonzo, que emprega cores sóbrias na maior parte do tempo (preto, marrom, cinza), conferindo uma aura melancólica coerente com o tom da narrativa. Ainda na parte técnica, a trilha sonora de Jerry Goldsmith acentua o clima apreensivo em diversos momentos e a direção de arte de Campbell volta a se destacar nos pequenos detalhes com função narrativa, como os quadros na parede que indicam a sociedade entre Hollis e Noah, além dos carros e casas que nos jogam para a Los Angeles dos anos 30 com precisão.

Voltando à direção, Polanski também comanda com precisão as cenas de alta tensão, como quando Gittes tenta invadir o Departamento de Águas à noite e é surpreendido por um tiro, pela água e por dois homens (um deles, armado com uma faca, é interpretado pelo próprio Polanski) ou quando ele é atacado num laranjal e perseguido por homens montados em cavalos. Auxiliado pela montagem de Sam O’Steen, o diretor conduz a narrativa com tranqüilidade e sutileza, acelerando a trama na medida em que Gittes se aproxima da verdade sobre o assassinato de Hollis ao emendar uma grande cena após a outra, como na seqüência em que Gittes visita um asilo, foge com Evelyn de carro, dorme com ela e descobre a natureza da relação dela com a amante de Hollis. E apesar de parecer quebrar o ritmo, a cena em que eles ficam juntos (embalada pela trilha romântica) serve para revelar um pouco mais sobre o passado misterioso de Gittes em Chinatown e indicar que a morte de alguma mulher o traumatizou. Outro aspecto importante a se ressaltar é que Polanski procura nos guiar na narrativa sob a perspectiva de Gittes, o que justifica sua presença em todas as cenas e a câmera que o acompanha por trás dos ombros em diversos momentos.

Tranqüilo e com tom de voz baixo, Jack Nicholson cria um personagem diferente do habitual, comprovando sua versatilidade e competência como ator. Ainda assim, seu Gittes é determinado e impõe respeito junto aos seus subordinados, como podemos notar logo no início quando ele repreende um de seus assistentes, saindo-se ainda melhor nos embates verbais com Noah, Evelyn e com o tenente Lou, quando sempre soa convincente em suas afirmações. Extremamente inteligente, seu Gittes sabe muito bem se adaptar aos ambientes que freqüenta – o que explica sua preocupação com a aparência (repare sua reação ao molhar os sapatos) e sua constante mudança de comportamento (no escritório, conta piadas; diante dos milionários, fala de forma refinada). Faye Dunaway também se destaca, criando uma Evelyn misteriosa e imponente, que sempre parece esconder algo através da fala reticente e do olhar enigmático quando que se refere ao marido e, especialmente, ao pai – um comportamento, aliás, que descobriremos ser totalmente coerente com o passado da personagem. Interpretado por John Huston (que dirigiu “O Falcão Maltês”), Noah Cross é mesmo um personagem ameaçador e Huston tem grande mérito nisto com sua presença marcante na tela. No restante do elenco, vale destacar o tenente Lou Escobar, interpretado por Perry Lopez, e a jovem Katherine Cross, interpretada por Belinda Palmer, que se destaca na cena final, com seu desespero tocante ao ver a mãe ser assassinada.

Após um encontro inesperado entre Gittes e Lou no apartamento de uma prostituta, entramos na parte final de “Chinatown”, onde a revelação da relação incestuosa entre Noah e Evelyn abala as estruturas tanto do detetive como do espectador e inicia outra seqüência atordoante, em que descobrimos o verdadeiro assassino de Hollis e caminhamos para o clímax pessimista, na primeira vez em que o tão citado bairro chinês Chinatown aparece. E novamente, Polanski confirma sua habilidade na direção de maneira sutil. Em certo momento do filme, Evelyn encosta involuntariamente a cabeça na buzina de um carro. Parece uma cena sem propósito, mas não é à toa que ela está lá. Com este momento em mente, o espectador já sabe o destino cruel de Evelyn nesta cena final, somente através do som da buzina no plano distante em que vemos o carro parado na rua. Sua trágica morte é confirmada de maneira forte e tocante, com Katherine desesperada e o violento resultado do tiro surgindo na tela diante do espectador. O final amargo, com a chocante morte de Evelyn e Noah escapando ileso, deixa o espectador reflexivo e melancólico – algo refletido também na trilha que fecha a narrativa.

