OSCAR 2013 – Palpites

Olá leitor,

Mais uma vez o Oscar se aproxima e os palpites começam a agitar o mundo cinéfilo. Só que ao contrário da maioria das premiações recentes, neste ano a disputa parece estar muito mais acirrada e imprevisível, especialmente na categoria “Melhor Diretor”, na qual Ben Affleck, o grande vencedor de prêmios importantes como o SAG, DGA e PGA, sequer foi indicado.

Assim, a cerimônia tem tudo para ser mais interessante do que vinham sendo as edições recentes, especialmente se Seth MacFarlane conseguir repetir no palco o humor sarcástico que caracteriza seus trabalhos.

Como neste ano eu consegui assistir no cinema oito dos nove indicados ao prêmio de Melhor Filme, resolvi incrementar meu tradicional post de palpites, listando não apenas quem eu acho que deverá vencer em cada categoria (o que não é tão difícil, considerando as premiações que antecedem o Oscar), como também aquele que receberia o meu voto – o que, obviamente, são coisas bem diferentes. Infelizmente, faltaram filmes importantes como “O Mestre”, “As Sessões”, “O Impossível” e “Indomável Sonhadora”, mas acho que já posso opinar em muitas categorias com base no que assisti – e, por favor, perdoem alguns dos meus votos considerando que não assisti aos filmes mencionados.

O Oscar marcou um importante ponto de virada na história do Cinema & Debate no ano passado, praticamente dobrando o número de acessos diários após a semana especial na qual escrevi sobre os dez filmes que concorreram à estatueta principal em 2011. Neste ano, resolvi dar um passo adiante e assistir ao máximo possível de filmes antes da cerimônia, para dar maior embasamento aos meus comentários. O próximo passo deverá ser ainda mais importante e definir novos rumos para o blog, mas vocês terão que aguardar um ano para acompanhá-lo. 😉

Finalmente, aqueles que estiverem interessados em acompanhar meus comentários durante a transmissão podem me seguir no Twitter @cinemaedebate.

E agora, meus palpites para o Oscar 2013:

MELHOR FILME

Deve vencer: “Argo”

Motivo: O favoritismo de “Lincoln” foi praticamente demolido pelas premiações de peso que antecedem o Oscar, mas a vitória do filme de Spielberg ainda não pode ser descartada. De qualquer forma, baseado nas escolhas dos principais sindicatos e até para compensar a não indicação de Affleck como diretor, acho que “Argo” deve levar o principal prêmio da noite.

Meu voto seria para: “Django Livre”

Motivo: Poucas vezes foi tão difícil escolher qual seria meu voto para melhor filme. Gostei muito do tenso “Argo”, fiquei encantado pelo apuro visual de “As Aventuras de Pi”, fui devastado pelo peso dramático de “Amor” e sugado pelo realismo de “A Hora mais Escura”. Mas, talvez como forma de homenagear uma carreira tão sólida como a de Tarantino, eu votaria em “Django Livre”, longa divertidíssimo que traz todas as características marcantes da carreira do cultuado roteirista/diretor, como as referências ao próprio cinema e à cultura pop, a estilização da violência e o humor peculiar, contando ainda com atuações muito inspiradas de quase todo o elenco e algumas das cenas mais engraçadas já imaginadas por Tarantino.

MELHOR DIREÇÃO

Deve vencer: Michael Haneke, por “Amor”

Motivo: Com a ausência de Affleck, Spielberg poderia ser considerado o favorito nesta categoria, caso não tivesse sido derrotado e até mesmo ignorado pelas premiações dos sindicatos. Por isso, acredito que Haneke deve finalmente ser reconhecido, consolidando sua posição na indústria após o sucesso de crítica de “A Fita Branca” e do próprio “Amor”, que deve vencer também como Melhor Filme Estrangeiro e completar a dobradinha do diretor austríaco.

Meu voto seria para: Tarantino. Não foi indicado? Affleck. Também não foi indicado? OK, então Haneke.

Motivo: Com a ausência de Ben Affleck, Quentin Tarantino e Kathryn Bigelow, Haneke é disparado o melhor entre os indicados.

MELHOR ATOR

Vai vencer: Daniel Day-Lewis, por “Lincoln”

Motivo: Venceu todas as premiações anteriores.

Meu voto seria para: Daniel Day-Lewis, por “Lincoln”

Motivo: Ainda que não seja a melhor atuação de sua excepcional carreira, Day-Lewis mais uma vez impressiona pela maneira como mergulha no personagem, ainda que desta vez seu trabalho não seja tão marcante como nos dois que lhe renderam a estatueta antes. Gosto da atuação de Washington em “O Voo” e também gosto do desempenho de Jackman em “Os Miseráveis”, mas nem eles nem a interessante atuação de Bradley Cooper merecem mais o prêmio do que o já consagrado Day-Lewis (lembrando que não assisti “O Mestre” e, portanto, não posso opinar sobre a atuação de Joaquin Phoenix).

MELHOR ATRIZ

Deve vencer: Jennifer Lawrence, por “O Lado Bom da Vida”

Motivo: Vencedora do SAG (que possui grande parte dos votantes da Academia), Lawrence é uma das queridinhas da América na atualidade e realmente tem grande talento. Sua vitória pode consolidar sua carreira em ascensão e estabelecer Jennifer como a grande estrela do momento, ainda mais após o sucesso de “Jogos Vorazes”. Mas a vitória de Emmanuelle Riva (que está ótima em “Amor”) não pode ser descartada, até como forma de reconhecer sua longa carreira no cinema. Jessica Chastain também conquista o respeito da Academia em velocidade assustadora, mas acho que ainda não chegou a sua vez. Para Watts e Wallis, a indicação já é um prêmio de consolação.

Meu voto seria para: Emmanuelle Riva, por “Amor”

Motivo: Gosto muito de Jennifer Lawrence, nem tanto por “Jogos Vorazes”, mas por sua atuação marcante em “Inverno da Alma” e agora em “O Lado bom da Vida”, onde ela realmente se destaca com seu carisma e espontaneidade. Também gostei da forte atuação de Chastain, mas admito que a sensibilidade de Emmanuelle Riva em “Amor” me conquistou. Como não assisti ainda “O Impossível” e “Indomável Sonhadora”, não posso opinar a respeito das atuações de Naomi Watts e da mais nova atriz já indicada ao Oscar, Quvenzhané Wallis.

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Deve vencer: Tommy Lee Jones, por “Lincoln”

Motivo: Categoria complicada, com cinco atores competentes e respeitados pela Academia. Lee Jones venceu o SAG e carrega algum favoritismo por isso, mas Seymour Hoffman também pode vencer, assim como Waltz – apesar de ter vencido recentemente também por um filme de Tarantino, o ótimo ator alemão não pode ser descartado. Penso que Arkin e De Niro tem poucas chances, mesmo sendo De Niro um ícone tão admirado.

Meu voto seria para: Christoph Waltz, por “Django Livre”

Motivo: Mesmo não gostando tanto de “Lincoln”, acho a atuação de Lee Jones realmente muito boa. No entanto, não acho seu desempenho muito superior ao de Alan Arkin ou Robert De Niro. E apesar de admitir que adoraria ver De Niro premiado novamente e recuperando-se na carreira, não posso negar que Christoph Waltz mais uma vez dá um show e rouba a cena em “Django Livre”, criando outro personagem divertido e intenso. Aliás, lamento muito a não indicação de Di Caprio nesta categoria, já que seu vilão consegue ficar a altura do ótimo caçador de recompensas vivido por Waltz. Pra fechar, não posso opinar sobre o desempenho de Seymour Hoffman, pois não assisti “O Mestre” (shame on me!).

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Vai vencer: Anne Hathaway, por “Os Miseráveis”

Motivo: Venceu todas as premiações anteriores e é queridinha da Academia.

Meu voto seria para: Anne Hathaway, por “Os Miseráveis”

Motivo: Apesar de sua curta participação no filme, gosto mais do desempenho de Hathaway (adoro a música “I dreamed a dream”) do que das atuações de Jacki Weaver (que está bem) e especialmente de Sally Field, que está apenas razoável em “Lincoln”. Só que meu voto nesta categoria perde toda a credibilidade porque, infelizmente, não consegui assistir as elogiadas atuações de Helen Hunt e Amy Adams.

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

Deve vencer: “Django Livre”, de Quentin Tarantino

Motivo: “A Hora mais Escura” venceu o WGA, o que pode influenciar a Academia, mas até como forma de compensar sua não indicação ao premio de melhor diretor, Tarantino deve ser reconhecido por seu ótimo trabalho nesta importante categoria.

Meu voto seria para: “Django Livre”, de Quentin Tarantino

Motivo: Este ano não tem pra ninguém. Gosto de todos os concorrentes, mas a criatividade de Tarantino conquistou meu voto.

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

Deve vencer: “Argo”, de Chris Terrio

Motivo: David O. Russell tem boas chances com “O Lado bom da Vida”, mas acho que a coleção de prêmios recebidos por “Argo” influenciará a Academia, que tentará compensar a não indicação de Affleck como diretor dando outros prêmios importantes para seu ótimo filme.

Meu voto seria para: “Argo”, de Chris Terrio

Motivo: Gosto de “O Lado bom da Vida”, mas não por causa do roteiro, que não consegue evitar clichês básicos. A magia de “As Aventuras de Pi” se deve muito mais à direção de Ang Lee e à sua deslumbrante fotografia e o roteiro de “Lincoln” altera a história sem qualquer justificativa plausível (como vocês podem conferir aqui), o que não invalida o bom trabalho feito por Tony Kushner, mas certamente compromete o resultado final. Assim, só me resta votar em Chris Terrio, que aproveita o potencial da história real e faz um bom trabalho em “Argo” (lembrando que não assisti “Indomável Sonhadora” e, portanto, não posso opinar a respeito do trabalho de Lucy Alibar & Benh Zeitlin).

MELHOR ANIMAÇÃO

Deve vencer: “Detona Ralph”

Motivo: “Valente” não pode ser descartado, até pela força da Pixar e por ter vencido prêmios importantes como o BAFTA. Mas “Detona Ralph” venceu o PGA e é claramente a melhor animação do ano.

Meu voto seria para: “Detona Ralph”

Motivo: Com sua forma criativa de abordar o fascinante mundo dos games e sua dupla carismática de personagens centrais, esta é com certeza a melhor animação do ano e ponto final.

MELHOR FILME ESTRANGEIRO

Deve vencer: “Amor” (Áustria)

Motivo: Se não vencer na categoria principal (o que é possível), aqui não tem jeito, Haneke vai vencer.

Meu voto seria para: “Amor” (Áustria)

Motivo: Infelizmente, não consegui assistir aos outros concorrentes e, por isso, meu voto aqui não tem validade alguma.

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE

Deve vencer: “Os Miseráveis”

Motivo: Musicais tem tradição de vencer nesta categoria. Além disso, se o longa consegue nos transportar para a época da narrativa, é graças também ao bom trabalho de Eve Stewart e Anna Lynch-Robinson.

Meu voto seria para: “Os Miseráveis”

Motivo: Não assisti “O Hobbit” e nem “Anna Karenina”. Entre os que assisti, gostei mais da reconstituição de época de “Os Miseráveis” do que da de “Lincoln” (que é muito boa), e ambos são trabalhos claramente superiores ao feito em “As Aventuras de Pi”, já que as ações se concentram num barco perdido no oceano e, portanto, limitam bastante o trabalho de direção de arte.

MELHOR FOTOGRAFIA

Deve vencer: “As Aventuras de Pi”

Motivo: Puro palpite. Em sua décima indicação, talvez Roger Deakins finalmente consiga o Oscar por seu trabalho em “007 – Operação Skyfall”, mas se tivesse que apostar, apostaria no excelente trabalho realizado pelo chileno Claudio Miranda no filme de Ang Lee. Dono de três estatuetas, Robert Richardson também não pode ser desprezado, até porque seu trabalho em “Django Livre” é notável.

Meu voto seria para: “As Aventuras de Pi”

Motivo: Gosto dos outros indicados, mas a maioria das cenas que se passam no mar em “As Aventuras de Pi” poderiam ser transformadas em quadros, tamanha a beleza do longa. Além disso, a fotografia oscila bem entre os momentos de paz momentânea (ou seria calmaria?) e os de puro terror, como o impressionante naufrágio.

MELHOR FIGURINO

Deve vencer: “Anna Karenina”

Motivo: Puro palpite.

Meu voto seria para: “Os Miseráveis”

Motivo: Só assisti dois dos cinco indicados e prefiro o trabalho de Paco Delgado.

MELHOR MONTAGEM

Deve vencer: “Argo”

Motivo: Este parece ser o ano de William Goldenberg, duplamente indicado por “Argo” e “A Hora mais Escura”, mas não podemos descartar Michael Kahn, colaborador tradicional de Spielberg que já venceu três vezes na categoria.

Meu voto seria para: “Argo”

Motivo: Além de transitar muito bem entre as ações paralelas da narrativa, a montagem de William Goldenberg é crucial para que o sufocante clímax de “Argo” funcione. Gosto muito também da montagem de “A Hora mais Escura”, mas nem ele nem qualquer um dos indicados superam “Argo” neste quesito. Já a montagem de “Lincoln” me parece um tanto problemática (o filme poderia ser menor, talvez).

MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADO

Deve vencer: “Os Miseráveis”

Motivo: A transformação de Anne Hathaway e principalmente de Hugh Jackman é muito convincente.

Meu voto seria para: “Os Miseráveis”

Motivo: O único que assisti entre os indicados.

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL

Deve vencer: “007 – Operação Skyfall”

Motivo: Concorrentes de peso nesta categoria. Dario Marianelli já venceu pela ótima trilha de “Desejo e Reparação”, Alexandre Desplat foi indicado cinco vezes de 2006 pra cá, Mychael Danna venceu o Globo de Ouro (o que não significa muita coisa) e John Williams está cansado de ser indicado, tendo cinco prêmios na estante. No entanto, acredito que chegou a vez de Thomas Newman, que levou o BAFTA por “007 – Operação Skyfall” e já soma 11 indicações no currículo.

Meu voto seria para: “Argo”

Motivo: Sou fã de carteirinha de John Williams, mas não gosto de seu trabalho em “Lincoln”, onde ele pesa demais a mão em certos momentos. Gosto muito da linda trilha de “As Aventuras de Pi”, mas ainda prefiro a de “Argo”, que colabora bastante para ampliar a tensão em cenas cruciais. Infelizmente, não assisti aos outros indicados.

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

Vai vencer: Skyfall”, de “007 – Operação Skyfall”

Motivo: Todo mundo sabe que Adele vencerá nesta categoria.

Meu voto seria para: “Skyfall”, de “007 – Operação Skyfall”

Motivo: Se “I dreamed a dream” fosse original, seria indicada e eu votaria nela. Não é o caso, então demonstro que não tenho personalidade e, como uma verdadeira “Maria vai com as outras”, voto em “Skyfall”, afinal de contas, estamos falando de uma música tema de James Bond!

MELHORES EFEITOS VISUAIS

Deve vencer: “As Aventuras de Pi”

Motivo: Richard Parker.

Meu voto seria para: “As Aventuras de Pi”

Motivo: Já viu o tigre de “As Aventuras de Pi”? Não? Então veja e me diga o que acha.

MELHOR MIXAGEM DE SOM

Deve vencer: “Argo”

Motivo: É muito complicado mixar diálogos num filme onde o som ambiente tem tanta importância (afinal, as ações acontecem num país em ebulição e repleto de protestos) e, o que é pior, tornar os diálogos claros mesmo com tantas discussões e vozes se sobrepondo.

Meu voto seria para: “As Aventuras de Pi”

Motivo: A mixagem entre o som do mar, a voz do garoto e os sons do próprio tigre tornam tudo ainda mais real. Adoro o trabalho feito em “Argo” também e, na verdade, considero todos bons candidatos nesta categoria.

MELHOR EDIÇÃO DE SOM

Deve vencer: “A Hora Mais Escura”

Motivo: O som tem enorme importância no momento chave do filme, que se passa quase que totalmente na escuridão, e o resultado é simplesmente espetacular. Mas se qualquer um vencer aqui será merecido.

Meu voto seria para: “A Hora Mais Escura”

Motivo: O mesmo citado acima.

MELHOR DOCUMENTÁRIO

Deve vencer: Searching For Sugar Man

Motivo: Venceu PGA, DGA, WGA e BAFTA.

Meu voto seria para: Abstenção.

Motivo: Não assisti nenhum dos indicados.

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM

Deve vencer: “Não faço a menor ideia”. OK, só pra não ficar em branco: “Open Heart

Motivo: Puro palpite.

Meu voto seria para: Abstenção.

Motivo: Não assisti nenhum dos indicados.

MELHOR CURTA-METRAGEM

Deve vencer: Buzkashi Boys

Motivo: Chute?

Meu voto seria para: Abstenção.

Motivo: Não assisti nenhum dos indicados.

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO

Deve vencer: Paperman

Motivo: Com base nos estudos realizados em instituições especializadas em curtas de animação e na direção do vento neste instante, cheguei à conclusão de que não faço a menor ideia de quem vai vencer. Por isso, escolhi o único que assisti até agora (e adorei!).

Meu voto seria para: Abstenção.

Motivo: Só assisti “Paperman”.

E pra você, quem serão os vencedores da noite mais famosa de Hollywood?

Um abraço e bom OSCAR!

and-the-oscar-goes-toTexto publicado em 23 de Fevereiro de 2013 por Roberto Siqueira

GENTE COMO A GENTE (1980)

(Ordinary People)

4 Estrelas 

Filmes em Geral #103

Vencedores do Oscar #1980

Dirigido por Robert Redford.

Elenco: Donald Sutherland, Timothy Hutton, Mary Tyler Moore, Elizabeth McGovern, M. Emmet Walsh, Judd Hirsch e Dinah Manoff.

Roteiro: Judith Guest e Alvin Sargent.

Produção: Ronald L. Schwary.

Gente como a Gente[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Assim como aconteceu com “Como era verde meu vale”, “Gente como a Gente” ficou marcado por vencer um filme melhor na cerimônia do Oscar, ganhando a antipatia de muitos cinéfilos com o passar dos anos. Só que, enquanto o longa dirigido por John Ford está longe de ser um grande filme, o drama dirigido por Robert Redford ao menos é bastante competente, ainda que seja inferior à obra-prima “Touro Indomável”, que realmente deveria vencer o premio daquele ano. Nem por isso, é justo desmerecer o bom trabalho realizado neste filme humano, recheado com ótimas atuações e dirigido com tanta simplicidade e talento.

Escrito por Judith Guest e Alvin Sargent, “Gente como a Gente” nos apresenta o triste cotidiano da família Jarrett após a morte do filho mais velho do casal Calvin (Donald Sutherland) e Beth (Mary Tyler Moore) afetar profundamente a vida deles, especialmente a do caçula Conrad (Timothy Hutton), que presenciou o acidente fatal do irmão e, sentindo-se culpado, chegou a tentar o suicídio. Convencido pelo pai a procurar tratamento psicológico com o Dr. Berger (Judd Hirsch), o jovem tenta superar os traumas do passado, mas o processo acaba sendo doloroso não apenas para ele, mas para toda sua família.

Repleto de diálogos carregados de mágoa, “Gente como a Gente” já inicia num tom melancólico, expressado pelas ruas cobertas de folhas secas numa típica tarde de Outono que surgem embaladas pela bela trilha sonora instrumental orquestrada por Jack Hayes e composta por Marvin Hamlisch. Desde então, Robert Redford deixa evidente que apostará numa abordagem discreta, evitando chamar mais a atenção para si do que para a alta carga dramática da narrativa. Seguro atrás das câmeras como costuma ser na frente delas, o diretor conduz o filme com simplicidade e elegância, apostando em planos médios e closes que realçam as atuações, evitando invencionismos desnecessários para o desenvolvimento de uma narrativa baseada nos diálogos. Nem por isso, Redford deixa de imprimir um estilo próprio, que curiosamente remete ao seu estilo sutil e minimalista de atuar. Observe, por exemplo, como durante uma festa dos amigos de Beth, Redford conta com seu montador Jeff Kanew para alternar entre os planos, empregando closes que demonstram o teor artificial das conversas e ainda criam a atmosfera maçante pretendida pelo diretor.

Visualmente, Redford também sabe explorar o bom trabalho de sua equipe técnica, a começar pela fotografia de John Bailey, que começa “Gente como a Gente” apostando numa paleta dessaturada que, por sua vez, realça as cores sem vida dos figurinos de Bernie Pollack como o bege e o azul marinho. Com a evolução da narrativa e dos problemas de Conrad, as sombras e as cenas noturnas passam a predominar (especialmente nas sessões no psiquiatra), ilustrando a agonia do garoto, representada também no escritório sufocante e bagunçado do Dr. Berger – o que é mérito do design de produção de Phillip Bennett e J. Michael Riva. Observe, por exemplo, como quando ele fala sobre a mãe, a fotografia investe pesado nas sombras e torna o escritório num local obscuro – num momento, aliás, em que o leve movimento de câmera de Redford nos aproxima com elegância do rosto de Conrad e evidencia sua tristeza.

Mas se evita exibicionismos na movimentação de sua câmera, Redford demonstra muita habilidade na direção de atores, extraindo atuações que evitam transformar aqueles personagens em caricaturas unidimensionais. Inicialmente, somos apresentados ao cotidiano daquela família comum e, com o passar do tempo, percebemos que existe um conflito ali. Só que estas descobertas acontecem lentamente. Primeiro, fica evidente que Conrad tem problemas, principalmente pela forma como é tratado por seu preocupado pai. Contudo, a razão desta preocupação surge apenas quando o garoto aceita procurar um psiquiatra e decide falar abertamente sobre sua tentativa de suicídio, motivada pela traumatizante morte do irmão que o atormenta todos os dias. Em seguida, percebemos um atrito na relação dele com a mãe, que pouco a pouco vai sendo escancarado, conforme ele toma coragem para enfrentar a situação. Por vezes, Beth e Conrad mais parecem estranhos, tamanha a frieza com que se relacionam.

Demonstrando mais dificuldade para aceitar a perda de um filho e compreender o outro, Beth por vezes chega a irritar com seu jeito egoísta de lidar com os problemas – e a composição cuidadosa de Mary Tyler Moore transmite a sensação de que ela preferia que o filho mais velho tivesse sobrevivido sem que ela jamais diga isto claramente. Mas, nos momentos em que explode e escancara seu sofrimento pela perda do primogênito, Beth se torna mais humana e se aproxima um pouco mais da plateia, o que é ótimo justamente por evitar que ela se torne uma personagem rasa e unidimensional, que poderia facilmente afastar o espectador, ainda mais diante da postura pacificadora do marido dela. Compondo Calvin com uma estranha mistura de carisma e apatia, Donald Sutherland se sai bem como o pai protetor e preocupado que não sabe o que fazer para manter o equilíbrio emocional de uma família afetada por uma tragédia, algo que fica ainda mais evidente pela maneira confusa e nervosa que ele se comporta diante do Dr. Berger.

Sofrimento pela perda do primogênitoMistura de carisma e apatiaJovem amarguradoA razão de tanta preocupação é Conrad. Assumindo o papel mais difícil de “Gente como a Gente”, Timothy Hutton transmite muito bem a insegurança e a ansiedade daquele jovem amargurado, movimentando-se constantemente, evitando olhar diretamente para as pessoas e alterando o tom de voz sempre que se sente intimidado. Bastante instável emocionalmente – como atesta a cena no McDonald´s -, Conrad raramente consegue encontrar a paz e nem mesmo a pratica de um esporte como a natação serve para aliviar a pressão psicológica que ele mesmo se impôs. Inseguro ao ponto de treinar antes de ligar para uma garota, Conrad transmite a constante sensação de que está prestes a desistir da vida, o que é mérito da cuidadosa composição do ator. Hutton se destaca ainda na tocante conversa com o Dr. Berger após a morte da amiga Karen (Dinah Manoff), que ilustra o quanto Conrad se culpa pela morte do irmão.

Firme e direto, Judd Hirsch cria um Dr. Berger bastante seguro, que sabe tratar Conrad como adulto e evita a todo custo fazer com que ele se sinta vítima, mesmo que, para isso, precise recorrer a uma frieza desconcertante que por vezes parece até carregada com requintes de crueldade. Por outro lado, a doçura é representada pela simpática e bela Jeannine, interpretada por Elizabeth McGovern como uma garota simultaneamente atirada e compreensiva, que consegue alegrar e acalmar a vida de Conrad sempre que aparece. No entanto, a chave para compreender melhor a mente do rapaz está na outra moça que surge em seu caminho.

Conversa com o Dr. BergerDr. Berger bastante seguroSimpática e bela JeannineApresentada durante a dolorida conversa ocorrida dentro de um restaurante, a Karen de Dinah Manoff representa um ponto de apoio psicológico para Conrad, um exemplo vivo de que é possível superar o trauma e viver bem, ainda que a garota eventualmente deixe transparecer alguma tristeza – e o diálogo entre eles deixa claro que estamos acompanhando duas pessoas muito sofridas que tentam disfarçar a dor da melhor maneira possível. Mesmo distante, Karen faz com que Conrad se sinta melhor somente por saber que ela está bem e isto é essencial para que o espectador compreenda porque o garoto perde totalmente o equilíbrio quando, já no terceiro ato, ouve a trágica notícia do suicídio da garota.

A dificuldade para compreender o outro é justamente a razão pela qual a família Jarrett tanto sofre. Por isso, os diálogos entre eles escondem sob aquela carcaça polida e formal uma alta carga de tensão e parecem sempre prestes a provocar uma discussão, ainda que seja por um motivo aparentemente fútil, como na emblemática cena da foto de família que escancara os problemas entre mãe e filho ou na pesada discussão também entre eles na véspera do Natal. Estes duelos verbais são o ponto alto de “Gente como a Gente”. Mas existem outros diálogos marcantes, como aquele em que um amigo diz para Calvin que “cedo ou tarde eles se vão”, relembrando a dura realidade que qualquer pai tem dificuldade para encarar.

A perda de um filho é certamente um trauma quase impossível de superar. Assim, quando Calvin, mergulhado nas leves sombras do alvorecer, decide expor para Beth sua insatisfação diante da postura fria dela com seu filho, sabemos que aquela atitude pode jogar a última pá de cal naquela relação já deteriorada. No entanto, a saída dela de casa nos leva a sensível conversa entre pai e filho que, mesmo num tom agridoce, encerra bem este drama humano e belo.

Comandando uma história pesada que poderia facilmente cair no melodrama barato, Robert Redford demonstrou maturidade e competência suficientes para extrair grandes atuações de seu elenco e fazer deste “Gente como a Gente” um filme bastante respeitável.

Gente como a Gente foto 2Texto publicado em 22 de Fevereiro de 2013 por Roberto Siqueira

Parabéns!

Feliz aniversário meu amor!

Você é a alegria das nossas vidas. Nós te amamos!

Beijos do papai e da mamãe.

3 anos ArthurTexto publicado em 22 de Fevereiro de 2013 por Roberto Siqueira

O FRANCO-ATIRADOR (1978)

(The Deer Hunter)

2 Estrelas 

Filmes em Geral #102

Vencedores do Oscar #1978

Dirigido por Michael Cimino.

Elenco: Robert De Niro, Christopher Walken, Meryl Streep, John Cazale, John Savage, Chuck Aspegren, Pierre Segui, George Dzundza, Shirley Stoler e Rutanya Alda.

Roteiro: Deric Washburn, baseado em argumento dele próprio ao lado de Michael Cimino, Louis Garfinkle e Quinn K. Redeker.

Produção: Michael Cimino, Michael Deeley, John Peverall e Barry Spikings.

O Franco-Atirador[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Criar expectativas é algo sempre negativo quando falamos de cinema. Quanto maior a expectativa criada, maiores são as chances de nos decepcionarmos com um filme, ainda que este apresente um resultado agradável. Mas como não se empolgar quando os créditos iniciais anunciam nomes como os de Robert De Niro, Meryl Streep e John Cazale, além do menos badalado, mas também competente Christopher Walken? No entanto, ainda que seja tecnicamente bem realizado e tente apostar numa interessante abordagem intimista, “O Franco-Atirador” se perde completamente em seus aspectos políticos e éticos, chegando a soar ofensivo e racista pela maneira desprezível que o diretor Michael Cimino retrata os rivais norte-americanos na guerra do Vietnã.

Escrito por Deric Washburn a partir de argumento dele próprio ao lado de Michael Cimino, Louis Garfinkle e Quinn K. Redeker, “O Franco-Atirador” narra a trajetória dos amigos Michael (De Niro), Nick (Walken) e Steven (John Savage), que são convocados para a Guerra do Vietnã e se veem obrigados a deixarem a família e os amigos para trás. Após viverem experiências traumáticas no conflito, dois deles conseguem regressar ao país, mas a vida de todos os envolvidos nunca mais será a mesma após eles terem experimentado os horrores da guerra.

Partindo da interessante premissa de nos apresentar as graves consequências psicológicas provocadas pela guerra naquele grupo de trabalhadores de uma pequena cidade no interior dos EUA, “O Franco-Atirador” se apoia ainda em seu excepcional elenco, repleto de nomes capazes de carregar qualquer narrativa com facilidade. Portanto, é uma pena que Cimino utilize um elenco de primeira qualidade num filme tão maniqueísta, que beira o jingoísmo pela forma como retrata os vietnamitas (voltarei ao tema em instantes).

Ainda assim, o longa apresenta um resultado agradável quando observamos somente os aspectos técnicos da produção. Observe, por exemplo, como a fotografia de Vilmos Zsigmond realça o clima melancólico daquela cidade industrial, apostando em cores frias que casam bem com a sujeira das ruas e os galhos secos das árvores, assim como fazem os figurinos sem vida de Eric Seelig e os ambientes poucos iluminados concebidos pelo design de produção de Ron Hobbs e Kim Swados. Da mesma forma, os tristes acordes da canção tema reforçam esta atmosfera, assim como as boas músicas escolhidas para a trilha sonora de Stanley Myers, com exceção apenas da trilha erudita que confere um tom épico à caçada dos cervos nas montanhas.

Montanhas que são captadas com elegância pelos belos enquadramentos de Cimino, que ainda apresenta um bom repertório de planos e movimentos de câmera interessantes. Por isso, mais uma vez é lamentável que o diretor utilize este talento para enviar mensagens nada sutis, como quando faz questão de focar por um longo tempo a bandeira dos Estados Unidos e a faixa com os dizeres “Servimos a Deus e a pátria com orgulho”. Além disso, em certo momento um homem pergunta para Michael se “nós ganhamos a guerra” e fica sem resposta, escancarando a grande fantasia norte-americana de ter vencido no Vietnã, que ficaria ainda mais evidente nas produções vindouras do país durante a “era Reagan”.

Apostando numa abordagem mais intimista na primeira metade do filme, Cimino investe um longo tempo no desenvolvimento das relações entre os personagens, mostrando o grupo bebendo no bar e se divertindo, o que ajuda a criar empatia com a plateia. No entanto, o pretensioso diretor se empolga e estende demais a sequência do casamento e da festa, que claramente poderia ser enxugada pelo montador Peter Zinner para melhorar o ritmo da narrativa. Ainda assim, esta longa sequência serve para nos aproximar daquelas pessoas, especialmente de Michael e Nick, que evidenciam suas fortes personalidades durante a caçada que precede o embarque para o Vietnã. Assim, quando este momento se aproxima, já nos sentimos mais íntimos daqueles jovens, o que confere um tom ainda mais melancólico à cena da despedida no bar, com as expressões tristes dos personagens, a música tocada no piano e o próprio travelling lento de Cimino que é abruptamente cortado pelas explosões das bombas já no Vietnã.

Clima melancólicoServimos a Deus e a pátria com orgulhoPovo do VietnãDemonstrando um maniqueísmo nojento desde o primeiro minuto no Vietnã em que um soldado local surge explodindo mulheres e crianças, Cimino não se envergonha de retratar a guerra como um conflito claramente dividido entre os norte-americanos bonzinhos que vieram pregar a paz e os cruéis vietnamitas que se aglomeram e pagam para ver pessoas explodindo as próprias cabeças, esquecendo-se das motivações políticas desprezíveis que levaram os EUA a intervir naquela guerra. Aliás, o povo do Vietnã é retratado como um bando de idiotas, numa coleção de seres da pior estirpe, como assassinos, jogadores sedentos por sangue e prostitutas que vendem o corpo diante dos próprios filhos. Além disso, as manifestações em massa sempre buscam deteriorar a imagem daquelas pessoas, como no primeiro plano da volta de Michael ao Vietnã que mostra o povo tentando desesperadamente invadir a embaixada norte-americana.

Ciente de que suas cenas de combate não impressionam, Cimino rapidamente salta do momento da chegada ao Vietnã para a sequência em que Michael, Nick e Steven estão presos. Assim, se num instante acompanhamos o grupo sofrendo um bombardeio, na cena seguinte eles já surgem enjaulados, em outro corte abrupto que desta vez depõe contra o trabalho dele e de seu montador. Ao menos, aqui Cimino consegue criar momentos de alta tensão, extraindo ainda excelentes atuações de seu elenco. Observe, por exemplo, como John Savage demonstra com precisão o desespero e a angústia de Steven enquanto aguarda para ser chamado pelos cruéis vietnamitas, ao passo em que De Niro transmite tranquilidade ao parceiro e ao espectador com seu tom de voz baixo e controlado. Durante o jogo da roleta russa, De Niro novamente se destaca, demonstrando muito bem sua ira e, ao mesmo tempo, sua compaixão pelo sofrimento do amigo.

Aliás, Christopher Walken também apresenta um desempenho excepcional nesta sequência eletrizante, com seu riso tenso e o olhar assustado demonstrando que Nick não sabe o que esperar diante daquela angustiante situação, segundos antes de Michael atirar nos vietnamitas e conseguir escapar. E se repito por diversas vezes a expressão “vietnamitas”, é porque Cimino faz questão de sequer dar nome aos habitantes locais, na mais perfeita confirmação de sua visão ufanista do conflito. Deste ponto em diante, o solitário Nick começa a se desapegar do passado e a perder o sentido na vida, perambulando pelo Vietnã até se reencontrar nos perigosos jogos de roleta russa promovidos por um grupo clandestino local. Após as torturas sofridas na guerra, viver ou morrer era indiferente, apenas uma questão de sorte que ele estava disposto a encarar.

Entre os que ficaram nos Estados Unidos, John Cazale encarna Stoch como alguém que parece sempre irritado e desconfiado, ao ponto de andar com uma arma na cintura e transmitir a constante sensação de que está sempre pronto para uma briga, ao passo em que George Dzundza pouco pode fazer com o tempo que tem com seu John. E finalmente, a grande Meryl Streep já demonstrava seu talento neste que é apenas o seu segundo papel na carreira. Mesmo com uma participação relativamente pequena, ela consegue conferir humanidade a Linda, equilibrando-se entre a felicidade ao ver Michael de volta e a tristeza por não reencontrar Nick.

Angústia de StevenNick não sabe o que esperarHumanidade a LindaSentindo-se deslocado nesta volta ao país, Michael sequer consegue caçar e chega ao ponto de fazer a tal roleta russa com Stoch, num momento de pura insanidade que poderia tirar a vida do amigo. Demonstrando este incômodo com precisão, De Niro mais uma vez comprova sua enorme qualidade como ator, compondo outro personagem impactante através de suas expressões viscerais durante as torturas na guerra que se contrapõem diretamente aos olhares contidos em sua volta; que, por sua vez, refletem as graves consequências de tudo que ele sofreu.

Infelizmente, esta sequência da volta de Michael também é mais extensa do que deveria e quebra novamente o ritmo da narrativa, que só retoma o fôlego quando ele decide voltar ao Vietnã para resgatar o amigo perdido, nos levando a outra cena eletrizante envolvendo os jogos de roleta russa que culmina na impressionante morte de Nick – e aqui vale reparar como a fotografia se torna mais sombria, apostando na falta da luz para criar uma atmosfera sufocante. Após ver Steven ficar paralítico, Michael estava agora diante de um novo trauma, testemunhando a morte do amigo de maneira tão idiota.

Só que, aparentemente, nem mesmo os trágicos resultados da guerra fazem com que aquele grupo de pessoas questione as motivações de seu país, o que nos leva à deprimente cena que encerra “O Franco-Atirador”, com todos cantando “Deus abençoe a América” e confirmando a visão míope de Cimino. Assim, a longa extensão e o maniqueísmo exacerbado da narrativa acabam ofuscando a boa intenção de mostrar os trágicos resultados psicológicos e físicos da guerra.

O Franco-Atirador foto 2Texto publicado em 21 de Fevereiro de 2013 por Roberto Siqueira

A UM PASSO DA ETERNIDADE (1953)

(From Here to Eternity)

4 Estrelas 

Filmes em Geral #101

Vencedores do Oscar #1953

Dirigido por Fred Zinnemann.

Elenco: Burt Lancaster, Montgomery Clift, Jack Warden, Deborah Kerr, Donna Reed, Frank Sinatra, Philip Ober, Mickey Shaughnessy, Ernest Borgnine e George Reeves.

Roteiro: Daniel Taradash, baseado em peça de James Jones.

Produção: Buddy Adler.

A um passo da eternidade[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O cotidiano de uma base militar do exército norte-americano é retratado com sensibilidade neste belo “A um passo da eternidade”, um dos grandes vencedores da história do Oscar que, infelizmente, parece um pouco esquecido atualmente. Contando com atuações inspiradas de praticamente todo seu talentoso elenco, o diretor Fred Zinnemann utilizou o tenso período que antecedeu a entrada definitiva dos EUA na segunda guerra mundial para criar um profundo estudo sobre as relações humanas.

Baseado em peça de James Jones, o roteiro de Daniel Taradash se passa praticamente o tempo inteiro numa ilha do Havaí, onde o novato recruta Prewitt (Montgomery Clift) é submetido a um tratamento de choque por parte de seus superiores somente porque não aceita lutar boxe pela companhia do exército. Com o passar do tempo e a ajuda do soldado Angelo Maggio (Frank Sinatra) e da prostituta Lorene (Donna Reed), ele acaba conquistando o respeito do Sargento Warden (Burt Lancaster), que, por sua vez, se apaixona pela bela Karen Holmes (Deborah Kerr), a esposa de seu superior imediato, o rígido Capitão Holmes (Philip Ober).

Como podemos perceber somente pela premissa da narrativa, “A um passo da eternidade” nos apresenta uma vasta gama de personagens, algo que, nas mãos de um diretor menos habilidoso, poderia tornar o longa confuso. No entanto, a maneira como Zinnemann desenvolve aqueles relacionamentos faz com que o espectador compreenda a narrativa com clareza, ainda que fique intrigado diante das insinuações sobre o passado de alguns deles. Obviamente, é preciso dar crédito também ao roteiro de Taradash, que através de diálogos muito bem construídos confere uma ambiguidade interessante aquele grupo de pessoas, que se tornam ainda mais complexas graças às boas atuações de todo o elenco. Ali, ninguém é exatamente o que parece ser.

Seguindo na linha da direção discreta de Zinnemann, a fotografia de Burnett Guffey abusa das luzes e mesmo nas cenas noturnas não chega a ser obscura, evitando chamar a atenção para si e permitindo que o espectador se concentre exclusivamente no desenvolvimento daquelas relações. Da mesma forma, a econômica trilha sonora de George Duning surge apenas em momentos pontuais, mas sempre de maneira eficiente, como no primeiro encontro entre Warden e Karen e especialmente na icônica cena do beijo deles na praia.

Assim, a narrativa acertadamente se concentra muito mais no relacionamento entre os personagens do que no desenvolvimento da história em si. Num primeiro momento, esta escolha pode dar a sensação de que nada de fato está acontecendo, mas lentamente percebemos as diversas camadas daqueles personagens complexos e a narrativa engrena. Aliás, o longa tem um ritmo bem interessante que jamais se torna aborrecido, também pela forma como o montador William A. Lyon equilibra as diversas linhas narrativas (o caso de Warden e Karen, a relação de Prewitt e Lorene, as ações dentro e fora do exército, etc.).

Em “A um passo da eternidade” tudo é muito sutil, o que pode levar espectadores mais precipitados a criarem uma visão unidimensional daqueles personagens. Só que ninguém ali é exatamente bom ou ruim, com exceção do Capitão Holmes de Philip Ober que, ainda assim, tem seu momento de humanidade quando afirma dolorosamente que só traiu a esposa uma vez. Até mesmo o sexo é sugerido de maneira sutil, como quando Lorene sai para atender um cliente e deixa Prewitt esperando, voltando momentos depois.

Prewitt que é interpretado com competência e carisma por Montgomery Clift, que antes mesmo de dizer qualquer palavra já indica aos seus novos líderes que não deseja mais lutar somente através de um leve movimento no olhar. Determinado, o jovem provoca a ira do Capitão, um apaixonado por boxe que planeja vencer um campeonato e aposta no talento de Prewitt para conquistar seu objetivo. Só que nem mesmo as irritantes punições impostas ao garoto conseguem dobrá-lo; e é impressionante a maneira como Clift demonstra firmeza e, ao mesmo tempo, transmite a sensação de que o personagem está sempre próximo de seu limite, o que é essencial para que o espectador compreenda o único momento em que ele não resiste e parte para a briga com o Sargento Galovitch (John Dennis), ainda que seja numa luta a céu aberto e não no ringue como o Capitão queria. Finalmente, Clift se sai muito bem no tocante momento em que Prewitt revela porque parou de lutar, demonstrando a dor que ainda sente pela fatalidade ocorrida no passado.

Passado que também atormenta o relacionamento entre o Capitão Holmes e sua esposa Karen, como notamos numa discussão que, se não explica muito, já diz o suficiente para indicar o desgaste da relação provocado por uma traição. Deborah Kerr encarna a personagem com um ar misterioso que funciona muito bem, revelando lentamente a razão da infelicidade dela. Primeiro compreendemos que ela foi traída, depois observamos sua solidão e a forma grosseira que é tratada pelo marido e, finalmente, descobrimos seu desejo de ter filhos, que terá reflexo no tocante momento em que ela revela para Warden como perdeu seu bebê. Vulnerável, Karen passou a se envolver com diversos homens em busca da felicidade perdida em algum lugar do passado, o que motiva os comentários nada elegantes feitos pelos colegas de exército de Warden.

Impondo respeito com seu porte físico e grande carisma, Burt Lancaster encarna Warden com a mesma ambiguidade dos outros personagens, intercalando momentos em que parece agressivo e outros em que demonstra grande sensibilidade. Sua trajetória talvez seja a mais interessante dentre todos, especialmente pela forma como se aproxima de Prewitt e, especialmente, pela maneira como se entrega a paixão que sente por Karen, ainda que demonstre grande incômodo diante das insinuações a respeito do passado dela.

Prewitt revela porque parou de lutarKaren revela como perdeu seu bebêSe entrega a paixãoAliás, é interessante notar como os homens se preocupam com o passado das mulheres em “A um passo da eternidade”, já que Prewitt também demonstra uma mórbida curiosidade pelo passado de Lorene e, assim com Warden, se incomoda com isto. Linda e charmosa, a Lorene de Donna Reed é outra mulher misteriosa e ambígua, que num instante parece apaixonada por Prewitt e no outro fala de seus planos para o futuro de maneira assustadoramente ambiciosa (“Não quero casar com um soldado”), demonstrando grande preocupação com sua dignidade e segurança (o que, convenhamos, também é compreensível). Isto não significa que ela não goste de Prewitt de verdade e não se importe com ele; e seu desespero ao vê-lo retornar para o exército durante o ataque dos japoneses comove justamente por acreditarmos na personagem.

Fechando o elenco, Frank Sinatra tem uma boa atuação como o esquentado Angelo Maggio, que se torna o porto seguro de Prewitt naquele mar de hostilidade, saindo-se bem em momentos especiais como quando surge alcoolizado na boate ou quando foge da prisão para morrer nos braços do amigo. Maggio é também o responsável por iniciar uma das grandes cenas do filme, quando, logo após ver o amigo Prewitt dar um pequeno show no bar, não resiste à provocação do grandalhão Sargento Fatso (Ernest Borgnine) e inicia uma briga que só terminará com a imponente intervenção do Sargento Warden, num momento que é vital para selar a amizade entre este último e Prewitt e que também influenciará o trágico destino do próprio Maggio.

Ainda que a grande força da narrativa esteja nos relacionamentos, Zinnemann consegue construir bem os poucos momentos de tensão, como nesta briga em que Warden se impõe e conquista o respeito de Prewitt. Além disso, o diretor encontra espaço para raras ousadias, como quando mostra apenas as caixas que encobrem o momento crucial da briga entre Prewitt e o Sargento Fatso, deixando o espectador ainda mais tenso quando o segundo levanta antes do protagonista, somente para cair ensanguentado logo depois enquanto Prewitt surge no segundo plano. Vale mencionar ainda o impressionante plano aéreo durante o surpreendente ataque dos japoneses à base militar, numa sequência que hoje pode até soar visualmente datada, mas que ainda mantém o senso de urgência planejado pelo diretor.

Desespero ao vê-lo retornar para o exércitoImponente intervenção do Sargento WardenMomento crucial da brigaOutro momento memorável ocorre quando Warden e Prewitt se encontram numa noitada e conversam bêbados sobre seus problemas no meio de uma estrada, num grande momento da atuação de Lancaster e Clift que antecede a triste morte de Angelo. Mas talvez o momento mais sublime do longa seja mesmo o melancólico diálogo em que Warden diz para Karen que “nunca foi tão infeliz quanto é agora com ela” e que “não trocaria isto por nada”, somente para ouvir a mesma resposta duas vezes: “Eu também”. Este pequeno e precioso diálogo define muito bem os personagens de “A um passo da eternidade”.

Encerrado num tom melancólico que nos apresenta os personagens sobreviventes ao ataque a Pearl Harbor seguindo caminhos distintos, “A um passo da eternidade” deixa uma desconfortável sensação de que a felicidade plena jamais poderia ser alcançada por aquelas pessoas. Por mais que elas tentassem superar os obstáculos, novos sempre surgiriam para atrapalharem seus planos. E é justamente este gosto agridoce e tão próximo da realidade que torna o filme dirigido por Fred Zinnemann tão humano e tão belo.

A um passo da eternidade foto 2Texto publicado em 20 de Fevereiro de 2013 por Roberto Siqueira

A MALVADA (1950)

(All About Eve)

5 Estrelas 

Obra-Prima 

Filmes em Geral #100

Vencedores do Oscar #1950

Dirigido por Joseph L. Mankiewicz.

Elenco: Bette Davis, Anne Baxter, George Sanders, Celeste Holm, Gary Merrill, Hugh Marlowe, Gregory Ratoff, Barbara Bates, Marilyn Monroe e Thelma Ritter.

Roteiro: Joseph L. Mankiewicz, baseado em argumento de Mary Orr.

Produção: Darryl F. Zanuck.

A Malvada[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Assim como sua personagem, Bette Davis já era uma estrela em decadência quando aceitou participar da obra-prima “A Malvada”, longa de Joseph L. Mankiewicz que utiliza o mundo do teatro para retratar com precisão os bastidores do show business de maneira geral. Contando com um elenco formidável, uma atuação antológica de Davis e apoiando-se ainda em seu ótimo roteiro, o diretor entregou um filme memorável, que merece lugar de destaque entre as grandes obras já produzidas pela sétima arte.

Escrito pelo próprio Mankiewicz baseado em conto de Mary Orr, “A Malvada” narra à trajetória de ascensão meteórica de Eve Harrington (Anne Baxter), uma fã da grande estrela do teatro Margo Channing (Bette Davis) que alcançou o estrelato e venceu o respeitado prêmio Sarah Siddons após se envolver com a própria Margo, o marido dela e diretor Bill Sampson (Gary Merrill), sua grande amiga Karen Richards (Celeste Holm), o esposo dela e roteirista Lloyd Richards (Hugh Marlowe) e, finalmente, o crítico Addison DeWitt (George Sanders).

Empregando uma direção clássica e sem firulas que busca valorizar seu talentoso elenco, Mankiewicz demonstra desde o princípio que sabe muito bem onde reside a maior força de “A Malvada”. Não que o longa não tenha aspectos técnicos interessantes, como a fotografia de Milton Krasner que, após iniciar com um visual mais claro e limpo, lentamente vai se tornando mais obscura, simbolizando o lado negro de Eve que aflora com o passar do tempo. Além disso, os charmosos ternos e vestidos que desfilam pela festa na casa de Margo, as roupas e objetos espalhados pelo teatro, a decoração do camarim e a própria roupa simples que Eve veste quando surge pela primeira vez realçam o bom trabalho da figurinista Edith Head e da direção de arte de George W. Davis e Lyle Wheeler.

No entanto, é mesmo no talento de seu elenco e no impecável roteiro que “A Malvada” se ampara. Adotando uma curiosa narração que inicia na voz do crítico DeWitt, passa por Karen no início de um flashback, passa por Margo e volta para DeWitt, o roteiro chama a atenção não apenas pelos diálogos extremamente bem construídos, mas também por sua estrutura narrativa perfeita. De cara, enquanto o apresentador da cerimônia de premiação tece elogios para a jovem Eve, as expressões no rosto de quem conviveu com ela indicam a desaprovação de todos, que se confirma quando Karen e Margo não aplaudem a vencedora do prêmio. Desde então, a estrutura narrativa criada por Mankiewicz deixa claro que o importante não é saber que Eve chegou ao estrelato, mas sim mostrar “como” ela chegou lá. Neste caso, os meios interessam mais do que o fim.

Também é importante compreender que “A Malvada” se passa numa época em que os produtores eram poderosos e os atores eram as grandes estrelas do teatro, como notamos quando DeWitt diz que os “prêmios menores” eram dados para diretores e roteiristas, algo que também ocorria no cinema – somente na Nova Hollywood é que os diretores de cinema se tornariam poderosos nos EUA. Por isso, o longa tem até mesmo um caráter metalinguístico, já que a personagem interpretada pela excepcional Bette Davis era, de certa forma, um retrato da própria estrela decadente do cinema.

Assumindo o papel de Margo Channing com paixão e talento, Davis interpreta a grande estrela do teatro da época que acolhe inocentemente a jovem Eve somente para vê-la tomar seu lugar num curto espaço de tempo. Surgindo confiante e imponente, Margo lentamente vai sendo minada pela situação, ainda que durante o processo ela lute contra tudo e contra todos para permanecer em alta. Ilustrando este processo de degradação com precisão, Davis oferece uma atuação soberba, recheada de momentos antológicos como o tocante monólogo num carro em que ela fala sobre a “carreira de mulher”. Inicialmente tratando Eve como uma simples fã, ela começa a perceber que a garota não é tão ingênua quando a surpreende se imaginando no palco com um vestido dela. Com a convivência, Margo começa a desconfiar de Eve e as expressões de Davis indicam claramente sua mudança de pensamento em relação à garota, reforçada pelas insinuações de sua assistente Birdie. Desconfiada e dona de um humor negro impagável, a ótima Thelma Ritter faz de Birdie o alívio cômico que serve ainda como alerta para o espectador sobre as reais intenções de Eve.

Confiante e imponente MargoCarreira de mulherEve conta sua história de vidaA atuação de Anne Baxter como Eve é igualmente fabulosa. No início, sua fala contida e em tom baixo e o olhar que evita o contato direto com as pessoas criam um contraponto interessante ao olhar superior e confiante da estrela Margo. Só que, embalada pela trilha sonora melancólica de Alfred Newman, Eve conta sua história de vida e, com seu carisma, rapidamente ganha à atenção de todos. Com jeitinho e muito cuidado, ela vai pavimentando seu caminho para o sucesso, ainda que para isto tenha que passar por cima dos outros. Astuta, Eve raramente deixa transparecer suas reais intenções e seu desejo de tornar-se uma estrela, como acontece durante a festa na casa de Margo, quando se empolga sem perceber ao falar sobre os aplausos da plateia. Quando finalmente substitui Margo numa peça, Eve assume sua verdadeira personalidade e Baxter já surge confiante, com o olhar penetrante e a voz firme, sentindo-se capaz até mesmo de seduzir Bill. Não bastava substituir a estrela, ela queria ter tudo que Margo tinha. Esta transformação chega ao auge na excelente cena em que Eve ameaça Karen no banheiro e exige o papel de Cora, surgindo totalmente confiante e persuasiva, com um olhar insinuante que mostra como ela é capaz de fazer qualquer coisa para chegar aonde quer.

Após roubar o estrelato de Margo e tentar roubar até mesmo seu marido, Eve parte para conquistar Lloyd, pensando exclusivamente nos benefícios que esta união traria para sua carreira. E, obviamente, esta jornada trouxe consequências muito graves para todos os envolvidos, gerando discussões calorosas que começam na citada festa na casa de Margo, onde Bette Davis dispara a célebre frase: “Apertem os cintos, esta será uma noite turbulenta”. Comprovando seu controle da misè-en-scene, Mankiewicz extrai ótimas atuações de todo o elenco nestes momentos, como na feroz discussão após um teste em que Eve substitui Margo, onde a guerra de egos entre diretor, roteirista e atriz dá espaço para acusações pesadas enquanto Eve, que provocou tudo aquilo, sai de fininho – observe como após a discussão, Mankiewicz diminui Margo na tela, num plano que indica o início de sua decadência.

Ainda entre os destaques do elenco, Gary Merrill se sai muito bem nas realistas discussões entre Margo e o marido Bill, enquanto Celeste Holm confere humanidade a Karen ao demonstrar seu arrependimento por trair a amiga e, especialmente, quando ri aliviada no jantar após Margo anunciar que não quer mais o papel de Cora. Já Hugh Marlowe ilustra bem como Lloyd é lentamente hipnotizado por Eve, enquanto a linda Marilyn Monroe tem uma rápida participação como uma aspirante ao estrelato que é massacrada por Eve num teste. E finalmente, George Sanders quase rouba a cena como o crítico DeWitt, demonstrando na expressão de seu rosto que desconfia da história contada por Eve desde o princípio e protagonizando a memorável cena em que desmascara a garota e mostra que nem todos caíram na lábia dela.

Confiante, olhar penetrante e voz firmeRi aliviada no jantarCrítico DeWittAliás, é incrível como o tema de “A Malvada” continua atual. Não são raras as ocasiões em que jovens passam por cima de todos para alcançarem o sucesso, não apenas no meio artístico, mas em quase todas as profissões. É possível até mesmo traçar um paralelo entre a trajetória de Eve e a postura de “carreiristas” no meio corporativo. Quem já trabalhou em grandes corporações sabe como este tipo de comportamento é comum e, o que é pior, normalmente é recompensado. Pessoas que fingem serem totalmente altruístas, mas que estão à espreita da primeira oportunidade para chegarem ao topo, independente dos meios que utilizem para isto.

Repleto de diálogos memoráveis e atuações exuberantes, “A Malvada” é destes filmes que não envelhecem. E se o talento de todos os envolvidos é responsável direto por isso, seu tema principal também colabora bastante, já que a ambição pelo sucesso é algo que o ser humano naturalmente carrega, ainda que nem todos precisem de ferramentas tão sujas quanto às utilizadas por Eve Harrington para serem bem sucedidos. Ainda que tenha pisado em todos ao seu redor, Eve de fato chegou ao topo, mas neste mundo tudo é passageiro e a ótima sequência final ilustra que sempre existirão novas “Eves”.

A Malvada foto 2Texto publicado em 19 de Fevereiro de 2013 por Roberto Siqueira

FARRAPO HUMANO (1945)

(The Lost Weekend)

5 Estrelas 

Filmes em Geral #99

Vencedores do Oscar #1945

Dirigido por Billy Wilder.

Elenco: Ray Milland, Jane Wyman, Phillip Terry, Howard Da Silva, Frank Faylen, Doris Dowling e Mary Young.

Roteiro: Billy Wilder e Charles Brackett, baseado em novela de Charles R. Jackson.

Produção: Charles Brackett.

Farrapo Humano[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Billy Wilder já era um cineasta reconhecido e respeitado em Hollywood quando finalmente venceu seu primeiro Oscar de direção por este “Farrapo Humano”, um estudo sufocante sobre o alcoolismo que, além de contar com o enorme talento do diretor, traz ainda uma atuação simplesmente estupenda de Ray Milland na pele do protagonista viciado. Incrivelmente atual, o longa está longe de ser um mero libelo antialcoolismo, trazendo um complexo estudo de seu personagem e, mesmo numa época em que os estúdios costumavam interferir muito nas produções, entregando um resultado admiravelmente corajoso.

O longa inicia quando Don Birnam (Ray Milland) se prepara para viajar com o irmão Wick (Phillip Terry) e a namorada Helen (Jane Wyman) para o campo, onde ficaria distante das bebidas e poderia tentar se livrar do alcoolismo. Só que, após convencê-los a alterar o horário da viagem para assistir uma peça, Birnam sai para beber e desencadeia uma série de acontecimentos que só o afundam cada vez mais no vício, deixando-o mais distante de realizar seu sonho de se tornar um escritor.

Como é característico em sua filmografia, o roteiro escrito pelo próprio Wilder ao lado de Charles Brackett é recheado de diálogos ágeis, que se tornam ainda mais velozes pela maneira como são pronunciados pelos atores, numa estratégia que inteligentemente confere ritmo a narrativa. Ainda assim, existe espaço para que a marcante trilha sonora de Miklos Rozsa pontue os momentos mais dramáticos, aumentando o volume dos acordes e ajudando a criar a atmosfera pretendida pelo diretor. Exibindo movimentos de câmera mais estilizados que de costume, Wilder cria sequências muito interessantes, como no zoom que nos aproxima do rosto de Birnam antes do primeiro flashback, que, por sua vez, serve para aliviar um pouco uma narrativa até então sufocante, numa escolha acertada do diretor e seu montador Doane Harrison, que também se destaca pela maneira elegante que realiza as transições do dia para a noite e da noite para o dia, ilustrando como Birnam perde a noção do tempo quando começa a beber.

Ainda na direção, Wilder abre “Farrapo Humano” com um travelling que nos leva até a janela do protagonista, revelando uma garrafa pendurada do lado de fora e, ao mesmo tempo, ilustrando nossa condição de meros observadores daquela trajetória de autodestruição – e repare como um simples plano rápido de um cigarro na janela já permite que o espectador antecipe que Wick descobrirá a garrafa pendurada. E o mais curioso é que desde o início fica evidente a condição peculiar de Birnam, que até tenta deixar o alcoolismo de lado quando conhece Helen, mas nunca chega a realmente desejar parar. As pessoas que o cercam querem que ele pare, o espectador quer que ele pare, mas ele mesmo não quer. Também por isso, vale destacar o plano em que Birnam liga para Helen de dentro de uma cabine no hotel segundos antes de voltar a se afundar no vício, num simbolismo perfeito da verdadeira prisão que o alcoolismo representa para ele.

Garrafa pendurada do lado de foraVerdadeira prisãoRosto suadoProfundo conhecedor da linguagem cinematográfica, Wilder utiliza a câmera para fazer com que o espectador praticamente sinta o desespero de Birnam para beber, empregando closes em seu rosto suado e realçando as expressões marcantes de Milland. Assim, “Farrapo Humano” obtém sucesso absoluto na tarefa de demonstrar com clareza como funciona o alcoolismo. Em certo momento, Birnam diz para o barman Nat (Howard Da Silva) que durante a noite a bebida é um aperitivo, mas de manhã ela funciona como remédio (“Qualquer marca serve, é tudo igual”, diz). Por isso, ele se desespera quando não encontra uma bebida sequer em seu apartamento, demonstrando grande alívio quando acha uma garrafa perdida, após um interessante plano que revela o paradeiro dela. Aliás, observe como na maioria das vezes em que Birnam entra no apartamento portando garrafas, a fotografia de John F. Seitz se torna mais sombria, simbolizando mais um passo do personagem em direção ao fundo do poço.

O visual se torna ainda mais obscuro e sufocante a partir do momento em que ele é internado num hospital, abrindo espaço para os impressionantes delírios de um paciente. Estes delírios também atormentam o próprio protagonista em dois momentos que, mesmo soando um pouco datados visualmente, ainda mantém a capacidade de nos atormentar, especialmente no segundo caso, quando ele imagina o ataque de um morcego em seu apartamento.

Demonstrando que o alcoolismo comanda sua vida desde os primeiros instantes, Birnam mal consegue organizar seus pensamentos, encontrando a felicidade somente quando segura um copo ou uma garrafa – e até mesmo seu apartamento bagunçado e suas roupas amassadas ilustram este descaso com a vida, realçando o bom trabalho de direção de arte de Hans Dreier e Earl Hedrick e da ótima figurinista Edith Head. Assumindo este difícil papel com personalidade e talento, Ray Milland surge agressivo, gritando em diversos momentos e reagindo de maneira visceral a qualquer manifestação que o contrarie. No entanto, o grande mérito do ator é evitar que o personagem se torne uma caricatura e se afaste completamente da plateia, algo que seria muito fácil se nos baseássemos somente em suas atitudes. Afinal, ele rouba dinheiro do irmão, não se importa com o sofrimento da namorada e muito menos com os sentimentos de uma pretendente. Além disso, perambula pela cidade com sua máquina de escrever, na esperança de conseguir uns trocados para poder comprar mais bebidas.

Ataque do morcegoApartamento bagunçadoPerambula pela cidadeEntretanto, ainda que muito sutilmente, podemos perceber que algo de bom existe dentro daquele homem amargurado, seja quando passeia pela cidade e cumprimenta as pessoas (“Este é o moço gentil que bebe”, diz uma mulher), seja quando assume sua condição sufocante, como no sensacional monólogo no bar em que afirma se sentir como Shakespeare quando bebe, num dos inúmeros grandes momentos da atuação de Milland. Em outro instante, chega a ser comovente a maneira como ele admite seu vício diante de Helen e revela seu desejo frustrado de ser escritor; e são justamente estes momentos, além é claro do carisma de Milland, que permitem que o personagem crie empatia com a plateia, o que é essencial para não nos distanciar da narrativa. Mesmo com todos seus problemas, nós torcemos pelo sucesso do deplorável Birnam.

Quem também se preocupa muito com ele é batalhadora e apaixonada Helen, interpretada com carisma por Jane Wyman e que se torna responsável pelos raros momentos em que ele considera a possibilidade de parar, além é claro de seu irmão Wick, vivido por Phillip Terry e que, após muito tempo lutando, acaba se irritando com a situação e decide deixá-lo para trás, talvez por entender que jamais Birnam conseguiria se livrar do alcoolismo.

E esta é basicamente a mensagem de “Farrapo Humano”, evidenciada ao longo de toda a narrativa através da metáfora dos círculos, “a forma geométrica perfeita, sem começo e sem fim”. Wilder faz questão de utilizar constantemente este simbolismo, seja através do close nos círculos formados pelo copo no balcão do bar ou pela própria estrutura da narrativa, que inicia e termina com o mesmo movimento de câmera, ilustrando que, apesar do tom levemente otimista do final (talvez alguma imposição do estúdio na época), o diretor quer ressaltar que o alcoolismo é uma doença praticamente sem cura, como o próprio personagem afirma em diversos momentos. Ou seja, independente do que aconteça, basta um simples gole para que o alcoólatra volte ao seu círculo de autodestruição.

O longa tem ainda sua porção de cenas capazes de nos deixar apreensivos, como quando Birnam rouba a bolsa de uma mulher e é expulso de um bar ou toda a sequência final em que ele se prepara para o suicídio, na qual o espectador realmente teme pelo futuro do personagem. Só que o grande mérito de “Farrapo Humano” reside mesmo no fato de abordar o alcoolismo com tamanha seriedade numa época em que isto representava uma ousadia temática notável. Mais do que isto, o longa de Wilder consegue humanizar aquele personagem que poderia ser detestável, servindo como um belo estudo não apenas daquele homem, mas do próprio alcoolismo, uma doença complexa e mal compreendida por muitos até hoje.

Farrapo Humano foto 2Texto publicado em 18 de Fevereiro de 2013 por Roberto Siqueira

Semana Vencedores do Oscar

Mais uma vez, o Oscar se aproxima e começa a agitar os cinéfilos, fomentando apostas em quem deverá sair vencedor na grande noite da Academia de Hollywood. Ainda que seja apenas uma festa e não um atestado de qualidade garantida, costuma ser divertido acompanhar o evento e principalmente debater as escolhas feitas pelos membros da Academia. É sempre assim, no início do ano o Oscar é a bola da vez nos blogs e sites de cinema.

Em 2012, aproveitei os dias que antecederam a cerimônia para divulgar críticas dos dez filmes que concorreram ao prêmio principal da noite no ano anterior. A experiência foi bem sucedida e serviu para duplicar os acessos diários ao blog, o que me levou a pensar em repetir o feito neste ano.

No entanto, pensei melhor e decidi priorizar os projetos que já estão em andamento, dando foco na sequência da Videoteca e em dois especiais que estou começando a preparar, que demandam grande esforço e estudo. Sendo assim, a saída que encontrei foi homenagear o Oscar de uma maneira diferente, criando uma semana especial com cinco vencedores distintos do prêmio de melhor filme, que exemplificam, de uma maneira ou de outra, o que costuma acontecer com os premiados da noite mais famosa de Hollywood.

Sendo assim, teremos filmes incontestáveis que são respeitados até os dias de hoje, um grande premiado que foi esquecido com o passar dos anos, outro vencedor elogiado que eu simplesmente detesto e até mesmo um bom filme que, por ter vencido o prêmio injustamente, passou a ser depreciado pelos cinéfilos, num fenômeno comum que eu já discuti aqui anteriormente.

Como sempre, espero que gostem da seleção de filmes e que os textos promovam bons debates.

Um grande abraço.

Oscar Best PictureTexto publicado em 17 de Fevereiro de 2013 por Roberto Siqueira

KARATÊ KID – A HORA DA VERDADE (1984)

(The Karate Kid)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #160

Dirigido por John G. Avildsen.

Elenco: Ralph Macchio, Pat Morita, Elisabeth Shue, Martin Kove, Randee Heller, William Zabka, Ron Thomas e Rob Garrison.

Roteiro: Robert Mark Kamen.

Produção: Jerry Weintraub.

Karatê Kid – A Hora da Verdade[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Mesmo numa época marcada por excelentes produções voltadas para o grande público, “Karatê Kid – A Hora da Verdade” transformou-se num enorme e surpreendente sucesso, conquistando uma legião de fãs e rendendo duas continuações. No entanto, basta uma olhada rápida na sinopse do longa para constatar que ele não trazia exatamente nada de novo com sua história simples e até certo ponto previsível, o que comprova como a utilização de clichês pode funcionar com eficiência quando o diretor sabe trabalhar seu tema de maneira inteligente, sem ofender a inteligência da plateia. Assim, ao apostar na química entre seus personagens e na identificação do espectador com a trajetória de superação de seu protagonista, John G. Avildsen fez deste um verdadeiro ícone do cinema dos anos 80.

Mas qual o segredo de tanto sucesso? A resposta está na forma simpática e eficiente que o diretor transporta para a tela o roteiro básico escrito por Robert Mark Kamen, que narra o típico conflito adolescente dos tempos de escola em que o mocinho frágil e apaixonado luta pela garota bonita e rica contra o bad boy fortão e desleal. Neste caso, Daniel Larusso (Ralph Macchio) é o jovem que, após mudar-se para outra cidade com sua mãe (Randee Heller), conhece a linda e rica Ali (Elisabeth Shue) e conquista o interesse amoroso dela. Só que a garota é a ex-namorada do encrenqueiro Johnny (William Zabka), que, sendo faixa preta em caratê, começa a surrar Daniel constantemente, até que este encontra o auxílio do japonês Sr. Miyagi (Pat Morita), um velho conhecedor das técnicas de caratê que decide ensinar Daniel os segredos desta arte marcial.

Não é preciso muita bagagem cinematográfica para imaginar qual será a trajetória de Daniel Larusso, o eterno Daniel “San”. No entanto, a maneira como Avildsen conduz a narrativa envolve completamente o espectador, balanceando momentos bem humorados, como quando o carro da Sra. Larusso falha na frente da casa de Ali logo após ela apresentar Daniel para os pais dela, com momentos dramaticamente mais densos, especialmente aqueles que envolvem a construção da amizade entre o jovem e seu mentor. É verdade que o roteiro não presa exatamente pela originalidade e mesmo o velho conflito do par romântico ocasionado por um mal entendido está presente, mas até este velho clichê é usado com eficiência pelo diretor.

Além disso, Avildsen utiliza o trabalho técnico de sua equipe de maneira orgânica, contribuindo para o andamento da narrativa e, principalmente, nos dizendo um pouco mais sobre aqueles personagens. Repare, por exemplo, como a decoração nipônica da casa do Sr. Miyagi concebida pelo design de produção de William J. Cassidy nos transmite a paz de espírito de seu morador, ainda mais quando reforçada pela bela trilha sonora instrumental do ótimo Bill Conti, que remete à terra do sol nascente com precisão e contrasta muito bem com as músicas joviais escolhidas para muitas cenas de Daniel que casam perfeitamente com o espírito adolescente de “Karatê Kid”.

Amizade entre o jovem e seu mentorVelho conflitoDecoração nipônica da casa do Sr. MiyagiAs atuações também são essenciais para o sucesso da narrativa e, neste sentido, é impressionante como Avildsen consegue extrair um ótimo desempenho de quase todo o elenco. Comecemos pelo ótimo Ralph Macchio, que compõe Daniel como um garoto frágil e carismático, conquistando nossa empatia com seu jeito de ser e exibindo um humor autodepreciativo que realça sua falta de confiança e valoriza ainda mais sua trajetória de superação. Transmitindo esta característica do personagem com precisão, Macchio se destaca ainda em momentos que exigem uma postura mais visceral, como quando demonstra muito bem a revolta de Daniel após ser derrubado da bicicleta, evitando o contato com a mãe e gritando que deseja voltar para sua antiga casa – e repare como o travelling que encerra a cena faz questão de revelar que o Sr. Miyagi ouviu toda a discussão, indicando o momento em que o sábio vizinho decide ajudar o garoto. Vulnerável, Daniel conquista a empatia do espectador também pela nossa identificação com o tema, afinal, quem nunca quis enfrentar o valentão da escola pelo amor de uma garota?

Garoto frágil e carismáticoRevolta de DanielSr. Miyagi ouviu toda a discussãoPor sua vez, Elisabeth Shue está encantadora como Ali, justificando perfeitamente a atração que Daniel sente por ela. Com seu jeito meigo e sua postura firme diante das investidas do ex-namorado, ela se torna ainda mais carismática pela maneira adulta com que resolve o conflito criado pelo mal entendido no restaurante, evitando o jogo de cena e aceitando rapidamente as desculpas de Daniel. Além disso, a empatia do casal é contagiante e faz com que o espectador torça muito pelo sucesso daquele relacionamento.

Encantadora AliPostura firmeEmpatia do casalEmpatia, aliás, é a palavra que melhor define “Karatê Kid”. Observe, por exemplo, a naturalidade com que Daniel e sua mãe conversam, demonstrando uma afinidade capaz de superar todos os momentos de crise. Otimista e dona de um alto astral quase inabalável, a Sra. Larusso é outra personagem simpática que conquista a plateia sempre que entra em cena graças ao bom desempenho de Randee Heller, mas que nem por isso deixa de demonstrar preocupação diante das constantes agressões sofridas pelo filho, o que humaniza a personagem e evita que ela se torne artificial.

AfinidadeAlto astral quase inabalávelPreocupaçãoTalvez esta artificialidade surja apenas no grupo de valentões que decide infernizar a vida de Daniel desde sua chegada. Detestável até praticamente sua última fala, William Zabka permite que Johnny se torne um pouco mais humano somente após ser derrotado por Daniel (“Você é legal!”, diz), escancarando que o único personagem realmente unidimensional de “Karatê Kid” é mesmo John, o professor durão dos “Cobra Kai” interpretado por Martin Kove que assume o papel de vilão e prega sem pestanejar que a piedade é para os fracos. Observe, por exemplo, como seus próprios alunos reagem com sinais de reprovação quando este ordena que tirem Daniel do combate, ainda que não tenham coragem de contrariar a ordem dada. Ainda assim, Kove faz bem o tipo durão e transforma seus alunos numa ameaça real ao protagonista, o que é importante para que o espectador tema pelo destino de Daniel no torneio.

Detestável JohnnyProfessor durão dos Cobra KaiSinais de reprovaçãoFinalmente, se hoje não podemos falar de “Karatê Kid” sem recordar do Sr. Miyagi é porque o grande destaque do elenco é mesmo Pat Morita, que transforma aquele senhor japonês num personagem adorável e inesquecível. Falando com um sotaque divertido que só reforça sua origem, Morita encarna o papel de tutor com incrível desenvoltura e carisma, conquistando não apenas o carinho de Daniel como também de toda a plateia. Aliás, é importante notar como esta linda relação de amizade é construída com calma pela narrativa e, por isso, soa tão verdadeira. Dono de uma sabedoria invejável e exalando a famosa “paciência oriental”, Miyagi utiliza os interessantes diálogos com Daniel para nos apresentar à sua verdadeira coleção de frases impactantes e sua visão peculiar do caratê e da própria vida. Morita se destaca ainda na tocante sequência em que o reservado Sr. Miyagi revela como perdeu a esposa e o filho, evidenciando a empatia existente entre eles e confirmando que confia plenamente em Daniel.

Adorável e inesquecívelLinda relação de amizadeSr. Miyagi revela como perdeu a esposa e o filhoOs diálogos da dupla e os treinamentos comandados por Miyagi se tornam ainda mais especiais quando Avildsen e o diretor de fotografia James Crabe resolvem explorar a beleza da praia e de um lago para criar planos belíssimos e ensolarados, que ilustram a empolgação do garoto durante o processo de aprendizagem e se contrapõem aos planos obscuros que acompanham parte das árduas tarefas realizadas na casa de seu mentor. O diretor também utiliza bem o segundo plano durante a conversa entre Daniel e sua mãe num restaurante, permitindo que o espectador acompanhe simultaneamente a conversa dos dois e os garotos que saem da escola de caratê e observam os Larusso a distancia, numa cena que serve para treinar o olho da plateia para que esta observe com mais atenção o excelente momento em que Miyagi impede que massacrem Daniel, no qual este surge também em segundo plano pulando uma grade e demonstra toda sua habilidade nas artes marciais.

TreinamentosÁrduas tarefasMiyagi impede que massacrem Daniel“Karatê Kid” tem ainda seus momentos encantadores, como o passeio de Daniel e Ali no parque, o inocente primeiro beijo do casal e a icônica cena em que Daniel treina seu famoso golpe na praia, que será vital no encerramento da narrativa. Mas talvez a sequência mais marcante seja o fascinante diálogo em que o Sr. Miyagi revela porque pediu todas aquelas tarefas pesadas para Daniel e o garoto percebe que já estava sendo treinado não apenas para o caratê, mas também para enfrentar a vida, evidenciando que Miyagi representa a figura paterna que tanto lhe faz falta.

Passeio de Daniel e AliInocente primeiro beijoFascinante diálogoPor isso, quando um leve movimento de câmera revela o cartaz do campeonato de caratê na parede da escola, mal podemos esperar pelo dia do torneio. Trabalhando esta expectativa com inteligência, Avildsen nos leva até os esperados duelos, que se tornam ainda mais empolgantes graças à montagem dinâmica de Walt Mulconery, Bud Smith e do próprio Avildsen e à trilha sonora agitada que embala o início da competição – e aqui vale observar como os figurinos de Richard Bruno e Aida Swinson fazem questão de ilustrar quem é o mocinho, que surge vestido com roupão branco, e quem são os vilões, vestidos com roupões pretos, mas esta visão unidimensional não chega a atrapalhar o filme. Quando finalmente chegamos à luta final, estamos tão envolvidos pela narrativa e tão identificados com os personagens que é praticamente impossível não torcer loucamente pela vitória de Daniel.

Esperados duelosMocinho de brancoVilões de pretoE ainda que “Karatê Kid” termine abruptamente após o famoso golpe, este final emblemático teve força suficiente para marcar toda uma geração, o que comprova a qualidade da narrativa e o bom trabalho de Avildsen e seu elenco. Trabalhar com histórias que usam o esporte como ponte para a superação de barreiras pessoais parece mesmo ser a especialidade de John G. Avildsen.

Karatê Kid – A Hora da Verdade foto 2Texto publicado em 15 de Fevereiro de 2013 por Roberto Siqueira

ERA UMA VEZ NA AMÉRICA (1984)

(Once Upon a Time in America)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #159

Dirigido por Sergio Leone.

Elenco: Robert De Niro, James Woods, Elizabeth McGovern, Tuesday Weld, Treat Williams, Burt Young, Danny Aiello, Jennifer Connelly, Joe Pesci, James Hayden, William Forsythe, Larry Rapp, Amy Ryder, Scott Tiler, Rusty Jacobs, Brian Bloom, Adrian Curran, Mike Monetti, Noah Moazezi, James Russo, Julie Cohen e Sergio Leone.

Roteiro: Leonardo Benvenuti, Piero De Bernardi, Enrico Medioli, Franco Arcalli, Franco Ferrini e Sergio Leone, baseado em novela de Harry Grey.

Produção: Arnon Milchan.

Era uma vez na América[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Hoje reconhecido como um dos grandes mestres da história do cinema, Sergio Leone notabilizou-se na direção dos chamados western spaghetti, realizando obras de grande destaque e importância como a famosa “Trilogia dos Dólares” e “Era uma vez no Oeste”. No entanto, talvez o maior desafio de toda a carreira do diretor italiano tenha sido este ambicioso “Era uma vez na América”, justamente por representar sua incursão num ambiente diferente daquele em que estava habituado. Massacrado por público e crítica na época de seu lançamento devido à decisão do estúdio de lançar uma versão extremamente reduzida nos cinemas, o projeto da vida de Leone levou anos para ser realizado e só foi reconhecido quando a versão imaginada pelo diretor foi lançada tempos depois. E justiça seja feita, o verdadeiro “Era uma vez na América” é um filme belíssimo que justifica em cada momento a ambição de seu diretor.

Escrito por seis pessoas (inclusive o próprio Leone), “Era uma vez na América” narra à trajetória de ascensão e queda de um grupo de gângsteres de descendência judaica durante o período da lei seca em Nova York. A partir das memórias de Noodles (Robert De Niro), que resolve voltar ao local 35 anos após sua saída, conhecemos a história dele e de seus amigos Max (James Woods), Pasty (James Hayden) e Cockeye (William Forsythe), percorrendo desde a infância sofrida nas ruas do Lower East Side até o incidente trágico que destruiu o grupo.

Grandiloquente e recheado pelo tom operístico que caracteriza quase toda a filmografia de Sergio Leone, “Era uma vez na América” aposta numa estrutura narrativa complexa, que busca manter a atenção do espectador durante suas quase quatro horas de duração – o que, convenhamos, é um enorme desafio. Para conduzi-la com segurança e evitar que se torne enfadonha, Leone conta com o ótimo trabalho do montador Nino Baragli, que salta no tempo diversas vezes (tanto para o passado como para o futuro), mas sempre de maneira elegante e fluída; e o que é ainda mais interessante, demonstrando enorme confiança na inteligência do espectador ao jamais apelar para letreiros ou diálogos expositivos que indiquem a passagem do tempo – sempre que temos este tipo de informação, ela surge de maneira orgânica. Assim, temos uma verdadeira coleção de transições elegantes, como aquela em que Noodles olha para uma lamparina e a chama se transforma numa lâmpada, já debaixo de chuva e no cenário da morte de seus amigos – e é interessante notar também o excepcional design de som, que mantém o barulho do telefone tocando até que Noodles faça uma ligação, nos levando de volta ao teatro chinês onde toda a sequência se iniciou (voltaremos a este toque de telefone em instantes).

Noodles olha para uma lamparinaChama se transforma numa lâmpadaCenário da morte de seus amigosUtilizar o som diegético para provocar tensão, aliás, é outra característica marcante do diretor que aqui surge com força total, como na cena da descida de um elevador, momentos antes de Noodles surpreender seu perseguidor com um tiro na cabeça, numa cena graficamente impressionante que evidencia a violência que permeará a narrativa. Apesar do sangue exageradamente vermelho que busca ampliar o choque, a violência de “Era uma vez na América” é convincente e perfeitamente justificável naquele ambiente, surgindo em diversos momentos como na entrega dos diamantes ao amigo do mafioso Frankie (Joe Pesci, em participação pequena), na surra de Bugsy (James Russo) em Noodles e Max e na morte do pequeno Dominic (Noah Moazezi), além da violência sexual cometida por Noodles em dois momentos impactantes.

Descida de um elevadorEntrega dos diamantesMorte do pequeno DominicEstabelecendo a natureza violenta dos personagens desde os primeiros minutos de projeção, “Era uma vez na América” nos joga pra dentro daquele ambiente hostil de maneira impressionante, numa imersão que se dá também graças ao excepcional design de produção de Carlo Simi, que nos transporta para os Estados Unidos do início do século XX através dos carros, das casas e até mesmo da decoração do bar de Moe (Larry Rapp), além é claro dos impecáveis figurinos de Gabriella Pescucci, que recriam as roupas dos gângsteres e dos judeus com precisão, seguindo o padrão instituído no imaginário popular por “O Poderoso Chefão”. Nesta mesma linha, a fotografia de Tonino Delli Colli abusa do uso das sombras nos ambientes internos para ilustrar a natureza obscura daquele submundo, mas adota tons pastéis que realçam o tom nostálgico do longa, se destacando também na iluminação de cenas noturnas impressionantes – como aquela que revela a morte dos amigos de Noodles ainda no primeiro ato – e no uso da fumaça para conferir uma atmosfera onírica a certas lembranças do protagonista.

Estados Unidos do início do século XXRoupas dos gângsteres e judeusAtmosfera oníricaEmpregando seus tradicionais closes, zooms e travellings (o superclose surge em raras ocasiões), Leone desfila por estes cenários e personagens com elegância, criando um visual impactante e repleto de cenas belíssimas que, enriquecidas pela trilha sonora sempre marcante do mestre Ennio Morricone, conferem um tom épico ao filme, destacando-se em alguns momentos especiais, como quando Noodles liga para o velho amigo Moe da porta do bar, onde somente a música e as imagens já são suficientes para demonstrar o saudosismo daquele reencontro. Leone não precisa de palavras para nos emocionar, seu cinema é pura magia. E se a trilha sonora de Morricone realça a nostalgia do protagonista, destacando-se especialmente no lindo tema principal e nas composições que envolvem um coral de vozes, as longas sequências em silêncio tão características do diretor surgem como um contraponto interessante, criando cenas extremamente tensas como quando Noodles, após a decepção do encontro com Deborah (Elizabeth McGovern), mexe o café numa xícara por longos segundos antes de se manifestar, exalando uma eletricidade palpável que evidencia sem uma única palavra a possibilidade de uma briga entre ele e o amigo Max.

Noodles liga para o velho amigo MoeXícara de caféPossibilidade de uma brigaLeone mostra talento também na direção dos atores mirins através de pequenos momentos, como aquele em que Dominic volta para conferir se o bagageiro onde eles esconderam a maleta cheia de dinheiro estava mesmo trancado. Cobrindo a vida daqueles amigos desde a infância, quando surgem ateando fogo numa banca de jornal por falta de pagamento do dono, o diretor faz questão de investir muito tempo na construção meticulosa daqueles personagens e da relação entre eles. Assim, toda a fase da infância serve para nos familiarizar com cada um deles, apresentando seus medos, ansiedades e motivações, trazendo ainda cenas belíssimas como aquela em que Noodles observa Deborah dançando, o lindo primeiro beijo deles ou o tocante momento em que Pasty decide entre comer um bolo ou transar com Peggy – e a atuação do jovem Brian Bloom neste instante é primorosa, transmitindo a indecisão do garoto com precisão e ilustrando como ele ainda não estava pronto para aquele salto de maturidade. Ainda na infância, vale citar a curiosa e marcante participação de Jennifer Connelly, ainda criança, como a linda e expressiva Deborah, que rouba o coração de Noodles com seu jeito meigo e insinuante de agir.

Dominic volta para conferirDeborah dançandoComer um bolo ou transarDurante todo este tempo, a amizade genuína daqueles jovens nos convence. Também por isso, é doloroso acompanhar esta relação sendo lentamente destruída na fase adulta por causa da ganância da maioria deles. No entanto, esta mudança já pode ser notada logo após a volta de Noodles da prisão, quando os abraços calorosos não conseguem esconder o distanciamento entre o grupo e o jovem regresso. Compondo Noodles com um ar misterioso que nem por isso esconde sua expressão naturalmente ameaçadora, De Niro transmite com precisão toda a melancolia daquele personagem deslocado, que parece sempre preso às memórias do passado e torna quase palpável seu incômodo por ter provocado a morte dos amigos, o que acaba aproximando um pouco aquele homem sofrido do espectador, por mais cruéis que sejam algumas de suas atitudes.

DistanciamentoPersonagem deslocadoPreso às memórias do passadoÉ interessante notar ainda como Noodles parece seguir um curioso e indecifrável código de ética, irritando-se com certas atitudes dos amigos – como o envolvimento com o perigoso Frankie – ao mesmo tempo em que tolera outras ainda piores. Mas talvez a sequência que melhor sintetize sua instável personalidade seja o jantar romântico com Deborah, onde ele consegue ser ao mesmo tempo encantador (durante o jantar) e repugnante (no chocante estupro no carro). Esta relação dolorosamente conturbada ecoa até na velhice, quando tanto De Niro quanto McGovern demonstram com competência a dor dos personagens ao constatarem a impossibilidade de ficarem juntos – e aqui vale destacar a ótima maquiagem que transforma De Niro de maneira convincente, assim como acontece com Woods e outros nomes importantes do elenco.

Jantar românticoChocante estuproMaquiagemJames Woods também está bem seguro e ameaçador como o adulto Max, demonstrando a evolução da ganância de seu personagem em seu olhar cada vez mais confiante, chegando ao auge na cena em que se orgulha de ter comprado um trono – e a reação de Noodles neste instante é sensacional por dizer muito sem precisar de palavras. Talvez por isso, Noodles não demonstra raiva e não aceita atirar nele quando descobre sua traição, demonstrando em seu semblante apenas um sentimento: decepção. “É o meu jeito de ver as coisas”, diz, antes de afirmar que, de qualquer forma, ele perdeu um grande amigo naquela trágica noite. Chega a doer. E finalmente, a citada Elizabeth McGovern confere charme e mistério à bela Deborah, enquanto Tuesday Weld se destaca especialmente na cena em que Carol tenta convencer Noodles a tirar a ideia do assalto ao banco da cabeça de Max, ciente de que esta atitude poderia levar ao fim do grupo.

Seguro e ameaçadorTronoCarol tenta convencer NoodlesNo fim das contas, “Era uma vez na América” é muito mais do que um filme sobre gângsteres. É um filme sobre memórias, que traz em cada fotograma um retrato perfeito da nostalgia, personificado no rosto sofrido e emblemático do personagem vivido por Robert De Niro. Seu sorriso no plano derradeiro levanta até mesmo a curiosa possibilidade de ele ter sonhado em certas passagens (não à toa ele surge fumando ópio no início), reforçada pela atmosfera onírica de algumas cenas e pelo som do telefone tocando durante toda a cena do crime, que transmite com exatidão sua sensação de desorientação. Amargurado por ter provocado a morte dos amigos de infância, ele teria imaginado certos acontecimentos (como o suposto romance entre Max e Deborah e o misterioso destino do amigo na famosa cena do caminhão de lixo), talvez buscando amenizar sua dor. Mas Leone jamais deixa claro se estas passagens são sonhos ou memórias, o que torna tudo ainda mais interessante.

Sorriso no plano derradeiroFumando ópioCena do caminhão de lixoApresentando as lembranças de um homem consumido pela culpa de maneira tocante, Leone mergulha em sentimentos profundamente humanos ao mesmo tempo em que nos apresenta parte da construção da história norte-americana, que viria a se tornar a nação economicamente mais poderosa do mundo durante o período em que a narrativa se passa. Por isso, a versão completa de “Era uma vez na América” é um filme memorável, repleto de imagens belíssimas e cenas marcantes, que justifica cada minuto investido pelo espectador nesta verdadeira experiência cinematográfica.

Era uma vez na América foto 2Texto publicado em 12 de Fevereiro de 2013 por Roberto Siqueira