ENTRE DOIS AMORES (1985)

(Out of Africa)

 

Videoteca do Beto #34

Vencedores do Oscar #1985

Dirigido por Sydney Pollack.

Elenco: Meryl Streep, Robert Redford, Klaus Maria Brandauer, Michael Kitchen, Joseph Thiaka, Stephen Kinyanjui, Michael Gough, Suzanna Hamilton, Rachel Kempson, Graham Crowden, Leslie Phillips, Shane Rimmer, Mike Bugara, Job Seda e Mohammed Umar.

Roteiro: Kurt Luedtke, baseado nas memórias de Isak Dinesen.

Produção: Sydney Pollack.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A história real de um romance vivido no Quênia entre uma dinamarquesa da alta classe social e um solitário caçador inglês embala este belo filme dirigido por Sydney Pollack. Baseado nas memórias de Isak Dinesen (no filme a baronesa Karen Blixen-Finecke), “Entre dois amores” retrata muito bem como duas pessoas podem se amar, mesmo tendo enormes diferenças entre si. Mostra também como, por outro lado, estas mesmas diferenças podem prejudicar uma relação que tinha tudo para dar certo.

Karen Blixen (Meryl Streep) é uma rica dinamarquesa que decide morar em uma fazenda no Quênia com o barão Bror Blixen-Finecke (Klaus Maria Brandauer), com quem se casou por conveniência para desfrutar dos benefícios que o casamento lhe garantiria em sua família. O problema é que este casamento entre amigos não é o suficiente para segurar Bror, que simplesmente não consegue viver na fazenda, saindo para caçar constantemente. Pra piorar a situação, pouco tempo depois o barão decide participar da guerra. Sozinha, Karen trabalha pra tocar a vida na fazenda e se adaptar ao novo lar. A situação começa a mudar quando conhece o aventureiro aristocrata inglês Denys Finch Hatton (Robert Redford), por quem se apaixona e tem uma relação amorosa que marca sua vida para sempre.

“Entre dois amores” é um festival de lindas imagens. Os belos planos que exploram a beleza da região, acompanhados de elegantes movimentos de câmera e travellings que sobrevoam as lindas paisagens, são capazes de tirar o fôlego do espectador. O diretor Sydney Pollack – sempre com enquadramentos perfeitos que poderiam se transformar em lindos quadros – apresenta uma direção segura e competente também nas raras seqüências de ação, como nas caçadas em meio à savana africana. Mas Pollack deixa claro que a África (neste caso o Quênia) não é feita somente de belezas naturais, contrapondo com precisão o luxo dos britânicos à miséria dos africanos logo na chegada de Karen ao local, graças ao excelente trabalho de direção de arte do trio Colin Grimes, Cliff Robinson e Herbert Westbrook e aos figurinos de Milena Canonero. Além disso, Pollack consegue criar momentos de incrível realismo e tensão em todas às vezes que envolve os temíveis leões, criando cenas fantásticas e incrivelmente bem montadas. A primeira cena em que uma leoa aparece, colocando a vida de Karen em perigo, é capaz de causar um frio na espinha do espectador. Por outro lado, o diretor também demonstra sensibilidade e capricha nas cenas românticas, com destaque para o primeiro vôo de Denys e Karen, a mais bela cena do filme. Um momento sublime, repleto de imagens de tirar o fôlego, acompanhado pela lenta e linda trilha sonora de John Barry. As imagens não necessitam de palavras para criar um espetáculo visual de primeira grandeza.

Complementando a excelente direção de Pollack, destaca-se o belo trabalho de montagem (crédito para Pembroke J. Herring, Sheldon Kahn, Fredric Steinkamp e William Steinkamp), perceptível no clipe em que Karen conta histórias pela primeira vez, onde o fogo da vela e da fogueira simboliza a passagem do tempo, mostrando também a capacidade de prender a atenção dos visitantes que ela tem. Outra transição interessante acontece quando Karen sabe da doença de Berkeley (Michael Kitchen) e na cena seguinte já vemos o enterro dele. A montagem também confere um ritmo lento, porém agradável à narrativa, o que é essencial num épico de longa duração. Interessante notar como os momentos ao lado de Denys parecem passar mais rápido que os demais, o que se revela bastante coerente, já que a estória é narrada sob o ponto de vista de Karen, obviamente entediada quando distante dele.

A cena em que Karen corre perigo diante de uma leoa marca também o momento de seu reencontro com Denys já no Quênia, após terem se conhecido durante a viagem de trem. O bom roteiro de Kurt Luedtke constrói lentamente o romance entre eles, desenvolvendo com calma os personagens e conferindo consistência para o ponto alto das atuações de Streep e Redford, quando finalmente os conflitos aparecem. Neste momento, suas motivações ficam claras para o espectador, pois sabemos que ela quer um casamento oficial, ao passo que ele deseja “apenas” ser feliz com ela, sem assinar papel e se prender às responsabilidades. “Eu viveria a vida inteira com alguém. Um dia de cada vez.”, explica Denys. Luedtke também acerta ao respeitar a cultura dos nativos africanos, mostrando sua resistência aos costumes ingleses e o sentido de liberdade existente nas tribos da região (especialmente os Masai), notável quando Denys diz que eles não pensam no futuro, vivem somente o presente. Por isso, se são presos morrem. Não conseguem pensar que um dia sairão da prisão. Outra sutileza do roteiro aparece na belíssima resposta de Denys ao Barão (“Devia ter perguntado antes Denys”. “Eu perguntei, ela disse sim”), que obviamente se referia à autorização dele para que Denys ficasse com Karen. A resposta diz muito sobre o personagem, que não entende que as pessoas pertençam a alguém. Em sua visão, todos são livres.

Denys, aliás, é um personagem fascinante, interpretado com competência por Redford, que oferece uma atuação sem excessos, coerente com o simples e idealista aventureiro. Inicialmente, ele parece não dar muita bola para Karen, o que só serve para chamar ainda mais a atenção dela. Por outro lado, a presenteia com uma caneta e uma bússola, o que dá sinais de seu possível interesse. Exímio caçador e profundo conhecedor da região, Denys é um homem livre, que sente prazer nas coisas simples da vida, como uma noite estrelada ou a paisagem das savanas. Seu jeito de viver passa a sensação de que jamais deixaria de fazer algo que gosta para ficar com Karen. Este, pelo menos, é o pensamento dela, o que não a encoraja largar o casamento de fachada, pois se sente insegura. Entretanto, ele é responsável pelos momentos mais marcantes da vida dela. Redford também se sai bem nos momentos cômicos, como nas duas cenas em que brinca com a palavra “Xô” dita por Karen. Klaus Maria Brandauer convence como o Barão Bror Blixen-Finecke, deixando sempre claro que realmente é casado por conveniência, traindo a esposa constantemente e sem fazer questão de esconder isto dela. Sua sinceridade é espantosa, mas como ela mesma propôs o “acordo”, não faria sentido reclamar. E finalmente, Meryl Streep confirma seu enorme talento, numa atuação marcante (repare o perfeito sotaque britânico). Seu casamento de conveniência começa a fazê-la infeliz e sua obrigação de tomar as rédeas da fazenda transforma Karen numa mulher forte, porém extremamente carente afetivamente. Ao conhecer Denys, seu coração balança. Ela sonha viver ao lado dele, mas infelizmente Denys não é este tipo de homem. Curiosamente, ele também não se adapta à vida na fazenda, mas diferentemente de Bror, demonstra carinho quando está com Karen. Durante uma festa de ano novo, o primeiro embate entre a ambição de Karen e a simplicidade de Denys acontece, assim como o primeiro beijo. Posteriormente, a realista discussão na fazenda entre o casal, a respeito do casamento e do compromisso que ele traz, mostra a filosofia do aventureiro em oposição à necessidade dela de sentir que o possui. Ela nunca o teve da forma que queria, mas sempre teve o seu amor e carinho. O problema é que Karen gostava de se sentir segura, como se um papel de casamento fosse garantir que Denys era dela. Ele era dela de fato, mas porque queria, e não porque um papel o obrigava. Só que Karen não entendia desta forma.

O triste e belo final da história é também uma lição. Karen foi forte o suficiente para se adaptar em um país totalmente diferente de seu local de origem. Conheceu pessoas maravilhosas, demonstrou seu lado mais nobre ao se preocupar em deixar seus empregados com algum lugar para viver, mas fracassou na tentativa de compreender o homem que mais amou na vida. Por outro lado, Karen viveu ao lado dele seus momentos mais marcantes, e com certeza, também marcou a vida dele, como Denys deixa claro ao dizer que ela fez sua vida solitária perder a graça.

Contando com duas grandes atuações, “Entre dois amores” capta com precisão a experiência de duas pessoas que se apaixonam lentamente, vivem esta imensa paixão, mas jamais conseguem compreender a natureza um do outro. Lindamente fotografado e dirigido com competência, seu ritmo lento parece prolongar sua duração, mas esta impressão é amenizada pelas lindas paisagens e a bela história de amor que narra. Por isso, se estabelece como um filme sensível, poético e inegavelmente belo.

Texto publicado em 07 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira

DE VOLTA PARA O FUTURO (1985)

(Back to the Future) 

 

 

Videoteca do Beto #33

Dirigido por Robert Zemeckis.

Elenco: Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Lea Thompson, Crispin Glover, Thomas F. Wilson, Claudia Wells, Mark McClure, Wendie Jo Sperber, George DiCenzo, Lee McCain, James Tolkan e Billy Zane.

Roteiro: Robert Zemeckis e Bob Gale.

Produção: Neil Canton e Bob Gale. Produção Executiva de Steven Spielberg.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A curiosidade comum à maioria dos filhos sobre a época em que seus pais eram jovens é o fio condutor desta produção absolutamente encantadora dirigida por Robert Zemeckis e produzida por Steven Spielberg. Como eles eram? O que faziam? Será que tinham os mesmos dilemas, dúvidas e preocupações? Como se divertiam? Todas estas respostas são apresentadas ao jovem McFly de forma maravilhosa, explorando ao máximo um roteiro incrivelmente inteligente e original. “De Volta para o Futuro” é uma obra-prima da ficção que mostrou a cara dos anos oitenta como poucas obras fizeram.

A trama do filme é criativa e eficiente. O jovem Marty McFly (Michael J. Fox) aciona acidentalmente uma máquina do tempo criada pelo seu amigo e cientista Dr. Emmett Brown (Christopher Lloyd), retornando ao ano de 1955, onde conhece seu pai, ainda jovem, e posteriormente sua mãe. O problema é que ela acaba se apaixonando por ele e, conseqüentemente, colocando em risco sua própria existência. Desta forma, Marty deverá criar uma maneira para que seus pais se encontrem e fiquem juntos, evitando alterar o curso da história e permitindo o seu próprio nascimento.

Lendo assim, da forma que está, parece complicado. Mas o roteiro perfeito escrito por Robert Zemeckis e Bob Gale faz com que tudo se torne mais simples. Sem nenhum furo, ele consegue fazer com que todas as cenas tenham importância na trama, normalmente apresentando elementos que refletem em outros instantes da narrativa. Não é raro encontrar em uma mesma cena dois ou três elementos que podem ter importância em eventos futuros (ou refletirem atitudes do passado). Note, apenas como exemplo, como o verso do papel onde Jennifer (Claudia Wells) anota seu telefone será de suma importância para que Marty consiga voltar aos anos oitenta posteriormente. Além disso, o roteiro não perde as excelentes oportunidades criadas pela viagem no tempo e oferece piadas impagáveis, como aquela em que Marty toca “Johnny B. Goode”, fazendo com que o primo de Chucky Berry ligue imediatamente pra ele, e logo em seguida, quando Marty toca guitarra com o marcante estilo roqueiro de ser e assusta a platéia, somente para dizer que “eles não estava preparados para aquilo ainda, mas os filhos deles iriam adorar”. Genial.

