FESTIM DIABÓLICO (1948)

(Rope)

 

 

Filmes em Geral #55

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: James Stewart, Farley Granger, John Dall, Cedric Hardwicke, Constance Collier, Douglas Dick, Edith Evanson, Dick Hogan e Joan Chandler.

Roteiro: Hume Cronyn e Arthur Laurents, baseado em peça de Patrick Hamilton.

Produção: Alfred Hitchcock e Sidney Bernstein.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Até onde pode chegar a criatividade de um grande cineasta? No caso de Hitchcock, esta pergunta dificilmente poderá ser respondida, especialmente se observarmos a qualidade de sua celebrada filmografia e o número de soluções criativas que ele encontrava em seus filmes. Mas existiam momentos em que o mestre simplesmente se superava, brindando os cinéfilos com verdadeiras jóias, capazes de empolgar o mais cético dos críticos. Filmada em longos takes com cortes quase imperceptíveis, a obra-prima “Festim Diabólico” é um destes momentos fantásticos, em que o diretor emprega sua impressionante técnica para conduzir uma narrativa envolvente, recheada de grandes atuações e momentos eletrizantes.

Os amigos Brandon (John Dall) e Phillip (Farley Granger) matam o colega de escola David Kentley (Dick Hogan), apenas para sentir a sensação de cometer um assassinato. Na busca pelo crime perfeito, eles promovem uma festa com os amigos e a família do rapaz, servindo a comida em cima do baú onde está escondido seu corpo. Mas um dos convidados é o esperto professor Rupert Cadell (James Stewart), que começa a desconfiar de tudo na medida em que a festa se torna cada vez mais estranha.

Narrado em tempo real, durante um fim de tarde e num único cenário (o apartamento de Brandon), “Festim Diabólico” apresenta um caráter extremamente realista, reforçado pela técnica empregada por Hitchcock, que filma as cenas em oito tomadas, com pequenos cortes quase imperceptíveis a cada 10 minutos – e que só existem porque este era o tempo máximo que uma bobina podia filmar na época -, nos dando a sensação de estarmos vendo um único plano-seqüência (normalmente, Hitchcock dava um close num personagem ou objeto para poder inserir o corte). Na realidade, apenas em um momento o corte é perceptível, quando Phillip discute com Brandon e grita que “é mentira!” ao ser acusado de matar galinhas – um corte seco nos mostra a reação de Rupert em seguida. Mas, por estar prestando atenção na calorosa discussão, o espectador pode nem perceber este corte. Desta forma, somos sugados pra dentro da história de maneira única, como se estivemos dentro daquele cenário, vivendo a narrativa com incrível intensidade.

Escrito por Hume Cronyn e Arthur Laurents, baseado em peça de Patrick Hamilton, o roteiro de “Festim Diabólico” apresenta muitos diálogos marcantes, além de desenvolver a trama lentamente e com cuidado, tornando possível, por exemplo, que Rupert perceba, através de gestos sutis, o que está acontecendo, como quando Phillip fala sobre os livros mal amarrados e ele olha para a corda, já bastante desconfiado. Assim, na medida em que percebemos que o astuto convidado começa a captar o que se passa, o suspense aumenta e o longa se torna mais tenso. Obviamente, a condução excepcional de Hitchcock também é responsável por isso, desde o momento em que vemos uma rua tranqüila, com pessoas caminhando (Hitchcock é uma delas), e um movimento de câmera nos leva a janela do apartamento onde a narrativa se passará, interrompendo o silêncio com um grito antes de termos a imagem de David sendo enforcado por Brandon e Phillip. Hitchcock sabia que, ao nos mostrar o assassinato e onde o corpo de David estaria durante a festa, ficaríamos inquietos e apreensivos. Seguindo sua cartilha, o mestre faz o espectador saber mais do que a maioria dos personagens em cena, o que só aumenta a tensão e o suspense.

E ainda que comece tranqüilo durante a preparação para a festa, o relacionamento entre Brandon e Phillip já dá indícios das diferenças de temperamento entre eles, que será vital no grande clímax da narrativa. Se Brandon é mais sádico e controlado, Phillip se apresenta mais humano e, por conseqüência, assustado com tudo aquilo. Aliás, John Dall se sai muito bem na pele do cruel Brandon, um personagem extremamente racional, que parece não sentir emoção, a não ser quando acha que seu plano maquiavélico está saindo conforme planejou. Seu humor negro e sarcástico garante boas piadas a respeito da morte de David e de sua presença na festa, como quando Janet (Joan Chandler) diz que David pode chegar e surpreendê-la no quarto com Kenneth (Douglas Dick) e ele responde que seria “um choque” – e Dall tem mérito nisto, ao conferir um ar de cinismo na fala do personagem. Mas, no interessante diálogo sobre assassinatos, que faz referências a Nietzsche e Hitler, Brandon começa a dar sinais de seu plano diabólico e o astuto Rupert começa a perceber o que está acontecendo. Já Farley Granger está um pouco exagerado, mas funciona na pele do assustado Phillip, balanceando bem o destempero de seu personagem com o autocontrole absurdo de Brandon. Vale registrar também que na peça original de Patrick Hamilton, Brandon e Phillip eram homossexuais, mas devido ao controle rígido do Código Hays, Hitchcock foi obrigado a amenizar este aspecto da relação entre eles, tornando-o perceptível, mas de maneira muito sutil (a peça foi inspirada no caso dos jovens Leopold e Loeb, que, em 1924, raptaram e mataram o garoto Bobby, de 14 anos, na cidade de Chicago). Fechando os destaques do coeso elenco, James Stewart, sempre excelente, tem uma atuação muito boa, que cresce na medidaem que Rupert aumenta sua desconfiança diante do que vê. Repare com o ator consegue nos convencer de que o personagem está preocupado através de pequenos gestos como quando observa atentamente o comportamento de Phillip ao ver a corda. Além disso, o ator soa convincente quando confronta os autores do crime no terceiro ato, num monólogo belíssimo que escancara a mensagem do filme, numa crítica feroz ao sentimento de superioridade do ser humano que se julga capaz de tirar outras vidas supostamente “inferiores” (lembre-se que o filme é de 1948, pouco tempo depois do período de domínio nazista).

No restante do elenco, basta dizer que nenhum ator destoa e todos conseguem captar o espírito do longa, fazendo com que a festa soe bastante realista, apesar da absurda situação criada por Brandon e Phillip. E é interessante notar também como as roupas definem parte da personalidade dos personagens, num excelente trabalho da figurinista Adrian. Brandon, com seu comedido terno azul, é o mais controlado de todos. Janet, com seu vestido vinho, procura chamar a atenção dos rapazes e inclusive já namorou três dos quatro estudantes. Rupert esconde sob seu terno cinza muita sobriedade e inteligência, características vitais para que perceba o que está acontecendo. Kenneth, com seu terno marrom e apagado, é propositalmente o personagem mais apático da narrativa. Já Phillip procura se esconder sob seu terno marrom escuro, mas chama a atenção demais com seu jeito assustado. Discreta mesmo é a Sra. Wilson (Edith Evanson), com sua roupa preta de empregada que a torna quase imperceptível, ao ponto de Brandon repreender Phillip após o final da festa (“Calado, a Sra. Wilson ainda está aqui”). E finalmente, o Sr. Kentley (Cedric Hardwicke) exala seriedade em seu terno cinza claro, ao passo em que a Sra. Atwater (Constance Collier) chama a atenção para seu jeito espalhafatoso em seu vestido roxo.

Ainda na parte técnica, a trilha sonora de David Buttolph pontua os momentos de tensão, reforçada pela fotografia de William V. Skall e Joseph A. Valentine, que se torna mais sombria na medida em que a narrativa avança. E se o trabalho do montador William H. Ziegler se limita a inserir os pequenos e imperceptíveis cortes na narrativa devido à citada necessidade de trocar os rolos de filmagens, a direção de arte de Perry Ferguson merece ser citada por criar um cenário que permita o desenrolar da história de maneira tão eficiente, com a ampla sala da biblioteca servindo para recepcionar os convidados, o citado baú que esconde o segredo dos assassinos, o longo corredor que leva até a cozinha e a curiosa porta que divide os ambientes, com seu barulho irritante aumentando a tensão.

Finalmente, num filme dirigido por Hitchcock não poderiam faltar cenas marcantes e “Festim Diabólico” não seria diferente. A começar pela fantástica cena em que a câmera fica parada ao lado do baú, com os personagens conversando sobre David à direita da tela, nos permitindo ver apenas parte do corpo de Rupert e a Sra. Wilson limpando a mesa e trazendo os livros para guardar no baú. Observe a condução lenta da cena por parte de Hitchcock, criando um suspense crescente na medida em que se aproxima o momento que ela guardará os livros. A tensão chega ao auge quando ela começa a abrir o baú e é interrompida por Brandon, aumentado a suspeita de Rupert. Esta suspeita levaria aquele homem a voltar ao apartamento depois que todos foram embora, provocando pânico em Phillip e dando inicio a outra seqüência incrivelmente tensa. Determinado, Brandon se arma e abre a porta. O diretor então inicia a cena destacando a mão armada de Brandon dentro do bolso através de um zoom, enquanto quando Rupert fala sobre David. Em seguida, a câmera simula cada movimento do tenso diálogo em que ele diz como mataria o rapaz, da mesma maneira que Hitchcock fizera em “Rebecca”. Repare como a luz que pisca fora do apartamento e a noite que recai aumentam a tensão do momento, atingindo níveis insuportáveis até que Phillip, ao ver a corda nas mãos de Rupert, confessa tudo e ameaça matá-lo. Rupert consegue tomar a arma de sua mão e parte, sem querer acreditar no que verá, para abrir o baú. Neste momento, Stewart se destaca novamente, demonstrando a frustração de Rupert ao ver o corpo de David lá dentro e o incômodo por saber que Brandon havia distorcido suas palavras para fazer algo tão cruel. O longa termina num plano genial, com Phillip desolado no piano, Brandon tomando uma bebida tranqüilamente e Rupert sentado, aguardando a chegada da polícia.

Com sua narrativa envolvente, “Festim Diabólico” é uma obra-prima do suspense, conduzida com perfeição por Alfred Hitchcock, que desfila sua enorme capacidade de direção através dos criativos movimentos de câmera, da firme condução da narrativa e da excepcional composição da mise-en-scène, permitindo a excelente atuação coletiva do elenco, que transita no cenário de maneira eficiente, e entregando um filme marcante, criativo e incrivelmente tenso.

Texto publicado em 01 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

INTERLÚDIO (1946)

(Notorious)

 

Filmes em Geral #54

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Cary Grant, Ingrid Bergman, Claude Rains, Louis Calhern, Leopoldine Konstantin, Reinhold Schünzel, Moroni Olsen, Ivan Triesault, Alex Minotis e Alfred Hitchcock.

Roteiro: Ben Hecht.

Produção: Alfred Hitchcock.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Com uma narrativa impecável e excelentes atuações, “Interlúdio” comprova a capacidade de Alfred Hitchcock de criar suspense com eficiência, neste caso, misturando thriller de espionagem e romance com perfeição. Ao mesmo tempo em que torcemos pelo casal principal, queremos saber o resultado de uma investigação, que, por outro lado, compromete esta mesma relação amorosa. Está criado o cenário perfeito para que o diretor crie momentos marcantes, do mais puro suspense.

A jovem Alicia (Ingrid Bergman) passa a se afundar na bebida após seu pai alemão ser condenado como espião nos Estados Unidos. Numa das festas, ela sai bêbada com o misterioso Devlin (Cary Grant), que se revela um agente do governo e a convida para uma missão especial no Brasil. Relutante, ela aceita viajar para se infiltrar num grupo de nazistas, amigos de seu pai, na tentativa de descobrir como eles estão operando. No caminho, Alicia se apaixona pelo agente Devlin, mas é obrigada a se casar com o nazista Alexander Sebastian (Claude Rains), como parte do plano norte-americano para capturar os alemães.

O roteiro de “Interlúdio”, escrito por Ben Hecht, mistura com eficiência a trama que envolve a espionagem no Brasil e o dramático romance vivido por Devlin e Alicia, que, como parte do plano em que se envolveram, são obrigados a permanecer separados e evitar colocar em risco a missão. De maneira inteligente, a narrativa investe boa parte de seu primeiro ato no estabelecimento da relação do casal, criando empatia com a platéia e, desta forma, aumentando o drama quando eles são obrigados a ficarem distantes, enquanto tentam descobrir o que fazem os nazistas no país. A situação só piora quando Alicia anuncia a proposta de casamento de Alexander, criando uma situação inusitada para ela (literalmente, dormindo com o inimigo) e para ele, que passa a dividir-se entre a razão, sendo obrigado a concordar que Alicia é a melhor escolha para infiltrar-se no grupo alemão, e a emoção, tentando desesperadamente retirá-la da missão para poder viver sua paixão. Mas, orgulhoso e desconfiado do passado promíscuo da garota, ele jamais deixa claro pra ela sua intenção. Ela, por sua vez, não fala nada, esperando que ele demonstre que a deseja.

Com este bom roteiro nas mãos, Alfred Hitchcock mostra o costumeiro domínio sobre a narrativa, construindo lentamente momentos de alta tensão, numa escala crescente de suspense que atingirá seu auge em duas grandes cenas e amarrará as duas vertentes da narrativa num final emblemático. Além disso, o diretor cria planos curiosos e eficientes, como aquele que mostra a visão de Alicia dirigindo, deixando claro o seu estado deplorável, reforçado pelo momento em que ela acorda, já no dia seguinte, e vê Devlin se aproximando, quando a câmera simula seu olhar, girando completamente. E até mesmo técnicas hoje ultrapassadas, como a “back projection” (tradicional cena em que o carro está parado e as imagens se movem ao fundo), não soam datadas, talvez porque estamos mais interessados no diálogo do casal, relegando o visual para o segundo plano naquele momento. Felizmente, isto não ocorre em todo tempo, pois Hitchcock se preocupa em criar um visual elegante, com os belíssimos planos aéreos do Rio de Janeiro, por exemplo, além de planos sombrios e marcantes, especialmente na casa de Alexander, que muitas vezes são embalados pela trilha sonora de Roy Webb.

A preocupação com a parte visual é reforçada ainda pelos belos lustres e pela decoração da imponente sala na casa de Alexander, ilustrando o bom trabalho de direção de arte de Carroll Clark e Albert S. D’Agostino, que ainda inclui a enorme escadaria que leva ao quarto em que Alicia ficará escondida e que será essencial na cena final (repare como a quantidade de passos de Devlin é maior na descida, prolongando a angústia na platéia). Também merecem destaque os ternos elegantes dos homens e os belos vestidos das mulheres na festa, que confirmam o bom trabalho da figurinista Edith Head, além da direção de fotografia de Ted Tetzlaff, essencial na criação dos citados planos sombrios na casa dos Sebastian, e que se torna ainda mais obscura na medida em que Alicia adoece, refletindo a tristeza da personagem, já na parte final da narrativa.

Filha de um oficial alemão condenado pela justiça norte-americana após a segunda guerra mundial, Alicia é interpretada pela grande Ingrid Bergman, que confirma seu talento logo nas primeiras cenas, ao compor uma bêbada com precisão, demonstrando dificuldade em abrir os olhos enquanto fala na festa. Observe, por exemplo, com a atriz demonstra bem o misto de sentimentos de Alicia ao saber que o pai morreu, não sabendo se chora ou se fica aliviada, e note ainda como ela convence quando Alicia fica doente, mostrando grande dificuldade para falar e se movimentar. Já o personagem interpretado por Cary Grant se mostra misterioso desde sua primeira aparição, quando está de costas e demora pra mostrar o rosto, mas deixa claro sua importância quando apresenta a carteira para um guarda de trânsito, que o libera imediatamente. Apesar de durar pouco tempo, os momentos românticos do casal conquistam a platéia e são vitais no clímax da narrativa. Aliás, fica claro num diálogo no hotel que Alicia está apaixonada e não esconde isto, ao passo em que Devlin ainda tem desconfianças, tanto dela quanto do risco que a missão no Brasil representa e, conseqüentemente, que aquela paixão corria. Ainda assim, ele escancara seu sentimento quando fica nervoso com a proposta de casamento de Alexander, num momento em que Grant se sai muito bem. Este componente amoroso só serve para aumentar a tensão quando a situação de Alicia se complica de vez na casa de Alexander Sebastian. Alexander, aliás, que é bem interpretado por Claude Rains, que muda gradativamente seu comportamento após descobrir que Alicia é uma espiã de maneira convincente, conseguindo ainda conferir humanidade ao vilão quando se mostra completamente apaixonado. E como acontece em muitos filmes de Hitchcock, o papel da mãe tem grande importância em “Interlúdio”, desta vez na pele de Madame Sebastian, interpretada por Leopoldine Konstantin, que aconselha o filho desde o momento em que coloca os olhos em Alicia. Repare como Konstantin muda a feição no momento em que a mãe de Alex ouve que o filho foi traído, colocando um sorriso cínico no rosto antes de dizer que “já sabia”.

Evidentemente, não estamos interessados apenas na relação amorosa de Devlin e Alicia, mas também na espionagem aos alemães, especialmente depois que a jovem se infiltra na casa de Alexander. Ciente disto, Hitchcock trabalha minuciosamente na construção de duas grandes cenas, capazes de grudar os olhos do espectador na tela. Observe, por exemplo, como durante um jantar na casa de Alexander, Hitchcock emprega um zoom nas garrafas de vinho, já indicando a importância delas na trama. As garrafas chamam a atenção de Alicia, que organiza um plano para invadir a adega numa festa em que Devlin estará presente. Já na festa, o diretor destaca a chave da adega nas mãos de Alicia após passear por todo o salão, começando a preparar um clima tenso, especialmente porque, durante a festa, Alexander observa atentamente as conversas entre Devlin e Alicia, que disfarçam, sorrindo enquanto decidem como entrarão na adega. O diretor então passa a incluir planos da bandeja de champanhes e do estoque que diminui, mostrando a preocupação de Alicia com a quantidade de bebidas, pois, obviamente, Alexander vai precisar da chave. Em seguida, o casal desce na adega, mas Devlin derruba e quebra uma garrafa, revelando o conteúdo suspeito da mesma, ao mesmo tempo em que Alexander decide buscar mais bebidas para a festa. Auxiliado pela excelente montagem de Theron Warth, Hitchcock alterna entre a chegada de Alexander e as ações do casal na adega, tornando a cena ainda mais tensa. Rapidamente, enquanto Alexander se aproxima, Devlin limpa o local e decide beijar Alicia, despistando, ao menos por um tempo, o que a dupla de fato fazia ali. Mas Alexander sentirá falta da chave, criando uma suspeita que se confirmaria no dia seguinte, quando ela reaparece no quarto deles – acertadamente, Hitchcock destaca a chave com a palavra “UNICA”. Sentindo-se traído, ele entra na adega, descobre a garrafa quebrada e confirma sua expectativa. A narrativa sofre uma reviravolta. Nós sabemos que Alexander está ciente da função de Alicia, mas ela não sabe. Seguindo os conselhos da mãe para evitar ser acusado de assassinato, o marido passa a envenenar lentamente a esposa através do café – e Hitchcock faz questão de destacar as xícaras de café, fazendo com que o espectador, novamente, saiba mais que a personagem, que toma o café envenenado dia após dia. Aliás, a primeira vez que o diretor faz isso é num travelling genial, que se inicia na xícara de café, passa pela mãe de Alexander e termina na sonolenta Alicia, deixando claro para o espectador o que está acontecendo.

Mesmo doente, Alicia evita tocar no assunto quando encontra Devlin numa praça, num diálogo interessante que confirma o quanto ambos estão ressentidos pela relação que não deu certo. O orgulho impede que eles se aproximem e se abram, impedindo também que Devlin descubra o que acontece com Alicia. Mas ela mesma descobrirá porque está doente quando, em outra cena marcante, a câmera viaja pela xícara e vai até ela, segundos antes do médico ameaçar tomar o café de Alicia, provocando a reação imediata e impulsiva de Alexander e sua mãe. Alicia percebe na hora o que está acontecendo – algo destacado através de um zoom no rosto impaciente da mãe de Alex – e a câmera subjetiva distorce as imagens indicando que ela está passando mal. Desconfiado e sentindo falta da amada, Devlin decide visitar a casa dos Sebastian, nos levando ao tenso final em que ele foge com Alicia nos braços, inteligentemente usando os colegas alemães de Alexander para ameaçá-lo, descendo as longas escadarias da casa lentamente até sair pela porta. A frase final “Alex, não vai entrar?” é cruel e sela o destino do nazista.

Hitchcock usa uma história de espionagem como pano de fundo para nos contar outra história ainda mais interessante, sobre o amor de dois homens pela mesma mulher e sobre a paixão de duas pessoas orgulhosas e incapazes de se abrir. Alicia esperava que Devlin intercedesse por ela, mas nunca disse isto pra ele. Devlin esperava que Alicia desistisse da idéia do casamento, mas também nunca falou nada pra ela. E este silêncio poderia custar caro… Para ambos. Ainda que tenha muito suspense, “Interlúdio” revela-se uma grata surpresa na filmografia de Hitchcock, justamente por trazer no pacote do tradicional thriller, uma bela e clássica história de amor proibido.

Texto publicado em 31 de Maio de 2011 por Roberto Siqueira

REBECCA – A MULHER INESQUECÍVEL (1940)

(Rebecca)

 

Filmes em Geral #53

Vencedores do Oscar #1940

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Laurence Olivier, Joan Fontaine, George Sanders, Judith Anderson, Gladys Cooper, Nigel Bruce, Reginald Denny, C. Aubrey Smith, Florence Bates, Leonard Carey, Leo G. Carroll, Edward Fielding, Lumsden Hare, Forrester Harvey, Philip Winter e Alfred Hitchcock.

Roteiro: Robert E. Sherwood e Joan Harrison, baseado em livro de Daphne Du Maurier.

Produção: David O. Selznick.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Hitchcock era um prestigiado jovem diretor inglês quando aceitou o convite do produtor David O. Selznick para trabalhar nos Estados Unidos, dando início a uma fase marcante em sua carreira, que renderia muitas obras-primas e filmes de excelente qualidade como este “Rebecca, a mulher inesquecível”, que marcou sua estréia na fase “hollywoodiana”. E logo em sua estréia, Hitchcock deixou sua marca, entregando um filme instigante, dirigido com maestria e com uma narrativa surpreendente, que nos balança não apenas com uma, mas com duas reviravoltas desconcertantes.

Uma jovem de origem simples (Joan Fontaine) viaja como “acompanhante” da importante Sra. Edythe Van Hopper (Florence Bates) e acaba conhecendo o rico e nobre inglês George De Winter (Laurence Olivier), que a pede em casamento, mas ainda vive atormentado pelas lembranças do falecimento de sua esposa Rebecca, que morreu afogada no mar. Após chegar à imponente mansão dele em Manderlay, ela passa a viver ameaçada pelo fantasma da ex “Sra. De Winter”, sob os olhares atentos dos empregados, que simplesmente amavam a falecida esposa de George.

Escrito por Robert E. Sherwood e Joan Harrison, baseado em livro de Daphne Du Maurier, “Rebecca, a mulher inesquecível” conta a história de amor entre uma jovem humilde e um nobre inglês, mas jamais passa perto de um romance no sentido clássico da palavra. Criativo e com boas reviravoltas, o roteiro de Sherwood e Harrison usa o fantasma da morte da personagem título como agente criador de um suspense crescente, usando a falta de confiança da nova Sra. De Winter para plantar a dúvida na platéia sobre as reais intenções do rico George. Ciente do material que tinha em mãos, Alfred Hitchcock usa toda sua capacidade como diretor para criar uma atmosfera tensa desde a promissora introdução da narrativa, através da câmera subjetiva que nos leva pelos sonhos da protagonista enquanto ela recorda Manderlay. Esta sensação é reforçada pelos estranhos personagens que habitam a mansão, como a assustadora governanta Danvers (Judith Anderson), e pela própria mansão, fotografada brilhantemente por George Barnes, que mistura a luz que entra pelas janelas e as fortes sombras que se espalham pelo ambiente, permitindo ao diretor criar planos marcantes. Desta forma, a mansão parece ganhar vida e tornar-se ainda mais ameaçadora, especialmente na ala proibida, onde Rebecca vivia (observe como a trilha sombria embala o momento em que vemos a porta do quarto dela pela primeira vez). Aliás, Hitchcock faz questão de ressaltar o espanto da moça ao ver a imponente mansão pela primeira vez, já ilustrando o quanto ela se sentiria intimidada naquele ambiente (o espectador já tinha visto a mansão nos primeiros planos do filme e, por isso, não sente o mesmo impacto dela). Vale destacar ainda a capacidade de Hitchcock de criar suspense a partir de coisas simples, como quando usa o telefone tocando num quarto de hotel de maneira brilhante para provocar tensão quando a jovem tenta encontrar De Winter e evitar seguir viagem para Nova York.

Após um início desastroso, a jovem e o nobre inglês tem um diálogo interessante no café da manha no hotel, que dá início ao relacionamento entre a futura Sra. De Winter e seu pretendente. E graças à boa atuação da dupla, a forma como a relação se consolida é muito natural, crescendo dia após dia através dos encontros do casal. E são nestes encontros que surgirão as primeiras dicas da reviravolta na trama, como quando De Winter sai aborrecido após ela falar sobre o mar – só que, neste instante, pensamos que ele sofre pelo trauma da perda da esposa. Após esta fase de aproximação, com direito a flores antes da partida para Manderlay, o casal finalmente desembarca na famosa mansão onde a atuação de Joan Fontaine crescerá bastante. Esbanjando simplicidade, Fontaine vive a Sra. De Winter com seu jeito meigo e humilde, mas também ilustra bem o desconforto da garota diante de tanto luxo e das novas responsabilidades, demonstrando claramente o quanto ela está intimidada naquele ambiente. Este deslocamento fica evidente, por exemplo, quando por diversas vezes os empregados da mansão tentam fazer algo para ela (como servir o café ou abrir uma porta) e ela sempre se antecipa, justamente por não estar acostumada com este tratamento. Sentindo-se verdadeiramente um peixe fora d’água, ela não consegue assumir sua posição de “Sra. De Winter”, como fica claro quando ela atende uma ligação do jardineiro e responde que a Sra. De Winter morreu há um ano – e até mesmo suas roupas simples ilustram sua personalidade e sua origem humilde. Atormentada, quebra ainda um objeto precioso da casa e o esconde, num ato infantil que traria problemas para os empregados no futuro. Estes problemas só não se tornaram ainda maiores porque George é um homem direto, que resolve os problemas imediatamente e sem provocar grandes polêmicas. Interpretado por Laurence Olivier, George De Winter é, no entanto, um personagem atormentado pelo passado, que vive tentando esquecer a tragédia que assolou sua vida e, talvez por isso, apresenta uma oscilação radical de humor – algo que Olivier demonstra muito bem, mudando da serenidade para repentinas explosões com precisão. Ainda assim, ele parece de fato amar a nova Sra. De Winter, sempre se arrependendo de suas explosões logoem seguida. Oator é competente até mesmo ao manter o segredo de seu personagem, fazendo seu medo do mar parecer um trauma pela morte da esposa na maior parte do tempo, o que aumenta o impacto de sua revelação.

Entre o elenco, merece destaque também a atuação de Florence Bates como a falastrona Sra. Edythe Van Hopper, que consegue nos irritar de maneira encantadora com sua petulância, por exemplo, quando avisa sobre as intenções de De Winter, dizendo que ele quer apenas uma substituta para Rebecca e que a jovem não se enquadraria nesta função, plantando a dúvida que atormentaria a garota em grande parte do tempo. Já Judith Anderson tem uma atuação marcante como a fria governanta Danvers, com seu rosto gélido e sua expressão quase imutável sempre que entra em cena, se destacando na tensa seqüência em que tenta convencer a Sra. De Winter a se suicidar, sussurrando palavras em seu ouvido durante a festa à fantasia. Finalmente, Gladys Cooper vive a simpática e elegante irmã de Winter, Beatrice Lady, que parece de fato querer ajudar a nova Sra. De Winter e há também o curioso cachorro Jasper, que aparece muitas vezes, reforçando a predileção de Hitchcock pela aparição de animais em seus filmes.

Na parte técnica, destaque para a direção de arte de Lyle R. Wheeler, que cria cenários fabulosos, como a própria mansão Manderlay, decorando muito bem seus enormes cômodos e quartos com lustres marcantes, além da imponente mesa que se destaca na bela sala de jantar, apresentada através de um belo zoom out. Aliás, o bom trabalho de Wheeler fica evidente desde a decoração do hotel onde o casal se encontra pela primeira vez, como podemos notar nas habitações e no restaurante onde eles tomam café da manhã. E vale destacar também a estranha casa a beira-mar, que abriga as lembranças amargas de Winter e serve para reforçar a atmosfera sombria da narrativa. Destaque também para a trilha sonora de Franz Waxman, que aparece em grande parte do tempo, normalmente com melodias lentas, mas acentuando os momentos de suspense, como quando a Sra. De Winter caminha perto do mar, e para os bons efeitos visuais, que tornam o incêndio que destrói a mansão em algo realista para a época.

O grande truque da narrativa de “Rebecca, a mulher inesquecível” é que Hitchcock cria o “mito” Rebecca sem jamais mostrá-la de fato, a não ser através de um quadro na parede. O mestre sabe que desta maneira o espectador imagina a mulher ideal, num pensamento reforçado através de pequenos objetos com a letra “R”, que nos lembram constantemente da antiga esposa de Winter. E esta idealização da mulher perfeita é reforçada ainda pela forma como as pessoas se referem a ela, como quando Frith (Edward Fielding) afirma que “Rebecca era a criatura mais linda que ele já viu” (observe como o zoom out diminui os personagens neste momento, refletindo o sentimento da protagonista, que se sente inferiorizada). Desta forma, quando De Winter diz que ela era o demônio em pessoa, o choque no espectador é ainda maior, pois, até este instante, imaginávamos que Rebecca era uma mulher magnífica e amada pelo viúvo. Mas, numa discussão calorosa com sua nova esposa, Winter revela que não amava Rebecca, destruindo a imagem criada na mente do espectador e criando uma interessante reviravolta na narrativa (repare como a câmera de Hitchcock simula a movimentação de Rebecca no momento de sua morte, nos fazendo imaginar a cena). Agora que o barco dela havia sido descoberto, ele seria acusado de assassinato. Passamos então a temer por seu destino e, mesmo ao vê-lo afirmar que não a matou, ainda temos dúvida a respeito.

Chegamos então à longa (porém necessária) investigação do caso. E apesar de não termos certeza de que ele é inocente, torcemos por Winter, até porque neste momento já criamos empatia pelo casal principal (o que é mérito da narrativa bem conduzida por Hitchcock e das boas atuações de Olivier e Fontaine). Sabendo disto, Hitchcock, auxiliado pelo montador Hal C. Kern, prolonga ao máximo a resolução do caso, inserindo novos elementos que nos levam a pensar que Winter pode ser culpado, através do detestável Jack Favell (George Sanders), que afirma ser a gravidez de Rebecca a razão do assassinato. Esta angústia só terminará em outra reviravolta da narrativa, quando o médico afirma que Rebecca tinha câncer – o que, por outro lado, faz Winter pensar que ela premeditou tudo para incriminá-lo, destruindo de vez a imagem de Rebecca. Livre, ele volta para Manderlay, mas um incêndio provocado pela Sra. Danvers destrói o lugar que tanto o fez sofrer.

O controle absoluto da narrativa e a habilidade de criar suspense a partir de situações do cotidiano já apareciam neste ótimo “Rebecca, a mulher inesquecível”, que marcou a estréia de Hitchcock nos Estados Unidos e levou o Oscar de Melhor Filme. Usando o deslocamento normal de uma pessoa que passa a integrar um lar destruído por uma tragédia, Hitchcock consegue criar uma narrativa envolvente, prendendo a atenção da platéia do primeiro ao último plano e fazendo do filme uma obra tão inesquecível quanto sua personagem-título.

Texto publicado em 30 de Maio de 2011 por Roberto Siqueira

UM MUNDO PERFEITO (1993)

(A Perfect World)

 

Videoteca do Beto #97

Dirigido por Clint Eastwood.

Elenco: Kevin Costner, Clint Eastwood, Laura Dern, T.J. Lowther, Keith Szarabajka, Leo Burmester, Paul Hewitt, Bradley Whitford, Ray McKinnon, Jennifer Griffin, Leslie Flowers, Belinda Flowers e Darryl Cox.

Roteiro: John Lee Hancock.

Produção: Clint Eastwood, Mark Johnson e David Valdes.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Depois de ressuscitarem o western e arrebatarem 2 Oscar de melhor filme num período de apenas 3 anos, Clint Eastwood e Kevin Costner decidiram se juntar neste belo “Um Mundo Perfeito”, um drama comovente sobre a amizade entre um seqüestrador e sua vítima, um garoto de apenas 8 anos de idade. Aliás, o longa faz mais do que isso, analisando com cuidado os problemas provocados pela falta da figura paterna e os traumas que o meio em que somos criados podem deixar em nossas vidas, seja este um bordel ou um lar de rígida criação religiosa.

Nos anos 60, Butch Haynes (Kevin Costner) foge de uma prisão no Texas junto com Terry Pugh (Keith Szarabajka). No caminho, eles acabam invadindo uma casa e acordando toda a vizinhança com o barulho, o que força a dupla a levar o menino Phillip (T.J. Lowther), de apenas 8 anos de idade, como refém. Tem inicio então uma verdadeira caçada, liderada pelo Texas Ranger Red Garnett (Clint Eastwood) e pela inteligente Sally Gerber (Laura Dern). Mas o que ninguém imaginava acontece e, durante a fuga, Butch e Phillip acabam se tornando amigos.

Poucas situações devem ser tão desesperadoras quanto o seqüestro de um filho. E este terrível crime é o ponto de partida deste “Um Mundo Perfeito”, que, curiosamente, praticamente não mostra o sofrimento da mãe desesperada do garoto Phillip, a não ser pelo breve zoom que destaca, por alguns segundos, sua aflita feição ao ver o carro levando seu menino. Escrito por John Lee Hancock, o roteiro aborda, na maior parte do tempo, o relacionamento que nasce desta situação, entre o criminoso Butch e o menino seqüestrado. Em certo momento, a personagem Sally diz que “num mundo perfeito, estas coisas não aconteceriam”, e é justamente aí que reside a mensagem principal da narrativa. O mundo não é perfeito, as pessoas não são perfeitas e, por isso, é difícil rotular alguém como “bom” ou “mau” e definir o que é certo e errado.

Tecnicamente, “Um Mundo Perfeito” é discreto e eficiente, como podemos notar na fotografia de Jack N. Green, que explora bem a beleza das paisagens que cercam as estradas, auxiliando Eastwood a criar belos planos, mas evita usar cores muito alegres, refletindo o tom melancólico da narrativa. Além disso, Green cria um visual sombrio tanto na cena da fuga como no momento do seqüestro, o que soa correto, dado a tensão destes dois momentos. Já a direção de arte de Jack G. Taylor Jr. colabora na ambientação aos anos 60, com os carros de época e a arquitetura das casas, e a trilha sonora de Lennie Niehaus alterna momentos de pura melancolia com outros mais empolgantes, refletindo o estado de espírito da dupla Butch e Phillip, além de rechear a narrativa com belas canções dos anos 60, como na linda cena em que Butch fala sobre o pai de Phillip e sobre o próprio pai (“Nossos velhos não valem nada”), deixando claro que ambos sentiam falta da figura paterna.

Com a costumeira segurança e eficiência, Eastwood conduz a narrativa de maneira envolvente, graças também a montagem de Joel Cox e Ron Spang, que alterna num ritmo delicioso entre as seqüências que mostram a fuga de Butch e Phillip e as que focam na perseguição conduzida por Red, sabendo dar prioridade a linha narrativa principal, claramente mais interessante que aquela envolvendo os conflitos entre Red e Sally. Além disso, o diretor mostra a costumeira elegância na construção de momentos belíssimos, como a cena de abertura, em que Butch, deitado na grama, olha para o céu, com a máscara do gasparzinho jogada ao seu lado, dinheiro voando e o som do helicóptero ao fundo – este início misterioso será perfeitamente compreendido no emblemático final de “Um Mundo Perfeito”. O diretor sabe ainda quando sair do costumeiro estilo clássico e contemplativo, empregando movimentos de câmera diferenciados, como o plano subjetivo que nos coloca sob o ponto de vista de Pugh enquanto ele observa a mãe de Phillip, segundos antes de ele invadir a casa, ou através da câmera que sacoleja durante a perseguição em que Butch despista os policiais, além de acertar a mão nas cenas mais tensas do longa, como o seqüestro de Phillip, que só ocorre após a chegada de um vizinho, ou a tensa fuga da loja “Friendly’s”, com a policia cercando Butch com dois carros e Phillip esperando na porta da loja, com a fantasia de gasparzinho escondida sob a blusa. Repare ainda que, nesta cena, Eastwood destaca o rosto de Phillip através de um zoom, evidenciando o momento em que ele decide ir com Butch, vencendo um conflito interno provocado pela forte criação religiosa, como ficaria evidente mais pra frente, quando ele diz pra Butch que iria para a cadeia e para o inferno por roubar a fantasia. Aliás, é exatamente nestes momentos que exigem sensibilidade que o trabalho de Clint tem maior destaque, conduzindo as cenas com perfeição, como quando o garoto Phillip, triste por não poder participar do Halloween, fica olhando para a rua, enquanto os outros garotos da sua idade se divertem e jogam frutas no vidro da janela dele. Finalmente, o diretor mostra ainda versatilidade e balanceia a pesada narrativa com pequenos momentos de alivio cômico, como quando Phillip faz xixi enquanto Butch rouba um carro ou quando ele solta o freio do carro numa ladeira, além do engraçado momento em que o governador se gaba do novo veículo para a imprensa e, no plano seguinte, vemos os policiais a pé e o veículo batido nas árvores.

Além de saber o que fazer com a câmera, Eastwood também consegue extrair excelentes atuações de todo elenco, a começar por Keith Szarabajka, que se sai bem como Pugh, especialmente na cena que conversa com Phillip enquanto o garoto aponta uma arma pra ele. Já Laura Dern se sai muito bem quando Sally confronta Red no carro, tentando pensar estrategicamente e não apenas seguir os instintos policiais, além de se destacar quando a personagem fala como se fosse Butch, tentando pensar como ele, o que funciona também como forma de apresentar o passado difícil do criminoso ao espectador. Com seu estilo pratico de resolver os problemas e o chapéu de “durão”, o Red de Eastwood parece mesmo estar numa caçada, algo reforçado pelo constante uso do termo “man hunt” (algo como “caçada humana”). Eastwood também se sai bem na cena em que Red ameaça um federal por mexer com Sally, mostrando autoridade e soando convincente. Aliás, a dupla Eastwood e Dern também se destaca na sincera conversa sobre o passado de Butch, quando Red admite ter subornado um juiz para mandar o garoto ao reformatório e livrá-lo do pai criminoso, num dialogo que também funciona como uma crítica a estas instituições, que, em muitas vezes, acabam piorando o jovem ao invés de recuperá-lo.

Mas o grande destaque fica mesmo para a dupla vivida por Kevin Costner e T.J. Lowther. Convincente no papel de um criminoso fugitivo, Costner impõe respeito, por exemplo, nas discussões com Pugh, como quando “explica” pra ele a diferença entre ameaça e fato. Só que, curiosamente, mesmo sendo um bandido e mostrando que é perigoso ao matar o parceiro de fuga, o espectador acaba simpatizando por Butch, talvez pelo carisma de Kevin Costner, mas também por causa da maneira afetiva que o ladrão trata o garoto Phillip. Por exemplo, logo após matar Pugh, Butch não obriga o garoto a vir com ele, perguntando se ele prefere ficar. A resposta do garoto marca o inicio de uma relação praticamente de “pai e filho”, que duraria somente alguns dias, mas marcaria a vida dele eternamente. Obviamente, a empatia entre Costner e o garoto Lowther é essencial para o sucesso da narrativa e a dupla se sai muito bem. Aliás, Lowther tem uma ótima atuação, misturando a inocência da criança e a curiosidade de alguém que sente falta não apenas da figura paterna, mas de poder fazer o que as outras crianças de sua idade fazem. Para ele, Butch representa o pai que tanto lhe faz falta, permitindo ao garoto fazer coisas que ele sempre sonhou, como tomar refrigerantes à vontade, brincar de “montanha russa” em cima do carro, comer doces e dirigir um carro. Aliás, o próprio Butch sabe a falta que um pai faz, como fica evidente quando ele revela a razão da escolha do Alasca como destino de sua viagem. Juntos, eles vivem momentos que só um pai vive com um filho, como quando Butch diz que o pênis de Phillip tem um bom tamanho pra idade dele e o garoto abre um largo sorriso no rosto. Esta relação amigável e sincera nos leva a emblemática cena em que o criminoso para na beira da estrada e encosta no carro, sendo imitado por Phillip em seguida. O garoto já tinha desenvolvido uma enorme admiração por ele. Esta admiração se transforma em carinho de verdade quando ele diz que não pode brincar de “travessuras e gostosuras” por causa da religião, provocando a revolta de Butch (e Eastwood diminui o garoto no plano nesta cena, mostrando seu sentimento de inferioridade por causa disto). O criminoso pergunta se ele quer brincar e ele aceita, ficando tão feliz que chega a pegar na mão do bandido enquanto caminha em direção a casa. E apesar de resistir inicialmente, Butch acaba pegando na mão do garoto. Os dois chegam inclusive a viver um pequeno conflito, quando Phillip vê Butch transando com uma atendente num bar, que resulta numa interessante conversa entre eles. E após rirem do episódio, Butch pede para que Phillip faça uma lista de desejos, num momento tocante. Em pouco tempo, Butch ensinou mais sobre a vida para o garoto do que os pais haviam feito até então.

