OS DUELISTAS (1977)

(The Duellists)

 

Filmes em Geral #38

Dirigido por Ridley Scott.

Elenco: Keith Carradine, Harvey Keitel, Albert Finney, Edward Fox, Cristina Raines, Robert Stephens, Tom Conti, John McEnery e Diana Quick.

Roteiro: Gerald Vaughan-Hughes, baseado em conto de Joseph Conrad.

Produção: David Puttnam.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Com um orçamento modesto e um bom elenco, Ridley Scott colocou o seu nome no mapa com este “Os Duelistas”, filme que marca a estréia do diretor e que já apresenta muitas de suas principais características, como o visual deslumbrante (que seria aprimorado em “Alien, o oitavo passageiro” e, especialmente, em “Blade Runner”) e os elegantes movimentos de câmera. Além disso, apresenta a envolvente história de dois rivais que simplesmente não conseguiam viver sem a presença do outro e, principalmente, sem os duelos que fizeram a fama deles.

Após ferir o sobrinho do prefeito de Strasburgo, o oficial Gabriel Feraud (Harvey Keitel) é condenado e cabe ao também oficial do exército Armand D’Hubert (Keith Carradine) informá-lo da decisão. Mas Feraud não aceita sua condenação e se revolta contra D’Hubert, principalmente pela forma como foi comunicado, diante de seus colegas de exército. Ofendido, ele desafia o rival para um duelo pela honra que, inacabado, marcaria o inicio de uma inimizade que duraria muitos anos.

Já em seu primeiro filme, Ridley Scott demonstra todo seu cuidado extremo com o visual ao apresentar belíssimos planos e enquadramentos milimétricos que exploram ao máximo as esplêndidas paisagens na França, como podemos notar no lindo plano geral que precede o terceiro duelo entre Feraud e D’Hubert. Utilizando com freqüência o zoom in e o zoom out, repetindo o que Kubrick fez em seu belíssimo “Barry Lyndon”, ele valoriza a beleza das paisagens, como se fossem quadros vivos na tela. Aliás, também sob influência de “Barry Lyndon”, a fotografia de Frank Tidy consegue criar um visual admirável nas inúmeras cenas noturnas, filmadas em ambientes fechados e iluminadas apenas por velas, além de utilizar uma paleta dessaturada que confere um visual mais cru e realista às seqüências que se passam durante o dia, sem jamais deixar de explorar o já citado potencial do belo interior francês. Scott também demonstra bom humor quando D’Hubert pede Adele em casamento e os cavalos se tocam, simulando um beijo. E apesar de estar em plena decadência, a nova Hollywood ainda exerce influência sobre o filme, por exemplo, quando Feraud e D’Hubert começam um diálogo na casa de Madame Lionne e continuam a conversa na rua, numa típica quebra de continuidade dos filmes do período, claramente influenciada pela nouvelle vague francesa. Finalmente, Scott conduz com segurança as seqüências dos duelos, seguramente as mais empolgantes do longa, dentre as quais merece destaque o sensacional duelo a cavalo, onde o visual sombrio, coberto por uma névoa, confere uma atmosfera única ao combate, engrandecida pelas lembranças de D’Hubert que saltam na tela, aumentando a tensão e confirmando o excelente trabalho da montadora Pamela Power. O diretor também faz questão de mostrar os violentos resultados de cada duelo, algo notável já no primeiro combate entre Feraud e um importante cidadão, e, especialmente do segundo duelo em diante, nos joga pra dentro das lutas através de sua câmera inquieta.

O roteiro de Gerald Vaughan-Hughes, baseado em conto de Joseph Conrad, explora a curiosa relação entre D’Hubert e Feraud durante o período napoleônico (a narrativa inicia em 1800), cobrindo muitos anos da vida destes dois rivais que se detestam, mas que, como todo rival, não sabem viver sem a presença do outro. Eles precisam dos duelos para continuar vivendo, ou seja, é como se os duelos fizessem parte da essência deles. Até por isso, D’Hubert, o mais sensato da dupla, não mata o rival no duelo final – algo que, confesso, não tenho certeza de que Feraud faria, até porque é alguém que age muito mais com a emoção do que com a razão. O longa aborda muito bem este conflito interno vivido por D’Hubert, mostrando como ele, sempre que pode, recoloca seu inimigo em seu caminho, chegando ao ponto de solicitar que ele seja retirado de uma lista de traidores do rei, evitando sua prisão, justamente por saber que sem Feraud seus duelos estariam condenados ao fim. Por outro lado, em diversos momentos o complexo D’Hubert questiona a finalidade daqueles duelos, o que o leva a decretar o fim deles quando tem a oportunidade (mas sem matar Feraud, o que lhe permite voltar a duelar caso queira). Os duelos eram, basicamente, como um vício que ameaçava a vida promissora de D’Hubert. Para Feraud, eram a motivação de sua vida. Mas nem só de acertos vive “Os Duelistas”. É inegável, por exemplo, que o narrador soa pouco orgânico e a narrativa, com seus grandes saltos no tempo, é claramente episódica, além da subtrama que envolve o casamento de D’Hubert e Adele representar uma quebra no ritmo da narrativa. Mas nada que comprometa a boa avaliação do longa.

Para conceber as belíssimas imagens que vemos em “Os Duelistas”, Scott conta com um trabalho técnico de alto nível, a começar pela direção de arte de Bryan Graves e pelos figurinos de Tom Rand, que reconstituem muito bem a época em que se passa a narrativa, através da decoração interna das casas (com espelhos imponentes, lustres, talheres e taças) e dos impecáveis vestidos das mulheres e uniformes dos soldados. Colabora nesta ambientação a trilha sonora de Howard Blake, que utiliza flautas em boa parte do tempo, mas também pontua os momentos de tensão com acordes mais intensos ou através de batidas firmes, como nos momentos que precedem o duelo a cavalo. Aliás, os duelos demonstram também o bom trabalho de som, através do barulho das espadas cortando o vento ou se chocando. E apesar do som abafado de um tiro na neve, o som do vento na seqüência que se passa na Rússia só reforça o bom trabalho neste quesito.

Entre o elenco, vale destacar a dupla principal, formada pelo explosivo Harvey Keitel e pelo contido Keith Carradine. Vivendo o raivoso Feraud, Keitel demonstra bem a raiva que seu personagem carrega ao longo dos anos, além de expor com competência a ansiedade de Feraud para duelar com seu inimigo, algo notável quando, após atingir D’Hubert no terceiro duelo, ele salta e se movimenta para os lados com a espada, como quem mal espera para continuar aquele combate. Mas apesar de toda sua raiva, é curioso notar como Feraud espera o adversário espirrar e se recompor para começar o duelo, reforçando a ética destes confrontos. Além disso, ele claramente não sabe o que fazer quando é impedido de lutar com D’Hubert, o que fica evidente no plano final do longa, quando Feraud apenas observa a bela paisagem como se tudo aquilo nada significasse pra ele, repetindo um gesto de Napoleão Bonaparte, outro personagem que vivia dos conflitos. Já Keith Carradine confere carisma e nos faz acreditar em seu Armand D’Hubert, que, como já citado, vive sob o conflito entre se livrar de seu inimigo e continuar mantendo seus famosos duelos. Finalmente, a dupla se sai muito bem no sanguinário duelo em um estábulo, demonstrando bem o cansaço dos personagens, já incapazes de segurar as espadas por muito tempo no ar. Nesta cena, aliás, é notável também o nível de realismo empregado por Scott através dos graves ferimentos provocados nos duelistas, num combate muito bem orquestrado pelo diretor.

O tenso e esperado duelo final acontece após uma interessante rima narrativa, quando os mensageiros de Feraud dizem para D’Hubert que o confronto será com “pistolas”, lembrando o momento em que ele, na Rússia, disse para seu rival que o próximo duelo seria desta forma. E apesar de sua bela concepção visual e da alta carga de tensão, o duelo final não supera o sensacional duelo a cavalo, mas, ainda assim, consegue prender a atenção do espectador (neste momento, já ávido por aquele confronto final) e funciona como clímax de uma narrativa muito bem conduzida, mostrando o momento em que D’Hubert decreta o fim de seu “vício” e o início do sofrimento de Feraud, agora sem sua principal razão de viver.

Ainda que não tenha o impressionante visual de “Blade Runner” ou a eletrizante atmosfera de “Alien, o oitavo passageiro”, “Os Duelistas” é um bom filme, que serviu para colocar no mapa um diretor talentoso como Ridley Scott. Além disso, faz um interessante estudo sobre dois homens incapazes de se ver livres de seu pior inimigo, por causa de uma estranha obsessão: os duelos entre eles.

Texto publicado em 25 de Janeiro de 2011 por Roberto Siqueira

O GRANDE GOLPE (1956)

(The Killing)

 

Filmes em Geral #37

Dirigido por Stanley Kubrick.

Elenco: Sterling Hayden, Coleen Gray, Vince Edwards, Jay F. Clippen, Ted de Corsia, Marie Windsor, Elisha Cook Jr., Joe Sawyer e James Edwards.

Roteiro: Stanley Kubrick e Jim Thompson, baseado em livro de Lionel White.

Produção: James B. Harris.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Durante uma hora e vinte minutos, “O Grande Golpe”, segundo filme da bem sucedida carreira de Stanley Kubrick, é praticamente um filme perfeito. Infelizmente, seus últimos minutos deixam uma sensação de frustração não apenas em seu personagem principal, mas também no espectador, por perceber que, talvez pela pressão do estúdio na época por um final politicamente correto, a lição do “crime não compensa” entra em cena de maneira pouco orgânica e prejudica uma narrativa até então intrigante.

Após cumprir pena de 5 anos na cadeia, Johnny Clay (Sterling Hayden) resolve planejar um grandioso assalto a um hipódromo, que resolverá definitivamente os seus problemas e trará a desejada independência financeira para ele e para todos os integrantes do grupo. Mas para que tudo dê certo, ele terá que contar com o apoio do funcionário do hipódromo George (Elisha Cook Jr.), que simplesmente idolatra sua esposa Sherry (Marie Windsor). Só que Sherry tinha outras idéias, que poderão atrapalhar a execução do plano.

Escrito por Stanley Kubrick e Jim Thompson, baseado em livro de Lionel White, “O Grande Golpe” aborda temas ousados para sua época, a começar pelo próprio assalto, passando por traição e chegando até mesmo a incluir um suborno de um guarda num estacionamento. Esta cena, aliás, também aborda o preconceito racial, quando o atirador agride verbalmente o guarda local, rejeitando um presente que, ironicamente, provocaria a sua morte. E é interessante notar como em todos os casos citados a punição acontece. O grupo é punido pelo roubo e fica sem o dinheiro (muitos sem a vida), Sherry é punida por trair o marido com um tiro e o atirador também morre após agredir verbalmente o guarda. Ainda no inicio da carreira, Stanley Kubrick adota enquadramentos e movimentos de câmera convencionais, como durante uma conversa num bar, que alterna o tradicional plano médio entre os atores enquanto estes conversam. Mas o diretor se destaca especialmente na enérgica condução da narrativa, evitando nos deixar confusos ao mesmo tempo em que nos envolve completamente na trama – apesar da curiosa (e deslocada) voz do narrador -, apresentando todos os aspectos do intrigante plano com cuidado, mostrando cada etapa sendo executada separadamente e sempre parando em algum momento do assalto para voltar no tempo e mostrar como foi o dia de outro integrante do grupo. Obviamente, a excelente montagem de Betty Steinberg é fundamental para o sucesso desta estrutura narrativa pouco convencional na época, saltando no tempo e mostrando diversas ações paralelas que culminam no momento do assalto ao hipódromo.

Ainda assim, existem pequenos problemas, como a luta pouco realista que distrai os seguranças, que, por outro lado, mostra o ótimo trabalho de som, bastante convincente ao destacar os golpes e o barulho dos objetos quebrados no bar. Vale citar também os figurinos de Beaumelle, que adota o terno e gravata, conferindo profissionalismo ao grupo de ladrões, além da trilha sonora de Gerald Fried, que auxilia no ritmo empolgante da narrativa com suas batidas firmes, especialmente durante a execução do plano. Além disso, a direção de fotografia de Lucien Ballard utiliza muitas cenas noturnas para ilustrar o mundo obscuro daqueles ladrões profissionais através do constante uso das sombras.

