A BELA E A FERA (1991)

(Beauty and the Beast)

 

Videoteca do Beto #119

Dirigido por Gary Trousdale e Kirk Wise.

Elenco: Vozes de Paige O’Hara, Bobby Benson, Richard White, Jerry Orbach, David Ogden Stiers, Angela Lansbury, Bradley Pierce, Rex Everhart, Jesse Corti, Hal Smith, Jo Anne Worley e Mary Kay Bergman.

Roteiro: Linda Woolverton, baseado em história de Roger Allens.

Produção: Don Hahn.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A animação já fazia parte de um passado glorioso e distante quando os animadores da Disney injetaram ânimo no estúdio com “A Pequena Sereia”, que resgatava algumas das principais características das grandes animações. Baseado numa fábula e embalado pelo sucesso das músicas de Alan Menken, o longa preparou o terreno para que novas obras marcantes surgissem. E a primeira delas foi “A Bela e a Fera”, que também conta com a inspiração dos animadores e as canções de Menken para nos contar uma história encantadora, resgatando definitivamente a aura mágica dos filmes da era de ouro da Disney.

Inspirado no conto de fadas de Roger Allens, “A Bela e a Fera” conta a história de Bela (voz de Paige O’Hara), uma garota entediada com a vida provinciana de uma pequena cidade francesa, onde vive também o galã Gastón (voz de Richard White) que, apesar de derreter os corações das outras meninas, não consegue conquistá-la com seu jeito grosseiro. Seu pai Maurice (Rex Everhart) viaja para expor uma de suas invenções e acaba preso num castelo onde vive uma temível Fera (voz de Bobby Benson), que precisa encontrar o verdadeiro amor e ser correspondido para quebrar um feitiço e voltar a ser príncipe. A oportunidade surge quando, em troca da liberdade do pai, Bela aceita ficar presa no castelo.

Apostando nas características clássicas das animações Disney, “A Bela e a Fera” surge imponente ainda em sua introdução, quando uma narração envolvente nos conta a história do príncipe transformado em Fera enquanto vemos um belo vitral que retrata o ocorrido, prendendo nossa atenção imediatamente. Assim como o conto que o inspirou, o roteiro de Linda Woolverton aborda o tema da beleza interior de forma singela, tocando o coração da platéia com a mensagem de que o verdadeiro amor enxerga além das aparências, criando ainda uma galeria interessante de personagens, desde a destemida protagonista, passando por seu atrapalhado pai, pelo fortão Gastón e seu fiel parceiro LeFou (voz de Jesse Corti) e pelos encantadores objetos que habitam o amaldiçoado castelo. Com um roteiro enxuto, os diretores Gary Trousdale e Kirk Wise, auxiliados pela montagem de John Carnochan, empregam um ritmo dinâmico, evitando fugir do fio condutor da narrativa, que é a relação entre Bela e a Fera. Por isso, as cenas envolvendo Gastón na pequena vila acertadamente ocupam pouco espaço na narrativa.

Auxiliados pela direção de arte de Brian McEntee, os talentosos animadores criam lindos cenários, o que confere ao longa um visual esplêndido, repleto de cores e belas paisagens. Entre tantos locais de destaque, vale citar a charmosa cidade criada no interior da França e o sombrio castelo em que vive a Fera, com sua arquitetura gótica e seus imponentes cômodos. Além dos cenários, os próprios personagens mantêm a qualidade da animação, com Bela, por exemplo, seguindo o padrão das princesas Disney com suas bochechas rosadas e rosto angelical. E se os traços parecem simples, vale lembrar que a maioria dos desenhos foi feita no estilo tradicional, com tinta e papel e à mão, com apenas algumas seqüências sendo feitas com auxilio de tecnologia digital. O capricho nos detalhes torna tudo ainda mais real e faz o espectador imergir na história, e os animadores aproveitam a oportunidade para criar pequenos momentos geniais, como quando a vela de Lumiere (voz de Jerry Orbach) derrete diante de uma tocha e dá a sensação de que ele está suando frio.

Com uma equipe talentosa nas mãos, os diretores Gary Trousdale e Kirk Wise aproveitam para criar belos planos, como aquele que destaca a biblioteca do castelo ou os planos gerais que apresentam a fortaleza da Fera. Vale citar também o primeiro jantar de Bela no castelo, que é um espetáculo grandioso de música, luzes e cores, embalado pelo charme francês na hora de servir e pela ótima “Be Our Guest”. Este espetáculo de cores em muitos momentos tem função narrativa, como quando Gastón canta na taverna e a cor vermelha que predomina na tela reforça a aura demoníaca do vilão. Repare também a harmonia entre a roupa rosa de Bela e a cortina no café da manhã, simbolizando que ela estava se adaptando ao castelo, algo reforçado também pela própria fotografia, que se torna mais colorida e cheia de vida, com mais cenas diurnas que antes.

Como na maioria das animações, o som também é muito bom, algo notável, por exemplo, quando o cavalo de Maurice se assusta durante uma tempestade, onde percebemos cada detalhe, desde a cavalgada assustada do animal até os raios e a própria água que toca o chão. Praticamente incessante, a trilha sonora do ótimo Alan Menken recheia a narrativa com músicas envolventes, que colaboram para o andamento da trama e funcionam como uma espécie de número musical, assim como acontece nas peças de teatro da Broadway, de onde vieram alguns dos dubladores, como a própria Paige O’Hara. Entre tantas boas canções, vale destacar a citada “Be Our Guest”, “Belle”, que nos apresenta os personagens, “Something There”, que embala o momento em que Bela começa a se apaixonar pela Fera, e a música tema “Beauty and the Beast”, cantada por Angela Lansbury na mais linda cena do longa.

Um misto de touro e cão, a Fera surge assustadora, com sua voz imponente e olhar ameaçador, ainda que os objetos que vivem no castelo confiram certa magia ao local. Com temperamento explosivo, ela tem dificuldade em seu primeiro contato com Bela, o que, apesar de clichê, funciona perfeitamente e soa verdadeiro, já que uma aproximação rápida entre eles seria totalmente artificial. E apesar da aparência nada agradável, ao longo da narrativa o espectador cria empatia pelo personagem, após acompanhar seu sofrimento na sombria ala oeste, que guarda seu segredo e a rosa com as últimas pétalas de esperança. E neste local também que Bela verá parte de seu rosto humano num quadro rasgado, talvez sem entender bem do que se trata, pois jamais ela fica sabendo da história do feitiço. Ainda quando mal se entendiam, os dois brigam e ela foge em disparada pela floresta, sendo atacada por lobos. Após ser salva, Bela faz curativos na Fera com a lareira ao fundo, num plano simbólico que representa o momento em que a chama da paixão começa a nascer na garota. Deste momento em diante, a atmosfera sombria deixa a narrativa e o romance passa a tomar conta da tela.

Seguindo o perfil do vilão tradicional com suas roupas vermelhas que reforçam a aura vil do personagem, o forte Gastón é a paixão das moças da cidade, mas não consegue encantar Bela, uma garota culta, interessada em literatura e que está longe de compartilhar a idéia de mulher ideal do “macho” Gastón. Em sua concepção, a mulher ideal é aquela que adoraria fazer comida e massagear seus pés após seu retorno das caçadas, o que, obviamente, não passa pela cabeça da protagonista. O que Bela deseja é ser bem tratada, algo que acontece no local mais improvável. É no castelo que ela encontrará gentileza, primeiro através dos adoráveis objetos com vida, que se tornam ainda mais encantadores graças ao charme francês, tão bem representado pelo relógio Cogsworth (voz de David Ogden Stiers) e pelo candelabro Lumiere, sempre preocupados em prestar um serviço de primeira – com toques leves de acordeão, a própria trilha sonora que os acompanha servindo a moça reforça a origem francesa dos personagens. E após se estranharem, é da hostil Fera que Bela receberá o tratamento que procura, sendo respeitada e reforçando o tema principal da narrativa, de que a verdadeira beleza está no interior.

Entre os momentos marcantes do casal, um merece destaque especial. Obviamente, me refiro à linda cena do jantar, seguida pela dança do casal com a música tema ao fundo. Com a ajuda de computadores, os travellings que passeiam pelo imponente salão, como aquele que inicia no lustre e vai até eles, a noite estrelada e a perfeita harmonia do casal fazem desta cena um momento marcante. Infelizmente, logo após a linda dança, Bela sente falta do pai e decide abandonar o castelo, num anticlímax que levará ao confronto entre Gastón e a Fera, além de servir como obstáculo final à concretização do amor do casal. Presa por Gastón junto com seu pai dentro de casa, ela acompanha o povo marchando para o castelo na chuva, com tochas na mão e gritos, em outra seqüência marcante, com seu visual belo e assustador, assim como é sombrio o esperado confronto entre Gastón e a Fera, que acontece à noite, sob chuva e raios e sob o olhar atento da protagonista, que consegue escapar de casa e chegar ao local.

Após a sangrenta batalha, a Fera surge praticamente morta e arranca lágrimas do espectador, num sintoma claro de que aquele romance nos conquistou. E enquanto a chuva cai, a Fera é transformada em príncipe através das palavras de amor de Bela, num final perfeito e feliz, tradicional das animações Disney e dos contos de fadas. Além disso, o espectador mata a curiosidade ao ver personagens adoráveis como Lumiere, Cogsworth e a Sra. Potts, agora como humanos, acompanhando a dança de Bela e seu príncipe. Por tudo isto, saímos com uma enorme sensação de felicidade, também porque acompanhamos uma animação que em nada deve aos grandes clássicos da Disney.

