FILADÉLFIA (1993)

(Philadelphia)

 

Videoteca do Beto #93

Dirigido por Jonathan Demme.

Elenco: Tom Hanks, Denzel Washington, Joanne Woodward, Jason Robards, Antonio Banderas, Roberta Maxwell, Karen Finley, Mark Sorensen Jr., Jeffrey Williamson, Charles Glenn, Ron Vawter, Anna Deavere Smith, Stephanie Roth, Lisa Talerico, Robert Ridgely e Buzz Kilman.

Roteiro: Ron Nyswaner.

Produção: Jonathan Demme e Edward Saxon.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um dos primeiros filmes de Hollywood a falar abertamente sobre a AIDS, “Filadélfia” emociona não apenas por tratar com extrema sensibilidade desta terrível doença, mas também por abordar com extrema coragem outro tema bastante complicado, que é o preconceito contra os homossexuais. Através da triste história de seu protagonista e, principalmente, da trajetória do advogado que o defende, o longa dirigido por Jonathan Demme nos mostra como este preconceito é desprezível e que todos podemos mudar, desde que estejamos dispostos a isto.

Escrito por Ron Nyswaner, “Filadélfia” nos conta a história do promissor advogado Andrew Beckett (Tom Hanks), que é despedido de um importante escritório da Filadélfia quando seus superiores, especialmente o renomado Charles Wheeler (Jason Robards), descobrem que ele é portador do vírus da AIDS. Inconformado, ele procura o competente advogado Joe Miller (Denzel Washington), que encontra no caso de Andrew um verdadeiro desafio pessoal, sendo obrigado a lutar contra o seu próprio preconceito.

“Filadélfia” veio ao mundo numa época em que a AIDS ainda era um grande mistério e quando poucos filmes tinham coragem de falar abertamente do assunto. A doença era um verdadeiro tabu e todo tipo de boato circulava entre as pessoas, que não se preocupavam em saber exatamente como o vírus era contraído e quais eram as conseqüências que ele trazia, algo que o longa ilustra muito bem, especialmente através do personagem Joe Miller, interpretado por Denzel Washington. Mas, antes disto, a narrativa nos apresenta o advogado Andrew Beckett, que observa atentamente as pessoas ao seu redor enquanto faz exames de rotina – e seu olhar de compaixão por aqueles homens debilitados fisicamente se revelaria uma trágica ironia do destino. Na vida profissional, Andrew vive um momento especial, sendo escolhido para cuidar do caso de um dos mais importantes clientes do escritório comandado por Charles Wheeler. Mas tudo muda quando algumas manchas começam a aparecer em seu corpo, gerando a desconfiança de seus companheiros de trabalho ainda durante as comemorações de sua nova conquista (e a trilha sonora sombria indica o destino cruel do protagonista neste momento).

Sempre buscando debater o preconceito, o diretor Jonathan Demme procura mostrar com naturalidade o convívio entre os homossexuais, como quando Andrew tenta disfarçar as feridas em seu rosto, brincando com seus amigos sem grandes preocupações. Mas, ao mesmo tempo em que humaniza aquele grupo de pessoas, Demme indica, através de um amigo (aquele com a toca na cabeça), que o vírus já estava presente naquele meio, o que traz preocupação a todos quando “Andy” começa a passar mal, num indício claro de que ele poderia estar infectado, reforçado quando ele aparece careca e com o semblante abatido no escritório de Joe. Repare que Demme evita mostrar o momento em que ele descobre ter o vírus da AIDS, preferindo fazer esta revelação de maneira crua e direta numa conversa com Joe, provocando no espectador o mesmo choque do personagem vivido por Washington. Antes disso, o diretor inteligentemente nos mostra Joe atendendo outro cliente que, por contraste, nos revela seu preconceito, já que ele promete resolver um caso claramente indefensável, o que não faria momentos depois ao atender Andrew. Joe é um homem bem sucedido, que tem uma bela família e demonstra ter uma vida estável, como podemos notar num momento de extrema felicidade, quando acompanha o nascimento da filha. Mas, quando ele ouve Andy dizer “eu tenho AIDS”, seu preconceito vem à tona (e o medo que a doença provoca nas pessoas também), fazendo com que ele se afaste imediatamente (repare como Washington olha rapidamente para sua mão, como quem tem medo de contrair a doença pelo toque). Demme evidencia o distanciamento através de um plano afastado, focando em seguida os objetos que Andrew toca, refletindo a preocupação de Joe, que é percebida por Andy, fazendo-o questionar se o parceiro de profissão não quer ajudá-lo por razões pessoais. A resposta positiva evidencia um pensamento comum numa época em que a AIDS ainda era um grande mistério e normalmente era associada aos homossexuais, como fica claro também em sua conversa com a esposa (“Não gosto de homossexuais”) e nos protestos na porta do tribunal da Filadélfia, que dividem as pessoas em dois grupos: os que demonstram solidariedade pela pessoa infectada pelo vírus e os que condenam sua opção sexual. Só que “Filadélfia” faz questão de ressaltar que o vírus da AIDS não se restringe aos homossexuais, através de uma personagem que contraiu o vírus numa transfusão de sangue, e que nem todo homossexual é aidético, ao espalhar personagens perfeitamente saudáveis como o próprio Miguel (Antonio Banderas).

Sofrendo uma visível transformação física, Tom Hanks tem uma atuação maravilhosa (ele perdeu aproximadamente 20 quilos para interpretar Andy nos estágios finais da doença), ganhando a empatia do espectador com seu jeito simpático (repare como ele sempre pergunta sobre a filha de Joe quando o vê) e nos comovendo com sua luta pela vida e por seus direitos – e neste aspecto, o apoio incondicional de sua família “mente aberta” é muito importante. O contraste entre o Andy contente e saudável do início e o homem abatido do final é chocante, e Hanks colabora muito para isto com seu semblante triste e abatido (destaque também para a excelente maquiagem feita no ator). Além disso, desde a primeira cena, quando se enfrentam num tribunal, Hanks e Washington conseguem criar uma empatia vital para o sucesso da narrativa. E se a transformação de Andrew é física, a de Joe é puramente psicológica e Washington demonstra isto muito bem, defendendo com veemência seu cliente, primeiro por causa da lei, depois porque muda sua postura diante do homossexualismo, chegando a freqüentar uma festa gay com o agora amigo Andy. E para isto, ele não mudou sua opção sexual, apenas passou a respeitar uma opção diferente da sua, o que não o impede de ficar irritado quando um gay lhe passa uma cantada numa farmácia. Esta transformação começa a ocorrer quando Joe resolve ajudar Andy numa biblioteca (após se esconder atrás dos livros para que ele não o veja), interrompendo uma constrangedora conversa entre Andy e um funcionário incomodado por sua presença. O desempenho de Washington melhora ainda mais durante o julgamento, onde ele se solta, dando um show de interpretação e conferindo emoção em seus argumentos ao confrontar a irônica (irritante até) advogada que defende o escritório de Wheeler. Aliás, ela consegue irritar até mesmo o controlado Andrew, como podemos notar quando repete seguidas vezes a palavra “fato” e, no segundo plano, Andy olha fixamente pra ela. Fechando o elenco, Antonio Banderas interpreta Miguel, o parceiro de Andrew, e o veterano Jason Robards vive Charles Wheeler, o poderoso dono do escritório de advocacia.

Como grande parte da narrativa se passa dentro de um tribunal, “Filadélfia” poderia se tornar cansativo, mas felizmente Demme emprega elegantes movimentos de câmera no julgamento, nos fazendo passear pelo local com seus travellings ou com um pequeno plano-seqüência que nos leva do banheiro masculino até o meio do tribunal, além de, por exemplo, nos aproximar de Joe quando ele fala perto do juiz sobre o medo que as pessoas têm dos homossexuais através de um zoom, que serve também para agigantá-lo na tela. Além disso, o diretor conta com a montagem de Craig McKay, que insere flashbacks, como quando alguém cita um momento vivido na sauna entre Charles e Andrew, o que confere um ritmo mais interessante a narrativa. O diretor demonstra ainda sensibilidade na criação de planos simbólicos, como o contra-plongèe que diminui os advogados na biblioteca quando eles lêem sobre o que caracteriza o preconceito contra os aidéticos, refletindo o quão pequeno e desprezível é este sentimento, ou nas primeiras cenas do longa, quando somos levados pelas ruas da cidade, embaladas pela linda música tema de Bruce Springsteen “Streets of Philadelphia”, num passeio que faz “Filadélfia” nascer já nostálgico, apresentando uma espécie de despedida do local em que Andy viveu – e que foi o berço do movimento libertário no país. Aliás, a fotografia sem vida de Tak Fujimoto ilustra bem este sentimento, deixando as ruas acinzentadas e tristes. Finalmente, vale destacar os belos planos aéreos da cidade, outro plano-seqüência que nos leva pelos convidados na festa de Andrew e os constantes closes que destacam as feridas na cabeça do protagonista.

Enquanto acompanharmos os argumentos apresentados no julgamento, a mensagem principal de “Filadélfia” é plantada em nossas mentes. E mesmo pessoas que ainda têm preconceito podem começar a repensar o assunto, especialmente após o comovente momento em que Andy pede para Miguel parar de medicá-lo, claramente desistindo do tratamento e preferindo seguir o seu destino, mas não sem antes organizar uma festa, que serve como uma espécie de despedida das pessoas que ama. Mas, quando a festa acaba, Andy sente que o fim se aproxima – algo que Joe percebe nitidamente – e desiste de ensaiar suas falas para o dia seguinte no tribunal, se entregando à música, numa cena tocante, onde Hanks confere muita emoção cantando ópera com sentimento, deixando Joe perplexo por testemunhar um homem que estava se despedindo da vida naquele momento. Washington demonstra muito bem esta sensação, refletindo o instante em que Joe finalmente se deu conta que de fato Andrew estava morrendo. Repare como a iluminação da cena muda durante a performance apaixonada de Andrew, refletida nos tons avermelhados da fotografia de Fujimoto, assim como as sombras que envolvem Joe simbolizam o vazio de seu coração naquele instante. Após este momento intenso, Joe chega em casa e abraça a filha carinhosamente, dizendo que a ama, enquanto a ópera continua presente em sua memória, como bem reflete a trilha sonora. Ele sequer consegue dormir. Finalmente, Joe estava completamente transformado, como fica evidente no hospital, quando demonstra muito carinho pelos familiares de Andrew, incluindo Miguel. No dia seguinte ao turbilhão de emoções, Andy aparece totalmente debilitado no julgamento, tossindo, falando baixo e bastante magro. E enquanto a advogada faz uma série de questionamentos, ele começa a passar mal, algo ilustrado no plano levemente inclinado e na voz distorcida da advogada, caindo no chão e sendo levado ao hospital. O plano seguinte se inicia mostrando sua cadeira vazia no tribunal e, como ele mesmo tinha previsto, Joe ganha a causa, mas Andy não estava lá pra ver.

A despedida de Andrew no hospital é tocante, com o ângulo baixo da câmera de Demme nos colocando praticamente sob o ponto de vista dele enquanto seus familiares passam um por um. E é difícil segurar as lágrimas ao ver aquelas pessoas que parecem pressentir que aquele momento seria o último com seu ente querido. Após sua morte, a cerimônia de despedida, com o vídeo de Andrew criança, também emociona bastante, e o clipe final, embalado pela triste música “Philadelphia”, de Neil Young, encerra este filme sensível e corajoso, que fala abertamente sobre a AIDS e, principalmente, mostra como o preconceito é algo completamente sem sentido e idiota, pois, afinal de contas, independente de nossas opções sexuais, somos todos seres humanos.

“Filadélfia” aborda a AIDS com seriedade, mas também fala sobre o preconceito contra os homossexuais com coragem, ilustrado no personagem de Washington, que muda completamente durante a narrativa, passando a respeitar as pessoas, independente de sua opção sexual. Ele continua heterossexual, obviamente, mas agora respeita quem não tem a mesma opção que ele. Assim como merece respeito este corajoso filme, que ajudou a abrir caminho para discussões relevantes sobre o assunto.

Texto publicado em 30 de Março de 2011 por Roberto Siqueira

A LISTA DE SCHINDLER (1993)

(The Schindler’s List) 

 

 

Videoteca do Beto #92

Vencedores do Oscar #1993

Dirigido por Steven Spielberg.

Elenco: Liam Neeson, Ben Kingsley, Ralph Fiennes, Caroline Goodall, Jonathan Sagall, Embeth Davidtz, Malgoscha Gebel, Shmulik Levy, Mark Ivanir, Béatrice Macola e Andrzej Seweryn.

Roteiro: Steven Zaillian, baseado em livro de Thomas Keneally.

Produção: Branko Lustig, Gerald R. Molen e Steven Spielberg.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Diretor versátil e de enorme talento, Steven Spielberg é responsável por muitos dos filmes marcantes de minha geração. Mas, entre todos eles, confesso ter um carinho especial por este “A Lista de Schindler”, que narra a bela história de Oskar Schindler, o homem responsável por salvar mais de mil judeus da inevitável morte no Holocausto. Balanceando com enorme sensibilidade momentos tocantes e momentos bastante violentos, o diretor consegue um resultado magnífico, entregando um filme maior que, além de documentar uma fase negra da história da humanidade, serve como um fascinante estudo de dois personagens parecidos superficialmente, mas muito diferentes em sua essência.

O articulado Oskar Schindler (Liam Neeson) encontra uma oportunidade de ouro para fazer fortuna ao conseguir inaugurar uma fábrica na Polônia em plena segunda guerra mundial, onde empregava judeus, mão-de-obra praticamente escrava na época. Oportunista, sedutor e amante da boa vida, ele aproveita sua forte influência dentro do partido nazista para conseguir as autorizações que precisava e abrir a fábrica. Mas, com o passar do tempo, aquela atividade lucrativa se transforma numa luta para conseguir salvar a vida de mais de mil judeus, em pleno período de extermínio alemão.

Como de costume, Steve Spielberg conduz a narrativa de “A Lista de Schindler” com incrível segurança e precisão, transitando entre os momentos mais suaves, enquanto acompanhamos a vida de Oskar Schindler na fábrica e no alto escalão do partido nazista, e os momentos de tensão e violência, que mostram os abusos cometidos nos campos de concentração, como na cena tocante em que mães judias correm desesperadas ao verem suas crianças sendo levadas em caminhões, onde o diretor nos coloca dentro da cena, graças também ao excelente som que capta os gritos desesperados daquelas mulheres. Durante toda a projeção, existem vários exemplos das inúmeras atrocidades cometidas contra os judeus, como a morte de uma engenheira judia, o humilhante exame físico que separa os “doentes dos sãos” e os diversos tiros disparados contra a cabeça de homens e mulheres. O “auge” de toda esta selvageria acontece na extremamente violenta noite da extinção do gueto, onde após diversos assassinatos covardes, Spielberg encerra a seqüência com um plano geral do local, com os clarões e o som dos tiros dando a exata noção do tamanho do massacre, num momento em que a beleza visual contrasta diretamente com a tristeza que sentimos. Isto acontece porque, inteligentemente, o roteiro escrito por Steven Zaillian acompanha alguns personagens-chave do gueto (como o rapaz que foge pelo bueiro e o garoto alemão que salva a mãe de sua amiga), aproximando o espectador daquelas pessoas e criando empatia com elas. Sendo assim, se naturalmente nós já torceríamos por elas e sofreríamos com elas, esta decisão torna tudo ainda mais íntimo ao espectador. Outro exemplo claro da importância de nos aproximar dos personagens acontece quando Schindler vê uma garota vestida de vermelho, andando tranqüilamente no meio do massacre. A famosa garota de vermelho é um artifício inteligente de Spielberg, que, além de destacá-la na multidão (refletindo o que Schindler vê naquele momento), servirá para mostrar futuramente que nem mesmo as crianças eram poupadas daquele verdadeiro extermínio, através da triste imagem do corpo da garota prestes a ser cremado. Além disso, o roteiro ainda insere outros momentos que terão reflexo futuro na narrativa, como a história contada por uma mulher sobre o gás letal que substituía a água no banho das mulheres nos campos de concentração.

Ainda na direção, Spielberg abusa de planos elegantes, como podemos notar logo no jantar de apresentação do protagonista, em que o diretor alterna travellings pelo local e closes dele e das pessoas presentes, além de empregar o “still” (pause) para destacar cada foto tirada por Schindler e inserir um belo plano-seqüência que o acompanha na entrada no salão. Além disso, Spielberg conta com a iluminação perfeita do diretor de fotografia Janusz Kaminski, que também se destaca em outra cena num restaurante, durante um jantar entre Schindler e a esposa (nas duas cenas, observe a bela composição visual, contrastando as luzes e as sombras no rosto dos personagens). Aliás, a escolha do preto e branco soa totalmente acertada, porque além de amenizar a absurda violência dos atos que vemos, serve também para ilustrar o quão obscuro foi aquele período da história da humanidade, algo refletido desde a elegante transição das imagens coloridas para o preto e branco através da fumaça de uma vela, representando o momento em que aquela vida passará a existir somente na memória daquele povo, agora afundado numa realidade cruel e sem perspectivas. Spielberg é inteligente ainda ao indicar muitas coisas sutilmente, como no plano em que coloca Amon (Ralph Fiennes) e Schindler em lados opostos da mesa (e da tela), aproximando-os no final através de um zoom que indica o momento em que eles se entendem na negociação. Finalmente, repare na precisa composição visual da cena em que Amon tenta matar um senhor judeu após questionar o número de dobradiças que ele fez, onde podemos observar as frustradas tentativas do cruel nazista e, no segundo plano, garotos correndo desesperadamente para não ver aquele assassinato.

Enquanto assistimos “A Lista de Schindler”, somos sugados para aquele período da história, graças ao excelente trabalho técnico da equipe de Spielberg. A começar pela impecável direção de arte de Ewa Skoczkowska e Maciej Walczak e pelos figurinos de Anna B. Shepard, notável nos uniformes dos soldados alemães e nas roupas dos judeus, além da decoração das casas e, especialmente, no plano-seqüência que viaja sobre os objetos e roupas deixados pelos judeus antes de entrar num trem, que são separados pelos soldados alemães, numa indicação clara do destino trágico daquelas pessoas. Aliás, o fato dos soldados falarem o idioma alemão também ajuda na ambientação do espectador. Para completar a criação da atmosfera perfeita, a linda trilha sonora do excepcional John Williams, eterno colaborador de Spielberg, capta toda a essência daquele triste período da história em suas notas melancólicas no piano, como podemos notar no momento em que os judeus marcham para o gueto, quando a trilha ilustra a tristeza deles. E apesar de suas três horas de duração, “A Lista de Schindler” jamais se torna cansativo, graças ao excelente ritmo empregado pela montagem de Michael Kahn, que também cria pequenos momentos divertidos, como o teste de datilografia das candidatas à secretária de Schindler e a escolha dos produtos que farão parte da cesta que ele enviará aos alemães na inauguração da fábrica. Interessante também como a montagem de Kahn evidencia, através do contraste, o absurdo de toda aquela situação, como no momento em que Schindler ocupa um quarto espaçoso e aconchegante deixado pelos judeus, enquanto a família que ali morava se acomoda no apertado gueto. Repare também o pequeno momento de alivio cômico, tão raro no longa, quando o chefe da família diz que “poderia ser pior” e, segundos depois, chegam mais judeus para dividir o quarto com eles. Em outro momento, a montagem de Kahn intercala imagens de Oskar e Amon fazendo a barba. Aparentemente, eles são pessoas parecidas, membros do partido nazista e homens de respeito notório, mas, na essência, são pessoas bastante diferentes.

Muito bem interpretado pelo seguro Liam Neeson, Oskar Schindler é um homem com enorme facilidade de comunicação e bastante carismático, que se aproveita disto para criar uma boa imagem diante dos nazistas, o que lhe permitiria abrir sua fábrica de panelas e ganhar muito dinheiro – e Neeson é um ator que transmite a paz que o personagem exige. O mais fascinante é que Schindler tinha muitas das características dos nazistas do partido. Gostava da boa vida, das mulheres, da bebida e mantinha a aparência impecável em seus ternos de seda, o que faz com que um grupo de judeus saia de perto dele numa igreja, claramente assustados com a presença de um “nazista” ali. E assim como Amon, sua preocupação com a imagem é evidente, o que o leva a ficar profundamente irritado quando começa a ter fama de homem bom, pois sabia exatamente o perigo que aquilo representava. Ainda assim, Schindler se empolga na lavagem dos vagões de um trem, num raro momento em que deixa os alemães perceberem que ele se importava com o povo judeu. Coincidentemente, é preso em seguida, sob a acusação de ter beijado uma judia e, ironicamente, Amon intercede por ele e consegue sua liberação. E se no final vemos um Schindler obstinado, que vai buscar suas mulheres em Auschwitz e, pela segunda vez, suborna um oficial alemão para “comprar” os seus judeus, esta paixão pela vida parece brotar somente durante a projeção, numa transformação lenta e admirável do personagem que Neeson ilustra muito bem. Além disso, o ator se destaca quando questiona um soldado alemão que tentava tirar as meninas do trem, mostrando autoridade enquanto explica a função delas em sua fábrica. Já Ralph Fiennes encarna Amon Goeth com uma frieza palpável, tornando seu psicótico personagem em alguém ainda mais cruel. Seu olhar gélido e sua fala serena, sem oscilação no tom de voz, transmitem a segurança de um homem determinado a cumprir a missão que lhe deram e para quem atirar nos judeus da sacada era apenas uma diversão. Ainda assim, após ouvir Schindler falar que os imperadores eram poderosos porque podiam decidir não matar alguém, Amon tem um pequeno “acesso de bondade”, que dura apenas alguns minutos e termina no assassinato de seu empregado. Mas Amon não odiava todos os judeus que conhecia, como deixa transparecer na paixão que nutre por Helen, a empregada que ele escolheu a dedo assim que chegou à Polônia. Só que ele luta contra este sentimento, por causa de seu preconceito e, principalmente, para manter sua imagem diante dos companheiros de exército alemão, como fica evidente na cena em que ele quase confessa seu amor por ela na adega, mas acaba batendo novamente na jovem judia interpretada por Embeth Davidtz. Helen é só mais um exemplo da terrível condição daquelas pessoas, vivendo constantemente sob o medo da morte, como ela deixa claro numa conversa com Schindler (“Ele não vai te matar porque gosta de você”, diz Schindler). Fechando os destaques do coeso elenco, o ótimo Ben Kingsley também se destaca como Itzhak Stern, com suas falas rápidas e seu semblante sempre preocupado que transmitem com precisão o constante estado de tensão em que vive.

Steven Spielberg sempre foi habilidoso na arte de indicar sutilmente o que está acontecendo (como o copo d’água em “Jurassic Park” e a madeira boiando sem o cachorro em “Tubarão”) e, desta vez, são as cinzas caindo nas mãos de Schindler que indicam ao espectador o que ele veria a seguir: o terrível momento em que os corpos de mais de 10 mil judeus são exumados e queimados. A humanidade havia chegado ao fundo do poço e aquela enorme pilha de corpos é o símbolo perfeito deste momento. Mas ainda havia esperança, pelo menos para uma pequena parte daquele povo. E no plano em que Schindler “compra” seus judeus, as grades da janela que envolve a dupla simbolizam que ele finalmente encurralou Amon e conseguiu o que queria, chegando até mesmo a convencê-lo a liberar Helen. Tem inicio então a elaboração da lista que dá nome ao filme. Aquele pedaço de papel representaria a salvação para mais de mil judeus. Nas palavras de Stern, “esta lista é a vida”. Vale destacar ainda um último momento em que a inteligência de Spielberg é notável, quando o trem com as mulheres da lista de Schindler é enviado à Auschwitz por engano. Quando elas entram no espaço reservado para o banho, a história do gás letal imediatamente vem à nossa mente. As mulheres (e o espectador) temem pelo pior e Spielberg sabe disto, conduzindo a cena com lentidão e criando um clima bastante tenso. Após cortarem o cabelo, elas entram e esperam ansiosamente pela água, mas, quando as luzes se apagam momentaneamente, os gritos desesperados são inevitáveis. Felizmente, a cena termina bem, com a água caindo e derramando alivio em todas elas.

Chegamos então ao fim da guerra e a inevitável despedida de Schindler, agora um foragido da justiça. Diante daquelas pessoas que salvou, ele se desespera ao constatar a futilidade dos bens materiais diante da vida, num discurso que até pode soar melodramático, mas que funciona perfeitamente, emocionando o espectador. Por quê? Porque aquela atitude é muito coerente com tudo que ele fez até então. Não estamos vendo alguém arrependido, que repentinamente se comove diante do que poderia ter feito. Vemos ali um homem devastado, transformado por tudo que viu e que demonstrou em suas atitudes que realmente seria capaz de abrir mão de tudo para salvar mais uma ou duas pessoas. O belo final no cemitério transcende o filme e mostra a importância daquele homem, responsável por toda uma nova geração de judeus. E se são uma pequena parte diante dos seis milhões que morreram no Holocausto, os seis mil judeus descendentes da “lista de Schindler” provam que seus esforços valeram à pena.

Steven Spielberg emocionou o mundo ao apresentar a linda história de um homem digno, que se transformou diante de tudo que viu e lutou até o fim para salvar a vida de milhares de judeus. Com o tom correto e triste que a história narrada pede, “A Lista de Schindler” é uma verdadeira obra-prima, que mostra como a compaixão é um dos mais valiosos sentimentos que podemos ter. “Quem salva uma vida, salva o mundo inteiro”. Schindler salvou mais de mil.

Texto publicado em 27 de Março de 2011 por Roberto Siqueira

A LIBERDADE É AZUL (1993)

(Trois Couleurs: Bleu)

 

Videoteca do Beto #91

Dirigido por Krzysztof Kieslowski.

Elenco: Juliette Binoche, Benoít Régent, Floence Pernel, Charlotte Very, Hugues Quester, Philippe Volter, Héléne Vincent, Emmanuelle Riva e Claude Duneton – participação especial de Julie Delpy.

Roteiro: Krzysztof Kieslowski e Krzysztof Piesiewicz, baseado em história de Agnieszka Holland, Slavomir Idziak, Edward Zebrowski, Krzysztof Kieslowski e Krzysztof Piesiewicz.

Produção: Marin Karmitz.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Uma das sensações mais procuradas pelo ser humano é a liberdade. Mas, afinal de contas, o que significa ter liberdade? Será que de fato é possível alcançá-la em toda sua plenitude? Será que é possível viver sem manter vínculos? Segundo a sensível visão do excelente Krzysztof Kieslowski, a liberdade total e sem vínculos é também muito triste e isto fica evidente neste belo “A Liberdade é Azul”, que narra à história de alguém que, na busca por esquecer uma tragédia, decide livrar-se de todos os vínculos com o passado, sejam eles bens materiais, amigos ou até mesmo familiares.

A famosa modelo Julie (Juliette Binoche) decide deixar tudo que tem para trás após perder o marido (Hugues Quester) e a filha num trágico acidente de carro, numa tentativa desesperada de amenizar seu sofrimento. Mas, com o tempo, ela percebe que a vida sem ter o que ou quem se apegar pode se tornar ainda mais triste e acaba se envolvendo com seu amigo Olivier (Benoít Régent), que tenta terminar a obra inacabada de seu marido Patrice, um músico famoso internacionalmente.

