FARRAPO HUMANO (1945)

(The Lost Weekend)

5 Estrelas 

Filmes em Geral #99

Vencedores do Oscar #1945

Dirigido por Billy Wilder.

Elenco: Ray Milland, Jane Wyman, Phillip Terry, Howard Da Silva, Frank Faylen, Doris Dowling e Mary Young.

Roteiro: Billy Wilder e Charles Brackett, baseado em novela de Charles R. Jackson.

Produção: Charles Brackett.

Farrapo Humano[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Billy Wilder já era um cineasta reconhecido e respeitado em Hollywood quando finalmente venceu seu primeiro Oscar de direção por este “Farrapo Humano”, um estudo sufocante sobre o alcoolismo que, além de contar com o enorme talento do diretor, traz ainda uma atuação simplesmente estupenda de Ray Milland na pele do protagonista viciado. Incrivelmente atual, o longa está longe de ser um mero libelo antialcoolismo, trazendo um complexo estudo de seu personagem e, mesmo numa época em que os estúdios costumavam interferir muito nas produções, entregando um resultado admiravelmente corajoso.

O longa inicia quando Don Birnam (Ray Milland) se prepara para viajar com o irmão Wick (Phillip Terry) e a namorada Helen (Jane Wyman) para o campo, onde ficaria distante das bebidas e poderia tentar se livrar do alcoolismo. Só que, após convencê-los a alterar o horário da viagem para assistir uma peça, Birnam sai para beber e desencadeia uma série de acontecimentos que só o afundam cada vez mais no vício, deixando-o mais distante de realizar seu sonho de se tornar um escritor.

Como é característico em sua filmografia, o roteiro escrito pelo próprio Wilder ao lado de Charles Brackett é recheado de diálogos ágeis, que se tornam ainda mais velozes pela maneira como são pronunciados pelos atores, numa estratégia que inteligentemente confere ritmo a narrativa. Ainda assim, existe espaço para que a marcante trilha sonora de Miklos Rozsa pontue os momentos mais dramáticos, aumentando o volume dos acordes e ajudando a criar a atmosfera pretendida pelo diretor. Exibindo movimentos de câmera mais estilizados que de costume, Wilder cria sequências muito interessantes, como no zoom que nos aproxima do rosto de Birnam antes do primeiro flashback, que, por sua vez, serve para aliviar um pouco uma narrativa até então sufocante, numa escolha acertada do diretor e seu montador Doane Harrison, que também se destaca pela maneira elegante que realiza as transições do dia para a noite e da noite para o dia, ilustrando como Birnam perde a noção do tempo quando começa a beber.

Ainda na direção, Wilder abre “Farrapo Humano” com um travelling que nos leva até a janela do protagonista, revelando uma garrafa pendurada do lado de fora e, ao mesmo tempo, ilustrando nossa condição de meros observadores daquela trajetória de autodestruição – e repare como um simples plano rápido de um cigarro na janela já permite que o espectador antecipe que Wick descobrirá a garrafa pendurada. E o mais curioso é que desde o início fica evidente a condição peculiar de Birnam, que até tenta deixar o alcoolismo de lado quando conhece Helen, mas nunca chega a realmente desejar parar. As pessoas que o cercam querem que ele pare, o espectador quer que ele pare, mas ele mesmo não quer. Também por isso, vale destacar o plano em que Birnam liga para Helen de dentro de uma cabine no hotel segundos antes de voltar a se afundar no vício, num simbolismo perfeito da verdadeira prisão que o alcoolismo representa para ele.

Garrafa pendurada do lado de foraVerdadeira prisãoRosto suadoProfundo conhecedor da linguagem cinematográfica, Wilder utiliza a câmera para fazer com que o espectador praticamente sinta o desespero de Birnam para beber, empregando closes em seu rosto suado e realçando as expressões marcantes de Milland. Assim, “Farrapo Humano” obtém sucesso absoluto na tarefa de demonstrar com clareza como funciona o alcoolismo. Em certo momento, Birnam diz para o barman Nat (Howard Da Silva) que durante a noite a bebida é um aperitivo, mas de manhã ela funciona como remédio (“Qualquer marca serve, é tudo igual”, diz). Por isso, ele se desespera quando não encontra uma bebida sequer em seu apartamento, demonstrando grande alívio quando acha uma garrafa perdida, após um interessante plano que revela o paradeiro dela. Aliás, observe como na maioria das vezes em que Birnam entra no apartamento portando garrafas, a fotografia de John F. Seitz se torna mais sombria, simbolizando mais um passo do personagem em direção ao fundo do poço.

O visual se torna ainda mais obscuro e sufocante a partir do momento em que ele é internado num hospital, abrindo espaço para os impressionantes delírios de um paciente. Estes delírios também atormentam o próprio protagonista em dois momentos que, mesmo soando um pouco datados visualmente, ainda mantém a capacidade de nos atormentar, especialmente no segundo caso, quando ele imagina o ataque de um morcego em seu apartamento.

Demonstrando que o alcoolismo comanda sua vida desde os primeiros instantes, Birnam mal consegue organizar seus pensamentos, encontrando a felicidade somente quando segura um copo ou uma garrafa – e até mesmo seu apartamento bagunçado e suas roupas amassadas ilustram este descaso com a vida, realçando o bom trabalho de direção de arte de Hans Dreier e Earl Hedrick e da ótima figurinista Edith Head. Assumindo este difícil papel com personalidade e talento, Ray Milland surge agressivo, gritando em diversos momentos e reagindo de maneira visceral a qualquer manifestação que o contrarie. No entanto, o grande mérito do ator é evitar que o personagem se torne uma caricatura e se afaste completamente da plateia, algo que seria muito fácil se nos baseássemos somente em suas atitudes. Afinal, ele rouba dinheiro do irmão, não se importa com o sofrimento da namorada e muito menos com os sentimentos de uma pretendente. Além disso, perambula pela cidade com sua máquina de escrever, na esperança de conseguir uns trocados para poder comprar mais bebidas.

Ataque do morcegoApartamento bagunçadoPerambula pela cidadeEntretanto, ainda que muito sutilmente, podemos perceber que algo de bom existe dentro daquele homem amargurado, seja quando passeia pela cidade e cumprimenta as pessoas (“Este é o moço gentil que bebe”, diz uma mulher), seja quando assume sua condição sufocante, como no sensacional monólogo no bar em que afirma se sentir como Shakespeare quando bebe, num dos inúmeros grandes momentos da atuação de Milland. Em outro instante, chega a ser comovente a maneira como ele admite seu vício diante de Helen e revela seu desejo frustrado de ser escritor; e são justamente estes momentos, além é claro do carisma de Milland, que permitem que o personagem crie empatia com a plateia, o que é essencial para não nos distanciar da narrativa. Mesmo com todos seus problemas, nós torcemos pelo sucesso do deplorável Birnam.

Quem também se preocupa muito com ele é batalhadora e apaixonada Helen, interpretada com carisma por Jane Wyman e que se torna responsável pelos raros momentos em que ele considera a possibilidade de parar, além é claro de seu irmão Wick, vivido por Phillip Terry e que, após muito tempo lutando, acaba se irritando com a situação e decide deixá-lo para trás, talvez por entender que jamais Birnam conseguiria se livrar do alcoolismo.

E esta é basicamente a mensagem de “Farrapo Humano”, evidenciada ao longo de toda a narrativa através da metáfora dos círculos, “a forma geométrica perfeita, sem começo e sem fim”. Wilder faz questão de utilizar constantemente este simbolismo, seja através do close nos círculos formados pelo copo no balcão do bar ou pela própria estrutura da narrativa, que inicia e termina com o mesmo movimento de câmera, ilustrando que, apesar do tom levemente otimista do final (talvez alguma imposição do estúdio na época), o diretor quer ressaltar que o alcoolismo é uma doença praticamente sem cura, como o próprio personagem afirma em diversos momentos. Ou seja, independente do que aconteça, basta um simples gole para que o alcoólatra volte ao seu círculo de autodestruição.

O longa tem ainda sua porção de cenas capazes de nos deixar apreensivos, como quando Birnam rouba a bolsa de uma mulher e é expulso de um bar ou toda a sequência final em que ele se prepara para o suicídio, na qual o espectador realmente teme pelo futuro do personagem. Só que o grande mérito de “Farrapo Humano” reside mesmo no fato de abordar o alcoolismo com tamanha seriedade numa época em que isto representava uma ousadia temática notável. Mais do que isto, o longa de Wilder consegue humanizar aquele personagem que poderia ser detestável, servindo como um belo estudo não apenas daquele homem, mas do próprio alcoolismo, uma doença complexa e mal compreendida por muitos até hoje.

Farrapo Humano foto 2Texto publicado em 18 de Fevereiro de 2013 por Roberto Siqueira

A NOVIÇA REBELDE (1965)

(The Sound of Music)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #155

Vencedores do Oscar #1965

Dirigido por Robert Wise.

Elenco: Julie Andrews, Christopher Plummer, Eleanor Parker, Richard Haydn, Peggy Wood, Charmian Carr, Heather Menzies, Nicholas Hammond, Duane Chase, Angela Cartwright, Debbie Turner, Kym Karath, Anna Lee, Portia Nelson, Ben Wright e Norma Varden.

Roteiro: Ernest Lehman, baseado em musical de Howard Lindsay e Russel Crouse.

Produção: Robert Wise.

A Noviça Rebelde[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Se explicar a magia do cinema em palavras é uma tarefa complicada, mais difícil ainda é explicar porque certos filmes jamais envelhecem e permanecem encantadores ao longo de décadas. No entanto, basta assistir ao clássico musical “A Noviça Rebelde” para compreender as razões pelas quais estes filmes tornaram-se imortais. Por mais que o tempo passe e certos aspectos soem datados (as roupas, penteados, a maneira de falar, etc.), o espírito jovial e empolgante do longa dirigido por Robert Wise segue intacto – e é justamente por se apoiar nele que a narrativa jamais perde sua magia.

Escrito por Ernest Lehman, baseado em musical de Howard Lindsay e Russel Crouse, “A Noviça Rebelde” tem início quando Maria (Julie Andrews) não consegue se adaptar as rígidas regras do convento em que vive e, por isso, acaba sendo enviada para trabalhar na casa do capitão Von Trapp (Christopher Plummer), um homem viúvo e que educa seus sete filhos com a mesma disciplina que costumava comandar a Marinha. A chegada da moça muda completamente o destino daquela família, ainda mais quando ela se apaixona pelo Capitão, que já estava comprometido com uma rica baronesa (Eleanor Parker).

Apesar de criar conflitos interessantes que alteram o seguimento natural da narrativa, o roteiro de “A Noviça Rebelde” não prima exatamente pela originalidade, o que inevitavelmente torna previsíveis as ações dos personagens. Ainda assim, Lehman consegue criar algum suspense com eficiência, por exemplo, ao focar no conflito de sentimentos de Maria que impede que ela fique com o Capitão num primeiro instante, o que, consequentemente, torna ainda mais saboroso o reencontro dela com as crianças quando ela decide voltar para a casa. Por outro lado, algumas transições acontecem rápido demais, como a mudança de comportamento do próprio Capitão. Só que o segredo do sucesso da narrativa não se baseia nestas pequenas reviravoltas, ainda que elas funcionem bem. A força do clássico está mesmo na direção de Robert Wise e na qualidade das canções que conferem ao longa uma aura de fábula.

Conflito de sentimentosReencontro dela com as criançasMudança de comportamento do CapitãoMesmo com quase três horas de duração, “A Noviça Rebelde” jamais se torna um filme cansativo, graças ao ritmo delicioso empregado pela montagem de William Reynolds que intercala as canções e as ações com precisão e, o que é ainda melhor, faz com que as músicas sempre deem seguimento a narrativa, surgindo naturalmente em diversos momentos, como quando Maria ajuda as crianças a superar o medo de uma tempestade. Obviamente, as inúmeras canções criativas compostas por Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II são cruciais para isto, como fica evidente desde o travelling inicial que passeia pelas lindas paisagens de Salzburg e nos apresenta a protagonista sob o embalo da bela “The Sound of Music” (o nome original do filme). Além dela, merecem destaque as divertidas “Do-Re-Mi” e “My Favorite Things”, assim como a divertida “Sixteen Going on Seventeen”, cantada por Liesl (Charmian Carr) e Rolfe (Daniel Truhitte) no charmoso namoro deles sob o luar.

Medo da tempestadeLindas paisagens de SalzburgCharmoso namoro sob o luarConduzida com o mesmo charme por Wise, outra cena que se destaca é a linda dança entre o Capitão e Maria, que serve também para evidenciar pela primeira vez a química existente entre eles. Esta lenta aproximação chegará ao auge no primeiro beijo do casal, não por acaso conduzido sem a mínima pressa pelo diretor. Enriquecido pela atmosfera romântica daquela bela noite, pela trilha sonora envolvente e pelo lindo plano que enquadra o casal de mãos dadas sob a luz do luar, o beijo de Von Trapp e Maria é um destes momentos belíssimos que só o cinema consegue criar, o típico beijo cinematográfico capaz de deixar o espectador em êxtase e conduzido com uma sensibilidade rara nos tempos atuais.

Dança entre o Capitão e MariaPrimeiro beijo do casalMãos dadas sob a luz do luarAinda que estes dois momentos aconteçam à noite, a fotografia de Ted McCord aproveita a luz do dia na maior parte do tempo e aposta em cores vivas para criar um visual coerente com o espírito alegre de “A Noviça Rebelde”, ressaltado também nas roupas coloridas das crianças (figurinos de Dorothy Jeakins) e nos planos gerais de Wise que realçam a beleza da região – aliás, o design de produção de Boris Leven também se destaca, não apenas por acertar em cheio na escolha da mansão em que se passa à narrativa (e que hoje se tornou um dos pontos turísticos mais visitados de Salzburg), mas também por escolher a própria Áustria, um país famoso por respirar música e que, por isso, se configura no cenário ideal para um musical. Por contraste, o visual sombrio do convento nos indica o quanto Maria se sente deslocada ali, assim como o uso das sombras torna ainda mais tensa a eletrizante sequência em que os Von Trapp se escondem dentro do convento e são caçados pelos nazistas, logo após o festival de música que não por acaso ocorre à noite.

Roupas coloridas das criançasMansãoVisual sombrio do conventoLiderando os encantadores irmãos Von Trapp, a bela Liesl é interpretada por Charmian Carr com muito carisma e auxilia na empatia entre o público e os personagens. Entre o elenco secundário, merecem destaque ainda a sábia Madre Abbess de Peggy Wood e o sarcástico Max de Richard Haydn, além da Baronesa de Eleanor Parker que, apesar de mostrar seu lado cruel na festa, jamais se torna uma caricatura, também pela maneira adorável com que Parker encarna a personagem. Afinal, não dá pra ter raiva de alguém que sai de cena com tamanha elegância e honestidade, aceitando o fim do relacionamento e sugerindo que o Capitão fique com Maria.

Bela LieslSarcástico MaxBaronesaPronunciando as palavras pausadamente, Christopher Plummer cria um Capitão simultaneamente severo e charmoso, escondendo sob aquela carcaça de durão seu coração enorme e sua simpatia, que aflora primeiramente ao lado da Baronesa e especialmente quando aceita que os filhos cantem novamente. Para ele, a disciplina parece ser a única forma de controlar seus filhos atentados, funcionando também como uma maneira de esquecer a dor da perda da esposa. Por isso, a primeira discussão entre o Capitão e Maria funciona tão bem, nos levando ao emocionante momento em que o pai quebra o gelo e volta a cantar com os filhos. A música tem este poder de agregar as pessoas. Finalmente, é ótimo constatar que o Capitão começa a mudar seu comportamento antes da metade do filme, evitando o clichê da mudança final repentina e injustificável, ainda que esta transição aconteça abruptamente.

Severo e charmosoPrimeira discussãoPai quebra o geloMas se todas estas atuações são satisfatórias para a época, não há como negar que a grande performance de “A Noviça Rebelde” é mesmo da carismática Julie Andrews, que carrega a narrativa com enorme facilidade, transformando Maria numa protagonista alegre e encantadora, que conquista nossa empatia desde o instante em que chega atrasada ao convento. Divertida e ousada, a garota consegue mudar completamente o ambiente hostil em que é inserida, com seu jeito gracioso e empolgante de encarar a vida. Se o espírito jovem e alegre é a alma do filme, a atuação enérgica de Andrews contribui muito para isto. Finalmente, a atriz convence até mesmo nos momentos dramáticos, demonstrando o sofrimento de Maria diante da situação complicada em que o Capitão se mete após a chegada dos nazistas.

Alegre e encantadoraDivertida e ousadaSofrimento de MariaCitado algumas vezes na primeira metade da narrativa em tom ameaçador, o nazismo terá função importante no desfecho de “A Noviça Rebelde”. Após o casamento de Maria e Von Trapp, um travelling seguido por um imponente plano geral revela a chegada dos alemães e inicia o último ponto de virada do roteiro, ampliando consideravelmente a carga dramática do longa. A partir deste instante, o espectador acompanha tenso o desenrolar dos acontecimentos e torce pelo sucesso dos Von Trapp – e o fato de nós nos importarmos com o destino deles só evidencia a eficiência da narrativa.

Casamento de Maria e Von TrappChegada dos alemãesTorcemos pelo sucesso dos von TrappAlém de rimar tematicamente com a abertura, o encerramento nas montanhas ainda eleva o espírito da plateia e nos deixa com uma deliciosa sensação de alegria por sairmos satisfeitos com o que vimos. E é justamente esta magia que faz de “A Noviça Rebelde” um filme delicioso, que permanece empolgante mesmo décadas depois de lotar as salas de cinema pelo mundo afora.

A Noviça Rebelde foto 2Texto publicado em 22 de Janeiro de 2013 por Roberto Siqueira

CARRUAGENS DE FOGO (1981)

(Chariots of Fire)

3 Estrelas 

Filmes em Geral #93

Vencedores do Oscar #1981

Dirigido por Hugh Hudson.

Elenco: Ben Cross, Ian Charleson, Ian Holm, Alice Krige, Nicholas Farrell, John Gielgud, Cheryl Campbell, Lindsay Anderson, Nigel Davenport, Dennis Christopher e Richard Griffiths.

Roteiro: Colin Welland.

Produção: David Puttnam.

Carruagens de Fogo[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Se você já assistiu qualquer edição dos Jogos Olímpicos ou viu alguma matéria a respeito, certamente também já ouviu a música tema de “Carruagens de Fogo”, mesmo que jamais tenha assistido um minuto sequer do longa vencedor do Oscar de 1982 dirigido por Hugh Hudson. Emblemática, a canção se imortalizou como um dos símbolos da maior competição esportiva do mundo, graças à composição simultaneamente graciosa e imponente do grego Vangelis. É uma pena, portanto, que mesmo apresentando qualidades, no fim das contas o filme seja apenas mais uma entre tantas outras histórias de superação no esporte.

Escrito por Colin Welland, “Carruagens de Fogo” narra a história dos jovens Harold Abrahams (Ben Cross) e Eric Liddell (Ian Charleson), que se destacam nas competições nacionais e acabam sendo convocados para os Jogos Olímpicos de 1924, em Paris. O escocês Eric é missionário e afirma correr em nome de Deus, enquanto Abrahams, inglês descendente de judeus, corre para conquistar a fama e, desta forma, aliviar o preconceito que sofre por sua origem. Derrotado por Eric numa disputa caseira, Abrahams decide contratar o treinador Sam Mussabini (Ian Holm), o que desagrada os líderes da faculdade onde ele treina.

Ainda que o fio condutor da narrativa seja a competição entre Eric e Abrahams, “Carruagens de Fogo” tem uma abordagem mais intimista que toca em outros temas interessantes como a xenofobia e o preconceito contra os judeus, responsável pelo sofrimento de Abrahams evidenciado num jantar com Sybil (Alice Krige), e também contra outros povos, evidente na rejeição dos supervisores de Cambridge ao treinador Sam Mussabini, descendente de italianos e árabes. “Sou inglês em primeiro e último lugar”, afirma Abrahams em certo momento, ilustrando sua preocupação em ser aceito numa sociedade extremamente preconceituosa. Ilustrando este sofrimento de maneira convincente, Ben Cross leva bem o papel, demonstrando ainda a determinação do personagem em sua busca constante pela vitória, que é também uma das marcas de seu concorrente. Essencial nesta busca, o treinador Sam conta com o carisma de Ian Holm, que rouba a cena sempre que surge, passando muita confiança no que diz e convencendo tanto Abrahams quanto o espectador de que ele conhece muito sobre o assunto.

Busca constante pela vitóriaTreinador SamCorda bamba emocionalEvidenciando o peso da religião em sua formação, o Eric de Ian Charleson tenta conciliar sua fé com o prazer pelo esporte, equilibrando-se numa corda bamba emocional que constantemente faz com que ele tenha dúvidas sobre o caminho que deve seguir. Ilustrando este conflito através do semblante e do jeito introspectivo, o ator se sai bem, especialmente quando Eric decide abrir mão de competir no sábado, mostrando-se firme diante do irritado presidente da confederação britânica, num momento que provoca reflexão sobre até onde o estado pode interferir na fé pessoal e vice-versa. Fechando o elenco, temos as mulheres que, de maneiras distintas, interferem no desempenho dos dois atletas centrais. Enquanto Alice Krige confere charme a sua Sybil e se torna mais do que uma namorada para Abrahams, funcionando como conselheira e amiga nos momentos difíceis, a fanática religiosa Jennie interpretada por Cheryl Campbell só colabora para aumentar o dilema do irmão Eric, demonstrando seguir a religião mais por medo do que por convicção – algo que, convenhamos, não é tão incomum.

Conduzindo a trajetória de Eric e Abrahams em paralelo na primeira metade do longa, o diretor Hugh Hudson foca mais nos personagens e em seus dilemas do que na competição entre eles, o que confere um ritmo lento que eventualmente é quebrado pelas competições e, ao mesmo tempo, nos prepara para o encontro deles nos esperados Jogos Olímpicos. Para isto, ele conta com a montagem de Terry Rawlings, que não consegue fugir da abordagem episódica, utilizando até mesmo letreiros para indicar a passagem do tempo e saltar de 1978 para 1924 e, em seguida, para 1919, sobressaindo-se apenas em momentos especiais como os treinamentos e as competições oficiais. Da mesma forma, são raros os momentos em que a direção de Hudson chama a atenção, como quando a câmera passeia pelos personagens na chegada dos alunos a Cambridge. E de tanto utilizar a câmera lenta, Hudson acaba esvaziando o impacto desta técnica no terceiro ato, desgastando o efeito ao longo da projeção.

Por sua vez, os figurinos de Milena Canonero reproduzem com precisão os uniformes utilizados pelos atletas na época e, auxiliados pelos cenários detalhados em Cambridge e pelos carros antigos (design de produção de Jonathan Amberston, Len Huntingford, Anna Ridley e Andrew Sanders), nos jogam para dentro dos anos 20, da mesma forma que o estádio pequeno e os impecáveis trajes formais do público evocam a atmosfera dos primeiros Jogos Olímpicos nas disputas oficiais. Captando esta atmosfera, a fotografia de David Watkin aposta em cores claras e cenas diurnas, destacando-se também nos belos planos que realçam a beleza dos campos escoceses.

Uniformes dos atletasCambridgeAtmosfera dos primeiros Jogos OlímpicosEntretanto, o grande destaque – não apenas da parte técnica, mas de todo o filme – fica para a trilha sonora magistral e inesquecível do ótimo Vangelis, que se tornou um dos símbolos das Olimpíadas com o passar dos anos. Surgindo de maneira econômica, a trilha pontua momentos marcantes dos atletas nas competições através de variações interessantes, utilizando o tema principal somente na abertura e no encerramento de “Carruagens de Fogo”, enquanto acompanhamos aqueles jovens correndo pela praia. Certamente, este casamento perfeito entre som e imagem é um dos melhores momentos do longa, já que, apesar da construção gradual da narrativa, o clímax está bem longe de ser empolgante, nem tanto por ser previsível, mas principalmente devido à condução burocrática de Hudson, que repete a câmera lenta exatamente como fez em todo o filme, com exceção da primeira vez em que acompanhamos Abrahams nas finais dos cem metros rasos – e que, exatamente por isso, é a corrida que mais empolga no ato final.

Ainda que saia da mesmice ao abordar temas interessantes como a xenofobia e o fanatismo religioso e ganhe créditos por priorizar os personagens e não as competições, a belíssima trilha sonora de Vangelis é mesmo o que “Carruagens de Fogo” tem de melhor.

Carruagens de Fogo foto 2Texto publicado em 17 de Dezembro de 2012 por Roberto Siqueira

O PACIENTE INGLÊS (1996)

(The English Patient)

Videoteca do Beto #142

Vencedores do Oscar #1996

Dirigido por Anthony Minghella.

Elenco: Ralph Fiennes, Kristin Scott Thomas, Juliette Binoche, Willem Dafoe, Naveen Andrews, Colin Firth, Julian Wadham e Jürgen Prochnow.

Roteiro: Anthony Minghella, baseado em romance de Michael Ondaatje.

Produção: Saul Zaentz.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Sucesso de crítica e público na época de seu lançamento, “O Paciente Inglês” sofreu com a síndrome dos vencedores do Oscar nos anos seguintes, sendo massacrado por boa parte dos cinéfilos sob a acusação de ser “chato demais”. Esta afirmação, no entanto, não poderia estar mais longe da verdade. Apresentando um tom solene e elegante que casa muito bem com os grandes épicos, o longa dirigido por Anthony Minghella utiliza os efeitos da guerra e o nacionalismo exacerbado que surge nestas épocas para narrar uma complexa e trágica história de amor.

Considerada uma obra complicada de se adaptar para o cinema devido a sua estrutura narrativa complexa, baseada nos pensamentos de seu protagonista que não seguem ordem cronológica alguma, “O Paciente Inglês” era um dos grandes sonhos do aclamado produtor Saul Zaentz (“Um Estranho no Ninho”, “Amadeus”), que incumbiu a Anthony Minghella a missão de escrever e dirigir o roteiro baseado no romance de Michael Ondaatje. Abordando épocas e cenários distintos numa história que se passa antes, durante e depois da segunda guerra mundial, o longa tem inicio quando a enfermeira Hana (Juliette Binoche) recebe um misterioso homem que teve o corpo totalmente queimado durante a queda de seu avião e que, por não lembrar a sua origem, foi apelidado de paciente inglês (Ralph Fiennes). Entretanto, ele carrega um livro repleto de recortes que ajudam a recordar o passado, trazendo a tona lembranças de seu relacionamento amoroso com Katharine (Kristin Scott Thomas), a esposa de seu amigo Geoffrey (Colin Firth) que ele conheceu durante uma expedição pelo norte da África. Mas quando David Caravaggio (Willem Dafoe) chega ao local, o paciente passa a enfrentar recordações que ele gostaria de ter esquecido.

Deslumbrante visualmente, “O Paciente Inglês” poderia simplesmente se apoiar nos aspectos técnicos para chamar a atenção, mas felizmente Minghella soube explorar a história que o inspirou e, com o auxilio do próprio Ondaatje, construiu uma narrativa que se baseia na força dos seus personagens. Para isso, o diretor apostou num elenco talentoso e coeso, obtendo um resultado impressionante que torna a tarefa de indicar os destaques do longa numa missão ingrata. Comecemos pela trama do passado. Indicando que a falta de atenção do marido poderia motivar sua traição desde sua primeira aparição na qual conta a história do rei Giges, Katharine é uma mulher sensual e decidida, que não hesita em tomar a iniciativa e procurar o conde Almàsy (nome verdadeiro do personagem título) sem jamais soar oferecida ou desesperada. Conferindo com precisão esta personalidade forte à personagem, a ótima Kristin Scott Thomas entrega uma performance elogiável, acertando no tom e oscilando com destreza entre os momentos em que precisa agir com sobriedade, especialmente ao lado do marido, e aqueles em que pode se entregar à paixão tórrida e avassaladora, como quando reencontra Almàsy durante uma festa. Aliás, ao criarem uma relação realista através da aproximação lenta e da maneira crua com que se entregam aos desejos quando podem, Thomas e Fiennes tornam seus personagens mais humanos, aproximando-os da plateia e fugindo dos clichês básicos de alguns épicos, que costumam enfeitar demais a vida romântica de seus protagonistas.

No outro vértice do triangulo amoroso temos Geoffrey, um homem aparentemente despreocupado mesmo sendo o único que viaja acompanhado no grupo, mas que demonstra sutilmente o incômodo diante da troca de olhares entre Katharine e Almàsy, ainda que raramente tenha força para questionar a esposa ou lutar por ela – e é justamente nesta ambiguidade que reside à força da atuação de Colin Firth, que raramente permite ao espectador perceber o que ele de fato está pensando, o que é essencial, por exemplo, para que a finalidade de sua viagem revelada por Katharine em determinado momento tenha impacto e para que a plateia tenha dúvida sobre o quanto ele sabe do caso extraconjugal de sua mulher.

Personagem central da narrativa, o complexo conde Laszlo de Almàsy é interpretado pelo ótimo Ralph Fiennes, que demonstra a ambiguidade do paciente com competência desde os primeiros instantes, quando ilustra sua dor ao falar com muita dificuldade e agonizar na maior parte do tempo, mas ainda assim se mostra forte o bastante para questionar seu interrogador (“Meus órgãos estão parando, que diferença faz…?”) e reclamar do barulho para Hana (“Pensei que o exército alemão tinha chegado”). Funcionando como ponte entre as diferentes épocas abordadas, Almàsy ganha vida mesmo quando surge imóvel na cama, o que é mérito da boa atuação de Fiennes – aliás, seu rosto desfigurado revela também o ótimo trabalho de maquiagem. E se mesmo imóvel e com o rosto desfigurado ele consegue transmitir emoções distintas como a dor, a saudade e a alegria, quando está livre destas amarras (ou seja, no passado) o ator não tem nenhuma dificuldade para expressar os sentimentos conflituosos do personagem, destacando-se em sequências especiais como quando surge bêbado num jantar, escancarando sua dor após afastar-se de Katharine.

No entanto, o sofrimento não está restrito aos personagens do passado. Após perder o namorado e uma grande amiga na guerra, a enfermeira Hana busca conforto no trabalho, focando seus esforços no tratamento do misterioso paciente. Demonstrando seu grande talento sempre que surge em cena, Binoche cria uma personagem adorável, que esconde seu lado carinhoso e emotivo, já tão castigado pela guerra, sob a carcaça de mulher dedicada e batalhadora, roubando a cena praticamente todas as vezes que aparece. Já William Dafoe empresta seu ar sempre ameaçador a David Caravaggio, mas escapa do maniqueísmo em momentos singelos, como quando demonstra preocupação com o choro de Hana ou quando se compadece ao descobrir as razões da traição de Almàsy. Finalmente, vale citar a presença de Naveen Andrews, eternizado anos depois como o Sayid da série “Lost”, que confere leveza e carisma ao especialista em desarmar bombas Kip.

Captado de maneira exemplar pela bela fotografia de John Seale, o deserto desempenha papel importante na narrativa, oscilando entre momentos de beleza estonteante e outros onde surge ameaçador, como numa tempestade de areia que soterra um carro da expedição. Ciente disto, Minghella demonstra preocupação não apenas com a estética, mas também com detalhes importantes que conferem realismo a narrativa, como ao fazer com que os personagens surjam bebendo água em diversos momentos. Da mesma forma, o design de produção de Stuart Craig acerta em cheio na escolha das locações, ambientando perfeitamente o espectador ao período da guerra através de lugares como o monastério parcialmente destruído na Itália, assim como colaboram os figurinos de Ann Roth, que surgem impecáveis em sua diversidade, através dos uniformes dos soldados ingleses e alemães, das roupas árabes e dos elegantes ternos dos integrantes da expedição. E se os efeitos visuais são discretos, o mesmo não se pode dizer do design de som, que permite captar com precisão desde barulhos mais sutis como a respiração de Almàsy até os sons mais chamativos como as hélices dos aviões e as bombas que explodem – uma delas, em especial, tem a função narrativa de informar a morte de um importante personagem.

Conduzindo as duas linhas narrativas de maneira igualmente competente, Minghella emprega um tom contemplativo típico dos grandes épicos, permitindo que o espectador desfrute das lindas imagens que surgem na tela com tranquilidade. Ainda assim, a trama que envolve Katharine e Almàsy soa levemente mais atrativa ao misturar elementos como guerra, paixão e traição de maneira envolvente, ao passo em que a trama no presente concentra sua força no carisma de Hana e no mistério envolvendo as intenções de Caravaggio. A montagem de Walter Murch, aliás, é o grande destaque da parte técnica, alternando entre o passado e o presente de maneira orgânica e permitindo que o espectador acompanhe as tramas paralelas de maneira clara e sem jamais tornar a narrativa cansativa. Além disso, Murch cria transições muito elegantes, como quando as deformações no terreno do deserto se transformam nas ondas irregulares dos lençóis do paciente ou quando Katharine passa os dedos no vidro do carro e lentamente o segundo plano traz o rosto desfigurado de Almàsy no presente, dando a sensação de que ela está acariciando o rosto dele.

Estes belos momentos surgem em profusão em “O Paciente Inglês”. Observe, por exemplo, a linda cena do voo dos aviões no início da exploração, que parece indicar no tom melancólico da bela trilha sonora de Gabriel Yared o futuro trágico daquele triangulo amoroso. Mas, se é repleto de momentos inspiradores, como quando Kip espalha velas pelo chão e indica o caminho para Hana ou quando ele a leva numa capela para ver de perto as pinturas na parede, “O Paciente Inglês” também tem seus momentos de tensão, dentre os quais vale destacar a cena em que Kip desarma uma bomba durante a chegada dos tanques norte-americanos, que comemoram a rendição germânica. Finalmente, Minghella encontra espaço até mesmo para pequenos alívios cômicos que são conduzidos com uma leveza desconcertante, como quando Hana, Kip e Caravaggio levam Almàsy para debaixo da chuva, realizando um desejo dele e arrancando o riso genuíno do espectador.

Chegamos então ao emocionante terceiro ato de “O Paciente Inglês”, que reúne toda a beleza plástica do longa numa sequência também carregada dramaticamente, onde as razões para a traição de Almàsy são reveladas, deixando a plateia tão perplexa quanto aqueles que ouvem sua versão. Ao acompanharmos aquele homem enfrentando os mais cruéis obstáculos enquanto luta para cumprir sua promessa, o espectador se comove naturalmente, num final poético que foge do melodrama e mantém-se fiel ao tom empregado em todo o filme. Ele traiu seu grupo e o seu país pelo amor de Katharine e nós não podemos julgá-lo por isso, assim como não podemos julgar a reação intempestiva do marido traído. Assim somos nós, seres humanos repletos de falhas e virtudes.

Utilizando a guerra como pano de fundo para narrar uma bela história de amor, “O Paciente Inglês” é um bom representante dos épicos clássicos, que conseguem ser apaixonantes e grandiosos na medida certa. Talvez a chuva de prêmios que recebeu tenha prejudicado sua trajetória ao longo dos anos. Entretanto, se não mereceu sair ovacionado na noite do Oscar, o longa também não merece o injusto tratamento que recebeu após aquela noite.

Texto publicado em 18 de Novembro de 2012 por Roberto Siqueira

O DISCURSO DO REI (2010)

(The King’s Speech)

 

Filmes em Geral #85

Vencedores do Oscar #2010

Dirigido por Tom Hooper.

Elenco: Colin Firth, Helena Bonham Carter, Geoffrey Rush, Guy Pearce, Timothy Spall, Michael Gambon, Derek Jacobi, Andrew Havill, Calum Gittins, Jennifer Ehle, Dominic Applewhite, Ben Wimsett, Jake Hathaway, Claire Bloom, Orlando Wells e Tim Downie.

Roteiro: David Seidler.

Produção: Iain Canning, Emile Sherman, Gareth Unwin, Simon Egan e Peter Heslop.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apresentando um protagonista com uma deficiência que afeta diretamente uma das mais importantes atribuições exigidas de alguém em sua posição, “O Discurso do Rei” agrada justamente por nos mostrar uma bela história de superação, ainda que este seja um tema recorrente. Até aqui, tudo bem, já que não há problema algum em repetir um tema tantas vezes explorado pelo cinema, desde que o resultado final não soe desgastado ou repetitivo. Felizmente, este não é o caso do longa dirigido por Tom Hooper, ainda que o diretor falhe na construção visual da narrativa. Apesar do escorregão, as ótimas atuações e a bela trajetória de superação do protagonista sustentam o filme.

Escrito por David Seidler, “O Discurso do Rei” narra a história do duque de York (Colin Firth), que se vê obrigado a assumir o trono como George VI após a morte de seu pai (Michael Gambon) e a saída repentina de seu irmão (Guy Pearce), perdidamente apaixonado por uma mulher divorciada. O problema é que ele sofre de gagueira, o que implica em sérias dificuldades todas as vezes que ele precisa discursar em público, algo cada vez mais necessário após a difusão do rádio. Diante do drama do marido, a esposa Elizabeth (Helena Bonham Carter) resolve pedir ajuda a um fonoaudiólogo nada convencional chamado Lionel (Geoffrey Rush).

Como podemos perceber somente através de sua premissa, “O Discurso do Rei” teria tudo para se tornar um drama melodramático ou uma comédia pastelão, mas felizmente o roteiro de Seidler acerta no tom e alcança um equilíbrio agradável que jamais descamba para um lado ou para o outro, ainda que falhe na construção de personagens maniqueístas e exagere pontualmente nas piadas que visam dar leveza a narrativa. Ainda assim, é interessante notar como Seidler aproveita para inserir raras e interessantes alfinetadas na monarquia através de Lionel, como quando ele senta na cadeira da igreja e provoca o rei, que se irrita e solta a voz sem gaguejar. Já o discurso que abre o filme serve para nos apresentar a dificuldade do protagonista e ganhar a empatia da platéia, algo que até mesmo a trilha sonora de Alexandre Desplat evidencia ao criar uma atmosfera tensa antes das primeiras palavras dele, mudando para um tom melancólico que, associado ao olhar incomodado do público, garante a identificação imediata do espectador com o vulnerável duque de York.

Numa atuação excepcional, Firth transmite muito bem a aflição do rei George VI por não conseguir se expressar, além de oscilar de maneira convincente entre os momentos de alegria (ao lado das filhas, por exemplo) e as constantes explosões provocadas pelo trauma de infância que tanto o sufoca. Este lado sombrio torna o personagem ambíguo e misterioso, o que é essencial para que o espectador não antecipe suas reações e se choque, por exemplo, quando ele humilha Lionel no meio da rua após uma discussão – e aqui temos uma demonstração da falta de habilidade de Hooper, que começa a cena corretamente com um movimento de câmera que diminui Lionel no fundo do plano, simbolizando sua impotência, mas abandona a estratégia cortando abruptamente para um plano fechado que destaca o personagem e destrói a construção dramática da cena. Mas se por um lado George VI demonstra que pode ser cruel a este ponto, por outro confirma sua vulnerabilidade de diversas maneiras, como ao perguntar se pode mexer no brinquedo do filho de Lionel ou, de maneira mais clara, ao chorar compulsivamente após o irmão deixar o trono, temendo a pressão de ser rei – num momento que destaca a importância do apoio da esposa e como ele se sente à vontade diante dela.

Mostrando-se preocupada e até mesmo comovida com o drama do marido, a Elizabeth de Helena Bonham Carter é a verdadeira companheira que oferece o apoio necessário na hora exata; e a atriz faz bem este papel, soando compreensiva na maior parte do tempo. Da mesma forma, o Lionel de Geoffrey Rush é o contraponto ideal para o explosivo George, com sua tranqüilidade e autoconfiança servindo como refúgio para o atormentado protagonista. Saindo-se bem nos duelos verbais com Firth, Rush cria um Lionel bastante carismático e convence o espectador como uma espécie de conselheiro do rei, graças também à boa química entre eles. Por outro lado, o unidimensional Rei Edward VIII de Guy Pearce chega a ser irritante em sua devoção à esposa e se torna definitivamente odiável quando zomba da gagueira do irmão, numa cena que começa a denunciar a origem da doença do protagonista, que será confirmada num momento tocante em que ele relembra os traumas vividos diante da família e de uma babá. Fechando o elenco, também vale citar a participação pequena e caricata de Timothy Spall como Winston Churchill, conhecido pelos discursos durante a segunda guerra mundial e que também tinha problema na fala, algo que ele chega a citar durante a narrativa.

A vida triste do protagonista é claramente refletida na paleta dessaturada da fotografia de Danny Cohen, que cria um visual cinzento, reforçado pelos tons escuros de suas roupas (figurinos de Jenny Beavan). Já as paredes descascadas do consultório indicam a situação financeira pouco confortável de Lionel e sua origem humilde, que será usada por George para ofendê-lo em determinado momento da narrativa, evidenciando o bom trabalho de direção de arte de Netty Chapman, que também nos ambienta perfeitamente à Inglaterra das primeiras décadas do século passado através dos carros, da imponente mesa de jantar do rei, dos próprios microfones e da decoração interna dos ambientes.

Cobrindo muitos anos da vida do rei, a montagem de Tariq Anwar é eficiente, ainda que utilize deselegantes letreiros para indicar a passagem do tempo. E finalizando a parte técnica, o design de som merece destaque especialmente nos discursos que abrem e fecham “O Discurso do Rei”, onde podemos ouvir claramente o público levantando, o volume diferenciado do microfone de acordo com o ambiente em que estamos e até mesmo a reação contida das pessoas ao ouvirem suas palavras. Também vale citar o momento em que o som diegético trabalha a favor da narrativa, quando ouvimos a música junto com o duque e não sabemos se ele conseguiu ou não falar enquanto Lionel grava o áudio – apesar do resultado daquele teste ser mais do que previsível.

Imprevisível mesmo é a direção de Tom Hooper. Inicialmente, ele parece ter total controle visual da narrativa, mostrando o rei George VI sempre do lado esquerdo (o mais fraco da tela) e Lionel sempre do lado direito (o mais forte) na primeira conversa deles, algo que, além de demonstrar o lado psicologicamente mais fraco daquela relação, ainda reflete a forma distorcida que o protagonista enxerga o mundo. Mas quando seu pai questiona duramente sua atitude passiva, tanto o duque quanto o rei George V aparecem do lado mais fraco da tela, o que denuncia, ainda que sutilmente, que Hooper sequer sabia o que estava fazendo. Isto fica ainda mais evidente na medida em que a narrativa avança, como na conversa seguinte à morte do rei George V, em que o duque aparece do lado direito da tela no plano geral, mas volta a surgir do lado esquerdo nos planos fechados. Se mantivesse as posições e gradualmente invertesse os lados dos personagens, Hooper estaria simbolizando o crescimento da confiança do personagem, o que seria genial. O mais curioso é que sabendo ou não o que estava fazendo, o diretor encerra “O Discurso do Rei” justamente com George VI do lado direito da tela e Lionel surgindo por último do lado esquerdo, o que, não fossem as constantes trocas durante a narrativa, poderia significar o fortalecimento do rei naquela relação. Pra piorar, o diretor insiste nesta visão distorcida até mesmo quando as cenas não envolvem George VI, o que é uma pena. Mas Hooper também acerta, como quando a câmera vai e volta em direção ao duque em seu tratamento, simulando o movimento respiratório tão importante naquele processo de cura do personagem. Além disso, o diretor obviamente tem créditos por extrair as excelentes atuações do elenco citadas acima.

E por falar em atuações, Firth dá outro show durante o ensaio de George VI, cantando, dançando e até mesmo gritando palavrões sob a observação atenta de Lionel, momentos antes do esperado discurso do título. E quando este momento chega, a tensão toma conta das pessoas presentes – e mesmo imaginando o que irá acontecer, o espectador compartilha deste sentimento. Ainda assim, Hooper estica ao máximo a cena antes de George pronunciar as primeiras palavras e fazer um belo discurso, com raras falhas (“Eu tinha que gaguejar para eles saberem que sou eu”, diz ele), na melhor cena do longa, que destaca ainda a reação das pessoas diante daquelas palavras ao mesmo tempo em que nos mostra o esforço do protagonista para evitar gaguejar. Apesar de previsível, este final feliz faz com que o espectador saia satisfeito com o que viu.

Mesmo com falhas visíveis, “O Discurso do Rei” é um filme agradável, feito sob medida para alegrar o espectador e que de quebra ainda nos brinda com ótimas atuações. Contando uma história interessante e verdadeira de superação, o longa conquista imediatamente a simpatia da platéia, mas, assim como a cura de seu protagonista, é apenas uma questão de tempo para que ele caia no esquecimento.

Texto publicado em 22 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira

CORAÇÃO VALENTE (1995)

(Braveheart)

 

Videoteca do Beto #125

Vencedores do Oscar #1995

Dirigido por Mel Gibson.

Elenco: Mel Gibson, Patrick McGoohan, Sophie Marceau, Catherine McCormack, Brian Cox, Angus MacFadyen, Brendan Gleeson, James Robinson e David O’Hara.

Roteiro: Randall Wallace.

Produção: Bruce Dave, Mel Gibson e Alan Ladd Jr.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Grandioso e intenso, “Coração Valente” apresentou ao mundo muitas das características marcantes do controverso cinema de Mel Gibson, algo que não aconteceu em sua estréia atrás das câmeras, no singelo e tocante “O homem sem face”. Desta vez, o diretor empregou toda sua energia, nos trazendo uma história apaixonante e entregando um longa de forte impacto visual e emocional. Goste ou não do que se vê na tela, uma coisa é certa: o segundo filme dirigido pelo então astro de Hollywood deixou claro que a indiferença é um sentimento que você jamais sentirá num filme dele.

Escrito por Randall Wallace a partir de uma pesquisa em busca de seus ancestrais escoceses, “Coração Valente” narra a história de William Wallace (Mel Gibson), um escocês que tem a noiva assassinada (Catherine McCormack, belíssima como Murron) por ingleses no século XIII e parte para uma vingança pessoal que inflama seus compatriotas e resulta na luta pela liberdade de seu povo.

Olhando superficialmente, o roteiro de “Coração Valente” pode soar maniqueísta por tratar a maioria dos ingleses como cruéis vilões e os escoceses como sofridos heróis. Entretanto, esta visão unidimensional e até mesmo romantizada tem uma justificativa plausível, fugindo do maniqueísmo ao narrar os fatos sob o ponto de vista de Robert the Bruce (Angus MacFadyen), um personagem claramente seduzido pela força do protagonista. E apesar de alguns pequenos erros históricos, o roteiro de Randall apresenta, além de uma estrutura narrativa envolvente, um protagonista realmente cativante, algo que, associado ao carisma de Mel Gibson, faz com que a platéia acredite em suas motivações e “lute” junto com ele. Além disso, o roteiro utiliza com elegância algumas rimas narrativas, seja através das palavras (“Isto é algo que teremos que remediar”) ou de simbolismos, como a flor que conquista Murron (e o coração das mulheres na platéia), abordando ainda de maneira interessante os bastidores das batalhas, através das estratégias de guerra utilizadas por William e pelo rei Eduardo I, o “Longshanks” (Patrick McGoohan), pecando apenas no desnecessário romance entre a princesa Isabelle (Sophie Marceau) e William, que existe apenas para justificar a gravidez dela e amenizar um pouco o sufocante final.

Conseguindo sucesso na difícil tarefa de condensar toda esta história épica sem torná-la cansativa, o montador Steven Rosenblum acerta, por exemplo, ao acelerar o relacionamento entre William e Murron (namoro e casamento acontecem rapidamente), abrindo mais espaço para as seqüências de batalha, que são a alma de “Coração Valente” – e onde, vale ressaltar, o trabalho do montador mais se destaca -, além de intercalar com fluência entre a trama na realeza inglesa, as decisões políticas dos nobres escoceses e a rebelião comandada por William. Já a trilha sonora de James Horner é um capitulo a parte. Misturando elementos tradicionais da música escocesa como a gaita de fole com uma abordagem solene típica dos grandes épicos, Horner cria diversas melodias magníficas, como o lindo tema da relação entre William e Murron “For the Love of a princess”, e colabora muito para a atmosfera lendária do longa.

Essenciais num filme de época, os figurinos de Charles Knode também se destacam, caprichando na recriação dos uniformes do exército inglês, do próprio Longshanks e da princesa Isabelle, que com sua elegância criam um forte contraste com as roupas feitas de trapos e os kilts dos escoceses. Por sua vez, a direção de arte de Ken Court, Nathan Crowley, John Lucas e Ned McLoughlin acerta na escolha de imponentes castelos, na decoração interna destes ambientes e na variedade de armas e acessórios utilizados nas guerras, como os escudos e capacetes. Quem também merece destaque especial é a excelente maquiagem, que torna os ferimentos nas batalhas bastante realistas, assim como o ótimo design de som, que nos permite escutar cada arma sendo movimentada, a respiração dos personagens, o som da chuva e os cavalos cavalgando com incrível clareza.

Explorando a beleza da região e captando com destreza a essência das batalhas, o diretor de fotografia John Toll colabora sensivelmente para o sucesso da direção de Mel Gibson. São inúmeras as seqüências de grande beleza plástica, como o ritual com as gaitas de fole no túmulo do pai de William ou o encontro entre os jovens William e Murron em que a menina o consola com uma flor, além de toda a seqüência do namoro deles, que faz com que a platéia crie empatia pelo casal. Aliás, a chuva que marca o início do romance indica o futuro trágico daquela relação.

Com um sotaque britânico apenas razoável, o competente e carismático Mel Gibson demonstra bem a transformação de William, inicialmente um homem preocupado somente em constituir sua família, mas que vai até as últimas conseqüências dos conflitos após ver sua noiva ser friamente executada. Encarnando o líder escocês com alma e paixão, ele oferece um desempenho acima da média, envolvendo o espectador na luta do personagem (nós acreditamos nele) e convencendo no papel de grande líder até o último instante. Na pele de seu antagonista, Patrick McGoohan entrega uma atuação marcante e faz de seu rei Eduardo I, o “Longshanks”, um vilão respeitável, demonstrando a autoridade esperada de alguém em sua posição e mostrando cuidado com pequenos detalhes de sua composição, por exemplo, ao começar a tossir levemente quando retorna da França e encontra a cabeça do sobrinho numa cesta, indicando o início da doença que o levaria à morte. E mesmo que o roteiro demonize seu personagem, McGoohan consegue demonstrar algumas das características marcantes do verdadeiro Eduardo I, como a inteligência e a liderança.

Dona de um rosto angelical e grande carisma, Sophie Marceau vive a princesa Isabelle e se torna o porto seguro do espectador sempre que a narrativa salta para a Inglaterra, enquanto o Hamish de Brendan Gleeson é o responsável pelos momentos de alivio cômico da narrativa – como no reencontro com William ainda no primeiro ato -, assim como Stephen, o irlandês maluco vivido por David O’Hara. E finalmente, o angustiado Robert the Bruce de Angus MacFadyen é um personagem complexo, dividido entre manter as posses da família e o respeito dos nobres e jogar tudo pro alto para lutar com a paixão de William contra os ingleses.

Todo este apuro técnico e bom nível das atuações de “Coração Valente” contam, obviamente, com o olhar atento do diretor Mel Gibson, que demonstra ainda enorme talento para a composição visual e energia para conduzir à narrativa. Gibson inicia seu épico mostrando uma série de paisagens deslumbrantes no acidentado terreno das Highlands, numa metáfora sutil para a própria vida de William, um personagem belíssimo, mas com uma trajetória repleta de altos e baixos. Retratando a vida do herói escocês desde sua infância, onde presenciamos dois traumas marcantes (a descoberta dos escoceses enforcados e a morte de seu pai, numa cena em que a reação do garoto ao perceber que o pai não voltou vivo nos parte o coração), o diretor conduz a narrativa com paciência, nos familiarizando com os personagens e, principalmente, criando empatia entre William e a platéia. Além disso, ele também utiliza com destreza a câmera lenta em momentos de forte impacto, como quando uma noiva plebéia acalma os soldados ingleses e se entrega ao lorde local para a primae noctis ou no ataque da cavalaria inglesa em Stirling, criando também planos inteligentes, como aquele que mostra muitos ingleses cercando um pequeno grupo de escoceses, que serviam de isca para o ataque dos outros que surgem no alto do monte. Existe ainda um pequeno momento que confirma o talento de Gibson atrás das câmeras, quando Stephen salva William na floresta, numa cena em que a câmera fala mais que qualquer palavra.

Ponto de virada na narrativa, a morte de Murron serve também para inserir pela primeira vez o tipo de violência gráfica que permeia “Coração Valente”, preparando o espectador para o que virá pela frente. O choque com a morte dela nos faz esperar pela reação de William e o diretor, ciente disto, brinca com nossa expectativa, esticando ao máximo o momento que precede seu ataque através da câmera lenta. Ele sabe que o agora revoltado espectador espera que William se vingue e quando isto acontece, a direção visceral e a montagem cheia de energia criam uma seqüência de forte impacto. Mas Gibson sabe que este momento significa muito mais do que uma simples vingança pessoal, marcando o nascimento da lenda e o estopim para a luta pela independência escocesa, e encerra a cena com um marcante silêncio que precede os gritos de “Wallace”, enquanto William é filmado por baixo para engrandecê-lo na tela.

Mas apesar desta grande cena, sua competência na direção se confirma mesmo na sensacional batalha de Stirling, um espetáculo cinematográfico de primeira grandeza, que não deve em nada às grandes cenas da história dos épicos. Temos certeza de estar acompanhando um momento marcante desde o inicio, com a triunfal chegada do exército inglês, capaz de fazer o chão tremer (novamente, ponto para o design de som), passando pelos efeitos digitais que multiplicam os figurantes e nos apresentam numerosos exércitos e pelo emocionante discurso de William antes do inicio da batalha – neste discurso, aliás, nasce à imagem icônica do personagem com a cara pintada de azul, num erro histórico de menor importância que é um ótimo exemplo de licença criativa que agrega à narrativa. O show do diretor continua durante o confronto, imprimindo uma energia incrível em toda seqüência, com sua câmera inquieta e cortes rápidos que jamais soam confusos e nos jogam pra dentro do campo de batalha de maneira brutal, nos fazendo praticamente sentir o calor do combate e o sangue que é derramado. Obviamente, este realismo extremo torna a batalha muito mais convincente. Além disto, temos o genial momento em que os escoceses param pela primeira vez na história a cavalaria inglesa, num fato real que fica ainda mais empolgante na câmera de Gibson.

Entretanto, a adrenalina contagiante das batalhas de “Coração Valente” termina em Falkirk, com a traição de Robert the Bruce (indicada numa conversa prévia com seu pai) provocando outro choque na platéia, que se sente tão desnorteada quanto o próprio William, que apesar disto consegue escapar. Mas o arrependimento não tarda e Bruce cai de joelhos em meio aos mortos da batalha, numa cena triste, ressaltada pela névoa e pelo plano que o diminui na tela. Só que em outra emboscada, desta vez sem a participação dele, Wallace finalmente é capturado pelos ingleses. Julgado e condenado, ele caminha para a morte e o longa para o seu trágico desfecho. Mantendo o realismo habitual, a triste execução nos sufoca e nos faz clamar pelo grito de piedade de William – praticamente podemos sentir sua dor, graças ao ótimo desempenho de Gibson. Quando ele finalmente se esforça para falar, ouvimos a única palavra que poderíamos esperar dele. E o grito de “liberdade” de William Wallace certamente está entre os grandes momentos do cinema nos anos 90, sendo capaz de levar muitos espectadores às lagrimas. O final poético, com sua espada fincada no campo de batalha e as palavras que anunciam a conquista da liberdade escocesa, encerra este filme triste, é verdade, mas que carrega em cada fotograma a grandiosidade dos melhores épicos.

Se “todo homem morre, mas nem todo homem realmente vive”, William Wallace pode se orgulhar, pois sua incrível jornada sobreviveu ao tempo e se eternizou neste belo e poético “Coração Valente”, um filme com sentimento, apaixonante e que se eterniza na memória dos amantes da sétima arte.

PS: Como afirmei na crítica de “Um Sonho de Liberdade”, “Coração Valente” é responsável direto por minha paixão pela sétima arte, além de ser – como vocês saberão em detalhes no próximo post – o filme mais importante da minha vida.

Texto publicado em 29 de Janeiro de 2012 por Roberto Siqueira

NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA (1977)

(Annie Hall)

 

 

Videoteca do Beto #114

Vencedores do Oscar #1977

Dirigido por Woody Allen.

Elenco: Woody Allen, Diane Keaton, Christopher Walken, Tony Roberts, Carol Kane, Paul Simon, Shelley Duvall, Janet Margolin, Donald Symington, Mordecai Lawner, Jonathan Munk, Colleen Dewhurst, Helen Ludlam, Joan Newman, Beverly D’Angelo, Jeff Goldblum e Sigourney Weaver.

Roteiro: Woody Allen e Marshall Brickman.

Produção: Charles H. Joffe e Jack Rollins.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Woody Allen escreveu definitivamente o seu nome na história do cinema com este sensacional “Annie Hall” – me recuso a repetir a ridícula tradução do título para o português. Apresentando diálogos magníficos e afiados, um senso de humor cínico e sarcástico e uma montagem que só contribui na criação de cenas antológicas, o longa é uma comédia tão divertida quanto reflexiva, que expõe as complexidades dos relacionamentos humanos ao mesmo tempo em que funciona como um espelho da persona cinematográfica de Allen (o intelectual inseguro, apaixonado por Nova York, mulheres e jazz), apresentando as características marcantes dos melhores momentos do diretor/ator/roteirista no cinema.

Duas vezes divorciado, o humorista Alvy Singer (Woody Allen) se apaixona novamente, desta vez pela excêntrica cantora de boate Annie Hall (Diane Keaton). Rapidamente, eles decidem morar juntos, mas as crises conjugais aparecem e começam a desestabilizar a relação. Alvy, que faz análise há quinze anos, convence Annie a fazer o mesmo e a estudar, mas nada parece salvá-lo de mais uma separação.

Só mesmo Woody Allen para contar a história de um homem depressivo, cheio de complexos (seja por sua nacionalidade, seja por qualquer outra característica dele) e duas vezes divorciado de maneira tão divertida e encantadora. E só mesmo Allen para nos fazer sorrir o tempo todo ao mesmo tempo em que nos faz refletir sobre algumas das mais frustrantes constatações de nossa existência, como a de que o amor, para ser perfeito, deve permanecer em seu estado inicial de “idealização”. Ou seja, quando passamos a conviver com a pessoa amada, passamos também a descobrir os seus defeitos que, muitas vezes, podem provocar o fim do sentimento avassalador no/a parceiro/a. Não por acaso, Alvy, em certo momento, implora para que Annie não venda o apartamento dela, alegando que este funciona como um “porto seguro”, fazendo o casal lembrar que não é oficialmente casado.

Escrito pelo próprio Woody Allen, “Annie Hall” demonstra também sua enorme capacidade de construir diálogos primorosos, recheados com um humor ácido e auto-depreciativo, que expõe algumas verdades sobre nossas angústias. Da mesma maneira, a direção de Allen também é dinâmica e esbanja criatividade, criando momentos que não apenas fogem do realismo, como deixam claro que o diretor deseja mesmo brincar com a linguagem cinematográfica, como quando um homem cita as teorias do filósofo canadense Marshall McLuhan na fila do cinema e Alvy puxa o autor detrás de um pôster para rebater os comentários do tagarela (“Você não sabe nada da minha obra”, diz McLuhan). Estas brincadeiras ficam ainda mais evidentes quando ele quebra a quarta parede em diversos momentos, olhando para a câmera e falando diretamente com o espectador. Além disso, o diretor cria alternativas narrativas curiosas, como as legendas que expressam pensamentos dos personagens e a tela dividida. Conduzindo com vigor a narrativa, Woody Allen utiliza ainda sua cidade favorita como pano de fundo, algo que se repetiria muitas vezes em sua filmografia, onde Nova York normalmente é o palco das ações.

Utilizando uma narrativa não linear para abordar diversas fases da vida do protagonista, Allen e seus montadores Wendy Greene Bricmont e Ralph Rosenblum tentam refletir a mente agitada de Alvy Singer e do próprio diretor, além de constantemente brincarem com novas possibilidades, como, por exemplo, quando dividem a tela em dois planos para ilustrar as diferenças entre as famílias de Annie e Alvy. Além disso, em diversos momentos, quando alguém cita alguma passagem da vida dele, somos levados em seguida para aquele exato momento, como na engraçada cena do período escolar, onde o Alvy adulto reencontra o Alvy criança (Jonathan Munk) e dialoga com seus colegas. Desta forma, somos envolvidos por suas complexidades e compartilhamos de muitos dos seus dilemas. Utilizando cores fortes em muitas lembranças, a fotografia do excepcional Gordon Willis alterna entre uma atmosfera naturalista e momentos hiper-realistas, como quando vemos desenhos animados ou quando os personagens passeiam pelas lembranças de Annie, nos colocando dentro de sua mente enquanto ela apresenta seus ex-namorados.

Entre os vários dilemas que assolam o pobre Alvy, o sexo tem destaque especial (“Masturbação é sexo com alguém que amo”, diz ele). Como explica, “ele não gostaria de fazer parte de um clube que o aceitaria como sócio”. Por isso, qualquer mulher que demonstre interesse por ele passa, imediatamente, a perder o encanto. Ainda assim, Alvy consegue se apaixonar por Annie, o que não o impede de ter problemas com a garota, seja por que ela tem hábitos estranhos pra ele, como fumar maconha antes de transar, seja por outra razão qualquer. O sexo, aliás, explica muito sobre as diferenças do casal. Enquanto Annie diz ao analista que faz sexo sempre, “pelo menos três vezes por semana”, Alvy afirma que quase nunca faz sexo, “no máximo três vezes por semana”. Interpretando uma versão de si mesmo, Woody Allen está muito a vontade no papel, vivendo um personagem ansioso (algo refletido em sua fala rápida) e depressivo. Diane Keaton, por sua vez, está leve e encantadora como Annie Hall, protagonizando muitos momentos divertidos, como o diálogo após um jogo de tênis com Alvy, que resulta no primeiro encontro deles, e o brilhante monólogo em que ela apresenta sua família e conta como seu tio George morreu. Atrapalhada, ela nos faz rir e também se diverte com os trejeitos de seu pretendente. Auxiliada pelos figurinos de Ralph Lauren e Ruth Morley, a atriz cria uma personagem marcante, que nos encanta da mesma maneira como encanta Alvy, o que é essencial para que o espectador compartilhe ainda mais das aflições do protagonista, preso entre suas dúvidas e seu sentimento por esta mulher.

Vale destacar ainda a pequena participação de futuros astros, como Christopher Walken, na pele do irmão de Annie, Duane Hall, Shelley Duvall como Pam, uma das namoradas de Alvy, e Jeff Goldblum e Sigourney Weaver, que surgem rapidamente como figurantes. Walken, aliás, protagoniza uma das muitas cenas engraçadas ao falar que gostaria de bater o carro na estrada, momentos antes de dar carona para Alvy e Annie – e a feição aflita de Allen nesta cena é impagável.

Tentando ser adulto, Alvy age naturalmente quando Annie propõe uma separação. Mal sabia ele (ou talvez soubesse) que estava dando o primeiro passo para perder de vez o amor de sua vida. Sua reflexão final é marcante: nós sempre estamos à procura do amor, ainda que seja doloroso e proporcione experiências ruins. Divertido, bem atuado e bastante original, “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” (que tradução hein?!) consegue ser ao mesmo tempo leve e crítico, revelando as angústias e inseguranças de seu protagonista de maneira inapelável. De quebra, o longa ainda brinca deliberadamente com muitas regras da linguagem cinematográfica. E o melhor, o faz com incrível competência.

Apostando no humor afiado e na identificação do espectador com muitas das situações narradas, “Annie Hall” é a obra-prima de um dos maiores autores que Hollywood já produziu. Contando ainda com uma atuação inspirada da ótima Diane Keaton, o filme faz o espectador deixar a projeção com sentimentos conflitantes. Ao mesmo tempo em que saímos alegres por termos gargalhado em muitos momentos, saímos preocupados por saber que estas risadas surgiram ao reconhecermos vários aspectos falhos de nossa natureza humana.

Texto publicado em 14 de Setembro de 2011 por Roberto Siqueira

LAWRENCE DA ARÁBIA (1962)

(Lawrence of Arabia)

 

Videoteca do Beto #111

Vencedores do Oscar #1962

Dirigido por David Lean.

Elenco: Peter O’Toole, Alec Guinness, Anthony Quinn, Omar Sharif, Jack Hawkins, José Ferrer, Anthony Quayle, Claude Rains e Arthur Kennedy.

Roteiro: Robert Bolt e Michael Wilson, baseado nos textos de T.E. Lawrence.

Produção: Sam Spiegel.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Entre a segunda metade da década de 50 e o início dos anos 60, o cinema viveu um período repleto de produções grandiosas como “Os Dez Mandamentos”, “Ben-Hur”, “Spartacus” e “A Queda do Império Romano”, que utilizavam uma quantidade enorme de figurantes para narrar momentos históricos, recriados caprichosamente sob a condução competente de diretores como William Wyler, Cecil B. DeMille, Stanley Kubrick e Anthony Mann. Em 1962, David Lean se juntou ao grupo com este “Lawrence da Arábia”, que narra com riqueza de detalhes como um tenente inglês liderou os árabes na luta contra os turcos durante a primeira guerra mundial.

Escrito por Robert Bolt e Michael Wilson (baseado nos textos do próprio Lawrence), “Lawrence da Arábia” inicia em 1935 com a morte de T.E. Lawrence (Peter O’Toole) num acidente de motocicleta. Em seu funeral, um longo flashback surge para narrar sua trajetória e explicar a razão de sua fama, revelando como ele passou de um tenente infeliz para um respeitado (e improvável) líder, responsável pela união das tribos árabes na guerra contra os turcos. No caminho, o roteiro aproveita para expor os conflitos entre as diversas tribos árabes, abordando também os interesses políticos da Inglaterra na região, além de explicar, através da figura do repórter, como a fama de Lawrence se espalhou pelo mundo.

Auxiliado pela montagem clássica de Anne V. Coates, David Lean emprega um ritmo lento, que nos permite contemplar a beleza do deserto e desfrutar cada etapa da transformação do protagonista. Afinal de contas, em “Lawrence da Arábia” as sensações têm papel fundamental, fazendo o espectador se sentir parte daquele universo. Observe, por exemplo, como o diretor prepara cuidadosamente a invasão de Aqaba, prolongando a expectativa no espectador e nos fazendo compartilhar o minucioso planejamento estratégico do protagonista. E apesar de soar lenta para os padrões atuais, a montagem funciona bem e consegue evitar que o longa se torne cansativo. Além disso, Coates cria elegantes raccords, como quando o fogo de uma vela é substituído pelo plano do céu avermelhado no deserto ou quando ele salta das pernas dos camelos para as pernas dos soldados durante uma batalha.

Sem se preocupar em comprimir a narrativa nas tradicionais duas horas de duração, David Lean toma o tempo que julga necessário para explorar o deserto, criando lindos planos que aproveitam o nascer do sol e a exuberância daquele mar de areia. Contando ainda com a deslumbrante fotografia de Freddie Young, o diretor cria um visual arrebatador, que se confirma até mesmo nas cenas noturnas, iluminadas com destreza por Young e que servem para criar um contraste com a luz poderosa das cenas diurnas. O diretor é competente ainda na condução das cenas de forte impacto, como as guerras (que voltaremos a abordar em instantes), e nos momentos intimistas, como as lentas caminhadas de Lawrence pelo deserto. Observe ainda como o silêncio aumenta nossa expectativa segundos antes do beduíno Sherif Ali (Omar Sharif) surgir no horizonte longínquo. Já quando Lawrence resgata Gasim (I.S. Johar) no deserto, a trilha triunfal indica com antecedência que ele salvou o rapaz – Gasim ainda protagoniza outro momento marcante, quando descobrimos que ele é o assassino que deve ser executado por Lawrence, pouco tempo depois de ser salvo por ele. Estes dois instantes nos quais alguém surge no horizonte demonstram como Lean trabalha com as nossas sensações, nos fazendo compartilhar a angustiante experiência de caminhar no deserto escaldante como se estivéssemos ali, olhando para o horizonte sem saber se o que estamos vendo é real ou apenas uma miragem. Em outras palavras, “Lawrence da Arábia” é uma experiência cinematografia sensorial, que merece ser vivida na tela grande (ou algo que se assemelhe).

Interpretado pelo carismático Peter O’Toole, Lawrence surge inicialmente como um homem misterioso, capaz de cativar muitas pessoas que mal o conheceram, como descobriremos no final, quando uma interessante rima narrativa nos revela o homem que introduziu o flashback apertando a mão de Lawrence “somente para dizer que fez isto”. Mas uma conversa na tenda do príncipe Feisal (Alec Guinness) estabelece os objetivos da guerra e escancara alguns dos traços da forte personalidade do protagonista, um improvável herói de guerra, que foge dos padrões estereótipos do tipo. Magro e levemente afeminado, o Lawrence de O’Toole é um personagem repleto de nuances, que, contrariando sua aparência frágil, lentamente descobre sentir prazer ao matar seus inimigos. Apesar de se assustar num primeiro momento, Lawrence confirma este sentimento numa das batalhas, algo que O’Toole transmite muito bem com seu semblante insano durante o conflito. Durante seu processo de transformação, Lawrence conhece ainda o líder dos Howeitat, Auda Abu Tayi, vivido de maneira divertida por Anthony Quinn, e também o príncipe Feisal de Alec Guinness, que demonstra sabedoria nas decisões e sabe jogar o jogo político dos ingleses. Fechando o talentoso elenco, Claude Rains vive o político Sr. Dryden, Omar Sharif interpreta muito bem Sherif Ali e Jack Hawkins marca presença como o general Allenby.

David Lean conta ainda com a trilha sonora triunfal do ótimo Maurice Jarre na construção da atmosfera épica do longa, além de nos ambientar com perfeição naquele universo através do ótimo trabalho técnico de sua equipe, a começar pelo design de som, que realça o barulho do vento no deserto, as explosões e gritos durante as batalhas e os aviões que rasgam o céu. Quem também colabora bastante são os figurinos de Phyllis Dalton e a direção de arte de John Stoll que, somadas a enorme quantidade de figurantes utilizada nas batalhas, conferem realismo a narrativa – além de realçarem a magnitude da produção quando destacados pelos planos gerais de Lean. Finalmente, os figurinos têm ainda função narrativa, já que a mudança de roupa de Lawrence ilustra também sua mudança de comportamento e o respeito que ele passa a ter diante dos árabes.

Entre as grandes cenas de “Lawrence da Arábia”, vale destacar a invasão de Aqaba, uma seqüência de tirar o fôlego, captada num lindo plano geral de Lean que, no final, revela através de um elegante travelling o canhão apontado para o mar (e que belo mar!), exatamente como Lawrence tinha previsto. Outra batalha sensacional acontece antes da chegada a Damasco, numa seqüência que ilustra bem a grande quantidade de figurantes utilizada, exigindo muita habilidade do diretor na condução da mise-en-scène – vale lembrar que, ao contrário do que acontece atualmente, as batalhas não utilizavam efeitos digitais. E além das cenas marcantes de guerra, merece destaque a melancólica morte de um garoto na areia movediça, que parece servir para endurecer ainda mais o coração de Lawrence.

“Lawrence da Arábia” é um épico grandioso que retrata a vida de um personagem complexo, repleto de qualidades e defeitos como qualquer ser humano. Seu espírito de liderança e seu carisma uniram os povos árabes na luta contra os turcos, mas ele também sofreu profundas transformações nesta trajetória, captada com habilidade pela câmera de David Lean – um especialista em produções de grande escala e notável beleza plástica. O resultado é um filme empolgante, repleto de cenas marcantes e que, mesmo com quase quatro horas de duração, consegue cativar o espectador sem se tornar cansativo.

PS: Para quem tiver curiosidade, Rodrigo Carreiro explica em detalhes as dificuldades enfrentadas durante as filmagens de “Lawrence da Arábia” nesta crítica.

Texto publicado em 29 de Agosto de 2011 por Roberto Siqueira

COMO ERA VERDE MEU VALE (1941)

(How Green Was My Valley)

 

Filmes em Geral #70

Vencedores do Oscar #1941

Dirigido por John Ford.

Elenco: Donald Crisp, Roddy McDowall, Barry Fitzgerald, Walter Pidgeon, Maureen O’Hara, Sara Allgood, Anna Lee, John Loder, Lionel Pape, Patric Knowles, Morton Lowry, Arthur Shields, Ann Todd, Frederick Worlock, Richard Fraser, Evan S. Evans, James Monks, Rhys Williams, Ethel Griffies e Marten Lamont.

Roteiro: Philip Dunne, baseado em romance de Richard Llewellyn.

Produção: Darryl F. Zanuck.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Premiações nunca serviram como atestado de qualidade na história do cinema. Por isso, evito citar prêmios em meus textos e tento focar apenas no filme analisado. Mas quando falamos de “Como era verde meu vale” é inevitável lembrar que este foi o filme que derrotou o atemporal “Cidadão Kane”, obra-prima incontestável de Orson Welles, no Oscar. Talvez porque o primeiro ressalta o valor da família, a importância do trabalho e a América como uma terra de esperanças, numa época em que este sentimento otimista era tudo que os norte-americanos queriam. Não importa. Apesar de suas qualidades, o longa de John Ford está longe de ser um grande filme.

A história se passa no País de Gales e é contada num longo flashback a partir das memórias do protagonista Huw Morgan (Roddy McDowall), que já tem mais de 50 anos. Ele recorda a época em que era uma criança e convivia com seu pai Gwilym (Donald Crisp), sua mãe Beth (Sara Allgood), sua irmã Angharad (Maureen O’Hara) e seus irmãos mais velhos, que trabalhavam numa mina de carvão ao lado do pai. Tudo ia bem até que o Sr. Evans (Lionel Pape), o proprietário da mina, decide diminuir os salários e provoca uma greve geral que se arrasta por meses e divide a família Morgan.

Os primeiros minutos de “Como era verde meu vale” já indicam seu tom nostálgico através da narração em off do protagonista, que relembra com saudade dos tempos em que sua família vivia unida. Apostando neste sentimento universal de apego às raízes, o roteiro escrito por Philip Dunne, baseado em romance de Richard Llewellyn, investe numa visão romantizada da vida no campo, como se tudo fosse perfeito até a chegada das empresas de mineração. A crítica a industrialização se confirma nas palavras do narrador, que acusa o preto do carvão de manchar “seu vale”, mas o próprio roteiro se encarrega de suavizar este aspecto através da postura de seu pai, que defende os empregadores quando os salários diminuem e autoriza o casamento da filha com o filho do chefe, sem se preocupar com a felicidade dela. Quando os salários começam a diminuir (resultado do excesso de operários que Ford estuda de maneira mais eficiente em “As Vinhas da Ira”), o conflito político entra em cena e torna a trama mais interessante, com o conservador Gwilym defendendo seu empregador enquanto seus filhos, tachados de socialistas, buscam a união entre os empregados. O ódio ao socialismo, aliás, imperava até mesmo na igreja, como fica claro nas palavras do detestável parceiro do pastor Gruffydd (Walter Pidgeon). Revoltados com a postura do pai, os irmãos de Huw deixam a casa e, infelizmente, a narrativa perde força, com o interessante confronto político cedendo lugar para a doença de Beth e Huw, congelados após caírem num lago na volta do inflamado discurso dela em defesa do marido.

Seguindo a cartilha de John Ford, a montagem de James B. Clark é discreta e eficiente, mas ainda assim utiliza alguns fades que escurecem a tela completamente, em raros momentos de sofisticação – Ford entendia que a montagem deveria ser “transparente” e jamais chamar a atenção. Por outro lado, o visual do filme é rico e as cenas nas minas e no próprio vale são lindas (a cidade de mineradores foi totalmente criada nas colinas do rancho da Fox, nas Montanhas de Santa Mônica), ressaltando o bom trabalho de direção de arte de Richard Day e Nathan Juran e, especialmente, do diretor de fotografia Arthur C. Miller, que alterna do visual claro e alegre do início para um final obscuro, que reflete a tristeza do narrador. Vale lembrar também que estamos vendo apenas lembranças filtradas pela memória do protagonista, o que explica aquele mundo perfeito e belo. E se Ford utiliza mais planos fechados que de costume, ainda assim cria seus tradicionais planos gerais que exploram a bela paisagem, além de empregar interessantes movimentos de câmera, como o travelling para a direita que revela a saída de casa de Owen (James Monks) e Gwilym Morgan Jr (Evan S. Evans), dois dos irmãos de Huw.

Huw que é interpretado pelo carismático Roddy McDowall, que convence especialmente quando está doente e indefeso, mas falha quando começa a trabalhar, parecendo inseguro, por exemplo, nas conversas com Bronwyn e com sua irmã Angharad. Ainda criança, ele se apaixona pela mulher do irmão e acompanha o casamento dela com pesar. Interpretada por Anna Lee, Bronwyn é uma moça encantadora, de fato, mas, assim como a maioria das mulheres do longa, sem atitude e passiva. Diferente delas é a Sra. Beth Morgan de Sara Allgood, uma típica “mãezona” que defende a família com unhas e dentes e sofre ao ver cada filho partir – e a atriz, apesar de alguns exageros, consegue convencer no papel. Capaz de oferecer comida para toda a comunidade do vale – numa cena pouco realista em que ela parece esquecer rapidamente tudo que passou (e custo a acreditar que seria tão fácil alimentar toda aquela gente) -, Beth só não consegue perceber o sofrimento da filha, apaixonada pelo pregador da região. E neste aspecto, vale destacar a atuação de Maureen O’Hara, que demonstra bem o incômodo de Angharad com o casamento, deixando claro seu amor por Gruffydd.

Chamado de “Sir” pelos próprios filhos, Gwilym Morgan é um personagem autoritário e unidimensional. Apesar disto, Donald Crisp até que diverte no papel, mas jamais consegue criar empatia com a platéia – algo que, diga-se de passagem, nem mesmo o protagonista consegue, comprometendo a narrativa. Aliás, personagens unidimensionais não faltam em “Como era verde meu vale”, como atestam o professor Jonas vivido por Morton Lowry, a governanta da casa de Angharad e as puritanas mulheres que fofocam durante a semana e vão à igreja aos domingos. Pelo menos, Rhys Williams nos diverte com seu boxeador Dai Bando – especialmente quando ensina ao professor como tratar os alunos – e Ford consegue nos emocionar ao mostrar a reação de Angharad à morte do marido Ivor (Patric Knowles). Embalada por uma trilha sombria, esta é uma das cenas mais tristes do filme.

E já que citei a trilha sonora de Alfred Newman, observe como ela também alterna do tom alegre inicial para o tom melancólico que acompanha o trágico final. Além disso, segue uma tradição galesa ao espalhar muitos cantos pela narrativa, criando uma interessante trilha diegética enquanto os mineradores vão para o trabalho. Por outro lado, por vezes o filme mais parece uma novela, com seus momentos melodramáticos e atuações caricatas, como quando o médico diz que o garoto Huw não conseguirá mais andar. Para compensar, Ford acerta a mão na condução da excelente cena em que o pastor Gruffydd critica a hipocrisia daquelas pessoas na igreja, que olham mais para a vida dos outros do que pra elas próprias, num momento de destaque da atuação de Walter Pidgeon. E justamente por estes altos e baixos (além da falta de empatia dos personagens) é que a frase que encerra a narrativa (“Homens como meu pai não podem morrer”) não provoca o impacto esperado.

Maniqueísta e com personagens unidimensionais, “Como era verde meu vale” retrata a visão otimista que o sonho americano vendia e que foi desconstruída ao longo dos anos diante da dura realidade. Não sou contrário a filmes otimistas, longe disto, mas prefiro que este sentimento seja criado de maneira orgânica e não induzido pela narrativa. Neste aspecto, prefiro o pessimismo sóbrio de “As Vinhas da Ira”.

Texto publicado em 10 de Agosto de 2011 por Roberto Siqueira

FORREST GUMP – O CONTADOR DE HISTÓRIAS (1994)

(Forrest Gump)

 

Videoteca do Beto #103

Vencedores do Oscar #1994

Dirigido por Robert Zemeckis.

Elenco: Tom Hanks, Robin Wright, Gary Sinise, Sally Field, Haley Joel Osment, Mykelti Williamson e Michael Conner Humphreys.

Roteiro: Eric Roth, baseado em livro de Winston Groom.

Produção: Wendy Finerman, Steve Starkey e Steve Tisch.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O mundo não vivia um bom momento em 1994. Diante de uma recessão econômica global, provocada pela crise mexicana, e da explosão da preocupação com o meio ambiente, era difícil ter fé no futuro da humanidade. Além disso, um ano antes, o sombrio “A Lista de Schindler” tornou-se sucesso mundial ao relembrar um período negro de nossa história, reforçando a aura pessimista que dominava o público. Em meio a este cenário pessimista surgia “Forrest Gump”, que contrariava o sentimento geral e contava, com muita sensibilidade, uma história humana e positiva, estrelada pelo astro norte-americano do momento, o amado Tom Hanks. Não à toa, o filme tornou-se um mega sucesso e abocanhou (injustamente) os principais prêmios Oscar num ano extremamente competitivo e repleto de obras marcantes.

Com um QI inferior ao normalmente aceito nas escolas, o jovem Forrest Gump (Tom Hanks) é criado com carinho por sua mãe (Sally Field), que luta para conseguir lhe dar as mesmas condições de estudo que as outras crianças. Na escola, ele conhece Jenny (Robin Wright), uma jovem que cruzará seu caminho por muitos anos de sua vida, assim como Forrest participará, ainda que por acaso, dos fatos mais importantes da história recente dos Estados Unidos.

Desde seu início elegante, quando a câmera acompanha uma pena voando até os pés do protagonista, “Forrest Gump” é um filme belíssimo. E esta beleza, em grande parte, é mérito do inventivo Robert Zemeckis, que emprega movimentos de câmera estilizados e aproveita a oportunidade para criar planos marcantes, como aquele em que Forrest e Jenny estão sentados de mãos dadas numa árvore com o pôr-do-sol ao fundo ou o travelling que nos leva das crianças rezando no milharal para os pássaros que voam dali, numa ilustração do desejo de Jenny de fugir do pai. Em outros momentos, o diretor usa a câmera para destacar o semblante do protagonista enquanto ele se concentra nas lembranças do passado, como quando um zoom nos aproxima dele antes do primeiro flashback, que conta o episódio dos “sapatos mágicos” – na realidade, um curioso eufemismo para as pernas mecânicas do garoto. Zemeckis cria ainda lindos planos enquanto Forrest atravessa o país em sua corrida seguido por diversas pessoas que o admiram, além de conduzir muito bem cenas emocionantes, como aquela em que Forrest tenta discursar para os hippies e reencontra Jenny (num plano geral belíssimo).

Além da direção eficiente de Zemeckis, a montagem de Arthur Schmidt é um capitulo a parte e merece muitos elogios. Em primeiro lugar, porque a narrativa cobre muitos anos de maneira eficiente e jamais cansativa, intercalando os flashbacks com o presente num ritmo delicioso. Além disso, Schmidt faz a transição no tempo de maneira eficaz, como quando Forrest e Jenny, ainda crianças, estão juntos na cama e, em seguida, estão indo para a escola, já adultos – e aqui também acontecerá uma interessante rima narrativa, quando Jenny pede para Forrest correr dos vizinhos. A montagem faz ainda interessantes transições de Forrest para Jenny e vice-versa, por exemplo, através da televisão que eles assistem ou da lua. Finalmente, a passagem do tempo também é indicada no presente, através das pessoas que ouvem a história do protagonista, que mudam ao longo da narrativa enquanto Forrest continua contando sua vida.

Escrito por Eric Roth, baseado em livro de Winston Groom, o roteiro de “Forrest Gump” balanceia o tom leve e cômico com momentos dramáticos, espalhando ainda frases marcantes como “A vida parece uma caixa de bombons, nunca se sabe o que vamos encontrar” e o grito desesperado de Jenny: “Corra, Forrest, Corra!”. Além das frases marcantes, o roteiro cruza de maneira eficiente a história de Forrest Gump com momentos históricos dos EUA, como quando ele ensina alguns passos para Elvis, se torna destaque de um time de futebol americano, conversa com John Lennon, inventa slogans (“Shit happens”), compra ações da “empresa de fruta” Apple, entre outras coisas.

O tom leve da narrativa é reforçado ainda pela fotografia de Don Burgess, que emprega cores vivas e muitas cenas diurnas na maior parte do tempo. Por outro lado, os momentos difíceis de Forrest são normalmente pontuados pela chuva, como quando ele chega ao exército ou quando surpreende Jenny transando com outro num carro, numa estratégia visual inteligente por parte de Burgess e Zemeckis, pois a chuva sempre realça a melancolia dos personagens. Da mesma maneira, quando Forrest sente falta da mãe e de Jenny no exército, as sombras que predominam na tela ilustram o momento triste do personagem. Mas a melancolia tem pouco espaço em “Forrest Gump”, o que é refletido até mesmo na bela trilha sonora de Alan Silvestri, recheada de clássicos do rock de cada período em que a história se passa (que servem ainda para ilustrar a passagem do tempo), alternados com a triste e linda música tema. Além disso, Silvestri pontua muito bem as cenas, como quando Forrest começa a correr e larga a perna mecânica para trás, acompanhado pela trilha triunfal. Quem também merece destaque é o bom trabalho de design de som e efeitos sonoros, que se destaca especialmente na guerra, e os excelentes efeitos visuais da Industrial Light & Magic, que, por exemplo, amputam as pernas do tenente Dan (Gary Sinise) com perfeição – observe a cena em que ele se movimenta em cima de um muro antes de pular na água e sair nadando -, além de inserir com realismo o protagonista em vídeos reais e históricos de arquivos, colocando Forrest ao lado de alguns ex-presidentes dos EUA, como John Kennedy, e de astros como John Lennon. E além de misturar ficção e realidade com competência, “Forrest Gump” faz ainda diversas menções a grandes filmes norte-americanos como “Nascido para Matar” (na chegada ao exército, com o tenente gritando), “Apocalypse Now” (na chegada ao Vietnã, com a trilha psicodélica, as cervejas espalhadas pelo acampamento e o sol brilhando ao fundo) e “Perdidos na Noite” (quando Forrest sai com Dan pelas ruas e um carro quase os atropela, provocando a reação do tenente, que grita “Estou andando aqui!”, com a trilha do clássico estrelado por Dustin Hoffman e Jon Voight ao fundo), além de inserir imagens de “O Nascimento de uma Nação” quando Forrest cita a Klu Klux Klan.

Pra completar, praticamente todas as atuações de “Forrest Gump” são excelentes, a começar por Michael Conner Humphreys, que interpreta muito bem o jovem Forrest Gump, transmitindo a dificuldade do garoto de se relacionar socialmente através do olhar perdido e da movimentação lenta. Já adulto, Gump é interpretado pelo excepcional Tom Hanks, numa atuação marcante, notável através da entonação de sua voz, que prende nossa atenção enquanto conta as histórias, do olhar distante e da simplicidade com que compõe um personagem marcante e belo. Repare, por exemplo, como Hanks olha para o lado, ofegante e assustado, quando Jenny tira o sutiã, demonstrando o incomodo do personagem com aquela situação inusitada pra ele. Inocente, Forrest não percebe os abusos do pai de Jenny na infância (“Ele era um pai carinhoso, vivia tocando e beijando as filhas”, diz) e nem o cruel destino da garota, afirmando que ela realizou seu sonho ao vê-la cantando no palco de uma boate. Por outro lado, Forrest apresenta uma capacidade de concentração incrível que lhe permite, por exemplo, montar e desmontar uma arma com enorme velocidade e jogar pingue-pongue com incrível habilidade. Hanks demonstra muito bem todos estes aspectos fascinantes de um protagonista que enxerga o mundo da sua maneira singela e inocente, emocionando a platéia quando Forrest pergunta para Jenny se seu filho (Haley Joel Osment) é esperto e, principalmente, quando conversa com o túmulo da esposa. E até mesmo as cores leves de suas roupas (figurinos de Joanna Johnston) e a clareza de sua casa (direção de arte de Leslie McDonald e William James Teegarden) ilustram a pureza de sua alma.

Além do excelente protagonista, “Forrest Gump” conta ainda com uma gama interessante de personagens coadjuvantes, como o divertido Bubba (Mykelti Williamson), que morre na guerra, mas vive uma amizade tão verdadeira com Forrest que é homenageado por ele através da “Cia. de Camarões Bubba Gump”. Na chegada de Forrest ao exército, é ele quem cede lugar para Gump no ônibus, assim como Jenny havia feito na infância no ônibus escolar, em outra elegante rima narrativa. Interpretada com carisma por Robin Wright, Jenny gosta de Forrest e se preocupa com ele, como deixa claro quando se despede numa ponte antes dele partir pra guerra, pedindo que ele corra sempre que estiver em perigo. Mas o destino foi cruel com a garota e os traumas da infância ainda pesavam em sua vida, algo que fica evidente quando ela joga pedras na casa do pai. E é tocante o momento em que Jenny anuncia ter um vírus que “os médicos não conhecem bem”, provavelmente se referindo à AIDS (na época, um mistério para a medicina). Quem também tem uma grande atuação é Gary Sinise na pele do revoltado tenente Dan, que, após ter as pernas amputadas, se revolta contra Deus. Observe como o ator soa convincente, por exemplo, quando reclama na cama do hospital e, principalmente, quando desafia o todo Poderoso em alto-mar. Fechando os destaques do elenco, vale citar ainda a envelhecida Sally Field, que se sai muito bem na pele da batalhadora mãe de Forrest, especialmente na cena em que se despede do filho, momentos antes de morrer. E se a maquiagem acerta no envelhecimento de Field, erra ao não envelhecer Forrest ao longo dos anos, mas esta é uma falha insignificante num filme tão belo.

Após cruzar toda a história norte-americana recente, Forrest Gump se vê novamente esperando o ônibus escolar numa pequena cidade do interior, desta vez para que seu filho possa ir à escola. E quando o garoto entra no ônibus, deixando claro sua esperteza diante dos olhos do pai e do espectador, a pena voa novamente e encerra o filme. Durante mais de duas horas, fomos levados por uma história bela, empolgante e repleta de significados, e quando os créditos surgem na tela, sentimos que a viagem valeu à pena.

“Forrest Gump” é uma bela fábula da história recente dos Estados Unidos, que conta com um otimismo raro em grandes filmes, sustentado pela direção eficiente de Robert Zemeckis e pela grande atuação de Tom Hanks. A vida pode ser trágica e pode ser bela, dependendo da forma como encaramos cada etapa de nossa jornada. Incapaz de olhar o mundo com nosso costumeiro cinismo, o inocente Gump certamente levará ótimas lembranças da vida.

Texto publicado em 11 de Julho de 2011 por Roberto Siqueira