Repleta de momentos memoráveis, com um roteiro impecável e atuações inspiradas, a obra-prima “Chinatown” confirma o talento de Roman Polanski na direção e reforça o time dos maravilhosos filmes pessimistas que invadiram Hollywood em sua era dourada. Nestes casos, o gosto amargo que fica na boca do espectador ao final da projeção é gradualmente substituído pelo sentimento de respeito diante da grandiosidade da obra que testemunhamos.

Texto publicado em 25 de Novembro de 2011 por Roberto Siqueira

A MARCA DA MALDADE (1958)

(Touch of Evil)

 

Filmes em Geral #76

Dirigido por Orson Welles.

Elenco: Orson Welles, Charlton Heston, Janet Leigh, Zsa Zsa Gabor, Joseph Calleia, Akim Tamiroff, Joanna Cook Moore, Marlene Dietrich, Victor Millan, Lalo Rios, Valentin de Vargas e Ray Collins Dennis.

Roteiro: Orson Welles, baseado em livro de Whit Masterson.

Produção: Albert Zugsmith.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Dezessete anos depois de dirigir e estrelar aquele que é considerado por muitos críticos como o filme mais importante da história, Orson Welles voltou a comprovar sua genialidade neste legitimo filme noir, que utiliza as características do gênero para fazer também um profundo e brutal estudo de personagem. Em “A Marca da Maldade”, Welles esmiúça um homem amargurado pelo passado, que, superficialmente, parece apenas mais um vilão unidimensional, mas em sua essência, revela-se tragicamente mais complexo.

Escrito pelo próprio Welles, baseado em livro de Whit Masterson, “A Marca da Maldade” nos apresenta a história de Miguel Vargas (Charlton Heston), um chefe de polícia mexicano que decide investigar o assassinato de um milionário no meio de sua lua-de-mel com a esposa Susan (Janet Leigh), numa pequena cidade localizada na fronteira entre o México e os Estados Unidos. Em pouco tempo, ele se depara com o detetive local Hank Quinlan (Orson Welles), que assume as investigações e começa a se desentender com Vargas, graças à sua maneira nada convencional de resolver o caso.

Utilizando os conflitos da zona de fronteira entre os EUA e o México como pano de fundo, “A Marca da Maldade” nos apresenta uma narrativa complexa, típica dos filmes noir, que nos apresenta diversos personagens num submundo de crime, decadente e repleto de cinismo. Com inteligência, o roteiro aproveita até mesmo as diferentes nacionalidades do casal para criar situações potencialmente tensas, como quando ela se recusa a ficar no México e acaba hospedada num hotel isolado no deserto norte-americano. Contando com o bom trabalho dos montadores Edward Curtiss, Aaron Stell e Virgil W. Vogel, Welles conduz a narrativa num ritmo interessante, alternando bem entre as cenas de Susan no hotel e a investigação de Vargas na cidade. Mas apesar da trama envolver a investigação de um crime, é no estudo do capitão Hank Quinlan que está o grande mérito do longa, que lentamente nos apresenta as diversas facetas daquele homem.

Ainda na parte técnica, no primeiro e no terceiro ato Orson Welles – auxiliado pelo diretor de fotografia Russell Metty – cria um visual sombrio, com muitas cenas noturnas e pouca iluminação, deixando apenas o segundo ato ser predominado por uma fotografia mais clara, com cenas diurnas e em ambientes abertos. A atmosfera noir é completada ainda pelos figurinos de Bill Thomas, que veste os homens com os famosos sobretudos, e a direção de arte de Robert Clatworthy e Alexander Golitzen, que cria cidades decadentes na fronteira dos dois países, refletindo a situação econômica da época. E de maneira inteligente, a trilha sonora diegética de Henry Mancini utiliza instrumentos presentes nos cenários (como rádios e vitrolas) para tocar música mexicana e ambientar o espectador ao local.

Mas apesar do apuro técnico, o grande destaque é mesmo a direção de Orson Welles, que se impõe desde o memorável plano-seqüência que abre o filme, acompanhando a colocação da bomba no carro de um conhecido cidadão local, passando pelo casal Vargas que caminha tranqüilamente pela rua e terminando com a chocante explosão do veículo, que prende imediatamente o espectador à narrativa. Empregando elegantes travelling e movimentos de câmera, como aquele que revela o isolamento do hotel em que Susan está hospedada – e dá a exata noção do perigo que ela corre quando os sobrinhos de Grandi (Akim Tamiroff) chegam ao local -, o diretor se destaca ainda nos pequenos detalhes, como ao utilizar uma caixa de papelão para nos indicar os métodos controversos de trabalho de Hank. Em outro momento, Hank pergunta sobre a esposa de Vargas e a câmera destaca suas mãos mexendo nos ovos em um ninho, numa metáfora interessante para a própria condição do mexicano, que, assim como aquela galinha, deixou sua esposa desprotegida num hotel distante.