Tanto na Europa como nos EUA, a cor azul normalmente é associada à tristeza, o que explica (sempre de acordo com a ótica de Kieslowski) a escolha do filme “Blue” para tratar do tema liberdade – além, é claro, da elegante combinação das cores da bandeira da França com o lema da revolução francesa “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, presente nesta belíssima trilogia das cores (e vale ressaltar que, desta vez, a tradução do título em português foi extremamente feliz, algo muito raro de acontecer). Desta forma, a tão sonhada liberdade é mostrada aqui de maneira radical, sob a ótica de alguém que de fato não tem mais ao que se prender na vida. Mas, como bem diz o flautista que dorme nas ruas de Paris (Jacek Ostaszewski), Julie logo descobrirá que “é preciso agarrar-se a algo”. E, na realidade, ela até já sabia disto, como fica evidente quando sua vizinha Lucille (Charlotte Very) entra em seu apartamento e pergunta se o lustre azul é uma recordação e ela responde que “sim”. Além disso, ainda que tente se livrar de tudo, Julie mantém contato com a mãe (Emmanuelle Riva), que parece ter problemas de memória e, talvez por isso, seja a companhia ideal para a filha. E é justamente numa conversa com a mãe que ela deixa claro sua desesperada tentativa de evitar o sofrimento provocado pela perda de alguém, quando diz: “Não quero bens, presentes, amigos, amor e vínculos. Tudo isso são armadilhas”.

Na pele de Julie, Juliette Binoche tem uma atuação muito eficiente, com seu olhar gélido, sua tristeza palpável e seu semblante fechado de quem evita qualquer contato com o mundo e prefere sofrer calada. Após uma tentativa frustrada de suicídio, Julie parece entender que a única saída para aliviar seu sofrimento é livrar-se de tudo que a faz lembrar o passado e, como forma de não voltar a sentir esta terrível dor, evita se apegar a qualquer coisa, livrando-se de bens materiais e evitando novos relacionamentos – sejam estes amorosos ou de amizade. Após colocar a casa à venda e deixar os amigos antigos pra trás, ela está totalmente livre, sem nada nem ninguém para se apegar, mas esta liberdade se revelará igualmente triste. Só que antes de deixar a casa, Julie dorme com o amigo Olivier, e, no momento do beijo, a chuva que cai lá fora indica a sensação de melancolia que a acompanharia dali em diante. No dia seguinte, ela finalmente deixa tudo pra trás e vai embora, mas, no caminho, provoca ferimentos na mão, numa tentativa de aliviar a dor, que Binoche ilustra muito bem eu seu rosto sofrido. Aliás, a atriz se destaca nestes momentos que exigem sutileza, como na tocante cena em que Julie tenta acariciar o caixão de sua filha através de uma televisão, de onde assistia o funeral. E até mesmo quando parece imobilizada, como quando olha fixamente para as pedras azuis do lustre lembrando tudo que perdeu, ela consegue transmitir a dor da personagem, intensificada pela fotografia azulada de Slavomir Idziak, que ganha mais força nos momentos de maior tristeza dela, auxiliada pela trilha sonora evocativa de Zbigniew Preisner.

Mas a vida é feita da convivência entre as pessoas e, por mais que tente evitar, Julie acaba se apegando novamente a algumas pessoas, como sua vizinha Lucille, interpretada por Charlotte Very e acusada de “receber homens” por outra vizinha, que ouve um “não é da minha conta” de Julie como resposta à tentativa de fazê-la assinar um abaixo assinado que tentava expulsar a garota do prédio. Grata, Lucille procura Julie e as duas acabam desenvolvendo uma amizade, ao ponto da prostituta ligar desesperada para Julie quando mais precisa – e é tocante o momento em que Julie pergunta por que ela faz o que faz e Lucille responde: “Porque gosto”. É nesta conversa também que ela descobrirá o caso entre seu falecido marido e uma amante. Além de Lucille, Julie também acaba se envolvendo com seu amigo Olivier, interpretado por Benoít Régent e declaradamente apaixonado por ela, mas que foi incapaz de contar o caso de Patrice, levando Julie a pensar que se ela tivesse ficado com os papéis oferecidos por Olivier (que continham as fotos do casal de amantes), ela poderia ter descoberto tudo, ou então, queimado as fotos e passar o resto da vida sem saber do caso entre eles. “Talvez tivesse sido melhor”, afirma ela, confirmando o quanto sofre por isto também. Mas Julie é determinada, e decide então conhecer a mulher que roubou o coração de seu marido, partindo numa busca que a levará a um tribunal onde, antes de encontrar a amante, ela vê uma cena de julgamento, que refletirá no segundo filme da trilogia “A Igualdade é Branca” (e estas rimas narrativas tornam a trilogia ainda mais interessante). Após encontrar a amante, que se chama Sandrine e é interpretada por Floence Pernel, ela têm uma conversa muito franca num banheiro feminino e descobre que Sandrine está grávida de seu marido, o que funciona simultaneamente como um choque e um alívio para Julie, que desmistifica um pouco a imagem de bom marido de Patrice. Completando o elenco, Héléne Vincent vive a jornalista que não demonstra respeito pela dor da protagonista, tentando entrevistá-la logo após o acidente e, algum tempo depois, ao divulgar o trabalho de Patrice, dizendo que “ele era um grande artista e pertence a todos nós”.

Além da boa condução do elenco, Kieslowski demonstra um rigor estético impressionante, graças também ao excelente trabalho de toda sua equipe técnica, a começar pela fotografia azulada de Slavomir Idziak, que ilustra a melancolia de Julie, especialmente nos momentos em que ela está sozinha na piscina. O tom azul predomina em praticamente toda a narrativa, seja através do filtro, seja através de objetos, como os enfeites do quarto azul ou o lustre que ela carrega consigo, confirmando também o bom trabalho de direção de arte de Claude Lenoir. Quando não prioriza o azul, a fotografia de Idziak adota cores sem vida, que também refletem a tristeza da protagonista, reforçada pelos figurinos discretos de Naima Lagrange e Virginie Viard. E nem mesmo a bela Paris parece tão bela, graças às locações escolhidas por Kieslowski, que passam bem longe dos belos pontos turísticos da capital francesa. Auxiliado pela montagem de Jacques Witta, o diretor também emprega um ritmo propositalmente lento a narrativa, refletindo como a vida passa devagar para as pessoas que sofrem como Julie, e até mesmo a trilha sonora evocativa de Zbigniew Preisner só aparece nos momentos de profunda tristeza dela ou para ilustrar seu pensamento enquanto lê uma partitura do marido, como momentos antes de jogar o trabalho num caminhão de lixo (e repare como a música é distorcida quando o caminhão começa a amassar a partitura). Finalmente, o som (e a falta dele) também exerce função narrativa, como quando um homem sobe as escadas do prédio e bate nas portas, criando uma atmosfera tensa, captada pelo close de Kieslowski no rosto de Binoche. Assustada, ela decide sair e acaba ficando trancada pra fora do apartamento e, sentada na escada, vive outro momento de solidão, ilustrado pela fotografia sombria.

Aliás, os muitos closes e momentos de silêncio refletem muito bem as sensações da protagonista, alguém vazia, sofrida e profundamente melancólica, o que é reforçado ainda mais pelos fades que escurecem a tela completamente por alguns segundos, deixando o espectador com a mesma sensação de vazio de Julie. Kieslowski emprega closes em objetos, como o pneu do carro antes do acidente ou o brinquedo do garoto que corre para tentar socorrer a família, além de constantemente destacar as reações de Julie, como no momento da notícia da morte do marido e da filha e quando destaca a boca e os olhos dela enquanto chora ao ouvir o enterro, nos colocando dentro da cena e tornando o momento ainda mais tocante – também por causa da ótima atuação de Binoche, que transmite muita emoção nestas cenas. Fica evidente que o cinema de Krzysztof Kieslowski é um cinema de sensações. Mas nem por isso o diretor deixa de criar belos planos, como quando diminui o carro e a árvore no horizonte momentos depois do acidente, distanciando também o espectador e preparando o clima frio da narrativa, ou através de seus planos subjetivos, que nos colocam sob o ponto de vista de Julie, como quando o médico (Claude Duneton) aparece pela primeira vez para visitá-la no hospital.

Existe ainda um momento singelo em “A Liberdade é Azul”, que refletirá nos outros dois filmes da trilogia (em momentos muito parecidos dos protagonistas), quando uma velinha tenta, com muito esforço, jogar uma garrafa de vidro no lixo enquanto Julie fecha os olhos e sente o ar puro. Este tipo de rima narrativa é que torna a trilogia das cores ainda mais elegante, conectando os três filmes não através das histórias, mas sim através de situações e sensações dos personagens. Após tudo que sofreu e a descoberta do filho de Patrice que cresce em Sandrine, Julie decide ajudar Olivier a terminar a partitura, desistindo de vender a casa e, altruistamente, dando-a de presente para a amante do marido. Em seguida, liga para Olivier e se entrega sexualmente ao amigo. Mas o travelling que vem a seguir, passando por todos os personagens do longa (o moço que acompanha o acidente, Sandrine, Olivier, a mãe de Julie e Lucille), se encerrará no plano em que Julie chora sentada, deixando claro que, de qualquer maneira, só o tempo iria curar a sua dor.

Kieslowski entrega um filme diferente, tocante e reflexivo neste “A Liberdade é Azul”, que com muita sensibilidade e um visual marcante, questiona a eterna busca do ser humano pela liberdade através da trágica história de Julie, que descobriu da pior maneira o quanto esta sensação pode também ser dolorida. Até que ponto queremos ser realmente livres? Que cada um encontre sua resposta sem a necessidade de sofrer como ela.

Texto publicado em 21 de Março de 2011 por Roberto Siqueira

A FIRMA (1993)

(The Firm)

 

Videoteca do Beto #90

Dirigido por Sydney Pollack.

Elenco: Tom Cruise, Jeanne Tripplehorn, Gene Hackman, Ed Harris, Holly Hunter, David Strathairn, Hal Holbrook, Terry Kinney, Wilford Brimley, Gary Busey, Steven Hill, Barbara Garrick, Paul Sorvino e Tobin Bell.

Roteiro: David Rabe, Robert Towne e David Rayfiel, baseado em livro de John Grisham.

Produção: John Davis, Sydney Pollack e Scott Rudin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Baseado no best-seller de John Grisham, este empolgante “A Firma” é um thriller eletrizante, que prende a atenção do espectador, nos envolvendo na complicada situação do protagonista interpretado por Tom Cruise, que vê a grande oportunidade de sua vida lentamente se transformar num verdadeiro pesadelo. Dirigido por Sydney Pollack, o longa aposta na alta carga de tensão e em seu talentoso elenco, conseguindo sucesso simplesmente pela forma em que a narrativa é conduzida, sem apelar para inúmeras seqüências de ação ou suspense.

Após formar-se com honras, o jovem advogado Mitch McDeere (Tom Cruise) aceita a proposta de uma pequena firma localizada em Memphis, que lhe oferece um alto salário e diversos benefícios em troca de seu talento. Mas na medida em que ele inicia os trabalhos, começa a desconfiar da empresa e de seus companheiros, como o misterioso Avery (Gene Hackman), que paralelamente tenta seduzir sua esposa Abby (Jeanne Tripplehorn).

Em certo momento de “A Firma”, o jovem Mitch acompanha um garoto de rua durante uma série de cambalhotas, externando sua extrema alegria naquele momento de sua vida, logo após ser contratado e mudar-se para Memphis. Esta cena terá reflexo direto em outro momento da narrativa, quando o mesmo Mitch vê o garoto iniciar sua série de cambalhotas e sequer esboça reação, passando direto pelo menino como se nem tivesse notado sua presença. A diferença entre os dois instantes é que no segundo a firma já tinha transformado sua vida. Entre estes dois momentos antagônicos, o jovem Mitch e sua esposa Abby vivem o chamado “sonho americano”, algo simbolizado no interessante raccord que transforma o desenho das crianças da turma em que Abby dava aulas em Boston na imagem do casal viajando rumo à nova vida. E o diretor Sydney Pollack faz questão de refletir este sentimento em seus belos planos, que exploram o lindo pôr-do-sol em Memphis, as grandes pontes que cruzam o rio e o reflexo do sol nas estradas e prédios da cidade, conferindo uma aura dourada aquele momento promissor. E até mesmo a trilha sonora evocativa de Dave Grusin reflete o sentimento do casal, que realiza o sonho do sucesso profissional e da vida estável na chegada a Memphis. Aliás, logo na primeira conversa com a Bendini, Lambert (Hal Holbrook), um dos poderosos da empresa, afirma que a família é importante pra eles, mostrando uma receptividade refletida no local da conversa, bastante aconchegante e convidativo, criando uma atmosfera familiar que revela o bom trabalho de direção de arte de John Willett, notável também na decoração imponente dos escritórios e salas de reuniões da firma. Mas durante uma festa que acontece momentos depois, Lambert diz para Mitch que na firma nós “guardamos os segredos entre nós” e indica sutilmente o que viria a acontecer – e que também é indicado pela fotografia de John Seale, sempre clara e convidativa fora da firma e obscura dentro do ambiente de trabalho de Mitch.

Mas, logo após sua chegada, dois advogados morrem num mergulho e, após conversar com um misterioso agente do FBI (Ed Harris), com o homem que cuida dos barcos de mergulho e com um de seus clientes numa viagem feita com Avery, Mitch passa a desconfiar da firma – algo que Cruise demonstra bem em seu olhar cada vez mais inquieto. A partir daí, Pollack começa a empregar um ritmo cada vez mais intenso à narrativa, que nos levará ao momento crucial em que Denton (Steven Hill) conta a verdade sobre a firma para Mitch (e que remete à conversa entre o Sr. “X” e Jim Garrison no “JFK” de Oliver Stone, pois, nas duas cenas, um banco numa praça serve de local ideal para que um segredo seja revelado). Desde então, na medida em que Mitch tenta encontrar uma forma de sair do terrível labirinto em que se meteu, Pollack ilustra sua agonia através do ritmo crescente da narrativa, graças ao auxilio da montagem ágil da dupla Fredric e William Steinkamp. O trabalho dos Steinkamp, aliás, é notável desde a chegada dos McDeere à Memphis, quando ilustra o dia-a-dia corrido do casal através de uma seqüência de imagens embaladas pela empolgante trilha sonora, além de ilustrar o desespero de Mitch diante de tanto material pra estudar através da montagem fluída da cena em que diversos advogados deixam pastas em sua mesa.

Ao mesmo tempo em que investiga a firma, Mitch vê sua vida de conto de fadas rapidamente dar lugar ao excesso de trabalho e a rotina maçante, que começam a desestabilizar seu relacionamento com Abby. E se sentimos que a relação está se deteriorando, é porque Cruise e Tripplehorn conseguiram estabelecer uma boa dinâmica até então, nos fazendo acreditar naquele relacionamento. Observe, por exemplo, o momento em que Mitch se mostra impressionado com uma limusine enquanto sua esposa finge estar acostumada (“Se esteve em uma limusine, esteve em todas”) ou as brincadeiras do casal na casa nova, mostrando o quanto eles se dão bem. Sempre intenso, Tom Cruise destaca-se também nos momentos mais sutis, como em sua divertida reação ao pedido de Avery no restaurante, contrariando a regra que ele acabara de citar sobre bebidas. Mas é a partir da conversa com Denton que a atuação de Cruise verdadeiramente cresce. Desnorteado após a revelação bombástica, Mitch vai direto pra firma e, inteligentemente, fala com seus superiores de maneira que pareça inocente, mas, em seguida, prova que entendeu bem o recado do FBI na tocante conversa com sua esposa, conduzida com perfeição por Sydney Pollack, que, com sua câmera lenta e com o volume alto da música, torna desnecessário escutar as palavras no ouvido dela, pois somente sua reação (em grande momento de Tripplehorn) e sua saída em disparada da casa, como uma criança que não sabe para onde ir, servem para nos comover. Aliás, Tripplehorn também se destaca no momento em que Mitch conta sobre a traição na praia, quando o rosto da atriz demonstra a dor que a personagem sente com precisão. Bastante relutante após a chegada em Memphis, ela vê seu pesadelo tornar-se realidade com o passar do tempo, mas ainda assim encontra forças para ajudar o marido na hora em que mais precisa, aproveitando-se da atração de Avery por ela, indicada já na troca de olhares e no afiado diálogo entre eles no cemitério. Como Judas, ela consolida a traição com um beijo e, após o desmaio de Avery, inicia o processo que levará Mitch a sair ileso daquela complicada situação. Na manhã seguinte, a conversa sincera entre Avery e Abby demonstra o quanto o veterano advogado estava desgastado com aquela vida – e tanto Tripplehorn como Hackman são responsáveis por conferir emoção ao diálogo. Avery é hoje o que Mitch seria amanhã, alguém devastado pela vida que leva e incapaz de mudar a situação – e Hackman demonstra isto com precisão em seu semblante pesado e triste. Nas palavras dele mesmo, em algum momento do passado a firma havia feito aquilo com ele. Sempre convincente, Gene Hackman faz de seu Avery mais um vilão ambíguo e marcante em sua carreira. Já o competente Ed Harris se mostra muito seguro como o agente do FBI Wayne Tarrance, ao passo em que Holly Hunter quase rouba a cena com seu excelente desempenho na pele da corajosa e descolada Tammy, que ajuda e muito Mitch a sair da enrascada em que se meteu. E fechando o elenco, vale notar que um dos matadores da firma é interpretado por Tobin Bell, o Jigsaw de “Jogos Mortais”.

Escrito por David Rabe, David Rayfiel e pelo ótimo Robert Towne, o roteiro de “A Firma” (baseado em livro de John Grisham) cria situações que aumentam constantemente a tensão, alcançando níveis insuportáveis no ótimo terceiro ato da narrativa, além de apresentar diversos diálogos interessantes, como quando Mitch visita o irmão Ray (David Strathairn) na cadeia ou quando ele conversa com os Moroltos, demonstrando muita inteligência para lidar com aquela gente perigosa – aliás, nesta cena Cruise também se destaca, mostrando o cansaço de Mitch através do olhar e da voz; mesmo extenuado, ele consegue impor respeito e soar convincente. Além disso, o roteiro é hábil em espalhar situações que terão reflexo futuro na narrativa, como a conversa entre Mitch e uma moça machucada na areia da praia, quando ela toca em seu ponto fraco e fala sobre o desejo de se sentir rico – algo que, descobriríamos depois, era planejado para seduzi-lo, criando uma prova de sua traição que seria usada para intimidá-lo futuramente. Existe também um interessante questionamento do “código de ética profissional” dos advogados, que são obrigados a morrer com os segredos de seus clientes, por mais inescrupulosos que sejam. Talvez o único problema do excelente roteiro de “A Firma” (e da montagem dos Steinkamp) seja a trama envolvendo o irmão de Mitch, que, apesar de ter sua importância, ocupa tempo demais na narrativa.

O eletrizante terceiro ato contém as melhores cenas de ação do filme, com as ações paralelas que colocam em prática o plano de Mitch (as cópias, o roubo dos arquivos, a negociação com o FBI, a fuga de Ray) e, obviamente, a espetacular perseguição que se inicia no metrô de superfície – com Cruise mostrando muita energia na fuga pelas ruas -, que nos leva ao momento em que ele se esconde num galpão e escapa, por sorte, da morte – e em todas estas seqüências, vale destacar novamente a dinâmica montagem dos Steinkamp. Com muita inteligência, Mitch se sai bem da complicada situação em que se meteu, ganhando sua vida de volta sem violar a lei, o que em boa parte da narrativa parecia impossível. E se parecia impossível, é porque Pollack, sua equipe e seu talentoso elenco tiveram sucesso em sua empreitada.

Com um roteiro intrigante, boas atuações e uma narrativa eletrizante, “A Firma” revela-se um thriller envolvente, que cumpre muito bem o papel que se propõe e, de quebra, questiona uma das regras básicas da advocacia. E pedindo de antemão o perdão do leitor pela falta de originalidade, entendo que poucas vezes o dito popular “quando a esmola é grande, o santo desconfia” teve tanto significado.

Texto publicado em 16 de Março de 2011 por Roberto Siqueira

PERFUME DE MULHER (1992)

(Scent of a Woman)

 

Videoteca do Beto #89

Dirigido por Martin Brest.

Elenco: Al Pacino, Chris O’Donnell, James Rebhorn, Gabrielle Anwar, Phillip Seymour Hoffman, Richard Venture, Bradley Whitford, Rochelle Oliver, Margaret Eginton, Tom Riis Farrell, Nicholas Sadler e Todd Louiso.

Roteiro: Bo Goldman, baseado em roteiro do filme “Perfume de mulher” (1974), escrito por Giovanni Arpino.

Produção: Martin Brest.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Al Pacino já era um ator mais que consagrado quando recebeu seu primeiro Oscar de melhor ator por sua excepcional atuação neste belo “Perfume de Mulher”, que conta a história de um homem amargurado, que reencontra a vontade de viver ao lado de um jovem tímido, porém firme em seus princípios. Entretanto, mais interessante que a própria história narrada é conferir a atuação fantástica de Pacino e a trajetória de seu fascinante personagem.

O jovem Charlie Simms (Chris O’Donnell) resolve ajudar um ex-tenente-coronel cego (Al Pacino) do exército americano durante o fim de semana de Ação de Graças, como forma de garantir o seu Natal com a família. Só que o tenente Frank tinha outros planos e resolve viajar com Charlie para Nova York, onde pretende reviver todos os prazeres da vida antes de se suicidar. Mas no caminho ele começa a se interessar pelos problemas do jovem e esta convivência poderá mudar o seu destino.

Apesar dos primeiros planos de “Perfume de Mulher” mostrarem os locais vazios da escola onde a narrativa se encerrará, é na trama que se passa entre estes dois momentos (e, portanto, fora da escola) que está o segredo do sucesso do longa. Felizmente, a montagem de Harvey Rosenstock, William Steinkamp e Michael Tronick, essencial na famosa cena do tango, acerta ao focar no relacionamento entre Frank e Charlie, deixando pouco tempo de projeção para a desinteressante trama na escola, que, por outro lado, é necessária para estabelecer o conflito que aproximará Charlie de Frank. E apesar dos excelentes diálogos formarem a base do sucesso da narrativa, o diretor Martin Brest entrega ainda momentos visualmente marcantes, como a bela cena em que Frank dirige uma Ferrari e realiza seu sonho, fazendo com que ele diga para o policial que Charlie era “seu garoto”. De fato, ele poderia dizer isto, já que naquele momento a relação dos dois já era próxima da relação entre pai e filho, até porque Frank não tinha proximidade com ninguém da família e Charlie não se relacionava bem com o pai adotivo. Juntos, eles aprendem muito um com o outro. O diretor também emprega movimentos estilísticos, como o plano-seqüência que acompanha Charlie saindo da escola com os colegas enquanto um deles o convida para ir à Suíça, mas é mesmo na marcante cena da dança de tango que Brest se destaca, entregando um momento sublime, onde as imagens e a música se complementam. A dança romântica mostra como Frank sabe lidar com as mulheres, conquistando a moça com seu jeito simpático e fazendo com que ela alfinete o namorado quando ele chega, saindo do local sem conseguir deixar de olhar para Frank e Charlie. Ainda existia algo de muito bom dentro daquele homem amargurado.

Escrito por Bo Goldman (baseado em roteiro do filme “Perfume de mulher”, de 1974, escrito por Giovanni Arpino), o roteiro de “Perfume de Mulher” brinda o espectador com diálogos maravilhosos e muito bem construídos, como no tenso primeiro encontro entre o amargo (cruel até) Frank e o assustado Charlie, que serve para mostrar o difícil caminho que aquela amizade teria que percorrer (“No domingo serão grandes amigos”, prevê a filha de Frank). E apesar de seguir o inevitável clichê “brigam no começo e depois se tornam grandes amigos”, esta evolução acontece de maneira natural, algo reforçado até mesmo pela fotografia crua de Donald E. Thorin, que realça o realismo do longa e ainda utiliza cores sem vida para ilustrar a tristeza tanto de Frank quanto de Charlie. Aliás, esta tristeza é realçada também pela melancólica trilha sonora do bom Thomas Newman, que utiliza toques suaves de piano na maior parte do tempo.

Mas apesar do bom trabalho técnico, é na condução dos atores que Brest se destaca, extraindo grandes atuações de todo o elenco. A começar por Phillip Seymour Hoffman, que já mostrava talento aqui como o mimado George Willis Jr., se destacando especialmente na conversa no gabinete do rígido diretor interpretado pelo eterno (e bom) coadjuvante James Rebhorn. Até mesmo o mediano Chris O’Donnell consegue um bom desempenho, pois, felizmente, sua inexpressividade se encaixa bem no papel de Charlie, um jovem igualmente contido. Observe, por exemplo, a cena em que a família de Frank, incomodada com sua visita, troca olhares nada amigáveis e Charlie percebe isto rapidamente (“Ele é seu irmão?”, pergunta espantado) ou a cena em que ele pergunta se “George está” e a pessoa responde “George pai ou filho?”, provocando espanto no rapaz porque Frank adivinhou o nome do pai de George. O’Donnell vive ainda seu grande momento no tenso diálogo em que Frank está com uma arma na mão, quando, ofegante, demonstra bem o desespero do personagem enquanto desafia o tenente. Após a tensão, o choro convincente de O’Donnell e a voz tranqüila de Pacino mostram as formas diferentes de cada um extravasar. Finalmente, a boa dinâmica entre Pacino e O’Donnell é vital para o sucesso da narrativa e ambos conseguem sucesso.

Desde sua perfeita introdução, que cria uma atmosfera tensa através das palavras de sua filha, dos gritos para não entrar com o gato e da própria casa em que vive, com ares de abandonada (assim como ele é abandonado na vida), Frank se mostra um personagem fascinante, interpretado pelo igualmente fascinante Al Pacino. Com sua característica intensidade se revezando com momentos de uma sublime melancolia, Pacino interpreta com absoluta competência este homem cego, a começar pelo básico, ou seja, mantendo o olhar perdido, sem foco, tateando os objetos e alterando repentinamente o tom de voz como quem não sabe a que distancia se encontra a pessoa até que ela se manifeste – além de manter o curioso hábito de gritar (Uah!) sempre que algo lhe agrada. Porém, não é apenas na demonstração de cegueira que este grande ator compõe este complexo personagem, mostrando uma amargura profunda através de suas palavras, da forma como ele as pronuncia e de seu jeito durão, um claro resquício dos tempos de exército (“Toque me de novo e eu te mato, filho da puta!”, diz para Charlie). Repare, por exemplo, o desagradável jantar na casa de seu irmão, onde um diálogo expositivo entre Frank e o sobrinho Randy (Bradley Whitford) explica como ele ficou cego. Nesta discussão, a tensão palpável cresce lentamente e o espectador sente, por causa da intensidade de Pacino, que a qualquer momento Frank pode explodir diante das ofensas do sobrinho – o que de fato acontece, quando Randy chama Charlie de Chuck novamente. Frank é um homem amargo, que não vê mais sentido na vida e acha tudo “uma merda”, e até por isso planeja reviver seus grandes prazeres, somente para depois suicidar-se. Seu terno cinza e sem vida (figurinos de Aude Bronson-Howard) reflete seu estado de espírito durante grande parte da narrativa. Mas existe algo que renova o espírito do depressivo Frank: a mulher. O primeiro sinal do poder que o sexo oposto tem sobre ele aparece quando Frank reconhece o perfume de uma aeromoça e inicia outro delicioso diálogo com Charlie, prendendo a atenção do jovem rapaz e do espectador com suas palavras e, principalmente, pela forma como ele as pronuncia, como quem realmente sente muito prazer com tudo aquilo. Esta enorme paixão pelas mulheres atinge seu auge no delicioso diálogo que precede a famosa dança de tango, onde a forma como Frank aborda a bela moça chamada Donna (Gabrielle Anwar) e a convence é sensacional – e Pacino tem muito mérito nisto, por conferir veracidade aquelas palavras e se mostrar encantador. Repare ainda como mesmo não vendo a acompanhante de luxo de Frank, apenas pelo “que beleza de mulher” de Pacino nós acreditamos que era uma mulher maravilhosa. Sob aquela couraça de tristeza e amargura existia um homem bom, que ameaça aparecer no tocante momento em que Charlie cita as muitas qualidades de Frank e ele, sem querer demonstrar, fica claramente lisonjeado. Mas este homem só aparecerá de verdade no julgamento de Charlie.

