O JOGO DA PAIXÃO (1996)

(Tin Cup)

Videoteca do Beto #141

Dirigido por Ron Shelton.

Elenco: Kevin Costner, Rene Russo, Don Johnson, Cheech Marin, Linda Hart, Dennis Burkley, Rex Linn, Lou Myers, Richard Lineback, George Perez e Michael Milhoan.

Roteiro: John Norville e Ron Shelton.

Produção: Gary Foster e David Lester.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após o estrondoso fracasso de “Waterworld”, Kevin Costner praticamente destruiu sua carreira, arruinando sua reputação de maneira quase irreparável em Hollywood. Coube então ao diretor Ron Shelton a difícil tarefa de tentar devolver o prestígio ao astro decadente, oito anos depois de trabalharem juntos em “Sorte no Amor”. Apostando novamente na paixão de Costner pelo esporte, evidente ao longo de sua filmografia, o diretor não conseguiu seu objetivo, mas pelo menos entregou um filme agradável, extraindo ainda uma boa atuação não apenas de Costner, mas também de Rene Russo.

Escrito pelo próprio Shelton ao lado de John Norville, “O Jogo da Paixão” narra o inusitado encontro entre o golfista decadente Roy McAvoy (Kevin Costner), reconhecido pelo talento e pelo temperamento explosivo, e a psicóloga recém-formada e pouco confiante Molly Griswold (Rene Russo), que decide aprender a jogar golfe justamente com ele. O problema é que Molly namora David Simms (Don Johnson), simplesmente o melhor jogador do país.

Não é preciso saber mais do que isto para imaginar o que acontecerá em “O Jogo da Paixão”. Afinal de contas, é óbvio que Roy se apaixonará por Molly, assim como é bem conveniente que ela namore o grande jogador do país que, pasme, era um grande rival de Roy no passado. Previsível e repleto de clichês, o roteiro ainda abusa de diálogos expositivos que buscam explicar o passado de Roy e demonstrar sua personalidade complicada e difícil. Felizmente, mais do que a história em si, são os personagens que representam a força central da narrativa – e neste aspecto o roteiro tem seus méritos, já que, com exceção de David Simms, desenvolve personagens interessantes que conquistam a atenção da plateia.

É evidente que a participação dos atores é fundamental neste processo e logo na introdução de seus personagens, Costner e Russo já demonstram boa química. Leve e descontraído, Costner nem parece o mesmo ator carrancudo de “Waterworld”, com seu olhar inquieto e risadas espontâneas que dão a sensação de que ele tirou um enorme peso das costas. Talvez por isso, seu Roy é um personagem carismático, que consegue encantar Molly mesmo quando é irritante. Teimoso e genioso, ele mal consegue conter o ímpeto quando se irrita e, invariavelmente, age sem pensar nas consequências, mas sob esta carcaça se esconde um homem simples e vulnerável, quase um anti-herói, e isto é suficiente para conquistar Molly e a plateia. Aliás, a decadência do golfista é ilustrada até mesmo em seu “habitat”, com seu trailer bagunçado, o campo de golfe mal cuidado e as roupas velhas e desgastadas (design de produção de James Bissell e figurinos de Carol Oditz).

Personagem fundamental em “O Jogo da Paixão”, a provocante doutora Molly de Rene Russo conquista o espectador ao demonstrar uma vulnerabilidade rara em profissionais especializados na análise de seus semelhantes, algo notável, por exemplo, quando ela liga para outra psicóloga e pede ajuda – repare como a atriz hesita ao telefone, demonstrando a ansiedade da personagem. Em seguida, quando ela decide se abrir com Roy no trailer, a atriz demonstra o conflito de sentimentos com precisão, o que facilita nossa identificação com a personagem. Finalmente, Molly ganha pontos justamente por desistir de mudar Roy, o que é interessante e foge um pouco dos clichês do gênero.

No restante do elenco, as atuações são discretas. Cheech Marin até diverte com o leal Romeu, mas jamais consegue roubar a cena de verdade. Já a incompreensível reação de David Simms diante de um garoto que pede um autógrafo comprova que tanto os roteiristas como Don Johnson não mediram esforços para tornar o personagem num ser desprezível e totalmente unidimensional. Além disso, os conflitos simplistas entre Roy e Simms fazem os golfistas soarem como dois adolescentes, só que Costner se sai bem desta armadilha, conferindo uma leveza ao seu personagem que Johnson jamais consegue repetir.

Discreta também é a direção de Ron Shelton, que se destaca apenas durante os jogos de golfe, com planos criativos que tornam as disputas mais interessantes, além de alguns movimentos de câmera curiosos, como o travelling que apresenta de maneira triunfal o US Open. Estabelecendo logo nos primeiros planos o isolamento da região onde se passa boa parte da narrativa, o que de certa forma ilustra a solidão dos personagens, o diretor insiste na imagem recorrente de um tatu, talvez simbolizando a postura defensiva do protagonista, que esconde sua enorme insegurança sob aquela carcaça de durão. Por outro lado, Shelton conduz bem os momentos divertidos, como a consulta de Roy no escritório de Molly e a aposta entre Roy e Simms, além de uma excelente piada metalinguística, quando Simms cita um “atorzinho” que fez 82 pontos no passado, provocando uma expressão no mínimo engraçada de Kevin Costner, um ator conhecido por praticar o esporte nas horas vagas.

Seguindo o padrão do gênero, a fotografia de Russell Boyd aposta em cores quentes e cenas diurnas na maior parte do tempo, provocando uma sensação mais prazerosa na plateia que é reforçada pela deliciosa trilha sonora de William Ross, repleta de músicas agitadas e empolgantes. No entanto, Ross também pontua muito bem os momentos dramáticos, como quando Molly encontra um solitário Roy no campo de golfe e a trilha melancólica ilustra o sentimento de tristeza de ambos.

Infelizmente, ao estender demasiadamente algumas cenas, Shelton e seus montadores Kimberly Ray e Paul Seydor acabam transformando “O Jogo da Paixão” num filme longo demais. É verdade que existem sequências interessantes durante as disputas de golfe, mas ainda assim os problemas de montagem são evidentes. Observe, por exemplo, como é rápida a transição do fracasso no primeiro dia de competição para o recorde que Roy estabelece no segundo dia. Num momento estamos vendo o golfista desolado no trailer e, alguns segundos depois, já estamos acompanhando a transmissão da televisão, com os apresentadores impressionados com o desempenho dele, o que não permite que o espectador saboreie o momento da virada do protagonista. E mesmo com um desfecho agradável que voltarei a abordar em instantes, o jogo final também é longo demais e, pra piorar, ainda permite que o espectador antecipe o dilema que Roy enfrentará na última bola e qual será a reação dele. Pra completar, a reflexão dos personagens no plano final num sofá soa totalmente desnecessária, praticamente forçando a plateia a engolir uma lição de moral que nem sempre se aplica à vida real. Devemos correr riscos? A resposta correta deveria ser: depende.

E aí entra a dolorosa sequência em que acompanhamos Roy McAvoy enfrentar seus demônios e ser derrotado por eles, praticamente entregando o US Open após ceder ao impulso de tentar a bola perfeita. Felizmente, este desfecho até certo ponto previsível tem o mérito de não tentar mudar o personagem repentinamente, o que é coerente, e ainda nos brinda com a vibrante reação do público após o esperado acerto na última bola. Independente da questão esportiva, o que temos aqui é um homem tão apegado aos seus princípios que se torna incapaz de agir racionalmente, mesmo que isto signifique desperdiçar a única chance de sua vida. Chega a ser bonito, poético, mas apenas nas telas do cinema, já que nem sempre a vida real funciona assim.

Apesar dos clichês, “O Jogo da Paixão” consegue divertir o espectador, especialmente por causa da boa química entre os dois personagens centrais da narrativa. Definitivamente, este não seria o filme que recuperaria a desgastada imagem de Kevin Costner, mas, assim como Roy McAvoy, o restante da carreira do ator demonstra que ele não pode ser acusado de não tentar.

Texto publicado em 11 de Novembro de 2012 por Roberto Siqueira

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Enfim, chegou… Que venham muitos outros…

Estou com pressa e não achei imagem melhor. Mas está aí:

Roberto Siqueira, em 06 de Novembro de 2012

MISSÃO: IMPOSSÍVEL (1996)

(Mission: Impossible)

Videoteca do Beto #140

Dirigido por Brian De Palma.

Elenco: Tom Cruise, Jon Voight, Emmanuelle Béart, Henry Czerny, Jean Reno, Ving Rhames, Kristin Scott Thomas, Vanessa Redgrave, Dale Dye, Marcel Iures, Rolf Saxon e Emilio Estevez.

Roteiro: David Koepp e Robert Towne, baseado em argumento do proprio Koepp e de Steven Zaillian e inspirado na série criada por Bruce Geller.

Produção: Tom Cruise e Paula Wagner.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Nascido de um projeto pessoal de Tom Cruise, fã declarado da série de televisão famosa nos anos 70, “Missão: Impossível” representava também a chance do astro de Hollywood emplacar como produtor e, assim, marcar definitivamente seu território na capital mundial do cinema. Inteligente, Cruise apostou num elenco de primeira, num roteirista consagrado, no talento do excelente diretor Brian De Palma e em sua própria capacidade de atrair público, criando uma combinação que dificilmente poderia dar errado. O resultado é um excelente filme de ação que conquista o espectador não apenas pela força de suas cenas marcantes, mas também por contar uma boa história, graças ao roteiro que, se não explora dramaticamente seus personagens, pelo menos está longe de ser apenas uma muleta para o show de efeitos visuais que normalmente predominam nos filmes do gênero.

Escrito por David Koepp e Robert Towne, baseado em argumento do próprio Koepp e de Steven Zaillian e inspirado na série criada por Bruce Geller, “Missão: Impossível” tem início quando o grupo de agentes liderados por Jim Phelps (Jon Voight) cai numa emboscada na cidade de Praga, culminando na morte de quase todos eles. Pensando ser o único sobrevivente do grupo, Ethan Hunt (Tom Cruise) procura o auxílio da IMF, agencia responsável pelos trabalhos secretos que, representada por Eugene Kittridge (Henry Czerny), passa a desconfiar que Ethan seja culpado pelo ocorrido, iniciando uma caçada que motiva o agente a criar seu próprio grupo e buscar os verdadeiros responsáveis pelo desastre. Hunt decide então recrutar os agentes desligados Franz Krieger (Jean Reno), Claire Phelps (Emmanuelle Béart) e Luther Stickell (Ving Rhames) e organizar um roubo dentro da sede da CIA.

Desde sua interessante introdução na qual acompanhamos o trabalho dos agentes em Kiev, “Missão: Impossível” conquista a atenção do espectador, reforçando a empatia da plateia com seu protagonista logo na sequencia seguinte, quando este se depara diante de uma situação complexa e se mostra vulnerável, conseguindo escapar com vida graças à sua esperteza. Partindo desta interessante premissa, o roteiro de Koepp e do ótimo Towne aborda o complicado jogo de espionagem de maneira brilhante, explorando a dualidade e a desconfiança dos personagens com destreza e colocando o espectador na mesma situação deles. Frequentemente, a pergunta que surge é: em quem podemos confiar? Além disso, os diálogos chamam a atenção, respeitando a inteligência da plateia ao fugir das conversas descartáveis tão comuns na maioria dos filmes de ação, assim como a narrativa se destaca por priorizar a história que está sendo contada, inserindo as cenas de ação como parte do contexto e não como a razão da existência de “Missão: Impossível”.

Inspirados em objetos reais utilizados durante a guerra fria, os utensílios empregados pelos agentes para realizar suas tarefas chamam a atenção pela criatividade, como a caneta que injeta líquido no café de determinado personagem, os óculos equipados com micro câmeras e, obviamente, os disfarces utilizados por Ethan – mérito do design de produção de Norman Reynolds. E justamente por buscar inspiração em objetos reais, o longa ganha em credibilidade e verossimilhança, o que é interessante, ainda que não seja essencial para o sucesso da trama.

Essencial mesmo é a presença de Tom Cruise, que carrega a narrativa com facilidade graças ao seu carisma e a sua capacidade de conferir realismo aos esforços de Ethan Hunt. Normalmente dispensando dubles, Cruise entrega uma atuação visceral, correndo como se estivesse disputando os jogos Olímpicos, por exemplo, quando foge do Akuarium no centro histórico de Praga, além é claro de demonstrar grande capacidade física em cenas complicadas como a da invasão da sede da CIA, quando fica suspenso por alguns cabos a poucos metros do chão. Mas não é apenas graças ao vigor físico que Cruise se destaca, já que, quando não está sendo caçado, seu Ethan parece uma pessoa normal, demonstrando vulnerabilidade, por exemplo, quando vê seus pais sendo presos ou quando desconfia da parceira Claire, o que facilita a identificação da plateia com o personagem.

Entre os coadjuvantes, enquanto Kristin Scott Thomas pouco pode fazer com o escasso tempo que tem como Sarah, Emmanuelle Béart confere charme à misteriosa Claire e Ving Rhames claramente se diverte no papel de Luther Stickell, assim como Vanessa Redgrave dá um show na pele da traficante Max, num abordagem que foge do tradicional e, por isso, agrada bastante. Já a escolha de Jon Voight para o papel de Jim Phelps (o único agente remanescente da série de TV) soa acertada, especialmente quando este se revela o grande vilão, surpreendendo uma plateia acostumada a ver o ator como herói. Finalmente, Jean Reno impõe respeito como Krieger, priorizando a ação física em detrimento do raciocínio lógico, num contraponto interessante para o astuto Ethan que fica evidente quando o segundo brinca com um disquete e irrita o primeiro.

Explorando locações distintas e interessantes, o diretor de fotografia Stephen H. Burum emprega um visual obscuro e predominantemente noturno no primeiro ato, explorando muito bem a atmosfera medieval da belíssima cidade de Praga, o que colabora para aumentar o suspense e contrasta com o visual asséptico empregado em Langley, na Virgínia, onde o suspense também existe, mas baseia-se muito mais na habilidade do diretor Brian De Palma. Quando a narrativa retorna à Europa, os momentos obscuros e banhados pela chuva são mesclados com o ensolarado desfecho em Londres.

Esta transição bem definida entre os atos deve-se também a boa montagem de Paul Hirsch, que se destaca em sequências especiais como a apresentação do sistema de segurança da sede da CIA, conferindo dinamismo à narrativa e sendo importante ainda no sucesso das duas grandes cenas de “Missão: Impossível”. Entretanto, se o trabalho técnico é valioso, a condução de Brian De Palma é fundamental para que o longa seja bem sucedido.

Diretor virtuoso e de grande talento, De Palma emprega os costumeiros movimentos estilizados de câmera em diversos momentos, colaborando sensivelmente para a construção da escala crescente de suspense e ainda brincando com a plateia em diversos momentos, como na surpreendente reaparição de Jim numa cabine telefônica. Extraindo boas atuações do elenco e com um bom roteiro em mãos, o diretor sente-se a vontade para se destacar nas acrobáticas cenas de ação, que se tornam ainda mais empolgantes graças ao espetacular tema composto por Lalo Schifrin para a série de TV, capaz de injetar adrenalina na plateia logo nos primeiros acordes – e que Danny Elfman corretamente utiliza somente em momentos pontuais.

Competente não apenas na concepção visual de seus filmes, mas também na notável habilidade de construir grandes cenas, De Palma é responsável por momentos marcantes, dentre os quais vale destacar a icônica invasão da sede da CIA, capaz de grudar o espectador na cadeira e provocar frio na espinha durante praticamente todo o tempo. Observe a concepção visual, com a sala branca, asséptica, parecendo que foi retirada de “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (e se considerarmos os movimentos empregados por Ethan, não podemos descartar alguma influencia do clássico de Kubrick), repare os ângulos inusitados escolhidos por De Palma que nos auxiliam a compreender a geografia da cena (e, neste sentido, a tela de computador utilizada por Luther não só é fundamental, como ainda aumenta a tensão ao nos permitir acompanhar a movimentação do analista da CIA responsável pelo local), e, finalmente, perceba como o silêncio absoluto torna a tensão quase insuportável. Por isso, quando vemos um rato surgir em segundo plano logo atrás de Krieger, o analista (Rolf Saxon) indo e voltando do banheiro e, especialmente, a gota de suor descendo lentamente nos óculos de Ethan, nós praticamente não conseguimos desgrudar os olhos da tela, tendo quase taquicardia quando a faca cai em câmera lenta após a fuga dele, comprovando a aula de direção de Brian De Palma.

Em outra grande cena, Jim afirma que Kittridge (Henry Czerny) era o agente duplo e pensa enganar Ethan, mas a montagem paralela nos mostra os pensamentos do agente, evidenciando que ele já tinha percebido o que realmente tinha acontecido e, na verdade, é ele quem está enganando seu mentor. E fechando o festival de bons momentos, a espetacular sequencia no trem de alta velocidade da TGV inicia com um movimento de câmera ousado que nos aproxima dos vagões e revela Jim e Ethan em cima deles. Contando novamente com o montador Paul Hirsch, De Palma nos mostra múltiplas ações simultâneas que mais uma vez criam uma atmosfera de tensão crescente, culminando na perseguição dentro do túnel. Apesar de certo exagero, a cena é tão empolgante que o espectador se deixa levar até o último instante, embarcando na viagem junto com os personagens – e aqui, vale destacar os ótimos efeitos visuais da ILM, que conferem realismo a sequencia e permitem que o espectador acredite um pouco mais no que vê.

Narrando uma história envolvente, divertida e com ótimas cenas, “Missão: Impossível” é um grande filme de ação, que respeita a inteligência da plateia sem tentar parecer mais do que realmente é. Pra completar, seu desfecho ainda dá a deixa para o segundo filme, fazendo com que o espectador saia empolgado e esperando reencontrar aqueles personagens em breve, o que é um sinal claro do sucesso do longa. Some a isto a icônica trilha sonora, capaz de grudar em nossa memória por um longo tempo, e terá um excelente divertimento, que cumpre exatamente o que se propõe a fazer.

Texto publicado em 04 de Novembro de 2012 por Roberto Siqueira

Dez personalidades imortais do cinema

Finados é um feriado marcado pela saudade. Todos nós temos (ou, infelizmente, teremos) pessoas queridas que merecem nossa eterna lembrança, não apenas nesta data, mas em muitos momentos de nossas vidas. Por isso, por mais que eu raramente leve feriados muito a serio, procuro respeitar o dia 02 de Novembro, muito mais pelo sentimento que este dia evoca na maioria das pessoas.

