DOZE HOMENS E UMA SENTENÇA (1957)

(12 Angry Men) 

5 Estrelas 

Obra-Prima 

Videoteca do Beto #13

Dirigido por Sidney Lumet.

Elenco: Henry Fonda, Lee J. Cobb, E. G. Marshall, Jack Klugman, Ed Begley, Martin Balsam, John Fiedler, Ed Binns, Jack Warden, Joseph Sweeney, George Voskovec, Robert Webber. 

Roteiro: Reginald Rose. 

Produção: Henry Fonda e Reginald Rose. 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

“É sempre difícil deixar o preconceito fora de uma questão dessas. Não importa pra que lado vá, o preconceito sempre obscurece a verdade”. A poderosa frase dita por um personagem chave em determinado momento da trama resume bem a mensagem principal deste filme absolutamente corajoso, envolvente e surpreendentemente original. Filmado quase que em sua totalidade dentro de uma única sala (somente 3 minutos acontecem fora dela), “Doze Homens e uma Sentença” é a prova de que um filme pode sim ser do mais alto nível sem a necessidade de grandes investimentos, apenas utilizando a criatividade e o talento.

Doze jurados têm a responsabilidade de decidir se um jovem garoto, acusado de matar o próprio pai, é culpado ou inocente. Com base na enorme quantidade de provas apresentadas pela promotoria, onze deles têm absoluta certeza de que o menino é culpado. Mas um dos jurados não pensa desta forma. Como a lei exige unanimidade na decisão, todos tentarão argumentar para convencer o último jurado de que eles têm razão.

A obra-prima de Lumet nos leva inicialmente ao tribunal onde o julgamento do garoto está acontecendo. Minutos depois, somos transportados, junto com os atores, para dentro da sala onde a importante decisão será tomada. O close no garoto antes de nos jogar dentro dela, auxiliado pela lenta e triste trilha sonora, nos lembra o que está em jogo naquele momento. Um dos grandes méritos do filme, aliás, é que o roteiro de Reginald Rose nunca nos diz se o garoto é de fato inocente ou culpado. Mesmo assim, a perfeita argumentação de apenas um jurado é suficiente para nos fazer concordar com ele logo no início do filme. Desta forma, quando a segunda votação proposta pelo personagem de Henry Fonda tem inicio, nos pegamos torcendo para alguém ter escrito “não culpado” no papel, pois os argumentos apresentados por ele foram convincentes e nos provam que não temos a certeza necessária para acusar o menino.

A direção de Lumet é absolutamente competente na direção de atores, evitando que o filme se torne maçante (o que seria compreensível em um filme que se passa o tempo todo no mesmo local). Observe como os atores sempre fazem algo para ter um pouco de movimentação em cena, como tirar os casacos, mexer nos óculos, levantar, olhar pela janela, ligar o ventilador ou mudar de posição na mesa. Este absoluto controle da movimentação em cena (misè-en-scene) pode ser observado em detalhes na cena em que um jurado preconceituoso (Ed Begley) começa a fazer seu discurso inflamado contra o garoto. Os outros jurados começam a se levantar e ficar de costas pra ele, demonstrando que não concordam com o que ele fala. A câmera se distancia lentamente, diminuindo o personagem na cena. Simultaneamente, ele vai diminuindo o tom de voz, até ficar desolado e sentar numa cadeira. O elenco atua em conjunto e a cena visualmente é perfeita na tradução do sentimento de todos. Além disso, Lumet explora ao máximo as possibilidades que a situação oferece, utilizando a câmera para nos transmitir sentimentos. Em uma das votações, Lumet vai aproximando lentamente a câmera do imigrante enquanto eles contam nove a três para “culpado”. Quando a câmera está bem próxima, ele muda de opinião e vota inocente. A câmera traduz visualmente o momento em que ele se convence e muda, engrandecendo-o na tela, como se a coragem para mudar estivesse crescendo dentro dele até o ponto de externar esta decisão. Outro detalhe perceptível é que a câmera inicia o longa filmando a maioria do tempo por cima, em plano geral. Com o passar do tempo ela vai descendo e filma os atores pela metade do corpo e quando se aproxima o final do filme, Lumet abusa da utilização de close no rosto deles. Desta forma, o diretor traduz visualmente o aumento da tensão e da sensação de angústia dos jurados. A chuva também é um artifício muito bem utilizado para aumentar esta sensação de incomodo e desconforto, como se eles estivessem se sentindo enclausurados. Finalmente, Lumet capta muito bem as excelentes atuações de todo o elenco. Repare, por exemplo, a cena em que os jurados discutem sobre a velocidade dos passos de uma das testemunhas do caso. Um jurado diz que “um velho daquele jamais saberia precisar esta informação” e a câmera da um close nele exatamente no momento em que percebe ter escancarado seu preconceito, o que se agrava pela presença de um senhor de idade na sala.

É preciso dizer que, para o sucesso absoluto do filme, a excepcional direção de Lumet não seria suficiente. Seria preciso também um elenco extremamente capaz. E felizmente, este é o caso. Isto porque mesmo quando não estão diretamente ligados à cena, os atores estão sempre aparecendo, mesmo que seja em segundo plano, o que os obriga a “atuar” praticamente durante todo o filme. Logo na primeira votação dois detalhes já mostram sutilmente como é o ser humano, graças à fenomenal interpretação coletiva do elenco. Ao perguntar quem considera o garoto culpado, alguns erguem as mãos na hora. Outros aguardam alguns segundos, observam e só depois erguem, claramente seguindo a opinião da maioria sem a menor convicção. Já quando começa a contagem, ao ver que Fonda não ergueu a mão, o rapaz que conta faz uma pausa, mostrando-se impressionado com o voto dele. Todos olham pra ele como forma de intimidá-lo pela atitude tomada. Henry Fonda encabeça o elenco com uma atuação do melhor nível. Inicialmente pensativo, ele vai lentamente mostrando que os seus argumentos são mais do que suficientes para não condenar o garoto. Quando o jurado nº 1 (Martin Balsam) pergunta: “Você não acha que ele é culpado?”, ele responde: “Eu não sei”. Esta é à base do seu argumento, e a grande lição do filme, ou seja, se você não tem certeza absoluta, não pode condenar uma pessoa à morte. Um dos seus grandes momentos acontece logo após a demonstração de que a testemunha não conseguiria correr determinada distância em 15 segundos. Um dos jurados (interpretado magnificamente por Lee J. Cobb) diz que eles estão loucos, sendo convencidos por contos de fadas e deixando o garoto escapar pelas mãos. Ao ser provocado por Fonda, Cobb explode em cena, rangendo os dentes, cerrando os olhos e furiosamente partindo pra cima dele. Fonda, cinicamente, prova que estava certo antes ao afirmar que nem sempre queremos fazer o que dizemos. Lee J. Cobb reafirma seu talento quando altera seu voto, mostrando com muita emoção o motivo de sua posição firme até ali. É até difícil apontar destaques no elenco, já que todos têm atuações de alto nível. O jurado nº 7 (Jack Warden), por exemplo, se mostra logo no inicio como alguém fanático por esporte e que pouco se importa com o que está em jogo. Seu desinteresse fica ainda mais evidente quando muda seu voto sem nenhum motivo plausível, o que gera a revolta do jurado imigrante, interpretado por George Voskovec. John Fiedler, como o jurado nº 2, mostra através da voz sua timidez e insegurança. Martin Balsam conduz a votação com firmeza e se mostra bem justo e convicto de suas opiniões. O jurado nº 4 (E. G. Marshall) também mostra a mesma postura e quando Fonda questiona o que ele fez nos últimos dias, suas respostas são rápidas, como quem quer mostrar que tem certeza do que está falando. Joseph Sweeney, como o jurado nº 9, fala com muita propriedade sobre os motivos que levariam uma testemunha a mentir, numa alusão clara a ele mesmo, que também é um senhor de idade. Observe como ele faz uma pequena pausa quando alguém tosse e depois prossegue no discurso. Estes pequenos detalhes mostram a qualidade da interpretação de todo elenco.

O roteiro de Reginald Rose também tem grande mérito no sucesso do filme. Com diálogos ágeis e sempre interessantes, consegue prender a atenção do espectador em todos os momentos. Aborda também diversos temas polêmicos e escancara preconceitos, o que é bastante válido. Na primeira votação, por exemplo, os jurados começam a explicar porque votaram em “culpado”. E já no primeiro jurado podemos ver um erro que é freqüentemente cometido pelas pessoas, quando ele diz que acha que é culpado porque ninguém provou o contrário. Ora, como diz o personagem de Fonda, o ônus da prova é da promotoria, ou seja, o réu pode ficar calado. Quem tem que provar é quem acusa. Só que infelizmente o ser humano tem a tendência de julgar imediatamente como culpado alguém que é apenas acusado de algo. Outro trecho interessante do roteiro é a cena em que um jurado diz que o menino não sabe nem falar o inglês correto (“He don’t speak good english”. O imigrante corrige: “He doesn’t”). Este trecho irônico mostra que o preconceito dele é idiota, já que o imigrante fala inglês melhor do que ele próprio.

Como se não bastassem todas estas qualidades, “Doze Homens e uma Sentença” propõe ainda uma reflexão interessante no espectador, ao abordar o já citado preconceito de diversas formas diferentes. Temos o preconceito contra a origem da pessoa (um dos homens diz que o cortiço é uma escola de bandidos), contra os imigrantes (o esportista diz: “eles vêm para o nosso país e já querem dar opinião”), o preconceito contra os mais velhos e até mesmo contra os jovens, que é o grande motor da fúria de um dos jurados que havia brigado com o filho e deixou este problema pessoal afetar sua decisão no caso. Em resumo, o filme nos mostra claramente que jamais devemos nos deixar levar pelas aparências. Por tudo isso, podemos dizer que a parte técnica discreta e limitada pelo ambiente único não faz nenhuma falta. O filme é completo e não precisa de mais nada.

Sidney Lumet conseguiu realizar em “Doze Homens e uma Sentença” uma verdadeira aula de cinema, utilizando de forma excepcional o seu talentoso elenco, abusando de sua qualidade como diretor e criando, no fim das contas, uma verdadeira obra-prima. Admiradores do cinema devem saborear este filme singular, que é a prova de que mesmo sem grandes recursos técnicos o cinema pode nos oferecer grandes obras.

PS: Para ver outra crítica interessante do filme no Blog Cinepapo, de meu amigo Augusto, clique aqui.

Texto publicado em 29 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira

CANTANDO NA CHUVA (1952)

(Singin’in the Rain) 

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #12

Dirigido por Gene Kelly e Stanley Donen.

Elenco: Gene Kelly, Donald O’Connor, Debbie Reynolds, Jean Hagen, Millard Mitchell, Douglas Fowley, Rita Moreno, Madge Blake e Cyd Charisse. 

Roteiro: Betty Comden e Adolph Green. 

Produção: Arthur Freed.

 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Qualquer pessoa que nunca assistiu por inteiro “Cantando na Chuva” com certeza já ouviu sua canção mais famosa ou assistiu pelo menos um trecho da belíssima cena que dá nome ao filme, com Gene Kelly literalmente cantando na chuva. Só que o importante e belo musical dirigido pelo próprio Gene Kelly, em parceria com Stanley Donen, além de apresentar excelentes números musicais, ainda mostra com eficiência e bom humor como foi um importante momento da história do cinema: a chegada do som.

Don Lockwood (Gene Kelly) e Lina Lamont (Jean Hagen) são as maiores estrelas de Hollywood, gerando inclusive boatos de que os dois teriam um caso. Seus filmes são sucessos absolutos até que uma novidade chega para abalar as estruturas do cinema mundial. Com a chegada do som, todos na indústria do cinema precisam se adaptar à nova forma de fazer filmes, e nem mesmo os grandes astros terão vida fácil neste difícil momento de transição.

Alegre e extremamente divertido, a comédia romântica conta com um roteiro bem escrito por Betty Comden e Adolph Green, que explora muito bem as possibilidades que a situação oferece. Observe por exemplo o momento em que Lockwood conta que vai fazer um filme sobre a revolução francesa e o seu amigo Cosmo Brown (Donald O’Connor) advinha toda a estória (“Se você viu um filme, viu todos”). Esta crítica sutil à exploração de clichês mostra que o cinema precisava se renovar (algo que caberia hoje às telenovelas, mas o público é muito menos exigente neste caso e engole a repetição de estórias). O roteiro aborda também outro tema interessante, a resistência das pessoas às novidades tecnológicas. O video de exibição do cinema falado causa diversas reações. Alguns acham que o som vai estragar o cinema, outros que o som nunca vai vingar. É comum a rejeição às inovações técnicas no cinema, foi assim também com o filme colorido. Mostra ainda o conflito entre cinema e teatro, resumido no primeiro diálogo entre Lockwood e Kathy Selden (Debbie Reynolds).

A direção da dupla Gene Kelly e Stanley Donen é segura, conseguindo maior destaque nos esplêndidos números musicais (músicas creditadas para Nacio Herb Brown e Lennie Hayton). A dupla é competente também na condução da narrativa, escorregando apenas no número musical sobre a chegada à Broadway que parece deslocado, fora do foco principal da estória. Por outro lado, a excelente montagem de Adrienne Fazan compensa este deslize com outros momentos belíssimos, como a sutil transição entre Kathy e Lina cantando a mesma música (nítida a diferença de qualidade de voz das duas). Podemos ver Kathy ensaiando, Lina ensaiando, Lina cantando com a voz de Kathy ao fundo e finalmente, Lina com a voz de Kathy já na tela do cinema, na exibição teste.

As atuações são, de uma forma geral, extremamente caricatas, como podemos observar nas exageradas expressões do público e da apresentadora na cena inicial na porta do cinema. Em compensação, Gene Kelly demonstra todo o seu talento nos números musicais, além de mostrar qualidade também em outros momentos, como na cena em que coloca a mão em Kathy no carro dela e fala que os astros do cinema são solitários, dando uma olhada de canto de olho pra ver a reação dela. Quando Lina chega à festa, ele olha para o outro lado, mostrando claramente que não a suporta, evidenciando que aquele relacionamento é mesmo somente de fachada, apesar de Lina demorar pra entender isto. Lina Lamont, aliás, é muito bem representada pela excelente Jean Hagen. Ingênua, porém ambiciosa, ela se torna uma espécie de vilã, mas sempre com muita graça. Sua voz irritante e o sorriso escancarado caem bem na personagem. O talento de Hagen pode ser percebido na cena em que colocam um microfone nela. Lina ri ao levar uma bronca, achando que o homem está fazendo graça, sem perceber que estava atrapalhando todo o trabalho. Na cena em que fala do contrato com o produtor ela exala cinismo e mostra que não é tão ingênua quanto parece. Donald O’Connor, como Cosmo Brown, é o mais divertido do elenco. Com falas rápidas e cheio de energia, ele garante o toque de bom humor, como no musical “Make them Laugh”, que hoje pode parecer um pouco ultrapassado, mas na época funcionava bem. Debbie Reynolds completa o elenco como a graciosa e decidida Kathy. Depois de dizer que atores de cinema só faziam caretas, ela revela acidentalmente que na realidade é fã dos filmes e do trabalho de Lockwood logo após ser contratada para trabalhar com ele, em uma cena charmosa. Um dos mais belos momentos do filme acontece quando Lockwood vai se declarar pra Kathy e prepara passo a passo a montagem do cenário. O plano é belíssimo, com o pôr-do-sol artificial ao fundo, ele olhando para ela na escada e o vento batendo nos dois. Este detalhe dos bastidores de uma produção, aliás, é outro ponto positivo do longa. É muito interessante observar como um filme é feito, com o diretor sentado na cadeira, a câmera rodando, a equipe de som, o estúdio, a iluminação e todos os pequenos detalhes de uma produção cinematográfica. Interessante também a pitada histórica perceptível na cena dentro do cinema. Observe como os filmes, ainda sem o som, adotavam frases escritas para mostrar a fala dos personagens e a trilha sonora era tocada ao vivo por uma orquestra embaixo da tela.

Tecnicamente, o filme conta com a direção de fotografia bastante colorida de Harold Rosson, assim como os também coloridos figurinos de Walter Plunkett (principalmente nos números musicais), que contribuem para o clima alegre do filme. O som, apesar de oscilar bastante na cena inicial na porta do cinema, funciona corretamente no restante e colabora para o sucesso das canções. A caprichada direção de arte de Randall Duell e Cedric Gibbons pode ser observada, por exemplo, nos detalhados bastidores de uma produção, assim como na cena do curso de dicção, onde podemos ver os quadros com o movimento da boca em cada letra. A trilha sonora se destaca obviamente pelas canções, mas também funciona quando é apenas instrumental, como na cena em que Lockwood tem uma crise existencial, achando ser um péssimo ator. Quando eles encontram uma solução (transformar o filme em musical) a trilha sonora triunfal ilustra a empolgação deles.

Com a chegada do som, muitos atores e atrizes tiveram que enfrentar um grande problema. Teriam que revelar suas vozes e interpretar de uma nova maneira, o que causou um grande impacto na indústria do cinema. O filme retrata isso quando Lina Lamont, por exemplo, é impedida de falar em público, pois os produtores sabem que sua voz é péssima. Como o cinema era mudo, ela era reconhecida como uma grande atriz. Durante as filmagens, o produtor chega ao set dizendo que o filme falado é a grande sensação do momento. Lockwood fica em choque, mas o produtor tenta animá-lo dizendo que eles só precisavam falar: “O público vai saber que Don Lockwood e Lina Lamont falam”. Lina responde com sua voz irritante e todos se olham espantados, percebendo o problema que tinham nas mãos. A desastrosa apresentação inicial do filme falado, com o trecho improvisado por Lockwood (“Eu te amo, eu te amo, eu te amo!”) e muitos outros problemas técnicos mostra que algo precisava ser feito. Até mesmo grandes astros deveriam se adaptar, como podemos ver depois quando Lockwood faz um curso de dicção.

Obviamente, a narrativa criada em torno da chegada do som serve como base para a exibição de todo o talento de Gene Kelly e seu elenco nos sensacionais números musicais. Desde o primeiro número dos violinos, quando Lockwood narra sua trajetória com muito bom humor, passando pelo espetacular show de sapateado de Kelly e O’Connor na maravilhosa música “Moses” e pela bela “Good Morning”, cantada pelo trio Kathy, Lockwood e Cosmo, podemos apreciar o enorme talento do elenco para criar coreografias e interpretar as canções. Justamente após um destes musicais, Cosmo tem uma idéia brilhante, que pode salvar a carreira de Lockwood, e este é o ponto de partida para a grande cena do filme. Feliz por ter salvado a carreira e encontrado o seu amor, ele se despede da garota e sai literalmente cantando e dançando debaixo de uma grande chuva. O detalhe aqui é que a chuva, normalmente associada a momentos tristes, se torna a parceira dele em um momento de extrema alegria (“I’m happy again” diz em uma parte da música). É a mágica transformação de algo triste em algo alegre. É como um grupo de garotos que, frustrados por não poder jogar bola debaixo do mau tempo, decidem jogar na chuva mesmo, o que geralmente se torna algo muito divertido (vivi momentos inesquecíveis assim na infância). Gene Kelly dá um show nesta cena, explorando todo o cenário, sorrindo e mostrando com propriedade toda a alegria do personagem, além de interpretar e cantar muito bem a música.

Apesar do final previsível e do citado deslize no longo número musical da Broadway (“Broadway Rhythm Ballet”), “Cantando na Chuva” é bastante agradável e deixa o espectador com uma gostosa sensação de satisfação com o que viu. Além disso, a clássica cena que dá origem ao título já seria motivo suficiente para a apreciação do filme. Goste ou não de musicais, o espectador tem o privilégio de assistir um grande espetáculo e ainda entender melhor um momento importante da história do cinema. Pode ainda fazer uma última reflexão. Até mesmo nos dias mais chuvosos podemos encontrar a felicidade.

Texto publicado em 27 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira

A PONTE DO RIO KWAI (1957)

(The Bridge of the River Kwai) 

5 Estrelas 

Filmes em Geral #7

Vencedores do Oscar #1957

Videoteca do Beto #151 (Filme comprado após ter a crítica divulgada no site e transferido para a Videoteca em 08 de Janeiro de 2013)

Dirigido por David Lean.

Elenco: William Holden, Alec Guinness, Jack Hawkins, Sessue Hayakawa, James Donald, Geoffrey Horne, André Morell, Peter Williams, John Boxer, Harold Goodwin e Percy Herbert. 

Roteiro: Carl Foreman e Michael Wilson, baseado em livro de Pierre Boulle. 

Produção: Sam Spiegel. 

A Ponte do Rio Kwai foto 2

 

 

 

 

 

 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um trilho de trem no meio de uma linda paisagem é o ponto inicial do belo filme dirigido por David Lean sobre a cegueira mental que a guerra e as ordens seguidas sem questionamentos podem causar no ser humano. Loucura (“Madness!”) é a palavra final, diante de outro belo cenário com o mesmo trilho e a destruída ponte que dá origem ao título, ilustrando bem a linha de pensamento do filme. Segundo a visão de Lean, o ser humano parece ser incapaz de conviver em sociedade sem deixar que a ganância e a obsessão pelo poder tomem conta e sejam extremamente prejudiciais para todos. E eu concordo com ele.

Durante a Segunda Guerra Mundial, um grupo de soldados britânicos se torna prisioneiro em um campo de concentração japonês. Após uma guerra de egos entre o Coronel Saito (Sessue Hayakawa) e o Coronel Nicholson (Alec Guinness), o segundo é o encarregado de comandar a construção de uma ponte em prazo recorde. Por outro lado, o fugitivo Major Shears (William Holden) lidera a chegada ao local de um grupo comandado pelo Major Warden (Jack Hawkins) que foi escolhido pelo exército britânico para explodir a ponte.

Dirigido com elegância por David Lean, “A Ponte do Rio Kwai” mostra como o ser humano pode, de diversas formas, deixar a própria existência humana em segundo plano em prol de seguir ordens e regras ditadas por alguém que, invariavelmente, pouco se importa com o que se perde para atingir este determinado objetivo. Afinal de contas, qual a diferença entre o rígido e inflexível Coronel Saito e o tranqüilo Coronel Nicholson? Embora tenham estilos completamente diferentes, ambos seguem cegamente as ordens que lhes são dadas, sem questionar ética ou moralmente o que está sendo feito. Desta forma, quando o esperto Major Shears diz que a coragem de Nicholson é do “tipo de coragem que mata”, ele não deixa de ter razão, pois Nicholson seria mesmo capaz de morrer em benefício do cumprimento dos objetivos. Por outro lado, Shears é o típico covarde (ou malandro) que consegue de alguma forma sobreviver naquele inferno.

A primeira aparição do Coronel Saito é intimidadora, muito por causa da excelente atuação de Sessue Hayakawa, mas fruto também da competente direção de David Lean, que busca filmar o coronel sempre de baixo pra cima (ele inclusive sobe em um banco), de forma que ele sempre olhe para os britânicos com um ar superior. Além disso, Lean acerta em cheio na escolha dos belíssimos planos que exploram ao máximo a beleza natural da região, como na caminhada do Major Shears e seu grupo até a ponte, passando por lindas cachoeiras. O diretor também é sutil em diversos momentos, como no interessante plano que inicia a seqüência nas cachoeiras, mostrando os morcegos que serão justamente os integrantes do plano final da mesma cena, quando o tiro for disparado e as granadas explodirem. Plasticamente maravilhoso, o trabalho de Lean se torna ainda melhor porque trabalha em benefício do filme, evitando que as maravilhosas imagens que vemos na tela soem sem conteúdo.

A primeira metade do filme oferece a oportunidade para Sessue Hayakawa demonstrar todo seu talento como o rígido coronel Saito. Sempre com o olhar firme, a voz alta e um sotaque perfeito quando fala inglês, Saito encontra no corajoso Nicholson a possibilidade de demonstrar o seu poder, mas acaba sendo derrotado. Observe como ele tenta agradar o coronel britânico no jantar, cinicamente oferecendo carne inglesa, whiskey, charuto e até mesmo dizendo que Nicholson obviamente não precisaria trabalhar. Sua reação no momento em que cede ao desejo de Nicholson é extremamente realista, chorando e engolindo sua raiva, sozinho em seus aposentos. Esta cena oferece também ao ótimo Alec Guinness a oportunidade de demonstrar o seu talento, já evidenciado em cenas anteriores, como quando está no “forno” e seu amigo vem lhe trazer água e comida. Ele fala com a voz rouca e baixa, como faria alguém que estivesse tanto tempo sem beber nada e, portanto, com a garganta seca. Além disso, ele abre o olho com enorme dificuldade, já que a luz que entra incomoda quem estava trancado no escuro. Quando vai até a sala de Saito, ele caminha com enorme dificuldade e ao entrar, mal consegue se sustentar, balançando as pernas, pois está muito fraco. Já na citada cena do jantar, no momento em que Saito demonstra fraqueza, Nicholson cresce e assume o comando do diálogo, mandando o líder japonês sentar e ouvir sua estratégia para construir a ponte (Hayakawa bate os dedos na perna enquanto escuta, demonstrando sua ansiedade). O evidente choque de estilos entre os dois domina a primeira metade do filme e mostra como a pressão e a rigidez não são garantias de bons resultados. Nicholson é um líder nato, utilizando o que cada pessoa tem de melhor, sem a necessidade de gritar ou ameaçar seus comandados para alcançar seus objetivos. Por outro lado, quando assume o comando da construção da ponte, ele mostra a importância de respeitar a hierarquia, utilizando aqueles que têm talento para liderar em suas devidas funções. Adquirir o respeito dos seus comandados é fundamental para o sucesso. Observe a clara mudança de comportamento na construção da ponte. No início, mal organizados e mal liderados, podemos testemunhar um verdadeiro caos, também porque os britânicos queriam ser liderados por Nicholson e sabotam os japoneses. Com os britânicos no comando, a ordem volta e o resultado é alcançado com sucesso. Fechando o elenco principal, temos William Holden como o esperto Major Shears, que logo em sua primeira cena mostra que ele faz qualquer coisa para sobreviver ali, sem se importar com ética ou regras, tentando subornar o guarda para conseguir ficar sem trabalhar. Seu melhor momento acontece quando ele diz que Warden deixaria a própria mãe para trás para seguir suas regras e objetivos, rangendo os dentes, olhando firme e alterando o tom de voz. “Você e aquele Nicholson querem morrer como heróis, com coragem e seguindo regras, quando na verdade o que importa é viver como um ser humano”. Esta é a mensagem do filme, resumida neste trecho do bom roteiro de Carl Foreman e Michael Wilson (baseado em livro de Pierre Boulle). A estupidez da guerra e de seguir ordens sem questionar ou pensar no que está fazendo pode trazer grandes prejuízos para a humanidade.

O trabalho técnico em um filme que explora muito bem as belezas naturais do local também merece destaque. A fotografia pálida e seca de Jack Hildyard, que prioriza cores quentes como o marrom e o amarelo, demonstra a tristeza daqueles soldados dominados, que são tratados como escravos no inicio do filme. Observe a mudança na fotografia quando Shears está descansando no hospital. O azul do mar, a grama verde e a predominância da cor branca (até mesmo nos figurinos, por ser um hospital), refletem também a paz de espírito dele naquele lugar. A primeira aparição dos soldados ingleses, assoviando a famosa e bela canção principal do filme (mérito de Malcolm Arnold), é uma cena extremamente marcante. Mal vestidos, com roupas velhas e sujas (em certo momento Lean dá um close em um sapato rasgado de um soldado), eles demonstram sua união ao chegar assoviando a canção e se recusando seguir ordens dos japoneses, aceitando somente as ordens de Nicholson. A trilha sonora alta e empolgante ilustra bem a alegria deles quando Nicholson é solto.

Apesar de conter um pouco de ufanismo, com a mensagem clara de que os ingleses são bons e organizados e os japoneses não são, a construção da ponte mostra que com organização e liderança é mais fácil alcançar os objetivos do grupo. Mas a discussão proposta por “A Ponte do Rio Kwai” não é esta. Não se trata de uma disputa entre os melhores métodos de liderança, mesmo que o filme trabalhe bem este lado, e sim de uma reflexão sobre até que ponto devemos seguir regras sem pensar no que estamos fazendo. No exército, assim como em muitas organizações hoje em dia, a pessoa está em segundo plano e os valores morais e éticos também, como fica evidente no caso de Shears, que não queria voltar para o local e foi obrigado a participar, mesmo que sua importância na “missão” tenha sido drasticamente reduzida ao longo do caminho. A tensa cena em que os explosivos são colocados na ponte cria também um conflito de sentimentos no espectador. Na medida em que o momento da explosão se aproxima, não sabemos se queremos ou não que a ponte venha abaixo. Momentos antes do grande clímax perfeitamente construído por David Lean, testemunhamos o orgulhoso Nicholson, ao lado de Saito, observar o belíssimo trabalho que foi feito (e a ponte é mesmo bela!) e refletir sobre sua vida. Mesmo sem ter vivido com a família, ele entende que foi bom tudo o que conquistou na carreira militar. Some a este pensamento o desespero de Saito ao pensar no que aconteceria se ele não conseguisse terminar a ponte no prazo e a frase desumana (“Não espere o trem, faça agora!”) dita por Warden quando os soldados começam a passar pela ponte (assoviando a música e provocando um leve sorriso de Shears), sem se importar com as vidas que seriam tiradas se a ponte explodisse naquele momento. A conclusão é a mesma: para este tipo de gente as pessoas não importam, importa o objetivo.

Talvez o único presente com a cabeça realmente no lugar, o médico diz que não concorda com o que foi feito e prefere ver de longe, chegando à conclusão de que ele não entendia mesmo nada sobre o exército. E de onde estava, pôde observar de camarote o coronel Nicholson perceber algo errado com a ponte (Lean aproxima a câmera lentamente do rosto dele) momentos antes do trem chegar ao local. Ao seguir o fio, acompanhado de Saito, ele gera um verdadeiro conflito generalizado que causa a morte de Saito, Shears e a sua própria morte. A ironia é que Shears encontrou seu fim justamente no único momento em que decidiu ser corajoso. E a visão de Shears morrendo à beira do rio fez Nicholson refletir sobre os seus atos também, segundos antes de cair morto e acionar a explosão da ponte. O resultado final de toda esta obediência cega às ordens que foram dadas é trágico. Todos mortos e a ponte destruída.

Discutindo com inteligência até que ponto é válido seguir ordens sem reflexão, além de tratar de questões interessantes como os diferentes estilos de liderança e o sentido da guerra, “A Ponte do Rio Kwai” nos brinda com imagens belíssimas e consegue alcançar o seu objetivo com louvor, demonstrando claramente que infelizmente, quando nós seres humanos deixamos a ganância e a ambição tomar o controle de nossas vidas, as relações humanas e a própria humanidade ficam em segundo plano.

A Ponte do Rio Kwai 

 

 

 

 

 

 

Texto publicado em 23 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira 

ROCKY, UM LUTADOR (1976)

(Rocky)

5 Estrelas 

Filmes em Geral #5

Vencedores do Oscar #1976

Videoteca do Beto #18 (Adquirido quando a Videoteca estava no filme #17; crítica já havia sido publicada na categoria “Filmes em Geral”).

Dirigido por John G. Avildsen.

Elenco: Sylvester Stallone, Talia Shire, Burt Young, Carl Weathers, Burgess Meredith, Thayer David, Joe Spinell, Jimmy Gambina, Bill Baldwin Sr. e Jodi Letizia.

Roteiro: Sylvester Stallone.

Produção: Robert Chartoff e Irwin Winkler.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quantas pessoas gostariam de ter uma chance na vida de mostrar o seu verdadeiro potencial e jamais conseguiram, somente porque a nossa sociedade e o nosso modo de viver raramente oferecem esta oportunidade? A tocante história do lutador amador que recebe a oportunidade de sua vida ao enfrentar o campeão mundial nos abre a possibilidade de refletir sobre este tema e observar como uma pessoa comum pode se tornar um verdadeiro campeão na vida, independente de ter ou não ter fama perante a sociedade. Escrito pelo próprio Sylvester Stallone, “Rocky, um Lutador” é muito mais que um filme sobre boxe, abordando questões delicadas de forma surpreendentemente competente.

Rocky Balboa (Sylvester Stallone) é um lutador amador de boxe que trabalha, paralelamente aos treinos, como cobrador (ou uma espécie de capanga) de um agiota na cidade de Filadélfia. A grande oportunidade de sua vida aparece quando o campeão mundial dos pesos-pesados Apollo Creed (Carl Weathers) decide, como uma estratégia de marketing, oferecer uma luta contra um desconhecido e Rocky é o escolhido. O “garanhão italiano”, como é chamado, decide se dedicar ao máximo para pelo menos sair do ringue ao término da luta sem ser nocauteado pelo campeão.

O grande trunfo do carismático filme é com certeza Sylvester Stallone. Escrito pelo próprio Stallone, Rocky é resultado de um projeto pessoal do astro, na época desconhecido do grande público. O roteiro trata basicamente da luta do homem comum para superar as adversidades em uma sociedade que não abre espaço para o seu crescimento. Podemos até considerar que existe um pouco da típica história americana, ou seja, se você trabalhar muito duro será um vencedor um dia. Mas a realidade do dia-a-dia daquelas pessoas é bem diferente, como podemos observar em pequenos detalhes da produção, como a vizinhança suja e arredia de Rocky e Paulie (Burt Young). Além disso, o filme conta com a segura direção de John G. Avildsen, que consegue criar alguns momentos inesquecíveis, como o treinamento de Rocky, recheado de belíssimos planos com o lutador correndo na beira da água e o sol nascendo, correndo pelo porto com o navio ancorado ao fundo e o belo plano no palácio da justiça da Filadélfia com Rocky subindo as escadarias e erguendo os braços lá em cima, com a bela cidade ao fundo. Ele também cria planos que dizem muito somente através da composição visual, como aquele em que Rocky está treinando no frigorífico ao vivo, enquanto Apollo e sua equipe (de costas para a televisão) fazem contas e debatem sobre o dinheiro ganho, demonstrando que para Apollo a luta contra Rocky é apenas um negócio menor. Ele é um astro e está mais preocupado com seus negócios do que com a luta em si, já que Rocky não é um adversário que o preocupe.

Stallone também é a grande força dentro do elenco do filme, oferecendo aquela que talvez seja a maior atuação de sua vida. Observe como ele vai dando pistas do temperamento explosivo de Rocky ao ficar irritado e começar a bater na carne crua no frigorífico ou quando ele reage e vence a primeira luta do filme. Observe como o ator soca o ar constantemente, como um lutador de boxe provavelmente faria, além de andar sempre com os ombros em movimento, como se estivesse prestes a desferir um soco em alguém. Além disso, ao ficar socando o ar ele também demonstra a determinação de Rocky em alcançar o seu objetivo na luta contra Apollo. Stallone também fala sempre com a boca mole, refletindo a personalidade de Rocky, que é alguém com pouco recurso intelectual, como ele mesmo diz na bela cena da patinação com Adrian. Até mesmo em cenas bem humoradas ele demonstra talento (em certo momento ele aperta uma carne crua e faz Mooo!). Repare como ele dá um leve sorriso ao ouvir as piadas de Apollo na televisão, e nem mesmo quando Paulie o repreende, dizendo que Apollo está tirando uma com a cara dele, ele para de sorrir, demonstrando que mal percebe o que está acontecendo, além de mostrar sua admiração pelo campeão. Rocky é um ser puro, simples e direto, que exatamente por ser assim, tem enorme dificuldade para viver em uma sociedade hipócrita e cheia de regras de comportamento. Finalmente, duas cenas refletem bem o talento de Stallone na composição deste personagem icônico em Hollywood. Na primeira delas, Rocky tenta conversar com Adrian, mas ela fica trancada no quarto e ele tem que falar com a porta. Stallone reflete bem o embaraço de Rocky, olhando para Paulie e depois pra baixo, indo e voltando em direção à porta e falando meio sem jeito com a garota, demonstrando sua hesitação e desconforto ao ter que passar por aquilo. A outra cena é quando Rocky discute com Mickey (Burgess Meredith). Ao ver Mickey sair, ele fica gritando e olhando para a porta com o canto do olho, demonstrando a revolta de Rocky com a vida que ele teve. Ele balança o corpo e soca a porta, explodindo em raiva quando Mickey sai, já que naquele momento Rocky estava expondo toda a dor que sentia por não ter conseguido o sucesso que seu talento permitia.

Talia Shire também tem uma grande atuação formando o par perfeito com Rocky. Nos primeiros contatos que ela tem com ele, na loja de animais, ela sorri de canto de boca com as piadas do rapaz, além de olhar quase sempre pra baixo, demonstrando a enorme timidez de Adrian. Ela só olha pra Rocky quando ele não está olhando pra ela. Na linda cena do primeiro beijo, observe como ela se entrega lentamente, recusando inicialmente o contato com ele até lentamente ir cedendo à paixão. O desajeitado beijo é extremamente realista e reflete a enorme dificuldade que aquelas duas pessoas têm de se relacionar com alguém. Burgess Meredith também está bem, demonstrando sua raiva por saber que Rocky desperdiçou a chance de ser alguém na vida, como ele deixa claro na discussão dentro da academia. O fracasso de Rocky reflete o próprio fracasso de Mickey, que também é uma pessoa amarga por não ter sido alguém no boxe, como ele deixa claro na discussão com Rocky na casa dele. Observe como nesta cena ele range os dentes, grita com raiva e olha sempre com os olhos arregalados, refletindo muito bem a ira do personagem. Carl Weathers está bastante caricato como o campeão mundial Apollo Creed, mais parecendo um astro pop entrando no palco do que um lutador de boxe entrando no ringue, provocando risos inclusive na equipe de seu adversário com a imitação de George Washington na luta final. Em todo caso, não compromete o filme. Burt Young completa o elenco principal como Paulie, o amigo fiel e explosivo de Rocky.

A dura caminhada do boxeador para chegar ao sucesso é extremamente bem refletida pelo bom trabalho técnico do filme. A começar pela direção de fotografia de James Crabe, que destaca propositalmente cores como o marrom e o preto, e cria muitos ambientes escuros. O filme se passa a maior parte do tempo à noite, refletindo a vida daquelas pessoas amarguradas e à margem da hipócrita sociedade, que parece se recusar a aceitar que existem pessoas que não são felizes com suas vidas e sequer tem a chance de mudar esta situação. Quando Rocky aconselha uma garota a parar de fumar e ficar por aí na rua até tarde, ela diz que ele não é ninguém pra falar isso pra ela. A trilha sonora toca o tema principal do filme com uma melodia lenta e triste, refletindo o momento de Rocky, que é mergulhado nas sombras da rua. Ele ficou mal com as palavras da garota, e o visual da cena, reforçado pela trilha sonora, reflete este estado psicológico do personagem. A excelente direção de arte de James H. Spencer cria ruas sujas, cheias de lixo e com paredes pichadas, mostrando um submundo de pessoas que vivem uma realidade muito diferente daquela pregada pelo “american way of life”. A casa de Rocky reflete bem sua decadência como pessoa. Observe o colchão rasgado perto da parede, as coisas bagunçadas, as paredes descascadas e a janela pichada. Ele não tem dinheiro pra nada. Os figurinos de Robert Cambel e Joanne Hutchinson colaboram na criação deste ambiente, com roupas pouco coloridas e sem vida. A trilha sonora, famosa nos dias de hoje, é muito empolgante. A música tema é cheia de energia e casa muito bem com a força do personagem. Finalmente, o trabalho de montagem de Scott Conrad e Richard Halsey mantém a narrativa sempre atraente ao focar a vida pessoal de Rocky (e não as lutas de boxe), além de colaborar com perfeição em dois momentos memoráveis do filme: o treinamento e a luta final.

Canalizando toda a frustração de sua vida para dentro do ringue, o lutador amador consegue transformar aquela simples luta em um verdadeiro embate entre as pessoas comuns e aquelas que têm o poder. Ao olhar para Rocky no ringue, a maioria dos espectadores reconhece características próprias e este é o segredo da empatia do personagem com a platéia (além é claro do carisma de Stallone). Torcemos loucamente pelo seu sucesso, mesmo sabendo da enorme dificuldade que ele precisa enfrentar para alcançá-lo. O filme acerta em cheio no realismo da luta final, já que Rocky, mesmo derrubando o campeão, perde por pontos após lutar todos os rounds. Seria difícil mesmo ele vencer o campeão mundial, mas a forma como é derrotado se torna uma vitória pessoal pra ele e, conseqüentemente, para o espectador também. O seu grito por Adrian no final da luta mostra o quanto ela foi importante para que ele buscasse forças e alcançasse seu objetivo, numa das mais belas cenas do filme.

Mostrando com extremo realismo como as pessoas comuns precisam lutar constantemente neste mundo que oferece tão poucas oportunidades para alcançar seus objetivos, “Rocky, um Lutador” consegue ser direto e ao mesmo tempo tocante. Com um personagem principal extremamente carismático, simples e inocente, mas cheio de força e garra, outros personagens muito bem desenvolvidos e boas interpretações, consegue se estabelecer como um filme maduro, que ultrapassa a barreira do esporte e simboliza a luta de toda uma vida. 

Texto publicado em 13 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira

TUBARÃO (1975)

(Jaws) 

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #11

Dirigido por Steven Spielberg.

Elenco: Roy Scheider, Robert Shaw, Richard Dreyfuss, Lorraine Gary, Jeffrey Voorhess, Chris Rebello, Murray Hamilton, Carl Gottlieb, Jeffrey Kramer, Susan Backlinie e Jay Mello. 

Roteiro: Carl Gottlieb, baseado em livro de Peter Benchley. 

Produção: David Brown e Richard D. Zanuck. 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quando Steven Spielberg lançou Tubarão, no verão americano de 1975, mal sabia ele que estava lançando também uma tendência que dura até os dias de hoje no cinema norte-americano: o blockbuster. Por causa de alguns problemas na produção, incluindo aí o Tubarão mecânico que teimava em não funcionar corretamente, o filme não pode ser lançado na época tradicional dos grandes filmes em Hollywood, o final do ano. Com o atraso no lançamento, Tubarão só chegou aos cinemas norte-americanos no meio do ano seguinte. Como a metade do ano marca o auge do verão e também o período de férias nas escolas, o cenário perfeito para o lançamento do filme estava construído sem que os produtores imaginassem. Resultado: sucesso absoluto de bilheteria.

Amity é uma pequena cidade no litoral dos Estados Unidos que recebe a inesperada visita de um tubarão branco em pleno verão. A ameaça que o feroz predador representa entra em conflito com os interesses econômicos da cidade. Após uma série de incidentes, o chefe da polícia Martin Brody (Roy Scheider) convence o prefeito Larry Vaugh (Murray Hamilton) a aceitar a proposta do pescador de tubarões Quint (Robert Shaw) e parte para caçá-lo, auxiliado também pelo oceanógrafo Matt Hooper (Richard Dreyfuss).

A trama de Tubarão é simples e muito bem conduzida pelo diretor. Spielberg trabalha lentamente na construção do suspense que alcançará níveis gigantescos ao longo do filme. Observe como ele vai inserindo pequenos detalhes como a mão de Michael Brody (Chris Rebello) sangrando, o close nas palavras “Shark Attack” datilografadas por Martin, o outdoor da moça na praia pichado com as palavras “Help! Shark!”, as figuras em um livro sobre tubarões e uma máquina de fliperama chamada Killer Shark. Estes detalhes colaboram para aumentar a expectativa pela aparição do tubarão (que só acontece de fato muito tempo depois) na mente do espectador. Ele também cria belos planos como na cena da conversa entre o prefeito, Martin e Hooper em um barco. Em um primeiro momento podemos ver quatro pessoas discutindo, mas posteriormente o prefeito e Martin ficam em primeiro plano, destacando aquele que seria o principal embate do filme: o duelo segurança versus economia da cidade. Ora, Amity é uma cidade litorânea que vive dos dólares que entram na cidade no mês de Julho, como podemos testemunhar na conversa entre o dono de uma loja de conveniências e um fornecedor de bolas, cadeiras de praia e outros materiais deste tipo. O prefeito deixa claro que se for divulgado um ataque de tubarão a cidade entrará em pânico e toda a economia vai por água abaixo, com as pessoas saindo da cidade e indo para outras praias. Martin, por outro lado, está preocupado com a segurança da cidade, e principalmente, de sua família.

Spielberg utiliza uma narrativa ágil, recheada de muito suspense e alguns momentos de alivio cômico, como a cena em que Martin pede pra seu filho sair do barco e Ellen diz que não tem problema ficar ali. Ela muda de idéia assim que vê uma figura sugestiva no livro de Martin. A habilidade de Spielberg na condução da narrativa pode ser observada em diversos momentos. Podemos destacar entre elas a sensacional cena da morte do menino Alex. A cena inicia com um cachorro brincando na beira da praia atrás de uma madeira, uma senhora boiando na água e Alex (que propositalmente está de sunga vermelha, o que o destaca dos demais) conversando com sua mãe. O chefe Martin está tenso, imaginando que aquele seria o cenário ideal para o tubarão atacar, com toda aquela agitação na água. Uma pessoa vem até ele para tentar conversar, mas ele não dá atenção e fica olhando por cima do ombro dela, mostrando sua preocupação. Um senhor nada por baixo da senhora que está boiando, e o seu gorro preto dá a falsa ilusão de que era um tubarão. Uma moça começa a gritar, o que já nos causa o primeiro susto, mas ela estava apenas brincando com o namorado. Quando Ellen (Lorraine Gary) começa a massagear o marido ao som de uma música relaxante, vemos a imagem da madeira boiando na água já sem o cachorro e em seguida, vemos seu dono gritar por ele. Este pequeno truque da madeira também é utilizado por Spielberg em “Jurassic Park”, com o copo de água. Nos dois casos, pequenos objetos simbolizam a chegada do temido predador. A trilha sonora começa a tocar. A câmera mostra as pernas das crianças por baixo da água (podemos identificar a bóia de Alex no meio delas) e vai se aproximando lentamente, ao passo que o ritmo da musica acelera. O plano seguinte mostra de longe o sangue espirrando e o angustiante desespero das pessoas saindo correndo da água aos gritos. A cena termina com a bóia rasgada, coberta de sangue na beira da praia, e a mãe de Alex desesperada procurando o filho na multidão e olhando para o mar. Como podemos perceber, a cena inicia com os personagens chave (o cachorro, a senhora boiando e Alex) e, utilizando pequenos detalhes (os sustos, a dica da madeira), vai aumentando lentamente o suspense até a angustiante conclusão.

O diretor (na época com 27 anos) também é extremamente eficiente na construção de diversas cenas de suspense absoluto, como a seqüência dos dois pescadores na plataforma, o mergulho de Hooper para examinar um barco, a brincadeira de mal gosto de duas crianças na praia e o cruel ataque contra um velejador. Nesta cena, aliás, podemos conferir um dos diversos momentos em que a câmera funciona como o ponto de vista do tubarão, passando a poucos metros de Michael no canal. Este truque de Spielberg (inspirado em Hitchcock), conhecido como ironia dramática, faz com que o espectador saiba mais do que os personagens sobre o que se passa na cena, o que aumenta e muito a aflição da platéia. Também é por causa desta cena que, ao ver seu filho em estado de choque, Martin decide partir pro tudo ou nada contra o animal. O desolado prefeito, igualmente chocado porque seus filhos também estavam na água, aceita a proposta e assina a autorização para contratar Quint. Finalmente, Spielberg demonstra sua competência (auxiliado pelo excelente trabalho de direção de fotografia de Bill Butler) ao acertadamente filmar a maior parte das cenas na água com a câmera no nível do mar, justamente como seria o ponto de vista de uma pessoa que estivesse nadando. O resultado é a sensação criada no espectador de que ele realmente está ali, o que causou um enorme medo da água em muitas pessoas logo após o lançamento do filme.

Um dos motivos para a empatia do espectador com o sofrimento dos personagens é que toda a trama é mostrada focando a vida de um personagem em especial, o chefe Brody. Ao fazer isto, Spielberg cria no espectador uma proximidade com o drama daquela família, que vive dividida entre voltar para a cidade grande ou tentar se adaptar a nova vida em Amity, como podemos perceber na primeira conversa do casal. E esta empatia não seria possível se a atuação de Roy Scheider não fosse tão eficiente. Scheider é extremamente competente no estabelecimento da conexão entre o espectador e o seu drama, que é defender sua família. Observe como ele demonstra todo o esforço de Martin na luta para impedir a liberação da praia na discussão que tem com o prefeito no barco. Quando a mãe de Alex lhe dá um tapa na cara, ele evita o olhar dela sutilmente (observe como o foco do seu olhar vai para baixo e volta seguidas vezes) e abaixa a cabeça quando ela vai embora, tamanho era o seu embaraço por entender a dor daquela mãe. Sua cena mais tocante acontece quando seu filho Sean Brody (Jay Mello) imita todos os seus gestos. Ele pede um beijo para o filho, que pergunta por que, e ele responde “Por que eu preciso”. A emoção de Ellen na cena também é muito bem representada por Lorraine Gary, com os olhos marejados e a feição de choro. Em outro momento, ao ver Ellen sair chorando pelo porto, na cena em que Martin parte para a caçada, o espectador sente o drama da esposa aflita com a possibilidade de perder o marido, o que é mérito também da boa atuação de Gary. Na belíssima cena do jantar em sua casa com Hooper, Ellen pergunta se Martin poderia abrir um tubarão que havia sido capturado e ele responde “Eu posso fazer tudo, sou o chefe da polícia” com uma cara cínica e um olhar superior típico de quem bebeu além da conta, demonstrando sua habilidade também nos momentos cômicos. Pra finalizar, Scheider improvisou uma das frases mais conhecidas do cinema. Ao ver o tubarão por inteiro pela primeira vez (assim como o espectador, que só tinha visto parte dele no ataque ao velejador), lentamente ele caminha para trás, entra na cabine do barco e diz: “Vamos precisar de um barco maior”. Richard Dreyfus também tem uma boa atuação como o oceanógrafo Matt Hooper. Observe a cena em que ele está fazendo o relatório da primeira vítima do tubarão. Ao puxar o pano, ele respira ofegante, como quem está assustado e também incomodado pelo cheiro, e demonstra através da fala ritmada e da respiração forte que está muito impressionado com o estrago que o tubarão fez na moça, pedindo um copo de água em seguida. O prefeito Larry, vivido com competência por Murray Hamilton, tem dois momentos de destaque. O primeiro é quando ele diz no porto que ali não é o lugar adequado para fazer uma autopsia no tubarão, com a sobrancelha levantada como quem está pedindo bom senso. O segundo é a cena em que ele assina, tremulo, fumando um cigarro e olhado pra baixo, a autorização para contratar Quint. Hamilton retrata muito bem o remorso do prefeito, dizendo que só pensou nos interesses da cidade, se esquecendo que seus filhos também estavam na praia. A ambigüidade do personagem fica evidente. Ele não é ruim ou bom, só é um ser humano que comete erros e acertos. Mas o grande destaque da produção fica para a grande interpretação de Robert Shaw, como o experiente caçador Quint. Desde sua brilhante introdução, na cena em que ele interrompe a discussão sobre o tubarão raspando a unha na lousa, podemos perceber sua enorme autoconfiança, ilustrada através do olhar fixo e da fala segura. Seu primeiro diálogo com Hooper já deixa claro o choque de estilos (modernidade versus experiência) que inevitavelmente acontecerá entre os dois. Em uma das melhores cenas do filme, Shaw demonstra toda sua capacidade, auxiliado também pelo ótimo trabalho de Dreyfus e Scheider. Eles começam a contar as histórias de suas cicatrizes e fazer piada até que, em certo momento, Dreyfus corta a risada ao saber a tatuagem que Shaw apagou, e passa a falar ofegante, sabendo a importância que teve aquele ato. Shaw olha fixo pra mesa, com os braços cruzados, como quem puxa na memória uma história inesquecível e marcante. Observe a alteração no tom de voz, o olhar penetrante, o ritmo lento e o tom melancólico dele enquanto conta sua aterrorizante experiência no mar quando entregou a bomba de Hiroshima. Sua descrição perfeita e detalhista sobre os ataques de tubarão cria no espectador o pavor e o pânico, e o prepara para o clímax do filme.

A trilha sonora de “Tubarão” é extremamente fundamental para o sucesso do filme. As duas notas criadas por John Williams aumentam de volume e velocidade à medida que o tubarão se aproxima, e o espectador instintivamente associa a trilha ao ataque do tubarão. Por isso o susto é enorme quando o Tubarão aparece por inteiro pela primeira vez, já que também é a primeira vez que ele entra em cena sem a trilha. Nossas mentes não estavam condicionadas para aquele momento. Williams também cria uma trilha agitada e empolgante, parecida com uma marcha triunfal, na seqüência da caça ao tubarão. Quando os barris afundam novamente a trilha termina repentinamente, o que ilustra muito bem a decepção dos personagens. O trabalho de som e efeitos sonoros é impressionante, captando cada pequeno barulho como, por exemplo, as braçadas da vitima na água, a bóia balançando e a mordida do tubarão no primeiro ataque do filme. A já citada direção de fotografia de Bill Butler utiliza uma paleta limpa com cores quentes, típico de uma cidade litorânea no verão, e evita ao máximo utilizar a cor vermelha, que só aparece em destaque após os ataques do tubarão. Butler também conseguiu desenvolver câmeras adaptadas para filmar melhor dentro da água, o que na época era um grande avanço e permitiu criar a já citada sensação de estar dentro do mar no espectador. Os coloridos figurinos completam o visual ideal para Amity. Outra grande responsável pelo enorme sucesso do filme foi Verna Fields, responsável pela montagem. Trabalhando em conjunto com Spielberg, ela cria seqüências empolgantes e auxilia na ágil e nunca confusa narrativa, que apesar de desenvolver bem os seus personagens, jamais deixa de focar o perigo que o tubarão representa naquela cidade e, desta forma, faz com que o público não desgrude os olhos da tela.

“Tubarão” conta ainda com dois fatores essenciais para o seu sucesso absoluto como obra cinematográfica. O primeiro deles é a nossa identificação com Martin, uma pessoa comum que luta para defender sua família, enfrentando sua vulnerabilidade. Até o seu medo da água colabora para esta afinidade com o espectador. Por isso, os ataques do tubarão são ainda mais temíveis. Se não existisse esta empatia, testemunhar um monte de gente que não conhecemos morrendo seria apenas um evento distante, como uma noticia no jornal. Mas ao nos deixar próximos de Martin, sentimos como se o seu drama fosse nosso também. O segundo fator essencial é que o tubarão demora muito para aparecer por inteiro no filme. Desta forma, nossa mente cria o mais temível dos vilões, já que a mente é o maior motor do suspense. Ao não mostrar o tubarão, Spielberg faz o espectador imaginar como ele é, e nada se compara ao que nossa mente cria.

Abordando de forma sensível o tema pai e filhos, “Tubarão” utiliza o drama de Martin para proteger sua família como o fio condutor de uma aventura eletrizante e cheia de suspense do melhor nível. Às vezes confundido injustamente com as péssimas continuações que inspirou, conta com ótimas atuações e uma direção impecável de Steven Spielberg. A narrativa direta não atrapalha o desenvolvimento dos personagens, que jamais soam rasos. Auxiliado pela marcante trilha sonora, é diversão garantida com roteiro inteligente. Se todo blockbuster tivesse esta qualidade, o cinema estaria salvo de bombas como “Transformers”.

Texto publicado em 07 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira

O PODEROSO CHEFÃO – PARTE II (1974)

(The Godfather: Part II) 

5 Estrelas

 

Obra-Prima

Videoteca do Beto #10

Vencedores do Oscar #1974

Dirigido por Francis Ford Coppola.

Elenco: Al Pacino, Robert De Niro, Diane Keaton, Robert Duvall, John Cazale, Talia Shire, Lee Strasberg, Michael V. Gazzo, Morgana King, Gianni Russo, Abe Vigoda, G. D. Spradlin, Richard Bright, Gastone Moschin, Tom Rosqui, Bruno Kirby, Frank Sivero, Francesca De Sapio, Marianna Hill, Dominic Chianese, John Aprea, Giuseppe Silato, Mario Cotone, Harry Dean Stanton, Danny Aiello e James Caan. 

Roteiro: Mario Puzo e Francis Ford Coppola, baseado em livro de Mario Puzo. 

Produção: Francis Ford Coppola.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Se a primeira parte da trilogia O Poderoso Chefão destaca-se pelo roteiro incrivelmente coeso, que abrange uma gama enorme de personagens complexos e extremamente bem desenvolvidos, além da absoluta perfeição alcançada em todos os setores da obra, esta primorosa seqüência dirigida com muita competência por Francis Ford Coppola não fica nem um pouco atrás. Além de dar continuidade à maravilhosa trama do primeiro longa, o habilidoso trabalho de toda equipe ainda divide a narrativa em duas estórias paralelas e igualmente atraentes, sugando o espectador de forma inigualável para dentro do filme. O roteiro complexo e cheio de ramificações explora ainda mais o drama psicológico dos personagens e converge mais uma vez para um final perfeitamente bem realizado.

Após a morte de Don Vito Corleone, Michael (Al Pacino) resolveu eliminar de seu caminho todos os problemas pendentes, assassinando todos aqueles que poderiam gerar algum conflito com seus interesses. Decidido a entrar no ramo do entretenimento, ele instala seus negócios em Las Vegas e Havana, através da compra de luxuosos Hotéis e Cassinos. Só que na medida em que seus negócios evoluem e seu sucesso aumenta, ele vai perdendo lentamente o que mais tem valor em sua vida. Paralelamente, acompanhamos a trajetória de Vito Corleone (Robert De Niro), desde sua fuga da Sicília para Nova York até o nascimento de seu filho Michael e sua afirmação como o homem mais poderoso da máfia.

A estrutura narrativa é propositalmente semelhante nos dois filmes. Ambas começam com uma festa em que o líder da família se divide entre dar atenção aos convidados para manter as aparências e resolver os problemas de seu obscuro negócio em sua sala particular. Em seguida, um atentado ao chefe da família é o ponto de partida para uma enorme quantidade de conflitos que serão resolvidos simultaneamente em um terceiro ato maravilhoso e genial. O encontro acontecido em Cuba entre Hyman Roth (Lee Strasberg), Michael e as pessoas mais importantes da região também remete ao primeiro filme, lembrando o encontro dos líderes das famílias mafiosas em Nova York. A diferença aqui é que além da trajetória de domínio de Michael, podemos acompanhar também a chegada de Vito Corleone ainda jovem à Nova York. Desta forma, Coppola cria a oportunidade de mostrar paralelamente e de forma brilhante a vida de pai e filho na mesma época de suas vidas, porém em épocas distintas da sociedade. E é interessante observar que apesar de estarem na mesma idade, eles enfrentam problemas diferentes para manter a sua família. Vito tem sucesso, Michael não. A diferença de épocas fica clara no belo diálogo que Michael tem com sua mãe. Sua frase final (“Os tempos estão mudando”) demonstra sua preocupação com uma possível revolta de Kay (Diane Keaton), que efetivamente acontece depois. Outra novidade nesta segunda parte da trilogia é a ligação entre a trajetória dos Corleone e fatos históricos, como a revolução cubana. Pra finalizar, o excelente roteiro de Mario Puzo e Francis Ford Coppola mantém uma característica muito importante do primeiro filme: as frases marcantes. Para citar apenas duas, temos a frase emocionada de Michael para Fredo (John Cazale): “Eu sei que foi você, Fredo!” e a atordoante revelação de Kay para Michael: “Foi um aborto Michael!”.

A direção de Coppola mantém o nível de excelência do primeiro filme, conduzindo a complexa narrativa com extrema segurança e criando planos absolutamente geniais. Observe como ele cria lentamente a sensacional cena do ataque contra Michael. Após ver o desenho de seu filho, Michael conversa tranquilamente com Kay até que ela pergunta por que as cortinas estão abertas. É a chave para que o espectador pressinta o ataque iminente, sem muito tempo de reação para os personagens que se jogam no chão imediatamente, enquanto os tiros estraçalham o quarto. A habilidade do diretor para criar cenas marcantes é incrível. Se o primeiro filme tem um enorme festival de cenas inesquecíveis, a segunda parte mantém a tradição com louvor. Para citar algumas cenas maravilhosas, temos o ataque de Vito ao “Mão Negra” (Gastone Moschin), a festa inicial para o filho de Michael, o impressionante ataque contra Michael em sua casa seguido pela caça noturna aos atiradores, a chegada à Cuba e a explosão da revolução cubana, a impagável vingança de Vito em plena casa de Don Ciccio (Giuseppe Sillato), a realista e reveladora discussão entre Michael e Kay e a emblemática cena da morte de Fredo no barco, com Michael olhando pela janela.

Coppola também repete o excelente trabalho do primeiro filme na condução de atores, extraindo atuações magníficas do espetacular elenco. Robert De Niro e Al Pacino disputam acirradamente o respeitável posto de melhor atuação do filme. De Niro consegue tornar verossímil o seu jovem Vito Corleone, utilizando inclusive a voz rouca criada por Marlon Brando no primeiro filme. Observe sua reação na engraçada cena em que Don Roberto vem lhe dizer que além de não tirar um inquilino irá reduzir o preço do aluguel. Vito olha para o seu amigo duas vezes como forma de intimidar o cidadão e quando consegue o que queria ele diz “Grazie!” com uma cara cínica de quem já esperava por aquilo. Na cena em que Clemenza (Bruno Kirby) invade uma casa para roubar um tapete, ele pergunta “Essa casa é do seu amigo?” e ao ouvir a resposta, faz um movimento com os lábios típico de quem está impressionado e ao mesmo tempo duvidando da informação. Esta cena, aliás, é o ponto inicial para o envolvimento de Vito com o crime, já que ele quase presencia um assassinato. Na memorável cena da vingança na Itália, ele fica observando de longe, com a blusa no braço e um olhar sério de quem aguarda aquele momento há muitos anos. Quando Don Ciccio brinca com o nome dele, De Niro dá um sorrisinho cínico. Em seguida o homem pergunta o nome do pai dele e De Niro se aproxima e sussurra com a voz rouca “Antonio Andollini, e isto é pra você!” e esfaqueia o homem, saindo correndo em seguida. E finalmente, na maravilhosa cena do assassinato de Don Fanucci, ele é frio o suficiente para matar o homem e se livrar dos vestígios do crime, e De Niro é muito competente quando demonstra essa frieza de Vito, olhando para os lados antes de se jogar a arma fora e saindo naturalmente do local do crime para encontrar sua família. Al Pacino mais uma vez está perfeito como Michael Corleone. Sua transformação em relação ao primeiro filme é evidente. Firme, ele conduz com segurança os negócios da família, que em contrapartida vai se afastando cada vez mais dele, como fica evidente em seu retorno pra casa, quando vê o carrinho de seu filho atolado na neve e a casa vazia. Observe como na cena em que responde para o senador Pat Geary (G.D. Spradlin, brilhante neste embate com Pacino) “minha oferta é esta… nada!”, sua cadeira se move pra trás e pra frente demonstrando sutilmente sua inquietação e raiva. Quando Tom Hagen lhe conta sobre a perda de seu filho, ele respira fundo, muda de uma feição tranqüila para um rosto prestes a explodir, olha pra baixo, mexe com as mãos e finalmente pergunta “Era um menino?”. A resposta vaga de Tom é o estopim para a explosão de Michael que Pacino demonstra com maestria. Quando percebe que foi traído pelo irmão numa apresentação de dançarinas, seu olhar e respiração deixam claro para o espectador sua frustração. E finalmente, no enterro de Mama Corleone, ao abraçar seu irmão, ele olha para uma pessoa presente, e somente este olhar é o suficiente para mostrar que ele não perdoou Fredo. John Cazale é extremamente competente como Fredo, num papel que ganhou muita importância dentro da trama. Sua melhor cena é a discussão final com Michael, quando ele revela toda sua angústia e os motivos de sua traição. Cazale retrata com muita veracidade o sofrimento de Fredo, o irmão mais velho (e preterido) de Michael. Observe como ele altera a voz, olha para o alto, movimenta as mãos e se joga na cadeira ao discutir com o irmão, que se mantém imponente e firme na conversa. A composição visual dos dois no plano demonstra a diferença entre eles, já que Michael se mantém olhando por cima, enquanto Fredo está diminuído na cena.

Diane Keaton está ainda melhor como a amargurada Kay Adams, esposa do mafioso. Lentamente ela se afasta do violento marido e Keaton retrata esta gradual transformação com perfeição. Junto com Pacino, ela cria uma cena maravilhosa que evolui gradualmente para um final trágico na realista discussão dentro do Hotel. Primeiro Kay pede educadamente para que Rocco se retire. Repare que a feição de Keaton vai lentamente se alterando conforme ela vai contando seu plano de ir embora para Michael. Enquanto conversam, Pacino solta o colarinho e depois pega uma bebida. Quando ele grita que não vai permitir que ela vá embora e leve seus filhos, Keaton fixa o olhar no chão e diz “neste momento não sinto amor por você”. Pacino acende um cigarro e diz que eles vão juntos no outro dia. A explosão dela em cena é iminente. Ela range os dentes e Michael diz que sabe que ela o culpa por ter perdido o bebê e que eles vão ter outro filho. Ela olha para o alto, respira fundo e diz: “Michael, oh Michael, você está cego!”. Pacino, que estava tranqüilo e até demonstrando certa pena de sua esposa, começa a mudar seu comportamento. Então, com os olhos cheios de lágrimas, ela revela que não perdeu o bebê, e sim fez um aborto porque não quer continuar com esta relação. Pacino se transforma. Seus olhos arregalam, sua boca treme e sua respiração praticamente para. Ela continua falando e o tapa violentíssimo vem em seguida. Um show de interpretação da dupla, que marca o fim do relacionamento, como comprova a emblemática cena em que Michael fecha a porta na cara de Kay. O homem tranqüilo havia se transformado em um criminoso amargurado e frio. Talia Shire tem um desempenho muito bom como a renovada Connie. Ela se mostra uma mulher liberal, fumando e querendo viajar com o namorado. Superficialmente, ela demonstra ter superado a perda de seu marido, mas em seu coração ela nunca perdoou Michael pelo que ele fez, como fica evidente na conversa que eles têm no inicio do filme. Robert Duvall tem outra boa atuação como Tom Hagen, o paciente conselheiro da família, afastado por Michael em um momento estratégico da trama, mas de suma importância nos negócios da família. Podemos destacar ainda muitos atores do elenco de apoio, como Lee Strasberg fazendo o inteligente Hyman Roth, Michael V. Gazzo como o italianíssimo Frankie Pentangeli, G.D. Spradlin como o cínico senador Pat Geary e Bruno Kirby como o esperto jovem Clemenza.

O ritmo das duas narrativas paralelas é muito bem coordenado pela excelente montagem de Barry Malkin, Richard Marks e Peter Zinner, que cria grandes blocos narrativos em cada período, o que evita tirar o espectador da história constantemente. As transições entre os dois períodos distintos são sempre muito interessantes, como a seqüência que salta da imagem de Vito ainda criança para seu neto Antonio Corleone e a transição de Michael para Vito logo após o diálogo com Mama Corleone, num dos dois planos que Pacino e De Niro dividem no longa. Outra transição interessante corta de Vito e Michael na janela do trem para Mama Corleone morta, com Fredo e Connie aparecendo em seguida, lembrando o espectador que a única coisa que mantinha Fredo vivo era sua mãe. Agora Michael não tinha mais motivos para não matá-lo. A excelente fotografia de Gordon Willis volta com um tom ainda mais escuro e denso. Observe como ele mergulha metade do rosto de Michael e Connie por inteiro nas sombras na cena em que eles conversam sobre uma suposta viagem dela, deixando somente um ponto da tela (o ponto cego) com alguma luz. Outro exemplo é o olho de Vito completamente escondido nas sombras enquanto aguarda Fanucci no prédio. As inúmeras cenas noturnas colaboram com esta sensação de escuridão, como o ataque contra Michael ou o início da revolução cubana. Willis também é extremamente competente na divisão clara entre as duas narrativas, utilizando uma paleta grossa e cores opacas quando narra a vida de Vito, desde sua fuga da Itália até os seus primeiros anos em Nova York, retratando o ambiente hostil e a vida dura que ele tinha. Além disso, a imagem desgastada dá um ar mais antigo às cenas. Repare que a maravilhosa rua da feira livre destaca as cores verde, vermelho e amarelo, porém em um tom sem vida. Willis alterna para uma paleta mais limpa quando narra a vida de Michael, sem deixar de utilizar os ambientes escuros e sombrios nas duas situações. A trilha sonora cria simpáticas variações para a excelente música tema do primeiro filme, como na cena que Michael conversa com seu filho no quarto (onde as notas lembram canções de ninar para bebês) e quando Vito segura Michael no colo e diz que lhe ama muito, ao som da música tema tocada em um violão atrás dele. A maravilhosa Direção de Arte de Angelo P. Graham cria uma Nova York absolutamente incrível. Observe como a citada feira livre é extremamente detalhada, com barracas de frutas cobertas por toldos coloridos, comércio de animais, roupas penduradas nas janelas, sujeira nas ruas e carros da época. Os detalhes também estão presentes nas cidades de Havana, Miami e Las Vegas, dentro dos luxuosos hotéis perfeitamente decorados e nas agitadas ruas da capital cubana, recheadas de crianças pobres. Os figurinos desta vez ficaram sob a responsabilidade de Theadora Van Runkle, que mantém o estilo marcante do primeiro filme no visual dos gângsteres e capricha também no visual da trama paralela, com a típica roupa italiana de Vito Corleone completada pelo tradicional chapéu que Michael também utilizou no primeiro filme.

Assim como no maravilhoso “O Poderoso Chefão”, o terceiro ato de “O Poderoso Chefão – Parte II” também finaliza com perfeição a narrativa. A morte de Fredo acontece simultaneamente ao assassinato de Roth e a descoberta do suicídio de Pentangeli, eliminando mais uma vez os problemas pendentes de Michael. Só que desta vez ele vai refletir amargamente sobre o resultado de suas ações. Observe em particular a composição visual na cena da morte de Fredo. Primeiro Coppola mostra Fredo rezando enquanto Michael olha pela janela. Ao som do tiro, a câmera volta para o barco, agora só com o assassino sentado e os pássaros voando ao fundo. Michael, solitário na janela, chegara ao fundo do poço, sem sua mulher, sem seus filhos e assassinando o próprio irmão. Ao mostrar Michael pensativo e solitário na sala, Coppola salta para o passado, criando uma emblemática e bela cena final. Ao ver Carlo sendo apresentado à Connie, Michael revelando que iria para a marinha e Fredo, Sonny e Tom conversando na mesa, a reflexão que fazemos é como aquele homem tranqüilo se transformou naquele monstro ao final do segundo filme. Pensamos também como aquela família conseguiu cair em tamanha decadência. Com a chegada de Don Vito, Michael fica sozinho na cozinha, assim como está no presente. Só que agora ele está solitário e desolado, pois venceu todos os inimigos, mas perdeu tudo que ele amava, ou seja, a família.

Trabalhando de forma ainda mais intensa o drama psicológico de seus personagens, “O Poderoso Chefão – Parte II” consegue a proeza de ser ainda mais complexo narrativamente que o primeiro filme. A incrível decadência de um homem poderoso e o resultado desastroso de seus atos torna esta segunda parte da saga ainda mais pesada e sombria. Contando novamente com competência na direção, roteiro, atuações e toda a parte técnica, reafirma a excelência do trabalho de Coppola, Puzo, Willis e companhia e garante um lugar eterno no coração daqueles que realmente gostam de cinema. Obra-prima.

 

Texto publicado em 02 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira

ROCKY BALBOA (2006)

(Rocky Balboa)

4 Estrelas 

Filmes em Geral #98

Filmes Comentados #2 (Comentários transformados em crítica em 22 de Dezembro de 2012)

Videoteca do Beto #222 (Filme comprado após ter a crítica divulgada no site e transferido para a Videoteca em 20 de Fevereiro de 2016)

Dirigido por Sylvester Stallone.

Elenco: Sylvester Stallone, Burt Young, Antonio Tarver, Milo Ventimiglia, Geraldine Hughes, Pedro Lovell, James Francis Kelly III, Tony Burton, A.J. Benza, Henry G. Sanders, Ana Gerena, Ângela Boyd, Louis Giansante, Carter Mitchell, Vinod Kumar e Robert Michael Kelly.

Roteiro: Sylvester Stallone.

Produção: William Chartoff, Kevin King, Charles Winkler e David Winkler.

Rocky Balboa[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

No sexto e último filme da série, Sylvester Stallone encerra de forma correta a saga do lutador que transformou sua vida e fez dele um dos nomes mais importantes de Hollywood entre os anos 70 e 80. Em certo momento de “Rocky Balboa”, o astro decadente reflete sua própria realidade, dando autógrafos pelas ruas e demonstrando o quanto permanece preso ao passado. E é justamente este tom melancólico que garante uma de despedida digna de Stallone para seu melhor personagem em toda a carreira.

Escrito e dirigido pelo próprio Stallone, “Rocky Balboa” nos traz seu personagem título (Sylvester Stallone) já envelhecido e distante dos dias de glória, vivendo de seu pequeno restaurante Adrian’s, batizado em homenagem à sua falecida esposa, enquanto seu filho Rocky Jr. (Milo Ventimiglia) luta para conseguir sucesso na vida profissional sem a ajuda da fama do pai. Só que uma simulação de computador feita pela ESPN coloca o atual campeão mundial dos pesos pesados Mason Dixon (Antonio Tarver) para lutar contra Rocky e gera uma enorme polêmica, chamando a atenção de empresários que, imediatamente, tentam convencer o lendário ex-lutador a voltar aos ringues.

Logo no primeiro minuto de projeção, “Rocky Balboa” evidencia seu tom nostálgico ao destacar a foto de Adrian ao lado da cama do protagonista, que, somada a versão melancólica da famosa trilha sonora de Bill Conti e a fotografia azulada de J. Clark Mathis, transmite ao espectador o mesmo sentimento de tristeza do lutador. Vivendo numa casa simples em um bairro humilde da cidade, Rocky escancara a diferença gritante de realidade entre os esportistas do passado e do presente quando comparamos suas posses com a mansão e o carro de luxo do atual campeão mundial. A partir daí, ganha espaço a eterna discussão existente em quase todos os esportes: passado versus presente. Perguntas como “Quem seria melhor?” ou “Quem venceria?” jamais encontrarão uma resposta definitiva, por isso, a comparação entre épocas é sempre um assunto polêmico e complicado. É óbvio que numa luta realizada no presente um campeão do passado não teria chances, mas se ambos estivessem no auge o vencedor poderia ser outro.

Ainda neste contexto, “Rocky Balboa” aproveita para abordar outro tema interessante, primeiro através de uma metáfora quando Rocky vai comprar um cachorro junto com Steps (James Francis Kelly III) e cada personagem defende seu ponto de vista com alguma dose de razão. O lutador opta pelo cão mais velho e experiente, contrariando o garoto que preferia o mais jovem e cheio de vitalidade. Aliás, até mesmo Steps serve para ilustrar como temos a tendência de julgar pela aparência, já que inicialmente ele parece um marginal, mas na realidade é um bom garoto. O preconceito contra a velhice surge novamente quando jornalistas dizem que Rocky venceria uma improvável luta contra Dixon e muitos respondem que ele é um velho acabado ou ainda quando Marie (Geraldine Hughes) recusa o convite para ser recepcionista do restaurante por entender que sua aparência não seria boa para o negócio dele.

Foto de AdrianRocky compra um cachorro junto com StepsJornalistas dizem que Rocky venceriaFinalmente oferecendo outra grande atuação, Stallone demonstra a falta que sente de Adrian com perfeição na tocante conversa que tem com Paulie (Burt Young) no frigorífico, quando afirma emocionado que é muito difícil conviver com a besta que existe dentro dele, convencendo também na realista discussão entre Rocky e seu filho através da oscilação do tom de voz, do olhar e das marcantes expressões faciais. Sempre com o olhar triste e amargurado, o ator retrata com competência o jeito grosseiro e encantador que o lutador tem de enfrentar a vida, jamais conseguindo esconder seus sentimentos e carregando uma simplicidade desconcertante que fica evidente na brilhante cena em que ele tenta convencer a comissão de que está em condições de voltar a lutar.

Também se destacando na citada discussão entre pai e filho, Milo Ventimiglia transmite muito bem a amargura de Rocky Jr. por ter a sombra da fama do pai sempre por perto. Mostrando-se constrangido por achar que a sombra de Rocky impede que ele evolua por conta própria, o garoto sequer consegue reagir quando os amigos assistem a luta virtual de seu pai num bar, sorrindo sem jeito enquanto todos vibram e falam com ele. Finalmente, vale citar ainda a boa participação de Burt Young, que, vivendo mais uma vez o rabugento Paulie, revela de maneira surpreendente e tocante o arrependimento dele por ter maltratado a irmã Adrian ao longo dos anos.

Besta que existe dentro deleTenta convencer a comissãoDiscussão entre pai e filhoAlém de acertar no ritmo mais lento e coerente com a proposta da narrativa, a montagem de Sean Albertson brinda novamente os fãs com uma sequência que remete a toda à saga, com Rocky correndo pelas ruas, bebendo ovos crus, socando a carne no frigorífico e chegando às escadarias do Museu de Arte da Filadélfia com a empolgante “Gonna Fly Now” tocando ao fundo. Aliás, até mesmo as músicas escolhidas por Bill Conti para a esperada luta casam bem com os personagens, com Rocky entrando no ringue ao som de Frank Sinatra enquanto Dixon escolhe um sucesso de sua época. E já que citei a luta final em que até mesmo Mike Tyson dá as caras, vale destacar a boa forma de Stallone, que colabora para tornar o confronto mais real.

Preparado com cuidado durante toda a narrativa, o grande clímax traz uma brincadeira metalinguística que evoca sentimentos intensos ao trabalhar com a memória afetiva dos fãs do lutador. E é este pequeno detalhe que faz toda a diferença e dá a dimensão da importância daquele momento. Quando o narrador diz que não acredita que vai narrar uma luta de Rocky, muito provavelmente aquele jovem ator também está querendo dizer que jamais pensou que participaria de um filme da saga, assim como boa parte da plateia imaginou que não assistiria Rocky Balboa nos cinemas novamente. Apesar de castigado pelas continuações distantes da qualidade do primeiro filme (“Rocky II – A Revanche é a exceção), um personagem importante da história do cinema está se despedindo; e todos, inclusive o espectador, sabem disso. Daí a carga emocional daquela cena e de todo o filme.

Misturando ficção e realidade, a luta carregada de energia é um dos pontos altos do filme, ainda que seja difícil de acreditar que um homem de 60 anos poderia apresentar aquele desempenho diante de um campeão mundial em plena forma. Mas este é um deslize perdoável e até mesmo compreensível, já que ninguém gostaria de ver Rocky levando uma surra sem tamanho em sua última luta.

Os créditos finais de “Rocky Balboa” trazem a imagem de dezenas de pessoas subindo às escadarias do Museu de Arte da Filadélfia e imitando os gestos de Rocky. Somente este instante já serviria para demonstrar a importância deste personagem na história recente do cinema. Goste dele ou não, é dever do bom cinéfilo respeitar personagens deste calibre.

PS: Comentários divulgados em 17 de Agosto de 2009 e transformados em crítica em 22 de Dezembro de 2012.

Rocky Balboa foto 2Texto atualizado em 22 de Dezembro de 2012 por Roberto Siqueira

O PODEROSO CHEFÃO (1972)

(The Godfather) 

5 Estrelas

 

Obra-Prima 

Videoteca do Beto #9

Vencedores do Oscar #1972

Dirigido por Francis Ford Coppola.

Elenco: Marlon Brando, Al Pacino, Diane Keaton, Robert Duvall, Richard S. Castellano, James Caan, Talia Shire, Sterling Hayden, John Marley, Richard Conte, Al Lettieri, Gianni Russo, John Cazale, Morgana King, Lenny Montana, Abe Vigoda, Tony Giorgio, Victor Rendina, Alex Rocco, Salvatore Corsitto, John Martino, Simonetta Stefanelli e Al Martino. 

Roteiro: Mario Puzo e Francis Ford Coppola, baseado em livro de Mario Puzo. 

Produção: Albert S. Ruddy.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quando a tela escura anunciar “Mario Puzo’s The Godfather” ao som da eterna e maravilhosa trilha sonora de Nino Rota e o personagem Bonasera (Salvatore Corsitto) aparecer na tela dizendo: “Eu acredito na América”, tenha certeza que você está prestes a assistir uma das melhores e mais importantes obras que o cinema já produziu em toda a sua existência. Afirmar algo deste tipo é muito perigoso, já que dificilmente alguém conseguirá ver todos os filmes produzidos desde o inicio da sétima arte. Mas a obra-prima de Francis Ford Coppola é uma proeza técnica e narrativa tão perfeita, além de brilhantemente interpretada, que dificilmente algum filme conseguiu ou conseguirá alcançar o seu nível de excelência ao longo dos anos.

Vito Corleone (Marlon Brando) é o líder da imigrante família italiana que manda e desmanda na cidade de Nova York, através de sua influencia no mundo dos jogos, prostituição entre outras coisas. Através da troca de favores (e de outros métodos mais intimidadores quando necessário), os Corleone conseguem ter ao seu lado todas as pessoas influentes da cidade e, consequentemente, dão as cartas na região. A vida segue tranqüila pra eles até que o gangster Sollozzo (Al Lettieri) oferece aos Corleone uma participação no negócio dos narcóticos em troca de proteção política. Com a recusa de Don Vito, iniciam-se os conflitos entre as famílias e, como conseqüência, inicia-se também a ascensão de Michael Corleone (Al Pacino) de filho protegido e pouco envolvido nos negócios a novo chefe da família mafiosa.

“O Poderoso Chefão” é, acima de tudo, uma proeza narrativa. Criar um roteiro tão complexo, que envolva um número tão grande de personagens importantes e profundamente bem desenvolvidos (basta ver o número de atores que citei no cabeçalho da crítica), amarrando todas as pontas da narrativa ao longo de todo o filme (e muito mais que isso, ao longo de toda trilogia!), é motivo suficiente para considerá-lo uma obra singular na história do cinema. Além destas qualidades, o roteiro conta ainda com inúmeras frases simplesmente geniais e inesquecíveis. Para citar apenas duas delas, temos a famosa fala de Vito Corleone “Vou fazer uma oferta que ele não pode recusar”, repetida depois por Michael ao longo da trilogia, e a fala de Peter Clemenza (Richard S. Castellano, em grande atuação) logo após o assassinato de Paulie (John Martino) no carro: “Leave the gun. Take the cannoli” (no original em inglês), que em português seria “Deixe a arma. Pegue o cannoli”. Esta frase resume perfeitamente a alma dos mafiosos, ou seja, pessoas que não hesitam na hora de matar alguém que atrapalhe o seu caminho, mas que em contrapartida, têm valores familiares muito bem definidos. A comida preparada por sua esposa é tão importante pra ele quanto cumprir a ordem de seu chefe da máfia. Só que, além do maravilhoso roteiro escrito por Mario Puzo e Francis Ford Coppola, o filme ainda conta com um trabalho técnico absolutamente impecável e atuações do mais alto nível, o que faz dele uma obra-prima magnífica e inigualável.

Logo na primeira conversa entre Don Corleone e Bonasera somos introduzidos ao sombrio ambiente da trama. Percebemos que se trata de uma família composta por muitas pessoas que são lideradas por um respeitado senhor conhecido como “Padrinho” e que ouve pacientemente os pedidos de ajuda dos amigos presentes na festa de casamento de sua filha. Sua reação ao pedido do cantor Johnny Fontane (Al Martino, em papel inspirado em Frank Sinatra), gritando e depois beijando o amigo, deixa claro o jeito paternal que ele tem de comandar o grupo. Fica claro também o código de ética do mafioso quando este se irrita com um amigo que só lembra dele para pedir favores. Em outro determinado momento, ele se recusa a tirar uma foto da família sem a presença de seu filho Michael, o que evidencia a importância que aquele filho em especial tem pra ele. Todo este bem trabalhado primeiro ato apresenta cuidadosamente os personagens e servirá de base para o complexo desenrolar da trama, que é extremamente bem conduzida por Coppola. A direção de Copolla, aliás, é perfeita. Observe como suas escolhas de enquadramentos e movimentos de câmera sempre podem significar algo a mais do que simplesmente o que vemos na tela. Um exemplo disso é o momento em que Michael decide se envolver nos negócios da família e cita o plano que tem em mente para se vingar de Sollozzo e do capitão McCluskey (Sterling Hayden). A câmera lentamente se aproxima dele, agigantando-o na tela e demonstrando visualmente o nascimento simbólico do sucessor de Vito Corleone. Neste momento crucial da narrativa, Michael está deixando de ser um personagem secundário para ser o personagem principal da saga e o movimento de câmera traduz isso perfeitamente. O diretor é preciso na criação de planos criativos, como por exemplo na cena da morte de Carlo, captada pela frente do carro e que transmite uma sensação de agonia ainda maior ao espectador que vê os pés da vítima se debatendo no vidro. Coppola também é absolutamente competente na criação de cenas fortes e inesquecíveis. O filme tem uma coleção inigualável de grandes cenas, como o chocante recado dado ao produtor de cinema, a tensa seqüência na porta do hospital e o tocante momento de carinho que Vito e Michael tem dentro dele, o diálogo reflexivo entre os mesmos Vito e Michael na casa deles, a impressionante armadilha contra Sonny (James Caan), a surra de Sonny em Carlo (Gianni Russo) no meio da rua, o bem orquestrado e maravilhoso final da trama ocorrido durante o batizado e que resolve todos os problemas de Michael de uma vez só, e aquela que pra mim talvez seja a melhor cena do longa, o jantar entre Michael, Sollozzo e o Capitão McCluskey em um restaurante.

Coppola também foi extremamente feliz na escolha do elenco perfeito para o filme (e olha que ele teve que enfrentar a resistência dos chefões da Paramount a nomes como Brando e Pacino). As atuações são um show à parte. A começar pela lendária performance de Marlon Brando como o icônico Don Vito Corleone. A perfeição de seu trabalho é tão grande que dispensa qualquer comentário a respeito. Brando consegue criar, antes dos 50 anos de idade e no mesmo ano em que viveu um viril amante em “O Último Tango em Paris”, um perfeito e realista senhor de idade já no fim da vida, através das bochechas inchadas com algodão, do olhar cansado, da sobrancelha cerrada e da voz rouca. Praticamente todas as suas participações em cena são perfeitas e fica até difícil destacar alguma. Em todo caso, repare como sua demonstração de insatisfação é sutil e precisa na cena em que seus filhos contam que Michael assassinou uma pessoa. Vito sabia que aquela notícia alteraria todo o futuro de seu filho. Ele fecha os olhos, acena negativamente com a cabeça, vira o rosto e faz um gesto com a mão para que eles se retirem, sendo prontamente atendido, o que também ilustra o respeito que Don Vito conquistou. Quando Tom Hagen (Robert Duvall, muito bem como o fiel conselheiro e filho adotivo de Vito) lhe dá uma trágica notícia, seu choro contido e seu pedido com a voz embargada pelo fim da guerra transmitem uma emoção inigualável, de uma forma que só um ator do seu gabarito conseguiria fazer. Comovente também é o momento em que ele diz a tocante frase: “Veja como massacraram meu garoto” com a sobrancelha e o semblante refletindo toda sua imensa tristeza. Toda cena em que Brando participa é perfeita, criando um personagem absolutamente inesquecível e inigualável. O outro grande destaque da obra é Al Pacino. Seu Michael, inicialmente alguém que não quer envolver-se nos negócios da família (até por vontade do pai), é um personagem que passa por uma incrível e maravilhosa mudança gradual durante toda a narrativa, e o ator retrata muito bem todo este arco dramático. O diálogo inicial entre Michael e Kay (Diane Keaton, em outra excelente atuação, que aqui, por exemplo, demonstra com sutileza seu espanto com os métodos da família Corleone, ficando boquiaberta e sem palavras, com os olhos arregalados) é o contraponto ideal para a emblemática cena final do longa, mostrando o quão irônica aquela conversa entre os dois se tornou. O tímido e quieto Michael do diálogo inicial com Kay, com cabelo pro lado e tom de voz baixo, se torna uma pessoa extremamente autoconfiante e respeitada ao longo do filme, passando a utilizar um cabelo mais engomado e uma voz muito mais firme. A postura de Michael quando faz a oferta de compra do cassino de Moe (Alex Rocco) é um claro sinal de seu novo estilo, muito mais agressivo. Nesta mesma cena, seu irmão Fredo (John Cazale) defende Moe e Michael fala para Fredo nunca mais se posicionar contra a família (o que refletirá na trama do segundo filme, reforçando a genialidade do roteiro). Pacino demonstra toda a energia de Michael, por exemplo, na brilhante cena do jantar no restaurante. Observe como ele, ao voltar do banheiro com a arma, fixa os olhos em um ponto demonstrando que não está mais preocupado em escutar o que dizem os outros dois personagens presentes. Sua preocupação agora é agir na hora certa, e sua ação eminente se torna palpável, o que torna a cena extremamente verossímil. Ao partir para o ataque sem pestanejar, sua transformação está consumada. Ele é competente também nos momentos de sutileza, como na magnífica conversa que tem com Vito na casa deles. Este diálogo, aliás, mostra de forma muito clara o enorme talento dos dois atores. Observe como Vito pergunta do neto, dá um sorriso de satisfação com a resposta, pede algo que já havia pedido antes e depois percebe que esqueceu, chegando à conclusão de que está ficando velho. Michael escuta atentamente os conselhos do pai, sorri e olha pra baixo quando fala de seu filho e toca carinhosamente seu velho quando pergunta o que está lhe incomodando. Pacino é extremamente competente na árdua tarefa de contracenar com um monstro sagrado como Marlon Brando, o que torna ainda melhor esta bela cena. James Caan interpreta muito bem o explosivo Santino Corleone (apelidado de Sonny), dando claros sinais de que não tem o equilíbrio psicológico e o jogo político necessários para ser o sucessor de Don Vito, através de suas reações extremas e seus impulsos vingativos e violentos. Porém, apesar de toda esta agressividade, o gangster tem um código de ética peculiar, assim como toda sua família, como podemos testemunhar na cena em que ele quebra a máquina fotográfica de um paparazzi e joga dinheiro no chão, como quem diz: “Compre outra pra você, mas pare de encher o meu saco”. Destacar cada integrante do elenco é até desnecessário. Basta dizer que nenhuma atuação pode ser considerada de baixo nível. Durante um simples jantar em família, por exemplo, Coppola e seu fantástico elenco evidenciam uma série de problemas de relacionamentos. Connie, interpretada com competência (e um exagero perfeitamente aceitável devido ao enorme sofrimento da personagem) por Talia Shire, mostra que não se dá bem com seu violento marido Carlo (Gianni Russo, muito bem na cena da briga com Connie e no diálogo final com Michael). Sonny deixa claro que odeia o modo como Carlo trata sua irmã e Mama Corleone (Morgana King) mostra sutilmente que não gosta da interferência dos irmãos no casamento de sua filha. Tudo isso em poucos segundos e sem diálogos expositivos, genial.

Como se a excepcional direção de Coppola e o elenco maravilhoso não fossem suficientes, “O Poderoso Chefão” conta ainda com um trabalho técnico espetacular. A começar pela famosa direção de fotografia de Gordon Willis (apelidado por causa deste filme de “O Príncipe das Sombras”). Seu estilo se tornou padrão para os filmes do gênero, que passaram a utilizar o forte contraste luz e sombra como regra desde então. Desde a primeira cena, podemos notar constantemente os personagens, e até mesmo os ambientes, mergulhados nas sombras criadas brilhantemente por Willis. Observe como parte do rosto deles está encoberto na cena inicial dentro da sala de Vito, na conversa entre Michael e Carlo a respeito do assassinato de Sonny ou quando Tom Hagen conta para Vito que seu filho está morto. E estes são apenas alguns exemplos dentre vários que podemos citar. Willis também consegue alternar dos momentos sombrios para os momentos alegres com perfeição. Observe atentamente como a fotografia é mais colorida na cena do casamento, demonstrando toda a alegria daquela festa. Só que mesmo este colorido é opaco, já que ele nunca utiliza cores extravagantes demais, o que dá um ar documental a esta cena. Nesta mesma cena, a fotografia, em conjunto com os figurinos, destaca visualmente o personagem Michael, o único homem presente que não está vestido com o tradicional terno e gravata. Ele é diferente e o visual ilustra isso. Os figurinos criados por Anna Johnstone, aliás, são absolutamente marcantes. Vestidos com ternos, gravatas, chapeis e sobretudos, os gângsteres de “O Poderoso Chefão” influenciaram o visual da grande maioria dos filmes do gênero que vieram depois. Marcante também é o incrível trabalho de Direção de Arte de Warren Clymer, que cria uma Nova York dos anos 40 rica em detalhes, como a fachada das casas e bares e os modelos dos automóveis da época. O trabalho de maquiagem também merece destaque, principalmente pelo já citado envelhecimento de Marlon Brando. A engenhosa montagem (resultado do trabalho de Marc Laub, Barbara Marks, William Reynolds, Murray Solomon e Peter Zinner) consegue manter igualmente atraentes todas as tramas da narrativa e ainda nos brinda com um final extraordinário, resolvendo todos os conflitos através de ações paralelas e simultâneas, previamente planejadas por Michael. A perfeita montagem é crucial para o excelente resultado desta seqüência final. Além disso, apesar da narrativa cobrir vários anos da família Corleone, a passagem do tempo jamais soa episódica. Perceba como em determinado momento Kay pergunta para Michael há quanto tempo ele está de volta e ele responde: “Há um ano”. Minutos antes, Vito alertava para o possível retorno de seu filho na reunião dos chefes de família. Para finalizar, merece destaque o incrível realismo alcançado nas cenas violentas, como os tiros disparados contra Solozzo e McCluskey e o assassinato de Sonny.

“O Poderoso Chefão” conta ainda com um turbilhão de emoções, sempre utilizadas na dose certa. Temos momentos comoventes, como a tocante cena em que Vito sorri ao receber o carinho de Michael no hospital. Um romance entre Michael e a belíssima italiana Apollonia (vivida com muito charme por Simonetta Stefanelli) que, mesmo terminando de forma trágica, serve como um pequeno alívio para a trama carregada. A ação fica por conta das cenas extremamente violentas e realistas. E finalmente, o filme apresenta até uma dose de humor negro, como a cena em que Michael está prestes a ligar para Luca Brasi (Lenny Montana). No momento em que ele pega o telefone chegam dois peixes mortos numa caixa, simbolizando que Luca está morto. Michael coloca o telefone no ganho em seguida.

Extremamente competente em todos os setores, “O Poderoso Chefão” é talvez o filme que mais tenha se aproximado da perfeição. Mostrando da maneira mais realista possível o submundo de Nova York dominado pela máfia italiana, o filme acompanha brilhantemente a ascensão de Michael Corleone e o efeito que ela provocou em sua família. Reforçado ainda por atuações brilhantes, uma direção impecável, um trabalho técnico magnífico e um roteiro incrivelmente complexo e coerente, o primeiro filme da maravilhosa trilogia não pode ser reconhecido de outra forma que não uma perfeita e completa obra-prima da história do cinema. Espero que o cinema ainda seja capaz de produzir obras desta magnitude, mas isto é reconhecidamente algo difícil de voltar a acontecer. De qualquer forma, somente o fato de saber que um dia ele já foi capaz de produzi-lo é motivo suficiente para nos apaixonarmos por esta maravilhosa arte eternamente.

Texto publicado em 10 de Agosto de 2009 por Roberto Siqueira

PSICOSE (1960)

(Psycho)

5 Estrelas 

Obra-Prima

 

Filmes em Geral #4

Videoteca do Beto #23 (Adquirido quando a Videoteca estava no filme #22; crítica já havia sido publicada na categoria “Filmes em Geral”).

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Anthony Perkins, Janet Leigh, Martin Balsam, John Gavin, Vera Miles, Simon Oakland, Vaughn Taylor e John McIntire. 

Roteiro: Joseph Stefano, baseado em livro de Robert Bloch. 

Produção: Alfred Hitchcock. 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quando o extremamente talentoso diretor Alfred Hitchcock resolveu filmar o livro Psicose de Roberto Bloch, ele sabia exatamente o que queria: chocar a platéia. E o resultado final não poderia ter sido melhor. Ao terminar de assistir pela primeira vez este clássico do mestre do suspense, fiquei imaginando como teria sido a reação das pessoas na época de seu lançamento, há quase 50 anos atrás. Porque se em pleno ano de 2009 eu tive nada menos do que três choques de arrebentar com a espinha de qualquer um, imagina o que sentiram as pessoas que presenciaram esta maravilha do cinema na tela grande?

É praticamente impossível fazer uma crítica de Psicose sem escrever sobre trechos essenciais da narrativa. Por esta razão, peço educadamente que só leiam esta crítica se já tiverem assistido ao filme. Caso ainda não tenha visto o filme, sugiro parar a leitura por aqui e voltar somente depois de vê-lo. Ver o filme sem saber o que acontece é essencial para viver uma experiência inesquecível.

Marion Crane (Janet Leigh) é apaixonada por Sam Loomis (John Gavin), um homem que, apesar de muito trabalhador, não tem boas condições financeiras. Apesar de hesitar, ela não perde a chance de roubar 40 mil dólares de um velho rico quando esta se oferece, e foge de carro para a cidade de seu amor. Devido a uma forte chuva no caminho, ela decide parar em um Hotel para descansar. É onde conhece Norman Bates, um jovem simpático que parece ter sérios problemas com sua velha mãe. 

A narrativa de Psicose inicia focando o relacionamento amoroso de Marion e Sam, um casal apaixonado e que aparentemente enfrenta problemas para poder viver seu romance. Ele é separado e sofre com os problemas financeiros causados pela pensão. Ela sonha em casar-se, mas sabe que não poderá viver somente de amor, e precisa ajudar Sam a conquistar sua liberdade financeira. É quando a vida oferece uma chance para Marion. Mesmo sendo uma atitude perigosa e totalmente fora dos padrões morais e éticos, ela resolve arriscar e rouba 40 mil dólares que lhe foram confiados para um deposito. No caminho da fuga, ela despista um policial desconfiado e termina sua trajetória em um Hotel escondido na beira da estrada. E termina mesmo! Aqui está um dos primeiros choques que Psicose causa no espectador. Até a primeira metade da narrativa, somos levados a acreditar que a história que será contada é sobre Marion. Só que antes de uma hora de filme ela é brutalmente assassinada, naquela que se tornaria uma das cenas mais famosas do cinema, o assassinato na banheira com a trilha sonora arrepiante de Bernard Herrmann. Auxiliado pelo ótimo roteiro de Joseph Stefano, Hitchcock quebra o eixo da narrativa com brilhantismo, chocando o espectador. Uma confusão se estabelece em nossas mentes neste momento. Qual seria o rumo da história agora? A estrutura convencional dos filmes é quebrada, alterando todo o foco da narrativa. A brilhante fotografia de John L. Russel ajuda a criar um truque essencial para o suspense da trama. Observe como na famosa cena o jogo de luz e sombras esconde os traços principais do rosto da senhora Bates e a revelação de seu rosto só acontece no último ato. Desta forma, temos a dica, mas não a solução para o caso. A excelente montagem de George Tomasini também é essencial na construção do suspense. A rápida troca de imagens aumenta ainda mais o impacto da cena na banheira. Seu talento também pode ser observado na cena final, que sincroniza perfeitamente as diversas ações paralelas que culminam na monumental cena em que a identidade da assassina é revelada. Outros dois momentos são essenciais para que o espectador não descubra a solução da trama antes da hora. O primeiro deles é quando o detetive Arbogast vê a senhora Bates na janela da casa e em seguida é abordado por Norman Bates na frente do Hotel. O segundo acontece quando o xerife Chambers (John McIntire) conta para Sam e Lila (Vera Miles) que a Sra. Bates morreu há dez anos. No plano seguinte, podemos ver a porta do quarto da Sra. Bates e ouvir ela e Norman dialogando. Em seguida, vemos Norman carregando sua mãe para o porão. Apesar de jamais mostrar o rosto dela, Hicthcock praticamente anula em nossas mentes a possibilidade de Norman e sua mãe serem a mesma pessoa. O diretor cria ainda seqüências visualmente interessantes, como o corte seco do plano do ralo para o plano do olho de Marion morta. Através de um travelling, ele sai do olho da moça, passa pelo dinheiro na cômoda e termina a cena com um plano distante da casa. Este movimento não é feito à toa. O diretor quer mostrar todo o cenário do crime, para nos ambientar e relembrar tudo que está envolvido naquele assassinato.

