CONAN – O BÁRBARO (1982)

(Conan the Barbarian)

3 Estrelas 

Videoteca do Beto #158

Dirigido por John Milius.

Elenco: Arnold Schwarzenegger, James Earl Jones, Max von Sydow, Gerry Lopez, Sandahl Bergman, Mako, Ben Davidson, Cassandra Gava, Valérie Quennessen e William Smith.

Roteiro: John Milius e Oliver Stone, baseado em história de Robert E. Howard.

Produção: Raffaella De Laurentiis e Buzz Feitshans.

Conan - O Bárbaro[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Inspirado no bem sucedido personagem criado por Robert E. Howard em 1932 (que se tornaria um herói dos quadrinhos da Marvel nos anos 70), “Conan – O Bárbaro” ficou conhecido por revelar ao mundo um dos grandes astros do cinema de ação daquela década: Arnold Schwarzenegger. Apostando na violência gráfica e na natureza mística de sua história, o longa dirigido por John Milius alcançou grande sucesso, passando a fazer parte da memória afetiva de muitos jovens daquela geração. Entretanto, o tempo foi cruel com o filme que, revisto hoje, parece bastante datado, ainda que consiga sobreviver como uma aventura minimamente interessante.

Adaptado pelo próprio Milius ao lado de Oliver Stone, o roteiro baseado na história de Howard nos apresenta Conan (Arnold Schwarzenegger) ainda jovem, quando este acompanha sua aldeia ser atacada por um terrível feiticeiro chamado Thulsa Doom (James Earl Jones) que, impiedoso, assassina os pais do garoto na frente dele. Preso e forçado ao trabalho escravo, Conan acaba desenvolvendo sua força física e, após conquistar a liberdade, parte em busca de vingança, cruzando pelo caminho com os ladrões Subotai (Gerry Lopez) e Valeria (Sandahl Bergman). Juntos, eles terão ainda que resgatar a filha do Rei Osric (o sempre ótimo Max von Sydow), que, atraída pela filosofia de Doom, acabou juntando-se aos seguidores dele.

Através de uma estranha narração que só faz sentido na metade do filme quando o feiticeiro interpretado por Mako entra em cena, somos apresentados ao violento passado do protagonista ainda nos minutos iniciais de “Conan – O Bárbaro”, evidenciando desde então que seu desejo de vingança será o fio condutor da narrativa. Em seguida, um belo plano geral nos leva ao local onde Conan passará a infância fazendo trabalhos forçados e, durante este trabalho, uma elipse interessante avança muitos anos na narrativa e nos traz Conan já adulto e na pele de Schwarzenegger. Enquanto acompanhamos sua consolidação como guerreiro através de sangrentas lutas numa arena, presenciamos também a formação de sua personalidade bruta e selvagem, tão essencial para o sucesso do personagem.

Trabalhos forçadosElipse interessanteConan já adultoEstreando como protagonista no cinema num papel talhado para ele, Schwarzenegger fala muito pouco e aposta na força física para ter sucesso – algo que o diretor explora muito bem em diversos planos que realçam a forma física do ator. Aliás, é impressionante como o corpo humano é explorado e valorizado em “Conan – O Bárbaro”, com planos que buscam realçar a força dos homens e a sensualidade das mulheres, que, aliás, surgem em profusão durante uma narrativa que poderia facilmente pender para uma abordagem machista devido ao seu universo calcado na força, numa transposição fiel ao estilo violento e lascivo dos quadrinhos.

Forma física do atorCorpo humano é exploradoSensualidade das mulheresVoltando ao protagonista, Conan é a antítese do herói convencional. Mulherengo, briguento e beberrão, o personagem poderia facilmente se afastar do espectador, mas sua introdução trágica e o inegável carisma do ator colaboram para aproximá-lo da plateia. Movido pelo desejo de vingança, Conan sequer consegue manter-se junto à única pessoa que demonstra afeto por ele, deixando Valeria para trás na primeira oportunidade que aparece. Valeria que é interpretada por uma Sandahl Bergman que, mesmo sem possuir grande talento, tem a melhor atuação de “Conan”, conferindo alguma profundidade a sua personagem. Já o unidimensional Thulsa Doom mais parece uma caricatura, mas garante bons momentos graças à imponência de James Earl Jones. Surgindo com uma peruca ridícula que deve envergonhá-lo até hoje, Jones aposta em seu olhar penetrante para criar um vilão com forte presença, que carrega ainda um simbolismo mais do que apropriado ao utilizar serpentes em seu templo do pecado.

Mulherengo, briguento e beberrãoValeriaVilão com forte presençaRealçando esta aura demoníaca através dos tons em vermelho na chegada dos heróis ao impressionante interior do templo de Thulsa Doom (design de produção de Ron Cobb), a fotografia de Duke Callaghan não tem uma identidade, criando um visual que oscila bastante durante a narrativa, passando pelo branco da neve no início, os tons áridos do segundo ato e pelo visual multicolorido do confronto dentro do templo. Aliás, os confrontos também surgem confusos graças a constante troca de planos de Milius e seu montador C. Timothy O’Meara, que ainda pecam ao criar uma batalha pouco vibrante quando Thulsa Doom parte para resgatar a princesa interpretada por Valérie Quennessen, já próximo ao ato final. E nem mesmo a trilha sonora quase incessante de Basil Poledouris serve para conferir mais dinamismo às batalhas, ainda que emule o som de uma marcha na primeira delas. No fim das contas, se a trilha sonora não tem grande destaque, também não compromete.

Interior do templo de Thulsa DoomBranco da neveVisual multicoloridoAo menos, Milius acertadamente abusa da violência gráfica para conferir maior realismo a narrativa, o que é bem coerente com aquele universo povoado por personagens selvagens. Neste sentido, “Conan – O Bárbaro” obtém sucesso, ainda que seu visual tenha sido sabotado ao longo dos anos e hoje soe extremamente datado (de tão vermelho, o sangue mais parece suco). Não são poucos os momentos em que Milius faz questão de mostrar os resultados violentos das ações dos personagens, começando pelo ataque aos pais de Conan, passando por suas lutas na arena e terminando nos confrontos com os seguidores de Thulsa Doom dentro do templo e ao ar livre, além é claro da sumária execução do vilão (com direito a cabeça rolando escadaria abaixo de uma maneira que nem mesmo Mel Gibson botaria defeito).

Ataque aos pais de ConanConfrontos com os seguidores de Thulsa DoomSumária execuçãoPor vezes bem humorado, “Conan – O Bárbaro” traz ainda diversos personagens estranhos, como a feiticeira (Cassandra Gava) que vive uma noite de sexo com o protagonista numa cabana e desaparece em seguida, que serve também para inserir pela primeira vez os elementos místicos tão presentes na narrativa. Só que tanto este momento como a cena em que espíritos surgem para levar Conan e provocam a ira de Valeria servem para atestar o quanto os efeitos visuais hoje soam ultrapassados, evidenciando os problemas orçamentários da produção. Da mesma forma, ainda que as roupas feitas de restos de animais sejam coerentes com a natureza selvagem dos personagens (figurinos de John Bloomfield), elas também não envelheceram bem. E é justamente este aspecto que enfraquece um pouco um longa que depende do impacto visual. Repare, por exemplo, como a serpente gigante soa artificial com seus movimentos falsos ou como a maquiagem também não convence quando Conan é preso numa árvore e é ferido por pássaros. Ao menos, estes deslizes conferem uma saudosista aura trash ao filme.

FeiticeiraEspíritos surgem para levar ConanRoupas feitas de restos de animaisAinda assim, o diretor consegue criar bons momentos, como a tensa sequência do roubo do olho da serpente ou a triste morte de Valeria, que culmina no belo plano do altar com o corpo dela em chamas. E finalmente, Milius aposta na câmera lenta e na força das imagens para transmitir emoção no simbólico final, criando planos interessantes como àquele que mostra as pessoas jogando as tochas na água e abandonando a seita de Thulsa Doom.

Roubo do olho da serpenteAltar com o corpo dela em chamasTochas na águaApostando na bem sucedida mistura de violência, misticismo e humor negro, “Conan – O Bárbaro” funciona como uma aventura calcada no desejo de vingança de seu protagonista, dando vida a um cruel universo fantástico de maneira leve e divertida, ainda que visualmente o resultado tenha sido muito comprometido com o passar do tempo. Entretanto, se o aspecto visual hoje deixa a desejar, sua narrativa continua envolvente. E isto, evolução tecnológica alguma poderá mudar.

Conan - O Bárbaro foto 2Texto publicado em 07 de Fevereiro de 2013 por Roberto Siqueira

ROMEU E JULIETA (1968)

(Romeo and Juliet)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #157

Dirigido por Franco Zeffirelli.

Elenco: Leonard Whiting, Olivia Hussey, John McEnery, Milo O’Shea, Pat Heywood, Robert Stephens, Michael York, Bruce Robinson e Laurence Olivier (narrador).

Roteiro: Franco Zeffirelli, Masolino D’Amico e Franco Brusati, baseado em peça de William Shakespeare.

Produção: John Brabourne e Anthony Havelock-Allan.

Romeu e Julieta[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A filmografia do diretor italiano Franco Zeffirelli está longe de ser uma das minhas favoritas. Não que eu não goste de melodramas, mas é a maneira desesperadamente forçada de tentar me levar às lágrimas que não me agrada na maioria de seus trabalhos. Por isso, filmes que funcionam muito bem para muitas pessoas como “O Campeão” e “Amor sem Fim” não conseguem me emocionar na mesma intensidade. Entretanto, isto não ocorre nesta versão de “Romeu e Julieta”, adaptada com grande sensibilidade por Zeffirelli e que, devido à sua natureza trágica, revela-se o material ideal para o melodramático diretor.

Roteirizada pelo próprio Zeffirelli ao lado de Masolino D’Amico e Franco Brusati, esta adaptação fiel da peça de William Shakespeare narra à grandiosa história de amor dos jovens Romeu (Leonard Whiting) e Julieta (Olivia Hussey), que se apaixonam ainda na adolescência e são impedidos de viver seu amor publicamente devido à rivalidade entre suas famílias. Abordando o tema universal da paixão proibida, “Romeu e Julieta” ainda se beneficia da mistura complexa criada pelo dramaturgo, envolvendo amor, desejo, violência e até valores familiares em doses consideráveis, que são captadas com precisão pelos diálogos bem construídos que, inspirados no texto do próprio Shakespeare, surgem constantemente em forma de elegantes rimas.