Entre as atuações, vale destacar Sterling Hayden, que transforma o perigoso Johnny num personagem carismático e cria empatia com a platéia. Sempre convicto e com falas rápidas, ele se impõe naturalmente sobre o restante do grupo (“Pago muito para que não façam perguntas”, diz ele), e o ator tem grande mérito nisto. Também merece destaque o casal George e Sherry, cuja relação é fundamental para compreender a conclusão da narrativa, já que o excesso de confiança na esposa prejudicará não somente George, mas todo o grupo. Enquanto George é o verdadeiro marido “capacho”, Sherry é extremamente manipuladora, e Marie Windsor, abusando do cinismo, convence ao controlar o fraco George, interpretado por Elisha Cook Jr, que faz bem o papel de “homem dominado”. Observe, por exemplo, as trocas de olhares entre o casal, sempre com Sherry olhando com firmeza e George submisso, evitando o olhar e com o semblante apreensivo. Agora compare estas seqüências com o excelente momento em que Sherry sugere que foi assediada, quando George arregala os olhos ilustrando toda sua preocupação com a amada esposa. Esta devoção será fundamental na narrativa, pois permitirá que Sherry saiba do plano e resultará na matança geral do terceiro ato.

Após a meticulosa reconstituição do dia de cada integrante do grupo, chegamos então à conclusão do plano. Para sorte de todos, e também por mérito do excepcional trabalho em conjunto, o golpe é executado exatamente como planejado – e a cena em que Johnny invade o caixa com a máscara de palhaço é marcante, revelando também o bom trabalho de direção de arte de Ruth Subotka. O grupo só não contava com a traição de Sherry e a aparição de seu amante Val (Vince Edwards), que provoca um tiroteio e resulta na morte de praticamente todo o grupo. Nem mesmo Sherry escapa, pois George, furioso, volta para casa e, inconformado com a traição, atira na amada esposa. Após toda esta confusão, Johnny, o mais esperto de todos, conta com a sorte e sai ileso e com o dinheiro. Ele coloca toda a fortuna numa mala e parte com a esposa para o aeroporto, de onde pretende fugir para outra cidade. E este seria um final sensacional, mas, infelizmente, um cachorro (que funciona como um “deus ex machina”) termina com “o grande golpe” e nos deixa com a sensação de que tudo foi em vão – ou pior, de que aquela solução foi encontrada de qualquer maneira para evitar que o criminoso saísse como vencedor na história. Mas tudo bem, este final moralista é até compreensível pela época em que o filme foi realizado e o trabalho feito até então não pode ser desmerecido por causa desta falha.

Provavelmente sob forte supervisão do estúdio e com pouca liberdade, Stanley Kubrick mostra seu talento neste “O Grande Golpe”, prendendo nossa atenção com sua narrativa ágil e envolvente, mas se rende ao moralismo e entrega um final decepcionante. Felizmente, alguns anos depois o genial diretor teria total liberdade para nos brindar com inúmeras obras marcantes. Em todo caso, seu segundo filme tem o mérito de lançá-lo definitivamente na indústria do cinema, além de ser um dos precursores do delicioso subgênero dos filmes de roubo.

Texto publicado em 24 de Janeiro de 2011 por Roberto Siqueira

LUA DE FEL (1992)

(Bitter Moon)

 

Videoteca do Beto #84

Dirigido por Roman Polanski.

Elenco: Hugh Grant, Kristin Scott Thomas, Emmanuelle Seigner, Peter Coyote, Victor Banerjee, Sophie Patel, Patrick Albenque, Luca Vellani e Stockard Channing.

Roteiro: Gérard Brach, John Brownjohn, Jeff Gross e Roman Polanski, baseado em livro de Pascal Bruckner.

Produção: Roman Polanski.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Durante grande parte de “Lua de Fel”, Roman Polanski faz um profundo e interessante estudo da paixão sem limites, revelando as melhores e as piores conseqüências de se entregar totalmente a uma pessoa, abdicando de si mesmo. Mas, infelizmente, o diretor escorrega no ato final, diminuindo parte do impacto de um filme que tinha tudo para deixar o espectador completamente atordoado com seu retrato pessimista da relação entre duas pessoas perdidamente apaixonadas. O resultado é um longa correto, que deixa a sensação de que Polanski, com um pouco mais de ousadia, poderia ter realizado uma obra marcante.

Casados há sete anos, os ingleses Nigel (Hugh Grant) e Fiona (Kristin Scott Thomas) decidem embarcar num cruzeiro marítimo, como forma de renovar a relação. Durante a viagem, eles conhecem a francesa Mimi (Emmanuelle Seigner) e seu marido norte-americano Oscar (Peter Coyote). Ao perceber o interesse de Nigel por sua esposa, Oscar decide contar sua história de paixão doentia pra ele, lentamente revelando como foi parar numa cadeira de rodas.

Roman Polanski é um diretor talentoso. Por isso, não surpreende que “Lua de Fel” apresente momentos marcantes, como a sensual dança de Mimi para Oscar, e tenha um ritmo envolvente, nos sugando pra dentro da história, especialmente nos momentos que envolvem o passado dos amantes. Também não faltam belos planos, como aquele em que Nigel olha para o mar durante a noite com a lua refletindo na água, e inteligentes mecanismos narrativos, como os planos do mar que antecedem as conversas entre Oscar e Nigel, que indicam a intensidade da história que será contada a seguir (ou seja, quanto mais agitado o mar, mais quente e ousada será a nova parte da história). Contando com a montagem de Hervé de Luze, o diretor cria ainda elegantes transições, como quando a imagem de Mimi na tela do computador se transforma na imagem dela dentro do ônibus, durante uma lembrança de Oscar. Além disso, conta também com a bela trilha sonora de Vangelis, com sua melodia triste se alternando com variações sombrias, coroada pelo lindo tema que embala o inicio da relação de Mimi e Oscar em Paris. Mas apesar destes belos momentos, Polanski deixa escapar a chance de realizar um grande filme e se perde no ato final, quando o longa assume contornos de lesbianismo e um clima festivo que contradizem radicalmente a atmosfera pessimista da narrativa até então, apesar do sutil indício de que isto poderia acontecer quando Mimi vê Fiona pela primeira vez e diz que ela é linda.

Para viver Mimi, a mulher que embalaria os melhores sonhos e os piores pesadelos de Oscar, Polanski escolheu sua esposa Emmanuelle Seigner, com quem já havia trabalhado em “Busca Frenética”. Inexpressiva em boa parte da narrativa, a atriz exagera em alguns momentos, como quando chora nas pernas de Oscar, e se sai bem em outros, como nas intensas discussões com Oscar ou quando se mostra insinuante no bar na ousada primeira conversa com Nigel, entregando uma atuação bastante irregular. Ainda assim, é interessante acompanhar a trajetória de sua personagem, que lentamente se transforma de jovem apaixonada numa mulher dominadora, caindo repentinamente ao fundo do poço e voltando para viver um misto de amor e ódio com Oscar. Com pouco tempo em cena, a talentosa Kristin Scott Thomas vive a entediada Fiona, para quem o momento mais excitante da viagem é uma conversa com um desconhecido no bar, que serve de aviso para seu distante marido (“Não há nada que você faça que eu não faça melhor”, ameaça). Observe o olhar ameaçador de Fiona para Nigel quando diz para o rapaz no bar o dito popular “azar no jogo, sorte no amor”, insinuando que não hesitaria em trair o marido caso ele continuasse agindo daquela maneira. Mas o aviso não surtiu efeito, e logo em seguida ele deixa Fiona passando mal na cabine e volta para ouvir o final da história de Oscar. Interpretado por Hugh Grant, o tímido Nigel é o típico homem de família inglês, sempre polido e educado, mas incapaz de se conter diante da insinuante Mimi. O ator demonstra bem a luta constante de Nigel para não demonstrar interesse no que ouve, enquanto claramente se mostra cada vez mais interessado nos detalhes mais obscenos da relação entre Oscar e Mimi (vale citar o engraçado momento em que Nigel se mostra incomodado com os detalhes escatológicos da história que ouve). Já Peter Coyote exagera em alguns momentos, como quando Mimi derruba Oscar da cama no hospital, mas vai bem em muitos outros, principalmente quando desafia Nigel na cabine a ouvir mais de sua história, além de prender a atenção do espectador com sua narração envolvente.

Escrito por Gérard Brach, John Brownjohn, Jeff Gross e Roman Polanski, baseado em livro de Pascal Bruckner, “Lua de Fel” faz um interessante estudo da paixão sem limites, utilizando uma narrativa que intercala a viagem de navio com os flashbacks que ilustram as memórias de Oscar. E é curioso acompanhar a mudança sistemática no relacionamento do casal apaixonado, ilustrada até mesmo através da fotografia de Tonino Delli Colli, mais clara e iluminada no inicio da narrativa, escurecendo na medida em que a relação avança e se afundando inteiramente nas sombras após a conversa deles numa praça, quando Oscar diz que é melhor cada um seguir o seu caminho. Este momento até mesmo tocante se contrapõe diretamente ao promissor inicio do romance, com direito a jantar de gala, brincadeiras e passeio no parque, terminando na belíssima cena da primeira relação sexual do casal, com lareira ao fundo e os closes de Polanski destacando a sensualidade e o erotismo do encontro. Após o romântico passeio no parque, a sensual dança a luz de velas e as brincadeiras com leite, o casal se mostra cada vez mais íntimo. Só que um pequeno corte feito por Mimi enquanto barbeia Oscar indica que a relação entraria em novos terrenos, explorando novas experiências e revelando o lado sádico da jovem. E após comprarem seus “brinquedos” e se trancarem por dias no apartamento para se divertirem, Oscar começa a perceber que a relação está entrando em decadência, e na tentativa de se renovar, sai com ela e os amigos, nos levando ao momento que mudaria pra sempre aquela história, quando uma crise de ciúmes de Mimi é o estopim para uma serie de atitudes entre eles que os levará ao outro extremo da paixão, o ódio. O choro compulsivo de Mimi após esta briga evidencia sua paixão doentia e desperta as piores idéias na cabeça de Oscar, reforçadas pelo momento em que ele bate nela e ela, após desmaiar, acorda e diz que o ama. Faltava amor próprio a Mimi (algo refletido até mesmo em seu visual dali em diante) e Oscar percebe isto, revelando sua pior faceta com verdadeiros requintes de crueldade. Mas um acidente viraria o jogo novamente, colocando Mimi numa posição favorável e abrindo a possibilidade de vingança pra ela. Revigorada (algo também refletido no visual dela), ela aproveita para devolver o amargo gosto do desprezo ao amante, que, incapaz de reagir, se afunda em solidão, algo ilustrado no obscuro plano em que olha pela janela a distante Torre Eiffel, simbolizando o romance perdido e fazendo-o sentir a humilhação que Mimi sentiu ao olhar para a lua no avião. Oscar finalmente chega ao fundo do poço na melancólica seqüência em que Mimi transa com outro na frente dele e o travelling de Polanski pelo quarto nos leva ao rosto incrédulo daquele homem em ruínas. A paixão tinha se transformado em ódio.

A triste história de Oscar e Mimi desperta Nigel, que finalmente compreende que sua relação com a esposa estava deteriorada, o que o leva a ensaiar uma conversa franca com ela (“Vamos ser adultos”, diz sozinho olhando para o mar). Em seguida, ele se entrega a paixão por Mimi, que não corresponde. Ela não queria sofrer mais, por isso, era melhor nem se envolver com alguém que quisesse mais do que sexo com ela. Assim como Oscar, ela já não acreditava mais no amor. E então o surpreendente (e até certo ponto incompreensível) final contraria toda a atmosfera amarga do longa, quando Mimi e Fiona se beijam na festa e dormem juntas. Embalada pela música “Slave to Love” (a mesma que embalou “9 ½ Semanas de Amor”, outro longa que aborda o tema “paixão sem limites”), a festa destoa do restante da narrativa e parece deslocada. Mas os tiros impiedosos de Oscar contra Mimi e na própria cabeça devolvem o pessimismo à “Lua de Fel”, deixando, com o perdão do trocadilho, um gosto amargo na boca do espectador, refletido no melancólico plano final, com Nigel e Fiona, solitários, diante do mar.

Com muito mais acertos do que erros, “Lua de Fel” apresenta um retrato cruel e pessimista da paixão avassaladora, mas, infelizmente, boa parte de seu impacto é reduzido pelo inexplicável terceiro ato. Talvez se Fiona tivesse ficado com o homem que conheceu no bar e Nigel tivesse perdido as duas mulheres em definitivo, o tom pessimista soaria homogêneo em toda a narrativa. Ainda assim, o longa faz jus ao fel de seu título.

Texto publicado em 19 de Janeiro de 2011 por Roberto Siqueira

INSTINTO SELVAGEM (1992)

(Basic Instinct)

 

Videoteca do Beto #83

Dirigido por Paul Verhoeven.

Elenco: Michael Douglas, Sharon Stone, Jeanne Tripplehorn, Dorothy Malone, George Dzundza, Denis Arndt, Leilani Sarelle, Bruce A. Young, Chelcie Ross, Wayne Knight, Daniel von Bargen, Stephen Tobolowsky, Benjamin Mouton e James Rebhorn.

Roteiro: Joe Eszterhas.

Produção: Alan Marshall.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quando escrevi sobre “Cantando na Chuva”, afirmei que qualquer pessoa, ainda que não tivesse assistido ao filme, reconheceria a cena em que Gene Kelly canta e dança na chuva. Cenas deste tipo sempre existiram na história do cinema, mas nos anos 90 poucas foram tão marcantes quanto à cruzada de pernas de Sharon Stone em “Instinto Selvagem”. Só que o longa dirigido por Paul Verhoeven apresenta muito mais que as excelentes cenas eróticas, entregando um thriller eletrizante e repleto de suspense, que serve também como uma interessante análise psicológica das relações (sexuais ou não) humanas.

O assassinato de um cantor de rock chama a atenção da policia de São Francisco e a principal suspeita é a escritora Catherine Tramell (Sharon Stone). O policial Nick Curran (Michael Douglas) é designado para investigar o caso, mas acaba ficando fortemente atraído pela escritora, apesar dos protestos de seus companheiros de profissão, como Gus (George Dzundza) e a Dra. Beth (Jeanne Tripplehorn), que assim como Catherine, é formada em psicologia.

A famosa cena que marcou “Instinto Selvagem” e alçou Sharon Stone ao estrelato acontece ainda na primeira metade do filme, o que é bom, pois o espectador deixa de aguardar aquele momento e passa a se concentrar na narrativa. Nesta cena, apenas pela disposição dos personagens, Verhoeven cria uma incrível atmosfera de tensão e erotismo, com Catherine no centro da sala cercada de homens ávidos por uma confissão, mas sempre firme e contundente em suas respostas, que invariavelmente deixam estes mesmos homens desconcertados. Na medida em que as perguntas acontecem, o espectador sente o nervosismo crescente dos policiais, inconformados com a frieza daquela mulher. E então, repentinamente, ela cruza as pernas, deixando marmanjos eufóricos e os investigadores literalmente sem rumo, algo que o diretor capta com precisão através de um close rápido na reação deles. Desde então, fica evidente que a espontânea e astuta Catherine sabe muito bem utilizar a sensualidade a seu favor. Sempre insinuante e sensual, Sharon Stone oferece um desempenho eficiente, olhando diretamente nos olhos das pessoas e falando com muita firmeza, além de dizer palavrões e frases que os homens não esperam ouvir com tanta freqüência da boca de uma mulher (“Gostava dele?”, pergunta Nick e ela responde “Gostava de transar com ele”). Inteligente, Catherine sabia, por exemplo, que seu livro, como os próprios investigadores já previam, serviria como álibi no interrogatório, abrindo a possibilidade de que alguém tenha tentado incriminá-la, contrariando a sensação inicial de que ela é a assassina. E de fato alguns elementos reforçam a defesa de Catherine. Ela é rica (herdou uma fortuna dos pais e do marido) e por isso não precisa do dinheiro do astro de rock aposentado, usa seu conhecimento de psicologia “apenas” para extrair informações de pessoas que a inspiram a escrever seus livros e, principalmente após a morte de Roxy (Leilani Sarelle), começa a se mostrar vulnerável, algo impensável até aquele momento e que desarma Nick e o espectador (e neste aspecto, Stone tem muito crédito por conferir veracidade ao choro de Catherine). Michael Douglas também se sai bem na pele de Nick, um homem profundamente transformado diante da presença daquela mulher misteriosa e bela, que sabe tudo da vida dele e utiliza seu passado como arma para intimidá-lo. Atormentado, Nick volta a beber, a fumar, fica agressivo quando se relaciona sexualmente com a Dra. Beth e evidencia a cada minuto que está sendo sugado por Catherine – e Douglas transmite com precisão a crescente angústia do personagem. E finalmente, Jeanne Tripplehorn, ainda que com menos destaque, interpreta a ambígua Dra. Beth, colaborando com a dúvida que envolve a narrativa após a morte de Roxy.

A sensualidade que permeia “Instinto Selvagem” aparece logo na primeira cena, mas a trilha sinistra de Jerry Goldsmith também indica que nem só de erotismo viverá a narrativa, dando o tom do que veremos em poucos segundos, quando um movimento de câmera nos levará ao picador de gelo utilizado como arma letal para fazer a primeira vítima do filme. Esta cena deixa claro desde então o nível de realismo que veremos tanto nas cenas eróticas quanto nas cenas violentas, além de servir também para introduzir a misteriosa assassina na trama, nos mostrando do que ela é capaz. E apesar de inserir algumas seqüências com bastante ação, como a eletrizante perseguição de Nick na estrada, é na criação da perfeita atmosfera de erotismo e suspense que Verhoeven se destaca, explorando com habilidade as nuances do relacionamento entre Nick e Catherine, desde o momento em que ela fala sobre seu novo livro pra ele no carro e o close do diretor capta a tensão existente entre eles. É interessante observar, por exemplo, como mesmo sabendo os riscos que corria, Nick não consegue evitar que Catherine o amarre durante uma relação sexual, preferindo, naquele momento, se entregar ao prazer. O diretor é inteligente também ao explorar a sensualidade de Stone, não hesitando em mostrar o corpo da atriz em diversos momentos carregados de erotismo. E apesar de escorregar na obviedade de algumas situações, como o momento em que Roxy persegue Nick de carro (era previsível que não era Catherine), Verhoeven sempre busca manter o suspense através dos movimentos de câmera, especialmente nas cenas em que insinua que Catherine vai pegar o picador de gelo durante suas relações sexuais com Nick. Aliás, as insinuações estão presentes diversos momentos, como quando Catherine usa o picador de gelo diante de Nick enquanto prepara uma bebida.

A montagem de Frank J. Urioste colabora muito com este clima de suspense, especialmente nos tensos momentos que envolvem Nick e Catherine na cama, e as roupas sensuais de Catherine (figurinos de Nino Cerruti e Ellen Mirojnick) auxiliam na atmosfera erótica do longa. E apesar de alguns momentos nitidamente forçados (parece que ninguém se lembra de trancar a porta de sua residência durante a narrativa), o suspense funciona perfeitamente. Ainda nos aspectos técnicos, observe como quando Catherine se despe na janela sob o olhar de Nick, a fotografia vermelha de Jan de Bont ilustra ao mesmo tempo o desejo que cresce nele e a violência que naquele momento inconscientemente ligamos à personagem. E na medida em que Nick vai ficando cada vez mais neurótico e perturbado diante do jogo das duas psicólogas, de Bont passa a utilizar ambientes mais escuros e mais cenas noturnas, refletindo o estado psicológico do personagem.

Escrito por Joe Eszterhas, o roteiro de “Instinto Selvagem” é bastante ambíguo, nunca deixando claro se Catherine é mesmo a assassina. Sendo assim, a partir de determinado momento o espectador se vê num delicioso jogo de adivinhação, tentando descobrir quem é a misteriosa criminosa, através da introdução de uma série de subtramas que criam novas possibilidades, como o ciúme de Roxy ou a relação amorosa que Catherine viveu com a Dra. Beth no passado. Além disso, o longa faz um intrigante estudo psicológico de Nick através dos jogos de Catherine e Beth, que deixam tanto o personagem como o espectador constantemente em dúvida sobre qual delas está falando a verdade. Eszterhas insere ainda uma interessante rima narrativa durante o interrogatório de Nick, quando ele repete algumas das frases de Catherine, evidenciando o forte impacto que aquela mulher teve sobre ele. Aliás, a forma como ela envolve Nick é muito bem conduzida por Verhoeven, lentamente nos levando ao momento em que eles finalmente se relacionam sexualmente, em outra cena bastante explícita. E aqui novamente a atmosfera de tensão toma conta da tela, com os movimentos de câmera que remetem à primeira cena do filme e nos levam a temer a morte de Nick. Só que momentos depois do alívio, quando Roxy demonstra ciúme, Nick (e o espectador) começa a pensar em novas possibilidades e passa a desconfiar de Roxy também, afinal de contas, ela também é loira, estava na casa de Catherine na manhã seguinte ao crime e poderia ter matado o astro de rock por ciúmes. A descoberta do caso entre Catherine e Lisa Hoberman, antigo nome da Dra. Beth, abre outra possibilidade e confunde ainda mais o espectador, revelando que Nick estava de fato envolvido num perigoso jogo entre duas mulheres profundamente conhecedoras da mente humana. E este perigoso jogo nos leva à morte de Gus e da própria Beth, numa seqüência igualmente trágica e tensa, que revela a identidade da assassina. E apesar das claras evidencias de que Beth era mesmo a assassina, Nick ainda tem desconfianças, que serão confirmadas (ou não) pelo brilhante plano final de “Instinto Selvagem”. E é justamente nesta constante dúvida gerada pela ambigüidade do roteiro que reside um dos aspectos mais interessantes de um thriller repleto de erotismo e suspense, que não tem medo de ousar e por isso consegue criar uma atmosfera realmente envolvente.

Apresentando um interessante jogo psicológico, o thriller “Instinto Selvagem” surpreende positivamente ao explorar mais do que a sensualidade de sua atriz principal. Verhoeven soube utilizar cenas realmente eróticas numa narrativa inteligente, fugindo do lugar comum das grandes produções de Hollywood que normalmente suavizam o sexo, e de quebra, entregando uma das cenas mais emblemáticas da década de 90. Mas, infelizmente, como um feroz picador de gelo, a indústria cinematográfica resolveu eliminar este tipo de trabalho ousado nos anos seguintes.

PS: Como prova de que Hollywood não produz mais filmes tão ousados, basta assistir a puritana seqüência de “Instinto Selvagem”, que é infinitamente mais conservadora e menos interessante.

Texto publicado em 16 de Janeiro de 2011 por Roberto Siqueira

CÃES DE ALUGUEL (1992)

(Reservoir Dogs)

 

Videoteca do Beto #82

Dirigido por Quentin Tarantino.

Elenco: Harvey Keitel, Tim Roth, Michael Madsen, Steve Buscemi, Chris Penn, Lawrence Tierney, Kirk Baltz, Edward Bunker e Quentin Tarantino.

Roteiro: Quentin Tarantino.

Produção: Lawrence Bender.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Violência gráfica, narrativa não-linear, diálogos triviais e repletos de referências a cultura pop, trilha sonora de extremo bom gosto e atuações de grande nível. Todas as marcas registradas do cinema diferente e criativo de Quentin Tarantino podem ser percebidas em “Cães de Aluguel”, excelente filme que marcou a estréia de um dos diretores mais influentes da década de 90.

Seis criminosos profissionais são reunidos por Joe Cabot (Lawrence Tierney) para assaltar uma loja de joalherias que receberia uma valiosa carga de diamantes. Inesperadamente, algo dá errado e dois deles morrem quando os policiais cercam o local, mas todos os outros conseguem fugir. Mr. Orange (Tim Roth), ferido, é levado por Mr. White (Harvey Keitel), e em seguida Mr. Pink (Steve Buscemi) chega ao galpão onde todos combinaram de se encontrar, revoltado com a possibilidade de alguém ter traído o grupo. O último a chegar é Mr. Blonde (Michael Madsen), que provocou a ira dos parceiros ao começar a atirar durante o assalto por que algum funcionário da loja disparou o alarme. Caberá a Eddie (Chris Penn) tentar apaziguar a situação, mas o clima de desconfiança aumenta a cada minuto que passa.

Quentin Tarantino é certamente um dos diretores mais influentes dos últimos anos, imprimindo sua marca registrada em todos os seus filmes e conquistando fãs em cada canto do planeta. Reconhecidamente um grande diretor, Tarantino demonstra, no entanto, ainda mais talento como roteirista, algo notável desde este trabalho de estréia. Repleto de diálogos ágeis sobre coisas do cotidiano, humor negro e até mesmo piadas racistas, o roteiro de “Cães de Aluguel” chama a atenção justamente por conferir um realismo singular à narrativa, que definiu os padrões do cinema contemporâneo ao misturar elementos narrativos clássicos com diversas referências à cultura pop, a começar pelo divertido diálogo sobre as músicas da Madonna, passando pela constante menção ao programa de rádio “K-Billy, o som dos anos 70” e chegando até mesmo a citar “o quarteto fantástico”. Além disso, o fato dos personagens falarem de maneira informal, com muitos palavrões e piadas de humor negro, os torna ainda mais reais, aproximando-os do espectador, que se identifica com aqueles diálogos corriqueiros, afinal de contas, nós também passamos o dia comentando coisas banais. Só que em determinados momentos, a face criminosa de todos eles vem à tona (o que os diferencia da maioria dos espectadores), como no curioso diálogo entre Mr. White e Mr. Pink (“Matou alguém?”; “Tiras”; “Não matou pessoas de verdade?”; “Não, só tiras”), que revela também o lado ético daqueles “profissionais” do crime, revoltados com a morte de uma jovem de 20 anos. E os próprios codinomes dos personagens demonstram a criatividade de Tarantino, utilizando cores para evitar que eles se identifiquem e corram o risco de entregar os colegas numa eventual prisão.

