DURO DE MATAR – A VINGANÇA (1995)

(Die Hard With a Vengeance)

 

Videoteca do Beto #129

Dirigido por John McTiernan.

Elenco: Bruce Willis, Jeremy Irons, Samuel L. Jackson, Graham Greene, Colleen Camp, Larry Bryggman, Anthony Peck, Nicholas Wyman, Sam Phillips, Kevin Chamberlain, Sharon Washington, Stephen Pearlman e Michael Alexander Jackson.

Roteiro: Jonathan Hensleigh, baseado nos personagens criados por Roderick Thorp.

Produção: John McTiernan e Michael Tadross.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após fazerem sucesso no cultuado “Pulp Fiction”, Bruce Willis e Samuel L. Jackson voltaram a atuar juntos (desta vez contracenando, o que quase não acontece no longa de Tarantino) sob a direção de John McTiernan, responsável pelo primeiro e melhor filme da franquia “Duro de Matar”. Só que todos estes elementos não foram suficientes para que “Duro de Matar – A Vingança” repetisse o feito do primeiro filme. Com uma narrativa menos inspirada, o longa se sustenta no carisma de seu protagonista e nas boas sequências de ação, mas está longe de ser um grande filme.

Escrito por Jonathan Hensleigh, “Duro de Matar – A Vingança” nos apresenta logo de cara uma explosão que serve para estabelecer o novo vilão como uma ameaça real e perigosa. Momentos depois, ele liga para a polícia, se apresenta como Peter Krieg (Jeremy Irons) e exige a presença de John McClane (Bruce Willis), que é encontrado bêbado e separado da mulher. O vilão passa então a brincar com McClane através de charadas e, logo na primeira delas, o dono de um estabelecimento chamado Zeus (Samuel L. Jackson) se envolve acidentalmente no caso e passa a ajudar McClane.

Apostando na volta da família Gruber (agora na pele do irmão interpretado por Jeremy Irons) após o sucesso do marcante vilão interpretado por Alan Rickman em “Duro de Matar”, o roteiro de Hensleigh acerta ao abusar do artifício “pista e recompensa”, por exemplo, através do distintivo “6991”, do nome da escola onde está uma bomba e da aspirina que entrega o paradeiro do vilão no terceiro ato. Por outro lado, a narrativa falha pelo excesso de momentos implausíveis, como aquele em que McClane é expelido de um túnel cheio d’água bem no momento em que Zeus passava pela rua, numa coincidência inimaginável numa cidade enorme como Nova York. Este tipo de artifício também existe nos filmes anteriores, é verdade, mas é amenizado por narrativas mais envolventes e cenas de ação mais impressionantes, algo que infelizmente não acontece neste “Duro de Matar – A Vingança”, o que acaba destacando os exageros do roteiro justamente pela falta de momentos marcantes e/ou cenas memoráveis. Mas se falha neste aspecto, Hensleigh se redime ao criar um interessante código de ética nos vilões, que brigam para não deixar bombas no alcance de crianças e deixam Zeus partir em certo momento, o que os torna menos unidimensionais e, consequentemente, mais interessantes.

Mesmo com mais de duas horas de duração, “Duro de Matar – A Vingança” jamais se torna entediante, graças ao bom ritmo imprimido pela montagem de John Wright e pela condução direta de McTiernan. Com cenas dinâmicas e bem conduzidas, como a sequência em que McClane e Zeus atravessam a cidade num taxi (e na contramão!) ou a sequência dentro do metrô, o longa apresenta um ritmo ágil, que prende nossa atenção. Por outro lado, o diretor não consegue transformar estas cenas em momentos de forte impacto, o que é uma falha considerável num filme de ação. Observe, por exemplo, um dos raros momentos em que McTiernan consegue criar tensão, quando o telefone toca enquanto um policial claramente aterrorizado aponta uma arma para Zeus, que precisa atender a chamada telefônica e evitar a explosão de uma bomba no metrô. A cena é lenta, mas bastante tensa e muito bem conduzida por McTiernan, servindo como referência para o potencial que a trama tinha, não aproveitado pelo diretor.

Mantendo a ação banhada pela luz do dia na maior parte do tempo, a fotografia de Peter Menzies Jr. só aposta na noite e na escuridão no ato final, numa tentativa tardia de ampliar a tensão. Já a trilha sonora de Michael Kamen segue a cartilha dos filmes de ação com seus acordes rápidos e altos, mostrando originalidade apenas na referencia à trilha clássica de “Dr. Fantástico” todas as vezes que os alemães aparecem sozinhos – especialmente a mulher de Gruber.

Mas se erra a mão na condução de algumas cenas de ação, McTiernan acerta no desenvolvimento dos personagens, a começar pelo vilão, que se não chega a aterrorizar como Hans Gruber no primeiro filme, é claramente um vilão mais respeitável que o coronel Stuart de “Duro de Matar 2”. Após acompanharmos os policiais se espalhando pela cidade do alto de um prédio diante da ameaça de uma bomba numa escola, a câmera faz um rápido movimento e revela Peter Gruber, que observa tudo à distância antes de iniciar a execução de seu audacioso plano. Sempre talentoso, Irons cria um vilão interessante e nada unidimensional, como podemos perceber quando manda liberar Zeus, quando atira na perna dele para não matá-lo e, especialmente, quando descobrimos que não existe bomba na escola (“Não sou um monstro”, diz). Apesar de sua ética peculiar, Gruber não deixa de soar ameaçador, especialmente no início, quando sugere não ter interesse em dinheiro – o que limita bastante as ações da polícia. E até mesmo suas charadas surgem como uma novidade interessante, mas infelizmente perdem a força ao longo da narrativa.

Sempre carismático na pele de John McClane, Bruce Willis mantém as características marcantes do personagem, como o mau-humor, a humanidade e a capacidade de rir das situações absurdas em que se envolve involuntariamente. Separado da mulher, ele surge bêbado e largado, mas é rapidamente envolvido no caso (a pedido do próprio criminoso), permitindo ao espectador se deliciar com suas tiradas e suas decisões nem sempre corretas, como quando decide perseguir os criminosos num túnel, somente para ser surpreendido pela água da represa e quase morrer afogado. Entretanto, desta vez McClane ganha à companhia de Zeus, um comerciante acidentalmente envolvido no caso num incidente no Harlem. Com uma irritante síndrome de perseguição que o impede de ver seu próprio racismo (algo que McClane aponta em certo momento), o Zeus de Samuel L. Jackson surge como uma espécie de parceiro de McClane (algo como Murtaugh e Riggs em “Máquina Mortífera”) e consegue sucesso neste sentido. O problema é que McClane é um personagem fascinante, que não precisa de companhia para funcionar, mas nem por isso a presença de Zeus compromete. Também mal-humorado e com boas tiradas, ele é responsável por momentos divertidos, como quando informa que o carro tem airbag no lado do motorista e olha assustado prevendo a ação de McClane, que salta de uma ponte em alta velocidade. Fechando o elenco, é sempre interessante ver Graham Greene, o eterno “Pássaro Esperneante” de “Dança com Lobos”, que aqui surge como o policial Joe Lambert.

Um dos acertos da série “Duro de Matar” está na constante sensação que temos de que McClane não conseguirá ter sucesso em sua empreitada. Tememos por seu destino, justamente porque ele parece alguém real e vulnerável, e não um herói invencível. Neste terceiro filme esta sensação é ainda mais forte, especialmente após a sequência no navio – e confesso que eu teria curtido mais se o filme acabasse com McClane no telefone, admitindo o sucesso do plano de Gruber, num final que seria bastante original. Infelizmente, o roteiro aposta na fórmula tradicional e uma última pista nos leva ao tradicional confronto entre vilão e mocinho, com a vitória mais que esperada de McClane.

Apesar do final convencional e dos clichês do gênero, “Duro de Matar – A Vingança” é um bom filme de ação, que se sustenta especialmente na química entre Willis e Jackson e no carisma de seu protagonista. Por outro lado, suas cenas de menor impacto e sua narrativa menos envolvente que nos filmes anteriores transformam este no filme menos interessante da série até então.

Texto publicado em 07 de Junho de 2012 por Roberto Siqueira

DON JUAN DEMARCO (1995)

(Don Juan DeMarco)

 

Videoteca do Beto #128

Dirigido por Jeremy Leven.

Elenco: Marlon Brando, Johnny Depp, Faye Dunaway, Géraldine Pailhas, Bob Dishy, Rachel Ticotin, Talisa Soto, Richard C. Sarafian, Stephen Singer, Franc Luz, Carmen Argenziano e Jo Champa.

Roteiro: Jeremy Leven, baseado em personagem criado por Lord Byron.

Produção: Francis Ford Coppola, Fred Fuchs e Patrick J. Palmer.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A comédia romântica já foi explorada tantas vezes em Hollywood que é difícil não torcer o nariz antes de assistir qualquer filme que insinue pertencer ao gênero, até porque é raro balancear romance e comédia sem abusar dos clichês ou, pelo menos, utilizá-los de maneira mais criativa. Felizmente, “Don Juan DeMarco” é mais uma prova de que é possível fazer uma boa comédia romântica sem apelar para fórmulas bobas e repetitivas, provando ainda que o pré-julgamento é um erro que jamais devemos cometer, sob a pena de perdermos bons filmes por puro preconceito.

Escrito e dirigido por Jeremy Leven, “Don Juan DeMarco” tem óbvia inspiração no lendário personagem homônimo famoso por conquistar milhares de mulheres nos séculos passados. Só que diferente da versão criada por Lord Byron, o Don Juan de Leven vive nos dias atuais. Pelo menos é o que afirma um jovem que deseja se matar (Johnny Depp), que jura ser o famoso amante Don Juan, mas é convencido a desistir do suicídio pelo psiquiatra Jack Mickler (Marlon Brando), que passa a cuidar de seu caso desde então, mas que tem apenas 10 dias para tratá-lo, pois está se aposentando. No tratamento, a forma como o paciente vê o amor começa a influenciar o comportamento do médico e afetar até mesmo sua relação com a esposa (Faye Dunaway).

Obviamente, sabemos que aquele jovem não pode ser o famoso conquistador que, segundo a lenda, viveu há muitos anos atrás, mas “Don Juan DeMarco” aproveita muito bem sua premissa para nos apresentar um personagem complexo, que literalmente inventou uma nova personalidade como forma de lidar melhor com seus traumas da infância e adolescência, já que ele perdeu o pai num acidente e sua mãe internou-se num convento buscando apagar seu passado de traição ao marido. Além da interessante premissa de seu roteiro, Leven busca inspiração no famoso amante para construir belas frases que buscam tratar a mulher como o mais especial dos seres, elevando-a ao status quase de divindade, construindo ainda diálogos cativantes, como aquele em que Dr. Jack pergunta sobre os sonhos que sua esposa deixou para trás, pecando apenas ao criar personagens unidimensionais na equipe de médicos, algo que fica evidente na reação exagerada da equipe após a liberação de “Don Juan”.

Graças ao bom trabalho do montador Antony Gibbs, a narrativa alterna num ritmo interessante entre o presente no hospital psiquiátrico e o passado de Don Juan – repare como a fotografia de Ralf D. Bode oscila das cores mais frias do presente para as cores quentes que reforçam a aura gloriosa das histórias contadas por ele, como na ilha “Eros”, onde lindos planos apresentam o breve romance com Doña Ana (Géraldine Pailhas). Apresentando curiosas variações para a música tema de Bryan Adams (“Have you ever really loved a woman”), a trilha sonora de Michael Kamen e Robert John Lange complementa a atmosfera romântica e a direção de arte de Jeff Knipp nos ambienta em cada época e local, passando pelos dias atuais nos EUA, pelas histórias no México e pelas arábias. Já a roupa que remete ao famoso personagem mascarado é mérito dos figurinos de Kirsten Everberg.

Apesar de alguns movimentos de câmera interessantes – especialmente no México, como quando a câmera diminui a família DeMarco na morte do pai dele -, Leven não se sai tão bem atrás das câmeras, falhando, por exemplo, ao não conseguir extrair uma atuação mais leve do excepcional Marlon Brando, que às vezes parece estar atuando no piloto automático (o que, vindo dele, ainda assim garante uma boa atuação). Mas Leven compensa esta falha balanceando bem os momentos românticos, como a história do primeiro amor de Don Juan, e a parte cômica da narrativa, como a divertida passagem em que ele é escolhido por uma sultana e vive num harém. Apostando alto no bom humor, especialmente nos momentos que envolvem mulheres se derretendo diante do protagonista, Leven consegue conquistar o espectador, graças também ao carisma de Johnny Depp.

Logo em sua primeira aparição, o “Don Juan” de Depp apresenta ao espectador seu poder de sedução ao conquistar uma bela moça no restaurante, fazendo-a delirar somente acariciando suas mãos (numa cena excelente, aliás). Com um engraçado sotaque castelhano, Depp conquista a platéia com seu carisma, algo bem explorado pelo diretor, que faz questão de destacar o ator através do uso constante de closes. Mas nem só de sua aparência vive o talentoso Depp e ele já deixava isto claro na época, numa boa atuação que já nos apresentava seu timing cômico, notável, por exemplo, na divertida reação dele quando Ana pergunta quantas mulheres Don Juan já teve. Suas histórias parecem hipnotizar o Dr. Jack, algo louvável se considerarmos que o psiquiatra é interpretado por ninguém menos do que a lenda Marlon Brando.

Mesmo parecendo desinteressado em alguns momentos, Brando mostra porque é considerado um dos maiores atores da história, atuando com naturalidade e fazendo de seu Dr. Mickler um personagem interessante, com uma trajetória lenta e consistente de mudança interior. Seguro, ele se destaca em alguns momentos especiais, como quando se comove com a história da morte do pai de Don Juan e especialmente quando demonstra carinho pela esposa, interpretada pela também carismática Faye Dunaway, que demonstra bem a surpresa que a mudança do marido provoca na personagem.

O último dia de trabalho do Dr. Jack marca também a data da análise de seu paciente pela comissão do hospital psiquiátrico. E pra surpresa geral (até mesmo da platéia), ele age normalmente na entrevista final, contrariando a expectativa criada até então. A versão coerente de sua história convence o médico de que ele não tem problema algum e garante sua liberação. Mas quem quer coerência naquela altura da narrativa? Neste instante, já estamos convencidos de que o melhor mesmo é dar asas a imaginação e se entregar ao amor, aos mais íntimos sentimentos, aquilo que os olhos não podem ver, mas que o coração pode sentir. Por isso, o final feliz da fábula na ilha de Eros é facilmente explicável: nas palavras do Dr. Jack, aquele jovem sofria de um romantismo incurável e altamente contagioso. Por isso, somos capazes de ignorar a realidade e entrar naquela fantasia – e eu fui apenas mais um espectador infectado por ele.

Leve e contagiante, “Don Juan DeMarco” é uma comédia romântica cativante, que, assim como seu personagem título, carrega alguma magia inexplicável e nos faz sair da projeção com o romantismo renovado. Aquele jovem era mesmo Don Juan? Como diz a mãe do protagonista em certo instante, a verdade está dentro de nós mesmos. A razão nos prova que não, mas às vezes vale à pena enxergar além do que nossa limitada visão nos permite ver.

Texto publicado em 30 de Maio de 2012 por Roberto Siqueira

DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE (1995)

(The Basketball Diaries)

 

Videoteca do Beto #127

Dirigido por Scott Kalvert.

Elenco: Leonardo DiCaprio, Lorraine Bracco, Mark Wahlberg, James Madio, Patrick McGaw, Juliette Lewis, Michael Imperioli e Ernie Hudson.

Roteiro: Bryan Goluboff, baseado em romance de Jim Carroll.

Produção: Liz Heller e John Bard Manulis.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Freqüentemente, Leonardo DiCaprio é acusado por cinéfilos desavisados de ser apenas um rostinho bonito que explodiu após o sucesso avassalador de Titanic, como se as excelentes escolhas que ele faz na carreira e o óbvio talento demonstrado não significassem nada. Entretanto, basta assistir aos filmes anteriores ao sucesso de James Cameron para constatar como ele já demonstrava talento muito antes da fama, como comprova este “Diário de um Adolescente”, drama inspirado na história real do músico e poeta Jim Carroll.

Escrito por Bryan Goluboff baseado em romance do próprio Carroll, “Diário de um Adolescente” mostra a trajetória nada agradável de seu protagonista (Leonardo DiCaprio) rumo ao fundo do poço, após conhecer e se encantar pelo mundo das drogas. Mas, se por um lado o envolvimento pessoal do verdadeiro Carroll confere peso à narrativa – os trechos narrados por DiCaprio, por exemplo, foram gravados pelo próprio poeta -, por outro a forma exagerada que estes fatos são apresentados distancia o longa da realidade, ainda que Goluboff acerte ao retratá-lo como um jovem talentoso, já que Carroll, além de liderar a banda “The Jim Carroll Band”, é responsável por seis livros que vão de poemas a autobiografias.

Responsável por captar em imagens esta alma romântica do protagonista e, ao mesmo tempo, retratar a degradação física e psíquica do personagem, Scott Kalvert se sai razoavelmente bem na direção, mas falha na condução de aspectos relevantes da narrativa que abordaremos em instantes. Entretanto, o diretor é competente na criação de cenas de impacto, especialmente quando retrata os efeitos do uso das drogas, errando em raros momentos como a pouco convincente briga dos garotos na saída de um restaurante. O diretor acerta também na condução dos jogos de basquete, imprimindo um bom ritmo e transmitindo o calor da partida com eficiência ao colocar a câmera na linha de visão dos jogadores – colabora também o bom design de som, que cria o ambiente ideal para os jogos. Caprichando também na estilização de muitas cenas, como no sonho do massacre na escola em que Jim entra em câmera lenta atirando nos alunos, o diretor reequilibra a balança ao exagerar em outros instantes, como no jogo de basquete embalado pela clássica “Riders on the Storm”, do The Doors, em que os garotos mal conseguem pegar na bola. E são justamente estes exageros que distanciam a mensagem transmitida pela narrativa da realidade e reduzem o impacto do filme sobre o espectador.

Kalvert conta também com o apoio técnico de sua equipe para transmitir algumas das sensações dos personagens, através das ruas sujas da escola e do bairro onde Jim vive que contrastam com as ruas limpas e largas que cercam o ginásio de esportes, ilustrando onde ele se sentia feliz (mérito da direção de arte de Christopher Nowak). Da mesma forma, a trilha sonora agitada de Graeme Revell, composta por algumas músicas da banda do próprio Jim, funciona em muitos momentos ao transmitir a adrenalina daqueles jovens, assim como a fotografia de David Phillips acerta ao iluminar os momentos iniciais, quando os garotos se divertem jogando basquete e pulando no rio, contrastando diretamente com a escuridão da fase decadente do grupo, notável após a morte de Bobby (Michael Imperioli), com a noite fria e chuvosa e os figurinos pesados dos personagens ilustrando a dor de Jim (figurinos de David C. Robinson). Aliás, o próprio diretor se encarrega de ilustrar esta diferença, filmando inicialmente com a câmera levemente inclinada em ângulo baixo enquanto acompanha os personagens saindo da escola, sob a luz do sol e embalados pela trilha agitada, transmitindo a sensação de poder que aqueles jovens estavam sentindo, o que contrasta com os closes freqüentes que realçam a degradação deles no terceiro ato e transmitem a sensação claustrofóbica pretendida por Kalvert.

Infelizmente, Kalvert e seu montador Dana Congdon erram ao acelerar demasiadamente a transformação de Jim de um garoto normal em viciado, apresentando uma droga após a outra rapidamente, como se quisessem levá-lo logo ao fundo do poço, o que soa forçado e pouco convincente (repare como ele salta da cocaína para a heroína e as drogas sintéticas em poucos minutos). Por outro lado, a montagem demonstra elegância em algumas transições, como quando a imagem da mãe de Jim é substituída pela imagem da virgem Maria. E se erra na velocidade com que conduz o processo de degradação de Jim, Kalvert acerta na maneira cadenciada com que desenvolve o relacionamento dos quatro amigos, aproximando aquele grupo do espectador e fazendo com que este se importe com eles.

Obviamente, esta aproximação conta também com o talento do ator responsável por viver o problemático protagonista. Com uma atuação eficiente e alguns momentos realmente marcantes, DiCaprio carrega o papel com facilidade, numa atuação que já dava sinais do grande ator que ele viria a ser – algo, aliás, que já havia acontecido antes em filmes como “Gilbert Grape, aprendiz de sonhador” e “O Despertar de um Homem”. Repare, por exemplo, sua convincente reação após usar cocaína, tremendo, fungando e mexendo a língua como quem tem a boca seca, mal conseguindo abrir os olhos enquanto procura por remédios no banheiro. Transitando com naturalidade do dócil Jim do início para o agressivo garoto que encerra o longa, o ator contorna os problemas causados pela citada transformação acelerada do personagem e convence no papel. Entre os momentos impressionantes de sua atuação, certamente a forte crise de abstinência na casa de Reggie (Ernie Hudson) e a comovente cena em que volta pra casa e implora pela ajuda da mãe (Lorraine Bracco) se destacam, com o ator transmitindo a dor do personagem de maneira muito convincente.

Também demonstrando talento precocemente, Mark Wahlberg convence como o valentão Mickey, o mais conturbado dos amigos de Jim, saindo-se bem em momentos difíceis como nas duas vezes em que eles precisam abandonar a cena de um crime – repare sua voz ofegante num bar após abandonar Pedro, indicando seu cansaço pela corrida e sua tensão. Vale destacar ainda a boa atuação de Ernie Hudson, que confere firmeza e carisma ao ex-viciado Reggie, e Juliette Lewis que, como sempre, se sai muito bem no papel de drogada, mas a redenção de sua Diane soa artificial, especialmente pela rapidez com que esta transformação acontece. Fechando o elenco, James Madio vive o inseguro Pedro e Patrick McGaw interpreta Neutron, o único dos quatro amigos que não se afunda nas drogas.

De certa maneira, “Diário de um Adolescente” tenta forçar uma mensagem moralista, falhando justamente por se distanciar da realidade através de alguns exageros. Por isso, dificilmente alguém evitará o mundo das drogas após assisti-lo. Em todo caso, se falha em seu propósito de “ensinar” os jovens sobre os perigos das drogas, ao menos sua narrativa tem força suficiente para nos envolver.

A cena final, com Jim falando diretamente para a câmera, comprova a intenção de doutrinar a platéia de “Diário de um Adolescente”, mas este excesso de moralismo não arruína completamente a experiência graças à ótima atuação do elenco e a profundidade dramática da história que o inspirou.

Texto publicado em 21 de Maio de 2012 por Roberto Siqueira

DESPEDIDA EM LAS VEGAS (1995)

(Leaving Las Vegas)

 

Videoteca do Beto #126

Dirigido por Mike Figgis.

Elenco: Nicolas Cage, Elisabeth Shue, Julian Sands, Richard Lewis, Steven Weber, Kim Adams, Emily Procter e Valeria Golino.

Roteiro: Mike Figgis, baseado em livro de John O’Brien.

Produção: Lila Cazès e Annie Stewart.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Desde os primeiros minutos de “Despedida em Las Vegas” o espectador é envolvido por sua atmosfera melancólica, que reflete a triste e crítica situação de seu protagonista, interpretado brilhantemente por Nicolas Cage. Tratando o alcoolismo com seriedade, o longa dirigido por Mike Figgis acerta ao não julgar o viciado, ao mesmo tempo em que não alivia ao mostrar as sérias conseqüências de seu vicio. Completado ainda por uma trilha sonora belíssima e pela ótima atuação de Elisabeth Shue, este filme singelo nos deixa um gosto amargo na boca e uma mensagem forte para reflexão.

Escrito pelo próprio Mike Figgis, o longa esteve perto de sequer ser realizado, porque John O’Brien, o autor do livro em que é baseado, suicidou-se apenas dois meses após o lançamento de sua obra. Esta informação de bastidores é vital para compreender o clima que permeia toda a projeção. Estamos falando da obra de um homem que sabia estar próximo do fim (ou pelo menos tinha esta sensação) e Figgis é extremamente competente na transposição deste sentimento para a tela grande. O resultado é um longa eficiente, tocante e que nos atinge como um soco ao mostrar o viciado como alguém doente, sem qualquer capacidade de controle sobre seu vicio. Ao virarmos as costas para estas pessoas, estamos apenas empurrando-as um pouco mais pra perto do abismo.

Em “Despedida em Las Vegas”, acompanhamos Ben (Nicolas Cage), um roteirista alcoólatra abandonado por esposa e filho que, após ser demitido, decide mudar-se para Las Vegas e beber até morrer. Lá, ele conhece Sera (Elisabeth Shue), uma prostituta que compreende sua situação e lhe abre as portas de sua casa. Juntos, eles viverão momentos marcantes, porém ambos sabem que o processo de deterioração de Ben já é irreversível. “Eu não lembro se comecei a beber porque minha mulher me deixou ou se minha mulher me deixou porque comecei a beber”, ele diz em certo momento. De fato, o roteiro jamais explica porque sua esposa o abandonou, mas a foto de sua família deixada na fogueira antes de sua partida indica um passado feliz. Só que este passado é deixado para trás, queimando na fogueira ou largado dentro de sacos de lixo, enquanto Ben viaja para Las Vegas.

O sucesso do trabalho de Figgis passa por sua direção competente, repleta de closes que realçam as fortes atuações de seus protagonistas. Detalhista, o diretor se preocupou até mesmo em compor a melancólica trilha sonora, repleta de jazz e que traz ainda duas lindas canções interpretadas por Sting, nos mergulhando ainda mais no triste mundo de Ben. O uso constante da câmera lenta e o predomínio de cenas noturnas colaboram na criação desta atmosfera sufocante que, associada ao ritmo corretamente desacelerado da montagem de John Smith, reflete as sensações daquele homem que lentamente se suicida. Além disto, a excelente fotografia de Declan Quinn abusa dos tons de vermelho, refletindo o inferno astral daquelas duas pessoas tristes, aproveitando também as luzes da noite de Las Vegas, que carregam alguma nostalgia e ilustram a melancolia que predomina a narrativa. E novamente Figgis confirma sua competência captando tudo isto com precisão através de sua câmera.

Talvez a imagem que mais apareça em “Despedida em Las Vegas” seja a de Ben com uma garrafa na mão, o que, para quem não conhece a trágica conseqüência do vicio, pode soar exagerado. Não é. Figgis retrata com precisão a necessidade constante que o alcoólatra tem de estar bebendo. Só que todo este cuidado do diretor poderia ser prejudicado caso o ator principal não fosse alguém tão talentoso. Em atuação excepcional, Nicolas Cage retrata um alcoólatra com precisão, através do olhar desfocado, das tremedeiras e das crises constantes que o levam a beber sempre mais e mais, acertando em praticamente tudo, desde os momentos que pedem uma atuação mais forte, como a impressionante crise no cassino, seguida pela tremedeira enquanto ele se arrasta até a geladeira, até os momentos minimalistas, como quando Ben, de costas, tropeça levemente na escada rolante, mostrando a falta de reflexos provocada por seu constante estado alcoolizado. Sua mente conturbada é refletida até mesmo na pilha de papéis em sua mesa de trabalho (direção de arte de Barry Kingston) e ele tem consciência disto, tanto que mal reage à sua demissão – em outro momento comovente da atuação de Cage.

Esta grande atuação encontra o contraponto ideal no excelente desempenho de Elisabeth Shue, que compõe uma Sera igualmente solitária e triste, que parece compreender mais o drama de Ben do que ele compreende o dela. A atriz também entrega uma atuação caprichada, que se preocupa com pequenos detalhes, como quando Sera evita olhar diretamente para a câmera enquanto fala sobre sua performance sexual ou em sua comovente expressão quando pede para Ben mudar pra casa dela. Cage e Shue ilustram a tristeza dos personagens em seus semblantes carregados, algo que Figgis capta muito bem empregando constantemente o citado close-up. Em certo momento, Ben diz que “mais cedo ou mais tarde vamos transar” e Sera responde: “seja lá o que isto quer dizer”. O sexo era o que menos importava naquela relação e isto fica evidente quando Ben pede para Sera parar o sexo oral e apenas conversar, derrubando uma lágrima dos olhos emocionados dela, em outra cena linda, embalada pela excelente trilha. Eles precisavam muito mais de companhia e compreensão do que de prazer.

Esta falta de apetite sexual, entretanto, não quer dizer desinteresse, refletindo apenas o devastado estado emocional dele. Repare, por exemplo, como Ben mal consegue segurar o copo em um jantar, mas se antecipa ao pegar o isqueiro para Sera antes que ela perceba, mostrando que presta atenção nela. Eles se importavam muito um com o outro. Mas este cuidado começa a se transformar em preocupação quando Ben passa a se incomodar com a profissão dela. Sera também já não estava totalmente confortável com a situação dele, apesar de ter aceitado jamais pedir que ele parasse de beber. Também fica claro que Sera deseja Ben, por isso, numa tentativa desesperada, ela derrama Vodka em seu corpo e tenta animá-lo, o que funciona, pelo menos até que ele tropece, quebre uma mesa de vidro, se corte e destrua o clima. Ele não consegue transar com ela, vaga pela casa com uma garrafa na mão e mais parece um fantasma. Por isso, quando ela volta pra casa e o encontra com outra prostituta, a dor é forte. Para ela, esta é a pior traição possível, mas no fundo ela também sabe que Ben é incapaz de perceber a gravidade de sua atitude. Triste, ela sai de casa, aceita fazer programa com alguns garotos e acaba violentada, numa cena de forte impacto. O choque é inevitável e ela o expulsa de casa, mas logo o arrependimento vem.

Caminhamos então para o anunciado final de “Despedida em Las Vegas”. O reencontro do infeliz casal, num quarto escuro e em silencio, é banhado em melancolia e nos leva à morte dele. Cage e Shue novamente dão um show à parte e encerram suas atuações com perfeição. As palavras finais dela resumem bem a mensagem da narrativa: ambos não esperavam que o outro mudasse, pois eles sabiam que não tinham muito tempo e, por isso, aceitavam o outro pelo que era. E assim como Sera, o espectador se sente incapaz durante toda a projeção, vendo aquele homem caminhar para a morte sem poder fazer nada a respeito.

Retratando com fidelidade a vida de um alcoólatra em fase final, “Despedida em Las Vegas” é um filme difícil, triste, mas extremamente competente dentro do que se propõe a fazer. Se você não se sentir tocado e repensar o vício após esta experiência, é melhor procurar um médico, pois talvez não tenha um coração batendo aí dentro. Não devemos tolerar o vício e muito menos subestimá-lo, mas compreender a situação do viciado é o primeiro passo para ajudá-lo.

Texto publicado em 06 de Maio de 2012 por Roberto Siqueira

TOY STORY 3 (2010)

(Toy Story 3)

 

 

Filmes em Geral #87

Dirigido por Lee Unkrich.

Elenco: Vozes de Tom Hanks, Tim Allen, Michael Keaton, Joan Cusack, Bonnie Hunt, Timothy Dalton, R. Lee Ermey, John Ratzenberger, John Morris, Laurie Metcalf, Wallace Shawn, Don Rickles, Jodi Benson e Ned Beatty.

Roteiro: Michael Arndt.

Produção: Darla K. Anderson.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Antes mesmo de assistir ao último filme da impecável trilogia “Toy Story”, fui tomado por um sentimento nostálgico somente ao imaginar que, após acompanharmos a trajetória de Andy e seus queridos brinquedos nos excepcionais filmes anteriores, aquela seria a minha despedida de Woody, Buzz e companhia. Se me emocionei em “Toy Story” e quase não contive as lágrimas em “Toy Story 2” – especialmente no clipe que conta a história de Jesse e sua dona -, era muito provável que as lágrimas seriam inevitáveis em “Toy Story 3”. Mas eu não estava preparado para esta verdadeira catarse. A verdade é que a obra-prima dirigida por Lee Unkrich mexe em nossos sentimentos mais profundos, remetendo a mais nostálgica fase de nossas vidas.

Desta vez escrito por Michael Arndt, “Toy Story 3” traz Andy (voz de John Morris) já com 17 anos e prestes a ir para a Faculdade. Enquanto arruma seu quarto, ele decide levar apenas o cowboy Woody (voz de Tom Hanks) e deixar todos seus outros brinquedos no sótão, entre eles Buzz Lightyear (voz de Tim Allen), Jessie (voz de Joan Cusack) e o Sr. Cabeça de Batata (voz de Don Rickles). Mas, por engano, sua mãe confunde o saco que ele separou para os brinquedos e eles acabam no lixo. O grupo consegue escapar, se infiltra numa caixa onde está Barbie (voz de Jodi Benson) e acaba sendo levado para a creche Sunnyside, onde eles conhecerão novos brinquedos como Ken (voz de Michael Keaton) e o urso Lotso (voz de Ned Beatty).

Esbanjando criatividade, o roteiro de Arndt traz Woody novamente numa situação complicada, tendo que salvar os amigos antes da partida de Andy, o que nos leva a novas e empolgantes aventuras. Remetendo em alguns instantes a estrutura narrativa do primeiro filme (a reunião entre os brinquedos, a “fuga involuntária” da casa), Arndt tem ainda o cuidado de revelar o destino de personagens marcantes como Wheezy, a boneca de porcelana Beth e os soldados de plástico, num indício sutil do clima nostálgico que permeia a narrativa, acertando também nos momentos bem humorados, como ao “resetar” Buzz e trazer de volta sua adorável dedicação ao “comando estelar”, além da hilária mudança de seu idioma para o espanhol. Abordando temas como a inexorabilidade do tempo (como atestam o gordo e cansado Buster e o rosto adolescente de Andy) e a importância da amizade verdadeira, “Toy Story 3” emociona não apenas as crianças, mas também (e especialmente!) os adultos.

A espetacular seqüência de abertura dá o tom da narrativa, iniciando com a empolgante aventura (que descobriremos existir apenas na cabeça de Andy) envolvendo os principais personagens da trilogia e terminando nas gravações que mostram o crescimento do garoto. Esta oscilação entre a euforia e a nostalgia é uma das marcas de “Toy Story 3”, graças à direção firme de Unkrich que transforma o capítulo final da trilogia num festival de sensações. Contando com o bom trabalho do montador Ken Schretzmann, a narrativa transita muito bem entre emoções extremas, passando pela adrenalina das aventuras, pela tensão dos momentos de suspense e pela delicadeza de cenas tocantes, como o melancólico e sublime final, intercalando tudo isso com momentos de bom humor. Além disso, o trabalho de montagem se destaca também pela fluidez em diversos momentos, como na citada abertura e na apresentação do sistema de segurança de Lotso, que transforma Sunnyside numa prisão.

Tecnicamente, mais uma vez a qualidade das animações impressiona pela riqueza de detalhes, sendo capaz de dar vida aos brinquedos através da leveza de seus movimentos e da expressividade deles – observe a expressão de desaprovação de Woody quando chega a Sunnyside, por exemplo. Além disso, chega a ser quase inacreditável a capacidade de criação dos animadores da Pixar, que desenvolvem uma enorme variedade de brinquedos (muitos deles remetem diretamente a minha infância, aliás), assim como o roteiro novamente aproveita a oportunidade para criar gags divertidas baseadas nas características deles, como no sensacional encontro entre Ken e Barbie e no divertido desfile que ele faz pra ela, nas constantes piadas sobre a origem dele (“Não sou brinquedo de menina!”) e no corpo improvisado pelo Sr. Cabeça de Batata.

Ainda na parte técnica, vale destacar mais uma vez o excepcional design de som, que dá vida ao mundo criado pelos animadores e nos insere dentro dele com precisão. E se desta vez a bela “You’ve got a friend in me” soa ainda mais nostálgica devido às circunstâncias, a trilha sonora de Randy Newman se destaca também por pontuar com precisão as cenas de aventura e suspense, injetando adrenalina e tensão sempre na medida certa, além de mostrar criatividade nos acordes tipicamente espanhóis que embalam a divertida dança “caliente” de Buzz.

Voltando aos aspectos visuais, vale observar como a fotografia colorida e cheia de vida na chegada dos brinquedos à creche Sunnyside cria uma expectativa totalmente contrária à realidade do lugar, evidenciada somente pela reação dos brinquedos locais segundos antes da invasão das agitadas crianças que detonam todos eles. Esta subversão de expectativa, aliás, também acontece com o personagem Lotso, que surge como um urso tranqüilo e amigável – e a voz contida de Ned Beatty é essencial para isto -, mas lentamente se revela como o grande vilão da trama. Será ele o agente da mudança brusca da fotografia, que troca as cores vivas pelos tons obscuros durante todo o segundo ato após Woody ouvir a história de Lotso, em outra cena que transita de tons dourados para cores sombrias e sufocantes que, realçadas pela chuva, ilustram os sentimentos do urso abandonado.

Além de imprimir um ritmo delicioso à narrativa, Unkrich se destaca, por exemplo, na condução de seqüências empolgantes e visualmente belíssimas como a primeira fuga de Woody de Sunnyside, a acrobática saída de Buzz da sala Lagarta e a segunda fuga da creche, capaz de grudar o espectador na cadeira, especialmente quando os personagens são deixados no assombroso depósito de lixo – e confesso que cheguei a temer pelo destino dos heróis nesta sombria seqüência, que é certamente o momento mais tenso da narrativa. Através destes interessantes movimentos de câmera que acompanham as peripécias dos personagens, Unkrich confere agilidade e dinamismo ao longa, o que é essencial numa aventura infantil. Mas “Toy Story 3” está longe de direcionar seus esforços apenas para a fatia mais jovem do público. Por isso, quando os personagens escapam da difícil situação no depósito e conseguem voltar para casa, o final devastador se aproxima e o espectador já sabe o que esperar.

Quando Andy brinca pela última vez com seus queridos brinquedos e apresenta cada um deles para a garota, nós sabemos que também estamos nos despedindo daqueles personagens adoráveis. Sabemos ainda que, para Andy, não se trata apenas de deixar aqueles brinquedos legais para trás, mas também de despedir-se definitivamente dos áureos tempos da infância, época em que o mundo era filtrado pela pureza do olhar de uma criança. Por isso, a identificação do espectador adulto é inevitável e fica difícil segurar as lágrimas. Após o carro perder-se no horizonte e Andy deixar tudo isto para trás, aqueles momentos mágicos sobreviverão apenas na memória – e quem já passou por esta fase sabe bem o que é isto. Finalmente, esta cena final é ainda mais emblemática para aqueles que eram crianças no lançamento do primeiro “Toy Story”, já que, devido a distancia de 15 anos entre os filmes, estes jovens provavelmente também estavam na faculdade em 2010 e, portanto, o crescimento de Andy reflete a própria trajetória deles.

Ao contrário de Andy, que foi obrigado a deixar seus brinquedos para trás, as novas gerações podem comemorar, pois os filmes da trilogia “Toy Story” são brinquedos que podemos guardar eternamente e até mesmo voltar a “brincar” com eles sempre que quisermos. Esta é a magia do cinema. Esta é a magia da Pixar, que provou nesta trilogia ter o poder de – com o perdão do trocadilho – ir “ao infinito e além!”.

Texto publicado em 24 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira

O VENCEDOR (2010)

(The Fighter)

 

Filmes em Geral #86

Dirigido por David O. Russell.

Elenco: Mark Wahlberg, Christian Bale, Amy Adams, Melissa Leo, Jack McGee, Melissa McMeekin, Bianca Hunter, Erica McDermott, Jill Quigg, Dendrie Taylor, Kate B. O’Brien, Jenna Lamia, Mickey O’Keefe, Frank Renzulli, Caitlin Dwyer e Ross Bickell.

Roteiro: Scott Silver, Paul Tamasy e Eric Johnson.

Produção: Dorothy Aufiero, David Hoberman, Ryan Kavanaugh, Todd Lieberman, Paul Tamasy e Mark Wahlberg.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

É sempre interessante ver um bom filme de boxe – não fosse assim, este esporte não teria inspirado tantos filmes de sucesso ao longo da história do cinema. Ainda mais interessante é quando o esporte funciona apenas como pano de fundo para um complexo estudo de personagens, como é o caso deste “O Vencedor”, que, além de trazer a história real de dois irmãos boxeadores e sua complicada família, ainda nos apresenta um elenco afinado, liderado pelo ótimo Mark Wahlberg e que conta ainda com a excepcional atuação de Christian Bale.

Escrito por Scott Silver, Paul Tamasy e Eric Johnson, “O Vencedor” conta a história real dos irmãos Dicky Eklund (Christian Bale) e Micky Ward (Mark Wahlberg), quando o primeiro, famoso por ter derrotado o campeão mundial Sugar Ray e hoje viciado em drogas, está treinando o segundo na pequena cidade de Lowell, sob o olhar atento da mãe e empresária Alice (Melissa Leo). Só que os problemas do irmão e a influência de sua namorada Charlene (Amy Adams) fazem Micky buscar uma alternativa para levar a carreira de forma mais profissional, criando um conflito com seus familiares.

Apresentando uma família disfuncional – um tema apreciado pelo cinema “alternativo” de Hollywood -, a narrativa de “O Vencedor” trabalha cuidadosamente no estabelecimento das relações entre os personagens durante o primeiro ato, preparando o espectador para os conflitos que surgirão, o que, por exemplo, aumenta o impacto da reação de Micky após a prisão de Dicky, que delata sua intenção de abandonar o apoio da família e buscar uma alternativa para a carreira. Quando isto ocorre, o espectador pode até se surpreender pela forma ríspida como Micky responde o irmão, mas compreende perfeitamente sua decisão justamente por já estar familiarizado com seus problemas. Da mesma forma, a platéia se surpreende novamente com a reaproximação deles no terceiro ato, exatamente pela maneira realista que a narrativa aborda o conturbado relacionamento entre eles, o que também é bastante interessante.

Ao priorizar (corretamente) o conturbado relacionamento de Micky e sua família, a montagem de Pamela Martin abre pouco espaço para as cenas de luta, que ainda assim surgem intensas e realistas, graças à câmera movimentada de Russel e ao excepcional design de som, que nos ambienta perfeitamente através do barulho dos golpes, gemidos, gritos da torcida e vozes dos narradores. Vale destacar também como Martin e Russel cobrem as primeiras vitórias de Micky com dinamismo, saltando na narrativa de maneira elegante, e contando ainda com a agitada trilha sonora de Michael Brook, que ilustra a euforia do personagem em seu momento de virada na carreira. Variando entre músicas agitadas, que combinam perfeitamente com a natureza destrutiva do boxe, e canções melancólicas como “Strip my mind” (dos Chili Peppers), a trilha ilustra perfeitamente o carrossel de emoções enfrentado pelo protagonista.

Utilizando imagens de arquivo da verdadeira luta entre Dicky e Sugar Ray, a fotografia de Hoyte Van Hoytema busca manter o realismo através do uso de uma paleta natural, que chega a ser crua em diversos momentos, conferindo um ar documental ao longa. Esta abordagem é confirmada também na direção segura de David O. Russell, que utiliza a câmera de mão constantemente, buscando justamente reforçar a atmosfera realista que a narrativa pede, como na conturbada cena da prisão de Dicky, que ganha ainda mais adrenalina em sua câmera agitada. Além disso, o diretor busca nos aproximar de seus personagens ao abusar dos closes, como nas intensas discussões entre Charlene, Micky e sua conturbada família e na forte cena da crise de abstinência de Dicky.

Apresentando um impressionante emagrecimento que chega perto do inacreditável resultado alcançado no ótimo “O Operário”, Bale interpreta o despojado Dicky com intensidade, movimentando-se constantemente e até mesmo soando um pouco freak, mas se destaca mesmo ao demonstrar muito bem os efeitos do crack através do olhar arregalado, da fala acelerada e da falta de sincronismo quando conversa com alguém – repare como ele mal consegue olhar diretamente para as pessoas, como quando discute com Micky na casa de sua mãe, mas ainda assim é capaz de prestar atenção na conversa. Sempre agitado e em constante movimento, Dicky vive da histórica vitória contra Sugar Ray, talvez porque sua própria família parece não perceber que o tempo passou e o boxeador vitorioso do passado foi substituído por um homem problemático que necessita de ajuda.

Inicialmente mais contido que o irmão, Micky lentamente se rebela contra a família opressora e conquista seu espaço, algo que Wahlberg ilustra muito bem demonstrando confiança no tom de voz e no olhar, como em sua discussão com Dicky dentro do presídio. Esta mudança é perfeitamente compreensível diante da situação complicada em que ele vive. Rodeado por sete irmãs e uma mãe superprotetora, Micky ainda sente a pressão de ter que ser vencedor no boxe assim como foi seu irmão – e novamente, o ator transmite esta aflição do personagem muito bem em seu comportamento inicialmente retraído. Além disso, a amargura de sua ex-esposa indica que eles tiveram sérios problemas no passado, o que só piora sua situação. Talvez por isso ele encontre conforto em Charlene, que representa a tão desejada paz que ele procura e não consegue encontrar em sua família.

Sensual e bastante direta, a Charlene de Amy Adams surge confiante desde o instante em que aceita o convite de Micky para sair, crescendo ao longo da narrativa ao enfrentar a família do boxeador sem medo, o que leva a um inevitável confronto na frente de sua casa que chega às vias-de-fato – numa cena tensa e bem conduzida por Russel. Adams se sai maravilhosamente bem nos afiados diálogos que precedem o conflito, jamais se intimidando diante da resistência das ciumentas irmãs dele, e sua personagem ainda protagoniza um momento curioso, quando reclama de filmes legendados, mostrando uma característica do povo americano (e, infelizmente, que aos poucos está dominando o espectador brasileiro também). Também despojada e até mesmo intrometida, a falastrona Alice de Melissa Leo é a típica mãe superprotetora que não enxerga o quanto interfere na vida de seus filhos – e o fato de fechar os olhos para o problema de Dicky só ressalta seu medo de “perder” a proximidade que tem com eles. Mas, apesar de tudo, ela realmente ama os filhos e expressa isto de corpo e alma, vibrando em cada luta de Micky – ainda que arranje lutas desiguais apenas por dinheiro – e acompanhando Dicky numa canção com uma voz tremula que reflete sua tristeza diante da situação do filho. Por isso, chega a ser tocante o momento em que ela, após ver as filhas brigando com Charlene, demonstra não compreender porque Micky se afasta dela, evidenciando sua cegueira quanto ao próprio comportamento superprotetor.

Além de fazer um belo estudo dos irmãos Dicky e Micky, “O Vencedor” ainda acerta ao mostrar os devastadores efeitos do crack, resumidos no momento em que a HBO transmite um filme sobre Dicky e toda a sua família se envergonha do que está vendo – incluindo o próprio ex-boxeador. Ao levar a questão a sério sem jamais julgar o viciado e, especialmente, ao mostrá-lo como um ser humano normal, capaz de vencer um título mundial no passado e de ajudar o irmão no presente, o filme aborda o vício de maneira adulta, estimulando a discussão e a reflexão a respeito do tema.

Apesar de discutir rispidamente com o irmão, Micky ouve seus conselhos e acaba vencendo a luta contra Sanchez por causa disto. Mas nem por isso ele aceita o irmão de volta quando ele sai da prisão e revela sua insatisfação batendo nele num treinamento, o que gera outra discussão forte que culmina no rompimento de Micky com a namorada e o treinador Mickey O’Keefe (o próprio). E, vejam só, é justamente Dicky quem trata de reatar as relações, confirmando a ambigüidade dos personagens de “O Vencedor”. Aqui não existe certo e errado, pois todos pensam estarem agindo corretamente, por mais absurdas que pareçam suas atitudes. Esta ambigüidade chega ao auge na luta pelo título mundial, quando mesmo contrariados eles se juntam em torno de um único objetivo: fazer Micky ser campeão. Sugando o espectador pra dentro do ringue desde o canto entoado pelos irmãos ao lado do treinador O’Keefe, a luta final é marcante e repleta de energia, impressionando ainda por revelar a incrível mudança física de Wahlberg, que surge musculoso e bem diferente do homem barrigudo que acompanhamos em determinado momento da narrativa. E novamente subvertendo nossa expectativa, Dicky se confirma como peça fundamental na vitória do irmão, estimulando-o com palavras e gritos de incentivo o tempo todo.

Após a vitória, todos sobem juntos no ringue e deixam os problemas pelo menos por um instante para trás, num momento emblemático que fecha muito bem “O Vencedor”. Contando com excelentes atuações e trazendo uma história real, o longa dirigido por David O. Russell entra para a galeria dos bons filmes de boxe, para a alegria dos fãs do esporte – e dos cinéfilos também.

Texto publicado em 23 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira

O DISCURSO DO REI (2010)

(The King’s Speech)

 

Filmes em Geral #85

Vencedores do Oscar #2010

Dirigido por Tom Hooper.

Elenco: Colin Firth, Helena Bonham Carter, Geoffrey Rush, Guy Pearce, Timothy Spall, Michael Gambon, Derek Jacobi, Andrew Havill, Calum Gittins, Jennifer Ehle, Dominic Applewhite, Ben Wimsett, Jake Hathaway, Claire Bloom, Orlando Wells e Tim Downie.

Roteiro: David Seidler.

Produção: Iain Canning, Emile Sherman, Gareth Unwin, Simon Egan e Peter Heslop.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apresentando um protagonista com uma deficiência que afeta diretamente uma das mais importantes atribuições exigidas de alguém em sua posição, “O Discurso do Rei” agrada justamente por nos mostrar uma bela história de superação, ainda que este seja um tema recorrente. Até aqui, tudo bem, já que não há problema algum em repetir um tema tantas vezes explorado pelo cinema, desde que o resultado final não soe desgastado ou repetitivo. Felizmente, este não é o caso do longa dirigido por Tom Hooper, ainda que o diretor falhe na construção visual da narrativa. Apesar do escorregão, as ótimas atuações e a bela trajetória de superação do protagonista sustentam o filme.

Escrito por David Seidler, “O Discurso do Rei” narra a história do duque de York (Colin Firth), que se vê obrigado a assumir o trono como George VI após a morte de seu pai (Michael Gambon) e a saída repentina de seu irmão (Guy Pearce), perdidamente apaixonado por uma mulher divorciada. O problema é que ele sofre de gagueira, o que implica em sérias dificuldades todas as vezes que ele precisa discursar em público, algo cada vez mais necessário após a difusão do rádio. Diante do drama do marido, a esposa Elizabeth (Helena Bonham Carter) resolve pedir ajuda a um fonoaudiólogo nada convencional chamado Lionel (Geoffrey Rush).

Como podemos perceber somente através de sua premissa, “O Discurso do Rei” teria tudo para se tornar um drama melodramático ou uma comédia pastelão, mas felizmente o roteiro de Seidler acerta no tom e alcança um equilíbrio agradável que jamais descamba para um lado ou para o outro, ainda que falhe na construção de personagens maniqueístas e exagere pontualmente nas piadas que visam dar leveza a narrativa. Ainda assim, é interessante notar como Seidler aproveita para inserir raras e interessantes alfinetadas na monarquia através de Lionel, como quando ele senta na cadeira da igreja e provoca o rei, que se irrita e solta a voz sem gaguejar. Já o discurso que abre o filme serve para nos apresentar a dificuldade do protagonista e ganhar a empatia da platéia, algo que até mesmo a trilha sonora de Alexandre Desplat evidencia ao criar uma atmosfera tensa antes das primeiras palavras dele, mudando para um tom melancólico que, associado ao olhar incomodado do público, garante a identificação imediata do espectador com o vulnerável duque de York.

Numa atuação excepcional, Firth transmite muito bem a aflição do rei George VI por não conseguir se expressar, além de oscilar de maneira convincente entre os momentos de alegria (ao lado das filhas, por exemplo) e as constantes explosões provocadas pelo trauma de infância que tanto o sufoca. Este lado sombrio torna o personagem ambíguo e misterioso, o que é essencial para que o espectador não antecipe suas reações e se choque, por exemplo, quando ele humilha Lionel no meio da rua após uma discussão – e aqui temos uma demonstração da falta de habilidade de Hooper, que começa a cena corretamente com um movimento de câmera que diminui Lionel no fundo do plano, simbolizando sua impotência, mas abandona a estratégia cortando abruptamente para um plano fechado que destaca o personagem e destrói a construção dramática da cena. Mas se por um lado George VI demonstra que pode ser cruel a este ponto, por outro confirma sua vulnerabilidade de diversas maneiras, como ao perguntar se pode mexer no brinquedo do filho de Lionel ou, de maneira mais clara, ao chorar compulsivamente após o irmão deixar o trono, temendo a pressão de ser rei – num momento que destaca a importância do apoio da esposa e como ele se sente à vontade diante dela.

Mostrando-se preocupada e até mesmo comovida com o drama do marido, a Elizabeth de Helena Bonham Carter é a verdadeira companheira que oferece o apoio necessário na hora exata; e a atriz faz bem este papel, soando compreensiva na maior parte do tempo. Da mesma forma, o Lionel de Geoffrey Rush é o contraponto ideal para o explosivo George, com sua tranqüilidade e autoconfiança servindo como refúgio para o atormentado protagonista. Saindo-se bem nos duelos verbais com Firth, Rush cria um Lionel bastante carismático e convence o espectador como uma espécie de conselheiro do rei, graças também à boa química entre eles. Por outro lado, o unidimensional Rei Edward VIII de Guy Pearce chega a ser irritante em sua devoção à esposa e se torna definitivamente odiável quando zomba da gagueira do irmão, numa cena que começa a denunciar a origem da doença do protagonista, que será confirmada num momento tocante em que ele relembra os traumas vividos diante da família e de uma babá. Fechando o elenco, também vale citar a participação pequena e caricata de Timothy Spall como Winston Churchill, conhecido pelos discursos durante a segunda guerra mundial e que também tinha problema na fala, algo que ele chega a citar durante a narrativa.

A vida triste do protagonista é claramente refletida na paleta dessaturada da fotografia de Danny Cohen, que cria um visual cinzento, reforçado pelos tons escuros de suas roupas (figurinos de Jenny Beavan). Já as paredes descascadas do consultório indicam a situação financeira pouco confortável de Lionel e sua origem humilde, que será usada por George para ofendê-lo em determinado momento da narrativa, evidenciando o bom trabalho de direção de arte de Netty Chapman, que também nos ambienta perfeitamente à Inglaterra das primeiras décadas do século passado através dos carros, da imponente mesa de jantar do rei, dos próprios microfones e da decoração interna dos ambientes.

Cobrindo muitos anos da vida do rei, a montagem de Tariq Anwar é eficiente, ainda que utilize deselegantes letreiros para indicar a passagem do tempo. E finalizando a parte técnica, o design de som merece destaque especialmente nos discursos que abrem e fecham “O Discurso do Rei”, onde podemos ouvir claramente o público levantando, o volume diferenciado do microfone de acordo com o ambiente em que estamos e até mesmo a reação contida das pessoas ao ouvirem suas palavras. Também vale citar o momento em que o som diegético trabalha a favor da narrativa, quando ouvimos a música junto com o duque e não sabemos se ele conseguiu ou não falar enquanto Lionel grava o áudio – apesar do resultado daquele teste ser mais do que previsível.

Imprevisível mesmo é a direção de Tom Hooper. Inicialmente, ele parece ter total controle visual da narrativa, mostrando o rei George VI sempre do lado esquerdo (o mais fraco da tela) e Lionel sempre do lado direito (o mais forte) na primeira conversa deles, algo que, além de demonstrar o lado psicologicamente mais fraco daquela relação, ainda reflete a forma distorcida que o protagonista enxerga o mundo. Mas quando seu pai questiona duramente sua atitude passiva, tanto o duque quanto o rei George V aparecem do lado mais fraco da tela, o que denuncia, ainda que sutilmente, que Hooper sequer sabia o que estava fazendo. Isto fica ainda mais evidente na medida em que a narrativa avança, como na conversa seguinte à morte do rei George V, em que o duque aparece do lado direito da tela no plano geral, mas volta a surgir do lado esquerdo nos planos fechados. Se mantivesse as posições e gradualmente invertesse os lados dos personagens, Hooper estaria simbolizando o crescimento da confiança do personagem, o que seria genial. O mais curioso é que sabendo ou não o que estava fazendo, o diretor encerra “O Discurso do Rei” justamente com George VI do lado direito da tela e Lionel surgindo por último do lado esquerdo, o que, não fossem as constantes trocas durante a narrativa, poderia significar o fortalecimento do rei naquela relação. Pra piorar, o diretor insiste nesta visão distorcida até mesmo quando as cenas não envolvem George VI, o que é uma pena. Mas Hooper também acerta, como quando a câmera vai e volta em direção ao duque em seu tratamento, simulando o movimento respiratório tão importante naquele processo de cura do personagem. Além disso, o diretor obviamente tem créditos por extrair as excelentes atuações do elenco citadas acima.

E por falar em atuações, Firth dá outro show durante o ensaio de George VI, cantando, dançando e até mesmo gritando palavrões sob a observação atenta de Lionel, momentos antes do esperado discurso do título. E quando este momento chega, a tensão toma conta das pessoas presentes – e mesmo imaginando o que irá acontecer, o espectador compartilha deste sentimento. Ainda assim, Hooper estica ao máximo a cena antes de George pronunciar as primeiras palavras e fazer um belo discurso, com raras falhas (“Eu tinha que gaguejar para eles saberem que sou eu”, diz ele), na melhor cena do longa, que destaca ainda a reação das pessoas diante daquelas palavras ao mesmo tempo em que nos mostra o esforço do protagonista para evitar gaguejar. Apesar de previsível, este final feliz faz com que o espectador saia satisfeito com o que viu.

Mesmo com falhas visíveis, “O Discurso do Rei” é um filme agradável, feito sob medida para alegrar o espectador e que de quebra ainda nos brinda com ótimas atuações. Contando uma história interessante e verdadeira de superação, o longa conquista imediatamente a simpatia da platéia, mas, assim como a cura de seu protagonista, é apenas uma questão de tempo para que ele caia no esquecimento.

Texto publicado em 22 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira

MINHAS MÃES E MEU PAI (2010)

(The Kids Are All Right)

 

Filmes em Geral #84

Dirigido por Lisa Cholodenko.

Elenco: Annette Bening, Julianne Moore, Mark Ruffalo, Mia Wasikowska, Josh Hutcherson, Zosia Mamet, Lisa Eisner, Yaya DaCosta, Kunal Sharma, Eddie Hassell, Joaquin Garrido, Rebecca Lawrence e Eric Eisner.

Roteiro: Lisa Cholodenko e Stuart Blumberg.

Produção: Gary Gilbert, Celine Rattray, Daniela Taplin Lundberg e Jeffrey Levy-Hinte.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apostando no interesse do público por famílias que fogem de padrão estabelecido pela sociedade, “Minhas mães e meu pai” tem todos os ingredientes do chamado “cinema alternativo”, apresentando os dilemas e conflitos de uma família formada por duas mulheres homossexuais e seus filhos gerados a partir de inseminação artificial. O problema é que o roteiro falho e repleto de personagens que mais parecem caricaturas raramente consegue criar piadas interessantes e tampouco funciona como drama, ficando num perigoso meio termo que evidencia seus problemas não solucionados pela diretora Lisa Cholodenko. Ainda assim, é possível extrair pontos positivos da experiência.

Escrito pela própria Cholodenko em conjunto com Stuart Blumberg, “Minhas mães e meu pai” apresenta os irmãos Joni (Mia Wasikowska) e Laser (Josh Hutcherson), filhos do casal homossexual Jules (Julianne Moore) e Nic (Annette Bening), quando estes resolvem conhecer seu pai biológico sem o conhecimento das mães. Entretanto, o relacionamento da família começa a se deteriorar quando Paul (Mark Ruffalo), o pai biológico, passa a fazer parte do cotidiano deles.

Logo no primeiro encontro entre Paul e seus filhos, podemos notar uma das marcas de “Minhas mães e meu pai”, que é a estranheza dos diálogos, o que neste caso funciona bem se levarmos em consideração o desconforto de todos naquele instante. O problema é que estes diálogos, digamos, desconexos continuam a aparecer mesmo quando Paul passa a fazer parte do cotidiano da família e, o que é pior, também nas conversas entre as mães e seus filhos, como quando Laser revela que conheceu o pai biológico, onde as mães parecem sequer fazer idéia do que o rapaz está tentando dizer. Além disso, a suposta dúvida das mães sobre a vida sexual do rapaz jamais convence e tampouco funciona como piada, tornando a cena ainda mais artificial por causa das reações agressivas de Nic.

Demonstrando inabilidade na construção de piadas, Cholodenko tenta compensar a falha logo no primeiro ato criando uma atmosfera juvenil através de músicas agitadas e do sexo, numa tentativa de conquistar o público jovem que falha terrivelmente nas duas primeiras oportunidades, em cenas que envolvem um vídeo pornô. Mantendo as ações banhadas pela luz do dia na maior parte do tempo e apostando num visual colorido (reforçado pelos figurinos de Mary Claire Hannan), o diretor de fotografia Igor Jadue-Lillo reforça esta atmosfera leve, coerente com o propósito cômico da narrativa. Mas se falha na condução dos momentos cômicos, pelo menos Cholodenko acerta na seqüência em que Nic descobre a traição de Jules, contando com o apoio do design de som para simular o choque da personagem, que sequer consegue ouvir as conversas na mesa. Também é interessante a forma natural que a narrativa aborda o casamento e seus problemas normais depois de tantos anos de convivência – e neste aspecto, o fato de serem duas mulheres em nada impede casais heterossexuais de compartilharem a sensação de desgaste das personagens, o que é ótimo.

Felizmente, nem mesmo o fraco roteiro impede que o elenco de “Minhas mães e meu pai” entregue boas atuações. Vivendo a jovem Joni com surpreendente desenvoltura e segurança, Mia Wasikowska demonstra carisma e cria empatia com Mark Ruffalo, demonstrando ainda de maneira consistente a paixão que nutre pelo amigo, que jamais percebe os sentimentos da garota. Por isso, é uma pena que o montador Jeffrey M. Werner priorize as sequências que envolvem o relacionamento dos adultos ao invés de focar no impacto que a chegada do pai biológico provoca nos filhos, que certamente renderia um filme bem mais interessante e complexo. Pelo menos, Werner acerta ao criar piadas através de elipses, como quando Paul e Jules afirmam que não devem seguir transando e, na cena seguinte, surgem juntos na cama novamente.

Da mesma forma, não dá pra entender a importância dada aos patéticos amigos de Joni e Laser, os unidimensionais Sasha (Zosia Mamet) e Clay (Eddie Hassell), que em nada contribuem para a narrativa, sendo descartados repentinamente como se fossem MacGuffins, assim como Paul subitamente se torna um inimigo da família e deixa à narrativa, como um adolescente que é largado pela namorada e nunca mais volta a ter contato com ela. Aliás, o título em inglês poderia muito bem se referir não só aos jovens Joni e Laser, mas também às mães e ao pai do título em português, que não passam de crianças “crescidas” que ainda não encontraram a melhor forma de enfrentar os dilemas da vida.

Fazendo de Jules a personagem mais interessante do “triangulo amoroso”, Julianne Moore expõe de maneira interessante os conflitos e as dúvidas da personagem, por mais absurdos que pareçam (o que é culpa do roteiro, e não dela), conseguindo protagonizar um belo momento, quando afirma ver expressões dos filhos em Paul, num raro instante de sutileza de uma narrativa predominada por histrionismos. Desprezada pela parceira e constantemente criticada por suas escolhas profissionais, Jules começa a se interessar por Paul (sério? ela não é homossexual?!), e confirma a atração num beijo acidental. E apesar da implausibilidade da situação, Moore e Ruffalo conseguem o milagre de estabelecer uma química entre os personagens, o que salva cenas que deveriam soar patéticas por motivos óbvios, que a própria personagem ressalta no final. Além disso, uma das poucas piadas que realmente funciona acontece durante uma cena de sexo entre eles e envolve o também divertido empregado dela.

Se Ruffalo e Moore se mostram soltos no papel, Bening surge inicialmente caricata, tentando soar como uma verdadeira “mulher macho”, sempre durona e dando sinais de seu ciúme doentio. Chegando a ser irritante em diversos momentos – como quando briga com Joni por andar de moto ou quando briga com Jules num restaurante -, Bening transita com facilidade para o outro lado e faz Nic parecer adorável no jantar na casa de Paul, confirmando seu talento como atriz, desperdiçado numa personagem tão estereotipada. Apesar de tudo, ela tem bons momentos, como na discussão seguinte à descoberta da traição, que confirma o talento das duas atrizes ao transmitir a dor das personagens de maneira convincente. Entretanto, a traição provoca um conflito bastante artificial e insere o dramalhão que faz a narrativa despencar no terceiro ato – o jantar de despedida de Joni chega a ser chato, graças à mão pesada da diretora que carrega no melodrama, especialmente após a chegada de Paul.

Apresentando alguns aspectos interessantes e tentando de maneira corajosa abordar um tema que ainda é tabu na sociedade contemporânea, “Minhas mães e meu pai” falha terrivelmente na tentativa de criar conflitos e conferir peso dramático à narrativa, apelando para situações que beiram o absurdo para tentar mexer com o espectador. Sem funcionar também como comédia, o longa se salva apenas pelo bom desempenho de seu talentoso elenco, mas está longe de alcançar um resultado satisfatório.

Texto publicado em 21 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira

INVERNO DA ALMA (2010)

(Winter’s Bone)

 

Filmes em Geral #83

Dirigido por Debra Granik.

Elenco: Jennifer Lawrence, Isaiah Stone, Ashlee Thompson, John Hawkes, Dale Dickey, Valerie Richards, Shelley Waggener, Garret Dillahunt, Lauren Sweetser, Cody Brown, Cinnamon Schultz, Casey MacLaren, Kevin Breznahan, Sheryl Lee e Tate Taylor.

Roteiro: Debra Granik e Anne Rosellini, baseado em livro de Daniel Woodrell.

Produção: Anne Rosellini, Alix Madigan-Yorkin e Kate Dean.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Tão frio quanto seu título indica, “Inverno da Alma” apresenta de maneira crua e direta a luta de uma garota para proteger sua família, sem jamais apelar para o melodrama como forma de chocar o espectador. Repleto de diálogos adultos e verdadeiros que jamais dão a sensação de pertencer ao roteiro de um filme, o longa dirigido por Debra Granik impressiona justamente pelo realismo e, mesmo apresentando um ambiente deplorável, conquista o espectador.

Em “Inverno da Alma” acompanhamos a jovem de 17 anos Ree Dolly (Jennifer Lawrence), que parte em busca de seu pai quando este sai da cadeia após ser preso por envolvimento na fabricação de metanfetamina e dá a casa da família como garantia do financiamento de sua fiança, desaparecendo logo em seguida. Sem notícias do paradeiro do pai e com dois irmãos e uma mãe doente para cuidar, ela sai em busca de pistas, entrando em conflito com os arredios vizinhos e até mesmo com os seus próprios familiares.

O roteiro escrito pela própria Debra Granik ao lado de Anne Rosellini e baseado em livro de Daniel Woodrell acertadamente foca na trajetória da jovem que busca proteger sua família, sem se importar com detalhes pouco relevantes no desenvolvimento da personagem (como revelar quem assassinou o pai dela ou o destino final de seu tio). Além disso, a narrativa aborda sem rodeios a vida dura daquela região dos EUA, indo diretamente contra a idéia do “país das oportunidades” ao mostrar um ambiente hostil onde os habitantes pouco se importam com a vida alheia, sem por isso transformá-los em personagens unidimensionais justamente por nos apresentar razões para o comportamento de todos eles, acertando ainda ao evitar o maniqueísmo e a generalização barata através dos vizinhos solidários da jovem Ree e do próprio arco dramático do tio da garota.

A melancólica canção que abre “Inverno da Alma” dá o tom da narrativa, nos apresentando aquela região fria e distante das montanhas Ozark, no Missouri, onde o frio parece ter congelado também o relacionamento entre as pessoas, até porque é sempre mais difícil sair de casa e manter uma vida social nestas condições. Pra piorar, todos parecem ter algum grau de parentesco, o que faz a questão “sangue” perder força e obriga a garota a lutar praticamente sozinha contra o silêncio velado daqueles que preferem evitar o envolvimento no caso, evitando também desentendimentos desnecessários com a polícia e com os comparsas do pai dela. Além disso, a suposta traição de seu pai faz com que toda sua família também sofra a rejeição imediata dos moradores locais. Como podemos notar, os problemas do pai complicaram de mais a já sofrida vida de Ree, o que facilita a identificação do espectador com o drama da garota, especialmente porque os problemas que ela enfrenta são reais e passíveis de acontecer com muitos de nós.

Entretanto, o que não é muito comum é o ambiente selvagem e hostil em que ela vive, captado com realismo pela câmera precisa de Granik. Realismo, aliás, que está sempre presente em “Inverno da Alma”, praticamente nos inserindo naquele ambiente, por exemplo, através da aparência desgastada das cabanas de madeira e até mesmo de objetos como os utensílios utilizados para fazer comida. Da mesma forma, a fotografia crua de Michael McDonough aposta em cores frias que refletem a personalidade dos personagens, além de garantir um visual pouco colorido que, auxiliado pelas blusas e tocas dos figurinos de Rebecca Hofherr, transmite ao espectador a sensação térmica congelante do local. Além disso, a fotografia gradualmente deixa o visual iluminado pelo sol para trás e passa a priorizar seqüências noturnas, que conferem uma aura sufocante à narrativa, ampliando a tensão enquanto acompanhamos o desenrolar da busca da garota. Por sua vez, a trilha sonora econômica de Dickon Hinchliffe realça esta atmosfera realista, aproveitando ainda de maneira inteligente (e diegética) as canções cantadas pelos personagens, subindo o tom apenas em momentos pontuais, como quando Ree grita por Thump Milton (Ronnie Hall) enquanto este caminha entre o gado.

Conduzindo todo este trabalho com segurança, a diretora Debra Granik realça as ótimas atuações de seu elenco através do uso constante do close, criando ainda planos interessantes que realçam a aspereza do local, seja através do close-up em objetos ou através dos planos gerais que destacam a região – e é impressionante como a diretora consegue criar planos lindos naquele lugar tão sofrido, como se fossem quadros tristes e belos. Além disso, a diretora constrói cuidadosamente a atmosfera de suspense da trama, reforçada pelos personagens arredios e pouco sociáveis que fazem com que o espectador nunca saiba o que esperar de cada um deles, tornando cada diálogo potencialmente tenso. Contudo, existe uma cena que resume perfeitamente “Inverno da Alma”, quando Ree ensina ao irmão Sonny (Isaiah Stone) como tirar a pele de um esquilo. A frieza do diálogo ilustra claramente o modo racional que a garota enxerga as coisas, mas sob aquela carcaça puramente racional se escondem os mais primitivos sentimentos de defesa da família. Apesar de soar fria, na verdade Ree está apenas preocupada em preparar o garoto para enfrentar o mundo opressivo à sua volta. Estenda este raciocínio aos outros habitantes locais e você entenderá melhor as motivações de cada um deles.

Interpretada de maneira convincente pela ótima Jennifer Lawrence, Ree surge como a irmã mais velha e decidida que, forçada a assumir a casa diante dos problemas dos pais, não hesitará nem por um segundo até que consiga atingir seu objetivo, nem que para isto tenha que sofrer às mais terríveis ameaças. Transmitindo confiança no papel, Lawrence faz o espectador acreditar na personagem e embarcar na jornada junto com ela ao desafiar com autoridade as pessoas mais velhas, o que é muito importante para o sucesso da trama. Além disso, a atriz se sai muito bem em momentos mais sutis, externando sentimentos escondidos sob aquela fachada durona, como na única cena em que surge vulnerável chorando no colo da mãe. Observe também o olhar confuso da garota quando ouve de um sincero soldado a dura realidade sobre sua condição, fazendo-a desistir da idéia de servir o exército e priorizar a defesa da família – o que, ironicamente, era exatamente o que ela buscava ao tentar a inscrição no exército, sem perceber que para isto teria que deixá-los para trás. Ree sabia que não poderia demonstrar fraqueza naquele ambiente hostil, mas ainda assim jamais soa como uma personagem sem sentimentos, o que é mérito da atriz.

Numa cena capaz de assustar o espectador, somos apresentados ao Teardrop Dolly de John Hawkes, o ameaçador tio de Ree que demonstra seu lado explosivo ao segurar com violência o rosto dela. Mas apesar desta introdução assustadora, Teardrop é um personagem fascinante, que começa a demonstrar sua ambigüidade quando aconselha a sobrinha a vender as madeiras antes que perca a casa, completando seu arco dramático quando assume de vez a missão de proteger a garota ao buscá-la num momento crucial da narrativa. Aliás, a captura de Ree por parte dos irritados vizinhos é uma cena surpreendente e tensa, que faz o espectador realmente temer pelo destino da personagem. Da mesma forma, é marcante a atuação de Dale Dickey como Merab, a esposa de Thump Milton, que demonstra compreender o drama da garota, mas deixa claro que não permitirá que esta situação complique sua vida, o que dificulta antecipar o que acontecerá quando ela convida Ree a encontrar os restos do pai.

A tensão chega ao extremo quando o xerife interpretado por Garret Dillahunt para o carro de Teardrop na estrada, iniciando um diálogo lento que nos leva a temer constantemente pela reação deles. Momentos depois, a tensão é ampliada pelo suspeito convite dos vizinhos de Ree, que afirmam saber onde estão os ossos do pai dela. Toda a seqüência, desde a saída do carro, passando pelo barco, o rio congelado, o visual obscuro e o som da serra elétrica nos fazem temer pelo pior, mas a reação da garota ao tocar os braços do pai morto confirma que eles tinham razão – e este momento mórbido chega a ser tocante graças ao fabuloso desempenho de Lawrence. Ao afirmar que “estaria perdida sem o peso dos irmãos nas costas”, Ree evidencia que a luta para proteger a família era tudo que lhe restava naquele local, escancarando a triste realidade de sua vida. “Inverno da Alma” chega ao fim com a imagem de uma garota obrigada pela vida a interromper a adolescência e se tornar a cabeça de um lar, acompanhada dos irmãos que certamente crescerão igualmente arredios, simplesmente porque só assim conseguirão sobreviver ali.

Em suma, “Inverno da Alma” não trata da busca de redenção na relação entre pai e filha. Muito pelo contrário. O que vemos é uma busca seca pela sobrevivência, sem enfeites e sem jamais apelar para o melodrama. Ree precisava saber do paradeiro do pai, não porque sentia falta dele ou algo assim, mas apenas porque precisava desta informação para sobreviver. E é justamente este aspecto cru que chama a atenção, ainda mais quando observamos que a heroína em questão é somente uma garota, que certamente teve seus sonhos e desejos interrompidos de maneira cruel, apenas como consequência do ambiente hostil em que está inserida.

Texto publicado em 20 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira

CISNE NEGRO (2010)

(Black Swan)

 

Filmes em Geral #82

Dirigido por Darren Aronofsky.

Elenco: Natalie Portman, Vincent Cassel, Mila Kunis, Winona Ryder, Barbara Hershey, Toby Hemingway, Janet Montgomery, Kristina Anapau e Ksenia Solo.

Roteiro: Andres Heinz e Mark Heyman, baseado em história de Andres Heinz.

Produção: Scott Franklin, Mike Medavoy, Arnold Messer e Brian Oliver.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Dona de uma das raras carreiras consistentes na infância e adolescência, Natalie Portman chegou à maturidade profissional confirmando o talento que seu início promissor sugeria – algo que ficou evidenciado no ótimo “Closer”. Mas foi sob a direção de Darren Aronofsky neste excepcional “Cisne Negro” que a atriz ofereceu seu melhor desempenho, justamente reconhecido pela academia de Hollywood com o prêmio Oscar. Oferecendo uma atuação nada menos que sensacional, ela transmite com precisão e intensidade o doloroso processo de metamorfose de uma talentosa e recalcada bailarina, profundamente afetada por distúrbios psicológicos.

Adaptado para o cinema por Mark Heyman, John J. McLaughlin e Andres Heinz a partir de argumento do próprio Heinz, “Cisne Negro” tem início quando um grupo de bailarinas passa a competir pelo papel principal de uma adaptação de “O Lago dos Cisnes”, após a aposentadoria forçada da estrela Beth MacIntyre (Winona Ryder). Escolhida para o desafiador papel principal, a talentosa Nina (Natalie Portman) passa a ser pressionada pelo exigente diretor artístico Thomas Leroy (Vincent Cassel), mas enfrenta sérias dificuldades, especialmente após a chegada da sensual Lilly (Mila Kunis). Pra piorar, ela sequer pode contar com o apoio de sua mãe, a ex-bailarina Erica (Barbara Hershey).

Trazendo elementos de suspense e terror, “Cisne Negro” faz um maravilhoso estudo de personagem, explorando os conflitos psicológicos de sua protagonista ao mesmo tempo em que narra sua trajetória dentro da companhia de balé. Não por acaso, a câmera constantemente acompanha Nina por trás dos ombros, já que acompanhamos a narrativa sempre sob o ponto de vista dela, o que faz com que o espectador compartilhe suas angústias e até mesmo suas alucinações – que só descobriremos serem distúrbios psicológicos depois de muito tempo de projeção. Empregando closes que, além de realçar a marcante atuação de Portman, nos aproximam mais da personagem, Aronofsky torna quase palpável o sofrimento da garota através do detalhe de seu pé girando – repare que o ótimo design de som permite escutar até mesmo o estalar dos dedos de seus pés -, de planos fechados de suas unhas sangrando e da exposição crua de seus ferimentos nas costas. Da mesma forma, o diretor praticamente nos coloca dentro dos ensaios de Nina, com a câmera girando e acompanhando seus movimentos, conferindo ainda extremo realismo à narrativa ao nos apresentar a rotina desgastante das bailarinas – o que não deixa de ser também uma bela homenagem ao próprio balé.

Utilizando as músicas diegéticas dos ensaios, de uma caixa de música ou até mesmo do celular de Nina, Clint Mansell emprega variações interessantes do tema do “Lago dos Cisnes”, criando uma trilha sonora fabulosa que aumenta a carga de tensão da narrativa, reforçada pelo ritmo dinâmico da montagem de Andrew Weisblum que, auxiliado pela câmera agitada de Aronofsky, nos transmite a sensação de confusão mental da protagonista. O montador se destaca ainda nas ótimas cenas de balé, especialmente no ato final, quando a troca rápida de imagens empolga sem jamais deixar o espectador perdido na cena, como já havia acontecido no sonho que abre “Cisne Negro”. Aliás, estas duas seqüências realçam também o ótimo trabalho do diretor de fotografia Matthew Libatique, que cria um belo contraste entre o preto e branco, cores predominantes na narrativa que simbolizam a dualidade da protagonista.

Mantendo a unidade visual pretendida por Aronofsky, o design de produção de David Stein mantém o predomínio do preto e branco na decoração dos ambientes (observe o apartamento de Thomas, por exemplo), assim como os figurinos de Amy Westcott também optam por roupas nestes tons na maior parte do tempo. Talvez o único local em que estas cores não predominam, o quarto rosa de Nina funciona quase como um refúgio, mas ainda assim sua mãe surge como um fantasma quando ela resolve seguir um conselho de Thomas, assustando a garota que interrompe a masturbação e se esconde como uma criança embaixo do edredom. Esta infantilização fica mais evidente quando, em pleno processo de transformação, ela decide se livrar da caixa de música e dos bichos de pelúcia, deixando as lembranças da infância para trás.

A explicação para este comportamento talvez esteja na figura superprotetora de sua mãe, que chega a ser autoritária e opressora em diversos momentos, criando um enorme bloqueio psicológico em Nina que a impede de liberar a sexualidade tão necessária no papel de cisne negro (repare como até os desenhos sinistros da mãe dela intimidam a garota). Demonstrando este lado explosivo e temperamental com precisão, por exemplo, na cena em que ameaça jogar um bolo no lixo, Barbara Hershey cria uma figura gradualmente assustadora, que caminha entre a preocupação extrema e uma suspeita crueldade ao falar das dificuldades que Nina enfrentará, num comportamento que reflete a frustração por ter abandonado a carreira de bailarina para ter sua filha. Mas como diz Thomas em certo momento, o maior obstáculo de Nina é ela mesma, algo que Aronofsky faz questão de ressaltar ao utilizar muitos espelhos, ilustrando a dupla personalidade da garota, que vê seu próprio rosto em outras pessoas, como quando sonha com Lilly e quando cruza alguém no túnel de acesso ao metrô. Aliás, na primeira vez que Nina vê Lilly no metrô, os movimentos parecidos e as roupas (branca de Nina e preta de Lilly) indicam que a ameaça representada pela espontânea Lilly será o agente motivador da mudança de Nina, pois a garota simboliza o lado ainda inexplorado de sua personalidade.

Surgindo indefesa com seu rosto meigo e sua sensibilidade extrema, Natalie Portman demonstra com perfeição o medo que Nina demonstra do mundo, assim como seu controle absoluto sobre tudo que faz, num perfeccionismo exagerado que reflete a criação rígida que recebeu e a impede de se soltar (“Eu quero ser perfeita”, diz). Por isso, a garota representa um verdadeiro paradoxo para Thomas: por um lado, sua técnica refinada lhe garante o posto de bailarina ideal para o papel puramente técnico do cisne branco, mas por outro, sua timidez lhe impede de encarnar o incisivo papel do cisne negro. Ainda assim, ela é a escolhida – e chega a ser comovente o momento em que Nina conta chorando para a mãe que foi escolhida para o papel principal. Transmitindo ainda a timidez da personagem através do baixo tom de voz, como quando fala de sexo com Thomas, e ao desviar o olhar, como quando briga com Lilly, Portman oferece um desempenho magnífico que garante a empatia instantânea da platéia, demonstrando ainda enorme dedicação ao papel por não usar dublê nas cenas de balé e, especialmente, pela forma física extremamente magra que demonstra a fragilidade de Nina.

Chegando a soar ameaçador, o Thomas de Vincent Cassel se mostra um líder controverso, que por um lado extrai o melhor de sua estrela, mas por outro utiliza métodos nada convencionais para conseguir isto. Ainda assim, Cassel confere tridimensionalidade ao personagem, transmitindo a sensação de que ele realmente se importa com a garota (“Você pode ser brilhante, mas é covarde!”, diz). Ainda que pareça duro demais em diversos momentos, sua alegria ao ver o sucesso da apresentação de Nina parece genuína, graças ao bom desempenho do ator. Também genuína parece a felicidade de Lilly com o sucesso da colega, o que não deixa de ser intrigante. Bastante solta e sensual no papel, Mila Kunis oferece um desempenho competente, deixando o espectador sempre na dúvida quanto às reais intenções da garota. E fechando o elenco, Winona Ryder aproveita muito bem as poucas cenas em que aparece, demonstrando a amargura de Beth por não aceitar o fim dos dias de glória.

Num momento crucial, Nina se rebela contra a mãe e sai com Lilly, iniciando sua transformação – algo ilustrado de maneira sutil por Aronofsky quando a garota coloca uma roupa preta por cima da roupa branca no banheiro. Após a noitada, Nina volta para casa acompanhada por Lilly (e repare o plano escolhido pelo diretor quando elas entram no apartamento, filmado através do espelho, numa dica sutil da natureza daquele momento). Mais uma vez inspirada, Portman nos convence de que Nina realmente está alcoolizada, o que é essencial para o sucesso da cena. Em seguida, a forte cena de sexo termina com Nina mais uma vez vendo seu rosto no corpo de Lilly, em mais um sinal de sua transformação – e nesta cena vale destacar também os ótimos efeitos visuais, que fazem a tatuagem de Lilly simular as asas do cisne negro. Após a “noitada”, a transformação estaria completa, não fosse o temor que ela ainda tinha de perder o lugar para Lilly, comprovado quando ela chega atrasada ao ensaio e encontra a outra em seu lugar.

Enxergando penas saindo das costas, imaginando seu pé se entortando e vendo os dedos grudados no pé (novamente, mérito dos bons efeitos visuais), Nina passa a encarnar de vez o papel do cisne (e só temos certeza de que tudo aquilo não passa de alucinação quando a vemos dançando com asas negras e olhos vermelhos e, num plano rápido sob o ponto de vista da platéia, ela surge com braços e olhos normais). E então um verdadeiro espetáculo de direção, fotografia e montagem amarra tematicamente a narrativa com perfeição, com a “morte” da velha Nina, ferida com um pedaço de espelho que ela imaginou ter usado para assassinar Lilly, dando lugar à nova Nina – e impressiona a mudança de Portman na pele do cisne negro, exalando confiança com seus olhos arregalados, seus gemidos e seus leves movimentos corporais, deixando para trás o olhar tímido, a respiração ofegante e os movimentos calculados de antes. Quando retorna ao palco novamente na pele do cisne branco, a trilha triunfal indica o desfecho trágico e a conclusão perfeita surge no salto de Nina, que pode ou não ser um salto para a morte regido pelos intensos aplausos da platéia, numa despedida marcante da personagem. Assim como em “O Lutador”, o final em aberto sugere, mas não confirma a morte da protagonista, permitindo que cada espectador interprete à sua maneira.

Ao afirmar que “foi perfeito” após o salto final, Nina poderia muito bem estar se referindo ao pensamento do espectador, que sai extasiado diante da intensidade do que viu. Contando com a atuação fabulosa de Natalie Portman para expor o cruel processo criativo de uma artista, “Cisne Negro” praticamente insere o espectador dentro da mente de sua protagonista, explorando temas complexos como a sexualidade retraída e a dupla personalidade de maneira extremamente sensorial. Assim como a apresentação apaixonada de Nina no “Lago dos Cisnes”, este magnífico estudo psicológico de personagem repleto de simbolismos e com requintes de terror merece os aplausos da platéia.

Texto publicado em 17 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira