O TERCEIRO HOMEM (1949)

(The Third Man)

 

 

Filmes em Geral #75

Dirigido por Carol Reed.

Elenco: Joseph Cotten, Orson Welles, Alida Valli, Trevor Howard, Bernard Lee, Ernst Deutsch, Siegfried Breuer, Erich Ponto e Wilfrid Hyde-White.

Roteiro: Graham Greene, baseado em história de Graham Greene e Alexander Korda.

Produção: Carol Reed, Alexander Korda e David O. Selznick.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Afirmar que “O Terceiro Homem” é um dos grandes filmes noir do período clássico não é nenhuma novidade. A obra-prima dirigida por Carol Reed é mais do que isso. É também um dos grandes filmes da primeira metade do século passado, misturando numa mesma história conflitos políticos, amor, amizade e assassinato e, além disto, apresentando uma narrativa envolvente, que prende o espectador desde os primeiro momentos até o seu empolgante e, ao mesmo tempo, melancólico final.

Escrito por Graham Greene, baseado em história dele próprio com Alexander Korda, “O Terceiro Homem” usa a guerra fria (e seus conflitos políticos) como pano de fundo para uma trama empolgante e repleta de nuances, que narra história de Holly Martins (Joseph Cotten), um escritor americano que chega a Viena logo após a segunda guerra e descobre que seu amigo Harry (Orson Welles) foi morto. Ele decide então investigar o caso e passa a desconfiar das explicações desencontradas dos amigos de Harry para sua morte, ao mesmo tempo em que se apaixona por Anna (Alida Valli), uma atriz que vivia um caso com seu amigo.

Auxiliada ainda pela montagem dinâmica de Oswald Hafenrichter, a narrativa de “O Terceiro Homem” mistura muito bem romance, amizade e traição, abordando ainda questões sociais, através das crianças mortas pela ganância de Harry. Por isso, o coeso roteiro é um dos destaques desta verdadeira obra-prima, prendendo o espectador logo aos 5 minutos de filme, quando Holly chega a Viena e descobre que Harry está morto. Esta atmosfera melancólica, provocada pelo sentimento de perda de Holly (e Anna), lentamente é substituída por um clima de desorientação, especialmente porque a história contada pelos amigos de Harry não nos convence e, desde então, passamos a desconfiar de sua morte – e esta sensação é reforçada pelos olhares desconfiados das pessoas na rua quando o primeiro amigo dele conta para Holly o que aconteceu. Além disso, o fato das pessoas falarem o idioma local também colabora, funcionando como um interessante elemento de suspense, pois em muitos momentos não sabemos (assim como Holly não sabe) o que aquelas pessoas estão falando.

Inicialmente mais leve e clara, a fotografia de Robert Krasker dá lugar ao visual sombrio que domina a narrativa do segundo ato em diante, culminando no obscuro e tenso final nos esgotos de Viena. Este elemento, somado à tensão crescente da narrativa, cria uma atmosfera pesada, característica dos filmes noir. Aliás, a trama noturna envolvendo um crime, os personagens ambíguos e o caráter duvidoso do protagonista (que se apaixona pela mulher do melhor amigo, por exemplo) são elementos básicos do film noir, assim como os ambientes fechados, com escritórios e apartamentos (direção de arte de Vincent Korda, John Hawkesworth, Joseph Bato e Dario Simoni), e a própria forma de se vestir de Holly (figurinos de Ivy Baker).

Quem também reforça o clima sombrio é a fabulosa trilha sonora de Anton Karas (um músico amador local), toda tocada numa cítara, que reflete a melancolia das ruas da Viena do pós-guerra e embala o drama do protagonista, dividido entre descobrir quem matou o amigo e conquistar a mulher que amava. E finalmente, como em todo film noir, o expressionismo alemão tem forte influência em “O Terceiro Homem”, e o momento em que esta influência fica mais clara acontece quando Holly foge numa escada espiral dos capangas de Popescu, num plano marcante em contra-plongèe que reflete o labirinto em que ele se meteu ao se envolver naquela situação.

Mas mesmo com tantos indícios contrários, Holly só confirma o caráter duvidoso de seu amigo Harry na sensacional conversa na roda gigante, num momento marcante de Welles que, com poucos minutos em cena, cria um personagem inesquecível. Alida Valli também se destaca, conferindo humanidade à sua Anna ao mesmo tempo em que demonstra o quanto à paixão que ela sente a impede de ver os defeitos de Harry. E finalmente, Joseph Cotten expõe muito bem o drama de Holly, um personagem dividido e ambíguo, que caminha na linha entre o respeito pela memória do amigo, lutando para descobrir quem o matou, e a força da paixão que o devora, lutando para resistir ao sentimento que cresce dentro dele em cada momento ao lado de Anna. Com o passar do tempo, Holly não consegue esconder este sentimento, o que o leva ao momento crucial em que aceita trocar a vida de Harry pela liberdade de Anna, após uma comovente visita ao hospital, repleto de crianças prejudicadas pela penicilina alterada de Harry.

Mas como entregar um amigo morto? A verdade é que Harry não estava morto, e esta revelação vem no momento mais genial da direção de Carol Reed, quando Holly e Anna estão desolados no apartamento dela, após descobrirem os crimes cometidos por ele. Repare na condução perfeita da cena, com uma frase aparentemente sem importância da garota envolvendo um gato funcionando como elemento indicador da maior reviravolta da trama. A câmera acompanha o gato saindo pela janela e indica a aproximação de um homem, que, em instantes, revelará sua identidade e chocará a platéia (e confesso que, talvez por ter assistido alguns filmes mais novos com este tipo de reviravolta, cheguei a pensar nesta possibilidade algumas vezes durante a narrativa, o que não me impediu de sentir o impacto da cena e, principalmente, imaginar como foi a reação da platéia na época do lançamento do filme). Pra encerrar com chave de ouro, Reed ainda nos entrega uma empolgante perseguição nos esgotos de Viena, conduzida com energia e encerrada num momento emblemático, em que os amigos se olham antes do disparo fatal que finalmente mata Harry.

Com muitos elementos básicos dos filmes noir, mas também com um roteiro excepcional, atuações convincentes e uma direção muito segura, “O Terceiro Homem” se estabelece como um filme memorável, capaz de resistir ao tempo como somente os grandes filmes conseguem fazer.

Texto publicado em 23 de Novembro de 2011 por Roberto Siqueira

Pacto de Sangue

Continuando a semana Film Noir, informo que transformei em crítica os comentários divulgados anteriormente sobre “Pacto de Sangue”. Para ler a crítica, basta clicar aqui.

Um abraço.

Texto publicado em 22 de Novembro de 2011 por Roberto Siqueira

O FALCÃO MALTÊS (1941)

(The Maltese Falcon)

 

Filmes em Geral #73

Dirigido por John Huston.

Elenco: Humphrey Bogart, Mary Astor, Gladys George, Peter Lorre, Barton MacLane, Lee Patrick, Sydney Greenstreet, Ward Bond e Jerome Cowan.

Roteiro: John Huston, baseado em livro de Dashiell Hammett.

Produção: Henry Blanke e Hal B. Wallis.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Não bastasse ser um dos mais conhecidos representantes do film noir, “O Falcão Maltês” ainda pavimentou o caminho de sucesso de dois importantes nomes da história do cinema: John Huston e Humphrey Bogart (que estrelaria “Casablanca” um ano depois). Além disso, a intrincada e deliciosa narrativa, que mistura momentos sarcásticos com outros de puro suspense, estabeleceu padrões que seriam seguidos por muitos dos filmes posteriores, definindo também características clássicas do gênero, como os personagens ambíguos, os ambientes obscuros (inspirados no expressionismo alemão) e a mulher fatal.

Dirigido por John Huston, “O Falcão Maltês” apresenta todas as características marcantes do film noir – apontadas pelos críticos franceses que estudaram o movimento -, como os detetives de caráter duvidoso, os ambientes fechados e o predomínio de cenas noturnas (direção de fotografia de Arthur Edeson), a trama policial e, obviamente, a narrativa que gira em torno de algum crime. No caso, o detetive particular Sam (Humphrey Bogart) é procurado por Brigid O’Shaughnessy sob a alegação de que a moça está sendo ameaçada. Só que tanto o seu perseguidor como a pessoa contratada para protegê-la aparecem mortas e a investigação começa a levantar suspeita de praticamente todos os envolvidos.

O roteiro intrincado do próprio John Huston, baseado em livro de Dashiell Hammett, desenvolve a trama com cuidado, nos levando lentamente para a tensa conclusão, mas já fisgando o espectador logo no início, com a morte do parceiro de Sam. Da mesma forma, Huston tem o cuidado de não tornar os personagens unidimensionais, deixando sempre uma dúvida no ar sobre o caráter de cada um deles. Através da linguagem despojada, cheia de gírias, e de atitudes ambíguas de praticamente todos os personagens, Huston jamais permite ao espectador antecipar o que acontecerá na trama, o que só colabora para que a narrativa se torne cada vez mais tensa e imprevisível.

Os figurinos de Orry-Kelly e os ambientes fechados e sombrios (direção de arte de Robert M. Haas) colaboram com esta atmosfera tensa, além de criarem o visual marcante e obscuro pretendido pelo diretor. A imagem do detetive vestido com chapéu e sobretudo, fumando um charuto e bebendo uísque é uma das marcas registradas dos chamados filmes noir e “O Falcão Maltês” é um dos responsáveis por isto. É interessante notar também como todas as ações dos personagens levantam suspeitas contra eles próprios – em outra marca registrada do movimento evidente no longa. Observe, por exemplo, como muitos indícios espalhados pela trama nos levam a crer que o próprio Sam teria assassinado o parceiro Miles (Jerome Cowan), como o beijo dele em Iva (Gladys George) – a viúva de Miles -, a própria sociedade que eles dividiam no escritório (que justificaria um suposto interesse dele na parte do parceiro) e, principalmente, o comportamento ambíguo do protagonista, capaz de chantagear uma cliente teoricamente abalada como a Srta. O’Shaughnessy.

Sempre seguro e impondo respeito, Bogart só reforça esta natureza ambígua do personagem, soando convicto em suas afirmações mesmo quando os indícios sugerem que ele pode estar mentindo. Sedutor com as mulheres e misterioso diante das autoridades, Sam é o típico personagem central dos filmes noir e, entre tantos momentos de destaque, vale mencionar sua explosão numa discussão com a polícia, em que ele sai rindo da sala, mas com as mãos tremulas, confirmando seu nervosismo diante daquela situação. E não é apenas Sam que apresenta uma personalidade ambígua. Praticamente todos os personagens soam misteriosos em determinado momento, desde Iva e seu caso escondido com Sam, passando por Cairo (interpretado pelo ótimo Peter Lorre), Brigid e o próprio detetive Dundy (Barton MacLane). A sensação que temos é a de que todos parecem esconder algo.

Esta sensação não surge por acaso. John Huston faz questão de criar diversos momentos que nos colocam em dúvida a respeito do caráter dos personagens, o que só favorece o suspense criado, reforçado pela trilha sonora de Adolph Deutsch. Desta forma, fica difícil prever para onde a narrativa esta indo, o que, neste caso, só torna o filme ainda mais agradável. Ainda assim, a revelação final de que Brigid é a assassina não chega a surpreender, mas amarra bem a trama.

Empregando um ritmo agradável ao longa, graças à montagem de Thomas Richards, e criando ainda momentos interessantes, como quando a câmera simula o olhar embaçado de Sam antes de um desmaio, John Huston mostra muita competência atrás das câmeras e entrega um filme memorável. E hoje, muitos anos depois do lançamento de “O Falcão Maltês”, nós sabemos que ele fez mais do que isto. Huston entregou um dos filmes mais respeitados da história do cinema.

Texto publicado em 21 de Novembro de 2011 por Roberto Siqueira

Semana Filme Noir

Olá pessoal,

Depois do expressionismo alemão, da nouvelle vague e da nova Hollywood, chega à vez do film noir ter uma semana especial no Cinema & Debate. Por isso, divulgarei nos próximos dias cinco críticas de filmes noir, que, como sempre, não são aqueles que eu considero os melhores do movimento. Como sabem, não tenho a pretensão de criar um ranking com os melhores filmes do gênero, apenas avaliar cinco longas que me agradam. Destes cinco filmes, quatro pertencem ao período clássico do gênero e um claramente bebeu na fonte noir, ainda que muitos anos depois.