E apesar de previsível, o julgamento de Charlie rende outro momento marcante da excepcional atuação de Al Pacino, que convence a comissão julgadora e salva o futuro do rapaz. Antes um homem amargo, porém sempre encantador com as mulheres, Frank agora se sente renovado (e até mesmo seu terno mais escuro confere vida ao personagem e ilustra esta mudança), o que lhe permite inclusive brincar com as crianças quando volta pra casa. No caminho, pra não perder o costume, encanta outra mulher, que desta vez poderá lhe render algo que sempre sonhou: uma relação estável (“Quero acordar no outro dia e continuar sentindo o perfume”). Apesar de não enxergar, Frank continuava sentindo a presença daquelas que ainda lhe proporcionavam algum prazer na vida, o que explica a importância do tal perfume que dá nome ao filme.

Com uma atuação esplêndida de um dos grandes atores da história do cinema, “Perfume de Mulher” nos mostra como uma pessoa pode se degradar e se regenerar apenas por causa de quem convive com ela. A importância de se sentir querido, amado e respeitado é abordada neste filme tocante, dirigido com sensibilidade por Martin Brest. Em outras palavras, existem momentos em que sentir é mais importante do que enxergar.

Texto publicado em 09 de Março de 2011 por Roberto Siqueira

PERDAS E DANOS (1992)

(Damage)

 

Videoteca do Beto #88

Dirigido por Louis Malle.

Elenco: Jeremy Irons, Juliette Binoche, Miranda Richardson, Rupert Graves, Ian Bannen, Peter Stormare, Gemma Clarke, Julian Fellowes, Leslie Caron e David Thewlis.

Roteiro: David Hare, baseado em história de Josephine Hart.

Produção: Louis Malle, Vincent Malle e Simon Relph.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um elenco muito talentoso, um bom diretor e um bom roteiro infelizmente não são suficientes para transformar “Perdas e Danos” num grande filme. Apesar de sua história trágica, que normalmente conseguiria provocar forte impacto no espectador, o longa não consegue empolgar, apresentando um resultado tão frio quanto os personagens que acompanhamos durante a narrativa. Talvez falte ao filme justamente aquilo que ele pretende investigar: paixão.

O competente líder do parlamento inglês Stephen Fleming (Jeremy Irons) é um homem de reputação intocável e comportamento familiar exemplar, que vê sua vida virar de pernas pro ar quando seu filho Martyn (Rupert Graves), contrariando a vontade de sua mãe Ingrid (Miranda Richardson), inicia um relacionamento com a jovem Anna (Juliette Binoche), por quem ele também se apaixona. Sem hesitar, Stephen se entrega a esta paixão avassaladora e passa a se relacionar com a noiva de seu filho, mesmo sabendo os enormes riscos que estava correndo.

Escrito por David Hare, baseado em história de Josephine Hart, “Perdas e Danos” narra a triste história do bem sucedido Stephen, que vê tudo que ele conseguiu construir ruir por causa de uma paixão sem limites. De maneira inteligente, o roteiro de Hare faz questão de estabelecer a natureza estável da relação entre Stephen e Ingrid logo no início da narrativa, através de uma conversa na cozinha que evidencia o quanto eles se sentem à vontade na presença do outro, deixando claro para o espectador que não se trata de um casamento em crise e que a paixão de Stephen por Anna será algo simplesmente físico, uma enorme atração sexual. Esta mesma cena serve também para deixar claro uma característica de Martyn que será vital para entender o sofrimento de Ingrid futuramente, ao perceber que a relação entre seu filho e Anna não é apenas mais um dos muitos casos do rapaz. Já o primeiro diálogo entre Stephen e Anna tem poucas palavras e muitos olhares, que expõem a atração puramente física de ambos. Afinal de contas, este não é um caso entre duas pessoas com afinidade, que dividem gostos em comum, e exatamente por isso as palavras são desnecessárias. Outra indicação sutil, muito bem explorada pelo diretor Louis Malle, acontece quando Martyn anuncia seu casamento e Stephen derruba vinho na mesa, num prenúncio interessante de que ele seria o responsável por derramar sangue da família por causa daquela paixão. Assim como é sutil a disputa de cara ou coroa antes de uma partida de bilhar, que simboliza o embate entre pai e filho por Anna (curiosamente, Stephen vence e, de fato, ele continua com Anna. Mas, no fim das contas, todos sairão perdendo), ilustrado também quando Stephen olha uma foto e Martyn diz que ele “pode ficar” com ela.

Mas se acerta nos momentos que exigem sutileza, como quando Anna liga para Stephen e marca o primeiro encontro e o movimento de câmera destaca a reação de perplexidade do ministro, Louis Malle erra em conjunto com seu montador John Bloom ao estabelecer a relação entre Stephen e Anna muito cedo, o que não permite que o espectador crie empatia com os personagens e acaba alongando demais o caso deles, tornando a narrativa mais lenta e arrastada e, portanto, menos interessante. Além disso, a melancólica trilha sonora de Zbigniew Preisner oscila bastante durante a narrativa, exagerando em alguns momentos onde o tom sombrio demais parece deslocado. Por outro lado, o diretor acerta ao evitar romantizar as relações sexuais de Stephen e Anna, criando uma atmosfera crua e até mesmo fria através do excesso de closes (que realçam apenas as reações do casal) e do silêncio. Observe, por exemplo, como a falta de trilha sonora torna a primeira relação sexual de Stephen e Anna crua e realista, além de destacar a natureza melancólica daquela relação através do silêncio que predomina na cena. Nesta cena, vale notar ainda como os figurinos sem vida do casal, em tons de preto e branco, sugerem que aquela relação teria um futuro sombrio, algo reforçado após o sexo, quando ambos aparecem vestidos somente de preto, indicando o futuro trágico e a natureza “pecaminosa” daquela relação. E apesar de ambos serem grandes atores, o close nos rostos de Binoche e Irons tira toda a química da cena. Observe ainda como na medida em que as relações se repetem, Malle começa a apresentar cenas mais explícitas, mas sempre mantendo a agressividade em detrimento do carinho e do afeto.

Mas como Stephen foi se meter numa situação complicada como esta? Em primeiro lugar, quero deixar claro que acho repugnante que um pai faça isto com um filho, por maior que seja a paixão. Dito isto, podemos notar que Stephen (interpretado pelo competente Jeremy Irons) é um homem de família, respeitado também no âmbito profissional, mas que, de acordo com as palavras do próprio filho, é alguém “sem paixão” – algo refletido até mesmo em seu terno sempre escuro e sem vida (figurinos de Milena Canonero). A aparição de Anna representa, na lógica distorcida de Stephen, uma oportunidade única de sair da linha, de fazer algo que ele até hoje não fez, mas obviamente o ministro ultrapassa muito esta linha e perde a razão, chegando a sequer prestar a atenção numa importante reunião e sair caminhando pelas ruas de Bruxelas pensando na garota (observe o tom azulado da fotografia de Peter Biziou, que ilustra a tristeza do personagem neste momento). Desesperado, ele pega o trem e vai até Paris encontrá-la, chegando ao absurdo de ligar pra ela no quarto do hotel, mostrando que de fato não tem o menor respeito pelo filho (se é que poderia restar algum respeito por parte de Stephen). A situação se complica ainda mais quando ele decide visitar Anna e conhece Peter, ex-namorado da garota, gerando uma crise de ciúmes. E se todo este sofrimento do personagem é crível, é porque Irons é competente na difícil tarefa de viver um personagem tão repugnante sem afastá-lo completamente do espectador. Por exemplo, após perder Anna pela primeira vez, Irons demonstra bem a amargura do personagem em seu semblante sempre triste e confuso, e o espectador, por mais que não compactue de suas atitudes, entende seu sofrimento. Irons é inteligente ainda em outros momentos, como quando hesita em cumprimentar Anna após Martyn apresentá-la, esperando a reação dela antes de se pronunciar. Como eles já tinham se conhecido numa festa, ele não sabia se ela iria falar sobre isto ou fingir que não o conhecia. E apesar de totalmente descartável, a subtrama que envolve os problemas de Stephen no trabalho servem para que Irons mostre seu talento quando explode contra os funcionários, num reflexo claro de seus problemas na vida pessoal.

Todos estes problemas foram gerados pela fria e misteriosa Anna, uma mulher atraente, mas que carrega uma aura pesada pelo trauma da morte do irmão, que era apaixonado por ela. Juliette Binoche consegue transmitir este peso através do semblante, sorrindo muito raramente e com o olhar sempre desconfiado. Mas se por um lado Anna apresenta um aspecto sombrio, por outro é absolutamente segura do que quer. Ao contrário de Stephen, ela sabe que as selvagens relações sexuais são sinais apenas de uma atração física. Por isso, quando ele afirma que vai deixar a esposa, a resposta simples e direta de Anna deixa claro que Stephen não deveria largar a vida que tem com Ingrid por causa de uma atração sexual, pois ele não ganharia nada com isso (“Você ganharia algo que já tem”). Da mesma forma, Anna quer manter as relações com Stephen, mas não quer perder o conforto que Martyn pode proporcioná-la, o que a leva a dizer frases díspares como “Não nos siga” e “Acha que eu me casaria com Martyn se não pudesse ver você?”. Vale destacar ainda dois momentos especiais da grande atuação de Binoche, quando Anna repete a palavra “cinco” ao ouvir sua mãe dizer que quase casou pela quinta vez, mostrando que já ouvira aquela história diversas vezes, e especialmente quando sorri de maneira contida ao notar a chave do flat na mão de Stephen, mostrando a luta da personagem para conter a felicidade naquele momento. É interessante notar também como o pressentimento materno tem forte presença em “Perdas e Danos”. Repare como a carismática e cuidadosa Ingrid, uma mãe e esposa dedicada, já se mostra incomodada com a presença de Anna durante um jantar, como se soubesse o que a presença dela traria para sua família (e Miranda Richardson demonstra muito bem este incômodo através de sua expressão aflita e de suas palavras ríspidas). Já a Sra. Elizabeth (Leslie Caron), com um dom de premonição digno de Hollywood, percebe a relação entre Stephen e sua filha e pede que o ministro se afaste de Anna. Mas, ao contrário do sentimento de Ingrid, aqui a “previsão” soa forçada (não por culpa da atriz), porque se a relação entre eles era tão clara assim, como os outros integrantes da família nunca percebem o que acontece? Além disso, a lição de moral da Sra. Elizabeth após a morte de Martyn não convence e parece totalmente fora de propósito. Aquele homem já estava sofrendo demais para ouvir aquelas palavras duras. Fechando o elenco, Rupert Graves não agrada na pele de Martyn, mostrando-se exageradamente inexpressivo. Por mais que o personagem também seja alguém pouco carismático, Graves erra na dose e apaga completamente o já pouco iluminado Martyn.

Chegamos então ao momento que poderia transformar “Perdas e Danos” num filme marcante, não fossem tantos os erros cometidos durante a narrativa. Após Martyn ligar para Anna e ouvir que ela “não volta mais hoje”, ele parte para o endereço do flat, conseguido de uma maneira que só descobriremos depois. Um plano rápido mostra a chave do lado de fora do flat e evidencia o descuido fatal do casal de amantes. Quando Martyn sobe as escadas, a tensão toma conta da tela e os olhares incrédulos dos três nos levam ao terrível desfecho daquele encontro. Mais uma vez, Anna é cercada por uma tragédia (observe que ela se joga na cama após a queda de Martyn, desolada). Stephen, desesperado, desce as escadas para segurar o filho, já sem vida (e o plano em plongèe que diminui o personagem ilustra seu sentimento naquele momento). A chuva que recai sobre ele na volta pra casa, além de reforçar o sentimento de tristeza, apenas confirma seu melancólico destino. Ao chegar em casa, encontra Ingrid destruída, que explode em choro, dor, revolta e raiva, num momento estupendo de Miranda Richardson, que transmite com precisão toda a miscelânea de sentimentos da personagem e entrega a melhor atuação de “Perdas e Danos”. Já Stephen acaba perdendo tudo que tinha: Anna, Ingrid, Martyn, seu emprego e seus amigos.

Apesar de contar uma história com potencial para provocar forte impacto no espectador, “Perdas e Danos” apresenta erros básicos que comprometem um longa que tinha tudo para dar certo. Com um elenco muito talentoso nas mãos, Louis Malle consegue extrair ótimas atuações, mas peca em aspectos fundamentais que poderiam tornar a narrativa mais interessante e que certamente aumentariam a força do filme diante do espectador. Infelizmente, o resultado terá algum impacto em nossas mentes somente até assistirmos ao próximo filme e depois, ao contrário da paixão que Stephen sentia por Anna, cairá no esquecimento.

Texto publicado em 05 de Março de 2011 por Roberto Siqueira

OS IMPERDOÁVEIS (1992)

(Unforgiven)

 

Videoteca do Beto #87

Vencedores do Oscar #1992

Dirigido por Clint Eastwood.

Elenco: Clint Eastwood, Gene Hackman, Morgan Freeman, Richard Harris, Jaimz Woolvett, Saul Rubinek, Frances Fisher, Anna Levine, David Mucci, Rob Campbell, Anthony James, Beverley Elliott, Shane Meier, Aline Levasseur e Ron White.

Roteiro: David Webb Peoples.

Produção: Clint Eastwood.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Durante boa parte da carreira, Clint Eastwood ficou marcado por personagens durões que iam dos solitários pistoleiros do western spaghetti ao implacável “Dirty Harry”. Entretanto, nos últimos anos Clint passou a viver personagens amargos, que carregam nos ombros o peso de seu passado, e até mesmo os filmes que ele dirigiu nas últimas décadas costumam nos deixar com aquela sensação de incômodo diante de situações que parecem não ter certo ou errado. E é justamente o excepcional western “Os Imperdoáveis” que marca a transição definitiva da fase “durona” para este momento mais “sensível” de Clint, apresentando uma história que faz uma singela homenagem ao gênero que consagrou o ator e diretor.

As prostitutas de uma pequena cidade oferecem 1000 dólares para quem matar dois vaqueiros responsáveis por cortar o rosto de uma delas. A notícia atrai o jovem Schofield Kid (Jaimz Woolvett), que convida o pistoleiro aposentado William Munny (Clint Eastwood) para a matança. No caminho, Munny convida seu velho amigo Ned Logan (Morgan Freeman) e eles partem para a cidade, onde o xerife Little Bill (Gene Hackman) já expulsou o matador Bob inglês (Richard Harris) a pontapés, como forma de intimidar os assassinos que possam se interessar pela recompensa.

Conduzindo a narrativa com segurança e sem muitos floreios, Clint Eastwood consegue sucesso através da simplicidade e eficiência de sua direção, transitando com elegância entre os momentos que desconstroem os mitos do western e aqueles que fazem uma bela homenagem ao gênero. Além disso, conduz com competência o elenco, criando personagens complexos e extremamente interessantes, que não são bons nem ruins, apenas agem de maneiras distintas em situações diferentes. O diretor mostra ainda muita sensibilidade na composição de belos planos, como o lindo plano inicial, com o pôr-do-sol ao fundo e William enterrando sua esposa na frente da casa, seguido por um trovão que anuncia a mudança radical na vida dele. Em outro momento, somente o olhar da esposa de Ned ao ver o rifle no cavalo de Munny indica que seu marido voltará às armas, algo ilustrado antes mesmo que ele pronuncie alguma palavra apenas pela composição da cena, com Freeman logo abaixo do rifle pendurado na parede.

Escrito por David Webb Peoples, “Os Imperdoáveis” apresenta diálogos deliciosos e coerentes com o universo daqueles personagens, abrindo espaço para momentos de alivio cômico nas conversas entre Munny e Ned (destaque para a curiosidade de Ned em saber como Munny supre a falta de sexo após a morte da esposa), reforçados pela dificuldade de montar de Munny e pelos tiros sem direção de Kid (“Você atirou em toda a criação”, reclama Ned). Obviamente, a empatia entre Freeman e Eastwood colabora bastante e torna aquela amizade crível, como podemos notar, por exemplo, na conversa ao pé da fogueira sobre o que Ned sente falta, que ainda indica que Kid está mentindo, ao dizer, sem muita convicção, que já matou 5 homens (e aqui vale destacar a atuação de Woolvett, nos transmitindo esta sensação de insegurança através da fala pouco convicta). Mas o grande tema do longa é mesmo a desconstrução de diversos clichês e mitos do western, além do constante “flerte” com a morte e a certeza de que não é fácil tirar a vida de alguém. Basicamente, o filme prega que puxar o gatilho não é para qualquer um, por isso, homens com a frieza necessária neste momento viram lendas e são raridades (algo que também refletirá no sensacional clímax da narrativa). É claro que existem também as lendas criadas ao acaso, romantizadas por aqueles que contam a história e se permitem “alguma liberdade criativa”, como afirma o escritor Beauchamp (Saul Rubinek). Melhor do que ninguém, ele representa a visão glamourizada que Hollywood tinha do western e que Eastwood quer desconstruir. Para Clint, a vida no velho oeste não era tão bela assim.

Nos aspectos técnicos, a impecável direção de arte de Adrian Gorton e Rick Roberts nos transporta para o velho oeste através da precisa arquitetura da cidade de “Big Whiskey”, reforçada pelos figurinos de Janice Blackie-Goodine, que seguem o padrão western com as botas, calças de couro e os chapéus (destaque para o marcante chapéu de Eastwood, que remete aos tempos do western spaghetti). Destaque também para a deslumbrante direção de fotografia de Jack N. Green, que capta com precisão as lindas paisagens, com muitas cenas sob o pôr-do-sol e até mesmo sob a chuva (o que reforça a melancolia da narrativa). Além disso, as diversas cenas noturnas, sempre iluminadas com velas e lampiões, têm um visual belíssimo, bastante sombrio e coerente com a amargura daqueles personagens, algo refletido também na linda trilha sonora de Lennie Niehaus, com sua delicada e nostálgica música tema sofrendo algumas variações que ilustram o sentimento dos personagens, como quando William, após levar uma surra de Bill, pensa que vai morrer e mostra arrependimento por tudo que fez (e nas duas cenas, o visual carregado pelas sombras transmite a aflição do personagem). Já o bom trabalho de som é perceptível não somente nos notáveis tiros e trovões, mas também através de ruídos sutis, como o som do gatilho sendo puxado ou dos grilos no campo, e o ritmo delicioso do longa é mérito da montagem de Joel Cox, que intercala momentos contemplativos diante de lindas paisagens e momentos de alta tensão. Além disso, faz elegantes transições, como quando Munny acorda e descobre que ficou doente por 3 dias ou quando uma prostituta diz que “a chuva está chegando”, anunciando também a chegada de Munny, Ned e Kid, que galopavam sob a chuva minutos antes.

Todo este excelente trabalho técnico serve como sustentação para que o excelente elenco de “Os Imperdoáveis” construa, sob a direção do competente Eastwood, personagens amargos e complexos. A começar por uma das lendas do oeste, interpretada pelo sempre carismático Richard Harris. Acompanhado de perto pelo curioso escritor Beauchamp, Bob “inglês” é o típico fora-da-lei que fez fama no oeste, mas a forma como as coisas acontecem vai desconstruindo esta imagem do “mito” diante do escritor e do espectador, especialmente quando Bill conta a verdadeira história do assassinato de Corky “Duas Armas”. As lendas vão sendo criadas com base em exageros, como quando Kid diz que o homem cortou os olhos, as orelhas e os peitos da prostituta, o que leva o próprio Kid a duvidar que Munny pudesse apanhar de Bill, alegando que sua arma “provavelmente” travou. E já que citei o xerife, Gene Hackman compõe um Little Bill cruel e implacável, capaz de expulsar a pontapés um perigoso bandido da cidade, entregar uma arma carregada nas mãos de um prisioneiro e espancar até a morte um matador capturado. Por outro lado, mostra piedade quando pega o homem que cortou uma prostituta (“São apenas vaqueiros que fizeram besteira”) e em diversos momentos parece apenas desejar viver em paz em sua nova casa – e Hackman é muito competente ao oscilar entre os momentos de fúria e os momentos de serenidade do personagem com precisão. Vale destacar ainda seu excepcional desempenho na tensa conversa que tem com Beauchamp e Bob na prisão, quando fala sobre a frieza necessária para matar alguém (algo que terá reflexo direto no terceiro ato da narrativa, quando apenas ele e Munny se enquadram nesta situação). A dupla Harris e Hackman vive ainda um dos grandes momentos do longa, quando Bill interroga e revista Bob, agredindo-o em seguida sob o olhar incrédulo de toda cidade, numa tentativa de manter o controle da situação e, ao mesmo tempo, mandar um recado a todos os assassinos da região (“Não virá ninguém”, diz uma das prostitutas preocupada). Infelizmente para Bill, o recado não chegou aos ouvidos de William Munny.

Sempre firme, Eastwood convence no papel do veterano que volta à ativa somente para conseguir um dinheiro que lhe permita criar os filhos com mais dignidade. Seu William Munny carrega o peso do passado no semblante triste e o peso da idade também fica evidente, por exemplo, em sua dificuldade para montar no cavalo. Depois de um passado sombrio, Munny agora é um pai cuidadoso, que evita falar sobre o passado na frente das crianças e ainda corrige o filho ao escutar um palavrão (“Cuidado como fala”). Sua esposa Claudia de fato mudou sua vida, como ele faz questão de deixar claro em frases como “Era o uísque que me deixava daquele jeito. Minha mulher me curou da bebedeira e da malvadeza”. Ele não é mais um assassino, deixou de beber uísque e agora se preocupa com sua reputação, algo que fica evidente todas as vezes que alguém cita o seu passado (“Não sou mais assim”) e quando recusa uma prostituta, numa cena tocante e bela (“Admiro você por ser fiel a sua esposa”). Só que Claudia não estava mais presente e agora ele estava de volta àquela vida, ainda que não admitisse isto, como seu olhar de reprovação indica ao ouvir do amigo Ned que “se Claudia estivesse viva ele não estaria fazendo aquilo”. Mas ao contrário do passado, agora William sente imediatamente o peso do que fez após matar um homem, e Eastwood demonstra bem o incomodo do personagem, mexendo com uma pedrinha enquanto olha triste pra baixo e gritando para darem água para o rapaz que agoniza, assim como Freeman também ilustra bem o incomodo de Ned através de seu semblante sofrido. Aliás, o Ned de Morgan Freeman se mostra um bom parceiro, fiel ao amigo, mas também transformado pelo tempo e já sem a mesma agilidade e até mesmo sem a mesma frieza para matar, como fica claro quando hesita em atirar num homem indefeso. Matar já não era tão fácil pra ele e o ator demonstra isto muito bem. E fechando o elenco, o Kid de Jaimz Woolvett fala muito e faz pouco, mostrando-se o típico jovem sonhador que se deslumbra diante da fama que aquela vida traz. Ele vai descobrir que matar alguém tem muito pouco de glamour e traz grande amargura quando, após hesitar bastante, finalmente dispara contra um vaqueiro e o mata, sendo corroído pelo remorso momentos depois – algo que Woolvett demonstra bem na tocante conversa entre Kid e Munny ao pé de uma árvore. Observe ainda como William percebe o sofrimento do rapaz e resolve o problema à sua maneira, mandando o garoto “tomar um trago” após ouvir que foi o primeiro homem que ele matou. Em seguida, diz uma frase de forte impacto que traduz muito bem o sentimento que domina “Os Imperdoáveis”: “Matar um homem é algo infernal. Você tira tudo que ele tem e tudo que ele poderia vir a ter um dia”.

Ao descobrir que Ned foi espancado até a morte por Bill, o velho instinto matador de William Munny vem à tona, algo ilustrado em um pequeno gesto do personagem, que pega a garrafa de uísque e toma muitos goles. A garrafa vazia, jogada na lama debaixo da chuva, indica que o velho assassino está de volta e o final sensacional de “Os Imperdoáveis” tem inicio quando seu rifle interrompe as comemorações de Little Bill e seus amigos no bar. O diálogo que precede o tiroteio é uma grande homenagem ao gênero que fez a fama de Eastwood, repleto de frases marcantes como “Já matei mulheres e crianças. Já matei tudo que anda e rasteja e estou aqui para matar você Little Bill pelo que fez com Ned” (repare o brilho nos olhos de Beauchamp ao ouvir a frase e perceber que estava diante de uma verdadeira lenda). Este tipo de frase de impacto era tradicional no western. O tiroteio que segue é uma síntese de tudo que o filme prega, mostrando que não é fácil pegar uma arma e atirar num homem. Por isso, enquanto Munny acerta praticamente todos os tiros, os outros atiram para qualquer lado, sem direção, ou saem correndo, com medo diante de um verdadeiro assassino. O final antológico, com Munny e Bill marcando um encontro no inferno, encerra o clímax desta maravilha do cinema.

Como bem ilustrado pela singela frase que encerra “Os Imperdoáveis”, até mesmo um cruel assassino pode mudar seu comportamento ao lado de uma pessoa que lhe valha a pena. Se nada explicou para a Sra. Feathers porque sua filha se casou com um homem violento e inclemente, o longa explica como um homem marcado por papéis violentos pode, ao longo dos anos, exibir tamanha sensibilidade e nos entregar trabalhos tão maduros como este excelente “Os Imperdoáveis”.

Texto publicado em 09 de Fevereiro de 2011 por Roberto Siqueira

O ÓLEO DE LORENZO (1992)

(Lorenzo’s Oil)

 

Videoteca do Beto #86

Dirigido por George Miller.

Elenco: Susan Sarandon, Nick Nolte, Zack O’Malley Greenburg, Peter Ustinov, Kathleen Wilhoite, Gerry Bamman, Margo Martindale, Maduka Steady, James Rebhorn, Ann Hearn e Laura Linney.

Roteiro: George Miller e Nick Enright.

Produção: George Miller e Doug Mitchell.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Algumas histórias são tão poderosas que nem mesmo os mais competentes profissionais conseguem transpor para a tela toda sua essência. Felizmente, não é o caso deste tocante “O Óleo de Lorenzo”, certamente o melhor trabalho da irregular carreira de George Miller. Captando com incrível competência a aura de sofrimento e angústia da família Odone e, ao mesmo tempo, realçando a luta daqueles pais obstinados na busca pela cura de uma cruel doença, o diretor e seu talentoso elenco entregam um filme magnífico, capaz de abalar as estruturas do espectador, especialmente (mas não exclusivamente) daqueles que já têm filhos.