Ainda que utilize o inglês como idioma, Zeffirelli consegue sugar o espectador pra dentro da história, graças à escolha de locações na própria Itália, que colaboram em nossa imersão através das charmosas ruas de pedra de Verona, captadas com competência pela fotografia de Pasqualino De Santis, que alterna entre momentos que realçam a beleza local e outros em que as sombras tomam conta da tela, especialmente quando nos aproximamos do ato final. Este excelente trabalho de recriação de época apoia-se também nos figurinos de Reginald Mills, que utilizam longos vestidos e adornos variados para embelezar as mulheres, ao passo em que os homens surgem com calças apertadas e chapéus pequenos tipicamente italianos. Além disso, repare como Julieta surge vestida de vermelho na festa, o que, além de destacá-la, serve para ilustrar a paixão que nasceria ali, confirmada pelo olhar penetrante de Romeu e realçada pela trilha sonora melancólica de Nino Rota.

Charmosas ruas de pedraLongos vestidos e adornosJulieta surge vestida de vermelhoA trilha, aliás, é um dos pontos altos do filme, pontuando com seu belo tema os encontros apaixonados do casal. Aliás, já no primeiro contato entre eles temos um interessante jogo de palavras que resulta no primeiro beijo, também captado com sensibilidade pelo diretor. Por sua vez, o design de produção de Lorenzo Mongiardino capricha nos pequenos detalhes, como as espadas utilizadas nos duelos, as casas rústicas e até mesmo o cemitério sombrio em que a tragédia se consumará. Já o design de som infelizmente oscila bastante, especialmente nos duelos de rua em que o volume dos gritos do povo suplanta o som das espadas e os gemidos dos personagens.

Primeiro beijoEspadasCemitério sombrioAnunciando o destino trágico dos protagonistas desde o primeiro plano em que a cidade de Verona surge coberta por uma forte névoa, “Romeu e Julieta” também evidencia bem cedo a forte rivalidade entre as famílias Montecchio e Capuleto através das brigas tolas dos rapazes no centro de Verona, o que é essencial para compreender o drama do casal. Para transmitir a essência desta paixão tórrida, Zeffirelli apostou na escolha de atores extremamente jovens, o que também serviu para criar forte empatia com o publico adolescente da época. Dona de um rosto angelical que cai muito bem na personagem, Olivia Hussey vive Julieta com todo o ímpeto que o papel exige, se entregando as lágrimas e a histeria sempre que necessário. Já Leonard Whiting cria um Romeu empolgante, correndo pelas ruas da cidade e exibindo no brilho de seu olhar toda a esperança de viver um amor eterno ao lado da amada. A inocência que ambos evocam, aliás, torna a cena do casamento secreto ainda mais significativa, já que o espectador acredita naquele amor incondicional. E até mesmo quando sugere o sexo, Zeffirelli o faz com bastante cuidado para não quebrar esta aura de inocência, criando uma cena baseada muito mais na carga emocional do ato do que no aspecto físico.

Verona surge coberta pela névoaAtores extremamente jovensCasamento secretoNo restante do elenco, vale citar a simpática ama de Julieta interpretada por Pat Heywood e o sábio Frei Laurence, vivido com grande carisma por Milo O’Shea. Já John McEnery transforma seu Mercutio praticamente numa caricatura, mas consegue nos divertir até que o longo duelo com Tybalt (Michael York, que chega a surgir com pequenos chifres vermelhos em alguns planos) resulte na morte dele, num momento em que a câmera agitada de Zeffirelli praticamente nos permite sentir o calor do combate.

Simpática ama de JulietaSábio FreiLongo duelo com TybaltNa verdade, é impressionante como o diretor acerta a mão em praticamente todas as cenas cruciais de “Romeu e Julieta”, começando pelo encantador namoro na sacada em que os jovens demonstram através das expressões corporais toda a paixão que sentem. Observe como seus enquadramentos colocam Julieta quase sempre em posição dominante, indicando seu poder de persuasão, ao passo em que Romeu surge sempre em movimento, demonstrando sua ansiedade diante dela. Aliás, chega a ser doloroso acompanhar estes dois jovens sonhadores que, de tão apaixonados, soam quase como bobos (como a maioria dos casais apaixonados, vale lembrar). Simultaneamente forte e ingênuo, o amor de Romeu e Julieta é inconsequente, quase adolescente, e talvez por isso tenha tanta força junto ao público, normalmente ávido por um amor que consiga vencer todas as barreiras, incluindo a própria morte.

Morte que tem participação fundamental em “Romeu e Julieta”, já que é justamente após a morte de Mercutio que Romeu parte para a vingança e desencadeia a série de acontecimentos trágicos da narrativa. Então, a atmosfera sinistra ganha forma e outras mortes entram em cena, criando o cenário ideal para que Zeffirelli faça o que sabe melhor: tentar levar o espectador às lágrimas. A partir daí, temos uma sequência de cenas dramaticamente densas, com Romeu sendo julgado pelo Príncipe (Robert Stephens) e sendo condenado ao exílio, os choros e gritos do casal desesperado diante da separação eminente, a proposta de casamento entre Paris (Roberto Bisacco) e Julieta e a solução perigosa proposta pelo Frei Laurence.

Encantador namoroRomeu é julgado pelo PríncipeEnterro de JulietaTudo isso nos leva ao famoso desfecho desta grande história de amor, no qual a mão pesada de Zeffirelli funciona muito bem. Dominada pelas sombras, a cena do enterro de Julieta tem uma abordagem operística que permite aos atores todos os exageros na composição dos personagens, com reações grandiosas (e bem italianas) e muitas lágrimas. Igualmente, Whiting e Hussey conseguem transmitir a dor de Romeu e Julieta com precisão quando estes se deparam com o corpo do outro, em momentos tocantes que tornam esta versão numa das melhores adaptações cinematográficas da clássica história de Shakespeare.

Romeu e Julieta foto 2Texto publicado em 02 de Fevereiro de 2013 por Roberto Siqueira

DOUTOR JIVAGO (1965)

(Doctor Zhivago)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #156

Dirigido por David Lean.

Elenco: Omar Sharif, Julie Christie, Alec Guinness, Geraldine Chaplin, Rod Steiger, Tom Courtenay, Siobhan McKenna e Ralph Richardson.

Roteiro: Robert Bolt, baseado em romance de Boris Pasternak.

Produção: Carlo Ponti.

Doutor Jivago[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Especialista na arte de conduzir narrativas grandiosas e dono de um talento ímpar na composição de planos memoráveis, David Lean notabilizou-se por dirigir grandes épicos que, mesmo com longas durações, jamais pareciam capazes de entediar o espectador. Infelizmente, este não é o caso de “Doutor Jivago”. Ainda que exiba a abordagem clássica do diretor e conte com inúmeras sequências plasticamente encantadoras, o longa apresenta um desgaste provocado por excessos que resultam num filme visualmente belíssimo, mas cansativo.

Ambientado antes e durante a Revolução Bolchevique na Rússia, o roteiro escrito por Robert Bolt com base em romance de Boris Pasternak nos apresenta a história do “Doutor Jivago” do título (Omar Sharif) através de um longo flashback narrado pelo irmão dele, o general Yevgraf Zhivago (Alec Guinness), que tenta descobrir se a jovem Anna (Siobhan McKenna) é a filha desaparecida de seu irmão e da bela Lara Antipova (Julie Christie), mulher por quem o doutor se apaixonou durante a guerra, mesmo sendo casado com Tonya Gromeko (Geraldine Chaplin) e ela sendo a esposa de Pasha Strelnikoff (Tom Courtenay), um dos homens importantes da Revolução.

Investindo na pretensiosa missão de contar uma marcante história de amor e narrar em detalhes como ocorreu a Revolução Bolchevique, Lean nos transporta do presente para o passado através da misteriosa conversa inicial entre o general Yevgraf e a jovem Anna, nos apresentando lentamente aos personagens centrais da narrativa: o doutor Yuri Zhivago e Lara. A partir daí, compreendemos a origem sofrida do protagonista e a juventude difícil da garota que supostamente será seu par romântico, mas a evolução do romance não acontece da forma como imaginamos. Sofrendo com o assédio do homem que ajudou a criá-la, Lara evidencia muito cedo que está longe de ser apenas uma mocinha indefesa, mostrando-se forte o bastante para enfrentar os tempos de guerra. Sendo assim, a presença imponente de Julie Christie revela-se vital para o sucesso da personagem e, por contraste, ratifica o quanto Omar Sharif parece desinteressado em alguns instantes, empalidecendo diante da presença da atriz.

Misteriosa conversaOrigem sofridaLonge de ser apenas uma mocinha indefesaAinda assim, o ator consegue demonstrar o dilema do médico quando a paixão por Lara ganha força, o que só ocorre após Lean investir grande parte da narrativa nos acontecimentos que levaram a Revolução a estourar no país. Mais do que dividido entre duas mulheres, Jivago se torna um homem dividido entre duas famílias – como fica claro quando a filha de Lara questiona se ele não acompanha o filho na escola – e o ator ilustra este sofrimento muito bem com seu olhar distante e pensativo. Aliás, o destino trágico daquela atração é indicado desde quando Jivago corteja Lara pela primeira vez com seu rosto encoberto pelas sombras, num dos inúmeros instantes em que Lean abusa de simbolismos elegantes que só enriquecem a narrativa. Observe, por exemplo, como quando ela vai embora após passar um longo tempo como ajudante dele, as flores murcham e indicam seu sentimento de perda – e Lean encerra a cena com um plano que destaca justamente o vaso, já que serão justamente as flores que simbolizarão o renascimento de sua paixão futuramente.

Homem dividido entre duas famíliasRosto encoberto pelas sombrasO vasoDa mesma forma, repare como ele se lembra de Lara ao ver a esposa passando roupa, já que foi justamente quando ela passava roupa que ele tentou beijá-la. Em seguida, as flores surgem em seu quintal e confirmam que ele voltou a se interessar por ela. Após consumar a traição, Lean evita mostrar Jivago, preferindo sugerir o sexo ao compor um plano em que precisamos nos esforçar para encontrar o casal deitado do lado esquerdo da tela, como se evitasse mostrar o resultado daquele ato. E serão novamente as flores ao redor da casa que atormentarão Jivago após um beijo de Tonya e farão com que ele decida dizer a Lara que nunca mais quer vê-la.

Esposa passando roupaEla passava roupaFlores surgem em seu quintalConduzindo “Doutor Jivago” com sua costumeira abordagem contemplativa e elegante, Lean abusa da criação de planos belíssimos, auxiliado pela direção de fotografia de Freddie Young, que oscila entre os tons sombrios e as cenas noturnas que predominam boa parte do primeiro e do segundo ato e as sequências branquíssimas que realçam a beleza da gélida Rússia. Repare, por exemplo, como quando Viktor Komarovsky (Rod Steiger) corteja Lara num jantar, o jogo de luz e sombras, as cortinas roxas e o vestido vermelho da garota criam uma atmosfera pesada e sugerem a natureza pecaminosa do ato. Além disso, o diretor acerta nas cenas mais importantes, como o estupro de Lara e a sua violenta vingança. E fugindo um pouco do classicismo, Lean investe até mesmo em virtuosismos interessantes, como quando a câmera acompanha do lado de fora das janelas o desespero de Viktor ao encontrar a mãe de Lara doente na cama até o instante em que ele sai da casa e entrega o bilhete ao mensageiro. Da mesma forma, ele evita mostrar o corpo nu dela na cama até o último instante no atendimento médico, mantendo um suspense sobre o estado em que ela se encontrava. E finalmente, o diretor faz outro movimento marcante quando a câmera sai de Lara, passa por uma vela, atravessa a janela e mostra Jivago passando na rua, indicando a conexão entre eles.

Sequências branquíssimasNatureza pecaminosa do atoDesespero de ViktorMais uma vez confirmando seu talento para comandar centenas de figurantes, Lean cria sequências memoráveis nas cenas que envolvem numerosos exércitos se movimentando pelos gelados terrenos russos, como na volta dos desertores para casa, em que eles encontram outros soldados pelo caminho e assassinam seus líderes, que marca também o reencontro entre Lara e Jivago. E ainda entre os muitos méritos de sua direção, destaca-se a forma sutil com que ele transmite inúmeras sensações sem necessitar de palavras, como quando a expressão no rosto de Jivago indica a intensidade de um massacre.

Volta dos desertoresReencontro entre Lara e JivagoIntensidade de um massacreEste ambiente político opressor é evidente em “Doutor Jivago” e, ironicamente, acaba ganhando tanto espaço na narrativa que chega a deixar o romance em segundo plano. “Homens felizes não se voluntariam”, afirma um personagem em certo momento, e de fato aquelas pessoas raramente parecem felizes naquele cenário. Entretanto, para ambientar o espectador à Moscou do início do século, Lean conta com mais do que o ambiente político, apoiando-se no excelente design de produção de John Box e nos figurinos de Phyllis Dalton, que recriam os uniformes dos soldados e os vestidos das mulheres, caprichando nas casas e ruas que reconstituem Moscou (o longa foi filmado na Espanha, Finlândia e Canadá) e terminando com objetos menores como os talheres que decoram o suntuoso jantar da alta classe que acontece simultaneamente ao protesto pacífico na rua, onde as vestimentas também surgem impecáveis. E se nos sentimos na Rússia ao ver as ruas cobertas de neve, praticamente podemos sentir o incômodo dos personagens e o frio do rigoroso inverno russo durante uma longa viagem de trem para o interior.

Casas e ruas que reconstituem MoscouSuntuoso jantarFrio do rigoroso inverno russoAliás, o clima tem importante função narrativa, indicando a passagem do tempo em diversos momentos de maneira elegante, como quando a casa amanhece coberta de neve no interior da Rússia, revelando o bom trabalho do montador Norman Savage, que cobre vários anos sem jamais tornar a narrativa episódica. Por outro lado, montador e diretor falham ao estender demais algumas subtramas (especialmente envolvendo a revolução), tirando o foco da linha narrativa mais atraente, que é a relação entre Jivago, Tonya e Lara, e tornando o ritmo de “Doutor Jivago” arrastado demais a partir do segundo ato. Mesmo um verdadeiro mestre na condução de filmes contemplativos como David Lean é capaz de perder a mão.

Quem também merece destaque na parte técnica de “Doutor Jivago” é o excepcional design de som. Observe, por exemplo, como o barulho das batidas nos pregos e da terra sendo jogada no caixão é potencializado no enterro da mãe de Yuri, realçando o impacto dramático daquele momento na vida do garoto. Além disso, o som também tem importante função narrativa em outros instantes, como quando o aumento do volume indica a chegada dos manifestantes ao local onde se encontra a polícia russa. Da mesma forma, é através do som e não das imagens que sabemos de antemão que Lara atirou em Viktor na festa, graças à maneira como Lean conduz a sequência e nos prepara para o ataque dela. Já a trilha sonora composta pelo ótimo Maurice Jarre torna-se um pouco repetitiva ao longo das mais de três horas de duração e acaba perdendo o impacto em certos momentos, mas ainda assim confirma-se como um dos pontos altos de “Doutor Jivago” graças à linda melodia do tema de Lara, imortalizada ao longo dos anos.

Casa amanhece coberta de neveTerra sendo jogada no caixãoLara atirou em ViktorAbordando o nascimento do comunismo de maneira maniqueísta, “Doutor Jivago” também se perde em sua conotação política tendenciosa, mostrando os comunistas como meros selvagens sem coração que destroem vilas e assassinam mulheres e crianças pelo “bem maior”. Assim, acompanhamos pessoas invadindo a casa de Jivago para tomar seus objetos pessoais, sua família sendo obrigada a amontoar-se num cômodo da própria casa e seus filhos passando fome, num retrato cruel daquele momento histórico e que talvez tenha uma dose considerável de exagero. E um último pecado cometido por David Lean é justamente não aproveitar melhor o talento de seu costumeiro colaborador Alec Guinness, que, além de participar pouco da narrativa, ainda é responsável pela desnecessária narração nas memórias de seu reencontro com o irmão, em que o voice-over apenas substitui as falas de seu próprio personagem.

Meros selvagens que destroem vilasPessoas invadindo a casa de JivagoMemórias de seu reencontro com o irmãoMesmo após acompanharmos horas de belas imagens e uma história interessante, a sensação que fica ao final de “Doutor Jivago” é que Lean perdeu um pouco o foco e estendeu demais à narrativa. Ainda assim, o resultado foi bom o bastante para arrastar uma legião de fãs ao longo dos anos. Afinal, um filme de David Lean com problemas ainda é melhor do que a maioria dos filmes voltados para o grande público que vemos por aí.

Doutor Jivago foto 2Texto publicado em 28 de Janeiro de 2013 por Roberto Siqueira

A NOVIÇA REBELDE (1965)

(The Sound of Music)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #155

Vencedores do Oscar #1965

Dirigido por Robert Wise.

Elenco: Julie Andrews, Christopher Plummer, Eleanor Parker, Richard Haydn, Peggy Wood, Charmian Carr, Heather Menzies, Nicholas Hammond, Duane Chase, Angela Cartwright, Debbie Turner, Kym Karath, Anna Lee, Portia Nelson, Ben Wright e Norma Varden.

Roteiro: Ernest Lehman, baseado em musical de Howard Lindsay e Russel Crouse.

Produção: Robert Wise.

A Noviça Rebelde[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Se explicar a magia do cinema em palavras é uma tarefa complicada, mais difícil ainda é explicar porque certos filmes jamais envelhecem e permanecem encantadores ao longo de décadas. No entanto, basta assistir ao clássico musical “A Noviça Rebelde” para compreender as razões pelas quais estes filmes tornaram-se imortais. Por mais que o tempo passe e certos aspectos soem datados (as roupas, penteados, a maneira de falar, etc.), o espírito jovial e empolgante do longa dirigido por Robert Wise segue intacto – e é justamente por se apoiar nele que a narrativa jamais perde sua magia.

Escrito por Ernest Lehman, baseado em musical de Howard Lindsay e Russel Crouse, “A Noviça Rebelde” tem início quando Maria (Julie Andrews) não consegue se adaptar as rígidas regras do convento em que vive e, por isso, acaba sendo enviada para trabalhar na casa do capitão Von Trapp (Christopher Plummer), um homem viúvo e que educa seus sete filhos com a mesma disciplina que costumava comandar a Marinha. A chegada da moça muda completamente o destino daquela família, ainda mais quando ela se apaixona pelo Capitão, que já estava comprometido com uma rica baronesa (Eleanor Parker).

Apesar de criar conflitos interessantes que alteram o seguimento natural da narrativa, o roteiro de “A Noviça Rebelde” não prima exatamente pela originalidade, o que inevitavelmente torna previsíveis as ações dos personagens. Ainda assim, Lehman consegue criar algum suspense com eficiência, por exemplo, ao focar no conflito de sentimentos de Maria que impede que ela fique com o Capitão num primeiro instante, o que, consequentemente, torna ainda mais saboroso o reencontro dela com as crianças quando ela decide voltar para a casa. Por outro lado, algumas transições acontecem rápido demais, como a mudança de comportamento do próprio Capitão. Só que o segredo do sucesso da narrativa não se baseia nestas pequenas reviravoltas, ainda que elas funcionem bem. A força do clássico está mesmo na direção de Robert Wise e na qualidade das canções que conferem ao longa uma aura de fábula.

Conflito de sentimentosReencontro dela com as criançasMudança de comportamento do CapitãoMesmo com quase três horas de duração, “A Noviça Rebelde” jamais se torna um filme cansativo, graças ao ritmo delicioso empregado pela montagem de William Reynolds que intercala as canções e as ações com precisão e, o que é ainda melhor, faz com que as músicas sempre deem seguimento a narrativa, surgindo naturalmente em diversos momentos, como quando Maria ajuda as crianças a superar o medo de uma tempestade. Obviamente, as inúmeras canções criativas compostas por Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II são cruciais para isto, como fica evidente desde o travelling inicial que passeia pelas lindas paisagens de Salzburg e nos apresenta a protagonista sob o embalo da bela “The Sound of Music” (o nome original do filme). Além dela, merecem destaque as divertidas “Do-Re-Mi” e “My Favorite Things”, assim como a divertida “Sixteen Going on Seventeen”, cantada por Liesl (Charmian Carr) e Rolfe (Daniel Truhitte) no charmoso namoro deles sob o luar.

