UM DIA DE CÃO (1975)

(A Dog Day Afternoon)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #15

Dirigido por Sidney Lumet.

Elenco: Al Pacino, John Cazale, Charles Durning, Penelope Allen, James Broderick, Chris Sarandon, Sully Boyar, Beulah Garrick, Carol Kane, Sandra Kazan, Marcia Jean Kurtz, Amy Levitt, John Marriott, Estelle Omens, Gary Springer, Carmine Foresta e Lance Henriksen.

Roteiro: Frank Pierson, baseado em artigo de P.F. Kluge e Thomas Moore. 

Produção: Martin Bregman e Martin Elfand.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A história real de um assalto mal planejado, que deveria durar dez minutos e acabou durando mais de dez horas, tornando-se o principal evento da televisão norte-americana no dia, é contada com maestria pelo excelente Sidney Lumet, auxiliado por uma atuação magnífica de Al Pacino e um trabalho técnico muito competente que tornou o filme extremamente realista.

Precisando de dinheiro para pagar a cirurgia de mudança de sexo de seu namorado, Sonny (Al Pacino) resolve assaltar um banco acompanhado de seu amigo Sal (John Cazale). Dez horas depois, eles ainda estavam dentro do prédio com os reféns, cercados pela polícia, pela imprensa e por curiosos de plantão.

Lumet inicia o longa com diversos planos que contrastam as diferenças sociais, nos ambientando na cidade. Também mostra alguns cachorros na rua, fazendo uma alusão ao nome do filme. A introdução embalada pela ótima música nos leva até o carro onde estão Sonny, Sal e Stevie. Os minutos seguintes são responsáveis por captar a atenção do espectador, que ficará grudado na tela por duas horas, em um clima misto de tensão e humor negro.

O diretor é hábil ao conseguir, com a ajuda de sua equipe técnica, manter um constante clima de urgência, mantendo uma sensação de que sempre algo pode acontecer inesperadamente na tela. Ele mantém a câmera em movimento em muitos momentos, como se estivéssemos em um documentário. Também é muito eficiente na hora de captar e coordenar o exército de figurantes do filme. Quando Sonny começa a ligar para as pessoas importantes de sua vida, Lumet vai aproximando a câmera de seu rosto, transmitindo o desespero dele e realçando a ótima atuação de Pacino, que já está exausto. Seu rosto molhado e seus cabelos ainda mais desarrumados refletem isto. A agilidade das cenas é mérito também da excelente montagem de Dede Allen e Angelo Corrao, que consegue criar este clima de urgência sem soar confuso. Um exemplo do bom trabalho de montagem é a cena do tiro de Sonny na janela, onde podemos ver a reação em todo o ambiente praticamente de forma simultânea. Outro exemplo é a surpreendente cena final, onde em questão de segundos podemos acompanhar toda a ação paralela que culmina com o assassinato de Sal e a prisão de Sonny. A fotografia granulada (Direção de Victor J. Kemper) torna o filme mais realista e na parte final do filme se torna extremamente escura (“Cortaram as luzes!”) o que torna o ambiente mais tenso, além de aumentar a sensação de estar encurralado.

Além da boa direção de Lumet, a força do filme se concentra na enérgica e sensacional atuação de Al Pacino. Na época um grande astro, devido ao sucesso dos dois primeiros filmes da trilogia “O Poderoso Chefão”, o ator se mostrou extremamente corajoso ao aceitar este papel, que envolvia homossexualismo, e arriscar sua reputação. Porém sua excelente atuação e o ótimo filme provaram que ele estava certo em sua escolha. Logo que o assalto se inicia ele já está agitado, nervoso, gritando e falando palavrões. Seu Sonny é alguém que, por ter trabalhado em bancos, conhece todos os artifícios do local (alarmes nas notas, nas chaves, notas marcadas) e utilizou este conhecimento para tentar resolver sua situação. Extremamente pressionado por todos os lados de sua vida, como podemos notar na conversa de Sonny com Leon, com sua ex-esposa e depois com sua mãe, notamos que ele não é uma pessoa má, mas perdeu a cabeça com tantos problemas e não soube lidar com esta situação. Observe como Angie não deixa Sonny falar, mostrando a pessoa complicada que ele tinha que conviver diariamente. Ao final da conversa com ela, Sonny fica pensativo, refletindo sobre tudo que aconteceu. Por outro lado, Sonny também não é alguém fácil de entender. Casado e com filhos, ele piorou ainda mais sua já complicada vida quando se envolveu com Leon, com quem se casou em outro estado. Seus pais também não eram lá pessoas muito tranqüilas, como podemos perceber na conversa dele com sua mãe, quando ela fala pra ele correr, dando um claro sinal de desespero. “Seu pai disse que não tem mais filho”, diz ela, mostrando que sua família não era o melhor exemplo de estrutura. Por tudo isso, e também por ter perdido o emprego, Sonny resolveu acabar com seus problemas da forma mais rápida. Mas seu plano deu errado. E Pacino é extremamente hábil ao nos transmitir toda esta carga de tensão que Sonny carrega nos ombros. Quando o telefone toca e o gerente diz que é pra ele (uma das reféns pula e sorri aliviada ao saber que a policia chegou ao local), Pacino faz uma cara de espanto deixando claro que Sonny não era um ladrão de bancos acostumado com aquilo. Ele agiu errado, na hora errada. Lumet diminui Pacino neste momento. Ele está no chão, desolado, e o gerente fica em pé diante dele. O show particular do ator tem alguns momentos memoráveis, com na cena em que ele se refere às vitimas inocentes em “Attica” (Rebelião de Attica, 1971), dizendo para a polícia guardar as armas (“Put the f* guns down!”), a ótima cena da entrega da pizza em que Sonny joga dinheiro para o povo e se torna herói pra eles (“Sonny are we!” / “Nós somos Sonny!” gritam) e o sensacional diálogo entre Sonny e o apresentador de TV (“Quanto você ganha por semana?”), que é uma excelente crítica ao sensacionalismo da imprensa, tão comum nos dias de hoje, que ao invés de debater uma solução para os problemas sociais, como era o caso, tenta falar com propriedade de problemas tão distantes da realidade que os próprios apresentadores (como alguns da nossa televisão aberta) vivem.

No restante do elenco, podemos destacar Charles Durning como o inteligente policial Moretti. Suas discussões com Sonny são sempre realistas. Observe os tiques no rosto de Pacino, mexendo os olhos e o canto da boca freqüentemente, enquanto Moretti fala ofegante tentando controlar a tensa situação. Os dois mostram o nervosismo que seus personagens sentem com muita habilidade. John Cazale tem boa atuação como o calado Sal. Repare sua tensão refletida na voz e no olhar quando ele fala com Sonny sobre arremessar corpos. Ele é o mais perigoso da dupla, pois irá até a última conseqüência para evitar voltar à prisão. Sal é simples, nem sabe que Wyoming não é um país. Observe como ele fica irritado quando a TV fala que são dois assaltantes homossexuais. Sonny responde que “eles podem dizer o que querem, somos apenas um show de horror”, numa boa crítica à má utilização da liberdade de imprensa. Finalmente, temos Chris Sarandon, muito bem como o amante homossexual de Sonny. Observe a posição de suas mãos quando fala, muitas vezes pressionando o próprio peito, num movimento bem feminino. Sua enorme sensibilidade nos diálogos e o desmaio ao ver Sonny também reforçam a qualidade da atuação. Observe também seu riso ao ouvir Sonny dizer “Dinamarca, Suécia?”, típico de quem está ironizando o que ouve. Interessante notar também como até os figurantes participam muito bem do filme, como na já citada cena da pizza, ou quando Leon fala que é “uma mulher presa no corpo de um homem” e um policial ri ao fundo. Moretti olha bravo e ele disfarça olhando para o alto.

O ótimo roteiro de Frank Pierson, baseado em artigo de P.F. Kluge e Thomas Moore, consegue balancear com competência os momentos tensos com muitos alívios cômicos, recheados de humor negro. Entre eles, podemos citar a cena em que o marido de uma das reféns liga e ela pergunta o que pode responder pra ele (“Ele quer saber que horas vai acabar.”) ou na cena em que outra refém reclama da linguagem utilizada por Sonny. Em certo momento, alguém sugere que a viagem do grupo seja para a Europa, dizendo que “A Holanda é bem legal, abrigou pessoas na guerra”, e Sonny responde: “Onde fica a Holanda?”. “Ele é calmo”, “São minhas garotas!” e “Meninas, eu fui entrevistada!” são outros trechos bem humorados do roteiro, que demonstra ainda muita coragem ao abordar o tema homossexualismo em 1975. Também é interessante notar o conflito entre a polícia e a imprensa, tanto no chão, com os repórteres furando o bloqueio, como no alto, com os helicópteros tentando filmar o “show”.

Lumet mostrou coragem ao narrar esta história real acontecida poucos anos antes e com extremo realismo, abordando o homossexualismo e também o racismo, na cena em que o primeiro refém é solto e confundido com um assaltante pelo fato dele ser negro, mas também pela péssima comunicação entre Sonny e Moretti (“Você falou que só tinha mulheres aí!”). A condução da cena final é perfeita. Enquanto vemos os carros se dirigindo ao Aeroporto, a tensão vai aumentando e a expectativa pelo que vai acontecer é enorme. A cena tem grande impacto, e o fato do filme ser baseado em uma história real, aumenta ainda mais o efeito dela no espectador. Sonny não era uma pessoa ruim, só não soube lidar com seus problemas da maneira mais adequada, e pagou caro por isso.

Extremamente ágil e tenso, porém balanceado com muitos momentos de bom humor, Um Dia de Cão mostra como uma pessoa normal pode se tornar um perigo para a sociedade se não souber lidar com seus problemas da forma correta. Com mais uma ótima direção de Lumet e uma atuação fabulosa de Al Pacino, garante duas horas de bom entretenimento e ainda traz boas reflexões para o espectador a respeito de temas polêmicos como o sensacionalismo exagerado da imprensa, o homossexualismo e o método controverso da policia norte-americana na época.

Texto publicado em 02 de Novembro de 2009 por Roberto Siqueira

FRENESI (1972)

(Frenzy)

 

Filmes em Geral #66

Filmes Comentados #8 (Comentários transformados em crítica em 16 de Junho de 2011)

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Jon Finch, Barbara Leigh-Hunt, Barry Foster, Jean Marsh, Anna Massey, Alec McCowen, Vivien Merchant e Billie Whitelaw.

Roteiro: Anthony Shaffer.

Produção: Alfred Hitchcock.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após tropeçar nos thrillers sobre a guerra fria “Cortina Rasgada” e “Topázio”, Alfred Hitchcock recupera a boa forma neste “Frenesi”, que traz de volta algumas das melhores características do diretor. Com uma narrativa envolvente, cenas de impacto e uma boa dose de humor negro, o mestre do suspense voltava a presentear os cinéfilos com um grande filme.

Um assassino em série começa a aterrorizar a cidade de Londres, atacando mulheres com uma gravata. Com base nas declarações de uma testemunha após o assassinato da Sra. Brenda Margaret Blaney (Barbara Leigh-Hunt), a polícia passa a desconfiar de seu ex-marido Richard Blaney (Jon Finch), que tenta provar sua inocência, com a ajuda da namorada Barbara Milligan (Anna Massey) e do amigo Robert Rusk (Barry Foster).

Desde os primeiros momentos de “Frenesi”, é possível notar que Alfred Hitchcock estava de volta com força total, quando um belo travelling pelo rio Tamisa nos leva ao local onde um grupo de pessoas está amontoado, escutando uma declaração dos governantes, e é interrompido pelo surgimento do corpo de uma mulher morta na margem do rio, nua e com uma gravata em seu pescoço, jogando o espectador pra dentro da trama imediatamente. Um corte seco sai da gravata presa à vítima e nos leva ao personagem central, Blaney, que, ironicamente, amarra a sua gravata tranqüilamente antes de sair para o trabalho. Somente com este início, o espectador já foi fisgado. Queremos saber quem é o assassino e já temos um suspeito. A Londres que surge em seguida, suja e sem vida, ressalta o trabalho de direção de arte de Robert Laing e cria uma atmosfera crua e realista, bastante coerente com a narrativa, e reforçada pela fotografia de Gil Taylor, que emprega cores opacas, conferindo um visual mais sombrio na segunda metade do longa. Quanto mais nos aproximamos do final, mais tensa a trama se torna, algo refletido também na trilha sonora de Ron Goodwin.

Após uma fase irregular, Alfred Hitchcock volta a acertar a mão nas cenas mais importantes, criando momentos de puro suspense. A começar pelo tenso diálogo que leva à morte da Sra. Blaney pelas mãos de Rusk, numa cena sufocante, acentuada pelo uso do close e pela trilha sonora, que tornam a cena ainda mais impactante (repare como o diretor destaca o broche com a letra “R”, que terá importância em outro momento da trama). Além disso, Hitchcock muda o foco principal da narrativa ao revelar o assassino com apenas 34 minutos de filme. Agora não queremos mais saber quem é o assassino, e sim como a policia vai chegar até ele, pois todos os fatos levam à outra pessoa. E a razão que leva a todos a desconfiarem de outra pessoa surge num momento genial do diretor, quando a câmera acompanha a saída de Rusk do prédio e, no mesmo travelling, mostra a chegada de Blaney. Momentos depois, vemos a saída dele, após tentar sem sucesso falar com a esposa, e a chegada da secretária, que o vê saindo. A câmera ainda permanece no local por alguns instantes, até que a secretária veja Brenda morta e grite, assustando as pessoas que passavam na rua.

Pra piorar a situação, os claros sinais da agressividade de Blaney nos levam a crer que ele é o assassino no princípio da narrativa, o que justifica a desconfiança geral após o assassinato de sua ex-esposa. Por exemplo, quando ele ouve uma conversa sobre o assassino num bar, sai repentinamente do local, aparentemente irritado. Além disso, no jantar com Brenda, ele quebra um copo com a mão quando fica com raiva, expondo seu descontrole. Escrito por Anthony Shaffer, o roteiro trabalha minuciosamente nos detalhes que incriminam Blaney, fazendo com que até mesmo o dinheiro que ele recebeu seja utilizado contra ele. Novamente, o tema favorito de Hitchcock é o centro da narrativa (homem inocente acusado de um crime que não cometeu), deixando claro que nem sempre os fatos apontam para a verdade. O diretor ainda utiliza outro artifício costumeiro em suas obras, fazendo a platéia saber mais que todos os personagens ao revelar o assassino.

Suspeito principal do crime, Blaney é um personagem interessante, prejudicado pela atuação irregular de Jon Finch, que não consegue criar empatia com o espectador, dificultando nosso envolvimento com seu drama. Sua falta de simpatia é gritante. Mesmo assim, nos momentos que exigem uma atuação mais enérgica ele vai bem, como na cena em que é preso, gritando e expondo sua revolta. Já Barry Foster se sai bem como Rusk, mostrando uma dupla personalidade coerente com o personagem. Com os amigos, ele é calmo e amável, mas quando vê uma mulher que lhe interessa, se transforma num assassino cruel e implacável – a tranqüilidade de Rusk após assassinar Barbara demonstra que se trata mesmo de um psicopata. Além disso, ele é o responsável pela prisão de Blaney, numa traição que desperta o amigo para a realidade e o faz descobrir que Rusk é o assassino.

O bom humor fica por conta dos “criativos” pratos servidos pela Sra. Oxford (Vivien Merchant) ao seu marido, o Inspetor-Chefe Oxford (Alec McCowen), que, exatamente por isso, surge anteriormente comendo muito no café da manhã. Os dois ainda vivem um momento interessante, quando conversam sobre o assassinato de Barbara, dizendo que Rusk precisou quebrar os dedos da vítima enquanto a Sra. Oxford quebra o pão, fazendo um barulho parecido. Fechando o elenco, Anna Massey vive a simpática Barbara Milligan, que acredita em Blaney e tenta ajudá-lo, ao contrário da esposa de seu amigo Johnny Porter (Clive Swift), a direta Hetty Porter (Billie Whitelaw), que não mede as palavras e deixa claro que não acredita nele. É com Barbara, aliás, que Hitchcock demonstra seu conhecimento da linguagem cinematográfica, em outro plano interessante que mostra seu rosto em close e, quando ela sai da tela, revela Rusk atrás dela. É o inicio do assassinato da moça. Após os dois entrarem no quarto de Rusk, Hitchcock faz um travelling lento, desde a silenciosa porta do apartamento até a barulhenta rua. Sabemos que na próxima vez que voltarmos ali, Barbara estará morta.

Os bons momentos de suspense surgem novamente na cena do caminhão, onde estamos sufocados junto com Rusk, que tenta, com muita dificuldade, recuperar o broche que poderia incriminá-lo. Torcemos pro motorista encontrar Rusk, mas ele consegue escapar, só que comete um erro fatal ao entrar no restaurante e ser visto. Vale destacar ainda como Hitchcock cria dois planos idênticos em momentos cruciais da vida de Blaney. Quando ele é preso, a câmera está em cima da cela, num plano plongèe que diminui o personagem, refletindo seu sentimento, assim como no momento de sua fuga do hospital, quando vemos os médicos examinando o guarda, também por cima, e acompanhamos sua saída disfarçada que nos leva ao grande final. O clímax da narrativa acontece quando Blaney invade o apartamento de Rusk, apresentando um artifício interessante do roteiro chamado “dica e recompensa”. Em um dos assassinatos, observamos passo a passo como o criminoso se livra do corpo. Por isso, ao ouvirmos o barulho na escada nesta cena final, nos lembramos de seus métodos e sabemos que é ele quem está chegando ao local. Além disso, a frase final “Sr. Rusk, você não está usando sua gravata” é genial e encerra bem a narrativa.

Ainda que seja inferior ao trabalho genial de Hitchcock em outros filmes, “Frenesi” é digno da filmografia do mestre, com sua narrativa envolvente, cenas bem construídas e um final inteligente. Após dois filmes com temáticas que envolviam política, Hitchcock volta ao seu tema favorito e, como esperado, entrega mais um filme memorável.

PS: Comentários divulgados em 28 de Outubro de 2009 e transformados em crítica em 16 de Junho de 2011.

Texto atualizado em 16 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

UM ESTRANHO NO NINHO (1975)

(One Flew Over the Cuckoo’s Nest) 

5 Estrelas 

Filmes em Geral #8

Vencedores do Oscar #1975

Videoteca do Beto #152 (Filme comprado após ter a crítica divulgada no site e transferido para a Videoteca em 08 de Janeiro de 2013)

Dirigido por Milos Forman.

Elenco: Jack Nicholson, Louise Fletcher, Danny DeVito, Christopher Lloyd, Brad Dourif, William Redfield, Michael Berryman, Peter Brocco, Will Sampson, Dean R. Brooks, Alonzo Brown, Mwako Cumbuka, William Duell, Josip Elic, Lan Fendors e Sydney Lassick. 

Roteiro: Bo Goldman e Lawrence Hauben, baseado em livro de Ken Kesey. 

Produção: Michael Douglas e Saul Zaentz. 

Um Estranho no Ninho foto 5

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A sensação de liberdade é algo que independe de onde estamos e de como vivemos. Podemos nos sentir livres de diversas maneiras e em diversos lugares. Da mesma forma, estar preso não quer dizer necessariamente que estamos encarcerados ou cercados por muros e grades. Podemos nos sentir sufocados, cercados, aprisionados, mesmo que estejamos no mais livre dos lugares do planeta. A questão é: temos coragem de lutar para conquistar a liberdade que desejamos? A prisão psicológica de um grupo de pessoas dentro de uma instituição para doentes mentais (ou manicômio) e o caos que “um estranho no ninho” provoca naquelas vidas é o fio condutor do belíssimo drama dirigido por Milos Forman e estrelado brilhantemente por Jack Nicholson.

O condenado Randle Patrick McMurphy (Jack Nicholson) se passa por louco para evitar trabalhar no campo e acaba sendo transferido para um manicômio, onde vai alterar a rotina dos presentes e entrar em conflito com as rígidas normas de controle estabelecidas pela instituição e seguidas à risca pela enfermeira Mildred Ratched (Louise Fletcher). Ao despertar os pacientes e provocar a revolta deles contra estas regras ele irá encontrar também seu trágico destino.

O cotidiano de uma instituição responsável pela reabilitação de pessoas com problemas mentais não deve mesmo ser nada fácil. Afinal de contas, conviver diariamente com pessoas das quais não sabemos que comportamento esperar é algo um tanto complicado e perigoso. Por outro lado, deve ser gratificante para qualquer profissional da área quando alguém deste grupo apresenta alguma evolução, o que serve de motivação para enfrentar este clima pesado diariamente. Sendo assim, não podemos condenar os rígidos métodos adotados pela instituição e seguidos fielmente pela enfermeira Ratched na tentativa de controlar a situação, o que estava sendo feito com sucesso até a chegada de alguém que, por motivos óbvios, não seguirá as regras do local e, conseqüentemente, provocará o conflito naquele ambiente. Milos Forman acerta em cheio na utilização de muitos closes, que realçam as expressões marcantes daquelas pessoas perturbadas psicologicamente, em contraponto às longas tomadas sem corte que permitem ao espectador apreciar em detalhes a espetacular atuação coletiva do elenco. O diretor é hábil ao explorar as maravilhosas atuações de um elenco incrivelmente talentoso, como no diálogo final entre a enfermeira Ratched e Billy Bibbit (Brad Dourif), realçando as expressões dos dois. Além disso, faz interessantes movimentos de câmera, como na cena da votação, que inicia com um close no sorridente McMurphy, e que lentamente vai se afastando dele para mostrar que o resultado da votação não foi nem de perto o esperado por ele. Forman também é competente ao nos dar algumas dicas do que vai acontecer durante o filme de forma sutil. Observe, por exemplo, como na cena em que McMurphy diz para o grupo que vai assistir ao jogo, arremessando a pia na janela e fugindo, o rápido close no olhar curioso do Chefe Bromden (Will Sampson) sinaliza para o espectador o emocionante final do drama. Em outra oportunidade, podemos notar McMurphy olhando para um esquilo que caminha tranquilamente na cerca, mostrando que não é elétrica, e no plano seguinte vemos o ônibus saindo do local, o que se revela um bom artifício para justificar uma atitude que McMurphy tomaria depois.

Um Estranho no Ninho foto 3

O ótimo roteiro de Bo Goldman e Lawrence Hauben (baseado em livro de Ken Kesey) desenvolve muito bem os diversos personagens, além de contar com um final bastante corajoso (note também um interessante trocadilho em inglês – “Se Felt See” – quando McMurphy fala com Sefelt – William Duell). Com um excelente roteiro nas mãos, Forman permitiu ao elenco mostrar todo o seu brilhantismo. E poucas vezes tivemos uma performance tão uniforme e qualificada. Todo o elenco de “Um Estranho no Ninho” é, no mínimo, sensacional. A começar pela atuação antológica de Jack Nicholson. Podemos notar logo em sua primeira aparição, quando grita de alegria ao tirar a algema e dá um beijo no guarda antes de entrar dançando pelo corredor, que seu trabalho é perfeito. O filme é dele. Sua atuação é tão espetacular que fica até difícil destacar algum momento em especial. Solto, alegre, perfeccionista, Jack trabalha em cada pequeno detalhe da composição do personagem, como podemos notar no tom de voz baixo enquanto conversa com o médico, o olhar que nunca se fixa em um ponto, o pigarro na garganta, o sorriso com o que o médico fala e o soco na mesa quando o médico menos espera, para matar uma mosca talvez. Jack é competente também ao mostrar sua alegria quando ouve o Chefe falar pela primeira vez, mostrando a felicidade de McMurphy ao perceber que existe alguém ali parecido com ele, que não se enquadra naquele lugar e não se conforma em aceitar aquele destino. Nos momentos tristes e tensos, o ator se mostra igualmente talentoso, como na hora da medicação em que ele olha cinicamente para a enfermeira, e na cena em que parte pra cima de Ratched após a morte de Billy. O embate entre os dois, aliás, é um prato cheio para mostrar o talento de Jack e Fletcher. Repare como ele ri do gesto que Harding (William Redfield) faz quando pergunta se é marica. Ele repete o gesto e gargalha da discussão, mas lentamente vai ficando sério e percebendo que o problema daquelas pessoas é maior do que ele pensava. No final da cena, McMurphy e Ratched se olham fixamente. Os dois sabem que enfrentarão problemas. Louise Fletcher, aliás, é muito competente ao transmitir toda a firmeza e rigidez de Ratched. Seu olhar intimida e sua frieza na solução dos problemas chega a ser espantosa. Na citada cena da votação, ela sorri levemente com o resultado, como quem está só comprovando algo que já sabia que aconteceria. Os métodos da enfermeira Ratched são frios, cruéis até, mas ela acredita ser a forma correta de liderar e controlar aquele grupo e, apesar de entender as razões de Ratched, não somos obrigados a concordar com estes métodos. A presença de McMurphy representa o caos naquele grupo, já que ele tem as atitudes inesperadas, quebra a rotina e ativa um lado praticamente adormecido naquelas pessoas, o que gera um problema para ela. Por outro lado, não podemos considerar que a enfermeira seja uma má pessoa, como fica comprovado na reunião dos médicos em que Ratched diz querer ficar com McMurphy e não simplesmente passar o problema adiante.

Um Estranho no Ninho foto 2

O restante do elenco não fica atrás da dupla principal. A primeira discussão em grupo gera uma gritaria e histeria geral, mostrando a loucura do grupo e nos situando no ambiente. Brad Dourif é, talvez, o maior destaque entre eles. Sua gagueira ao falar mostra a timidez de Billy e seu final trágico é marcante, com sua atuação fantástica no momento em que é levado para a sala, explodindo em raiva e medo (Ratched olha firme para McMurphy, culpando-o). Danny DeVito, como Martini, também se destaca, praticamente fechando os olhos pra falar e quase sempre olhando pra baixo, mostrando insegurança. Observe como em uma das reuniões com a enfermeira Ratched, DeVito fica olhando para o chão até ser chamado. Sydney Lassick, como Cheswick, e Christopher Lloyd como Taber, também merecem ser citados. Will Sampson fecha a lista de destaques como o Chefe Bromden, sempre com o olhar disperso e com os movimentos lentos. Repare como lentamente ele mostra que gosta de McMurphy, como na cena em que ri após o amigo pular a cerca, ou com sua alegria no jogo de basquete e, mais claramente, quando se envolve na briga de McMurphy com os enfermeiros.

A excelente montagem de Sheldon Kahn e Lynzee Klingman capta todo o elenco, destacando todas as belas atuações. Observe, por exemplo, como a montagem consegue mostrar alternadamente todos os presentes nas cenas de discussão em grupo sem soar picotada. A direção de fotografia (direção de Haskell Wexler) e os figurinos (mérito de Aggie Guerard Rodgers) utilizam muito a cor branca, que teoricamente deveria passar uma sensação de paz, mas que naquele ambiente estranhamente nos causam uma sensação de isolamento. A clássica e melancólica trilha sonora talvez colabore para esta sensação, funcionando muito bem naquele ambiente triste.

Extremamente emocionante, o filme conta com algumas cenas belíssimas e tocantes. A comovente cena do jogo de beisebol mostra o primeiro conflito evidente provocado por McMurphy e conta com uma narração convincente de Nicholson. A divertida cena da pescaria também é linda, principalmente por seu simbolismo. Apesar de contar com boas intenções, talvez o que os médicos não tenham percebido é que, mais do que regras e controle, aquelas pessoas precisavam mesmo é de carinho. O longa conta ainda com alguns momentos de alivio cômico, sendo o melhor deles quando McMurphy volta da enfermaria fazendo uma brincadeira com o grupo. Contém ainda uma crítica implícita ao cruel sistema destas casas de recuperação, quando o enfermeiro diz pra McMurphy que na cadeia ele sairia em breve (68 dias), mas lá ele só sai quando eles quiserem. Por outro lado, alguns dos pacientes poderiam deixar o local, mas não o fazem, o que reforça a tese da prisão psicológica do início desta crítica.

Um Estranho no Ninho foto 4

Ao se aproximar do final, “Um Estranho no Ninho” nos apresenta sua face mais cruel. A festa de despedida de McMurphy representou uma liberdade que o grupo não tinha por motivos óbvios. Talvez o que faltava naquele ambiente era mesmo um pouco de alegria, mesmo que não fosse daquela forma exagerada. Todo o terceiro ato, com o suicídio de Billy, a briga coletiva, a tentativa de McMurphy de assassinar Ratched, a morte de McMurphy e a fuga do Chefe têm um grande impacto e elevam ainda mais a qualidade do filme. Na seqüência final Will Sampson transmite muita emoção quando olha para McMurphy sorridente e, ao ver as cicatrizes do amigo, seu sorriso some. Ele o abraça comovido e toma a atitude que entende ser a melhor naquela situação, pois não agüentaria sair de lá sabendo que a pessoa que lhe trouxe a coragem para mudar sua vida ficaria ali daquela forma para sempre.

Ao ver o Chefe Bromden sair correndo pelo campo, sentimos um misto de alegria e tristeza. A morte de McMurphy serviu para despertar o inconformismo naquelas pessoas e levar pelo menos uma delas a sair daquela situação. Se por um lado não podemos condenar os métodos adotados pela instituição para controlar o grupo, por outro não podemos negar que é bom ver alguém que simplesmente não aceita esta imposição, tendo coragem de levantar uma bandeira e lutar por algo melhor. A lição maior que eu particularmente extraí do lindo drama “Um Estranho no Ninho” é que devemos sempre ficar atentos aos nossos direitos e lutar por eles, independente do lugar em que estamos. 

Um Estranho no Ninho 

Texto publicado em 26 de Outubro de 2009 por Roberto Siqueira

O EXORCISTA (1973)

(The Exorcist) 

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #14

Dirigido por William Friedkin.

Elenco: Ellen Burstyn, Linda Blair, Jason Miller, Max Von Sydow, Lee J. Cobb, Kitty Winn, Jack MacGowran, William O’Malley, Barton Heyman, Peter Masterson, Gina Petrushka, Robert Symonds, Thomas Birmingham e Mercedes McCambridge (voz).

Roteiro: William Peter Blatty, baseado em livro de William Peter Blatty.

Produção: William Peter Blatty.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Para algumas pessoas – como eu – poucos temas são capazes de provocar medo como os relacionados aos espíritos. Por isso mesmo, confesso que dos filmes recentes de suspense que eu assisti, os que mais me agradaram tinham este tema em comum (“O Chamado” e “Os Outros”). Em “O Exorcista”, clássico dirigido por William Friedkin, este tema foi explorado com absoluta competência, provocando um frio na espinha da maioria dos espectadores e criando um festival de imagens que são capazes de atormentar a mais incrédula das pessoas.

A atriz Chris MacNeil (Ellen Burstyn) começa a perceber gradativamente que sua pequena filha Regan MacNeil (Linda Blair) está tendo um comportamento bastante estranho. Após frustradas tentativas de curar a garota procurando a ajuda de médicos, psiquiatras e até mesmo através da hipnose, ela se rende à ajuda do padre Karras (Jason Miller), que chega à conclusão de que a menina está possuída pelo demônio e precisa de um ritual que já não é mais utilizado nos dias de hoje, chamado exorcismo.

Friedkin inicia o filme mostrando o cotidiano do experiente Padre Merrin (Max Von Sydow), que está fazendo escavações no Iraque. Durante estas escavações, Merrin acaba se encontrando com uma estátua macabra no alto de um monte. O plano final desta seqüência no Iraque, com o pôr-do-sol avermelhado, remete ao inferno. Em seguida, o diretor nos ambienta profundamente no relacionamento entre Chris e Regan, mostrando imagens das duas brincando e conversando na cama (neste plano vemos o rosto de Regan em close, o que dá a exata noção do contraste quando ela está possuída). Desta forma, ele cria empatia entre o espectador e aquela família, o que aumenta ainda mais o drama quando Regan começa a dar sinais de mudança em seu comportamento. O diretor também é inteligente ao nos situar nos problemas da família, como no plano em que Chris tenta falar com o pai de Regan e discute com a operadora de telefone. A câmera lentamente se afasta até mostrar Regan ouvindo a conversa escondida. A falta do pai seria utilizada como justificativa posteriormente para a mudança de comportamento da garota. Além disso, lentamente Friedkin vai introduzindo elementos que nos mostram sinais do que aconteceria depois, como a cama balançando freneticamente, a reação de Regan nos exames e os palavrões que a garota começa a falar. Finalmente, somos apresentados ao sofrimento do Padre Karras ao ver sua mãe doente, que também terá reflexo no restante da narrativa.

Vale dizer que todo este cuidadoso primeiro ato é mérito também do excelente roteiro de William Peter Blatty (baseado em livro do próprio Blatty). O roteiro desenvolve muito bem os personagens e seus dramas familiares, o que colabora com o nosso envolvimento no filme. É também corajoso ao trabalhar muito bem questões delicadas como a vida pessoal dos padres, normalmente vistos como pessoas acima do bem e do mal, mas que são seres humanos normais, que têm defeitos, medos e enfrentam problemas pessoais como qualquer um. Observe, por exemplo, este trecho de uma das conversas entre Chris e Karras: (Chris: “Padres sabem guardar segredo?” / Karras: “Depende.” / Chris: “Do que?” / Karras: “Do Padre.”). Não é por ser padre que uma pessoa é ou não é confiável, isto depende exclusivamente da pessoa. Blatty conseguiu ainda ilustrar de forma correta o conflito comum entre a medicina e a religião, através do ceticismo dos médicos no início do tratamento da garota. Finalmente, o filme jamais abre espaço para o humor, o que soaria falso e deslocado, a não ser pela repetição da piada sobre o filme que está passando no cinema no final do filme, já quando o espectador está mais relaxado.

Também colabora sensivelmente para o sucesso do longa o talentoso elenco dirigido por Friedkin. Ellen Burstyn e Linda Blair mostram uma boa química no início, o que serve até como comparação para a incrível transformação que ambas sofrerão durante o restante do filme. Regan, sempre sorridente, e Chris, sempre carinhosa, vão lentamente se transformando em pessoas completamente diferentes por razões distintas. Burstyn é extremamente competente, por exemplo, ao demonstrar sua comoção com a notícia da morte de Burke, chorando escandalosamente e com as mãos trêmulas. Seu desespero para tentar curar a filha é tocante, apelando para toda e qualquer ajuda vinda dos médicos, psiquiatras ou até mesmo de um especialista em hipnose. Observe sua reação ao ouvir a sugestão de um médico para procurar o exorcismo (e aqui ele dá uma explicação técnica para o sucesso do ritual, mostrando novamente que a medicina não tolera a explicação religiosa). Ela olha assustada para todos na mesa, mudando o foco do olhar da direita para a esquerda e vice-versa, tentando entender o que era aquilo. Finalmente, Burstyn completa sua transformação na cena em que expõe todo seu sofrimento ao gritar para o padre Karras que ela reconheceria sua filha de qualquer jeito (“Aquela coisa lá em cima não é minha filha!”). A atriz é muito competente na transmissão da dor e do desespero de Chris. Da mesma forma, Linda Blair também merece destaque pela excelente performance como Regan MacNeil. Inicialmente meiga e apegada à mãe, a garota lentamente se transforma num verdadeiro monstro, e o desempenho de Blair cresce consideravelmente quando está possuída. Aterrorizante, o resultado final de sua transformação é mérito também da excelente maquiagem e dos sensacionais efeitos sonoros, como podemos observar na primeira vez que a garota fala com a voz alterada. Jason Miller consegue transmitir muito bem o drama vivido pelo Padre Karras, que tem uma vida extremamente complicada. Localizada em um bairro pobre (as ruas pichadas e cheias de lixo mostram o bom trabalho de Direção de Arte), a velha e desorganizada casa reflete seu estado psicológico, seriamente afetado pela doença de sua mãe. A relação com a mãe, aliás, é algo muito importante para Karras. Talvez pelo fato de não ser casado, ela se tornou sua única companheira. Um dos seus bons momentos acontece quando Chris fala sobre exorcismo e ele pergunta espantado: “Como é?”. Completando o elenco principal, Max Von Sydow oferece uma ótima atuação como o experiente Padre Merrin, que encontra o seu destino no quarto de Regan e reforça o primeiro ato do filme, dando um peso maior à forte cena do exorcismo. Sydow é extremamente competente na criação do clima perfeito para o ritual, transmitindo ao espectador o perigo que aquilo representa, por exemplo, quando está rezando no banheiro.

Além do talentoso elenco, “O Exorcista” conta ainda com um apurado trabalho técnico que aumenta ainda mais o clima de suspense. Observe como a fotografia (Direção de Owen Roizman e Billy Williams) começa a escurecer na medida em que Regan começa a dar sinais de estar possuída. Com o passar do tempo, a fotografia se torna ainda mais sombria, ajudada também pela paleta granulada que torna a imagem menos nítida. Friedkin aumenta a sensação de horror ao jogar imagens demoníacas que piscam rapidamente na tela. O ótimo trabalho de som também colabora para criar o clima perfeito, como na cena em que podemos ouvir os barulhos no sótão da casa de Regan. O som ajuda também nos sustos causados na platéia, como na cena em que Chris investiga a origem dos barulhos na casa, além de funcionar perfeitamente nas cenas em que Regan está possuída.

Ao contrário de filmes como “Tubarão”, onde o suspense é muito mais psicológico, “O Exorcista” aposta no visual para causar medo no espectador. De maneiras diferentes, os dois filmes conseguem sucesso. Quando Regan desce as escadas no meio de uma festa, diz uma frase macabra e faz xixi no chão, o espectador percebe o nível das assustadoras cenas que vai presenciar. E a coleção de cenas aterrorizantes é enorme. Regan vira a cabeça completamente para trás, desce a escada de costas com as mãos e os pés apoiados nos degraus (na famosa cena conhecida como a “menina-aranha”), agride sua própria genital com um crucifixo dizendo palavras obscenas, levita sobre a cama e move objetos para tentar agredir quem entra em seu quarto, entre outras cenas impressionantes.

Assustador e repleto de imagens chocantes, “O Exorcista” faz ainda um excelente estudo sobre a perda da fé. Observamos pessoas completamente diferentes e que enxergam a fé de formas ainda mais distantes, alterarem suas vidas após serem atingidos por tragédias particulares. O Padre Karras, completamente modificado após a perda da mãe, enxerga no drama de Chris a possibilidade de se reencontrar com sua fé. Chris, que segundo ela mesma não tem religião, se entrega à fé para tentar salvar sua pequena filha. E o Padre Merrin, mesmo com toda sua experiência na vida religiosa, tem sua fé realmente testada dentro do quarto de Regan.

Extremamente visual sem se descuidar de seu conteúdo, “O Exorcista” é um filme aterrorizante, com imagens fortes e boas atuações. Seu roteiro coeso aborda a complicada possessão da garota de forma lenta, elevando a tensão a níveis extremos de maneira inteligente. Acredite ou não em espíritos ou demônios e, independente de qual seja a sua fé, o espectador jamais sai indiferente ao filme. Goste ou não, é impossível não respeitar a qualidade do trabalho realizado e o resultado alcançado.

Texto publicado em 15 de Outubro de 2009 por Roberto Siqueira

O GRANDE DITADOR (1940)

(The Great Dictator)

 

Filmes em Geral #21

Filmes Comentados #7 (Comentários transformados em crítica em 23 de Outubro de 2010)

Dirigido por Charles Chaplin.

Elenco: Charles Chaplin, Jack Oakie, Paulette Goddard, Reginald Gardiner, Henry Daniell, Maurice Moscovich e Billy Gilbert.

Roteiro: Charles Chaplin.

Produção: Charles Chaplin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Chaplin abandonou de vez o cinema mudo nesta corajosa sátira de Hitler, realizada apenas um ano depois do inicio da segunda guerra mundial, recheada de bom humor e com um forte subtexto crítico. Ao realizar “O Grande Ditador”, ele demonstrou sua extrema coragem e genialidade, mostrando ao mundo os absurdos do nazismo antes mesmo que alguns países, como os Estados Unidos, entrassem na guerra.

Um judeu (Chaplin) salva um piloto alemão (Reginald Gardiner) durante a segunda guerra, mas perde a memória na queda do avião em que ambos estavam quando fugiram do campo de batalha. Ao voltar para casa, ele encontra um mundo completamente diferente, agora dominado pelo ditador Hynkel (Chaplin também), ao mesmo tempo em que volta a conviver com seus compatriotas, como a bela Hannah (Paulette Goddard).

Como diz a primeira frase de “O Grande Ditador”, qualquer semelhança entre o ditador e o barbeiro judeu é meramente proposital, o que será a chave para o belíssimo final do filme. O roteiro escrito por Chaplin, além de extremamente corajoso ao claramente criticar Hitler no auge de seu domínio, ainda conta com frases interessantes que demonstram bem como funciona o raciocínio dos grandes ditadores, como a dica de um assistente dada a Hynkel (“Alimente o ódio aos judeus e eles esquecerão o estômago”) e o mundo sonhado pelo nazismo, repleto de “loiros com olhos azuis”. A conversa sobre a intenção de fazer com que a raça ariana dominasse o mundo, aliás, leva à cena mais famosa do longa, em que Hynkel brinca com o globo terrestre e chora quando este explode em suas mãos. Esta famosa cena é recheada de simbolismo, pois Hitler, assim como Hynkel, pensava dominar o planeta e ter o direito de brincar com ele. A história provou que não é bem assim que as coisas funcionam. Que os líderes de hoje em dia pensem nisso também. É interessante notar ainda como o roteiro reflete bem a forma arcaica e despreparada de pensar do ditador. Quando informado que existem trabalhadores descontentes, ele manda fuzilar todos (“Não quero trabalhadores descontentes”, afirma). Estatisticamente ele poderia ter sucesso, mas com certeza esta é uma solução idiota para o problema. Outra crítica sutil e inteligente acontece na cena em que o barbeiro judeu (Chaplin), que perdeu a memória, volta para sua barbearia. Os alemães chegam imponentes ao local, certos de que ele vai obedecer, mas ele não entende o que deve fazer e os ignora. A mensagem é clara. Qualquer pessoa que saísse da terra e voltasse no meio da guerra também acharia uma loucura o que se fazia com o ser humano naquela ocasião.

Mas nem só de críticas vive “O Grande Ditador”. O bom humor característico de Chaplin aparece em muitas cenas, como na fuga do barbeiro num avião, em sua experiência num tanque de guerra, no divertido desfile do exército da Tomania e na calorosa discussão dos ditadores no Buffet. E ainda que não tenham o mesmo espaço de outrora neste primeiro filme falado de Chaplin, as gags aparecem, como quando o vagabundo se esconde dentro de um baú numa fração de segundos ou quando Hynkel é derrubado da escada por Herring (Billy Gilbert). Vale citar também a engraçada tradução do discurso de Hynkel feita por uma assistente numa máquina de escrever. Finalmente, existem as cenas em que crítica e humor se misturam com perfeição, como aquela em que a moeda no pudim apontaria quem deveria morrer pela libertação dos compatriotas. A divertida seqüência revela as verdadeiras intenções de cada integrante do grupo, pois, na realidade, ninguém queria ser mártir de verdade (e quem quer?). Apesar de o discurso ser belo, na prática não é assim que funciona. E repare como no fim do jantar, Chaplin discretamente recolhe as moedas da mesa e as coloca no bolso, revelando as sutilezas de sua grande atuação.

Sem tanto espaço para as famosas gags que fizeram sua fama devido ao fato de ser um filme falado, Chaplin demonstra sua qualidade como ator alternando muito bem entre a eloqüência de Hynkel, sempre agitado, sisudo e com olhar superior, e a simplicidade do barbeiro, sempre tranqüilo e até mesmo amedrontado diante daquela situação. Além disso, Chaplin fala um “alemão” debochado, que funciona muito bem como elemento de humor, satirizando explicitamente a forma de discursar de Hitler – todos sabem que não é alemão de verdade, apenas uma forma eficiente de fazer piada. Ele tosse, engasga, grita, faz careta e arranca boas risadas do espectador, ao mesmo tempo em que alfineta o tirano alemão, em plena segunda guerra mundial. Também se destaca a boa atuação de Jack Oakie, como o ditador Benzino Napaloni, de Bactéria, que satiriza Mussolini (repare no sotaque italiano de seu inglês). Extrovertido, ele completa com perfeição a grande atuação de Chaplin, agindo com espontaneidade diante de toda aquela pompa do palácio de Hynkel. Com seu jeito falastrão, nada parece intimidar o agitado ditador bacteriano, como podemos notar na conversa preparada especialmente para colocá-lo em posição inferior a Hynkel. A cena em que os dois tentam intimidar um ao outro subindo as cadeiras é sensacional. Boa também é a atuação de Billy Gilbert como o marechal de campo Herring. Observe, por exemplo, o leve sorriso de satisfação dele no desfile do exército da Tomania e a transformação de seu rosto quando Napaloni começa a questionar tudo que é mostrado. Paulette Godard se sai bem na pele da determinada Hannah, demonstrando sua fibra e coragem através do olhar penetrante, da voz sempre firme e rápida e, principalmente, dos gestos corajosos, como quando reage sozinha aos abusos dos soldados alemães contra os comerciantes judeus. E finalmente, Reginald Gardiner interpreta Schultz, com destaque para o momento em que diz para Hynkel o que pensa sobre suas políticas, num discurso que critica ferozmente os ideais nazistas. Considerado um traidor, acaba preso e, após fugir e ser capturado no gueto junto com seu amigo judeu que o salvou na guerra, é enviado aos campos de concentração. Esta atitude intempestiva de Hynkel será crucial para o desfecho da trama.

Chaplin também se destaca na direção de “O Grande Ditador”, com belos movimentos de câmera, como quando os judeus se escondem dentro de casa e o plano termina com um passarinho preso na gaiola, simbolizando a perda da liberdade daquele povo. Chaplin também acerta ao filmar o ditador em ângulo baixo diversas vezes, demonstrando visualmente o poder daquele homem, algo também ilustrado através de pequenos detalhes, como o fato dele sequer abrir as portas de seu palácio, relegando esta tarefa aos soldados colocados em cada passagem. O diretor ainda utiliza muito bem o close para enfatizar as emoções dos personagens, como no discurso pré-invasão do gueto de Hynkel ou nas lágrimas emocionadas de Hannah ao escutar as palavras de esperança no último plano do longa. Em outro plano bem realizado, o barbeiro judeu conversa com Hannah sobre sua preferência pela vida no campo em detrimento das poluídas cidades, enquanto a cidade está em chamas ao fundo. Destaca-se também o plano geral em que podemos ver o barbeiro sendo cercado no meio da rua por dezenas de soldados nazistas, além da linda cena em que Chaplin barbeia um senhor no ritmo da música, onde som e imagem se completam. Ainda na parte técnica, os figurinos e a direção de arte de J. Russell Spencer ajudam muito na alusão ao nazismo, trabalhando em pequenos detalhes, como os símbolos dos uniformes, que não são idênticos, mas claramente fazem referência à suástica de Hitler. Além disto, a direção de arte capricha no palácio de Hynkel, demonstrando toda a imponência do local através da estrutura alta e dos longos corredores por onde as pessoas passam. A montagem de Willard Nico intercala muito bem as duas linhas principais da narrativa, divididas entre as decisões de Hynkel e o reflexo delas no gueto, além de saber indicar a passagem do tempo sem que esta soe episódica, como quando a teia espalhada pela barbearia indica o longo tempo que o barbeiro esteve fora. Também colabora com a clara divisão da narrativa a fotografia de Karl Struss e Roland Totheroh, que diferencia o ambiente sombrio da vida no gueto da clara e iluminada vida no palácio. Finalmente, a trilha sonora composta por Chaplin pontua muito bem as cenas, como quando a música indica a felicidade da família de Hannah na chegada a Österlich.

O apaixonado discurso do barbeiro judeu no final de “O Grande Ditador” resume muito bem a mensagem do filme. A inteligente situação criada através da inversão de papéis, que remete elegantemente à frase inicial do longa, representava uma oportunidade única para o judeu (e para Chaplin), expressada através das palavras de Schultz (“Você tem que falar, é nossa última esperança”). Chaplin não perdeu a oportunidade e deu sua mensagem humanista ao mundo de forma inteligente, bem humorada e marcante. Palmas pra ele.

PS: Comentários divulgados em 13 de Outubro de 2009 e transformados em crítica em 23 de Outubro de 2010.

Texto atualizado em 23 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

HOOLIGANS (2005)

(Green Street Hooligans)

3 Estrelas 

Filmes em Geral #97

Filmes Comentados #6 (Comentários transformados em crítica em 21 de Dezembro de 2012)

Dirigido por Lexi Alexander.

Elenco: Elijah Wood, Claire Forlani, Charlie Hunnam, David Alexander, Leo Gregory, Marc Warren, Joel Beckett, Geoff Bell, Kieran Bew, David Carr, Brendan Charleson, Jacob Gaffney, Henry Goodman, Christopher Hehir, Terence Jay e Ross McCall.

Roteiro: Dougie Brimson, Lexi Alexander e Josh Shelov.

Produção: Deborah Del Prete, Gigi Pritzker e Donald Zuckerman.

Hooligans[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um tema muito interessante é discutido de forma duvidosa neste “Hooligans”, filme em que o diretor Lexi Alexander perde uma boa oportunidade de explorar melhor o universo das torcidas organizadas. Apesar de tentar ilustrar a visão peculiar destes integrantes de torcidas, Alexander parece evitar tratar o tema com a seriedade que ele merece, buscando justificativas para cada ato e, desta forma, esvaziando bastante a discussão que o longa poderia suscitar. É uma pena, ainda mais se considerarmos a escassez de filmes a respeito.

Escrito pelo próprio Alexander ao lado de Dougie Brimson e Josh Shelov, “Hooligans” tem inicio quando Matt Buckner (Elijah Wood) decide visitar a irmã Shannon (Claire Forlani) em Londres após ser expulso injustamente da Universidade de Harvard. Assim que chega à capital inglesa, ele faz amizade com o cunhado Pete (Charlie Hunnam), que lhe apresenta aos integrantes de uma temida torcida local. Em pouco tempo, Matt passa a conhecer melhor e se envolver neste universo marcado pela violência.

Apesar da premissa interessante, o roteiro de “Hooligans” escorrega em tantos aspectos que fica até difícil citar todos eles. Indo desde diálogos fraquíssimos como aquele em que Pete e Matt debatem sobre as diferenças entre seus países, passando pela ridícula brincadeira com o Sr. Miyagi (como o jovem Matt poderia inspirar um filme de 1984 é algo que nunca compreenderei) e chegando ao diálogo expositivo entre Matt e Shannon que só serve para nos mostrar os conflitos da família e a razão da garota morar em Londres, o roteiro é um verdadeiro festival de problemas. Observe, por exemplo, como o diário de Matt é citado somente após uma hora de projeção e praticamente na cena seguinte já tem uma função importante na narrativa, revelando uma falta de cuidado preocupante dos roteiristas. Pra finalizar, é difícil entender como Shannon, mesmo casada e já com um filho, nunca contou para o marido que o irmão estudava jornalismo em Harvard. Por mais que estivessem distantes, ter um irmão estudando em Harvard é algo que qualquer pessoa se orgulharia de contar, portanto, fica evidente que esta “revelação” surge apenas para justificar o conflito antecipado entre as torcidas rivais num bar.

Bares (ou pubs) que surgem logo no início, quando Alexander tenta criar empatia entre o grupo e o espectador ao mostrá-los reunidos, tomando cerveja e cantando as músicas da torcida – só que a lembrança da primeira cena de “Hooligans” nos recorda que eles não são tão amáveis assim. Mas se acerta ao aproximar o grupo da plateia, Alexander erra justamente nas cenas que deveriam ser a força central da narrativa. Com sua câmera trêmula, cortes rápidos e a trilha sonora acelerada de Christopher Franke, o diretor deixa claro desde a primeira briga que não tem grande controle da misé-en-scene. Já o segundo confronto, apesar de também ser agitado, é melhor que o primeiro, com cenas mais realistas e menos picotadas. Entretanto, ao utilizar menos quadros por segundo para acelerar a imagem, Alexander torna a briga tão confusa que chega a provocar náuseas na plateia. Ao menos a briga em Manchester é bastante realista quanto às agressões e os ferimentos, apesar de ser implausível (como um pequeno grupo venceria 40 homens daquela forma?). Por outro lado, a sequência da invasão do bar no esperado confronto entre os torcedores do West Ham e do Millwall é bastante tensa e bem conduzida pelo diretor.

Reunidos tomando cerveja e cantando as músicas da torcidaBriga em ManchesterInvasão do barMas Alexander não erra sozinho. A montagem de Paul Trejo também falha bastante ao cortar muitas cenas de forma abrupta, não deixando o espectador curtir o momento, como ocorre, por exemplo, quando os garotos freiam um trem e, repentinamente, já estamos acompanhando o grupo descendo as escadas correndo. Por outro lado, a montagem se destaca no sorteio dos grupos da FA Cup, onde podemos acompanhar todos em seus respectivos postos de trabalho ansiosos e a explosão de alegria com o resultado, que dá a exata noção da importância do confronto. Vale destacar ainda a fotografia azulada de Alexander Buono, que ilustra a frieza daqueles personagens, assim como as ruas sujas evocam uma Londres coerente com o submundo dos hooligans, o que é mérito do design de produção de Rosanna Weswood – repare também a sigla da torcida GSE (Green Street Elite) pichada na parede do banheiro do bar, num capricho que confirma o bom trabalho dela.

Se não conseguem compensar as falhas do roteiro, as atuações também não comprometem em nada a narrativa. Inicialmente inexpressivo como o personagem deve ser, Elijah Wood se transforma ao longo de “Hooligans” e consegue transmitir o envolvimento de Matt com aquele mundo de maneira convincente. Assim, se no principio ele sequer tem forças para lutar contra o colega influente que o incrimina em Harvard, com o passar do tempo Matt passa a reagir diante das provocações de Bovver e até mesmo demonstra o ressentimento diante do pai ausente, numa conversa direta que termina com Carl Buckner (Henry Goodman) desistindo de falar algo para o filho, se limitando a abraçá-lo por saber que de nada adiantaria tentar mudar seu pensamento agora. Vale citar ainda dois bons momentos de Wood. O primeiro quando Shannon diz que ele está fazendo o correto ao decidir voltar para os EUA, mas seu olhar fixo para a janela demonstra que seu pensamento está em outro lugar; e o segundo no ótimo diálogo com o Major (Marc Warren) dentro do bar, que apresenta um pouco do valor moral e ético que tanto falta ao restante da narrativa.

Chorando praticamente o tempo inteiro, a Shannon de Claire Forlani tem raros momentos de destaque, como quando se revolta com o cunhado após o ataque ao seu marido ou quando cerra a sobrancelha sutilmente ao ouvir Matt explicar sua expulsão de Harvard, como se estivesse duvidando da versão do irmão. Por sua vez, Geoff Bell demonstra a agressividade de Tommy Hatcher desde sua excelente introdução num restaurante, na qual a mulher que acompanha o rapaz agredido comete o grave erro de incitá-lo a responder às provocações dele. Mas nem mesmo isto impediu que Bovver traísse seu grupo e, o que é pior, por motivos nada convincentes, já que seu ciúme diante da amizade entre Pete e Matt e sua desconfiança do americano não justificam esta atitude extrema. Leo Gregory, aliás, tem um bom desempenho como Bovver, com seus poucos sorrisos, olhar desconfiado e postura defensiva típica de quem carrega uma fúria interior, que tornam o personagem crível apesar do fraco roteiro.

No entanto, quem rouba a cena mesmo é Charlie Hunnam na pele do despojado Pete Dunham. Falastrão e destemido, ele intimida ao mesmo tempo em que chama a atenção desde sua primeira aparição na casa de seu irmão, quando chega com as mãos no bolso e já abrindo a geladeira, evidenciando seu estilo de vida despreocupado. Violento ao extremo, ele também encontra espaço para a gentileza ao ceder o lugar para uma mulher no metrô, demonstrando um curioso código de ética que remete aos mafiosos, reforçado pelo diálogo em que afirma gostar de brigar, mas não de sair atirando na rua e matando meninas de oito anos como fazem as gangues norte-americanas. Mas nem mesmo frases como “não se chuta alguém que está caído, independente do que ele tenha feito” servem para amenizar as péssimas ações de sua torcida, é bom deixar claro.

Sorteio dos grupos da FA CupPensamento está em outro lugarArrependido Bovver desabaUm dos grandes momentos da atuação da dupla Hunnam e Gregory acontece dentro do hospital, na realista discussão em que Pete demonstra sua ira, enquanto um arrependido Bovver desaba, seguida pela reação descontrolada de Shannon, que agride o cunhado enquanto este sequer esboça reação, por saber que ela tinha todos os motivos do mundo para ter raiva dele. Motivos que faltam para justificar a ida de Shannon ao local do confronto final. Apesar de amar o irmão, dificilmente alguém arriscaria a vida de seu filho daquela forma entrando numa briga de torcidas organizadas.

Escorregando principalmente na questão ética ao justificar atos de vandalismo através de questões pessoais, “Hooligans” parece tentar maquiar a triste realidade: essas torcidas não precisam de motivos para fazer o que fazem. Se terminasse na ida dos irmãos para o Aeroporto após a morte de Pete, o filme até poderia provocar uma interessante reflexão sobre este universo violento, mas infelizmente a desnecessária vingança de Matt contra Van Holden (Terence Jay) e o plano final com ele cantando pelas ruas parecem exaltar a experiência que ele viveu no hooliganismo, o que é muito ruim. Seria mais interessante e daria uma densidade maior ao que vimos se ele refletisse sobre tudo que perdeu somente por que um grupo de pessoas quer brigar com outro grupo. E o que é pior, por causa de um time de futebol.

PS: Comentários divulgados em 05 de Outubro de 2009 e transformados em crítica em 21 de Dezembro de 2012.

Hooligans foto 2Texto atualizado em 21 de Dezembro de 2012 por Roberto Siqueira

DOZE HOMENS E UMA SENTENÇA (1957)

(12 Angry Men) 

5 Estrelas 

Obra-Prima 

Videoteca do Beto #13

Dirigido por Sidney Lumet.

Elenco: Henry Fonda, Lee J. Cobb, E. G. Marshall, Jack Klugman, Ed Begley, Martin Balsam, John Fiedler, Ed Binns, Jack Warden, Joseph Sweeney, George Voskovec, Robert Webber. 

Roteiro: Reginald Rose. 

Produção: Henry Fonda e Reginald Rose. 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

“É sempre difícil deixar o preconceito fora de uma questão dessas. Não importa pra que lado vá, o preconceito sempre obscurece a verdade”. A poderosa frase dita por um personagem chave em determinado momento da trama resume bem a mensagem principal deste filme absolutamente corajoso, envolvente e surpreendentemente original. Filmado quase que em sua totalidade dentro de uma única sala (somente 3 minutos acontecem fora dela), “Doze Homens e uma Sentença” é a prova de que um filme pode sim ser do mais alto nível sem a necessidade de grandes investimentos, apenas utilizando a criatividade e o talento.

Doze jurados têm a responsabilidade de decidir se um jovem garoto, acusado de matar o próprio pai, é culpado ou inocente. Com base na enorme quantidade de provas apresentadas pela promotoria, onze deles têm absoluta certeza de que o menino é culpado. Mas um dos jurados não pensa desta forma. Como a lei exige unanimidade na decisão, todos tentarão argumentar para convencer o último jurado de que eles têm razão.

A obra-prima de Lumet nos leva inicialmente ao tribunal onde o julgamento do garoto está acontecendo. Minutos depois, somos transportados, junto com os atores, para dentro da sala onde a importante decisão será tomada. O close no garoto antes de nos jogar dentro dela, auxiliado pela lenta e triste trilha sonora, nos lembra o que está em jogo naquele momento. Um dos grandes méritos do filme, aliás, é que o roteiro de Reginald Rose nunca nos diz se o garoto é de fato inocente ou culpado. Mesmo assim, a perfeita argumentação de apenas um jurado é suficiente para nos fazer concordar com ele logo no início do filme. Desta forma, quando a segunda votação proposta pelo personagem de Henry Fonda tem inicio, nos pegamos torcendo para alguém ter escrito “não culpado” no papel, pois os argumentos apresentados por ele foram convincentes e nos provam que não temos a certeza necessária para acusar o menino.

A direção de Lumet é absolutamente competente na direção de atores, evitando que o filme se torne maçante (o que seria compreensível em um filme que se passa o tempo todo no mesmo local). Observe como os atores sempre fazem algo para ter um pouco de movimentação em cena, como tirar os casacos, mexer nos óculos, levantar, olhar pela janela, ligar o ventilador ou mudar de posição na mesa. Este absoluto controle da movimentação em cena (misè-en-scene) pode ser observado em detalhes na cena em que um jurado preconceituoso (Ed Begley) começa a fazer seu discurso inflamado contra o garoto. Os outros jurados começam a se levantar e ficar de costas pra ele, demonstrando que não concordam com o que ele fala. A câmera se distancia lentamente, diminuindo o personagem na cena. Simultaneamente, ele vai diminuindo o tom de voz, até ficar desolado e sentar numa cadeira. O elenco atua em conjunto e a cena visualmente é perfeita na tradução do sentimento de todos. Além disso, Lumet explora ao máximo as possibilidades que a situação oferece, utilizando a câmera para nos transmitir sentimentos. Em uma das votações, Lumet vai aproximando lentamente a câmera do imigrante enquanto eles contam nove a três para “culpado”. Quando a câmera está bem próxima, ele muda de opinião e vota inocente. A câmera traduz visualmente o momento em que ele se convence e muda, engrandecendo-o na tela, como se a coragem para mudar estivesse crescendo dentro dele até o ponto de externar esta decisão. Outro detalhe perceptível é que a câmera inicia o longa filmando a maioria do tempo por cima, em plano geral. Com o passar do tempo ela vai descendo e filma os atores pela metade do corpo e quando se aproxima o final do filme, Lumet abusa da utilização de close no rosto deles. Desta forma, o diretor traduz visualmente o aumento da tensão e da sensação de angústia dos jurados. A chuva também é um artifício muito bem utilizado para aumentar esta sensação de incomodo e desconforto, como se eles estivessem se sentindo enclausurados. Finalmente, Lumet capta muito bem as excelentes atuações de todo o elenco. Repare, por exemplo, a cena em que os jurados discutem sobre a velocidade dos passos de uma das testemunhas do caso. Um jurado diz que “um velho daquele jamais saberia precisar esta informação” e a câmera da um close nele exatamente no momento em que percebe ter escancarado seu preconceito, o que se agrava pela presença de um senhor de idade na sala.

É preciso dizer que, para o sucesso absoluto do filme, a excepcional direção de Lumet não seria suficiente. Seria preciso também um elenco extremamente capaz. E felizmente, este é o caso. Isto porque mesmo quando não estão diretamente ligados à cena, os atores estão sempre aparecendo, mesmo que seja em segundo plano, o que os obriga a “atuar” praticamente durante todo o filme. Logo na primeira votação dois detalhes já mostram sutilmente como é o ser humano, graças à fenomenal interpretação coletiva do elenco. Ao perguntar quem considera o garoto culpado, alguns erguem as mãos na hora. Outros aguardam alguns segundos, observam e só depois erguem, claramente seguindo a opinião da maioria sem a menor convicção. Já quando começa a contagem, ao ver que Fonda não ergueu a mão, o rapaz que conta faz uma pausa, mostrando-se impressionado com o voto dele. Todos olham pra ele como forma de intimidá-lo pela atitude tomada. Henry Fonda encabeça o elenco com uma atuação do melhor nível. Inicialmente pensativo, ele vai lentamente mostrando que os seus argumentos são mais do que suficientes para não condenar o garoto. Quando o jurado nº 1 (Martin Balsam) pergunta: “Você não acha que ele é culpado?”, ele responde: “Eu não sei”. Esta é à base do seu argumento, e a grande lição do filme, ou seja, se você não tem certeza absoluta, não pode condenar uma pessoa à morte. Um dos seus grandes momentos acontece logo após a demonstração de que a testemunha não conseguiria correr determinada distância em 15 segundos. Um dos jurados (interpretado magnificamente por Lee J. Cobb) diz que eles estão loucos, sendo convencidos por contos de fadas e deixando o garoto escapar pelas mãos. Ao ser provocado por Fonda, Cobb explode em cena, rangendo os dentes, cerrando os olhos e furiosamente partindo pra cima dele. Fonda, cinicamente, prova que estava certo antes ao afirmar que nem sempre queremos fazer o que dizemos. Lee J. Cobb reafirma seu talento quando altera seu voto, mostrando com muita emoção o motivo de sua posição firme até ali. É até difícil apontar destaques no elenco, já que todos têm atuações de alto nível. O jurado nº 7 (Jack Warden), por exemplo, se mostra logo no inicio como alguém fanático por esporte e que pouco se importa com o que está em jogo. Seu desinteresse fica ainda mais evidente quando muda seu voto sem nenhum motivo plausível, o que gera a revolta do jurado imigrante, interpretado por George Voskovec. John Fiedler, como o jurado nº 2, mostra através da voz sua timidez e insegurança. Martin Balsam conduz a votação com firmeza e se mostra bem justo e convicto de suas opiniões. O jurado nº 4 (E. G. Marshall) também mostra a mesma postura e quando Fonda questiona o que ele fez nos últimos dias, suas respostas são rápidas, como quem quer mostrar que tem certeza do que está falando. Joseph Sweeney, como o jurado nº 9, fala com muita propriedade sobre os motivos que levariam uma testemunha a mentir, numa alusão clara a ele mesmo, que também é um senhor de idade. Observe como ele faz uma pequena pausa quando alguém tosse e depois prossegue no discurso. Estes pequenos detalhes mostram a qualidade da interpretação de todo elenco.

O roteiro de Reginald Rose também tem grande mérito no sucesso do filme. Com diálogos ágeis e sempre interessantes, consegue prender a atenção do espectador em todos os momentos. Aborda também diversos temas polêmicos e escancara preconceitos, o que é bastante válido. Na primeira votação, por exemplo, os jurados começam a explicar porque votaram em “culpado”. E já no primeiro jurado podemos ver um erro que é freqüentemente cometido pelas pessoas, quando ele diz que acha que é culpado porque ninguém provou o contrário. Ora, como diz o personagem de Fonda, o ônus da prova é da promotoria, ou seja, o réu pode ficar calado. Quem tem que provar é quem acusa. Só que infelizmente o ser humano tem a tendência de julgar imediatamente como culpado alguém que é apenas acusado de algo. Outro trecho interessante do roteiro é a cena em que um jurado diz que o menino não sabe nem falar o inglês correto (“He don’t speak good english”. O imigrante corrige: “He doesn’t”). Este trecho irônico mostra que o preconceito dele é idiota, já que o imigrante fala inglês melhor do que ele próprio.

Como se não bastassem todas estas qualidades, “Doze Homens e uma Sentença” propõe ainda uma reflexão interessante no espectador, ao abordar o já citado preconceito de diversas formas diferentes. Temos o preconceito contra a origem da pessoa (um dos homens diz que o cortiço é uma escola de bandidos), contra os imigrantes (o esportista diz: “eles vêm para o nosso país e já querem dar opinião”), o preconceito contra os mais velhos e até mesmo contra os jovens, que é o grande motor da fúria de um dos jurados que havia brigado com o filho e deixou este problema pessoal afetar sua decisão no caso. Em resumo, o filme nos mostra claramente que jamais devemos nos deixar levar pelas aparências. Por tudo isso, podemos dizer que a parte técnica discreta e limitada pelo ambiente único não faz nenhuma falta. O filme é completo e não precisa de mais nada.

Sidney Lumet conseguiu realizar em “Doze Homens e uma Sentença” uma verdadeira aula de cinema, utilizando de forma excepcional o seu talentoso elenco, abusando de sua qualidade como diretor e criando, no fim das contas, uma verdadeira obra-prima. Admiradores do cinema devem saborear este filme singular, que é a prova de que mesmo sem grandes recursos técnicos o cinema pode nos oferecer grandes obras.

PS: Para ver outra crítica interessante do filme no Blog Cinepapo, de meu amigo Augusto, clique aqui.

Texto publicado em 29 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira

CANTANDO NA CHUVA (1952)

(Singin’in the Rain) 

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #12

Dirigido por Gene Kelly e Stanley Donen.

Elenco: Gene Kelly, Donald O’Connor, Debbie Reynolds, Jean Hagen, Millard Mitchell, Douglas Fowley, Rita Moreno, Madge Blake e Cyd Charisse. 

Roteiro: Betty Comden e Adolph Green. 

Produção: Arthur Freed.

 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Qualquer pessoa que nunca assistiu por inteiro “Cantando na Chuva” com certeza já ouviu sua canção mais famosa ou assistiu pelo menos um trecho da belíssima cena que dá nome ao filme, com Gene Kelly literalmente cantando na chuva. Só que o importante e belo musical dirigido pelo próprio Gene Kelly, em parceria com Stanley Donen, além de apresentar excelentes números musicais, ainda mostra com eficiência e bom humor como foi um importante momento da história do cinema: a chegada do som.

Don Lockwood (Gene Kelly) e Lina Lamont (Jean Hagen) são as maiores estrelas de Hollywood, gerando inclusive boatos de que os dois teriam um caso. Seus filmes são sucessos absolutos até que uma novidade chega para abalar as estruturas do cinema mundial. Com a chegada do som, todos na indústria do cinema precisam se adaptar à nova forma de fazer filmes, e nem mesmo os grandes astros terão vida fácil neste difícil momento de transição.

Alegre e extremamente divertido, a comédia romântica conta com um roteiro bem escrito por Betty Comden e Adolph Green, que explora muito bem as possibilidades que a situação oferece. Observe por exemplo o momento em que Lockwood conta que vai fazer um filme sobre a revolução francesa e o seu amigo Cosmo Brown (Donald O’Connor) advinha toda a estória (“Se você viu um filme, viu todos”). Esta crítica sutil à exploração de clichês mostra que o cinema precisava se renovar (algo que caberia hoje às telenovelas, mas o público é muito menos exigente neste caso e engole a repetição de estórias). O roteiro aborda também outro tema interessante, a resistência das pessoas às novidades tecnológicas. O video de exibição do cinema falado causa diversas reações. Alguns acham que o som vai estragar o cinema, outros que o som nunca vai vingar. É comum a rejeição às inovações técnicas no cinema, foi assim também com o filme colorido. Mostra ainda o conflito entre cinema e teatro, resumido no primeiro diálogo entre Lockwood e Kathy Selden (Debbie Reynolds).

A direção da dupla Gene Kelly e Stanley Donen é segura, conseguindo maior destaque nos esplêndidos números musicais (músicas creditadas para Nacio Herb Brown e Lennie Hayton). A dupla é competente também na condução da narrativa, escorregando apenas no número musical sobre a chegada à Broadway que parece deslocado, fora do foco principal da estória. Por outro lado, a excelente montagem de Adrienne Fazan compensa este deslize com outros momentos belíssimos, como a sutil transição entre Kathy e Lina cantando a mesma música (nítida a diferença de qualidade de voz das duas). Podemos ver Kathy ensaiando, Lina ensaiando, Lina cantando com a voz de Kathy ao fundo e finalmente, Lina com a voz de Kathy já na tela do cinema, na exibição teste.

As atuações são, de uma forma geral, extremamente caricatas, como podemos observar nas exageradas expressões do público e da apresentadora na cena inicial na porta do cinema. Em compensação, Gene Kelly demonstra todo o seu talento nos números musicais, além de mostrar qualidade também em outros momentos, como na cena em que coloca a mão em Kathy no carro dela e fala que os astros do cinema são solitários, dando uma olhada de canto de olho pra ver a reação dela. Quando Lina chega à festa, ele olha para o outro lado, mostrando claramente que não a suporta, evidenciando que aquele relacionamento é mesmo somente de fachada, apesar de Lina demorar pra entender isto. Lina Lamont, aliás, é muito bem representada pela excelente Jean Hagen. Ingênua, porém ambiciosa, ela se torna uma espécie de vilã, mas sempre com muita graça. Sua voz irritante e o sorriso escancarado caem bem na personagem. O talento de Hagen pode ser percebido na cena em que colocam um microfone nela. Lina ri ao levar uma bronca, achando que o homem está fazendo graça, sem perceber que estava atrapalhando todo o trabalho. Na cena em que fala do contrato com o produtor ela exala cinismo e mostra que não é tão ingênua quanto parece. Donald O’Connor, como Cosmo Brown, é o mais divertido do elenco. Com falas rápidas e cheio de energia, ele garante o toque de bom humor, como no musical “Make them Laugh”, que hoje pode parecer um pouco ultrapassado, mas na época funcionava bem. Debbie Reynolds completa o elenco como a graciosa e decidida Kathy. Depois de dizer que atores de cinema só faziam caretas, ela revela acidentalmente que na realidade é fã dos filmes e do trabalho de Lockwood logo após ser contratada para trabalhar com ele, em uma cena charmosa. Um dos mais belos momentos do filme acontece quando Lockwood vai se declarar pra Kathy e prepara passo a passo a montagem do cenário. O plano é belíssimo, com o pôr-do-sol artificial ao fundo, ele olhando para ela na escada e o vento batendo nos dois. Este detalhe dos bastidores de uma produção, aliás, é outro ponto positivo do longa. É muito interessante observar como um filme é feito, com o diretor sentado na cadeira, a câmera rodando, a equipe de som, o estúdio, a iluminação e todos os pequenos detalhes de uma produção cinematográfica. Interessante também a pitada histórica perceptível na cena dentro do cinema. Observe como os filmes, ainda sem o som, adotavam frases escritas para mostrar a fala dos personagens e a trilha sonora era tocada ao vivo por uma orquestra embaixo da tela.

Tecnicamente, o filme conta com a direção de fotografia bastante colorida de Harold Rosson, assim como os também coloridos figurinos de Walter Plunkett (principalmente nos números musicais), que contribuem para o clima alegre do filme. O som, apesar de oscilar bastante na cena inicial na porta do cinema, funciona corretamente no restante e colabora para o sucesso das canções. A caprichada direção de arte de Randall Duell e Cedric Gibbons pode ser observada, por exemplo, nos detalhados bastidores de uma produção, assim como na cena do curso de dicção, onde podemos ver os quadros com o movimento da boca em cada letra. A trilha sonora se destaca obviamente pelas canções, mas também funciona quando é apenas instrumental, como na cena em que Lockwood tem uma crise existencial, achando ser um péssimo ator. Quando eles encontram uma solução (transformar o filme em musical) a trilha sonora triunfal ilustra a empolgação deles.

Com a chegada do som, muitos atores e atrizes tiveram que enfrentar um grande problema. Teriam que revelar suas vozes e interpretar de uma nova maneira, o que causou um grande impacto na indústria do cinema. O filme retrata isso quando Lina Lamont, por exemplo, é impedida de falar em público, pois os produtores sabem que sua voz é péssima. Como o cinema era mudo, ela era reconhecida como uma grande atriz. Durante as filmagens, o produtor chega ao set dizendo que o filme falado é a grande sensação do momento. Lockwood fica em choque, mas o produtor tenta animá-lo dizendo que eles só precisavam falar: “O público vai saber que Don Lockwood e Lina Lamont falam”. Lina responde com sua voz irritante e todos se olham espantados, percebendo o problema que tinham nas mãos. A desastrosa apresentação inicial do filme falado, com o trecho improvisado por Lockwood (“Eu te amo, eu te amo, eu te amo!”) e muitos outros problemas técnicos mostra que algo precisava ser feito. Até mesmo grandes astros deveriam se adaptar, como podemos ver depois quando Lockwood faz um curso de dicção.

Obviamente, a narrativa criada em torno da chegada do som serve como base para a exibição de todo o talento de Gene Kelly e seu elenco nos sensacionais números musicais. Desde o primeiro número dos violinos, quando Lockwood narra sua trajetória com muito bom humor, passando pelo espetacular show de sapateado de Kelly e O’Connor na maravilhosa música “Moses” e pela bela “Good Morning”, cantada pelo trio Kathy, Lockwood e Cosmo, podemos apreciar o enorme talento do elenco para criar coreografias e interpretar as canções. Justamente após um destes musicais, Cosmo tem uma idéia brilhante, que pode salvar a carreira de Lockwood, e este é o ponto de partida para a grande cena do filme. Feliz por ter salvado a carreira e encontrado o seu amor, ele se despede da garota e sai literalmente cantando e dançando debaixo de uma grande chuva. O detalhe aqui é que a chuva, normalmente associada a momentos tristes, se torna a parceira dele em um momento de extrema alegria (“I’m happy again” diz em uma parte da música). É a mágica transformação de algo triste em algo alegre. É como um grupo de garotos que, frustrados por não poder jogar bola debaixo do mau tempo, decidem jogar na chuva mesmo, o que geralmente se torna algo muito divertido (vivi momentos inesquecíveis assim na infância). Gene Kelly dá um show nesta cena, explorando todo o cenário, sorrindo e mostrando com propriedade toda a alegria do personagem, além de interpretar e cantar muito bem a música.

Apesar do final previsível e do citado deslize no longo número musical da Broadway (“Broadway Rhythm Ballet”), “Cantando na Chuva” é bastante agradável e deixa o espectador com uma gostosa sensação de satisfação com o que viu. Além disso, a clássica cena que dá origem ao título já seria motivo suficiente para a apreciação do filme. Goste ou não de musicais, o espectador tem o privilégio de assistir um grande espetáculo e ainda entender melhor um momento importante da história do cinema. Pode ainda fazer uma última reflexão. Até mesmo nos dias mais chuvosos podemos encontrar a felicidade.

Texto publicado em 27 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira

A PONTE DO RIO KWAI (1957)

(The Bridge of the River Kwai) 

5 Estrelas 

Filmes em Geral #7

Vencedores do Oscar #1957

Videoteca do Beto #151 (Filme comprado após ter a crítica divulgada no site e transferido para a Videoteca em 08 de Janeiro de 2013)

Dirigido por David Lean.

Elenco: William Holden, Alec Guinness, Jack Hawkins, Sessue Hayakawa, James Donald, Geoffrey Horne, André Morell, Peter Williams, John Boxer, Harold Goodwin e Percy Herbert. 

Roteiro: Carl Foreman e Michael Wilson, baseado em livro de Pierre Boulle. 

Produção: Sam Spiegel. 

A Ponte do Rio Kwai foto 2

 

 

 

 

 

 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um trilho de trem no meio de uma linda paisagem é o ponto inicial do belo filme dirigido por David Lean sobre a cegueira mental que a guerra e as ordens seguidas sem questionamentos podem causar no ser humano. Loucura (“Madness!”) é a palavra final, diante de outro belo cenário com o mesmo trilho e a destruída ponte que dá origem ao título, ilustrando bem a linha de pensamento do filme. Segundo a visão de Lean, o ser humano parece ser incapaz de conviver em sociedade sem deixar que a ganância e a obsessão pelo poder tomem conta e sejam extremamente prejudiciais para todos. E eu concordo com ele.

Durante a Segunda Guerra Mundial, um grupo de soldados britânicos se torna prisioneiro em um campo de concentração japonês. Após uma guerra de egos entre o Coronel Saito (Sessue Hayakawa) e o Coronel Nicholson (Alec Guinness), o segundo é o encarregado de comandar a construção de uma ponte em prazo recorde. Por outro lado, o fugitivo Major Shears (William Holden) lidera a chegada ao local de um grupo comandado pelo Major Warden (Jack Hawkins) que foi escolhido pelo exército britânico para explodir a ponte.

Dirigido com elegância por David Lean, “A Ponte do Rio Kwai” mostra como o ser humano pode, de diversas formas, deixar a própria existência humana em segundo plano em prol de seguir ordens e regras ditadas por alguém que, invariavelmente, pouco se importa com o que se perde para atingir este determinado objetivo. Afinal de contas, qual a diferença entre o rígido e inflexível Coronel Saito e o tranqüilo Coronel Nicholson? Embora tenham estilos completamente diferentes, ambos seguem cegamente as ordens que lhes são dadas, sem questionar ética ou moralmente o que está sendo feito. Desta forma, quando o esperto Major Shears diz que a coragem de Nicholson é do “tipo de coragem que mata”, ele não deixa de ter razão, pois Nicholson seria mesmo capaz de morrer em benefício do cumprimento dos objetivos. Por outro lado, Shears é o típico covarde (ou malandro) que consegue de alguma forma sobreviver naquele inferno.

A primeira aparição do Coronel Saito é intimidadora, muito por causa da excelente atuação de Sessue Hayakawa, mas fruto também da competente direção de David Lean, que busca filmar o coronel sempre de baixo pra cima (ele inclusive sobe em um banco), de forma que ele sempre olhe para os britânicos com um ar superior. Além disso, Lean acerta em cheio na escolha dos belíssimos planos que exploram ao máximo a beleza natural da região, como na caminhada do Major Shears e seu grupo até a ponte, passando por lindas cachoeiras. O diretor também é sutil em diversos momentos, como no interessante plano que inicia a seqüência nas cachoeiras, mostrando os morcegos que serão justamente os integrantes do plano final da mesma cena, quando o tiro for disparado e as granadas explodirem. Plasticamente maravilhoso, o trabalho de Lean se torna ainda melhor porque trabalha em benefício do filme, evitando que as maravilhosas imagens que vemos na tela soem sem conteúdo.

A primeira metade do filme oferece a oportunidade para Sessue Hayakawa demonstrar todo seu talento como o rígido coronel Saito. Sempre com o olhar firme, a voz alta e um sotaque perfeito quando fala inglês, Saito encontra no corajoso Nicholson a possibilidade de demonstrar o seu poder, mas acaba sendo derrotado. Observe como ele tenta agradar o coronel britânico no jantar, cinicamente oferecendo carne inglesa, whiskey, charuto e até mesmo dizendo que Nicholson obviamente não precisaria trabalhar. Sua reação no momento em que cede ao desejo de Nicholson é extremamente realista, chorando e engolindo sua raiva, sozinho em seus aposentos. Esta cena oferece também ao ótimo Alec Guinness a oportunidade de demonstrar o seu talento, já evidenciado em cenas anteriores, como quando está no “forno” e seu amigo vem lhe trazer água e comida. Ele fala com a voz rouca e baixa, como faria alguém que estivesse tanto tempo sem beber nada e, portanto, com a garganta seca. Além disso, ele abre o olho com enorme dificuldade, já que a luz que entra incomoda quem estava trancado no escuro. Quando vai até a sala de Saito, ele caminha com enorme dificuldade e ao entrar, mal consegue se sustentar, balançando as pernas, pois está muito fraco. Já na citada cena do jantar, no momento em que Saito demonstra fraqueza, Nicholson cresce e assume o comando do diálogo, mandando o líder japonês sentar e ouvir sua estratégia para construir a ponte (Hayakawa bate os dedos na perna enquanto escuta, demonstrando sua ansiedade). O evidente choque de estilos entre os dois domina a primeira metade do filme e mostra como a pressão e a rigidez não são garantias de bons resultados. Nicholson é um líder nato, utilizando o que cada pessoa tem de melhor, sem a necessidade de gritar ou ameaçar seus comandados para alcançar seus objetivos. Por outro lado, quando assume o comando da construção da ponte, ele mostra a importância de respeitar a hierarquia, utilizando aqueles que têm talento para liderar em suas devidas funções. Adquirir o respeito dos seus comandados é fundamental para o sucesso. Observe a clara mudança de comportamento na construção da ponte. No início, mal organizados e mal liderados, podemos testemunhar um verdadeiro caos, também porque os britânicos queriam ser liderados por Nicholson e sabotam os japoneses. Com os britânicos no comando, a ordem volta e o resultado é alcançado com sucesso. Fechando o elenco principal, temos William Holden como o esperto Major Shears, que logo em sua primeira cena mostra que ele faz qualquer coisa para sobreviver ali, sem se importar com ética ou regras, tentando subornar o guarda para conseguir ficar sem trabalhar. Seu melhor momento acontece quando ele diz que Warden deixaria a própria mãe para trás para seguir suas regras e objetivos, rangendo os dentes, olhando firme e alterando o tom de voz. “Você e aquele Nicholson querem morrer como heróis, com coragem e seguindo regras, quando na verdade o que importa é viver como um ser humano”. Esta é a mensagem do filme, resumida neste trecho do bom roteiro de Carl Foreman e Michael Wilson (baseado em livro de Pierre Boulle). A estupidez da guerra e de seguir ordens sem questionar ou pensar no que está fazendo pode trazer grandes prejuízos para a humanidade.

O trabalho técnico em um filme que explora muito bem as belezas naturais do local também merece destaque. A fotografia pálida e seca de Jack Hildyard, que prioriza cores quentes como o marrom e o amarelo, demonstra a tristeza daqueles soldados dominados, que são tratados como escravos no inicio do filme. Observe a mudança na fotografia quando Shears está descansando no hospital. O azul do mar, a grama verde e a predominância da cor branca (até mesmo nos figurinos, por ser um hospital), refletem também a paz de espírito dele naquele lugar. A primeira aparição dos soldados ingleses, assoviando a famosa e bela canção principal do filme (mérito de Malcolm Arnold), é uma cena extremamente marcante. Mal vestidos, com roupas velhas e sujas (em certo momento Lean dá um close em um sapato rasgado de um soldado), eles demonstram sua união ao chegar assoviando a canção e se recusando seguir ordens dos japoneses, aceitando somente as ordens de Nicholson. A trilha sonora alta e empolgante ilustra bem a alegria deles quando Nicholson é solto.

Apesar de conter um pouco de ufanismo, com a mensagem clara de que os ingleses são bons e organizados e os japoneses não são, a construção da ponte mostra que com organização e liderança é mais fácil alcançar os objetivos do grupo. Mas a discussão proposta por “A Ponte do Rio Kwai” não é esta. Não se trata de uma disputa entre os melhores métodos de liderança, mesmo que o filme trabalhe bem este lado, e sim de uma reflexão sobre até que ponto devemos seguir regras sem pensar no que estamos fazendo. No exército, assim como em muitas organizações hoje em dia, a pessoa está em segundo plano e os valores morais e éticos também, como fica evidente no caso de Shears, que não queria voltar para o local e foi obrigado a participar, mesmo que sua importância na “missão” tenha sido drasticamente reduzida ao longo do caminho. A tensa cena em que os explosivos são colocados na ponte cria também um conflito de sentimentos no espectador. Na medida em que o momento da explosão se aproxima, não sabemos se queremos ou não que a ponte venha abaixo. Momentos antes do grande clímax perfeitamente construído por David Lean, testemunhamos o orgulhoso Nicholson, ao lado de Saito, observar o belíssimo trabalho que foi feito (e a ponte é mesmo bela!) e refletir sobre sua vida. Mesmo sem ter vivido com a família, ele entende que foi bom tudo o que conquistou na carreira militar. Some a este pensamento o desespero de Saito ao pensar no que aconteceria se ele não conseguisse terminar a ponte no prazo e a frase desumana (“Não espere o trem, faça agora!”) dita por Warden quando os soldados começam a passar pela ponte (assoviando a música e provocando um leve sorriso de Shears), sem se importar com as vidas que seriam tiradas se a ponte explodisse naquele momento. A conclusão é a mesma: para este tipo de gente as pessoas não importam, importa o objetivo.

Talvez o único presente com a cabeça realmente no lugar, o médico diz que não concorda com o que foi feito e prefere ver de longe, chegando à conclusão de que ele não entendia mesmo nada sobre o exército. E de onde estava, pôde observar de camarote o coronel Nicholson perceber algo errado com a ponte (Lean aproxima a câmera lentamente do rosto dele) momentos antes do trem chegar ao local. Ao seguir o fio, acompanhado de Saito, ele gera um verdadeiro conflito generalizado que causa a morte de Saito, Shears e a sua própria morte. A ironia é que Shears encontrou seu fim justamente no único momento em que decidiu ser corajoso. E a visão de Shears morrendo à beira do rio fez Nicholson refletir sobre os seus atos também, segundos antes de cair morto e acionar a explosão da ponte. O resultado final de toda esta obediência cega às ordens que foram dadas é trágico. Todos mortos e a ponte destruída.

Discutindo com inteligência até que ponto é válido seguir ordens sem reflexão, além de tratar de questões interessantes como os diferentes estilos de liderança e o sentido da guerra, “A Ponte do Rio Kwai” nos brinda com imagens belíssimas e consegue alcançar o seu objetivo com louvor, demonstrando claramente que infelizmente, quando nós seres humanos deixamos a ganância e a ambição tomar o controle de nossas vidas, as relações humanas e a própria humanidade ficam em segundo plano.

A Ponte do Rio Kwai 

 

 

 

 

 

 

Texto publicado em 23 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira 

PACTO DE SANGUE (1944)

(Double Indemnity)

 

Filmes em Geral #74

Filmes Comentados #5 (Comentários transformados em crítica em 22 de Novembro de 2011)

Dirigido por Billy Wilder.

Elenco: Fred MacMurray, Barbara Stanwyck, Edward G. Robinson, Porter Hall, Jean Heather, Tom Powers, Byron Barr, Richard Gaines, Fortunio Bonanova, John Philliber e James Adamson.

Roteiro: Billy Wilder e Raymond Chandler, baseado em livro de James M. Cain.

Produção: Buddy G. DeSilva.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Filme essencial para entender o que é o noir, “Pacto de Sangue” destaca-se pelo envolvente roteiro e pelos fascinantes personagens que povoam o universo obscuro e predominantemente noturno criado por Billy Wilder. Surgido numa época em que o público havia perdido a “inocência” devido aos acontecimentos do período (como a guerra mundial), o filme atingia os anseios de uma platéia que esperava por filmes mais próximos da realidade, com pessoas comuns agindo de formas inesperadas.

Escrito pelo próprio Billy Wilder em conjunto com Raymond Chandler e baseado em livro de James M. Cain, “Pacto de Sangue” narra a história de Walter Neff (Fred MacMurray), um competente vendedor de seguros que é seduzido pela esposa de um cliente, a charmosa Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwyck), e convencido a assassinar o marido dela, tomando ainda o cuidado de fazer o crime parecer um acidente, para que ela possa receber o seguro em dobro. Mas, para isto, eles terão que enganar o chefe de Neff, o astuto Barton Keyes (Edward G. Robinson).

Ao contrário da maioria dos filmes que envolvem um assassinato, “Pacto de Sangue” já inicia revelando quem é o assassino. Isto acontece porque o foco do ótimo roteiro não está no exercício de descobrir quem cometeu o crime, mas sim em revelar como e porque ele cometeu aquele assassinato e o que ele fez para não ser descoberto – “Fiz por dinheiro e por uma mulher. Fiquei sem o dinheiro e também sem a mulher.”, diz Neff. Repleto de trechos deliciosos (“Seu homenzinho lhe tirou da cama?”, pergunta Neff. “Foi o Zelador”, responde Keyes) e sempre num ritmo acelerado, o roteiro apresenta um verdadeiro festival de diálogos marcantes, como o primeiro entre Neff e Phyllis ou o inteligente diálogo expositivo durante a caminhada até o trem, no qual apesar de Phyllis afirmar já saber todo o plano, Neff insiste em repassar cada etapa, o que permite ao espectador saber com antecedência como eles completarão o crime. Repleta de reviravoltas e surpresas, a interessante trama também nos permite acompanhar como funciona a empresa de seguros, que faz de tudo para não pagar o segurado investigando caso a caso com muito cuidado, mostrando ainda o outro lado, através das pessoas que buscam se beneficiar ilicitamente do seguro.

Este cuidadoso filtro é feito por Barton Keyes, interpretado por Edward G. Robinson e que conhece tudo sobre o ramo de seguros. Solteiro, extremamente confiante e viciado em trabalho, ele é o típico workaholic, que não larga sua profissão por nada e sente enorme prazer no que faz. Robinson está perfeito no papel, com falas rápidas que demonstram o conhecimento que Keyes tem do assunto, além de sua enorme confiança e ansiedade. O espectador é apresentado aos seus rígidos métodos de trabalho logo no início, através do caso do motorista do caminhão, que serve para aumentar a tensão quando ele começa a investigar o crime de Neff.

Mas nem mesmo o capcioso Keyes poderia imaginar que entre as pessoas que tentam burlar o sistema de seguros está Walter Neff, seu melhor corretor e profundo conhecedor do negócio. Justamente por conhecer os caminhos, Neff pensa em cada detalhe antes de executar o plano. E é sob a ótica dele que acompanhamos a trama, graças à narração que expõe seu ponto de vista durante toda a história e que é fundamental para que o espectador embarque na narrativa sob a perspectiva do criminoso. Com falas rápidas e muito cinismo, Fred MacMurray tem uma boa atuação na pele de Neff, demonstrando como o corretor vai lentamente se entregando ao plano de Phyllis até finalmente resolver ajudá-la. Repare, por exemplo, como na cena em que o Sr. Dietrichson (Tom Powers) assina o seguro sem saber, ele puxa o papel para ler enquanto fala e, cuidadosamente, Neff puxa o papel de cima de volta para encobrir o que estáem baixo. Atroca de olhares entre Neff e Phyllis neste momento chega a ser assustadora.

Os olhares entre eles, aliás, chamam bastante atenção em outros momentos também, como no primeiro contato, carregado de tensão sexual e que revela a atração mútua quase que imediatamente. O sexo, aliás, também é abordado de maneira sutil por Wilder, na cena em que ela vai pela primeira vez à casa de Neff e consegue convencê-lo a ajudá-la. Repare como ela aparece deitada nos ombros dele e, após um corte para a sala de Keyes, voltamos para a casa dele com Phyllis se maquiando num canto do sofá enquanto ele fuma um cigarro no outro canto. A cena sugere o sexo, mas não mostra nada, e é justamente neste momento que ele decide ajudá-la. Representando muito bem a mulher fatal, Barbara Stanwyck exala sensualidade, mas também se sai bem nos aspectos minimalistas de sua atuação, como quando ela mexe as mãos e evita olhar nos olhos dele ao insinuar sobre o seguro contra acidentes para o marido, demonstrando um nervosismo que denuncia sua intenção de matar o Sr. Dietrichson e receber o seguro desde aquele instante.

E como estamos falando de um film noir, os personagens não podem ser caracterizados como bons ou maus, e esta ambigüidade fica evidente especialmente em Neff e Phyllis. Repare, por exemplo, como inicialmente ele se irrita com a proposta dela (ela nunca fala diretamente, só sugere) e só depois, com a paixão crescente, é que aceita cometer o assassinato. Já Phyllis hesita na hora de cometer o crime perfeito ao descobrir que está apaixonada por Neff, mesmo com ele não acreditando nela. E o próprio Neff hesita na hora de se livrar e incriminar Zachetti (Byron Barr), deixando claro que ele não é uma pessoa ruim, apenas cometeu um erro grave, algo que fica evidente logo após a execução do crime, quando surge nervoso, trêmulo e sem saber como agir (“Coloco óculos ou não?”, se questiona). Por não ser um frio assassino, Neff evita até mesmo o contato com as pessoas, como quando não se posiciona de frente para o Sr. Jackson (Porter Hall) na sala de Keyes – em outro bom momento de MacMurray.

No aspecto visual, “Pacto de Sangue” segue a cartilha imaginaria do noir, com a fotografia obscura de John F. Seitz carregando no contraste entre o preto e o branco, sempre com claro predomínio dos pontos negros na tela, como acontece na cena do assassinato, desde a saída da casa dos Dietrichson até quando Neff e Phyllis saem de carro. Além disso, a trilha sonora de Miklós Rózsa também apresenta um tom obscuro que casa muito bem com a atmosfera do filme – e o beijo entre Neff e Phyllis dentro do carro depois da cena do crime é um exemplo da típica cena do filme noir, com o rosto dos dois encobertos pela sombra e a maior parte da tela em total escuridão.

Conduzindo todo este competente trabalho com firmeza, Wilder ainda cria planos magníficos, como na cenaem que Phyllise Keyes visitam Neff, onde podemos vê-la escondida atrás da porta, com Neff no meio do plano e Keyes em profundidade, conversando com o amigo sem ver a moça escondida. Quando ele se aproxima, a tensão aumenta e a trilha acompanha o momento com precisão. Wilder também insere elementos ao longo da narrativa que deixam a trama ainda mais interessante, como os encontros de Neff com Lola (Jean Heather), o ciúme de Phyllis e o caso dela com Zachetti. Auxiliado ainda pela montagem de Doane Harrison, Wilder conduz com perfeição a cena chave da trama, que é a simulação da morte do Sr. Dietrichson, onde a presença de um homem no fundo do trem só amplia a tensão, também reforçada pela trilha sonora. O clímax sombrio (com a mudança repentina de comportamento de Phyllis) e o encontro entre Keyes e Neff no escritório fecham o longa com perfeição.

“O cara que você procurava estava muito perto Keyes, do outro lado da sua mesa”, diz Neff. “Mais perto que isso Walter”, responde Keyes. “Também te amo Keyes”, conclui Neff. Este diálogo final mostra o quanto eles eram amigos, mas ainda assim Keyes cumpriu o seu dever e entregou Neff para a polícia. A amizade dos dois impediu que Keyes enxergasse a verdade. Com uma narrativa envolvente, personagens fascinantes e uma atmosfera única, “Pacto de Sangue” é um dos legítimos representantes do film noir que mereceram o seu lugar na galeria dos grandes filmes da sétima arte.

PS: Comentários divulgados em 21 de Setembro de 2009 e transformados em crítica em 22 de Novembro de 2011.

Texto atualizado em 22 de Novembro de 2011 por Roberto Siqueira