É claro que a competente direção de Robert Zemeckis também tem muita importância. A começar pelo travelling inicial, que nos mostra os muitos relógios do Dr. Brown (ou “Doc”) simbolizando o tempo, tão importante na narrativa, e as noticias no jornal, rádio e televisão, que servem para nos situar no ano de 1985. Além disso, é perceptível já no primeiro plano do filme a enorme criatividade do Dr. Brown, através da parafernália criada para dar comida ao seu cachorro (não por acaso chamado Einstein) e fazer café. Vale à pena observar também como ao chegar ao centro da cidade, em 1955, Zemeckis diminui Marty em um plano geral que, além de mostrar como era a cidade na época (destacando o ótimo trabalho de direção de arte de Todd Hallowell), ilustra como Marty está perdido naquele local. O diretor cria outro plano excepcional na primeira vez em que pai e filho, agora com a mesma idade, aparecem juntos, colocando-os lado a lado. Este plano é de um simbolismo imenso. Podemos comparar as gerações e até mesmo a personalidade de cada um deles, além de observar o misto de encanto e susto do garoto ao ver o pai tão jovem. Zemeckis também tem mérito na criativa forma utilizada para viajar no tempo. O uso do carro, que lembra uma nave espacial, é genial, pois permite que ele viaje junto e sirva para voltar novamente ao presente.

Outro segredo da enorme empatia que o filme cria no espectador está na química perfeita entre o jovem Marty e o cientista “Doc”. Mérito das excelentes atuações de Michael J. Fox, que esbanja jovialidade e simpatia, e Christopher Lloyd, com seu jeito maluco e exagerado que casa muito bem com o personagem (seu visual se inspirou em Einstein, que dá nome ao seu já citado cachorro). Sempre inquieto, seu olhar arregalado e sua energia refletem muito bem a ansiedade do criativo cientista, sempre em busca de novas descobertas. Já o jovem Marty é o elo perfeito entre o filme e o público. É maravilhoso acompanhar, através do olhar dele, como seus pais eram jovens normais, que tinham paixões, dilemas, dúvidas e até mesmo vícios. Sua família problemática (tio preso, pai recatado e sufocado pelo chefe, mãe alcoólatra e irmãos inúteis) colabora com nossa imediata identificação com o personagem, além é claro do inegável carisma de Fox. E aqui o filme também cria conexões com o passado, já que a forma de agir no presente apenas reflete atitudes tomadas na juventude do casal. Repare como Lorraine McFly (Lea Thompson) recorda com nostalgia a forma que conheceu George (Crispin Glover), que nem sequer presta atenção, pois está ligado no programa de televisão. O desempenho do casal, aliás, merece grande destaque. Crispin Glover oferece um ótimo desempenho como o fracassado George, deixando claro como os traumas da juventude refletiam em sua vida de adulto. Por outro lado, a excelente atuação de Lea Thompson cresce muito durante a juventude de Lorraine. Observe a forma apaixonada com que ela olha para Marty, com a fala ofegante, demonstrando ansiedade ao pedir que ele a convide para o baile. Em outro momento, seu sorriso mistura embaraço e satisfação, ao ouvir Marty falar sobre a possibilidade de um dia ela e George terem filhos. E mesmo quando representa Lorraine já adulta ela não compromete, primeiro passando uma imagem de mãe conservadora, e depois, como reflexo das mudanças no passado, se mostrando uma mãe moderna e muito mais feliz. Lorraine era uma garota como outra qualquer, impulsiva, apaixonada e romântica. Como muitos jovens, tinha vícios (fumava e bebia, o que provoca um choque em Marty), porém, como a maioria dos adultos, pedia ao filho que não tivesse. Lorraine fazia tudo que posteriormente, já como adulta e mãe, proibia os filhos de fazer. Esta atitude, que normalmente é uma forma de tentar proteger os filhos, acaba tendo um efeito contrário em muitos casos, e é interessante notar como até mesmo este tema o filme aborda de forma inteligente e divertida. Finalmente, merece destaque o excepcional desempenho de Thomas F. Wilson como o cruel Biff.

Somente para não deixar passar batido, vale a pena destacar a excepcional maquiagem, notável tanto nos jovens atores, quando estes estão interpretando os pais de Marty, como no envelhecimento de Christopher Lloyd (repare seu pescoço e suas rugas no rosto). A bela trilha sonora é mérito de Chris Hayes e Alan Silvestri. Destaca-se também a excelente montagem de Harry Keramidas e Arthur Schmidt, que mantém um ritmo perfeito para o filme, misturando momentos de ficção, humor, aventura, ação e drama, sempre na medida certa. Existem momentos de ação, aliás, que deixam o espectador grudado na cadeira, como a perseguição em que Marty foge e, acidentalmente, “inventa” o skate e a seqüência angustiante que marca sua volta para 1985 (observe a inteligente transição feita através do plano do relógio). Além disso, o final coerente com as atitudes de Marty no passado (seus pais estão muito bem na vida e Biff é empregado de George), ainda deixa em aberto a seqüência da trilogia.

Explorando com muito talento a enorme curiosidade que os filhos têm de saber como eram os pais na juventude, o filme aproveita para deixar algumas mensagens interessantes. A mais importante delas é a de que as atitudes da juventude ecoam no resto de sua vida. George, por exemplo, era um jovem sem autoconfiança e isto refletia num adulto completamente indefeso e submisso. Pequenas mudanças de atitude no passado mudariam todo o curso de sua história, como o filme mostraria mais pra frente.

Sempre fico me perguntando o que eu faria se tivesse a oportunidade de viajar no tempo. Qual seria minha escolha, a nostalgia do passado ou o mistério do futuro? Mais divertido ainda é pensar que meu primeiro filho, que hoje está na barriga da mamãe, poderia voltar no tempo e testemunhar a enorme alegria que sua chegada nos proporcionou. Viajar nesta interessante premissa é só uma das muitas possibilidades que “De Volta para o Futuro” oferece. Experimente, por exemplo, rever o filme, observando pequenos detalhes que passaram batidos na primeira vez. Será sempre uma experiência divertida e reveladora. Clássico absoluto dos anos oitenta, esta maravilhosa aventura brinda o espectador com uma das idéias mais criativas já exploradas pelo cinema. Com personagens fascinantes, estimula nossa imaginação e nos diverte de uma forma intensa, inteligente e absolutamente inesquecível.

Texto publicado em 05 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira

O EXTERMINADOR DO FUTURO (1984)

(Terminator)

 

Videoteca do Beto #32

Dirigido por James Cameron.

Elenco: Arnold Schwarzenegger, Michael Biehn, Linda Hamilton, Paul Winfield, Lance Henriksen, Rick Rossovich, Bess Motta, Earl Boen, Shawn Schepps, Franco Columbu e Bill Paxton.

Roteiro: James Cameron e Gale Anne Hurd.

Produção: Gale Anne Hurd.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A premissa de “O Exterminador do Futuro”, filme que alavancou a carreira do diretor James Cameron, é de uma inteligência e criatividade assombrosa, estabelecendo o filme como uma ficção científica de alta qualidade, recheada com elementos de suspense e terror, além é claro, de contar com maravilhosas seqüências de ação. Além disso, conta com um vilão absolutamente assustador e aparentemente indestrutível. E o que é melhor, tudo isto trabalha a favor de um roteiro inteligente, que desenvolve personagens complexos e fascinantes, interpretados com competência por todo o elenco.

E que premissa inteligente e criativa seria esta? Num futuro próximo, os humanos entraram em guerra com as máquinas, e sua aniquilação total só não foi consumada graças à liderança de um homem. É então que as máquinas decidem enviar ao passado um andróide (Arnold Schwarzenegger) com a única e exclusiva missão de matar a mãe deste homem, chamada Sarah Connor (Linda Hamilton), evitando assim o seu nascimento. Entretanto, os humanos também conseguem enviar ao passado um representante, chamado Kyle Reese (Michael Biehn), que terá a missão de proteger esta mulher e garantir o futuro da humanidade. É ou não é de uma criatividade extrema?

Mas uma idéia criativa não basta para garantir a qualidade de um filme. Felizmente, o roteiro seco e direto do próprio James Cameron e de Gale Anne Hurd desenvolve a narrativa com competência e sem rodeios, explorando corretamente os personagens e envolvendo completamente o espectador na trama. A introdução dos três personagens que conduzem a narrativa é perfeita. Primeiro testemunhamos o aparecimento do andróide, que trata de nos apresentar em poucos minutos o seu jeito nada sutil, quando se depara com um grupo de jovens. Depois acompanhamos o surgimento de Kyle Reese, que também aparece do nada para, de uma forma menos agressiva (apesar de roubar um mendigo e chamar acidentalmente a atenção da policia), conseguir suas roupas e partir para sua missão. E finalmente, Sarah Connor é apresentada como uma mulher simples, que trabalha como garçonete e não tem a menor noção do que sua vida se tornaria deste dia em diante. O cenário para uma angustiante caçada está pronto.

James Cameron explora o maravilhoso roteiro de forma bastante segura, utilizando movimentos de câmera e enquadramentos que funcionam perfeitamente. Observe como na seqüência do primeiro ataque do exterminador contra Sarah, dentro da danceteria Technoir, a câmera lenta de James Cameron ajuda a atenuar o suspense, além de captar com precisão cada detalhe da reação dela e de Reese. Além disso, o diretor mostra todo seu talento nas sensacionais seqüências de ação, garantindo adrenalina e tensão na medida certa. Cameron mantém a câmera em movimento, utilizando muitos planos, mas sem exageros, evitando que as cenas sejam confusas ou enjoativas. Para isso, conta com a excelente montagem de Mark Goldblatt, que alterna entre os planos de maneira empolgante sem exceder o número ideal de cortes, o que permite ao espectador entender perfeitamente o que se passa na tela. Outro exemplo do bom trabalho de Goldblatt é a elegante transição quando Reese está pensando e olhando para um trator trabalhando. Através do próprio trator, somos transportados para o futuro, e no pesadelo de Reese, voltamos para o presente. O inteligente roteiro aproveita este pensamento para nos situar em sua missão. Ainda na parte técnica, a fotografia azulada (Direção de Adam Greenberg) reflete a frieza do exterminador, que não tem sentimentos, somente um objetivo a cumprir. Além disso, o fato da maioria das cenas se passarem à noite ajuda a aumentar a carga de suspense. A trilha sonora de Brad Friedel é envolvente e coerente com o ritmo do filme. Nas perseguições é cheia de batidas rápidas e repetitivas, conferindo um ritmo ainda mais alucinado à cena (em certos momentos lembra trilhas típicas de videogames). Pra completar, o som e os efeitos sonoros são espetaculares, captando desde os pequenos detalhes, como o barulho mecânico do movimento dos olhos do exterminador, até os atordoantes tiros das potentes armas utilizadas por Reese e pelo andróide. Finalmente, os efeitos visuais, que hoje podem parecer ultrapassados, na época eram bastante realistas. E Cameron sabe muito bem utilizá-los a favor do filme, e não transformar o filme em refém deles.

E então chegamos aos personagens de “O Exterminador do Futuro”. O andróide T-800 (o papel perfeito para Arnold Schwarzenegger) se revela um vilão aterrorizante, que parece ser indestrutível e, pior que isso, não desiste jamais de sua missão. Pragmático e direto, não para e nunca descansa. Sua missão é sua razão de existir, e ele não vai parar até alcançá-la. Mal encarado e com poucas falas, suas reações intuitivas e diretas – como no momento em que expulsa um homem de um caminhão – e seus movimentos robóticos de pescoço e cabeça – como quando entra na delegacia de policia – mostram que Arnold acertou em cheio neste papel, interpretando de forma competente e marcante. Interessante notar também o inventivo modo como ele escolhe as respostas que dará através de seu campo visual, reafirmando a criatividade do longa. A agressividade do Exterminador é demonstrada através de atitudes simples, como no plano do caminhão de brinquedo que é esmagado pela chegada de seu carro. Ele simplesmente quer cumprir a missão para qual foi programado. É um vilão temível (o olho vermelho é assustador), pois nada parece ser capaz de detê-lo. Afinal de contas, como não temer alguém que não é parado por balas, que não descansa e que invade sozinho um distrito policial (onde teoricamente estaríamos mais seguros)?

Por outro lado, Sarah Connor se mostra inicialmente uma mulher simples, que trabalha e sai pra namorar como outra qualquer. Um dos raros momentos cômicos do filme acontece nesta fase, quando o namorado de Ginger (Bess Motta) fala com Sarah no telefone sem saber. Vulnerável, a moça cria empatia com o espectador facilmente, o que aumenta o drama quando ela passa a ser caçada. Porém, a transformação de Sarah é impressionante. Após superar o susto inicial quando percebe que está sendo perseguida, ela se transforma numa mulher forte e corajosa, e é interessante notar o paralelo entre Sarah Connor e Maria, mãe de Jesus, já que ambas eram pessoas humildes e carregavam no ventre homens responsáveis pela “salvação” da humanidade. O desespero de Sarah ao conferir a lista telefônica e sair do bar olhando para todos os lados, como se qualquer pessoa na rua fosse suspeita, comprova a qualidade da interpretação de Linda Hamilton, que consegue transmitir a angústia da personagem através do olhar. Observe também como ela reage de forma convincente à morte da amiga Ginger, com um choro compulsivo na delegacia. Michael Biehn convence como Kyle Reese, conseguindo expor todo o drama de seu personagem, que viaja no tempo para salvar a humanidade e, além disso, encontrar a mulher por quem se apaixonou no futuro. Ironicamente, e talvez este pensamento já existisse em seu subconsciente, ele será o pai de John Connor. E foi exatamente o amor e, nas palavras dele, “a oportunidade de conhecer o mito”, que fizeram Reese voltar no tempo. Observe a convincente explicação de Reese para Sarah dentro do carro, num diálogo esclarecedor, que expõe toda a originalidade do excelente roteiro. E como era de se esperar, a compreensível incredulidade e ironia dos policias diante da história contada por Reese acaba por condenar a todos no local, deixando o caminho livre para que o temível Exterminador continue sua caçada.

Quando vemos Sarah e Reese iniciando uma relação sexual, sabemos, mesmo que de forma intuitiva, que ali está sendo gerado o lendário John Connor. Mérito do roteiro que, mesmo sem dizer muito, nos leva a imaginar que isto aconteça, nos compensando depois com a confirmação da gravidez dela no final do filme. A forma com que eles se relacionam, tornando-se amigos e confidentes, além das razões que levam Reese a voltar no tempo, são indícios de que eles teriam uma ligação maior do que imaginavam inicialmente. E a espetacular seqüência final nas máquinas é de um simbolismo tremendo. A máquina, que tanto lutou para destruir o homem, foi destruída por outra máquina. É claro que a inteligência humana teve participação nisto, mas a ironia é evidente ao ver o exterminador ser esmagado por uma máquina industrial. Porém o lado mais obscuro (e fascinante) de “O Exterminador do Futuro” reside no fato de que, mesmo após toda esta batalha, o terrível futuro da humanidade não havia sido evitado. Sarah e Reese garantiram o nascimento de John Connor, mas não o fim da guerra entre humanos e máquinas. Por isso, quando ouve o menino mexicano dizer que uma tempestade se aproxima, ela responde: “Eu sei”.

Pesado, seco, tenso e direto, “O Exterminador do Futuro” é um exemplo raro de ficção científica inteligente que consegue misturar elementos angustiantes de terror com cenas espetaculares de ação, alcançando um resultado final bastante agradável. Dirigido com competência por James Cameron e contando ainda com um elenco afiado, garante ao espectador entretenimento de primeira qualidade. Se o futuro da humanidade será sombrio como no filme eu não sei. Mas o passado nos concedeu obras maravilhosas, e este filme com certeza é uma delas.

Texto publicado em 31 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

INDIANA JONES E O TEMPLO DA PERDIÇÃO (1984)

(Indiana Jones and the Temple of Doom)

 

Videoteca do Beto #31

Dirigido por Steven Spielberg.

Elenco: Harrison Ford, Kate Capshaw, Jonathan Ke Quan, Amrish Puri, Roshan Seth, Philip Stone, Roy Chiao, David Yip, Ric Young, Chua Kah Joo, Philip Tan e Dan Aykroyd.

Roteiro: Willard Huyck e Gloria Katz, baseado em estória de George Lucas.

Produção: Robert Watts.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Segundo filme da deliciosa saga do arqueólogo, “Indiana Jones e o Templo da Perdição” infelizmente apresenta um resultado claramente inferior ao primeiro longa, se salvando somente pelo carisma do protagonista e pelas engenhosas seqüências de ação que caracterizam a série. Steven Spielberg dirige aqui um filme mais sombrio, menos realista e, conseqüentemente, menos interessante. Nada, porém, que comprometa o filme ao ponto de classificá-lo como um fracasso total. Longe disso. O grande pecado é que ele não atinge a excelente expectativa, inevitavelmente criada após o maravilhoso filme que o precedeu.

O arqueólogo Indiana Jones (Harrison Ford) escapa de Shangai, acompanhado de Willie Scott (Kate Capshaw) e do pequeno Round (Jonathan Ke Quan), mas na fuga é forçado a parar na Índia, onde encontra um povoado que lhe solicita resgatar as pedras roubadas por um feiticeiro que escraviza as crianças do local. Na busca destas pedras, ele encontrará diversos obstáculos e enfrentará poderes mágicos vindos do fanatismo de um culto obscuro que sacrifica seres humanos.

O início empolgante em Shangai, seguido pela clássica linha vermelha que acompanha o avião no mapa, além é claro do logo da Paramount se transformando no primeiro plano do filme, dão a sensação de que vamos presenciar outra maravilhosa produção, tão qualificada quanto “Os Caçadores da Arca Perdida”. Porém esta sensação se desfaz logo na primeira grande cena de ação, repleta de momentos irreais, mas que por outro lado, revela o ponto positivo de “Templo da Perdição”, o humor refinado. Os momentos bem humorados aparecem em número maior que no primeiro filme, como na cena em que Willie pergunta desesperada para Indy se ele sabe pilotar, e ele responde: “Não. Você sabe?”. Logo em seguida, quando pulam do avião num bote e conseguem pousar (?!), caindo de um penhasco (numa das seqüências absurdamente irreais) e aparentemente conseguem se salvar, Indy diz que “não foi tão ruim assim”, somente para depois despencar dentro de um rio. Em outro trecho bastante engraçado, Willie se desespera com os animais na selva, enquanto Indy joga cartas com Round e comenta com o garoto que o problema dela é a gritaria. A cena do jantar no palácio também garante boas gargalhadas.

O garoto interpretado por Jonathan Ke Quan, aliás, é extremamente divertido, com um ótimo timing cômico. Já Kate Capshaw exagera nas caretas e gritos de Willie Scott, tornando a personagem muito irritante. Por outro lado, os apuros que ela passa garantem boas risadas, o que reforça o argumento de que o humor é o destaque do longa. Felizmente, o carisma inegável de Harrison Ford garante a simpatia do espectador. Novamente muito confortável no papel do arqueólogo, seu ótimo senso de humor, suas engraçadas reações e até mesmo suas caretas (bem mais comedidas que de sua parceira, porém muito eficientes) garantem a diversão. Até mesmo porque Indiana Jones continua sendo um herói diferente, tomando decisões erradas, que comprometem sua segurança, o que é sempre divertido e garante autenticidade ao herói. Observe, por exemplo, a cena em que ele joga uma pedra em um homem que maltrata as crianças escravas, somente para chamar a atenção dele e de todos os outros presentes, já que de nada adiantaria tomar aquela atitude intempestiva. Em outro momento, após escapar de ser esmagado junto com Willie e Round, ele volta para pegar o chapéu, numa atitude que somente Indy seria capaz de tomar. Este enorme carisma do herói é o que evita a antipatia da platéia pelo filme, mesmo com o tema sombrio abordado.

Notavelmente mais sombrio, o longa afunda o herói em um mundo que explora coisas claramente repugnantes, como um ritual (uma espécie de magia negra) que sacrifica seres humanos e a escravidão de crianças. A fotografia vermelha (Direção de Douglas Slocombe) durante as cenas do ritual soa muito apropriada, numa referencia clara ao inferno. Por outro lado, a ótima trilha sonora (John Williams) característica de Indy garante alguns momentos de alegria e, especialmente na cena em que Indy finalmente coloca a mão nas pedras dentro do altar, alcança momentos poderosos. Finalmente, a espetacular seqüência nos carrinhos de trem é de uma criatividade e engenhosidade incrível, garantindo emoção e ação de alta qualidade, apesar de alguns pequenos exageros, perdoáveis neste caso. E perdoáveis justamente porque a criatividade, nesta cena, não faltou, o que não permite que o espectador se atente aos detalhes exagerados. “Templo da Perdição” apresenta ainda uma referência sensacional ao primeiro filme, quando novamente um homem habilidoso empunhando uma espada chega para atacar Indy. Ele repete a mesma cara de desdém e leva à mão para sacar a arma. O detalhe é que aqui ele não estava com ela, tornando a cena muito bem humorada.

Em resumo, o problema de “Templo da Perdição” não é necessariamente o exagero de algumas cenas de ação, também existentes no primeiro filme, mas sim a falta de criatividade do roteiro.  Se a narrativa fosse mais envolvente e criativa, as seqüências irreais passariam batidas, como acontece em “Os Caçadores da Arca Perdida”. O roteiro de Willard Huyck e Gloria Katz é extremamente fraco, sem criatividade, o que prejudica o resultado final do filme. Desta forma, a enorme quantidade de cenas irreais soa falsa e exagerada, sendo salva apenas pelo enorme carisma do personagem principal, que é realmente sensacional. Além disso, os poucos efeitos especiais que aparecem no filme soam apenas razoáveis hoje, mas na época funcionavam muito bem. Exatamente por isso que os efeitos mecânicos funcionam de maneira muito mais eficiente, pois jamais envelhecem ou perdem o realismo.

Infelizmente menos inspirado e atraente que “Caçadores da Arca Perdida”, o segundo filme do arqueólogo Indiana Jones consegue algum sucesso somente pelo enorme carisma de seu personagem principal. Apesar da boa direção de Steven Spielberg, principalmente nas engenhosas cenas de ação, o roteiro fraco e pouco criativo compromete até mesmo estas cenas, chamando à atenção para o exagero, que no primeiro longa soava até mesmo charmoso. Sombrio em demasia, “Indiana Jones e o Templo da Perdição” não consegue jamais alcançar a qualidade esperada, e exatamente por isso, decepciona. Felizmente, o herói que o inspira, assim como seus produtores, também comete erros e acertos, e exatamente por isso, a esperança de um filme melhor para a seqüência da saga renasce.

PS: Vale destacar que ainda não assisti “A Última Cruzada”, assim como não havia assistido aos dois primeiros filmes da série, o que esclarece minha última frase da crítica.

Texto publicado em 29 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

AMADEUS (1984)

(Amadeus)

 

Videoteca do Beto #30

Vencedores do Oscar #1984

Dirigido por Milos Forman.

Elenco: F. Murray Abraham, Tom Hulce, Elizabeth Berridge, Simon Callow, Roy Dotrice, Christine Ebersole, Jeffrey Jones, Charles Kay, Kenny Baker, Lisabeth Bartlett, Barbara Bryne, Martin Cavina, Roderick Cook, Milan Demjanenko e Peter DiGesu.

Roteiro: Peter Shaffer, baseado em peça de Peter Shaffer.