O elenco de Psicose colabora muito para o sucesso do longa. O grande destaque fica para Anthony Perkins, que cria um Norman Bates simpático inicialmente e enigmático no final do filme. Seu olhar para baixo, as mãos cruzadas e seu gaguejar ao falar, além do sorriso contido quando conversa com Marion, demonstram a aparente timidez do rapaz e nos causa simpatia pelo personagem. É perfeitamente aceitável que um rapaz isolado do mundo fique extremamente ansioso ao se deparar com uma jovem bonita como Marion. Sentimos pena dele ao ser maltratado pela mãe e entendemos ser um rapaz muito bom quando ele oferece comida para a moça. Sua transformação ao longo da trama é gradual, mas ele nos dá dicas do que poderá acontecer. Sua reação nervosa diante da insinuação de Marion sobre uma possível internação de sua mãe e a forma com que ele responde as perguntas do detetive Arbogast (Martin Balsam) são indícios da personalidade do rapaz. É claro que são dicas praticamente imperceptíveis em um primeiro momento, já que Hitchcock jamais entregaria o segredo da trama assim de bandeja. Quando a revelação final é feita, o espanto é tão grande que o espectador se sente traído (no bom sentido é claro, já que o roteiro propositalmente nos leva a isso), já que todos os bons sentimentos que pensava ter em relação a Norman são atirados de volta contra ele. Janet Leigh também está muito bem. Observe como ela demonstra toda ambigüidade de Marion na cena do roubo, quando hesita em pegar o dinheiro por diversas vezes enquanto arruma a mala. Ela olha para o dinheiro, respira fundo, coloca roupas na mala, olha novamente, pensa mais um pouco, até que finalmente decide colocar o dinheiro na bolsa. O Sam Loomis de John Gavin é um homem sério, honesto e muito determinado. Sua reação quando o detetive pergunta se Marion está com ele e lhe conta que ela roubou o dinheiro ilustra muito bem a seriedade do personagem. Martin Balsam demonstra firmeza e determinação na busca do que aconteceu no papel do detetive Arbogast. Também se mostra alguém desconfiado nos diálogos que tem com Sam e Lila, e posteriormente com Norman, como é de se esperar na profissão dele. Podemos destacar ainda Vera Miles como Lila Crane, a determinada irmã de Marion, e Simon Oakland, como o didático (mas essencial na época) doutor Fred Richmond.

Como se o primeiro grande choque ocorrido na morte de Marion não fosse suficiente, Psicose conta ainda com mais dois momentos espetaculares que podem servir tranquilamente como inspiração para qualquer filme do gênero (e com certeza serviram ao longo dos anos). O segundo assassinato, ocorrido dentro da casa dos Bates, é um exemplo de como dirigir com perfeição uma cena de suspense. Observe como Hitchcock nos ambienta na casa primeiramente e depois nos leva lentamente através dos passos do detetive pelas escadas, aumentando a tensão nos espectadores. O silencio é a chave para o clima quase palpável de suspense. Quando ele se aproxima do quarto, a câmera muda de posição, filmando por cima e simultaneamente a escada, o detetive e a porta entreaberta do quarto da Sra. Bates. Testemunhamos em poucos segundos a porta se abrir, o reflexo da luz do quarto invadir o corredor e a assassina sair como um raio de dentro do quarto para esfaquear a vítima, ao som da trilha sonora aterrorizante. O choque é inevitável e inesquecível.

A trama caminha com consistência para o terceiro ato, onde o último choque encerrará com perfeição a obra-prima do mestre Hitchcock. As investigações levam a dupla Sam e Lila para o Hotel de Norman, onde supostamente Marion e Arbogast teriam sumido. O espectador sabe que a razão dos assassinatos não era o dinheiro, mas eles não sabem. Ao se apresentarem como um casal e hospedar-se no Hotel, a trama cria a situação ideal para o final mais que perfeito. Somos levados a imaginar que os dois vão ser as últimas vitimas da velha maluca. Até que Lila invade a casa sozinha para tentar falar com a mãe de Norman e, ameaçada pela chegada do rapaz, se esconde na escada que leva aos porões. Ela decide entrar e é exatamente ali que será revelada a grande surpresa da trama e o verdadeiro significado do nome do filme (e do livro) em uma cena absolutamente genial. O conjunto de fatos que levam à cena antológica nos causa um choque atordoante no momento em que descobrimos a verdadeira identidade da assassina. A didática explicação sobre a dupla personalidade de Norman que precede o genial encerramento do filme com ele vestido na camisa de força, era mais do que necessária na época para que as pessoas entendessem a personalidade perturbada do personagem. Talvez hoje não fosse necessária, mas retirar esta cena não tornaria de forma alguma o filme melhor.

Psicose é o cinema em seu estado puro. É a manipulação das emoções da platéia feita com competência e genialidade. É a prova real de que para ser assustador, um filme não precisa necessariamente de acordes altíssimos ou monstros aparecendo repentinamente na tela. É claro que a trilha tem participação importante no longa, mas o que nos causa medo (e não susto) é a situação em que os personagens estão envolvidos. E isto é resultado do trabalho de uma equipe competente, de atores capacitados e de um diretor genial. Não é preciso mais nada.

Texto publicado em 29 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira

LARANJA MECÂNICA (1971)

(A Clockwork Orange) 

5 Estrelas

 

Obra-Prima

 

Videoteca do Beto #8

Dirigido por Stanley Kubrick.

Elenco: Malcolm McDowell, Patrick Magee, Michael Bates, Anthony Sharp, Warren Clarke, Carl Duering, Adrienne Corri, Paul Farrell, Clive Francis, Michael Glover, James Marcus, Godfrey Quigley e Aubrey Morris. 

Roteiro: Stanley Kubrick, baseado em livro de Anthony Burgess. 

Produção: Stanley Kubrick.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quando terminei de assistir mais este grande filme de Stanley Kubrick, a única palavra que me veio à cabeça foi “gênio”. Incrivelmente atual e polêmico, com imagens que dificilmente sairão de minha memória e uma empolgante jovialidade na tela, Laranja Mecânica se estabelece desde já como uma das mais agradáveis experiências que tive ao ver um filme, tornando-se uma referência obrigatória para mim de agora em diante. Extremamente visual, com muitas cenas violentas e diversas imagens que fazem referencia ao sexo, tornou-se polêmico antes mesmo de seu lançamento, sendo liberado no Brasil somente muitos anos depois de sua estréia, e mesmo assim, com tarjas pretas nos órgãos sexuais que aparecem durante o filme. Cito este fato somente para comentar como é engraçado e intrigante pensar que muita gente se incomoda muito mais com o sexo do que com a violência, o que é certamente motivo para reflexão.

Em um futuro indefinido, sombrio e incrivelmente parecido com os dias de hoje, Alex (Malcolm McDowell) é o líder de uma gangue de delinqüentes baderneiros que cometem diversos crimes noturnos pelas ruas. Ao ser pego pela polícia em uma noite de insucesso, ele passa a servir de experimento para uma nova técnica de tratamento de criminosos, antes de retornar para a sociedade.

O primeiro ato de Laranja Mecânica é muito próximo da perfeição. O fascinante ambiente futurista e decadente criado por Kubrick e sua equipe e a extrema segurança com que ele conduz a narrativa exerce uma inevitável atração em quem assiste. As cenas viscerais e extremamente violentas criam um impacto tão grande no espectador que no restante do filme somos praticamente levados pelo magnetismo do que vimos até então. Kubrick se mantém fiel ao seu estilo, com planos e enquadramentos criativos, como o caminhar em câmera lenta dos quatro drugues à beira da água (que claramente influenciou o inicio do filme Cães de Aluguel, de Tarantino). Observe como ele mantém a câmera fixa em determinados lugares mostrando as pessoas distantes na tela, num plano característico de seus filmes. Progressivamente elas vão se aproximando e crescendo, como no inicio da cena da revista das celas, que se passa no corredor. Ele também cria uma coleção de cenas memoráveis, como os quatro ataques da turma de Alex antes de sua prisão, o encontro na loja de discos (aqui Kubrick faz uma auto-referencia com a capa do disco 2001) e sua divertida seqüência embalada pela ótima trilha e finalmente, a tensa e maravilhosa cena que Alex hesita em tomar uma taça de vinho. Além disso, o filme tem muitos momentos de humor negro, como a divertida cena em que o protagonista e uma enfermeira estão gemendo e a forma diferente que ele encontra para ler a Bíblia.

Malcolm McDowell oferece a atuação de sua vida no papel do violento e carismático Alex. Com os olhos sempre arregalados e uma energia contagiante, ele cria uma empatia estranha no espectador que, mesmo discordando da maioria de suas atitudes, acaba sempre torcendo para que ele de alguma forma tenha sucesso. Fã incondicional da nona sinfonia de Bethoween (a quem chama de Ludwig van), ele é alguém cerebral na mesma proporção em que é infernal. Explosivo e visceral, encontra na violência a sua razão de viver, e seu prazer no que faz é impressionante. O ator transmite com extrema habilidade a personalidade doentia de Alex. Observe como ele se mantém sempre em movimento, demonstrando que é uma pessoa inquieta e que jamais para de pensar no que vai fazer. Quando fixa seu olhar, transmite uma sensação de hipnose, de poder absoluto, resultado obtido através da técnica do ator que mantém os olhos arregalados e sem piscar. Ele também capricha nos pequenos detalhes. Na prisão, o guarda exige que ele decore seu numero de inscrição, e ele olha pra cima como quem tenta decorar o que ouve. Ao ouvir a resposta do ministro quando o padre diz que um ser humano tem que poder escolher o que faz, sua reação de satisfação é perfeita, com um sorriso sarcástico no rosto. E o mais impressionante de tudo é a já citada empatia que ele consegue criar no espectador, mesmo sendo uma pessoa desprezível do ponto de visa ético e social. Isto tudo se deve ao talento absurdo de McDowell na criação de um personagem magnético e inesquecível, além da inteligência de Kubrick ao misturar momentos de violência com coisas que normalmente nos agradam, como músicas clássicas, quadros belíssimos e a arquitetura maravilhosa do velho cassino. No restante do elenco, podemos destacar as atuações de Patrick Magee como o velho escritor Frank Alexander (observe seu rosto repleto de raiva no jantar que tem com Alex e mais três pessoas) e Anthony Sharp como o Ministro do Interior, exalando cinismo nos momentos finais do filme, quando seu diálogo com Alex expõe todo o jogo político envolvido no tratamento. Michael Bates, apesar de caricato, está engraçado como o exagerado chefe Barnes, gritando para tentar impor respeito junto aos delinqüentes.

O próprio Kubrick escreveu o roteiro, adaptado do livro homônimo de Anthony Burgess. Os diálogos são sempre atraentes, utilizando inclusive a linguagem criada no livro, uma mistura de inglês e russo que só Alex e seus amigos entendem. A narrativa se divide claramente em três partes que se concentram no tema da violência, que é (na visão do diretor) algo intrínseco ao ser humano e que se espalha na sociedade de diversas formas. Na primeira, vemos a violência social através dos delinqüentes que agem sem motivos, só por diversão. Na segunda, a violência organizada sob a máscara do governo e da policia. E na terceira, a violência reativa daquelas pessoas que sofreram com os ataques de Alex. É como se Kubrick quisesse dizer que a violência é algo que temos que conviver de qualquer forma, algo inevitável. O ritmo sempre interessante da narrativa é mérito também da excelente montagem de Bill Butler, responsável por seqüências alucinantes que grudam nossas retinas na tela, como os ataques dos delinqüentes e o curioso método de tratamento de Alex.

A fotografia de John Alcott propositalmente mistura cores vivas, já que vemos o mundo filtrado através dos olhos do narrador. Observe como as cores da sala de sua casa são divididas entre o vermelho e o azul e como os ambientes que ele freqüenta sempre têm cores fortes em destaque. Por outro lado, quando se isola do mundo ou está ao lado de seus drugues a fotografia destaca a cor branca, já que neste momento Alex está em paz de espírito. As roupas brancas dos delinqüentes revelam também o excelente trabalho de figurino, que busca harmonia visual com a direção de fotografia. Seu disco favorito tem a capa branca e seu quarto é predominantemente branco, incluindo o curioso quadro da moça nua que revela também o cuidadoso e competente trabalho de Direção de Arte. Estes pequenos detalhes, como as pichações na entrada de sua casa e a cobra que ele cria em seu quarto, ajudam a demonstrar a personalidade perturbada de Alex. Finalmente, a excepcional trilha sonora recheada de músicas clássicas dá um tom de fábula ao filme, nos colocando em dúvida sobre a seriedade dos atos que vemos em cena. Kubrick nos obriga a associar músicas que normalmente gostamos a atitudes que normalmente repudiamos, como na excelente cena em que Alex canta “Singing in the Rain” (em outro momento de estupenda atuação de McDowell).

Laranja Mecânica é agressivo e visionário. Antevê diversos problemas sociais e até grupos que surgiriam anos depois do filme, como o movimento punk. Existe também uma sutil crítica ao autoritarismo, quando Alex tenta ler o que está assinando e o guarda da prisão grita pra ele assinar sem ler. Alex demonstra que, apesar de delinqüente, é alguém que pensa, ao contrario do guarda que só cumpre ordens sem questioná-las. Fica evidente também que um delinqüente não é necessariamente alguém sem cultura ou sem condições de ser alguém na vida, o que só agrava o problema, já que dificulta ainda mais a tarefa de mapear a causa da agressividade do jovem. O confronto de métodos fica evidente quando Alex é transferido para se submeter ao novo tratamento. É intencional, Kubrick quer chocar. Por outro lado, a cena final deixa claro que não importa o método utilizado, a pessoa perturbada sempre vai ver as coisas com seu próprio olhar. Em resumo, o que o genial diretor claramente pretende é escancarar uma discussão sobre a violência. O espectador é obrigado a pensar em diversos temas controversos. De onde se origina toda esta violência? Seria a violência das ruas diferente da violência organizada que os órgãos públicos exercem? Não seria a violência algo intrínseco do ser humano, que é um animal? Qual a sensação que sentimos ao ver Alex sendo atacado pelas pessoas que ele agrediu anteriormente? Confesso que, apesar de não concordar com suas atitudes, fiquei mais incomodado quando Alex foi agredido do que quando ele agrediu um grupo de estupradores, por exemplo, exatamente porque ele não tinha como se defender. Já a cena em que ele Alex comete um estupro me causou um grande incomodo, estranhamente aliviado pela canção alegre que ele cantava. Mas por que quando ele atacou um bêbado na rua eu achei graça? Kubrick me fez pensar em como devo olhar para a violência e para mim mesmo. Será que eu não sou tão bom quanto eu imaginava? Independente das respostas, a satisfação pelo questionamento gerado é suficiente para me agradar. É maravilhoso ser incomodado por um filme e ser obrigado a questionar valores desta forma.

Com uma atuação magnética e uma energia capaz de causar inveja a qualquer diretor de filmes de ação, Laranja Mecânica é o filme ideal para quem procura entretenimento inteligente e de qualidade. Abordando de forma audaciosa um tema extremamente complicado e controverso, Kubrick consegue criar um filme antológico, com imagens muito fortes e que dificilmente serão esquecidas. Recheado de humor negro e de seqüências inesquecíveis, propõe uma discussão muito interessante sobre a violência e leva a uma importante auto-reflexão da sociedade como um todo. O resultado final de tudo isto é uma obra-prima incrivelmente polêmica e proporcionalmente genial.

PS: Só espero que nenhum maluco justifique seus atos de violência por influencia deste filme, como era costume na época de seu lançamento. Como é um filme dos anos setenta acho difícil isto acontecer hoje em dia, mas nunca é demais ter cuidado. Vale lembrar que filmes recentes sofreram injustamente com este tipo de acusação, casos de “Clube da Luta” e “Assassinos por Natureza”.

Texto publicado em 22 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira