Semana John Ford

Olá pessoal,

Nos próximos dias divulgarei críticas de cinco filmes dirigidos por John Ford, um dos diretores mais importantes do cinema e referência obrigatória para muitos cineastas.

Aproveito também para lançar a página “John Ford”, que você pode acessar na página inicial (lado direito da tela), onde faço uma rápida análise da obra deste importante diretor.

Um grande abraço.

Texto publicado em 07 de Agosto de 2011 por Roberto Siqueira

Paris

“Paris é muito cara, os franceses são chatos, a quantidade de comida servida nos restaurantes é pequena, as ruas são sujas e o metrô é velho demais”. Estas são algumas das frases que ouvi assim que anunciei onde passaria a lua de mel (na verdade, também conheci Madri, Barcelona e Amsterdã nesta primeira viagem, além das pequenas Versailles e Zaandam), o que ilustra, em primeiro lugar, uma falta de tato incrível das pessoas, que sequer pensavam que eu estava prestes a realizar meu sonho de conhecer a Europa ao lado da pessoa que amo. Só que, depois de pisar na capital francesa, afirmo com segurança: Esqueça tudo isto! A cidade luz é encantadora, é mágica, uma cidade fascinante em que desfrutamos cada nova descoberta e que merece ser visitada outras vezes.

Antes de qualquer coisa, quero esclarecer os fatos. Paris é tão cara quanto qualquer cidade grande (como São Paulo) e tem inúmeras opções para aqueles que estão dispostos a procurar o preço que caiba no seu bolso. Os franceses podem até serem chatos, mas pelo menos comigo e minha esposa não foram – aliás, foram mais receptivos que os “calorosos” italianos, estes sim muito parecidos com os brasileiros (ou seja, ou o cara é gente fina ou é um baita ignorante). Quanto à comida, não tenho do que reclamar (só faltava reclamar de uma das melhores culinárias do mundo, não é mesmo?), quantidade e qualidade elogiáveis. Isto sem falar nos vinhos, maravilhosos até mesmo quando são “da casa”, mas voltaremos a falar deles em instantes. Ruas sujas? Sim, elas existem, mas nem se compara ao que vejo pelas ruas de Sampa. No fim das contas, entre as “acusações” que ouvi antes da viagem, só a do metrô se confirmou, mas apenas nas linhas mais antigas (algumas estavam no início da restauração), já que as novas estavam bem bonitas.

Feito o desabafo, vamos às boas lembranças de uma cidade com tantos lugares legais para conhecer que fica até difícil resumir num texto só. Após sair do aeroporto Charles de Gaulle e pegar o metrô na Gare du Nord, desci na estação “Parmentier” e descobri que os elevadores estavam quebrados, justo na primeira cidade européia em que minha enorme mala não tinha sido extraviada (antes, em Madri e Barcelona, recebi a mala horas depois no hotel). Por isso, fui obrigado a subir vários lances de escada com uma mala enorme, enquanto a Dri ria da minha cara com sua mala pequena. Por sorte, um jovem francês me ofereceu ajuda (não falei que eles são legais?) e outro rapaz me ajudou a encontrar o hotel. Talvez o fato de ter aprendido um pouquinho do idioma local tenha me ajudado, já que eles percebiam meu esforço e passavam a falar inglês sem nenhum problema – o que não é comum, como muitos sabem, por causa do histórico entre Inglaterra e França.

No primeiro dia, deixamos as malas no hotel, passamos pela Bastilha, caminhamos até a Île de la Cité e conhecemos, de uma vez só, o hotel de Ville, o rio Sena e a charmosa catedral de Notre Dame, com seu estilo gótico e belo. De lá, aproveitamos para dar uma esticada no passeio e ver a torre Eiffel de perto. Era noite e ela estava lá, totalmente iluminada. Pode soar brega, eu sei, mas poucos lugares são tão românticos. E podem falar o que for, mas a danada da torre é mesmo um deslumbre! Daí pra frente, cada dia de viagem trazia uma nova emoção.

Mas Paris é charmosa não apenas pelos pontos turísticos. Como disse Vicent Vega em “Pulp Fiction”, são nos pequenos detalhes que a cidade nos encanta. O cuidado com cada jardim, como no lindo jardim des Tuileries, localizado próximo à entrada do Louvre e à linda praça de la Concorde, os cafés, a arquitetura da cidade, as bicicletas, tudo é encantador. E o que dizer do maior museu do mundo então? São necessários alguns dias para conhecer o Louvre em toda sua magnitude. Com tantas atrações fica difícil citar tudo, mas posso dizer que fiquei impressionado com os aposentos de Napoleão e com alguns quadros, dentre os quais está a Mona Lisa, um quadro pequeno é verdade, mas fascinante. Da Vinci era mesmo um gênio!

E não para por aí não. Paris ainda tem a Champs-Élysées, o paraíso dos consumidores que, confesso, me encanta mais pela beleza do lugar. A Dri ficou empolgadíssima com lojas como a Sephora, enquanto eu fiquei ali, admirando a beleza daquela avenida que nos leva ao Arco do Triunfo. À noite, vale à pena conhecer a bela igreja Sacré Coeur e admirar a vista panorâmica da cidade, além de curtir o bairro boêmio Montmartre, que fica atrás da igreja e tem excelentes restaurantes. Não distante, tem outro lugar famoso (e eternizado pelo cinema), o Moulin Rouge, numa avenida divertida, cheia de lugares interessantes como o museu do sexo.

Como se não bastasse à quantidade enorme de lugares pra conhecer, a qualidade da comida e o charme da cidade, com seus cafés aconchegantes que praticamente nos obrigam a passar uma tarde curtindo e batendo papo, Paris ainda tem uma estrutura invejável, com um metrô incrivelmente eficiente, que nos leva em todos os lugares sem exigir grande esforço. Ah, e ainda tem o crepe, aquela delícia irresistível vendida nas ruas da cidade. E a baguete, e o pãozinho com manteiga, e o croissant, e… Deixa pra lá, melhor parar porque já estou com fome.

Gosta de vinhos? Nem preciso dizer que aqui estão muitos dos melhores vinhos do mundo, e mesmo quem quer economizar se dá bem, pois os “vinhos da casa” oferecidos nos restaurantes são bons e nos mercados podemos comprar ótimos vinhos com preços bem acessíveis. O mesmo raciocínio se aplica aos queijos, variados e excelentes, e também encontrados com facilidade pelas ruas da cidade. Com um bom vinho e queijos deliciosos, é só esticar sua toalha no Campo de Marte e apreciar a paisagem ao lado da (s) pessoa (s) que você gosta. Tem algo melhor?

E se você gosta de ficar sem fazer nada apenas curtindo o tempo passar, eis uma cidade mais que convidativa com lugares como a margem do rio Sena e o citado campo de Marte, entre tantos outros. Finalmente, nem vou citar Versailles, que merece um post a parte, tamanho o deslumbre que provoca em quem decide conhecê-la.

Infelizmente, estou terminando. Já li, reli e desisto. Jamais conseguirei expressar em palavras o que é conhecer Paris. A verdade é que somente quem esteve lá sabe do que estou falando. A cidade luz realmente nos encanta profundamente. Não é perfeita, claro, nenhuma é. Mas merece a fama que tem. É um lugar diferente, que merece ser descoberto lentamente. E quanto mais o tempo passa, mais tenho saudade da capital francesa.

Só tem uma solução para curar este sentimento nostálgico: Quanto está à passagem para Paris?

Em breve, se Deus quiser!

Texto publicado em 05 de Agosto de 2011 por Roberto Siqueira

Jim Carrey no Oscar 1996

Sou um nostálgico por natureza. Adoro gravar momentos marcantes e revê-los muito tempo depois. Quando viajo ou quando organizo um grande evento, tenho o hábito de filmar e tirar muitas fotos, somente para registrar um momento que, certamente, vou querer ver novamente no futuro.

Mas gravar eventos é normal, você pode afirmar. E eu responderei que não faço apenas isto, mas também tiro fotos de coisas banais, como por exemplo, uma porta, uma maçaneta ou até mesmo uma rua que achei diferente em San Gimignano (Itália), somente porque, ao rever aquela foto, sinto estar sendo transportado novamente para aquele momento que me marcou.

Este raciocínio também se aplica ao esporte, o que me leva a gravar não apenas os grandes jogos do meu time e da seleção, mas, por exemplo, todos os gols das Copas do Mundo, algumas entradas em campo e hinos nacionais e até mesmo matérias de bastidores da Copa. Para mim, rever tudo aquilo anos depois é um grande prazer.

E assim também acontece com o Oscar, uma cerimônia quase sempre chata, quase sempre longa demais e com grandes injustiças registradas ao longo da história. Além disso, uma cerimônia muito mais comercial que artística, que não vale como garantia de qualidade, e que, apesar de premiar bons filmes, costuma me deixar mais irritado do que feliz (este ano, por exemplo, a vitória de “O Discurso do Rei” me deixou aborrecido por alguns dias).

Pra que gravar então a chata, longa e injusta cerimônia do Oscar? Simples. Para rever o momento de glória (sim, é glorioso!) de alguns dos atores, atrizes, diretores, etc., que eu gosto muito. E eu realmente me divirto ao rever, seja em DVD, seja no Youtube (onde encontro muitas das premiações que não consigo mais restaurar as fitas), o momento do anúncio, por exemplo, da vitória de Martin Scorsese, Robert de Niro, Meryl Streep, Morgan Freeman, Jodie Foster, etc.

Na última semana, ao rever os vídeos do Oscar 1996 (estou começando a assistir os filmes de 1995 pra escrever e isto me motivou a rever trechos daquela cerimônia), me lembrei de um momento engraçado envolvendo o talentoso Jim Carrey e resolvi compartilhar com vocês. Carrey foi convidado para entregar o prêmio de melhor fotografia e entrou no palco fazendo uma brincadeira com um sucesso da época, a animação “Toy Story”. Criativo, Carrey fez uma piada envolvendo os bonecos do filme e o clássico “Perdidos na Noite”, estrelado por Jon Voight e Dustin Hoffman. Veja o vídeo:

*Desculpem, mas não encontrei o vídeo sem tradução simultânea.

Espero que gostem. Um grande abraço.

Texto publicado em 02 de Agosto de 2011 por Roberto Siqueira

OSCAR 1995: FORREST GUMP X UM SONHO DE LIBERDADE

Seguindo minha comparação entre o vencedor do Oscar de Melhor filme e aquele que eu considerei como a melhor produção do ano, chega à vez do ano de 1994 (Premiação em 1995). E que ano respeitável foi 1994 em termos cinematográficos! Além do encerramento da bela trilogia das cores com “A Igualdade é Branca” e o excelente “A Fraternidade é Vermelha”, tivemos os divertidos “Debi & Lóide”, “Maverick” e “Quatro Casamentos e um Funeral”, os empolgantes “Velocidade Máxima” e “Assassinos por Natureza” e o sombrio “Entrevista com o Vampiro”. Não posso deixar de citar ainda o bom “Frankenstein de Mary Shelley”, na época um fracasso de público e crítica, e a obra-prima da Disney “O Rei Leão”, sem dúvida um dos melhores do ano.

Além de todos estes bons filmes, outros três se destacaram bastante em 1994. O primeiro deles é o vencedor do Oscar “Forrest Gump”, que com bom humor e muita sensibilidade, atravessa a história recente dos EUA sob o olhar inocente de seu protagonista, sem por isso deixar de cutucar as besteiras feitas pelo país do tio Sam no último século. E apesar de gostar bastante do longa estrelado por Tom Hanks, o considero inferior até mesmo à “O Rei Leão”. Já “Pulp Fiction” foi um estouro mundial, figurando entre os poucos eventos dos anos 90 que de fato influenciaram a cultura pop de maneira bombástica. O filme de Tarantino é de uma criatividade ímpar e merece mesmo um lugar de destaque não apenas no ano, mas na década. Mas, acima de todos eles está “Um Sonho de Liberdade”, um filme perfeito do primeiro ao último plano, com atuações mais que inspiradas e um final fabuloso, merecedor do meu voto de melhor filme do ano.

Porque “Um Sonho de Liberdade” é melhor?

Apesar da inegável criatividade de “Pulp Fiction” e do excelente trabalho de Zemeckis e companhia em “Forrest Gump”, entendo que “Um Sonho de Liberdade” é um filme perfeito, com uma estrutura narrativa impecável, excelentes atuações, um roteiro que parece um poema e uma reviravolta final tão instigante quanto bela. Como afirmei em minha crítica, a cada nova revisão enxergo mais e mais qualidades no longa de Frank Darabont e ultimamente ando até mesmo questionando o Oscar de Tom Hanks, já que Morgan Freeman está nada menos que perfeito como o narrador/observador que é transformado pela chegada do amigo Andy, também brilhantemente interpretado por Tim Robbins. Tendo ainda um peso em minha vida por ser, ao lado de “Coração Valente”, responsável direto por minha paixão pelo cinema, “Um Sonho de Liberdade” figura não apenas como o melhor filme de 1994. Em minha modesta opinião, este é o melhor filme da década.

E pra você, qual o melhor filme de 1994 e por quê?

Um abraço e bom debate.

Texto publicado em 30 de Julho de 2011 por Roberto Siqueira

WYATT EARP (1994)

(Wyatt Earp)

 

Videoteca do Beto #109

Dirigido por Lawrence Kasdan.

Elenco: Kevin Costner, Dennis Quaid, Gene Hackman, Michael Madsen, Bill Pullman, Isabella Rossellini, Tom Sizemore, James Caviezel, Téa Leoni, David Andrews, Linden Ashby, Jeff Fahey, Joanna Going, Catherine O’Hara, JoBeth Williams, Mare Winningham, James Gammon, Rex Linn, Randle Mell, Adam Baldwin, Annabella Gish, Lewis Smith, Betty Buckley, Alison Elliott, Karen Grassle, John Dennis Johnston e Ian Boehn.

Roteiro: Dan Gordon e Lawrence Kasdan.

Produção: Kevin Costner, Jim Wilson e Lawrence Kasdan.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Nos primeiros minutos de “Wyatt Earp”, vemos o personagem título sentado num bar, tomando seu café e fumando um charuto, minutos antes de ser interrompido por outros dois homens. Ao ser informado da presença de um grupo de inimigos, ele se levanta e diz: “Vamos!”. Qualquer um que conheça um pouco da história deste famoso xerife do velho oeste sabe que este momento precede o histórico tiroteio de O.K. Curral. O problema do longa dirigido por Lawrence Kasdan está justamente em não saber terminar a narrativa quando ela voltar a este ponto, após um longo flashback que narra a caminhada do protagonista até este momento decisivo. Sendo assim, “Wyatt Earp” é um filme longo, que parece longo, o que é um problema.

O jovem Wyatt Earp (Kevin Costner) vaga pelo oeste até se estabelecer como xerife em pequenas cidades, fazendo fama pela forma nada amigável que mantém a ordem local. Após conhecer Doc Holliday (Dennis Quaid) e trazer seus irmãos Virgil (Michael Madsen) e Morgan (Linden Ashby) para trabalhar com ele, Wyatt se vê num perigoso conflito com um grupo de criminosos, que resulta no trágico tiroteio no O.K. Curral, que selou o destino de todos pra sempre.

Muitos filmes marcantes da história do cinema têm três ou mais horas de duração. A duração, em si, não é um problema. O problema é quando um filme se estende até as três horas sem necessidade e, principalmente, conteúdo para tanto. A história do xerife “Wyatt Earp” até pode render bons e longos filmes, mas neste caso, a narrativa se esvazia bastante após o conflito central da trama e o diretor, em parceria com o montador Carol Littleton, parece não saber em que momento deve encerrar o filme. Sendo assim, nem mesmo a vingança de Wyatt após a morte do irmão Morgan consegue prender a atenção do espectador – algo que o diretor parece saber, pois sequer mostra a vingança completa do protagonista, indicando que ele continuou sua retaliação pessoal no texto que fecha a narrativa. Sendo assim, o longa soa cansativo em seu ato final, num erro fatal cometido pelo diretor e pelo montador, que não souberam enxugar o roteiro escrito pelo próprio Kasdan, em parceria com Dan Gordon, e extrair o que ele tem de melhor. E de fato existem muitas coisas boas na história, especialmente quando olhamos sob o aspecto psicológico de um personagem claramente transformado por uma tragédia pessoal.

“Wyatt Earp” tem todos os elementos clássicos do western, como a ferrovia em construção, os cavalos cavalgando pelo terreno árido, o saloon com homens jogando cartas e prostitutas procurando fregueses, figuras tradicionais como o xerife e os bandidos e, obviamente, os duelos armados. E todos estes elementos surgem com muito realismo, graças aos figurinos de Colleen Atwood, que seguem o modelo clássico, com chapéus e botas para os homens e vestidos imponentes para as mulheres, e ao bom trabalho de direção de arte de Gary Wissner, notável na arquitetura das cidades, assim como nas carroças e até mesmo nos trens de ferro, ambientando o espectador perfeitamente ao velho oeste. Também colabora o ótimo design de som, com os tiros, o galope dos cavalos e até mesmo o sopro do vento tornando tudo mais real. Tecnicamente, a única nota literalmente fora do tom é a repetitiva trilha sonora de James Newton Howard, que, apesar do tom solene, soa desnecessária em muitos momentos.

Contando ainda com a bela direção de fotografia de Owen Roizman, Kasdan entrega uma direção plasticamente perfeita, enquadrando com incrível beleza as paisagens naturais e conferindo um aspecto clássico ao longa – repare, por exemplo, o lindo visual durante a viagem da família Earp, com as carroças cruzando as planícies com o pôr-do-sol ao fundo. Além disso, a fotografia emprega uma admirável iluminação nas cenas noturnas, com exceção das primeiras seqüências na fazenda dos Earp, iluminadas apenas com a luz da lua (o que é correto nesta situação, pois era a realidade local). Só que, infelizmente, Kasdan erra a mão na condução da narrativa, estendendo demais algumas cenas, como a seqüência em que Wyatt saca a arma rapidamente e expulsa um homem de um bar, seguida por seu trabalho de vendedor de pele de búfalos, que é totalmente dispensável. Além disso, Kasdan e Littleton erram também ao indicar grandes saltos na narrativa através de letreiros, o que soa deselegante e torna tudo mais episódico.

Após atingir um homem com uma bola de sinuca num bar, Wyatt faz um discurso típico do herói íntegro e ético tradicional de Hollywood, algo confirmado quando ele recusa uma prostituta e volta à cidade de infância para se casar com Urilla (Annabella Gish). Aliás, a relação com Urilla exemplifica um dos bons momentos de Kasdan e seu montador, que resumem a história do casal em poucos minutos, passando pelo namoro (repare a fotografia clara no reencontro do casal), casamento e início da vida na casa nova – destaque também para a passagem do tempo, indicada pela mudança das estações na janela do quarto. O outro acerto notável do diretor é a escolha do elenco, que conta com muita gente talentosa. Apesar de estar longe de seu melhor momento, Kevin Costner transmite segurança como Wyatt Earp, mostrando-se durão e até mesmo violento, além de exibir uma assustadora frieza quando enfrenta os criminosos. Extremamente agressivo, Wyatt conquista inimigos por onde passa, mas consegue manter a segurança local, ao contrário de seu amigo Ed Masterson (Bill Pullman), que o substitui e é amado pelos habitantes de Dogde City, mas deixa a criminalidade tomar conta do local (algo ilustrado pela placa “Proibido armas” cheia de tiros) e acaba morrendo, numa cena bastante triste. Aliás, uma das boas cenas do longa acontece quando Wyatt invade um bar e rende um bêbado, marcando o início de sua vida como xerife. Compare o semblante determinado do ator deste momento em diante com seu semblante carregado após a morte trágica de Urilla, que ilustra bem o sentimento do personagem, na época completamente devastado – algo refletido também pela fotografia sombria, especialmente quando ele é preso, onde a chuva reforça a melancolia de Wyatt e confirma que ele chagara ao fundo do poço.

Mas apesar da presença de Costner, quem rouba a cena mesmo é Dennis Quaid, que está ótimo como Doc Holliday. Magro e desgastado pela tuberculose, ele parece guardar as poucas energias que lhe restam para as brigas em que se envolve – seja com a amante Big Nose Kate (Isabella Rossellini), seja com os inimigos de Wyatt -, sempre parecendo disposto a matar ou morrer. Com sua voz rouca, provocada pela tosse constante, e seu olhar desconfiado, Quaid convence como o perigoso fora-da-lei, além de emocionar após a morte de Morgan, mostrando-se mais comovido que o próprio Costner. A amizade sincera entre Doc e Wyatt tem momentos marcantes, como a conversa num bar após Mattie (Mare Winningham, em boa atuação como a depressiva esposa de Wyatt) tentar o suicídio novamente e o momento em que Wyatt salva o amigo da morte numa briga com Kate, que termina com a confissão de Doc (“Eu sei que é difícil ser meu amigo”). Kasdan acerta ainda na escolha de Gene Hackman, que impõe respeito como o patriarca Nicholas Earp, com sua voz firme e semblante pesado, carregado de experiência de vida. E finalmente, outra excelente escolha é a de Michael Madsen, que demonstra firmeza como Virgil, com seu jeito igualmente debochado e ameaçador.

Uma das cenas mais importantes de “Wyatt Earp” acontece quando o protagonista discute com as esposas dos irmãos, expondo a dor que ainda carrega pela perda de Urilla e também a liderança que exerce sobre eles – repare como Morgan tenta consolar a esposa, mas larga a mão dela quando é repreendido por Wyatt. Este trauma se confirma num dos raros momentos em que o xerife se abre para a amante Josie (Joanna Going), numa conversa sincera na cama do casal em que os atores se saem bem e transmitem emoção. Mas, apesar destes bons momentos, faltam grandes cenas ao longa. Indicado desde o inicio como o grande momento da trama, o tiroteio de O.K. Curral não chega a decepcionar, mas está longe de ser uma cena marcante. Apesar da violência e de certa energia na cena, Kasdan não sabe escolher os melhores planos, deixando o confronto confuso, além de não criar a tensão necessária ao começar o duelo muito rapidamente (parece que o diretor não aprendeu nada com Leone). E pra piorar, após o grande duelo, a narrativa se arrasta por muito tempo antes de terminar, de forma pouco satisfatória. Ao guardar para o final uma história de heroísmo de Wyatt, Kasdan parece tentar encerrar bem a narrativa, mas erra novamente, pois todo o efeito nostálgico é anulado ao vermos as cenas no momento em que um garoto conta o que aconteceu – seria melhor se já tivéssemos visto ela antes e agora a história surgisse apenas como uma boa recordação dos bons tempos do xerife, assim como acontece com os personagens.

Tecnicamente brilhante, “Wyatt Earp” acaba soando cansativo demais, graças à má condução de Lawrence Kasdan, que não soube enxugar seu próprio roteiro. Cortando algumas cenas e conduzindo melhor momentos importantes como o famoso duelo, talvez ele tivesse realizado um grande filme. Não foi o que aconteceu. Pretensiosa ou não, o fato é que a direção de Kasdan compromete bastante o resultado final.

Texto publicado em 28 de Julho de 2011 por Roberto Siqueira

VELOCIDADE MÁXIMA (1994)

(Speed)

 

Videoteca do Beto #108

Dirigido por Jan de Bont.

Elenco: Keanu Reeves, Sandra Bullock, Dennis Hopper, Jeff Daniels, Joe Morton, Alan Ruck, Glenn Plummer, Richard Lineback, Beth Grant e Hawthorne James.

Roteiro: Graham Yost.

Produção: Mark Gordon.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Não é fácil fazer um bom filme de ação. Não que seja difícil – especialmente com a evolução dos efeitos visuais – criar momentos empolgantes envolvendo veículos em alta velocidade. O problema é conseguir inserir estas seqüências num roteiro que prenda à atenção da platéia mais exigente, com uma história crível ou, pelo menos, que saiba utilizar os clichês do gênero. Felizmente, “Velocidade Máxima” tem êxito nesta tarefa, partindo de uma idéia simples e criativa, que cria uma situação potencialmente tensa. E por envolver um meio de transporte público, toda a ação se torna ainda mais assustadora, pois sabemos que o que vemos na tela poderia acontecer com qualquer um de nós.

Ex-policial de Los Angeles, Howard Payne (Dennis Hopper) instala uma bomba num ônibus, que será acionada quando o veículo alcançar 80 km/h e explodirá caso a velocidade do veículo seja reduzida a menos dos mesmos 80 quilômetros por hora. O policial Jack Traven (Keanu Reeves) é escolhido para entrar no veiculo em movimento e tentar controlar a situação, mas um dos passageiros, sentindo-se ameaçado, saca uma arma e, acidentalmente, acerta o motorista. É então que a passageira Annie (Sandra Bullock) assume a direção enquanto a policia trabalha para tentar desarmar a bomba.

A premissa de “Velocidade Máxima” é excelente e bem aproveitada pelo roteiro de Graham Yost, que cria uma escala crescente de tensão muito eficiente e, o que é melhor, bem conduzida pelo diretor Jan de Bont. Para isto, Yost utiliza artifícios inteligentes, como a presença de um suposto criminoso no ônibus, que se assusta com a presença da polícia e saca uma arma, atingindo o motorista e forçando uma passageira a assumir a direção. Seguindo este raciocínio de pequenos infortúnios que só pioram a situação, “Velocidade Máxima” prende o espectador na cadeira em cada minuto que o ônibus “passeia” pela tela, o que é louvável. Claramente dividida em três atos (elevador, ônibus e metrô), a narrativa consegue ser envolvente em quase todo o tempo. Beneficiado pela montagem dinâmica de John Wright, de Bont consegue criar uma atmosfera tensa sem deixar as cenas confusas, evitando que o espectador se sinta perdido. Sua câmera agitada funciona bem, criando um visual realista que aproxima a platéia da trama, além de, em muitos momentos, ilustrar bem a sensação de alta velocidade pretendida pelo filme.

Também de maneira correta, o diretor de fotografia Andrzej Bartkowiak cria um visual claro, com cenas quase sempre diurnas, o que facilita a compreensão do que se passa na tela, assim como a figurinista Ellen Mirojnick acerta na escolha de roupas simples, do dia-a-dia, que torna a trama mais real. Ainda na ambientação, o excelente design de som colabora bastante, permitindo que o espectador se sinta completamente envolvido, especialmente nas cenas que envolvem o ônibus. Finalmente, seguindo a receita básica dos filmes de ação, a trilha sonora de Mark Mancina é bastante agitada e tenta aumentar a adrenalina. Em muitos casos, soa desnecessária, mas em outros, sublinha bem a cena, como na tensa seqüência de abertura no elevador.

Presente nas melhores cenas do filme, o ônibus só entra em cena aos 30 minutos de projeção, logo após a surpreendente explosão de outro ônibus na rua, que assusta a platéia. A partir deste momento, a narrativa cresce bastante e o melhor de “Velocidade Máxima” entra em cena. Apesar de algumas situações pouco verossímeis, a ação empolga e o longa decola. Ciente disto, Jan de Bont alterna entre planos aéreos e planos subjetivos, nos jogando pra dentro das cenas, por exemplo, quando Traven persegue o ônibus num automóvel em alta velocidade. Aliás, o dono do Jaguar, interpretado por Glenn Plummer, tem uma pequena e hilária participação, que, neste caso, é bem vinda, intercalado bom humor com momentos de alta tensão, uma mistura sempre eficaz no gênero. O diretor acerta ainda ao permitir a morte de uma passageira em determinado momento, o que, além de carregar o clima, tem um efeito surpresa que deixa a platéia ainda mais tensa, pois passamos a acreditar na possibilidade de que novas mortes aconteçam. Neste momento, vale observar como Bullock consegue demonstrar emoção, com um choro convincente que, por contraste, expõe a inexpressividade de Reeves. Por outro lado, Keanu Reeves se sai bem nas cenas que exigem esforço físico, convencendo no papel de “herói”, assim como expõe bem a revolta de Traven com a morte do parceiro Temple (Jeff Daniels).

Reeves e Bullock conseguem ainda criar uma incrível empatia, o que é importante para conquistar a platéia. Carismática, Sandra Bullock está leve no papel e conquista o espectador com seu jeito simultaneamente corajoso e indefeso. Capaz de assumir o volante de um ônibus (o que, numa sociedade machista, é elogiável), Annie é também sensível ao ponto de largar tudo desesperada quando pensa que atropelou um bebê (numa cena, aliás, bem conduzida pelo diretor, que emprega uma câmera lenta para aumentar o suspense). Introduzido de maneira eficiente na narrativa, o vilão Howard Payne surge ameaçador, ao matar um homem a sangue frio e colocar uma bomba num elevador, deixando o espectador ciente desde o início do perigo que ele representa. E apesar de soar caricato em alguns momentos, Dennis Hopper cria um vilão interessante e temível, que se torna ainda mais ameaçador na medida em que o ônibus avança pela cidade.

Ainda que tenha muita tensão, existem pequenos momentos típicos dos filmes de ação que soam falsos em “Velocidade Máxima”. Por exemplo: porque Payne não mata o detetive Temple no elevador quando tem a chance, preferindo atirar em Jack Traven? Seria mais fácil eliminar o primeiro, naquele momento sem chance de defesa, e depois tentar acertar o segundo, não é mesmo? Pra piorar, quando Traven atira em Temple e o amigo cai, o vilão fica a sua mercê, a poucos metros de distancia, mas o policial também hesita em atirar, permitindo a fuga do vilão. E nem mesmo a explosão que encerra a cena é efetiva, pois o espectador imagina que o personagem de Hopper não morreria tão cedo. Por isso, o suspense criado é artificial demais e, felizmente, se encerra na cena seguinte, quando Payne surge olhando para a televisão. E apesar de acertar ao evitar o excesso de diálogos e priorizar a ação, o roteiro apresenta pequenos diálogos superficiais, como aquele entre Traven e Temple, quando eles salvam as pessoas no elevador. “Foi bom pra você?” é a típica pergunta recheada de humor negro que não soa bem naquele momento. Apesar disto, existem raras frases interessantes que criticam a política norte-americana, por exemplo, como quando Annie pergunta se “bombardeamos o país dele” ao falar sobre o vilão – o que é compreensível, já que o que mais interessa aqui é a ação e não os diálogos.

É incrível notar ainda que a polícia de uma cidade como Los Angeles não saiba que uma estrada desativada tem uma falha enorme – aliás, que jeito estranho de construir estrada, mas, tudo bem, não sou especialista no assunto. E apesar do absurdo da situação criada, a falha na estrada gera um momento muito tenso, paralisando o espectador que embarca na aventura, assim como é tensa a seqüência em que Traven tenta desarmar a bomba embaixo do ônibus em movimento. Yost também não consegue evitar clichês, por exemplo, quando um pneu estoura logo após o penúltimo civil sair do ônibus, deixando apenas Annie e Traven para trás. Por outro lado, o roteirista mostra criatividade na solução criada antes, com a gravação de uma fita que engana o vilão e permite a retirada das pessoas do ônibus. Claramente o melhor trecho do filme, o segundo ato se encerra de maneira satisfatória com a saída de Annie e Traven do veículo e o espectador finalmente pode respirar. Ou pelo menos pensa que pode.

Já no terceiro ato, as situações artificiais voltam com força total quando, por exemplo, tudo para de funcionar no metrô, menos a alavanca de aceleração, e, principalmente, quando novamente um trecho inacabado, agora nos trilhos, surge para tentar criar tensão (desta vez, sem resultado, pois o espectador já está anestesiado). Além disso, porque Payne, com uma refém sob controle, iria se arriscar a subir no trem e enfrentar Traven? Um momento de fúria, talvez, por descobrir que o dinheiro que recebeu era falso, mas ainda assim me parece que outras soluções soariam mais eficientes. Sua morte, ao menos, serve para destacar o bom trabalho de efeitos visuais, que torna a cena bem real.

Apesar do terceiro ato irregular e do primeiro apenas correto, toda a trama que envolve o ônibus em alta velocidade serve para transformar “Velocidade Máxima” num ótimo filme de ação, tenso o suficiente para agradar ao espectador. Além disso, a excelente química do casal principal, confirmada no último e divertido diálogo entre eles, cria uma inevitável empatia com a platéia, garantindo uma sensação de bem estar ao final da projeção. Bem estar que não aparece durante quase todo o filme, dando lugar à tensão, o que comprova que o longa cumpre muito bem seu propósito.

Texto publicado em 25 de Julho de 2011 por Roberto Siqueira

UM SONHO DE LIBERDADE (1994)

(The Shawshank Redemption)

 

 

Videoteca do Beto #107

Dirigido por Frank Darabont.

Elenco: Tim Robbins, Morgan Freeman, William Sadler, Jeffrey DeMunn, Bob Gunton, Gil Bellows, Mark Rolston, James Whitmore, Clancy Brown, Larry Brandenburg e Neil Giuntoli.

Roteiro: Frank Darabont, baseado em história de Stephen King.

Produção: Niki Marvin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Na superfície, “Um Sonho de Liberdade” conta a história de um banqueiro condenado à prisão perpétua que foge após 19 anos de detenção. Na prática, o longa dirigido por Frank Darabont vai muito além, narrando a amizade entre dois condenados e a redenção de ambos com muita sensibilidade, num triunfo cinematográfico tão humano quanto belo. Com momentos tão lindos que soam como poesia, extremamente bem atuado e muito bem conduzido, “Um Sonho de Liberdade” é um dos pontos altos do cinema, não apenas nos anos 90, mas em todos os tempos.

Condenado a prisão perpétua pelo assassinato da esposa e de seu amante, o bem sucedido banqueiro Andy Dufresne (Tim Robbins) é enviado para “Shawshank”, um presídio de segurança máxima. Lá faz amizade com Red (Morgan Freeman), um prisioneiro veterano que controla o mercado negro e consegue tudo, desde escovas de dente até um pôster de uma atriz famosa. Mas a vida na prisão não é um conto de fadas e Andy enfrentaria muitas dificuldades antes de demonstrar suas habilidades e começar a trabalhar para Samuel Norton (Bob Gunton), o diretor do presídio.

Dirigido com competência por Frank Darabont, “Um Sonho de Liberdade” prende a atenção do espectador desde seus primeiros minutos, quando acompanhamos o julgamento de Andy ao mesmo tempo em que vemos os momentos prévios ao crime. Acertadamente, por um bom tempo a narrativa não esclarece se ele de fato matou ou não a esposa e o amante, encerrando o flashback segundos depois de ele descer do carro. Por isso, e também pelo jeito reservado de Andy, carregamos esta dúvida até o momento em que Tommy (Gil Bellows) conta a história verdadeira, já próximo ao terceiro ato. Ainda assim, criamos empatia pelo personagem, talvez pelo seu comportamento na prisão, por ele ser perseguido inicialmente e, principalmente, pela empatia com Red. Aliás, é curioso notar como quando “Um Sonho de Liberdade” tem início e vemos Andy indo para a prisão, mantemos uma pequena esperança de que ele seja inocente e consiga sair de lá. Mas, com o passar do tempo, passamos a desistir desta idéia, até por causa de pequenos momentos que esvaziam esta possibilidade, como as risadas de Andy e Red ao falarem sobre o martelo. E quando já não esperamos mais pela fuga, Andy surpreende a todos e o impacto é muito maior.

Escrito pelo próprio Darabont, baseado em história de Stephen King, o elegante roteiro tem frases tão bem construídas que em muitos momentos chega a ser poético, ainda mais quando narradas pela voz solene de Morgan Freeman – uma das minhas favoritas surge após a fuga de Andy: “Sei que alguns pássaros não podem viver numa gaiola. Suas penas brilham demais. E quando eles voam você fica contente, porque sabia que era um pecado prendê-los. Mesmo assim o lugar onde vive se torna mais vazio e chato depois da partida”. Além disso, a perfeita estrutura narrativa trabalha em cada detalhe da fuga de Andy sem jamais deixar que a platéia perceba o que ele planeja, fazendo o espectador querer rever o filme assim que ele termina, apenas para confirmar que cada passo foi de fato mostrado na projeção. Os pequenos detalhes de seu plano de fuga são fascinantes, como a bíblia com o martelo dentro (e a irônica frase deixada para o diretor “a salvação vem de dentro”), as pedras espalhadas pelo pátio, os sapatos trocados no dia da fuga, a escolha de uma noite chuvosa para abafar o barulho e até mesmo o pedaço de corda. Pra completar, os personagens são muito bem desenvolvidos e até mesmo personagens secundários como Brooks (James Whitmore) e Tommy tem passagens marcantes pela narrativa – o primeiro, na pequena e triste narração fora da prisão que revela seu suicídio, e o segundo, esbanjando energia e jovialidade até ser friamente assassinado. Também é interessante como o roteiro mostra a corrupção no presídio e como Andy usa seu conhecimento para lavar dinheiro, criando uma pessoa que nem existe (Randal Stevens) e que será vital na narrativa. E finalmente, num dos raros momentos em que vemos uma mulher em cena, a aparição de Rita Hayworth na telona delicia os presos e é um eficiente alivio cômico numa narrativa até então bastante pesada.

Realçando a tristeza local, os uniformes sem vida da figurinista Elizabeth McBride, que misturam cinza e azul marinho, colaboram na ambientação do espectador aquele ambiente. Além disso, cenas realistas como o espancamento de um preso logo no início e os ataques das “bichas” ilustram a hostilidade que impera no presídio. Apresentada num belo travelling de Darabont antes da chegada de Andy, a prisão de Shawshank parece ter vida e intimida bastante (direção de arte de Peter Landsdown Smith), mas, na medida em que a narrativa avança, nos acostumamos com aqueles muros e, assim como os próprios personagens, ficamos “institucionalizados” – repare como Brooks afirma sentir falta de “casa” quando está na rua. Além disso, a fotografia fria e cinzenta de Roger Deakins reflete o mundo sombrio e triste em que os personagens estão inseridos, exibindo a luz do sol em poucas vezes (até porque a narrativa se passa predominantemente num local fechado), como na bela cena em que Andy consegue algumas cervejas para seus amigos que trabalham no teto da prisão. Aliás, nesta cena, quando o capitão Hadley (Clancy Brown) ameaça jogá-lo, Darabont faz um belo movimento de câmera que nos dá a exata noção do perigo que ele corre, e quando vemos aqueles homens se sentindo livres por um instante, com o sol batendo em seus rostos ao ar livre, temos a mesma sensação de liberdade deles, graças aos closes do diretor, que realçam a felicidade de cada um.

Outra cena marcante é o canto das italianas (a música chama-se “The Marriage of Figaro”, de Mozart), que voa pela prisão como um lindo pássaro e paralisa os presos, em outro momento conduzido com muita sensibilidade por Darabont (“Esta é a beleza da música, ninguém pode tirá-la de você”, diz Andy). Aliás, vale ressaltar também a importância da música em “Um Sonho de Liberdade”, ilustrando o sentimento dos personagens em alguns momentos, como quando Andy consegue melhorar a biblioteca e o som de Hank Williams reflete seu estado de espírito, agora já mais adaptado à Shawshank. E por falar em música, a trilha sonora de Thomas Newman tem momentos sombrios na maior parte do tempo, mas apresenta variações triunfais, como aquela que sublinha a fuga de Andy, e outras com função narrativa, como aquela que o acompanha escrevendo na parede, que é exatamente igual à do dia de sua fuga, indicando com sutileza o momento em que ele começa a planejar tudo.

Inteligente e meticuloso, Andy planeja cada etapa com calma, também porque, como diz Red em certo momento, tudo que ele tinha na prisão era tempo. E o tempo passa lentamente naquele local. Cobrindo quase vinte anos de história sem jamais soar episódica, a montagem de Richard Francis-Bruce imprime o ritmo correto ao longa, dando a exata noção de lentidão que pede a narrativa, mas saltando alguns anos de maneira inteligente, como quando Andy faz o imposto de renda dos guardas seguidamente, além de indicar a passagem do tempo com simplicidade e eficiência, por exemplo, através do crescimento do pássaro Jake. Vale ressaltar também a perfeita decupagem de muitas seqüências, como quando Andy senta para fazer o primeiro imposto de renda para um guarda e, em seguida, vemos Brooks contando a história para os amigos. E se podemos chamá-los de amigos é porque o talentoso elenco de “Um Sonho de Liberdade” estabelece excelente química na relação dos prisioneiros, fazendo com que eles realmente pareçam se importar uns com os outros. Praticamente todo o elenco está bem, destacando-se em papéis secundários os citados Gil Bellows, que vive Tommy Williams, e o veterano James Whitmore, que interpreta Brooks, um personagem que ilustra a dificuldade de ex-prisioneiros para se adaptar fora da prisão. Lá dentro, eles têm algum respeito e uma ocupação. Lá fora, são apenas velhos ex-presidiários. Além dos presos, temos boas atuações também no grupo que tenta manter a ordem local, com o agressivo e assustador Capitão Hadley de Clancy Brown e, principalmente, o diretor Norton. Sempre falando do “Senhor”, Bob Gunton compõe um Norton bastante corrupto e ameaçador, como podemos notar, por exemplo, quando ele conversa com Andy na solitária, após ouvir a história de Tommy.

Mas o grande destaque fica mesmo para a antológica empatia da dupla principal. Em atuação muito boa, Tim Robbins vive Andy, que começa intimidado, mas cresce lentamente e se mantém diferente dos outros presos na maior parte do tempo, parecendo mesmo uma pessoa que não pertence aquele mundo. Sempre fechado e misterioso, o ex-banqueiro exala frieza, o que explica o afastamento de sua esposa, como ele mesmo esclarece num diálogo tocante com Red, em que ele também cita a cidade mexicana de Zihuatanejo e pede que Red faça uma promessa – repare que a mesma trilha do dia de sua fuga sublinha a cena. E é impressionante notar como mesmo sendo alguém tão pensativo e recluso, Andy consegue influenciar as pessoas à sua volta e ser admirado por muitas delas. E se Robbins está bem, Morgan Freeman tem uma atuação simplesmente perfeita como Red, sempre no tom correto, demonstrando a serenidade de um homem já acostumado àquele local. Tranqüilo, Red é o ponto de equilíbrio que impede que Andy perca a cabeça e permite que o amigo consiga suportar todos aqueles anos na prisão, mas é também através de Andy que Red renovará seu conceito de “esperança” e encontrará a redenção. A empatia entre os dois atores é tão orgânica que temos a sensação de que Red e Andy se conhecem há anos já nos primeiros diálogos. E é num destes diálogos marcantes que Andy fala sobre a “esperança” e é repreendido por Red, num momento essencial para entender que Andy estava mesmo alheio ao que acontecia ali, se preparando para viver a vida lá fora, enquanto o amigo ainda precisava mudar. No fim das contas, “Um Sonho de Liberdade” mostra a importância deste sentimento, algo reforçado pelas últimas palavras de Red, que encerram a narrativa.

Quando Andy presenteia o amigo com uma gaita após sair da solitária, temos apenas mais um simples exemplo daquela amizade sincera, tocante e bela. Mas Andy também conquista outros prisioneiros com seu jeito de ser. Meticuloso ao ponto de gostar de polir pedras e jogar xadrez, seu relacionamento mais intenso e conflitante envolve o elétrico Tommy, por isso, quando lhe avisam que “o menino passou”, seu sorriso de canto de boca significa muito, demonstrando que ele se sente recompensado por todo o esforço que fez – e este é apenas um dos bons momentos de Tim Robbins. Aliás, Tommy é responsável também pela grande guinada na narrativa, quando traz a tona novamente o assassinato da esposa de Andy. Por isso, quando Red fala sobre o crime, um close em sua reação indica que ele sabe algo a respeito, paralisando os personagens e o espectador. E a revelação surge como uma bomba: Andy era mesmo inocente! O espectador está em choque, assim como os personagens.

Momentos antes da grande cena de “Um Sonho de Liberdade”, temos muitos indícios de que Andy cometeria um suicídio. Seu estranho diálogo com Red, somado ao pedido da corda, à morte de Tommy e ao fim de sua esperança de um novo julgamento, fazem o espectador temer sua morte. “Todos têm um limite”, afirma Red, reforçando este sentimento. A fotografia sombria, a chuva e a narração de Red na noite mais longa de sua vida reforçam o temor. Pra piorar, quando a contagem de presos começa no dia seguinte e Andy não aparece, o guarda vai até a cela, olha levemente pra cima e diz “Meu Deus!”. O espectador muda então da tensão para a euforia quando todos começam a procurar pelo homem que “sumiu ao vento”. A cela vazia e o interrogatório que começa deixam nossas mentes num turbilhão. O que teria feito Andy? E então, quando Rachel revela seu segredinho (algo indicado brilhantemente pelo som da pedra que percorre o buraco na parede), o espectador está em êxtase. Andy fugiu! Tem inicio então a meticulosa reconstituição da trajetória de Andy desde o dia em que ele escreve na parece até a fuga. E o plano plongèe, com Andy abrindo os braços na chuva, parece lavar a alma do personagem e do espectador, numa das mais belas cenas do filme. Além de fugir, Andy (ou devo dizer Randal Stevens?) ainda sai rico e incrimina Norton. E o melhor é que tudo isto soa verdadeiro e orgânico, graças ao roteiro coeso e a condução competente de Darabont.

Após este momento de euforia, o espectador ainda acompanha a saída de Red da prisão, depois de ser finalmente aprovado na análise do conselho. Agora, só nos resta torcer pelo reencontro dos grandes amigos, e ele acontece após Red passar nos campos de Buxton e seguir as instruções de Andy. Ao ouvirmos as lindas palavras de Red e vermos um travelling pelo pacífico, um recompensador plano geral mostra os dois amigos se abraçando e termina uma das obras-primas dos anos 90. É difícil conter as lágrimas num final tão emocionante e apoteótico.

Finalmente, é importante ressaltar que a redenção do título original em inglês se refere muito mais à Red do que a Andy. Com exceção do prólogo com o julgamento do protagonista, durante todo o tempo a história é apresentada sob o filtro do olhar dele. Momentos cruciais da vida de Andy são narrados sob a perspectiva de Red, como a fuga da prisão, o fechamento das contas bancárias e a viagem para o México, por exemplo. Além disso, não vemos mais Andy após a fuga, e sim como Red chega até ele. Quando Red diz no final que “espera” reencontrar o amigo e apertar a mão dele, o verbo esperar tem um significado muito maior do que aparenta. Red havia encontrado mais do que a esperança tão comentada pelo amigo. Ele encontrou a redenção.

Contando com pessoas talentosas em todas as áreas, Frank Darabont e seu ótimo elenco entregaram uma obra-prima, que viverá muito tempo em nossas memórias. No meu caso, pelo menos, já se passaram 16 anos desde que assisti ao filme pela primeira vez e seu efeito continua intacto. Narrando uma história humana e com reviravoltas marcantes, “Um Sonho de Liberdade” pertence ao seleto grupo de filmes que parece melhorar a cada nova revisão. Esta é a marca dos grandes filmes.

PS: Confesso que não foi nada fácil escrever sobre este que é um dos filmes mais importantes da minha vida. Por isso, qualquer traço de “exagero emocional” que apareça no texto não é mera coincidência. Este filme, de fato, ainda mexe muito comigo. Ao lado de “Coração Valente”, é responsável direto por minha paixão pelo cinema.

Texto publicado em 22 de Julho de 2011 por Roberto Siqueira

QUATRO CASAMENTOS E UM FUNERAL (1994)

(Four Weddings and a Funeral)

 

Videoteca do Beto #106

Dirigido por Mike Newell.

Elenco: Hugh Grant, Andie MacDowell, Kristin Scott Thomas, Rowan Atkinson, James Fleet, Simon Callow, John Hannah, David Bower, Charlotte Coleman, Timothy Walker, Sara Crowe, Ronald Herdman, Elspet Gray e Philip Voss.

Roteiro: Richard Curtis.

Produção: Duncan Kenworthy.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Abordando com inteligência e bom humor as semelhanças e diferenças culturais que atrapalham um homem e uma mulher apaixonados, o diretor Mike Newell entrega uma comédia leve, com boas atuações e diálogos divertidos, recheados pelo típico humor ácido inglês. Nem mesmo o previsível final compromete o bom resultado do longa, que está longe de figurar entre os cinco melhores do ano (como apontou a Academia de Hollywood), mas que certamente é um entretenimento agradável (especialmente para casais).

Charles (Hugh Grant) é um solteirão que evita de todas as formas um compromisso sério com alguma mulher. Só que no casamento de um amigo, ele conhece Carrie (Andie MacDowell), uma mulher capaz de abalar suas convicções e fazê-lo questionar tudo que defendeu até então.

Escrito por Richard Curtis (que viria a escrever “Um lugar chamado Notting Hill” e dirigir “Simplesmente Amor”), o roteiro de “Quatro casamentos e um funeral” é repleto de diálogos interessantes e boas tiradas, que aproveitam situações costumeiras em casamentos (e funerais) para nos fazer rir, como no ácido discurso de Charles no primeiro casamento, que fica ainda melhor graças à boa interpretação de Grant (repare também no close em Carrie quando ele fala que não teria coragem de casar, indicando a atração dela pelo rapaz). E apesar dos clichês costumeiros do gênero (o primeiro encontro inesquecível, os obstáculos que separam o mocinho e a mocinha antes deles ficarem juntos no final), o longa consegue prender nossa atenção, muito por causa das situações divertidas e inusitadas que envolvem os personagens, ainda que algumas soem artificiais. Além disso, a fotografia viva de Michael Coulter e as roupas coloridas (figurinos de Lindy Hemming) conferem uma atmosfera alegre ao filme, assim como as igrejas muito bem decoradas garantem a ambientação do espectador nos principais cenários – Coulter ainda acerta ao utilizar a chuva no casamento de Carrie e no enterro de Gareth, acentuando a tristeza dos personagens. E finalmente, a trilha sonora de Richard Rodney Bennett surge apenas em momentos pontuais, como na primeira conversa entre Charles e Carrie e no funeral de Gareth, enquanto nos casamentos e festas ela é diegética, surgindo nos cantos na igreja, na marcha nupcial e nas tradicionais músicas tocadas em festas de casamento.

Neste clima leve, Mike Newell conduz a narrativa de maneira solta, empregando muitos closes e planos americanos que valorizam as atuações (o que é correto num filme que depende bastante do desempenho dos atores). O diretor também cria belos planos nas igrejas, explorando o visual rico destes locais, e extrai o riso através de rimas narrativas, como quando Charles se atrasa no segundo casamento, da mesma maneira que fez no primeiro (e o plano dele desligando o despertador faz o espectador pressentir o atraso antes mesmo de vê-lo acordando desesperado). Finalmente, o diretor emprega movimentos de câmera corretos, como quando Charles descobre que Carrie está noiva e o zoom realça a tristeza dele. Essencial numa comédia romântica, a montagem de Jon Gregory imprime um ritmo delicioso ao longa, dividindo a narrativa entre os cinco eventos principais de forma correta, além de ser fundamental em algumas cenas, como quando Carrie diz “Você não é tão bonito” e um corte nos leva à imagem da janela do hotel, indicando que eles dormiram juntos novamente. Em seguida, Carrie dorme no hotel e outro raccord nos mostra Charles dormindo na mesma posição que ela, numa elegante rima visual que indica que eles estão conectados.

E apesar do correto trabalho técnico, é na condução do elenco que Newell tem seu maior mérito. A começar por Hugh Grant, que cai muito bem no papel do atrapalhado Charles, como podemos notar logo na primeira cerimônia, quando sua reação engraçada a uma pergunta indica que ele esqueceu as alianças. Outro momento divertido envolvendo o ator (e suas reações desesperadas) acontece quando Charles senta-se à mesa com muitas ex-namoradas, numa seqüência hilária de revelações comprometedoras do passado. Esta cena também escancara a paixão dele por Carrie, pois sua timidez diante dela contradiz totalmente sua fama de namorador, revelando um nervosismo incomum naquele rapaz. Aliás, o encontro entre Charles e Carrie no bar “Boatman” começa engraçado e termina bastante sensual, e o envolvimento do casal só é crível graças à empatia entre Grant e MacDowell, que parecem de fato estarem apaixonados. A troca de olhares, a forma como se comportam e principalmente a química do casal nos convence. Por isso, quando Charles começa a sentir a falta de Carrie, sabemos que ele foi fisgado – o que leva a atrapalhada declaração dele, no único momento em que a narrativa se passa fora das cerimônias que dão nome ao filme. Obviamente, Andie MacDowell também tem méritos, conferindo sensualidade a norte-americana Carrie, além da notável simpatia, essencial para que o espectador torça pelo casal. E mesmo noiva, ela continua vivendo bons momentos com ele, como na conversa sobre as transas do passado, logo após experimentar vestidos de noiva, numa cena que escancara as diferenças culturais de ambos em relação ao sexo – e é curioso notar também a dica do roteiro, quando Carrie experimenta um vestido na frente dele e diz “Este não. Talvez na próxima vez?”.

Esta afinidade serve também para provocar tristeza nas inúmeras pretendentes de Charles. E uma delas em especial chama a atenção. Trata-se de Fiona, interpretada pela sempre ótima Kristin Scott Thomas, que exala sarcasmo ao mesmo tempo em que parece fina e bela. Vestida sempre de preto, a moça parece ilustrar através das roupas a tristeza de uma garota que há tanto tempo sofre por amar alguém que não a ama (novamente, ponto para os figurinos de Lindy Hemming). Antes mesmo que a platéia confirme o interesse dela pelo protagonista, Fiona indica que é apaixonada por alguém, e o espectador mais ligado sente que é Charles, até pela forma que ela olha pra ele e, principalmente, pela forma como ela se refere à Carrie quando ele demonstra interesse. E mesmo num papel secundário e sem grande destaque, é impressionante notar como Kristin Scott Thomas consegue dar peso à confissão de Fiona, fazendo a cena soar comovente sem ser melodramática. Já Simon Callow faz de seu Gareth um personagem amável, amigo de todos, o que explica a enorme tristeza após sua morte. Além disso, é interessante o momento da revelação sutil de seu caso com Matthew, através do discurso emocionado do rapaz em seu enterro, citando o poema de W.H. Alden, “Funeral Blues” – num bom momento de John Hannah. E finalmente, vale destacar a presença de Rowan Atkinson (hoje famoso pelo papel de “Mr. Bean”) na pele do Padre Gerald, protagonizando uma das cenas engraçadas do segundo casamento.

Ainda durante o funeral, notam-se claramente as semelhanças entre as duas cerimônias centrais da trama, o casamento e o próprio funeral. Ambos são eventos que unem a família e os amigos, sempre com roupas elegantes e dentro da igreja. Nos dois casos, as pessoas choram e sorriem, alguém faz um discurso e alguém é o centro das atenções. Obviamente, as diferenças também aparecem, já que no primeiro caso “quase” todos estão alegres, e no segundo, a tristeza impera. Vale destacar ainda como no funeral, Newell emprega muitos closes e alterna bastante entre os planos, destacando a reação emocionada das pessoas. Após este momento melancólico, a alegria volta a dominar a narrativa e chegamos ao esperado dia em que Charles se entregará ao compromisso do casamento. Só que, inteligentemente, o nome da noiva no convite é escondido por uma flor, mantendo um suspense interessante, que, infelizmente, é quebrado já na cena seguinte. Ao vermos Fiona no carro, percebemos que ela não será a noiva e, pouco tempo depois, ela mesma revela o nome da escolhida. E ao descobrir que a noiva não é Fiona e nem Carrie, o espectador se desanima. Mas, quando Carrie chega e revela que está separada, começamos a torcer pelo politicamente incorreto “não” de Charles na cerimônia. E apesar de ser totalmente previsível, o espectador fica feliz quando ele diz que ama outra no altar – e o plano dele angustiado enquanto a noiva entra na igreja diz mais que qualquer palavra. É clichê? É. Previsível? Sim. Mas funciona muito bem.

Apesar de ser totalmente previsível, o final de “Quatro Casamentos e um Funeral” é coerente com a proposta do filme, que é proporcionar uma sensação de bem estar ao espectador. Além disso, o longa tem o mérito de fazer boas piadas com situações corriqueiras nestas cerimônias, fazendo com que o espectador se identifique com o que vê e, por isso, sinta empatia pelo filme. Pra quem já é casado (como eu), fica a sensação de que, por mais que alguns casamentos não dêem certo, arriscar viver o amor verdadeiro sempre vale à pena.

Texto publicado em 18 de Julho de 2011 por Roberto Siqueira

PULP FICTION – TEMPO DE VIOLÊNCIA (1994)

(Pulp Fiction)

 

Videoteca do Beto #105

Dirigido por Quentin Tarantino.

Elenco: John Travolta, Samuel L. Jackson, Uma Thurman, Bruce Willis, Harvey Keitel, Tim Roth, Ving Rhames, Eric Stoltz, Rosanna Arquette, Christopher Walken, Maria de Medeiros, Steve Buscemi, Quentin Tarantino, Amanda Plummer e Joseph “Joe” Pilato.

Roteiro: Quentin Tarantino, baseado em história de Roger Avary e Quentin Tarantino.

Produção: Lawrence Bender.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Goste ou não de Quentin Tarantino, todo cinéfilo concorda: seu estilo de fazer cinema é bastante original. Profundo conhecedor e amante da sétima arte, o diretor investe na subversão de gêneros (ao mesmo tempo em que os homenageia), revelando a influência de grandes diretores do passado em seu trabalho. Além disto, Tarantino trouxe a tona o culto ao popular, ousando misturar elementos narrativos clássicos com referências à cultura pop, sempre com uma abordagem que varia entre o realista e o hiper-realista, recheada por diálogos deliciosos e espontâneos. E esta nova forma de fazer cinema chegou ao auge logo em seu segundo longa-metragem, o excelente “Pulp Fiction”, que ainda resgatou o astro John Travolta após anos de ostracismo.

Os criminosos profissionais Jules (Samuel L. Jackson) e Vicent Vega (John Travolta) saem para fazer uma cobrança em nome do traficante Marcellus (Ving Rhames). Vicent está preocupado, porque a noite deverá acompanhar a esposa do chefe, Mia (Uma Thurman). Enquanto isso, o boxeador Butch (Bruce Willis) deverá perder uma luta, para cumprir um acordo com Marcellus e sair rico da cidade.

“Pulp Fiction” começa num pequeno restaurante, com um casal conversando sobre a vida criminosa que pretende abandonar. Em instantes, eles anunciam um assalto, e a trilha sonora indica o começo do filme. Este interessante prólogo é então deixado de lado, e voltará à tona somente nos instantes finais da narrativa. Misturando com perfeição os elementos narrativos que já utilizara em seu filme de estréia (“Cães de Aluguel”), Quentin Tarantino alcança o ápice neste “Pulp Fiction”, com seus costumeiros diálogos ágeis e deliciosos sobre coisas do cotidiano, que nem sempre colaboram para o andamento da trama, mas sempre chamam a atenção do espectador, como na conversa entre Vicent e Jules sobre as diferenças entre EUA e Europa e sobre o McDonald’s. Tarantino também aborda a vida criminosa de maneira diferente do usual, auxiliado pela trilha sonora pop e empolgante, pela montagem não cronológica e dividida em capítulos – que prende a atenção da platéia – e pela narrativa que foge da tradicional causa e efeito que normalmente motiva os personagens, mantendo o foco na situação em que os eles estão envolvidos em detrimento dos objetivos de cada um. Em “Pulp Fiction”, a força do acaso em nossas vidas também ganha destaque, através de situações inesperadas que alteram o destino de todos envolvidos, como o fato de Marcellus cruzar o farol bem na frente do carro de Butch, que levará os dois a serem seqüestrados por estupradores e à redenção de Butch diante do traficante.

Obviamente, Tarantino conta muito com o excelente trabalho da montadora Sally Menke, que divide a narrativa em capítulos bem definidos, em ordem não cronológica, ajudando a criar a atmosfera mais realista pretendida pelo diretor através de cenas extensas, com poucos cortes, que confirmam a preferência dele já indicada no filme anterior. Além disso, Menke e Tarantino mostram inteligência ao esticar as histórias que envolvem Vicent e Jules, encurtando a trama que envolve Butch, claramente a menos atraente do roteiro. Escrito pelo próprio Tarantino (baseado em história dele com Roger Avary), o roteiro de “Pulp Fiction” usa artifícios interessantes, como o “macguffin” representado pela maleta de Marcellus, que, seguindo o mais puro sentido do termo popularizado por Hitchcock, não tem função narrativa alguma a não ser guiar os personagens na trama. Personagens, aliás, que falam a linguagem das ruas, cheia de palavrões e até mesmo preconceito contra estrangeiros, confirmando a abordagem realista que aproxima o espectador. E não posso deixar de citar os maravilhosos diálogos que se espalham pela narrativa, confirmando a criatividade de Tarantino, que cria situações muito interessantes, por exemplo, ao discutir algo banal como uma massagem no pé.

O longa ainda aborda com naturalidade o uso de drogas, mostrando os personagens usando cocaína e heroína, sem aliviar também nos efeitos deste uso, como quando Vicent vai buscar Mia, com os olhos praticamente fechados e um largo sorriso no rosto, claramente transformado (a trilha e a câmera lenta ilustram a sensação de relaxamento do personagem). Tudo isto, somado à fotografia natural de Andrzej Sekula, reforça a abordagem realista e ambienta o espectador ao mundo do crime. Sekula até chega a criar um visual estilizado, por exemplo, quando Butch visita Marcellus no bar, indicando através do tom vermelho a violência que predomina naquele meio, mas, em geral, a fotografia é mais crua e próxima da realidade. Realidade que nem sempre está presente, pois Tarantino também foge da abordagem realista, por exemplo, quando Mia faz um quadrado no ar e um efeito visual representa o quadrado na tela.

Além do excelente roteiro, Tarantino também mostra talento na condução da narrativa, conferindo um visual rico ao longa, além de constantemente fazer referências ao passado, seja dele próprio (o plano de dentro do porta-malas quando Vicent e Jules pegam as armas remete ao plano de “Cães de Aluguel” em que o policial é retirado do carro), seja do cinema em geral (na fuga de Butch, Tarantino homenageia uma velha técnica, o back projection, com o carro parado e as imagens movendo ao fundo). Além disso, o plano-seqüência que acompanha Vicent pelo “Jackrabbit Slim’s” serve como homenagem às estrelas do cinema dos anos 50, revelando os cartazes e as próprias atendentes locais, em outro momento de imersão na cultura pop, reforçado pela trilha sonora diegética com clássicos do período. Em outros momentos, Tarantino usa a handycam para conferir realismo às cenas, como quando Marcellus atira em Butch em plena luz do dia e quando Butch se dirige ao apartamento onde matará Vicent. Aliás, impressiona também a ausência de policiais e a predominância de cenas diurnas, o que confirma a subversão do cinema de gênero pretendida pelo diretor (nos filmes de crime, normalmente o visual é mais obscuro e os policiais estão no encalço dos criminosos). Finalmente, Tarantino não desvia a câmera nos momentos violentos e nem mesmo quando Mia confunde heroína com cocaína, mostrando o resultado trágico da droga na moça. O desespero toma conta da tela, Vicent sai em disparada para tentar salvá-la e o hiper-realismo novamente entra em cena. Neste momento, o espectador sente um misto de euforia e angústia, provocado pela mistura de humor negro e realismo, reforçado pela handycam utilizada na casa de Lance (Eric Stoltz). Quando Mia levanta gritando após a injeção de adrenalina, o hiper-realismo volta e o espectador ri. Este é o cinema de Tarantino. Por outro lado, este estilo cinematográfico dificilmente envolve a platéia emocionalmente, pois os personagens são praticamente caricaturas, o que é um ponto negativo em sua filmografia, mas que em “Pulp Fiction” funciona bem, dada a abordagem afastada da realidade em diversos momentos, como a citada “ressurreição” de Mia.

Com seu visual sensacional (figurinos de Betsy Heimann), que faz alusão aos anos 50, Vicent Vega – e suas roupas descoladas – e Jules – com seu cabelo “black power” – são personagens fascinantes, interpretados com grande carisma por John Travolta e Samuel L. Jackson. Apresentando um impressionante entrosamento, eles formam uma adorável dupla de criminosos, que tem um curioso código moral, revelado no diálogo que antecede a invasão de um apartamento. Para eles, é vital seguir o horário combinado, como se um ou dois minutos fossem extremamente importantes. Para Vicent, uma simples massagem no pé soaria como desrespeito ao chefe. Mas, para ambos, matar um inimigo de Marcellus a queima roupa é simplesmente normal. Travolta também demonstra com competência a aflição de Vicent por ter que sair a noite com Mia, aflição que só aumenta ao ouvir as risadas dos amigos quando ele pergunta se ela é bonita. As risadas se justificam quando surge a sensual e divertida Mia, interpretada pela ótima Uma Thurman. Demonstrando empatia com Travolta, Thurman está bem solta no papel. Na memorável cena em que eles dançam twist, além do desempenho marcante da dupla e da música empolgante (“Never can tell”, de Chuck Berry), o espectador que conhece um pouco da história do cinema sente uma ponta de nostalgia ao ver novamente John Travolta dançando, num momento que extrapola o filme e deixa a platéia em êxtase. Recheada de músicas marcantes, a trilha sonora ainda apresenta a bela “Girl, you’ll be a woman soon”, de Bruce Springsteen, numa cena em que Thurman novamente se destaca, dançando solta e cantarolando a música desafinada, ao mesmo tempo em que Travolta também dá um show, olhando para o espelho e treinando o autocontrole para evitar se envolver com a mulher do chefe.

Citar todos os nomes do elenco é até desnecessário diante de tantos bons atores que aparecem no longa. Mas alguns merecem destaque especial, como Christopher Walken, que tem uma pequena e estupenda participação ao contar a história do “Relógio de Ouro”. Já Bruce Willis, com seu jeito bruto e ameaçador, se sai muito bem como o boxeador Butch, se destacando em alguns momentos especiais, como a revolta de Butch ao saber que Fabienne (Maria de Medeiros) esqueceu o relógio de ouro, o olhar frio antes de matar Vicent, seu espanto ao ver Marcellus cruzar o farol e, principalmente, o momento surreal em que ele escolhe a arma antes de salvar Marcellus. Butch ainda é o autor de uma das frases marcantes do excelente roteiro – só que o seu “Zack is dead, baby” soa bem em inglês, mas perde a graça em português. E apesar de curtas, as participações de Tarantino, como Jimmy, e principalmente de Harvey Keitel, como Wolf, são excelentes, com o segundo exibindo a costumeira segurança e uma expressão ameaçadora, que confere credibilidade e respeito ao personagem.

Keitel e Tarantino surgem no último capitulo da narrativa. Repleto de humor negro e diálogos sarcásticos, “A situação de Bonne” conta com a cena mais violenta e engraçada do longa, que é o tiro acidental de Vicent em Marvin, mas é também o capitulo em que Jules escapa milagrosamente da morte, o que promove uma transformação no criminoso, que passa a acreditar na “intervenção divina” em sua vida. Esta interessante visão contrasta com a de seu colega Vicent, que vê no acaso a explicação para o que aconteceu. Bastante polêmica, esta discussão ideológica deixa a cargo de cada espectador tirar alguma conclusão. Após acompanhar todas estas histórias paralelas, o espectador se vê novamente no mesmo restaurante do início. Novamente, o grito de Honey Bunny (Amanda Plummer) ecoa em todo local e Pumpkin (Tim Roth) começa a recolher as carteiras, aterrorizando quase todas as pessoas presentes. “Quase” todas, porque o agora regenerado Jules está lá, sentado, com a arma na mão e a misteriosa maleta de Marcellus Wallace na mesa, enquanto Vicent está no banheiro, lendo uma revista tranqüilamente. E apesar de exagerar em alguns momentos anteriormente, Samuel L. Jackson está perfeito na cena final, demonstrando segurança e autoridade enquanto conversa com os assaltantes e explica a razão de sua regeneração. E assim como Leone fazia com maestria no western spaghetti, Tarantino conduz a cena com a costumeira habilidade, mantendo a tensão simplesmente ao prorrogar ao máximo o confronto (que, neste caso, sequer acontece), com os personagens mantendo as armas apontadas uns para os outros, como ele também fizera em “Cães de Aluguel”. Nada acontece de fato, mas a tensão que domina a cena é suficiente para nos deixar em transe.

Com seu visual estilizado, diálogos inesquecíveis, narrativa envolvente e cenas marcantes, “Pulp Fiction” marcou época e confirmou que Tarantino era o sopro de criatividade que faltava em Hollywood. Embalado por uma trilha sonora empolgante e por atuações inspiradas de um elenco excepcional, o longa revigorou o cinema dos anos 90, inspirando muitos trabalhos que surgiriam a seguir. Não foi apenas Jules que saiu regenerado, a própria Hollywood parece ter escapado milagrosamente de alguns tiros a queima roupa.

Texto publicado em 15 de Julho de 2011 por Roberto Siqueira

MAVERICK (1994)

(Maverick)

 

Videoteca do Beto #104

Dirigido por Richard Donner.

Elenco: Mel Gibson, Jodie Foster, James Garner, Alfred Molina, James Coburn, Corey Feldman, Danny Glover, Graham Greene, Geoffrey Lewis, Paul L. Smith, Dan Hedaya, Max Perlich, Jean Da Baer, Jack Garner, Dub Taylor e Margot Kidder.

Roteiro: William Goldman, baseado na série de TV “Maverick”, escrita por Roy Huggins.

Produção: Bruce Davey e Richard Donner.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Os anos 90 marcaram a ressurreição do mais americano dos gêneros, o western, através de excelentes filmes como “Dança com Lobos” e “Os Imperdoáveis”. Graças a eles, as produtoras voltaram a ter confiança no gênero e filmes como este despretensioso “Maverick” puderam ser lançados. Quem saiu ganhando foi o cinéfilo, que viu ressurgir um gênero delicioso. Com muito bom humor e uma narrativa leve, o longa dirigido por Richard Donner cumpre muito bem o que se propõe a fazer, divertindo o espectador enquanto acompanha a trajetória do esperto protagonista interpretado com carisma por Mel Gibson.

Bret (e não Bert!) Maverick (Mel Gibson) é um hábil jogador de pôquer que precisa desesperadamente arrumar três mil dólares para poder participar de um milionário campeonato num rio do Mississipi. No caminho, ele cruza com a bela Annabelle Bransford (Jodie Foster) e com o durão Zane Cooper (James Garner), que acompanharão o protagonista em sua atrapalhada jornada.

Escrito por William Goldman (baseado na série de TV homônima, escrita por Roy Huggins), “Maverick” acompanha a trajetória de seu personagem principal pelo velho oeste com bom humor. Buscando participar de um importante campeonato de pôquer que poderá lhe render nada menos que meio milhão de dólares, tudo que Bret Maverick deseja é ganhar os seus dólares sem morrer no caminho. O que os outros enxergam como covardia, para ele é apenas questão de sobrevivência. Repleto de sátiras que constantemente provocam o riso no espectador, o roteiro Goldman apresenta uma série de diálogos divertidos e ágeis, especialmente quando envolvem o trio Maverick, Cooper e Annabelle, além de inserir boas tiradas, que surgem ainda melhores graças à condução de Donner (repare como ele demora a revelar o “puro sangue” de Maverick, o que é essencial nesta piada, por exemplo). Além das excelentes piadas, o diretor consegue criar boas seqüências de ação, como quando Maverick tenta controlar uma diligência desgovernada em alta velocidade, pulando de um cavalo para outro até conseguir frear os animais (uma referência ao clássico de John Ford “No Tempo das Diligências”). Repleta de referências a momentos típicos dos westerns clássicos, a narrativa apresenta até mesmo a habitual cena em que os bandidos dormem bêbados ao redor da fogueira, sendo surpreendidos pelo protagonista, em outro momento divertido, que se encerra num emocionante e tradicional tiroteio.

Explorando com competência as belas paisagens, Donner ambienta perfeitamente o espectador ao velho oeste, auxiliado também pela direção de arte de Daniel T. Dorrance, que cria uma bela cidade no início, assim como capricha na aldeia indígena e no barco que receberá o campeonato de pôquer. Também vale citar os figurinos de April Ferry, essenciais na ambientação do espectador, com os vestidos charmosos das mulheres e os ternos elegantes dos homens, especialmente nos jogos. E por falar nos jogos, Donner também consegue deixar as partidas sempre interessantes, graças à montagem eficiente de Stuart Baird e Michael Kelly, como no primeiro jogo em que Maverick perde por uma hora, onde a rápida seqüência de imagens e a trilha divertida de Randy Newman tornam a cena empolgante – e vale registrar o olhar cínico de Gibson quando Maverick olha para o relógio e confirma que passou uma hora, guardando-o rapidamente para que os outros jogadores não percebam que agora ele poderá vencer. Finalmente, o tom leve e bem humorado da narrativa é reforçado pela fotografia de Vilmos Zsigmond, que emprega cores quentes, valorizando o visual árido do oeste.

Leve e espontâneo em diversos momentos, Mel Gibson confirma seu talento para cenas cômicas, já indicado na série “Máquina Mortífera”, arrancando o riso da platéia com facilidade, por exemplo, ao oscilar entre a fúria e o bom humor numa discussão com um rival de jogo ou nas constantes brincadeiras que faz com Annabelle. Além disso, momentos como aquele em que brinca com uma arma com grande habilidade servem para conquistar a simpatia do espectador, o que é essencial na trama, transformando o protagonista num personagem carismático, ainda que politicamente incorreto. Da mesma forma, o talento e o carisma de Jodie Foster se encaixam perfeitamente na charmosa e atrapalhada Annabelle, uma personagem igualmente adorável. Demonstrando excelente química com Gibson, a atriz surge leve e divertida, destacando-se em diversos momentos, como quando tenta seduzir e roubar Maverick eu seu apartamento. E apesar de exagerar nas caretas em alguns instantes, Alfred Molina cria um vilão respeitável como Angel, coerente com o tom leve da narrativa, mas impondo-se quando necessário, como quando surra quatro homens num bar.

A inteligência de Richard Donner fica evidente ainda na genial ponta de Danny Glover, que surge como um ladrão de bancos que “está velho demais pra isso”. Num fascinante exercício metalingüístico, Donner cria uma cena sensacional ao permitir que Gibson e Glover troquem olhares com um ar de “te conheço de algum lugar”, numa referência clara a parceria da dupla em “Máquina Mortífera”, confirmada até mesmo pelo toque da trilha sonora quando o rosto de Glover é revelado e pela frase do bandido, dita após sair do banco. Também inteligente é a escolha de James Garner para viver Cooper, o pai de Maverick, já que o ator interpretou Bret Maverick na série de TV que inspirou o filme, ainda no final dos anos 50. Garner está seguro no papel, demonstrando firmeza como um policial respeitável e coroando sua atuação na cena final, quando demonstra grande afinidade com Gibson. Outra escolha acertada é a de Graham Greene para viver Joseph, o líder indígena, numa referência ao seu papel em “Dança com Lobos”, também confirmada por um rápido acorde da trilha sonora. Leve e despojada, a atuação de Greene é uma síntese de todo o elenco. Eles estavam leves e realmente se divertindo ao fazer o filme – o que reforça o mérito do trabalho de Donner.

Imprimindo o ritmo correto ao longa, Donner e a dupla de montadores dividem muito bem a narrativa, balanceando momentos de ação e bom humor até chegar ao esperado campeonato de pôquer, onde o trabalho dos montadores novamente se destaca, transformando o campeonato em outra seqüência agradável, novamente embalada pela excelente trilha sonora. Apesar disto tudo, o longa não é perfeito, e o pequeno drama que surge quando Maverick é trancado em sua cabine serve apenas para que o herói (?) chegue ao jogo no último minuto, num clichê que, desta vez, soa descartável. Por outro lado, toda a partida final é empolgante e tensa, com exceção do divertido momento em que Maverick elimina Annabelle da mesa. E na última jogada, o silêncio que predomina por alguns instantes amplia a tensão até que a carta mágica de Maverick seja revelada, numa interessante rima narrativa com outra cena, ainda no início, em que ele fala sobre a crença de infância desacreditada pelo pai. Infelizmente, logo após este momento de êxtase, a desnecessária fuga de Cooper com o dinheiro da aposta “brocha” o espectador. Nem mesmo a explicação de seu plano junto ao Comodoro (James Coburn) justifica a ação, já que o problema está no pouco tempo que a platéia tem para curtir a vitória de Maverick. A cena final revela que Cooper é o pai de Maverick e, somada à aparição de Annabelle e aos deliciosos diálogos sobre as semelhanças entre pai e filho, encerra o filme no tom correto, jogando o espectador pra fora com aquela deliciosa sensação de satisfação.

Com cenas memoráveis e muitos momentos capazes de fazer a platéia sorrir, “Maverick” é destes filmes leves, que alegram nosso dia, ainda que não deixem grandes reflexões. Nem deveriam. Com muito bom humor, o versátil Richard Donner tira mais uma carta da manga e, graças também ao ótimo elenco, entrega uma narrativa despretensiosa, envolvente e, acima de tudo, suficiente para nos divertir.

Texto publicado em 13 de Julho de 2011 por Roberto Siqueira