OSCAR 1992: O SILÊNCIO DOS INOCENTES X JFK – A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR

Seguindo minha comparação entre o vencedor do Oscar de Melhor filme e aquele que eu considerei como a melhor produção do ano, chega à vez do ano de 1991 (Premiação em 1992). Na premiação de 1992, um filme surpreendeu a todos e levou os 5 principais prêmios do OSCAR, mas com o passar do tempo, ficou claro que não foi uma surpresa tão grande assim. Num ano apenas razoável, é compreensível que o sensacional “O Silêncio dos Inocentes”, com toda sua incrível atmosfera de tensão e um show de interpretação de Hopkins e Foster, tenha levado tudo que é prêmio na noite. Afinal de contas, o ano de 1991 tinha poucas produções de qualidade, dentre as quais podemos citar “A Bela e a Fera”, os ótimos “O Exterminador do Futuro 2” e “Tomates Verdes Fritos” e o bom “Thelma & Louise”.

Mas existe um filme em especial que realmente me marcou naquele ano. Trata-se do excepcional “JFK – A Pergunta que não quer calar”, dirigido brilhantemente por Oliver Stone e com um elenco pra lá de talentoso. Sou fascinado pela condução de Stone, pelo ritmo enlouquecedor da narrativa, pela montagem dinâmica e pela fotografia espetacular. Ou seja, por mais que eu goste muito de “O Silêncio dos Inocentes”, meu voto seria de “JFK”.

Porque “JFK – A Pergunta que não quer calar” é melhor?

Não vou negar, adoro “O Silêncio dos Inocentes”. Acho a atuação de Hopkins e Foster espetacular, adoro o clima tenso e sombrio do filme, com sua atmosfera de suspense praticamente palpável. Mas eu não votaria no longa de Jonathan Demme para melhor filme e direção. Meu voto realmente seria de “JFK”, por todas as razões já citadas acima. Além disso, apesar de muitos afirmarem se tratar de um delírio do diretor, eu realmente acredito que a morte de Kennedy não foi fruto de apenas uma mente insana, mas sim de uma série de interesses ligados a pessoas e órgãos muito importantes nos EUA. Pela qualidade técnica e pela coragem temática, meu filme preferido de 1991 é “JFK”.

E pra você, qual o melhor filme de 1991 e por quê?

Um abraço e bom debate.

Texto publicado em 28 de Dezembro de 2010 por Roberto Siqueira

TOMATES VERDES FRITOS (1991)

(Fried Green Tomatoes)

 

Videoteca do Beto #81

Dirigido por Jon Avnet.

Elenco: Kathy Bates, Mary Stuart Masterson, Mary-Louise Parker, Jessica Tandy, Cicely, Chris O’Donnell, Stan Shaw, Gailard Sartain, Timothy Scott, Lois Smith e Nick Searcy.

Roteiro: Fannie Flagg e Carol Sobieski, baseado em livro de Fannie Flagg.

Produção: Jon Avnet e Jordan Kerner.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A bela história da forte amizade entre duas jovens é a inspiração deste “Tomates Verdes Fritos”, que com seu roteiro delicioso e suas excelentes atuações conquista o coração do espectador. Com muita sutileza, o diretor Jon Avnet entrega uma história cativante sobre amizade, amor e, acima de tudo, coragem para enfrentar os nossos medos e o preconceito da sociedade em que estamos inseridos.

Toda semana, Evelyn (Kathy Bates) visita a tia de seu marido Ed (Gailard Sartain) no hospital, mas não é bem recebida pela paciente. Num momento de tristeza, ela acaba conhecendo Ninny Threadgoode (Jessica Tandy), uma senhora de 83 anos que adora contar histórias. Nestas conversas semanais, Ninny passa a lhe contar a história de Ruth (Mary-Louise Parker) e Idgie (Mary Stuart Masterson), duas moças que construíram uma forte amizade nos anos 20, provocando polêmica na cidade, principalmente por tratarem bem os negros.

“Tomates Verdes Fritos” é um filme delicado, que aborda com sutileza alguns assuntos potencialmente controversos. Sutileza, aliás, é a palavra que melhor define a direção de Jon Avnet, que conduz a narrativa com elegância desde o primeiro plano do filme, que remete ao assassinato de Frank Bennett (Nick Searcy), com o caminhão sendo retirado da água. O diretor mostra competência na composição de planos belíssimos, como aquele em que Buddy Threadgoode (Chris O’Donnell), Idgie e Ruth caminham sobre as águas da barragem ou o tenso plano em que Idgie conversa com seu chefe no café enquanto os membros do Ku Klux Klan, liderados por Bennett, se aproximam da janela. Repare ainda a perfeita composição do plano em que Ruth revela o olho roxo, surpreendendo o espectador quando vira o rosto para atender ao chamado do marido, revelando os problemas que ela tinha naquela conturbada relação. E além dos belos enquadramentos, Avnet mostra competência na condução de cenas marcantes, como a chocante morte de Buddy. Aparentemente inofensiva (vemos Buddy tentando pegar o chapéu que voa levemente sobre os trilhos), o tom da cena muda repentinamente quando o pé do rapaz se enrosca nos trilhos, mas o espectador mantém um fio de esperança de que no momento final Buddy vá escapar. Infelizmente, não é o que acontece, e o plano seguinte confirma a tragédia. Vale citar ainda a bela cena em que Ruth e Idgie jogam comida para os pobres de dentro do trem, com o rosto daquelas crianças esperançosas implorando por ajuda, pontuada por uma das raras aparições da trilha sonora de Thomas Newman.

Numa óbvia referencia ao nome do filme, a fotografia de Geoffrey Simpson, auxiliada pela direção de arte de Larry Fulton, adota clara preferência pela cor verde, notável através dos locais arborizados, do sofá do hospital e do telhado da casa de Idgie, entre outros objetos. A escolha também faz alusão à cor da “esperança”, afinal de contas, esperança era o que mais faltava a Evelyn, que reencontra a paixão pela vida após conhecer Ninny, assim como Ruth se renova ao lado de Idgie. Entre o assassinato de Bennett e o julgamento de Idgie, o longa passa a ter o predomínio de cores escuras e cenas noturnas, refletindo a amargura daquelas pessoas, que só seria aliviada com a decisão do juiz, baseada na surpreendente ajuda do reverendo. Vale destacar também os figurinos de Elizabeth McBride, que diferenciam bem a época atual, com as roupas coloridas de Evelyn, da época de Ruth e Idgie, com os vestidos impecáveis das mulheres (com exceção de Idgie) e as roupas engomadas dos homens que recriam os anos 20 com muita precisão.

Certamente um dos destaques do longa, o roteiro escrito por Fannie Flagg e Carol Sobieski, baseado em livro de Fannie Flagg, demonstra coragem não apenas por abordar uma relação tão íntima entre duas mulheres, mas porque não maquia o repugnante preconceito que imperava na época, quando a sociedade tratava os negros como meros criados destinados a servi-los da melhor maneira. Além disso, a estrutura narrativa de “Tomates Verdes Fritos” abusa dos flashbacks, que neste caso funcionam bem, por causa da narração envolvente de Tandy e da dinâmica montagem de Debra Neil-Fisher, que alterna entre passado e presente num ritmo delicioso. E se claramente há um corajoso subtexto homossexual na amizade entre Ruth e Idgie, o longa jamais responde abertamente a questão (o que é coerente com o período em que a história se passa, quando o preconceito estava ainda mais arraigado nas pessoas), preferindo indicar sutilmente o sentimento que ambas nutriam através de pequenos gestos, como quando Ruth diz para Idgie que aquele tinha sido o melhor aniversário de sua vida e dá um beijo na amiga. Muitos anos mais tarde, diante de um júri e da sociedade local, ela declararia que Idgie era sua melhor amiga e que a amava. Já Idgie era mais espontânea, não hesitando, por exemplo, em arrancar Ruth das mãos de seu violento marido, chegando a ameaçá-lo de morte. Obviamente, a excelente atuação de Parker e Masterson é vital para o sucesso daquela relação e ambas se saem muito bem, apresentando uma excelente química (destaque para a cena em que elas brincam com comida, com clara conotação sexual). Exatamente por isso, quando vemos Ruth se preparando para a morte e Idgie, emocionada, repetindo a história do lago que foi parar na Georgia, é muito difícil conter as lagrimas, exatamente por acreditarmos no amor verdadeiro que elas sentiam. O espectador sabe que Idgie está perdendo mais que uma amiga naquele momento, está perdendo a pessoa mais importante da vida dela. E até mesmo o plano distante de Avnet demonstra profundo respeito pelo momento, como se o diretor estivesse observando de longe aquela triste despedida, refletida até mesmo na fotografia obscura da cena. Parker se destaca ainda na cena em que conta sobre as orações que de nada adiantaram para salvar sua mãe, transmitindo com exatidão a aflição que Ruth sentia por não ter reagido como deveria, provocando também a mudança de Evelyn, que em seguida reage às provocações de duas mulheres num estacionamento. A partir deste momento, Evelyn passa a pensar mais nela e menos no marido, começando a cuidar da saúde e a mudar tudo que lhe desagrada, como a parede do quarto que inibe a passagem dos raios solares.