O jovem Lorenzo leva uma vida normal até ser diagnosticada uma rara doença conhecida como ALD, que provoca uma degeneração do cérebro, levando o paciente à inevitável morte em poucos anos. Inconformados com a falta de tratamento, seus pais Augusto (Nick Nolte) e Michaela (Susan Saradon) decidem estudar por conta própria as causas da doença, na esperança de conseguir descobrir alguma forma de deter seu avanço, mas encontram a resistência dos médicos e da Associação dos pais de crianças portadoras da ALD.

Escrito por George Miller e Nick Enright, “O Óleo de Lorenzo” nos conta em detalhes a história real da dolorosa batalha enfrentada pela família Odone na tentativa de salvar seu filho Lorenzo – e independente de suas qualidades cinematográficas, a história já seria suficiente para comover as pessoas que tem filho (s). Mas Miller não se contenta apenas com seu tema forte, imprimindo um bom ritmo à narrativa, que, apesar de ser inevitavelmente episódica, cobre diversos anos da vida dos Odone sem jamais soar cansativa. Contando com a montagem de Marcus D’Arcy e Richard Francis-Bruce, Miller cria alguns momentos em que a passagem do tempo é indicada sutilmente, como quando Michaela, após ter seu pedido de ajuda recusado, diz para uma jornalista que ela deveria conhecer Lorenzo e, no plano seguinte, vemos Augusto agradecendo a doação e uma senhora chegando a casa dizendo que leu o anúncio no jornal. Além disso, o constante uso de fades (quando a tela escurece na transição entre duas cenas) aumenta a sensação de angústia, de perda e de desolamento no espectador, refletindo o sentimento de Augusto e Michaela. Esta atmosfera carregada nos suga pra dentro da narrativa, criando um constante clima de aflição, que ainda assim, jamais permite que os pais abandonem o menino. E o mais curioso é que apesar do início da narrativa na África fazer alusão ao misticismo e à fé (se apegar à fé é algo que poderíamos esperar de qualquer pessoa nesta situação), é na ciência que o casal vai encontrar uma forma de conter a grave doença de seu filho – ainda assim, a amizade de Omouri (Maduka Steady) será fundamental na recuperação do garoto e sua chegada dará ainda mais forças ao bravo Lorenzo.

Ainda na direção, vale destacar alguns inteligentes movimentos de câmera de Miller, como o contra-plongèe que esmaga o casal na igreja enquanto Michaela olha pra cima procurando ajuda divina ou o plano fixo que destaca a reação dos pais enquanto o médico fala sobre a doença. Neste momento, aliás, a espetacular Susan Saradon demonstra com precisão a dor da mãe ao ouvir o implacável diagnóstico do especialista, com os olhos marejados, a voz embargada e um misto de força e fraqueza no rosto incrédulo. Incrédulo também está Nolte, que se contém, até como uma forma de dar mais força para a esposa. Momentos antes, Miller introduz lentamente os elementos que indicam a gravidade da situação, como quando a câmera passa por Michaela, vai até a janela e mostra as crianças correndo em direção a Lorenzo, somente para em seguida uma garota entrar na casa e dizer que “Lorenzo caiu da bicicleta e está sangrando muito”. Após o cruel diagnóstico, o diretor, auxiliado pela fotografia de John Seale, afunda Nolte nas sombras quando Augusto inicia as pesquisas na biblioteca e, em seguida, um close em seus olhos realça seu desespero enquanto lê sobre as terríveis conseqüências da doença, nos levando à forte cena em que o pai, desesperado, grita de dor e despenca pelas escadas, pontuado pela evocativa trilha sonora de Christine Woodruff – que neste instante utiliza a mesma música tema de “Platoon”, mas durante toda a narrativa espalha temas obscuros, repletos de vozes que formam uma espécie de coral cantando música erudita, o que novamente faz referencia à fé. Este visual sombrio predomina boa parte da narrativa, como quando a família se deita na cama, também escondida sob as sombras, e o plano seguinte, com o clima nublado e chuvoso, indica o futuro complicado que eles teriam pela frente, ou quando eles estão olhando para as estrelas da janela, novamente com a escuridão tomando conta da tela.

George Miller confirma sua inteligência ao empregar com freqüência o close, que normalmente serve para realçar as reações dos atores, conseguindo extrair atuações muito fortes e convincentes de todo o elenco. Com a câmera próxima, ele enfatiza o sofrimento daquela família e, além disso, nos passa uma sensação claustrofóbica, criando um forte incomodo enquanto acompanhamos aqueles pais obstinados em busca da cura da rara doença do filho. Interpretada de maneira emocionante por Saradon, Michaela é uma mãe obstinada, que não desiste jamais, chegando ao ponto de entrar em contato com laboratórios, médicos, especialistas e tudo que for preciso para conseguir salvar o filho, ainda que raramente tenha forças para sair do lado dele. Enquanto isto, Nick Nolte apresenta um sotaque acidentado, além dos tradicionais gestos e gritos que compõem o típico personagem de origem italiana, mas cumpre bem o papel do determinado Augusto, demonstrando devoção na luta pela vida de Lorenzo. E se são muitos os momentos de destaque na atuação de Saradon, como a citada reação à notícia da doença ou as explosões de Michaela contra as enfermeiras que “cuidam” de Lorenzo, Nolte se destaca quando recebe a ligação que informa a redução dos níveis de C24 e C26 no sangue do garoto, reagindo de maneira comovente. Já o pequeno Lorenzo é interpretado por diversos atores, mas o grande destaque fica para Zack O’Malley Greenburg, que expressa todo o sofrimento do garoto através de sua dificuldade pra caminhar e falar, de suas tosses e, principalmente, durante as fortíssimas convulsões. E fechando a família, Kathleen Wilhoite se sai bem como Deirdre, especialmente na realista discussão com o casal Odone que resulta em sua saída da casa, logo após o plano em que a vemos conversando com Augusto e Michaela aparece na porta ao fundo. Após esta discussão, Augusto desabafa e culpa a esposa pela doença do filho (algo reprovável, mas compreensível diante de tanto sofrimento), num momento tocante, que expõe o limite daquele homem.

Além destes momentos, podemos destacar a grande atuação coletiva no tenso jantar na casa dos Odone com a família Muscatine (James Rebhorn e Ann Hearn), onde os interesses aparecem, mas também a dor de cada pai e mãe ali presente, apunhalados pelo destino e tendo que enfrentar um terrível sofrimento. A esperança dos Odone se choca diretamente com o ceticismo dos Muscatine, já sem esperança diante de tudo que viveram. Ainda assim, parece que a Associação comandada por eles está mais preocupada com o bem estar dos pais do que com as crianças, pensando inclusive em vender livros de receitas para gerar lucro, algo que fica evidente quando Loretta Muscatine pergunta “Qual é a pressa?”, levando Michaela a parar de mexer a comida (algo evidenciado pelo plano de Miller) e responder com raiva “Acho que nós duas sabemos a resposta para esta pergunta fútil”. Somando tudo isto a sempre comedida reação dos médicos diante das descobertas dos Odone, temos a sensação de que somente Augusto e Michaela estavam interessados em encontrar a cura daquela doença, sem se importar com as enormes barreiras existentes no caminho.

E então chegamos ao comovente momento em que Augusto pergunta à Michaela se ela “já pensou que toda esta luta pode ter sido para ajudar a criança de outrem”, jogando o espectador na lona e inevitavelmente trazendo as lágrimas. E de fato, a luta do casal não conseguiu reverter o quadro de Lorenzo, mas estagnou a doença e lentamente começou a recuperar alguns de seus sentidos. Por isso, quando ele move um dedo, temos a sensação eufórica de que todo aquele esforço não foi em vão – e a recompensa final vem nos créditos do filmes, quando dezenas de garotos curados pelo óleo de Lorenzo justificam toda aquela luta. O último plano do longa, com o pensamento de Lorenzo ganhando voz enquanto ele olha para o alto, nos deixa a sensação de que “O Óleo de Lorenzo” é um filme devastador em praticamente toda sua duração, mas vale a pena aguardar por seu final inspirador.

Com atuações magníficas (especialmente de Susan Saradon) e a segura direção de George Miller, “O Óleo de Lorenzo” comove sem ser melodramático, justamente porque a história que o inspira é suficiente para nos emocionar. E se durante grande parte da narrativa somos esmagados por sua atmosfera triste e devastadora, somos recompensados por seu belo final, que se não chega a ser otimista, pelo menos nos ensina a força que nós temos quando buscamos algo de verdade.

Texto publicado em 06 de Fevereiro de 2011 por Roberto Siqueira

MÁQUINA MORTÍFERA 3 (1992)

(Lethal Weapon 3)

 

Videoteca do Beto #85

Dirigido por Richard Donner.

Elenco: Mel Gibson, Danny Glover, Joe Pesci, Rene Russo, Stuart Wilson, Steve Kahan, Darlene Love, Traci Wolfe, Damon Hines, Ebonie Smith, Gregory Millar, Nick Chinlund, Bobby Wynn, Alan Scarfe e Mark Pellegrino.

Roteiro: Jeffrey Boam, baseado em história de Jeffrey Boam e Robert Mark Kamen.

Produção: Richard Donner e Joel Silver.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Se “Máquina Mortífera 2” apresentava algumas novidades que evitavam a sensação de “mais do mesmo”, este “Máquina Mortífera 3” não apresenta o mesmo frescor, dando a sensação de que simplesmente repete a fórmula dos filmes anteriores. Felizmente, “Máquina Mortífera” é uma série que depende muito pouco da trama de cada filme, baseando seu sucesso na excelente mistura de ação e comédia empregada por Richard Donner, e, principalmente, na química de sua dupla de policiais, graças ao excepcional entrosamento de Mel Gibson e Danny Glover. Desta forma, se os vilões enfraquecidos e a história simples demais prejudicam a narrativa, a força das cenas de ação constantemente intercaladas com momentos de bom humor e a dinâmica relação da dupla principal garantem o sucesso do longa.

Após provocar acidentalmente a explosão de um prédio, a dupla de policiais formada por Martin Riggs (Mel Gibson) e Roger Murtaugh (Danny Glover) é rebaixada ao cargo de guarda de rua. Só que um movimento suspeito num furgão dá a chance de redenção para a explosiva dupla, que inicia uma investigação a respeito de um gigante esquema de roubo de armas, comandado por um ex-integrante da policia.

Apostando na mesma fórmula de “Máquina Mortífera” e “Máquina Mortífera 2”, Richard Donner consegue mais uma vez balancear com incrível competência as empolgantes seqüências de ação com momentos dignos dos bons filmes de comédia, algo notável desde a primeira cena deste “Máquina Mortífera 3”, quando o conflito entre a impulsividade de Riggs e o conservadorismo de Murtaugh nos leva pra dentro de um prédio cercado pela polícia devido a suspeita de uma bomba e nos entrega uma das mais emblemáticas cenas da série. Observe a excepcional condução de Donner, intercalando as tiradas de Riggs (“Cher não tem tanto plástico!”), a discussão sobre qual fio é o correto e, inteligentemente, incluindo um plano de um gato andando sobre o carro, que será a chave para o hilário final da seqüência (“Pegue o gato!”). O diretor é competente também na condução das ótimas cenas de ação, como a perseguição com furgões em alta velocidade, também repleta de pitadas de bom humor, graças à simpática Delores, interpretada com carisma por Delores Hall, ou a empolgante perseguição que se inicia no metro, sai pelas ruas com Riggs numa moto (e na contramão!) e termina com ele pendurado numa ponte. Nesta cena, observe a alternância dinâmica entre os planos aéreos, os closes e planos subjetivos, que nos colocam sob o ponto de vista de Riggs, graças também a montagem ágil de Robert Brown e Battle Davis, além da qualidade do som, que capta com precisão o barulho da moto, dos carros, das buzinas e as vozes dos personagens. Donner também é hábil nos movimentos de câmera que nos jogam pra dentro da trama, como a câmera que acompanha Riggs e Roger no tiroteio que resulta na morte de Darryl (Bobby Wynn), além de utilizar estes mesmos movimentos para nos transmitir sensações, como no zoom out que diminui Roger na tela após este tiroteio, ilustrando a aflição do policial após matar o garoto. E finalmente, Richard Donner mostra talento na condução das cenas engraçadas, como quando Riggs interrompe as filmagens de um filme e atrapalha Rianne (Traci Wolfe), tratando de recuperar imediatamente o emprego da moça à sua maneira, ou quando Leo (Joe Pesci) leva um tiro na quadra de hóquei e é levado ao hospital.

Para manter este clima descontraído, Donner manteve também algumas das principais falhas da série, como as situações pouco verossímeis, como quando o ex-tenente Travis (Stuart Wilson) entra na delegacia sem ser revistado, vai até a sala, mata o assaltante preso diante das câmeras e vai embora tranquilamente, e os vilões enfraquecidos pela leveza da narrativa, algo evidenciado quando Lorna (Rene Russo) e Riggs invadem uma casa, batem em todos os bandidos e fogem com as armas e o cachorro deles. E desta vez Donner peca ao criar um plano óbvio demais, quando envolve Travis em chamas na tentativa de “demonizar” o vilão, o que não acontece por tudo que já foi citado, mas também por causa da fraca atuação de Wilson, que jamais consegue transmitir segurança como o vilão principal. Por outro lado, a tradicional trilha sonora de Eric Clapton, Michael Kamen e David Sanborn, repleta de jazz e blues, e a fotografia clara de Jan de Bont, que aposta em cores vivas e muitas cenas diurnas, continuam coerentes com a atmosfera leve da série.