Aproveito também para lançar a página “Film Noir”, que você pode acessar na página inicial (lado direito da tela), onde analiso rapidamente o movimento e suas principais características.

Um grande abraço.

Texto publicado em 20 de Novembro de 2011 por Roberto Siqueira

Em breve…

Olá pessoal,

Sei que estou em dívida com vocês e esta situação já se arrasta por alguns meses. Na verdade, depois que ganhei os ingressos para o Rock in Rio, meu ritmo de divulgação de posts diminuiu bastante, por razões que já expliquei anteriormente. A boa notícia é que no último mês eu consegui retomar o ritmo pelo menos no que se refere aos filmes assistidos.

O reflexo disto vocês verão em breve, provavelmente já à partir do próximo domingo, quando devo divulgar a próxima semana especial (que vocês podem imaginar qual é pelo filme em cartaz na página principal). Em seguida, devemos ter a volta da Videoteca com o ano de 1995. Aprendi que é melhor não prometer nada do que prometer e não cumprir. Mas espero conseguir cumprir este planejamento.

Enquanto isto, deixo vocês com a dica de um ótimo texto sobre “Friends”, escrito por meu primo Thiago. Voltei a assistir a série recentemente junto com a Dri (como sabem, ganhei a coleção completa no dia dos pais), alguns anos após acompanhar cada episódio pela TV a cabo. E mesmo na segunda visita, a série continua engraçada e empolgante, o que só comprova sua qualidade. Está sendo muito bom rever “Friends” junto com a Dri e esta é apenas mais uma razão para a diminuição dos posts por aqui.

Mas esta fase está chegando ao fim, por isso, só peço que tenham paciência. Você, leitor, continua sendo a prioridade aqui no Cinema & Debate.

Um grande abraço e até breve.

Texto publicado em 13 de Novembro de 2011 por Roberto Siqueira

30 anos

Neste dia especial, só posso agradecer a Deus, a minha família e aos meus amigos por estes 30 anos de alegrias. Que seja apenas o começo da minha caminhada.

E com meu aniversário de 30 anos se aproximando, a lembrança do vídeo abaixo se tornou inevitável:

Mas tudo bem, a vida está só começando, não é mesmo?

Obrigado a todos!

PS: Parabéns ao meu primo e grande amigo Thiago, que fez aniversário ontem. Que Deus te abençoe sempre!

Texto publicado em 06 de Novembro de 2011 por Roberto Siqueira

A BELA E A FERA (1991)

(Beauty and the Beast)

 

Videoteca do Beto #119

Dirigido por Gary Trousdale e Kirk Wise.

Elenco: Vozes de Paige O’Hara, Bobby Benson, Richard White, Jerry Orbach, David Ogden Stiers, Angela Lansbury, Bradley Pierce, Rex Everhart, Jesse Corti, Hal Smith, Jo Anne Worley e Mary Kay Bergman.

Roteiro: Linda Woolverton, baseado em história de Roger Allens.

Produção: Don Hahn.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A animação já fazia parte de um passado glorioso e distante quando os animadores da Disney injetaram ânimo no estúdio com “A Pequena Sereia”, que resgatava algumas das principais características das grandes animações. Baseado numa fábula e embalado pelo sucesso das músicas de Alan Menken, o longa preparou o terreno para que novas obras marcantes surgissem. E a primeira delas foi “A Bela e a Fera”, que também conta com a inspiração dos animadores e as canções de Menken para nos contar uma história encantadora, resgatando definitivamente a aura mágica dos filmes da era de ouro da Disney.

Inspirado no conto de fadas de Roger Allens, “A Bela e a Fera” conta a história de Bela (voz de Paige O’Hara), uma garota entediada com a vida provinciana de uma pequena cidade francesa, onde vive também o galã Gastón (voz de Richard White) que, apesar de derreter os corações das outras meninas, não consegue conquistá-la com seu jeito grosseiro. Seu pai Maurice (Rex Everhart) viaja para expor uma de suas invenções e acaba preso num castelo onde vive uma temível Fera (voz de Bobby Benson), que precisa encontrar o verdadeiro amor e ser correspondido para quebrar um feitiço e voltar a ser príncipe. A oportunidade surge quando, em troca da liberdade do pai, Bela aceita ficar presa no castelo.

Apostando nas características clássicas das animações Disney, “A Bela e a Fera” surge imponente ainda em sua introdução, quando uma narração envolvente nos conta a história do príncipe transformado em Fera enquanto vemos um belo vitral que retrata o ocorrido, prendendo nossa atenção imediatamente. Assim como o conto que o inspirou, o roteiro de Linda Woolverton aborda o tema da beleza interior de forma singela, tocando o coração da platéia com a mensagem de que o verdadeiro amor enxerga além das aparências, criando ainda uma galeria interessante de personagens, desde a destemida protagonista, passando por seu atrapalhado pai, pelo fortão Gastón e seu fiel parceiro LeFou (voz de Jesse Corti) e pelos encantadores objetos que habitam o amaldiçoado castelo. Com um roteiro enxuto, os diretores Gary Trousdale e Kirk Wise, auxiliados pela montagem de John Carnochan, empregam um ritmo dinâmico, evitando fugir do fio condutor da narrativa, que é a relação entre Bela e a Fera. Por isso, as cenas envolvendo Gastón na pequena vila acertadamente ocupam pouco espaço na narrativa.

Auxiliados pela direção de arte de Brian McEntee, os talentosos animadores criam lindos cenários, o que confere ao longa um visual esplêndido, repleto de cores e belas paisagens. Entre tantos locais de destaque, vale citar a charmosa cidade criada no interior da França e o sombrio castelo em que vive a Fera, com sua arquitetura gótica e seus imponentes cômodos. Além dos cenários, os próprios personagens mantêm a qualidade da animação, com Bela, por exemplo, seguindo o padrão das princesas Disney com suas bochechas rosadas e rosto angelical. E se os traços parecem simples, vale lembrar que a maioria dos desenhos foi feita no estilo tradicional, com tinta e papel e à mão, com apenas algumas seqüências sendo feitas com auxilio de tecnologia digital. O capricho nos detalhes torna tudo ainda mais real e faz o espectador imergir na história, e os animadores aproveitam a oportunidade para criar pequenos momentos geniais, como quando a vela de Lumiere (voz de Jerry Orbach) derrete diante de uma tocha e dá a sensação de que ele está suando frio.

Com uma equipe talentosa nas mãos, os diretores Gary Trousdale e Kirk Wise aproveitam para criar belos planos, como aquele que destaca a biblioteca do castelo ou os planos gerais que apresentam a fortaleza da Fera. Vale citar também o primeiro jantar de Bela no castelo, que é um espetáculo grandioso de música, luzes e cores, embalado pelo charme francês na hora de servir e pela ótima “Be Our Guest”. Este espetáculo de cores em muitos momentos tem função narrativa, como quando Gastón canta na taverna e a cor vermelha que predomina na tela reforça a aura demoníaca do vilão. Repare também a harmonia entre a roupa rosa de Bela e a cortina no café da manhã, simbolizando que ela estava se adaptando ao castelo, algo reforçado também pela própria fotografia, que se torna mais colorida e cheia de vida, com mais cenas diurnas que antes.

Como na maioria das animações, o som também é muito bom, algo notável, por exemplo, quando o cavalo de Maurice se assusta durante uma tempestade, onde percebemos cada detalhe, desde a cavalgada assustada do animal até os raios e a própria água que toca o chão. Praticamente incessante, a trilha sonora do ótimo Alan Menken recheia a narrativa com músicas envolventes, que colaboram para o andamento da trama e funcionam como uma espécie de número musical, assim como acontece nas peças de teatro da Broadway, de onde vieram alguns dos dubladores, como a própria Paige O’Hara. Entre tantas boas canções, vale destacar a citada “Be Our Guest”, “Belle”, que nos apresenta os personagens, “Something There”, que embala o momento em que Bela começa a se apaixonar pela Fera, e a música tema “Beauty and the Beast”, cantada por Angela Lansbury na mais linda cena do longa.

Um misto de touro e cão, a Fera surge assustadora, com sua voz imponente e olhar ameaçador, ainda que os objetos que vivem no castelo confiram certa magia ao local. Com temperamento explosivo, ela tem dificuldade em seu primeiro contato com Bela, o que, apesar de clichê, funciona perfeitamente e soa verdadeiro, já que uma aproximação rápida entre eles seria totalmente artificial. E apesar da aparência nada agradável, ao longo da narrativa o espectador cria empatia pelo personagem, após acompanhar seu sofrimento na sombria ala oeste, que guarda seu segredo e a rosa com as últimas pétalas de esperança. E neste local também que Bela verá parte de seu rosto humano num quadro rasgado, talvez sem entender bem do que se trata, pois jamais ela fica sabendo da história do feitiço. Ainda quando mal se entendiam, os dois brigam e ela foge em disparada pela floresta, sendo atacada por lobos. Após ser salva, Bela faz curativos na Fera com a lareira ao fundo, num plano simbólico que representa o momento em que a chama da paixão começa a nascer na garota. Deste momento em diante, a atmosfera sombria deixa a narrativa e o romance passa a tomar conta da tela.

Seguindo o perfil do vilão tradicional com suas roupas vermelhas que reforçam a aura vil do personagem, o forte Gastón é a paixão das moças da cidade, mas não consegue encantar Bela, uma garota culta, interessada em literatura e que está longe de compartilhar a idéia de mulher ideal do “macho” Gastón. Em sua concepção, a mulher ideal é aquela que adoraria fazer comida e massagear seus pés após seu retorno das caçadas, o que, obviamente, não passa pela cabeça da protagonista. O que Bela deseja é ser bem tratada, algo que acontece no local mais improvável. É no castelo que ela encontrará gentileza, primeiro através dos adoráveis objetos com vida, que se tornam ainda mais encantadores graças ao charme francês, tão bem representado pelo relógio Cogsworth (voz de David Ogden Stiers) e pelo candelabro Lumiere, sempre preocupados em prestar um serviço de primeira – com toques leves de acordeão, a própria trilha sonora que os acompanha servindo a moça reforça a origem francesa dos personagens. E após se estranharem, é da hostil Fera que Bela receberá o tratamento que procura, sendo respeitada e reforçando o tema principal da narrativa, de que a verdadeira beleza está no interior.

Entre os momentos marcantes do casal, um merece destaque especial. Obviamente, me refiro à linda cena do jantar, seguida pela dança do casal com a música tema ao fundo. Com a ajuda de computadores, os travellings que passeiam pelo imponente salão, como aquele que inicia no lustre e vai até eles, a noite estrelada e a perfeita harmonia do casal fazem desta cena um momento marcante. Infelizmente, logo após a linda dança, Bela sente falta do pai e decide abandonar o castelo, num anticlímax que levará ao confronto entre Gastón e a Fera, além de servir como obstáculo final à concretização do amor do casal. Presa por Gastón junto com seu pai dentro de casa, ela acompanha o povo marchando para o castelo na chuva, com tochas na mão e gritos, em outra seqüência marcante, com seu visual belo e assustador, assim como é sombrio o esperado confronto entre Gastón e a Fera, que acontece à noite, sob chuva e raios e sob o olhar atento da protagonista, que consegue escapar de casa e chegar ao local.

Após a sangrenta batalha, a Fera surge praticamente morta e arranca lágrimas do espectador, num sintoma claro de que aquele romance nos conquistou. E enquanto a chuva cai, a Fera é transformada em príncipe através das palavras de amor de Bela, num final perfeito e feliz, tradicional das animações Disney e dos contos de fadas. Além disso, o espectador mata a curiosidade ao ver personagens adoráveis como Lumiere, Cogsworth e a Sra. Potts, agora como humanos, acompanhando a dança de Bela e seu príncipe. Por tudo isto, saímos com uma enorme sensação de felicidade, também porque acompanhamos uma animação que em nada deve aos grandes clássicos da Disney.