E já que citei Evelyn, é preciso ressaltar que, assim como Parker e Masterson, Tandy e Bates também estabelecem uma excelente conexão em suas deliciosas conversas, com destaque para o emocionante diálogo sobre a menopausa e sobre o filho de Ninny, onde o talento das duas atrizes salta aos olhos da platéia – repare a emoção de Tandy ao relembrar o filho que se foi e sua comovente alegria ao imaginar que em breve, de acordo com sua fé, poderá reencontrá-lo. Kathy Bates está absolutamente divertida como Evelyn, mudando gradualmente seu comportamento durante o longa, atingindo o ápice quando reage às provocações num estacionamento e, em seguida, entra empolgada no hospital, colocando pra fora todos os anos de repressão e angústia. É gritante a diferença desta Evelyn para a mulher que seguia cegamente as dicas do curso para esposas, se enrolando em papel para surpreender o marido, numa cena tragicamente engraçada, que expõe o quanto aquela relação estava deteriorada – algo que fica evidente também quando o marido sequer lhe dá atenção, preferindo assistir qualquer jogo que estiver passando na televisão. Aliás, até mesmo a forma física do casal evidencia que a preocupação em agradar ao outro já ficou no passado faz tempo. Mas a grande mudança na vida de Evelyn estava por vir – e o olhar dela para o café, sentindo o sopro do vento e imaginando o barulho do trem logo no início do filme, já indicava a importância que aquele local teria em sua vida, sem que ela jamais necessitasse pisar dentro dele. E o agente motivador desta mudança é Ninny, interpretada por Jessica Tandy, que está ainda mais encantadora que de costume na pele da senhora cheia de paixão pela vida, que renova o espírito de Evelyn (e do espectador) com sua forma direta e otimista de olhar para quase todas as situações e desafios de nossa jornada. Por isso, quando vemos Ninny deprimida olhando para sua antiga casa, a tristeza é inevitável. Só que até este momento de fraqueza engrandece Ninny, ao mostrar que ela é vulnerável como qualquer um de nós, mas ainda assim sempre busca uma nova maneira de sorrir. E fechando o elenco, Nick Searcy tem uma atuação unidimensional como Frank Bennett, um homem que parece viver somente para atormentar a vida de Ruth. É claro que o fato da história ser contada por Ninny atenua este maniqueísmo do roteiro, pois claramente trata-se da visão dela sobre aquele homem.

Assim como a natureza da relação entre Ruth e Idgie, existem outras situações em “Tomates Verdes Fritos” que permitem diferentes interpretações. Não é o caso do assassinato de Bennett, que até mantém o suspense durante boa parte da narrativa, mas revela em seu terceiro o ato a verdadeira história, ilustrando como nem sempre as evidencias levam a verdade absoluta. É o caso, porém, da identidade de Idgie, uma destas situações em que cada espectador pode interpretar à sua maneira. Propositalmente, o roteiro nunca diz abertamente se Ninny era Idgie ou não, espalhando pela narrativa algumas situações que podem indicar Idgie como o passado distante de Ninny. Por exemplo, Ninny fala de momentos da vida de Ruth e Idgie que somente as duas poderiam saber, ela diz que gostava de Buddy quando ele sentia atração por Ruth (e claramente Idgie sentia ciúme do irmão) e, principalmente, o mel e o bilhete deixados no túmulo de Ruth sugerem que ela passou por ali após sair do hospital. Mas esta é apenas uma suposição, já que o longa prefere deixar as duas possibilidades em aberto, o que sempre é interessante, pois alimenta discussões.

A forte amizade, e por que não dizer amor, entre duas mulheres é o fio condutor da história de redescoberta de Evelyn, que através da vontade de viver de Ninny reencontra a própria felicidade. E se a alegria de Ninny contagia Evelyn, o otimismo de “Tomates Verdes Fritos” também contagia o espectador, que sai renovado diante de tanta vontade de viver e ser feliz.

Texto publicado em 26 de Dezembro de 2010 por Roberto Siqueira

Feliz Natal!

Desejo a todos um Feliz Natal! E para animar o dia:

PS: O vídeo só pode ser assistido no Youtube.

Texto publicado em 24 de Dezembro de 2010 por Roberto Siqueira

ROBIN HOOD – O PRÍNCIPE DOS LADRÕES (1991)

(Robin Hood: Prince of Thieves)

 

Videoteca do Beto #80

Dirigido por Kevin Reynolds.

Elenco: Kevin Costner, Morgan Freeman, Mary Elizabeth Mastrantonio, Christian Slater, Alan Rickman, Sean Connery, Geraldine McEwan, Brian Blessed, Nick Brimble, Soo Drouet, Daniel Newman, Daniel Peacock, Walter Sparrow, Michael Wincott e Michael McShane.

Roteiro: Pen Densham e John Watson, baseado em história de Pen Densham.

Produção: Pen Densham, Richard Barton Lewis e John Watson.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Aproveitando o embalo do sucesso do belo “Dança com Lobos”, Kevin Costner embarcou nesta aventura inspirada no mais famoso dos ladrões, aquele que roubava dos ricos para dar aos pobres. Só que o longa dirigido por Kevin Reynolds jamais apresenta um resultado próximo dos filmes que alçaram o ator/diretor à fama. Apesar de entreter, “Robin Hood, o príncipe dos ladrões” apresenta falhas que comprometem seu resultado, se escorando na força de seu personagem principal, no carisma de seu elenco e nas boas cenas de ação que sustentam esta despretensiosa aventura.

Após ser capturado nas cruzadas, Robin de Locksley (Kevin Costner) foge ao lado de Azeem (Morgan Freeman) e volta para a Inglaterra, onde encontra seu pai (Brian Blessed) morto e descobre os planos do xerife de Nottingham (Alan Rickman), que fará de tudo para que o rei Ricardo (Sean Connery) não volte ao trono. Após visitar sua amiga de infância Marian (Mary Elizabeth Mastrantonio), ele foge dos soldados do xerife liderados por Guy de Gisborne (Michael Wincott) e vai parar na temida floresta de Sherwood, onde encontrará João Pequeno (Nick Brimble), Will Scarlett (Christian Slater) e todos os foras-da-lei que serão liderados por ele na luta contra o xerife.

Apesar de seu início promissor, com a fuga de Robin e Azeem após serem capturados nas cruzadas, “Robin Hood, o príncipe dos ladrões” é um filme leve e despretensioso, que não deixa grandes reflexões e jamais faz um estudo mais profundo a respeito do homem que o inspirou, limitando-se a apresentar as aventuras de Robin e seu grupo nas florestas de Sherwood, balanceadas pelo tradicional romance com Lady Marian. Mas ainda que o tom leve domine a maior parte da narrativa, seu inicio é bastante sombrio e violento, com mãos de prisioneiros ingleses sendo arrancadas numa obscura prisão que reflete a dureza daquela vida. O forte contraste é notável já na chegada de Robin à Inglaterra, quando o visual agradável dá o tom leve e coerente com a lenda. Ainda assim, há espaço para o embate entre religiões que motivou a luta pela terra santa, um tema recorrente e interessante da narrativa, notável quando Robin diz que seu pai achava uma idiotice lutar nas cruzadas para impor sua crença à força ou quando Duncan (Walter Sparrow), após insultar os mouros, pergunta à Azeem a origem do nome dele. Escrito por Pen Densham e John Watson, baseado em história de Pen Densham, o roteiro de “Robin Hood” jamais se define como drama, comédia ou aventura, transitando entre os gêneros freqüentemente, mas, curiosamente, este “escorregão” acaba conferindo charme à narrativa (justamente por se tratar da encantadora lenda de Robin Hood), ao balancear os excelentes momentos de ação, como quando Robin e Azeem fogem para a floresta de Sherwood, com momentos bem humorados, como a chegada à casa de Lady Marian ou o próprio encontro entre Robin e aqueles que ele iria liderar num rio. Por outro lado, o maniqueísmo do longa é evidente, algo ilustrado até mesmo na direção de fotografia de Douglas Milsome, que busca apresentar a floresta de Sherwood constantemente iluminada, com os raios solares vazando as folhas das árvores, ao passo em que o castelo de Nottingham é freqüentemente filmado com pouca iluminação e predomínio das sombras, induzindo o espectador a simpatizar pelo “príncipe dos ladrões”. Mas nem tudo é perdido no roteiro de Densham e Watson, que apresenta, por exemplo, interessantes rimas narrativas, como a pergunta “ela vale a pena?” feita por Robin para Azeem, que refletirá no clímax da narrativa (e que inspirou parte da música tema do filme), ou quando Robin sai do banho e diz para Marian que “estava seguindo o conselho de uma donzela”. Finalmente, vale citar a referência a “O Feitiço de Áquila”, de Richard Donner, quando o frei entra no castelo e fala algo sobre as bebidas.

E se “Robin Hood” apresenta uma narrativa leve, Kevin Reynolds emprega uma direção enérgica, imprimindo um ritmo interessante à aventura, graças também à montagem ágil de Peter Boyle, que se destaca na seqüência final dentro do castelo de Nottingham e também na batalha de Sherwood, além da pequena seqüência de roubos na floresta, que mostra em poucos minutos o crescimento da lenda “Robin Hood”, e de um interessante raccord (corte), quando Mortianna fala para o xerife sobre uma aliança com sangue real e em seguida vemos Lady Marian. Mas este ritmo intenso da aventura não impede que o diretor indique com sutileza, por exemplo, que Will é irmão de Robin, ao focar rapidamente seu rosto após o irmão dizer pela primeira vez seu nome para os donos da floresta, assim como é sutil o momento em que as sombras na parede indicam que os soldados seguirão Duncan. Mas são nas curiosas câmeras que acompanham as flechas que o diretor consegue causar impacto, criando seqüências empolgantes nos treinamentos e um plano belíssimo em câmera lenta, quando Robin atira uma flecha de fogo e salva o irmão. Obviamente, o diretor não perde a oportunidade de explorar o potencial do então astro Kevin Costner para alavancar a bilheteria, abusando de closes e explorando os belos momentos vividos pelo herói e sua amada Marian, como quando o casal desce de uma árvore preso numa corda. Reynolds, no entanto, conduz com irregularidade a batalha na floresta, intercalando bons e maus momentos que culminam no suspense barato sobre a morte de Robin (todos sabem que ele não morreria daquela forma). Por outro lado, o longa apresenta um bom trabalho técnico, com destaque para a direção de arte de Fred Carter, que capricha nas armas dos soldados e nos castelos de Nottingham e Locksley, nos transportando para aquela época. Também colaboram os ótimos figurinos de John Bloomfield, a começar pela caracterização de Robin Hood (o visual foge ao tradicional, mas mantém o charme do “bom ladrão”) e Azeem, passando pelos camponeses e suas roupas rasgadas e chegando aos soldados de Nottingham, com suas impecáveis armaduras. E certamente o maior destaque da parte técnica é a sensacional trilha sonora de Michael Kamen, que alterna entre trechos empolgantes e melódicos, como a despedida de Robin e Marian à beira de um rio (num admirável plano de Reynolds) em que a trilha se funde à melodia da bela música tema “Everything I do (I do it for you)”, de Bryan Adams.

Infelizmente, o que deveria ser uma das grandes forças de “Robin Hood, o príncipe dos ladrões” acaba se revelando uma decepção, pois o talentoso elenco liderado por Kevin Costner e Morgan Freeman entrega atuações discretas, inferiores à capacidade da maioria deles. A começar por Costner, que escorrega ao falar o inglês norte-americano, obviamente contrariando a origem britânica do herói. Além disso, o ator não demonstra com realismo o sofrimento pela perda do pai, parecendo estar conformado quando deveria estar indignado. Por outro lado, confere um carisma enorme ao ladrão romântico, especialmente nos momentos de humor, como quando pergunta ao pequeno Wulf (Daniel Newman) se João Pequeno era o pai dele, imitando o sorriso sem graça do garoto em seguida, ou quando arranca um anel e um sorriso de uma bela princesa. Estabelecendo boa química com Freeman e Mastrantonio, principalmente nas seqüências vividas na floresta, Costner salva sua atuação em pequenos momentos dramáticos, como o discurso na floresta, quando Robin se proclama o líder dos “foras-da-lei”, ou quando demonstra o quanto ele está arrasado após a batalha de Sherwood – numa das poucas cenas onde o grande talento de Freeman também aparece, com a marcante frase “não existem homens perfeitos, somente intenções perfeitas”. Mas apesar da atuação apenas discreta, Morgan Freeman demonstra sua qualidade ao compor com cuidado o personagem, por exemplo, falando um inglês sofrível e coerente com a origem moura de Azeem, alguém mais tolerante à diversidade que todos os ingleses, como notamos quando frei Tuck (Michael McShane) se revolta ao vê-lo fazer um parto, que curiosamente serviria para aproximar os dois. Já Mary Elizabeth Mastrantonio tem um começo discreto como Lady Marian, se soltando durante a narrativa e conseguindo empatia com Costner, o que é vital para o sucesso da seqüência final, quando Robin luta por ela. Enquanto isso, o Will de Slater parece sempre tenso, um verdadeiro rebelde sem causa (e o ator tem culpa nisso, por causa de sua atuação exagerada), mas o ator se redime parcialmente no momento em que revela seu parentesco com Robin, conferindo emoção à cena – ainda assim, esta revelação soa forçada e dispensável. E fechando o lado do “bem”, quem também se destaca é Michael McShane como frei Tuck, personificando o tom leve que Reynolds emprega a narrativa através de suas constantes piadas. No lado obscuro da trama, a Mortianna de Geraldine McEwan é a típica bruxa asquerosa – e seu visual horrível é reforçado por ratos, sapos, cobras e tudo que é repugnante, provocando a antipatia do espectador. Sempre que está em cena, Mortianna é envolvida por um visual obscuro, reforçando a tendência de apresentá-la como o “mau” a ser enfrentado, o que reflete também no personagem de Alan Rickman, o terrível xerife de Nottingham. Por outro lado, Rickman, com sua atuação exagerada, confere uma graça ao personagem que trabalha a favor do clima descontraído do longa, mas claramente enfraquece o vilão diante do espectador, apesar do chocante momento em que mata o próprio primo Guy no castelo. Aliás, com sua voz rouca e olhar firme, Michael Wincott faz de seu Guy de Gisborne um vilão até mesmo mais aterrorizante que o xerife de Nottingham.

Após a humilhante derrota sofrida em seu próprio território, Robin e seus amigos decidem evitar a tragédia completa e impedir o enforcamento de seus companheiros no castelo de Nottingham. Tem início então a melhor seqüência do filme, a sensacional cena do enforcamento, conduzida num ritmo intenso por Reynolds. Quando rufam os tambores e o carrasco escolhe Wulf para iniciar a cerimônia, o espectador, agoniado, conta com a mira de Robin, que tenta cortar a corda e acerta na segunda tentativa – e após ver as diversas proezas do herói com o arco e flecha, é normal que o espectador conte com seu sucesso na cena. Vale notar ainda como momentos antes a câmera focaliza duas vezes o barril, indicando sua importância na estratégia de Robin e sua equipe. Mas nem mesmo esta cena é perfeita, pois é totalmente incompreensível a provocação de Will quando Wulf é levado à forca – seria mais coerente ele ficar na dele, sem chamar a atenção. Após esta empolgante seqüência, o esperado duelo final entre o vilão e o mocinho resulta na morte do xerife, atingido pela faca que ele deu de presente para Marian (olha a rima narrativa aí), só que Rickman novamente exagera, se contorcendo e fazendo caretas até finalmente agonizar. O final feliz, com a chegada do rei Ricardo (Connery, em participação descartável), agrada ao espectador, mas deixa a sensação de que “Robin Hood, o príncipe dos ladrões” tinha potencial para oferecer mais.

Em resumo, “Robin Hood – O Príncipe dos Ladrões” diverte, mas não vai além. Kevin Reynolds até apresenta cenas interessantes, Kevin Costner confere charme ao herói, Freeman e Mastrantonio estabelecem boa química com o astro, mas infelizmente o longa não passa de uma diversão sem compromisso. Talvez Reynolds tivesse a melhor das intenções ao juntar um ótimo elenco para contar a lendária história de Robin Hood. Mas, nas palavras de Azeem, “não existem homens perfeitos, somente intenções perfeitas”.

Texto publicado em 23 de Dezembro de 2010 por Roberto Siqueira

O SILÊNCIO DOS INOCENTES (1991)

(The Silence of the Lambs)

 

Videoteca do Beto #79

Vencedores do Oscar #1991

Dirigido por Jonathan Demme.

Elenco: Anthony Hopkins, Jodie Foster, Lawrence A. Bonney, Kasi Lemmons, Lawrence T. Wrentz, Scott Glenn, Anthony Heald, Frankie Faison, Stuart Rudin, Leib Lensky, Brooke Smith, Ted Levine, Pat McNamara, Kenneth Utt, Diane Baker, Don Butlen e Masha Skorobogatov.

Roteiro: Ted Tally, baseado em livro de Thomas Harris.

Produção: Kristi Zea.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Na cerimônia do Oscar de 1992, um filme surpreendeu a todos e levou os cinco principais prêmios da noite. Era “O Silêncio dos Inocentes”, excelente terror psicológico dirigido pelo versátil Jonathan Demme e estrelado com brilhantismo por Jodie Foster e Anthony Hopkins, que com sua atmosfera tensa, suga o espectador de maneira intensa e entrega uma narrativa maravilhosa, capaz de provocar frio na espinha de qualquer um, sem jamais apelar para imagens chocantes ou altos acordes da trilha sonora. É a história e, principalmente, os personagens que constroem o clima perfeito de suspense.

Clarice Starling (Jodie Foster) é escolhida para investigar uma série de assassinatos cometidos por um criminoso conhecido como “Buffalo Bill” (Ted Levine), que costuma arrancar a pele de suas vítimas – normalmente, mulheres acima do peso. Para entender sua conturbada mente, Clarice procura conversar com um perigoso psicopata conhecido como Hannibal Lecter (Anthony Hopkins), que está preso sob a acusação de canibalismo.

Um dos aspectos marcantes de “O Silêncio dos Inocentes” é, sem dúvida alguma, a sua atmosfera sombria, repleta de tensão em cada minuto de projeção. Na maior parte do tempo o espectador se sente aflito, ameaçado e incomodado, como se algo de ruim estivesse sempre prestes a acontecer. Mas ao contrário da maioria dos suspenses, o longa não apela para sustos artificiais, conseguindo criar seu clima aterrorizante somente através da excelente narrativa, recheada de grandes atuações, além é claro do bom trabalho técnico. A começar pela fotografia sombria de Colleen Atwood, que utiliza cores frias e pouca iluminação em diversos ambientes para criar, com o auxilio da igualmente sombria trilha sonora de Howard Shore, toda esta atmosfera carregada. Obviamente, o intrigante roteiro escrito por Ted Tally, baseado em livro de Thomas Harris, é o principal responsável pela construção deste clima, fazendo com que o espectador se sinta completamente envolvido pela investigação comandada por Clarice. Além disso, Tally foge de clichês básicos dos filmes de “serial killer”, por exemplo, ao revelar o assassino com apenas 30 minutos de filme, mostrando que a narrativa não se concentrará na descoberta do criminoso. É a dinâmica entre Clarice e Lecter que conduzirá a trama, muito mais do que a própria caçada ao assassino. Outro segredo do excelente roteiro é a simplicidade aliada à eficiência, ou seja, a ausência de explicações mirabolantes para os assassinatos. Bill age naturalmente, começando sua coleção de vítimas com uma vizinha – nas palavras de Clarice, “alguém que ele conhecia”. Finalmente, a narrativa apresenta ainda uma série de simbolismos interessantes, como a inteligente explicação para o nome do filme, revelando o trauma de infância de Clarice ao fugir do local onde os cordeiros (“lambs”, em inglês) eram sacrificados – ela mal podia dormir com os gritos dos cordeiros. Outro simbolismo evidente e interessante é a utilização das mariposas, que representam a tão desejada transformação de Bill numa mulher. Note como este pequeno detalhe é vital para a narrativa, pois será justamente uma mariposa voando pela casa que confirmará para Clarice que ele é o assassino, até porque aquelas mariposas não existem nos Estados Unidos (elas eram importadas).