Outra característica marcante do cinema de Tarantino que também surge pela primeira vez em “Cães de Aluguel” é a narrativa não-linear, sempre dividida em capítulos, que abusa dos flashbacks, neste caso para mostrar como cada integrante foi contratado por Joe. E se a estrutura narrativa não-linear normalmente prende a atenção do espectador, o vigor com que Tarantino conduz a trama desde o primeiro momento, quando sua câmera inquieta gira em torno da mesa e nos aproxima daquele grupo de criminosos, torna o longa ainda mais interessante. Os movimentos de câmera, aliás, confirmam o talento do diretor, como podemos notar no plano que se inicia num chão de banheiro, mostrando o lixo e a sujeira do local, seguido por um travelling que nos leva ao final do corredor onde Mr. White e Mr. Pink conversam, diminuindo os personagens na tela e ilustrando o quanto eles estavam perdidos naquele momento. Em outro momento, quando Joe diz para ninguém revelar o nome, Tarantino dá um close no rosto de Mr. White, indicando que aquele personagem quebraria esta sagrada regra. E finalmente, durante a briga entre Mr. White e Mr. Pink no galpão, Tarantino emprega um zoom out que lentamente revela a presença de Mr. Blonde escorado numa parede, apenas observando toda aquela confusão. Além disso, o diretor não hesita em nos apresentar cenas extremamente violentas, mantendo o espectador sempre atento a narrativa na expectativa de que algo surpreendente possa acontecer a qualquer momento, alcançando um nível de realismo bastante ousado para a época.

Profundo conhecedor (e amante) de cinema, Tarantino sabe também que não é preciso utilizar uma montagem acelerada para manter a atenção do espectador. Desta forma, a montagem de Sally Menke utiliza poucos cortes, prolongando bastante as cenas, o que serve também para mostrar o resultado nada agradável daquele ambiente violento, como quando a câmera passeia pelos corpos caídos após a troca de tiros entre Joe, Eddie e Mr. White. O trabalho de Menke se destaca ainda na interessante seqüência em que vemos Mr. Orange decorando a história do encontro com os policiais no banheiro, quando em poucos minutos ele passa do treinamento com seu amigo policial para o momento em que fala diante de Joe, Eddie e Mr. White – e aqui vale observar a inserção de um flashback de algo que nem existiu, conferindo legitimidade a história inventada pelo personagem. E o próprio local escolhido para acolher os criminosos confere ainda mais realismo ao que se passa na tela, com as paredes descascadas e os tijolos à mostra dentro do abandonado galpão, reforçado pela fotografia crua de Andrzej Sekula, que adota um visual granulado e cores sem vida que aproximam a imagem da realidade. Por outro lado, Sekula dá vida aos tons de vermelho, aumentando o choque das cenas de violência, sempre banhadas com muito sangue. E é curioso notar como a trilha sonora diegética, recheada com excelentes músicas dos anos 70, cria um paradoxo ao associar um som agradável à violência extremamente gráfica, deixando o espectador com um sentimento misto de prazer e repulsa.

As atuações, de forma geral, são bastante convincentes e mantém o clima constante de tensão de “Cães de Aluguel”, conseguindo criar personagens ameaçadores graças à firmeza de todo elenco. Observe, por exemplo, como Keitel e Roth soam extremamente convincentes no caminho do galpão, quando Mr. Orange grita de dor e Mr. White tenta acalmá-lo. Já no galpão, Roth convence Keitel e o espectador de que ele não sabe de nada sobre o traidor, o que aumenta o choque no momento em que ele revela a verdade. Keitel, por sua vez, se sai bem nas intensas discussões com os outros integrantes do grupo, como quando parte pra cima de Mr. Blonde logo após sua chegada ao galpão ou quando defende Mr. Orange diante das insinuações de Mr. Pink, interpretado com competência por Steve Buscemi. Já Michael Madsen está assustador como Mr. Blonde, com sua voz tranqüila e um olhar calmo que personificam o verdadeiro psicopata, capaz de provocar a ira em qualquer um – repare sua expressão de cinismo ao provocar Mr. White com a frase “Vai latir o dia inteiro, cachorrinho?”. Sua insanidade vem à tona na impressionante cena da tortura do policial Marvin Nash (Kirk Baltz), onde Tarantino evita mostrar a barbárie desviando a câmera no último instante, mas faz questão de mostrar as conseqüências daquele ato insano, através do rosto desfigurado de Nash, agora sem uma das orelhas, que pode ser vista na mão de Mr. Blonde – e aqui o diretor não resiste ao seu característico humor negro, personificado na brincadeira de Mr. Blonde com a orelha do rapaz. Observe ainda como a cena é pontuada pela deliciosa música tocada no rádio, dando uma estranha sensação de prazer ao espectador enquanto este assiste aquela repugnante cena de tortura. Através de um plano-seqüência, Tarantino ainda acompanha Mr. Blonde enquanto ele caminha tranquilamente pra buscar gasolina no carro, voltando ao galpão em seguida para incendiar o policial. Mas em outro momento surpreendente, Mr. Orange salva Marvin com tiros repentinos e revela que ele é o policial infiltrado no grupo. E fechando os destaques do elenco, Chris Penn e Lawrence Tierney também estão ótimos como Eddie e Joe, demonstrando entrosamento com Mr. Blonde na cena do escritório, mas mostrando-se firmes quando necessário, principalmente após tudo dar errado no assalto. Tierney se destaca ainda quando Joe passa as instruções para o grupo, em outro momento inspirado pelos afiados diálogos de Tarantino, que resultam na engraçada discussão a respeito dos codinomes de cada um. Já Penn se destaca quando Eddie fica furioso após Mr. Orange matar Mr. Blonde, expondo com competência a fúria do personagem.

“Cães de Aluguel” apresenta ainda duas seqüências marcantes, daquelas capazes de tirar o fôlego do espectador. A primeira delas é o flashback dos momentos anteriores e seguintes ao crime (o assalto em si nunca é mostrado), revelando como Mr. Orange foi atingido por uma civil e apresentando o momento em que ele chama Mr. White de Larry, num minuto de fraqueza que impediria o parceiro de levá-lo ao hospital posteriormente. Já o outro momento de extrema tensão acontece quando Eddie, Joe e Mr. White apontam as armas entre eles, resultando na morte de Eddie e Joe, na revelação da traição de Mr. Orange e na morte dos dois últimos integrantes do grupo. Estas duas cenas simbolizam a atmosfera de tensão que domina praticamente toda a narrativa.

Quentin Tarantino chamou a atenção da indústria cinematográfica ao introduzir elementos da cultura pop, misturados à violência extrema e realista, num roteiro coeso e inventivo que resultou neste intrigante “Cães de Aluguel”, um verdadeiro sopro de criatividade no cinema dos anos 90, que influenciou muito do que aconteceu nos anos seguintes.

Texto publicado em 09 de Janeiro de 2011 por Roberto Siqueira

TOMATES VERDES FRITOS (1991)

(Fried Green Tomatoes)

 

Videoteca do Beto #81

Dirigido por Jon Avnet.

Elenco: Kathy Bates, Mary Stuart Masterson, Mary-Louise Parker, Jessica Tandy, Cicely, Chris O’Donnell, Stan Shaw, Gailard Sartain, Timothy Scott, Lois Smith e Nick Searcy.

Roteiro: Fannie Flagg e Carol Sobieski, baseado em livro de Fannie Flagg.

Produção: Jon Avnet e Jordan Kerner.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A bela história da forte amizade entre duas jovens é a inspiração deste “Tomates Verdes Fritos”, que com seu roteiro delicioso e suas excelentes atuações conquista o coração do espectador. Com muita sutileza, o diretor Jon Avnet entrega uma história cativante sobre amizade, amor e, acima de tudo, coragem para enfrentar os nossos medos e o preconceito da sociedade em que estamos inseridos.

Toda semana, Evelyn (Kathy Bates) visita a tia de seu marido Ed (Gailard Sartain) no hospital, mas não é bem recebida pela paciente. Num momento de tristeza, ela acaba conhecendo Ninny Threadgoode (Jessica Tandy), uma senhora de 83 anos que adora contar histórias. Nestas conversas semanais, Ninny passa a lhe contar a história de Ruth (Mary-Louise Parker) e Idgie (Mary Stuart Masterson), duas moças que construíram uma forte amizade nos anos 20, provocando polêmica na cidade, principalmente por tratarem bem os negros.

“Tomates Verdes Fritos” é um filme delicado, que aborda com sutileza alguns assuntos potencialmente controversos. Sutileza, aliás, é a palavra que melhor define a direção de Jon Avnet, que conduz a narrativa com elegância desde o primeiro plano do filme, que remete ao assassinato de Frank Bennett (Nick Searcy), com o caminhão sendo retirado da água. O diretor mostra competência na composição de planos belíssimos, como aquele em que Buddy Threadgoode (Chris O’Donnell), Idgie e Ruth caminham sobre as águas da barragem ou o tenso plano em que Idgie conversa com seu chefe no café enquanto os membros do Ku Klux Klan, liderados por Bennett, se aproximam da janela. Repare ainda a perfeita composição do plano em que Ruth revela o olho roxo, surpreendendo o espectador quando vira o rosto para atender ao chamado do marido, revelando os problemas que ela tinha naquela conturbada relação. E além dos belos enquadramentos, Avnet mostra competência na condução de cenas marcantes, como a chocante morte de Buddy. Aparentemente inofensiva (vemos Buddy tentando pegar o chapéu que voa levemente sobre os trilhos), o tom da cena muda repentinamente quando o pé do rapaz se enrosca nos trilhos, mas o espectador mantém um fio de esperança de que no momento final Buddy vá escapar. Infelizmente, não é o que acontece, e o plano seguinte confirma a tragédia. Vale citar ainda a bela cena em que Ruth e Idgie jogam comida para os pobres de dentro do trem, com o rosto daquelas crianças esperançosas implorando por ajuda, pontuada por uma das raras aparições da trilha sonora de Thomas Newman.

Numa óbvia referencia ao nome do filme, a fotografia de Geoffrey Simpson, auxiliada pela direção de arte de Larry Fulton, adota clara preferência pela cor verde, notável através dos locais arborizados, do sofá do hospital e do telhado da casa de Idgie, entre outros objetos. A escolha também faz alusão à cor da “esperança”, afinal de contas, esperança era o que mais faltava a Evelyn, que reencontra a paixão pela vida após conhecer Ninny, assim como Ruth se renova ao lado de Idgie. Entre o assassinato de Bennett e o julgamento de Idgie, o longa passa a ter o predomínio de cores escuras e cenas noturnas, refletindo a amargura daquelas pessoas, que só seria aliviada com a decisão do juiz, baseada na surpreendente ajuda do reverendo. Vale destacar também os figurinos de Elizabeth McBride, que diferenciam bem a época atual, com as roupas coloridas de Evelyn, da época de Ruth e Idgie, com os vestidos impecáveis das mulheres (com exceção de Idgie) e as roupas engomadas dos homens que recriam os anos 20 com muita precisão.

Certamente um dos destaques do longa, o roteiro escrito por Fannie Flagg e Carol Sobieski, baseado em livro de Fannie Flagg, demonstra coragem não apenas por abordar uma relação tão íntima entre duas mulheres, mas porque não maquia o repugnante preconceito que imperava na época, quando a sociedade tratava os negros como meros criados destinados a servi-los da melhor maneira. Além disso, a estrutura narrativa de “Tomates Verdes Fritos” abusa dos flashbacks, que neste caso funcionam bem, por causa da narração envolvente de Tandy e da dinâmica montagem de Debra Neil-Fisher, que alterna entre passado e presente num ritmo delicioso. E se claramente há um corajoso subtexto homossexual na amizade entre Ruth e Idgie, o longa jamais responde abertamente a questão (o que é coerente com o período em que a história se passa, quando o preconceito estava ainda mais arraigado nas pessoas), preferindo indicar sutilmente o sentimento que ambas nutriam através de pequenos gestos, como quando Ruth diz para Idgie que aquele tinha sido o melhor aniversário de sua vida e dá um beijo na amiga. Muitos anos mais tarde, diante de um júri e da sociedade local, ela declararia que Idgie era sua melhor amiga e que a amava. Já Idgie era mais espontânea, não hesitando, por exemplo, em arrancar Ruth das mãos de seu violento marido, chegando a ameaçá-lo de morte. Obviamente, a excelente atuação de Parker e Masterson é vital para o sucesso daquela relação e ambas se saem muito bem, apresentando uma excelente química (destaque para a cena em que elas brincam com comida, com clara conotação sexual). Exatamente por isso, quando vemos Ruth se preparando para a morte e Idgie, emocionada, repetindo a história do lago que foi parar na Georgia, é muito difícil conter as lagrimas, exatamente por acreditarmos no amor verdadeiro que elas sentiam. O espectador sabe que Idgie está perdendo mais que uma amiga naquele momento, está perdendo a pessoa mais importante da vida dela. E até mesmo o plano distante de Avnet demonstra profundo respeito pelo momento, como se o diretor estivesse observando de longe aquela triste despedida, refletida até mesmo na fotografia obscura da cena. Parker se destaca ainda na cena em que conta sobre as orações que de nada adiantaram para salvar sua mãe, transmitindo com exatidão a aflição que Ruth sentia por não ter reagido como deveria, provocando também a mudança de Evelyn, que em seguida reage às provocações de duas mulheres num estacionamento. A partir deste momento, Evelyn passa a pensar mais nela e menos no marido, começando a cuidar da saúde e a mudar tudo que lhe desagrada, como a parede do quarto que inibe a passagem dos raios solares.

E já que citei Evelyn, é preciso ressaltar que, assim como Parker e Masterson, Tandy e Bates também estabelecem uma excelente conexão em suas deliciosas conversas, com destaque para o emocionante diálogo sobre a menopausa e sobre o filho de Ninny, onde o talento das duas atrizes salta aos olhos da platéia – repare a emoção de Tandy ao relembrar o filho que se foi e sua comovente alegria ao imaginar que em breve, de acordo com sua fé, poderá reencontrá-lo. Kathy Bates está absolutamente divertida como Evelyn, mudando gradualmente seu comportamento durante o longa, atingindo o ápice quando reage às provocações num estacionamento e, em seguida, entra empolgada no hospital, colocando pra fora todos os anos de repressão e angústia. É gritante a diferença desta Evelyn para a mulher que seguia cegamente as dicas do curso para esposas, se enrolando em papel para surpreender o marido, numa cena tragicamente engraçada, que expõe o quanto aquela relação estava deteriorada – algo que fica evidente também quando o marido sequer lhe dá atenção, preferindo assistir qualquer jogo que estiver passando na televisão. Aliás, até mesmo a forma física do casal evidencia que a preocupação em agradar ao outro já ficou no passado faz tempo. Mas a grande mudança na vida de Evelyn estava por vir – e o olhar dela para o café, sentindo o sopro do vento e imaginando o barulho do trem logo no início do filme, já indicava a importância que aquele local teria em sua vida, sem que ela jamais necessitasse pisar dentro dele. E o agente motivador desta mudança é Ninny, interpretada por Jessica Tandy, que está ainda mais encantadora que de costume na pele da senhora cheia de paixão pela vida, que renova o espírito de Evelyn (e do espectador) com sua forma direta e otimista de olhar para quase todas as situações e desafios de nossa jornada. Por isso, quando vemos Ninny deprimida olhando para sua antiga casa, a tristeza é inevitável. Só que até este momento de fraqueza engrandece Ninny, ao mostrar que ela é vulnerável como qualquer um de nós, mas ainda assim sempre busca uma nova maneira de sorrir. E fechando o elenco, Nick Searcy tem uma atuação unidimensional como Frank Bennett, um homem que parece viver somente para atormentar a vida de Ruth. É claro que o fato da história ser contada por Ninny atenua este maniqueísmo do roteiro, pois claramente trata-se da visão dela sobre aquele homem.

Assim como a natureza da relação entre Ruth e Idgie, existem outras situações em “Tomates Verdes Fritos” que permitem diferentes interpretações. Não é o caso do assassinato de Bennett, que até mantém o suspense durante boa parte da narrativa, mas revela em seu terceiro o ato a verdadeira história, ilustrando como nem sempre as evidencias levam a verdade absoluta. É o caso, porém, da identidade de Idgie, uma destas situações em que cada espectador pode interpretar à sua maneira. Propositalmente, o roteiro nunca diz abertamente se Ninny era Idgie ou não, espalhando pela narrativa algumas situações que podem indicar Idgie como o passado distante de Ninny. Por exemplo, Ninny fala de momentos da vida de Ruth e Idgie que somente as duas poderiam saber, ela diz que gostava de Buddy quando ele sentia atração por Ruth (e claramente Idgie sentia ciúme do irmão) e, principalmente, o mel e o bilhete deixados no túmulo de Ruth sugerem que ela passou por ali após sair do hospital. Mas esta é apenas uma suposição, já que o longa prefere deixar as duas possibilidades em aberto, o que sempre é interessante, pois alimenta discussões.

A forte amizade, e por que não dizer amor, entre duas mulheres é o fio condutor da história de redescoberta de Evelyn, que através da vontade de viver de Ninny reencontra a própria felicidade. E se a alegria de Ninny contagia Evelyn, o otimismo de “Tomates Verdes Fritos” também contagia o espectador, que sai renovado diante de tanta vontade de viver e ser feliz.

Texto publicado em 26 de Dezembro de 2010 por Roberto Siqueira

ROBIN HOOD – O PRÍNCIPE DOS LADRÕES (1991)

(Robin Hood: Prince of Thieves)

 

Videoteca do Beto #80

Dirigido por Kevin Reynolds.

Elenco: Kevin Costner, Morgan Freeman, Mary Elizabeth Mastrantonio, Christian Slater, Alan Rickman, Sean Connery, Geraldine McEwan, Brian Blessed, Nick Brimble, Soo Drouet, Daniel Newman, Daniel Peacock, Walter Sparrow, Michael Wincott e Michael McShane.

Roteiro: Pen Densham e John Watson, baseado em história de Pen Densham.

Produção: Pen Densham, Richard Barton Lewis e John Watson.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Aproveitando o embalo do sucesso do belo “Dança com Lobos”, Kevin Costner embarcou nesta aventura inspirada no mais famoso dos ladrões, aquele que roubava dos ricos para dar aos pobres. Só que o longa dirigido por Kevin Reynolds jamais apresenta um resultado próximo dos filmes que alçaram o ator/diretor à fama. Apesar de entreter, “Robin Hood, o príncipe dos ladrões” apresenta falhas que comprometem seu resultado, se escorando na força de seu personagem principal, no carisma de seu elenco e nas boas cenas de ação que sustentam esta despretensiosa aventura.

Após ser capturado nas cruzadas, Robin de Locksley (Kevin Costner) foge ao lado de Azeem (Morgan Freeman) e volta para a Inglaterra, onde encontra seu pai (Brian Blessed) morto e descobre os planos do xerife de Nottingham (Alan Rickman), que fará de tudo para que o rei Ricardo (Sean Connery) não volte ao trono. Após visitar sua amiga de infância Marian (Mary Elizabeth Mastrantonio), ele foge dos soldados do xerife liderados por Guy de Gisborne (Michael Wincott) e vai parar na temida floresta de Sherwood, onde encontrará João Pequeno (Nick Brimble), Will Scarlett (Christian Slater) e todos os foras-da-lei que serão liderados por ele na luta contra o xerife.

Apesar de seu início promissor, com a fuga de Robin e Azeem após serem capturados nas cruzadas, “Robin Hood, o príncipe dos ladrões” é um filme leve e despretensioso, que não deixa grandes reflexões e jamais faz um estudo mais profundo a respeito do homem que o inspirou, limitando-se a apresentar as aventuras de Robin e seu grupo nas florestas de Sherwood, balanceadas pelo tradicional romance com Lady Marian. Mas ainda que o tom leve domine a maior parte da narrativa, seu inicio é bastante sombrio e violento, com mãos de prisioneiros ingleses sendo arrancadas numa obscura prisão que reflete a dureza daquela vida. O forte contraste é notável já na chegada de Robin à Inglaterra, quando o visual agradável dá o tom leve e coerente com a lenda. Ainda assim, há espaço para o embate entre religiões que motivou a luta pela terra santa, um tema recorrente e interessante da narrativa, notável quando Robin diz que seu pai achava uma idiotice lutar nas cruzadas para impor sua crença à força ou quando Duncan (Walter Sparrow), após insultar os mouros, pergunta à Azeem a origem do nome dele. Escrito por Pen Densham e John Watson, baseado em história de Pen Densham, o roteiro de “Robin Hood” jamais se define como drama, comédia ou aventura, transitando entre os gêneros freqüentemente, mas, curiosamente, este “escorregão” acaba conferindo charme à narrativa (justamente por se tratar da encantadora lenda de Robin Hood), ao balancear os excelentes momentos de ação, como quando Robin e Azeem fogem para a floresta de Sherwood, com momentos bem humorados, como a chegada à casa de Lady Marian ou o próprio encontro entre Robin e aqueles que ele iria liderar num rio. Por outro lado, o maniqueísmo do longa é evidente, algo ilustrado até mesmo na direção de fotografia de Douglas Milsome, que busca apresentar a floresta de Sherwood constantemente iluminada, com os raios solares vazando as folhas das árvores, ao passo em que o castelo de Nottingham é freqüentemente filmado com pouca iluminação e predomínio das sombras, induzindo o espectador a simpatizar pelo “príncipe dos ladrões”. Mas nem tudo é perdido no roteiro de Densham e Watson, que apresenta, por exemplo, interessantes rimas narrativas, como a pergunta “ela vale a pena?” feita por Robin para Azeem, que refletirá no clímax da narrativa (e que inspirou parte da música tema do filme), ou quando Robin sai do banho e diz para Marian que “estava seguindo o conselho de uma donzela”. Finalmente, vale citar a referência a “O Feitiço de Áquila”, de Richard Donner, quando o frei entra no castelo e fala algo sobre as bebidas.

E se “Robin Hood” apresenta uma narrativa leve, Kevin Reynolds emprega uma direção enérgica, imprimindo um ritmo interessante à aventura, graças também à montagem ágil de Peter Boyle, que se destaca na seqüência final dentro do castelo de Nottingham e também na batalha de Sherwood, além da pequena seqüência de roubos na floresta, que mostra em poucos minutos o crescimento da lenda “Robin Hood”, e de um interessante raccord (corte), quando Mortianna fala para o xerife sobre uma aliança com sangue real e em seguida vemos Lady Marian. Mas este ritmo intenso da aventura não impede que o diretor indique com sutileza, por exemplo, que Will é irmão de Robin, ao focar rapidamente seu rosto após o irmão dizer pela primeira vez seu nome para os donos da floresta, assim como é sutil o momento em que as sombras na parede indicam que os soldados seguirão Duncan. Mas são nas curiosas câmeras que acompanham as flechas que o diretor consegue causar impacto, criando seqüências empolgantes nos treinamentos e um plano belíssimo em câmera lenta, quando Robin atira uma flecha de fogo e salva o irmão. Obviamente, o diretor não perde a oportunidade de explorar o potencial do então astro Kevin Costner para alavancar a bilheteria, abusando de closes e explorando os belos momentos vividos pelo herói e sua amada Marian, como quando o casal desce de uma árvore preso numa corda. Reynolds, no entanto, conduz com irregularidade a batalha na floresta, intercalando bons e maus momentos que culminam no suspense barato sobre a morte de Robin (todos sabem que ele não morreria daquela forma). Por outro lado, o longa apresenta um bom trabalho técnico, com destaque para a direção de arte de Fred Carter, que capricha nas armas dos soldados e nos castelos de Nottingham e Locksley, nos transportando para aquela época. Também colaboram os ótimos figurinos de John Bloomfield, a começar pela caracterização de Robin Hood (o visual foge ao tradicional, mas mantém o charme do “bom ladrão”) e Azeem, passando pelos camponeses e suas roupas rasgadas e chegando aos soldados de Nottingham, com suas impecáveis armaduras. E certamente o maior destaque da parte técnica é a sensacional trilha sonora de Michael Kamen, que alterna entre trechos empolgantes e melódicos, como a despedida de Robin e Marian à beira de um rio (num admirável plano de Reynolds) em que a trilha se funde à melodia da bela música tema “Everything I do (I do it for you)”, de Bryan Adams.