Embalado por lindas canções, “A Bela e a Fera” atinge o coração do espectador de maneira simples e eficiente, captando com competência a essência do conto de fadas que o inspirou. Com um visual lindo e personagens cativantes, foi o responsável pela restauração definitiva do tradicional departamento de animações da Disney, conseguindo levar prêmios importantes, além de uma inédita indicação ao Oscar de Melhor Filme. Por tudo isto, o longa merecidamente fez história.

Texto publicado em 02 de Novembro de 2011 por Roberto Siqueira

DURO DE MATAR 2 (1990)

(Die Hard 2)

 

Videoteca do Beto #118

Dirigido por Renny Harlin.

Elenco: Bruce Willis, William Sadler, John Leguizamo, Bonnie Bedelia, William Atherton, Reginald VelJohnson, Franco Nero, John Amos, Dennis Franz, Art Evans, Fred Dalton Thompson, Tom Bower, Sheila McCarthy e Don Harvey.

Roteiro: Steven E. De Souza e Doug Richardson, baseado em livro de Walter Wagner.

Produção: Charles Gordon, Lawrence Gordon e Joel Silver.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Depois do enorme sucesso de “Duro de Matar”, Bruce Willis estrela esta continuação dirigida por Renny Harlin, que aposta no carisma de seu personagem e em uma nova situação inusitada para criar cenas de forte impacto. Talvez enfraquecido pelos vilões claramente menos assustadores que o inteligente Hans Gruber de Alan Rickman, “Duro de Matar 2”, consegue um resultado inferior ao primeiro filme, mas ainda assim agradável.

Após assumirem o controle do aeroporto de Washington, um grupo liderado pelo coronel Stuart (William Sadler) espera a chegada do coronel Esperanza (Franco Nero), um preso político que está sendo extraditado, e ameaça derrubar aeronaves se a policia não seguir suas exigências. O problema é que Holly (Bonnie Bedelia), a esposa de John McClane (Bruce Willis), se encontra em um dos aviões e ele fará tudo que for possível para salvar a esposa.

Assim como em “Duro de Matar”, a trama de “Duro de Matar 2” se passa no natal e coloca John McClane involuntariamente no meio de uma situação de alto risco. Escrito por de Steven E. De Souza e Doug Richardson, baseado em livro de Walter Wagner, o roteiro desta vez centraliza as ações no aeroporto de Washington, usando os mesmos elementos que fizeram sucesso no longa anterior, como a esposa Holly em situação de risco, a policia jogando contra McClane e a imprensa sensacionalista e sem escrúpulos que, desta vez, prepara uma transmissão ao vivo do avião, interessada apenas na audiência e sem se importar com as vidas que estão em jogo – não por acaso, quando Holly agride o repórter, o espectador vibra com ela. Acertadamente, o roteiro dispensa a apresentação dos personagens e suas motivações (até porque muitos são conhecidos pelo espectador) e parte para os conflitos, fazendo a narrativa engrenar de vez no momento em que Stuart informa as regras aos controladores do aeroporto. Auxiliado pela montagem de Stuart Baird e Robert A. Ferretti, o diretor Renny Harlin alterna com fluência entre as tramas e permite que o espectador acompanhe o drama de Holly no avião, o trabalho da policia e de McClane e o minucioso monitoramento dos vilões de dentro de uma igreja. Aliás, o momento em que John descobre a igreja de onde Stuart comanda o aeroporto ilustra bem o trabalho dos montadores, alternando entre os planos num ritmo intenso e nunca confuso.Intensa também é a condução de Harlin na direção, que torna a narrativa envolvente e bastante tensa. Grande parte desta tensão se deve também ao fato de “Duro de Matar 2” abordar um medo coletivo ao envolver aviões, já que a maioria das pessoas se identifica com o drama dos passageiros e entra em pânico junto com eles quando os problemas começam a surgir. O diretor se sai bem ainda na condução de grandes cenas, como a impressionante seqüência do pouso e explosão do avião Windsor 114, em que se destacam também os espetaculares efeitos visuais. Após esta cena em que o herói não consegue evitar a tragédia, o espectador passa a temer pelo futuro dos personagens, pois agora os vilões já provaram do que são capazes. Por isso, após o pouso do general Esperanza, a tensão volta a dominar a tela e só é aliviada quando John é ejetado do avião, num momento exagerado e pouco realista que, em compensação, é de uma beleza plástica elogiável que só ilustra o bom trabalho do diretor.

Curiosamente, quando as ações saem do aeroporto nem mesmo as frenéticas seqüências na igreja e na floresta evitam que a alta carga de tensão se dissipe, graças ao fim do sentimento de clausura presente em todo o primeiro filme e em boa parte do segundo, reduzindo o impacto da narrativa. Ainda assim, a seqüência em que John persegue os bandidos na floresta é interessante, deslizando apenas nos momentos em que os vilões erram tiros à queima roupa seguidamente. A narrativa apresenta ainda uma ótima reviravolta quando o exército revela sua parceria com Stuart, mantendo seu ritmo alucinante e devolvendo o pânico ao aeroporto quando os vilões tentam escapar com o general Esperanza.

Desta vez sob a direção de Oliver Wood, a fotografia aposta novamente em tons escuros e cenas noturnas, refletindo a angústia do protagonista, além de ampliar a tensão na platéia através de elementos naturais como a neve e a noite. Por isso, quando as luzes se apagam e todos os controles somem, o caos toma conta do local e o espectador se sente parte daquele ambiente em desespero. Obviamente, os excelentes efeitos sonoros colaboram para esta ambientação, destacando-se especialmente nos tiroteios e explosões, assim como a trilha sonora de Michael Kamen injeta adrenalina com seus acordes altos. E finalmente, o realismo e a violência gráfica de algumas cenas nos fazem acreditar ainda mais no que vemos na tela, como quando um homem tem a garganta cortada e quando um dos vilões é sugado pela turbina de um avião.

Entre os personagens, John McClane continua adoravelmente mal-humorado, mas desta vez surge menos vulnerável que antes, talvez pelo excesso de cenas em que ele literalmente faz o impossível para escapar da morte. Por outro lado, Willis está muito bem nestas cenas, que exigem enorme esforço físico, além de manter o carisma do personagem, essencial para conquistar o espectador e fazer com que este torça por ele. O ator ainda mantém a grande empatia com o policial Powell, interpretado por Reginald VelJohnson, e sua constante preocupação com a esposa ajuda a humanizar o personagem – e Willis tem mérito nisto também, nos fazendo acreditar que ele de fato teme a morte de Holly. Entre os inimigos de McClane, o coronel Stuart de William Sadler é um vilão respeitável, ainda que não tenha a força do Hans de Alan Rickman em “Duro de Matar”. E vale citar também o major Grant, interpretado por John Amos, que inicialmente cria empatia com McClane graças ao seu jeito direto, partindo logo para a ação e deixando a teoria do burocrático capitão Lorenzo (Dennis Franz) de lado, mas esta empatia se revelaria irônica e traiçoeira.

Após ser traído por Grant, John parte numa tentativa desesperada de, em primeiro lugar, salvar sua esposa, o que, conseqüentemente, salvaria também todas as outras aeronaves ameaçadas. Para isto, ele precisa enfrentar os vilões, que já se encontram dentro de um Boeing 747 na pista do aeroporto enquanto ele está preso numa multidão desesperada diante das informações dadas pela imprensa na televisão. A solução? Usar o helicóptero da própria imprensa para alcançar o avião e, após ser largado na asa do Boeing, enfrentar os inimigos. Esta inimaginável situação resulta numa luta entre o herói e Stuart, que inexplicavelmente prefere sair da aeronave em movimento e enfrentá-lo, ao invés de acelerar o avião e levantar vôo, forçando a inevitável queda de McClane. Depois disto, John cai da asa do Boeing em movimento após abrir o tanque de combustível e consegue explodi-lo, numa cena exagerada que fecha a narrativa. E são justamente estes exageros que comprometem parte de “Duro de Matar 2”. Ainda assim, as qualidades do longa compensam estas falhas. Na última cena, um policial faz uma brincadeira com a multa de John que abriu o filme, trazendo alivio cômico no momento certo e encerrando bem a narrativa.

Com cenas mais forçadas e menos realistas que no primeiro filme, “Duro de Matar 2” é um eficiente filme de ação que cumpre seu propósito graças aos momentos de impacto, à trama envolvente e, acima de tudo, ao seu personagem principal cativante, que literalmente carrega a narrativa nas costas.

Texto publicado em 27 de Outubro de 2011 por Roberto Siqueira

DURO DE MATAR (1988)

(Die Hard)

 

Videoteca do Beto #117

Dirigido por John McTiernan.

Elenco: Bruce Willis, Alan Rickman, Bonnie Bedelia, Reginald VelJohnson, Paul Gleason, De’voreaux White, William Atherton, Hart Bochner, James Shigeta, Clarence Gilyard Jr. e Alexander Gordunov.

Roteiro: Jeb Stuart e Steen E. De Souza, baseado em livro de Roderick Thorp.

Produção: Lawrence Gordon e Joel Silver.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Os heróis dos filmes de ação em geral são homens extremamente inteligentes, fortes e aparentemente infalíveis, capazes de enfrentar exércitos inteiros e tomar decisões em questão de segundos, acertando em praticamente todas elas. Felizmente, este não é o caso de John McClane, o protagonista deste ótimo “Duro de Matar” que, além de ser uma pessoa comum que deseja apenas rever a família distante, toma decisões equivocadas e sofre bastante antes de conseguir salvar sua esposa e a própria pele. E ainda que, no fim das contas, tenha o mesmo sucesso em sua missão que os outros heróis do gênero, a forma como o faz é que torna o personagem mais humano e o aproxima do espectador.

De volta a Los Angeles para se reencontrar com a esposa Holly (Bonnie Bedelia) e os filhos, John McClane (Bruce Willis) se vê numa enroscada quando visita a empresa em que ela trabalha na mesma noite em que poderosos bandidos decidem assaltar o local, liderados pelo cruel Hans Gruber (Alan Rickman).

Apostando corretamente na empatia entre o espectador e seu protagonista, o roteiro de “Duro de Matar”, escrito por Jeb Stuart e Steen E. De Souza a partir do livro de Roderick Thorp, trata de apresentar em poucos minutos os principais personagens da trama e suas motivações, fazendo com que o espectador saiba em pouco tempo que John foi casado com Holly e está de volta para ver a esposa e os filhos no natal. Também fica evidente que os problemas do casal têm muito a ver com a vida profissional da mulher que, em plena ascensão, parece dedicar pouco tempo a família, ao passo em que seu marido, empregado na policia de Nova York, não pode se transferir para Los Angeles. Desta forma, quando os bandidos invadem o prédio, o espectador já tem todas as informações necessárias para se identificar com o drama de John, que terá de lutar para defender a sociedade e cumprir seu dever profissional e, acima de tudo, tentar evitar uma tragédia familiar. Outro aspecto interessante do roteiro é a crítica nada velada a imprensa sensacionalista, preocupada apenas em conseguir audiência, notável quando um repórter pergunta desesperado se o cinegrafista captou as imagens da explosão do prédio. Pior ainda é o momento em que eles descobrem a família de John e vão atrás de seus filhos, na tentativa de gerar uma entrevista “bombástica” – um absurdo que, convenhamos, não está distante da realidade que acompanhamos diariamente nos telejornais.

Com um roteiro simples e eficiente, o diretor John McTiernan acerta ao manter um clima palpável de tensão, quebrado apenas pelas reclamações constantes do mal-humorado protagonista e pelas divertidas aparições do motorista da limusine Theo (Clarence Gilyard Jr.) – este tipo de alivio cômico é sempre bem vindo em filmes de ação, servindo para quebrar um pouco a tensão que domina a platéia. Além disso, o diretor utiliza outros recursos narrativos eficientes, como a menção ao relógio Rolex no início, que terá reflexo no clímax da trama. Auxiliado pela montagem de John F. Link e Frank J. Urioste, o diretor estabelece um ritmo dinâmico que torna a narrativa ainda mais empolgante, engrenando logo aos 23 minutos de filme, quando os bandidos invadem o local, prendendo de vez o espectador. McTiernan conta ainda com a agitada trilha sonora de Michael Kamen, que aumenta a adrenalina da platéia, e com o excelente design de som, que torna tudo mais real, além da fotografia sombria de Jan De Bont (que viria a dirigir “Velocidade Máxima”), que aproveita o ambiente fechado e a trama noturna para criar um visual sufocante, refletindo a angústia do protagonista – repare, por exemplo, como as luzes que vazam as persianas e formam sombras no rosto dos personagens dão uma sensação de clausura.

Obviamente, as cenas de ação não poderiam faltar e, na maior parte do tempo, elas soam orgânicas e verossímeis, como quando McClane explode parte do prédio ou quando ele pula do alto do edifício e escapa por pouco da morte. E com exceção de alguns tiros a queima roupa que os bandidos erram diante do herói, na maior parte do tempo suas proezas são convincentes – também porque Willis nos faz acreditar que tudo aquilo é possível -, e nem mesmo os excelentes efeitos visuais soam exagerados, surgindo sempre de maneira orgânica e apenas quando realmente necessários. Além disso, McTiernan cria ainda momentos de pura tensão, como no plano em que o policial Powell (Reginald VelJohnson) se aproxima no corredor do lado direito da tela e vemos a mão armada de um assaltante atrás da parede do lado esquerdo, apenas aguardando o sargento, que desiste antes de encontrá-lo e vai embora. Vale destacar ainda os elegantes movimentos de câmera, como na chegada de John em que um travelling destaca o prédio aonde irá se passar a narrativa, da mesma maneira que a câmera acompanha a chegada do caminhão que levará os vilões até o prédio antes mesmo que o espectador saiba quem está no veiculo. E finalmente, uma simples fotografia de McClane no gabinete indica que eles já tiveram uma relação enquanto Holly conversa com ele no telefone, assim como quando ela fala sobre “dormir no quarto de hóspedes”, fica claro que eles estão separados.

Como citado, os problemas do casal estão mais relacionados à vida profissional do que a relação afetiva e, por isso, nos envolvemos com o drama de McClane. Além disso, Bruce Willis está muito bem como o policial simultaneamente durão e humano que é John McClane, que se torna ainda mais carismático graças ao seu divertido mau humor. Ao contrário dos tradicionais heróis de Hollywood, McClane é uma pessoa comum, passível de erros, que reclama constantemente e não quer estar naquela situação. Apesar da irritante atitude da policial que atende o chamado de McClane, os empecilhos que surgem em seu caminho são críveis, o que colabora para que o espectador se envolva com a trama. Para John, mais importante do que impedir aquele assalto é conseguir sair vivo e salvar sua esposa – duas aspirações mais do que universais.

E se tememos pelo futuro de McClane é porque, além dele parecer vulnerável, os vilões de “Duro de Matar” surgem bastante ameaçadores desde sua introdução, quando a trilha sombria e a forma como eles invadem o prédio já estabelecem para a platéia o perigo que eles representam. Também colabora a atuação séria e convincente de Alan Rickman, que cria um vilão bastante respeitável com seu olhar direto e seu tom de voz sereno, que denota um autocontrole assustador. Cruel e inteligente, seu Hans Gruber mostra que fará o que for preciso para atingir seu objetivo quando mata a sangue frio o executivo Takagi (James Shigeta), presidente da empresa assaltada pelo grupo, numa cena impressionante e de forte impacto. Outra cena impactante é aquela em que um corpo cai no capô do carro do policial Powell. Interpretado por Reginald VelJohnson, Powell estabelece excelente química com McClane, o que só ressalta o aspecto humano do protagonista, especialmente quando este se comove com a triste história do sargento, que atirou por engano num menino de 13 anos (“Não nos ensinam a conviver com o erro”, relembra Powell).

Entre os grandes momentos de “Duro de Matar”, merece destaque o tenso e até mesmo previsível encontro entre Hans e John, quando o vilão finge ser um dos reféns por saber que John não conhecia seu rosto e quase consegue eliminar seu principal obstáculo do caminho. Ainda que esteja acostumado com os heróis indestrutíveis de Hollywood, o espectador chega a temer pelo personagem, justamente porque McClane jamais soa como um herói indestrutível. Assim como voltaremos a temer por McClane no intenso terceiro ato, que começa quando a imprensa dá a arma que faltava para o astuto Hans, informando que sua esposa está entre os reféns. Toda a eletrizante seqüência final, desde a luta entre John e Karl (Alexander Gordunov), passando pela explosão no teto do prédio, a inesperada ajuda de Theo e culminando no aguardado confronto entre John e Hans (em que o relógio terá importante papel), fecha com perfeição a narrativa.

Ótimo filme de ação que não desrespeita a inteligência do espectador, “Duro de Matar” diverte justamente por apresentar cenas de explosões e tiroteios num contexto em que elas são apenas reflexos das ações dos personagens e não a razão de existir da narrativa. Contando ainda com um protagonista carismático, o longa agrada e, como sabemos, ainda abriu portas para novas e interessantes continuações.

Texto publicado em 19 de Outubro de 2011 por Roberto Siqueira

CURTINDO A VIDA ADOIDADO (1986)

(Ferris Bueller’s Day Off)

 

Videoteca do Beto #116

Dirigido por John Hughes.

Elenco: Matthew Broderick, Alan Ruck, Mia Sara, Jeffrey Jones, Jennifer Grey, Cindy Pickett, Lyman Ward, Charlie Sheen, Edie McClurg e Kristy Swanson.

Roteiro: John Hughes.

Produção: John Hughes e Tom Jacobson.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Os filmes adolescentes eram uma verdadeira febre nos anos oitenta, talvez porque as produtoras perceberam que os jovens formavam a grande parte do público que freqüentava os cinemas. Apesar disto, a quantidade de bons filmes voltados para este público era bem superior ao que vemos atualmente, como atestam a deliciosa aventura “Os Goonies”, a magnífica trilogia “De Volta para o Futuro” e comédias muito divertidas como este “Curtindo a Vida Adoidado”, que, com seu protagonista carismático e situações muito divertidas, conquista imediatamente o espectador.

Ferris Bueller (Matthew Broderick) é um aluno bastante popular na escola, que decide matar aula para curtir um belo dia de sol ao lado da namorada Sloane Peterson (Mia Sara) e de seu melhor amigo Cameron (Alan Ruck). Sua desculpa, porém, não engana o diretor Ed Rooney (Jeffrey Jones), que tenta de todas as formas descobrir suas falcatruas, e nem mesmo sua irmã Jean (Jennifer Grey), que também tenta atrapalhar seus planos.

Escrito, produzido e dirigido por John Hughes, “Curtindo a Vida Adoidado” é uma comédia adolescente leve, que representa bem o gênero que o próprio Hughes se especializaria em dirigir posteriormente. Repleta de boas idéias e piadas divertidas, a narrativa tem um ritmo ágil, essencial para agradar seu público alvo, o que é mérito também da montagem dinâmica de Paul Hirsch. Ciente do que queria, Hughes explora muito bem situações conhecidas pelo espectador mais jovem, como aquelas intermináveis aulas chatas que nos fazem quase babar nas mesas escolares, exatamente como acontece com os personagens que, letárgicos, assistem ao professor repetir insistentemente o nome de “Bueller”, mesmo vendo sua cadeira vazia. Partindo desta premissa, uma atitude até comum (pelo menos na minha geração) como “matar aula” serve de ponto de partida para um dia inesquecível, repleto de situações inusitadas, sempre lideradas pelo carismático protagonista. Ferris convida seu grande amigo Cameron para passar o dia ao seu lado, num momento divertido em que ficam evidentes os métodos alternativos que eles utilizam pra matar aula e até mesmo o estado de espírito de cada um. Enquanto Cameron vegeta em seu quarto embalado por uma trilha sombria, Ferris toma uma bebida em sua cadeira de praia, acompanhado por uma trilha bem suave. Depois, após uma hilária ligação, Ferris arma uma situação e consegue a companhia da namorada Sloane. Está montado o cenário para um dia inesquecível.

Sempre num contexto cômico, Hughes faz ainda algumas referências a outros personagens importantes do cinema, como “Alien” e “Dirty Harry”, que, aliás, faz Rooney se encher de orgulho ao ser comparado com o personagem durão de Clint Eastwood. Além disso, o diretor dá total liberdade para que seu protagonista quebre constantemente a quarta parede ao falar com a câmera e se dirigir a platéia, num artifício narrativo que nos surpreende e nos faz rir, além de fugir da abordagem realista ao inserir tópicos escritos na tela, por exemplo. Mas apesar da direção eficiente, é na força da atuação de Matthew Broderick que o longa se sustenta. Carismático, o ator cria um personagem adorável desde os primeiros minutos em cena, que se tornou um símbolo dos jovens em sua época. Os adolescentes queriam ser Ferris Bueller. Mimado pelos pais, Ferris é o verdadeiro bon vivant, capaz de criar inúmeras situações para curtir seu “dia de folga”, sempre driblando aqueles que tentam impedi-lo. E apesar de algum exagero, as armações de Ferris – como na cena do restaurante e a fita gravada em seu quarto – funcionam muito bem, provocando o riso no espectador.

Além de seu carismático protagonista, “Curtindo a Vida Adoidado” conta ainda com coadjuvantes adoráveis, como o medroso e engraçado Cameron, interpretado por Alan Ruck, que é quem mais se transforma na narrativa, criando coragem para enfrentar o pai e levar a vida mais na boa, inspirado pelo amigo Ferris. Revoltado, ele extrapola e acaba detonando a Ferrari do pai, em outro momento bastante engraçado. Interpretada pela graciosa Jennifer Grey, Jean, a irmã de Ferris, tem a função narrativa de criar dificuldades para Ferris e inserir um pouco de suspense na trama, mas sempre de maneira leve e descontraída. Apesar disso, Grey constantemente aparece séria, demonstrando irritação com o irmão, até o momento em que encontra um garoto drogado (Charlie Sheen, em participação hilária) na delegacia e muda de comportamento – e Grey se sai muito bem após o beijo, demonstrando a empolgação da garota. Vale destacar ainda Jeffrey Jones, que faz do diretor Ed Rooney um personagem adoravelmente atrapalhado em sua tentativa de soar ameaçador.

O clima leve da narrativa é reforçado pela fotografia clara do bom Tak Fujimoto, que explora bem o dia ensolarado em que se passa a trama para empregar um visual bastante alegre e coerente com o espírito do longa. Também colaboram as roupas coloridas de Ferris e seus amigos (figurinos de Marilyn Vance) e a trilha sonora agitada de Arthur Baker, Ira Newborn, John Robie e Yello, que pontua muito bem o empolgante dia do trio, como quando eles saem da escola na Ferrari do pai de Cameron após enganarem o diretor, acompanhados pela trilha cheia de adrenalina, ou quando eles visitam o museu, acompanhados pelo som de músicas clássicas. A trilha acerta ainda na escolha de músicas infalíveis, como “Twist and Shout”, dos Beatles, que mexe o esqueleto de qualquer um e faz o espectador se sentir bem enquanto assiste ao filme.

Com esta atmosfera jovial, “Curtindo a Vida Adoidado” conta ainda com um arsenal de piadas criativas, como os efeitos sonoros do teclado que imitam a tosse do “doente” Ferris, que sensibilizam seus colegas de escola e dão início ao engraçado movimento “Save Ferris”. Entre tantos momentos memoráveis, vale destacar também a hilária conversa telefônica entre o diretor Rooney e o suposto Sr. Peterson, em que a câmera demora a revelar Cameron do outro lado da linha, fazendo com que o espectador pense que o diretor de fato está falando com o pai de Sloane. Finalmente, na corrida desesperada de Ferris pra casa já no final, torcemos muito por ele, ainda que tenha matado aula e enganado a todos, justamente pelo inegável carisma do personagem. Após os créditos, Ferris ainda brinca com câmera, usando a metalingüística de maneira bastante divertida.

Criativo e cativante, “Curtindo a Vida Adoidado” é um filme despretensioso sobre um personagem igualmente despretensioso. Ferris não tem grandes aspirações, não se preocupa com os problemas ao seu redor e só quer saber de se divertir. Certamente, ele não poderá viver assim pra sempre. Por isso, trata de aproveitar enquanto pode. E seu dia de diversão acabou se transformando em algo muito maior: um clássico do cinema nos anos 80.

Texto publicado em 13 de Outubro de 2011 por Roberto Siqueira