Além das notáveis qualidades do roteiro, “O Silêncio dos Inocentes” conta também com excelentes atuações. Na realidade, o longa é um legítimo “filme de atores”, praticamente carregado pelo magnetismo da performance de sua dupla principal. Como citado, a dinâmica entre Clarice e Lecter é o fio condutor da narrativa, e felizmente, Foster e Hopkins oferecem atuações espetaculares. A atriz, sempre expressiva e com olhar penetrante, transmite segurança nos momentos necessários, como quando se mostra durona ao abrir uma porta emperrada sozinha e entrar num galpão abandonado, mostrando que era capacitada para conduzir aquela perigosa investigação. Mas é nas conversas com Lecter que Foster se destaca, estabelecendo uma conexão impressionante com Hopkins, algo reforçado até mesmo pelos constantes closes de Jonathan Demme. A atriz é competente ainda ao demonstrar com sensibilidade o trauma que perturba Clarice quando fala sobre a morte de seu pai, num diálogo eletrizante que lhe garante algumas dicas a respeito de Buffalo Bill. Finalmente, Foster demonstra bem o choque e o incômodo de Clarice ao ver o estrago na moça encontrada no rio, transmitindo também angústia e pena através do olhar. Criando o contraponto ideal para a excelente atuação de Foster, Anthony Hopkins está sensacional como Hannibal Lecter, praticamente hipnotizando o espectador com seu olhar penetrante, sua voz calma e sua inteligência. Lecter é praticamente um “gentleman”, mostrando-se educado e gentil, por exemplo, quando oferece uma toalha para Clarice se secar após chegar molhada pela chuva e, em seguida, ao perguntar sobre a ferida dela. Quando Miggs (Stuart Rudin) diz algo ofensivo para a agente, ele se mostra claramente incomodado, o que servirá para que Lecter revele sua faceta extremamente letal, ao provocar a morte do presidiário somente através de palavras sussurradas durante a noite. Personagem fantástico e fascinante, Lecter consegue conquistar a platéia, ainda que seja um assassino cruel, muito por causa da excepcional atuação de Hopkins. Entretanto, por mais educado e polido que seja, é inegável que a imagem de Hannibal com a focinheira é simplesmente aterrorizante. Aterrorizante também está Ted Levine como Buffalo Bill, compondo um homem imprevisível e assustador, capaz de “cuidar” durante semanas de suas vítimas, até que elas percam peso suficiente para que ele lhes retire a pele. Sua personalidade conturbada é ilustrada através de sua casa, repleta de objetos espalhados por todas as partes. Por outro lado, sua natureza meticulosa fica evidente somente pelo fato de criar mariposas, certamente uma atividade que exige paciência e tempo. Assassino frio e calculista, Bill era capaz de esperar o tempo que fosse necessário para conseguir o que queria de suas vítimas. Finalmente, Scott Glenn tem uma atuação discreta como o chefe de Clarice, Jack Crawford, e Brooke Smith está ótima como Catherine, a filha da senadora seqüestrada por Bill, com destaque para a cena em que vê as marcas de unhas e sangue na parede do poço e se desespera.

Extraindo o melhor do elenco afinado que tinha nas mãos, Jonathan Demme é competente também na composição de planos simbólicos, como o primeiro plano do longa, quando Clarice surge pequena em meio às árvores e se agiganta na tela, numa alusão interessante à própria história que será narrada, em que a estagiária se agigantará durante a investigação. Em seguida, o diretor emprega um plano-seqüência que acompanha desde o treinamento de Clarice até sua entrada na sala de Crawford, nos levando junto com a agente e começando a estabelecer empatia entre ela e o espectador. E apesar de evitar abusar de imagens chocantes, o diretor apresenta o resultado nada agradável dos ataques de Bill através de fotos coladas nas paredes com as vítimas de “Bill Skin”, estabelecendo desde então o perigo daquela investigação. Mas é na chegada de Clarice ao local onde Lecter está preso que o excelente trabalho do diretor fica evidente. Após nos levar por um extenso e intimidante caminho, repleto de grades que impedem o acesso ao local, finalmente chegamos ao corredor onde os piores criminosos imagináveis se encontram. Mas para nossa surpresa, Demme contraria todas as nossas expectativas ao apresentar um verdadeiro “gentleman” ao invés do animal que estávamos esperando. Auxiliado pela excepcional direção de arte de Tim Galvin, o diretor cria o contraste perfeito entre as celas asquerosas dos outros presos e o ambiente limpo do “doutor” Lecter. Por outro lado, o vidro que garante este visual mais “requintado” também serve para demonstrar o perigo que aquele homem representa, num sistema de proteção ainda mais eficiente que as tradicionais grades. Durante a primeira conversa da dupla, Demme utiliza constantemente o close nos olhos de Foster e Hopkins, criando uma conexão entre eles, que será vital para o futuro da narrativa. O close voltaria a ser utilizado com freqüência posteriormente, fazendo com que o espectador se sinta próximos dos personagens e praticamente entre em seus pensamentos.

Como em todo bom suspense, “O Silêncio dos Inocentes” tem uma coleção de cenas arrepiantes. Mas a principal delas certamente é a extraordinária revelação do truque de Hannibal Lecter, após a tensa seqüência em que os policiais aguardam a descida de um elevador. Quando o psicopata se levanta e tira a pele do rosto, atacando o enfermeiro que o acompanhava na ambulância, o choque é inevitável. Demme conduz a cena com perfeição, auxiliado pela montagem de Craig McKay, que alterna entre o tenso momento em que os policiais cercam o elevador por todos os lados e a surpreendente seqüência na ambulância. A montagem de McKay, aliás, é outro aspecto relevante do longa, destacando-se especialmente na invasão da casa de Bill, quando somos completamente enganados somente por causa da decupagem da cena. Observe como a alternância entre os planos que mostram a preparação dos policiais e aquele com a campainha tocando nos dá a sensação de que o FBI estava invadindo a casa correta, quando na realidade era Clarice quem estava certa. Momentos antes, Demme indica sutilmente que isto irá acontecer através de um travelling que vai do rio até a casa de “Bill”, indicando o local onde a primeira vítima (encontrada por último, por causa dos pesos que ele amarrou nela) foi jogada, bem perto da casa dele. Novamente a simplicidade é a chave do sucesso da narrativa. O tenso final é a cereja do bolo, em outra cena bem conduzida pelo diretor, que utiliza uma câmera subjetiva para nos colocar sob a visão de Clarice e depois, já no escuro, nos coloca sob o ponto de vista de Buffalo Bill, com seu aparelho de visão noturna. O som do gatilho salva a agente do FBI e finalmente silencia os cordeiros, respondendo a brilhante pergunta de Hannibal Lecter, feita por telefone nos segundos finais do filme.

Com um roteiro sensacional, um elenco competente e muita habilidade na condução da narrativa, “O Silêncio dos Inocentes” se estabelece como um suspense acima de média, intenso e eletrizante. Além disso, apresentou ao mundo um dos mais icônicos personagens do cinema, o psicopata brilhantemente interpretado por Anthony Hopkins, que inspirou novos filmes e marcou toda uma geração. Se os cordeiros de Clarice silenciaram, os nossos estavam apenas começando a gritar.

Texto publicado em 21 de Dezembro de 2010 por Roberto Siqueira

O EXTERMINADOR DO FUTURO 2: O JULGAMENTO FINAL (1991)

(Terminator 2: Judgement Day)

 

Videoteca do Beto #78

Dirigido por James Cameron.

Elenco: Arnold Schwarzenegger, Linda Hamilton, Edward Furlong, Robert Patrick, Earl Boen, Joe Morton, S. Epatha Merkeson, Castulo Guerra, Danny Cooksey, Jenette Goldstein, Xander Berkeley, Ken Gibbel e Leslie Hamilton Gearren.

Roteiro: James Cameron e William Wisher Jr.

Produção: James Cameron.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Normalmente, seqüências de filmes de sucesso apresentam narrativas inferiores aos antecessores, dando a sensação de que foram feitas somente para lucrar nas bilheterias, aproveitando o embalo do sucesso anterior. Obviamente, existem exceções, como “De Volta para o Futuro 2” ou “O Poderoso Chefão – Parte II”, considerados filmes superiores aos antecessores por muita gente – o que eu não concordo. Para mim, é justamente na franquia “O Exterminador do Futuro” que esta situação acontece. Revertendo nossas expectativas iniciais e apresentando cenas ainda mais empolgantes de ação, baseadas num roteiro inteligente e bastante criativo, “O Exterminador do Futuro 2” se estabelece como o melhor filme da série, um verdadeiro marco do cinema de ação dos anos 90.

Sarah Connor (Linda Hamilton) está internada num hospital psiquiátrico após ser considerada louca por falar da vinda de um exterminador do futuro. Seu filho, John Connor (Edward Furlong), é criado por pais adotivos e, segundo ela, será o responsável pela salvação da humanidade num futuro dominado pelas máquinas. Para a surpresa de todos, as palavras de Sarah se mostram verdadeiras quando os andróides T-800 (Arnold Schwarzenegger) e T-1000 (Robert Patrick) chegam do futuro e partem em busca do jovem John com intenções distintas.

Escrito por James Cameron e William Wisher Jr., “O Exterminador do Futuro 2” suga o espectador pra dentro da narrativa logo em sua introdução, relembrando fatos acontecidos no passado e nos situando na história. Repleto de frases interessantes, como quando T-800 vê duas crianças brincando de trocar tiros e diz que “É da natureza de vocês se destruírem” ou quando Sarah diz para Miles (Joe Morton) que “homens como você fizeram a bomba de hidrogênio”, a principal qualidade do roteiro reside em inverter completamente nossas expectativas ao apresentar o vilão do filme anterior como herói neste segundo filme, algo, aliás, trabalhado cuidadosamente por Cameron para provocar surpresa no espectador. O roteiro ainda desenvolve muito bem os complexos personagens, conseguindo criar uma relação crível entre o andróide e o garoto, além de evidenciar o peso que Sarah carrega por saber da importância que ela e o filho têm na tentativa de evitar um futuro sombrio, dominado pelas máquinas. A frieza daquele mundo visto no primeiro filme, aliás, é mantida pela fotografia azulada de Adam Greenberg nesta seqüência. Por outro lado, Greenberg utiliza cores mais quentes no presente e até mesmo um visual árido no deserto mexicano, que ilustra um futuro tão incerto quanto o daquelas pessoas perdidas em vastos terrenos sem vida. O futuro incerto, aliás, é o tema da franquia, que garante (pelo menos até este segundo filme) que nós escrevemos o próprio destino. A fotografia azulada volta no terceiro ato, reforçando o embate entre os frios exterminadores, mas dá lugar a um visual mais infernal no desfecho da luta entre ambos, que confere ares apocalípticos ao confronto.

Destaca-se ainda o excepcional trabalho de som e efeitos sonoros, perceptível nas diversas e sensacionais cenas de ação, além dos inovadores efeitos visuais do longa, desenvolvidos por diversos estúdios diferentes (Industrial Light & Magic, Pacific Data Images, Fantasy II Film Effects, 4-Ward Productions e Stan Winston Studio) e que garantem um realismo ímpar para a época. Novamente, Cameron soube utilizar a tecnologia a favor da narrativa, evitando cair na armadilha de tornar-se refém dos efeitos visuais, algo tão comum atualmente. Pra completar o excelente trabalho técnico, a trilha sonora de Brad Fiedel é ótima, intensa e com variações bastante sombrias. Vale notar ainda como a energia da música tema “You could be mine”, do Guns n’ Roses (na época no auge da carreira), representa bem a rebeldia de John Connor, um jovem claramente perturbado por viver longe dos pais biológicos. Não por acaso, os primeiros minutos de John em cena apresentam o rapaz utilizando um cartão roubado e um programa de computador para sacar dinheiro, falando mal de sua mãe e andando de moto com seu amigo pelas ruas da cidade, reforçando a imagem de “bad boy”. Não é fácil para um jovem ver sua mãe internada num hospício e ser criado por pais adotivos que não demonstram amor por ele.

Interpretado com carisma pelo jovem Edward Furlong, John Connor se esconde sob esta capa de rebeldia, mas claramente se sente desprotegido diante de um mundo hostil e cruel, algo agravado pela conturbada relação com os pais adotivos e pela “loucura” de sua mãe biológica. Até por isso, é compreensível que o jovem encontre no exterminador a figura paterna que tanto lhe faz falta, como notamos na bela cena em que eles brincam no deserto mexicano (reforçada pela desnecessária narração de Sarah). Felizmente, Furlong estabelece boa química com Schwarzenegger, o que é essencial para o sucesso da narrativa. Essencial também é o excelente desempenho de Linda Hamilton, novamente muito bem como Sarah Connor, uma mulher amargurada pelo peso do passado e pela responsabilidade que carrega nos ombros. A atriz se destaca especialmente na excepcional cena da conversa com o psiquiatra que aparece num vídeo gravado, onde transmite toda a amargura e revolta da personagem. Já Robert Patrick cria um vilão aterrorizante através de sua face desprovida de sentimentos e emoções, dando a sensação de que nada poderá deter o seu T-1000. Obstinado e sempre buscando cumprir sua missão, o vilão é a personificação do pior dos pesadelos, alguém que jamais dorme ou descansa, que não sente dor e que se recompõe em questão de segundos, graças ao metal líquido que constitui sua matéria-prima. Ao contrário dele, o exterminador vivido por Arnold Schwarzenegger desenvolve sentimentos ao longo da narrativa, estabelecendo uma interessante relação com John – ele chega a criar um código de ética próprio por causa do garoto, indo diretamente contra sua natureza exterminadora (“Ele viverá”, diz, após atirar nas pernas de um segurança, evitando matá-lo). Aliás, como afirmei na crítica do primeiro filme, o papel do exterminador é perfeito para Schwarzenegger, que encarna muito bem o homem-máquina com seu jeito durão e de poucas palavras, saindo-se bem também nas constantes piadinhas que solta durante a projeção.

Demonstrando completo domínio da narrativa e muita energia na condução das cenas de ação, James Cameron conduz o longa com segurança e em bom ritmo, graças também à montagem de Conrad Buff IV, Dody Dorn, Mark Goldblatt e Richard A. Harris. Observe, por exemplo, como o diretor cria o clima ideal para o encontro entre os exterminadores, sem jamais deixar transparecer as intenções de cada um na busca por John Connor. Momentos antes do primeiro encontro, quando o dono do bar ameaça o exterminador, o plano do pedal da moto descendo indica ao espectador que aquela atitude foi equivocada e custará caro, reforçando a imagem pré-concebida de que T-800 é cruel, algo ilustrado também pela roupa preta e pelos óculos escuros do andróide (figurinos de Marlene Stewart), que ajudam a criar a falsa expectativa de que ele ainda é o vilão. Por isso, no sensacional primeiro encontro entre T-800, T-1000 e John Connor, a câmera lenta de Cameron, além de captar com precisão cada reação, faz o espectador ficar com o coração na boca até o momento em que nossas expectativas são invertidas e T-800 se revela o “protetor” de Connor, provocando o choque na platéia – repare também a referência à banda responsável pela música tema do filme, quando Cameron foca a arma e as rosas no mesmo plano.

Felizmente, as ótimas cenas de ação de “O Exterminador do Futuro 2” não são a razão de existir do longa, servindo apenas como complemento para uma narrativa bem desenvolvida. E entre tantas cenas marcantes, destaca-se a perseguição do T-1000 num caminhão enquanto John foge numa moto e o exterminador persegue ambos em outra moto, onde a alternância entre os planos confere uma dinâmica interessante à cena, e a seqüência da fuga da Cybernet, que também é carregada de adrenalina. Já a tensa seqüência dentro do hospital psiquiátrico é construída lentamente, nos levando até o magnífico reencontro entre T-800 e Sarah, também conduzido em câmera lenta e seguido pela excepcional fuga do trio num carro em marcha ré. Observe como o som diegético trabalha a favor da cena, colaborando na criação do suspense, intensificado pelas realistas mortes durante a fuga de Sarah, em outro momento inspirado de Hamilton, que demonstra força também nas cenas mais agressivas. E finalmente, o esperado confronto entre os exterminadores fecha com chave de ouro as grandes cenas de ação, quando o tiro certeiro de Sarah encerra a passagem de T-1000 pelo passado – e a triste despedida de T-800, com o polegar levantado para John, chega até mesmo a emocionar, por causa da bela relação que eles desenvolveram.

Misturando aspectos de filmes de terror e uma inteligente premissa de ficção-científica, “O Exterminador do Futuro 2” se estabelece como um filme superior ao seu antecessor, utilizando suas empolgantes cenas de ação como complemento para uma narrativa inteligente, que desenvolve personagens complexos e cativantes e deixa uma interessante mensagem. Se nós somos os únicos responsáveis pelo nosso destino, Cameron assegurou o futuro dele no cinema, acertando novamente na escolha e entregando outro filme maravilhoso.

Texto publicado em 19 de Dezembro de 2010 por Roberto Siqueira

JFK – A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR (1991)

(JFK)

 

 

Videoteca do Beto #77

Dirigido por Oliver Stone.

Elenco: Kevin Costner, Tommy Lee Jones, Joe Pesci, Sissy Spacek, Laurie Metcalf, Gary Oldman, Kevin Bacon, Beata Pozniak, Donald Sutherland, Jack Lemmon, Walter Matthau, Vincent D’Onofrio, Martin Sheen, Michael Rooker, Jay O. Sanders, Brian Doyle-Murray, Gary Grubbs, Wayne Knight, Jo Anderson, Pruitt Taylor Vince, Sally Kirkland, Steve Reed, Jodie Farber, Columbia Dubose, Randy Means, Gary Carter, John Candy, Lolita Davidovich, Dale Dye, Ron Rifkin e Jim Morrison.

Roteiro: Oliver Stone e Zachary Sklar, baseado nos livros de Jim Marrs e Jim Garrison.

Produção: A. Kitman Ho e Oliver Stone.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Oliver Stone é um diretor polêmico, capaz de tocar na ferida provocada pela guerra do Vietnã como poucos (“Platoon” e “Nascido em 4 de Julho”), de criticar o sensacionalismo da imprensa (“Assassinos por Natureza”) e de mostrar o mundo obscuro dos negócios (“Wall Street – Poder e Cobiça”). Mas apesar de sua conhecida coragem, nunca o diretor foi tão polêmico (e proporcionalmente competente) como em “JFK – A pergunta que não quer calar”, filme que escancarou para o mundo a até hoje mal explicada solução dada para o assassinato de John Kennedy pela comissão Warren. Com um elenco numeroso e afinado e muita competência na organização de uma narrativa complexa, Stone entregou uma verdadeira obra-prima do cinema, que se não prova definitivamente a existência de uma conspiração, chega muito perto disto.

O promotor Jim Garrison (Kevin Costner) decide liderar uma investigação extra-oficial para o assassinato do presidente John F. Kennedy na tentativa de provar a existência de uma gigantesca conspiração, contrariando a conclusão da comissão Warren, que afirma ser Lee Harvey Oswald (Gary Oldman) o único responsável pelo crime.

Escrito por Oliver Stone e Zachary Sklar, baseado nos livros de Jim Marrs e Jim Garrison (olha ele aqui), “JFK” apresenta uma narrativa incrivelmente complexa, que consegue manter a atenção do espectador em cada minuto de projeção. O intrincado roteiro, repleto de informações e diálogos ágeis, além de flashbacks acompanhados de imagens que ilustram o raciocínio dos personagens, apresenta uma gama enorme de personagens numa seqüência estruturada com perfeição para que o espectador não se perca diante de tamanha complexidade. Este impressionante número de personagens importantes que cruzam a narrativa serve também para reconstituir com precisão o complicado processo de investigação daquele dia trágico, sempre sob a liderança do centrado (porém inquieto) Jim Garrison. Toda a investigação, aliás, é conduzida num ritmo intenso, que leva o espectador junto na jornada, como se estivéssemos fazendo parte daquele processo ao lado da equipe de Garrison. E a base de todo o trabalho do promotor aparece logo na introdução do filme, num vídeo com imagens de arquivo que mostra John Kennedy declarando suas idéias sobre a guerra do Vietnã, sua pretensão de retirar as tropas norte-americanas da região, sua proposta de “mudança” no olhar para a União Soviética e sua intenção de mudar no conceito de paz, “diferente daquela paz imposta pelos Estados Unidos ao mundo através da força”. Não por acaso, logo após a morte de Kennedy, o novo presidente decide manter as tropas no Vietnã. E se este fato pode até ser questionado por aqueles que acreditam no “único culpado” Lee Oswald, a simulação no prédio, quando Garrison tenta reproduzir os tiros de Oswald com o mesmo rifle, prova definitivamente que a teoria da comissão Warren é, no mínimo, questionável.

É importante ressaltar, no entanto, que “JFK” não se resume às polêmicas que cercam sua obstinada investigação. O longa de Oliver Stone é, acima de tudo, um trabalho cinematográfico excepcional, que se destaca especialmente na direção de Stone, na montagem de Joe Hutshing e Pietro Scalia e na direção de fotografia de Robert Richardson. Stone conduz a narrativa com incrível habilidade, com sua câmera inquieta que auxilia no clima de urgência da narrativa, mas conta especialmente com a fantástica montagem de Hutshing e Scalia, que emprega um ritmo intenso, alternando com velocidade entre o presente, quando Garrison conduz a investigação, e o passado, quando as cenas revivem o fatídico dia, e, ao mesmo tempo, ilustram o pensamento dos personagens no presente. Na precisa reconstituição do assassinato, merece destaque também o som, com os gritos e tiros que dão a exata noção do pânico daquele momento, ampliado pela tensa trilha sonora de John Williams. Já a fotografia de Richardson utiliza diversas câmeras (incluindo câmeras de 16 mm e Super 8), indo do visual sépia para o preto-e-branco, e até mesmo utilizando imagens de arquivo para reforçar toda a teoria que inspira o longa. Stone chega a introduzir um vídeo chocante, com a imagem do exato momento em que Kennedy é atingido, numa imagem capaz de perturbar qualquer um.  Aliás, a longa e sensacional seqüência em que Garrison explica a “teoria da bala mágica” nocauteia o espectador, também por causa do excelente desempenho de Kevin Costner, que transmite muita confiança e emoção enquanto fala, provando sua qualidade como ator. Não sei se todas as pessoas e instituições citadas estavam envolvidas naquele assassinato, mas após esta explicação emocionada de Garrison, o vídeo e a informação de que os arquivos estão proibidos para o público até 2029 é muito difícil não concordar que realmente houve uma conspiração.

E já que citei Kevin Costner, vale dizer que todo este incrível trabalho técnico de nada adiantaria se as atuações de “JFK” não fossem tão competentes. A começar pelo próprio Costner, que encarna muito bem o tranqüilo Jim Garrison, numa atuação convincente e coerente com a personalidade do promotor, que lentamente altera seu comportamento, se tornando uma pessoa atormentada diante de suas descobertas, que influenciam até mesmo sua relação com a esposa Liz (Sissy Spacek, também em grande atuação), algo ilustrando perfeitamente quando ele perde o domingo de páscoa com a família para interrogar Clay Shaw (Tommy Lee Jones). A dinâmica do casal é fundamental para compreender os efeitos daquela investigação na vida do promotor, ilustrados na excepcional cena em que Jim e Liz discutem na frente dos filhos e, com seus gritos e vozes embargadas, demonstram a situação quase insustentável daquela relação – e aqui vale observar como Costner demonstra até mesmo certo desconforto por estar diante dos filhos, procurando abraçá-los imediatamente após o fim da discussão. O ator volta a se destacar ainda quando seu olhar mistura incredulidade e passividade diante da matéria da imprensa que busca destruir sua imagem diante da sociedade (algo que de fato aconteceu, pois até hoje muita gente afirma que Garrison buscava se promover ao se envolver em casos polêmicos, revelando um pensamento que certamente interessa às pessoas e instituições atingidas pela investigação dele). Ironicamente, sua própria esposa o acusa de estar fazendo o mesmo com a imagem de Clay Shaw, interpretado brilhantemente por Tommy Lee Jones, que transmite muito cinismo, especialmente quando é interrogado por Garrison, provocando a explosão do promotor, num diálogo tenso e muito bem construído. E o que dizer de Joe Pesci, novamente espetacular, fumando muitos cigarros e transmitindo com perfeição a inquietação de David Ferrie? Seu nervosismo fica ainda mais evidente quando ele vai ao encontro de Garrison, amedrontado com a descoberta da imprensa sobre as investigações, quando Pesci olha para todos os lados, abre as portas com desconfiança e se assusta quando alguém bate na porta, mostrando claramente o quanto Ferrie está perturbado – algo ilustrado também pela câmera agitada de Stone e pela trilha sonora acelerada. Seu desespero resulta na revelação das intenções da CIA e dos exilados cubanos, revoltados com a postura de Kennedy diante do fracasso da invasão da “baía dos porcos”. Já Kevin Bacon está excelente em sua pequena participação como Willie O’Keefe, o prisioneiro homossexual interrogado por Garrison, demonstrando através da fala rápida e do olhar agitado a inquietação do personagem. E finalmente, toda a equipe de Garrison mantém o bom nível das atuações, com destaque para Laurie Metcalf como Susie Cox, Michael Rooker como Bill Broussard e Jay O. Sanders como Lou Ivon.

Em certo momento de “JFK”, um personagem diz que a pergunta mais importante não é “quem” matou o presidente, mas “porque”. Trata-se do Sr. “X” (Donald Sutherland), que apresenta em poucos minutos o coração da teoria do filme. E confesso que é muito difícil (pelo menos pra mim) não acreditar nesta teoria diante da notória preferência norte-americana pelos conflitos armados. As guerras, obviamente, giram a economia do país, algo ilustrado sutilmente através das constantes notícias sobre o Vietnã no jornal e, de forma mais clara, nos números citados no longa, afinal de contas, são bilhões de dólares gastos na guerra – e estes dólares sempre entram no bolso de alguém. Sutherland colabora bastante para a credibilidade das informações dadas por seu personagem, transmitindo segurança no que fala e convencendo Garrison sobre a importância que a guerra tem para as empresas do país, como os citados fabricantes de helicópteros e até mesmo os fabricantes de armamentos. Diante de todo este cenário, é compreensível (ainda que repugnante) que um presidente que pregava a paz, a retirada das tropas do Vietnã e a reaproximação com a União Soviética fosse considerado uma ameaça aos interesses de muitos. Esta teoria é reforçada durante a discussão entre Bill e a equipe de Garrison, quando o jovem não se conforma diante das evidencias do envolvimento de instituições norte-americanas, algo amplificado pelo momento em que Garrison dá uma entrevista para uma emissora de televisão, demonstrando o envolvimento da imprensa em todo aquele processo. Pode parecer paranóia uma conspiração deste tamanho, mas sinceramente acho mais fácil acreditar nela do que na teoria da comissão Warren.

São tantos fatos históricos que reforçam os argumentos de “JFK” que é até mesmo incompreensível que algumas pessoas acreditem que apenas Lee Oswald seja o responsável pelo crime. Um destes fatos é a morte de Robert Kennedy, que aumenta ainda mais o desespero de Garrison – algo reforçado pelo zoom de Stone que realça a expressão de Costner. Depois deste fato, até mesmo Liz passa a acreditar no marido, e a fotografia sombria que envolve o beijo do casal, acompanhada pela triste trilha sonora e pela frase de Jim “queria poder te amar mais”, ilustra o quanto aquela relação foi enfraquecida pela investigação. E se podemos questionar a veracidade de alguns aspectos da impressionante investigação conduzida por Garrison ou considerar que Stone exagera na forma como os apresenta, a qualidade cinematográfica de sua obra é impressionante e inquestionável, conseguindo criar uma narrativa igualmente complexa e coesa.

Apresentando um dos fatos mais marcantes da história norte-americana e, mais do que isso, entrando em conflito direto com importantes órgãos como o FBI e a CIA, “JFK – A pergunta que não quer calar” impressiona principalmente porque a polêmica que o envolve é apenas um dos aspectos relevantes de um longa que acerta em praticamente tudo, começando pelos magníficos aspectos técnicos, passando pelas ótimas atuações e fechando na excepcional direção de Oliver Stone. Ao contrário do assassinato de Kennedy, aqui o organizado trabalho em conjunto resultou em algo benéfico. E assim como naquele abominável crime, este resultado ficará marcado eternamente na memória.

Texto publicado em 16 de Dezembro de 2010 por Roberto Siqueira

OSCAR 1991: DANÇA COM LOBOS X OS BONS COMPANHEIROS

Seguindo minha comparação entre o vencedor do Oscar de Melhor filme e aquele que eu considerei como a melhor produção do ano, chega à vez do ano de 1990 (Premiação em 1991). A safra de 1990 conta com pelo menos três grandes produções de excelente qualidade, que debateremos mais abaixo, além de bons filmes como “Tempo de Despertar” e “Louca Obsessão”. Além destes filmes, tivemos ainda os sucessos “Uma Linda Mulher” e “Ghost – Do outro lado da vida” (o primeiro eu gosto, o segundo acho razoável), que mexeram com os corações femininos de maneiras diferentes.

Mas os grandes destaques do ano foram mesmo o capítulo final da saga dos Corleone, “O Poderoso Chefão – Parte III”, o excelente “Os Bons Companheiros”, de Scorsese, e o belíssimo “Dança com Lobos”, que marcou o auge da ascendente carreira de Kevin Costner na época (depois, ele cairia vertiginosamente no ostracismo). Entre estes três ótimos filmes, é difícil escolher apenas um, mas como não posso ficar em cima do muro, votaria em “Dança com Lobos”, mais até por empatia com o tema (assim como aconteceu com “Na Natureza Selvagem”), já que gosto muito da trajetória de mudança e descoberta de John Dunbar.

Porque “Dança com Lobos” é melhor?

Dizer que “Dança com Lobos” é melhor talvez não seja o termo correto. Posso dizer que é o meu preferido, por causa de minha citada empatia com o tema, das lindas cenas do homem perdido em meio a tanta beleza, da lenta descoberta de sua verdadeira identidade, etc. Além disso, Costner conduz a narrativa com perfeição, nos permitindo desfrutar, graças ao ritmo lento do longa, cada minuto daquela jornada, descobrindo e apreciando junto com Dunbar cada detalhe deste novo mundo que se abre. Obviamente, seria perfeitamente aceitável uma vitória de “O Poderoso Chefão – Parte III”, sem dúvida um excelente filme, assim como “Os Bons Companheiros” poderia tranqüilamente ter corrigido a injusta derrota de Scorsese em 1981, por “Touro Indomável”. Mas confesso que concordo com a decisão da Academia e, mais do que isso, fico feliz que um filme sensível e belo como “Dança com Lobos” seja reconhecido. Como escrevi em minha crítica, Costner pode ter feito muita besteira, especialmente de 1995 pra cá, mas certamente este momento justificou a carreira dele.

E pra você, qual o melhor filme de 1990 e por quê?

Um abraço e bom debate.

PS: Para ver Costner vencendo o Oscar de Direção, clique aqui. Para ver o anúncio do vencedor de melhor filme, clique aqui.

Texto publicado em 14 de Dezembro de 2010 por Roberto Siqueira

UMA LINDA MULHER (1990)

(Pretty Woman)

 

Videoteca do Beto #76

Dirigido por Garry Marshall.

Elenco: Richard Gere, Julia Roberts, Ralph Bellamy, Jason Alexander, Laura San Giacomo, Hector Elizondo, Alex Hyde-White, Amy Yasbeck, Elinor Donahue, Judith Baldwin, Bill Applebaum e Hank Azaria.

Roteiro: J.F. Lawton.

Produção: Arnon Milchan e Steven Reuther.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Explorando sem o menor constrangimento diversos clichês das comédias românticas e apoiando-se num roteiro com uma estrutura convencional, “Uma Linda Mulher” consegue alcançar um resultado satisfatório graças à forma como o diretor Garry Marshall conduz a narrativa e, principalmente, à excelente química de seu par romântico, muito bem interpretado por Julia Roberts e Richard Gere.

O milionário Edward (Richard Gere) se perde pelas ruas de Beverly Hills e acaba na Hollywood Boulevard, exatamente no ponto de trabalho da prostituta Vivian (Julia Roberts). A garota se oferece para levá-lo até o hotel Regent Beverly Wilshire e ele acaba contratando-a para passar a semana com ele e participar de seus compromissos sociais como uma acompanhante. Mas com o passar do tempo, a relação profissional começa a dar espaço para outros sentimentos.

Escrito por J.F. Lawton, “Uma Linda Mulher” conta, sem o menor receio de explorar clichês, a clássica história do amor impossível entre um homem da alta classe e uma prostituta, chegando até mesmo a satirizar a situação quando Edward diz que sua especialidade são os “amores impossíveis”. Nem mesmo a estrutura narrativa foge do convencional, mostrando os dois se apaixonando, criando um pequeno conflito quando Phillip descobre que Vivian é prostituta e provoca uma briga entre o casal e, finalmente, promovendo o reencontro emocionado no ato final. Só que ao contrário da maioria das produções do gênero, aqui o clichê funciona muito bem, graças ao tom leve e correto da narrativa e, principalmente, à química do casal. Obviamente, uma história como esta dificilmente aconteceria na vida real, mas a forma como Marshall conduz à narrativa nos faz relevar este detalhe. O roteiro ainda apresenta algumas frases interessantes, como o pequeno diálogo sobre o beijo na boca, que refletirá no momento em que ambos se entregarão a paixão e esquecerão as regras que eles próprios criaram (“Não beijo na boca”, diz Vivian e Edward responde: “Nem eu”). E finalmente, o longa aborda ainda o preconceito quando Vivian entra na loja e não é atendida por causa de sua aparência, o que motiva sua volta ao local no dia seguinte, agora com muitas sacolas de outras lojas (“Vocês ganham comissão não é? Grande erro!”).

Conduzido com discrição por Garry Marshall, o longa apresenta uma narrativa leve e descontraída, repleta de momentos bem humorados, como no importante jantar de negócios entre Edward e os “Morse”, em que Vivian tenta não dar vexame, ou quando Vivian diz que “teria ficado por dois mil” e Edward responde que “pagaria até quatro”. Mas apesar da discrição, Marshall mostra competência especialmente na condução dos atores, extraindo ótimas atuações de seu par romântico. O diretor também demonstra sensibilidade em diversos momentos, como quando os dois se beijam pela primeira vez, compondo um plano sutil que ilustra, através da grade da cama, que agora eles estavam presos um ao outro. Marshall também é sutil ao indicar o sexo quando os dois ficam sozinhos no piano, afastando a câmera lentamente e escurecendo a tela, como quem se retira do local para deixar o casal mais a vontade. Em outro momento, após apresentar um close dos diversos talheres no treinamento de Vivian, Marshall emprega um zoom out para ilustrar o quanto ela se sentia intimidada naquela situação. E até mesmo os planos mais óbvios funcionam bem, como aquele em que Vivian está na sacada do hotel relembrando a história da princesa presa na torre ou na seqüência de apresentação da personagem, que primeiro mostra as partes do corpo, depois os acessórios do vestuário e só depois o rosto de Vivian, destacando por ordem de importância os requisitos daquela profissão.

Mas apesar das claras diferenças sociais que separam Edward e Vivian, os dois apresentam muitas semelhanças, algo ilustrado com bom humor pelo milionário quando ele diz que “nós dois somos similares, fodemos* com as pessoas por dinheiro”. Só que ambos sofriam de carência afetiva por razões diferentes. Edward não conseguia estabelecer uma relação, provavelmente por se entregar demais à profissão e oferecer pouco tempo para suas companheiras, enquanto Vivian tinha dificuldade por jamais acreditar que um cliente poderia de fato gostar dela, o que é compreensível, tendo em vista que a grande maioria dos clientes tem um comportamento similar ao de Phillip (Jason Alexander), vendo-a apenas como um objeto de desejo e nada mais. Juntos, eles aprendem um com o outro. Vivian conhece um estilo de vida que jamais imaginou ter acesso, mas principalmente, conhece um homem capaz de tratá-la com dignidade, enxergando além das curvas de seu corpo, o que a motiva a largar a prostituição (“Vou voltar a estudar”, diz para a colega Kit). Edwards, por sua vez, aprende a curtir os pequenos prazeres da vida, algo ilustrado através de pequenas coisas como colocar o pé na grama, que certamente é algo que ele jamais faria antes de conhecer Vivian.

Separado duas vezes (da esposa e da amante), Edward é um homem bem sucedido profissionalmente, mas que claramente enfrenta problemas para se relacionar com alguém, como fica evidente em sua conversa com uma ex-namorada na festa inicial. Richard Gere se sai muito bem no papel, demonstrando o quanto Edwards é um homem centrado, contido e até mesmo anti-social. O ator ilustra com precisão a lenta mudança no personagem através da forma com que se relaciona com Vivian, indicando sutilmente que está se apaixonando pela moça, por exemplo, quando sente ciúme ao vê-la conversando com David Morse (Alex Hyde-White) ou quando sua feição de satisfação e surpresa ao ver Vivian sem a peruca indica que ele estava começando a enxergar uma beleza natural inexistente naquela jovem até então. Finalmente, Gere também se destaca quando Edward explode contra Phillip, demonstrando firmeza ao defender Vivian. Obviamente, a química do casal é muito importante para conquistar a platéia, e ela só existe porque Julia Roberts também tem um excelente desempenho. Bastante solta no papel, como podemos notar em sua chegada ao hotel, quando chama a atenção de todos com seu jeito exagerado e pouco convencional ao mesmo tempo em que se mostra deslumbrada com a imponência do lugar, a atriz convence como uma prostituta que encontra uma chance de ouro de ganhar muito dinheiro, mas que acaba quebrando a regra número um da “profissão”, ao se envolver emocionalmente com seu cliente. Observe como ela compõe a personagem muito bem através de pequenos gestos, como a forma que ela ajeita a saia ou o jeito alegre de cantar na banheira. Seu jeito de andar também chama a atenção, o que faz Edward constantemente pedir para que ela “não se mexa tanto”. E assim como Gere, Julia também se sai bem nos momentos dramáticos, como quando Phillip descobre que ela é prostituta e diz uma frase cruel, magoando Vivian profundamente – e Roberts ilustra muito bem a tristeza da personagem. Infelizmente, o restante do elenco não mantém o mesmo nível nas atuações e, pra piorar, ainda temos Phillip, um personagem detestável, totalmente unidimensional, que certamente prejudica a atuação de Jason Alexander.

Seguindo o tom discreto da direção, o trabalho técnico de “Uma Linda Mulher” não chama muito a atenção, mas nem por isso deixa de ser eficiente e trabalhar a favor da narrativa. Observe, por exemplo, como os figurinos de Marilyn Vance ilustram a personalidade distinta do casal, através das roupas escandalosas de Vivian e dos ternos cinzentos que denotam seriedade a Edwards, algo ilustrado também através de pequenos gestos, como quando Vivian tenta sentar nos pés de Edward e ele rapidamente tira o pé. Repare também como a direção de fotografia de Charles Minsky é colorida e cheia de vida quando Edward está com Vivian, refletindo o estado de espírito do milionário e, ao mesmo tempo, criando um contraste interessante com o ambiente cinzento e sem vida de seu escritório e de sua vida nos negócios. E até mesmo a trilha sonora de James Newton Howard pontua bem as cenas, refletindo a empolgação dos personagens através de alguns sucessos da época, como “Wild Women Do”, além é claro da clássica “Pretty Woman”, que aparece no momento em que Vivian se sente mais confiante, andando pelas ruas após conseguir comprar suas roupas. E fechando o trabalho técnico, a montagem ágil de Raja Gosnell e Priscilla Nedd-Friendly colabora com o clima leve e o ritmo empolgante da narrativa, como podemos notar, por exemplo, durante o jantar de negócios, além de fazer uma interessante transição através da grade da cama, revelando o momento em que o casal apaixonado supera as barreiras impostas por eles mesmos, algo confirmado na frase de Vivian (“Eu te amo”).

O previsível final feliz, com Edward chegando para buscar sua princesa com ópera e tudo mais, é bastante irreal, é verdade, mas está dentro do propósito leve da narrativa. Talvez um final coerente, como cada um seguindo o seu caminho, fizesse de “Uma Linda Mulher” um filme mais maduro e tocante, mas certamente estaria completamente fora do tom adotado até então. E é justamente por entregar aquilo que se propõe sem maiores pretensões que o longa dirigido por Garry Marshall e estrelado por Julia Roberts e Richard Gere agrada.

PS: *Desculpe a tradução literal, mas outra palavra tiraria completamente o sentido da frase.

Texto publicado em 13 de Dezembro de 2010 por Roberto Siqueira

OS BONS COMPANHEIROS (1990)

(Goodfellas)

 

Videoteca do Beto #75

Dirigido por Martin Scorsese.

Elenco: Ray Liotta, Robert De Niro, Joe Pesci, Lorraine Bracco, Paul Sorvino, Frank Sivero, Tony Darrow, Frank Vincent, Chuck Low, Frank DiLeo, Gina Mastrogiacomo, Catherine Scorsese, Charles Scorsese, Illeana Douglas e Samuel L. Jackson.

Roteiro: Nicholas Pileggi e Martin Scorsese, baseado em livro de Nicholas Pileggi.

Produção: Irwin Winkler.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Scorsese estava em plena forma quando lançou este maravilhoso “Os Bons Companheiros”, apresentando as melhores características de seu diferenciado modo de fazer cinema. O linguajar despojado, o submundo do crime, as cenas de violência extremamente realistas e os personagens fascinantes que enxergam tudo isto com naturalidade estão presentes neste legítimo representante da elogiada filmografia de Marty, que mais uma vez conta com um elenco talentoso e um trabalho técnico de primeira para desfilar sua habilidade atrás das câmeras e acertar em cheio no alvo.