Escrito por Jeffrey Boam, baseado em história de Jeffrey Boam e Robert Mark Kamen, “Máquina Mortífera 3” aborda novamente, ainda que superficialmente, o tema da aposentadoria, ilustrando o cruel dilema que toda pessoa enfrenta ao se aproximar o momento de deixar de fazer o que gosta. Este interessante subtexto fica ainda mais evidente, obviamente, porque agora Roger está muito mais perto de se aposentar (mais precisamente, há oito dias quando a narrativa se inicia). Desta forma, Danny Glover pela primeira vez tem mais destaque que Mel Gibson, ao ilustrar muito bem o incomodo que o personagem sente, por exemplo, através de sua já tradicional frase “Estou muito velho pra isso”, algo refletido também quando responde a pergunta “Cortou-se? Lâmina velha?” com duas palavras secas e diretas: “Rosto velho”. O ator mostra competência ainda quando Roger se preocupa com o filho Nick (Damon Hines), tentando desesperadamente manter a intimidade perdida com o garoto através da patética brincadeira que faz com as gírias que o filho utiliza no dia-a-dia. A situação só piora quando ele mata acidentalmente um amigo de Nick, o que nos leva à melhor cena dramática do longa, quando Riggs mostra pro amigo que ele não teve culpa no assassinato, provando mais uma vez a forte amizade entre eles. Repare o predomínio das sombras na cena, refletindo a angustia de Roger e até mesmo de Riggs, pois, nas palavras dele, “era a dupla que estava sofrendo” e não somente Roger. O alívio só vem para Roger quando seu filho diz que não o culpa, tirando um peso enorme de suas costas e devolvendo-lhe a motivação. Além deste ponto alto em suas atuações, Gibson e Glover mantém o incrível entrosamento dos filmes anteriores, fazendo com que aquela amizade torne-se praticamente palpável ao espectador, que carrega ainda na memória a lembrança de tudo que eles viveram, dando à amizade entre Riggs e Roger um peso enorme. Além disso, as constantes brincadeiras entre eles conferem realismo aquela relação, pois os verdadeiros amigos agem exatamente desta forma.

Novamente interpretado com muito carisma por Mel Gibson, Riggs continua louco ao ponto de brincar com um cachorro feroz e fazer amizade com ele, impressionando sua nova parceira Lorna, mas já não tem o mesmo impulso suicida de antes, pois encontrou o seu lugar na família de Roger. E apesar de sua introdução seguir o clichê “brigam e depois ficam juntos”, a Lorna de Rene Russo é realmente encantadora, conquistando Riggs com suas habilidades durante uma briga (“Minha garota”, diz ele), mas também com seu jeito direto de lidar com o maluco policial. Ainda que não tenha a química de Gibson e Glover em cena, Russo se sai bem e estabelece uma boa parceria com a dupla, especialmente com Mel Gibson, algo notável da divertida cena em que eles mostram as cicatrizes no corpo e acabam dormindo juntos. Fechando os destaques do elenco, Joe Pesci está novamente hilário como Leo, com suas falas rápidas e seu jeito ansioso de lidar com os seus “amigos”.

As agradáveis rimas narrativas também marcam presença neste terceiro filme, como quando Roger usa o chute parafuso e diz que “funciona mesmo”, numa alusão a brincadeira de Riggs na delegacia. Em outra interessante rima narrativa, agora com os dois filmes anteriores, Riggs se envolve numa luta corporal com o grande vilão do filme, resultando no momento em que ele usa as balas “mata ex-tiras” e vence o rival. Além disso, o fogo no chão no empolgante terceiro ato faz alusão aos créditos iniciais do filme, quando os letreiros aparecem sob chamas, o que também é elegante – e aqui vale citar o divertido momento em que Riggs pede que Roger conte até 20 antes de colocar fogo em tudo e Roger, sem se dar conta da insanidade daquele pedido, tenta efetivamente contar (“13, 14… Ah, dane-se!”). Após a explosiva solução do conflito, Riggs, com Lorna nos braços, reencontra o amor e Roger não se aposenta, deixando a sensação (na época) de que um quarto filme era apenas questão de tempo.

Richard Donner aposta na repetição da fórmula dos filmes anteriores neste “Máquina Mortífera 3”, que justamente por não depender exclusivamente da trama, consegue um bom resultado, graças aos seus personagens marcantes e ao que de melhor a série apresenta, uma mistura genuína entre ação e comédia.

PS: Vale aguardar o final dos créditos para acompanhar uma divertida brincadeira envolvendo Roger e Riggs.

Texto publicado em 02 de Fevereiro de 2011 por Roberto Siqueira

LUA DE FEL (1992)

(Bitter Moon)

 

Videoteca do Beto #84

Dirigido por Roman Polanski.

Elenco: Hugh Grant, Kristin Scott Thomas, Emmanuelle Seigner, Peter Coyote, Victor Banerjee, Sophie Patel, Patrick Albenque, Luca Vellani e Stockard Channing.

Roteiro: Gérard Brach, John Brownjohn, Jeff Gross e Roman Polanski, baseado em livro de Pascal Bruckner.

Produção: Roman Polanski.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Durante grande parte de “Lua de Fel”, Roman Polanski faz um profundo e interessante estudo da paixão sem limites, revelando as melhores e as piores conseqüências de se entregar totalmente a uma pessoa, abdicando de si mesmo. Mas, infelizmente, o diretor escorrega no ato final, diminuindo parte do impacto de um filme que tinha tudo para deixar o espectador completamente atordoado com seu retrato pessimista da relação entre duas pessoas perdidamente apaixonadas. O resultado é um longa correto, que deixa a sensação de que Polanski, com um pouco mais de ousadia, poderia ter realizado uma obra marcante.

Casados há sete anos, os ingleses Nigel (Hugh Grant) e Fiona (Kristin Scott Thomas) decidem embarcar num cruzeiro marítimo, como forma de renovar a relação. Durante a viagem, eles conhecem a francesa Mimi (Emmanuelle Seigner) e seu marido norte-americano Oscar (Peter Coyote). Ao perceber o interesse de Nigel por sua esposa, Oscar decide contar sua história de paixão doentia pra ele, lentamente revelando como foi parar numa cadeira de rodas.

Roman Polanski é um diretor talentoso. Por isso, não surpreende que “Lua de Fel” apresente momentos marcantes, como a sensual dança de Mimi para Oscar, e tenha um ritmo envolvente, nos sugando pra dentro da história, especialmente nos momentos que envolvem o passado dos amantes. Também não faltam belos planos, como aquele em que Nigel olha para o mar durante a noite com a lua refletindo na água, e inteligentes mecanismos narrativos, como os planos do mar que antecedem as conversas entre Oscar e Nigel, que indicam a intensidade da história que será contada a seguir (ou seja, quanto mais agitado o mar, mais quente e ousada será a nova parte da história). Contando com a montagem de Hervé de Luze, o diretor cria ainda elegantes transições, como quando a imagem de Mimi na tela do computador se transforma na imagem dela dentro do ônibus, durante uma lembrança de Oscar. Além disso, conta também com a bela trilha sonora de Vangelis, com sua melodia triste se alternando com variações sombrias, coroada pelo lindo tema que embala o inicio da relação de Mimi e Oscar em Paris. Mas apesar destes belos momentos, Polanski deixa escapar a chance de realizar um grande filme e se perde no ato final, quando o longa assume contornos de lesbianismo e um clima festivo que contradizem radicalmente a atmosfera pessimista da narrativa até então, apesar do sutil indício de que isto poderia acontecer quando Mimi vê Fiona pela primeira vez e diz que ela é linda.

Para viver Mimi, a mulher que embalaria os melhores sonhos e os piores pesadelos de Oscar, Polanski escolheu sua esposa Emmanuelle Seigner, com quem já havia trabalhado em “Busca Frenética”. Inexpressiva em boa parte da narrativa, a atriz exagera em alguns momentos, como quando chora nas pernas de Oscar, e se sai bem em outros, como nas intensas discussões com Oscar ou quando se mostra insinuante no bar na ousada primeira conversa com Nigel, entregando uma atuação bastante irregular. Ainda assim, é interessante acompanhar a trajetória de sua personagem, que lentamente se transforma de jovem apaixonada numa mulher dominadora, caindo repentinamente ao fundo do poço e voltando para viver um misto de amor e ódio com Oscar. Com pouco tempo em cena, a talentosa Kristin Scott Thomas vive a entediada Fiona, para quem o momento mais excitante da viagem é uma conversa com um desconhecido no bar, que serve de aviso para seu distante marido (“Não há nada que você faça que eu não faça melhor”, ameaça). Observe o olhar ameaçador de Fiona para Nigel quando diz para o rapaz no bar o dito popular “azar no jogo, sorte no amor”, insinuando que não hesitaria em trair o marido caso ele continuasse agindo daquela maneira. Mas o aviso não surtiu efeito, e logo em seguida ele deixa Fiona passando mal na cabine e volta para ouvir o final da história de Oscar. Interpretado por Hugh Grant, o tímido Nigel é o típico homem de família inglês, sempre polido e educado, mas incapaz de se conter diante da insinuante Mimi. O ator demonstra bem a luta constante de Nigel para não demonstrar interesse no que ouve, enquanto claramente se mostra cada vez mais interessado nos detalhes mais obscenos da relação entre Oscar e Mimi (vale citar o engraçado momento em que Nigel se mostra incomodado com os detalhes escatológicos da história que ouve). Já Peter Coyote exagera em alguns momentos, como quando Mimi derruba Oscar da cama no hospital, mas vai bem em muitos outros, principalmente quando desafia Nigel na cabine a ouvir mais de sua história, além de prender a atenção do espectador com sua narração envolvente.

Escrito por Gérard Brach, John Brownjohn, Jeff Gross e Roman Polanski, baseado em livro de Pascal Bruckner, “Lua de Fel” faz um interessante estudo da paixão sem limites, utilizando uma narrativa que intercala a viagem de navio com os flashbacks que ilustram as memórias de Oscar. E é curioso acompanhar a mudança sistemática no relacionamento do casal apaixonado, ilustrada até mesmo através da fotografia de Tonino Delli Colli, mais clara e iluminada no inicio da narrativa, escurecendo na medida em que a relação avança e se afundando inteiramente nas sombras após a conversa deles numa praça, quando Oscar diz que é melhor cada um seguir o seu caminho. Este momento até mesmo tocante se contrapõe diretamente ao promissor inicio do romance, com direito a jantar de gala, brincadeiras e passeio no parque, terminando na belíssima cena da primeira relação sexual do casal, com lareira ao fundo e os closes de Polanski destacando a sensualidade e o erotismo do encontro. Após o romântico passeio no parque, a sensual dança a luz de velas e as brincadeiras com leite, o casal se mostra cada vez mais íntimo. Só que um pequeno corte feito por Mimi enquanto barbeia Oscar indica que a relação entraria em novos terrenos, explorando novas experiências e revelando o lado sádico da jovem. E após comprarem seus “brinquedos” e se trancarem por dias no apartamento para se divertirem, Oscar começa a perceber que a relação está entrando em decadência, e na tentativa de se renovar, sai com ela e os amigos, nos levando ao momento que mudaria pra sempre aquela história, quando uma crise de ciúmes de Mimi é o estopim para uma serie de atitudes entre eles que os levará ao outro extremo da paixão, o ódio. O choro compulsivo de Mimi após esta briga evidencia sua paixão doentia e desperta as piores idéias na cabeça de Oscar, reforçadas pelo momento em que ele bate nela e ela, após desmaiar, acorda e diz que o ama. Faltava amor próprio a Mimi (algo refletido até mesmo em seu visual dali em diante) e Oscar percebe isto, revelando sua pior faceta com verdadeiros requintes de crueldade. Mas um acidente viraria o jogo novamente, colocando Mimi numa posição favorável e abrindo a possibilidade de vingança pra ela. Revigorada (algo também refletido no visual dela), ela aproveita para devolver o amargo gosto do desprezo ao amante, que, incapaz de reagir, se afunda em solidão, algo ilustrado no obscuro plano em que olha pela janela a distante Torre Eiffel, simbolizando o romance perdido e fazendo-o sentir a humilhação que Mimi sentiu ao olhar para a lua no avião. Oscar finalmente chega ao fundo do poço na melancólica seqüência em que Mimi transa com outro na frente dele e o travelling de Polanski pelo quarto nos leva ao rosto incrédulo daquele homem em ruínas. A paixão tinha se transformado em ódio.

A triste história de Oscar e Mimi desperta Nigel, que finalmente compreende que sua relação com a esposa estava deteriorada, o que o leva a ensaiar uma conversa franca com ela (“Vamos ser adultos”, diz sozinho olhando para o mar). Em seguida, ele se entrega a paixão por Mimi, que não corresponde. Ela não queria sofrer mais, por isso, era melhor nem se envolver com alguém que quisesse mais do que sexo com ela. Assim como Oscar, ela já não acreditava mais no amor. E então o surpreendente (e até certo ponto incompreensível) final contraria toda a atmosfera amarga do longa, quando Mimi e Fiona se beijam na festa e dormem juntas. Embalada pela música “Slave to Love” (a mesma que embalou “9 ½ Semanas de Amor”, outro longa que aborda o tema “paixão sem limites”), a festa destoa do restante da narrativa e parece deslocada. Mas os tiros impiedosos de Oscar contra Mimi e na própria cabeça devolvem o pessimismo à “Lua de Fel”, deixando, com o perdão do trocadilho, um gosto amargo na boca do espectador, refletido no melancólico plano final, com Nigel e Fiona, solitários, diante do mar.

Com muito mais acertos do que erros, “Lua de Fel” apresenta um retrato cruel e pessimista da paixão avassaladora, mas, infelizmente, boa parte de seu impacto é reduzido pelo inexplicável terceiro ato. Talvez se Fiona tivesse ficado com o homem que conheceu no bar e Nigel tivesse perdido as duas mulheres em definitivo, o tom pessimista soaria homogêneo em toda a narrativa. Ainda assim, o longa faz jus ao fel de seu título.

Texto publicado em 19 de Janeiro de 2011 por Roberto Siqueira