BRAVURA INDÔMITA (2010)

(True Grit)

 

Filmes em Geral #81

Dirigido por Joel Coen e Ethan Coen.

Elenco: Hailee Steinfeld, Jeff Bridges, Matt Damon, Josh Brolin, Barry Pepper, Doomhall Gleeson, Elizabeth Marvel, Leon Russom, Ed Corbin, Paul Rae, Nicholas Sadler, Bruce Green, Dakin Matthews, Brian Brown e Philip Knobloch.

Roteiro: Joel Coen e Ethan Coen, baseado em livro de Charles Portis.

Produção: Scott Rudin, Joel Coen, Ethan Coen e Steven Spielberg.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Refilmagem do longa que rendeu o único Oscar da carreira de John Wayne, este belo “Bravura Indômita” confirma o talento dos irmãos Coen ao trazer, além de imagens belíssimas e ótimas atuações, uma surpreendente abordagem clássica de um gênero quase extinto, é verdade, mas que sempre rende ótimos filmes quando pessoas talentosas resolvem investir nele. É uma pena, portanto, que os estúdios (e o público!) não estimulem a produção dos chamados westerns, pois o mais americano dos gêneros já provou inúmeras vezes que pode nos brindar com maravilhas como esta dirigida pelos Coen.

Escrito pelos próprios Joel e Ethan Coen com base no romance de Charles Portis, “Bravura Indômita” narra a história de Mattie Ross (Hailee Steinfeld), uma garota de apenas 14 anos que parte em busca de vingança após seu pai ser assassinado por Tom Shaney (Josh Brolin). Para isto, ela resolve contratar o agente federal J. Cogburn (Jeff Bridges), que após recusar a proposta inicial, acaba aceitando a oferta. Só que o Texas Ranger LaBoeuf (Matt Damon) também está perseguindo o criminoso por causa de outro crime ocorrido em seu estado.

Como de costume, os diálogos escritos pelos Coen são um espetáculo à parte, desta vez chamando a atenção por surgirem realistas em sua simplicidade, refletindo a brutalidade daquelas pessoas movidas por um código de honra próprio que normalmente busca defender valores familiares (Mattie) e até mesmo suas origens (LaBoeuf). Por outro lado, o humor negro marcante dos Coen aparece pouco desta vez (como quando o índio sequer pode falar suas últimas palavras antes do enforcamento), o que não quer dizer que o bom humor não esteja presente, como podemos notar quando LaBoeuf passa a falar com dificuldade após quase perder a língua – num momento divertido da atuação de Damon – e quando eles disputam quem tem a melhor mira durante a viagem – agora num momento de destaque de Bridges, que cai do cavalo totalmente sem jeito e mal consegue mirar corretamente graças à bebedeira.

Mostrando um amadurecimento louvável, os Coen conduzem a narrativa de maneira direta e sem invencionismos, recheando a narrativa com planos belíssimos que poderiam ser transformados em quadros, numa abordagem classicista que John Ford teria orgulho de assinar. Responsáveis também pela ótima montagem, eles empregam um ritmo contemplativo coerente com o gênero, fugindo da abordagem subversiva tão comum em sua filmografia. Além disso, eles conduzem os grandes momentos do longa com tranqüilidade, como na cena em que Cogburn e Mattie observam à distancia uma cabana, repleta de tensão, especialmente porque a câmera subjetiva nos coloca na posição deles. O uso da câmera subjetiva, aliás, surge também em planos similares que revelam a visão de Mattie nos braços de Cogburn quando ela deixa o derradeiro confronto e quando ela deixa seu cavalo morto para trás. Por sua vez, a beleza plástica de “Bravura Indômita” surge logo em seu plano inicial, quando a câmera, embalada pela linda trilha sonora e pela narração poética da protagonista, lentamente revela o corpo do pai dela na entrada de um saloon.

Empregando um nostálgico tom sépia, o grande Roger Deakins cria um visual árido e colabora na elaboração destes lindos planos, explorando com maestria a paisagem e destacando-se também nos ambientes fechados que são banhados pelos raios solares – como no julgamento de Cogburn -, além de criar um visual fascinante nas cenas noturnas e até mesmo na neve – note, por exemplo, a iluminação marcante da cena em que Cogburn assassina um homem dentro de uma cabana à noite (também marcada pela violência gráfica e realista). Em certo momento, um trem de ferro se move e revela ao fundo a bela cidade típica do velho oeste, que realça o ótimo design de produção de Stefan Dechant e Christina Ann Wilson, notável também quando Cogburn é encontrado dormindo nos fundos de uma venda chinesa através dos patos mortos pendurados, da desgastada cama de cordas e dos objetos espalhados por todo o local que refletem o estado de espírito do personagem.

Colaborando na tarefa de ambientar o espectador à época da narrativa, os impecáveis figurinos de Mary Zophres também merecem destaque, especialmente pelos detalhes nas botas de LaBoeuf e pelas roupas sempre pretas de Mattie, que ilustram seu luto eterno. E fechando a competente parte técnica de “Bravura Indômita”, a trilha sonora de Carter Burwell confere uma aura clássica ao longa, empregando interessantes variações da linda “Leaning on the Everlasting Arms”.

Vivendo Mattie como uma garota decidida e sempre dura nas negociações, Hailee Steinfeld tem uma ótima atuação, sobressaindo-se até mesmo nos duelos verbais com os ótimos Matt Damon e Jeff Bridges. Movida por um desejo de vingança e um imutável código de honra, a garota transmite a sensação de que nada a impedirá de alcançar seu objetivo. Exatamente por isso, sua reação chega a ser comovente no único momento em que Mattie surge vulnerável, quando, após ouvir Cogburn dizer que a abandonará, praticamente implora à LaBoeuf que não desista da perseguição – e repare como a chuva torna a cena ainda mais sufocante, refletindo a angústia da garota. Da mesma forma, seu rosto expressivo cede lugar à sutileza quando ela sorri levemente ao perceber que convencerá o dono do estábulo a comprar seus pôneis, o que só confirma a qualidade de seu desempenho.

Introduzido com competência na narrativa, Cogburn rapidamente nos apresenta características importantes de sua personalidade através da forma irritada que responde às perguntas de Mattie de dentro da latrina. Em seguida, seu jeito debochado no julgamento confirma sua personalidade conturbada, numa cena em que vale observar também como os Coen atrasam ao máximo a revelação de seu rosto, com a câmera subjetiva simulando a visão de Mattie. Conferindo carisma e ambigüidade ao personagem, Bridges tem um excepcional desempenho, com sua voz alterada e rouca, a dificuldade de pronunciar certas palavras e a oscilação de humor que revelam a instabilidade daquele homem explosivo e quase sempre alcoolizado, mas que guarda valores admiráveis – como descobriremos no terceiro ato. Matt Damon, por sua vez, confere uma interessante tridimensionalidade ao seu Texas Ranger, que surge inicialmente como um homem atrapalhado, mas ganha força nas discussões com Cogburn e, especialmente, ao conquistar o respeito de Mattie com o passar do tempo. Ambos, aliás, protagonizam instantes aparentemente despretensiosos que servem como preparação para o clímax da narrativa, quando Cogburn conta como conseguiu vencer sozinho sete homens armados (e a forma como Bridges conta a história faz o espectador acreditar nele) e quando LaBoeuf fala sem tanta convicção das proezas de sua arma, capaz de acertar alvos muito distantes.

Despretensioso também é o encontro entre Mattie e Tom Shaney, que dá inicio ao clímax da narrativa. Interpretado por Josh Brolin, Shaney é o bandido ignorante que se meteu numa enrascada e não sabe como sair dela, agindo de maneira sempre instintiva, o que também lhe coloca em situações perigosas – aqui, leva um tiro por menosprezar a garota. Entretanto, o bandido jamais soa caricato ou unidimensional, exatamente pela forma como Brolin confere vulnerabilidade ao personagem. Ainda assim, ele consegue seqüestrar a intempestiva Mattie, o que nos leva ao esperado confronto entre os “bandidos” e os “mocinhos” (assim, entre aspas mesmo). O tiroteio realista traz Cogburn enfrentando quatro homens armados, num confronto conduzido de maneira primorosa pelos irmãos Coen, especialmente depois que ele cai ferido e passamos a acompanhar a cena sob o ponto de vista de LaBoeuf, que atira e nos faz torcer para que o inimigo caia do cavalo – o que acontece alguns (longos) segundos depois.

O final poético de “Bravura Indômita” então começa a ganhar forma quando Mattie atira em Tom Shaney e, como Cogburn alertou que aconteceria, é jogada para trás, caindo num enorme buraco e sendo picada por uma cobra antes que o agente federal consiga retirá-la de lá. Desesperado para salvar a valente garota, ele parte numa linda cavalgada noite adentro, embalada pela marcante trilha sonora e repleta de planos memoráveis sob a neve. A seqüência final traz a adulta Mattie de volta à cidade e confirma que seu esforço valeu à pena. Ambos encontraram no outro o papel que faltava em suas vidas. Enquanto Mattie sentiu nos braços de Cogburn o carinho perdido com a morte do pai, Cogburn teve a chance de se redimir após o fim do relacionamento conturbado com seu filho. E enquanto ela se afasta do túmulo de Cogburn e a trilha embala os créditos finais, temos a sensação de que algo realmente marcante está chegando ao fim.

Recheado de imagens belíssimas e trazendo personagens marcantes, esta refilmagem de “Bravura Indômita” comprova a versatilidade dos irmãos Coen e a competência de atores como Bridges e Damon. Revelando ainda o talento da jovem Steinfeld, o longa revigorou um gênero quase sempre esquecido, mas sempre capaz de nos presentear com bons filmes.

Texto publicado em 16 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira

A REDE SOCIAL (2010)

(The Social Network)

 

 

Filmes em Geral #80

Dirigido por David Fincher.

Elenco: Jesse Eisenberg, Andrew Garfield, Justin Timberlake, Rooney Mara, Joseph Mazzello, Armie Hammer, Bryan Barter, John Getz, Rashida Jones, Max Minghella, Brenda Song e John Hayden.

Roteiro: Aaron Sorkin, baseado em livro de Ben Mezrich.

Produção: Dana Brunetti, Ceán Chaffin, Michael De Luca e Scott Rudin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Extremamente competente no comando de narrativas baseadas no raciocínio lógico, David Fincher encontrou na trajetória dos inventores do Facebook a oportunidade ideal de comprovar (mais uma vez!) seu enorme talento. Contando com um elenco jovem e talentoso e um roteiro fabuloso, Fincher fez de “A Rede Social” uma obra-prima moderna, que, além de fazer um primoroso estudo de personagem, capta com precisão a essência de sua época, a chamada “era da informação”.

Adaptado por Aaron Sorkin com base em livro de Ben Mezrich, “A Rede Social” apresenta a história de Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg), um analista de sistemas estudante de Harvard que, revoltado após terminar o namoro com Erica (Rooney Mara), resolve criar um programa que compara garotas fisicamente na internet, derrubando a rede da universidade pouco tempo depois. Sua genialidade chama a atenção dos irmãos Winklevoss (Armie Hammer), que o convidam para desenvolver uma rede social exclusiva para os alunos locais. Mas, após compartilhar a idéia com seu amigo brasileiro Eduardo (Andrew Garfield), Zuckerberg abandona o projeto dos Winklevoss e cria o Facebook, revolucionando a “vida virtual” em todo o planeta e se tornando o mais jovem bilionário da história. O problema é que neste processo – especialmente depois de conhecer o fundador do Napster Sean Parker (Justin Timberlake) – ele coleciona problemas em sua vida pessoal.

Adotando uma estrutura narrativa que alterna entre dois julgamentos e flashbacks que narram os acontecimentos citados pelos advogados, David Fincher e seus montadores Kirk Baxter e Angus Wall conseguem imprimir um ritmo interessante que evita tornar cansativa uma narrativa baseada em diálogos – ainda que estes sejam excepcionais. Empregando movimentos de câmera discretos e criando planos simétricos, o diretor procura demonstrar visualmente a maneira racional que Zuckerberg enxerga o mundo, algo ressaltado também pela fotografia em tons azulados e acinzentados de Jeff Cronenweth, que também ilustra a frieza do protagonista. Esta lógica visual se confirma através das linhas retas da arquitetura dos prédios de Harvard realçadas em diversos planos, que confirmam o alinhamento entre o trabalho de Cronenweth e o design de produção, como notamos também através das poltronas cinzas do auditório, do sofá vinho do alojamento de Zuckerberg e até mesmo dos figurinos de Virginia Johnson, que priorizam roupas sóbrias e cores sem vida na maior parte do tempo. Pra finalizar, o diretor ainda utiliza uma profundidade de campo reduzida, que simula o desinteresse de Zuckerberg pelo que acontece ao seu redor.

Pontuando a narrativa sem chamar muito a atenção, a excelente trilha sonora de Trent Reznor confere uma aura moderna e coerente com a época em que se passa a história ao inserir sons de computador em sua melodia. Além disso, alterna entre momentos de euforia, normalmente através de músicas diegéticas que tocam nas festas e bares freqüentados pelos personagens, e momentos melancólicos que ilustram a solidão do protagonista. Mas apesar do excelente trabalho técnico, é mesmo no inteligente e ágil roteiro de Aaron Sorkin que reside à força de “A Rede Social”. Fazendo um profundo estudo de seu complexo protagonista, o texto de Sorkin até tenta mostrar quem é o homem por trás do inventor do Facebook, mas evita o julgamento ao expor sem hesitar sua notável genialidade e seus mais asquerosos defeitos.

Outro aspecto curioso abordado em “A Rede Social” está na irônica diferença entre a personalidade de Zuckerberg e a faceta jovem e alegre de sua criação. Como pode alguém tão anti-social criar a maior rede de relacionamentos do planeta? A resposta está na inteligência de Zuckerberg. Se lhe falta traquejo social, sobra inteligência e astúcia para aproveitar a oportunidade no momento certo. Aliás, as próprias redes sociais representam um paradoxo, já que se por um lado servem para nos aproximar de amigos distantes, oferecendo até mesmo a oportunidade de reencontrar pessoas que há muito tempo não vemos (o que é ótimo!), por outro podem servir como muleta, fazendo com que a conversa através da tela do computador substitua o encontro real, sempre mais prazeroso.

Felizmente, Fincher é inteligente o bastante para extrair o melhor do roteiro e de seu elenco, conseguindo sucesso até mesmo nos momentos bem humorados, como na piada envolvendo Bill Gates e o engraçado instante em que os irmãos Winklevoss visitam a sala do diretor de Harvard. Entretanto, o diretor prioriza corretamente os diálogos ágeis e cortantes como navalha, que demonstram a velocidade de raciocínio do protagonista, algo notável até quando ouvimos seus pensamentos, como quando ele digita códigos de programação no computador.

Extremamente inteligente e até mesmo superior intelectualmente à maioria das pessoas, Zuckerberg chega a ser arrogante e frio, baseando sua vida no raciocínio lógico sem perceber quando fere os sentimentos das pessoas, como fica evidente no ótimo diálogo que abre “A Rede Social”, quando ele percebe que a namorada de fato está terminando o relacionamento com ele (“Está falando sério?”; “Sim”; “Me desculpe… Vamos comer?”). Sua arrogância fica ainda mais evidente no julgamento, quando exclama que poderia comprar o clube Phoenix e transformá-lo num pingue-pongue ou ainda quando, ironicamente, confere uma soma feita pela advogada de Eduardo (num dos momentos em que o humor sarcástico do texto de Sorkin se destaca). Dando vida a este personagem marcante com competência, Jesse Eisenberg chama a atenção não apenas pela já citada rapidez com que pronuncia as palavras, mas também pela expressão blasé de quem despreza as pessoas à sua volta, além das reações que ressaltam a astúcia do rapaz, como quando ele tem a idéia sobre o “status de relacionamento” e larga um estudante falando sozinho, saindo correndo para colocar em pratica sua idéia.

Curiosamente, a frustração amorosa também motiva Zuckerberg a criar, como notamos novamente em seu reencontro com Erica, numa cena que contém uma das frases emblemáticas de “A Rede Social”: “A internet não escreve a lápis”. O raciocínio perfeito de Erica reflete algo que muitas pessoas ainda parecem não enxergar, compreendendo o mundo virtual como um local onde podemos despejar nossas frustrações, ameaçar e ofender pessoas e destilar nossos pensamentos sem sofrer penalizações por causa disto. Aliás, mesmo com poucos minutos em cena, Rooney Mara confere carisma e sensibilidade a sua Erica Albright, especialmente na citada cena do reencontro. Já Brenda Song mostra o lado negro das redes sociais na pele da ciumenta Christy, que faz a vida de Eduardo virar um inferno (literalmente!) somente porque ele não alterou seu status na rede de relacionamentos, em outra crítica interessante à sociedade moderna, que tanto valoriza a vida virtual.

Interpretado por Andrew Garfield de maneira carismática, Eduardo é responsável por garantir a estabilidade financeira do projeto, além de ser o criador da fórmula que resultou no “Facemash” e popularizou o criador do Facebook, mas, por outro lado, falha ao não perceber o potencial comercial da rede social que ajudou a criar. Como se não bastasse, ele também é conhecido por conseguir algo raro: ser chamado de “amigo” de Zuckerberg. Na realidade, talvez ele seja à única pessoa com quem Zuckerberg realmente se importa, como fica claro quando recebe imediatamente um pedido de desculpas após ser ofendido numa festa (“Desculpe, foi cruel”). Ciente da importância que entrar num clube tinha para Zuckerberg, ele hesita antes de contar ao amigo que passou para a segunda fase da seleção do Phoenix, alegando que provavelmente foi escolhido por fazer parte da cota – algo que Zuckerberg prontamente faz questão de concordar. Por tudo isso, ainda que os sentimentos não ganhem destaque na narrativa, chega a ser tocante o desfecho trágico desta amizade, algo que Fincher realça muito bem quando foca a cadeira de Eduardo vazia no julgamento logo após Zuckerberg afirmar que ele era seu melhor amigo – convenhamos, uma ironia cruel em se tratando do criador do Facebook.

Mais preocupados com a forma que serão vistos pela sociedade, os irmãos Winklevoss interpretados por Hammer fazem questão de destacar sempre que podem suas origens nobres e suas “conquistas” (repare como a bandeira da equipe de remo ganha destaque em seu alojamento), ainda que evitem se aproveitar da riqueza do pai para conseguirem o que querem. O diagnostico perfeito da dupla é feito por Zuckerberg: eles não estão me processando por roubo de propriedade intelectual, estão me processando porque pela primeira vez na vida algo não saiu como eles planejaram. E fechando os destaques do elenco, não deixa de ser irônica a escolha de Justin Timberlake para viver aquele que balançou as estruturas da indústria da música. Desde sua excelente introdução na narrativa, quando surge acompanhado de uma estudante de Stanford, o Sean Parker de Timberlake espalha carisma e conquista o espectador, o que também explica o fascínio que seus pensamentos exercem sobre Zuckerberg. Responsável pelo polêmico Napster, ele traz conflito e instabilidade à relação entre Zuckerberg e Eduardo, especialmente pela maneira irônica com que trata o brasileiro (algo, aliás, que Timberlake faz muito bem). Enxergando Eduardo como um entrave no projeto, Sean mal consegue conter a euforia ao saber que ele não veio para a Califórnia e lentamente consegue convencer Zuckerberg a tirar espaço do brasileiro – o que, obviamente, abre espaço para o próprio Parker.

Numa interessante conversa na balada, Parker expõe suas idéias novamente e convence Zuckerberg de que ele deveria esperar mais tempo para ver até onde iria à valorização do Facebook – e o tempo provou que ele estava certo. O problema é que, para isto, eles arquitetam uma situação que enfraquece o poder de Eduardo na empresa. Irado diante da traição, Eduardo parte pra cima do ex-amigo, num momento tenso em que todos se destacam: enquanto Garfield explode violentamente, Timberlake faz Parker soar ainda mais irritante, ao passo em que Eisenberg demonstra com precisão o incomodo de Zuckerberg com a situação. Algum tempo depois, a decepção no rosto de Zuckerberg ao ouvir a notícia da prisão de Parker retrata seu breve momento de reflexão.

Reflexão que volta a surgir – desta vez na mente do espectador – na emblemática cena final, em que o solitário Zuckerberg tenta seguidas vezes conquistar a amizade virtual da ex-namorada Erica. O criador do maior site de relacionamentos do mundo, que revolucionou o comportamento da sociedade moderna (quem sabe eternamente), surge solitário, evidenciando sua incapacidade de estabelecer conexão afetiva com alguém. Se os grandes filmes são aqueles que captam com precisão a sua época, Fincher pode se orgulhar, pois “A Rede Social” é um retrato perfeito da sociedade contemporânea, cada vez mais “conectada” ao mundo virtual, sem perceber a ausência de valores dos tempos em que vivemos.

Texto publicado em 15 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira

A ORIGEM (2010)

(Inception)

 

 

Filmes em Geral #79

Dirigido por Christopher Nolan.

Elenco: Leonardo DiCaprio, Marion Cotillard, Joseph Gordon-Levitt, Ellen Page, Ken Watanabe, Cillian Murphy, Tom Berenger, Michael Caine, Lukas Haas, Tohoru Masamune, Dileep Rao e Tom Hardy.

Roteiro: Christopher Nolan.

Produção: Christopher Nolan e Emma Thomas.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Dono de uma filmografia impecável, o diretor Christopher Nolan já comprovou diversas vezes que é possível comandar blockbusters sem que para isto tenha que ofender a inteligência do espectador. Mas se acertou em cheio nas experiências anteriores, na obra-prima “A Origem” o diretor inglês foi ainda mais longe, trazendo uma narrativa extremamente complexa e desafiadora que explora de maneira inteligente o universo dos sonhos e suga o espectador pra dentro da trama, apresentando ainda proezas técnicas impressionantes e excelentes atuações.

Escrito pelo próprio Nolan, o inteligente e muito bem estruturado roteiro de “A Origem” traz o espião Don Cobb (Leonardo DiCaprio), um especialista em invadir a mente das pessoas e roubar segredos durante os sonhos, que não pode voltar aos Estados Unidos por ser suspeito de assassinar a própria esposa Mal (Marion Cotillard). Desesperado para rever seus filhos, ele aceita a missão proposta pelo empresário Saito (Ken Watanabe) de implantar uma idéia na mente do concorrente Fischer (Cillian Murphy) – que herdará a empresa do pai doente assim que ele falecer -, tendo a promessa de poder voltar ao seu país como recompensa. Para cumprir sua tarefa, ele contará com a ajuda dos parceiros Arthur (Joseph Gordon-Levitt) e Eames (Tom Hardy), do especialista em sedação Yusuf (Dileep Rao) e da novata arquiteta Ariadne (Ellen Page).

Exigindo ao máximo o raciocínio lógico do espectador, “A Origem” parte de uma premissa inteligente e complexa, explorando o universo dos sonhos de maneira bastante lógica e racional, ainda que abra espaços para visões oníricas e desconexas tão comuns quando estamos sonhando, como quando Cobb se esfrega entre duas paredes tentando escapar de perseguidores (num momento digno de um pesadelo) ou quando um trem atravessa uma rua cheia de carros – e o mais interessante é que estas visões sempre têm alguma ligação com os sonhadores, como neste caso em que o trem é reflexo de uma frase marcante dita por Cobb. Também de forma inteligente, Nolan justifica estes ambientes pouco confusos, que fogem completamente do que esperamos num ambiente onírico, ao utilizar arquitetos para projetar o mundo dos sonhos – Nash (Lukas Haas), no começo, e depois Ariadne. Ainda assim, é interessante notar como o mundo real interfere diretamente nos sonhos, como quando Cobb cai na banheira enquanto dorme e, imediatamente, a água invade seu sonho, assim como a chuva no sonho de Yusuf apenas reflete sua vontade de urinar (“Não podia ter urinado antes!”, reclama Arthur).

Logo de cara, Nolan insere uma premissa importante que faz o espectador se acostumar com a complexa idéia das várias camadas de sonhos, trazendo Cobb e Saito de volta de dois sonhos até acordarem num trem, o que é essencial para que compreendamos melhor o excepcional terceiro ato de “A Origem”. Mantendo-se fiel à lógica interna da narrativa, Nolan também explica de maneira clara e coerente alguns conceitos importantes, como o interessante conceito da diferença na passagem do tempo em cada nível de sonho. Mas apesar desta complexidade narrativa, “A Origem” jamais deixa o espectador confuso, graças à clareza com que o diretor conduz o projeto, confiando na inteligência do espectador ao evitar o excesso de informações que poderia poluir a narrativa.

Contando com um elenco numeroso e de muito talento, Nolan também consegue extrair ótimas atuações de praticamente todos os envolvidos, ainda que estejam em papéis menores, como no caso de Tom Berenger, que vive o tio Browning, e de Michael Caine como o professor. Vivendo a projeção de esposa Mal, Marion Cotillard convence no papel e consegue até mesmo plantar a dúvida na cabeça de Cobb (e do espectador) em determinado momento, assim como Ken Watanabe transmite segurança na pele do empresário Saito. E se Cillian Murphy surge corretamente fragilizado como o indeciso Fischer, Joseph Gordon-Levitt faz de seu Arthur um personagem cativante, especialmente quando precisa tomar as rédeas em determinado momento sob o risco de colocar toda a ação da equipe em perigo – e o faz muito bem.

Fechando o elenco, temos ainda Tom Hardy, que vive o camaleão Eames e tem papel fundamental em diversos momentos (vale notar a sutileza com que ele se “transforma” no tio Browning e vice-versa, especialmente quando está sentado nas pedras após sair da água no sonho de Yusuf), além da arquiteta Ariadne de Ellen Page (a eterna Juno!), que funciona como uma espécie de guia para o espectador, com seus questionamentos trazendo à tona explicações vitais para compreendermos o que está acontecendo na tela, mas que também colabora muito com a equipe durante a missão. Mas o grande destaque de “A Origem” fica mesmo para o astro Leonardo DiCaprio, que confirma seu talento e carisma ao carregar este projeto complexo com facilidade. Desejando apenas poder voltar para casa e rever os filhos, seu Cobb comove em sua luta para esquecer Mal, colocada em cheque todas as vezes que ele entra em um sonho, projetando involuntariamente a esposa “morta” e colocando em risco suas missões, num reflexo direto da morte traumática dela que DiCaprio demonstra muito bem. Transmitindo o dilema de Cobb com precisão quando suas convicções são questionadas pela esposa, o ator faz com que o espectador compartilhe de seus sentimentos, demonstrando ainda a angústia crescente do personagem de maneira convincente no decorrer da narrativa.

Exibindo enquadramentos perfeitos e planos simétricos, além de belos movimentos de câmera como o travelling que revela a estrutura do limbo, Nolan capricha no aspecto visual, utilizando também a câmera lenta com precisão em momentos cruciais, como quando objetos começam a explodir em Paris após Cobb revelar que Ariadne está num sonho, num momento que confirma também a qualidade dos efeitos visuais de “A Origem”. E o que dizer do estranho e magnífico momento em que a cidade se curva e une os tetos dos prédios? Além disto, Nolan mostra competência também na condução das cenas de ação, como as perseguições, os tiroteios e a invasão da fortaleza, mas sempre inserindo estas seqüências de maneira orgânica e contribuindo para o andamento da narrativa, comprovando sua capacidade de comandar blockbusters com cérebro, já revelada antes nos excelentes “Batman Begins” e “O Cavaleiro das Trevas”.

Obviamente, ele conta com uma equipe técnica talentosa para conseguir este apuro visual. Observe, por exemplo, a diferença entre tons da fotografia de Wally Pfister, que ajuda a identificar com clareza em que sonhos os personagens estão, além de revelar características importantes de cada sonhador. Repare que o primeiro sonho, caótico e chuvoso, reflete o modo impulsivo de agir de Yusuf, enquanto que no segundo, o hotel organizado, limpo e simétrico revela o perfeccionismo de Arthur, ao passo em que a neve do terceiro sonho confirma a personalidade fria de Eames. Da mesma maneira, o design de produção busca diferenciar cada sonho, mantendo uma lógica fiel à personalidade de cada um (“Julgando pela decoração este é o seu sonho Arthur”, diz Mal em certo momento), além de se destacar na criação do impressionante e surreal limbo, repleto de construções imaginadas por Cobb e Mal, trazendo ainda o objeto símbolo do filme, que é o totem que revela ao protagonista o que é real e o que é sonho.

Os espetaculares efeitos visuais citados acima tornam tudo mais convincente e realista, destacando-se também na briga que ocorre no sonho de Arthur, em que os personagens flutuam na tela devido à alteração da gravidade, num reflexo interessante do que ocorre no ambiente caótico em que eles estão sonhando na camada anterior. Também se destacam os ótimos efeitos sonoros e o design de som, que captam cada movimento dos personagens, os tiros, o barulho dos carros e até mesmo o estalar de uma taça quebrada, vital em certo momento da narrativa. Já a trilha sonora de Hans Zimmer chama pouca atenção para si, surgindo apenas em momentos pontuais e ganhando força nas grandes cenas, especialmente através da música diegética de Edith Piaf que conecta os sonhos – que faz ainda uma referencia ao papel que rendeu o Oscar a Marion Cotillard. Fechando a parte técnica, a excepcional montagem de Lee Smith mantém um ritmo dinâmico durante toda a narrativa, chegando quase à perfeição durante os quatro sonhos simultâneos (que abordaremos em instantes) ao transitar entre cada um deles de maneira fluída e orgânica.

Após cumprirem à risca o plano traçado, os agentes finalmente conseguem invadir a mente de Fischer, iniciando a sensacional seqüência em que eles invadem sonhos dentro de sonhos, chegando a percorrer três camadas até que o jovem empresário seja atingido no último estágio, colocando em risco toda a missão. É quando eles decidem salvar Fischer e buscar Saito, também ferido e já abandonado no limbo, indo para uma quarta camada e criando um desafio interessante para o espectador, agora obrigado a acompanhar quatro ações paralelas, em diferentes níveis de tempo e com objetivos distintos. Nolan conduz toda a seqüência com maestria e atinge a perfeição técnica naquele que certamente é o grande momento de “A Origem”, quando o “chute” começa a trazer de volta os sonhadores para a realidade – e impressiona como ele respeita com rigidez quase militar a lógica interna da narrativa, não apenas neste momento, mas em todo o filme. Contando novamente com o ótimo trabalho do montador Lee Smith, Nolan cria uma seqüência belíssima e potencialmente tensa, capaz de nos fazer grudar na tela enquanto acompanhamos os personagens despertando sucessivamente. A câmera lenta mostrando a queda da van no primeiro sonho, a queda do elevador no segundo, a explosão da fortaleza que segue o momento em que Fischer abre o cofre no terceiro e o instante em que Ariadne joga Fischer do prédio e se joga no quarto sonho são seqüências memoráveis, conduzidas num ritmo perfeito por Nolan, que ainda amarra a narrativa com perfeição ao trazer Cobb acordando na praia do limbo novamente, assim como no primeiro plano do longa.

Como se não bastasse, ainda temos o belo final, com todos acordando no avião e Cobb confirmando que sua missão foi bem sucedida ao ver Saito pegando o telefone, permitindo-lhe passar pela imigração e reencontrar os filhos. E então Nolan decide brincar com nossa percepção ao encerrar esta obra-prima da ficção científica com um plano polêmico, em que vemos o totem girando, mas não vemos sua queda, criando duas possibilidades interessantes de interpretação. Na primeira e mais plausível delas, Cobb retorna pra casa, reencontra os filhos na “vida real” e o totem cai após o encerramento do filme. Mas o fato de cortar o plano antes de mostrar a queda do objeto levanta outra curiosa possibilidade, ventilada algumas vezes durante a narrativa (especialmente por Mal e por um senhor que ministra sedação). Estaria Cobb vivendo um longo e complexo sonho? O fato de ser perseguido por inimigos e até mesmo por autoridades, assim como os “sonhadores” são perseguidos nos sonhos que ele invade, reforça esta teoria – e Nolan é inteligente o bastante para não mostrar a queda do totem, plantando assim a dúvida em nossas mentes, especialmente porque Mal afirma com convicção em diversos momentos que Cobb é quem ficou preso no mundo dos sonhos, e não ela. E desta forma, o diretor faz o espectador compartilhar da mesma dúvida do personagem, que, diante de tudo que testemunhou e viveu, já não sabe mais o que é sonho e o que é realidade. Não é genial?

Se Cobb estava sonhando ou não, pouco interessa. O importante é que os cinéfilos podem comemorar, pois “A Origem” é uma realidade, um filme sensacional dirigido por um realizador competente e cada vez mais ousado, recheado por um elenco do mais alto nível. Complexo e inteligente, pertence ao seleto grupo de filmes que desafiam a mente do espectador, fazendo-o sair da cômoda posição de “platéia” e participar da narrativa, usando seu cérebro para algo mais do que comer pipoca e tomar refrigerante. Se você não se incomoda em ser estimulado desta forma, certamente acompanhar a trajetória de Cobb e sua turma foi uma experiência memorável.

Texto publicado em 14 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira

127 HORAS (2010)

(127 Hours)

 

Filmes em Geral #78

Dirigido por Danny Boyle.

Elenco: James Franco, Treat Williams, Kate Mara, Lizzy Caplan, Kate Burton, Amber Tamblyn, John Lawrence, Clémence Poésy, Fenton Quinn, Pieter Jan Brugge, Rebecca C. Olson, Jeffrey Wood, Norman Lehnert, Darin Southam, Sean Bott e Parker Hadley.

Roteiro: Danny Boyle e Simon Beaufoy, baseados em livro de Aron Ralston.

Produção: Danny Boyle, Christian Colson e John Smithson.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Em 2003, o jovem Aron Ralston ficou famoso por ter sido obrigado a amputar o próprio braço depois de ficar preso por uma rocha num cânion. Mas, apesar de lançar um livro logo no ano seguinte, ele teve que aguardar alguns anos para ver sua história ganhar vida nas telas do cinema, talvez pela curiosa dualidade que o projeto naturalmente carrega. Se por um lado a experiência de Aron possui carga dramática suficiente para se tornar um filme, por outro as extensas 127 horas do título poderiam resultar num longa monótono demais para os padrões cinematográficos contemporâneos. Coube então a Danny Boyle a missão de transportar para a telona esta marcante história. Felizmente, o resultado é satisfatório, ainda que os invencionismos do diretor amenizem o impacto que a narrativa poderia ter.

Escrito pelo próprio Boyle ao lado de Simon Beaufoy e com base no livro do verdadeiro Aron, “127 Horas” apresenta a complicada situação vivida pelo jovem Aron Ralston (James Franco) após cair na fenda de um cânion e ter seu braço preso entre a parede e uma rocha. Desde o início, Boyle faz questão de ressaltar o contraste entre as diversas imagens de multidões reunidas em locais como estádios e shows e a imagem do solitário Aron saindo de casa na madrugada, numa alusão ao espírito aventureiro e solitário do rapaz. Aliás, eu não me recordo qual era a frase que promovia “127 Horas”, mas certamente a mensagem do filme poderia se resumir à frase “Sempre avise alguém aonde você vai estar” – algo, aliás, que o letreiro final deixa claro que Aron aprendeu. O evento que muda radicalmente a narrativa (e a vida de Aron) acontece logo aos 15 minutos de projeção – numa cena de forte impacto visual, amplificada pela boa atuação de Franco, que transmite muito bem a dor e a raiva de Aron. A partir dali, o letreiro com o título do longa anuncia que acompanharemos as angustiantes 127 horas que o jovem passou no local.

Mas esta expectativa se revela levemente falsa, já que as escolhas de Boyle e sua equipe sempre buscam amenizar esta experiência potencialmente sufocante. Repare, por exemplo, como a fotografia inicialmente viva e cheia de cores de Enrique Chediak e Anthony Dod Mantle corretamente dá lugar aos tons mais escuros quando Aron se prende à rocha, mas as constantes interrupções através de flashbacks e delírios evitam que o visual reflita a angústia dele. Da mesma forma, a montagem de Jon Harris surge inicialmente acelerada (ele chega a dividir a tela em três partes) e, reforçada pela trilha sonora agitada de A. R. Rahman, reflete corretamente a euforia do personagem naquele instante. Repare, por exemplo, a seqüência em que ele anda de bicicleta até chegar ao cânion, que intercala diversos planos rapidamente buscando conferir energia à narrativa. Repleta de imagens belíssimas que transmitem ao espectador a mesma alegria dele, dentre as quais vale destacar o local onde ele mergulha com duas garotas, toda esta seqüência inicial deveria servir de contraste para o sufocante restante da narrativa, mas, infelizmente, Harris e Boyle decidem utilizar diversos recursos narrativos que buscam amenizar o aspecto claustrofóbico e monótono que o longa naturalmente evoca.

Além da beleza local, os planos gerais destacam também a imponência da natureza e a nossa insignificância diante dela, algo ressaltado pelo ótimo travelling que revela o quão inúteis são os gritos de Aron, com a câmera saindo de seu rosto para mostrar a imensidão do inabitado local onde ele está preso – a enorme fenda parece minúscula quando observamos toda a região. Boyle acerta também ao destacar a importância da água através de closes no líquido e no rosto do protagonista enquanto bebe (praticamente compartilhamos de sua sede quando vemos garrafas de Gatorade e Coca-Cola), assim como a importância do sol é realçada pela primeira vez num belo momento, quando a luz invade a sombria fenda. Porém, numa decisão puramente comercial que buscava evitar cansar o espectador (e, desta forma, atrair mais público para os cinemas), Boyle acelera a montagem e abusa de transições estilísticas que, reforçadas pela trilha sonora agitada, até alcançam seu objetivo original, mas enfraquecem o drama do protagonista por não transmitir ao espectador a mesma sensação dele. Além disso, o uso de flashbacks e os delírios de Aron com a ex-namorada, por exemplo, aliviam a sensação de isolamento no espectador e, por isso, também enfraquecem o peso dramático da narrativa.

Por sorte, James Franco se sai muito bem na difícil tarefa de carregar “127 Horas” sozinho, evitando que o espectador “se canse” do personagem com seu carisma. Realçando o desespero pontual de Aron através de decisões pouco racionais – como raspar a rocha com um canivete -, o ator expõe com clareza os conflitantes sentimentos de Aron, o sofrimento causado pela fome, pelo frio e pela sede e, especialmente, seu esforço para evitar perder o controle diante da complicada situação em que se meteu – e que por vezes dá espaço às inevitáveis explosões de raiva e desespero, como quando ele grita por ajuda. Aliás, é impressionante notar como Aron consegue manter o raciocínio lógico e até mesmo criar estratégias para sobreviver por mais tempo, ainda que saiba que não resistirá por muitos dias se continuar preso, como na mórbida idéia de gravar suas conversas com a câmera digital, que acaba se transformando numa forma de sair mentalmente do local, uma espécie de janela para o mundo em que ele se refugia – e chega a ser tocante o momento em que ele ameaça se masturbar vendo a imagem de uma das garotas, refutando a idéia logo em seguida por perceber o absurdo da situação.

Em outra idéia inteligente que busca tirá-lo mentalmente dali, Aron imita um programa de rádio e aproveita para externar seus sentimentos, exorcizar os demônios e deixar mensagens gravadas para os pais, o que revela uma comovente conformidade diante da morte eminente e uma tocante esperança de que um dia a câmera seria encontrada a tempo de que eles ouvissem suas palavras. Aron chega até mesmo a imaginar (ou sonhar? ou delirar?) que a chuva moveu a pedra e lhe tirou da fenda, mas seu choro doloroso nos traz de volta à realidade junto com ele.

Este sofrimento se arrasta até que o som de fortes batidas de coração avise ao espectador que algo está prestes a acontecer momentos antes dele enfiar o canivete no braço e iniciar o doloroso processo que resultará na cena mais forte de “127 horas” algum tempo depois. Antes disso, o símbolo da bateria acabando na filmadora serve como uma metáfora para o próprio Aron, que se aproxima da morte e chega à triste conclusão de que aquela rocha o esperava há bilhões de anos (levantando uma interessante tese para discutir entre amigos). Em seguida, são necessários coragem e estômago forte para acompanhar o momento em que Aron decide amputar o próprio braço (com um canivete cego!) para sobreviver, captado em detalhes pela câmera de Danny Boyle. Coragem, aliás, que não faltou ao rapaz, que buscou força nas lembranças da família e na visão do filho que ele ainda não tinha para tomar esta atitude – e confesso que me identifiquei muito neste momento, já que sempre temi morrer antes de ter um filho. Chegava ao fim sua árdua jornada; e as imagens do verdadeiro Aron ao lado da esposa e do filho revelam que aquela dolorosa decisão valeu à pena.

Apesar das equivocadas escolhas de seu diretor, “127 Horas” é um filme sufocante, que poderia ser infinitamente mais angustiante caso Boyle tivesse ousado um pouco mais. Em todo caso, a traumática experiência vivida pelo protagonista e a ótima atuação de James Franco são suficientes para fazer deste um grande filme. Aron descobriu da pior maneira o quanto a natureza pode ser simultaneamente fascinante e implacável.

Texto publicado em 13 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira

CORAÇÃO VALENTE (1995)

(Braveheart)

 

Videoteca do Beto #125

Vencedores do Oscar #1995

Dirigido por Mel Gibson.

Elenco: Mel Gibson, Patrick McGoohan, Sophie Marceau, Catherine McCormack, Brian Cox, Angus MacFadyen, Brendan Gleeson, James Robinson e David O’Hara.

Roteiro: Randall Wallace.

Produção: Bruce Dave, Mel Gibson e Alan Ladd Jr.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Grandioso e intenso, “Coração Valente” apresentou ao mundo muitas das características marcantes do controverso cinema de Mel Gibson, algo que não aconteceu em sua estréia atrás das câmeras, no singelo e tocante “O homem sem face”. Desta vez, o diretor empregou toda sua energia, nos trazendo uma história apaixonante e entregando um longa de forte impacto visual e emocional. Goste ou não do que se vê na tela, uma coisa é certa: o segundo filme dirigido pelo então astro de Hollywood deixou claro que a indiferença é um sentimento que você jamais sentirá num filme dele.

Escrito por Randall Wallace a partir de uma pesquisa em busca de seus ancestrais escoceses, “Coração Valente” narra a história de William Wallace (Mel Gibson), um escocês que tem a noiva assassinada (Catherine McCormack, belíssima como Murron) por ingleses no século XIII e parte para uma vingança pessoal que inflama seus compatriotas e resulta na luta pela liberdade de seu povo.

Olhando superficialmente, o roteiro de “Coração Valente” pode soar maniqueísta por tratar a maioria dos ingleses como cruéis vilões e os escoceses como sofridos heróis. Entretanto, esta visão unidimensional e até mesmo romantizada tem uma justificativa plausível, fugindo do maniqueísmo ao narrar os fatos sob o ponto de vista de Robert the Bruce (Angus MacFadyen), um personagem claramente seduzido pela força do protagonista. E apesar de alguns pequenos erros históricos, o roteiro de Randall apresenta, além de uma estrutura narrativa envolvente, um protagonista realmente cativante, algo que, associado ao carisma de Mel Gibson, faz com que a platéia acredite em suas motivações e “lute” junto com ele. Além disso, o roteiro utiliza com elegância algumas rimas narrativas, seja através das palavras (“Isto é algo que teremos que remediar”) ou de simbolismos, como a flor que conquista Murron (e o coração das mulheres na platéia), abordando ainda de maneira interessante os bastidores das batalhas, através das estratégias de guerra utilizadas por William e pelo rei Eduardo I, o “Longshanks” (Patrick McGoohan), pecando apenas no desnecessário romance entre a princesa Isabelle (Sophie Marceau) e William, que existe apenas para justificar a gravidez dela e amenizar um pouco o sufocante final.

Conseguindo sucesso na difícil tarefa de condensar toda esta história épica sem torná-la cansativa, o montador Steven Rosenblum acerta, por exemplo, ao acelerar o relacionamento entre William e Murron (namoro e casamento acontecem rapidamente), abrindo mais espaço para as seqüências de batalha, que são a alma de “Coração Valente” – e onde, vale ressaltar, o trabalho do montador mais se destaca -, além de intercalar com fluência entre a trama na realeza inglesa, as decisões políticas dos nobres escoceses e a rebelião comandada por William. Já a trilha sonora de James Horner é um capitulo a parte. Misturando elementos tradicionais da música escocesa como a gaita de fole com uma abordagem solene típica dos grandes épicos, Horner cria diversas melodias magníficas, como o lindo tema da relação entre William e Murron “For the Love of a princess”, e colabora muito para a atmosfera lendária do longa.

Essenciais num filme de época, os figurinos de Charles Knode também se destacam, caprichando na recriação dos uniformes do exército inglês, do próprio Longshanks e da princesa Isabelle, que com sua elegância criam um forte contraste com as roupas feitas de trapos e os kilts dos escoceses. Por sua vez, a direção de arte de Ken Court, Nathan Crowley, John Lucas e Ned McLoughlin acerta na escolha de imponentes castelos, na decoração interna destes ambientes e na variedade de armas e acessórios utilizados nas guerras, como os escudos e capacetes. Quem também merece destaque especial é a excelente maquiagem, que torna os ferimentos nas batalhas bastante realistas, assim como o ótimo design de som, que nos permite escutar cada arma sendo movimentada, a respiração dos personagens, o som da chuva e os cavalos cavalgando com incrível clareza.

Explorando a beleza da região e captando com destreza a essência das batalhas, o diretor de fotografia John Toll colabora sensivelmente para o sucesso da direção de Mel Gibson. São inúmeras as seqüências de grande beleza plástica, como o ritual com as gaitas de fole no túmulo do pai de William ou o encontro entre os jovens William e Murron em que a menina o consola com uma flor, além de toda a seqüência do namoro deles, que faz com que a platéia crie empatia pelo casal. Aliás, a chuva que marca o início do romance indica o futuro trágico daquela relação.

Com um sotaque britânico apenas razoável, o competente e carismático Mel Gibson demonstra bem a transformação de William, inicialmente um homem preocupado somente em constituir sua família, mas que vai até as últimas conseqüências dos conflitos após ver sua noiva ser friamente executada. Encarnando o líder escocês com alma e paixão, ele oferece um desempenho acima da média, envolvendo o espectador na luta do personagem (nós acreditamos nele) e convencendo no papel de grande líder até o último instante. Na pele de seu antagonista, Patrick McGoohan entrega uma atuação marcante e faz de seu rei Eduardo I, o “Longshanks”, um vilão respeitável, demonstrando a autoridade esperada de alguém em sua posição e mostrando cuidado com pequenos detalhes de sua composição, por exemplo, ao começar a tossir levemente quando retorna da França e encontra a cabeça do sobrinho numa cesta, indicando o início da doença que o levaria à morte. E mesmo que o roteiro demonize seu personagem, McGoohan consegue demonstrar algumas das características marcantes do verdadeiro Eduardo I, como a inteligência e a liderança.

Dona de um rosto angelical e grande carisma, Sophie Marceau vive a princesa Isabelle e se torna o porto seguro do espectador sempre que a narrativa salta para a Inglaterra, enquanto o Hamish de Brendan Gleeson é o responsável pelos momentos de alivio cômico da narrativa – como no reencontro com William ainda no primeiro ato -, assim como Stephen, o irlandês maluco vivido por David O’Hara. E finalmente, o angustiado Robert the Bruce de Angus MacFadyen é um personagem complexo, dividido entre manter as posses da família e o respeito dos nobres e jogar tudo pro alto para lutar com a paixão de William contra os ingleses.

Todo este apuro técnico e bom nível das atuações de “Coração Valente” contam, obviamente, com o olhar atento do diretor Mel Gibson, que demonstra ainda enorme talento para a composição visual e energia para conduzir à narrativa. Gibson inicia seu épico mostrando uma série de paisagens deslumbrantes no acidentado terreno das Highlands, numa metáfora sutil para a própria vida de William, um personagem belíssimo, mas com uma trajetória repleta de altos e baixos. Retratando a vida do herói escocês desde sua infância, onde presenciamos dois traumas marcantes (a descoberta dos escoceses enforcados e a morte de seu pai, numa cena em que a reação do garoto ao perceber que o pai não voltou vivo nos parte o coração), o diretor conduz a narrativa com paciência, nos familiarizando com os personagens e, principalmente, criando empatia entre William e a platéia. Além disso, ele também utiliza com destreza a câmera lenta em momentos de forte impacto, como quando uma noiva plebéia acalma os soldados ingleses e se entrega ao lorde local para a primae noctis ou no ataque da cavalaria inglesa em Stirling, criando também planos inteligentes, como aquele que mostra muitos ingleses cercando um pequeno grupo de escoceses, que serviam de isca para o ataque dos outros que surgem no alto do monte. Existe ainda um pequeno momento que confirma o talento de Gibson atrás das câmeras, quando Stephen salva William na floresta, numa cena em que a câmera fala mais que qualquer palavra.

Ponto de virada na narrativa, a morte de Murron serve também para inserir pela primeira vez o tipo de violência gráfica que permeia “Coração Valente”, preparando o espectador para o que virá pela frente. O choque com a morte dela nos faz esperar pela reação de William e o diretor, ciente disto, brinca com nossa expectativa, esticando ao máximo o momento que precede seu ataque através da câmera lenta. Ele sabe que o agora revoltado espectador espera que William se vingue e quando isto acontece, a direção visceral e a montagem cheia de energia criam uma seqüência de forte impacto. Mas Gibson sabe que este momento significa muito mais do que uma simples vingança pessoal, marcando o nascimento da lenda e o estopim para a luta pela independência escocesa, e encerra a cena com um marcante silêncio que precede os gritos de “Wallace”, enquanto William é filmado por baixo para engrandecê-lo na tela.

Mas apesar desta grande cena, sua competência na direção se confirma mesmo na sensacional batalha de Stirling, um espetáculo cinematográfico de primeira grandeza, que não deve em nada às grandes cenas da história dos épicos. Temos certeza de estar acompanhando um momento marcante desde o inicio, com a triunfal chegada do exército inglês, capaz de fazer o chão tremer (novamente, ponto para o design de som), passando pelos efeitos digitais que multiplicam os figurantes e nos apresentam numerosos exércitos e pelo emocionante discurso de William antes do inicio da batalha – neste discurso, aliás, nasce à imagem icônica do personagem com a cara pintada de azul, num erro histórico de menor importância que é um ótimo exemplo de licença criativa que agrega à narrativa. O show do diretor continua durante o confronto, imprimindo uma energia incrível em toda seqüência, com sua câmera inquieta e cortes rápidos que jamais soam confusos e nos jogam pra dentro do campo de batalha de maneira brutal, nos fazendo praticamente sentir o calor do combate e o sangue que é derramado. Obviamente, este realismo extremo torna a batalha muito mais convincente. Além disto, temos o genial momento em que os escoceses param pela primeira vez na história a cavalaria inglesa, num fato real que fica ainda mais empolgante na câmera de Gibson.

Entretanto, a adrenalina contagiante das batalhas de “Coração Valente” termina em Falkirk, com a traição de Robert the Bruce (indicada numa conversa prévia com seu pai) provocando outro choque na platéia, que se sente tão desnorteada quanto o próprio William, que apesar disto consegue escapar. Mas o arrependimento não tarda e Bruce cai de joelhos em meio aos mortos da batalha, numa cena triste, ressaltada pela névoa e pelo plano que o diminui na tela. Só que em outra emboscada, desta vez sem a participação dele, Wallace finalmente é capturado pelos ingleses. Julgado e condenado, ele caminha para a morte e o longa para o seu trágico desfecho. Mantendo o realismo habitual, a triste execução nos sufoca e nos faz clamar pelo grito de piedade de William – praticamente podemos sentir sua dor, graças ao ótimo desempenho de Gibson. Quando ele finalmente se esforça para falar, ouvimos a única palavra que poderíamos esperar dele. E o grito de “liberdade” de William Wallace certamente está entre os grandes momentos do cinema nos anos 90, sendo capaz de levar muitos espectadores às lagrimas. O final poético, com sua espada fincada no campo de batalha e as palavras que anunciam a conquista da liberdade escocesa, encerra este filme triste, é verdade, mas que carrega em cada fotograma a grandiosidade dos melhores épicos.

Se “todo homem morre, mas nem todo homem realmente vive”, William Wallace pode se orgulhar, pois sua incrível jornada sobreviveu ao tempo e se eternizou neste belo e poético “Coração Valente”, um filme com sentimento, apaixonante e que se eterniza na memória dos amantes da sétima arte.

PS: Como afirmei na crítica de “Um Sonho de Liberdade”, “Coração Valente” é responsável direto por minha paixão pela sétima arte, além de ser – como vocês saberão em detalhes no próximo post – o filme mais importante da minha vida.

Texto publicado em 29 de Janeiro de 2012 por Roberto Siqueira

CASSINO (1995)

(Casino)

 

Videoteca do Beto #124

Dirigido por Martin Scorsese.

Elenco: Robert De Niro, Sharon Stone, Joe Pesci, James Woods, Kevin Pollak, Don Rickles, Alan King, L.Q. Jones, Dick Smothers, Frank Vincent, John I. Bloom, Pasquale Cajano, Melissa Prophet, Catherine Scorsese e Catherine T. Scorsese.

Roteiro: Nicholas Pileggi e Martin Scorsese, baseado em livro de Nicholas Pileggi.

Produção: Barbara De Fina.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Injustamente ignorado pela crítica no ano de seu lançamento, “Cassino” apresenta muito do que o cinema de Martin Scorsese tem de melhor, com seu visual deslumbrante, cenas memoráveis e atuações inspiradas. Talvez a alta expectativa criada explique a má recepção, afinal, estavam reunidos novamente Scorsese, o roteirista Nicholas Pileggi e os astros De Niro e Joe Pesci, peças fundamentais no sucesso de “Os Bons Companheiros”, lançado cinco anos antes e que também apresentava o ambiente hostil de mafiosos e gângsteres. Mas, ainda que não seja um trabalho tão estupendo quanto “Os Bons Companheiros”, “Cassino” é um belo filme, feito sob medida para agradar aos fãs do gênero.

Escrito por Pileggi, “Cassino” narra a história de Sam “Ace” Rothstein (Robert De Niro), um diretor de cassino em Las Vegas com passado comprometedor que se envolve com Ginger (Sharon Stone), uma prostituta de alta classe que dominava a todos, menos o seu cafetão Lester (James Woods). A combinação explosiva se completa quando o gângster Nicky (Joe Pesci) chega ao local para vigiar Ace, a pedido dos mafiosos que comandavam a cidade.

Auxiliado por Scorsese e baseado em seu próprio livro, Pileggi revela em “Cassino” como funcionava o esquema comandado pela máfia em Las Vegas, criando um painel complexo da cidade na época que precedeu o domínio das grandes corporações. Detalhando cada processo, quem e como cada um participava do esquema, ele explica como eles conseguiam se livrar das autoridades e até mesmo recuperar as “perdas” quando alguém ganhava muito dinheiro nas apostas. Além disso, a excelente estrutura narrativa se preocupa em apresentar pacientemente cada personagem, o que é essencial para que o espectador saiba o que esperar de cada um deles nas diversas situações que surgem ao longo da narrativa.

Logo de cara, temos uma revelação literalmente bombástica e vemos a suposta morte do protagonista, deixando claro em poucos minutos que estamos num filme de Scorsese, através da câmera lenta, da música erudita, da explosão, do personagem misturando-se ao vermelho infernal e da narração que nos leva ao longo flashback. Este recurso, aliás, é utilizado com exaustão em “Cassino”, normalmente na voz de Ace, mas também com Nicky e até mesmo Frank (Frank Vincent), que ganha um “voice-over” num momento de puro exercício estilístico, em que a imagem é congelada enquanto acompanhamos seu raciocínio antes dele responder a pergunta de um dos chefões da máfia. E o estilismo continua, por exemplo, através das legendas superiores que decifram o código na conversa telefônica entre Ace e Nicky (recurso já utilizado, por exemplo, por Woody Allen em “Annie Hall”).

Estilo, aliás, é uma palavra que descreve bem Martin Scorsese. Com seu estilo inconfundível, ele desfila seu arsenal de técnicas de direção, nos presenteando com planos memoráveis, travellings e até mesmo a câmera lenta em diversos momentos, como quando os dados caem na mesa ou uma luz se acende. Este visual elegante conta também com a fotografia de Robert Richardson, que abusa das cores e luzes e transforma “Cassino” numa verdadeira festa para os sentidos, além dos extravagantes figurinos de John A. Dunn e Rita Ryack, que tornam este visual ainda mais rico, tendo também função narrativa ao externar o estado de espírito dos personagens – repare como Ace vai mudando do tom sóbrio de seus ternos no inicio para cores mais vivas no final, refletindo sua empolgação com o império que tem nas mãos, assim como Ginger muda dos tons leves para roupas mais sufocantes, que refletem seu desconforto.

Utilizando um cassino de verdade como locação, o diretor de arte Jack G. Taylor Jr. capricha nos pequenos detalhes, desde os dados e cartas que são jogados nas mesas, passando pela imponente decoração da casa dos Rothstein e terminando na construção de sets impressionantes, como o escritório de Ace. Este excelente trabalho técnico praticamente nos coloca dentro de Las Vegas, captando o clima festeiro da cidade e, ao mesmo tempo, criando uma atmosfera tensa através dos locais obscuros em que os mafiosos se reúnem para tomar decisões em meio a jogatinas e bebidas. Completando esta ambientação, a espetacular trilha sonora mistura de tudo, passando por clássicos do rock, blues e até mesmo músicas dançantes dos anos 70, criando uma atmosfera única típica dos filmes dirigidos por Scorsese.

E ele não para por aí. Observe, por exemplo, o belíssimo travelling que sai das nuvens e nos mostra Las Vegas à noite, passando pela cidade e se perdendo na escuridão do deserto – que, aliás, surge em seguida enquanto a narração nos informa o que é feito no local, num raccord elegante e eficiente. Entre os cuidados enquadramentos e movimentos de câmera que caracterizam o diretor, não poderiam faltar os planos-seqüência, como aquele que acompanha um homem entrando no cassino, passeando por todo local, retirando o dinheiro no restrito setor de contagem, saindo e entrando num carro. E até planos estáticos são belos, como aquele que diminui Ace no deserto após uma discussão com Nicky, simbolizando sua perda gradual de poderes.

Além da beleza plástica, a direção de Scorsese é competente também na condução firme da narrativa. Para isto, ele conta com sua parceira de costume, a montadora Thelma Schoonmaker, que imprime um ritmo quase frenético em certos momentos, como quando acompanhamos quem observa quem no cassino, criando ainda elipses marcantes e/ou bem humoradas, como quando vemos um chefe da máfia pedindo que Ace seja discreto e, em seguida, vemos o anúncio de seu programa de televisão. Além disso, a estrutura narrativa coesa e a fluência na transição entre as cenas resultante da ótima decupagem tornam a longa duração quase imperceptível.

Finalmente, o diretor mostra que é completo ao extrair também excelentes atuações de todo o elenco, dentre as quais merece destaque a de Sharon Stone, que nunca foi considerada uma atriz de alto nível (eu, particularmente, adorei seu trabalho em “Instinto Selvagem”). Nas mãos de Scorsese, entretanto, Stone tem a atuação de sua vida – e a própria Sharon admite a importância do diretor neste aspecto -, transformando Ginger, a sensual e perigosa prostituta que conquista o coração de Ace, numa personagem tridimensional e complexa. Carismática, a atriz está solta no papel e cumpre bem a difícil tarefa de duelar com De Niro e Pesci, sobressaindo-se em discussões calorosas (normalmente bêbada, como no restaurante de Nicky) e até mesmo em momentos mais intimistas, como na conversa telefônica com Ace em que praticamente implora para voltar pra casa. Em outro momento, quando Ace expulsa Ginger de casa, a atriz dá um show ao lado de Robert De Niro, explodindo em cena de maneira convincente.

Além dos duelos verbais envolvendo a atriz, as próprias discussões entre Ace e Nicky merecem destaque, mostrando o enorme talento de Pesci e De Niro, por exemplo, no embate na casa dos Rothstein. Atores que naturalmente impõem respeito (cinéfilos ainda trazem na memória marcantes personagens da carreira deles, como os mafiosos de “Os Bons Companheiros”), a dupla demonstra muita afinidade na tela e cria personagens realmente capazes de intimidar. Inteligente e hábil com números, é no coração que reside o ponto fraco de Ace, que se deixa levar por um sentimento que sabia ser perigoso e acaba dando a chave de sua vida (literalmente) para Ginger. Detalhista, ele toca o cassino como se fosse a sua própria casa, se preocupando com pequenos detalhes como o peso dos dados e a quantidade de recheio nos muffins, mas é incapaz de ter o mesmo cuidado em sua vida pessoal e enxergar o risco que corria. Capaz de quase matar um homem com uma caneta (na cena do bar, a primeira em que a violência gráfica típica dos filmes de Scorsese dá as caras), Nicky é um homem agressivo, que não pensa duas vezes antes de partir pra cima de alguém, por maior e mais forte que seja, mas é também inteligente o bastante para saber quando cruzou o limite do aceitável dentro do “código de moral e ética” dos mafiosos – e Pesci está ótimo na cena em que Nicky confessa para Frank que sabe disto.

Além dos golpes com uma caneta que jorram sangue de um pobre homem, marteladas nas mãos de trapaceiros, tiros a queima roupa e até mesmo golpes com taco de beisebol completam o festival de cenas violentas de “Cassino”, que conta ainda com um elenco de apoio muito bom, com James Woods vivendo o malandro Lester Diamond, Frank Vincent como Frank, Don Rickles interpretando um dos capangas de Ace e L. Q. Jones na pele do cidadão local que avisa Ace do risco que ele corria ao demitir determinado funcionário. Como curiosidade, vale dizer ainda que a mãe de Scorsese, a Sra. Catherine, interpreta a Sra. Piscano, a dona de uma venda que reclama dos palavrões de um personagem chave na trama.

Ao contrário do que imaginamos no inicio de “Cassino”, Ace escapa milagrosamente da morte e sobrevive para narrar o triste fim de Nicky, morto violentamente por Frank e uns comparsas no meio de um milharal. A moral da história? A própria máfia destruiu seu império de sonhos na Las Vegas dos anos 70, abrindo espaço para as grandes corporações que dominaram o local nas décadas seguintes e transformaram a cidade no grande parque de diversões que é hoje.

Com a digital de Scorsese impressa em cada fotograma, “Cassino” é um legítimo representante do tipo de filme que fez a fama deste excepcional diretor, capaz de transitar entre diversos gêneros e, ainda assim, retornar ao seu favorito com inventividade suficiente para não se tornar repetitivo. As atuações inspiradas e o visual de encher os olhos complementam a qualidade deste filme esquecido em meio a tantas pérolas de uma das mais respeitáveis filmografias de Hollywood.

Texto publicado em 25 de Janeiro de 2012 por Roberto Siqueira

CAMINHANDO NAS NUVENS (1995)

(A Walk in the Clouds)

 

Videoteca do Beto #123

Dirigido por Alfonso Arau.

Elenco: Keanu Reeves, Anthony Quinn, Aitana Sánchez-Gijón, Giancarlo Giannini, Angélica Aragón, Evangelina Elizondo, Freddy Rodríguez, Debra Messing, Febronio Covarrubias, Roberto Huerta, Juan Jiménez, Alejandra Flores e Gema Sandoval.

Roteiro: Mark Miller, Robert Mark Kamen e Harvey Weitzman, baseado em roteiro de Piero Tellini, Cesare Zavattini e Vittorio de Benedetti.

Produção: Gil Netter, David Zucker e Jerry Zucker.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Para curtir “Caminhando nas Nuvens” em sua plenitude é imprescindível que o espectador se desarme e embarque no espírito romântico do filme. Apresentando alguns clichês típicos do gênero, atuações irregulares e uma narrativa até certo ponto previsível, o longa dirigido por Alfonso Arau se salva por sua beleza estonteante e por sua atmosfera pura e ingênua. Mas, apesar de seus momentos agradáveis, está longe de ser um grande filme.

Após voltar da 2ª guerra mundial, o jovem Paul Sutton (Keanu Reeves) descobre que não tem afinidade com a esposa e decide viajar até a empresa onde trabalha como vendedor de chocolates, numa tentativa de mudar de vida. No caminho, ele conhece Victoria Aragón (Aitana Sánchez-Gijón), uma bela jovem que está voltando pra casa grávida após estudar em outra cidade. Temendo a reação de seu pai (Giancarlo Giannini), ela convence Paul a fingir ser seu marido e passar uma noite nos vinhedos da família.

Escrito por Mark Miller, Robert Mark Kamen e Harvey Weitzman, baseado em roteiro de Piero Tellini, Cesare Zavattini e Vittorio de Benedetti para o filme “O Coração Manda” (Quatro Passi fra le Nuvole, 1942), o roteiro de “Caminhando nas Nuvens” não foge de alguns clichês básicos dos romances, como a dificuldade imposta ao casal antes do final feliz, o pai ignorante e opressor e a mãe (Angélica Aragón) que compreende o drama da filha. Incomoda também o fato de uma família tradicional mexicana falar tanto em inglês, ainda que em alguns momentos o espanhol surja. Além disso, algumas discussões soam bastante artificiais, como no primeiro jantar em que Paul se retira da mesa. Pra piorar, confesso que imaginei com certa facilidade o que aconteceria quando ele deixa o vinhedo e volta pra casa, anulando o efeito dramático da cena. Ainda assim, a história consegue agradar, especialmente pela forma como Paul e Victoria desenvolvem sua relação, mas também pelos belos momentos vividos por Paul e o avô dela, Don Pedro Aragón (Anthony Quinn).

Ainda no início, uma elegante transição do preto e branco para o colorido (montagem de Don Zimmerman) nos leva aos tempos da segunda guerra mundial, onde um diálogo expositivo explica que Paul está retornando da guerra para reencontrar a esposa Betty (Debra Messing), que mal conhecia (ele se casou num dia e viajou no outro), e o plano plongèe dele perdido no porto já indica que aquele não era exatamente seu lugar. Em casa, sua consumista esposa parece apenas preocupada em encontrar novas maneiras de ganhar mais dinheiro e o convence a continuar vendendo chocolates. Por isso, ele decide partir. E será nesta viagem que Paul mudará sua vida para sempre. Num encontro casual no trem, ele troca olhares com Victoria, mas o momento romântico é interrompido de maneira nada higiênica. Neste mesmo dia, seus caminhos voltariam a se cruzar, desta vez de maneira definitiva.

Um ator que funciona melhor em filmes de ação, Keanu Reeves vive Paul com a costumeira inexpressividade, mal reagindo às agressões verbais de Alberto, o relutante pai da garota (repare, por exemplo, sua apatia na discussão nos tonéis, que se torna ainda mais evidente graças aos exageros de Giannini). Ainda assim, o ator consegue criar empatia com Aitana Sánchez-Gijón, o que salva parte de sua atuação. Por outro lado, Aitana está simpática e sensual como Victoria Aragón, deixando claro desde o início que deseja ficar com Paul através do olhar insinuante e falhando apenas em alguns momentos dramáticos, onde não transmite emoção de maneira convincente, como quando se revolta com uma proposta dele. Já Giancarlo Giannini tem uma atuação exagerada e caricata na pele do unidimensional Alberto Aragón, que, de maneira irritante, parece sempre disposto a brigar com Paul, mesmo depois que descobre as boas intenções do rapaz. Por sua vez, Angélica Aragón se sai bem com a mãe de Victoria, demonstrando paciência para lidar com os conflitos entre pai e filha.

Certamente a melhor atuação do longa, Anthony Quinn está ótimo como Don Pedro Aragón, sempre convencendo Paul a ficar com eles de maneira carismática. Don Pedro é o alicerce de uma família tradicional, agora comandada pelo filho, mas ainda sob seu olhar atento. Logo em sua primeira aparição, fica claro o respeito que todos têm por ele, quando é convocado para dar a palavra final sobre a permanência de Paul. Órfão e ex-combatente, Paul é uma pessoa carente, e Don Pedro logo se encarrega de acolher o rapaz da melhor maneira possível. Esta relação quase paternal é uma das melhores coisas de “Caminhando nas Nuvens”, muito por causa de Quinn.

Mas se erra na direção de atores e não consegue extrair o melhor de todo o elenco, Alfonso Arau acerta na criação de lindos planos e na condução de cenas de grande impacto visual. Auxiliado pela belíssima fotografia de Emmanuel Lubezki, que abusa de cores quentes e realça a beleza dos vinhedos, o diretor nos brinda com planos que mais parecem quadros, com a vinícola surgindo banhada pelos raios solares, conferindo à “Las Nubes” um ar celestial, reforçado pelo próprio nome do local. Outro momento que remete a natureza paradisíaca do lugar acontece quando a geada atinge as uvas e as pessoas se vestem com asas para espalhar o calor pela plantação, tornando-se parecidas com anjos. Finalmente, na volta de Paul ao vinhedo, o esperado reencontro com Victoria é interrompido pela revolta de Alberto, que acidentalmente provoca um incêndio de enormes proporções, permitindo ao diretor criar uma interessante rima visual e temática, com a vinícola, agora em chamas, remetendo ao inferno.

“Caminhando nas Nuvens” homenageia ainda a cultura das vinícolas e a tradição familiar, na bela seqüência da colheita e na divertida dança das mulheres, que pisam nas uvas. Após este momento eufórico, surge o primeiro beijo de Paul e Victoria, mas a reação “racional” dele tira toda a magia da cena. Magia que volta no momento mais romântico da narrativa, quando ele faz uma serenata pra ela. Desta vez, nem a inexpressividade de Reeves estraga a beleza da cena, com Victoria espiando da janela, a noite iluminada e a tradicional canção. Aliás, a bela trilha sonora de Maurice Jarre merece destaque justamente por misturar acordes clássicos com sons que remetem às músicas mexicanas.

Apesar de todos os escorregões, “Caminhando nas Nuvens” termina com um final feliz e uma mensagem que glorifica a família e o amor, o que, compreensivelmente, agrada ao espectador. Ainda assim, não podemos fechar os olhos para as falhas de uma narrativa que, com pequenos ajustes, poderia ser bem melhor. Por outro lado, sua beleza e a inocência de sua mensagem conferem uma aura singular ao filme. É raro falar de amor com tanta pureza hoje em dia.

Texto publicado em 21 de Janeiro de 2012 por Roberto Siqueira

AS PONTES DE MADISON (1995)

(The Bridges of Madison County)

 

Videoteca do Beto #122

Dirigido por Clint Eastwood.

Elenco: Meryl Streep, Clint Eastwood, Annie Corley, Victor Slezak, Jim Haynie, Sarah Kathryn Schmitt, Christopher Kroon, Phyllis Lyons, Debra Monk, Richard Lage e Michelle Benes.

Roteiro: Richard LaGravanese, baseado em livro de Robert James Waller.

Produção: Clint Eastwood e Kathleen Kennedy.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Normalmente associado a filmes “viris” por causa de sua trajetória no western e nos filmes do policial “Dirty Harry”, Clint Eastwood já apontava em “Um Mundo Perfeito” os caminhos que trilharia como diretor. Mas pouca gente podia esperar que ele dirigisse um longa como “As Pontes de Madison” com tamanha sensibilidade, confirmando seu enorme talento ao abordar com maturidade temas universais como o amor proibido e o sacrifício.

Baseado em livro de Robert James Waller e roteirizado por Richard LaGravanese, “As Pontes de Madison” narra a história de amor entre Francesca (Meryl Streep), uma proprietária rural do interior do Iowa, e Robert (Clint Eastwood), um fotógrafo da revista National Geographic, à partir de flashbacks que acompanham a leitura dos diários dela, entregues aos seus filhos após sua morte. Enquanto eles lêem e se envolvem com sua história, o espectador acompanha os quatro dias que ela passou com o fotógrafo durante uma viagem da família, vivendo um romance maduro e tocante, mas marcado por difíceis decisões.

Na época ainda marcado pelos papéis durões do passado, Clint Eastwood surpreendeu o público ao abordar com sensibilidade a história de renúncia de Francesca, uma mulher de meia-idade que, segundo ela mesma, largou os sonhos para priorizar o marido e os filhos. Emprestando um tom clássico à narrativa, o diretor emprega elegantes movimentos de câmera, como no plano-seqüência que acompanha Francesca correndo pra fora da casa para ver o carro de Robert sair na última noite, num dos momentos comoventes do longa. Auxiliado pela montagem de Joel Cox, Eastwood acerta ao alternar num bom ritmo entre planos médios e closes, evitando que a narrativa se torne cansativa, além de priorizar corretamente a linha narrativa do caso entre Robert e Francesca em detrimento daquela que acompanha os filhos dela. Explorando ainda a beleza da paisagem local com seus planos aéreos que destacam as fazendas e plantações da região, o diretor entrega um filme poético e repleto de planos simbólicos, como aquele em que Francesca fala com o marido ao telefone enquanto vê Robert partindo pela janela na primeira noite, indicando seus sentimentos conflitantes e sua melancólica situação. E não é belo notar que as próprias pontes de Madison simbolizam a possibilidade de alcançar novos caminhos? Não é à toa também que um crucifixo tem papel fundamental na trama, simbolizando o sacrifício da protagonista.

Quem também ressalta a melancolia da narrativa é a linda trilha sonora de Lennie Niehaus, especialmente em sua música tema, que embala os momentos especiais do casal. De maneira inteligente, Niehaus evita tornar a trilha repetitiva, utilizando as canções que tocam no rádio para embalar de maneira diegética o romance. Já a casa simples, típica do interior dos EUA (direção de arte de Jay Hart), e as roupas modestas dos personagens (figurinos de Colleen Kelsall) ambientam perfeitamente o espectador à época da narrativa, o que é importante para compreender o drama de Francesca, numa época em que largar marido e filhos para trás seria até mesmo uma afronta aos valores familiares – e o drama de uma mulher maltratada num restaurante porque traiu o marido só ressalta o pensamento dominante naquela pequena cidade do interior.

Empregando cores suaves e coerentes com a decoração da casa, a fotografia de Jack N. Green realça a sutileza com que Richard e Francesca se envolvem. Não existe um grande acontecimento que justifique a paixão repentina deles, não é um sentimento movido por algum acontecimento dramático, mas sim uma atração natural entre duas pessoas que enxergam na outra algo que não encontraram até então. Nada mais próximo da realidade e mais humano. Na medida em que a despedida se aproxima, Green passa a priorizar cenas noturnas e locais fechados, como um bar, refletindo a angústia do casal. Na cena do bar, aliás, o tom avermelhado também ressalta a paixão incandescente misturada ao sentimento de culpa de Francesca, indecisa entre seguir com Robert ou ficar com a família.

Interpretados por Victor Slezak, que vive Michael, e Annie Corley, que vive Caroline, os filhos de Francesca inicialmente se mostram revoltados com a carta e o pedido inusitado da mãe (ela quer ser cremada e ter as cinzas jogadas numa ponte). Michael é o mais inconformado e a situação só piora durante a leitura do diário. Caroline parece mais complacente, compreendendo o drama da mãe. Lentamente, ambos começam a refletir também sobre seus casamentos. Da mesma forma, eles descobrem que jamais notaram a vida triste que a mãe levava. Repare, por exemplo, o almoço em que Francesca se mostra sempre solícita aos pedidos do marido, enquanto os filhos, ainda que não percebam o que estão fazendo, sequer conversam com ela. Mas se por um lado eles podem se sentirem culpados, por outro eles se sentem traídos em certo momento da leitura, não pela paixão de Francesca, mas pela contradição entre seus ensinamentos e o que ela sentia.

Estes sentimentos contraditórios não são restritos aos filhos de Francesca, já que ela mesma viveu um complicado dilema. De maneira inteligente, o roteiro jamais apresenta seu marido Richard como um vilão (“Não consigo dormir sem você”, diz ele antes de viajar), o que só aumenta seu drama e evita que o espectador seja manipulado. Interpretado por Jim Haynie, Richard é um homem bom, que não percebe a infelicidade da esposa ou, como deixa claro no leito de morte, talvez até perceba, mas não sabe o que fazer para mudar esta situação. Sendo assim, como simplesmente largar sua família e fugir? O sofrimento de Francesca é compreensível, ainda mais numa época tão opressora. As mulheres de hoje, já muito mais independentes, podem se revoltar com a postura passiva dela. Porém, é importante relembrar a época e o local em que se passa a narrativa.

Responsável por balançar os alicerces de Francesca, o misterioso Robert é interpretado pelo diretor Clint Eastwood com desenvoltura e carisma, demonstrando com eficiência o sentimento que cresce no fotógrafo (“Não sei se consigo… Espremer toda uma vida entre hoje e sexta”, diz ele). Mas o grande destaque vai mesmo para Meryl Streep, que entrega uma atuação fabulosa desde os primeiros instantes, quando demonstra a timidez de Francesca no carro de Robert através da insegurança naquele primeiro contato mais próximo. Aliás, nesta seqüência vale destacar dois momentos especiais, quando ele toca a perna dela acidentalmente e quando ela não resiste e sorri ao ouvir que ele já esteve em Bari, sua cidade natal. Usando um sotaque convincente e coerente com a origem italiana da personagem, ela lentamente se solta e cria ótima química com Eastwood, chegando a fazer piada com as flores que ele colhe. Juntos, eles conseguem tornar os diálogos do ótimo roteiro ainda mais interessantes. Reforçando o cuidado na composição da personagem com pequenos detalhes, como ao tocar o corpo indicando que está com calor, Streep cria uma personagem trágica, demonstrando com competência a luta de Francesca para resistir àquela paixão. Observe, por exemplo, a tristeza com que ela afirma que os filhos “crescem” ou sua respiração ofegante, quase de adolescente, antes do primeiro beijo de Richard. Estes são apenas alguns momentos de uma atuação memorável.

A evolução do romance é lenta e verossímil, mas após o impulso inicial, Francesca parece saber o caminho que aquele relacionamento irá seguir. Ainda assim, ela não resiste e vive momentos inesquecíveis, sempre conduzidos com sensibilidade por Eastwood, como a dança na cozinha e a conversa ao lado da lareira. E se acerta nas cenas românticas, o diretor confirma sua habilidade nos momentos dramáticos, como o tocante diálogo na última noite em que as velas iluminam o melancólico jantar, chegando ao auge na última vez em que eles se vêem ao realçar a tristeza através da chuva e captar cada reação de Francesca com perfeição, em outro momento sublime da atuação de Streep. O nó na garganta é quase inevitável naquela troca de olhares, com Robert debaixo de uma forte chuva, que mais parece um lamento dos céus. E se toda a seqüência é emocionante, o plano da mão de Francesca ameaçando abrir a caminhonete é de partir o coração, numa cena que sintetiza a complexidade da situação. Por isso, assim como seus filhos, nós também compreendemos as ações dela e, mais do que isso, nos sentimos incapazes de julgá-la. E, no fim das contas, ninguém pode afirmar que ela seria feliz fugindo com ele. Como sabemos, o amor “idealizado” é sempre perfeito.

Com seu tom pessimista, “As Pontes de Madison” é um filme tocante, que aborda uma relação amorosa proibida entre duas pessoas da meia-idade de maneira sensível e verdadeira, sem jamais soar melodramático. Com grandes atuações – especialmente de Meryl Streep -, deixa inúmeros questionamentos ao final da projeção e confirma o talento de Eastwood na condução de dramas extremamente humanos. Na visão dele, a vida também é feita de sacrifícios. E ele tem razão.

Texto publicado em 27 de Dezembro de 2011 por Roberto Siqueira

APOLLO 13 (1995)

(Apollo 13)

 

Videoteca do Beto #121

Dirigido por Ron Howard.

Elenco: Tom Hanks, Bill Paxton, Kevin Bacon, Gary Sinise, Ed Harris, Kathleen Quinlan, Bryce Dallas Howard, Mary Kate Schellhardt, Emily Ann Lloyd, Miko Hughes, Max Elliott Slade, Jean Speegle Howard, David Andrews e Michele Little.

Roteiro: William Broyles Jr. e Al Reinert, baseado em livro de Jim Lovell e Jeffrey Kluger.

Produção: Brian Grazer.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Inspirado em fatos reais, “Apollo 13” é um filme interessante não apenas como entretenimento, mas também como registro de um momento importante da história das missões espaciais. Demonstrando segurança na condução da narrativa e contando ainda com um excelente trabalho técnico e um bom elenco, Ron Howard entrega um filme competente, que retrata com realismo as horas de aflição que aqueles astronautas provavelmente enfrentaram.

Escrito por William Broyles Jr. e Al Reinert, a partir de livro de Jim Lovell e Jeffrey Kluger, “Apollo 13” narra a história real da terceira missão tripulada do projeto Apollo à lua. Após uma inesperada explosão no módulo de serviço, os astronautas Jim Lovell (Tom Hanks), Fred Haise (Bill Paxton) e Jack Swigert (Kevin Bacon) se vêem obrigados a retornar a Terra sem sequer pisar na lua, correndo o risco de ficarem sem oxigênio no caminho, além da ameaça real de danificar a nave na reentrada na órbita terrestre.

Potencialmente tensa, a história da Apollo 13 certamente resultaria num bom filme nas mãos de um diretor competente. Felizmente, este é o caso de Ron Howard, que consegue imprimir uma escala crescente de tensão à narrativa do segundo ato em diante. Antes disso, no entanto, o filme escorrega levemente ao exagerar no ufanismo, quando os americanos comemoram a vitória na corrida espacial – e este patriotismo é reforçado pela trilha sentimental que embala o homem pisando na lua e pelo close em Jim, claramente emocionado com o que vê. Ainda no primeiro ato, chama a atenção como a imprensa não demonstra interesse pela Apollo 13, refletindo a progressiva falta de interesse do público pelos programas espaciais. Neste aspecto, vale lembrar que até mesmo a NASA questionava o alto investimento feito nestas missões depois do sucesso da Apollo 11, algo que o filme também retrata com fidelidade. Porém, quando a viagem se transforma numa tragédia potencial, a imprensa imediatamente se interessa pelo caso (“Agora ficou mais emocionante”, afirma um idiota da NASA), provocando a indignação de Marilyn (Kathleen Quinlan), a esposa de Jim.

Trabalhando com inteligência e cuidado em todo o primeiro ato, Ron Howard busca estabelecer o relacionamento entre os personagens e criar expectativa para o lançamento da nave. E apesar dos muitos termos técnicos, o espectador jamais se perde durante a narrativa, graças à clareza do roteiro e a condução do diretor. Observe, por exemplo, como ele usa a fase de testes para nos apresentar os possíveis problemas que a missão enfrentará e nos familiarizar com alguns destes termos. Por isso, quando Jack tenta acoplar o módulo de comando ao módulo lunar, o espectador sabe exatamente o perigo daquela operação. Também por isso, quando Jim Lovell diz a famosa frase “Houston, nós temos um problema”, o desespero toma conta da tela, pois sabemos que aquele problema não estava previsto.

Além da narrativa envolvente, “Apollo 13” apresenta também um espetáculo visual belíssimo, graças aos excelentes efeitos visuais da Digital Domain, que conferem realismo ao lançamento da nave, por exemplo. Nave, aliás, que é perfeitamente recriada pela direção de arte de David J. Bomba, Michael Coreblith e Bruce Alan Miller, assim como os uniformes são fiéis aos originais (figurinos de Rita Ryack), ambientando perfeitamente o espectador. Além disso, o ótimo design de som capta cada pequeno movimento dentro da nave, como quando o oxigênio estoura a lateral da Apollo 13 e provoca o acidente. Obviamente, o trabalho de câmera de Ron Howard é vital neste processo. Contando com a colaboração da fotografia de Dean Cundey, o diretor emprega movimentos de câmera estilizados e realiza verdadeiros malabarismos no espaço, acompanhando com fluência a perfeita movimentação dos astronautas nos módulos. Vale destacar ainda os giros em volta da nave e o elegante travelling de dentro pra fora dela, que dá a exata noção de onde os astronautas se encontram.

Ainda na parte técnica, merece destaque a excepcional montagem de Daniel P. Hanley e Mike Hill, que confere enorme dinamismo ao longa, intercalando o drama dos astronautas, o trabalho da NASA e o sofrimento dos familiares. Além disso, quando a Apollo 13 apresenta o grave problema, os montadores alternam rapidamente entre os planos, ampliando a angústia no espectador sem que este perca a noção do que está vendo. E ainda que usem descartáveis legendas para indicar a passagem do tempo, Hanley e Mill acertam ao usar o já ultrapassado fade, escurecendo a tela completamente e refletindo a angustia que predomina a narrativa. A trilha sonora de James Horner também acentua o clima de tensão, por exemplo, com a música agitada que embala os minutos prévios ao lançamento da nave. Por outro lado, a trilha parece exceder um pouco o tom adequado em certos momentos, soando melosa demais, como quando Jim se dá conta de que não vai pisar na lua.

E se exagera no melodrama neste aspecto, “Apollo 13” acerta na forma como aborda a preocupação da família Lovell, nos envolvendo com o sofrimento da esposa e dos filhos de Jim após a confirmação de sua ida à lua. Nós nos sentimos mais próximos dele justamente por acompanharmos seu relacionamento com a família, o que amplia a carga dramática quando os problemas surgem. É claro que as boas atuações de Tom Hanks e Kathleen Quinlan colaboram bastante. E além de estabelecer boa química com Quinlan, Hanks ainda transmite com precisão a crescente aflição do personagem, enquanto Bacon inicialmente parece mais tranqüilo e Paxton surge intimidado naquela difícil situação. Entretanto, quando os conflitos começam a surgir, os três atores se destacam, estabelecendo um clima palpável de tensão e refletindo muito bem o cansaço dos astronautas. Paxton, aliás, melhora ainda mais na medida em que Fred fica doente, transmitindo com competência o sofrimento do personagem.

No restante do ótimo elenco, Ed Harris se sai muito bem, demonstrando autoridade e liderança como Gene Kranz, e a citada Kathleen Quinlan está ótima como Marilyn Lovell, demonstrando muito bem a angústia da personagem com as notícias do marido. E se é emocionante o momento em que ela conta para a mãe de Jim o ocorrido, é ainda mais difícil conter as lágrimas quando ela dá a notícia de que a nave apresentou problemas para o filho e ouve a pergunta preocupada do menino: “Foi a porta?”. Finalmente, Gary Sinise confere realismo à decepção de Ken Mattingly quando é retirado da missão e se sai ainda melhor quando é convocado para auxiliar os companheiros, demonstrando muito profissionalismo e companheirismo.

Assim como antes do lançamento, os momentos prévios à volta para a Terra são bastante tensos. E o silêncio que predomina por alguns segundos só aumenta nossa expectativa, justificando a explosão de alegria de todos quando o paraquedas surge no céu. A emoção genuína dos personagens e do espectador comprova que a narrativa nos envolveu. Ainda nesta cena, não posso deixar de destacar a reação contida e emocionada de Gene, num momento sublime da atuação de Ed Harris. Se a história original já era potencialmente tensa e emocionante, Howard e sua equipe conseguiram traduzir estes sentimentos na tela com competência.

Excelente tecnicamente, “Apollo 13” narra um drama real de maneira envolvente, graças à eficiente direção de Howard e às boas atuações do elenco. Apesar da trilha sonora exagerada em alguns momentos e de não resistir ao ufanismo típico dos norte-americanos, o resultado é bastante agradável. Um bom exemplo do equilíbrio ideal entre a técnica e a emoção no cinema.

Texto publicado em 21 de Dezembro de 2011 por Roberto Siqueira

ANTES DO AMANHECER (1995)

(Before Sunrise)

 

 

Videoteca do Beto #120

Dirigido por Richard Linklater.

Elenco: Ethan Hawke, Julie Delpy, Andrea Eckert, Hanno Pöschl, Karl Bruckshwaiger, Tex Rubinowitz, Dominik Castell, Haymon Maria Buttinger e Harold Waiglein.

Roteiro: Richard Linklater e Kim Krizan.

Produção: Anne Walker-McBay.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Fugindo dos clichês e convenções do gênero, Richard Linklater apresenta um romance maduro, que acompanha o exato momento em que dois jovens se apaixonam de maneira natural e realista. Narrando uma história que poderia acontecer com qualquer um de nós, a obra-prima “Antes do Amanhecer” nos conquista por sua simplicidade, mas também pelas atuações magníficas da dupla principal. Durante quase duas horas, acompanhamos mais do que um momento mágico na vida dos protagonistas. Este é, na verdade, um momento mágico do cinema como forma de arte.

O norte-americano Jesse (Ethan Hawke) e a francesa Celine (Julie Delpy) se encontram casualmente num trem. Ele voltará para os Estados Unidos no dia seguinte. Ela deveria seguir para Paris, mas ele a convence a descer em Viena e acompanhá-lo no restante daquele dia. Enquanto passeiam pela capital austríaca, os dois se apaixonam lentamente. Mas a manhã se aproxima e, junto com ela, o momento de dizer adeus.

Escrito pelo próprio Richard Linklater junto com Kim Krizan, “Antes do Amanhecer” narra a apaixonante história de dois jovens que se conhecem casualmente e descobrem ter mais afinidade do que podiam imaginar. Repleto de diálogos interessantes, o excepcional roteiro nos dá a sensação de estarmos acompanhando um encontro em tempo real, testemunhando aquelas duas pessoas se apaixonando de verdade, simplesmente porque demonstram empatia enquanto conversam. Isto acontece porque Linklater e sua equipe trabalham em cada detalhe para tornar a narrativa realista, a começar pela montagem de Sandra Adair, que emprega o ritmo correto, transitando com elegância entre os planos e evitando a sensação de que estamos saltando no tempo, ainda que isto eventualmente aconteça. Além disso, são raros os momentos em que a trilha sonora não pertence ao universo do filme, como após a cena na cabine, em que a música continua tocando enquanto eles caminham pela cidade. Esta trilha diegética na maior parte do tempo reforça a sensação de realismo, aproveitando as músicas que tocam nos lugares que eles passam para embalar os momentos do casal.

Desde a primeira conversa no trem, Linklater nos coloca na posição de espectadores privilegiados, com sua câmera próxima aos personagens e atenta em todos os detalhes de suas reações. O diretor também reforça a atmosfera realista da narrativa, por exemplo, ao empregar um plano-seqüência que acompanha o interessante diálogo sobre as diferenças entre homens e mulheres ou quando a câmera fica parada enquanto eles passeiam pela cidade num bonde. Linklater sabe ainda destacar as excelentes atuações da dupla em momentos chave, como na linda cena na cabine de música, onde um evita o olhar do outro e a câmera nos permite observar aquele interessante jogo de sedução. Além disso, Linklater explora muito bem a beleza de Viena, escolhendo locações que ressaltam o charme especial que só algumas cidades européias têm. E é maravilhoso notar como um simples passeio na margem do rio Danúbio, uma música num bar, um passeio noturno no parque e até mesmo uma visita a um cemitério se tornam momentos especiais por causa da pessoa ao lado.

Em “Antes do Amanhecer”, este momento mágico surge naturalmente. Após uma discussão de um casal de alemães, Celine se sente incomodada e muda de lugar no trem, permitindo que Jesse inicie um diálogo com ela. A empatia do casal é imediata e a platéia percebe isto porque Ethan Hawke e Julie Delpy têm atuações simplesmente perfeitas, estabelecendo uma química extraordinária na tela. Impressiona também como eles dialogam com naturalidade, tornando tudo mais real sem jamais dar a sensação de que estão atuando. Acredite, apesar de parecerem improvisados, os diálogos de Jesse e Celine soam verdadeiros graças ao talento dos atores. Ao chegar a Viena, Celine tem que decidir entre seguir viagem e deixar a oportunidade de conhecer uma pessoa especial para trás ou ficar em Viena e arriscar viver uma experiência marcante. Felizmente, ela decide ficar, e a fotografia inicialmente clara de Lee Daniel ilustra a euforia daqueles jovens e o momento mágico que eles estão vivendo. Não por acaso, ele destaca a cor verde, simbolizando a esperança de um futuro feliz de Jesse e Celine. Com o passar do tempo e o cair da noite, Daniel e Linklater exploram a beleza da noite vienense, criando uma atmosfera ainda mais romântica sem jamais tornar a narrativa melosa ou piegas.

Duas pessoas inteligentes e cheias de idéias interessantes, Jesse e Celine são jovens normais, com dúvidas, aflições e questionamentos, mas também agradáveis e apaixonantes. E é interessante acompanhar a forma como eles desenvolvem cada raciocínio, a maneira como eles enxergam questões universais como a vida após a morte, o amor, os relacionamentos entre pais e filhos e até mesmo a religião. Também existe espaço para momentos descontraídos, como quando ela brinca com o fato dele falar apenas um idioma, numa alusão às diferenças entre norte-americanos e europeus. Celine demonstra ainda uma conexão especial com a avó, enquanto Jesse relata uma experiência que viveu ainda pequeno, relacionada com sua bisavó. E são estes momentos que tornam Jesse e Celine personagens tão reais, tão próximos do espectador. Ao ouvir o pensamento deles, suas histórias e a maneira como eles vêem a vida, nos tornamos íntimos e compartilhamos de suas angústias e sonhos.

Num momento divertido, uma cigana lê a mão de Celine, que se empolga com as palavras dela. Mas este instante, junto com o adorável poema do “vagabundo” à beira do Danúbio, expõe o lado cético de Jesse. E antes mesmo que ele diga alguma coisa, o espectador percebe seu incômodo, somente pelo semblante do ator. São estes pequenos detalhes na composição dos personagens que tornam as atuações de Julie Delpy e Ethan Hawke perfeitas. Repare, por exemplo, como Delpy ri espontaneamente quando Jesse pergunta se a avó de Celine está bem, demonstrando satisfação pelo interesse dele. Da mesma forma, quando eles percorrem a cidade num bonde, Jesse ameaça tirar o cabelo da frente do rosto dela, recolhendo a mão rapidamente quando ela se vira pra ele. Esta hesitação em tocá-la demonstra sua atração ao mesmo tempo em que evidencia sua timidez. Timidez que surge novamente na cabine e, especialmente, na linda cena do primeiro beijo na roda gigante.

Lindo também é o plano que surge após a divertida conversa num telefone imaginário. Como dizem os próprios personagens, tudo parece um sonho. Momentos antes, durante um jantar no Danúbio, eles evitam falar abertamente, mas dão indícios claros de que desejam ficar juntos e quebrar o “acordo racional e adulto”. Pra encerrar a noite, outra cena tocante acontece no parque, quando eles decidem não transar e apenas curtir o final de um momento especial. Por isso (e por tudo que acompanhamos), quando a manhã chega, o espectador compartilha com os personagens um sentimento de tristeza ao saber que o momento da despedida se aproxima. A seqüência de planos dos lugares em que eles estiveram cria um enorme vazio no coração do espectador e a despedida triste e ambígua fecha à narrativa, deixando a platéia livre para decidir o que aconteceria seis meses depois. Os céticos podem acreditar que tudo terminou ali, enquanto os românticos podem idealizar um novo encontro (a verdade só seria revelada na continuação “Antes do pôr-do-sol”, nove anos depois de “Antes do Amanhecer”). Mas o que importa é que aqueles momentos foram mágicos, não apenas para os personagens, mas também para o espectador.

Além das várias questões abordadas em cada diálogo, deixamos a projeção refletindo sobre o tema principal da narrativa. Quantas pessoas especiais passam pelas nossas vidas sem que a gente perceba? Será que estas pessoas continuariam especiais após anos de convivência? Não existe outra forma de descobrir a verdade que não seja “arriscar” viver ao lado delas, ainda que isto possa destruir a visão idealizada que criamos.

“Antes do Amanhecer” é uma história de amor que nos cativa e nos faz torcer contra um final que se anuncia logo em seus primeiros minutos. Ao longo da narrativa, nos tornamos íntimos de Jesse e Celine, torcemos por eles e nos entristecemos quando a anunciada separação finalmente chega. Ainda assim, a mensagem principal já foi gravada em nossas mentes: o amor vale à pena, mesmo que seja só por uma noite.

Texto publicado em 04 de Dezembro de 2011 por Roberto Siqueira