Só que ao contrário do que indica o nome do filme, o mundo não é perfeito. E, obviamente, Butch também não é. E começamos a ter indícios de seu comportamento violento quando ele fica muito bravo ao ver uma mãe maltratando suas crianças (algo que Costner demonstra com o semblante), revelando um lado de sua personalidade que seria vital no clímax da narrativa. E apesar de admirar uma pessoa controlada, como deixa claro ao elogiar Bob por não reagir ao roubo do carro, protegendo a família (“Este é o melhor tipo de pessoa que um homem pode ser”, afirma), ele não conseguirá se controlar ao ver outra criança apanhando. Justamente por isso, a cena na casa do caseiro é essencial para compreender a ambígua personalidade de Butch. Seu lado mais violento vem à tona quando vê pela segunda vez o dono da casa batendo no filho (repare a expressão de ódio de Costner, que explode em cena). Numa síntese de todo o filme, a cena é dominada pelo clima tenso e, ao mesmo tempo, comovente, quando Butch, pacientemente, amarra toda a família para executar o pai, sob o som da música que, momentos antes, embalava a dança suave de todos eles. Neste momento, o espectador se questiona se aquele é o mesmo homem que vimos ensinando tantas coisas legais para Phillip e a resposta vem no diálogo entre ele e a mulher da casa, que afirma que Butch é um homem bom. Sua resposta é emblemática: “Não sou um homem bom, mas também não sou o pior deles”. O trauma da infância fez com que Butch sentisse ódio ao ver um pai agredindo o filho e ele perde os limites, despertando seus piores instintos. Mas, surpreendentemente, Phillip, chorando muito, atira nele e joga a arma num poço, salvando a família.

Somos levados então ao comovente final de “Um Mundo Perfeito”, com Butch negociando com a mãe de Phillip, pedindo que ela prometa deixar o garoto fazer tudo que gosta. E é difícil segurar as lágrimas ao ver o garoto abraçar emocionado seu seqüestrador antes de partir, de mãos dadas com ele, em direção a polícia. Mas estamos falando de um filme dirigido por Clint Eastwood e, por isso, o final ainda nos reserva um momento dramático, que deixará o espectador perturbado e questionando muita coisa. Os policiais, sem saber que Butch estava desarmado, se preparam para evitar uma tragédia e, por isso, quando ele coloca a mão no bolso, atiram nele. Só que o espectador já sabe que ele está desarmado, e sente, assim como Red e Sally, um gosto amargo na boca ao ver aquele desfecho trágico, em que ninguém pode ser culpado (apesar das agressões ao federal que não obedeceu à ordem de Red). Enquanto o garoto chora e clama por seu amigo, pensamos o quanto a vida pode ser injusta.

Clint Eastwood acerta novamente neste belíssimo “Um Mundo Perfeito”, um drama humano, que comove não apenas pela relação desenvolvida por Butch e Phillip, mas por nos fazer questionar até que ponto nós podemos julgar as pessoas tão superficialmente, sem compreendê-las em toda sua complexidade. Após passar por tudo aquilo e ver o garoto comovido com a morte de seu seqüestrador, Red afirma: “Eu não sei de nada”. Nós também não.

Texto publicado em 15 de Maio de 2011 por Roberto Siqueira

UM DIA DE FÚRIA (1993)

(Falling Down)

 

Videoteca do Beto #96

Dirigido por Joel Schumacher.

Elenco: Michael Douglas, Robert Duvall, Barbara Hershey, Tuesday Weld, Rachel Ticotin, Frederic Forrest, Lois Smith, Joey Hope Singer, Raymond J. Barry, D.W. Moffet, Steve Park, Kimberly Scott e James Keane.

Roteiro: Ebbe Roe Smith.

Produção: Timothy Harris, Arnold Kopelson e Herschel Weingrod.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A vida moderna, especialmente nas grandes cidades, propicia muitos momentos desgastantes, graças ao seu ritmo de vida alucinante e estafante, que a cada dia procura ser mais dinâmico, privilegiando a velocidade da informação e das atividades que realizamos diariamente. O grande problema, entretanto, é que esta busca gananciosa por um estilo de vida cada vez mais “dinâmico” acaba prejudicando o que de melhor nossa vida pode oferecer, aqueles momentos em que nos esquecemos de tudo, apenas para relaxar e deixar o tempo passar. Exatamente por isso, este ritmo acelerado é responsável pela proliferação de pessoas cada vez mais estressadas, que, diante de tantas situações irritantes, podem acabar explodindo de uma maneira ou outra. E é justamente o momento de explosão de uma pessoa comum que este interessante “Um Dia de Fúria” retrata com precisão, aproveitando ainda para criticar as inúmeras situações que a vida nas grandes cidades apresenta e que colaboram para que isto aconteça.

Após perder seu emprego, William Foster (Michael Douglas) decide ir ao encontro de sua ex-mulher Beth (Barbara Hershey) e sua filha (que faz aniversário), apesar de estar impedido legalmente de fazer isto. No caminho, ele é obrigado a enfrentar o transito congestionado da cidade de Los Angeles, debaixo de um sol escaldante e em meio à grande poluição. Irritado, William decide largar o carro e seguir a pé. Mas, ao parar para tentar fazer uma ligação, ele acaba discutindo com um comerciante e explodindo, dando início a uma série de situações que complicam cada vez mais o seu dia. Quando a situação sai totalmente de controle, o veterano policial Prendergast (Robert Duvall), prestes a se aposentar, decide tentar impedir que uma tragédia ainda maior aconteça.

Escrito por Ebbe Roe Smith, “Um Dia de Fúria” aborda a paranóia urbana, um tema contemporâneo que assola a grande maioria das pessoas que vivem nas principais cidades do planeta, refletindo os enormes problemas que a grande concentração de pessoas num mesmo local traz para o nosso cotidiano, como o trânsito carregado ou o atendimento padronizado em restaurantes (os chamados fastfoods, que visam somente à velocidade no atendimento, como numa linha de produção), entre tantas outras coisas. Dirigido por Joel Schumacher, o longa se concentra na vida do conturbado William Foster, recentemente demitido e obrigado pela justiça a se manter longe da ex-mulher e da filha por causa de seu temperamento agressivo, que é apresentado ao espectador logo na primeira cena do filme, quando um close em detalhes de seu rosto suado e angustiado dá inicio a seqüência que levará aquele homem a largar tudo pra trás. Aliás, a direção de Schumacher é competente na transmissão deste sentimento crescente de angústia, através do silencio que lentamente se transforma num barulho irritante, do travelling que passa pelas outras pessoas presentes nos carros parados no congestionamento, e do calor infernal daquele dia, refletido nas cores quentes da fotografia de Andrzej Bartkowiak. Quando William larga o carro parado na rua e sai andando, dizendo “Vou pra casa!”, sabemos que ele chegou ao limite.

Mas os problemas de William estavam apenas começando, pois a cidade grande ainda reservaria muitas situações desagradáveis, capazes de tirar a paciência de qualquer um. Momentos depois de deixar seu carro pra trás, ele entra numa loja, com a única intenção de comprar uma ficha telefônica. Mas, ao descobrir que teria que consumir algo e, pior do que isso, os preços abusivos praticados no local, ele explode. Obviamente, não se trata apenas da questão dos preços, que é apenas a chamada “gota d’água”. Aquela reação é apenas o resultado de todos os problemas que ele havia acumulado e que o levaram a destruir a loja e sair com o taco de beisebol que o dono dela iria usar para agredi-lo. Aliás, é interessante notar também como William jamais procura a violência, mas ela sempre acaba chegando até ele – e até mesmo as armas que carrega durante a narrativa surgem primeiramente nas mãos de seus agressores. A partir daí, o que vemos é um festival de situações que parecem corriqueiras, mas que são suficientes para tirar alguém do sério – o que, no caso de William, era algo mais fácil de acontecer, dadas as circunstâncias. Paralelamente, acompanhamos o trabalho de investigação da policia, que, inicialmente, não dá muita atenção ao caso, com exceção do praticamente aposentado Prendergast, que parece preocupado com as noticias que recebe. Graças à boa montagem de Paul Hirsch, a narrativa alterna com muita fluência entre o dia conturbado de William, a espera angustiada da ex-mulher dele em casa, as investigações da polícia e o drama da aposentadoria de Prendergast, demonstrando inteligência ao priorizar a linha narrativa mais interessante do longa, focando nos diversos problemas que cruzam o caminho de William. Também colabora com o clima de tensão a boa trilha sonora de James Newton Howard, que alterna entre momentos sombrios e agitados, como quando William invade a casa, enquanto Beth foge pela porta dos fundos.

No caminho de William, “Um Dia de Fúria” aproveita para criticar diversas situações normais do cotidiano nos grandes centros urbanos, como, por exemplo, a miscelânea cultural que se tornou a cidade de Los Angeles (e a maioria das grandes cidades do mundo hoje em dia), graças ao enorme número de imigrantes no país, representada pela gangue latina agredida com o taco de beisebol e pelos personagens chineses, japoneses e coreanos (interessante notar também como o filme critica o irritante vicio ocidental de confundir os povos destes países através dos comentários dos policiais). Além dos imigrantes, outra característica comum às grandes cidades, que também é reflexo do excesso de pessoas e da falta de oportunidades, é a grande quantidade de pedintes e mendigos que vagam pelas ruas, como aquele que irrita William (“Vá procurar emprego!”, diz ele, após ouvir o homem gritar “Me dá alguma coisa!”) e que ganha de presente, pra sua irritação, uma mala com duas frutas. Em outro momento, o longa faz uma excelente crítica aos fastfoods, através dos irritantes sorrisos forçados das atendentes, do tamanho e do aspecto do lanche (muito diferente da foto da propaganda) e da falta de tato das pessoas que ali trabalham para lidar com o cliente. Além disso, critica os bancos, mostrando o tratamento diferente dado aos “não economicamente viáveis”. Mas nem só de críticas vive “Um Dia de Fúria” e o clima tenso que predomina a narrativa faz a violência parecer um resultado inevitável diante de tudo que vemos. E por mais que a violência jamais se justifique, a reação maluca de William acaba se tornando compreensível, o que não quer dizer que devemos perdoá-lo (e confesso: entendo que a maioria das pessoas já viveu alguma situação em que ao menos pensou em fazer alguma loucura como esta). Felizmente, Joel Schumacher mostra qualidade na condução das ótimas cenas de violência do filme, como a briga com a gangue, o tiroteio em plena luz do dia, a bazuca disparada nas ruas que eram consertadas sem necessidade e o infarto de um jogador de golfe que se irritou com a invasão de seu terreno particular. Já a interessante seqüência que se passa na loja de um admirador do nazismo aproveita para pregar a ideologia americana da “liberdade de expressão”, além de fazer referência ao nome do filme, quando William diz que vai cair (“I’m falling down!”).

Evidentemente, a ótima atuação de Michael Douglas é essencial para que o espectador se envolva com a narrativa, transmitindo muito bem em seu semblante a fúria crescente do personagem, que enfrenta problemas com a esposa e a filha, provocados por seu temperamento explosivo. Vale destacar, entre tantos bons momentos do ator, sua expressão de surpresa ao constatar que, no mundo de hoje, um cirurgião plástico tem mais sucesso do que muitas outras profissões (o que reflete a crescente preocupação das pessoas com a aparência). Além disso, o ator emociona no tocante momento em que William se desespera ao ver sangue na mão da filha do criado da mansão, se esquecendo que era sangue dele mesmo e mostrando que ele tem seu lado bom, mas não consegue conter o temperamento explosivo, o que o levou a estourar diante de tantas situações estressantes em sua vida. Após este momento, a reflexão de William a respeito de tudo que perdeu também comove (e Douglas tem mérito nisso também), algo que os vídeos que assiste após invadir sua ex-casa comprovam, mostrando uma vida estável ao mesmo tempo em que já indicavam seu temperamento explosivo. E apesar de toda confusão que provoca, William demora a chamar a atenção da policia, com exceção do veterano policial Prendergast, interpretado pelo ótimo Robert Duvall, que será o responsável pela investigação que irá deter a fúria dele. Prestes a se aposentar, mas ainda trabalhando duro (apesar das criticas do chefe), o tranqüilo policial acompanha atentamente os acontecimentos do dia, ao mesmo tempo em que tenta convencer a esposa a deixá-lo resolver o caso ao invés de ir embora mais cedo pra casa, como ela queria. Aliás, Duvall retrata muito bem o trauma que a perda da filha causou no policial (o que explica a preocupação e a carência afetiva da esposa), tratando sua mulher com muito carinho e cuidado, até o momento em que não agüenta mais e explode também (talvez por reflexo da tensão crescente daquele dia). É interessante notar ainda o momento em que Prendergast fala para o capitão sobre a perda da menina, provocando o espanto de seu líder e evidenciando a falta de preocupação dele pela vida pessoal do funcionário, algo também comum nos dias de hoje. Mas este terrível trauma não tiraria a coragem dele. Determinado, o policial não descansaria enquanto não descobrisse o paradeiro do responsável por toda aquela confusão.

Depois de muitas tentativas frustradas de encontrar o “homem de gravata”, um simples outdoor pichado será a chave para que Prendergast se lembre de William e finalmente consiga encontrá-lo (num recurso interessante da narrativa, chamado “dica e recompensa”, que sempre agrada ao espectador). E após uma frustrada tentativa de reconciliação com a família, William se vê num verdadeiro duelo com Prendergast, que o leva a questionar espantado: “Eu sou o bandido? Como isto aconteceu?”. Só que infelizmente ele não teria tempo de descobrir como se transformou no vilão, e o duelo que segue culmina em sua morte, transformando-o em mais uma vítima do acelerado ritmo da vida moderna. O travelling final nos leva aos alegres vídeos de sua família, agora destruída, entre tantos outros fatores, por sua própria personalidade explosiva.

No transcurso de um dia, “Um Dia de Fúria” nos mostra os inúmeros problemas provocados pela vida moderna nas grandes cidades, através do drama enfrentado por seu personagem principal, alguém com tendência à violência e que encontrou, no acelerado ritmo contemporâneo, diversas situações capazes de provocar suas piores reações. Acertando ainda ao não justificar as ações de seu “vilão” com explicações mirabolantes, o longa deixa claro que, nas condições atuais, as chances de aparecer um maluco qualquer revoltado com o mundo a sua volta são consideravelmente maiores. E se levarmos em conta que o filme é de 1993, e que nossa vida ficou ainda mais estressante de lá pra cá, com certeza chagaremos a conclusão de que é bom abrirmos os olhos enquanto estamos parados no trânsito, pois qualquer pessoa em volta pode, de uma hora pra outra, resolver largar tudo pra trás.

Texto publicado em 11 de Maio de 2011 por Roberto Siqueira

KALIFORNIA (1993)

(Kalifornia)

 

Videoteca do Beto #95

Dirigido por Dominic Sena.

Elenco: Brad Pitt, Juliette Lewis, David Duchovny, Michelle Forbes, John Zarchen, David Rose, Patricia Sill, David Milford e Catherine Larson.

Roteiro: Tim Metcalfe, baseado em história de Stephen Levy e Tim Metcalfe.

Produção: Steve Golin, Aristides McGarry e Sigurjon Sighvatsson.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O que difere uma pessoa normal de um assassino? Segundo “Kalifornia”, longa dirigido por Dominic Sena, a grande diferença entre os assassinos em série e uma pessoa comum não está no ato de matar em si, já que qualquer um pode, agindo em legitima defesa, acabar tirando a vida de alguém. Entretanto, o que nos torna “humanos” é justamente o remorso que corrói qualquer um que tenha o mínimo de sensibilidade e respeito pela vida, justamente o que não acontece com estes assassinos.

O casal Brian Kessler (David Duchovny) e Carrie Laughlin (Michelle Forbes) decide viajar até a Califórnia, passando – e fotografando – por lugares onde aconteceram famosos crimes no EUA, como forma de estudar os assassinos em série e conseguir divulgar um livro a respeito. Sem dinheiro, eles decidem convidar outro casal para dividir as despesas da viagem e acabam conhecendo Adele (Juliette Lewis) e Early Grayce (Brad Pitt). Só que na viagem, Brian e Carrie descobrirão que estão muito mais próximos de um assassino em série do que poderiam imaginar.

Como é de se esperar num “road-movie”, “Kalifornia” tem um visual bastante interessante, que explora muito bem a beleza das paisagens que cercam as estradas norte-americanas. Mas o visual requintado do longa não se resume apenas às belas paisagens, como fica claro logo no inicio da narrativa, quando a chuva e a noite conferem um aspecto sombrio à primeira aparição do grande vilão do longa. Além disso, o diretor Dominic Sena demonstra grande habilidade na criação de planos absolutamente sombrios, como quando Brian e Carrie tiram fotos num velho galpão. Sena emprega ainda diversos travellings que tornam sua direção ainda mais elegante, especialmente aqueles que revelam as mortes do dono do terreno em que Early morava e de Adele. Em outro momento, também será um travelling que revelará Early encostado na parede escutando Brian e Carrie, que transam no quarto ao lado. E além dos elegantes movimentos de câmera, o diretor, auxiliado pelo diretor de fotografia Bojan Bazelli, capta muito bem a beleza daqueles dias ensolarados, que contrasta muito bem com as citadas cenas noturnas e sombrias. Conduzindo a narrativa num ritmo dinâmico e envolvente, Sena ainda acerta a mão em praticamente todas as cenas tensas do filme, como quando Carrie descobre a natureza assassina de Early num posto, a seqüência que se passa na casa de um casal de velinhos e o clímax da narrativa, numa abandonada estação de geração de energia.

Mas se “Kalifornia” é um filme visualmente belo, o mérito também deve ser dado ao excelente trabalho do citado Bojan Bazelli, que balanceia muito bem as cenas iluminadas da estrada com os momentos mais sombrios, como a introdução de Early sob forte chuva e raios, que revela também seu olhar psicótico após provocar um terrível acidente, criando uma imagem emblemática e perturbadora. Já a montagem de Martin Hunter, além de contribuir para o ritmo envolvente da narrativa, faz elegantes transições, como quando a imagem do mapa dos Estados Unidos se transforma na imagem do carro que levará os dois casais pelas estradas até a Califórnia. E se existe uma clara diferença entre os casais que compartilham a viagem, os figurinos de Kelle Kutsugeras ajudam a ilustrar esta diferença, com as roupas modernas de Brian e Carrie se contrapondo as roupas cafonas de Early e Adele, assim como a direção de arte de Jeff Mann evidencia esta diferença através das moradias de cada casal, com o bagunçado trailer de Early se contrapondo ao organizado apartamento de Brian. Finalmente, a trilha sonora de Carter Burwell alterna do tom sombrio e melódico para o rock pesado, ilustrando muito bem a mente perturbada de Early.

Escrito por Tim Metcalfe, baseado em história de Stephen Levy e Tim Metcalfe, “Kalifornia” faz um interessante estudo não apenas da mente de um assassino em série, mas da mente de uma pessoa fascinada por este tipo de criminoso, algo bastante comum nos Estados Unidos (como a grande quantidade de filmes e livros que abordam o tema pode comprovar). Só que ao decidir viajar para estudar os locais em que famosos crimes aconteceram, Brian não imaginava que estaria tão perto de seu tema de estudo, fazendo como uma das famílias que visitou. Assim como os Novak, Brian e Carrie acolheram um assassino entre eles. Mas, ao contrário de Brian, Carrie demonstra seu incomodo com a presença de Early logo no primeiro encontro dos casais, que também provoca desconforto em Adele, num belo exemplo da chamada “intuição feminina” (repare o olhar de Carrie para Early pelo retrovisor do carro, que teria reflexo em outro momento, quando ela também observa de longe o assassino).

Aliás, o casal Brian e Carrie consegue estabelecer boa química em cena, o que é mérito de David Duchovny e Michelle Forbes. Enquanto Duchovny faz de seu Brian alguém tranqüilo, centrado e que nutre um curioso fascínio pelos assassinos em série (algo que o ator retrata bem na maneira como reage aos impulsos de Early, como quando ele briga num bar ou quando começa a atirar num galpão abandonado), Forbes vive Carrie com muita sensualidade, mas demonstra freqüentemente sua preocupação com a presença de Early. Exatamente por isso, ela não consegue se soltar, ao contrário de Brian, que chega a sair com Early e tomar todas, como se fossem grandes amigos. Aliás, a forma como a relação entre os dois casais se desenvolve também é verossímil, com as diferenças sendo lentamente amenizadas durante a viagem enquanto eles se adaptam. Repare, por exemplo, as diferentes reações das mulheres quando os homens brincam de atirar num galpão. Enquanto Carrie se mostra claramente assustada, Adele diz que aquilo é “coisa de garotos” e brinca com seu ioiô. Após este momento, Carrie explode e ameaça Brian, saindo correndo e se deparando com Adele e Early transando no carro, somente para parar e novamente observar o casal, desta vez tirando fotos também. Mas quando Early percebe e olha assustadoramente pra ela, Carrie sai correndo novamente, revelando que ela até tinha alguma curiosidade, mas, ao contrário de Brian, não tinha coragem de encarar este sentimento.

Assim como Brian e Carrie, Early e Adele também demonstram boa química, como podemos notar quando Early cava um buraco enquanto conversa com Adele sobre seus planos para o futuro. Com muitos problemas para pagar o aluguel, eles vivem em pé de guerra com o dono do terreno, o que levaria Early a resolver o problema a sua maneira – claro, sem deixar que Adele perceba o que aconteceu. De certa maneira, os dois demonstram uma ingenuidade que explica a falta de preocupação de Brian, como quando Adele pergunta se “carma” é uma palavra francesa ou quando Brian pergunta onde estão os garfos e facas ao abrir sua comida chinesa. Esta ingenuidade de Adele é reforçada pela fala pausada de Juliette Lewis, que demonstra muito bem a enorme dificuldade que a personagem tem para desenvolver o raciocínio. Além disso, Lewis se destaca em pequenos gestos, como quando demonstra a decepção de Adele com a resposta de Carrie à sua sugestão de viver junto com eles em Los Angelesou quando conta sem querer que Early já foi preso e tenta disfarçar a besteira que fez olhando levemente pra cima. Certamente, Lewis tem a melhor atuação do longa, compondo muito bem a personagem e trabalhando em detalhes que ajudam a entendê-la melhor, além de comover o espectador no momento em que Adelerevela o estupro que sofreu com 13 anos, provocando espanto em Carrie (e o close realça muito bem a atuação tanto de Lewis como de Forbes neste momento). Aliás, o diretor também ajuda a compreender a personalidade de Adele através dos planos que destacam os cactos, como quando eles partem para a viagem, deixando um cacto jogado no lixo. Esta fixação por cactos funciona como uma bela metáfora dela própria, pois, assim como Adele, mesmo na pior das situações os cactos conseguem sobreviver.

Fechando o elenco, Brad Pitt tem uma grande atuação na pele do assassino Early, exibindo uma frieza assustadora por baixo daquela carapuça de homem caipira. Capaz de escovar tranquilamente os dentes após assassinar um homem num banheiro de um posto de gasolina, Early é o tipo de assassino para quem matar um ser humano é exatamente igual a matar um inseto, como a barata que ele joga no fogo no inicio do filme. Mas, apesar de psicótico, ele tem consciência de que precisa manter sua imagem diante de Adele, talvez por gostar dela ou até mesmo para ter alguém que possa defendê-lo das constantes acusações que recebe. Exatamente por isso, Adele se desespera ao ver Early matando alguém pela primeira vez e destruindo sua imagem diante dela. E apesar de às vezes se tornar um pouco caricato, Pitt compõe muito bem o personagem com sua fala diferenciada e seus “tiques”, como o barulho que faz com a boca, saindo-se bem ainda nas cenas que exigem força física, como quando arrebenta um homem num bar e evidencia seu instinto assassino. Além disso, o ator destaca-se também quando Early conta sobre “as portas” logo após sair do bar e quando questiona Brian sobre seu grande projeto, perguntando como ele quer escrever sobre algo que não conhece. Finalmente, vale registrar que “Kalifornia” não tenta justificar os atos de Early como sendo resultado de um trauma da infância, apesar de indicar algumas vezes que ele teve problemas com seu pai.

Quando o grupo para num posto durante a noite após a explosão de Carrie contra Brian, a chuva e os raios indicam o futuro sombrio de todos eles. Despretensiosamente, Carrie para pra olhar as noticias num telejornal e descobre que Early é um assassino procurado pela polícia, dando inicio a uma das muitas cenas tensas de “Kalifornia”, que resultará em outro assassinato e novamente nos apresentará a maneira natural com que o assassino lida com esta situação. Aliás, vale notar também como Early não explode quando sofre uma agressão de Adele, já na casa do casal de velinhos, mas um travelling revelará que Adele foi assassinada, confirmando sua frieza segundos depois dele levar Carrie no carro dizendo que precisa de uma nova mulher, nos levando também ao clímax da narrativa, que se passa num local árido, refletindo em suas cores sem vida a maneira deprimente que a viagem terminaria. Iniciando num ritmo bastante lento, o clímax é bruscamente alterado quando Early e Brian começam a brigar, numa cena violenta que finalmente levará Brian a matar alguém e conhecer qual é a sensação, como o close de Sena faz questão de ressaltar, durando alguns segundos na tela. Como citado no livro do próprio Brian em outro local, “a vítima se tornou o criminoso”. Só que a diferença é que Brian não esqueceria aquele momento tão cedo, sendo corroído pelo remorso.

Com um elenco afinado e uma direção bastante elegante, “Kalifornia” trata da obsessão norte-americana pelos assassinos em série, mostrando que jamais poderemos identificar e rotular alguém desta maneira pela aparência ou forma de agir. “Quando olhei Early nos olhos, não senti nada de diferente”, afirma Brian. Para ele, a diferença entre um assassino e uma pessoa comum só aparece depois do crime.

Texto publicado em 24 de Abril de 2011 por Roberto Siqueira

JURASSIC PARK – O PARQUE DOS DINOSSAUROS (1993)

(Jurassic Park)

 

Videoteca do Beto #94

Dirigido por Steven Spielberg.

Elenco: Sam Neill, Laura Dern, Jeff Goldblum, Samuel L. Jackson, Richard Attenborough, Bob Peck, Martin Ferrero, B.D. Wong, Joseph Mazzello, Ariana Richards, Wayne Knight, Gerald R. Molen e Miguel Sandoval.

Roteiro: Michael Crichton e David Koepp, baseado em livro de Michael Crichton.

Produção: Kathleen Kennedy e Gerald R. Molen.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Em diversas críticas, escrevi comentários que revelam minha insatisfação com o cinema de entretenimento que passou a predominar as produções de Hollywood nos últimos anos, o que pode ser interpretado, de maneira errônea, como uma aversão aos filmes de ação e aventura que utilizam o recurso dos efeitos visuais, como se a utilização destes já fosse suficiente para desqualificar um filme. A verdade é que sou fã de efeitos visuais, desde que sejam utilizados de maneira orgânica e em casos onde realmente agreguem à produção. E a maior prova de que admiro um trabalho bem feito neste quesito é “Jurassic Park”, um dos filmes que marcaram minha juventude e que alia com precisão efeitos visuais extraordinários e uma narrativa coesa e eletrizante, que intercala momentos de muito suspense com cenas de tirar o fôlego do espectador.

O milionário Hammond (Richard Attenborough) constrói um parque numa ilha da Costa Rica e, através da clonagem feita em laboratórios, consegue recriar os extintos dinossauros. Empolgado, ele decide convidar o paleontólogo Dr. Grant (Sam Neill) e a paleobotânica Dra. Ellie (Laura Dern) para conhecer o local, acompanhados de seus netos Tim (Joseph Mazzello) e Lex (Ariana Richards) e do Dr. Malcolm (Jeff Goldblum). Mas o divertido passeio se transforma num pesadelo quando o funcionário Nedry (Wayne Knight), insatisfeito com seu salário, decide sabotar o sistema de segurança do local, na tentativa de vender os DNA’s para um terceiro interessado.

Escrito por Michael Crichton e David Koepp, baseado em livro do próprio Crichton, “Jurassic Park” parte de uma premissa muito interessante e criativa, que torna crível a existência dos dinossauros através da clonagem, utilizando como base o sangue de mosquitos presos na seiva das árvores por milhões de anos. A partir daí, o coeso roteiro, sempre sob a direção precisa de Spielberg, constrói uma narrativa perfeita, sem pontas soltas nem excessos, o que é vital numa aventura, assim como é essencial o ritmo dinâmico empregado pelo montador Michael Kahn. Na realidade, o longa até abre um pequeno espaço para discutir até que ponto o homem tem o direito de trazer de volta à vida uma espécie extinta e contrariar a seleção natural, mas o foco da narrativa está mesmo na aventura e “Jurassic Park” cumpre muito bem sua proposta. Além disso, a narrativa tem o cuidado de estabelecer os conflitos entre os personagens muito cedo e de maneira bem clara, por exemplo, quando Nedry demonstra insatisfação com seu salário e arquiteta a traição logo em sua primeira aparição. E até mesmo a presença dos netos de Hammond revela-se um elemento importante para aumentar a aflição no espectador devido a sua fragilidade e inocência.

De maneira geral, as atuações do elenco parecem exageradas, especialmente nos momentos que envolvem os dinossauros, como podemos notar quando mencionam a existência do T-Rex e dos Velociraptors, gerando o espanto das pessoas presentes. Ainda assim, Ariana Richards e Joseph Mazzello conferem realismo ao desespero dos netos de Hammond diante dos dinossauros e ainda estabelecem uma boa química com Sam Neill. Neill, por sua vez, cai bem no papel do Dr. Grant justamente por sua inexpressividade, que evita caracterizar o protagonista como um herói, assim como Laura Dern também é uma atriz que não transmite a energia que uma heroína necessita, fragilizando sua Dra. Ellie e fazendo com que o espectador tema por seu futuro. Exatamente por isso, ela não consegue convencer nas seqüências que exigem grande esforço físico, mas ainda assim não prejudica sua atuação, que é balanceada pelos bons momentos dramáticos, como quando confronta Hammond e suas idéias mirabolantes. Jeff Goldblum faz o papel do cético na pele do Dr. Malcolm, que mantém os pés no chão e prevê os problemas que poderão surgir ao misturar uma espécie tão poderosa e extinta com a raça humana. Além disso, suas piadas de humor negro funcionam como alivio cômico, algo necessário numa narrativa onde a tensão cresce constantemente, como quando pergunta “Vai ter isto no passeio?” após fugir de carro do T-Rex. Já Richard Attenborough vive o obcecado Hammond, que sequer consegue pensar nos netos por causa de seu projeto, como fica claro na conversa que tem com a Dra. Ellie após as crianças sumirem no parque (e Attenborough demonstra esta fixação do personagem muito bem eu seu olhar arregalado e na firmeza de sua voz). Fechando o elenco, vale notar ainda que Samuel L. Jackson interpreta Ray Arnold, um dos integrantes da equipe de informática e de segurança do parque.

A construção da narrativa é meticulosa e busca criar expectativa no espectador através dos diálogos antes de inserir momentos de alta tensão e aventura eletrizante, como a história que o Dr. Grant conta para um garoto nas escavações a respeito dos velociraptors, reforçada pelas citações de Hammond ao parque momentos depois. Para aumentar ainda mais esta expectativa, Spielberg seque a cartilha de “Tubarão” e prolonga ao máximo a aparição dos dinossauros (especialmente do T-Rex e dos Velociraptors), deixando a imaginação do espectador fluir – observe, por exemplo, como não vemos o velociraptor por completo (somente parte do rosto e um close no olho) na primeira cena do filme. E quando o faz, sempre procura mostrar primeiro a reação das pessoas presentes, para somente depois mostrar os dinossauros. Observe, por exemplo, como antes de vermos pela primeira vez um dinossauro na tela, o diretor emprega um zoom no rosto do Dr. Grant e da Dra. Ellie, realçando o tamanho da surpresa de ambos diante do que estão vendo. Em seguida, Spielberg revela sua proeza e aquelas enormes criaturas aparecem se movimentando com graça e leveza diante dos nossos olhos. E de fato impressiona o trabalho magnífico dos efeitos visuais (Industrial Light & Magic e Stan Winston Studio), que assombraram o mundo com a perfeita recriação digital dos dinossauros (uma combinação de bonecos eletrônicos com CGI). E além dos efeitos visuais, o som espetacular também torna os dinossauros mais realistas, o que é vital para o sucesso da narrativa, pois nós realmente acreditamos no que vemos e embarcamos na aventura. Quando Hammond diz “bem-vindos ao Jurassic Park!”, também estamos, assim como os personagens, encantados com tudo aquilo. Isto ocorre também porque Spielberg tem o cuidado de ambientar completamente o espectador à ilha, fazendo com que ele, assim como os personagens, se sinta fascinado desde a chegada ao local, onde os belos planos da paisagem e a empolgante trilha sonora embalam a euforia do espectador. O fascínio só aumenta quando somos apresentados ao laboratório através de um travelling que nos deixa hipnotizados diante de tanta criatividade. Spielberg conta ainda com a direção de arte de John Bell e William James Teegarden, que cria um parque verossímil através das enormes cercas elétricas, da bela fachada da porta de entrada do parque e até mesmo dos veículos de passeio, que lembram carros de safáris. Já os figurinos são compatíveis com o ambiente em que se passa a narrativa, com roupas leves e esportivas e acessórios típicos dos parques, como o chapéu do Dr. Grant e o uniforme de Muldoon (Bob Peck). Mas nem tudo são flores e a conversa sobre os riscos que o parque representa também funciona como maneira de preparar o espectador para o que virá a seguir, além é claro de provocar a irritação de Hammond, inconformado com os questionamentos do grupo de pesquisadores.

Como podemos notar, Steven Spielberg trabalha toda a primeira hora da narrativa na preparação do espectador para os dois principais momentos do longa: a primeira aparição do T-Rex e a caçada dos velociraptors numa cozinha. E quando estes dois momentos chegam, o espectador não está apenas vendo os temíveis predadores na tela, está também recordando tudo que ouviu até então sobre eles, como quando Hammond comenta que tem um T-Rex (“T-Rex corre a 50 kmpor hora”) e provoca o espanto do Dr. Grant e da Dra. Ellie (esta é a primeira menção ao mais temido dos dinossauros) ou quando presenciamos o nascimento de um velociraptor que, seguido pelo momento em que vemos uma vaca sendo oferecida como alimento e pela conversa sobre sua inteligência, velocidade e agressividade, preparam o espectador para o momento em que eles entrarem em cena. Outroexemplo da inteligência de Spielberg é a cabra deixada para alimentar o T-Rex no passeio do grupo, que servirá, junto com um copo d’água, como indicador de sua presença no momento mais eletrizante do longa. Momento este que terá início logo após uma intensa discussão entre Nedry e Hammond, que levará o programador a iniciar o seu plano de roubo dos DNA’s, ao mesmo tempo em que vemos os funcionários de Hammond prevendo uma tempestade. Um close numa lata de spray indica o momento da traição, ao mesmo tempo em que raios e trovões anunciam a chegada da chuva enquanto os pesquisadores tentam curar um dinossauro doente no parque. Quando a tempestade finalmente se aproxima, Nedry já programou uma pane no sistema de segurança, provocando a irritação de Hammond ao constatar que o passeio acabou – e a fotografia de Dean Cundey, que até então priorizava cores vivas, agora passa a estabelecer uma atmosfera sombria, reforçada pela chuva, pela falta de energia e pela noite que recai sobre todos. Preocupado, Ray pergunta para Hammond onde os carros pararam e a resposta vem no plano seguinte, com a cabra presa. Eles estavam parados em frente ao local do T-Rex, sem a proteção da cerca elétrica e em carros que não se movimentam devido à falta de energia. O cenário estava pronto. Assim como em “Tubarão”, Spielberg guardou sua principal atração por mais da metade da projeção.

Tem inicio então a melhor cena de “Jurassic Park” (pessoalmente, considero esta uma das melhores cenas dos anos 90). Enquanto o garoto Tim brinca no carro, sua irmã Lex, assim como o Dr. Malcolm, começa a sentir o perigo, ao contrário de Grant e do advogado Donald Gennaro (Martin Ferrero), que parecem tranqüilos. A ausência de trilha sonora colabora com o clima tenso, reforçado pela chuva, que naturalmente provoca aflição. De repente, um tremor rompe o silêncio. Spielberg dá um close num copo d’água, observado atentamente pelo pequeno Tim, que vê a água tremendo e, com seus óculos de visão noturna, percebe que a cabra sumiu. Lex pergunta: “Onde está a cabra?”, e uma perna ensangüentada cai sobre o carro, provocando o desespero de todos. E então surge o T-Rex, primeiro com seu rosto gigantesco, depois, após estourar as cercas, em toda sua imponência, para a perplexidade de todos – e novamente vale à pena destacar os espetaculares efeitos visuais e sonoros, notáveis na perfeição dos movimentos, no impacto dos passos e no som dos gritos, conferindo imenso realismo ao gigante predador. A partir daí, uma seqüência eletrizante de imagens assustadoras toma conta da tela, terminando somente na fuga de Grant com as crianças, enquanto Malcolm fica desacordado debaixo das folhas e Gennaro, num momento de puro humor negro, é devorado pelo T-Rex (repare a inclinação da cabeça do predador antes de comê-lo, como quem observa com carinho sua refeição). Em resumo, uma cena fantástica, construída nos mínimos detalhes e conduzida com perfeição por Spielberg.

Após a eletrizante aparição do T-Rex, o cenário perfeito para a aventura está construído. Agora, só resta ao espectador se deixar levar pelo que vê e torcer pelo sucesso dos personagens. Por isso, é importante não ter nenhum grande herói no grupo, o que faz com que o espectador tema pela vida de todos eles. Num ritmo alucinante, a segunda metade da projeção apresenta um festival de seqüências marcantes, balanceando muito bem o suspense e a aventura. Primeiro um carro “persegue” Grant e Tim numa árvore, num momento onde a trilha sonora aumenta a tensão, ao contrário da cena do T-Rex, onde o som diegético era suficiente para assustar. Aliás, além de pontuar muito bem as cenas tensas, a trilha sonora de John Williams apresenta uma música tema belíssima. Outra cena eletrizante é a fuga de Malcolm, Ellie e do caçador Robert Muldoon num carro, com o T-Rex perseguindo o grupo (destaque para o curioso plano em que seu rosto gigante aparece no retrovisor). Vale destacar ainda o momentoem que Ellietenta ligar novamente as cercas elétricas sob a orientação de Hammond e, paralelamente, as crianças e Grant tentam pular uma das cercas (e novamente o trabalho do montador Michael Kahn se destaca, intercalando as duas seqüências com precisão, mantendo o espectador com os olhos grudados na tela). Após a solução do problema, Spielberg não resiste ao susto barato, provocado por um velociraptor que aparece repentinamente. E finalmente, a segunda cena marcante de “Jurassic Park” acontece quando Grant deixa as crianças para procurar os outros. Sozinhas, elas notam a presença de um velociraptor no local (observe que novamente Spielberg índica isto através da reação da garota, evitando mostrar o predador logo de cara). Desesperadas, as crianças fogem para a cozinha, onde sofrerão uma intensa caçada não apenas de um, mas de dois velociraptors, até que consigam escapar. Observe como os movimentos de câmera de Spielberg colaboram para que o espectador se sinta dentro daquele jogo de gato e rato, com planos subjetivos se alternando com planos abertos que mostram a geografia do local e evitam que o espectador se perca na cena. E no instante final, quando todos pareciam vítimas certas dos velociraptors, o T-Rex ressurge triunfal e salva o grupo, atacando os companheiros de era Mesozóica.

Quando Grant diz para Hammond que decidiu não endossar seu parque, está refletindo o pensamento de todo o grupo, que milagrosamente escapou da morte. No entanto, este pensamento não reflete o sentimento do espectador, que certamente aprovará o parque dos dinossauros, com seus maravilhosos efeitos visuais e, principalmente, sua narrativa envolvente, conduzida com perfeição por Steven Spielberg. Para todos que, assim como eu, se tornaram fãs desta maravilhosa viagem, deixemos um “Bem-vindos ao Jurassic Park!”.

Texto publicado em 17 de Abril de 2011 por Roberto Siqueira

O REI LEÃO (1994)

(The Lion King)

 

 

Filmes em Geral #52

Videoteca do Beto #150 (Filme comprado após ter a crítica divulgada no site e transferido para a Videoteca em 06 de Janeiro de 2013)

Dirigido por Roger Allers e Rob Minkoff.

Elenco: Matthew Broderick, Rowan Atkinson, Whoopi Goldberg, Jeremy Irons, Nathan Lane, Niketa Calame, Jim Cummings, Robert Guillaume, James Earl Jones, Moira Kelly, Zoe Leader, Cheech Marin, Ernie Sabella, Madge Sinclair e Jonathan Taylor Thomas.

Roteiro: Irene Mecchi, Jonathan Roberts e Linda Woolverton, baseado em história de Jim Capobianco, Lorna Cook, Thom Enriquez, Andy Gaskill, Francis Glebas, Ed Gombert, Kevin Harkey, Barry Johnson, Mark Kausler, Jorgen Klubien, Larry Leker, Ricki Maki e Burny.

Produção: Don Hahn.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apesar de alguns tropeços ao longo de sua história, os estúdios Disney se especializaram em produzir animações de grande qualidade, que utilizam uma estrutura narrativa simples e o talento de seus animadores para deixar mensagens marcantes tanto para crianças como para adultos. Mas existem alguns momentos em que este trabalho em conjunto se supera e alcança a perfeição, entregando filmes capazes de marcar gerações, como é o caso deste lindo “O Rei Leão”, que consegue narrar uma história vigorosa, utilizando como pano de fundo a deslumbrante paisagem da selva africana para ensinar valores fundamentais de maneira tocante. Em outras palavras, trata-se de um filme belo tematicamente e deslumbrante visualmente. Em resumo, uma obra-prima.

O rei leão Mufasa (voz de James Earl Jones) apresenta seu filhote Simba (voz de Matthew Broderick) aos animais do reino, provocando a ira de seu invejoso irmão Scar (voz de Jeremy Irons), que arquiteta um plano cruel na busca pelo trono. Aproveitando a inocência e a curiosidade do pequeno Simba, Scar consegue colocar em prática seu plano, mas, com o passar do tempo e a ajuda do astuto macaco Rafiki (voz de Robert Guillaume), Simba volta para ocupar o seu lugar de direito.

Por razões óbvias, a selva africana é um local dos sonhos para animadores, que podem criar (ou reproduzir) cenários capazes de tirar o fôlego de qualquer um. Felizmente, a equipe da Disney não perdeu a oportunidade, permitindo aos diretores Roger Allers e Rob Minkoff viajarem pelos belíssimos cenários, nos levando por deslumbrantes paisagens e, auxiliados pela excelente trilha sonora de Hans Zimmer (que remete aos sons típicos da África), nos ambientando ao local onde se passará à narrativa. Na realidade, o trabalho de criação de cenários e o som – que, por exemplo, permite distinguir nitidamente gotas da chuva, raios e os ruídos de cada animal – fazem mais do que ambientar o espectador, conseguindo uma verdadeira imersão no universo de “O Rei Leão”. Impressiona também a fidelidade com que a narrativa recria os hábitos dos animais, como quando Scar diz que “é função das leoas trazerem comida para o bando”, assim como os animadores retratam com perfeição os movimentos dos leões, como quando Simba caminha de um lado para o outro pensativo, da mesma forma que um leão real faria. Repare ainda como os movimentos felinos de caça são idênticos à realidade, assim como o movimento de praticamente todos os animais, reforçando a qualidade do trabalho dos animadores. Captando este visual rico e cheio de cores com competência, Allers e Minkoff criam planos belíssimos, que soam como um verdadeiro deleite visual, seja na chuva, seja no sol, fazendo com que diversos momentos do longa mais pareçam um quadro vivo. E até mesmo os locais mais sombrios têm sua beleza, como o obscuro cemitério dos elefantes, apresentado lentamente ao espectador através de um zoom e habitado pelas cinzentas hienas, que criam um contraste interessante com os pardos leões. Aliás, não são poucos os momentos em que um movimento de câmera nos revela algo deslumbrante, como nos elegantes travellings que passeiam pela selva, ou algo importante para a narrativa, como quando somos apresentados às centenas de gnus que pastam no monte próximo ao local onde Simba se encontra. Quando os gnus aparecem na tela, o espectador sente o perigo e praticamente prevê a tragédia – ainda que neste momento esteja mais preocupado com Simba do que com Mufasa -, que se consumará na impressionante cena do estouro dos gnus.

Mantendo a tradição Disney, a trama é interrompida algumas vezes por canções diegéticas que tem alguma função narrativa, como quando Timão e Pumba apresentam sua filosofia “Hakuna Matata”, no momento mais leve do filme, que aproveita para fazer a transição do jovem Simba para o Simba adulto. Aliás, já que citei a divertida dupla, vale ressaltar que a narrativa é preenchida por diversos personagens coadjuvantes fascinantes, como o sábio macaco Rafiki, o fiel Zazu e os próprios Timão e Pumba, que surgem após o momento mais intenso dramaticamente, funcionando como um alívio cômico perfeito. E ainda que seja o vilão, Scar, com sua juba preta, não deixa de ser um personagem interessante, amargurado por ser relegado ao segundo plano diante do poderoso irmão e seu legítimo herdeiro, o que o leva a arquitetar um plano diabólico, revelado num número musical sombrio, quando ele canta para as hienas – repare como a fotografia migra de tons esverdeados para o amarelo e, finalmente, para o vermelho, o que é coerente com as intenções demoníacas do invejoso leão.

Auxiliados pela montagem de Tom Finan, a dupla de diretores acertadamente investe boa parte da narrativa na relação entre Simba e Mufasa, estabelecendo a importância da figura paterna na formação do caráter daquele jovem. Além disso, Finan cria elegantes transições entre planos, como quando Rafiki está sentado e reflexivo durante a posse de Scar e, no plano seguinte, aparece dormindo numa árvore, assim como a imagem de Simba numa pedra se transforma no próprio leão, agora deitado e dormindo no deserto. Escrito por Irene Mecchi, Jonathan Roberts e Linda Woolverton, “O Rei Leão” aborda temas fortes e universais, como o amor, a inveja e a morte – este último de maneira profunda e tocante. Desde o seu nascimento, Simba é festejado e reverenciado pelos outros animais. Mas, como seu pai lhe ensinaria a seguir, ser rei não era uma tarefa tão simples assim. E é justamente nos ensinamentos de Mufasa que reside a grande mensagem do longa, ao abordar o chamado “ciclo da vida” e a natureza finita de todos nós. Num destes diálogos, Mufasa explica para seu filhote que da mesma forma que eles se alimentam de antílopes, um dia eles morreriam, virariam grama e serviriam de alimento para estes mesmos animais, num exemplo interessante da vida selvagem, onde todos são importantes no equilíbrio do ecossistema. Em outro momento, o sábio Mufasa ensina ao filho que “o tempo de um reinado se levanta e se põe como o sol”, numa bela metáfora para a própria vida – que serve também para preparar o espectador para a perda de Mufasa. Da mesma forma que viemos para o mundo, um dia partiremos, deixando o lugar para outro ser, que dará continuidade à nossa espécie. Nossos antepassados tiveram o seu tempo, depois vieram nossos pais e, finalmente, a nossa geração, que será sucedida pela dos nossos filhos e assim por diante. A lição, forte e direta, cai como uma bomba nos jovens espectadores (e afirmo isto porque assisti ao filme pela primeira vez com 13 anos de idade e lembro muito bem o quanto fiquei impressionado). Um dia, mais cedo ou mais tarde, teremos que assumir responsabilidades e ser como nossos pais.

Para que esta mensagem marcante funcione, é vital que a relação entre pai e filho conquiste a platéia, e felizmente o roteiro trata esta questão com carinho, criando um vinculo excepcional entre Mufasa e Simba. Desde os primeiros momentos, o pai pacientemente ensina tudo ao filho, sempre com muito carinho e amor, preparando seu pequeno para a vida. E mesmo quando precisa ser enérgico, Mufasa é sábio na condução da situação, como quando salva Simba no cemitério e pede para Zazu acompanhar Nala enquanto ele ensinaria uma lição ao filho. Misturando autoridade e amor, Mufasa transita do recado claro sobre os perigos da atitude de Simba para a brincadeira descontraída, numa cena linda e marcante. É nesta cena também que Mufasa fala sobre as estrelas e os reis, num diálogo que refletirá em outra cena emocionante, quando Simba, deitado na grama ao lado de Timão e Pumba, olha para as estrelas e lembra o pai (e observe como no momento em que Mufasa fala com o filho, o zoom out diminui os personagens em cena, refletindo a aflição de Simba ao pensar que um dia perderia seu pai). Assustado, o garoto encontra conforto em outra frase marcante de seu velho, que lhe ensina o quanto aquele sentimento era normal: “Os reis também têm medo”.

Conduzida com muita energia, a triste cena da morte de Mufasa provocará a fuga de Simba, impulsionado pelos gritos de seu tio Scar, que lhe aconselha a fugir, segundos antes de ordenar sua morte. Mas o jovem leão tinha o sangue dos grandes e consegue escapar, fugindo para a savana, num plano belíssimo onde podemos ver as hienas observando o pequeno leão que se perde no horizonte. E após viver bons momentos ao lado de Timão e Pumba, Simba, agora um leão adulto, reencontra sua amiga Nala quando ela pula em cima dele durante uma caçada, numa interessante rima narrativa que remete a “Bambi”, onde o personagem principal também reencontrava sua amada da mesma maneira que a conhecera na infância. Embalados pela bela “Can you feel the Love tonight”, Simba e Nala se apaixonam, só que a paixão não seria suficiente para levar o leão de volta ao seu lugar. Cabe então ao macaco Rafiki a árdua missão de convencê-lo, algo que ele consegue de maneira marcante, provando para Simba que Mufasa estava vivo. Simba, empolgado com a notícia, corre para o local apontado pelo macaco e vê, no reflexo da água, sua própria imagem, compreendendo que uma parte de seu pai existia dentro dele agora – confesso que, após esta bela cena, pensei imediatamente na frase “ter um filho é uma maneira de continuar vivo” e me emocionei. Ainda sentindo-se culpado pela morte do pai e demonstrando grande carência afetiva, Simba finalmente compreende seu lugar no ciclo da vida e decide voltar.

Chegamos então ao esperado confronto final entre “vilão” e “mocinho”, onde, após reencontrar o tio, Simba se vê na mesma situação em que seu pai morreu e descobre a verdade sobre a morte dele (repare novamente no tom vermelho da fotografia, que cria uma atmosfera tensa e violenta, remetendo ao sangue, à própria raiva de Simba e ao seu desejo de matar o tio). Buscando forças após a bombástica revelação, Simba manda o tio pelos ares, dando às hienas a oportunidade de se vingar de Scar, num exemplo claro da famosa lei da selva. E então, Simba assume seu posto, na mesma pedra em que foi apresentado aos outros animais e onde apresentará o seu filhote, que, da mesma maneira, dará seqüência ao ciclo da vida.

Com grandes ensinamentos, um visual rico e uma mensagem marcante, “O Rei Leão” é um lindo filme, capaz de emocionar sem ser melodramático. De maneira simples e direta, ensina valores importantes, conquistando o espectador com seus personagens graciosos e seu interessante conceito de continuidade da vida e inevitabilidade da morte. E já que a morte é inevitável, nada melhor do que aproveitar a vida da melhor maneira possível, amando, sendo amado, e assistindo a grandes filmes como este. Hakuna Matata!

Texto publicado em 09 de Abril de 2011 por Roberto Siqueira

PETER PAN (1953)

(Peter Pan)

 

Filmes em Geral #51

Dirigido por Clyde Geronimi, Wilfred Jackson e Hamilton Luske.

Elenco: Vozes de Bobby Driscoll, Kathryn Beaumont, Hans Conried, Bill Thompson, Heather Angel, Paul Collins, Tommy Luske, Candy Candido, Tom Conway, Tony Butala, Robert Ellis, Johnny McGovern, Jeffrey, Stuffy Singer, June Foray, Connie Hilton e Margaret Kerry.

Roteiro: Milt Banta, William Cottrell, Winston Hibler, Bill Peet, Erdman Penner, Joe Rinaldi, Ted Sears e Ralph Wright, baseado em peça teatral de J.M. Barrie.

Produção: Walt Disney.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Sob a capa de aventura jovial e alegre da peça escrita por J.M. Barrie, “Peter Pan” esconde aspectos sombrios que abordam questões universais como a passagem do tempo, a perda da inocência e o mundo mais triste e cruel que todos nós somos obrigados a enfrentar quando deixamos a deliciosa fase da infância para trás. Infelizmente, esta essência da obra do dramaturgo escocês não foi captada com perfeição pelos estúdios Disney, que demonstravam através desta adaptação da obra para o cinema os primeiros sinais de desgaste na tradicional e outrora infalível fórmula de sucesso do estúdio.

A jovem e sonhadora Wendy Darling (voz de Kathryn Beaumont) espera ansiosamente pela visita de Peter Pan (voz de Bobby Driscoll), ao lado de seus irmãos João (voz de Paul Collins) e Miguel (voz de Tommy Luske). Após seus pais saírem de casa para passear, o “garoto que se recusa a crescer” aparece, levando Wendy e seus dois irmãos para a Terra do Nunca (uma ilha encantada onde ninguém cresce), para viver deliciosas aventuras ao lado da fada Sininho e dos garotos perdidos, que lutam contra o Capitão Gancho (voz de Hans Conried), um pirata cruel que jurou vingança quando, após uma briga com Peter, teve sua mão comida por um crocodilo – que, por sua vez, engoliu um despertador.

“Peter Pan” é uma fábula maravilhosa sobre a perda da inocência, sobre o momento em que a criança passa a perceber os desafios que enfrentará na vida e começa a deixar para trás o mundo mágico da infância, algo inevitável e que aconteceu (ou acontecerá) com todos nós. De maneira inteligente, o texto de J.M. Barrie cria um universo fantástico, repleto de personagens interessantes, que ilustram diversos aspectos desta fase da vida, como podemos perceber, por exemplo, no principal vilão da trama, que simboliza os terríveis adultos, responsáveis por destruir as fantasias das crianças (algo que, no longa da Disney, é inteligentemente representado na voz de Hans Conried, que faz ao mesmo tempo o capitão Gancho e George, o pai de Wendy). Outro exemplo notável dos simbolismos da fábula é o crocodilo que engoliu um despertador, que funciona como uma metáfora para o monstro implacável chamado “tempo”, cruel inimigo da infância. Afinal de contas, é justamente por causa da passagem do tempo que pessoas como George deixam de acreditar na existência de personagens como Peter Pan, como fica evidente nas primeiras cenas do longa, na casa da família Darling em Londres.

Após a bela introdução do narrador, vemos o pai irritado (e atrapalhado) separando as crianças e o cachorro e preparando a pequena Wendy para um momento de mudança. Ao sair do quarto dos irmãos, Wendy estava encarando uma nova fase e o fim de uma era de sonhos, um período mágico onde nossa imaginação nos leva a lugares fantásticos, sem que nada possa nos impedir. Mas ela ainda tinha direito a uma última aventura, e assim que seus pais saem de casa, uma sombra no telhado indica a presença do aguardado Peter Pan, o menino que não queria crescer e que levaria Wendy e seus irmãos para a Terra do Nunca, a ilha onde ninguém cresce. Os simbolismos são mais que evidentes. Só que esta não é uma crítica do texto de J.M. Barrie e, infelizmente, o longa da Disney não consegue captar sua essência, criando um filme leve e descontraído, mas que jamais alcança o impacto da obra que o inspirou. Talvez o grande problema do longa dirigido pelo trio Clyde Geronimi, Wilfred Jackson e Hamilton Luske seja exatamente sua leveza exagerada, que não consegue criar, por exemplo, um capitão Gancho temível e acaba tornando-se uma aventura leve e despretensiosa que minimiza os aspectos mais sombrios da obra original.

Talvez por isso, o longa apresenta um visual alegre, através das coloridas animações e dos criativos movimentos de câmera empregados, por exemplo, durante o vôo para a ilha. Este visual repleto de cores quentes e dias ensolarados ajuda a manter a atmosfera leve na ilha, criando um interessante contraste com as seqüências que se passam em Londres, sempre à noite e com cores mais frias. Ainda assim, existe espaço para pequenos momentos de tensão, como quando a sombra do capitão aparece na parede antes dele atacar Peter, seguindo a tradição Disney (inspirada no expressionismo alemão) de utilizar as sombras para provocar suspense. Em outro momento, quando Sininho desaparece, o visual obscuro que toma conta da tela indica o momento tenso. Mas nada que interfira no clima quase permanente de descontração da narrativa, embalado pelo bom ritmo da montagem de Donald Halliday, que alterna entre as cenas de Peter e as crianças e as cenas do Capitão Gancho e seus planos supostamente cruéis.

Outra tradição Disney que “Peter Pan” segue à risca é a presença constante da trilha sonora de Oliver Wallace e as canções espalhadas pela narrativa, como a triste e melancólica “Mamãe”, cantada momentos antes de o Capitão Gancho capturar Peter Pan. E até mesmo o som do despertador do crocodilo, que serve para indicar sua presença, é sempre embalado por uma trilha sonora leve e descontraída. Felizmente, a qualidade das animações também mantém o padrão do estúdio, criando cenários interessantes – como a árvore que abriga Peter e as crianças – e movimentos perfeitos para os personagens – como quando Sininho voa pela floresta. E talvez seja justamente por seguir a fórmula da maioria dos filmes anteriores que “Peter Pan” apresente um resultado apenas razoável, evitando o tom melancólico e não compreendendo todos os aspectos da obra que o inspirou. Por outro lado, o tom leve da narrativa apresenta momentos divertidos, especialmente quando Peter engana o Capitão – e que, ainda que sejam engraçados, servem também para enfraquecer ainda mais o vilão diante do espectador.

Pelo menos, os simbolismos continuam presentes e transmitem, ainda que de maneira pouco contundente, a mensagem principal da narrativa. Repare, por exemplo, como Wendy afirma com tristeza que “amanhã irá crescer”, momentos depois de afirmar para sua mãe que não queria crescer. Não à toa, ela se identifica com Peter, que com seu jeito sempre destemido e alegre, é um símbolo perfeito da juventude, chamando a atenção não só de Wendy, como de muitas outras crianças – e é curioso notar que tanto Sininho como as Sereias sentem ciúmes de Peter, o que será essencial para a execução do plano do Capitão Gancho de capturar o herói. Aliás, o carrancudo capitão Gancho, com seu mau humor e planos cruéis, representa os adultos e toda a aura sombria que os cerca. E fechando a gama de personagens da trama, temos ainda os divertidos índios que aparecem rapidamente no segundo ato.

Toda esta aventura juvenil chega ao seu clímax no navio pirata do Capitão Gancho, que nos leva ao esperado duelo entre Peter e o vilão. E, como esperado, Peter vence o duelo com facilidade. Então, a montagem faz um interessante raccord da lua para o Big Bang e dele para o relógio da casa de Wendy, nos levando de volta para Londres e para a conclusão da narrativa. E ao ver o navio de Peter nas nuvens, George afirma ter a sensação de já ter visto este navio antes, ainda quando era criança, reforçando o tema da “perda da inocência” abordado pela narrativa.

Ainda que tenha bons momentos, “Peter Pan” jamais alcança a qualidade de filmes como “Pinóquio” e “Dumbo” e, principalmente, não consegue transmitir em toda sua complexidade a mensagem agridoce da obra que o inspirou. Com seu clima leve e extremamente descontraído, mais parece uma simples aventura juvenil do que uma amarga reflexão a respeito da inexorabilidade do tempo, que nos leva ao triste momento em que perdemos a inocência, nos trazendo para um universo menos alegre, menos fantasioso e muito mais cínico. Se este dia não tivesse chegado para mim, talvez eu gostasse mais do filme. Mas, infelizmente, ele chegou, há muito tempo.

Texto publicado em 08 de Abril de 2011 por Roberto Siqueira

BAMBI (1942)

(Bambi)

 

Filmes em Geral #50

Videoteca do Beto #149 (Filme comprado após ter a crítica divulgada no site e transferido para a Videoteca em 06 de Janeiro de 2013)

Dirigido por David Hand.

Elenco: Vozes de Bobby Stewart, Donnie Dunagan, Hardie Albright, John Sutherland, Stan Alexander, Sterling Holloway, Sam Edwards, Peter Behn, Tim Davis, Cammie King, Ann Gillis, Mary Lansing, Margaret Lee, Thelma Boardman, Will Wright, Paula Winslowe, Fred Shields, Janet Chapman, Jack Horner, Dolyn Bramston Cook, Marion Darlington e Bobette Audrey.

Roteiro: Perce Pearce e Larry Morey, baseado em livro de Felix Salten.

Produção: Walt Disney.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Os primeiros anos da Walt Disney Pictures no cinema foram impressionantes. Após a bem sucedida estréia de “Branca de Neve e os Sete Anões”, os estúdios comandados por Walt Disney emplacaram um sucesso atrás do outro, conseguindo agradar público e crítica e dando a sensação de que eles eram simplesmente incapazes de errar. E entre as marcantes obras daquele período está “Bambi” (que na realidade só se confirmou como um sucesso cinco anos depois, em seu relançamento), a encantadora história do “príncipe” da floresta, que mantém o alto padrão de qualidade dos filmes do estúdio, conseguindo agradar jovens e adultos.

Momentos após o seu nascimento, o filhote de cervo “Bambi” já chamava a atenção dos outros animais, sendo chamado de “Príncipe da Floresta”. Com o passar do tempo, ele aprende a andar, correr, faz amizade com outros animais e descobre, ao lado de sua carinhosa mãe, como sobreviver na floresta e, principalmente, como amar. Mas esta relação fraternal acaba no dia em que caçadores chegam ao local, obrigando o jovem cervo a se tornar tão corajoso quanto o seu pai, o mais respeitado cervo da região, e liderar sua espécie na busca por um local mais seguro.

Se a qualidade da narrativa de “Bambi” mantém o padrão Disney estabelecido em filmes como “Pinóquio” e “Dumbo”, o mesmo pode ser dito das animações em si, que também apresentam um trabalho bastante crível e realista, notável desde os primeiros planos que nos levam pelas árvores, sob o som dos pássaros e da bela trilha sonora de Edward H. Plumb e Frank Churchill, nos ambientando a floresta. Em seguida, o nascimento do príncipe Bambi marca o início da bela trajetória do protagonista, num evento que chama a atenção de muitos animais que, com seu visual colorido, trazem vida à tela. E estas deliciosas imagens permanecerão até que, aos 5 minutos de filme, a primeira fala aconteça, dando inicio ao processo de desenvolvimento do jovem cervo que será acompanhado de perto pelo espectador, deixando claro desde o início o interessante paralelo traçado pela narrativa entre a formação de “Bambi” e a de um ser humano. Como todos nós, ele aprenderá a andar e falar, sempre demonstrando muita curiosidade, da mesma maneira que qualquer “criança” faria (repare como Bambi se destaca dos demais por causa de sua cor, numa estratégia visual inteligente). Esta curiosidade será responsável por aproximar os laços entre Bambi e sua mãe, que pacientemente ensina os caminhos da vida ao filho, numa relação que é desenvolvida com muito cuidado, preparando o espectador para o trágico momento em que o cervo será obrigado a seguir sozinho, deixando uma lição de vida emblemática que as crianças dificilmente esquecerão. Só que o roteiro escrito por Perce Pearce e Larry Morey, baseado em livro de Felix Salten, não se resume a demonstrar o ciclo natural da vida apenas sob o aspecto da relação entre pais e filhos, mostrando também como os jovens se comportam diante do sexo oposto, numa aproximação que será essencial para perpetuar a espécie. Repare, por exemplo, a reação tímida de Bambi em seu primeiro contato com Faline, ainda quando era “criança”, e compare com a reação típica da maioria dos garotos, normalmente mais arredios diante do sexo oposto do que as meninas na infância. O propósito do longa é claro: ensinar as diversas etapas da vida que cada “bambino” deverá enfrentar, mais cedo ou mais tarde. E para evitar que esta jornada soe cansativa ou aborrecida, o roteiro inteligentemente insere alguns personagens que acompanharão Bambi, como o divertido e preguiçoso gambá Flor e o teimoso coelhinho Tambor, que é responsável pelos momentos de alivio cômico da narrativa.

Também como na maioria das animações da Disney, a trilha sonora de Edward H. Plumb e Frank Churchill preenche boa parte da narrativa, assim como os diversos números musicais, dentre os quais merece destaque o que acontece quando Bambi acompanha a primeira chuva de sua vida. Aliás, em “Bambi” o clima tem importante função narrativa, indicando a passagem do tempo através das estações, como o rigoroso inverno que “parece cumprido” e a colorida primavera que traz de volta a alegria à narrativa, após um momento melancólico. E já que citei a passagem do tempo, vale ressaltar que o longa, com apenas uma hora e dez minutos de duração, tem um bom ritmo, o que é mérito da montagem, essencial também nas cenas mais tensas, principalmente quando o homem começa a interferir na vida dos animais. Tensa também é a tempestade que assusta o protagonista, numa das seqüências que ilustram a boa condução de David Hand (sem trocadilhos), que cria uma atmosfera sombria através dos raios que iluminam a tela momentaneamente, voltando à escuridão em seguida e, após o fim da tempestade, estabelecendo um belo contraste através dos pássaros que repousam num galho com a luz do sol ao fundo. E são os pássaros (e a trilha agitada) que indicam a chegada de um temível predador, assustando o restante dos animais, que saem em disparada – e a tristeza é inevitável ao constatar que este predador é o homem quando o som dos tiros surge. Aliás, todas as cenas que envolvem a figura humana são tensas, justamente por causa do ritmo empregado pelo diretor, que mantém o espectador atento e sempre torcendo pelos animais através da alternância entre os planos que ilustram o desespero de todos com a presença daquele invasor. Por isso, quando Bambi pergunta “Porque todos nós corremos, mamãe?”, a resposta, triste e verdadeira, soa como uma facada no coração do espectador: “Porque o homem esteve na floresta”. Finalmente, vale destacar a bela composição de alguns planos, como o zoom que destaca o líder dos cervos ou quando Bambi e sua mãe caminham pela floresta, com suas imagens refletindo na água do rio.

Numa destas caminhadas, Bambi encontra um pouco de grama pra comer no meio da neve. Enquanto o filhote se delicia, a mamãe atentamente escuta algo que se aproxima. E quando ela ergue a cabeça e a trilha sombria volta a tocar, sentimos a tragédia iminente. Mamãe grita para Bambi correr, os dois saem em disparada e a cena caminha em ritmo alucinante até o emblemático plano em que vemos Bambi passando correndo e, em seguida, a tela vazia, segundos após outro som de tiro. A fotografia sombria da cena seguinte, que chega a deixar Bambi completamente cinza, dá o tom do momento em que o grande cervo anuncia: “Sua mãe não pode mais ficar com você, meu filho”. A lágrima dele e a trilha sonora melancólica encerram a eficiente cena, que emociona sem ser exageradamente melodramática.

Após o trauma, a vida segue e Bambi continua crescendo. Seus belos chifres simbolizam a chegada da adolescência, uma fase onde a vaidade está em alta e por isso ele se mostra orgulhoso de seu novo visual. Seus amigos Tambor e Flor também crescem e passam a escutar atentamente os ensinamentos da velha coruja, que fala aos jovens sobre como é se apaixonar, em outra cena bela. Cheios de orgulho, os três afirmam que isto nunca vai acontecer com eles, mas, obviamente, se apaixonam logo em seguida, afinal de contas, esta é a vida. E numa interessante rima narrativa, o segundo encontro entre Faline e Bambi acontece da mesma forma que o primeiro (quando eles ainda eram filhotes), com ambos se olhando através do reflexo na água. Mas desta vez a timidez de Bambi não impedirá que ela se aproxime e lamba o rosto dele, fazendo com que o casal se sinta nas nuvens, como ilustrado nas belas imagens seguintes, num momento único que pode ser comparado ao primeiro beijo de um adolescente. Apaixonado, Bambi lutará o quanto for preciso para defender a amada, o que nos leva à outra cena marcante, em que ele luta com outro cervo sob um visual sombrio, graças às cores escuras que predominam na tela.

Mas certamente as cenas mais sombrias acontecem no ato final, quando o homem parte para a caçada e Bambi finalmente assume o posto de líder do grupo, conduzindo os cervos para um local seguro ao mesmo tempo em que enfrenta o homem (e seus cachorros) no caminho, quando volta para salvar Faline. É verdade que Bambi não sairá ileso deste confronto, mas o tiro que leva felizmente não será fatal como o de sua mãe. Vale destacar ainda que toda a seqüência da fuga apresenta um visual deslumbrante, também por causa do incêndio (provocado pelo homem) que assola a floresta, que confere um aspecto infernal à cena, graças ao predomínio do vermelho e do amarelo, e serve como uma forte crítica à interferência do homem na natureza. Somos os demônios responsáveis por aquela tragédia e a cena ilustra isto – e a triste imagem dos animais tentando se recuperar na beira do rio, com a floresta destruída, reforça esta sensação. Mas a vida recomeça para todos e a natureza mais uma vez se renova com vigor, com a chegada dos novos príncipes cervos que recomeçam o ciclo da vida, ilustrado no zoom out que encerra o longa, destacando o agora poderoso Bambi, um adulto formado e com sua própria família, como fora seu pai um dia.

Além do belo visual e da narrativa coesa, “Bambi” aborda as diversas etapas da formação de seu jovem cervo, numa interessante metáfora para os próprios seres humanos. Acompanhamos Bambi aprendendo a andar, a falar, a brincar, a comer, a se proteger do perigo, a se apaixonar, constituir uma família e se tornar, com o passar do tempo, o que seus pais eram quando ele nasceu, assim como todos nós provavelmente fizemos ou faremos um dia.

Texto publicado em 07 de Abril de 2011 por Roberto Siqueira