TITANIC (1997)

(Titanic)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #179

Vencedores do Oscar #1997

Dirigido por James Cameron.

Elenco: Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, Billy Zane, Kathy Bates, Frances Fisher, Gloria Stuart, Bill Paxton, Bernard Hill, David Warner, Victor Garber, Jonathan Hyde, Suzy Amis, Danny Nucci e Ioan Gruffudd.

Roteiro: James Cameron.

Produção: James Cameron e Jon Landau.

Titanic[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Não é difícil entender as razões do sucesso avassalador de “Titanic”, superprodução grandiosa de James Cameron que alcançou números impressionantes nas bilheterias e ainda igualou o recorde de “Ben-Hur” ao levar 11 estatuetas do Oscar. Também não é tão complicado entender porque, ao longo do tempo, o filme ganhou a antipatia de parte do público e até mesmo de alguns cinéfilos, tamanha foi a sua exposição ao longo dos anos (pense, por exemplo, quantas vezes na sua vida você já ouviu tocar sua famosa música tema em algum lugar). Mas o fato é que, mesmo com seus pecadilhos aqui e ali, o longa estrelado pelos então jovens astros Leonardo DiCaprio e Kate Winslet é mesmo um grande filme, destes que merecem serem lembrados eternamente e, não à toa, conquistou seu lugar cativo na história do cinema.

Escrito pelo próprio Cameron, “Titanic” narra a história de amor entre Jack (Leonardo DiCaprio), um jovem quase nômade que ganha sua passagem numa partida de pôquer, e Rose (Kate Winslet na juventude e Gloria Stuart na velhice), a noiva do rico Cal (Billy Zane) que viaja ao lado de sua mãe (Frances Fisher) em busca de uma nova e promissora vida. Mas o destino de todos eles e dos mais de dois mil passageiros do transatlântico muda completa e tragicamente quando o imponente navio se choca com um iceberg.

Usando a busca por um artefato raro no que restou do Titanic no fundo do mar como ponto de partida, o roteiro de James Cameron nos traz o típico romance já visto inúmeras vezes anteriormente (“A Dama e o Vagabundo”, por exemplo) entre a menina rica cansada da vida aborrecida que leva e o menino pobre e cheio de vida. No entanto, Cameron sabe muito bem que no seu cinema (e no cinema de maneira geral), a forma é muito mais importante do que o conteúdo. Assim, sua preocupação não está apenas na história que será contada, mas na maneira pela qual aquela história será contada. Não que o diretor/roteirista não se preocupe com a estruturação de sua narrativa. Observe, por exemplo, como ele insere dicas que serão essenciais no clímax de “Titanic”, como a explicação técnica do naufrágio que permite ao espectador antecipar como o navio afundará (sabemos, por exemplo, que ele se partirá ao meio, o que aumenta a tensão no ato final). Repare também como a primeira conversa entre Jack e Rose faz questão de mencionar a temperatura da água, o que também será importante após o naufrágio, assim como o roteiro também tem o cuidado de mencionar a famosa frase “Nem Deus afunda o Titanic”, dando às plateias mais jovens a dimensão do tamanho daquela tragédia para a época.

Busca por um artefato raroExplicação técnica do naufrágioPrimeira conversa entre Jack e RoseTransitando com elegância do presente para o passado através dos escombros do navio que se transformam no imponente transatlântico e fazendo o caminho inverso através do olho de Winslet que de repente se transforma no de Stuart, a montagem de Conrad Buff, Richard A. Harris e Cameron é essencial para que o longa não se torne enfadonho ao longo de suas três horas de projeção (egocêntrico, Cameron faz questão de colocar seu nome, mas todo bom diretor participa do processo de montagem dos filmes). Assim, Cameron e seus montadores investem um bom tempo na construção lenta daquele romance, sedimentando a empatia pelo casal na plateia e permitindo que a narrativa respire, o que é crucial para que o espectador sinta toda a escalada dramática da tragédia com intensidade durante o segundo e terceiro atos. A partir do momento em que o espectador realmente se identifica e se importa com Rose e Jack, a tragédia também tocará a plateia com a mesma intensidade e, desde então, o sucesso de “Titanic” está garantido.

Imponente transatlânticoOlho de WinsletOlho de StuartÉ claro que existem os excessos. O escorregão dela na proa do navio, por exemplo, é desnecessário, assim como toda a sequência em que Cal persegue o casal, que culmina na cena em que eles tentam salvar um garoto e quase morrem afogados. Este melodrama todo surge também quando Jack é incriminado por roubo, o que também soa desnecessário, mas por outro lado cria o cenário para a tensa busca de Rose por ele, nos permitindo passear pelo navio enquanto ele afunda e ver alguns detalhes do processo internamente. Assim, aqueles longos corredores brancos se tornam aterrorizantes quando as luzes começam a falhar e a água começa a subir, chegando a níveis insuportáveis de tensão graças também ao design de som que cria com precisão os barulhos daquele gigante que se desfaz e à trilha sonora que emula a batida acelerada de um coração neste instante.

Cal persegue o casalLongos corredores brancosÁgua começa a subirO espetacular design de som, aliás, nos permite notar desde os pequenos movimentos nos talheres durante um jantar até o barulhento impacto da água durante o naufrágio, sendo essencial na imersão do espectador naquele ambiente. Enquanto isto, o ótimo James Horner cria uma trilha sonora grandiosa, alcançando a escala épica exigida pela história sem jamais deixar de lado o romantismo que emana da narrativa, inserindo trechos da melodia da música tema “My heart will go on” (imortalizada na voz de Celine Dion) e encontrando espaço ainda para criar variações interessantes que incluem elementos tipicamente irlandeses nas sequências que se passam na terceira classe e composições agitadas que embalam os momentos de tensão.

O trabalho técnico formidável liderado pelo perfeccionista Cameron segue com a reconstituição precisa das roupas usadas na época (figurinos de Deborah L. Scott), que servem também para diferenciar as classes sociais que embarcaram no navio, além é claro dos objetos utilizados na decoração dos ambientes e até mesmo das louças e talheres utilizados nos luxuosos jantares (design de produção de Peter Lamont). Assim, “Titanic” mostra-se um verdadeiro deleite para os olhos, um esplendor visual que ganha contornos épicos através dos planos belíssimos do transatlântico navegando pelo oceano tanto durante os dias ensolarados como sob a luz das estrelas ao anoitecer.

Reconstituição precisa das roupasDecoração dos ambientesTalheres utilizados nos luxuosos jantaresEssencial na criação deste visual marcante, a fotografia de Russell Carpenter prioriza tons azulados em diversos momentos do presente, transmitindo a melancolia que a história evoca e a nostalgia de Rose, transitando com precisão para o visual vivo e iluminado durante o início da viagem que realça não apenas o brilho e o luxo do navio, como também a empolgação daquele jovem casal que se conhece. Já no ato final, os tons mais escuros e o predomínio das cenas noturnas ajudam a criar na plateia a mesma sensação de angústia dos personagens.

Tons azuladosVisual vivo e iluminadoTons mais escurosPersonagens que são interpretados por um elenco heterogêneo, encabeçado por dois nomes que despontavam na época. Ainda bem jovem, mas já dono de grande talento (conforme atestam “Gilbert Grape” e “Diário de um Adolescente”), Leonardo DiCaprio vive Jack com a intensidade e a empolgação que se espera de um jovem que consegue embarcar naquele luxuoso navio, conseguindo ainda uma ótima química com Kate Winslet, o que é essencial para o sucesso do romance. Winslet, por sua vez, confere carisma e vivacidade a jovem Rose, mostrando-se inteligente para compreender o ambiente em que está inserida e, ao mesmo tempo, passional o bastante para se atirar de cabeça num verdadeiro romance impossível. São deles alguns dos momentos mais icônicos do longa, como o lindo primeiro beijo ao pôr-do-sol na proa do navio (“Estou voando Jack”, diz ela) e o famoso grito “Eu sou o rei do mundo!”. A coleção de lindas cenas continua quando Jack desenha Rose nua e especialmente na clássica cena em que a mão dela indica o sexo e o romance alcança seu clímax, segundos antes do impacto no Iceberg que mudaria aquela história para sempre.

Lindo primeiro beijoJack desenha Rose nuaMão dela indica o sexoRose seguiria sua vida, constituiria família e viveria muito ainda, até que finalmente encontrasse coragem para embarcar novamente no Titanic. Aos 86 anos, Gloria Stuart tem uma atuação sensível e emocionante, transmitindo o quanto aquelas lembranças eram importantes para Rose através de seu olhar, participando ainda da desnecessária narração que mastiga alguns acontecimentos para o público. Ainda entre os destaques, Kathy Bates diverte-se na pele da espirituosa e divertida Molly, ao passo que Bill Paxton está apenas discreto como o caçador de tesouros Brock Lovett.

Atuação sensível e emocionanteEspirituosa e divertida MollyCaçador de tesouros Brock LovettInfelizmente, “Titanic” também tem sua porção de personagens unidimensionais e odiáveis, como o canalha Cal de Billy Zane que, além de atormentar a vida do casal principal, ainda é capaz de usar uma criança abandonada a seu favor no ato final. Já Frances Fisher encarna a Sra. Ruth de maneira tão gélida e impassível que por vezes chegamos a duvidar que ela seja mesmo a mãe de Rose, salvando-se apenas por demonstrar preocupação genuína ao ver a filha voltar para o transatlântico enquanto este afunda e pelo pequeno momento de humanidade quando tenta justificar sua maneira de agir e seu interesse financeiro acima da própria vontade (“Somos mulheres, nossas escolhas nunca foram fáceis”). E finalmente, não posso deixar de mencionar alguns dos oficiais que agem de maneira irracional, segurando a terceira classe já durante o naufrágio e não utilizando toda a capacidade dos botes, chegando ao ápice quando um deles atira num dos amigos de Jack e suicida-se depois, o que ao menos demonstra remorso.

Canalha CalGélida e impassívelAtira num dos amigos de JackE por falar em ápice, chegamos então aos momentos que fizeram de “Titanic” um longa tão impactante. Conduzida de maneira vigorosa por Cameron, a cena do acidente é tensa o bastante para envolver o espectador, com a câmera trêmula do diretor nos colocando dentro do ambiente e criando uma sensação de urgência sem que, por isso, deixemos de ter a exata noção de tudo que acontece na tela. O desespero e o egoísmo durante o naufrágio e o verdadeiro comportamento de manada que toma conta das pessoas após o acidente simboliza o ser humano em seu estado mais cru, em momentos captados com precisão pelos closes e planos fechados de Cameron que buscam valorizar as expressões de medo e angústia das pessoas.

Cena do acidenteComportamento de manadaExpressões de medo e angústiaMas o diretor sabe ser sutil também. Em certo momento do naufrágio, um plano geral mostra os fogos de artifício estourando no centro da tela com o navio pequeno ao fundo, dando a exata noção da insignificância daquele transatlântico diante da magnitude do oceano. E se a banda tocando até o último instante é o mais puro símbolo do melodrama que permeia “Titanic”, a linda sequência embalada por uma das músicas da banda exemplifica muito bem como Cameron sabe utilizar isto a seu favor, quando vemos um casal de idosos esperando a morte e uma mãe contando histórias para os filhos enquanto a água invade aqueles compartimentos. Da mesma forma, o tocante momento em que o capitão Smith (Bernard Hill, em boa atuação) se recolhe desolado para esperar o fim torna o personagem ainda mais interessante.

Fogos de artifícioBanda tocando até o último instanteMãe contando histórias para os filhosObviamente, se toda a produção preza pelo primor técnico, a impactante cena do naufrágio é a cereja do bolo de “Titanic”. Colocando o espectador dentro do navio enquanto vemos as pessoas caindo na água e sua estrutura desmoronando, Cameron e sua equipe criam um momento tão sublime tecnicamente e poderoso dramaticamente que é praticamente impossível não reconhecer seus méritos. Assim, a força devastadora da água preenche a tela com tanta verossimilhança que o espectador praticamente se encolhe na poltrona, buscando segurar-se em algo enquanto aquele gigante se prepara para finalmente afundar. Após o naufrágio, a fotografia azulada e a boa atuação do elenco transmite com precisão a histeria coletiva que toma conta do local, nos fazendo em seguida quase sentir o frio que os personagens sentem no meio do oceano. E então o momento que levou milhões de espectadores às lágrimas chega e Jack finalmente se torna apenas uma lembrança para Rose.

Impactante cena do naufrágioGigante se prepara para finalmente afundarHisteria coletivaO final delicado e sensível nos mostra rapidamente a vida que Rose levou através de algumas fotografias e nos permite uma última visita ao mais famoso transatlântico da história, recriado com precisão nesta obra grandiosa, tecnicamente perfeita e dramaticamente poderosa, com alguns excessos é verdade, mas que jamais chegam a prejudicar sua qualidade soberba. James Cameron pode ser egocêntrico e megalomaníaco. Certamente, os criadores do “Titanic” também eram. Mas, ironicamente, a junção entre o primeiro e a história trágica do segundo criaram um dos filmes mais emblemáticos dos anos 90 e, certamente, um dos grandes da história do cinema em todos os tempos.

Titanic foto 2Texto publicado em 17 de Novembro de 2013 por Roberto Siqueira

O MUNDO PERDIDO: JURASSIC PARK (1997)

(The Lost World: Jurassic Park)

3 Estrelas 

Videoteca do Beto #178

Dirigido por Steven Spielberg.

Elenco: Jeff Goldblum, Julianne Moore, Pete Postlethwaite, Richard Attenborough, Vince Vaughn, Arliss Howard, Vanessa Lee Chester, Camilla Belle, Peter Stormare, Richard Schiff, Joseph Mazzello e Mark Pellegrino.

Roteiro: David Koepp, baseado em livro de Michael Crichton.

Produção: Gerald R. Molen e Colin Wilson.

O Mundo Perdido - Jurassic Park[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Preocupado com a possibilidade da franquia “Jurassic Park” seguir o mesmo caminho de “Tubarão” (ou seja, ser deturpada nas mãos de pessoas menos talentosas), Steven Spielberg decidiu dirigir a continuação “O Mundo Perdido: Jurassic Park” quatro anos após o primeiro filme assombrar o mundo com seus efeitos visuais espetaculares e sua história envolvente. No entanto, as semelhanças entre o primeiro e o segundo filme se restringem apenas aos efeitos visuais assombrosos, já que apesar de contar com algumas cenas marcantes, esta sequência é bastante inferior tanto nos aspectos narrativos quanto no carisma de seus personagens.

Escrito novamente por David Koepp baseado em livro que o próprio Spielberg pediu para Michael Crichton escrever, “O Mundo Perdido: Jurassic Park” tem início quando o Dr. Ian Malcolm (Jeff Goldblum) é chamado para conversar com John Hammond (Richard Attenborough) e descobre que sua namorada, a Dra. Sarah (Julianne Moore), havia sido enviada para uma ilha conhecida como “Sítio B”, vizinha daquela onde o antigo Parque dos Dinossauros se localizava e que era utilizada na criação dos animais. Acompanhado de uma equipe, ele chega ao local com a missão de estudar os dinossauros, mas outra equipe comandada por Roland Tembo (Pete Postlethwaite) invade a ilha com a intenção de capturá-los e levá-los para San Diego, onde um novo Parque seria inaugurado.

Expondo o que aconteceu entre o final do primeiro filme e o ponto de partida deste segundo através de um diálogo expositivo nada orgânico, David Koepp constrói um arremedo de narrativa que se transforma numa boa aventura graças ao talento de Spielberg atrás das câmeras. Ainda assim, o roteirista resgata alguns pontos interessantes do longa original, como as tiradas engraçadas de Ian que, por outro lado, acabam tirando um pouco da humanidade do personagem em alguns instantes, como por exemplo quando ele pede ironicamente três cheeseburgers pendurado num penhasco – e, pra piorar, é acompanhado na piada pelos outros dois personagens que se encontram à beira da morte. Em parte, a culpa é também de Jeff Goldblum, que desta vez ganha mais espaço na narrativa, mas não consegue reverter os problemas do roteiro e convencer como um pai ou namorado realmente preocupado.

Pra piorar, Koepp tenta conferir profundidade dramática ao protagonista através de conflitos que jamais convencem com sua filha Kelly (Vanessa Lee Chester) e a namorada Sarah, o que, somado ao comportamento deles em situações de alto risco, cria personagens rasos e inverossímeis, dificultando nossa identificação com aquele grupo. Ao menos, Spielberg corrige parcialmente esta falha ao criar cenas tensas o bastante para nos envolver, independente do grau de envolvimento que temos com os personagens. Quem também ajuda é Julianne Moore, que compõe a Dra. Sarah com mais competência, convencendo como alguém realmente apaixonada pelo que faz – repare sua expressão de alegria ao constatar que a mamãe T-Rex estava mesmo à procura do filhote. Sua personagem serve também para apresentar ao espectador conceitos e características importantes dos dinossauros, o que aumenta a tensão quando eles surgem por já sabermos os atributos mortais do Velociraptor e do T-Rex, por exemplo.

Três cheeseburgersFilha KellyExpressão de alegriaQuem também tem a função de deixar a plateia mais tensa são os caçadores cruéis e unidimensionais liderados pelo odiável Roland Tembo (Pete Postlethwaite), que ao menos tem raros momentos de humanidade, como quando pede pra ninguém contar pra Kelly que um homem tinha morrido ou quando lamenta a perda de um parceiro de equipe e diz que está cansado de andar ao lado da morte.

Mas, com o perdão do trocadilho infame, nem tudo está perdido. É fácil notar, por exemplo, que esta continuação é mesmo dirigida por Spielberg, já que o diretor demonstra sua habilidade na construção de narrativas capazes de prender nossa atenção desde os primeiros instantes, criando expectativa através do ataque à menina na Ilha no qual vemos os pequenos dinossauros cercando a garota, ouvimos seus gritos e acompanhamos a reação apavorada de seus pais, mas não vemos as consequências violentas daquele ato – infelizmente, o diretor já dava sinais da falta de coragem que marcaria sua fase seguinte ao fazer questão de ressaltar que a garota estava viva. Assim, o espectador mal pode esperar o reencontro com os gigantes animais jurássicos. Quando finalmente nos deparamos com eles, Spielberg novamente faz questão de primeiro ressaltar o olhar maravilhado dos personagens, para somente depois nos permitir admirar os imponentes dinossauros concebidos pelos impecáveis efeitos visuais da Stan Winston Studio – que, por sua vez, não apresentam grande evolução quando comparados ao primeiro filme (este sim um fenômeno na área). Finalmente, o diretor também constrói alguns planos interessantes e muito funcionais, como aquele em que vemos os Velociraptors se aproximando do grupo que caminha pela selva segundos antes do ataque arrasador.

Ataque à meninaOlhar maravilhado dos personagensVelociraptors se aproximandoAlém dos efeitos visuais, Spielberg conta também com o auxilio de sua equipe premiada por “A Lista de Schindler”, começando pelo diretor de fotografia Janusz Kaminski, que cria um visual sombrio e sufocante ao explorar muito bem o predomínio de cenas noturnas e as muitas chuvas que permeiam a narrativa. Da mesma forma, a montagem ágil de seu parceiro Michael Kahn confere um dinamismo interessante ao longa, o que é essencial numa aventura. E finalmente, se a trilha sonora de John Williams também aumenta a tensão em diversos instantes, acertando ainda ao utilizar a ótima música tema somente em momentos pontuais para evitar o desgaste da mesma, o ótimo design de som é parte fundamental no processo de dar vida aos dinossauros, tornando tudo ainda mais real aos olhos da plateia.

No entanto, a salvação de “O Mundo Perdido: Jurassic Park” está mesmo nas mãos de Steven Spielberg. Criando cenas de impacto que vão desde pequenos sustos – como no ataque repentino à base de operações durante a apresentação do projeto do Parque em San Diego – a momentos de alta tensão, o diretor confirma seu talento em sequências eletrizantes, como aquela em que acompanhamos Kelly e Sarah cavando simultaneamente aos Velociraptors que tentam invadir o esconderijo do qual elas tentam sair – numa cena, aliás, que reserva outro susto monumental ao espectador.

Cenas noturnas e as muitas chuvasAtaque repentino à base de operaçõesKelly e Sarah cavando simultaneamente aos VelociraptorsE se os “Raptors” garantem boas cenas, o que dizer então do T-Rex, que agora surge acompanhado e, portanto, duas vezes mais perigoso. Indicando novamente sua aproximação através da água (desta vez, uma poça faz a função do copo no primeiro filme), Spielberg conduz o ataque ao acampamento com maestria, gerando suspense ao trabalhar com elementos aparentemente inofensivos. Repare que, momentos antes, Sarah comenta sobre o sangue do filhote que não secou em sua blusa, o que nos faz grudar na cadeira enquanto o T-Rex cheira a blusa pendurada na cabana, gerando a correria histérica que resulta numa das raras mortes violentas do longa dentro de uma cachoeira.

Indicando aproximação através da águaSarah comenta sobre o sangue do filhoteT-Rex cheira a blusa pendurada na cabanaMas é mesmo a primeira aparição dos T-Rex que novamente se garante como o melhor momento do longa. Trabalhando mais uma vez com a noite, a chuva forte e agora agregando o telefone que toca sem parar e os gritos do filhote de T-Rex de dentro do trailer, Spielberg prepara o cenário ideal para a aparição do astro principal. Assim, o som indica a aproximação enquanto as árvores balançam e um carro arremessado confirma a fúria do predador, que surge com seu olhar penetrante na lateral do trailer, acompanhado por outro olhar que provoca a surpresa dos personagens e da plateia: eles vieram em casal. A sequência eletrizante continua com a entrega do filhote e o ataque que deixa o trailer pendurado no penhasco, chegando ao auge quando Sarah cai sobre o vidro, num momento de pura tensão que só termina quando o veículo finalmente despenca morro abaixo após deslizar pelo terreno. Após a cena de tirar o fôlego, a morte violenta de Eddie Carr (Richard Schiff) funciona como um sarcástico alívio cômico, assim como ocorria no primeiro filme com o homem sentado no vaso sanitário, só que desta vez com os animais brincando com o corpo dele.

Olhar penetranteTrailer pendurado no penhascoSarah cai sobre o vidroInfelizmente, o terceiro ato de “O Mundo Perdido: Jurassic Park” soa totalmente desnecessário, com o T-Rex surgindo na cidade de San Diego apenas para garantir alguns gritos e sustos a mais. Ao menos, garante uma boa piada quando um garoto diz para os pais que “tem um dinossauro no quintal”, mostrando ainda a curiosidade mórbida das pessoas que correm olhando para o T-Rex, num comportamento estranho do ser humano captado com precisão por Spielberg que nós voltaríamos a ver em “Guerra dos Mundos”.

No fim das contas, a continuação de “O Parque dos Dinossauros” funciona exatamente como o “Sítio B”, ou seja, seria muito mais assustadora e interessante se permanecesse apenas na imaginação dos fãs. No entanto, assim como seu terceiro ato, “O Mundo Perdido” é uma continuação desnecessária, porém divertida.

O Mundo Perdido - Jurassic Park foto 2Texto publicado em 27 de Outubro de 2013 por Roberto Siqueira

MELHOR É IMPOSSÍVEL (1997)

(As good as it gets)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #177

Dirigido por James L. Brooks.

Elenco: Jack Nicholson, Helen Hunt, Greg Kinnear, Cuba Gooding Jr., Skeet Ulrich, Shirley Knight, Yeardley Smith, Lupe Ontiveros, Missi Pyle, Maya Rudolph, Lawrence Kasdan, Julie Benz, Harold Ramis, Kathryn Morris, Todd Solondz e Jesse James.

Roteiro: Mark Andrus e James L. Brooks.

Produção: James L. Brooks, Bridget Johnson e Kristi Zea.

Melhor é Impossível[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Recordista de indicações ao Oscar, Jack Nicholson levou seu terceiro prêmio após sua brilhante atuação neste “Melhor é Impossível”, que, com seus personagens simultaneamente problemáticos e agradáveis, conquista o espectador quase que da mesma maneira como o protagonista conquista a personagem brilhantemente interpretada por Helen Hunt. Assim, não são raros os momentos graciosos que são quebrados por alguma grosseria e vice-versa, numa mistura eficiente de instantes dramaticamente densos e outros recheados de humor negro; e é ao balancear estes polos opostos com tanto cuidado que o longa dirigido por James L. Brooks alcança seu sucesso.

Escrito pelo próprio Brooks ao lado de Mark Andrus, “Melhor é Impossível” narra o cotidiano do obsessivo-compulsivo e preconceituoso escritor Melvin Udall (Jack Nicholson), um homem repleto de cinismo e sarcasmo que adora tirar uma onda com seu vizinho homossexual Simon (Greg Kinnear) e que faz questão de ser sempre atendido pela mesma garçonete no restaurante onde almoça todos os dias. A garçonete é Carol (Helen Hunt), uma mãe solteira que se desdobra para cuidar do filho, que sofre com uma grave doença respiratória.

Desenvolvendo muito bem seus personagens, o roteiro de “Melhor é Impossível” ajuda a humanizar cada um deles, demonstrando aos poucos as qualidades e defeitos de pessoas que facilmente poderiam tornar-se caricatas e odiáveis em mãos menos cuidadosas – e na pele de atores menos talentosos. Neste caso, o que ocorre é exatamente o contrário. Os personagens conquistam o espectador justamente por escancararem seus defeitos de maneira tão humana, o que naturalmente os aproximam da plateia.

Atrás das câmeras, Brooks faz um trabalho discreto e eficiente que busca valorizar as atuações através do uso de planos americanos e closes, empregando ainda o zoom para realçar momentos de impacto dramático e saindo-se muito bem na condução de cenas fortes como aquela em que um grupo de jovens de rua espanca Simon (numa rápida participação dos atores Skeet Ulrich e Jamie Kennedy, de “Pânico”, na qual se destaca o ótimo trabalho de maquiagem que torna realistas os machucados no rosto dele na cena seguinte no hospital). Igualmente discreta, a fotografia de John Bailey aposta em cenas diurnas e filtros que realçam cores leves, ao passo em que a gostosa trilha sonora de Hans Zimmer apresenta um tema principal inspirado, mas que também surge apenas em momentos pontuais. Desta forma, quem acaba chamando mais a atenção é o trabalho do montador Richard Marks, que transita muito bem entre o drama de Carol com a doença do filho, as rotinas de Melvin e o trabalho de Simon e Frank, integrando os personagens de maneira orgânica e mantendo a narrativa sempre atraente e fluída.

Planos americanosGrupo de jovens de rua espanca SimonCores levesNo entanto, é inegável que o grande atrativo de “Melhor é Impossível” é mesmo o seu elenco talentoso e inspirado, que oferece performances simultaneamente divertidas e tocantes. Vivendo um personagem preconceituoso e (desculpe o termo) escroto, Nicholson tem um desempenho excepcional, saindo-se muito bem na difícil tarefa de conquistar a empatia da plateia mesmo na pele de alguém tão desprezível. Destilando veneno em muitas de suas frases sarcásticas, Melvin poderia tornar-se ainda mais irritante por sofrer de TOC (transtorno obsessivo-compulsivo), o que faz com que ele sente sempre na mesma mesa do restaurante, evite pisar nas linhas do chão, deteste ser tocado por outras pessoas, organize milimetricamente os sabonetes da mesma marca em seu armário e feche a porta do apartamento cinco vezes. E se ainda assim nós gostamos dele, grande parte do mérito é mesmo do lendário ator.

Senta sempre na mesma mesaEvita pisar nas linhas do chãoOrganiza milimetricamente os sabonetesPersonagem complexo, Melvin consegue ser egoísta e egocêntrico e, ao mesmo tempo, é capaz de agir com surpreendente gentileza e encantar Carol com a bela frase “Você me faz querer ser um homem melhor”, somente para, minutos depois, estragar tudo com outra frase detestável. Este comportamento imprevisível fica ainda mais claro quando ele choca uma fã na editora, escancarando a intrigante diferença entre o autor sensível e o ser humano desprezível que conflitam dentro dele.

Mas se Nicholson surge solto e diverte-se no papel, Hunt não fica atrás, demonstrando excelente química com o consagrado ator numa atuação sensível e poderosa. Externando os traumas ocasionados por relacionamentos passados (“Não vou dormir com você!”, diz ela para Melvin), Carol emociona pela maneira como admite sua carência num belíssimo diálogo com a mãe, num dos grandes momentos da atuação de Hunt, que se destaca ainda na reação dramaticamente poderosa de Carol após Melvin mencionar seu filho no restaurante, que dá os primeiros sinais de sua vulnerabilidade e, especialmente, quando demonstra a alegria genuína da personagem diante do médico que oferece tratamento para seu filho, num momento tocante. Lentamente, Carol vai reencontrando a felicidade, algo simbolizado até mesmo por suas roupas (figurinos de Molly Maginnis), que evoluem lentamente das cores sem vida de seu uniforme para o vestido vermelho e chamativo que ela usa durante um jantar.

Belíssimo diálogo com a mãeReação dramaticamente poderosaAlegria genuínaCom seus trejeitos e a forte tendência para o overacting, Cuba Gooding Jr. diverte-se como Frank, o amigo engraçado e falastrão de Simon que se impõe fisicamente diante de Melvin, enquanto Kinnear demonstra muito bem a sensibilidade de Simon, emocionando em momentos especiais como quando vê seu rosto desfigurado pela primeira vez num espelho ou quando, com a ajuda de Carol, se empolga após conseguir romper o bloqueio criativo. Aliás, sua bagunçada casa reflete não apenas sua mente agitada (essencial em sua profissão), mas também sua instabilidade emocional, o que ressalta o bom design de produção de Bill Brzeski.

Amigo engraçado e falastrãoSensibilidade de SimonBagunçada casaQuem também tem participação importante na narrativa é o cachorro de Simon, explorado com competência pela câmera de Brooks, como no close que capta sua reação após Melvin receber a notícia que terá que devolvê-lo – numa das primeiras cenas que escancaram a fragilidade daquele homem solitário, que se esconde sob aquela capa de cinismo e sarcasmo. E fechando o elenco, temos a simpática mãe de Carol interpretada por Shirley Knight e a participação do diretor Lawrence Kasdan como o Dr. Green.

Quando o casal se desentende e se separa durante a viagem, sabemos que estamos perto do final conciliador, típico das comédias românticas. Mas até mesmo este clichê funciona muito bem em “Melhor é Impossível”, justamente pela maneira sincera e coerente que os personagens se comportam, buscando a reaproximação sem exigir que o outro mude completamente. E o que é mais interessante, o espectador sabe que eles continuarão exibindo os mesmos defeitos, e mesmo assim nós torcemos pelo sucesso daquela relação. Afinal, somos mesmo assim, repletos de defeitos e virtudes e eternamente buscando alguém que nos compreenda em toda nossa complexidade e vulnerabilidade.

Cachorro de SimonSimpática mãe de CarolCasal se desentendeFilme com alma e coração, “Melhor é Impossível” beneficia-se das atuações de alto nível para tocar o espectador sem jamais pender para o melodrama ou soar piegas, divertindo e emocionando com a mesma eficiência. Não é o caso de dizer que melhor que isso é impossível. Mas quase.

Melhor é Impossível foto 2Texto publicado em 20 de Outubro de 2013 por Roberto Siqueira

LOS ANGELES – CIDADE PROIBIDA (1997)

(L.A. Confidential)

5 Estrelas 

Obra-Prima 

Videoteca do Beto #176

Dirigido por Curtis Hanson.

Elenco: Guy Pearce, Kevin Spacey, Russell Crowe, James Cromwell, Kim Basinger, David Strathairn, Danny DeVito, Graham Beckel, Ron Rifkin, Paul Guilfoyle, Matt McCoy, Simon Baker, Brenda Bakke, Jeremiah Birkett, Karreem Washington e Salim Grant.

Roteiro: Brian Helgeland e Curtis Hanson, baseado em romance de James Ellroy.

Produção: Curtis Hanson, Arnon Milchan e Michael Nathanson.

Los Angeles - Cidade Proibida[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Impecável em praticamente todos os aspectos, o neo-noir “Los Angeles – Cidade Proibida” não conseguiu superar o colossal sucesso de “Titanic” e nem mesmo ressuscitou este que é um dos gêneros mais interessantes do cinema norte-americano. Nada disso, porém, diminui o fato de que o longa dirigido por Curtis Hanson e estrelado por um elenco tão talentoso é, sem dúvida alguma, uma das obras mais marcantes de sua época, funcionando como um thriller moderno e intrigante ao mesmo tempo em que homenageia o noir de maneira brilhante.

Escrito pelo próprio Hanson ao lado de Brian Helgeland e baseado em livro de James Ellroy, “Los Angeles – Cidade Proibida” se passa nos anos 50 e acompanha o cotidiano da polícia após a prisão do chefe do crime organizado local. Numa noite conhecida como “Natal Sangrento”, diversos policiais agridem alguns prisioneiros mexicanos e acabam flagrados pela imprensa, gerando uma investigação que leva o policial Ed Exley (Guy Pearce) a ser promovido, justamente por delatar seus companheiros de profissão. Assim, o policial Bud White (Russell Crowe) e o detetive Jack Vincennes (Kevin Spacey) acabam afastados de suas funções, mas todos eles terão seus caminhos cruzados numa investigação que envolverá o alto escalão policial – entre eles, o capitão Dudley (James Cromwell) – e pessoas importantes ligadas a um esquema de prostituição no qual as mulheres se parecem com estrelas de cinema – entre elas, a bela Lynn (Kim Basinger).

Surgindo como um verdadeiro noir moderno logo em seus primeiros minutos, “Los Angeles – Cidade Proibida” traz praticamente todas as principais características do gênero. Assim, temos o crime movendo a narrativa, as cenas predominantemente noturnas, os personagens ambíguos e a loira fatal. E ainda que a fotografia de Dante Spinotti tenha cores quentes e cenas diurnas especialmente em seu segundo ato, esta paleta de cores surge sempre dessaturada, criando um visual que não apenas homenageia o gênero como também remete à época em que se passa a narrativa com precisão. Esta sensação é reforçada também pelo ótimo design de produção de Jeannine Oppewall, que reconstitui a Los Angeles dos anos 50 com precisão através dos carros que circulam pelas ruas, da decoração dos ambientes e das armas utilizadas pelos policiais, além é claro da ótima trilha sonora de Jerry Goldsmith, repleta de Jazz e músicas típicas da Califórnia, mas também com composições instrumentais sombrias que pontuam bem certas cenas, como quando Ed chega ao Nite Owl e anda pelo lugar após o massacre – e aqui vale observar como a câmera subjetiva de Hanson amplia o suspense consideravelmente.

Paleta de cores dessaturadaLos Angeles dos anos 50Ed chega ao Nite OwlMas o fato é que grande parte da narrativa se passa predominantemente à noite, o que permite ao diretor criar um visual sombrio que remete diretamente ao universo obscuro daqueles personagens. Vestidos normalmente com ternos sóbrios (figurinos de Ruth Myers), os policiais tentam manter a boa imagem perante a população, mas, como em todo bom noir, nem tudo em “Los Angeles – Cidade Proibida” é exatamente o que parece ser. O mérito, neste caso, é também do excelente roteiro que funciona perfeitamente tanto em sua estrutura como no desenvolvimento dos personagens, que se tornam ainda mais interessantes graças ao bom desempenho geral do elenco.

Fisgando a atenção do espectador desde sua eficiente introdução, “Los Angeles” escancara sua eficiência narrativa logo na cena seguinte, quando rapidamente somos apresentados aos personagens Bud, Jack e Ed e, de maneira clara, conhecemos algumas de suas principais características. Obviamente, a fluidez da narrativa se deve também a montagem ágil de Peter Honess, que confere um ritmo empolgante aquela investigação intrigante e imprevisível. No entanto, esta agilidade não impede que Hanson tenha o cuidado de criar um pequeno suspense na apresentação de Lynn, demorando alguns segundos para revelar a excelente maquiagem que transforma Kim Basinger numa sósia de Veronica Lake. As prostitutas que se parecem com atrizes famosas de Hollywood, aliás, garantem um dos raros momentos de alívio cômico através da excelente piada envolvendo Lara Turner (Brenda Bakke).

Universo obscuroTernos sóbriosApresentação de LynnDa mesma forma, Hanson trabalha muito bem alguns temas abordados pelo longa, apoiando-se na ambiguidade dos personagens e de suas atitudes para levantar interessantes questões. Observe, por exemplo, como a corrupção na polícia se torna um problema bem mais denso e complexo quando observamos que os policiais podem agir de maneiras semelhantes em situações diferentes e nos induzir a concordar ou não com seus atos. Se num instante um policial planta provas para justificar a prisão de alguém que é notoriamente culpado, este senso de justiça perde totalmente o sentido quando vemos outros policiais usando o mesmo artifício em benefício próprio. No entanto, a burocracia da justiça pode levar a sensação de impunidade e nos induzir ao erro de achar que algumas atitudes são justificáveis e outras não. No fim das contas, a pergunta é: É possível ser sempre correto?

A princípio, Ed Exley parece pensar que sim. Guiando-se por um senso de justiça que o leva até mesmo a passar por cima do sentimento de camaradagem tão valorizado entre os policiais, Guy Pearce compõe Ed como um personagem determinado a limpar a sujeira do departamento de polícia, o que o leva a subir na carreira na mesma proporção em que ganha inimigos dentro do ambiente de trabalho. As razões para este comportamento encontram base ainda em sua infância, mas Ed se vê obrigado a reavaliar conceitos na medida em que a narrativa avança – e um close em seu rosto após ele finalmente atirar em uns criminosos indica o momento em que ele começa a mudar de comportamento.

Já calejado e distante do sentimento que o levou a ser policial, o cínico Jack Vincennes se aproveita da situação para ganhar projeção, mas lentamente ele também apresenta seu outro lado, numa transição que o ótimo Kevin Spacey demonstra muito bem quando, arrependido, deixa os 50 dólares que recebeu num bar e tenta evitar que um jovem ator saia com um promotor local, mas chega tarde demais e encontra o garoto já assassinado – a expressão de decepção em seu rosto é marcante neste momento.

Momento em que Ed começa a mudarCínico Jack VincennesBud o policial durãoTraumatizado pela morte violenta da mãe, Bud é o policial durão que resolve tudo na base da pancada, mas assim como os outros personagens, ele também não se resume a esta avaliação superficial, demonstrando descontentamento diante desta situação e uma vontade enorme de provar que também é inteligente. Explorando seu porte físico sem se esquecer de seu talento dramático, Russel Crowe chama a atenção pela maneira como equilibra sua atuação entre as reações explosivas e momentos sensíveis como quando, envergonhado, evita o olhar de Ed após um policial informar que alguém tinha batido em Lynn. Curiosamente, é justamente ele quem vive a relação mais sensível de “Los Angeles”, demonstrando interesse pela bela Lynn desde o primeiro momento, o que não o impede de agir irracionalmente quando descobre que ela tinha dormido com Ed. Lynn e Bud tornam-se confidentes e a empatia entre Crowe e Basinger é essencial neste processo.

Fechando os destaques do elenco, James Cromwell vive o inteligente e experiente Capitão Dudley, um profundo conhecedor do ambiente em que está inserido que revela sua outra faceta na surpreendente e impactante morte de Jack, enquanto a voz de Danny DeVito cai muito bem no repórter Sid Hudgens, que funciona também como uma espécie de narrador que, por pertencer ao ambiente diegético, surge de maneira orgânica e evita a artificialidade comum neste tipo de artifício narrativo.

Inteligente e experiente Capitão DudleyRepórter Sid HudgensTensa sequência do interrogatórioOrgânicas também são as reviravoltas eletrizantes de “Los Angeles”, a começar pela tensa sequência do interrogatório dos suspeitos Sugar Ray (Jeremiah Birkett), Ty Jones (Karreem Washington) e Louis (Salim Grant), na qual acompanhamos Bud lentamente perdendo o controle através de suas mãos que pressionam uma cadeira até que ele finalmente exploda e arranque a informação à força dos interrogados. Na medida em que a narrativa avança, os mistérios do coeso roteiro vão se resolvendo e as camadas ocultas dos personagens são reveladas, levando a parcerias aparentemente improváveis entre Ed e Jack e, posteriormente, entre Ed e Bud.

Mas é mesmo a sacada genial envolvendo “Rollo Tomasi” que confirma o excelente trabalho de Hanson e Helgeland, informando muito de maneira econômica e de quebra explicando também a origem da obstinação de Ed pela justiça. Observe atentamente a condução da cena e repare que somente Ed e Jack estão na sala quando ele conta a história da morte do pai. Assim, quando Dudley pede para Ed investigar quem é “Rollo Tomasi”, tanto o personagem quanto o espectador sofrem o impacto da revelação (num artifício do roteiro conhecido como pista e recompensa que funciona muito bem aqui), já que estas foram exatamente as últimas palavras de Jack Vincennes. Genial.

Rollo TomasiHistória da morte do paiDudley pede para Ed investigar quem é “Rollo Tomasi”Mergulhado nas sombras, o clímax no Victory Motel é sensacional, não apenas por confrontar os personagens com seus demônios mais íntimos como também por entregar ao espectador um tiroteio de tirar o fôlego, no qual podemos notar também o excepcional design de som que nos permite ouvir cada passo, tiro e movimento brusco com clareza. Após ser considerado o herói da noite, Ed afirma ter ciência de sua situação (“Eles me usam e eu os uso”), numa conclusão perfeita e coerente com o personagem. Saber como se comportar naquele meio é essencial para sua sobrevivência. Sem a mesma sagacidade (ou o mesmo estômago), Bud prefere seguir outro caminho. Nas palavras de Lynn: “Alguns homens nasceram para ganhar o mundo, outros para fugirem para o Arizona com uma prostituta”.

E é nesta complexidade dos personagens que reside o maior trunfo de “Los Angeles – Cidade Proibida”, uma obra-prima excepcional que só comprova como nenhum gênero sairá de moda enquanto houver pessoas competentes e inteligentes o bastante para explorá-lo. Afinal, independente do gênero, o que o verdadeiro cinéfilo quer mesmo é assistir um bom filme.

Los Angeles - Cidade Proibida foto 2Texto publicado em 14 de Outubro de 2013 por Roberto Siqueira

JACKIE BROWN (1997)

(Jackie Brown)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #175

Dirigido por Quentin Tarantino.

Elenco: Pam Grier, Samuel L. Jackson, Robert Forster, Bridget Fonda, Michael Keaton, Robert De Niro, Michael Bowen, Chris Tucker e Lisa Gay Hamilton.

Roteiro: Quentin Tarantino, baseado em romance de Elmore Leonard.

Produção: Lawrence Bender.

Jackie Brown[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após surgir como um sopro de criatividade numa indústria carente de novidades com “Cães de Aluguel” e consolidar-se como um grande roteirista e diretor em “Pulp Fiction” – hoje reconhecido como um dos filmes mais importantes dos anos 90 -, Quentin Tarantino viu crescer consideravelmente a expectativa por seu próximo trabalho. Assim, não foram poucos os fãs que se decepcionaram, pois apesar de trazer muitos dos elementos marcantes do diretor e de contar com boas atuações, o consenso geral era de que Tarantino parecia ser menos Tarantino em “Jackie Brown”. Não é pra tanto, mas o fato é que ainda que a expectativa seja algo sempre prejudicial, o longa realmente não está no mesmo nível de seu antecessor. Nem por isso, deixa de ser um grande trabalho de um diretor amadurecido, é verdade, mas ainda completamente apaixonado pelo cinema.

Pela primeira vez baseando-se em material de outra pessoa (no caso, um romance de Elmore Leonard), Tarantino nos apresenta a personagem título “Jackie Brown” (Pam Grier), uma comissária de uma companhia aérea mexicana de segunda linha que tenta compensar o baixo salário ajudando o perigoso traficante Ordell Robbie (Samuel L. Jackson) a trazer dinheiro do exterior, mas é pega por policiais (Michael Bowen e Michael Keaton) no aeroporto e, em troca de sua liberdade, concorda em ajudá-los a desmontar o esquema internacional de tráfico de armas. No processo, ela contará com a ajuda de Max (Robert Forster), um fiador conhecido pelo traficante, por seu comparsa Louis (Robert De Niro) e pelos policiais – e que, por sua vez, acaba se apaixonando por ela.

Ainda que superficialmente “Jackie Brown” pareça seguir a mesma linha dos filmes anteriores de Tarantino, sua narrativa mais linear (com exceção do ato final), menos intrincada e recheada por um tom mais realista foge bastante do hiper-realismo marcante de “Pulp Fiction”, responsável por situações tão surreais que amenizavam os efeitos da violência gráfica das cenas. E se a violência também era marcante em “Cães de Aluguel”, aqui ela não surge com tanta força, assim como o humor negro aparece apenas em raras ocasiões. No entanto, se por um lado Tarantino desta vez prefere conduzir a narrativa de uma maneira, digamos, um pouco mais sóbria, por outro nós temos alguns personagens mais bem desenvolvidos dramaticamente que o de costume, como é o caso da protagonista e, especialmente, do fiador Max.

Nem por isso, podemos dizer que Tarantino abandona completamente seu estilo. Explorando novamente o submundo do crime, seu roteiro muito bem estruturado entrelaça aquele grupo de pessoas interessadas no paradeiro daquela enorme quantia de dinheiro sempre de maneira atraente. Além disso, o diretor não abandona seus diálogos inteligentes sobre coisas prosaicas, como na primeira cena na casa de Ordell onde o traficante e seu amigo Louis são apresentados ao espectador enquanto discutem sobre armas, assim como marcam presença as músicas sempre divertidas, o fetiche por pés femininos e as referências à cultura pop, como quando os personagens comentam cenas do filme “O Matador”, de John Woo, ou quando mencionam Demi Moore, a banda The Delfonics e as lojas de conveniências 7-Eleven. Tarantino também aposta novamente na divisão em capítulos, trazendo ainda elementos não diegéticos como o mapa que indica o trajeto do voo da cidade mexicana até Los Angeles.

Discutem sobre armasPés femininosMapa indica o trajeto do vooNa direção de atores, Tarantino acerta ao permitir composições mais humanas, o que não evita que Samuel L. Jackson atue da maneira histriônica de sempre, mas que cai bem na pele de Ordell, com seu jeito engraçado e pausado de pronunciar os palavrões e as frases cuidadosamente elaboradas pelo diretor/roteirista. Criando uma espécie de vilão carismático, Jackson se destaca especialmente na discussão com Louis, num instante carregado de tensão por sabermos que Ordell pode atirar a qualquer instante – e isto de fato acontece, num dos raros momentos em que a violência gráfica típica de Tarantino surge em “Jackie Brown”, seguida pelo humor negro característico do diretor quando acompanhamos o criminoso saindo andando tranquilamente pelas ruas como se nada tivesse acontecido.

No entanto, dois personagens conseguem algo raro na curta filmografia de Tarantino até então e chegam e emocionar o espectador. Escolhida por ser uma das grandes musas do gênero homenageado em “Jackie Brown” (o blaxploitation), Pam Grier é a primeira a realizar tal feito quando Jackie fala sobre o futuro e externa sua preocupação com a velhice, com um zoom lento realçando sua forte atuação da mesma forma em que a câmera que fica em seu rosto o tempo inteiro destaca sua expressão apavorada quando ela sai da loja de roupas logo após a entrega do “dinheiro” para Melanie (Bridget Fonda) – observe também como a trilha sonora amplia a tensão nesta cena. Compondo uma personagem ambígua que conquista a empatia da plateia mesmo cometendo os crimes que comete, Grier confere humanidade à protagonista através de pequenos momentos, como quando ensaia como pegar a arma na gaveta antes da chegada de Ordell ao escritório de Max.

Vilão carismáticoJackie fala sobre o futuroApavoradaMax que é certamente o personagem mais interessante e complexo de “Jackie Brown”. Demonstrando inteligência e coragem logo nas primeiras negociações com Ordell, o personagem interpretado com competência e sensibilidade por Robert Forster parece incapaz de abandonar a rotina ao qual se submeteu por tantos anos – e que certamente é a responsável por sua expressão sempre cansada e abatida. No entanto, ao ver Jackie ele não apenas se apaixona por ela, como também parece finalmente refletir a respeito de sua vida, mas isto não é suficiente para que tenha a coragem de largar tudo e ir com ela para a Espanha na tocante cena final, captada com precisão pela câmera de Tarantino que, deixando o personagem fora de foco em seu momento de arrependimento, parece respeitar sua dor diante da plateia. Se o crime é o fator que move a narrativa, o romance entre eles é o alicerce, só que enquanto Jackie é pura determinação, ele é apenas resignação – e esta diferença é crucial para que eles não fiquem juntos.

Fechando o elenco, temos um Robert De Niro contido, que passa quase despercebido na maior parte do filme, já que seu Louis nada mais é do que um criminoso velho e ultrapassado, que tenta sobreviver mesmo sem a agilidade e velocidade de raciocínio do passado. Quase sempre carrancudo e calado, ele chama a atenção da bela Melanie, mas curiosamente o ato sexual rápido e seco entre eles acaba afastando-os ao ponto de Louis finalmente mostrar o quanto é perigoso ao atirar na garota após ela irritá-lo no estacionamento do Shopping, numa rara cena em que o absurdo da situação nos faz rir ao invés de chocar, algo também típico de Tarantino.

Expressão cansada e abatidaCriminoso velho e ultrapassadoBela MelanieCom a câmera nas mãos, o diretor até utiliza o plano-sequência algumas vezes, insere seu clássico plano de dentro do porta-malas de um veículo e emprega um travelling cheio de estilo para nos revelar o carro de Ordell virando a esquina e parando a poucos metros da casa de Beaumont Livingston (Chris Tucker) na noite de seu assassinato, num momento em que a música diegética é essencial para nos indicar que se trata do mesmo carro. Entretanto, de maneira geral sua direção é mais discreta, o que não quer dizer que ele não nos presenteie com cenas marcantes, como quando Ordell visita Jackie na casa dela, apagando as luzes seguidamente e tornando aquela conversa já naturalmente tensa em algo ainda mais eletrizante. Auxiliado por sua montadora e amiga Sally Menke, Tarantino utiliza muito bem a tela dividida nesta cena, fazendo com que o espectador perceba no mesmo instante que Ordell a presença de uma arma salvadora nas mãos de Jackie. No entanto, Menke não consegue evitar que o filme perca um pouco o ritmo em determinados momentos do segundo ato, mas comprova seu talento e importância na sensacional sequência da entrega “pra valer” do dinheiro (voltaremos a ela em instantes).

Carro de Ordell virando a esquinaOrdell visita JackieArma salvadoraA escuridão que amplia a tensão na casa de Jackie surge em diversas outras ocasiões, já que o diretor de fotografia Guillermo Navarro aposta no predomínio de cenas noturnas, escondendo os personagens nas sombras em muitos momentos – uma estratégia reforçada pelo uso constante de fades que escurecem a tela completamente por alguns segundos. Já as cenas diurnas confirmam a opção de Tarantino por não tentar glamourizar a vida em Los Angeles como na maioria dos filmes. Ainda que o sol predomine, a imagem que temos é de uma cidade normal, ocupada por pessoas quase sempre a margem da sociedade.

Confirmando seu talento para construir cenas de impacto desde o teste da entrega do dinheiro, Tarantino nos brinda com uma sequência espetacular na entrega “pra valer”, que finalmente se divide sob três perspectivas diferentes (outra marca do diretor) e nos permite acompanhar como cada integrante se comportou no momento chave da narrativa, levando-nos ao confronto final no qual Ordell é surpreendido por Ray (Keaton, em atuação divertida na pele de um personagem que ele repetiria um ano depois em “Irresistível Paixão”, de Steven Soderbergh) no escritório totalmente escuro de Max.

Entrega pra valerTrês perspectivas diferentesOrdell é surpreendido por RayUtilizando o relacionamento afetivo entre Jackie e Max como fio condutor de sua narrativa mais sóbria, “Jackie Brown” é talvez o filme que mais destoa em tom e abordagem na filmografia de Tarantino, o que não significa necessariamente que seja um filme menor. Na verdade, Tarantino tentou criar algo diferente e, ainda que tropece aqui ou ali, conseguiu um excelente resultado.

Jackie Brown foto 2Texto publicado em 30 de Setembro de 2013 por Roberto Siqueira

THE RUNAWAYS – GAROTAS DO ROCK (2010)

(The Runaways)

3 Estrelas 

Filmes em Geral #117

Dirigido por Floria Sigismondi.

Elenco: Kristen Stewart, Dakota Fanning, Michael Shannon, Scout Taylor-Compton, Alia Shawkat, Johnny Lewis, Riley Keough, Tatum O’Neal e Brett Cullen.

Roteiro: Floria Sigismondi, baseado no livro “Neon Angel: The Cherie Currie Story“, de Cherie Currie.

Produção: Art Linson, John Linson e William Pohlad.

The Runaways - Garotas do Rock[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Primeira banda de rock da história a ser formada somente por mulheres, “The Runaways” fez um sucesso surpreendente durante pouco mais de três anos na década de 70, terminando repentinamente graças aos desentendimentos entre as integrantes da banda e o empresário delas. No entanto, sua importância histórica jamais poderá ser apagada, e é justamente isto que o longa dirigido pela diretora estreante Floria Sigismondi tenta reforçar, obtendo sucesso apenas parcialmente.

Escrito pela própria Sigismondi com base no livro da vocalista Cherie Currie intitulado “Neon Angel: The Cherie Currie Story“, “The Runaways – Garotas do Rock” apresenta a trajetória da banda desde a sua formação, quando o empresário Kim Fowley (Michael Shannon) é contatado pela guitarrista Joan Jett (Kristen Stewart) e acaba contratando Cherie Currie (Dakota Fanning) para assumir o vocal da banda. Após os ensaios, o grupo sai em turnê e acaba alcançando um sucesso meteórico, que seria lentamente minado graças aos problemas internos do grupo e do empresário.

Ainda no primeiro ato de “The Runaways”, o professor de violão da jovem Joan diz que “mulheres não tocam guitarras elétricas”, escancarando o preconceito que imperava na época e anunciando o quão difícil era a missão daquelas jovens num mundo tão machista como o do rock. No entanto, a dificuldade representa também uma oportunidade, algo que o empresário Fowley enxerga rapidamente, já que até então inexistiam bandas de rock formadas exclusivamente por mulheres. A sequência que acompanha a formação da banda, aliás, é bem interessante, com Fowley procurando a vocalista numa balada e, posteriormente, ensinando Cherie a cantar da maneira que ele entendia ser a correta para ganhar a atenção do público masculino.

Empregando uma câmera inquieta na maior parte do tempo que busca refletir o estado de espírito das garotas, a diretora consegue imprimir um ritmo ágil à narrativa, graças também ao bom trabalho do montador Richard Chew, que com cortes rápidos consegue conferir dinamismo as apresentações da banda, além de se destacar em sequências que prezam pela economia narrativa, como na assinatura do contrato em que as reportagens que saltam na tela dão a exata noção do sucesso do grupo de maneira rápida e eficiente, ainda que soe clichê. No entanto, o roteiro erra ao focar exclusivamente no desenvolvimento da banda, deixando de lado aspectos pessoais que poderiam dar mais densidade às personagens. Assim, a família de Cherie é a única que conhecemos, o que evidencia a estratégia de forçar nossa empatia com a vocalista (afinal, o livro que inspira o roteiro é dela).

Realçando o lado rebelde de Cherie através do quarto repleto de pôsteres de David Bowie, o design de produção de Eugenio Caballero acerta também ao recriar as vestimentas extravagantes da banda com precisão, como no show no Japão em que a vocalista surge com uma roupa provocante, além é claro das estilosas jaquetas e camisetas de Joan. Além delas, os cabelos coloridos, os rostos pintados, as bebidas, os cigarros e as drogas (que aparecem rapidamente, mas o suficiente para conferir credibilidade ao projeto, já que sabemos que elas existiam em profusão naquele ambiente) evidenciam o tempo todo que aquelas meninas eram realmente selvagens, algo praticamente impensável na época. E finalmente, o apertado trailer em que elas ensaiam surge carregado por tons dourados no teto, simbolizando o futuro glorioso que o grupo tinha pela frente.

Ensinando Cherie a cantarQuarto repleto de pôsteres de David BowieVestimentas extravagantesNo entanto, a fotografia de Benoît Debie explora bastante o lado obscuro dos locais que elas frequentam como bares e night clubs, ilustrando a aura underground da banda. Por outro lado, quando Joan e Cherie se beijam pela primeira vez, a fotografia realça tons avermelhados para simbolizar a natureza “pecaminosa” associada ao ato (ou, simplesmente, a paixão existente entre elas), exatamente como acontece na eletrizante performance no Japão, que também assume a aura pecaminosa normalmente associada ao rock. E já que mencionei o show, a trilha sonora de Lillian Berlin é bastante agitada e coerente com o espírito do longa, sendo composta na maior parte do tempo por músicas de bandas lideradas por mulheres.

E as mulheres são mesmo a força central de “The Runaways”. Enfrentando o público desde quando vence um concurso ao imitar David Bowie, Cherie parece ser a garota ideal para assumir a banda idealizada por Fowley, ainda que fisicamente ela não tenha tanta presença (ela tinha apenas 15 anos, afinal). Inicialmente frágil e pouco expressiva, Dakota Fanning ilustra a transformação de Cherie com precisão, tornando-se a garota explosiva que agita o palco no Japão de maneira gradual e convincente. Quem também convence é Kristen Stewart, que se sai muito bem ao encarnar a durona Joan Jett, chamando a atenção sempre que surge em cena e rivalizando diretamente com Cherie pelo protagonismo da banda com sua voz firme e sua postura corporal agressiva. Além disso, ela e Dakota criam uma boa empatia.

Por sua vez, Michael Shannon se diverte ao compor o excêntrico Kim Fowley de maneira bastante exagerada, o que poderia soar caricato, mas acaba funcionando graças à forma como ele dá vida às ótimas cenas em que treina as garotas para enfrentar o mundo no apertado trailer. Tratando-as com agressividade, ele não consegue notar que Cherie jamais se conecta completamente aquele mundo, dividindo-se entre a vida na estrada e a preocupação com a família. É ele também quem tenta transformá-la numa mega estrela, provocando confrontos frequentes entre a vocalista e a guitarrista Lita, interpretada por Scout Taylor-Compton, que pouco pode fazer com o papel que tem em mãos, surgindo quase sempre agressiva e demonstrando um ciúme doentio de Cherie – na verdade, Lita não cedeu os direitos para adaptar sua história, o que permitiu que Cherie e Joan, desafetas da guitarrista e sempre presentes na produção, criassem uma versão em que ela fosse a grande pivô da separação do grupo.

Joan e Cherie se beijamDurona Joan JettExcêntrico Kim FowleySó que nem mesmo os conflitos internos impedem que elas se empolguem ao chegar ao Japão e ver todas aquelas fãs correndo desesperadamente atrás delas, num raro momento que dá a noção da importância da banda. Mas a previsível discussão por causa das fotos sensuais de Cherie dá início ao conflito que levará ao fim das “Runaways”. Nem mesmo o sol da Califórnia que tanto brilhava durantes os ensaios do grupo surge com tanta força no ato final melancólico, que narra a decadência da banda após o sucesso meteórico. Após o fim das Runaways, Joan escancara que era quem mais se importava com tudo aquilo (“Esta é minha vida”) e, não à toa, se recupera do baque e consegue criar a própria banda, sendo responsável pelo hit eterno “I Love Rock n’ Roll”.

Inspirado na história real do sucesso meteórico da primeira banda completamente feminina da história do rock, “The Runaways” tem o mérito de apresentar o grupo para as novas gerações. Ainda assim, a sensação que temos quase o tempo inteiro é a de que falta alguma coisa. Conhecemos a trajetória da banda, as transições dos ensaios para o sucesso e do sucesso para a decadência estão lá, mas, quando o filme termina, sabemos pouco a respeito de suas integrantes. Tudo bem que o sucesso delas foi meteórico, mas o longa não precisava ser tão meteórico assim.

The Runaways - Garotas do Rock foto 2Texto publicado em 20 de Setembro de 2013 por Roberto Siqueira

NÃO ESTOU LÁ (2007)

(I’m Not There.)

5 Estrelas 

Filmes em Geral #116

Dirigido por Todd Haynes.

Elenco: Christian Bale, Cate Blanchett, Marcus Carl Franklin, Richard Gere, Heath Ledger, Ben Whishaw, Charlotte Gainsbourg, Julianne Moore, Michelle Williams, David Cross, Bruce Greenwood, Kris Kristofferson e Peter Friedman.

Roteiro: Todd Haynes e Oren Moverman.

Produção: John Goldwyn, John Sloss, James D. Stern e Christine Vachon.

Não estou lá[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Poucos artistas na história da música provocam tanto fascínio e devoção como Bob Dylan, excepcional músico e compositor que transitou por diversos gêneros ao longo de sua carreira, deixando um legado composto por inúmeras canções marcantes e inesquecíveis. Em constante transformação não apenas visual, mas também na vida profissional e pessoal, Dylan se configurou quase num mistério, dificultando ao máximo a tarefa de resumi-lo como pessoa ou artista. Coube então ao diretor Todd Haynes a tarefa de conduzir este excelente “Não estou lá”, que traz em sua narrativa complexa a ousada proposta de compor as várias facetas do lendário músico.

Escrito pelo próprio Haynes ao lado de Oren Moverman, “Não estou lá” aborda seis etapas da vida de Bob Dylan, que jamais tem seu nome citado durante a narrativa. Ao invés disso, os roteiristas preferem dar nomes diferentes para o personagem em cada uma destas fases, sendo Woody Guthrie (Marcus Carl Franklin) para a infância, Jack Rollins para a fase folk (Christian Bale), Arthur Rimbaud (Ben Whishaw) para seu lado poético, Jude Quinn (Cate Blanchett) para sua faceta roqueira e polêmica, Robbie Clark (Heath Ledger) para a vida familiar e Billy the Kid (Richard Gere) para sua fase mais reclusa.

Provavelmente, a grande questão que assolou os responsáveis pelo projeto “Não estou lá” era: como transpor para a telona a trajetória de um artista mutante como Bob Dylan? Felizmente, a escolha do diretor e roteirista Todd Haynes não poderia ser mais acertada. Indicando desde o começo que vários atores representarão o personagem, Haynes adota a estratégia ideal para tentar compor o complexo mosaico deste artista multifacetado, que passou de cantor folk “de protesto” a poeta, de roqueiro a cristão e de ícone da contracultura a caubói solitário ao longo de sua grande carreira artística. Adotando uma estrutura narrativa complexa e fragmentada que tende a afastar o espectador comum, o diretor e seu montador Jay Rabinowitz exigem atenção da plateia, ainda que compreender o que se está ocorrendo não demande tanto esforço intelectual, já que as dicas surgem desde a abertura em que vemos os diversos rostos que interpretarão Dylan – e meu instante favorito entre as dicas ocorre quando o velho Billy the Kid olha para o jovem Woody Guthrie e, ao ouvir seu lado poético dizer para “jamais olhar para si mesmo”, ele desvia o olhar.

Empregando elegantes movimentos de câmera, como quando um travelling passeia pelos fãs revoltados de Dylan após uma apresentação com guitarras elétricas na Nova Inglaterra, o diretor cria ainda sequências visualmente inventivas, como quando as imagens transmitem o significado da música “Ballad of a thin man”, num instante em que a montagem de Rabinowitz também chama a atenção, conferindo dinamismo sem jamais soar confusa. No entanto, é mesmo na condução firme de tantas linhas narrativas que o diretor se destaca, permitindo que o espectador se envolva com todas elas sem jamais deixar o ritmo do longa cair.

A fotografia de Edward Lachman também ajuda na orientação do espectador, oscilando entre o preto e branco e o colorido e alterando também o tamanho do grão para criar cenas ora mais limpas ora mais granuladas, conferindo aspectos visuais diferentes para cada estágio da vida do cantor. Assim, se na infância o tom dourado confere um ar nostálgico, as fases de cantor político folk, poeta controverso e artista polêmico surgem em preto e branco, como num registro documental das facetas que ele mais mostrava ao público. Já a vida familiar é fotografa em tons azulados, talvez demonstrando a mágoa que ele sente por ter se distanciado da esposa e das filhas. E finalmente, a fase cristã e a reclusão no campo ganham a mesma fotografia dourada da infância, talvez por remeter aos momentos em que o artista se sente mais confortável (ou seja, distante dos holofotes).

InfânciaPoeta controversoReclusão no campoAjudando a nos ambientar em cada época através da mudança na decoração das casas, dos carros e das próprias vestimentas dos personagens, o design de produção de Judy Becker e os figurinos de John Dunn acertam ainda na recriação de imagens icônica de Dylan ao longo dos anos, com as constantes alterações no corte de cabelo, a barba por fazer, os óculos escuros e o violão pendurado no corpo. Mas ainda que o visual seja importante, é mesmo a espetacular composição do elenco que nos ajuda a compreender as multifaces de Bob Dylan, em atuações não apenas coesas, mas simplesmente sensacionais.

Vivendo a infância do ícone de maneira incrivelmente despojada, Marcus Carl Franklin simboliza a paixão do cantor por Woody Guthrie (não por acaso, o nome do personagem), ícone da música folk que influenciou muito o começo da carreira de Dylan. São dele momentos marcantes de “Não estou lá”, como a conversa com dois senhores num trem e a performance encantadora com o violão na casa de uma família humilde. Único ator a interpretar duas épocas diferentes da vida de Dylan, Christian Bale adota uma postura corporal encurvada na fase folk (quando ele usa o nome Jack Rollins), empregando uma entonação diferente na voz e falas rápidas que tornam suas declarações polêmicas ainda mais impactantes. Já na fase religiosa, quando o cantor deixa o rock para trás para dedicar-se a igreja, sua postura corporal é mais firme e o tom de voz imponente, ainda que alguns velhos trejeitos estejam lá, como a movimentação rápida das mãos e o olhar inquieto.

Em seu penúltimo papel na carreira, Heath Ledger comprova mais uma vez seu grande talento ao viver a difícil faceta familiar do cantor e também sua rápida incursão no cinema, demonstrando o quanto é complicado manter um relacionamento para um astro como Dylan (no caso, Robbie Clark), passando grande parte do tempo ausente e se irritando com o assédio da imprensa ao ponto de estragar um almoço com amigos, ainda que tenha ótimos momentos com sua bela esposa Claire, interpretada com carisma por Charlotte Gainsbourg, atriz que se destaca especialmente na tocante discussão do casal sobre a guarda das filhas que precede a separação legal.

Fase folkFaceta familiarTocante discussãoIrônica, direta e bastante solta no papel, Cate Blanchett demonstra extrema coragem ao aceitar viver um personagem não apenas masculino, mas também muito conhecido do grande público, obtendo sucesso em sua composição através da fala rápida e da repetição precisa de muitos trejeitos e maneirismos do cantor, como as mãos inquietas e a velocidade em que fuma seus muitos cigarros. Assumindo a identidade de Jude Quinn, ela protagoniza momentos marcantes do polêmico artista como a discussão com Keenan Jones, o acidente de moto, a divertida cena envolvendo os Beatles e o conturbado relacionamento com Coco Rivington, a namorada sensual interpretada com graça por Michelle Williams. Mas, se suas respostas desconcertam a imprensa, seu comportamento consegue irritar alguns fãs (“Judas”, grita um após ser provocado por ele) e até mesmo pessoas mais próximas, como quando se embebeda numa festa e desmaia. É de Quinn também a divertida frase “este é Brian Jones, daquela banda de covers”, referindo-se ao lendário guitarrista dos Rolling Stones.

Ben Whishaw se encarrega das controversas entrevistas do poeta e cantor, surgindo repleto de maneirismos, falando rapidamente e tremendo, além é claro de manter o olhar sempre inquieto e de fumar inúmeros cigarros, numa composição igualmente competente já sob o sugestivo nome de Arthur Rimbaud. E finalmente, Richard Gere expressa o peso da vida conturbada do protagonista em seu olhar carregado e na expressão corporal cansada, ainda que a velha chama revolucionária esteja lá, pronta para surgir quando necessário, como de fato acontece numa manifestação popular. Entre aqueles que não interpretam Dylan, o destaque fica para Julianne Moore, que, com uma postura séria, compõe Alice Fabian (uma versão de Joan Baez) como uma especialista na fase folk do cantor, explicando com clareza as razões de seu sucesso e da revolta dos fãs com sua mudança ao longo dos anos.

Obviamente, as músicas não poderiam faltar num filme sobre Bob Dylan. Repleta de canções deliciosas, a trilha representa um prazer à parte para os fãs do cantor, nos brindando com cenas lindíssimas que casam perfeitamente a imagem e o som, como quando acompanhamos Claire brincando com as crianças no parque enquanto Robbie Clark volta para casa de avião. A trilha tem ainda funções narrativas. Observe, por exemplo, como ela emula um batimento cardíaco momentos antes de Blanchett surgir pela primeira vez em cena, já que ela assumirá a fase mais roqueira e polêmica do cantor, destilando veneno em embates dinâmicos e ferozes com a imprensa, simbolizada especialmente na pele de Bruce Greenwood, que vive o jornalista Keenan Jones e, posteriormente, o pistoleiro Pat Garrett – é ele, aliás, quem desmascara o passado misterioso do protagonista em seu programa de TV (numa ótima cena), desafiando-o também em local público já como Garrett. E o mais interessante é que em todas as fases, independente do estilo musical adotado, Dylan nos presenteia com excelentes canções, enquanto Haynes jamais tenta chegar a uma conclusão sobre quem foi este genial artista, criando um painel complexo que só fomenta as discussões sobre sua personalidade.

Dono de uma mente perturbada, mas igualmente criativa, Bob Dylan é certamente um dos maiores nomes da história da música e da arte, inspirando grupos que se dedicam exclusivamente a estudar os significados de suas ótimas canções. Conseguindo sucesso na exposição das várias faces deste gênio da música, “Não estou lá” representa não apenas um ousado projeto cinematográfico, mas também uma deliciosa viagem pela vida de um artista realmente fascinante. “Eu posso ser um ao amanhecer e outro completamente diferente no fim do dia”, diz Bob Dylan. O filme que ele inspirou também pode.

Não estou lá foto 2Texto publicado em 19 de Setembro de 2013 por Roberto Siqueira

ACROSS THE UNIVERSE (2007)

(Across the Universe)

4 Estrelas 

Filmes em Geral #115

Dirigido por Julie Taymor.

Elenco: Evan Rachel Wood, Jim Sturgess, Joe Anderson, Dana Fuchs, Martin Luther, T.V. Carpio, Spencer Liff, Lisa Hogg, Bono, Eddie Izzard, Salma Hayek, Dylan Baker e Logan Marshall-Green.

Roteiro: Dick Clement e Ian La Frenais.

Produção: Matthew Gross, Jennifer Todd e Suzanne Todd.

Across the Universe[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O principal argumento dos detratores dos musicais é afirmar que jamais alguém começaria a cantar no meio da rua de uma hora para outra, como se isto fosse mais irreal do que Gandalf lutar contra o Balrog ou Ethan Hunt descer correndo pela lateral do prédio mais alto do mundo – e se uso dois exemplos de filmes que adoro, é porque entendo que o realismo não pode ser “o critério” para determinar se um filme é bom ou não e que cada obra deve ser fiel ao seu próprio universo. Assim, se num musical convencional já é difícil inserir canções que deem andamento à narrativa de maneira orgânica, pior ainda é criar uma história a partir de músicas já existentes, já que neste caso não são as canções que devem se adaptar à narrativa, e sim o contrário. Por isso, é surpreendentemente agradável como “Across the Universe” consegue nos envolver praticamente o tempo inteiro.

Escrito por Dick Clement e Ian La Frenais, “Across the Universe” utiliza a Guerra do Vietnã (a grande ferida norte-americana) como pano de fundo de sua história de amor convencional, é verdade, mas que nem por isso deixa de ser envolvente. Ainda que exista um pequeno espaço para reflexões sobre a dor causada pela guerra e criticas aos ativistas cada vez mais radicais, o foco da narrativa está mesmo no relacionamento entre o inglês Jude (Jim Sturgess) e a norte-americana Lucy (Evan Rachel Wood), passando também pelo drama do irmão dela Max (Joe Anderson) e o convívio deles com os amigos Prudence (T.V. Carpio), Sadie (Dana Fuchs) e Jo-Jo (Martin Luther).

Conseguindo criar uma história interessante a partir de dezenas de músicas dos Beatles (o que, mesmo considerando o vasto material do lendário grupo britânico, não é algo simples), o roteiro tem ainda o mérito de desenvolver consideravelmente bem seus personagens, criando arcos dramáticos que, mesmo repletos de clichês, conseguem prender a atenção da plateia. Assim, sabemos que Jude viaja para a América em busca do pai e que sua ausência acaba deixando o garoto sem referencia (“Eu não tenho um ideal”, diz), enquanto o trauma provocado pela morte do primeiro namorado e a chamada inesperada do irmão para lutar no Vietnã acabam acendendo a chama ativista dentro de Lucy.

Demonstrando sensibilidade em cenas como aquela em que Lucy se apaixona por Jude, Julie Taymor conduz a narrativa com segurança, pecando ocasionalmente por, ao lado de sua montadora Françoise Bonnot, estender demais algumas sequências, como na participação de Bono Vox como Dr. Robert e na aparição de Mr. Kite (Eddie Izzard), repletas de efeitos visuais competentes, mas que servem pouco à narrativa – o que não ocorre, por exemplo, na visualmente inventiva cena em que o exército convoca os soldados, embalada por “I want you (She’s so heavy)”. Por outro lado, a montadora tem seus méritos por manter as diferentes linhas narrativas sempre interessantes, priorizando o romance entre Jude e Lucy sem deixar cair o nosso interesse pelo caso entre Sadie e Jo-Jo, por exemplo. Além disso, seu trabalho é essencial para que as sequências musicais funcionem, acertando ainda ao criar interessantes transições, como quando o som do helicóptero anuncia que Max chegou ao Vietnã (um bom exemplo de raccord sonoro, aliás).

Inserindo pequenos alívios cômicos que não empolgam, como quando os amigos de Jude e Max se divertem e dormem bêbados no sofá, a diretora também cria soluções visuais interessantes, como quando o jornal com a notícia da explosão de uma bomba ganha vida e se espalha em centenas de pedaços pela nublada praia britânica. A estratégia da fotografia de Bruno Delbonnel, aliás, é justamente criar uma Inglaterra ainda mais cinza, ilustrando visualmente a melancolia do personagem e contrastando diretamente com a iluminada terra do tio Sam, captada com cores mais vibrantes que realçam os dias ensolarados que ele vive por lá, reforçadas também pelos cenários extravagantes concebidos pelo design de produção de Mark Friedberg e pelos figurinos coloridos típicos dos anos 60 de Albert Wolsky.

I want you (She's so heavy)Inglaterra ainda mais cinzaIluminada terra do tio SamSomos apresentados aos personagens centrais através da mesma canção que, executada simultaneamente em dois países diferentes, já estabelece algumas diferenças básicas de comportamento entre eles que serão os pilares do conflito no futuro. Assim, enquanto Lucy dança empolgada uma versão mais lenta de “Hold me tight”, Jude apenas balança o corpo numa versão mais agitada, evidenciando sua apatia que tanto irritaria a futura namorada e, ao mesmo tempo, estabelecendo a clara diferença social entre eles através dos ambientes em que estão inseridos. Da mesma forma, a ótima “Come Together” sublinha o momento em que todas as linhas narrativas se cruzam e reúnem os principais personagens pela primeira vez, numa escolha inteligente que infelizmente se transforma num videoclipe pela maneira como é conduzida pela diretora.

Compondo Lucy de maneira encantadora, Evan Rachel Wood se destaca mais quando não está cantando, ainda que tenha um bom desempenho em algumas canções, assim como Jim Sturgess, que vive Jude com intensidade e carisma na maior parte do tempo – e a empatia entre eles é essencial para o sucesso do romance. Por sua vez, T.V. Carpio pouco aparece como Prudence, a moça que não consegue externar sua atração por garotas, ao passo em que Joe Anderson tem uma atuação apenas regular como Max. Finalmente, Martin Luther confere humanidade ao guitarrista Jo-Jo, enquanto Dana Fuchs chega a soar antipática como a egocêntrica Sadie, mas ainda assim eles conseguem criar empatia na pele do casal que claramente homenageia Jimi Hendrix e Janis Joplin.

Ainda que algumas delas soem deslocadas e desnecessárias, a maioria das músicas da trilha sonora de Elliot Goldenthal é inserida de maneira criativa na narrativa, surgindo orgânicas em alguns poucos casos como quando Jude canta no alto de um prédio ou durante os shows da banda de Sadie e Jo-Jo. E mesmo em sequências artificiais algumas canções funcionam bem, como quando Jude canta “All my Loving” para a namorada inglesa (Lisa Hogg) ou na tocante sequência dos funerais acompanhados pela linda “Let it be”. Em outros casos, o arranjo no ritmo da canção não é tão bem sucedido musicalmente, como acontece durante a apresentação de Prudence com “I want to hold your hand”, numa sequência em câmera lenta que também lembra um videoclipe – e que, curiosamente, confere um peso dramático interessante à canção ao abordá-la de maneira tão triste.

Mas se por um lado as canções agradam aos nossos ouvidos, por outro fica claro que os atores dublam as próprias vozes em muitas delas, o que é estranho e artificial. Nem por isso, o design de som deixa de ser competente, nos permitindo ouvir as músicas, os diálogos e os sons diegéticos com clareza (como nos tiros e helicópteros que acompanham “Strawberry fields forever”), jamais permitindo que o som das canções se sobreponha aos demais.

Com personagens chamados Lucy, Jude e Prudence, era de se esperar que as músicas contendo seus respectivos nomes fizessem parte da narrativa. E ainda que a sequência de Prudence seja bastante irregular e a esperada “Lucy in the Sky with Diamonds” surja apenas nos créditos finais, a imortal “Hey Jude” é conduzida com tanta sensibilidade por Taymor que, mesmo não sendo orgânica (um personagem começa a cantar nos EUA e os outros continuam na Inglaterra), funciona maravilhosamente bem, graças ao tom melancólico dos momentos que precedem a música que praticamente nos faz implorar por ela e à criatividade apresentada durante sua execução (as crianças cantando “nananana” emocionam).

Casal que homenageia Jimi Hendrix e Janis JoplinImortal Hey JudeDiscussões entre o casalSeguindo uma estrutura narrativa padrão nos romances, “Across the Universe” utiliza o ativismo de Lucy para inserir o conflito que nos levará ao clímax, provocando discussões entre o casal (numa delas, Lucy surge no alto de uma escada e Jude embaixo dela, demonstrando visualmente quem domina psicologicamente aquela relação) e criando uma escala trágica de ações dramáticas que levará Jude a ser deportado e ficar distante da amada, ao mesmo tempo em que Sadie se irrita com Jo-Jo durante um show e logo após Lucy ser presa durante uma manifestação – numa cena, aliás, excessivamente melodramática, conduzida em câmera lenta pela diretora. No entanto, quando o clímax finalmente chega, nem mesmo a previsível reconciliação coletiva e situações batidas como o desencontro do casal conseguem estragar a sequência, que encerra o longa de maneira agradável e com ótimas canções.

Criativo e belo, “Across the Universe” funciona como uma maravilhosa homenagem a uma das maiores bandas da história da música. Mesmo escorregando aqui e ali, sua narrativa simples ganha ares épicos ao conseguir encaixar com precisão muitas das icônicas canções imortalizadas pelos Fab4, emocionando a plateia (e os fãs) de maneira inventiva, inspirada e (acredite!) bem real.

Across the Universe foto 2Texto publicado em 18 de Setembro de 2013 por Roberto Siqueira

ÚLTIMOS DIAS (2005)

(Last Days)

3 Estrelas 

Filmes em Geral #114

Dirigido por Gus Van Sant.

Elenco: Michael Pitt, Lukas Haas, Asia Argento, Scott Green, Nicole Vicius, Ricky Jay, Harmony Korine, Kim Gordon, Ryan Orion e Thadeus A. Thomas.

Roteiro: Gus Van Sant.

Produção: Dany Wolf.

Últimos Dias[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Nomeado pela mídia como a voz de toda uma geração (talvez a última verdadeira revolução que o rock foi capaz de realizar), Kurt Cobain entrou para a história como outro dos grandes nomes da história da música a morrer aos 27 anos de idade e, o que foi ainda mais chocante, através de um suicídio até hoje repleto de mistérios. Assim, não surpreende que sua história tenha inspirado algumas obras deste então, tamanho o apelo popular que o líder do Nirvana alcançou ao longo dos anos. No entanto, ao tentar imaginar como teriam sido os “Últimos Dias” da vida do cantor, Gus Van Sant optou por uma abordagem difícil, extremamente intimista e que, paradoxalmente, está longe de explorar o potencial popular de seu personagem. Apesar da corajosa escolha, no entanto, o diretor parece ter exagerado no tom respeitoso que adota, criando um filme pesado, é verdade, mas excessivamente frio.

Livremente inspirado em Kurt Cobain, “Últimos Dias” narra os momentos finais de Blake (Michael Pitt), o vocalista de uma banda de sucesso que se isola em sua mansão para tentar fugir das pressões exercidas pela indústria da música, pela imprensa e pelos fãs. Ao lado dos amigos Asia (Asia Argento) e Scott (Scott Green), ele definha lentamente enquanto busca escrever sua última canção.

Responsável pela direção e pelo roteiro, Gus Van Sant estabelece desde cedo à atmosfera melancólica que predomina a narrativa através do visual opaco e da ausência da trilha sonora, nos permitindo acompanhar longas sequências silenciosas e angustiantes que refletem o estado de espírito de Blake, como quando ele assiste televisão caído no chão ou quando mergulha num lago solitário, acompanhado apenas pelo som diegético da cachoeira e, posteriormente, pelo barulho das chamas que ardem na fogueira que o aquece. Quando a trilha sonora de Rodrigo Lopresti finalmente surge, ela emula o som das badaladas do relógio da igreja que ouvíamos em cenas anteriores, anunciando o fim trágico que a narrativa alcançará (e que grande parte do público certamente já sabe antes mesmo do filme começar).

Responsável também pela montagem, Van Sant conduz a narrativa num ritmo propositalmente lento, refletindo a forte depressão que assola o protagonista. Esta sensação incômoda é reforçada também pelas paredes descascadas da casa, pelos objetos velhos e enferrujados como a geladeira (design de produção de Tim Grimes) e até mesmo pelas roupas sujas e sem vida que Blake usa. Os figurinos de Michelle Matland, aliás, são responsáveis por recriar a icônica imagem de Cobain através do visual que marcou o grunge, como a camisa listrada em vermelho e cinza, a calça jeans e os óculos amarelos que o protagonista usa em determinado instante.

Atmosfera melancólicaNo lago solitárioParedes descascadasA fotografia cinza de Harris Savides também contribui ao explorar os dias nublados e as noites escuras e mal iluminadas com competência, criando este visual melancólico que permanece até mesmo nas cenas em meio à natureza, através dos filtros que tiram parte do brilho de locais como o pântano e o lago em que Blake procura se refugiar quando recebe as visitas de Donovan (Ryan Orion). Além disso, nos instantes que precedem o suicídio a fotografia se torna ainda mais sombria, praticamente não permitindo que o espectador veja o caminho que Blake segue até sua casa.

Ocultar, aliás, também é uma estratégia visual do diretor. Evitando mostrar o rosto de Blake na maior parte do tempo e adotando planos distantes que quase sempre mostram as costas do personagem, Van Sant nos distancia daquele homem amargurado, como se não quisesse nos envolver ou criar empatia entre o protagonista e a plateia – algo que fica evidente no longo zoom out que nos afasta da casa enquanto Blake toca uma música. A estratégia é reforçada também pela composição de Michael Pitt, que murmura palavras incompreensíveis na maior parte do tempo devido à sua inflexão na voz, baseando sua atuação na expressão corporal, já que são raros os momentos em que podemos ver suas expressões faciais. Depressivo e constantemente apático, Blake mal sabe o que diz quando recebe a visita de um vendedor das páginas amarelas (Thadeus A. Thomas), falando coisas completamente sem sentido que evidenciam seu estado deplorável, comprovado na bizarra sequência em que ele veste uma roupa feminina e ouve músicas românticas encostado numa porta. É a decadência e o vazio dominando um astro recluso do rock após anos de sucesso, fama e muito dinheiro.

Mas mesmo lesado, balbuciando palavras e mal conseguindo se comunicar, Blake demonstra seu grande talento musical com o violão nas mãos e, ainda que seja difícil compreender o que ele canta, nós podemos sentir a emoção que flui daquela canção. É o talento sobrepondo pela última vez a doença que destruiu aquele homem. Por não ter acesso aos direitos autorais, jamais ouvimos qualquer canção do Nirvana em “Últimos Dais”, mas esta bela “Last Days” cantada por Blake num quarto escuro faz clara alusão ao estilo marcante de Kobain de cantar. Além disso, Van Sant inclui óbvias referências à Courtney Love ao mencionar a mulher distante da qual Blake sente falta e que ainda exerce forte influencia sobre ele. E os próprios créditos fazem questão de ressaltar a fonte de inspiração da narrativa.

Icônica imagem de CobainInstantes que precedem o suicídioGrande talento musicalCompondo outro plano distante que nos permite ver o jardineiro iniciando seu trabalho à direita e o corpo de Blake caído dentro da casa à esquerda, Van Sant anuncia de maneira respeitosa que seu protagonista está morto. Sem jamais julgar o personagem ou justificar seus atos, ele nos permite sentir o peso da depressão que o devasta, mas, por outro lado, nos distancia tanto do protagonista que nós praticamente não sentimos sua perda. Nós realmente nos importamos com sua morte (estou me referindo ao personagem e não ao ícone Kobain)? A resposta pode variar, e como atestado de qualidade narrativa isto não é um bom sinal.

Assim, “Últimos Dias” cumpre sua proposta e nos permite acompanhar os momentos finais de um ícone do rock, mas jamais permite um envolvimento maior do que este de espectador, nos afastando um pouco mais da narrativa do que eu pelo menos gostaria. Respeitar o ícone é bom, mas talvez Van Sant tenha exagerado. E olha que eu sou um grande fã do Nirvana.

Últimos Dias foto 2Texto publicado em 17 de Setembro de 2013 por Roberto Siqueira

METALLICA: SOME KIND OF MONSTER (2004)

(Metallica: Some Kind of Monster)

5 Estrelas 

Filmes em Geral #113

Dirigido por Joe Berlinger e Bruce Sinofsky.

Elenco: James Hetfield, Lars Ulrich, Kirk Hammett, Bob Rock, Robert Trujillo, Jason Newsted, Dave Mustaine, Phil Towle, Eric Avery e Cliff Burnstein.

Produção: Joe Berlinger e Bruce Sinofsky.

Metallica Some kind of Monster[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Ao decidirem gravar o processo de criação de um álbum, os integrantes da lendária banda de heavy-metal Metallica mal sabiam que, na verdade, estariam registrando uma dolorosa fase de reconstrução. Esqueça tudo que você normalmente associa a documentários sobre músicos. Aqui não existe a trajetória para o sucesso, ao menos não da maneira tradicional. A própria música não está tão presente assim. Na realidade, o que temos em “Metallica: Some kind of Monster” é um registro corajoso e intenso do cotidiano repleto de conflitos da mítica banda, capaz de expor de maneira tão crua e intimista cada integrante que, em certos momentos, chegamos a nos questionar como eles permitiram que o projeto seguisse até o fim.

Dirigido por Joe Berlinger e Bruce Sinofsky, que surgem em cena justamente no momento em que o vocalista James Hetfield questiona se ainda era viável seguir com as filmagens e escancara que o corajoso documentário também correu o risco de não existir, “Metallica: Some kind of Monster” tem inicio ainda em 2001, quando após a saída do baixista Jason Newsted, os integrantes remanescentes da banda começam a trabalhar no novo álbum que viria a se chamar St. Anger.

Agradando aos fãs com diversas imagens de arquivo de grandes shows do passado, os diretores Berlinger e Sinofsky trabalham na desconstrução dos músicos com destreza, num processo lento e complicado que leva a humanização de cada um deles ao mesmo tempo em que reforça o enorme talento que transformou o Metallica numa banda mítica. Contando com o visual seco, por vezes obscuro e pouco colorido da fotografia de Robert Richman, eles reforçam o aspecto documental do longa, amenizando sua atmosfera pesada periodicamente através da inserção de músicas – e, obviamente, a trilha sonora não poderia deixar de ser pesada e ótima, brindando o espectador (especialmente os fãs da banda) com alguns clássicos enquanto acompanhamos o surgimento das canções que fariam parte do novo álbum.

Crucial também é o trabalho dos montadores Doug Abel, M. Watanabe Milmore e David Zieff, que ficaram com a árdua tarefa de compilar o vasto material após anos de gravações sem permitir que o resultado final soasse confuso ou desinteressante – talvez a relação do baterista Lars Ulrich com seus quadros não fosse necessária, mas é um pecado menor. Assim, se sentimos o peso da narrativa em diversos momentos, isto não ocorre por uma eventual falta de ritmo dela e sim devido a enorme carga psicológica dos debates envolvendo aquele grupo de pessoas – e o fato de sabermos que aquilo é real e não parte de uma ficção torna tudo ainda mais interessante. Empregando uma narrativa não cronológica, Berlinger e Sinofsky praticamente jogam o espectador dentro daquele ambiente, nos aproximando da banda enquanto esta é submetida a uma curiosa sessão de terapia em conjunto.

Donos de personalidades fortíssimas, Lars e James monopolizam as discussões do grupo, travando embates recheados com tanta sinceridade que chegam a incomodar as pessoas ao redor. Durante boa parte da narrativa, nós praticamente podemos sentir a pressão de criar algo novo e com qualidade. Desde a primeira discussão em que James sai e bate à porta, o espectador já sente o clima pesado e a quase palpável tensão existente entre eles. Desta forma, os momentos mais suaves e otimistas como as reflexões de James sobre a vida sem drogas são raros, pois na maior parte do tempo o que temos são discussões ácidas entre os dois, como quando eles debatem sobre quem tem mais controle sobre a situação após James ser orientado pelo médico a trabalhar somente até às 16 horas – ele havia se internado numa clínica para tratar do alcoolismo. James, aliás, é claramente o mais instável emocionalmente entre eles, demonstrando dificuldade para superar o trauma provocado pela perda dos pais e a origem da raiva que, segundo ele próprio, foi canalizada em sua música.

Grandes shows do passadoVisual seco, por vezes obscuroLars e James monopolizam as discussõesA família também tem peso na formação da personalidade do outro grande líder da banda. Ainda que não deixe de demonstrar a afinidade existente entre eles, a relação direta e verdadeira de Lars com o pai diz muito sobre o seu comportamento. Tão egocêntrico quanto o vocalista, Lars Ulrich parece lutar constantemente contra seus sentimentos como forma de buscar manter o equilíbrio do conjunto, o que não o impede de expor seu ressentimento diante da falta de demonstração de afeto de James. Em certo momento, ele chega a analisar o vocalista psicologicamente, cogitando até mesmo a saída de Hetfield e o fim da banda – e o espectador realmente sente que o Metallica esteve mesmo perto do fim, já que até mesmo o produtor Bob Rock compartilha os questionamentos de Lars sobre o futuro da banda após o primeiro show da nova banda de Jason Newsted.

Ainda que não tenha o destaque de Lars e James, o guitarrista Kirk Hammett também tem o seu espaço na narrativa, surgindo como o integrante tranquilo que evita o conflito em diversos instantes, mas que por outro lado às vezes demonstra imaturidade ao tentar fugir dos problemas de maneira infantil. Além dele, o produtor Bob Rock confirma sua importância para a banda ao opinar quase sempre de maneira centrada sobre o que está acontecendo, assim como o psicanalista Phil Towle tem papel fundamental ao extrair sentimentos puros e verdadeiros de diversas formas e fazer com que eles superem problemas até então arraigados após anos de excessos regados a álcool, drogas e milhões de dólares na conta. Por outro lado, enquanto a forte participação de Newsted escancara a guerra de egos que domina a banda, o “quase” tocante desabafo de Dave Mustaine consegue a proeza de fazer até mesmo fãs fervorosos do Metallica se colocarem no lugar dele, evidenciando a mágoa que nem mesmo o sucesso do Megadeth conseguiu apagar. E finalmente, a aparição das esposas e dos filhos colabora no processo de humanização da banda.

Com tantas discussões, existem momentos em que fica evidente o quanto eles se sentem exaustos, às vezes devastados mesmo. Cientes disto, os diretores abusam de closes e planos fechados, criando uma sensação claustrofóbica que, além de destacar as expressões e os sentimentos de cada integrante, realçam também o incômodo da banda diante daquela situação. Como se buscasse exorcizar todos os demônios interiores, o documentário corajosamente aborda os temas mais espinhosos da carreira do Metallica, começando pela trágica morte de Cliff Burton, passando pela guerra contra a Napster e chegando à escolha do novo baixista Robert Trujillo, que acaba sendo um processo mais fácil do que pensávamos até então.

Guitarrista Kirk HammettProdutor Bob RockCloses e planos fechadosQuando Lars pergunta se não pode acelerar até os shows, fica claro que estar no palco é mesmo a parte do trabalho que eles mais gostam, por mais desgastante que a estrada possa ser. Assim, após acompanharmos o maçante processo de criação do álbum e as inúmeras discussões entre eles, nos sentimos aliviados quando ouvimos o som do público ansioso esperando pela apresentação ao vivo do Metallica; e a energia que emana do palco e da plateia quando os primeiros acordes entram em cena parece nos dizer que tudo aquilo valeu a pena.

É um alívio, portanto, que mesmo com egos tão inflados, James, Lars e Kirk tenham permitido que o público tivesse acesso a um material tão intimista, num processo de crescimento emocional que poderia até prejudicar a imagem deles diante de alguns fãs. O resultado é um documentário muito interessante, que nos permite acompanhar por mais de duas horas a faceta humana de cada integrante do Metallica durante o desgastante processo de criação de uma das maiores bandas da história não apenas do rock, mas da música de maneira geral.

Metallica Some kind of Monster foto 2Texto publicado em 16 de Setembro de 2013 por Roberto Siqueira