Só que além de ser um excepcional diretor, Welles era também um ator extraordinário. Em “A Marca da Maldade”, ele cria um Hank amargo e ambíguo, com seu jeito autoritário de falar contrastando diretamente com os momentos em que a lembrança da esposa assassinada revela sua faceta frágil. Aos poucos, somos apresentados ao seu passado sombrio, entendemos melhor suas motivações e sabemos qual é a ligação entre a morte de sua esposa e a situação do jovem Sanchez (Victor Millan), suspeito de matar o milionário por ser casado com a filha dele. Depois de ter “deixado escapar” o assassino da esposa, Hank entende que para prender um criminoso tudo é valido. Seus polêmicos métodos de trabalho apenas refletem as feridas em sua alma e os sentimentos que se escondem sob aquela carcaça durona e nebulosa. E o pior, ele tem plena certeza de que está certo ao agir daquela maneira. Chega a ser tocante observar como aquele homem acredita verdadeiramente que seus repugnantes métodos de trabalho são legítimos, como se estivesse apenas dando uma contribuição para que a justiça fosse feita. Por fim, o ator se sai bem, por exemplo, quando Hank está bêbado, conferindo bastante realismo à cena com seu olhar e tom de voz, numa atuação fantástica, que conta ainda com duelos verbais marcantes com Vargas, o personagem interpretado por Charlton Heston.

Apesar de jamais convencer como um mexicano com seu inglês perfeito e seu bigode falso, Heston está bem como o determinado Vargas, que de tão obstinado por sua profissão, acaba deixando de lado sua esposa, a charmosa Susan interpretada por Janet Leigh (a garota do chuveiro de “Psicose”, que certamente passou a detestar hotéis após estes dois filmes). Infelizmente, o elenco secundário soa bastante caricato em diversos momentos, especialmente o vigia noturno do hotel e alguns dos sobrinhos do mafioso “Tio Joe” Grandi. Por outro lado, os Grandi soam ameaçadores graças à maneira como o roteiro explora os artifícios da lei, fazendo com que eles evitem tocar em Susan na maior parte do tempo, intimidando a garota de outras maneiras, como através da foto tirada na entrada da casa do “Tio Joe”, que poderia complicar a vida dela.

Só que esta linha é ultrapassada quando Hank decide jogar muito sujo com Vargas – seguindo a tradição noir de que “os fins justificam os meios” – e orquestra (ao lado do “Tio Joe”) uma situação envolvendo drogas e orgia, que busca destruir a imagem de Susan diante da sociedade. Astuto, Hank aproveita para se livrar também do próprio “Tio Joe”, assassinando-o e preparando a cena do crime para incriminar a moça. Mas ele não contava com a revelação de seu grande amigo Pete Menzies (Joseph Calleia), que encontra sua bengala no quarto e, surpreendentemente, avisa Vargas. Mesmo desconfiado, Vargas decide confiar em Pete e tenta armar uma situação que denuncie Hank. Caminhamos então para um final apoteótico, com a tentativa desesperada de Vargas de gravar uma conversa entre Hank e Pete e desmascarar o famoso policial enquanto os três passeiam por lugares obscuros até o desfecho memorável numa ponte. E a grande mensagem de “A Marca da Maldade” surge nas palavras da misteriosa Tanya (Marlene Dietrich), que afirma que “Hank era um policial ruim… mas era um homem extraordinário”. A ambigüidade do ser humano está resumida aí.

Considerado o último grande filme noir, “A Marca da Maldade” encerra com dignidade o período clássico do movimento. Com um fascinante estudo de personagem, muitas cenas marcantes e uma trama envolvente, o longa comprova a competência de Orson Welles tanto na direção quanto na atuação, apresentando a dualidade do ser humano de maneira contundente e deixando o espectador reflexivo. O “toque de maldade” do título original em inglês poderia muito bem se referir ao toque especial que Welles dava em seus filmes.

Texto publicado em 24 de Novembro de 2011 por Roberto Siqueira