Mas, respeitosamente, deixemos para cada um as lembranças pessoais e voltemos ao cinema. Ainda que não se possa comparar a intensidade da saudade que sentimos diante de uma perda real e próxima, existem certos artistas que também nos fazem falta e, somente ao pensar que jamais voltaremos a ver algo inédito de qualquer um deles, nos sentimos tristes. Eu, por exemplo, sinto falta de alguns músicos, esportistas, etc., às vezes apenas pelo trabalho genial deles (Kurt Cobain, Michael Jackson), em outros casos também pela importância que tiveram em minha vida (Ayrton Senna é o exemplo mais claro).

No cinema, este sentimento é ainda mais curioso, já que eu sinto falta de pessoas que sequer continuavam trabalhando ou, o que é ainda pior, que já tinham morrido quando eu nasci. Como explicar, por exemplo, que eu me entristeça ao pensar que jamais verei algo novo de Charles Chaplin?

Para nós, amantes da sétima arte, existe uma galeria de nomes que permanecerão na memória eternamente. Pensando sobre isso, eu decidi criar este post e perguntar a vocês leitores quais personalidades do cinema você gostaria de homenagear neste dia. Felizmente, os nomes mais marcantes da minha geração estão vivos, por isso minha lista contém pessoas que me marcaram muito mais pela qualidade como profissionais, salvo raras exceções como o próprio Chaplin, que sempre me despertou enorme interesse também por suas posições políticas e visão social. Como não posso criar uma lista enorme, decidi escolher dez personalidades do cinema que estão imortalizadas na minha memória. São elas:

Charles Chaplin (*1889 +1977)

Alfred Hitchcock (*1899 +1980)

Grace Kelly (*1929 +1982)

Ingrid Bergman (*1915 +1982)

Orson Welles (*1915 +1985)

Stanley Kubrick (*1928 +1999)

Katharine Hepburn (*1907 +2003)

Marlon Brando (*1924 +2004)

Paul Newman (*1925 +2008)

Elizabeth Taylor (*1932 +2011)

E agora vem a pergunta: Qual personalidade do cinema você gostaria de homenagear neste dia de finados?

Um abraço e bom debate.

Texto publicado em 02 de Novembro de 2012 por Roberto Siqueira

FARGO (1996)

(Fargo)

Videoteca do Beto #139

Dirigido por Joel Coen.

Elenco: Frances McDormand, William H. Macy, Steve Buscemi, Peter Stormare, Harve Presnell, Kristin Rudrüd, Tony Denman, Gary Houston, Bain Boehlke e Sally Wingert.

Roteiro: Ethan Coen e Joel Coen.

Produção: Ethan Coen e Joel Coen.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Mestres na arte de contar uma boa história através das câmeras cinematográficas, os irmãos Coen costumam se destacar por características muito peculiares, como a economia narrativa, as pitadas de humor negro que permeiam seus filmes e a notável capacidade de criar cenas marcantes. Tudo isso pode ser encontrado no ótimo “Fargo”, longa que certamente merece um lugar de destaque entre os inúmeros trabalhos interessantes dos Coen, o que não é pouco, considerando a vasta e qualificada filmografia da dupla.

Sob a superfície de thriller de suspense e investigação policial, o roteiro de “Fargo” (escrito, como de costume, pelos próprios Ethan e Joel Coen) narra à história do desesperado Jerry (William H. Macy), um gerente de uma revendedora de automóveis que enfrenta dificuldades financeiras e resolve planejar o sequestro da própria esposa Jean (Kristin Rudrüd). O problema é que as coisas não saem tão bem quanto o planejado e, quando os sequestradores Carl (Steve Buscemi) e Grimsrud (Peter Stormare) cometem vários assassinatos, a determinada policial Marge (Frances McDormand) começa a investigar o caso.

Responsáveis não apenas pelo roteiro, direção e produção, como também pela montagem de “Fargo” sob o nome fictício de Roderick Jaynes, os Coen confirmam a habilidade de manter o espectador atento aos intrigantes acontecimentos que se sucedem, conduzindo a narrativa de maneira direta e eficiente. Repleto de diálogos interessantes, o criativo roteiro abre um leque de possibilidades a cada instante, sempre trabalhando de maneira brilhante como o acaso influencia em nossas vidas. Só que, ao contrário dos personagens que jamais conseguem prever o que acontecerá em seguida, os Coen demonstram controle total sobre o que vemos na tela, criando momentos absolutamente eletrizantes (que voltarei a abordar em instantes) em meio ao mar de tranquilidade da pacata cidade de Brainerd. Entretanto, apesar de todo o suspense, “Fargo” também é recheado com muito humor negro, apresentando uma série de momentos hilários que servem para quebrar a tensão crescente da narrativa, como quando Jean sai correndo amarrada na chegada ao cativeiro ou na engraçada entrevista de Marge com as prostitutas.

Apostando na violência gráfica, como na cena do assassinato do policial, na entrega do dinheiro num hotel e na prisão de Grimsrud, os Coen criam uma cadeia de acontecimentos que só pioram a situação de Jerry e, justamente por mostrarem os trágicos resultados de seus atos, fazem com que o espectador se importe com o destino dos personagens. Entretanto, apesar de funcionar muito bem como thriller, “Fargo” apoia-se no humor negro para abordar outras questões, funcionando como um estudo sobre o estilo de vida daquela região peculiar dos EUA. Investindo em cores gélidas e explorando com maestria a crueza das vizinhas regiões de Minnesota e North Dakota, repletas de estradas rodeadas pela neve que se misturam à linha do horizonte e criam um visual ao mesmo tempo belo e assustador, a fotografia do ótimo Roger Deakins é crucial para ilustrar a solidão das pessoas que vivem no local. Este isolamento colabora até mesmo para aumentar a tensão em momentos chave da narrativa, como na noite dos assassinatos, onde sabemos que os inocentes que cruzam o caminho dos sequestradores raramente escaparão com vida naquela estrada fria e abandonada. Aliás, esta cena de perseguição está entre os grandes momentos do longa, fazendo o espectador grudar na cadeira enquanto acompanha seu desfecho.

Vestindo ternos sóbrios ou roupas que transmitem uma imagem austera (figurinos de Mary Zophres), os personagens de “Fargo” representam a força central da narrativa. Com seus sotaques arrastados e diálogos afiados que denunciam a maneira engraçada de falar, até mesmo coadjuvantes com pequenas participações transformam-se numa atração à parte, como o Sr. Mohra (Bain Boehlke), que nos delicia contando como ouviu do embriagado Carl onde ele estaria escondido. Por outro lado, esta graça dificilmente será percebida por um espectador que não tenha pelo menos alguma noção de inglês (seria como tentar explicar para um estrangeiro a graça de um sotaque de qualquer região do Brasil).

Divertida também é a atuação de Peter Stormare como Grimsrud, o parceiro mudo e ameaçador de Carl – que, como de costume, é interpretado com maestria por Steve Buscemi, um verdadeiro especialista na arte de viver criminosos. Surgindo frágil e hesitante na maior parte do tempo, o Jerry do ótimo William H. Macy parece incapaz de se impor em qualquer diálogo, parando de falar ao menor sinal de que será interrompido e gaguejando diversas vezes, num claro sinal de falta de confiança que o ator demonstra muito bem. Este sentimento, aliado à determinação do personagem de buscar uma saída para cada obstáculo que surge (e são muitos), é essencial para o desenvolvimento da narrativa, já que raramente podemos prever os próximos passos do personagem. Mas se todo o elenco tem um ótimo desempenho, o grande destaque é mesmo Frances McDormand, que confere enorme carisma e uma simplicidade desconcertante à Marge, uma mulher grávida de sete meses que se dedica ao trabalho e a família com a mesma intensidade, chamando a atenção sempre que entra em cena graças também ao ótimo desempenho da atriz. É ela quem acalma o espectador com seu raciocínio simples e sua forma direta de resolver os problemas, algo que fica claro, por exemplo, em sua visita ao escritório de Jerry e em sua conversa com um velho amigo da faculdade.

E voltamos então aos momentos eletrizantes, marca registrada dos Coen que não poderia faltar em “Fargo”. Entre tantos grandes momentos, vale destacar a excelente cena do sequestro, na qual vemos Jean paralisada diante da imagem do sequestrador que olha pela janela pra dentro da casa. Repare como Joel conduz a cena com precisão, investindo no humor negro para aliviar a tensão – afinal, só mesmo num filme dos Coen um sequestrador andaria calmamente pela casa procurando uma pomada enquanto a vítima, após tentar se esconder, sai enrolada numa cortina e se estatela no chão. Igualmente, a forma como o grandalhão Grimsrud tenta se desvencilhar do corpo do comparsa no terceiro ato chega a ser simultaneamente cômica e trágica.

O que nunca é trágico é o resultado do trabalho dos Coen, que, mesmo quando não acertam em cheio, conseguem realizar ótimos filmes. Quando estão inspirados então, o resultado só pode ser espetacular, e é isto que acontece em “Fargo”, um filme tenso e divertido, que conta com um elenco talentoso para se tornar um dos melhores exemplos do que os Coen são capazes.

Texto publicado em 28 de Outubro de 2012 por Roberto Siqueira

Videoteca do Beto: novas aquisições

A solitária novidade da Videoteca em DVD:

Melhor é Impossível (1997)

Um abraço.

Texto publicado em 25 de Outubro de 2012 por Roberto Siqueira

A MÚMIA (1999)

(The Mummy)

Filmes em Geral #92

Dirigido por Stephen Sommers.

Elenco: Brendan Fraser, Rachel Weisz, John Hannah, Arnold Vosloo, Kevin J. O’Connor, Oded Fehr, Jonathan Hyde, Erick Avari, Bernard Fox, Omid Djalili e Patricia Velasquez.

Roteiro: Stephen Sommers.

Produção: Sean Daniel e James Jacks.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apostar na mistura de ação e bom humor tornou-se algo comum na indústria de Hollywood, quase como um mantra que deve ser seguido à risca nos filmes de aventura. O problema é que, infelizmente, não é toda hora que surge um Steven Spielberg e seu “Os Caçadores da Arca Perdida”, filme que influenciou nove entre cada dez produções que surgiram no gênero nos últimos trinta anos. Entretanto, nem tudo está perdido neste “A Múmia”, de Stephen Sommers, que, apesar da irregularidade, acerta justamente pelo tom leve e descontraído empregado pelo diretor.

Escrito pelo próprio Sommers, “A Múmia” conta a história de um grupo de arqueólogos que, liderados por Rick O’Connell (Brendan Fraser) e Evelyn Carnahan (Rachel Weisz), trazem acidentalmente o lendário Faraó Imhotep (Arnold Vosloo) de volta à vida, séculos após este sofrer o terrível castigo de ser mumificado vivo em Hamunaptra, a lendária cidade dos mortos. Surgindo de maneira curiosa através de uma brincadeira que transforma o logo da Universal no sol (assim como nos filmes de Indiana Jones, nos quais o logo da Paramount era alvo de brincadeiras similares), a narrativa inicia através de um travelling que nos leva ao Egito antigo e seus cenários imponentes, seguido pela excelente introdução que, em poucos minutos, nos revela a origem da lendária história de Imhotep e, numa elegante transição de três mil anos através de uma estátua, nos traz para o tempo em que se passará a narrativa, captando imediatamente a atenção da plateia.

Empregando acertadamente um tom de autoparódia que jamais se leva a sério, Sommers alterna entre momentos empolgantes e insossos que tornam a narrativa bastante irregular. Além disso, o diretor falha em algumas tentativas pouco inspiradas de provocar o riso, como a negociação entre Evelyn e Hassan (Omid Djalili) sobre a porcentagem de cada um durante o enforcamento de O’Connell, errando ainda ao investir no eterno clichê do casal que se estranha inicialmente e depois se apaixona – neste caso, ao menos Evelyn dá sinais de que gosta de Rick desde o principio. Por outro lado, o diretor se sai bem em outros inúmeros momentos engraçados e também nas sequências de ação, empregando um ritmo intenso que prende a atenção do espectador, além de demonstrar habilidade na criação de planos interessantes, como no imponente muro de areia comandado por Imhotep no deserto ou aqueles que revelam toda a riqueza escondida no submundo da região de Hamunaptra.

Apesar de sua clara inspiração em Indiana Jones, “A Múmia” peca ao não seguir algo que conferia bastante realismo aos filmes do famoso arqueólogo, já que Sommers prefere deixar de lado as trucagens e abusa do CGI, diminuindo, por exemplo, o impacto dos insetos que surgem em diversos momentos, já que sabemos que os atores estão contracenando com imagens criadas em computador. Aliás, Sommers não parece prezar pela verossimilhança, tentando nos fazer acreditar que, três anos depois, durante a noite e a muitos metros de distancia, o guardião Bay (Oded Fehr) reconheceria Rick no deserto, ou então que, no extenso terceiro ato, a Múmia hesitaria diante da indefesa Evelyn mesmo estando tão próxima de ressuscitar sua amada Anck Su Namun (Patricia Velasquez).

Utilizando cores quentes nas áridas sequências que exploram a beleza do deserto e iluminando muito bem os ambientes fechados para colaborar na criação da atmosfera de suspense, a fotografia de Adrian Biddle reflete a alternância entre suspense e bom humor da narrativa, algo ressaltado também pela empolgante trilha sonora do ótimo Jerry Goldsmith. Por sua vez, os figurinos de John Bloomfield conferem realismo ao que vemos na tela e colaboram na imersão do espectador, assim como os imponentes cenários (direção de arte de Giles Masters, Tony Reading, Clifford Robinson e Peter Russell) e o ótimo design de som. E finalmente, a montagem de Bob Ducsay é essencial para que as cenas de ação funcionem, alternando com agilidade entre os planos sem deixar a plateia confusa.

Também apresentado numa sequência empolgante, Richard O’Connell mostra suas credenciais logo de cara com seu sorriso canastrão, evidenciando que a seriedade não é um traço forte de sua personalidade. Da mesma forma, Fraser deixa claro desde então que as performances caricaturais predominarão na narrativa, entretanto, mesmo abusando das expressões exageradas, ele se sai bem como protagonista, conduzindo a trama e criando empatia com a heroína interpretada por Weisz. Também apresentada numa sequência divertida onde, após derrubar toda a biblioteca em que trabalha, um diálogo expositivo nos explica sua origem, Evelyn surge como uma jovem inteligente, destemida e curiosa, numa combinação que se torna ainda mais perigosa graças ao jeito atrapalhado e gracioso da bibliotecária. Não é à toa, aliás, que a personagem de Rachel Weisz tem esta profissão, funcionando como guia para que o espectador compreenda a importância das descobertas do grupo e a história por trás de cada objeto encontrado nas lendárias terras egípcias – repare como Evelyn surge constantemente explicando algo que leu sobre os lugares ou os artefatos encontrados. Claramente se divertindo no papel, Weisz se sai bem e agrada em diversos momentos, ainda que evidencie sua falta de talento esporadicamente, como quando Evelyn fica bêbada no deserto.

Aparecendo pela primeira vez numa tentativa barata de assustar o espectador, o Jonathan de John Hannah surge repentinamente (e acompanhado pela alta trilha sonora) de um sarcófago e já indica que funcionará como alívio cômico, algo que de fato acontece praticamente o tempo inteiro. Da mesma forma, o Beni de Kevin J. O’Connor é responsável por arrancar risadas do espectador mesmo quando a Múmia aparece, graças ao ótimo desempenho do ator. Mas se esta abordagem leve e descontraída ajuda a tornar o longa mais agradável, por outro lado dilui a força do vilão, algo reforçado também pelas constantes aparições do personagem. Logo na introdução de Rick, por exemplo, temos uma demonstração dos perigos que a Múmia representa e, mesmo que ela volte a surgir somente uma hora depois, este breve momento já diminui o impacto de sua aparição. Contrariando a regra básica do suspense, Sommers ainda usa e abusa dos ótimos efeitos digitais para nos bombardear com diversos closes da Múmia, que sofre também com a expressão imutável de Arnold Vosloo. Obviamente, tudo isso contribui para que este não seja um vilão aterrorizante, o que é um problema grave, considerando que estamos falando de ninguém menos que o personagem título.

Seguindo a fórmula básica das aventuras, “A Múmia” diverte, mas peca em aspectos básicos que poderiam resultar num grande filme. Pelo menos, Stephen Sommers parece ter ciência disto e jamais leva seu filme muito a sério. O resultado é um passatempo agradável, mas completamente esquecível.

Texto publicado em 19 de Outubro de 2012 por Roberto Siqueira

A MÁSCARA DO ZORRO (1998)

(The Mask of Zorro)

Filmes em Geral #91

Dirigido por Martin Campbell.

Elenco: Antonio Banderas, Catherine Zeta-Jones, Anthony Hopkins, José María de Tavira, Diego Sieres, William Marquez, Stuart Wilson, Tony Amendola, Joaquim de Almeida e L.Q. Jones.

Roteiro: John Eskow, Ted Elliott e Terry Rossio, baseado em argumento dos dois últimos ao lado de Randall Johnson e inspirado em personagem criado por Johnston McCulley.

Produção: Doug Claybourne e David Foster.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Com uma abordagem leve e divertida, Martin Campbell trouxe de volta às telonas a história do lendário cavaleiro mascarado neste “A Máscara do Zorro”, uma aventura despretensiosa, mas repleta de energia e personagens interessantes, que conta com um bom elenco e ótimas tiradas do roteiro para cumprir seu propósito e, justamente por não se levar muito a sério, nos divertir bastante.

Escrito por John Eskow, Ted Elliott e Terry Rossio, baseado em argumento dos dois últimos ao lado de Randall Johnson e inspirado em personagem criado por Johnston McCulley (ufa!), “A Máscara do Zorro” tem início quando o mexicano Don Diego de la Vega, o Zorro (Anthony Hopkins), desafia a tirania do espanhol Don Rafael (Stuart Wilson) durante uma execução pública, mas tem sua verdadeira identidade descoberta numa invasão domiciliar que resulta na morte de sua esposa Esperanza (Julieta Rosen). Pra piorar a situação, ele é obrigado a ver o rival levar sua filha recém-nascida Elena (Catherine Zeta-Jones) e vai parar na prisão. Vinte anos mais tarde, ele consegue escapar e encontra o jovem ladrão Alejandro Murrieta (Antonio Banderas), a quem adota como pupilo e treina para ser o novo Zorro.

Desde sua empolgante sequência de abertura, “A Máscara do Zorro” conquista a atenção do espectador, sugando-o pra dentro da história enquanto apresenta seu personagem principal, num espetáculo circense que culmina no lindo plano em que Zorro se despede do publico em seu cavalo negro com o pôr do sol ao fundo. Aliás, o diretor Martin Campbell demonstra um cuidado especial na composição de diversos planos impressionantes, como no “Z” escrito em fogo no terreno próximo à casa de Don Rafael ou na impressionante explosão da mina em El Dorado. Além disso, o diretor conduz com surpreendente sutileza momentos melancólicos como a morte de Esperanza, introduzindo até mesmo interessantes rimas narrativas, como quando Don Diego segura a filha diante da mira das armas dos guardas exatamente como fizera com sua esposa vinte anos atrás ou na sequência final em que Zorro narra a história para o filho da mesma forma que Don Diego havia feito com Elena, saindo-se bem ainda ao inserir brincadeiras sutis, como, por exemplo, quando Don Diego diz para Alejandro que em breve ele terá seu inimigo Love (Matt Letscher) em seu círculo – se referindo ao momento em que poderá se vingar do sujeito – e, algum tempo depois, o jovem atinge o adversário pela primeira vez justamente num duelo em cima de uma mesa redonda de jantar.

Campbell também balanceia muito bem as cenas de ação com momentos bem humorados, o que é sempre uma mistura eficiente em filmes do gênero, divertindo-se em diversos instantes como no golpe que introduz a gangue de Alejandro Murrieta e no treinamento dele. E apesar de não prezar pela verossimilhança, a sequência do roubo do cavalo também é divertida e muito bem coreografada, mostrando a habilidade do diretor na condução das cenas de ação. Contando com a boa montagem de Thom Noble que confere fluidez a narrativa, ele imprime energia aos importantes duelos de espada (como aquele entre Zorro, Don Rafael e Love na mansão), demonstrando habilidade até mesmo quando a cena exige uma abordagem mais sensual, no divertido duelo entre Elena e Zorro em que a dupla Banderas e Jones se sai muito bem. Aliás, as acrobacias de Zorro nas lutas e cavalgadas impressionam, assim como a condução enérgica de Campbell e seu montador, que alternam entre planos gerais, closes e até planos subjetivos que nos colocam na posição do herói.

Da mesma forma, o diretor conta com a fotografia de Phil Meheux para criar um visual obscuro na prisão e no esconderijo do Zorro que contrasta com a casa iluminada em que ele vive e até mesmo com o visual árido e sem vida das cenas em El Dorado, mas jamais carrega demais o lado sombrio, o que é coerente com a abordagem mais leve da narrativa, reforçada pela trilha sonora do ótimo James Horner, que utiliza elementos da música espanhola como as castanholas e o sapateado para embalar as cenas de ação, pontuando também os momentos românticos com belas variações da música tema. Finalmente, se “A Máscara do Zorro” consegue nos ambientar ao tempo e local em que a narrativa se passa, o mérito deve ser dividido com a figurinista Graciela Mazón, responsável pelas roupas típicas das mulheres e pelos uniformes dos homens que se destacam na festa, além é claro do visual clássico do lendário herói que respeita as tradições. Finalmente, basta observar a detalhada decoração da mesa de jantar na mansão de Don Rafael ou a imponente mina em El Dorado – apresentada num impressionante plano geral – para constatar o bom trabalho de direção de arte de Michael Atwell.

Apresentado como um ladrão andarilho que escapa da morte, o Alejandro de Antonio Banderas é um personagem cativante, o que é mérito do ator que, superando suas limitações, confere carisma ao herói. Criando conexão com a plateia através do plano detalhe de um colar que revela sua ligação emocional com o velho Zorro, o personagem rapidamente conquista a simpatia do espectador, também porque Banderas consegue criar boa empatia com Hopkins e estabelece uma excelente química com Zeta-Jones – algo notável na engraçada conversa entre Elena e Zorro no confessionário e na vibrante dança deles numa festa -, o que é essencial para o sucesso da narrativa. Aliás, a presença impotente e sensual da atriz como Elena também convence desde sua primeira aparição, chamando a atenção sempre que entra em cena – repare, por exemplo, seu olhar hipnotizante no primeiro encontro com Zorro.

Já o normalmente espetacular Anthony Hopkins dá um show na tocante conversa entre Elena e Don Diego, demonstrando a emoção contida diante da filha há tempos perdida que agora se apresenta diante dele sem que ela saiba que está falando com o verdadeiro pai – e novamente Jones não precisa de muitas palavras, indicando através do olhar confuso que Elena sente estar diante de alguém especial em sua vida, algo que, obviamente, encontra reflexo na cena inicial, quando Esperanza destaca a importância da voz do pai para a filha recém-nascida. E se o Don Rafael de Stuart Wilson e o capitão Love de Matt Letscher soam maniqueístas, este pequeno deslize é diluído pela maneira quase caricatural que os atores interpretam seus personagens – e temos até mesmo um “Don” que questiona as ações de Rafael, o que depõe contra o argumento do maniqueísmo. Fechando o elenco, L.Q. Jones rouba a cena nas poucas vezes que surge com seu Jack “três dedos”.

Apesar de construir o clímax com habilidade, Campbell escorrega ao estender demais o confronto final entre os “Zorros” e seus inimigos, tornando o duplo duelo um pouco cansativo. Em todo caso, é inegável que a morte dos vilões com barras de ouro caindo sobre eles é de um simbolismo nada sutil, porém bem divertido. E apesar da estrutura narrativa formulaica, o desfecho tem charme suficiente para agradar.

Aventura leve e despretensiosa, “A Máscara do Zorro” prova que não é necessário fazer uma analise profunda de um herói para realizar um bom filme – ainda que estes representem excelentes oportunidades para abordagens mais sérias. Existem diversas maneiras de se contar uma boa história. Para isso, basta que o filme cumpra aquilo que se propõe a fazer. E isto o longa de Campbell faz muito bem.

Texto publicado em 18 de Outubro de 2012 por Roberto Siqueira

Frankenstein de Mary Shelley

Continuando a semana das lendas, informo que transformei em crítica os comentários divulgados anteriormente sobre “Frankenstein de Mary Shelley”. Para ler a crítica, basta clicar aqui.

Um abraço.

Texto publicado em 17 de Outubro de 2012 por Roberto Siqueira

DRÁCULA DE BRAM STOKER (1992)

(Dracula)

Filmes em Geral #89

Dirigido por Francis Ford Coppola.

Elenco: Gary Oldman, Winona Ryder, Anthony Hopkins, Keanu Reeves, Richard E. Grant, Cary Elwes, Bill Campbell, Sadie Frost, Tom Waits, Monica Bellucci e Jay Robinson.

Roteiro: James V. Hart, baseado em romance de Bram Stoker.

Produção: Francis Ford Coppola, Fred Fuchs e Charles Mulvehill.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O mínimo que podemos esperar de um filme dirigido por Francis Ford Coppola é o cuidado com os detalhes que ajudam a criar um visual marcante. Seja em filmes de época com grandes orçamentos como “O Poderoso Chefão” ou em filmes menores (mas nem por isso menos qualificados) como a pérola “A Conversação”, o cuidado com o aspecto visual sempre foi uma marca do diretor. O problema é que na maioria das vezes Coppola também se preocupava com a composição dos personagens e a condução da narrativa, algo que, infelizmente, não ocorre de maneira tão eficiente neste “Drácula de Bram Stoker”, um filme visualmente belo, mas emocionalmente vazio.

Baseado no mítico romance de Bram Stoker, o roteiro escrito por James V. Hart é bastante fiel à obra que o inspirou (o que certamente agradou aos fãs), narrando a história desde os tempos em que o guerreiro Drácula (Gary Oldman) se revolta contra Deus após o suicídio de sua esposa até quando o advogado Jonathan Harker (Keanu Reeves) fica aprisionado em seu imponente castelo, enquanto ele parte para Londres em busca de Mina (Winona Ryder), a noiva de Harker que Drácula acredita ser a reencarnação de sua amada.

Historicamente, a lenda do Drácula costuma provocar fascínio, misturando elementos díspares com o terror, a sensualidade e o amor. Ciente disso, Coppola investe nestes elementos clássicos, deixando clara sua preferência pelo “amor”, numa estratégia que busca romantizar o vampiro e justificar suas ações diante do espectador. Só que desta vez ele comete um erro raro em sua carreira e perde a mão, exagerando na abordagem romântica e enfraquecendo o lado sombrio da narrativa. Além disso, a caracterização do Drácula soa exagerada, com sua maquiagem carregada passando do ponto ideal, mas felizmente a boa atuação do excelente Gary Oldman compensa esta falha. Inicialmente limitado ao papel de vampiro assustador, lentamente Oldman transforma o Drácula num personagem carismático, conseguindo a proeza de fazer o espectador torcer por ele em alguns momentos e fazendo jus a fama de sedutor do personagem.

Enquanto isso, o quase sempre inexpressivo Keanu Reeves até que se sai bem inicialmente, mas é totalmente ofuscado diante da presença de Anthony Hopkins do segundo ato em diante, que assume muito bem a função de herói e rouba a cena com seu Van Helsing. Pra piorar, mesmo com cabelo grisalho e tudo mais, o envelhecimento de Reeves não convence graças ao seu rosto juvenil. O ator também não consegue estabelecer boa química com a bela Winona Ryder, que exala a delicadeza necessária no papel e se sai bem melhor ao lado de Gary Oldman. Fechando o elenco, vale citar a caricata atuação de Tom Waits como o lunático Renfield e o desempenho selvagem de Sadie Frost como Lucy, que cai muito bem no papel.

Mas “Drácula de Bram Stoker” também tem suas qualidades. A começar pela competente direção de arte de Andrew Precht e pelos figurinos impecáveis de Eiko Ishioka que reforçam a ambientação do espectador e colaboram na criação de um visual marcante. Apoiando-se neste bom trabalho e na fotografia repleta de tons avermelhados de Michael Ballhaus, Coppola cria diversos planos estilizados, abusando também de recursos como a aceleração da imagem, criando um visual sombrio, normalmente reforçado pela chuva e pelo vento, que se torna ainda mais expressivo pelo uso constante da sensualidade feminina numa trama que naturalmente já é carregada de conotação sexual. Aliás, vale reparar também como a fotografia colorida das cenas que envolvem Mina contrasta bastante com os tons obscuros na Transilvânia, onde até mesmo as sombras ganham vida. Finalmente, o diretor não se esquece de homenagear os filmes antigos do famoso vampiro, fazendo referência ao clássico “Nosferatu”, de 1922, e a outros filmes clássicos, por exemplo, na aula do professor Van Helsing e ao utilizar uma paleta granulada na chegada de Drácula em Londres, numa alusão aos tempos da moviola.

A estilização visual continua através da montagem de Anne Goursaud, Glen Scantlebury e Nicholas C. Smith, que abusa de transições interessantes, como quando a pluma de um pavão se transforma no túnel de um trem ou quando os furos no pescoço de Lucy dão lugar aos olhos de um lobo. E ainda que possam parecer datados atualmente, os efeitos especiais funcionam na verdade como outra grande homenagem ao cinema antigo, com trucagens, maquetes e pinturas de fundo que tornam o aspecto visual de “Drácula de Bram Stoker” ainda mais impressionante. Fechando a parte técnica, a trilha sonora de Wojciech Kilar alterna bem entre os tons macabros, como quando o navio que traz Drácula chega a Londres, e os momentos melódicos, como no belo encontro entre Mina e Drácula num quarto.

Voltamos então ao problema central de “Drácula de Bram Stoker”. Talvez pela boa química existente nas cenas que envolvem Ryder e Oldman, Coppola acaba investindo demasiadamente neste lado romântico, enfraquecendo outro aspecto muito importante da narrativa, que é o lado sombrio do vampiro. Até mesmo a frase que promoveu o filme denuncia esta abordagem excessivamente melódica (“O amor nunca morre”), mas estes momentos adocicados demais acabam esvaziando o longa, ainda que em certos momentos Coppola consiga sucesso em sua abordagem, como quando Drácula diz para Mina que a ama demais para condená-la. Reequilibrando a conta, o decepcionante terceiro ato traz uma perseguição que jamais empolga e um final seco demais, impedindo que Coppola entregue um trabalho a altura de sua brilhante carreira. Ainda assim, trata-se de um bom filme.

Grandioso e operístico como um filme de Coppola deve ser, “Drácula de Bram Stoker” é um deleite para os olhos, mas funciona exatamente como aquela moça bonita que perde seu encanto após meia hora de conversa. Infelizmente, beleza não é tudo.

Texto publicado em 16 de Outubro de 2012 por Roberto Siqueira