Embalado por lindas canções, “A Bela e a Fera” atinge o coração do espectador de maneira simples e eficiente, captando com competência a essência do conto de fadas que o inspirou. Com um visual lindo e personagens cativantes, foi o responsável pela restauração definitiva do tradicional departamento de animações da Disney, conseguindo levar prêmios importantes, além de uma inédita indicação ao Oscar de Melhor Filme. Por tudo isto, o longa merecidamente fez história.

Texto publicado em 02 de Novembro de 2011 por Roberto Siqueira

DURO DE MATAR 2 (1990)

(Die Hard 2)

 

Videoteca do Beto #118

Dirigido por Renny Harlin.

Elenco: Bruce Willis, William Sadler, John Leguizamo, Bonnie Bedelia, William Atherton, Reginald VelJohnson, Franco Nero, John Amos, Dennis Franz, Art Evans, Fred Dalton Thompson, Tom Bower, Sheila McCarthy e Don Harvey.

Roteiro: Steven E. De Souza e Doug Richardson, baseado em livro de Walter Wagner.

Produção: Charles Gordon, Lawrence Gordon e Joel Silver.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Depois do enorme sucesso de “Duro de Matar”, Bruce Willis estrela esta continuação dirigida por Renny Harlin, que aposta no carisma de seu personagem e em uma nova situação inusitada para criar cenas de forte impacto. Talvez enfraquecido pelos vilões claramente menos assustadores que o inteligente Hans Gruber de Alan Rickman, “Duro de Matar 2”, consegue um resultado inferior ao primeiro filme, mas ainda assim agradável.

Após assumirem o controle do aeroporto de Washington, um grupo liderado pelo coronel Stuart (William Sadler) espera a chegada do coronel Esperanza (Franco Nero), um preso político que está sendo extraditado, e ameaça derrubar aeronaves se a policia não seguir suas exigências. O problema é que Holly (Bonnie Bedelia), a esposa de John McClane (Bruce Willis), se encontra em um dos aviões e ele fará tudo que for possível para salvar a esposa.

Assim como em “Duro de Matar”, a trama de “Duro de Matar 2” se passa no natal e coloca John McClane involuntariamente no meio de uma situação de alto risco. Escrito por de Steven E. De Souza e Doug Richardson, baseado em livro de Walter Wagner, o roteiro desta vez centraliza as ações no aeroporto de Washington, usando os mesmos elementos que fizeram sucesso no longa anterior, como a esposa Holly em situação de risco, a policia jogando contra McClane e a imprensa sensacionalista e sem escrúpulos que, desta vez, prepara uma transmissão ao vivo do avião, interessada apenas na audiência e sem se importar com as vidas que estão em jogo – não por acaso, quando Holly agride o repórter, o espectador vibra com ela. Acertadamente, o roteiro dispensa a apresentação dos personagens e suas motivações (até porque muitos são conhecidos pelo espectador) e parte para os conflitos, fazendo a narrativa engrenar de vez no momento em que Stuart informa as regras aos controladores do aeroporto. Auxiliado pela montagem de Stuart Baird e Robert A. Ferretti, o diretor Renny Harlin alterna com fluência entre as tramas e permite que o espectador acompanhe o drama de Holly no avião, o trabalho da policia e de McClane e o minucioso monitoramento dos vilões de dentro de uma igreja. Aliás, o momento em que John descobre a igreja de onde Stuart comanda o aeroporto ilustra bem o trabalho dos montadores, alternando entre os planos num ritmo intenso e nunca confuso.Intensa também é a condução de Harlin na direção, que torna a narrativa envolvente e bastante tensa. Grande parte desta tensão se deve também ao fato de “Duro de Matar 2” abordar um medo coletivo ao envolver aviões, já que a maioria das pessoas se identifica com o drama dos passageiros e entra em pânico junto com eles quando os problemas começam a surgir. O diretor se sai bem ainda na condução de grandes cenas, como a impressionante seqüência do pouso e explosão do avião Windsor 114, em que se destacam também os espetaculares efeitos visuais. Após esta cena em que o herói não consegue evitar a tragédia, o espectador passa a temer pelo futuro dos personagens, pois agora os vilões já provaram do que são capazes. Por isso, após o pouso do general Esperanza, a tensão volta a dominar a tela e só é aliviada quando John é ejetado do avião, num momento exagerado e pouco realista que, em compensação, é de uma beleza plástica elogiável que só ilustra o bom trabalho do diretor.

Curiosamente, quando as ações saem do aeroporto nem mesmo as frenéticas seqüências na igreja e na floresta evitam que a alta carga de tensão se dissipe, graças ao fim do sentimento de clausura presente em todo o primeiro filme e em boa parte do segundo, reduzindo o impacto da narrativa. Ainda assim, a seqüência em que John persegue os bandidos na floresta é interessante, deslizando apenas nos momentos em que os vilões erram tiros à queima roupa seguidamente. A narrativa apresenta ainda uma ótima reviravolta quando o exército revela sua parceria com Stuart, mantendo seu ritmo alucinante e devolvendo o pânico ao aeroporto quando os vilões tentam escapar com o general Esperanza.

Desta vez sob a direção de Oliver Wood, a fotografia aposta novamente em tons escuros e cenas noturnas, refletindo a angústia do protagonista, além de ampliar a tensão na platéia através de elementos naturais como a neve e a noite. Por isso, quando as luzes se apagam e todos os controles somem, o caos toma conta do local e o espectador se sente parte daquele ambiente em desespero. Obviamente, os excelentes efeitos sonoros colaboram para esta ambientação, destacando-se especialmente nos tiroteios e explosões, assim como a trilha sonora de Michael Kamen injeta adrenalina com seus acordes altos. E finalmente, o realismo e a violência gráfica de algumas cenas nos fazem acreditar ainda mais no que vemos na tela, como quando um homem tem a garganta cortada e quando um dos vilões é sugado pela turbina de um avião.

Entre os personagens, John McClane continua adoravelmente mal-humorado, mas desta vez surge menos vulnerável que antes, talvez pelo excesso de cenas em que ele literalmente faz o impossível para escapar da morte. Por outro lado, Willis está muito bem nestas cenas, que exigem enorme esforço físico, além de manter o carisma do personagem, essencial para conquistar o espectador e fazer com que este torça por ele. O ator ainda mantém a grande empatia com o policial Powell, interpretado por Reginald VelJohnson, e sua constante preocupação com a esposa ajuda a humanizar o personagem – e Willis tem mérito nisto também, nos fazendo acreditar que ele de fato teme a morte de Holly. Entre os inimigos de McClane, o coronel Stuart de William Sadler é um vilão respeitável, ainda que não tenha a força do Hans de Alan Rickman em “Duro de Matar”. E vale citar também o major Grant, interpretado por John Amos, que inicialmente cria empatia com McClane graças ao seu jeito direto, partindo logo para a ação e deixando a teoria do burocrático capitão Lorenzo (Dennis Franz) de lado, mas esta empatia se revelaria irônica e traiçoeira.

Após ser traído por Grant, John parte numa tentativa desesperada de, em primeiro lugar, salvar sua esposa, o que, conseqüentemente, salvaria também todas as outras aeronaves ameaçadas. Para isto, ele precisa enfrentar os vilões, que já se encontram dentro de um Boeing 747 na pista do aeroporto enquanto ele está preso numa multidão desesperada diante das informações dadas pela imprensa na televisão. A solução? Usar o helicóptero da própria imprensa para alcançar o avião e, após ser largado na asa do Boeing, enfrentar os inimigos. Esta inimaginável situação resulta numa luta entre o herói e Stuart, que inexplicavelmente prefere sair da aeronave em movimento e enfrentá-lo, ao invés de acelerar o avião e levantar vôo, forçando a inevitável queda de McClane. Depois disto, John cai da asa do Boeing em movimento após abrir o tanque de combustível e consegue explodi-lo, numa cena exagerada que fecha a narrativa. E são justamente estes exageros que comprometem parte de “Duro de Matar 2”. Ainda assim, as qualidades do longa compensam estas falhas. Na última cena, um policial faz uma brincadeira com a multa de John que abriu o filme, trazendo alivio cômico no momento certo e encerrando bem a narrativa.

Com cenas mais forçadas e menos realistas que no primeiro filme, “Duro de Matar 2” é um eficiente filme de ação que cumpre seu propósito graças aos momentos de impacto, à trama envolvente e, acima de tudo, ao seu personagem principal cativante, que literalmente carrega a narrativa nas costas.

Texto publicado em 27 de Outubro de 2011 por Roberto Siqueira

DURO DE MATAR (1988)

(Die Hard)

 

Videoteca do Beto #117

Dirigido por John McTiernan.

Elenco: Bruce Willis, Alan Rickman, Bonnie Bedelia, Reginald VelJohnson, Paul Gleason, De’voreaux White, William Atherton, Hart Bochner, James Shigeta, Clarence Gilyard Jr. e Alexander Gordunov.

Roteiro: Jeb Stuart e Steen E. De Souza, baseado em livro de Roderick Thorp.

Produção: Lawrence Gordon e Joel Silver.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Os heróis dos filmes de ação em geral são homens extremamente inteligentes, fortes e aparentemente infalíveis, capazes de enfrentar exércitos inteiros e tomar decisões em questão de segundos, acertando em praticamente todas elas. Felizmente, este não é o caso de John McClane, o protagonista deste ótimo “Duro de Matar” que, além de ser uma pessoa comum que deseja apenas rever a família distante, toma decisões equivocadas e sofre bastante antes de conseguir salvar sua esposa e a própria pele. E ainda que, no fim das contas, tenha o mesmo sucesso em sua missão que os outros heróis do gênero, a forma como o faz é que torna o personagem mais humano e o aproxima do espectador.

De volta a Los Angeles para se reencontrar com a esposa Holly (Bonnie Bedelia) e os filhos, John McClane (Bruce Willis) se vê numa enroscada quando visita a empresa em que ela trabalha na mesma noite em que poderosos bandidos decidem assaltar o local, liderados pelo cruel Hans Gruber (Alan Rickman).

Apostando corretamente na empatia entre o espectador e seu protagonista, o roteiro de “Duro de Matar”, escrito por Jeb Stuart e Steen E. De Souza a partir do livro de Roderick Thorp, trata de apresentar em poucos minutos os principais personagens da trama e suas motivações, fazendo com que o espectador saiba em pouco tempo que John foi casado com Holly e está de volta para ver a esposa e os filhos no natal. Também fica evidente que os problemas do casal têm muito a ver com a vida profissional da mulher que, em plena ascensão, parece dedicar pouco tempo a família, ao passo em que seu marido, empregado na policia de Nova York, não pode se transferir para Los Angeles. Desta forma, quando os bandidos invadem o prédio, o espectador já tem todas as informações necessárias para se identificar com o drama de John, que terá de lutar para defender a sociedade e cumprir seu dever profissional e, acima de tudo, tentar evitar uma tragédia familiar. Outro aspecto interessante do roteiro é a crítica nada velada a imprensa sensacionalista, preocupada apenas em conseguir audiência, notável quando um repórter pergunta desesperado se o cinegrafista captou as imagens da explosão do prédio. Pior ainda é o momento em que eles descobrem a família de John e vão atrás de seus filhos, na tentativa de gerar uma entrevista “bombástica” – um absurdo que, convenhamos, não está distante da realidade que acompanhamos diariamente nos telejornais.

Com um roteiro simples e eficiente, o diretor John McTiernan acerta ao manter um clima palpável de tensão, quebrado apenas pelas reclamações constantes do mal-humorado protagonista e pelas divertidas aparições do motorista da limusine Theo (Clarence Gilyard Jr.) – este tipo de alivio cômico é sempre bem vindo em filmes de ação, servindo para quebrar um pouco a tensão que domina a platéia. Além disso, o diretor utiliza outros recursos narrativos eficientes, como a menção ao relógio Rolex no início, que terá reflexo no clímax da trama. Auxiliado pela montagem de John F. Link e Frank J. Urioste, o diretor estabelece um ritmo dinâmico que torna a narrativa ainda mais empolgante, engrenando logo aos 23 minutos de filme, quando os bandidos invadem o local, prendendo de vez o espectador. McTiernan conta ainda com a agitada trilha sonora de Michael Kamen, que aumenta a adrenalina da platéia, e com o excelente design de som, que torna tudo mais real, além da fotografia sombria de Jan De Bont (que viria a dirigir “Velocidade Máxima”), que aproveita o ambiente fechado e a trama noturna para criar um visual sufocante, refletindo a angústia do protagonista – repare, por exemplo, como as luzes que vazam as persianas e formam sombras no rosto dos personagens dão uma sensação de clausura.

Obviamente, as cenas de ação não poderiam faltar e, na maior parte do tempo, elas soam orgânicas e verossímeis, como quando McClane explode parte do prédio ou quando ele pula do alto do edifício e escapa por pouco da morte. E com exceção de alguns tiros a queima roupa que os bandidos erram diante do herói, na maior parte do tempo suas proezas são convincentes – também porque Willis nos faz acreditar que tudo aquilo é possível -, e nem mesmo os excelentes efeitos visuais soam exagerados, surgindo sempre de maneira orgânica e apenas quando realmente necessários. Além disso, McTiernan cria ainda momentos de pura tensão, como no plano em que o policial Powell (Reginald VelJohnson) se aproxima no corredor do lado direito da tela e vemos a mão armada de um assaltante atrás da parede do lado esquerdo, apenas aguardando o sargento, que desiste antes de encontrá-lo e vai embora. Vale destacar ainda os elegantes movimentos de câmera, como na chegada de John em que um travelling destaca o prédio aonde irá se passar a narrativa, da mesma maneira que a câmera acompanha a chegada do caminhão que levará os vilões até o prédio antes mesmo que o espectador saiba quem está no veiculo. E finalmente, uma simples fotografia de McClane no gabinete indica que eles já tiveram uma relação enquanto Holly conversa com ele no telefone, assim como quando ela fala sobre “dormir no quarto de hóspedes”, fica claro que eles estão separados.

Como citado, os problemas do casal estão mais relacionados à vida profissional do que a relação afetiva e, por isso, nos envolvemos com o drama de McClane. Além disso, Bruce Willis está muito bem como o policial simultaneamente durão e humano que é John McClane, que se torna ainda mais carismático graças ao seu divertido mau humor. Ao contrário dos tradicionais heróis de Hollywood, McClane é uma pessoa comum, passível de erros, que reclama constantemente e não quer estar naquela situação. Apesar da irritante atitude da policial que atende o chamado de McClane, os empecilhos que surgem em seu caminho são críveis, o que colabora para que o espectador se envolva com a trama. Para John, mais importante do que impedir aquele assalto é conseguir sair vivo e salvar sua esposa – duas aspirações mais do que universais.

E se tememos pelo futuro de McClane é porque, além dele parecer vulnerável, os vilões de “Duro de Matar” surgem bastante ameaçadores desde sua introdução, quando a trilha sombria e a forma como eles invadem o prédio já estabelecem para a platéia o perigo que eles representam. Também colabora a atuação séria e convincente de Alan Rickman, que cria um vilão bastante respeitável com seu olhar direto e seu tom de voz sereno, que denota um autocontrole assustador. Cruel e inteligente, seu Hans Gruber mostra que fará o que for preciso para atingir seu objetivo quando mata a sangue frio o executivo Takagi (James Shigeta), presidente da empresa assaltada pelo grupo, numa cena impressionante e de forte impacto. Outra cena impactante é aquela em que um corpo cai no capô do carro do policial Powell. Interpretado por Reginald VelJohnson, Powell estabelece excelente química com McClane, o que só ressalta o aspecto humano do protagonista, especialmente quando este se comove com a triste história do sargento, que atirou por engano num menino de 13 anos (“Não nos ensinam a conviver com o erro”, relembra Powell).

Entre os grandes momentos de “Duro de Matar”, merece destaque o tenso e até mesmo previsível encontro entre Hans e John, quando o vilão finge ser um dos reféns por saber que John não conhecia seu rosto e quase consegue eliminar seu principal obstáculo do caminho. Ainda que esteja acostumado com os heróis indestrutíveis de Hollywood, o espectador chega a temer pelo personagem, justamente porque McClane jamais soa como um herói indestrutível. Assim como voltaremos a temer por McClane no intenso terceiro ato, que começa quando a imprensa dá a arma que faltava para o astuto Hans, informando que sua esposa está entre os reféns. Toda a eletrizante seqüência final, desde a luta entre John e Karl (Alexander Gordunov), passando pela explosão no teto do prédio, a inesperada ajuda de Theo e culminando no aguardado confronto entre John e Hans (em que o relógio terá importante papel), fecha com perfeição a narrativa.

Ótimo filme de ação que não desrespeita a inteligência do espectador, “Duro de Matar” diverte justamente por apresentar cenas de explosões e tiroteios num contexto em que elas são apenas reflexos das ações dos personagens e não a razão de existir da narrativa. Contando ainda com um protagonista carismático, o longa agrada e, como sabemos, ainda abriu portas para novas e interessantes continuações.

Texto publicado em 19 de Outubro de 2011 por Roberto Siqueira

CURTINDO A VIDA ADOIDADO (1986)

(Ferris Bueller’s Day Off)

 

Videoteca do Beto #116

Dirigido por John Hughes.

Elenco: Matthew Broderick, Alan Ruck, Mia Sara, Jeffrey Jones, Jennifer Grey, Cindy Pickett, Lyman Ward, Charlie Sheen, Edie McClurg e Kristy Swanson.

Roteiro: John Hughes.

Produção: John Hughes e Tom Jacobson.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Os filmes adolescentes eram uma verdadeira febre nos anos oitenta, talvez porque as produtoras perceberam que os jovens formavam a grande parte do público que freqüentava os cinemas. Apesar disto, a quantidade de bons filmes voltados para este público era bem superior ao que vemos atualmente, como atestam a deliciosa aventura “Os Goonies”, a magnífica trilogia “De Volta para o Futuro” e comédias muito divertidas como este “Curtindo a Vida Adoidado”, que, com seu protagonista carismático e situações muito divertidas, conquista imediatamente o espectador.

Ferris Bueller (Matthew Broderick) é um aluno bastante popular na escola, que decide matar aula para curtir um belo dia de sol ao lado da namorada Sloane Peterson (Mia Sara) e de seu melhor amigo Cameron (Alan Ruck). Sua desculpa, porém, não engana o diretor Ed Rooney (Jeffrey Jones), que tenta de todas as formas descobrir suas falcatruas, e nem mesmo sua irmã Jean (Jennifer Grey), que também tenta atrapalhar seus planos.

Escrito, produzido e dirigido por John Hughes, “Curtindo a Vida Adoidado” é uma comédia adolescente leve, que representa bem o gênero que o próprio Hughes se especializaria em dirigir posteriormente. Repleta de boas idéias e piadas divertidas, a narrativa tem um ritmo ágil, essencial para agradar seu público alvo, o que é mérito também da montagem dinâmica de Paul Hirsch. Ciente do que queria, Hughes explora muito bem situações conhecidas pelo espectador mais jovem, como aquelas intermináveis aulas chatas que nos fazem quase babar nas mesas escolares, exatamente como acontece com os personagens que, letárgicos, assistem ao professor repetir insistentemente o nome de “Bueller”, mesmo vendo sua cadeira vazia. Partindo desta premissa, uma atitude até comum (pelo menos na minha geração) como “matar aula” serve de ponto de partida para um dia inesquecível, repleto de situações inusitadas, sempre lideradas pelo carismático protagonista. Ferris convida seu grande amigo Cameron para passar o dia ao seu lado, num momento divertido em que ficam evidentes os métodos alternativos que eles utilizam pra matar aula e até mesmo o estado de espírito de cada um. Enquanto Cameron vegeta em seu quarto embalado por uma trilha sombria, Ferris toma uma bebida em sua cadeira de praia, acompanhado por uma trilha bem suave. Depois, após uma hilária ligação, Ferris arma uma situação e consegue a companhia da namorada Sloane. Está montado o cenário para um dia inesquecível.

Sempre num contexto cômico, Hughes faz ainda algumas referências a outros personagens importantes do cinema, como “Alien” e “Dirty Harry”, que, aliás, faz Rooney se encher de orgulho ao ser comparado com o personagem durão de Clint Eastwood. Além disso, o diretor dá total liberdade para que seu protagonista quebre constantemente a quarta parede ao falar com a câmera e se dirigir a platéia, num artifício narrativo que nos surpreende e nos faz rir, além de fugir da abordagem realista ao inserir tópicos escritos na tela, por exemplo. Mas apesar da direção eficiente, é na força da atuação de Matthew Broderick que o longa se sustenta. Carismático, o ator cria um personagem adorável desde os primeiros minutos em cena, que se tornou um símbolo dos jovens em sua época. Os adolescentes queriam ser Ferris Bueller. Mimado pelos pais, Ferris é o verdadeiro bon vivant, capaz de criar inúmeras situações para curtir seu “dia de folga”, sempre driblando aqueles que tentam impedi-lo. E apesar de algum exagero, as armações de Ferris – como na cena do restaurante e a fita gravada em seu quarto – funcionam muito bem, provocando o riso no espectador.

Além de seu carismático protagonista, “Curtindo a Vida Adoidado” conta ainda com coadjuvantes adoráveis, como o medroso e engraçado Cameron, interpretado por Alan Ruck, que é quem mais se transforma na narrativa, criando coragem para enfrentar o pai e levar a vida mais na boa, inspirado pelo amigo Ferris. Revoltado, ele extrapola e acaba detonando a Ferrari do pai, em outro momento bastante engraçado. Interpretada pela graciosa Jennifer Grey, Jean, a irmã de Ferris, tem a função narrativa de criar dificuldades para Ferris e inserir um pouco de suspense na trama, mas sempre de maneira leve e descontraída. Apesar disso, Grey constantemente aparece séria, demonstrando irritação com o irmão, até o momento em que encontra um garoto drogado (Charlie Sheen, em participação hilária) na delegacia e muda de comportamento – e Grey se sai muito bem após o beijo, demonstrando a empolgação da garota. Vale destacar ainda Jeffrey Jones, que faz do diretor Ed Rooney um personagem adoravelmente atrapalhado em sua tentativa de soar ameaçador.

O clima leve da narrativa é reforçado pela fotografia clara do bom Tak Fujimoto, que explora bem o dia ensolarado em que se passa a trama para empregar um visual bastante alegre e coerente com o espírito do longa. Também colaboram as roupas coloridas de Ferris e seus amigos (figurinos de Marilyn Vance) e a trilha sonora agitada de Arthur Baker, Ira Newborn, John Robie e Yello, que pontua muito bem o empolgante dia do trio, como quando eles saem da escola na Ferrari do pai de Cameron após enganarem o diretor, acompanhados pela trilha cheia de adrenalina, ou quando eles visitam o museu, acompanhados pelo som de músicas clássicas. A trilha acerta ainda na escolha de músicas infalíveis, como “Twist and Shout”, dos Beatles, que mexe o esqueleto de qualquer um e faz o espectador se sentir bem enquanto assiste ao filme.

Com esta atmosfera jovial, “Curtindo a Vida Adoidado” conta ainda com um arsenal de piadas criativas, como os efeitos sonoros do teclado que imitam a tosse do “doente” Ferris, que sensibilizam seus colegas de escola e dão início ao engraçado movimento “Save Ferris”. Entre tantos momentos memoráveis, vale destacar também a hilária conversa telefônica entre o diretor Rooney e o suposto Sr. Peterson, em que a câmera demora a revelar Cameron do outro lado da linha, fazendo com que o espectador pense que o diretor de fato está falando com o pai de Sloane. Finalmente, na corrida desesperada de Ferris pra casa já no final, torcemos muito por ele, ainda que tenha matado aula e enganado a todos, justamente pelo inegável carisma do personagem. Após os créditos, Ferris ainda brinca com câmera, usando a metalingüística de maneira bastante divertida.

Criativo e cativante, “Curtindo a Vida Adoidado” é um filme despretensioso sobre um personagem igualmente despretensioso. Ferris não tem grandes aspirações, não se preocupa com os problemas ao seu redor e só quer saber de se divertir. Certamente, ele não poderá viver assim pra sempre. Por isso, trata de aproveitar enquanto pode. E seu dia de diversão acabou se transformando em algo muito maior: um clássico do cinema nos anos 80.

Texto publicado em 13 de Outubro de 2011 por Roberto Siqueira

OS EMBALOS DE SÁBADO À NOITE (1977)

(Saturday Night Fever)

 

Videoteca do Beto #115

Dirigido por John Badham.

Elenco: John Travolta, Karen Lynn Gorney, Barry Miller, Joseph Cali, Paul Pape, Donna Pescow, Bruce Ornstein, Julie Bovasso, Martin Shakar, Lisa Peluso, Denny Dillon, Fran Descher e Ann Travolta.

Roteiro: Norman Wexler, com estória de Nik Cohn.

Produção: Milt Felsen e Robert Stigwood.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Alguns filmes ultrapassam os limites da telona e se tornam a marca de uma época. “Os Embalos de Sábado à Noite” pertence a esta seleta categoria, captando com eficiência o espírito da era “Disco” em Nova York, além de apresentar, através do personagem interpretado por John Travolta, um marcante drama adolescente. De quebra, a excepcional trilha sonora tornou-se icônica, assim como as cenas de dança na discoteca “2001”. Por tudo isto, o longa dirigido por John Badham entrou para a história como um símbolo da cultura pop dos anos 70.

Empregado numa pequena loja de tintas no Brooklyn, Tony Manero (John Travolta) só encontra a felicidade quando está nas pistas de dança nos fins de semana. Quando seu irmão Frank (Martin Shakar) desiste de ser padre e volta pra casa, ele encontra uma nova parceira de dança chamada Stephanie (Karen Lynn Gorney) e começa a repensar a maneira que encara a vida e a falta de perspectiva de seu futuro.

Para compreender o fenômeno cultural “Os Embalos de Sábado à Noite” é primordial contextualizar seu lançamento. Após anos de escândalos políticos e participações em guerras, o pessimismo começou a abrir espaço para o escapismo entre os norte-americanos, que procuravam esquecer os problemas e encontrar prazer nas pistas de dança. Este movimento começou a se refletir também no cinema, que vivia os últimos suspiros da Nova Hollywood – um movimento repleto de (excelentes) filmes igualmente pessimistas – e passava a produzir filmes mais alegres, que funcionavam como uma espécie de fuga da realidade, culminando com o estrondoso sucesso da saga “Star Wars”. “Os Embalos de Sábado à Noite” não é necessariamente um filme alegre, pelo contrário, mas retrata com precisão este movimento iniciado em Nova York, em que jovens iam para boates apenas atrás de sexo, drogas e diversão, como forma de esquecer a dura realidade da vida e a falta de perspectiva para o futuro. Expondo o sexo e o uso de drogas com naturalidade, a narrativa encarna o espírito jovem e reflete o pensamento da época, ilustrando também problemas sociais das grandes metrópoles, por exemplo, através das brigas entre os amigos de Tony e os “latinos”.

Desde o início, o balanço do caminhar de Travolta, acompanhado de perto pelo close em seus pés, dá o tom e a importância da música na narrativa, afinal, é ela quem dita os sentimentos dos personagens. No dia-a-dia, Tony é frustrado no trabalho e discute com a família, mas quando veste suas camisas de poliéster e coloca seus sapatos lustrados cuidadosamente, ele parte para o único lugar onde é verdadeiramente feliz. Desta forma, a câmera do diretor John Badham narra uma verdadeira tragédia urbana, provocada pela vida difícil nas grandes cidades e pelos dilemas que jovens de bairros menos favorecidos normalmente enfrentam. Como Tony, alguns conseguem encarar esta fase e, com sorte e esforço, seguir em frente. Outros, como um de seus amigos, não. Balanceando bem a narrativa entre os empolgantes momentos na pista de dança e a conturbada vida do protagonista fora dela, o diretor emprega o tom correto ao longa, evidenciando o estado de espírito de Tony e seus amigos. Além disso, sua câmera nos coloca dentro da pista e capta muito bem a atmosfera da casa noturna, algo reforçado pela empolgante trilha sonora composta pelos Bee Gees (Barry Gibb, Maurice Gibb e Robin Gibb), junto com David Shire.

Além de capturar o espírito de seu tempo, “Os Embalos de Sábado à Noite” ainda faz algumas referências a grandes filmes do passado, como quando alguém diz que Tony se parece com Al Pacino e ele encara seu pôster de “Serpico” buscando semelhanças – destaque para o semblante feliz de Travolta ao repetir as palavras do assaltante de Pacino (“Attica! Attica!”) em “Um Dia de Cão”. E até mesmo o nome da discoteca que eles freqüentam é uma óbvia referência ao clássico de Kubrick “2001, uma odisséia no espaço”. Já o pôster de “Rocky, Um Lutador” pendurado na parede do quarto é uma nada elegante alfinetada em John G. Avildsen, que dirigiria “Os Embalos de Sábado à Noite”, não fossem os desentendimentos com Travolta. Por outro lado, a direção de arte acerta em muitos detalhes, criando uma Nova York suja, que reflete o submundo que aqueles jovens viviam.

Nas pistas de dança, a fotografia de Ralf D. Bode emprega muitas luzes e tons avermelhados, simbolizando a paixão que pulsa naqueles corações livres e ávidos por diversão sem compromisso. Além disso, destaca-se também a montagem fluída de David Rawlins, que emprega um ritmo empolgante ao acompanhar as excelentes músicas e os movimentos dos dançarinos. Repare ainda como o jantar da família Manero termina em poucos minutos, num exemplo claro do estilo de montagem dinâmica que estamos acostumados. Na narrativa, o jantar dura apenas dois minutos, mas não nos incomodamos com isso, pois sabemos que no universo diegético o jantar teve uma duração maior. Este dinamismo é essencial num filme voltado para o público jovem.

Uma refeição também escancara os problemas de Tony com sua família. “Só duas vezes me disseram que sou bom na vida!”, ele grita, demonstrando a insatisfação com a falta de apoio do pai. Por isso, quando seu irmão Frank larga a igreja, Tony se renova (“Não sou tão ruim assim”), numa crítica interessante ao peso dos estereótipos que criamos. Mulherengo, despojado e cativante, Travolta cria um personagem icônico, numa atuação bastante convincente. Tony é machista e preconceituoso, mas ainda assim gostamos dele, graças à atuação carismática de Travolta, que, com seu terno branco (figurinos de Patrizia von Brandestein), criou um símbolo da cultura pop daquela década. O ator se sai bem também nos momentos dramáticos, como na discussão com a mãe, em que ele se arrepende e pede desculpas após magoá-la. Pra completar, John Travolta dá um verdadeiro show nas pistas de dança, mostrando o resultado de meses de dedicação e treinamento com coreografias admiráveis.

Mas apesar do glamour e da fama que construiu nas pistas, Tony não era totalmente feliz, e isto fica evidente numa conversa com Stephanie, a bela dançarina interpretada por Karen Lynn Gorney, que abre os olhos do protagonista e, de quebra, expõe as diferenças sociais e culturais entre eles. Ela também vivia ali, no mesmo ambiente que Tony, mas queria mudar e estava batalhando pra isto. Ela queria crescer e amadurecer. Tony não sabia, mas ele também queria – e de fato Tony já tinha responsabilidades, trabalhava para ajudar a família e sentia que a fase de diversão não seria eterna (“A dança não vai durar pra sempre”, reflete). E é através de seu sentimento por Stephanie que Tony começa a mudar efetivamente, algo simbolizado sutilmente quando ele se enforca com uma roupa e, no plano seguinte, vemos a garota responsável por fisgar o rapaz. Ela seria o agente da mudança de Tony Manero.

Manero era uma espécie de líder de uma turma de garotos ligados em dança, drogas e sexo, e também era alvo do desejo das garotas, algo simbolizado pela personagem Annette, interpretada por Donna Pescow. Rebeldes, eles andavam em cima de uma ponte na volta das noitadas, desafiando o perigo, numa atitude típica da juventude que deseja quebrar regras e mudar o mundo. Mas os anos passam, as coisas mudam e cada um reage a sua maneira diante das dificuldades da vida. Numa cena de forte impacto, um dos amigos de Tony se suicida após descobrir a gravidez da namorada, na mesma ponte que tanto lhes deu alegria. E com esta tragédia, pelo menos para Tony, aquele período chegava ao fim. Esta mesma ponte simboliza a trajetória de mudança do protagonista, que alcança o outro lado da margem e passa a enxergar a vida de outra maneira. Ao ficar bravo porque os latinos não ganharam o primeiro lugar no concurso de dança, Tony apenas confirma sua mudança. A vida rebelde, o preconceito e a vitória a qualquer custo ficaram para trás. O jovem amadureceu. E é justamente por acompanhar o amadurecimento de Tony de maneira tão interessante e intensa que “Os Embalos de Sábado à Noite” é mais do que um belo (e competente) musical.

Ainda que tenha músicas empolgantes e cenas inesquecíveis nas pistas de dança, “Os Embalos de Sábado à Noite” se estabelece como um musical maior, que captou como poucos o espírito de seu tempo e ainda deixou uma mensagem marcante através do amadurecimento de seu protagonista. Todos nós passamos por esta fase na vida, onde tudo que queremos saber é onde será a próxima festa e com quem iremos nos divertir naquela noite. Com o passar dos anos, no entanto, esta diversão gradualmente dá lugar a outras preocupações, como a de constituir família e progredir como ser humano. Se você ainda é jovem, não se engane. Cedo ou tarde, este momento sempre chega, e pra todos nós.

Texto publicado em 19 de Setembro de 2011 por Roberto Siqueira

NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA (1977)

(Annie Hall)

 

 

Videoteca do Beto #114

Vencedores do Oscar #1977

Dirigido por Woody Allen.

Elenco: Woody Allen, Diane Keaton, Christopher Walken, Tony Roberts, Carol Kane, Paul Simon, Shelley Duvall, Janet Margolin, Donald Symington, Mordecai Lawner, Jonathan Munk, Colleen Dewhurst, Helen Ludlam, Joan Newman, Beverly D’Angelo, Jeff Goldblum e Sigourney Weaver.

Roteiro: Woody Allen e Marshall Brickman.

Produção: Charles H. Joffe e Jack Rollins.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Woody Allen escreveu definitivamente o seu nome na história do cinema com este sensacional “Annie Hall” – me recuso a repetir a ridícula tradução do título para o português. Apresentando diálogos magníficos e afiados, um senso de humor cínico e sarcástico e uma montagem que só contribui na criação de cenas antológicas, o longa é uma comédia tão divertida quanto reflexiva, que expõe as complexidades dos relacionamentos humanos ao mesmo tempo em que funciona como um espelho da persona cinematográfica de Allen (o intelectual inseguro, apaixonado por Nova York, mulheres e jazz), apresentando as características marcantes dos melhores momentos do diretor/ator/roteirista no cinema.

Duas vezes divorciado, o humorista Alvy Singer (Woody Allen) se apaixona novamente, desta vez pela excêntrica cantora de boate Annie Hall (Diane Keaton). Rapidamente, eles decidem morar juntos, mas as crises conjugais aparecem e começam a desestabilizar a relação. Alvy, que faz análise há quinze anos, convence Annie a fazer o mesmo e a estudar, mas nada parece salvá-lo de mais uma separação.

Só mesmo Woody Allen para contar a história de um homem depressivo, cheio de complexos (seja por sua nacionalidade, seja por qualquer outra característica dele) e duas vezes divorciado de maneira tão divertida e encantadora. E só mesmo Allen para nos fazer sorrir o tempo todo ao mesmo tempo em que nos faz refletir sobre algumas das mais frustrantes constatações de nossa existência, como a de que o amor, para ser perfeito, deve permanecer em seu estado inicial de “idealização”. Ou seja, quando passamos a conviver com a pessoa amada, passamos também a descobrir os seus defeitos que, muitas vezes, podem provocar o fim do sentimento avassalador no/a parceiro/a. Não por acaso, Alvy, em certo momento, implora para que Annie não venda o apartamento dela, alegando que este funciona como um “porto seguro”, fazendo o casal lembrar que não é oficialmente casado.

Escrito pelo próprio Woody Allen, “Annie Hall” demonstra também sua enorme capacidade de construir diálogos primorosos, recheados com um humor ácido e auto-depreciativo, que expõe algumas verdades sobre nossas angústias. Da mesma maneira, a direção de Allen também é dinâmica e esbanja criatividade, criando momentos que não apenas fogem do realismo, como deixam claro que o diretor deseja mesmo brincar com a linguagem cinematográfica, como quando um homem cita as teorias do filósofo canadense Marshall McLuhan na fila do cinema e Alvy puxa o autor detrás de um pôster para rebater os comentários do tagarela (“Você não sabe nada da minha obra”, diz McLuhan). Estas brincadeiras ficam ainda mais evidentes quando ele quebra a quarta parede em diversos momentos, olhando para a câmera e falando diretamente com o espectador. Além disso, o diretor cria alternativas narrativas curiosas, como as legendas que expressam pensamentos dos personagens e a tela dividida. Conduzindo com vigor a narrativa, Woody Allen utiliza ainda sua cidade favorita como pano de fundo, algo que se repetiria muitas vezes em sua filmografia, onde Nova York normalmente é o palco das ações.

Utilizando uma narrativa não linear para abordar diversas fases da vida do protagonista, Allen e seus montadores Wendy Greene Bricmont e Ralph Rosenblum tentam refletir a mente agitada de Alvy Singer e do próprio diretor, além de constantemente brincarem com novas possibilidades, como, por exemplo, quando dividem a tela em dois planos para ilustrar as diferenças entre as famílias de Annie e Alvy. Além disso, em diversos momentos, quando alguém cita alguma passagem da vida dele, somos levados em seguida para aquele exato momento, como na engraçada cena do período escolar, onde o Alvy adulto reencontra o Alvy criança (Jonathan Munk) e dialoga com seus colegas. Desta forma, somos envolvidos por suas complexidades e compartilhamos de muitos dos seus dilemas. Utilizando cores fortes em muitas lembranças, a fotografia do excepcional Gordon Willis alterna entre uma atmosfera naturalista e momentos hiper-realistas, como quando vemos desenhos animados ou quando os personagens passeiam pelas lembranças de Annie, nos colocando dentro de sua mente enquanto ela apresenta seus ex-namorados.

Entre os vários dilemas que assolam o pobre Alvy, o sexo tem destaque especial (“Masturbação é sexo com alguém que amo”, diz ele). Como explica, “ele não gostaria de fazer parte de um clube que o aceitaria como sócio”. Por isso, qualquer mulher que demonstre interesse por ele passa, imediatamente, a perder o encanto. Ainda assim, Alvy consegue se apaixonar por Annie, o que não o impede de ter problemas com a garota, seja por que ela tem hábitos estranhos pra ele, como fumar maconha antes de transar, seja por outra razão qualquer. O sexo, aliás, explica muito sobre as diferenças do casal. Enquanto Annie diz ao analista que faz sexo sempre, “pelo menos três vezes por semana”, Alvy afirma que quase nunca faz sexo, “no máximo três vezes por semana”. Interpretando uma versão de si mesmo, Woody Allen está muito a vontade no papel, vivendo um personagem ansioso (algo refletido em sua fala rápida) e depressivo. Diane Keaton, por sua vez, está leve e encantadora como Annie Hall, protagonizando muitos momentos divertidos, como o diálogo após um jogo de tênis com Alvy, que resulta no primeiro encontro deles, e o brilhante monólogo em que ela apresenta sua família e conta como seu tio George morreu. Atrapalhada, ela nos faz rir e também se diverte com os trejeitos de seu pretendente. Auxiliada pelos figurinos de Ralph Lauren e Ruth Morley, a atriz cria uma personagem marcante, que nos encanta da mesma maneira como encanta Alvy, o que é essencial para que o espectador compartilhe ainda mais das aflições do protagonista, preso entre suas dúvidas e seu sentimento por esta mulher.

Vale destacar ainda a pequena participação de futuros astros, como Christopher Walken, na pele do irmão de Annie, Duane Hall, Shelley Duvall como Pam, uma das namoradas de Alvy, e Jeff Goldblum e Sigourney Weaver, que surgem rapidamente como figurantes. Walken, aliás, protagoniza uma das muitas cenas engraçadas ao falar que gostaria de bater o carro na estrada, momentos antes de dar carona para Alvy e Annie – e a feição aflita de Allen nesta cena é impagável.

Tentando ser adulto, Alvy age naturalmente quando Annie propõe uma separação. Mal sabia ele (ou talvez soubesse) que estava dando o primeiro passo para perder de vez o amor de sua vida. Sua reflexão final é marcante: nós sempre estamos à procura do amor, ainda que seja doloroso e proporcione experiências ruins. Divertido, bem atuado e bastante original, “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” (que tradução hein?!) consegue ser ao mesmo tempo leve e crítico, revelando as angústias e inseguranças de seu protagonista de maneira inapelável. De quebra, o longa ainda brinca deliberadamente com muitas regras da linguagem cinematográfica. E o melhor, o faz com incrível competência.

Apostando no humor afiado e na identificação do espectador com muitas das situações narradas, “Annie Hall” é a obra-prima de um dos maiores autores que Hollywood já produziu. Contando ainda com uma atuação inspirada da ótima Diane Keaton, o filme faz o espectador deixar a projeção com sentimentos conflitantes. Ao mesmo tempo em que saímos alegres por termos gargalhado em muitos momentos, saímos preocupados por saber que estas risadas surgiram ao reconhecermos vários aspectos falhos de nossa natureza humana.

Texto publicado em 14 de Setembro de 2011 por Roberto Siqueira

Videoteca do Beto #113 – Sem Destino

Recentemente, comprei o DVD “Sem Destino”, como informei por aqui. Como a crítica de “Sem Destino” já tinha sido publicada como “Filmes em Geral #23”, somente adicionei em seu cabeçalho a classificação “Videoteca do Beto #113” (a última crítica divulgada da Videoteca era “Quem tem medo de Virginia Woolf?”, #112) e desloquei o link da crítica para o menu Videoteca do Beto (lado direto, página inicial).

Um abraço.

Texto publicado em 07 de Setembro de 2011 por Roberto Siqueira

QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOOLF? (1966)

(Who’s Afraid of Virginia Woolf?)

 

Videoteca do Beto #112

Dirigido por Mike Nichols.

Elenco: Elizabeth Taylor, Richard Burton, George Segal e Sandy Dennis.

Roteiro: Ernest Lehman, baseado em peça teatral de Edward Albee.

Produção: Ernest Lehman.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Dentre o universo de filmes que já assisti, poucos conseguiram ser tão amargos e tristes quanto “Quem tem medo de Virginia Woolf?”. Através dos diálogos ácidos de um casal em crise, Mike Nichols nos apresenta um profundo estudo da alma humana, mostrando como podemos ser cruéis, especialmente com as pessoas mais próximas. Contando com atuações sensacionais e um roteiro brilhante, o diretor entrega um filme depressivo, perturbador e difícil de ser digerido pelo espectador. Se você gosta de filmes alegres e finais felizes, certamente esta não é uma boa indicação.

Escrito por Ernest Lehman, baseado em peça teatral de Edward Albee, “Quem tem medo de Virginia Woolf?” apresenta o professor universitário George (Richard Burton) e sua esposa Martha (Elizabeth Taylor) voltando pra casa após uma festa na casa do pai dela, que é também o reitor da escola. Bêbados, eles se preparam para receber a visita de outro casal, formado pelo também professor Nick (George Segal) e sua mulher Honey (Sandy Dennis). Entre um e outro diálogo, surgem confissões e intensas agressões verbais, que só pioram com o passar do tempo.

Logo nos primeiros minutos, “Quem tem medo de Virginia Woolf?” já estabelece o tom carregado de sua narrativa através da trilha sonora melancólica de Alex North e da fotografia sombria de Haskell Wexler. Em seguida, acompanhamos os primeiros diálogos entre Martha e George, que determinam a personalidade destrutiva do casal enquanto eles se preparam para receber visitas. Acertadamente, a montagem de Sam O’Steen investe os primeiros 45 minutos da narrativa na seqüência que se passa dentro da casa deles, sufocando o espectador naquele ambiente pesado e estabelecendo os potenciais conflitos entre os personagens. Desta forma, na medida em que as discussões acontecem, o espectador já sabe o efeito que cada frase provoca neles. O montador acerta ainda na maneira dinâmica com que acompanha estes diálogos, aumentando os cortes na medida em que as agressões verbais se intensificam e evitando os cortes nas cenas melancólicas, como quando George está sentado no balanço.

Estas agressões verbais revelam também o primoroso trabalho do roteirista Ernest Lehman, que constrói diálogos afiados e marcantes, repletos de ofensas entre um casal tão autodestrutivo quanto dependente. Aproveitando-se do conhecimento que têm do parceiro para agredi-lo, Martha e George demonstram uma incrível capacidade de tocar nas mais profundas feridas do outro. Além disso, o roteiro tem o cuidado de deixar dicas do cruel encerramento da narrativa, evidenciadas todas as vezes que alguém menciona o filho do casal através do incômodo de George e da aflição de Martha.

Com este roteiro coeso em mãos, Mike Nichols demonstra seu talento, conduzindo com firmeza a narrativa e empregando elegantes movimentos de câmera através de pequenos travellings e do uso do zoom, além de demonstrar excelente controle da mise-en-scène. Além disso, o diretor é inteligente na criação de planos simbólicos, como aquele em que George está sentado no balanço submerso nas sombras, que reflete sua melancolia após ser devastado pela discussão com Martha. Em outro momento, George surge no fundo do plano, apenas observando os elogios rasgados de Martha e Nick ao pai dela, demonstrando sua inferioridade diante do massacre promovido pela esposa. Também merece destaque o plano que revela Honey parada na escada, escutando o diálogo franco entre Nick e George sem que eles percebam que ela está ali.

Ainda na parte técnica, a extremamente detalhada decoração da casa (direção de arte de George James Hopkins) evidencia a boa situação financeira do casal, estabelecendo também um dos principais conflitos entre eles, já que Martha é filha de um homem rico e poderoso, que é também o empregador de George e Nick. Da mesma forma, a fotografia sombria de Haskell Wexler reforça a atmosfera sufocante do longa, enquanto os figurinos de Irene Sharaff ajudam a estabelecer a personalidade de cada personagem (Martha, por exemplo, é a mais espalhafatosa).

Personagens, aliás, que são interpretados por um elenco sensacional. Repare, por exemplo, como todos conseguem ilustrar com precisão os efeitos do álcool de maneiras diferentes e como a movimentação coletiva em cena dá dinamismo ao longa – o que é essencial numa trama que se passa em cenários fechados. Individualmente, o grande destaque é mesmo Elizabeth Taylor, que tem uma atuação fantástica como Martha, compondo uma personagem amarga e sufocante, que não mede palavras para agredir o marido de todas as formas que puder. De fala incorreta e risada histérica, Martha é uma mulher depressiva, que encontrou em George o parceiro ideal para seguir em seu caminho de autodestruição. Possessiva e dominadora, ela transmite confiança quando fala e não hesita em revelar os mais profundos segredos do marido se isto for atingi-lo de alguma maneira. Por outro lado, Martha sabe da importância que ele tem em sua vida e deixa isto claro no tocante e amargo monólogo em que confessa o amor por George ao mesmo tempo em que evidencia sua melancolia, num momento sublime da atuação de Taylor.