Henry (Ray Liotta) inicia sua carreira na vida do crime aos 11 anos de idade e se torna o protegido do mafioso Paulie (Paul Sorvino), sendo tratado praticamente como um filho por muitos anos. Já na fase adulta, ele se junta a Tommy (Joe Pesci) e Jimmy (Robert De Niro) para roubar caminhões e, posteriormente, se envolver no tráfico de drogas, o que se revelará uma decisão trágica pra todos eles.

“Até onde eu consigo me lembrar, eu sempre quis ser um gângster”. Logo na introdução deste excelente “Os Bons Companheiros” (que precede a famosa frase do personagem de Ray Liotta), o excepcional roteiro escrito por Nicholas Pileggi e Martin Scorsese, baseado em livro de Pileggi, consegue prender a atenção do espectador ao mostrar Tommy, Jimmy e Henry executando um homem, que estava trancado no capô de um carro, com a naturalidade de quem está apenas parando para trocar um pneu. Desta forma, esta espetacular seqüência, além de prender o espectador, tem ainda a função de nos apresentar a personalidade “durona” destes personagens, que pertencem a um mundo completamente diferente do que estamos acostumados, nos preparando adequadamente para o restante da narrativa. Utilizando uma interessante narração em off para nos mostrar aquele mundo através do olhar de Henry, o roteiro (repleto de palavrões, como é marca registrada nos filmes de Scorsese) cobre muitos anos na vida do mafioso, iniciando nos tempos em que ele descobriu que ser um gângster significava ter respeito e poder, ainda quando estacionava os Cadillacs sob os olhares curiosos das garotas. Mas o longa não se resume à trajetória de Henry Hill, abordando também temas interessantes como a culpa católica, simbolizada no tom carregado de vermelho da fotografia de Michael Ballhaus, que remete ao aspecto infernal daquela vida criminosa, e a corrupção da policia, ilustrada quando Jimmy dá cigarros em troca do silêncio dos policiais. Além disso, mostra que para aquelas pessoas, coisas terríveis como ir para a prisão eram até mesmo um motivo de orgulho, algo ilustrado quando Henry é libertado sob aplausos e abraços acalorados dos parceiros de crime – e neste momento, aliás, Jimmy dá um conselho que terá reflexo no futuro da narrativa, ao dizer para Henry “nunca denunciar seus amigos”.

Scorsese utiliza todo o seu arsenal de travellings e panorâmicas, além do tradicional plano-seqüência, para novamente entregar uma direção estilizada, que preza pelo realismo e evita contar a história de maneira convencional. Observe, por exemplo, com em diversos momentos o diretor, auxiliado por seus montadores, utiliza o still (a imagem congelada, acompanhada da voz do narrador, que fez tanto sucesso, por exemplo, em “Cidade de Deus”), como quando o pai de Henry lhe dá uma surra, buscando dar um fôlego na narrativa para enfatizar alguma reflexão do narrador. Já entre os famosos planos-seqüência do diretor, destacam-se a introdução dos mafiosos no bar, quando eles conversam com a câmera enquanto são identificados, novamente sob forte predomínio da cor vermelha, e quando Henry e Karen entram no restaurante pelos fundos, quando o diretor nos leva por dentro da estrutura do local até a mesa colocada especialmente na frente do palco, enquanto no caminho, o respeito das pessoas por Henry fica evidente, através do número de funcionários que o cumprimentam. Scorsese também utiliza bastante o zoom, como quando Henry sai da prisão, e faz uma pequena homenagem a nouvelle vague francesa, quando ouvimos um homem contando piada no palco enquanto vemos a imagem de Tommy e Henry entrando no galpão do aeroporto, numa falta de sincronia entre som e imagem clássica dos filmes de Godard. O diretor conta ainda com a montagem de Thelma Schoonmaker e James Y. Kwei, que emprega um ritmo ágil à narrativa, mas mantém a característica de Scorsese de utilizar poucos cortes, aproveitando ao máximo seus belos enquadramentos e movimentos de câmera, além de fazer uma interessante passagem no tempo da noite para o dia em frente ao prédio da amante de Henry, quando Karen parte para o local para enfrentá-la e, em seguida, tenta assassinar o marido na cama.

Além da montagem, destaca-se também a já citada direção de fotografia de Michael Ballhaus, que adota um tom obscuro e com forte predomínio da cor vermelha em todo o filme, algo notável quando os criminosos matam Batts (Frank Vicent) no capô do carro, quando roubam um caminhão à noite ou nas seqüências dentro do bar. Este tom vermelho claramente remete ao universo violento daqueles gângsteres, onde o sangue é uma presença constante, e também ao citado aspecto infernal daquela vida de crimes. O aspecto infernal também é ilustrado na trilha sonora de Pete Towshend, que utiliza o som clássico de bandas de rock n’ roll como os “Rolling Stones”, o que também colabora com o clima empolgante da narrativa. Vale destacar ainda a maquiagem que envelhece Robert De Niro no terceiro ato e os figurinos de Richard Bruno, que adotam o padrão do gênero, com ternos e gravatas vestindo os respeitados mafiosos.

E já que citei os mafiosos, vale ressaltar que eles são brilhantemente interpretados pelo talentoso elenco de “Os Bons Companheiros”. A começar por Ray Liotta, que tem uma ótima atuação como Henry, apesar das risadas exageradas no bar. Um homem agressivo e explosivo, capaz de agredir brutalmente o vizinho de sua namorada, ele convive em meio aos mafiosos desde pequeno, mas entre todos eles, é o único que está ali mais pelo glamour (até mesmo pela sua origem irlandesa, e não italiana), o que será decisivo quando chegar o momento em que deverá decidir entre voltar para a prisão e entregar todo mundo. Após voltar da prisão pela primeira vez, Liotta demonstra muito bem o desespero de Henry ao procurar as drogas que lhe garantiriam a fuga da cidade e descobrir que Karen jogou tudo fora. Esta busca insana o levaria a ser preso novamente, mas desta vez Henry faria qualquer coisa para salvar a própria pele. Pior para Jimmy. Interpretado brilhantemente por Robert De Niro, Jimmy é um homem sempre prestes a explodir, como podemos notar quando seus amigos entram no bar após o roubo da Lufthansa ostentando objetos de valor, provocando sua imediata irritação por chamar a atenção da policia. E apesar de ter o respeito do grupo, seus conselhos não convencem nem mesmo seu amigo Henry, que gasta imediatamente a grana com presentes para a mulher. De Niro ilustra muito bem o desespero crescente no personagem na medida em que a narrativa avança e ele pressente a traição, resultando numa cena sensacional, quando oferece ajuda para Karen, que recusa por temer o pior e foge em disparada em seu carro. Mas o show mesmo fica por conta de Joe Pesci, que vive um temível Tommy, capaz de provocar calafrios toda vez que aparece em cena, tamanho é o seu poder de intimidação e a sua instabilidade. Logo em sua introdução, na excelente cena em que conversa com os amigos num bar, o espectador tem a exata noção do perigo que aquele homem representa ao observar que nem mesmo o seu melhor amigo demonstra confiar nele. Repare como o silêncio toma conta de todos quando ele finge estar falando sério com Henry, perguntando por que o amigo o achava engraçado. A cena é tensa e serve para transmitir ainda uma série de sensações ao espectador, através da composição visual de Scorsese, que aproxima o grupo na tela (dando um sentido de camaradagem), e do trabalho conjunto de fotografia, de Ballhaus, e direção de arte, de Maher Ahmad, que novamente destaca a cor vermelha através dos objetos na mesa. A cena serve também para dar uma importante dica do que acontecerá no futuro, quando Tommy diz para Henry que “talvez ele se abra num interrogatório”. Finalmente, Tommy demonstra ser capaz de qualquer coisa quando atira no atendente Spider, numa cena chocante que chega até mesmo a surpreender os seus amigos mafiosos (e o espectador também!).

No restante do elenco, temos Paul Sorvino, que se sai muito bem como Paulie, mostrando-se firme, especialmente na cena em que o dono do restaurante pede a morte de Tommy, além de demonstrar sabedoria ao alertar Henry sobre os perigos do envolvimento com as drogas. Assim como Don Corleone em “O Poderoso Chefão”, ele sabia que aquilo poderia significar o começo do fim. Mas Tommy, Jimmy e Henry não lhe deram ouvidos e começaram a fazer fortuna com o tráfico. Só que o tempo se encarregou de dar razão à Paulie. E neste submundo perigoso da máfia, até mesmo Karen, interpretada com competência por Lorraine Bracco, não parece ser uma pessoa normal (repare como ela se empolga ao ver a arma ensangüentada de Henry após este surrar seu vizinho), tendo acessos de loucura repentina, como quando discute com o marido na prisão ou quando a policia finalmente prende Henry por tráfico de drogas. Vale citar ainda a pequena participação de Samuel L. Jackson como Stacks, apenas como curiosidade.

A violenta morte de Billy Batts, um ótimo exemplo do realismo que Scorsese busca empregar em seus filmes, será a razão da queda do trio. Após espancarem o integrante da máfia, eles ainda param para pegar uma pá na casa da mãe de Tommy, comem, batem papo e só depois seguem para enterrar o corpo. Scorsese destaca esta forma corriqueira de lidar com a situação no momento em que a câmera sai da mesa de jantar e vai até o carro, destacando o porta-malas com o som do homem se debatendo lá dentro. Não por acaso, a primeira seqüência do filme se passa nesta etapa da vida deles, pois este momento provocará a morte de Tommy (em outra cena surpreendente e de forte impacto) e a conseqüente queda de todos eles.

Contando com sua costumeira habilidade para contar histórias do submundo do crime, Martin Scorsese nos entrega um filme visceral, empolgante e extremamente competente, que conta com atuações de primeiro nível, um excelente roteiro e cenas de forte impacto para conquistar o espectador. Até onde eu consigo me lembrar, eu sempre quis assistir aos filmes de Scorsese. E posso afirmar que mais uma vez esta experiência foi maravilhosa.

Texto publicado em 10 de Dezembro de 2010 por Roberto Siqueira