Medo da tempestadeLindas paisagens de SalzburgCharmoso namoro sob o luarConduzida com o mesmo charme por Wise, outra cena que se destaca é a linda dança entre o Capitão e Maria, que serve também para evidenciar pela primeira vez a química existente entre eles. Esta lenta aproximação chegará ao auge no primeiro beijo do casal, não por acaso conduzido sem a mínima pressa pelo diretor. Enriquecido pela atmosfera romântica daquela bela noite, pela trilha sonora envolvente e pelo lindo plano que enquadra o casal de mãos dadas sob a luz do luar, o beijo de Von Trapp e Maria é um destes momentos belíssimos que só o cinema consegue criar, o típico beijo cinematográfico capaz de deixar o espectador em êxtase e conduzido com uma sensibilidade rara nos tempos atuais.

Dança entre o Capitão e MariaPrimeiro beijo do casalMãos dadas sob a luz do luarAinda que estes dois momentos aconteçam à noite, a fotografia de Ted McCord aproveita a luz do dia na maior parte do tempo e aposta em cores vivas para criar um visual coerente com o espírito alegre de “A Noviça Rebelde”, ressaltado também nas roupas coloridas das crianças (figurinos de Dorothy Jeakins) e nos planos gerais de Wise que realçam a beleza da região – aliás, o design de produção de Boris Leven também se destaca, não apenas por acertar em cheio na escolha da mansão em que se passa à narrativa (e que hoje se tornou um dos pontos turísticos mais visitados de Salzburg), mas também por escolher a própria Áustria, um país famoso por respirar música e que, por isso, se configura no cenário ideal para um musical. Por contraste, o visual sombrio do convento nos indica o quanto Maria se sente deslocada ali, assim como o uso das sombras torna ainda mais tensa a eletrizante sequência em que os Von Trapp se escondem dentro do convento e são caçados pelos nazistas, logo após o festival de música que não por acaso ocorre à noite.

Roupas coloridas das criançasMansãoVisual sombrio do conventoLiderando os encantadores irmãos Von Trapp, a bela Liesl é interpretada por Charmian Carr com muito carisma e auxilia na empatia entre o público e os personagens. Entre o elenco secundário, merecem destaque ainda a sábia Madre Abbess de Peggy Wood e o sarcástico Max de Richard Haydn, além da Baronesa de Eleanor Parker que, apesar de mostrar seu lado cruel na festa, jamais se torna uma caricatura, também pela maneira adorável com que Parker encarna a personagem. Afinal, não dá pra ter raiva de alguém que sai de cena com tamanha elegância e honestidade, aceitando o fim do relacionamento e sugerindo que o Capitão fique com Maria.

Bela LieslSarcástico MaxBaronesaPronunciando as palavras pausadamente, Christopher Plummer cria um Capitão simultaneamente severo e charmoso, escondendo sob aquela carcaça de durão seu coração enorme e sua simpatia, que aflora primeiramente ao lado da Baronesa e especialmente quando aceita que os filhos cantem novamente. Para ele, a disciplina parece ser a única forma de controlar seus filhos atentados, funcionando também como uma maneira de esquecer a dor da perda da esposa. Por isso, a primeira discussão entre o Capitão e Maria funciona tão bem, nos levando ao emocionante momento em que o pai quebra o gelo e volta a cantar com os filhos. A música tem este poder de agregar as pessoas. Finalmente, é ótimo constatar que o Capitão começa a mudar seu comportamento antes da metade do filme, evitando o clichê da mudança final repentina e injustificável, ainda que esta transição aconteça abruptamente.

Severo e charmosoPrimeira discussãoPai quebra o geloMas se todas estas atuações são satisfatórias para a época, não há como negar que a grande performance de “A Noviça Rebelde” é mesmo da carismática Julie Andrews, que carrega a narrativa com enorme facilidade, transformando Maria numa protagonista alegre e encantadora, que conquista nossa empatia desde o instante em que chega atrasada ao convento. Divertida e ousada, a garota consegue mudar completamente o ambiente hostil em que é inserida, com seu jeito gracioso e empolgante de encarar a vida. Se o espírito jovem e alegre é a alma do filme, a atuação enérgica de Andrews contribui muito para isto. Finalmente, a atriz convence até mesmo nos momentos dramáticos, demonstrando o sofrimento de Maria diante da situação complicada em que o Capitão se mete após a chegada dos nazistas.

Alegre e encantadoraDivertida e ousadaSofrimento de MariaCitado algumas vezes na primeira metade da narrativa em tom ameaçador, o nazismo terá função importante no desfecho de “A Noviça Rebelde”. Após o casamento de Maria e Von Trapp, um travelling seguido por um imponente plano geral revela a chegada dos alemães e inicia o último ponto de virada do roteiro, ampliando consideravelmente a carga dramática do longa. A partir deste instante, o espectador acompanha tenso o desenrolar dos acontecimentos e torce pelo sucesso dos Von Trapp – e o fato de nós nos importarmos com o destino deles só evidencia a eficiência da narrativa.

Casamento de Maria e Von TrappChegada dos alemãesTorcemos pelo sucesso dos von TrappAlém de rimar tematicamente com a abertura, o encerramento nas montanhas ainda eleva o espírito da plateia e nos deixa com uma deliciosa sensação de alegria por sairmos satisfeitos com o que vimos. E é justamente esta magia que faz de “A Noviça Rebelde” um filme delicioso, que permanece empolgante mesmo décadas depois de lotar as salas de cinema pelo mundo afora.

A Noviça Rebelde foto 2Texto publicado em 22 de Janeiro de 2013 por Roberto Siqueira

A DAMA E O VAGABUNDO (1955)

(Lady and the Tramp)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #154

Dirigido por Clyde Geronimi, Wilfred Jackson e Hamilton Luske.

Elenco: Barbara Luddy, Larry Roberts, Verna Felton, Bill Thompson, Alan Reed, Peggy Lee, Bill Baucom e Stan Freberg.

Roteiro: Ward Greene, Erdman Penner, Joe Rinaldi, Ralph Wright e Don DaGradi.

Produção: Walt Disney (não creditado).

A Dama e o Vagabundo[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após o início arrasador em que emplacou cinco filmes simplesmente encantadores na chamada era de ouro da Disney, Walt Disney teve que aguardar por longos oito anos até seu próximo projeto, quebrando o hiato somente com “Cinderela”, em 1950. Entretanto, os três primeiros filmes desta nova era apresentavam um preocupante desgaste da fórmula de sucesso do estúdio, que só seria corrigido em 1955 com este impecável “A Dama e o Vagabundo”. Trazendo os elementos clássicos da Disney de maneira renovada e nada enfadonha, o longa acerta em cheio ao narrar com dinamismo a encantadora história de amor entre dois cachorros, contando com um visual marcante e incrivelmente realista que fez deste um dos grandes clássicos da história da animação.

Pela primeira vez narrando uma história original, os cinco roteiristas da Disney trazem em “A Dama e o Vagabundo” a história da cachorra Lili (voz de Barbara Luddy), que se sente abandonada por seus donos quando eles têm um bebê e acaba se envolvendo com um vira-lata conhecido como Vagabundo (voz de Larry Roberts), para a tristeza de seus cães vizinhos e amigos Fiel (voz de Bill Baucom) e Jock (voz de Bill Thompson).

Apresentando uma notável evolução na qualidade da animação quando comparado aos filmes anteriores, “A Dama e o Vagabundo” tem início num plano belíssimo que se torna ainda mais interessante com o zoom que nos aproxima da pequena vila coberta pela neve e nos leva a casa de Lili, sob o embalo da linda música tema “Bella Notte”. Desde então, fica evidente o capricho dos animadores e a preocupação dos diretores com pequenos detalhes que fazem a diferença, conferindo maior verossimilhança a narrativa através de decisões simples como recriar os maneirismos dos cães com fidelidade (eles se coçam, se espreguiçam, lambem feridas, etc.) e ilustrar a empatia comum entre as pessoas e seus animais de estimação, como quando Lili tenta desesperadamente avisar que um rato invadiu a casa e é compreendida somente por seu dono.

Pequena vila coberta pela neveSe espreguiçamCompreendida somente por seu donoTrazendo ainda divertidas gags, como quando o Vagabundo diz que os macacos são parecidos demais com o ser humano e provoca o riso descontrolado das hienas ou a sequência em que eles negociam com um castor (voz de Stan Freberg), “A Dama e o Vagabundo” acerta também ao reduzir consideravelmente o número de canções ao longo da narrativa, numa quebra interessante de conceito do estúdio que funciona muito bem e confere mais dinamismo ao filme, especialmente porque quando estas surgem são sempre interessantes, como atestam a engraçada música que acompanha os maldosos gatos siameses e a divertida canção interpretada pela charmosa cadela Peg (voz de Peggy Lee).

Negociam com um castorMaldosos gatos siamesesCharmosa cadela PegObviamente, nada disto funcionaria tão bem se “A Dama e o Vagabundo” não contasse com protagonistas tão interessantes. Raramente nos permitindo ver os rostos dos adultos, os diretores Clyde Geronimi, Wilfred Jackson e Hamilton Luske nos colocam na mesma posição dos cachorros praticamente o tempo inteiro, numa inteligente estratégia que colabora com nossa identificação. No entanto, é mesmo o espírito livre do Vagabundo e o charme de Lili que nos conquista. Escancarando as diferenças de realidade do casal logo na introdução dos personagens, o amor proibido entre o Vagabundo e a Dama traz consigo a velha temática das diferenças entre classes sociais, que aqui é trabalhada de maneira encantadora e ousada para a época. Aliás, a introdução do vira-lata serve também para nos apresentar à temida carrocinha, que será vital no clímax da narrativa.

Mesma posição dos cachorrosEspírito livreCharme de LiliDa mesma forma, não bastasse o fato de ser um animal de estimação, a pequena Lili ainda nos conquista quase que imediatamente através de seu jeito divertido e gracioso de convencer seus donos a deixá-la dormir com eles. Até mesmo o ciúme que ela sente do bebê a aproxima da plateia justamente por atribuir à cachorrinha um sentimento tão humano, chegando a nos emocionar na belíssima cena em que ela vê o bebê no berço pela primeira vez. Antes disso, acompanhamos o sofrimento dela diante do desconhecido, o que também é um sentimento bem conhecido por todos nós. Utilizando as folhas do calendário e a mudança climática como referência, a dinâmica montagem de Don Halliday passa rapidamente pela gravidez e nos leva ao dia do nascimento do menino que, acompanhado por uma forte chuva, ilustra visualmente a aflição da cachorrinha diante daquela situação inesperada, assim como visual cinza e sem vida reflete como Lili se sente deslocada fora de casa quando ela foge.

Lili vê o bebê no berço pela primeira vezDia do nascimento do meninoLili se sente deslocada fora de casaConcentrando boa parte da primeira metade da projeção em Lili, a narrativa nos prepara para o grande encontro do casal, que acontece de maneira casual e nos leva ao lindo passeio noturno deles, repleto de planos memoráveis como aquele em que eles passam por uma ponte e aquele em que vemos toda a cidade iluminada ao fundo. A atmosfera romântica de toda sequência é perfeita e, acompanhada pela linda canção tema (trilha sonora de Oliver Wallace), torna ainda mais especial a icônica cena do jantar em que a Dama e o Vagabundo se beijam. E assim como a divertida transição que indica o crescimento de Lili quando ela dorme na cama dos donos, outra elegante elipse acontece após o jantar e transforma as roupas penduradas no varal nos galhos das árvores durante o passeio. Em seguida, acompanhamos os dois cachorros acordando lado a lado, num instante que sugere sutilmente a conotação sexual do encontro, numa ousadia temática grandiosa para a época, se considerarmos que a “mocinha” criada numa casa de família acabara de dormir na rua com um cachorro sem dono.

Passam por uma ponteCidade iluminada ao fundoDois cachorros acordando lado a ladoCriando ainda um canil opressor através das paredes velhas e descascadas, que ganha eco no canto melancólico dos cachorros presos, os diretores não hesitam em nos apresentar o trágico destino de um dos prisioneiros, confirmando a ousadia temática que só engrandece o filme ao permitir que o espectador sinta o perigo real que aquele local triste representa. Este visual contrasta diretamente com a primeira metade da projeção, claramente mais viva e colorida, e nos introduz ao ameaçador ato final, carregado pela atmosfera sombria e sufocante após a briga entre a Dama e o Vagabundo que ilustra a apreensão dos personagens com precisão através da chuva e da noite. Este visual requintado chama ainda mais a atenção na batalha entre o Vagabundo e o rato, especialmente no temível plano em que o roedor sobe no berço e é iluminado por um raio, e continua impressionante até o desfecho da empolgante sequência da perseguição à carrocinha, quando o velho Fiel (voz de Bill Baucom) salva o Vagabundo e garante o final feliz. Mas o detalhe mais interessante vem na cena seguinte, quando Lili surge com quatro filhotes e confirma a ousada conotação sexual da noite romântica do casal de maneira sutil.

Paredes velhas e descascadasTrágico destino de um dos prisioneirosBatalha entre o Vagabundo e o ratoApresentando alguma inovação técnica e uma adorável ousadia temática, “A Dama e o Vagabundo” encanta mesmo por sua bela história de amor, contada à moda antiga e com toda a magia que a Disney costumava ter. Por isso, a trajetória dos dois cachorrinhos apaixonados se firmou como a melhor animação da segunda era dourada do estúdio. 

A Dama e o Vagabundo foto 2Texto publicado em 18 de Janeiro de 2013 por Roberto Siqueira

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS (1951)

(Alice in Wonderland)

3 Estrelas 

Videoteca do Beto #153

Dirigido por Clyde Geronimi, Wilfred Jackson e Hamilton Luske.

Elenco: Vozes de Kathryn Beaumont, Richard Haydn, Ed Wynn, Sterling Holloway, Jerry Colonna, Verna Felton e Bill Thompson.

Roteiro: Winston Hibler, Ted Sears, Bill Peet, Erdman Penner, Joe Rinaldi, Milt Banta, Bill Cottrell, Dick Kelsey, Joe Grant, Dick Huemer, Del Connell, Tom Oreb e John Walbridge, baseado nos livros Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho de Lewis Carroll.

Produção: Walt Disney (não creditado).

Alice no país das maravilhas[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Adaptada diversas vezes para o cinema ao longo de décadas, “Alice no país das maravilhas” pertence a um grupo de obras literárias complexas e fascinantes que permitem as mais distintas interpretações, o que, consequentemente, transforma o livro de Lewis Carroll numa ótima oportunidade para cineastas mais ousados imprimirem sua visão particular daquele mundo onírico e repleto de simbolismos. Por isso, era de se esperar que o visionário Walt Disney quisesse aproveitar a excelente equipe técnica que possuía para dar vida aos personagens excêntricos daquele universo. O resultado é uma animação que, se não tem o encanto e a magia dos filmes da primeira era de ouro do estúdio, ao menos consegue nos divertir.

Baseado na obra de Carroll publicada em 1865, o roteiro de “Alice no país das maravilhas” (creditado para treze pessoas nesta versão da Disney) nos apresenta Alice (voz de Kathryn Beaumont), uma garota que, após seguir um misterioso e apressado coelho branco (voz de Bill Thompson), acaba se aventurando por um mundo fantástico, recheado de figuras inusitadas.

Apresentando pouco avanço tecnológico em relação aos filmes anteriores, “Alice” segue com fidelidade algumas das convenções narrativas das animações Disney, com seu visual multicolorido, a interação entre humanos e animais e, especialmente, as diversas músicas espalhadas pela narrativa que, aliadas a trilha sonora quase incessante de Oliver Wallace, fazem com que o som diegético quase não tenha espaço sozinho no filme. Entretanto, isto não seria um problema se o longa apresentasse o mesmo encanto dos primeiros filmes do estúdio, mas isto não acontece na mesma intensidade, o que apenas reforça o desgaste da fórmula de Walt Disney, tão evidente nesta irregular segunda era de animações na qual os únicos filmes realmente memoráveis são o impecável “A Dama e o Vagabundo” e “A Bela Adormecida”.

Assim, para desfrutar o encanto de “Alice no país das maravilhas” é preciso olhar com olhos de criança – algo que não é tão simples no mundo mais cínico em que vivemos atualmente, mas que na época talvez fosse mais plausível, mesmo tão pouco tempo depois do fim da Segunda Guerra. Isto ocorre porque os diretores Clyde Geronimi, Wilfred Jackson e Hamilton Luske transportam para a tela o espírito da obra que serviu de inspiração para o filme, criando uma sequência ininterrupta de momentos que não apresentam lógica alguma, seguindo apenas a fértil imaginação da protagonista. Curto e dinâmico como a maioria das animações do estúdio, “Alice” se beneficia da montagem ágil de Lloyd Richardson, que transita de um cenário ao outro de maneira orgânica, nos levando a lugares surreais como a casa rosa do Coelho Branco e a personagens igualmente surreais como as flores cantoras e a Lagarta fumante (voz de Richard Haydn), que hoje certamente seria criticada pelos chatos do politicamente correto.

Casa rosaFlores cantoras Lagarta fumanteTambém devido à natureza onírica da história, muitos diálogos não fazem muito sentido, o que realça ainda mais momentos marcantes como a famosa conversa entre o Gato Risonho (voz de Sterling Holloway) e Alice: “Aonde você quer ir?”, pergunta o gato; “Tanto faz”, responde Alice; “Então tanto faz o caminho que deve seguir”, finaliza ele. Esta abordagem surreal chega ao auge na conversa sem pé nem cabeça entre Alice e os divertidos Chapeleiro Louco (voz de Ed Wynn) e Lebre Maluca (voz de Jerry Colonna), que levam tanto a protagonista quanto o espectador a loucura durante um chá da tarde. Também existe espaço para histórias mais lineares, como a triste passagem em que as ostras são convidadas para um jantar, mas este universo fantasioso fará sentido de fato somente quando tivermos a confirmação de que Alice estava sonhando. Até lá, somos levados pela narrativa através do olhar da garota.

Conversa entre o Gato Risonho e AliceConversa sem pé nem cabeçaOstras são convidadas para um jantarRepleto de personagens criativos, “Alice” representava ainda uma oportunidade única para os talentosos animadores da Disney, que capricham na caracterização até mesmo de figuras secundárias que passam rapidamente pela narrativa, como os sapos instrumentos e o cavalo vassoura. Além disso, eles criam cenários impactantes e sequências belíssimas visualmente, dentre as quais vale destacar a chegada da temida Rainha de Copas (voz de Verna Felton) ao castelo, acompanhada de seu numeroso exército de cartas. E apesar das cores vivas que dominam grande parte do filme, a fotografia não se furta de carregar no tom pesado e sombrio quando Alice se perde na floresta, transmitindo para a plateia a mesma sensação melancólica da garota.

Sapos instrumentosCavalo vassouraAlice se perde na florestaQuanto aos simbolismos da narrativa, cabe dizer que, assim como no livro, é possível fazer diversas leituras diferentes de cada situação vivida por Alice. Dentre todas elas, existe uma vertente que me agrada mais, que acredita numa alusão a passagem da infância para a adolescência, onde cada transformação vivida pela garota ilustraria, numa escala exagerada e caricatural, as mudanças radicais que sofremos nesta fase. Por isso, temos as constantes mudanças de tamanho, os enigmáticos desafios, as dúvidas sobre qual caminho seguir e a introdução a novas sensações, que esboçariam nossa desorientação diante das decisões que precisamos tomar quando nos aproximamos da fase adulta da vida. No entanto, uma obra tão rica e subjetiva como esta permite inúmeras leituras aceitáveis.

Aventura surreal e repleta de simbolismos, “Alice no país das maravilhas” está longe de ser uma obra-prima, mas ao menos nos diverte enquanto somos apresentados aos cenários e personagens descritos no clássico livro de Lewis Carroll. Ou seja, trata-se de uma animação típica da Disney daquele período, com tudo de bom e de ruim que isto possa significar.

Alice no país das maravilhas foto 2Texto publicado em 13 de Janeiro de 2013 por Roberto Siqueira

DUELO DE TITÃS (2000)

(Remember the Titans)

2 Estrelas 

Filmes em Geral #95

Dirigido por Boaz Yakin.

Elenco: Denzel Washington, Will Patton, Wood Harris, Ryan Hurst, Ryan Gosling, Donald Faison, Craig Kirkwood, Ethan Suplee e Kate Bosworth.

Roteiro: Gregory Allen Howard.

Produção: Jerry Bruckheimer e Chad Oman.

Duelo de Titãs[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A história do esporte é uma fonte inesgotável de inspiração para todo e qualquer artista que se proponha a pesquisá-la. Independente da modalidade escolhida, inúmeros são os casos de superação, ascensão repentina e decadência absoluta, além das diversas oportunidades em que o esporte provou ter influência na política e na sociedade de maneira geral. O problema é que estas histórias tendem a ser repetitivas e, ainda que tenham as melhores intenções por trás do projeto, tornam-se esquemáticas e previsíveis demais nas mãos de um diretor menos habilidoso. Infelizmente, este é o de “Duelo de Titãs”.

Baseado numa história real e com grande potencial, o fraco roteiro escrito por Gregory Allen Howard nos leva ao início dos anos 70 na Virginia, EUA, quando a integração racial começava a ganhar força nas escolas, para o protesto da grande maioria da população local. Assim, a simples substituição do técnico de um time de futebol americano numa universidade é capaz de gerar enorme desconforto tanto entre os jogadores como em toda a sociedade somente porque o antigo treinador Bill Yoast (Will Patton) é branco e o novo técnico Herman Boone (Denzel Washington) é negro. Diante deste contexto, a dura missão do novo treinador vai além de formar uma equipe competitiva, tendo também que forçar os jogadores a superarem suas diferenças e conquistarem o campeonato.

A grande sacada de “Duelo de Titãs” é justamente utilizar o esporte como pano de fundo para abordar o racismo nada velado daquele período da historia norte-americana. Por isso, é muito interessante observar a maneira crua como o roteiro mostra que o racismo estava cravado na cultura do local, com professores, alunos, comerciantes e até mesmo os próprios pais demonstrando enorme preconceito racial, como fica evidente no protesto contra a integração feito pelas mães dos alunos que nos leva a refletir como o ser humano é mesmo capaz de fazer coisas horríveis. Por isso, utilizar o esporte como um fator de união entre as pessoas é algo que normalmente funciona, ainda que isto não seja nada original. Só que os meios utilizados por Howard e pelo diretor Boaz Yakin para nos levar a esta agregação é que são decepcionantes.

Abusando de diversas situações mais que batidas, a dupla cria uma sequência de discussões e conflitos totalmente artificiais, fazendo com que a narrativa soe cada vez menos realista. Aliás, os conflitos entre negros e brancos são tantos que, antes da metade da projeção, já estamos entediados, num excesso que esvazia o efeito que estes embates poderiam causar. Pra piorar, a dupla aposta no velho clichê dos brancos e negros que primeiro se odeiam para depois se adorarem, só que felizmente esta transição ocorre rapidamente e, apesar de soar pouco verossímil, traz uma melhora sensível na narrativa, tornando-a mais interessante quando eles começam a se dar bem, graças também à dinâmica do grupo, que realça a boa atuação coletiva daqueles jovens.

Protesto contra a integraçãoConflitos entre negros e brancosGrupo carismáticoNa verdade, extrair boas atuações do elenco de apoio é um dos raros acertos de Yakin em “Duelo de Titãs”. Com atores certos nos papeis certos, ele consegue criar um grupo carismático, onde se destacam o determinado Gerry (Ryan Hurst), o sensível Julius (Wood Harris), o inteligente “Raios de Sol” (Kip Pardue) e o divertido Alan Bosley, interpretado por um ainda jovem Ryan Gosling. Apesar disso, nem sempre os atores conseguem driblar as falhas gritantes do roteiro. Repare, por exemplo, como num instante “Raio do sol” surge intimidado e sem confiança somente para em seguida se transformar num líder nato, capaz de orientar toda a equipe e virar uma partida – esta vibrante partida, aliás, consegue empolgar mesmo com sua pequena duração, o que não acontece na maioria dos jogos.

Entre os atores mais conhecidos, a postura durona e autoritária de Herman Boone combina muito bem com o estilo de Denzel Washington, mas não com a profissão de treinador, já que este método militar e ultrapassado não se encaixa mais aos modelos modernos de liderança. Ainda assim, o competente Washington leva bem a narrativa, ainda que seu personagem chegue bem perto de se tornar antipático. Já o estilo mais humano e intimista de liderar de Bill Yoast consegue recuperar jogadores e aproximá-lo do grupo, mas isto é insuficiente para que ele se torne o “bom moço” diante da plateia, graças exclusivamente a inexpressividade gritante de Will Patton.

Durão e autoritárioMais humano e intimistaClosesAparentemente sem perceber a falta de expressividade de Patton, Yakin abusa de close-ups não apenas dele, mas de todo o elenco. Além disso, ao imprimir um ritmo acelerado e cheio de cortes secos nos treinamentos e jogos, Yakin e seu montador Michael Tronick tornam as sequências confusas, não permitindo que o espectador compreenda o que está acontecendo com clareza – e mais uma vez o excesso de closes do diretor só piora as coisas nestes momentos. Ao menos, o estádio, os uniformes dos jogadores e a iluminação precisa utilizada nas partidas noturnas nos ambientam com precisão ao clima dos jogos, o que é mérito do design de produção de Deborah Evans, dos figurinos de Judy Ruskin Howell e da fotografia de Philippe Rousselot.

Da mesma forma, o design de som merece destaque por permitir que o espectador ouça desde detalhes como o apito e os gritos dos jogadores até os sons mais intensos dos choques entre eles e da vibração da torcida. Por outro lado, apesar de apresentar músicas empolgantes como a que acompanha um treinamento de madrugada, a trilha sonora de Trevor Rabin se excede constantemente, especialmente quando tenta ressaltar algum momento dramático como no ataque à casa de Boone. Além disso, as músicas diegéticas (cantadas pelos atletas) são repetitivas e enjoam.

Repetição, aliás, é uma palavra que define bem “Duelo de Titãs”, já que constantemente temos aquela sensação de estar assistindo mais do mesmo. O desfile de clichês continua com o mais que previsível acidente de Gerry, anunciado assim que ele convida Julius para sair e o amigo se recusa. Tentando conferir naturalidade a sequência, Yakin escorrega ao focar o rosto do garoto olhando para o lado segundos antes da colisão, permitindo que o espectador antecipe o que irá acontecer e, consequentemente, diminuindo o impacto da cena. Seguindo a tendência de todo o filme, a partida final é totalmente previsível e sem graça, permitindo que o espectador antecipe seu resultado muito tempo antes de sua concretização. Fica óbvio que “Rev” (Craig Kirkwood) será um jogador chave na partida desde o instante em que ele pede para jogar a final, assim como fica óbvio que as mudanças dos treinadores trarão resultado imediato no confronto assim que eles “abrem mão do orgulho” e aceitam conselhos. Assim, todos se reconciliam e vivem felizes, como aconteceria em qualquer novela do horário nobre.

Usar o esporte como pano de fundo para abordar um tema tão complicado quanto o preconceito racial é um dos raros trunfos de “Duelo de Titãs”. Infelizmente, no entanto, este acerto é diluído diante de tantos problemas.

Duelo de Titãs foto 2Texto publicado em 19 de Dezembro de 2012 por Roberto Siqueira

JERRY MAGUIRE – A GRANDE VIRADA (1996)

(Jerry Maguire)

3 Estrelas 

Filmes em Geral #94

Dirigido por Cameron Crowe.

Elenco: Tom Cruise, Cuba Gooding Jr., Renée Zellweger, Kelly Preston, Jerry O’Connell, Bonnie Hunt, Jay Mohr, Regina King, Jonathan Lipnicki, Todd Louiso, Mark Pellington, Donal Logue, Eric Stoltz, Lucy Liu e Beau Bridges.

Roteiro: Cameron Crowe.

Produção: James L. Brooks, Cameron Crowe, Laurence Mark e Richard Sakai.

Jerry Maguire - A Grande Virada[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quando decidiu escrever e dirigir “Jerry Maguire”, Cameron Crowe era apenas um ex-colaborador da tradicional revista “Rolling Stone” com dois filmes no currículo. Entretanto, ao apostar na mistura de dois gêneros recheados de clichês e na força do então maior astro de Hollywood, ele finalmente alcançou o sucesso. Com boas atuações, alguns diálogos interessantes e uma abordagem mais humanista de temas batidos, o diretor/roteirista entregou um bom filme, que está longe de ser uma obra-prima, mas nos diverte de maneira delicada e eficiente.

O longa narra a trajetória de Jerry Maguire (Tom Cruise), um agente esportivo picareta e eficiente que, após ser confrontado pelo filho de um jogador lesionado, decide escrever uma declaração sugerindo que os agentes esportivos sejam mais humanos, ganhem menos e deem mais atenção aos seus clientes. Como consequência, ele acaba demitido da agência em que trabalha e acaba abrindo a própria agência, ao lado da também ex-funcionária Dorothy Boyd (Renée Zellweger). O problema é que dentre todos os atletas agenciados por Jerry, somente o jogador de futebol americano Rod Tidwell (Cuba Gooding Jr.) decide continuar com ele.

Se comédias românticas dificilmente conseguem fugir de certos clichês, filmes de esporte não ficam nem um pouco atrás, normalmente trazendo histórias de superação repletas de situações batidas que já estamos mais do que acostumados a ver. Ciente disso, Crowe se mostra inteligente o bastante para não tentar desconstruir estes gêneros, já que esta tarefa exigiria um esforço tremendo e um talento digno de um Tarantino – algo que, convenhamos, Crowe sabe que não é. Ao invés disso, ele aposta numa abordagem mais realista, menos sentimental e mais humana, obtendo um resultado que, se não enche os olhos, ao menos soa sincero e, por isso, agrada.

Ainda assim, Crowe não escapa de situações convencionais dos dois gêneros, mostrando a queda em desgraça do protagonista que, obviamente, se recuperará, o atleta que não é conhecido e que chegará ao sucesso (ainda que, neste caso, seja através de uma situação bem diferente daquela que imaginamos) e o casal que só descobre que se ama de verdade após uma breve separação. Entretanto, se comete alguns equívocos que prejudicam seu trabalho, Crowe ao menos escapa do clichê “mocinha briga com mocinho e deixa a cidade” no último instante ao fazer com que ela fique e se case com ele. No entanto, a briga é apenas adiada e momentos depois eles decidem “dar um tempo”, num diálogo tocante em que Cruise e Zellweger se saem muito bem. Além disso, o igualmente previsível drama que Rod enfrenta no ato final tem um desfecho bem agradável e abre espaço para que Cuba Gooding Jr. abuse de seus maneirismos e exageros sem prejudicar a narrativa, da mesma forma que o esperado reencontro entre Jerry e Dorothy se salva pela forma delicada em que é conduzido pelo diretor – além, é claro, das atuações convincentes da dupla romântica.

Eles decidem dar um tempoDrama de RodReencontroTambém seguindo a fórmula das comédias românticas, a fotografia de Janusz Kaminski investe em cores quentes e cenas diurnas, colaborando para a sensação de bem estar da plateia que é reforçada pela montagem ágil de Joe Hutshing e David Moritz. Igualmente, a econômica trilha sonora aposta em belas músicas como “Secret Garden”, de Bruce Springsteen, para embalar momentos marcantes como a saída de Jerry e Dorothy para um jantar. E se não ganha grande destaque na maior parte do tempo, ao simular as batidas aceleradas do coração de Jerry o design de som nos prepara para uma negociação importantíssima para o futuro dele segundos antes do agente entrar na casa de Cush (Jerry O’Connell), além de se destacar durante as partidas, realçando o barulho das arquibancadas e os choques entre os atletas com precisão.

A abordagem leve da narrativa se confirma através de interessantes tiradas do diretor, como o divertido mentor de Jerry que surge de vez em quando para deixar algumas de suas mensagens motivacionais. Só que, para uma comédia romântica, “Jerry Maguire” tem poucos momentos realmente capazes de provocar o riso, ainda que algumas sequências sejam memoráveis, como quando Jerry grita no telefone (“Show me the Money!”) ou quando Dorothy decide sair da empresa junto com ele, numa cena em que a boa atuação de Cruise ganha ainda mais destaque pelos trejeitos e exageros do ator. Aliás, se a parte técnica e até mesmo a direção de Crowe é discreta, é também porque o diretor sabe que “Jerry Maguire” é um filme essencialmente de personagens e, por isso, são eles que devem brilhar. Empregando constantemente o tradicional plano/contraplano, ele realça o que o longa tem de melhor e evita ofuscar as boas atuações com excesso de virtuosismos. Ainda assim, o diretor utiliza a câmera ágil para nos colocar dentro dos jogos, nos permitindo sentir o calor das partidas.

Jerry Maguire é tão egocêntrico que até mesmo a narração é feita em primeira pessoa. Famoso pela cara de pau com que mente e por enganar qualquer um, ele se beneficia desta fama para conseguir os melhores contratos para seus jogadores – e o sorriso constante de Cruise só colabora para criar esta aura de falsidade no personagem. Agindo com naturalidade em diversos momentos, como quando Jerry tenta cantar diversas músicas no carro até finalmente conseguir encontrar aquela que casa com seu estado de espírito, Cruise confere enorme carisma ao agente, conquistando a plateia quase que instantaneamente, o que é vital para que o espectador torça por seu sucesso profissional e pessoal, a despeito de seus métodos inicialmente desprezíveis. Inteligente, Jerry conquista Dorothy também através de seu filho Ray (Jonathan Lipnicki), afinal, que mãe não gosta de ver alguém tratando bem seu filho? Ele acaba criando tanta afinidade com o garoto que, no fim das contas, é justamente ao vê-lo chorando que Jerry decide propor Dorothy em casamento. Ironicamente, é também o garoto que serve de escudo para que Jerry evite discutir a relação com Dorothy quando fica evidente que ele casou por gratidão e não por amor.

Aura de falsidadeTratando bem seu filhoTímida e atrapalhadaTímida e atrapalhada, a Dorothy de Zellweger se mostra empolgada diante da presença de Jerry desde a saída do avião, ainda na sequência que abre o filme. Constantemente observando casais que trocam carícias, ela escancara sua carência para Jerry de maneira nada sutil, mas compensa sua falta de prática na arte da paquera com grande carisma, desarmando-se completamente enquanto se envolve com o novo chefe. Por isso, chega a ser dolorido acompanhá-los levando aquela relação adiante mesmo sabendo que estão apenas curando sua carência ao lado de outra pessoal igualmente ressentida. E, também por isso, tanto a breve separação quanto o esperado retorno do casal conseguem conquistar o espectador, ainda que seja apenas a repetição de uma velha fórmula do gênero.

Claramente se divertindo no papel, Cuba Gooding Jr. chama a atenção sempre que entra em cena com seu jeito espalhafatoso que cai muito bem no divertido Rod. Seus diálogos com Jerry são sempre envolventes e engraçados, demonstrando a química entre os atores e dando vida a narrativa. Por isso, é uma pena que o roteiro invista pouco na boa dinâmica dos dois, gastando muito tempo no previsível relacionamento entre Jerry e Dorothy. Por sua vez, Bonnie Hunt evita transformar Laurel no estereótipo da irmã mais velha e chata que sente inveja da mais nova, demonstrando carinho e preocupação com ela justamente por não querer vê-la sofrer, mas vibrando com os momentos felizes da irmã (como quando sorri sozinha na janela ao escutar a noite de amor da caçula). E fechando o elenco, Kelly Preston vive a agitada e maluca Avery, a ex-noiva de Jerry que termina com ele por um motivo totalmente artificial e arbitrário inserido pelos roteiristas apenas para liberar o caminho do protagonista.

Longo demais para uma comédia romântica, “Jerry Maguire” ao menos trata a relação entre o casal principal de maneira adulta, tornando seus personagens um pouco mais críveis e aproximando-os da plateia. Com um final alegre, este típico “feel good movie” se destaca também pelas boas atuações, nos divertindo e, ao mesmo tempo, deixando algumas reflexões que podem não mudar o mundo, mas fazem com que o espectador se sinta mais humano.

Jerry Maguire - A Grande Virada foto 2Texto publicado em 18 de Dezembro de 2012 por Roberto Siqueira

CARRUAGENS DE FOGO (1981)

(Chariots of Fire)

3 Estrelas 

Filmes em Geral #93

Vencedores do Oscar #1981

Dirigido por Hugh Hudson.

Elenco: Ben Cross, Ian Charleson, Ian Holm, Alice Krige, Nicholas Farrell, John Gielgud, Cheryl Campbell, Lindsay Anderson, Nigel Davenport, Dennis Christopher e Richard Griffiths.

Roteiro: Colin Welland.

Produção: David Puttnam.

Carruagens de Fogo[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Se você já assistiu qualquer edição dos Jogos Olímpicos ou viu alguma matéria a respeito, certamente também já ouviu a música tema de “Carruagens de Fogo”, mesmo que jamais tenha assistido um minuto sequer do longa vencedor do Oscar de 1982 dirigido por Hugh Hudson. Emblemática, a canção se imortalizou como um dos símbolos da maior competição esportiva do mundo, graças à composição simultaneamente graciosa e imponente do grego Vangelis. É uma pena, portanto, que mesmo apresentando qualidades, no fim das contas o filme seja apenas mais uma entre tantas outras histórias de superação no esporte.

Escrito por Colin Welland, “Carruagens de Fogo” narra a história dos jovens Harold Abrahams (Ben Cross) e Eric Liddell (Ian Charleson), que se destacam nas competições nacionais e acabam sendo convocados para os Jogos Olímpicos de 1924, em Paris. O escocês Eric é missionário e afirma correr em nome de Deus, enquanto Abrahams, inglês descendente de judeus, corre para conquistar a fama e, desta forma, aliviar o preconceito que sofre por sua origem. Derrotado por Eric numa disputa caseira, Abrahams decide contratar o treinador Sam Mussabini (Ian Holm), o que desagrada os líderes da faculdade onde ele treina.

Ainda que o fio condutor da narrativa seja a competição entre Eric e Abrahams, “Carruagens de Fogo” tem uma abordagem mais intimista que toca em outros temas interessantes como a xenofobia e o preconceito contra os judeus, responsável pelo sofrimento de Abrahams evidenciado num jantar com Sybil (Alice Krige), e também contra outros povos, evidente na rejeição dos supervisores de Cambridge ao treinador Sam Mussabini, descendente de italianos e árabes. “Sou inglês em primeiro e último lugar”, afirma Abrahams em certo momento, ilustrando sua preocupação em ser aceito numa sociedade extremamente preconceituosa. Ilustrando este sofrimento de maneira convincente, Ben Cross leva bem o papel, demonstrando ainda a determinação do personagem em sua busca constante pela vitória, que é também uma das marcas de seu concorrente. Essencial nesta busca, o treinador Sam conta com o carisma de Ian Holm, que rouba a cena sempre que surge, passando muita confiança no que diz e convencendo tanto Abrahams quanto o espectador de que ele conhece muito sobre o assunto.

Busca constante pela vitóriaTreinador SamCorda bamba emocionalEvidenciando o peso da religião em sua formação, o Eric de Ian Charleson tenta conciliar sua fé com o prazer pelo esporte, equilibrando-se numa corda bamba emocional que constantemente faz com que ele tenha dúvidas sobre o caminho que deve seguir. Ilustrando este conflito através do semblante e do jeito introspectivo, o ator se sai bem, especialmente quando Eric decide abrir mão de competir no sábado, mostrando-se firme diante do irritado presidente da confederação britânica, num momento que provoca reflexão sobre até onde o estado pode interferir na fé pessoal e vice-versa. Fechando o elenco, temos as mulheres que, de maneiras distintas, interferem no desempenho dos dois atletas centrais. Enquanto Alice Krige confere charme a sua Sybil e se torna mais do que uma namorada para Abrahams, funcionando como conselheira e amiga nos momentos difíceis, a fanática religiosa Jennie interpretada por Cheryl Campbell só colabora para aumentar o dilema do irmão Eric, demonstrando seguir a religião mais por medo do que por convicção – algo que, convenhamos, não é tão incomum.

Conduzindo a trajetória de Eric e Abrahams em paralelo na primeira metade do longa, o diretor Hugh Hudson foca mais nos personagens e em seus dilemas do que na competição entre eles, o que confere um ritmo lento que eventualmente é quebrado pelas competições e, ao mesmo tempo, nos prepara para o encontro deles nos esperados Jogos Olímpicos. Para isto, ele conta com a montagem de Terry Rawlings, que não consegue fugir da abordagem episódica, utilizando até mesmo letreiros para indicar a passagem do tempo e saltar de 1978 para 1924 e, em seguida, para 1919, sobressaindo-se apenas em momentos especiais como os treinamentos e as competições oficiais. Da mesma forma, são raros os momentos em que a direção de Hudson chama a atenção, como quando a câmera passeia pelos personagens na chegada dos alunos a Cambridge. E de tanto utilizar a câmera lenta, Hudson acaba esvaziando o impacto desta técnica no terceiro ato, desgastando o efeito ao longo da projeção.

Por sua vez, os figurinos de Milena Canonero reproduzem com precisão os uniformes utilizados pelos atletas na época e, auxiliados pelos cenários detalhados em Cambridge e pelos carros antigos (design de produção de Jonathan Amberston, Len Huntingford, Anna Ridley e Andrew Sanders), nos jogam para dentro dos anos 20, da mesma forma que o estádio pequeno e os impecáveis trajes formais do público evocam a atmosfera dos primeiros Jogos Olímpicos nas disputas oficiais. Captando esta atmosfera, a fotografia de David Watkin aposta em cores claras e cenas diurnas, destacando-se também nos belos planos que realçam a beleza dos campos escoceses.

Uniformes dos atletasCambridgeAtmosfera dos primeiros Jogos OlímpicosEntretanto, o grande destaque – não apenas da parte técnica, mas de todo o filme – fica para a trilha sonora magistral e inesquecível do ótimo Vangelis, que se tornou um dos símbolos das Olimpíadas com o passar dos anos. Surgindo de maneira econômica, a trilha pontua momentos marcantes dos atletas nas competições através de variações interessantes, utilizando o tema principal somente na abertura e no encerramento de “Carruagens de Fogo”, enquanto acompanhamos aqueles jovens correndo pela praia. Certamente, este casamento perfeito entre som e imagem é um dos melhores momentos do longa, já que, apesar da construção gradual da narrativa, o clímax está bem longe de ser empolgante, nem tanto por ser previsível, mas principalmente devido à condução burocrática de Hudson, que repete a câmera lenta exatamente como fez em todo o filme, com exceção da primeira vez em que acompanhamos Abrahams nas finais dos cem metros rasos – e que, exatamente por isso, é a corrida que mais empolga no ato final.

Ainda que saia da mesmice ao abordar temas interessantes como a xenofobia e o fanatismo religioso e ganhe créditos por priorizar os personagens e não as competições, a belíssima trilha sonora de Vangelis é mesmo o que “Carruagens de Fogo” tem de melhor.

Carruagens de Fogo foto 2Texto publicado em 17 de Dezembro de 2012 por Roberto Siqueira

TRAINSPOTTING – SEM LIMITES (1996)

(Trainspotting)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #146

Dirigido por Danny Boyle.

Elenco: Ewan McGregor, Pauline Lynch, Ewen Bremner, Robert Carlyle, Jonny Lee Miller, Kevin McKidd, Kelly Macdonald e Peter Mullan.

Roteiro: John Hodge, baseado em livro de Irvine Welsh.

Produção: Andrew Macdonald.

Trainspotting - Sem Limites[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um dos grandes problemas de filmes que abordam o mundo das drogas é que, na tentativa de deixar uma mensagem que ajude a afastar as pessoas do vício, eles acabam distanciando-se da realidade e, por consequência, perdem a credibilidade junto àqueles que conhecem o tema. Pois o fato é que para o viciado, o mundo das drogas é alegre, divertido e colorido num primeiro momento e, em alguns casos, pode levar anos para se transformar de fato num pesadelo. Por isso, ao exagerar nas consequências do vício, certos filmes acabam soando falsos e trabalham no sentido contrário ao desejado. Não é o que acontece neste interessante “Trainspotting – Sem Limites”, que evita a panfletagem e o moralismo barato ao trazer o mundo sob o olhar dos viciados, ainda que não fuja à responsabilidade de mostrar as graves consequências do uso constante de heroína para alguns personagens do grupo.

Baseado em livro homônimo de Irvine Welsh, o roteiro de John Hodge narra a história sob a perspectiva de Mark Renton (Ewan McGregor), um jovem escocês que, para escapar da vida entediante e frustrante de sua cidade, se entrega ao uso da heroína ao lado dos amigos Spud (Ewen Bremner), Lizzy (Pauline Lynch), Sick Boy (Jonny Lee Miller) e Tommy (Kevin McKidd). Entre pesadas sessões e idas aos bares, o grupo se mete em diversas confusões, ainda mais quando o estourado Begbie (Robert Carlyle) está por perto. Só que a chegada da garota Diane (Kelly Macdonald) fará com que Renton pense em seguir novos caminhos.

Desde os primeiros instantes de “Trainspotting”, Danny Boyle evidencia que tentará simular a euforia de seus personagens através do visual e do ritmo insano de sua narrativa, empregando constantemente a aceleração da imagem num ritmo histriônico que já deixava claro seu estilo inquieto e exagerado de dirigir. Neste caso, porém, este estilo casa perfeitamente com os personagens e funciona muito bem – algo que não acontece, por exemplo, em outros bons filmes como “127 horas” ou “Quem Quer Ser um Milionário?”. Auxiliado pela montagem rápida e empolgante de Masahiro Hirakubo, o diretor cria momentos memoráveis, como a sequência em que todos (ou quase todos) os amigos transam – na qual, aliás, Boyle faz questão de mostrar órgãos genitais em profusão. Além disso, ele filma as baladas com intensidade, utilizando câmeras subjetivas para nos colocar dentro da pista e, com o auxilio de excelentes músicas, fazer com que o espectador se sinta vivo – vale notar também as curiosas legendas utilizadas para reforçar o que está sendo dito pelos personagens devido ao volume da música ambiente.

Todos os amigos transamDentro da pistaCuriosas legendasA trilha sonora, aliás, é um capitulo a parte. Na tentativa de ilustrar a euforia do grupo, Boyle fez uma verdadeira seleção de músicas empolgantes que vão de clássicos do rock britânico como Iggy Pop até sucessos da cena Techno como Underworld, criando inúmeras sequências memoráveis que casam perfeitamente a canção com as imagens, como a cena de abertura em que os jovens surgem correndo pelas ruas. Por sua vez, a fotografia de Brian Tufano contrasta as cores chamativas das viagens de heroína com as tonalidades frias e acinzentadas tão comuns na Escócia que predominam quando os jovens tentam deixar o vício, refletindo a tristeza deles quando estão distantes da droga.

Cena de aberturaViagens de heroínaJovens tentam deixar o vícioPor outro lado, o ambiente escuro e sombrio em que eles se drogam só ganha vida no apertado espaço em que compram heroína, onde o vermelho ganha destaque e realça o aspecto infernal do local. Repleto de objetos espalhados pelo chão, o ambiente é apenas mais um entre os vários que ilustram a degradação do grupo, contrastando diretamente com os apartamentos limpos e claros que Renton vende em Londres e realçando o bom trabalho de design de produção de Kave Quinn. Finalmente, os figurinos de Rachael Fleming auxiliam em nossa imersão naquele ambiente ao utilizar roupas bem joviais como calças jeans e camisetas básicas.

Ambiente escuro e sombrioAspecto infernalApartamentos limpos e clarosMas se por um lado o trabalho técnico é todo voltado para nos proporcionar a mesma euforia de Renton e seu grupo, por outro os personagens nada simpáticos que permeiam a narrativa reequilibram a balança, fazendo com que o espectador reflita um pouco mais a respeito do que vê. Utilizando a narração de Ewan McGregor por todo o filme, Boyle evidencia desde o início que Renton será o personagem central da trama, injetando adrenalina na plateia enquanto acompanhamos o garoto correndo pela cidade. Por isso, o desempenho de McGregor é essencial para o sucesso do longa e, felizmente, o ator consegue carregar a trama com facilidade. Sendo assim, Boyle se sente a vontade para nos colocar na posição dele em diversos instantes, como quando as alucinações chegam ao auge após seu tratamento, numa cena inspirada em que praticamente todos os personagens surgem no quarto enquanto ele sofre com a forte crise de abstinência.

Garoto correndo pela cidadeAlucinações chegam ao augeForte crise de abstinênciaAs alucinações, aliás, trazem alguns dos melhores momentos de “Trainspotting”, como a viagem de Renton pelo banheiro, que é capaz de revirar qualquer estômago, assim como o café da manhã escatológico de Spud. Entretanto, estes momentos de humor negro abrem espaço para a tragédia na chocante morte do bebê de Lizzy, que ilustra perfeitamente os problemas que o vício pode trazer, chegando a provocar náuseas quando o grupo não encontra outra saída para aliviar a dor que não seja usar mais uma vez a heroína – e, neste aspecto, a boa atuação do restante do elenco colabora bastante para o resultado final. É a degradação total.

Viagem de Renton pelo banheiroCafé da manhã escatológicoChocante morte do bebê de LizzyOscilando entre a euforia e a tristeza, a vida de Renton segue indefinida até que Diane surge em sua vida e, sem querer, lhe dá a dica que pode mudar seu destino. Após deixar os amigos para trás e mudar-se para Londres, ele consegue emprego e escapa ileso dos perigos que o cercavam, mas apenas por pouco tempo. Após seu sucesso, era apenas uma questão de tempo para que seus amigos fossem atrás dele. No entanto, aparentemente Renton estava mesmo mudado e, com inteligência, ele consegue se livrar deles outra vez. Só que a morte de Tommy traz todos de volta a Escócia e, desta reunião, surge uma oportunidade de ganhar dinheiro fácil que eles não irão desperdiçar. Renton é sugado pelos amigos de volta às drogas e, neste instante, o espectador se questiona se este não seria um caminho sem volta.

Consegue emprego e escapa ilesoReuniãoRenton é sugado de volta às drogasMas Boyle não está preocupado em criar rótulos ou em transformar “Trainspotting” num libelo antidrogas e, desta complicada situação, nasce uma sequência tensa e marcante onde acompanhamos a negociação dos jovens com experientes traficantes e, em seguida, a comemoração no bar onde mal podemos prever o que acontecerá somente por causa da troca de olhares e do diálogo dos personagens. Em seguida, a traição de Renton não nos surpreende tanto quanto o sentimento de satisfação parcial que surge ao vê-lo agindo daquela maneira – e este sentimento é reforçado pelo plano final em que Spud é recompensado. Boyle encerra o longa com uma excelente rima narrativa que remete a abertura, nos jogando pra fora da projeção com um estranho sentimento de euforia que, erroneamente, faz com que muitas pessoas acusem o filme de fazer apologia às drogas.

Negociação dos jovensComemoração no barTraição de RentonNa verdade, Boyle fez um excelente estudo sobre o vício, sem se colocar a favor ou contra ele. Somos nós que devemos tirar nossas conclusões após tudo que vimos – e isto é ótimo.

Trainspotting - Sem Limites foto 2Texto publicado em 13 de Dezembro de 2012 por Roberto Siqueira