Produção: Saul Zaentz.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A vida e a obra de um verdadeiro gênio da música são apresentadas de forma louvável neste lindo filme dirigido pelo competente Milos Forman, através da visão de outro compositor que conviveu com Mozart, admirou o seu magnífico trabalho e desejou ter o mesmo talento que ele. A forma como foi obrigado a aceitar sua “mediocridade”, como ele mesmo diz, é tocante e diz muito sobre a frustração comum à maioria das pessoas que se aproximam da velhice e percebem que não conseguiram ser o que sonhavam.

Após tentar o suicídio, Antonio Salieri (F. Murray Abraham) resolve confessar a um padre que foi o responsável pela morte do gênio Wolfgang Amadeus Mozart (Tom Hulce), contando em detalhes como conheceu, conviveu e lentamente viu crescer seu ódio pelo jovem irreverente e criativo que, segundo ele, compunha como se sua música tivesse sido abençoada pelo próprio Deus. Baseado na peça de Peter Shaffer e com o roteiro escrito pelo próprio Shaffer, “Amadeus” nos conta a vida de Mozart curiosamente sob o ponto de vista de outro compositor da época, que conviveu com ele e que, apesar de ter talento, jamais conseguiu se igualar à genialidade dele. E é exatamente o efeito que a aparição daquele homem, com uma capacidade criativa muito acima da média, causaria em Salieri que iremos testemunhar ao longo da projeção.

Dirigido maravilhosamente por Milos Forman, o filme conta uma história triste e melancólica de forma absolutamente convincente e encantadora, o que não impede a existência de ótimos momentos de alívio cômico, notáveis principalmente nas falas de Salieri contra Deus, como na cena em que diz “de agora em diante somos inimigos”, e o plano seguinte mostra a imagem de Cristo. Cômica também é a forma que Salieri descreve como seu caminho se abriu para explorar seu talento musical inibido por seu pai, na engraçada cena da morte do Sr. Francesco Salieri. Milos Forman utiliza muitos closes nas reações de Salieri quando Mozart é elogiado, realçando sua inveja, que crescia paralelamente à sua admiração por ele. O filme mostra como ele ouvia e absolvia as músicas do gênio de uma maneira muito charmosa e encantadora, utilizando o inteligente recurso de tocar a canção que ele lia nas partituras para que o espectador sinta o que ele sentia. Forman também é inteligente ao mostrar o processo criativo do gênio, que enxergava música em coisas banais, como na interessante tirada em que ele, ao ouvir os brados de uma velha senhora quando sua mulher vai embora, se inspira para compor uma de suas mais famosas canções.

A interessante idéia de contar a história através da experiência de Salieri funciona muito bem, também porque a excelente montagem de Michael Chandler e Nena Danevic salta do narrador para a história em um ritmo muito bom, jamais sendo cansativo e mantendo-se sempre atraente. Alternando com agilidade do presente para o passado (em certo momento, a montagem salta ao presente somente para que Salieri diga que “aquele garoto obsceno, engatinhando no chão, era Mozart! Aquele era Mozart!”, indignado por esperar um ser humano “à altura do talento que tinha”), a montagem também faz elegantes transições de tempo, como quando Madame Cavalieri (Christine Ebersole) tem aulas com Salieri e pergunta sobre a nova ópera de Mozart, e no plano seguinte, está cantando na ópera citada. Aliás, o trabalho técnico de “Amadeus” é formidável, perceptível na excepcional direção de arte de Karel Cerny e nos fabulosos figurinos de Theodor Pistek, que ambientam o espectador na Viena da época com perfeição, além da notável maquiagem em Salieri já velho e em Mozart doente. O estado emocional de Mozart é refletido com competência através da excelente direção de fotografia de Miroslav Ondrícek. Inicialmente colorida, demonstra o mundo alegre e iluminado que o criativo e elétrico Mozart enxergava. Porém quando seu pai morre, o reflexo imediato vem em sua próxima ópera, sem cores, obscura e até mesmo fantasmagórica. E na medida em que Mozart vai enlouquecendo, a fotografia cada vez menos colorida e menos viva apenas reflete seu estado mental. Destaca-se também o ótimo trabalho de som, que capta com clareza cada instrumento das precisas composições. Finalmente, nem precisaríamos citar a maravilhosa trilha sonora de John Strauss, que espalha a vasta e deliciosa obra de Mozart por todo o filme.

Ao ouvir a experiência de Salieri ser contada para o Padre, praticamente podemos sentir sua tristeza e decepção por não ter nascido com o talento que aquele “jovem irreverente e obsceno” tinha graças ao magnífico desempenho de F. Murray Abraham. Observe como ele narra a história com paixão, demonstrando através do olhar, do tom de voz e de cada gesto, o forte sentimento de frustração que amargurava ao relembrar a história que viveu com o gênio. A fala precisa, pausada e com boa entonação garante um tom emocionado à narração. Sua feição enquanto conta a história denota uma tristeza incontida por não ter tido o talento do rival, refletida também na fotografia obscura. Por outro lado, sempre que pode Salieri deixa claro sua admiração pelo trabalho de Mozart. Sua emoção é palpável ao ouvir as músicas dele, às vezes até fazendo-o chorar. Observe como uma simples troca de olhares entre os presentes, quando Mozart começa a tocar e melhorar a música criada por Salieri na sala do Imperador – causando o espanto de todos com o talento dele – provoca um sorriso forçado de Salieri, que na realidade sentia inveja. Quando descreve para o Padre seu plano para matar o rival, Abraham transmite muita emoção, olhando para as mãos ao dizer que “planejar a morte de alguém é fácil, mas fazer o serviço com as próprias mãos não é”. “Como se mata um homem? Como é que se faz isso?” diz ele, numa das mais espetaculares cenas do filme.

Mas porque todo este ódio por parte de Salieri? A resposta está no talento do personagem que dá nome ao filme, Wolfgang Amadeus Mozart. Interpretado com muita energia por Tom Hulce, Mozart era dono de um talento absurdo para compor musica, o que o tornava um gênio, acima de todos os outros compositores de sua época. Apresentado como um jovem cheio de alegria quando persegue uma garota, percebemos através de um simples jogo de palavras que ele faz com ela a incrível velocidade de seu raciocínio. Desinibido e irreverente, como podemos perceber quando desafia o arcebispo em seu próprio palácio, abrindo à porta para que este escute os aplausos à sua música, Mozart era – como ele mesmo dizia – um homem vulgar. Mas sua música não era. Hulce demonstra a ansiedade do gênio de forma competente, como podemos observar quando o Imperador vai emitir uma opinião sobre sua música e faz uma pausa. Seu olhar arregalado, sua fala presa na boca e a respiração ofegante demonstram que ele mal podia esperar para ouvir a opinião dele. Jovial e descompromissado, ele tocava seu noivado enquanto se divertia, até ser desmascarado. Observe seu claro desconforto quando madame Cavalieri descobre que ele é noivo de Constanze (Elizabeth Berridge). Ele mal sabe para qual delas olhar. Também é marcante a engraçada e aguda risada criada por Hulce, que caracteriza muito bem o excêntrico personagem. Após se tornar um homem de família, Mozart valoriza muito a esposa, como fica claro em sua discussão com o pai, assim como é interessante notar como ele observa atentamente as reações do filho em uma ópera, demonstrando uma clara preocupação com o gosto do garoto. Mas a vida do gênio não era um mar de rosas. A inveja de Salieri criava problemas em sua vida (e se é verídico ou não, não é relevante neste caso), como a proibição de um balé em uma de suas óperas, a obrigação de fazer teste para dar aulas à filha do Imperador e, principalmente, a assombração do fantasma do pai que o levaria à morte. O teste, aliás, levanta uma interessante questão. Porque os melhores têm que ser tratados como os outros? Porque gênios devem se igualar aos medíocres? Quando afirma ser o melhor compositor, Mozart escuta que um pouco de humildade lhe faria bem. Por quê? A genialidade deve ser exaltada, e não igualada ao restante das pessoas. E é irônico notar como foi justamente em Salieri que Mozart encontrou alguém capaz de entender perfeitamente a grandiosidade de sua obra. Nem mesmo a ópera que fez o Imperador dormir desagradou ao rival (num paralelo interessante com o próprio cinema, onde a maioria do público não compreende obras que exijam um esforço intelectual maior). Sabendo do peso que seu pai representava, Salieri arquiteta um plano cruel, que vai lentamente degradando Amadeus, e fazendo com que ele se afunde na bebida, algo peculiar à maioria dos gênios. Normalmente dedicados àquilo em que são excepcionais, não conseguem ter uma vida normal, tendo muitos vícios e, não raramente, dificuldades financeiras. Mozart era assim. Precisando de dinheiro, se entregou à música popular e fez sucesso, mas jamais escondeu seu embaraço, como podemos notar quando pergunta à Salieri o que achou de sua ópera, somente para dizer depois que era “apenas um vaudeville”.

Durante a maravilhosa seqüência em que Mozart e Salieri trabalham juntos na criação de uma ópera (que ironicamente seria sobre a própria morte de Amadeus) podemos notar o fascinante processo de criação de um gênio. É notável sua agilidade, empolgação e paixão pelo que faz, assim como é assombrosa a sua facilidade para compor. Salieri, por outro lado, era talentoso, mas não era gênio, e por isso demonstra enorme dificuldade em acompanhar o raciocínio de Mozart. Também por isso, não se contentava com seu talento. Ao perceber que Amadeus se alegrava com sua ajuda e reconhecimento, provavelmente Salieri gostaria de voltar atrás, percebendo finalmente que mesmo sem o talento dele, sua existência era importante de alguma forma. Mas era tarde demais. A degradação e a loucura de Mozart o levaram ao fim. E a culpa seria o fardo pesado que Salieri levaria pelo resto da vida.

“Amadeus” mostra como a inveja corrói um ser humano. Frustrado por não ter conseguido ser aquilo que sonhou, Salieri sentia inveja, misturada com grande admiração pelo trabalho de Mozart, que segundo ele, era o próprio Deus fazendo música. A chuva, a trilha melancólica e a fotografia escura demonstram a tristeza dele no enterro do gênio. Mais triste ainda são as palavras finais de Salieri: “Medíocres em toda parte, eu os absolvo. Sou o campeão dos medíocres”. Não há problema algum em não ser gênio, isto é privilégio de poucos. O problema é deixar a frustração corroer sua alma e o levar a invejar alguém mais talentoso. Salieri se intitulava o campeão dos medíocres. Forman não pode dizer o mesmo. E Amadeus, o filme, está bem longe de ser medíocre. Pelo contrário, trata-se de uma obra que encantaria até mesmo o gênio que a inspirou.

Texto publicado em 28 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

SCARFACE (1983)

(Scarface)

 

Videoteca do Beto #29

Dirigido por Brian De Palma.

Elenco: Al Pacino, Steven Bauer, Michelle Pfeiffer, Mary Elizabeth Mastrantonio, Robert Loggia, Miriam Colon, F. Murray Abraham, Paul Shenar, Harris Yulin, Ángel Salazar, Arnaldo Santana, Pepe Serna, Michael P. Moran e Al Israel.

Roteiro: Oliver Stone.

Produção: Martin Bregman.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Scarface é um filme violento. O mundo em que é ambientado também. E é exatamente por retratar com muita veracidade o perigoso e sanguinário mundo do tráfico de drogas que o grande filme dirigido por Brian De Palma acerta em cheio e agrada bastante. É claro, o carisma e o talento de Al Pacino na criação de um personagem absolutamente fascinante, por mais nojento e sem escrúpulos que seja, colabora e muito para o sucesso do longa. E é justamente este personagem que, aliado à violência gráfica e a dinâmica das cenas criadas por De Palma, consegue fazer de Scarface um filme empolgante.

Em Maio de 1980, Fidel Castro abriu o porto de Mariel, em Cuba, com a aparente intenção de liberar os cubanos para visitar seus familiares nos Estados Unidos. Em menos de 72 horas, as três mil embarcações que chegaram a Cuba perceberam que não só os civis embarcavam, mas também todos os tipos de criminosos, que eram obrigados por Castro a deixar o país. Entre eles estava Tony Montana (Al Pacino), que pouco tempo depois de chegar à Miami, começa a trabalhar pra o chefão do tráfico local. Será apenas questão de tempo para que Tony passe por cima de todos e alcance o topo da organização criminosa, conquistando tudo que desejava: poder, dinheiro e Elvira (Michelle Pfeiffer), a mulher de seus sonhos.

Scarface começa, acertadamente, descrevendo a situação política que levou o criminoso Tony Montana de Cuba até os EUA. A legenda e o vídeo mostram a saída dos exilados, deixando claro em que circunstâncias aquelas pessoas estavam deixando o país de Fidel, resultando numa invasão de criminosos latinos em Miami. Esta ótima introdução do filme é mérito do bom roteiro de Oliver Stone, que desenvolve muito bem os personagens e cria uma cadeia de relacionamentos responsável pelo crescimento, e posteriormente, pela queda trágica de Tony. O roteiro tem o mérito ainda de mostrar sem constrangimentos como funciona o mundo do crime, através de um diálogo entre Tony e um policial na boate. Com um bom roteiro em mãos, o talentoso Brian De Palma abusa do estilo e da elegância na criação de planos ousados e travellings, como na cena em que a câmera sai do meio da revolta na prisão e vai até o local onde Rebenga será morto, ou em outro momento ainda mais inspirado, em que o travelling vai desde o quarto do Hotel onde Tony e um amigo estão acuados até o carro onde Manny (Steven Bauer) paquera uma garota, somente para voltar ao banheiro do hotel logo em seguida, onde podemos ouvir o som da serra elétrica já atacando o amigo de Tony. Nos retorcemos na cadeira e nos desesperamos, torcendo para que os amigos cheguem à tempo de salvá-lo. De Palma é competente também no extremo realismo das cenas, que muitas vezes apenas sugerem o que acontece, como nesta do banheiro, onde podemos ver o sangue espirrando na cortina ao som da serra elétrica. Muitas outras cenas se destacam, como o tiroteio na boate, que é o estopim para o grande salto de Tony, a pesada morte de Frank (quando o diretor mostra o relógio apontando três horas e volta para Frank, sabemos que ele vai morrer), a simbólica cena em que Tony olha para o balão com a frase “O mundo é seu” e o belo clipe que mostra a construção do império Montana (a negociação com o banco, o casamento, o salão de beleza para a irmã). Além disso, De Palma demonstra sensibilidade naquela que talvez seja a cena com a maior carga emocional do longa: a triste morte de Manny. De certa forma previsível, devido ao temperamento explosivo de Tony, a cena não deixa de ser chocante e a câmera lenta diminui o impacto no espectador, ao mesmo tempo em que realça as reações dos personagens, principalmente de Gina (Mary Elizabeth Mastrantonio).

Mas se Tony é um criminoso tão podre e desprezível, porque torcemos tanto pelo seu sucesso? O segredo está na excelente introdução do personagem. Quando vemos Tony Montana pela primeira vez, ele está numa posição altamente vulnerável, cercado por policiais, sendo interrogado e claramente acuado. Até o movimento de câmera (na altura da visão dele e mostrando os policiais da cintura pra baixo) influencia em nossa identificação, fazendo com que o espectador também se sinta intimidado. Esta ligação criada no começo do filme será o elo para que, mesmo rejeitando grande parte das atitudes de Montana, o espectador torça pelo seu sucesso, ou pelo menos, por sua salvação. Colabora, é claro, o grande talento e carisma de Al Pacino, e sua atuação é espetacular. Com sotaque perfeito, olhar desconfiado e provocador, oscilações repentinas no tom de voz, poucos sorrisos e mostrando claramente a obstinação em alcançar o topo (“Neste país, primeiro é necessário ganhar dinheiro, depois poder e só depois as mulheres”), ele cria um criminoso mais que temível. Sua fala é sempre convicta. Tony não tem piedade, não teme ninguém e não respeita nenhuma regra. Sua ética se resume a não matar mulheres e crianças inocentes. Por outro lado, seu frio coração é capaz de demonstrar sentimentos também. O primeiro deles é a verdadeira obsessão pela mulher de Frank (Robert Loggia), o chefão do crime na cidade. Elvira é uma mulher sensual, que mais parece um troféu do que uma pessoa para Tony. E ele não sossega enquanto não a conquista, somente para depois tratá-la de forma desprezível. Os outros sentimentos são por aquela que talvez seja a única pessoa que ele ama de verdade, sua irmã Gina. O olhar dele quando vê a irmã dançando – reforçado pela trilha e pelo close em seus olhos – indica a fúria que sentia ao imaginar que alguém pudesse fazer mal a ela. Extremamente ciumento e super protetor, não permite que sua irmã cuide da própria vida, o que não deixa de ser egoísta da parte dele. Egoísmo e ganância, aliás, são palavras que definem muito bem a personalidade de Montana. Ele critica o capitalismo, mas nas palavras de Elvira, “é o maior capitalista” que ela já conheceu. Seu palácio demonstra o quanto gostava de ostentar riqueza, com objetos dourados e luxuosos (Direção de Arte de Edward Richardson). Em uma discussão dentro dele com Elvira e Manny, expõe todo seu egoísmo, dizendo que não precisa de ninguém. O criminoso até ensaia uma auto-reflexão num jantar com a esposa e o amigo, onde bêbado, questiona o que conquistou com o dinheiro (“Então é isso… Bebidas, comidas, cocaína, chegar aos cinqüenta anos barrigudo e com o fígado estragado… Foi pra isso que trabalhei tanto?”), mas, diante de tantos aspectos podres, o único que se salva mesmo é a sua decisão de não matar mulheres e crianças, que fica evidente na forte cena em que mata um comparsa para evitar uma tragédia (o que, ironicamente, leva ao seu fim).

Nos restante do elenco, o maior destaque fica para Mary Elizabeth Mastrantonio, muito bem como Gina, a irmã de Tony, como podemos observar na cena dentro do banheiro, quando se revolta contra o irmão, e no final do filme, quando explode contra ele. Fica evidente quando Montana tenta cuidar dela, já morta, que seu sentimento era muito difícil de entender, até mesmo pra Gina. Cego, ao tentar protegê-la, impedia que ela vivesse e fosse feliz. Michele Pfeifer tem atuação irregular como Elvira, uma mulher que despreza aquelas pessoas ao mesmo tempo em que não consegue largar o luxo que elas proporcionam. Pfeifer fracassa na cena mais dramática, dentro do restaurante, não mostrando a agressividade que o momento pedia. Por outro lado, vai muito bem quando é irônica, como quando diz que não entra no carro de Tony (gerando um olhar muito engraçado de Pacino para o Cadillac), além de demonstrar sutilmente seu interesse por Tony dando um leve sorriso quando ele coloca um chapéu feminino. Já a atuação de Miriam Colon como a mãe de Tony merece grande destaque, como podemos perceber logo em sua primeira aparição, demonstrando que não teme o criminoso e nem o respeita. Ele é uma decepção na vida dela e Colon deixa isto bem claro, de forma explosiva. F. Murray Abraham interpreta sem muito destaque o criminoso Omar e a forte cena de sua execução mostra que não existe lealdade neste mundo do tráfico. Completando o elenco, Steven Bauer tem boa atuação como Manny Ray, o amigo fiel de Tony, sempre tentando controlar os impulsos do parceiro. Malando, sabe exatamente os seus limites, como deixa claro na conversa com Gina no carro. O curioso é que justamente quando achou que podia cruzar esta linha, Manny encontrou a morte. E claro, vale a pena citar a engraçada reação de Arnaldo Santana, que interpreta Earnie, quando Montana, após matar Frank, pergunta pra ele: “Quer um emprego Earnie? Me liga amanhã”.

Tecnicamente, Scarface é muito competente. A montagem de Gerald B. Greenberg e David Ray é ágil e mantém o ritmo empolgante da narrativa (em certo momento faz uma interessante transição no tempo através dos ponteiros do relógio), enquanto o som funciona muito bem, por exemplo, durante o tiroteio no Hotel, onde podemos ouvir os gritos das pessoas na rua e nos quartos ao lado. A trilha sonora alterna momentos delicados, especialmente quando envolve as mulheres, com momentos de ritmo acelerado, principalmente nas cenas de ação. Observe como na primeira aparição de Elvira, a trilha sonora (reforçada pelo olhar fixo dele) indica o interesse de Tony por ela. A direção de fotografia de John A. Alonzo mistura as tradicionais sombras dos filmes de gângster com o festival de cores da cidade de Miami.

Scarface apresenta o mundo do tráfico de forma crua, sem jamais tentar discuti-lo, se resumindo a mostrar da forma mais violenta possível como se vive neste meio. Desta forma, evita criar um debate, por exemplo, sobre os motivos que levam alguém a vender, comprar ou utilizar drogas. Tony até tenta argumentar que o governo não quer autorizar a legalização porque todos ganham com isso (o próprio governo, a policia e os traficantes), o que merece discussão. Mas o propósito do filme não é este. O plano de Tony com quilos de cocaína em volta dele demonstra visualmente como aquela droga e o poder que ela trouxe engoliram o criminoso. Ele foi tragado pelo poder, pela ganância, e destruiu sua vida. Mesmo assim, o durão e destemido vilão não cai com as balas, num final que remete à “Touro Indomável”, quando La Motta diz que seu adversário não o derrubou. Mas Montana, ao contrário de La Motta, não resistiu ao último golpe, e o tiro de misericórdia o jogou na piscina, enfeitada com o irônico letreiro “o mundo é seu”. Tony desejou o mundo e o teve, mas este mesmo mundo o destruiu.

Mostrando a ascensão e queda de um dos maiores criminosos já retratados em celulóide, Scarface consegue causar impacto através de imagens chocantes, realistas e extremamente violentas. Por outro lado, cria empatia com o espectador, graças a um personagem que, mesmo sendo uma pessoa absolutamente desprezível do ponto de vista ético e moral, consegue ser fascinante. O mérito é da excelente direção de Brian De Palma e da grande atuação de Al Pacino. A ambição de Tony o levou ao topo e também o derrubou. A ambição de Brian De Palma e Al Pacino nos brindou com um grande filme. E este não vai cair, nem mesmo com o tempo.

Texto publicado em 23 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

RAMBO – PROGRAMADO PARA MATAR (1982)

(First Blood)

 

Videoteca do Beto #28

Dirigido por Ted Kotcheff.

Elenco: Sylvester Stallone, Richard Crenna, Brian Dennehy, Bill McKinney, Jack Starrett, Michael Talbott, Chris Mukley, John McLiam, Alf Humphreys, David Caruso, David Crowgley e Bruce Greenwood.

Roteiro: Michael Kozoll, William Sackheim e Sylvester Stallone.

Produção: Buzz Feitshans.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Não é difícil imaginar a dificuldade de adaptação de um soldado que retorna da guerra para conviver em sociedade novamente. Treinados basicamente para lutar e tentar sobreviver em campo de batalha, raramente estas pessoas conseguirão uma oportunidade para trabalhar e viver normalmente, sendo tratados com enorme preconceito, ainda mais quando a guerra em questão foi perdida por seu país. Além disso, pode-se imaginar também o enorme trauma causado na mente humana ao testemunhar com os próprios olhos e sentir na pele todo o horror e insanidade da guerra. Estas duas importantes discussões estão presentes em “Rambo – Programado para Matar”, o filme repleto de ação e extremamente realista dirigido por Ted Kotcheff e estrelado por Sylvester Stallone.

John Rambo (Sylvester Stallone) é um veterano de guerra do Vietnã que vai para uma pequena cidade encontrar um amigo, também ex-combatente, e ao chegar lá, descobre que ele morreu de câncer. Ao caminhar pela cidade à procura de algo para comer, se depara com o xerife Will Teasle (Brian Dennehy) e é preso injustamente por ser “vagabundo”. Na prisão, após ser maltratado pelos policiais, consegue fugir e provoca uma guerra contra toda a cidade.

“Rambo” é inquestionavelmente um filme de ação, e neste sentido, a direção de Ted Kotcheff é muito competente, ao conseguir criar seqüências que além de empolgantes, são extremamente realistas. Desde o momento em que Rambo se rebela na prisão, dando início à implacável perseguição do xerife à Rambo, que corta as fazendas com sua moto e posteriormente, a pé, é notável a habilidade do diretor, que ainda cria planos bastante criativos. Observe por exemplo, o ótimo plano em que Rambo se esconde atrás de uma árvore enquanto o helicóptero tenta encontrar uma brecha para que o policial atire nele. Praticamente nos escondemos dos tiros junto com ele e torcemos por seu sucesso. Durante a caçada na mata (onde Rambo obviamente se sentia à vontade e sabia muito bem como se virar com o que encontrava pelo caminho) são muitas as cenas marcantes. Em uma delas, o plano permite ao espectador ver Rambo no alto enquanto um policial o procura no chão e não percebe sua presença, segundos antes dele atacar. Kotcheff, porém, cria também seqüências exageradas e pouco verossímeis, como quando Rambo pula de um penhasco e cai vivo lá embaixo ou quando enfrenta sozinho muitos policiais armados e escapa da delegacia. Mas para isso, ele conta com um trunfo especial, que é a habilidade de Stallone para atuar nestas seqüências que exigem força física. O ator consegue tornar estas seqüências críveis. Além disso, conta com a boa direção de fotografia de Andrew Laszlo, que confere um tom sombrio ao longa, principalmente nas seqüências dentro da mata, e com a ágil montagem de Joan E. Chapman, que garante o excelente ritmo da narrativa, além de colaborar nas ótimas cenas de ação. Completando a parte técnica, a bela trilha sonora de Jerry Goldsmith alterna do tom nostálgico que reflete o estado de espírito do soldado para momentos de um tom muito mais pesado, condizente com ação frenética que vemos na tela.

Parte de nossa empatia com Rambo se deve a situação em que ele é apresentado (claro que o carisma de Stallone ajuda). Temos a tendência de torcer por quem está vulnerável e o bom roteiro de Michael Kozoll, William Sackheim e Sylvester Stallone explora muito bem isso, ao apresentar Rambo sendo preso injustamente e acuado por todos os policiais. Stallone, aliás, resume sua atuação a olhares mal encarados, algumas poucas frases, gritos e muita correria, até os momentos finais, onde a conversa com o coronel Samuel Trautman (Richard Crenna) comprova que ele pode mostrar mais que isso como ator. O convincente choro amargurado, expondo todo seu sofrimento, mostra os efeitos da guerra na vida desta pessoa e expõe o quanto é difícil continuar vivendo normalmente depois dela. Sua frase “Aqui não consigo emprego nem de motorista!” resume bem como é difícil se adaptar novamente à sociedade. Em outro bom momento de Stallone (que é também um excepcional roteirista), Rambo conversa pelo rádio com o coronel e deixa claro o seu sofrimento com o que estava acontecendo. “Eles me machucaram primeiro” (They drew “first blood”, not me) são as palavras dele que remetem ao titulo original do filme em inglês.

A vida pacata de uma pequena cidade pode se tornar enfadonha. Talvez por isso o xerife Teasle, vivido com competência por Brian Dennehy, tenha encontrado em Rambo uma oportunidade de se divertir. O que ele não esperava era que este aparente vagabundo era, na verdade, uma verdadeira máquina treinada para a guerra. Podemos notar, através de conversas entre os policiais e dos objetos na mesa do xerife, que a pequena cidade tem como principal atividade de lazer a caça. Com a chegada de Rambo, ele se transforma no animal a ser caçado. E ironicamente, é ele quem acaba caçando todos que cruzam seu caminho. A caçada vira uma questão pessoal para Teasle, e nem mesmo a alegria do jovem policial, ao ouvir a descrição no rádio de John Rambo dizendo que ele é um herói de guerra, foi capaz de fazê-lo mudar de idéia.

Em resumo, “Rambo” conta a estória da guerra pessoal de um homem contra toda uma cidade. Mas felizmente, o filme não se resume as cenas de ação frenética, explosões e tiros. Suas ótimas seqüências de ação servem como pano de fundo para reflexões infinitamente mais profundas e interessantes. Retratando com fidelidade o que aconteceu com os soldados norte-americanos, que foram tidos como vagabundos e drogados em sua volta ao país, “Rambo – Programado para Matar” se estabelece como um filme de ação eficiente e realista, que deixa ainda duas profundas questões para reflexão, tanto de ordem filosófica quanto política. Qual o efeito causado na mente humana pelo horror da guerra? E como é o tratamento dado pelos governos a estas pessoas que lutam para defender os interesses, muitas vezes nada nobres, de seus países? Após assistir a este e tantos outros bons filmes que abordam o tema, não é difícil chegar a uma conclusão.

Texto publicado em 21 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

GANDHI (1982)

(Gandhi) 

 

Videoteca do Beto #27

Vencedores do Oscar #1982

Dirigido por Richard Attenborough.

Elenco: Ben Kingsley, Candice Bergen, Edward Fox, John Gielgud, Trevor Howard, John Mills, Martin Sheen, Ian Charleson, Athol Fugard, Günther Maria Halmer, Saeed Jaffrey, Geraldine James, Alyque Padamsee, Amrish Puri, Roshan Seth, Rohini Hattangadi, Ian Bennen, Richard Griffiths, Nigel Hawthorne, Michael Hordern, Shreeram Lagoo, Om Puri, Daniel Day-Lewis, John Ratzenberger e John Boxer. 

Roteiro: John Briley. 

Produção: Richard Attenborough. 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Em certo momento do belíssimo “Gandhi”, dirigido por Richard Attenborough, um dos personagens diz que “o mundo não é feitos de Gandhis”. Infelizmente somos obrigados a concordar com ele, o que não nos impede de pensar que isto é realmente uma pena. A história da vida do homem que liderou a independência da Índia é por si só maravilhosa. Mas o competente trabalho de Attenborough, auxiliado pela sua equipe técnica e por um elenco brilhante, fez do filme “Gandhi” um épico maravilhoso, repleto de imagens marcantes e que cumpre muito bem a difícil missão de contar a história deste homem tão importante na história da humanidade.

No inicio do século XX, o jovem e idealista advogado indiano Mohandas Karamchand Gandhi (Ben Kingsley), após passar alguns anos na África do Sul, volta para a Índia e inicia, de forma pacífica, a luta contra o domínio britânico em seu país. Através de manifestações não-violentas, se tornou o líder espiritual de hindus e mulçumanos e chamou a atenção dos olhos do mundo para sua causa.

Logo no início de “Gandhi” testemunhamos o seu trágico assassinato e a comoção que sua morte causou no país, dando idéia da enorme importância daquele homem. Desta forma, quando começamos a acompanhar o início da caminhada dele, ainda jovem na África do Sul, sabemos qual será seu fim trágico, e passamos a nos perguntar que motivos levariam alguém a fazer aquilo. Mas o excelente roteiro de John Briley faz muito mais do que mostrar apenas porque alguém mataria aquele homem (e a razão é estúpida), mostrando na realidade como este homem se tornaria um dos mais importantes seres humanos a pisar na face da terra. A mensagem de Gandhi era simples, porém de difícil compreensão para nós, seres tão estúpidos e fracos.

Attenborough acerta em cheio na escolha de seus planos, desde este forte início, com a cena do assassinato e o pomposo funeral, passando pelas lindíssimas imagens durante as viagens de trem pela Índia, onde Gandhi começa a notar a pobreza de seu país, até os belos planos gerais de seus discursos públicos, quando envia sua mensagem de não-violência para toda parte da Índia. Attenborough mostra competência também nas difíceis cenas de combate, como a guerra na fronteira da Índia com o Paquistão e a chocante cena do fuzilamento coletivo de indianos. O diretor conta também com um ótimo trabalho de montagem de John Bloom, notável em diversos momentos, como na bela transição da cena em que Gandhi chega ao mar pra fazer sal para a reportagem feita no jornal britânico, em preto e branco, que falava exatamente sobre este ato. Já na viagem de volta de Gandhi no navio, podemos ver exatamente o contrário. A imagem transita da reportagem para a realidade. Mas Bloom acerta especialmente ao cobrir muitos anos da vida do líder indiano sem jamais soar episódico, devido aos elegantes saltos que dá na narrativa. Em certo momento, por exemplo, ficamos sabendo da prisão da Sra. Gandhi (Rohini Hattangadi) através de uma conversa dele com seu amigo, já preso, sem a necessidade de mostrar esta etapa da vida deles.

Quando retorna de sua viagem pela Índia, Gandhi diz em um belo discurso que ninguém pode lutar pelos direitos dos indianos se não se tornar um indiano de verdade, ou seja, viver como um indiano vive, sem luxos (o que arranca um sorriso contido de seu amigo no palco). Caso contrário, estaria apenas tomando o lugar dos britânicos no poder. E se a pobreza vista por Gandhi salta aos olhos também do espectador, é porque além da competente direção de Attenborough, a direção de fotografia da dupla Ronnie Taylor e Billy Williams acerta na escolha de cores áridas e quentes, como o amarelo, o bege e o marrom, para retratar o mundo seco, pobre e sem cores em que vivia a maioria absoluta dos indianos na época. Colaboram também os figurinos (creditados para Bhanu Athaiya e John Mollo), que destacam cores que harmonizam com a fotografia árida, mas com o predomínio de roupas brancas, que por outro lado, simbolizam muito bem a paz que Gandhi tanto pregava, e a excelente direção de arte de Norman Dorme e Ram Yedekar. Tipicamente indiana, com acordes altos e cantos, a linda trilha sonora que ajuda na ambientação ao país é mérito de Ravi Shankar.

Por ser advogado formado, Gandhi sabia muito bem os limites de suas atitudes e, por conseqüência, que punições ele poderia ou não sofrer. Desta forma, quando inicia a queima dos bilhetes na frente de soldados britânicos, ele sabia exatamente onde estava pisando e que tipo de reação geraria. Sua prisão causou revolta nos indianos presentes na África do Sul, que certamente contariam o feito para outros, e desta forma chamariam a atenção que ele precisava para iniciar sua revolução. A opressão britânica na África do Sul despertou em Gandhi o sentimento de lutar contra a tirania. Só que ele o fez da melhor e mais humana maneira possível, o pacifismo. Mas como enfrentar um império poderoso e violento de forma pacífica? A resposta é dada ao longo de toda a projeção, em cada frase (“Olho por olho deixará o mundo cego” é só um exemplo) e em cada atitude dele.

Coube a Ben Kingsley a responsabilidade de interpretar Mahatma Gandhi, o “grande espírito”. Em atuação magnífica, Kingsley é firme quando necessário, como no julgamento em que desafia o juiz, dizendo que não vai pagar 100 rupis (seu olhar mostra claramente sua determinação em não fazê-lo), mas por outro lado, consegue transmitir a paz interior de Gandhi com enorme competência através da fala mansa e do olhar sempre sereno e pacifico. Observe como quando está mais velho sua fala se torna ainda mais pausada e lenta, assim como seu caminhar (e seu emagrecimento é também evidente). Pouco compreendido até mesmo pelos indianos (“Deus me dê paciência”, diz um deles quando o vê em vestimentas típicas indianas), era quando falava em público que Gandhi realmente chamava a atenção, exatamente pela beleza e importância de suas palavras, e Kingsley também é competente nestes discursos, transmitindo sentimento em cada um deles. Pode-se imaginar como era difícil deixar posições confortáveis para os representantes indianos da época. Mais difícil ainda era aceitar e entender as diferenças religiosas. Por isso, Gandhi comprou briga com muitos, até mesmo com sua fiel mulher no inicio de sua vida no Ashram (local que ele construiu para viver, onde todos eram iguais e as tarefas eram divididas), e através de seus exemplos, servindo café no lugar do servo e jamais reagindo às muitas agressões e prisões que sofreu, foi conquistando o respeito e a admiração de muitos, inclusive vindos de outros países. Em uma das mais belas cenas do filme, comovido após ver a pobreza nas famílias produtoras de roupas indianas – resultado da invasão de roupas inglesas no país – ele passa a utilizar somente roupas nacionais e pede para que o povo faça uma enorme fogueira de roupas britânicas, sendo prontamente atendido. O desapego das roupas de melhor qualidade em prol de uma vida melhor para os indianos soa nacionalista, mas acima de tudo, era uma atitude muito humana. Finalmente, Kingsley também está ótimo nas cenas dramáticas, como o comovente choro de Gandhi ao pressentir e presenciar a morte da mulher amada, ficando ao lado dela até o fim, o que mostra que ele era um ser humano normal, que sentia amor e dor como qualquer outro. O restante do numeroso elenco também tem grandes atuações, como Geraldine James interpretando Meerabahen, a admiradora inglesa de Gandhi e Saeed Jaffrey, que interpreta seu grande amigo Sardar. Destaque também para a belíssima maquiagem em todo o elenco no terceiro ato do filme, quando todos estão muitos anos mais velhos.

A história de Gandhi ensina que as diferenças religiosas devem ser respeitadas para que a sociedade consiga conviver em harmonia. Note como Gandhi cita Cristo algumas vezes e até mesmo compara passagens da Bíblia com o Gita e o Alcorão (que eram lidos juntos em sua infância), o que se revela bastante interessante, já que ambos tinham uma mensagem muito parecida, de paz e amor ao próximo. E a semelhança entre os dois tem até mesmo referências visuais no longa, como no julgamento em que Gandhi veste uma roupa bem semelhante aquela que nos acostumamos a associar à Jesus Cristo. Completamente desconhecido do povo indiano – como podemos notar quando um deles, em cima do trem, diz para o amigo cristão de Gandhi que sua conhecida, também cristã, “bebe o sangue de Cristo todo domingo” – o cristianismo tem muito em comum com o pacifismo pregado por Gandhi, o que nos leva a pensar sobre a natureza dos conflitos religiosos. Porque julgar as religiões pelas excentricidades ao invés de focar na bela mensagem em comum de amor e paz? Para Gandhi, o que importava era seguir a Deus e não a religião.

Quando o assassino de Gandhi aparece em meio à multidão, já próximo do final do filme, sabemos qual o seu papel ali. Após a aparente paz na região, com a conquista da independência da Índia e do Paquistão – simbolizada nas cenas em que as bandeiras são hasteadas e os hinos cantados – inicia-se outra guerra, agora religiosa, que só terminaria com mais uma greve de fome de Gandhi. Em meio a tantas pessoas que respeitavam e ouviam a bela mensagem de paz dele, havia também aqueles que ousavam gritar “Morte à Gandhi!” (e neste momento, Attenborough inteligentemente coloca o assassino em meio à multidão, onde podemos identificá-lo). Intolerantes à diferença religiosa, estas pessoas são a resposta para a pergunta que nos fazemos no inicio do filme. São as pessoas capazes de tirar a vida de alguém tão puro, simples e bom, simplesmente por entender que ele não compartilha de sua crença.

Albert Einstein disse que “gerações futuras não acreditariam que alguém assim como Gandhi, de carne osso, tenha vivido neste mundo”. E no mundo em que vivemos hoje, é realmente difícil acreditar. Nas palavras de Meerabahen: “Ele mostrou ao mundo como sair da loucura. Só que ele não viu isso. Nem o mundo viu”. A maravilhosa história do homem que combateu a violência e a opressão com a paz não precisava de mais nada para ser atraente. Mas nem por isso Attenborough e seu competente elenco fizeram um trabalho qualquer. O resultado final é um filme grandioso, lindo e marcante. Não tanto como o próprio Gandhi, o que não é nenhum demérito. Nenhum filme seria.

Texto publicado em 18 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

E.T. – O EXTRATERRESTRE (1982)

(E.T., The Extraterrestrial)

 

Videoteca do Beto #26

Dirigido por Steven Spielberg.

Elenco: Henry Thomas, Robert MacNaughton, Drew Barrymore, Dee Wallace-Stone, Peter Coyote, K.C. Martel, Sean Frye, C. Thomas Howell, Frank Toth, Pat Welch e Debrah Winger (E.T. – voz).

Roteiro: Melissa Mathison.

Produção: Kathleen Kennedy e Steven Spielberg.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

“ET, o extraterrestre é um filme mágico”. Esta é a melhor definição que consigo encontrar para descrever este clássico maravilhoso. A obra que marcou uma geração e comprovou o enorme talento de Spielberg de uma vez por todas é uma espetacular mistura de suspense, humor, drama e ficção que capta com competência toda a magia que o cinema pode proporcionar, deixando suas belíssimas imagens registradas na mente de cada espectador para sempre.

Um ser de outro planeta se perde na Terra e é protegido por um garoto de dez anos, filho de pais separados, que fará de tudo para evitar que ele seja transformado em cobaia. Enquanto tentam fazer contato para que o extraterrestre volte ao seu planeta, uma forte amizade surge entre os dois.

A figura encantadora do extraterrestre simboliza o amigo imaginário, tão comum na infância, ainda mais em crianças solitárias e carentes. Elliot (Henry Thomas) é uma delas. A separação recente de seus pais é motivo de forte (e óbvio) sofrimento para o garoto e seus outros dois irmãos, Michael (Robert MacNaughton) e Gertie (Drew Barrymore, ainda uma pequena garota). O competente roteiro de Melissa Mathison (que criou ainda a frase “ET, phone, home” que marcou o cinema para sempre) aborda este tema de forma muito sensível, como podemos observar na primeira discussão da família na mesa após o primeiro encontro entre o garoto e o ET (“Papai ia acreditar em mim”). A forte frase do menino provoca o choro de sua mãe (Mary, interpretada por Dee Wallace-Stone) e escancara logo no inicio do filme o problema que aquela família enfrenta. “Ele odeia o México” diz Mary em prantos, mostrando a falta que sente do marido separado (e pai ausente). Em outro momento do longa, Michael e Elliot encontram a camisa do pai e lembram de quando iam aos jogos e ao cinema com ele, reforçando o quanto aquele pai faz falta pra eles.

Sabendo da identificação que aquela situação causaria na maioria das crianças e jovens da época (os anos oitenta viveram um boom de separações de casais, inédito até então), Spielberg mantém a câmera na maior parte do tempo no campo de visão das crianças (a um metro do chão, na altura da cintura dos adultos), o que facilita ainda mais a empatia do público infantil com o filme. Observe, por exemplo, como nunca vemos o rosto dos vários homens que andam pela floresta com lanternas, assim como o das pessoas que rondam a casa de Elliot. Mas o talento de Spielberg não pára por aí. O diretor abusa de lindos planos, como na cena em que Elliot e ET fazem o primeiro contato, com a casa do lado esquerdo e o quarto do lado direito do plano sendo cobertos por uma névoa. Podemos citar também o travelling inicial, descendo das estrelas até chegar à nave espacial, mudando lentamente o tom do céu de preto pra azul, além do plano da cidade toda iluminada do alto do monte onde a nave está aterrissada. Spielberg aproveita ainda para ilustrar o valor da verdadeira amizade, mesmo que esta seja entre um humano e um não humano (neste caso um extraterrestre, que poderia também ser um animal de estimação ou um amigo imaginário). O próprio formato do ET colabora e muito para a identificação com o público. Os olhos grandes e azuis e o coração luminoso transmitem sentimentos e o aproximam demais do espectador. Além disso, quando ET imita os gestos de Elliot, os dois estão criando uma conexão que tornará a amizade ainda mais forte, num momento que lembra a cena de “Tubarão” em que pai e filho fazem a mesma coisa. Elliot e ET sentem sono, fome, se assustam, ficam embriagados e adoecem juntos, o que dá sentido à engraçada cena em que ET vê um beijo na televisão e Elliot beija sua colega na escola. O filme conta ainda com uma flor, que é um inteligente artifício utilizado para sinalizar o estado de saúde (e talvez emocional) do extraterrestre. Com tudo isto, é impossível não se identificar com a amizade entre ele e as crianças (Elliot em especial).

Finalmente, Spielberg se aproveitou também do extraordinário desempenho dos atores mirins para alcançar sucesso absoluto, dando liberdade total para que eles desempenhassem seus papéis da forma mais livre possível, resultando em atuações maravilhosas e muito realistas. Henry Thomas está muito bem como Elliot, o melhor amigo de ET. Repare sua ótima atuação quando está na cama fingindo ter febre para ficar em casa com o amigo extraterrestre. No momento em que sua mãe pega o edredom, ele pensa que o ET está ali e mostra sua aflição de forma muito convincente. Quando ela sai do quarto bagunçado pela chegada do extraterrestre, ele ergue as mãos e resmunga, demonstrando seu alívio pela saída da mãe e, ao mesmo tempo, sua irritação pela demora dela pra sair de lá. Drew Barrymore está encantadora como a pequena Gertie. Suas falas são sinceras e inocentes, como é de se esperar vindo de uma criança tão jovem. Quando o ET fala pela primeira vez, Gertie quer mostrar para sua mãe, mas ela ignora a filha e sequer nota a presença dele na cozinha. Robert MacNaughton completa o elenco mirim com competência, interpretando Michael. Entre os adultos, destaque para Dee Wallace-Stone, vivendo a sofrida mãe das crianças e para Peter Coyote, como Keys, o adulto que compreende o drama de Elliot. Todos os demais parecem não compreender a importância daquele ser fascinante na vida daquelas crianças (observe o olhar encantado dos três irmãos para o ET no quarto, em um belo plano de Spielberg). Pelo menos esta é a visão de Elliot, que acredita seriamente que “eles vão matá-lo”, aumentando a empatia com o público infantil ao mostrar a incapacidade dos adultos em compreender o universo da infância, mesmo que todos já tenham pertencido a ele um dia. A tensa seqüência em que os homens invadem a casa de Elliot para capturar ET também reflete esta intolerância.

O trabalho técnico do filme é igualmente espetacular. A começar pela excelente direção de fotografia de Allen Daviau, que destaca a cor azul em diversos momentos do longa, numa alusão ao espaço sideral, a casa do ET. Os efeitos visuais (mérito da Industrial Light & Magic) são sensacionais. Destacam-se os objetos voando em direção ao ET, as bolinhas representando os planetas girando em torno do sol e as duas cenas das bicicletas voadoras. O ritmo perfeito do longa, que equilibra suspense, humor, drama e ficção, é mérito também da excelente montagem de Carol Littleton. Os efeitos sonoros dão vida a cada movimento de ET (repare sua respiração), num trabalho absolutamente perfeito. E claro, o maior destaque vai para a sensacional trilha sonora de John Williams. Linda, encantadora, mágica e inesquecível (às vezes não existem adjetivos suficientes), conta com uma música tema poderosa e ainda pontua toda a trama com variações dela, além de utilizar outras composições magníficas.

Como não poderia deixar de ser em um filme desta qualidade, ET conta ainda com cenas absolutamente inesquecíveis. De que outra forma poderíamos descrever a belíssima seqüência em que Elliot e ET voam pela primeira vez de bicicleta, passando em frente à lua? É um casamento perfeito entre direção, efeitos visuais e trilha sonora, criando uma cena mágica. A cena da “morte” do ET e sua volta à vida é linda e extremamente tocante. Já a ação fica por conta da fuga de Michael, Elliot e ET no furgão e, posteriormente, a fuga de bicicleta com todos seus amigos. E finalmente, a segunda seqüência em que as bicicletas voam nos brinda com outro momento mágico e inesquecível. Quando vemos o close nos olhos de ET, já sabemos o que vai acontecer devido à primeira cena e a satisfação no espectador é inevitável.

É difícil conter as lágrimas com o comovente final de “E.T., O Extraterrestre”. A amizade do garoto com o extraterrestre é sincera, pura e absolutamente marcante. Este é um filme que embalou os sonhos de uma geração, e é interessante notar que não envelheceu, se tornando ainda melhor com o passar do tempo. Spielberg contou com um elenco infantil espetacular, uma equipe talentosa e com sua enorme criatividade para criar uma obra que fala para todas as idades de uma forma singular e emocionante.

Texto publicado em 15 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

BLADE RUNNER – O CAÇADOR DE ANDRÓIDES (1982)

(Blade Runner)

 

Videoteca do Beto #25

Dirigido por Ridley Scott.

Elenco: Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Edward James Olmos, Daryl Hannah, William Sanderson, Brion James, Joe Turkell, Joanna Cassidy, James Hong e Morgan Paull.

Roteiro: Hampton Francher e David Webb Peoples, baseado em livro de Philip K. Dirk.

Produção: Michael Deeley.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

De acordo com “Blade Runner – O Caçador de Andróides”, belíssima ficção-científica dirigida por Ridley Scott, o futuro do planeta é sombrio e assustador. O crescimento descontrolado das grandes metrópoles, aliado à globalização e a destruição do meio ambiente, provocou profundas alterações climáticas e sociais, transformando o planeta em um local frio, deteriorado e muito complicado de se viver. Este sombrio ambiente serve como pano de fundo para uma trama que levanta questões muito profundas a respeito da existência humana, gerando discussões filosóficas e provocando até mesmo estudos baseados no longa. Além disso, o filme desenvolve personagens complexos e fascinantes. E todos eles buscam respostas que não serão encontradas facilmente.

O ano é 2019. Uma grande corporação desenvolveu um robô, conhecido como replicante, que é idêntico ao ser humano em sua aparência e inteligência, porém mais forte e ágil. Utilizados como escravos na exploração de outros planetas, um grupo destes replicantes se rebela. O problema é que o motim provoca a reação imediata das autoridades terrestres, que proíbem a presença de replicantes no planeta, sob pena de morte. É quando seis replicantes chegam a Terra após render uma tripulação e o ex-caçador de andróides Deckard (Harrison Ford) é chamado para matá-los, numa operação que não é conhecida como execução, e sim remoção.

Como de costume nos filmes dirigidos por Scott, o visual deslumbrante do mundo futurista decadente se destaca logo no inicio do longa, graças ao excelente trabalho de direção de arte de David L. Snyder. Tudo é fascinante. Os carros sujos, a cidade poluída repleta de prédios enormes que se espremem em pequenos espaços, o contraste entre os luxuosos apartamentos dos ricos no alto dos prédios e a podridão da ralé que vive no nível do chão, o resultado da globalização, com uma verdadeira torre de babel circulando neste submundo repleto de pessoas de diversas nacionalidades, o clima quase sempre chuvoso, nublado e sombrio, resultado das mudanças climáticas provocadas pelo crescimento exacerbado do capitalismo, carros voadores, um festival de luzes e muito neon piscando com propagandas em toda parte. Tudo está lá, diante de nossos olhos, com um realismo incrível. A fotografia azulada e escura (direção de Jordan Cronenweth), que remete aos filmes noir, esconde os personagens nas sombras e ao mesmo tempo cria um forte contraste com os raios de luz (ou luzes piscando freneticamente) que entram nos ambientes, criando um visual sombrio e triste, refletindo a vida destas pessoas neste mundo frio e cruel. Claramente, este é o resultado de anos e anos de crescimento sem controle, sem preocupação ambiental e sem sustentabilidade, que provocou a degradação total do planeta e das relações humanas. A trilha sonora eletrônica de Vangelis completa a parte técnica casando perfeitamente como o ambiente do filme (e soando bastante ousada para a época). Os carros voadores dos policiais raramente arriscam entrar no violento submundo, onde as pessoas vivem precariamente. O perigo que os replicantes (andróides) representam é bem resumido na frase de um policial “Ele está respirando bem agora, desde que não desliguem os aparelhos”, se referindo ao último caçador de andróides que fez o teste com um deles. O teste, apresentado logo no inicio do filme, se resume a uma série de perguntas feitas de forma a identificar um replicante, já que fisicamente eles são idênticos ao seres humanos. Mentalmente, porém, são diferentes, já que não têm passado, e através das perguntas (e da dilatação dos olhos quando as escutam), os caçadores conseguem identificá-los. Aliás, a criatividade da tecnologia empregada em “Blade Runner” também é fascinante, como podemos notar, por exemplo, na máquina que Deckard utiliza para analisar uma fotografia.

Ridley Scott acerta a mão também no ritmo da narrativa. Lento e reflexivo, “Blade Runner” não é um simples filme de perseguição. É muito mais que isso. É claro que existem boas seqüências de ação. Auxiliado pela boa montagem de Marsha Nakashima, o diretor cria uma seqüência empolgante durante a perseguição de Zhora, por exemplo. Os cortes ágeis e precisos aumentam a adrenalina da cena sem torná-la confusa. Por outro lado, quando Deckard finalmente alcança Zhora e atira, ele utiliza a câmera lenta, mostrando em detalhes o impacto daquele ataque e a reação angustiada de Deckard, que sente pelo que fez, mas cumpre o seu dever. A trilha sonora triste marca o momento. A empolgante seqüência final entre Roy e Deckard também é sensacional, repleta de tensão e realismo. Mas o principal acerto de Scott, que conta com o criativo e excepcional roteiro de Hampton Francher e David Webb Peoples (baseado em livro de Philip K. Dirk), é a ambigüidade de cada um dos personagens e as inúmeras reflexões que provocam no espectador.

Todos os personagens em “Blade Runner” estão em busca de algo. Harrison Ford encabeça o elenco, encarnando muito bem o caçador de andróides Deckard que busca exterminar os replicantes da Terra, ao mesmo tempo em que busca também sua própria identidade. Ford acerta ao balancear a frieza e determinação com que Deckard parte para cumprir sua missão com a emoção contida, porém sensível, que sente quando está com a aflita Rachel, interpretada com competência por Sean Young. As dúvidas sobre sua própria origem e a angustia após descobrir a verdade são muito bem retratadas pela atriz. Quando Rachel demonstra ter sentimentos por Deckard, o espectador provavelmente se pergunta “E agora?”, já que ele descobre gostar dela praticamente ao mesmo tempo em que é avisado que precisa matá-la. “Eu sou o trabalho” diz ela, ciente da missão do parceiro. Deckard, por sua vez, sabe o que precisa fazer, mas não terá coragem para isso. Rutger Hauer está sensacional como o frio e assustador Roy, que busca desesperadamente encontrar uma forma de prolongar sua existência, já programada anteriormente para durar apenas quatro anos. Por outro lado, o ambíguo personagem demonstra “humanidade” no terceiro ato, quando salva Deckard e mostra seus sentimentos mais puros e sinceros, além de levantar questões profundas sobre a existência de cada ser no universo. Seu lado emocional fica ainda mais evidente quando sua amada Pris (Daryl Hannah) é assassinada por Deckard, provocando seu emotivo beijo de despedida. A tensa seqüência em que Roy mata Tyrell (Joe Turkell) é de um simbolismo tremendo. A perversidade da inteligência humana é colocada em cheque. Até mesmo a coruja é criada artificialmente na casa dos Tyrell. Insatisfeita com sua existência sem sentido, a criatura mata o criador. Afinal de contas, que sentido tem uma vida programada apenas para ser escravizada e com tão pouco tempo de existência? Em seguida, Roy aparece iluminado em um plano poderoso que reflete sua satisfação.

Quando descobrimos que as memórias de Rachel (brincadeira de médico, as aranhas) são implantadas, as reflexões que o filme sugere se tornam mais evidentes. As memórias dela, na realidade, são da sobrinha de Tyrell, o gênio que criou os replicantes. Tyrell limitou a existência destes seres em apenas quatro anos ao prever que poderiam desenvolver sentimentos próprios e o choro de Rachel ao descobrir toda a verdade comprova esta teoria. E é curioso pensar o que aquele ser, humano ou não, estaria sentindo naquele momento, nos levando a questionar até que ponto é justo o ser humano criar outro ser desta forma. Deckard, ao descobrir que seria incapaz de eliminar Rachel, decide fugir com ela, mesmo sabendo que a moça não sobreviveria por muito tempo. “É uma pena que ela não viverá, mas quem vive”, é a frase final de Gaff (Edward James Olmos), que remete a discussão central do filme, sobre a natureza finita de nossa existência.

Então chegamos ao dilema de “Blade Runner”, enriquecido pela bela discussão filosófica que o longa propõe. Seria Deckard é um replicante? Durante toda a narrativa são espalhadas dicas sobre a origem dele, mas de uma forma tão sutil que provavelmente a maioria dos espectadores não consegue notar. Primeiro, o texto que abre o longa diz que seis replicantes estão soltos na terra (três homens e três mulheres). Os quatro primeiros são logo identificados, mas o quinto só é revelado quando descobrimos que Rachel é uma replicante. Acontece que ela não sabe disso, pois foi utilizada como cobaia em experimentos de implante de memória e pensa ter tido uma infância. Sendo assim, não podemos descartar a hipótese de que Deckard também tenha memórias implantadas em sua mente. Além disso, quem garante que o sexto replicante realmente teria sido queimado quando invadiu a empresa Tyrell? É provável que seja apenas uma estória inventada pela policia para não levantar suspeita sobre a origem replicante de Deckard. Não podemos negar que é extremamente inteligente por parte da policia utilizar um replicante para caçar outros replicantes, já que ele se iguala em força e agilidade com os demais. Mas porque os policiais deixariam Deckard escapar? Ora, Gaff, o policial que faz origamis, deixa um unicórnio para Deckard momentos antes de sua fuga com Rachel. Como Gaff poderia saber desta passagem remota da vida dele, lembrada apenas em sonhos por Deckard? Este é o claro sinal de que ele pode ser um replicante e os policiais sabiam disso. Como podemos perceber, o filme levanta possibilidades, mas não as confirma. É o espectador quem deve buscar as respostas, o que é genial. Mas “Blade Runner” vai além, se aprofundando também em questões filosóficas sobre a existência humana. O que é ser um humano? De onde viemos e para onde vamos? A marcante frase de Roy no belíssimo diálogo que tem com Deckard (“Eu vi coisas que ninguém acreditaria. Todos esses momentos ficarão perdidos no tempo, como lágrimas na chuva”) resume bem o dilema de nossa existência. Por mais que existam meios de registrar fatos importantes (livros, vídeos, fotografias), muitas passagens importantes da vida de cada ser humano serão simplesmente apagadas do universo quando este deixar de existir.

Utilizando um mundo futurista incrivelmente sombrio que é apontado claramente como resultado das atitudes tomadas no passado pela humanidade, “Blade Runner – O Caçador de Andróides” levanta ainda muitas questões interessantes e profundas sobre a natureza da existência humana. O que acontecerá com cada um de nós quando a escuridão da morte chegar? De onde viemos? Para onde vamos? O que fizemos aqui será simplesmente apagado, “como lagrimas na chuva”? As respostas serão encontradas por cada espectador, de sua própria maneira. E esta é a beleza deste grandioso clássico, que marcou a ficção-científica e o cinema para sempre.

Texto publicado em 13 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira