Felicidade: O Nascimento do Arthur

Desde o glorioso dia em que ficamos sabendo que Deus nos daria o maior presente de nossas vidas, foi difícil conter a ansiedade. Mesmo assim, conseguimos planejar e executar cada etapa, curtir cada minutinho da gestação e preparar tudo para sua chegada. E finalmente, após nove meses de espera, chegou o dia mais feliz de nossas vidas. Saímos de casa ansiosos e com as malinhas prontas para receber nosso anjo. Ao chegar no hospital São Luiz, no Itaim, meu coração já batia acelerado. Fizemos todos os procedimentos normais e subimos para o quarto, para aguardar a chamada da enfermeira. Enquanto isso, pessoas que te amam muito antes mesmo de sua chegada foram aparecendo no quarto. Vovó Neuza e vovó Joana, vovô Dorival, tia Karina, tia/vó Jandira, tia Mandinha e, mesmo forçado pelo trabalho a estar em Salvador, o tio Thiago ouvia tudo pelo telefone celular. O frio na barriga aumentou bastante quando a Nutricionista entrou no quarto, somente para perguntar algumas coisas para a mamãe. Pensávamos que já era hora.

E a hora chegou, 15 minutinhos mais tarde, quando uma enfermeira entrou no quarto para levar a mamãe. Meu coração acelerou ainda mais. E todos ficaram ainda mais ansiosos enquanto viam sua mamãe partindo, chorando de alegria. A partir deste momento, o relógio pareceu se arrastar. O papai foi para o vestiário dos médicos, colocar a roupa própria para assistir sua chegada. Às 21h05min, o doutor Armindo chegou. Cumprimentou o papai e se dirigiu à sala, onde a mamãe estava sendo preparada. Alguns minutos depois, a enfermeira chamou o papai. A família, do lado de fora, esperava a grande notícia. E então o papai entrou na sala, sentou ao lado da mamãe, devidamente anestesiada, tremendo e pronta para trazer ao mundo a pessoa mais especial de nossas vidas. E quando uma das enfermeiras, logo após o barulho do bisturi, disse: “Olha lá papai!”, eu levantei e vi, pela primeira vez, meu príncipe Arthur (e não consigo conter as lágrimas nem mesmo agora, escrevendo o texto e lembrando o momento). Você chegou ao mundo no dia 22 de Fevereiro de 2010, às 21h50min, lindo, saudável e perfeito. Mamãe chorava de emoção, papai também. A enfermeira, após examinar e confirmar seu perfeito estado de saúde, trouxe você para deitar, pela primeira vez, em cima de sua mamãe. O choro parou. O momento mágico, assim como o primeiro toque de nossos dedos, me marcou. Saí da sala junto com você, e ainda fiquei alguns minutos olhando, pelo vidro, seu rostinho lindo dentro do aparelho (que não sei o nome) utilizado para transportá-lo até a sala do banho. Desci, para acompanhar, ao lado da entusiasmada família, seu primeiro banho, fotografado e filmado por todos nós.

Após um período na maternidade, onde aprendemos a cuidar de você, chegamos em casa. Você entrou pela primeira vez em seu lar ontem, 25 de Fevereiro. Mas já havia entrado em nossas vidas antes mesmo de ser concebido. Cercado de amor e sonhado por um casal que se ama de verdade e que pode perfeitamente, agora com você ao nosso lado, simbolizar o significado verdadeiro da palavra família. Trocamos e demos banho em você pela primeira vez, já que na maternidade as enfermeiras é que fazem isso. Adoramos! Estamos curtindo cada momento, cada troca de roupa, cada sorriso e cada choro, e até mesmo quando dorme, ficamos encantados olhando pra você.

Hoje, 26 de Fevereiro, foi o dia que consegui sentar, parar, respirar e pensar num texto, que não representa 1% da alegria que sinto no momento, mas que serve para registrar esta fase, que é certamente a mais marcante de nossas vidas. Enquanto escrevo, olho pra você no berço, no quarto planejado milimetricamente, e vejo seus movimentos enquanto dorme, se espreguiça, sorri e sonha. E sonho é a palavra correta no momento. Ter você Arthur é ter um sonho realizado. Por isso meu filho, tudo que nós, seu pai e sua mãe, desejamos é que você seja muito feliz neste mundo. E faremos tudo para que este desejo se realize. Vamos brincar muito juntos, jogar bola, andar de bicicleta (escondido da mamãe, porque ela não gosta ;)) e tudo mais que você quiser. Vamos ajudá-lo nos estudos, orientar no que for preciso e prepará-lo para o mundo. Vamos curtir cada fase de sua vida e estar para sempre ao seu lado. Saiba que nós te amamos muito!

Seja bem vindo meu anjo, que Deus abençoe cada etapa de sua vida. E que ele continue abençoando sua mamãe linda, que é a pessoa mais especial do mundo, responsável por todos estes momentos mágicos na vida do papai.

Felicidade. Este sentimento existe. O papai Beto é a prova disto.

Amo muito vocês dois! E agradeço a Deus por ter colocado vocês em minha vida.

Beijos, que Deus abençoe todos nós.

Foto provisória, até que a foto oficial do primeiro contato entre eu e o Arthur chegue. Se quiser ampliar, é só clicar nela.

Texto publicado em 26 de Fevereiro de 2010 por Roberto Siqueira

Ansiedade

Não existem palavras para descrever minha ansiedade, há menos de 24 horas de segurar pela primeira vez meu príncipe, meu amor, meu primeiro filho. Só posso pedir para que DEUS prepare este momento mágico, abençoe e que amanhã, neste mesmo horário, estejamos curtindo cada segundo ao lado do meu amor.

Venha em paz e com muita saúde meu anjo, que DEUS nos abençoe e nos ilumine!

Beijos do papai e da mamãe! Nós te amamos muito!

Texto publicado em 21 de Fevereiro de 2010 por Roberto Siqueira

ÔNIBUS 174 (2002)

(Ônibus 174)

 

Filmes Comentados #18

Dirigido por José Padilha.

Elenco: Não divulgado.

*DOCUMENTÁRIO*

Produção: José Padilha e Marcos Prado.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de esclarecer que os filmes comentados não são críticas. Tratam-se apenas de impressões que tive sobre o filme, que divulgo por falta de tempo para escrever uma crítica completa e estruturada de todos os filmes que assisto. Gostaria de pedir que só leia estes comentários se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

– Este incrível documentário de Jose Padilha nos faz refletir muito sobre a delicada questão das diferenças sociais, da falta de oportunidade e da cegueira proposital que a maioria da sociedade se impõe, evitando olhar e debater qual seria o caminho ideal para solucionar o drama dos menores abandonados, dos meninos de rua e da vida criminosa no país.

– Padilha, o mesmo diretor de “Tropa de Elite”, faz um interessante trabalho nos mostrando todos os lados da situação. Se pensarmos que “Tropa de Elite” mostra o olhar da polícia e este “Ônibus 174” disseca a vida do “marginal”, temos os dois lados da mesma moeda de um enorme problema social brasileiro. Não é a toa, como diz o crítico Pablo Villaça em sua crítica de “Tropa de Elite”, que os personagens centrais dos dois filmes têm o mesmo sobrenome (Nascimento), representando os dois lados da mesma moeda.

– Importante deixar claro que apesar do tema merecer um olhar mais sério e uma discussão que leve a algum lugar, entendo que nenhum crime jamais deve ser justificado ou interpretado como simples conseqüência dos problemas sociais. Crime é crime de qualquer forma e jamais deve ser aceitável.

– A direção de Padilha é firme e alterna em bom ritmo entre as entrevistas e as cenas reais do assalto ao ônibus no Rio de Janeiro.

– Finalmente, podemos dizer que “Ônibus 174” é um documentário contundente e definitivo, que deveria abrir os olhos da sociedade para este grave problema social do nosso país.

Texto publicado em 18 de Fevereiro de 2010 por Roberto Siqueira

MEU NOME NÃO É JOHNNY (2008)

(Meu Nome não é Johnny)

 

Filmes Comentados #17

Dirigido por Mauro Lima.

Elenco: Selton Mello, Rafaela Mandelli, Eva Todor, André di Biasi, Ângelo Paes Leme, Orã Figueiredo, Hossen Minussi, Luís Miranda, Gillray Coutinho, Kiko Mascarenhas, Flávio Bauraqui, Aramis Trindade, Neco Vila Lobos, Charly Braun, Felipe Martins, Roney Villela, Wendell Bendelack, Cléo Pires, Júlia Lemmertz, Ivan de Almeida, Giulio Lopes, Flávio Pardal, Cássia Kiss e Rodrigo Amarante.

Roteiro: Mariza Leão e Mauro Lima, baseado em livro de Guilherme Fiúza.

Produção: Mariza Leão.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de esclarecer que os filmes comentados não são críticas. Tratam-se apenas de impressões que tive sobre o filme, que divulgo por falta de tempo para escrever uma crítica completa e estruturada de todos os filmes que assisto. Gostaria de pedir que só leia estes comentários se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

– A história do playboy João Guilherme Estrella (Selton Mello), que se tornou o maior traficante do Rio de Janeiro sem jamais pisar numa favela, é contada neste longa irregular, que infelizmente não alcança um resultado satisfatório.

– Logo no início do filme, Johnny solta um morteiro na sala e o pai passa a mão na cabeça, demonstrando claramente como a educação é fundamental na formação do caráter do ser humano.

– Apesar de errar a mão no tom, a direção de Mauro Lima consegue alguns bons momentos, como o elegante movimento de câmera quando o pai de Johnny morre. Por outro lado, a briga na cadeia, além de pouco realista, é bastante confusa devido à câmera instável de Mauro Lima.

– O mundo do tráfico retratado no filme é pouco verossímil, com droga sendo vendida a luz do dia em uma peixaria (!), por exemplo. Além disso, é um mundo muito clean para o universo que retrata, revelando uma grave falha da direção de fotografia de Uli Burtin.

– Quando Johnny é preso, sua conversa com o advogado é muito curta e sem sentido, evidenciando falhas do roteiro de Mariza Leão e Mauro Lima, que jamais se define como comédia, drama, documentário ou policial, o que é lamentável. Não há problema em transitar entre os gêneros, desde seja feito com elegância e tenha coerência com a proposta do filme, o que não é o caso.

– Selton Mello inicia bem sua atuação no papel de João Guilherme, mas se perde e acaba tendo um resultado apenas mediano, o que é decepcionante para um ator de sua qualidade. Destaque negativo para a cena em que compra um apartamento, quando fala rapidamente com o vendedor e com sua namorada de uma forma nada elegante e até mesmo incompreensível.

– A acidentada montagem de Marcelo Moraes corta algumas cenas subitamente como, por exemplo, quando Johnny conta que o “Tainha” (Aramis Trindade) foi pescado. Pra piorar, a montagem estica demais o fraquíssimo terceiro ato, que destoa do ritmo forte do restante do filme. Muito menos interessante do que sua trajetória no tráfico – esta sim cheia de energia – a seqüência dentro da cadeia (e, principalmente, a seqüência dentro do hospício) poderia ser menor.

– No final, João vê tudo que perdeu no dia do Natal e reflete sobre a vida que teve até então. Esta seria a mensagem ideal para acabar o filme, mas infelizmente o otimismo exagerado do roteiro faz questão de reforçar que João Guilherme saiu da cadeia e se deu bem na vida. Apesar de ser uma história real, infelizmente este final deixa uma mensagem simplória demais sobre o mundo que retrata. Ou seja, você se mete no tráfico, ganha milhões, viaja o mundo, é preso, fica dois anos internado em um hospício por alegar insanidade mental e sai numa boa. A realidade é bem diferente para a maioria absoluta das pessoas que se arriscam neste mundo violento e, não raramente, sem volta.

Texto publicado em 17 de Fevereiro de 2010 por Roberto Siqueira

TOP GUN – ASES INDOMÁVEIS (1986)

(Top Gun)

 

Videoteca do Beto #46

Dirigido por Tony Scott.

Elenco: Tom Cruise, Kelly McGillis, Val Kilmer, Anthony Edwards, Tom Skerritt, Meg Ryan, Michael Ironside, John Stockwell, Barry Tubb, Rick Rossovich, Tim Robbins, Clarence Gilyard Jr., Whip Hubley e James Tolkan.

Roteiro: Jim Cash e Jack Epps Jr..

Produção: Jerry Bruckheimer e Don Simpson.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Tony Scott escolheu a dedo o roteiro de “Top Gun – Ases Indomáveis”, sabendo que teria em mãos a oportunidade perfeita de fazer fama e arrecadar milhões em bilheteria. Explorando muitos clichês, o longa nada mais é do que uma estória comum feita para alçar ao sucesso o na época jovem e ascendente Tom Cruise. E Scott é hábil nesta tarefa, utilizando todos os recursos que podia para não falhar. O resultado é um filme convencional, que não deixa ter momentos interessantes – principalmente quando explora as ótimas seqüências aéreas – mas jamais alcança um resultado expressivo ou memorável.

Pete Mitchell, conhecido como Maverick (Tom Cruise), é um jovem e promissor piloto de caça que, ao lado de seu grande amigo Nick “Goose” Bradshaw (Anthony Edwards), ingressa na Academia Aérea norte-americana, especializada em desenvolver os melhores pilotos e conhecida como Top Gun. Ao chegar lá, se envolve com a bela instrutora Charlotte Blackwood (Kelly McGillis) ao mesmo tempo em que enfrenta um duelo particular com outro excepcional piloto, conhecido como Iceman (Val Kilmer).

Como podemos perceber, “Top Gun” parece ter apenas um propósito: alçar o então candidato a astro de Hollywood Tom Cruise ao estrelato e, conseqüentemente, arrecadar milhões nas bilheterias. E o roteiro nada criativo, escrito por Jim Cash e Jack Epps Jr., explora diversos clichês sem nenhum pudor para alcançar seu objetivo. Temos o jovem galã e promissor que, devido ao trauma do passado relacionado à morte do pai, não tem medo e nem juízo, mas que por outro lado, é incrivelmente bom no que faz. Temos também a garota (no caso uma mulher mais madura) que obviamente se envolverá com o mocinho e o antagonista chato, que parece existir somente para gerar conflito com o protagonista sem aparente justificativa, e que obviamente, ficará amigo dele no previsível final. Finalmente, temos as músicas joviais e românticas da bela trilha sonora de Harold Faltermeyer, que ficam grudadas na memória do espectador, fazendo-o lembrar do filme sempre que as escuta (e na época a romântica “Take my breath away”, do grupo Berlin, foi tocada exaustivamente nas rádios). Somente para reforçar o argumento, repare as inúmeras vezes em que Scott utiliza o close em Tom Cruise, freqüentemente de óculos escuros, alternando com planos americanos (da cintura pra cima) do astro sem camisa, claramente explorando o carisma (e os músculos) do jovem ator para atrair o público feminino, como fica evidente na cena do jogo de vôlei, que nada mais é do que puro exibicionismo dos jovens galãs. Até mesmo a tensa e triste morte de Goose não escapa ao clichê da morte do melhor amigo que serve como ponto de virada na vida do protagonista, simbolizada perfeitamente na cena em que Maverick joga as cinzas do parceiro no mar. E nem mesmo o treinamento dos pilotos soa convincente, jamais transmitindo a esperada dificuldade que um piloto deveria enfrentar para alcançar o nível de excelência exigido numa profissão como esta.

Mas “Top Gun” também tem seus pontos positivos, começando pelo excelente trabalho de som, perceptível principalmente nas sensacionais seqüências aéreas, captando perfeitamente o barulho dos aviões rasgando o céu. A boa montagem de Chris Lebenzon e Billy Weber colabora nestas seqüências empolgantes, onde o diretor Tony Scott cria belos planos, auxiliado também pela direção de fotografia de Jeffrey L. Kimball e pelos efeitos visuais. O diretor abusa do lindo visual durante os vôos, aproveitando o universo de belas imagens que o céu proporciona para filmar de ângulos interessantes como a frente, a asa e a cauda dos aviões. Em outro momento, Scott dá um close em Cruise quando este fala do falecido pai, realçando a tristeza em seu rosto ao pensar na misteriosa morte dele. Tom Cruise, aliás, que tem boa atuação, demonstrando a costumeira energia na pele do rebelde Maverick, apesar de abusar dos intermináveis sorrisos (obviamente, buscando se afirmar como galã). Repare como ele sorri levemente ao ouvir que vai para a escola especial “Top Gun”, pois sabia que aquela era a oportunidade da sua vida de provar a qualidade que tinha como piloto, além de poder enfrentar o passado traumático. Seu desempenho cresce na parte final, após perder o amigo e partir para superar o trauma da perda enigmática de seu pai. Mas infelizmente, o roteiro previsível não exige muito do elenco. Goose, interpretado por Anthony Edwards, é um bonachão infantil que tem a única função de provocar o riso forçado no espectador e a maioria de seus fracos diálogos com Maverick não empolga, como quando falam sobre o Mig invertido. Val Kilmer está caricato e exagerado na pele do unidimensional Tom Kazanski, o “Iceman”, que só tem dois momentos humanos durante toda a narrativa. O primeiro é quando respeita a dor de Maverick por perder o amigo (“Sinto por Goose”) e o segundo é o previsível final, quando finalmente reconhece a qualidade do rival. Kelly McGillis vive a madura Charlotte e tem seus bons momentos, como quando diz para Cruise que não quis deixar a relação entre eles atrapalhar a profissão dela (“Não quero que saibam que me apaixonei por você”). Sua Charlotte, apesar de estar completamente apaixonada, é bastante consciente de que assumir aquela paixão poderia comprometer seu desempenho como instrutora da equipe. Tom Skerritt está excelente como o inteligente comandante Mike “Viper” Metcalf, que sabe muito bem onde Maverick pode chegar e luta para extrair o melhor do garoto. E finalmente, Meg Ryan rouba a cena nos poucos minutos em que aparece, vivendo a esposa de Goose, Carole Bradshaw. Totalmente solta e despojada, é claramente a melhor atuação do longa, transmitindo ainda muita emoção quando perde o marido. É com ela em cena que Goose e Maverick vivem um de seus melhores momentos, quando cantam juntos ao piano.

Quando Maverick se aproxima de Charlotte e canta, auxiliado por todos no bar, a canção “You’ve lost that loving feeling”, o longa de Tony Scott parece empolgar. A empolgação aumenta nas maravilhosas seqüências protagonizadas pelos caças que cortam o céu em alta velocidade. Mas infelizmente, quando a ação se passa no chão, não consegue sucesso, se limitando a uma narrativa comum e desinteressante. Não há problemas em utilizar os clichês, afinal de contas eles não se tornaram clichês à toa. O problema é a forma como estes são utilizados, e infelizmente neste caso o resultado pouco criativo não agrada, sendo salvo somente pelas seqüências aéreas citadas.

“Top Gun” não deixa nenhuma mensagem importante ou reflexão, não conta com um roteiro criativo e sequer recicla velhos clichês. Tony Scott prefere seguir o caminho contrário, abusando de fórmulas e receitas para alcançar o sucesso de bilheteria. Por isso, explora as cenas de ação envolvendo os caças para atrair o público masculino e do romance envolvendo o galã da época para atrair o público feminino. No fim das contas, o diretor conseguiu alcançar seu objetivo, mas infelizmente não conseguiu nada mais do que isso. Ao contrário dos poderosos aviões que vemos em todo o filme, “Top Gun – Ases Indomáveis” jamais alça vôos maiores.

Texto publicado em 15 de Fevereiro de 2010 por Roberto Siqueira

PLATOON (1986)

(Platoon)

 

Videoteca do Beto #45

Vencedores do Oscar #1986

Dirigido por Oliver Stone.

Elenco: Tom Berenger, Willem Dafoe, Charlie Sheen, Forest Whitaker, Francesco Quinn, John C. McGinley, Richard Edson, Kevin Dillon, Reggie Johnson, Keith David, Johnny Depp, David Neidorf, Mark Moses, Chris Pedersen, Tony Todd, Corkey Ford, Dale Dye e Oliver Stone.

Roteiro: Oliver Stone.

Produção: Arnold Kopelson.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Antes mesmo de suas primeiras imagens, “Platoon”, maravilhoso e verdadeiro retrato do que foi a guerra do Vietnã dirigido por Oliver Stone, deixa claro uma das grandes perdas da guerra. A frase bíblica “Jovem, regozija-te na juventude” faz questão de reforçar que a juventude e a inocência que ela carrega são deixadas no combate, independente da sobrevivência ou não daqueles jovens que são enviados para o fronte.

O jovem e idealista Chris (Charlie Sheen), insatisfeito com a vida comum que seus pais queriam que vivesse, decide se tornar voluntário na guerra do Vietnã e defender seu país como o pai e o avô fizeram em outras guerras. Mas aos poucos, a convivência com o pelotão liderado por Barnes (Tom Berenger) e Elias (Willem Dafoe) e a terrível violência sem sentido da guerra vão alterando completamente sua visão do mundo.

Oliver Stone dirige “Platoon” com conhecimento de causa, já que o diretor é um ex-combatente da guerra do Vietnã. Não à toa, o excelente roteiro escrito por ele próprio escancara os conflitos internos do pelotão, jamais sendo ufanista ou maniqueísta e fazendo questão de mostrar os norte-americanos como seres humanos normais, que cometem erros e acertos e chegam até mesmo a ser cruéis em determinados momentos, como na chocante cena em que atacam uma aldeia. Stone utiliza ainda o inteligente artifício de expor os pensamentos de Chris através das cartas que envia para a avó, fazendo com que o espectador saiba o que ele pensa sem que a narração soe falsa ou deslocada. Repare como os pensamentos cessam subitamente a partir do momento em que Chris deixa de enviar as cartas, pois o jovem percebe que aquilo não fazia mais sentido e corta sua ligação com o mundo exterior.

Stone é ainda mais competente na direção, utilizando a câmera panorâmica com freqüência para ambientar o espectador dentro da hostil selva que o pelotão vai desbravando e alternando o movimento com closes das folhas e árvores, fazendo com que o incômodo seja praticamente palpável ao caminhar pela mata. Colabora na ambientação o excepcional trabalho de som, perfeito desde os pequenos insetos, cigarras e pés estalando folhas no chão até os muitos tiros e bombas explodindo durante os combates. Aliás, o diretor também mostra sua competência nestas seqüências de combate – auxiliado pela boa montagem de Claire Simpson – alternando o close no rosto dos angustiados soldados com planos que demonstram o ponto de vista deles, buscando desesperadamente encontrar o inimigo entre as brechas da floresta e ao mesmo tempo, tentando se proteger dos ataques. Neste sentido, vale destacar o tenso primeiro contato entre o pelotão e os vietnamitas, extremamente bem dirigido por Stone, deixando o espectador lado a lado com Chris, que está distante de sua arma e das granadas, enquanto nota a aproximação dos nativos disfarçados com galhos de árvore presos aos capacetes. Outro grande momento é a triste seqüência da queima da aldeia, exemplificando perfeitamente a insanidade da guerra. “Platoon” também é extremamente realista na forma como retrata os feridos em combate, não aliviando em nada o desagradável resultado de toda aquela carnificina. Finalmente, é importante ressaltar a excelente direção de fotografia de Robert Richardson, que adota um tom obscuro e torna ainda mais sombrias as cenas noturnas, e que mesmo durante o dia, onde destaca a cor verde, mantém a paleta escura refletindo o clima melancólico do longa.

Inconformado por saber que somente os jovens da base da pirâmide social eram enviados para a guerra, Chris decide abandonar os estudos e tornar-se voluntário, o que faz um companheiro de Vietnã questionar sua sanidade (“Só sendo rico para pensar assim”. “Os ricos pisam nos pobres. Sempre foi assim e sempre será”). Mas infelizmente, a inocência é mesmo a primeira vítima da guerra. Jovem de boa formação e idealista, Chris percebe durante sua passagem pelo Vietnã que “defender o país” não é algo tão nobre assim. Charlie Sheen retrata com precisão a gradual transformação de Chris, que chega até mesmo a perder a cabeça quando atira em um deficiente físico vietnamita para fazê-lo dançar, mas se redime momentos depois ao interromper um estupro coletivo de garotas nativas. Esta cena, vale lembrar, contém uma pequena pérola do roteiro, que capta muito bem a mensagem anti-bélica do filme, quando um dos soldados questiona “Você é homossexual? Ela é uma vietnamita!”, e Chris responde: “Ela é um ser humano!”. No reencontro entre Barnes e Chris, logo após a morte de Elias, Sheen demonstra com o olhar sua raiva, explodindo segundos depois contra o sargento vivido por Berenger (“A verdade está no olhar”). Tom Berenger, aliás, que é o grande destaque do longa, com uma atuação firme e assustadora, que atinge seus melhores momentos na rígida discussão que tem com o sargento Elias e na seqüência em que escuta alguns soldados falando em matá-lo (“Estão falando em matar?”), onde com o olhar firme, questiona a fuga da realidade daquele grupo (“Vocês fumam pra fugir da realidade? Eu sou a realidade”). O seco sargento Barnes é um homem transformado pela guerra, alguém que acredita cegamente que está agindo de forma correta, mesmo que para isto tenha que matar pessoas inocentes. Sua personificação do terror chega ao auge no plano em que se prepara para matar Chris. Ironicamente, Barnes falha e acaba sendo vítima do garoto, que por sua vez, completa ali sua total transformação.

Willem Dafoe também se destaca como o sargento Elias, que após tanto tempo em serviço, simplesmente perdeu a motivação e já não mais acredita na finalidade de tudo aquilo, como deixa claro em um diálogo que tem com Chris. Neste mesmo diálogo, Elias reflete também a perda da inocência do povo americano, simbolizada historicamente no conflito do Vietnã (“Já maltratamos tantos outros povos. Acho que agora chegou a nossa vez”). Além da citada discussão com Barnes, em que Dafoe também se destaca, um plano em especial merece ser citado em sua atuação. Segundos antes de ser baleado pelo sargento rival, o incrédulo Elias muda o olhar e pressente o ataque, e Stone – através de um close em seus olhos – capta o momento inspirado de Dafoe com precisão. Surpreendentemente, Elias sobrevive, somente para morrer depois num ataque em massa dos vietnamitas, em outro plano de grande impacto acompanhado pela melancólica trilha sonora de Georges Delerue. Completam o elenco, entre outros, Forest Whitaker e Johnny Depp (em papéis menores), além do próprio Oliver Stone, que faz uma pequena participação já na seqüência final.

Por tudo isto, “Platoon” pode ser considerado um retrato fiel do que foi a guerra do Vietnã, exposto por alguém que esteve lá dentro de fato, e por isso, sabe como ninguém os efeitos causados pelo conflito na mente do ser humano. Retratada também com competência em outros grandes filmes, como Apocalypse Now (de Francis Ford Coppola), esta guerra parece ser mesmo a ferida aberta no país mais poderoso do mundo atualmente. Ou pelo menos era, até o fatídico dia 11 de Setembro de 2001, que curiosamente, gerou novos conflitos envolvendo os Estados Unidos da América, e provavelmente, gerará novos “Oliver Stone” no futuro.

“Platoon” revela a visão peculiar de Oliver Stone sobre o confronto mais marcante na vida dos norte-americanos. Mas as marcas deixadas no povo, por mais profundas que sejam, não se comparam às marcas deixadas nos combatentes que sobreviveram e levaram consigo aquelas tristes memórias. Os dois momentos marcantes da passagem de Chris pelo Vietnã – a morte de Elias e a saída do Vietnã – acontecem em sobrevôos idênticos, acompanhados pela mesma melancólica trilha sonora. E no segundo vôo, a imagem dos corpos jogados no enorme buraco é simplesmente perturbadora. Nas palavras finais dele, “a guerra acabou, mas aquelas imagens ficarão pra sempre em sua memória”. E ficarão também na memória do espectador, assim como o competente filme dirigido por Oliver Stone.

Texto publicado em 13 de Fevereiro de 2010 por Roberto Siqueira

Novos Trailers – Parte 2

Conforme prometido, está atualizada a página “Videoteca do Beto” com os trailers / cenas de todos os filmes da Videoteca com crítica divulgada no Cinema & Debate.

Um grande abraço.

Texto publicado em 12 de Fevereiro de 2010 por Roberto Siqueira

LOST

Como todos sabem, estamos vivendo um momento especial na vida daqueles que gostam de séries. Afinal de contas, uma das melhores séries de todos os tempos (e com certeza, a melhor da atualidade) está chegando ao fim. E a última temporada de LOST é, sem sombra de dúvidas, um dos mais aguardados momentos do ano para os fãs de séries. Não pretendo escrever sobre os episódios da sexta temporada – que você pode conferir todas as terças no canal AXN. Prefiro indicar bons textos a respeito, como os do Pablo Villaça, que você pode acessar clicando aqui. De minha parte, basta dizer que adorei a novidade da sexta temporada (que não vou citar, para não estragar a surpresa de quem não viu) e que continuo achando Benjamin Linus o grande personagem da série, assim como Michael Emerson o grande ator, que se destaca num elenco incrivelmente talentoso.

Aproveito para indicar também um ótimo post que resume muito bem as cinco primeiras temporadas de LOST, divulgado no blog “Brasil Inteligente” durante esta semana, onde você poderá relembrar, de forma clara e objetiva, os principais acontecimentos da série até agora (para acessar o resumo, basta clicar aqui).

Espero que gostem das indicações.

Um grande abraço.

Texto publicado em 11 de Fevereiro de 2010 por Roberto Siqueira

APOCALYPSE NOW (1979)

(Apocalypse Now) 

 

 

Videoteca do Beto #44

Dirigido por Francis Ford Coppola.

Elenco: Marlon Brando, Robert Duvall, Martin Sheen, Frederic Forrest, Albert Hall, Sam Bottoms, Laurence Fishburne, Dennis Hopper, G.D. Spradlin, Harrison Ford, Jerry Ziesmer, Scott Glen e Francis Ford Coppola (Diretor de TV). 

Roteiro: Francis Ford Coppola e John Milius, baseado no romance “O Coração das Trevas”, de Joseph Conrad. 

Produção: Francis Ford Coppola. 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Não bastasse ter dirigido as obras-primas “O Poderoso Chefão” e “O Poderoso Chefão: Parte II”, o que já garantiu seu nome na história do cinema para sempre, Francis Ford Coppola ainda viria a dirigir e produzir em 1979 “Apocalypse Now”, maravilhoso estudo sobre a ambigüidade do ser humano e os irreparáveis efeitos causados pela guerra em sua mente. Repleto de cenas memoráveis e atuações marcantes, o longa consegue ser mais do que um libelo anti-guerra, explorando a fundo os limites da loucura e do poder, e mostrando ainda como é curta a distância e frágil a linha que separa a racionalidade da irracionalidade dentro do ser humano.

Após voltar do Vietnã, o capitão Benjamin Willard (Martin Sheen) é convocado pelas Forças Especiais do Exército para a secreta missão de encontrar e matar o coronel Walter Kurtz (Marlon Brando) que, segundo as autoridades do exército norte americano, enlouqueceu e passou a agir de maneira absolutamente incompreensível na selva do Camboja. Durante esta viagem o capitão Willard descobrirá, através dos horrores da guerra e de seu efeito alucinatório, que a distância entre o que se julga racional e irracional não é tão grande quanto imaginamos.

Logo no início de “Apocalypse Now” somos apresentados ao clima alucinante do longa, através das imagens de bombardeios na selva ao som da música “The End”, do The Doors. Em seguida, as imagens de um ventilador e de uma hélice de helicóptero se misturam, refletindo o pensamento do capitão Willard, que deseja desesperadamente voltar para a selva por não saber mais conviver em sociedade. Encontrado em meio a uma crise de alcoolismo, onde inclusive se fere ao quebrar um espelho, ele vê no convite das Forças Especiais do Exército (repare a pequena participação de Harrison Ford, que se consagraria um astro dois anos depois) a oportunidade de regressar ao combate, sem saber que ao aceitar o convite, viveria uma experiência que mudaria sua vida para sempre.

Coppola (que faz uma ponta no filme como o diretor de TV) dirige “Apocalypse Now” com extrema elegância, criando planos e seqüências absolutamente inesquecíveis, como o ataque aéreo a uma aldeia vietnamita na beira da praia, ao som de “A Cavalgada das Valquírias”, de Wagner, e a cena em que jatos espalham napalm na selva. Além disso, o diretor consegue criar seqüências incrivelmente realistas durante os combates, fazendo com que o espectador se sinta dentro do conflito e permitindo que ele viaje pelo horror da guerra ao lado de Willard. Observe, por exemplo, os excepcionais planos aéreos durante um ataque dos helicópteros, intercalados com imagens de crianças brincando na aldeia, deixando clara a crueldade daquele ataque, escancarada quando estas pequenas crianças correm pra se esconder. Coppola ainda explora ao máximo as lindas paisagens da região para compor imagens impactantes, como no impressionante ataque dos nativos ao barco do capitão Willard, logo após uma fumaça rosa ser espalhada pelo ar. O diretor também cria momentos de suspense, provocando grande susto na cena do ataque do tigre, que arranca do Chefe (Frederic Forrest) as mais profundas verdades (e arranca também qualquer um da cadeira), e cenas tocantes, como quando Clean (Laurence Fishburne, muito jovem e em boa atuação) morre ao lado do gravador em que ouvia a voz de sua mãe.

O extremo realismo alcançado em “Apocalypse Now” é mérito também da excepcional qualidade do trabalho técnico da equipe. Durante o surfe de um soldado no rio, a fotografia dourada (direção de Vittorio Storaro) reflete a alegria do jovem naquele momento. Por outro lado, nas cenas de combate Storaro adota um tom mais dessaturado, dominado pelo verde musgo, o amarelo e o marrom, refletindo a vida difícil e pouco colorida da guerra. O som é espetacular, captando a hélice dos helicópteros, os tiros, as bombas que explodem e até mesmo os pequenos insetos dentro da mata, e o constante barulho dos helicópteros na primeira metade do longa colaboram para o perfeito clima de guerra, assim como a competente direção de arte de Angelo P. Graham, perceptível nos equipamentos e barcos do exército americano, e os figurinos de Charles E. James. Pra finalizar, a bela trilha sonora do trio Carmine Coppola, Francis Ford Coppola e Mickey Hart adota um tom misterioso, com batidas secas durante a subida do rio, totalmente oposto aos temas da abertura, do ataque à aldeia e do encerramento, embalados pelas clássicas e belas canções do grupo The Doors e pela música clássica de Richard Wagner.

Mas nem só de competência técnica vive um grande filme. E as marcantes atuações de “Apocalypse Now” começam com Robert Duvall, que está sensacional como o Tenente Kilgore, demonstrando firmeza com sua voz imponente e seu olhar determinado, mas demonstrando também liderança na forma como conduz seus soldados. Kilgore parece não temer nada, ou simplesmente achar que não tem mais nada a perder, encontrando tempo até mesmo para incentivar o surfe no meio de um ataque, o que leva o capitão Willard a fazer sérias reflexões sobre a maneira como seu país está encarando aquele conflito. A marcante seqüência em que diz que o cheio do napalm simboliza vitória é captada com precisão pela câmera que se aproxima lentamente de seu rosto através de um zoom, realçando a grande atuação de Duvall. Martin Sheen está muito bem na pele do capitão Willard. Desde a narração convincente (repleta de questionamentos e reflexões), passando pela determinação do personagem em encontrar o coronel Kurtz e chegando ao apoteótico final de sua trajetória, podemos notar a qualidade do trabalho de Sheen. As reflexões de Willard aumentam ao ver os soldados fumando maconha e se embebedando com freqüência, e ele tem certeza de que está tudo errado quando presencia o show das garotas da revista Playboy em pleno Vietnã. (“Os vietcongues não se divertem. Nas horas vagas, comem arroz frito e ratos”). Dennis Hopper está espetacular como o agitado fotógrafo que se tornou um admirador de Kurtz. Sua fala rápida, seu gaguejar e sua respiração ofegante demonstram a ansiedade do personagem, que não consegue parar de falar, tamanha a empolgação que sente ao encontrar o capitão Willard. E finalmente, a lenda Marlon Brando dispensa comentários como o misterioso coronel Kurtz. Completamente devastado pelo horror da guerra, o entorpecido coronel Kurtz é alguém cego pelo poder. A construção de seu mito é lenta e cuidadosamente conduzida pela narrativa, levando Willard (e o espectador) constantemente a questionar quais seriam suas reais motivações. Brando expressa a encarnação do poder que seu personagem representa de forma magnífica, através de seu olhar superior e intimidante. Suas falas, repletas de simbolismos e reflexões, criam seqüências hipnóticas e inesquecíveis. Observe como seu rosto é revelado lentamente, como se estivéssemos cuidadosamente sendo preparados para estar diante de um deus. Até mesmo a forma como Coppola filma o personagem demonstra isto, deixando-o praticamente inacessível, submerso nas sombras e mais parecido com um espírito ou uma divindade (Kurtz muito provavelmente se considerava como tal). É então que, ao se deparar com o mito, as reflexões de Willard começam a ganhar ainda mais forma. Afinal de contas, quem está realmente louco: Kurtz, seus comandantes ou todos eles? A resposta pode estar nas inúmeras frases espalhadas pelo excelente roteiro do próprio Coppola, dentre as quais podemos citar: “Acusar um homem de homicídio neste lugar era a coisa mais absurda que se podia imaginar”, “No coração de todo homem há um conflito entre o racional e o irracional, entre o bem e o mal e nem sempre é o bem que sai vencedor” e “Um dia esta guerra vai acabar. Para os garotos do barco, está bom. Eles não querem nada mais do que encontrar um caminho para casa. O problema é que eu já voltei e sei que aquele lugar não existe mais”.

“Apocalypse Now” é o marco cinematográfico de um efeito importante ocorrido na cultura americana logo após a guerra do Vietnã: a perda da inocência. A guerra do Vietnã deixou claro para os cidadãos norte-americanos que não existia o lado bom e o lado mau da história. O cidadão deixou de ver seu país com ingenuidade e o longa de Coppola representa esta etapa na história do cinema. A seqüência final em que a montagem (crédito para Lisa Fruchtman, Gerald B. Greenberg, Richard Marks, Walter Murch e Randy Thom) coloca imagens do ataque de Willard à Kurtz simultaneamente ao ataque dos nativos a um animal simboliza perfeitamente uma das grandes discussões que o filme propõe: será mesmo o ser humano tão racional? O que nos diferencia dos animais é a capacidade de raciocinar, mas o que estamos fazendo com ela? Nas palavras finais do coronel Kurtz, “o horror” que a guerra proporciona é o exemplo perfeito de que a racionalidade do homem nem sempre vence seus impulsos primitivos e irracionais. O poder e a loucura caminham próximos e podem deixar o homem cego.

Dirigido magistralmente por um gênio do cinema, interpretado de forma magnífica por um elenco de peso e contando ainda com um apurado e maravilhoso trabalho técnico, “Apocalypse Now” transcende e muito o gênero “filme de guerra”, levantando inúmeras questões sobre a natureza cruel do homem, os resultados trágicos de sua busca pelo poder e os efeitos irreversíveis do horror da guerra. E o melhor de tudo é que “Apocalypse Now” jamais responde diretamente as questões que levanta, deixando o espectador refletir sobre tudo o que viu e chegar às suas próprias conclusões, o que é sempre admirável. Após assistir esta obra-prima de Francis Ford Coppola, o espectador tem a sensação de que, independente de seu resultado final, a guerra não tem vencedores.

Texto publicado em 09 de Fevereiro de 2010 por Roberto Siqueira

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Espero que estejam curtindo a novidade. Em breve tem mais.

Um grande abraço.

Texto publicado em 08 de Fevereiro de 2010 por Roberto Siqueira