Ainda que seja mais contido, o George de Richard Burton é seco e suas palavras diretas cortam como navalha e ferem profundamente. De fala rápida e constantemente irônica, ele não permitirá que Martha lhe humilhe daquela maneira, reagindo sempre de maneira agressiva. Desta forma, o casal vive num ciclo infinito de ofensas, onde cada ação gera uma reação ainda mais hostil. Completando o elenco, George Segal e Sandy Dennis interpretam Nick e Honey, o outro casal que acidentalmente cruza o caminho de Martha e George e é sugado pelo turbilhão de emoções que permeia aquela relação. Dennis se sai melhor que o parceiro, compondo uma personagem trágica, que se entrega ao álcool, talvez como forma de aliviar a tensão, e se transforma completamente durante a narrativa – repare os pequenos detalhes de sua atuação, como quando Honey toca o marido no sofá e indica que ele deve elogiar a casa logo na chegada ao local. Já Segal se sai bem especialmente nos embates entre George e Nick, além de estabelecer boa química com Taylor, como quando ele acende o cigarro dela e é tocado na perna, indicando uma atração que George não demoraria a perceber (e que seria usada contra ele por George e pela própria Martha).

Além das excelentes atuações, “Quem tem medo de Virginia Woolf?” traz ainda muitas cenas marcantes, como aquela em que Martha conta sobre a luta de boxe e George, lentamente e embalado por uma trilha tensa, pega uma arma e se dirige até ela. O zoom no rosto assustado de Honey e seu grito estridente dão lugar às risadas, balanceando muito bem a tensão absoluta com o alivio cômico. Em outro momento, Martha se inflama e a câmera se aproxima dela, acompanhando sua movimentação agitada enquanto ela revela porque se casou com George, que, furioso, quebra uma garrafa e começa a dançar com Honey cantando a música que dá nome ao filme. A crueldade de suas palavras só é superada na cena do bar, quando os personagens atingem o auge da maldade, numa seqüência devastadora em que Martha e George expõem os segredos mais íntimos deles e até mesmo de Nick e Honey. Por tudo isto, por mais cruel que pareça, a revelação da morte do filho no ato final é coerente com as ações dos personagens. E ao ver Nick dizer desesperado que “está entendendo o que está acontecendo” após a cruel revelação, o arrepio é inevitável. Aquele casal atormentado e triste tinha “inventado” um filho, talvez como forma de amenizar a dor por não poder ter filhos. E George, levado por um momento de fúria, resolvera encerrar aquela fantasia, levando Martha as mais doloridas lágrimas que a trouxeram de volta à realidade.

Com excelentes atuações, um roteiro excepcional e a direção eficiente de Mike Nichols, “Quem tem medo de Virginia Woolf?” é um drama sufocante, que faz um estudo complexo de dois personagens destrutivos e nos conduz com intensidade até o seu desfecho perturbador. Explorando os pontos fracos dos “oponentes” sem piedade e aproveitando as mais íntimas confissões de cada um deles, os personagens do longa demonstram o quanto o ser humano pode ser cruel. Afinal, ninguém pode nos ferir mais do que aqueles que tanto sabem sobre nós.

PS: Se quiser ler um texto interessante a respeito do filme no blog do meu amigo Achilles, clique aqui.

Texto publicado em 02 de Setembro de 2011 por Roberto Siqueira

LAWRENCE DA ARÁBIA (1962)

(Lawrence of Arabia)

 

Videoteca do Beto #111

Vencedores do Oscar #1962

Dirigido por David Lean.

Elenco: Peter O’Toole, Alec Guinness, Anthony Quinn, Omar Sharif, Jack Hawkins, José Ferrer, Anthony Quayle, Claude Rains e Arthur Kennedy.

Roteiro: Robert Bolt e Michael Wilson, baseado nos textos de T.E. Lawrence.

Produção: Sam Spiegel.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Entre a segunda metade da década de 50 e o início dos anos 60, o cinema viveu um período repleto de produções grandiosas como “Os Dez Mandamentos”, “Ben-Hur”, “Spartacus” e “A Queda do Império Romano”, que utilizavam uma quantidade enorme de figurantes para narrar momentos históricos, recriados caprichosamente sob a condução competente de diretores como William Wyler, Cecil B. DeMille, Stanley Kubrick e Anthony Mann. Em 1962, David Lean se juntou ao grupo com este “Lawrence da Arábia”, que narra com riqueza de detalhes como um tenente inglês liderou os árabes na luta contra os turcos durante a primeira guerra mundial.

Escrito por Robert Bolt e Michael Wilson (baseado nos textos do próprio Lawrence), “Lawrence da Arábia” inicia em 1935 com a morte de T.E. Lawrence (Peter O’Toole) num acidente de motocicleta. Em seu funeral, um longo flashback surge para narrar sua trajetória e explicar a razão de sua fama, revelando como ele passou de um tenente infeliz para um respeitado (e improvável) líder, responsável pela união das tribos árabes na guerra contra os turcos. No caminho, o roteiro aproveita para expor os conflitos entre as diversas tribos árabes, abordando também os interesses políticos da Inglaterra na região, além de explicar, através da figura do repórter, como a fama de Lawrence se espalhou pelo mundo.

Auxiliado pela montagem clássica de Anne V. Coates, David Lean emprega um ritmo lento, que nos permite contemplar a beleza do deserto e desfrutar cada etapa da transformação do protagonista. Afinal de contas, em “Lawrence da Arábia” as sensações têm papel fundamental, fazendo o espectador se sentir parte daquele universo. Observe, por exemplo, como o diretor prepara cuidadosamente a invasão de Aqaba, prolongando a expectativa no espectador e nos fazendo compartilhar o minucioso planejamento estratégico do protagonista. E apesar de soar lenta para os padrões atuais, a montagem funciona bem e consegue evitar que o longa se torne cansativo. Além disso, Coates cria elegantes raccords, como quando o fogo de uma vela é substituído pelo plano do céu avermelhado no deserto ou quando ele salta das pernas dos camelos para as pernas dos soldados durante uma batalha.

Sem se preocupar em comprimir a narrativa nas tradicionais duas horas de duração, David Lean toma o tempo que julga necessário para explorar o deserto, criando lindos planos que aproveitam o nascer do sol e a exuberância daquele mar de areia. Contando ainda com a deslumbrante fotografia de Freddie Young, o diretor cria um visual arrebatador, que se confirma até mesmo nas cenas noturnas, iluminadas com destreza por Young e que servem para criar um contraste com a luz poderosa das cenas diurnas. O diretor é competente ainda na condução das cenas de forte impacto, como as guerras (que voltaremos a abordar em instantes), e nos momentos intimistas, como as lentas caminhadas de Lawrence pelo deserto. Observe ainda como o silêncio aumenta nossa expectativa segundos antes do beduíno Sherif Ali (Omar Sharif) surgir no horizonte longínquo. Já quando Lawrence resgata Gasim (I.S. Johar) no deserto, a trilha triunfal indica com antecedência que ele salvou o rapaz – Gasim ainda protagoniza outro momento marcante, quando descobrimos que ele é o assassino que deve ser executado por Lawrence, pouco tempo depois de ser salvo por ele. Estes dois instantes nos quais alguém surge no horizonte demonstram como Lean trabalha com as nossas sensações, nos fazendo compartilhar a angustiante experiência de caminhar no deserto escaldante como se estivéssemos ali, olhando para o horizonte sem saber se o que estamos vendo é real ou apenas uma miragem. Em outras palavras, “Lawrence da Arábia” é uma experiência cinematografia sensorial, que merece ser vivida na tela grande (ou algo que se assemelhe).

Interpretado pelo carismático Peter O’Toole, Lawrence surge inicialmente como um homem misterioso, capaz de cativar muitas pessoas que mal o conheceram, como descobriremos no final, quando uma interessante rima narrativa nos revela o homem que introduziu o flashback apertando a mão de Lawrence “somente para dizer que fez isto”. Mas uma conversa na tenda do príncipe Feisal (Alec Guinness) estabelece os objetivos da guerra e escancara alguns dos traços da forte personalidade do protagonista, um improvável herói de guerra, que foge dos padrões estereótipos do tipo. Magro e levemente afeminado, o Lawrence de O’Toole é um personagem repleto de nuances, que, contrariando sua aparência frágil, lentamente descobre sentir prazer ao matar seus inimigos. Apesar de se assustar num primeiro momento, Lawrence confirma este sentimento numa das batalhas, algo que O’Toole transmite muito bem com seu semblante insano durante o conflito. Durante seu processo de transformação, Lawrence conhece ainda o líder dos Howeitat, Auda Abu Tayi, vivido de maneira divertida por Anthony Quinn, e também o príncipe Feisal de Alec Guinness, que demonstra sabedoria nas decisões e sabe jogar o jogo político dos ingleses. Fechando o talentoso elenco, Claude Rains vive o político Sr. Dryden, Omar Sharif interpreta muito bem Sherif Ali e Jack Hawkins marca presença como o general Allenby.

David Lean conta ainda com a trilha sonora triunfal do ótimo Maurice Jarre na construção da atmosfera épica do longa, além de nos ambientar com perfeição naquele universo através do ótimo trabalho técnico de sua equipe, a começar pelo design de som, que realça o barulho do vento no deserto, as explosões e gritos durante as batalhas e os aviões que rasgam o céu. Quem também colabora bastante são os figurinos de Phyllis Dalton e a direção de arte de John Stoll que, somadas a enorme quantidade de figurantes utilizada nas batalhas, conferem realismo a narrativa – além de realçarem a magnitude da produção quando destacados pelos planos gerais de Lean. Finalmente, os figurinos têm ainda função narrativa, já que a mudança de roupa de Lawrence ilustra também sua mudança de comportamento e o respeito que ele passa a ter diante dos árabes.

Entre as grandes cenas de “Lawrence da Arábia”, vale destacar a invasão de Aqaba, uma seqüência de tirar o fôlego, captada num lindo plano geral de Lean que, no final, revela através de um elegante travelling o canhão apontado para o mar (e que belo mar!), exatamente como Lawrence tinha previsto. Outra batalha sensacional acontece antes da chegada a Damasco, numa seqüência que ilustra bem a grande quantidade de figurantes utilizada, exigindo muita habilidade do diretor na condução da mise-en-scène – vale lembrar que, ao contrário do que acontece atualmente, as batalhas não utilizavam efeitos digitais. E além das cenas marcantes de guerra, merece destaque a melancólica morte de um garoto na areia movediça, que parece servir para endurecer ainda mais o coração de Lawrence.

“Lawrence da Arábia” é um épico grandioso que retrata a vida de um personagem complexo, repleto de qualidades e defeitos como qualquer ser humano. Seu espírito de liderança e seu carisma uniram os povos árabes na luta contra os turcos, mas ele também sofreu profundas transformações nesta trajetória, captada com habilidade pela câmera de David Lean – um especialista em produções de grande escala e notável beleza plástica. O resultado é um filme empolgante, repleto de cenas marcantes e que, mesmo com quase quatro horas de duração, consegue cativar o espectador sem se tornar cansativo.

PS: Para quem tiver curiosidade, Rodrigo Carreiro explica em detalhes as dificuldades enfrentadas durante as filmagens de “Lawrence da Arábia” nesta crítica.

Texto publicado em 29 de Agosto de 2011 por Roberto Siqueira

OS DEZ MANDAMENTOS (1956)

(The Ten Commandments)

 

Videoteca do Beto #110

Dirigido por Cecil B. DeMille.

Elenco: Charlton Heston, Anne Baxter, Yul Brynner, Edward G. Robinson, Yvonne De Carlo, Vincent Price, Richard Farnsworth, Debra Paget, John Derek, Cedric Hardwicke, Nina Foch, Martha Scott, Judith Anderson, John Carradine, Olive Deering, Douglass Dumbrille e Robert Vaughn.

Roteiro: Eneas McKenzie, Jesse Lasky Jr., Jack Gariss e Fredric M. Frank, baseado nos livros de J.H. Ingraham, A.E. Southom e Dorothy Clarke Wilson.

Produção: Cecil B. DeMille.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Poucos livros têm tanto potencial cinematográfico como a Bíblia Sagrada. Recheado de histórias grandiosas, o livro sagrado cristão é um prato cheio para cineastas ousados, que podem projetar na tela a sua visão sobre aqueles acontecimentos. Por outro lado, histórias bíblicas podem causar aversão em pessoas não cristãs e, nas mãos de diretores errados, podem se transformar em mera propaganda religiosa. Não é o caso de “Os Dez Mandamentos”, épico grandioso e muito bem conduzido por Cecil B. DeMille, que narra à trajetória de Moisés desde que foi colocado ainda bebê num rio até o momento em que lidera a libertação de seu povo do Egito.

Após o Faraó decretar a morte de todos os bebês do sexo masculino, o recém-nascido Moisés (Charlton Heston) é deixado nas águas de um rio, dentro de um cesto, e encontrado por uma princesa egípcia. Já adulto, ele disputa a atenção da jovem Nefretiri (Anne Baxter) com Ramsés (Yul Brynner), o filho do Faraó e herdeiro do trono. Protegido até mesmo pelo Faraó, Moisés vê tudo mudar quando sua verdadeira origem é revelada e ele é condenado à morte. Ramsés, no entanto, não o mata, preferindo expulsá-lo do Egito. Anos depois, Moisés tem um encontro com Deus e descobre sua missão, voltando para o Egito para libertar seu escravizado povo.

Baseado nos livros bíblicos, “Os Dez Mandamentos” explora muito bem o enorme potencial da história original graças à condução precisa de DeMille, que tinha tanto apreço pela obra que decidiu até mesmo fazer a introdução da narrativa pessoalmente. O roteiro acompanha todas as etapas da vida de Moisés, o que torna a narrativa bastante extensa, ainda que jamais deixe de ser envolvente, graças também ao bom ritmo da montagem de Anne Bauchens. Auxiliado pela direção de fotografia de Loyal Griggs, o diretor cria um universo bastante colorido e vivo, explorando muito bem as belas paisagens para criar planos marcantes, como na linda marcha dos camelos pelo deserto de Sur e na impressionante imagem do anjo destruidor que desce em forma de fumaça para matar os primogênitos egípcios. E se esteticamente o diretor se sai muito bem, é na criação de momentos imponentes que a direção segura de Cecil B. DeMille se destaca, explorando muito bem o visual magnífico das locações e a impressionante quantidade de figurantes, como no plano geral que acompanha a saída dos israelitas do Egito. Neste e em outros momentos, como a famosa seqüência no mar vermelho, fica evidente a excelente condução da mise-en-scène do diretor, que coordena aquele enorme grupo de pessoas com eficiência.

Eficiente também é a citada montagem de Anne Bauchens, ainda que hoje o filme soe pouco comercial devido a sua longa duração e alguém possa argumentar que algumas cenas poderiam ser cortadas. Pessoalmente, me senti sugado por aquele universo e aproveitei cada minuto da jornada sem notar o tempo passar. E isto acontece também porque os excelentes figurinos (crédito para Arnold Friberg, Edith Head, Dorothy Jeakins, John Jensen e Ralph Jester), com as armaduras dos soldados e o manto de Moisés, por exemplo, e a direção de arte (crédito para Albert Nozaki, Hal Pereira e Walter H. Tyler), que recria cenários imponentes como os palácios e trabalha em pequenos detalhes como as carroças e as armas, ambientam perfeitamente o espectador. Além disso, a montagem de Bauchens indica com inteligência os saltos da narrativa evitando que ela se torne episódica, por exemplo, quando o filho pequeno de Moisés surge e nos mostra que se passaram alguns anos desde que ele saiu do Egito.

Embalado ainda pela trilha sonora triunfal de Elmer Bernstein, “Os Dez Mandamentos” é recheado de cenas marcantes e grandiosas, como o momento em que Deus fala pela primeira vez com Moisés, a própria inscrição na pedra dos mandamentos e a descida de Moisés do monte, irado diante de um povo infiel, que havia acabado de presenciar um milagre divino e já tinha se entregado a outro ídolo – e vale citar o belo momento em que o fogo se funde ao bezerro de ouro, numa transição elegante de planos. A conversa com Deus, aliás, revela também os bons efeitos visuais, que funcionam perfeitamente na maior parte do tempo, como quando os cajados são transformados em cobras. Mesmo que hoje soem datados, até mesmo os efeitos menos realistas – como o fogo que segura os egípcios do outro lado do mar – eram muito eficientes na época e não comprometem a narrativa. E se os efeitos visuais parecem envelhecidos em alguns momentos, o design de som e os efeitos sonoros continuam simplesmente espetaculares, destacando-se na fuga do Egito e na passagem pelo mar vermelho.

Já na condução do elenco DeMille não é tão feliz, extraindo atuações irregulares que oscilam entre momentos bons e outros de “overacting”. Heston, por exemplo, jamais foi um ator sutil e, ainda que tenha suas limitações, se sai bem como Moisés, mostrando-se inicialmente viril e retratando muito bem o envelhecimento do personagem com o passar dos anos. Sempre seguro, ele passa a demonstrar cansaço no decorrer da narrativa, através da voz e da forma lenta de caminhar, o que, auxiliado pela excelente maquiagem, da uma boa noção da degradação física de Moisés. Por outro lado, o grande Edward G. Robinson cria um Dathan irregular e até mesmo unidimensional, chegando a ser irritante em sua resistência diante dos milagres divinos. Anne Baxter também oscila bastante, mas cria uma Nefretiri insinuante e decidida, que consegue persuadir Ramsés em muitos momentos. Interpretado por Yul Brynner, Ramsés é duro e autoritário sempre que está em cena, também pela voz firme do ator e por sua postura, que impõe respeito na pele do grande vilão da narrativa (repare a sintonia entre o deus Sokar e as roupas pretas de Ramsés, indicando a aura sombria do personagem).

Envolta em magia, a conversa entre Moisés e Deus no monte Sinai determina sua volta para libertar o povo no Egito. Respeitado pelo pai de Ramsés, que chega a pronunciar seu nome antes de morrer, o hebreu volta a terra em que foi criado, desta vez para retirar seu povo escravo de lá. “Egípcio ou hebreu, sou o mesmo Moisés”, afirma em certo momento, mas isto não era verdade. Ele estava mudado após a conversa no monte Sinai e agora sabia a sua missão na terra. E após Deus castigar o Egito com pragas, Ramsés finalmente se convence e liberta os hebreus, dando início a melhor seqüência de “Os Dez Mandamentos”, que começa com a gloriosa saída do Egito e chega ao seu grande momento diante do mar vermelho. Mesmo após tantos anos, a cena da abertura do mar ainda é impactante e prende a atenção do espectador de maneira impressionante. Os ótimos efeitos visuais, a trilha sonora e a forma como DeMille conduz a seqüência criam uma cena poderosa. Após este grande momento, Ramsés volta derrotado e é envolvido, ao lado de Nefretiri, por tons vermelhos no trono, simbolizando o inferno astral do casal. Mas nem mesmo este milagre amoleceria os corações do povo israelita, que ainda marcharia por 40 anos no deserto até alcançar a terra prometida.

Independente de sua crença, o espectador sai satisfeito com o belo espetáculo visual de “Os Dez Mandamentos”. E é justamente na força de suas grandes cenas que reside o sucesso da narrativa. Espetaculoso, Cecil B. DeMille sabia que a história de Moisés atrairia o grande público e conduziu com muito carinho este ousado projeto. Acabou conseguindo mais do que sucesso de público, entregando um filme que marcou a história do cinema.

Texto publicado em 26 de Agosto de 2011 por Roberto Siqueira