Infelizmente, o que deveria ser uma das grandes forças de “Robin Hood, o príncipe dos ladrões” acaba se revelando uma decepção, pois o talentoso elenco liderado por Kevin Costner e Morgan Freeman entrega atuações discretas, inferiores à capacidade da maioria deles. A começar por Costner, que escorrega ao falar o inglês norte-americano, obviamente contrariando a origem britânica do herói. Além disso, o ator não demonstra com realismo o sofrimento pela perda do pai, parecendo estar conformado quando deveria estar indignado. Por outro lado, confere um carisma enorme ao ladrão romântico, especialmente nos momentos de humor, como quando pergunta ao pequeno Wulf (Daniel Newman) se João Pequeno era o pai dele, imitando o sorriso sem graça do garoto em seguida, ou quando arranca um anel e um sorriso de uma bela princesa. Estabelecendo boa química com Freeman e Mastrantonio, principalmente nas seqüências vividas na floresta, Costner salva sua atuação em pequenos momentos dramáticos, como o discurso na floresta, quando Robin se proclama o líder dos “foras-da-lei”, ou quando demonstra o quanto ele está arrasado após a batalha de Sherwood – numa das poucas cenas onde o grande talento de Freeman também aparece, com a marcante frase “não existem homens perfeitos, somente intenções perfeitas”. Mas apesar da atuação apenas discreta, Morgan Freeman demonstra sua qualidade ao compor com cuidado o personagem, por exemplo, falando um inglês sofrível e coerente com a origem moura de Azeem, alguém mais tolerante à diversidade que todos os ingleses, como notamos quando frei Tuck (Michael McShane) se revolta ao vê-lo fazer um parto, que curiosamente serviria para aproximar os dois. Já Mary Elizabeth Mastrantonio tem um começo discreto como Lady Marian, se soltando durante a narrativa e conseguindo empatia com Costner, o que é vital para o sucesso da seqüência final, quando Robin luta por ela. Enquanto isso, o Will de Slater parece sempre tenso, um verdadeiro rebelde sem causa (e o ator tem culpa nisso, por causa de sua atuação exagerada), mas o ator se redime parcialmente no momento em que revela seu parentesco com Robin, conferindo emoção à cena – ainda assim, esta revelação soa forçada e dispensável. E fechando o lado do “bem”, quem também se destaca é Michael McShane como frei Tuck, personificando o tom leve que Reynolds emprega a narrativa através de suas constantes piadas. No lado obscuro da trama, a Mortianna de Geraldine McEwan é a típica bruxa asquerosa – e seu visual horrível é reforçado por ratos, sapos, cobras e tudo que é repugnante, provocando a antipatia do espectador. Sempre que está em cena, Mortianna é envolvida por um visual obscuro, reforçando a tendência de apresentá-la como o “mau” a ser enfrentado, o que reflete também no personagem de Alan Rickman, o terrível xerife de Nottingham. Por outro lado, Rickman, com sua atuação exagerada, confere uma graça ao personagem que trabalha a favor do clima descontraído do longa, mas claramente enfraquece o vilão diante do espectador, apesar do chocante momento em que mata o próprio primo Guy no castelo. Aliás, com sua voz rouca e olhar firme, Michael Wincott faz de seu Guy de Gisborne um vilão até mesmo mais aterrorizante que o xerife de Nottingham.

Após a humilhante derrota sofrida em seu próprio território, Robin e seus amigos decidem evitar a tragédia completa e impedir o enforcamento de seus companheiros no castelo de Nottingham. Tem início então a melhor seqüência do filme, a sensacional cena do enforcamento, conduzida num ritmo intenso por Reynolds. Quando rufam os tambores e o carrasco escolhe Wulf para iniciar a cerimônia, o espectador, agoniado, conta com a mira de Robin, que tenta cortar a corda e acerta na segunda tentativa – e após ver as diversas proezas do herói com o arco e flecha, é normal que o espectador conte com seu sucesso na cena. Vale notar ainda como momentos antes a câmera focaliza duas vezes o barril, indicando sua importância na estratégia de Robin e sua equipe. Mas nem mesmo esta cena é perfeita, pois é totalmente incompreensível a provocação de Will quando Wulf é levado à forca – seria mais coerente ele ficar na dele, sem chamar a atenção. Após esta empolgante seqüência, o esperado duelo final entre o vilão e o mocinho resulta na morte do xerife, atingido pela faca que ele deu de presente para Marian (olha a rima narrativa aí), só que Rickman novamente exagera, se contorcendo e fazendo caretas até finalmente agonizar. O final feliz, com a chegada do rei Ricardo (Connery, em participação descartável), agrada ao espectador, mas deixa a sensação de que “Robin Hood, o príncipe dos ladrões” tinha potencial para oferecer mais.

Em resumo, “Robin Hood – O Príncipe dos Ladrões” diverte, mas não vai além. Kevin Reynolds até apresenta cenas interessantes, Kevin Costner confere charme ao herói, Freeman e Mastrantonio estabelecem boa química com o astro, mas infelizmente o longa não passa de uma diversão sem compromisso. Talvez Reynolds tivesse a melhor das intenções ao juntar um ótimo elenco para contar a lendária história de Robin Hood. Mas, nas palavras de Azeem, “não existem homens perfeitos, somente intenções perfeitas”.

Texto publicado em 23 de Dezembro de 2010 por Roberto Siqueira

O SILÊNCIO DOS INOCENTES (1991)

(The Silence of the Lambs)

 

Videoteca do Beto #79

Vencedores do Oscar #1991

Dirigido por Jonathan Demme.

Elenco: Anthony Hopkins, Jodie Foster, Lawrence A. Bonney, Kasi Lemmons, Lawrence T. Wrentz, Scott Glenn, Anthony Heald, Frankie Faison, Stuart Rudin, Leib Lensky, Brooke Smith, Ted Levine, Pat McNamara, Kenneth Utt, Diane Baker, Don Butlen e Masha Skorobogatov.

Roteiro: Ted Tally, baseado em livro de Thomas Harris.

Produção: Kristi Zea.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Na cerimônia do Oscar de 1992, um filme surpreendeu a todos e levou os cinco principais prêmios da noite. Era “O Silêncio dos Inocentes”, excelente terror psicológico dirigido pelo versátil Jonathan Demme e estrelado com brilhantismo por Jodie Foster e Anthony Hopkins, que com sua atmosfera tensa, suga o espectador de maneira intensa e entrega uma narrativa maravilhosa, capaz de provocar frio na espinha de qualquer um, sem jamais apelar para imagens chocantes ou altos acordes da trilha sonora. É a história e, principalmente, os personagens que constroem o clima perfeito de suspense.

Clarice Starling (Jodie Foster) é escolhida para investigar uma série de assassinatos cometidos por um criminoso conhecido como “Buffalo Bill” (Ted Levine), que costuma arrancar a pele de suas vítimas – normalmente, mulheres acima do peso. Para entender sua conturbada mente, Clarice procura conversar com um perigoso psicopata conhecido como Hannibal Lecter (Anthony Hopkins), que está preso sob a acusação de canibalismo.

Um dos aspectos marcantes de “O Silêncio dos Inocentes” é, sem dúvida alguma, a sua atmosfera sombria, repleta de tensão em cada minuto de projeção. Na maior parte do tempo o espectador se sente aflito, ameaçado e incomodado, como se algo de ruim estivesse sempre prestes a acontecer. Mas ao contrário da maioria dos suspenses, o longa não apela para sustos artificiais, conseguindo criar seu clima aterrorizante somente através da excelente narrativa, recheada de grandes atuações, além é claro do bom trabalho técnico. A começar pela fotografia sombria de Colleen Atwood, que utiliza cores frias e pouca iluminação em diversos ambientes para criar, com o auxilio da igualmente sombria trilha sonora de Howard Shore, toda esta atmosfera carregada. Obviamente, o intrigante roteiro escrito por Ted Tally, baseado em livro de Thomas Harris, é o principal responsável pela construção deste clima, fazendo com que o espectador se sinta completamente envolvido pela investigação comandada por Clarice. Além disso, Tally foge de clichês básicos dos filmes de “serial killer”, por exemplo, ao revelar o assassino com apenas 30 minutos de filme, mostrando que a narrativa não se concentrará na descoberta do criminoso. É a dinâmica entre Clarice e Lecter que conduzirá a trama, muito mais do que a própria caçada ao assassino. Outro segredo do excelente roteiro é a simplicidade aliada à eficiência, ou seja, a ausência de explicações mirabolantes para os assassinatos. Bill age naturalmente, começando sua coleção de vítimas com uma vizinha – nas palavras de Clarice, “alguém que ele conhecia”. Finalmente, a narrativa apresenta ainda uma série de simbolismos interessantes, como a inteligente explicação para o nome do filme, revelando o trauma de infância de Clarice ao fugir do local onde os cordeiros (“lambs”, em inglês) eram sacrificados – ela mal podia dormir com os gritos dos cordeiros. Outro simbolismo evidente e interessante é a utilização das mariposas, que representam a tão desejada transformação de Bill numa mulher. Note como este pequeno detalhe é vital para a narrativa, pois será justamente uma mariposa voando pela casa que confirmará para Clarice que ele é o assassino, até porque aquelas mariposas não existem nos Estados Unidos (elas eram importadas).

Além das notáveis qualidades do roteiro, “O Silêncio dos Inocentes” conta também com excelentes atuações. Na realidade, o longa é um legítimo “filme de atores”, praticamente carregado pelo magnetismo da performance de sua dupla principal. Como citado, a dinâmica entre Clarice e Lecter é o fio condutor da narrativa, e felizmente, Foster e Hopkins oferecem atuações espetaculares. A atriz, sempre expressiva e com olhar penetrante, transmite segurança nos momentos necessários, como quando se mostra durona ao abrir uma porta emperrada sozinha e entrar num galpão abandonado, mostrando que era capacitada para conduzir aquela perigosa investigação. Mas é nas conversas com Lecter que Foster se destaca, estabelecendo uma conexão impressionante com Hopkins, algo reforçado até mesmo pelos constantes closes de Jonathan Demme. A atriz é competente ainda ao demonstrar com sensibilidade o trauma que perturba Clarice quando fala sobre a morte de seu pai, num diálogo eletrizante que lhe garante algumas dicas a respeito de Buffalo Bill. Finalmente, Foster demonstra bem o choque e o incômodo de Clarice ao ver o estrago na moça encontrada no rio, transmitindo também angústia e pena através do olhar. Criando o contraponto ideal para a excelente atuação de Foster, Anthony Hopkins está sensacional como Hannibal Lecter, praticamente hipnotizando o espectador com seu olhar penetrante, sua voz calma e sua inteligência. Lecter é praticamente um “gentleman”, mostrando-se educado e gentil, por exemplo, quando oferece uma toalha para Clarice se secar após chegar molhada pela chuva e, em seguida, ao perguntar sobre a ferida dela. Quando Miggs (Stuart Rudin) diz algo ofensivo para a agente, ele se mostra claramente incomodado, o que servirá para que Lecter revele sua faceta extremamente letal, ao provocar a morte do presidiário somente através de palavras sussurradas durante a noite. Personagem fantástico e fascinante, Lecter consegue conquistar a platéia, ainda que seja um assassino cruel, muito por causa da excepcional atuação de Hopkins. Entretanto, por mais educado e polido que seja, é inegável que a imagem de Hannibal com a focinheira é simplesmente aterrorizante. Aterrorizante também está Ted Levine como Buffalo Bill, compondo um homem imprevisível e assustador, capaz de “cuidar” durante semanas de suas vítimas, até que elas percam peso suficiente para que ele lhes retire a pele. Sua personalidade conturbada é ilustrada através de sua casa, repleta de objetos espalhados por todas as partes. Por outro lado, sua natureza meticulosa fica evidente somente pelo fato de criar mariposas, certamente uma atividade que exige paciência e tempo. Assassino frio e calculista, Bill era capaz de esperar o tempo que fosse necessário para conseguir o que queria de suas vítimas. Finalmente, Scott Glenn tem uma atuação discreta como o chefe de Clarice, Jack Crawford, e Brooke Smith está ótima como Catherine, a filha da senadora seqüestrada por Bill, com destaque para a cena em que vê as marcas de unhas e sangue na parede do poço e se desespera.

Extraindo o melhor do elenco afinado que tinha nas mãos, Jonathan Demme é competente também na composição de planos simbólicos, como o primeiro plano do longa, quando Clarice surge pequena em meio às árvores e se agiganta na tela, numa alusão interessante à própria história que será narrada, em que a estagiária se agigantará durante a investigação. Em seguida, o diretor emprega um plano-seqüência que acompanha desde o treinamento de Clarice até sua entrada na sala de Crawford, nos levando junto com a agente e começando a estabelecer empatia entre ela e o espectador. E apesar de evitar abusar de imagens chocantes, o diretor apresenta o resultado nada agradável dos ataques de Bill através de fotos coladas nas paredes com as vítimas de “Bill Skin”, estabelecendo desde então o perigo daquela investigação. Mas é na chegada de Clarice ao local onde Lecter está preso que o excelente trabalho do diretor fica evidente. Após nos levar por um extenso e intimidante caminho, repleto de grades que impedem o acesso ao local, finalmente chegamos ao corredor onde os piores criminosos imagináveis se encontram. Mas para nossa surpresa, Demme contraria todas as nossas expectativas ao apresentar um verdadeiro “gentleman” ao invés do animal que estávamos esperando. Auxiliado pela excepcional direção de arte de Tim Galvin, o diretor cria o contraste perfeito entre as celas asquerosas dos outros presos e o ambiente limpo do “doutor” Lecter. Por outro lado, o vidro que garante este visual mais “requintado” também serve para demonstrar o perigo que aquele homem representa, num sistema de proteção ainda mais eficiente que as tradicionais grades. Durante a primeira conversa da dupla, Demme utiliza constantemente o close nos olhos de Foster e Hopkins, criando uma conexão entre eles, que será vital para o futuro da narrativa. O close voltaria a ser utilizado com freqüência posteriormente, fazendo com que o espectador se sinta próximos dos personagens e praticamente entre em seus pensamentos.

Como em todo bom suspense, “O Silêncio dos Inocentes” tem uma coleção de cenas arrepiantes. Mas a principal delas certamente é a extraordinária revelação do truque de Hannibal Lecter, após a tensa seqüência em que os policiais aguardam a descida de um elevador. Quando o psicopata se levanta e tira a pele do rosto, atacando o enfermeiro que o acompanhava na ambulância, o choque é inevitável. Demme conduz a cena com perfeição, auxiliado pela montagem de Craig McKay, que alterna entre o tenso momento em que os policiais cercam o elevador por todos os lados e a surpreendente seqüência na ambulância. A montagem de McKay, aliás, é outro aspecto relevante do longa, destacando-se especialmente na invasão da casa de Bill, quando somos completamente enganados somente por causa da decupagem da cena. Observe como a alternância entre os planos que mostram a preparação dos policiais e aquele com a campainha tocando nos dá a sensação de que o FBI estava invadindo a casa correta, quando na realidade era Clarice quem estava certa. Momentos antes, Demme indica sutilmente que isto irá acontecer através de um travelling que vai do rio até a casa de “Bill”, indicando o local onde a primeira vítima (encontrada por último, por causa dos pesos que ele amarrou nela) foi jogada, bem perto da casa dele. Novamente a simplicidade é a chave do sucesso da narrativa. O tenso final é a cereja do bolo, em outra cena bem conduzida pelo diretor, que utiliza uma câmera subjetiva para nos colocar sob a visão de Clarice e depois, já no escuro, nos coloca sob o ponto de vista de Buffalo Bill, com seu aparelho de visão noturna. O som do gatilho salva a agente do FBI e finalmente silencia os cordeiros, respondendo a brilhante pergunta de Hannibal Lecter, feita por telefone nos segundos finais do filme.

Com um roteiro sensacional, um elenco competente e muita habilidade na condução da narrativa, “O Silêncio dos Inocentes” se estabelece como um suspense acima de média, intenso e eletrizante. Além disso, apresentou ao mundo um dos mais icônicos personagens do cinema, o psicopata brilhantemente interpretado por Anthony Hopkins, que inspirou novos filmes e marcou toda uma geração. Se os cordeiros de Clarice silenciaram, os nossos estavam apenas começando a gritar.

Texto publicado em 21 de Dezembro de 2010 por Roberto Siqueira

O EXTERMINADOR DO FUTURO 2: O JULGAMENTO FINAL (1991)

(Terminator 2: Judgement Day)

 

Videoteca do Beto #78

Dirigido por James Cameron.

Elenco: Arnold Schwarzenegger, Linda Hamilton, Edward Furlong, Robert Patrick, Earl Boen, Joe Morton, S. Epatha Merkeson, Castulo Guerra, Danny Cooksey, Jenette Goldstein, Xander Berkeley, Ken Gibbel e Leslie Hamilton Gearren.

Roteiro: James Cameron e William Wisher Jr.

Produção: James Cameron.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Normalmente, seqüências de filmes de sucesso apresentam narrativas inferiores aos antecessores, dando a sensação de que foram feitas somente para lucrar nas bilheterias, aproveitando o embalo do sucesso anterior. Obviamente, existem exceções, como “De Volta para o Futuro 2” ou “O Poderoso Chefão – Parte II”, considerados filmes superiores aos antecessores por muita gente – o que eu não concordo. Para mim, é justamente na franquia “O Exterminador do Futuro” que esta situação acontece. Revertendo nossas expectativas iniciais e apresentando cenas ainda mais empolgantes de ação, baseadas num roteiro inteligente e bastante criativo, “O Exterminador do Futuro 2” se estabelece como o melhor filme da série, um verdadeiro marco do cinema de ação dos anos 90.

Sarah Connor (Linda Hamilton) está internada num hospital psiquiátrico após ser considerada louca por falar da vinda de um exterminador do futuro. Seu filho, John Connor (Edward Furlong), é criado por pais adotivos e, segundo ela, será o responsável pela salvação da humanidade num futuro dominado pelas máquinas. Para a surpresa de todos, as palavras de Sarah se mostram verdadeiras quando os andróides T-800 (Arnold Schwarzenegger) e T-1000 (Robert Patrick) chegam do futuro e partem em busca do jovem John com intenções distintas.

Escrito por James Cameron e William Wisher Jr., “O Exterminador do Futuro 2” suga o espectador pra dentro da narrativa logo em sua introdução, relembrando fatos acontecidos no passado e nos situando na história. Repleto de frases interessantes, como quando T-800 vê duas crianças brincando de trocar tiros e diz que “É da natureza de vocês se destruírem” ou quando Sarah diz para Miles (Joe Morton) que “homens como você fizeram a bomba de hidrogênio”, a principal qualidade do roteiro reside em inverter completamente nossas expectativas ao apresentar o vilão do filme anterior como herói neste segundo filme, algo, aliás, trabalhado cuidadosamente por Cameron para provocar surpresa no espectador. O roteiro ainda desenvolve muito bem os complexos personagens, conseguindo criar uma relação crível entre o andróide e o garoto, além de evidenciar o peso que Sarah carrega por saber da importância que ela e o filho têm na tentativa de evitar um futuro sombrio, dominado pelas máquinas. A frieza daquele mundo visto no primeiro filme, aliás, é mantida pela fotografia azulada de Adam Greenberg nesta seqüência. Por outro lado, Greenberg utiliza cores mais quentes no presente e até mesmo um visual árido no deserto mexicano, que ilustra um futuro tão incerto quanto o daquelas pessoas perdidas em vastos terrenos sem vida. O futuro incerto, aliás, é o tema da franquia, que garante (pelo menos até este segundo filme) que nós escrevemos o próprio destino. A fotografia azulada volta no terceiro ato, reforçando o embate entre os frios exterminadores, mas dá lugar a um visual mais infernal no desfecho da luta entre ambos, que confere ares apocalípticos ao confronto.

Destaca-se ainda o excepcional trabalho de som e efeitos sonoros, perceptível nas diversas e sensacionais cenas de ação, além dos inovadores efeitos visuais do longa, desenvolvidos por diversos estúdios diferentes (Industrial Light & Magic, Pacific Data Images, Fantasy II Film Effects, 4-Ward Productions e Stan Winston Studio) e que garantem um realismo ímpar para a época. Novamente, Cameron soube utilizar a tecnologia a favor da narrativa, evitando cair na armadilha de tornar-se refém dos efeitos visuais, algo tão comum atualmente. Pra completar o excelente trabalho técnico, a trilha sonora de Brad Fiedel é ótima, intensa e com variações bastante sombrias. Vale notar ainda como a energia da música tema “You could be mine”, do Guns n’ Roses (na época no auge da carreira), representa bem a rebeldia de John Connor, um jovem claramente perturbado por viver longe dos pais biológicos. Não por acaso, os primeiros minutos de John em cena apresentam o rapaz utilizando um cartão roubado e um programa de computador para sacar dinheiro, falando mal de sua mãe e andando de moto com seu amigo pelas ruas da cidade, reforçando a imagem de “bad boy”. Não é fácil para um jovem ver sua mãe internada num hospício e ser criado por pais adotivos que não demonstram amor por ele.

Interpretado com carisma pelo jovem Edward Furlong, John Connor se esconde sob esta capa de rebeldia, mas claramente se sente desprotegido diante de um mundo hostil e cruel, algo agravado pela conturbada relação com os pais adotivos e pela “loucura” de sua mãe biológica. Até por isso, é compreensível que o jovem encontre no exterminador a figura paterna que tanto lhe faz falta, como notamos na bela cena em que eles brincam no deserto mexicano (reforçada pela desnecessária narração de Sarah). Felizmente, Furlong estabelece boa química com Schwarzenegger, o que é essencial para o sucesso da narrativa. Essencial também é o excelente desempenho de Linda Hamilton, novamente muito bem como Sarah Connor, uma mulher amargurada pelo peso do passado e pela responsabilidade que carrega nos ombros. A atriz se destaca especialmente na excepcional cena da conversa com o psiquiatra que aparece num vídeo gravado, onde transmite toda a amargura e revolta da personagem. Já Robert Patrick cria um vilão aterrorizante através de sua face desprovida de sentimentos e emoções, dando a sensação de que nada poderá deter o seu T-1000. Obstinado e sempre buscando cumprir sua missão, o vilão é a personificação do pior dos pesadelos, alguém que jamais dorme ou descansa, que não sente dor e que se recompõe em questão de segundos, graças ao metal líquido que constitui sua matéria-prima. Ao contrário dele, o exterminador vivido por Arnold Schwarzenegger desenvolve sentimentos ao longo da narrativa, estabelecendo uma interessante relação com John – ele chega a criar um código de ética próprio por causa do garoto, indo diretamente contra sua natureza exterminadora (“Ele viverá”, diz, após atirar nas pernas de um segurança, evitando matá-lo). Aliás, como afirmei na crítica do primeiro filme, o papel do exterminador é perfeito para Schwarzenegger, que encarna muito bem o homem-máquina com seu jeito durão e de poucas palavras, saindo-se bem também nas constantes piadinhas que solta durante a projeção.

Demonstrando completo domínio da narrativa e muita energia na condução das cenas de ação, James Cameron conduz o longa com segurança e em bom ritmo, graças também à montagem de Conrad Buff IV, Dody Dorn, Mark Goldblatt e Richard A. Harris. Observe, por exemplo, como o diretor cria o clima ideal para o encontro entre os exterminadores, sem jamais deixar transparecer as intenções de cada um na busca por John Connor. Momentos antes do primeiro encontro, quando o dono do bar ameaça o exterminador, o plano do pedal da moto descendo indica ao espectador que aquela atitude foi equivocada e custará caro, reforçando a imagem pré-concebida de que T-800 é cruel, algo ilustrado também pela roupa preta e pelos óculos escuros do andróide (figurinos de Marlene Stewart), que ajudam a criar a falsa expectativa de que ele ainda é o vilão. Por isso, no sensacional primeiro encontro entre T-800, T-1000 e John Connor, a câmera lenta de Cameron, além de captar com precisão cada reação, faz o espectador ficar com o coração na boca até o momento em que nossas expectativas são invertidas e T-800 se revela o “protetor” de Connor, provocando o choque na platéia – repare também a referência à banda responsável pela música tema do filme, quando Cameron foca a arma e as rosas no mesmo plano.

Felizmente, as ótimas cenas de ação de “O Exterminador do Futuro 2” não são a razão de existir do longa, servindo apenas como complemento para uma narrativa bem desenvolvida. E entre tantas cenas marcantes, destaca-se a perseguição do T-1000 num caminhão enquanto John foge numa moto e o exterminador persegue ambos em outra moto, onde a alternância entre os planos confere uma dinâmica interessante à cena, e a seqüência da fuga da Cybernet, que também é carregada de adrenalina. Já a tensa seqüência dentro do hospital psiquiátrico é construída lentamente, nos levando até o magnífico reencontro entre T-800 e Sarah, também conduzido em câmera lenta e seguido pela excepcional fuga do trio num carro em marcha ré. Observe como o som diegético trabalha a favor da cena, colaborando na criação do suspense, intensificado pelas realistas mortes durante a fuga de Sarah, em outro momento inspirado de Hamilton, que demonstra força também nas cenas mais agressivas. E finalmente, o esperado confronto entre os exterminadores fecha com chave de ouro as grandes cenas de ação, quando o tiro certeiro de Sarah encerra a passagem de T-1000 pelo passado – e a triste despedida de T-800, com o polegar levantado para John, chega até mesmo a emocionar, por causa da bela relação que eles desenvolveram.

Misturando aspectos de filmes de terror e uma inteligente premissa de ficção-científica, “O Exterminador do Futuro 2” se estabelece como um filme superior ao seu antecessor, utilizando suas empolgantes cenas de ação como complemento para uma narrativa inteligente, que desenvolve personagens complexos e cativantes e deixa uma interessante mensagem. Se nós somos os únicos responsáveis pelo nosso destino, Cameron assegurou o futuro dele no cinema, acertando novamente na escolha e entregando outro filme maravilhoso.

Texto publicado em 19 de Dezembro de 2010 por Roberto Siqueira

JFK – A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR (1991)

(JFK)

 

 

Videoteca do Beto #77

Dirigido por Oliver Stone.

Elenco: Kevin Costner, Tommy Lee Jones, Joe Pesci, Sissy Spacek, Laurie Metcalf, Gary Oldman, Kevin Bacon, Beata Pozniak, Donald Sutherland, Jack Lemmon, Walter Matthau, Vincent D’Onofrio, Martin Sheen, Michael Rooker, Jay O. Sanders, Brian Doyle-Murray, Gary Grubbs, Wayne Knight, Jo Anderson, Pruitt Taylor Vince, Sally Kirkland, Steve Reed, Jodie Farber, Columbia Dubose, Randy Means, Gary Carter, John Candy, Lolita Davidovich, Dale Dye, Ron Rifkin e Jim Morrison.

Roteiro: Oliver Stone e Zachary Sklar, baseado nos livros de Jim Marrs e Jim Garrison.

Produção: A. Kitman Ho e Oliver Stone.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Oliver Stone é um diretor polêmico, capaz de tocar na ferida provocada pela guerra do Vietnã como poucos (“Platoon” e “Nascido em 4 de Julho”), de criticar o sensacionalismo da imprensa (“Assassinos por Natureza”) e de mostrar o mundo obscuro dos negócios (“Wall Street – Poder e Cobiça”). Mas apesar de sua conhecida coragem, nunca o diretor foi tão polêmico (e proporcionalmente competente) como em “JFK – A pergunta que não quer calar”, filme que escancarou para o mundo a até hoje mal explicada solução dada para o assassinato de John Kennedy pela comissão Warren. Com um elenco numeroso e afinado e muita competência na organização de uma narrativa complexa, Stone entregou uma verdadeira obra-prima do cinema, que se não prova definitivamente a existência de uma conspiração, chega muito perto disto.

O promotor Jim Garrison (Kevin Costner) decide liderar uma investigação extra-oficial para o assassinato do presidente John F. Kennedy na tentativa de provar a existência de uma gigantesca conspiração, contrariando a conclusão da comissão Warren, que afirma ser Lee Harvey Oswald (Gary Oldman) o único responsável pelo crime.

Escrito por Oliver Stone e Zachary Sklar, baseado nos livros de Jim Marrs e Jim Garrison (olha ele aqui), “JFK” apresenta uma narrativa incrivelmente complexa, que consegue manter a atenção do espectador em cada minuto de projeção. O intrincado roteiro, repleto de informações e diálogos ágeis, além de flashbacks acompanhados de imagens que ilustram o raciocínio dos personagens, apresenta uma gama enorme de personagens numa seqüência estruturada com perfeição para que o espectador não se perca diante de tamanha complexidade. Este impressionante número de personagens importantes que cruzam a narrativa serve também para reconstituir com precisão o complicado processo de investigação daquele dia trágico, sempre sob a liderança do centrado (porém inquieto) Jim Garrison. Toda a investigação, aliás, é conduzida num ritmo intenso, que leva o espectador junto na jornada, como se estivéssemos fazendo parte daquele processo ao lado da equipe de Garrison. E a base de todo o trabalho do promotor aparece logo na introdução do filme, num vídeo com imagens de arquivo que mostra John Kennedy declarando suas idéias sobre a guerra do Vietnã, sua pretensão de retirar as tropas norte-americanas da região, sua proposta de “mudança” no olhar para a União Soviética e sua intenção de mudar no conceito de paz, “diferente daquela paz imposta pelos Estados Unidos ao mundo através da força”. Não por acaso, logo após a morte de Kennedy, o novo presidente decide manter as tropas no Vietnã. E se este fato pode até ser questionado por aqueles que acreditam no “único culpado” Lee Oswald, a simulação no prédio, quando Garrison tenta reproduzir os tiros de Oswald com o mesmo rifle, prova definitivamente que a teoria da comissão Warren é, no mínimo, questionável.

É importante ressaltar, no entanto, que “JFK” não se resume às polêmicas que cercam sua obstinada investigação. O longa de Oliver Stone é, acima de tudo, um trabalho cinematográfico excepcional, que se destaca especialmente na direção de Stone, na montagem de Joe Hutshing e Pietro Scalia e na direção de fotografia de Robert Richardson. Stone conduz a narrativa com incrível habilidade, com sua câmera inquieta que auxilia no clima de urgência da narrativa, mas conta especialmente com a fantástica montagem de Hutshing e Scalia, que emprega um ritmo intenso, alternando com velocidade entre o presente, quando Garrison conduz a investigação, e o passado, quando as cenas revivem o fatídico dia, e, ao mesmo tempo, ilustram o pensamento dos personagens no presente. Na precisa reconstituição do assassinato, merece destaque também o som, com os gritos e tiros que dão a exata noção do pânico daquele momento, ampliado pela tensa trilha sonora de John Williams. Já a fotografia de Richardson utiliza diversas câmeras (incluindo câmeras de 16 mm e Super 8), indo do visual sépia para o preto-e-branco, e até mesmo utilizando imagens de arquivo para reforçar toda a teoria que inspira o longa. Stone chega a introduzir um vídeo chocante, com a imagem do exato momento em que Kennedy é atingido, numa imagem capaz de perturbar qualquer um.  Aliás, a longa e sensacional seqüência em que Garrison explica a “teoria da bala mágica” nocauteia o espectador, também por causa do excelente desempenho de Kevin Costner, que transmite muita confiança e emoção enquanto fala, provando sua qualidade como ator. Não sei se todas as pessoas e instituições citadas estavam envolvidas naquele assassinato, mas após esta explicação emocionada de Garrison, o vídeo e a informação de que os arquivos estão proibidos para o público até 2029 é muito difícil não concordar que realmente houve uma conspiração.

E já que citei Kevin Costner, vale dizer que todo este incrível trabalho técnico de nada adiantaria se as atuações de “JFK” não fossem tão competentes. A começar pelo próprio Costner, que encarna muito bem o tranqüilo Jim Garrison, numa atuação convincente e coerente com a personalidade do promotor, que lentamente altera seu comportamento, se tornando uma pessoa atormentada diante de suas descobertas, que influenciam até mesmo sua relação com a esposa Liz (Sissy Spacek, também em grande atuação), algo ilustrando perfeitamente quando ele perde o domingo de páscoa com a família para interrogar Clay Shaw (Tommy Lee Jones). A dinâmica do casal é fundamental para compreender os efeitos daquela investigação na vida do promotor, ilustrados na excepcional cena em que Jim e Liz discutem na frente dos filhos e, com seus gritos e vozes embargadas, demonstram a situação quase insustentável daquela relação – e aqui vale observar como Costner demonstra até mesmo certo desconforto por estar diante dos filhos, procurando abraçá-los imediatamente após o fim da discussão. O ator volta a se destacar ainda quando seu olhar mistura incredulidade e passividade diante da matéria da imprensa que busca destruir sua imagem diante da sociedade (algo que de fato aconteceu, pois até hoje muita gente afirma que Garrison buscava se promover ao se envolver em casos polêmicos, revelando um pensamento que certamente interessa às pessoas e instituições atingidas pela investigação dele). Ironicamente, sua própria esposa o acusa de estar fazendo o mesmo com a imagem de Clay Shaw, interpretado brilhantemente por Tommy Lee Jones, que transmite muito cinismo, especialmente quando é interrogado por Garrison, provocando a explosão do promotor, num diálogo tenso e muito bem construído. E o que dizer de Joe Pesci, novamente espetacular, fumando muitos cigarros e transmitindo com perfeição a inquietação de David Ferrie? Seu nervosismo fica ainda mais evidente quando ele vai ao encontro de Garrison, amedrontado com a descoberta da imprensa sobre as investigações, quando Pesci olha para todos os lados, abre as portas com desconfiança e se assusta quando alguém bate na porta, mostrando claramente o quanto Ferrie está perturbado – algo ilustrado também pela câmera agitada de Stone e pela trilha sonora acelerada. Seu desespero resulta na revelação das intenções da CIA e dos exilados cubanos, revoltados com a postura de Kennedy diante do fracasso da invasão da “baía dos porcos”. Já Kevin Bacon está excelente em sua pequena participação como Willie O’Keefe, o prisioneiro homossexual interrogado por Garrison, demonstrando através da fala rápida e do olhar agitado a inquietação do personagem. E finalmente, toda a equipe de Garrison mantém o bom nível das atuações, com destaque para Laurie Metcalf como Susie Cox, Michael Rooker como Bill Broussard e Jay O. Sanders como Lou Ivon.

Em certo momento de “JFK”, um personagem diz que a pergunta mais importante não é “quem” matou o presidente, mas “porque”. Trata-se do Sr. “X” (Donald Sutherland), que apresenta em poucos minutos o coração da teoria do filme. E confesso que é muito difícil (pelo menos pra mim) não acreditar nesta teoria diante da notória preferência norte-americana pelos conflitos armados. As guerras, obviamente, giram a economia do país, algo ilustrado sutilmente através das constantes notícias sobre o Vietnã no jornal e, de forma mais clara, nos números citados no longa, afinal de contas, são bilhões de dólares gastos na guerra – e estes dólares sempre entram no bolso de alguém. Sutherland colabora bastante para a credibilidade das informações dadas por seu personagem, transmitindo segurança no que fala e convencendo Garrison sobre a importância que a guerra tem para as empresas do país, como os citados fabricantes de helicópteros e até mesmo os fabricantes de armamentos. Diante de todo este cenário, é compreensível (ainda que repugnante) que um presidente que pregava a paz, a retirada das tropas do Vietnã e a reaproximação com a União Soviética fosse considerado uma ameaça aos interesses de muitos. Esta teoria é reforçada durante a discussão entre Bill e a equipe de Garrison, quando o jovem não se conforma diante das evidencias do envolvimento de instituições norte-americanas, algo amplificado pelo momento em que Garrison dá uma entrevista para uma emissora de televisão, demonstrando o envolvimento da imprensa em todo aquele processo. Pode parecer paranóia uma conspiração deste tamanho, mas sinceramente acho mais fácil acreditar nela do que na teoria da comissão Warren.

São tantos fatos históricos que reforçam os argumentos de “JFK” que é até mesmo incompreensível que algumas pessoas acreditem que apenas Lee Oswald seja o responsável pelo crime. Um destes fatos é a morte de Robert Kennedy, que aumenta ainda mais o desespero de Garrison – algo reforçado pelo zoom de Stone que realça a expressão de Costner. Depois deste fato, até mesmo Liz passa a acreditar no marido, e a fotografia sombria que envolve o beijo do casal, acompanhada pela triste trilha sonora e pela frase de Jim “queria poder te amar mais”, ilustra o quanto aquela relação foi enfraquecida pela investigação. E se podemos questionar a veracidade de alguns aspectos da impressionante investigação conduzida por Garrison ou considerar que Stone exagera na forma como os apresenta, a qualidade cinematográfica de sua obra é impressionante e inquestionável, conseguindo criar uma narrativa igualmente complexa e coesa.

Apresentando um dos fatos mais marcantes da história norte-americana e, mais do que isso, entrando em conflito direto com importantes órgãos como o FBI e a CIA, “JFK – A pergunta que não quer calar” impressiona principalmente porque a polêmica que o envolve é apenas um dos aspectos relevantes de um longa que acerta em praticamente tudo, começando pelos magníficos aspectos técnicos, passando pelas ótimas atuações e fechando na excepcional direção de Oliver Stone. Ao contrário do assassinato de Kennedy, aqui o organizado trabalho em conjunto resultou em algo benéfico. E assim como naquele abominável crime, este resultado ficará marcado eternamente na memória.

Texto publicado em 16 de Dezembro de 2010 por Roberto Siqueira