WYATT EARP (1994)

(Wyatt Earp)

 

Videoteca do Beto #109

Dirigido por Lawrence Kasdan.

Elenco: Kevin Costner, Dennis Quaid, Gene Hackman, Michael Madsen, Bill Pullman, Isabella Rossellini, Tom Sizemore, James Caviezel, Téa Leoni, David Andrews, Linden Ashby, Jeff Fahey, Joanna Going, Catherine O’Hara, JoBeth Williams, Mare Winningham, James Gammon, Rex Linn, Randle Mell, Adam Baldwin, Annabella Gish, Lewis Smith, Betty Buckley, Alison Elliott, Karen Grassle, John Dennis Johnston e Ian Boehn.

Roteiro: Dan Gordon e Lawrence Kasdan.

Produção: Kevin Costner, Jim Wilson e Lawrence Kasdan.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Nos primeiros minutos de “Wyatt Earp”, vemos o personagem título sentado num bar, tomando seu café e fumando um charuto, minutos antes de ser interrompido por outros dois homens. Ao ser informado da presença de um grupo de inimigos, ele se levanta e diz: “Vamos!”. Qualquer um que conheça um pouco da história deste famoso xerife do velho oeste sabe que este momento precede o histórico tiroteio de O.K. Curral. O problema do longa dirigido por Lawrence Kasdan está justamente em não saber terminar a narrativa quando ela voltar a este ponto, após um longo flashback que narra a caminhada do protagonista até este momento decisivo. Sendo assim, “Wyatt Earp” é um filme longo, que parece longo, o que é um problema.

O jovem Wyatt Earp (Kevin Costner) vaga pelo oeste até se estabelecer como xerife em pequenas cidades, fazendo fama pela forma nada amigável que mantém a ordem local. Após conhecer Doc Holliday (Dennis Quaid) e trazer seus irmãos Virgil (Michael Madsen) e Morgan (Linden Ashby) para trabalhar com ele, Wyatt se vê num perigoso conflito com um grupo de criminosos, que resulta no trágico tiroteio no O.K. Curral, que selou o destino de todos pra sempre.

Muitos filmes marcantes da história do cinema têm três ou mais horas de duração. A duração, em si, não é um problema. O problema é quando um filme se estende até as três horas sem necessidade e, principalmente, conteúdo para tanto. A história do xerife “Wyatt Earp” até pode render bons e longos filmes, mas neste caso, a narrativa se esvazia bastante após o conflito central da trama e o diretor, em parceria com o montador Carol Littleton, parece não saber em que momento deve encerrar o filme. Sendo assim, nem mesmo a vingança de Wyatt após a morte do irmão Morgan consegue prender a atenção do espectador – algo que o diretor parece saber, pois sequer mostra a vingança completa do protagonista, indicando que ele continuou sua retaliação pessoal no texto que fecha a narrativa. Sendo assim, o longa soa cansativo em seu ato final, num erro fatal cometido pelo diretor e pelo montador, que não souberam enxugar o roteiro escrito pelo próprio Kasdan, em parceria com Dan Gordon, e extrair o que ele tem de melhor. E de fato existem muitas coisas boas na história, especialmente quando olhamos sob o aspecto psicológico de um personagem claramente transformado por uma tragédia pessoal.

“Wyatt Earp” tem todos os elementos clássicos do western, como a ferrovia em construção, os cavalos cavalgando pelo terreno árido, o saloon com homens jogando cartas e prostitutas procurando fregueses, figuras tradicionais como o xerife e os bandidos e, obviamente, os duelos armados. E todos estes elementos surgem com muito realismo, graças aos figurinos de Colleen Atwood, que seguem o modelo clássico, com chapéus e botas para os homens e vestidos imponentes para as mulheres, e ao bom trabalho de direção de arte de Gary Wissner, notável na arquitetura das cidades, assim como nas carroças e até mesmo nos trens de ferro, ambientando o espectador perfeitamente ao velho oeste. Também colabora o ótimo design de som, com os tiros, o galope dos cavalos e até mesmo o sopro do vento tornando tudo mais real. Tecnicamente, a única nota literalmente fora do tom é a repetitiva trilha sonora de James Newton Howard, que, apesar do tom solene, soa desnecessária em muitos momentos.

Contando ainda com a bela direção de fotografia de Owen Roizman, Kasdan entrega uma direção plasticamente perfeita, enquadrando com incrível beleza as paisagens naturais e conferindo um aspecto clássico ao longa – repare, por exemplo, o lindo visual durante a viagem da família Earp, com as carroças cruzando as planícies com o pôr-do-sol ao fundo. Além disso, a fotografia emprega uma admirável iluminação nas cenas noturnas, com exceção das primeiras seqüências na fazenda dos Earp, iluminadas apenas com a luz da lua (o que é correto nesta situação, pois era a realidade local). Só que, infelizmente, Kasdan erra a mão na condução da narrativa, estendendo demais algumas cenas, como a seqüência em que Wyatt saca a arma rapidamente e expulsa um homem de um bar, seguida por seu trabalho de vendedor de pele de búfalos, que é totalmente dispensável. Além disso, Kasdan e Littleton erram também ao indicar grandes saltos na narrativa através de letreiros, o que soa deselegante e torna tudo mais episódico.

Após atingir um homem com uma bola de sinuca num bar, Wyatt faz um discurso típico do herói íntegro e ético tradicional de Hollywood, algo confirmado quando ele recusa uma prostituta e volta à cidade de infância para se casar com Urilla (Annabella Gish). Aliás, a relação com Urilla exemplifica um dos bons momentos de Kasdan e seu montador, que resumem a história do casal em poucos minutos, passando pelo namoro (repare a fotografia clara no reencontro do casal), casamento e início da vida na casa nova – destaque também para a passagem do tempo, indicada pela mudança das estações na janela do quarto. O outro acerto notável do diretor é a escolha do elenco, que conta com muita gente talentosa. Apesar de estar longe de seu melhor momento, Kevin Costner transmite segurança como Wyatt Earp, mostrando-se durão e até mesmo violento, além de exibir uma assustadora frieza quando enfrenta os criminosos. Extremamente agressivo, Wyatt conquista inimigos por onde passa, mas consegue manter a segurança local, ao contrário de seu amigo Ed Masterson (Bill Pullman), que o substitui e é amado pelos habitantes de Dogde City, mas deixa a criminalidade tomar conta do local (algo ilustrado pela placa “Proibido armas” cheia de tiros) e acaba morrendo, numa cena bastante triste. Aliás, uma das boas cenas do longa acontece quando Wyatt invade um bar e rende um bêbado, marcando o início de sua vida como xerife. Compare o semblante determinado do ator deste momento em diante com seu semblante carregado após a morte trágica de Urilla, que ilustra bem o sentimento do personagem, na época completamente devastado – algo refletido também pela fotografia sombria, especialmente quando ele é preso, onde a chuva reforça a melancolia de Wyatt e confirma que ele chagara ao fundo do poço.

Mas apesar da presença de Costner, quem rouba a cena mesmo é Dennis Quaid, que está ótimo como Doc Holliday. Magro e desgastado pela tuberculose, ele parece guardar as poucas energias que lhe restam para as brigas em que se envolve – seja com a amante Big Nose Kate (Isabella Rossellini), seja com os inimigos de Wyatt -, sempre parecendo disposto a matar ou morrer. Com sua voz rouca, provocada pela tosse constante, e seu olhar desconfiado, Quaid convence como o perigoso fora-da-lei, além de emocionar após a morte de Morgan, mostrando-se mais comovido que o próprio Costner. A amizade sincera entre Doc e Wyatt tem momentos marcantes, como a conversa num bar após Mattie (Mare Winningham, em boa atuação como a depressiva esposa de Wyatt) tentar o suicídio novamente e o momento em que Wyatt salva o amigo da morte numa briga com Kate, que termina com a confissão de Doc (“Eu sei que é difícil ser meu amigo”). Kasdan acerta ainda na escolha de Gene Hackman, que impõe respeito como o patriarca Nicholas Earp, com sua voz firme e semblante pesado, carregado de experiência de vida. E finalmente, outra excelente escolha é a de Michael Madsen, que demonstra firmeza como Virgil, com seu jeito igualmente debochado e ameaçador.

Uma das cenas mais importantes de “Wyatt Earp” acontece quando o protagonista discute com as esposas dos irmãos, expondo a dor que ainda carrega pela perda de Urilla e também a liderança que exerce sobre eles – repare como Morgan tenta consolar a esposa, mas larga a mão dela quando é repreendido por Wyatt. Este trauma se confirma num dos raros momentos em que o xerife se abre para a amante Josie (Joanna Going), numa conversa sincera na cama do casal em que os atores se saem bem e transmitem emoção. Mas, apesar destes bons momentos, faltam grandes cenas ao longa. Indicado desde o inicio como o grande momento da trama, o tiroteio de O.K. Curral não chega a decepcionar, mas está longe de ser uma cena marcante. Apesar da violência e de certa energia na cena, Kasdan não sabe escolher os melhores planos, deixando o confronto confuso, além de não criar a tensão necessária ao começar o duelo muito rapidamente (parece que o diretor não aprendeu nada com Leone). E pra piorar, após o grande duelo, a narrativa se arrasta por muito tempo antes de terminar, de forma pouco satisfatória. Ao guardar para o final uma história de heroísmo de Wyatt, Kasdan parece tentar encerrar bem a narrativa, mas erra novamente, pois todo o efeito nostálgico é anulado ao vermos as cenas no momento em que um garoto conta o que aconteceu – seria melhor se já tivéssemos visto ela antes e agora a história surgisse apenas como uma boa recordação dos bons tempos do xerife, assim como acontece com os personagens.

Tecnicamente brilhante, “Wyatt Earp” acaba soando cansativo demais, graças à má condução de Lawrence Kasdan, que não soube enxugar seu próprio roteiro. Cortando algumas cenas e conduzindo melhor momentos importantes como o famoso duelo, talvez ele tivesse realizado um grande filme. Não foi o que aconteceu. Pretensiosa ou não, o fato é que a direção de Kasdan compromete bastante o resultado final.

Texto publicado em 28 de Julho de 2011 por Roberto Siqueira

VELOCIDADE MÁXIMA (1994)

(Speed)

 

Videoteca do Beto #108

Dirigido por Jan de Bont.

Elenco: Keanu Reeves, Sandra Bullock, Dennis Hopper, Jeff Daniels, Joe Morton, Alan Ruck, Glenn Plummer, Richard Lineback, Beth Grant e Hawthorne James.

Roteiro: Graham Yost.

Produção: Mark Gordon.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Não é fácil fazer um bom filme de ação. Não que seja difícil – especialmente com a evolução dos efeitos visuais – criar momentos empolgantes envolvendo veículos em alta velocidade. O problema é conseguir inserir estas seqüências num roteiro que prenda à atenção da platéia mais exigente, com uma história crível ou, pelo menos, que saiba utilizar os clichês do gênero. Felizmente, “Velocidade Máxima” tem êxito nesta tarefa, partindo de uma idéia simples e criativa, que cria uma situação potencialmente tensa. E por envolver um meio de transporte público, toda a ação se torna ainda mais assustadora, pois sabemos que o que vemos na tela poderia acontecer com qualquer um de nós.

Ex-policial de Los Angeles, Howard Payne (Dennis Hopper) instala uma bomba num ônibus, que será acionada quando o veículo alcançar 80 km/h e explodirá caso a velocidade do veículo seja reduzida a menos dos mesmos 80 quilômetros por hora. O policial Jack Traven (Keanu Reeves) é escolhido para entrar no veiculo em movimento e tentar controlar a situação, mas um dos passageiros, sentindo-se ameaçado, saca uma arma e, acidentalmente, acerta o motorista. É então que a passageira Annie (Sandra Bullock) assume a direção enquanto a policia trabalha para tentar desarmar a bomba.

A premissa de “Velocidade Máxima” é excelente e bem aproveitada pelo roteiro de Graham Yost, que cria uma escala crescente de tensão muito eficiente e, o que é melhor, bem conduzida pelo diretor Jan de Bont. Para isto, Yost utiliza artifícios inteligentes, como a presença de um suposto criminoso no ônibus, que se assusta com a presença da polícia e saca uma arma, atingindo o motorista e forçando uma passageira a assumir a direção. Seguindo este raciocínio de pequenos infortúnios que só pioram a situação, “Velocidade Máxima” prende o espectador na cadeira em cada minuto que o ônibus “passeia” pela tela, o que é louvável. Claramente dividida em três atos (elevador, ônibus e metrô), a narrativa consegue ser envolvente em quase todo o tempo. Beneficiado pela montagem dinâmica de John Wright, de Bont consegue criar uma atmosfera tensa sem deixar as cenas confusas, evitando que o espectador se sinta perdido. Sua câmera agitada funciona bem, criando um visual realista que aproxima a platéia da trama, além de, em muitos momentos, ilustrar bem a sensação de alta velocidade pretendida pelo filme.

Também de maneira correta, o diretor de fotografia Andrzej Bartkowiak cria um visual claro, com cenas quase sempre diurnas, o que facilita a compreensão do que se passa na tela, assim como a figurinista Ellen Mirojnick acerta na escolha de roupas simples, do dia-a-dia, que torna a trama mais real. Ainda na ambientação, o excelente design de som colabora bastante, permitindo que o espectador se sinta completamente envolvido, especialmente nas cenas que envolvem o ônibus. Finalmente, seguindo a receita básica dos filmes de ação, a trilha sonora de Mark Mancina é bastante agitada e tenta aumentar a adrenalina. Em muitos casos, soa desnecessária, mas em outros, sublinha bem a cena, como na tensa seqüência de abertura no elevador.

Presente nas melhores cenas do filme, o ônibus só entra em cena aos 30 minutos de projeção, logo após a surpreendente explosão de outro ônibus na rua, que assusta a platéia. A partir deste momento, a narrativa cresce bastante e o melhor de “Velocidade Máxima” entra em cena. Apesar de algumas situações pouco verossímeis, a ação empolga e o longa decola. Ciente disto, Jan de Bont alterna entre planos aéreos e planos subjetivos, nos jogando pra dentro das cenas, por exemplo, quando Traven persegue o ônibus num automóvel em alta velocidade. Aliás, o dono do Jaguar, interpretado por Glenn Plummer, tem uma pequena e hilária participação, que, neste caso, é bem vinda, intercalado bom humor com momentos de alta tensão, uma mistura sempre eficaz no gênero. O diretor acerta ainda ao permitir a morte de uma passageira em determinado momento, o que, além de carregar o clima, tem um efeito surpresa que deixa a platéia ainda mais tensa, pois passamos a acreditar na possibilidade de que novas mortes aconteçam. Neste momento, vale observar como Bullock consegue demonstrar emoção, com um choro convincente que, por contraste, expõe a inexpressividade de Reeves. Por outro lado, Keanu Reeves se sai bem nas cenas que exigem esforço físico, convencendo no papel de “herói”, assim como expõe bem a revolta de Traven com a morte do parceiro Temple (Jeff Daniels).

Reeves e Bullock conseguem ainda criar uma incrível empatia, o que é importante para conquistar a platéia. Carismática, Sandra Bullock está leve no papel e conquista o espectador com seu jeito simultaneamente corajoso e indefeso. Capaz de assumir o volante de um ônibus (o que, numa sociedade machista, é elogiável), Annie é também sensível ao ponto de largar tudo desesperada quando pensa que atropelou um bebê (numa cena, aliás, bem conduzida pelo diretor, que emprega uma câmera lenta para aumentar o suspense). Introduzido de maneira eficiente na narrativa, o vilão Howard Payne surge ameaçador, ao matar um homem a sangue frio e colocar uma bomba num elevador, deixando o espectador ciente desde o início do perigo que ele representa. E apesar de soar caricato em alguns momentos, Dennis Hopper cria um vilão interessante e temível, que se torna ainda mais ameaçador na medida em que o ônibus avança pela cidade.

Ainda que tenha muita tensão, existem pequenos momentos típicos dos filmes de ação que soam falsos em “Velocidade Máxima”. Por exemplo: porque Payne não mata o detetive Temple no elevador quando tem a chance, preferindo atirar em Jack Traven? Seria mais fácil eliminar o primeiro, naquele momento sem chance de defesa, e depois tentar acertar o segundo, não é mesmo? Pra piorar, quando Traven atira em Temple e o amigo cai, o vilão fica a sua mercê, a poucos metros de distancia, mas o policial também hesita em atirar, permitindo a fuga do vilão. E nem mesmo a explosão que encerra a cena é efetiva, pois o espectador imagina que o personagem de Hopper não morreria tão cedo. Por isso, o suspense criado é artificial demais e, felizmente, se encerra na cena seguinte, quando Payne surge olhando para a televisão. E apesar de acertar ao evitar o excesso de diálogos e priorizar a ação, o roteiro apresenta pequenos diálogos superficiais, como aquele entre Traven e Temple, quando eles salvam as pessoas no elevador. “Foi bom pra você?” é a típica pergunta recheada de humor negro que não soa bem naquele momento. Apesar disto, existem raras frases interessantes que criticam a política norte-americana, por exemplo, como quando Annie pergunta se “bombardeamos o país dele” ao falar sobre o vilão – o que é compreensível, já que o que mais interessa aqui é a ação e não os diálogos.

É incrível notar ainda que a polícia de uma cidade como Los Angeles não saiba que uma estrada desativada tem uma falha enorme – aliás, que jeito estranho de construir estrada, mas, tudo bem, não sou especialista no assunto. E apesar do absurdo da situação criada, a falha na estrada gera um momento muito tenso, paralisando o espectador que embarca na aventura, assim como é tensa a seqüência em que Traven tenta desarmar a bomba embaixo do ônibus em movimento. Yost também não consegue evitar clichês, por exemplo, quando um pneu estoura logo após o penúltimo civil sair do ônibus, deixando apenas Annie e Traven para trás. Por outro lado, o roteirista mostra criatividade na solução criada antes, com a gravação de uma fita que engana o vilão e permite a retirada das pessoas do ônibus. Claramente o melhor trecho do filme, o segundo ato se encerra de maneira satisfatória com a saída de Annie e Traven do veículo e o espectador finalmente pode respirar. Ou pelo menos pensa que pode.

Já no terceiro ato, as situações artificiais voltam com força total quando, por exemplo, tudo para de funcionar no metrô, menos a alavanca de aceleração, e, principalmente, quando novamente um trecho inacabado, agora nos trilhos, surge para tentar criar tensão (desta vez, sem resultado, pois o espectador já está anestesiado). Além disso, porque Payne, com uma refém sob controle, iria se arriscar a subir no trem e enfrentar Traven? Um momento de fúria, talvez, por descobrir que o dinheiro que recebeu era falso, mas ainda assim me parece que outras soluções soariam mais eficientes. Sua morte, ao menos, serve para destacar o bom trabalho de efeitos visuais, que torna a cena bem real.

Apesar do terceiro ato irregular e do primeiro apenas correto, toda a trama que envolve o ônibus em alta velocidade serve para transformar “Velocidade Máxima” num ótimo filme de ação, tenso o suficiente para agradar ao espectador. Além disso, a excelente química do casal principal, confirmada no último e divertido diálogo entre eles, cria uma inevitável empatia com a platéia, garantindo uma sensação de bem estar ao final da projeção. Bem estar que não aparece durante quase todo o filme, dando lugar à tensão, o que comprova que o longa cumpre muito bem seu propósito.

Texto publicado em 25 de Julho de 2011 por Roberto Siqueira

UM SONHO DE LIBERDADE (1994)

(The Shawshank Redemption)

 

 

Videoteca do Beto #107

Dirigido por Frank Darabont.

Elenco: Tim Robbins, Morgan Freeman, William Sadler, Jeffrey DeMunn, Bob Gunton, Gil Bellows, Mark Rolston, James Whitmore, Clancy Brown, Larry Brandenburg e Neil Giuntoli.

Roteiro: Frank Darabont, baseado em história de Stephen King.

Produção: Niki Marvin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Na superfície, “Um Sonho de Liberdade” conta a história de um banqueiro condenado à prisão perpétua que foge após 19 anos de detenção. Na prática, o longa dirigido por Frank Darabont vai muito além, narrando a amizade entre dois condenados e a redenção de ambos com muita sensibilidade, num triunfo cinematográfico tão humano quanto belo. Com momentos tão lindos que soam como poesia, extremamente bem atuado e muito bem conduzido, “Um Sonho de Liberdade” é um dos pontos altos do cinema, não apenas nos anos 90, mas em todos os tempos.

Condenado a prisão perpétua pelo assassinato da esposa e de seu amante, o bem sucedido banqueiro Andy Dufresne (Tim Robbins) é enviado para “Shawshank”, um presídio de segurança máxima. Lá faz amizade com Red (Morgan Freeman), um prisioneiro veterano que controla o mercado negro e consegue tudo, desde escovas de dente até um pôster de uma atriz famosa. Mas a vida na prisão não é um conto de fadas e Andy enfrentaria muitas dificuldades antes de demonstrar suas habilidades e começar a trabalhar para Samuel Norton (Bob Gunton), o diretor do presídio.

Dirigido com competência por Frank Darabont, “Um Sonho de Liberdade” prende a atenção do espectador desde seus primeiros minutos, quando acompanhamos o julgamento de Andy ao mesmo tempo em que vemos os momentos prévios ao crime. Acertadamente, por um bom tempo a narrativa não esclarece se ele de fato matou ou não a esposa e o amante, encerrando o flashback segundos depois de ele descer do carro. Por isso, e também pelo jeito reservado de Andy, carregamos esta dúvida até o momento em que Tommy (Gil Bellows) conta a história verdadeira, já próximo ao terceiro ato. Ainda assim, criamos empatia pelo personagem, talvez pelo seu comportamento na prisão, por ele ser perseguido inicialmente e, principalmente, pela empatia com Red. Aliás, é curioso notar como quando “Um Sonho de Liberdade” tem início e vemos Andy indo para a prisão, mantemos uma pequena esperança de que ele seja inocente e consiga sair de lá. Mas, com o passar do tempo, passamos a desistir desta idéia, até por causa de pequenos momentos que esvaziam esta possibilidade, como as risadas de Andy e Red ao falarem sobre o martelo. E quando já não esperamos mais pela fuga, Andy surpreende a todos e o impacto é muito maior.

Escrito pelo próprio Darabont, baseado em história de Stephen King, o elegante roteiro tem frases tão bem construídas que em muitos momentos chega a ser poético, ainda mais quando narradas pela voz solene de Morgan Freeman – uma das minhas favoritas surge após a fuga de Andy: “Sei que alguns pássaros não podem viver numa gaiola. Suas penas brilham demais. E quando eles voam você fica contente, porque sabia que era um pecado prendê-los. Mesmo assim o lugar onde vive se torna mais vazio e chato depois da partida”. Além disso, a perfeita estrutura narrativa trabalha em cada detalhe da fuga de Andy sem jamais deixar que a platéia perceba o que ele planeja, fazendo o espectador querer rever o filme assim que ele termina, apenas para confirmar que cada passo foi de fato mostrado na projeção. Os pequenos detalhes de seu plano de fuga são fascinantes, como a bíblia com o martelo dentro (e a irônica frase deixada para o diretor “a salvação vem de dentro”), as pedras espalhadas pelo pátio, os sapatos trocados no dia da fuga, a escolha de uma noite chuvosa para abafar o barulho e até mesmo o pedaço de corda. Pra completar, os personagens são muito bem desenvolvidos e até mesmo personagens secundários como Brooks (James Whitmore) e Tommy tem passagens marcantes pela narrativa – o primeiro, na pequena e triste narração fora da prisão que revela seu suicídio, e o segundo, esbanjando energia e jovialidade até ser friamente assassinado. Também é interessante como o roteiro mostra a corrupção no presídio e como Andy usa seu conhecimento para lavar dinheiro, criando uma pessoa que nem existe (Randal Stevens) e que será vital na narrativa. E finalmente, num dos raros momentos em que vemos uma mulher em cena, a aparição de Rita Hayworth na telona delicia os presos e é um eficiente alivio cômico numa narrativa até então bastante pesada.

Realçando a tristeza local, os uniformes sem vida da figurinista Elizabeth McBride, que misturam cinza e azul marinho, colaboram na ambientação do espectador aquele ambiente. Além disso, cenas realistas como o espancamento de um preso logo no início e os ataques das “bichas” ilustram a hostilidade que impera no presídio. Apresentada num belo travelling de Darabont antes da chegada de Andy, a prisão de Shawshank parece ter vida e intimida bastante (direção de arte de Peter Landsdown Smith), mas, na medida em que a narrativa avança, nos acostumamos com aqueles muros e, assim como os próprios personagens, ficamos “institucionalizados” – repare como Brooks afirma sentir falta de “casa” quando está na rua. Além disso, a fotografia fria e cinzenta de Roger Deakins reflete o mundo sombrio e triste em que os personagens estão inseridos, exibindo a luz do sol em poucas vezes (até porque a narrativa se passa predominantemente num local fechado), como na bela cena em que Andy consegue algumas cervejas para seus amigos que trabalham no teto da prisão. Aliás, nesta cena, quando o capitão Hadley (Clancy Brown) ameaça jogá-lo, Darabont faz um belo movimento de câmera que nos dá a exata noção do perigo que ele corre, e quando vemos aqueles homens se sentindo livres por um instante, com o sol batendo em seus rostos ao ar livre, temos a mesma sensação de liberdade deles, graças aos closes do diretor, que realçam a felicidade de cada um.

Outra cena marcante é o canto das italianas (a música chama-se “The Marriage of Figaro”, de Mozart), que voa pela prisão como um lindo pássaro e paralisa os presos, em outro momento conduzido com muita sensibilidade por Darabont (“Esta é a beleza da música, ninguém pode tirá-la de você”, diz Andy). Aliás, vale ressaltar também a importância da música em “Um Sonho de Liberdade”, ilustrando o sentimento dos personagens em alguns momentos, como quando Andy consegue melhorar a biblioteca e o som de Hank Williams reflete seu estado de espírito, agora já mais adaptado à Shawshank. E por falar em música, a trilha sonora de Thomas Newman tem momentos sombrios na maior parte do tempo, mas apresenta variações triunfais, como aquela que sublinha a fuga de Andy, e outras com função narrativa, como aquela que o acompanha escrevendo na parede, que é exatamente igual à do dia de sua fuga, indicando com sutileza o momento em que ele começa a planejar tudo.

Inteligente e meticuloso, Andy planeja cada etapa com calma, também porque, como diz Red em certo momento, tudo que ele tinha na prisão era tempo. E o tempo passa lentamente naquele local. Cobrindo quase vinte anos de história sem jamais soar episódica, a montagem de Richard Francis-Bruce imprime o ritmo correto ao longa, dando a exata noção de lentidão que pede a narrativa, mas saltando alguns anos de maneira inteligente, como quando Andy faz o imposto de renda dos guardas seguidamente, além de indicar a passagem do tempo com simplicidade e eficiência, por exemplo, através do crescimento do pássaro Jake. Vale ressaltar também a perfeita decupagem de muitas seqüências, como quando Andy senta para fazer o primeiro imposto de renda para um guarda e, em seguida, vemos Brooks contando a história para os amigos. E se podemos chamá-los de amigos é porque o talentoso elenco de “Um Sonho de Liberdade” estabelece excelente química na relação dos prisioneiros, fazendo com que eles realmente pareçam se importar uns com os outros. Praticamente todo o elenco está bem, destacando-se em papéis secundários os citados Gil Bellows, que vive Tommy Williams, e o veterano James Whitmore, que interpreta Brooks, um personagem que ilustra a dificuldade de ex-prisioneiros para se adaptar fora da prisão. Lá dentro, eles têm algum respeito e uma ocupação. Lá fora, são apenas velhos ex-presidiários. Além dos presos, temos boas atuações também no grupo que tenta manter a ordem local, com o agressivo e assustador Capitão Hadley de Clancy Brown e, principalmente, o diretor Norton. Sempre falando do “Senhor”, Bob Gunton compõe um Norton bastante corrupto e ameaçador, como podemos notar, por exemplo, quando ele conversa com Andy na solitária, após ouvir a história de Tommy.

Mas o grande destaque fica mesmo para a antológica empatia da dupla principal. Em atuação muito boa, Tim Robbins vive Andy, que começa intimidado, mas cresce lentamente e se mantém diferente dos outros presos na maior parte do tempo, parecendo mesmo uma pessoa que não pertence aquele mundo. Sempre fechado e misterioso, o ex-banqueiro exala frieza, o que explica o afastamento de sua esposa, como ele mesmo esclarece num diálogo tocante com Red, em que ele também cita a cidade mexicana de Zihuatanejo e pede que Red faça uma promessa – repare que a mesma trilha do dia de sua fuga sublinha a cena. E é impressionante notar como mesmo sendo alguém tão pensativo e recluso, Andy consegue influenciar as pessoas à sua volta e ser admirado por muitas delas. E se Robbins está bem, Morgan Freeman tem uma atuação simplesmente perfeita como Red, sempre no tom correto, demonstrando a serenidade de um homem já acostumado àquele local. Tranqüilo, Red é o ponto de equilíbrio que impede que Andy perca a cabeça e permite que o amigo consiga suportar todos aqueles anos na prisão, mas é também através de Andy que Red renovará seu conceito de “esperança” e encontrará a redenção. A empatia entre os dois atores é tão orgânica que temos a sensação de que Red e Andy se conhecem há anos já nos primeiros diálogos. E é num destes diálogos marcantes que Andy fala sobre a “esperança” e é repreendido por Red, num momento essencial para entender que Andy estava mesmo alheio ao que acontecia ali, se preparando para viver a vida lá fora, enquanto o amigo ainda precisava mudar. No fim das contas, “Um Sonho de Liberdade” mostra a importância deste sentimento, algo reforçado pelas últimas palavras de Red, que encerram a narrativa.

Quando Andy presenteia o amigo com uma gaita após sair da solitária, temos apenas mais um simples exemplo daquela amizade sincera, tocante e bela. Mas Andy também conquista outros prisioneiros com seu jeito de ser. Meticuloso ao ponto de gostar de polir pedras e jogar xadrez, seu relacionamento mais intenso e conflitante envolve o elétrico Tommy, por isso, quando lhe avisam que “o menino passou”, seu sorriso de canto de boca significa muito, demonstrando que ele se sente recompensado por todo o esforço que fez – e este é apenas um dos bons momentos de Tim Robbins. Aliás, Tommy é responsável também pela grande guinada na narrativa, quando traz a tona novamente o assassinato da esposa de Andy. Por isso, quando Red fala sobre o crime, um close em sua reação indica que ele sabe algo a respeito, paralisando os personagens e o espectador. E a revelação surge como uma bomba: Andy era mesmo inocente! O espectador está em choque, assim como os personagens.

Momentos antes da grande cena de “Um Sonho de Liberdade”, temos muitos indícios de que Andy cometeria um suicídio. Seu estranho diálogo com Red, somado ao pedido da corda, à morte de Tommy e ao fim de sua esperança de um novo julgamento, fazem o espectador temer sua morte. “Todos têm um limite”, afirma Red, reforçando este sentimento. A fotografia sombria, a chuva e a narração de Red na noite mais longa de sua vida reforçam o temor. Pra piorar, quando a contagem de presos começa no dia seguinte e Andy não aparece, o guarda vai até a cela, olha levemente pra cima e diz “Meu Deus!”. O espectador muda então da tensão para a euforia quando todos começam a procurar pelo homem que “sumiu ao vento”. A cela vazia e o interrogatório que começa deixam nossas mentes num turbilhão. O que teria feito Andy? E então, quando Rachel revela seu segredinho (algo indicado brilhantemente pelo som da pedra que percorre o buraco na parede), o espectador está em êxtase. Andy fugiu! Tem inicio então a meticulosa reconstituição da trajetória de Andy desde o dia em que ele escreve na parece até a fuga. E o plano plongèe, com Andy abrindo os braços na chuva, parece lavar a alma do personagem e do espectador, numa das mais belas cenas do filme. Além de fugir, Andy (ou devo dizer Randal Stevens?) ainda sai rico e incrimina Norton. E o melhor é que tudo isto soa verdadeiro e orgânico, graças ao roteiro coeso e a condução competente de Darabont.

Após este momento de euforia, o espectador ainda acompanha a saída de Red da prisão, depois de ser finalmente aprovado na análise do conselho. Agora, só nos resta torcer pelo reencontro dos grandes amigos, e ele acontece após Red passar nos campos de Buxton e seguir as instruções de Andy. Ao ouvirmos as lindas palavras de Red e vermos um travelling pelo pacífico, um recompensador plano geral mostra os dois amigos se abraçando e termina uma das obras-primas dos anos 90. É difícil conter as lágrimas num final tão emocionante e apoteótico.

Finalmente, é importante ressaltar que a redenção do título original em inglês se refere muito mais à Red do que a Andy. Com exceção do prólogo com o julgamento do protagonista, durante todo o tempo a história é apresentada sob o filtro do olhar dele. Momentos cruciais da vida de Andy são narrados sob a perspectiva de Red, como a fuga da prisão, o fechamento das contas bancárias e a viagem para o México, por exemplo. Além disso, não vemos mais Andy após a fuga, e sim como Red chega até ele. Quando Red diz no final que “espera” reencontrar o amigo e apertar a mão dele, o verbo esperar tem um significado muito maior do que aparenta. Red havia encontrado mais do que a esperança tão comentada pelo amigo. Ele encontrou a redenção.

Contando com pessoas talentosas em todas as áreas, Frank Darabont e seu ótimo elenco entregaram uma obra-prima, que viverá muito tempo em nossas memórias. No meu caso, pelo menos, já se passaram 16 anos desde que assisti ao filme pela primeira vez e seu efeito continua intacto. Narrando uma história humana e com reviravoltas marcantes, “Um Sonho de Liberdade” pertence ao seleto grupo de filmes que parece melhorar a cada nova revisão. Esta é a marca dos grandes filmes.

PS: Confesso que não foi nada fácil escrever sobre este que é um dos filmes mais importantes da minha vida. Por isso, qualquer traço de “exagero emocional” que apareça no texto não é mera coincidência. Este filme, de fato, ainda mexe muito comigo. Ao lado de “Coração Valente”, é responsável direto por minha paixão pelo cinema.

Texto publicado em 22 de Julho de 2011 por Roberto Siqueira

QUATRO CASAMENTOS E UM FUNERAL (1994)

(Four Weddings and a Funeral)

 

Videoteca do Beto #106

Dirigido por Mike Newell.

Elenco: Hugh Grant, Andie MacDowell, Kristin Scott Thomas, Rowan Atkinson, James Fleet, Simon Callow, John Hannah, David Bower, Charlotte Coleman, Timothy Walker, Sara Crowe, Ronald Herdman, Elspet Gray e Philip Voss.

Roteiro: Richard Curtis.

Produção: Duncan Kenworthy.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Abordando com inteligência e bom humor as semelhanças e diferenças culturais que atrapalham um homem e uma mulher apaixonados, o diretor Mike Newell entrega uma comédia leve, com boas atuações e diálogos divertidos, recheados pelo típico humor ácido inglês. Nem mesmo o previsível final compromete o bom resultado do longa, que está longe de figurar entre os cinco melhores do ano (como apontou a Academia de Hollywood), mas que certamente é um entretenimento agradável (especialmente para casais).

Charles (Hugh Grant) é um solteirão que evita de todas as formas um compromisso sério com alguma mulher. Só que no casamento de um amigo, ele conhece Carrie (Andie MacDowell), uma mulher capaz de abalar suas convicções e fazê-lo questionar tudo que defendeu até então.

Escrito por Richard Curtis (que viria a escrever “Um lugar chamado Notting Hill” e dirigir “Simplesmente Amor”), o roteiro de “Quatro casamentos e um funeral” é repleto de diálogos interessantes e boas tiradas, que aproveitam situações costumeiras em casamentos (e funerais) para nos fazer rir, como no ácido discurso de Charles no primeiro casamento, que fica ainda melhor graças à boa interpretação de Grant (repare também no close em Carrie quando ele fala que não teria coragem de casar, indicando a atração dela pelo rapaz). E apesar dos clichês costumeiros do gênero (o primeiro encontro inesquecível, os obstáculos que separam o mocinho e a mocinha antes deles ficarem juntos no final), o longa consegue prender nossa atenção, muito por causa das situações divertidas e inusitadas que envolvem os personagens, ainda que algumas soem artificiais. Além disso, a fotografia viva de Michael Coulter e as roupas coloridas (figurinos de Lindy Hemming) conferem uma atmosfera alegre ao filme, assim como as igrejas muito bem decoradas garantem a ambientação do espectador nos principais cenários – Coulter ainda acerta ao utilizar a chuva no casamento de Carrie e no enterro de Gareth, acentuando a tristeza dos personagens. E finalmente, a trilha sonora de Richard Rodney Bennett surge apenas em momentos pontuais, como na primeira conversa entre Charles e Carrie e no funeral de Gareth, enquanto nos casamentos e festas ela é diegética, surgindo nos cantos na igreja, na marcha nupcial e nas tradicionais músicas tocadas em festas de casamento.

Neste clima leve, Mike Newell conduz a narrativa de maneira solta, empregando muitos closes e planos americanos que valorizam as atuações (o que é correto num filme que depende bastante do desempenho dos atores). O diretor também cria belos planos nas igrejas, explorando o visual rico destes locais, e extrai o riso através de rimas narrativas, como quando Charles se atrasa no segundo casamento, da mesma maneira que fez no primeiro (e o plano dele desligando o despertador faz o espectador pressentir o atraso antes mesmo de vê-lo acordando desesperado). Finalmente, o diretor emprega movimentos de câmera corretos, como quando Charles descobre que Carrie está noiva e o zoom realça a tristeza dele. Essencial numa comédia romântica, a montagem de Jon Gregory imprime um ritmo delicioso ao longa, dividindo a narrativa entre os cinco eventos principais de forma correta, além de ser fundamental em algumas cenas, como quando Carrie diz “Você não é tão bonito” e um corte nos leva à imagem da janela do hotel, indicando que eles dormiram juntos novamente. Em seguida, Carrie dorme no hotel e outro raccord nos mostra Charles dormindo na mesma posição que ela, numa elegante rima visual que indica que eles estão conectados.

E apesar do correto trabalho técnico, é na condução do elenco que Newell tem seu maior mérito. A começar por Hugh Grant, que cai muito bem no papel do atrapalhado Charles, como podemos notar logo na primeira cerimônia, quando sua reação engraçada a uma pergunta indica que ele esqueceu as alianças. Outro momento divertido envolvendo o ator (e suas reações desesperadas) acontece quando Charles senta-se à mesa com muitas ex-namoradas, numa seqüência hilária de revelações comprometedoras do passado. Esta cena também escancara a paixão dele por Carrie, pois sua timidez diante dela contradiz totalmente sua fama de namorador, revelando um nervosismo incomum naquele rapaz. Aliás, o encontro entre Charles e Carrie no bar “Boatman” começa engraçado e termina bastante sensual, e o envolvimento do casal só é crível graças à empatia entre Grant e MacDowell, que parecem de fato estarem apaixonados. A troca de olhares, a forma como se comportam e principalmente a química do casal nos convence. Por isso, quando Charles começa a sentir a falta de Carrie, sabemos que ele foi fisgado – o que leva a atrapalhada declaração dele, no único momento em que a narrativa se passa fora das cerimônias que dão nome ao filme. Obviamente, Andie MacDowell também tem méritos, conferindo sensualidade a norte-americana Carrie, além da notável simpatia, essencial para que o espectador torça pelo casal. E mesmo noiva, ela continua vivendo bons momentos com ele, como na conversa sobre as transas do passado, logo após experimentar vestidos de noiva, numa cena que escancara as diferenças culturais de ambos em relação ao sexo – e é curioso notar também a dica do roteiro, quando Carrie experimenta um vestido na frente dele e diz “Este não. Talvez na próxima vez?”.

Esta afinidade serve também para provocar tristeza nas inúmeras pretendentes de Charles. E uma delas em especial chama a atenção. Trata-se de Fiona, interpretada pela sempre ótima Kristin Scott Thomas, que exala sarcasmo ao mesmo tempo em que parece fina e bela. Vestida sempre de preto, a moça parece ilustrar através das roupas a tristeza de uma garota que há tanto tempo sofre por amar alguém que não a ama (novamente, ponto para os figurinos de Lindy Hemming). Antes mesmo que a platéia confirme o interesse dela pelo protagonista, Fiona indica que é apaixonada por alguém, e o espectador mais ligado sente que é Charles, até pela forma que ela olha pra ele e, principalmente, pela forma como ela se refere à Carrie quando ele demonstra interesse. E mesmo num papel secundário e sem grande destaque, é impressionante notar como Kristin Scott Thomas consegue dar peso à confissão de Fiona, fazendo a cena soar comovente sem ser melodramática. Já Simon Callow faz de seu Gareth um personagem amável, amigo de todos, o que explica a enorme tristeza após sua morte. Além disso, é interessante o momento da revelação sutil de seu caso com Matthew, através do discurso emocionado do rapaz em seu enterro, citando o poema de W.H. Alden, “Funeral Blues” – num bom momento de John Hannah. E finalmente, vale destacar a presença de Rowan Atkinson (hoje famoso pelo papel de “Mr. Bean”) na pele do Padre Gerald, protagonizando uma das cenas engraçadas do segundo casamento.

Ainda durante o funeral, notam-se claramente as semelhanças entre as duas cerimônias centrais da trama, o casamento e o próprio funeral. Ambos são eventos que unem a família e os amigos, sempre com roupas elegantes e dentro da igreja. Nos dois casos, as pessoas choram e sorriem, alguém faz um discurso e alguém é o centro das atenções. Obviamente, as diferenças também aparecem, já que no primeiro caso “quase” todos estão alegres, e no segundo, a tristeza impera. Vale destacar ainda como no funeral, Newell emprega muitos closes e alterna bastante entre os planos, destacando a reação emocionada das pessoas. Após este momento melancólico, a alegria volta a dominar a narrativa e chegamos ao esperado dia em que Charles se entregará ao compromisso do casamento. Só que, inteligentemente, o nome da noiva no convite é escondido por uma flor, mantendo um suspense interessante, que, infelizmente, é quebrado já na cena seguinte. Ao vermos Fiona no carro, percebemos que ela não será a noiva e, pouco tempo depois, ela mesma revela o nome da escolhida. E ao descobrir que a noiva não é Fiona e nem Carrie, o espectador se desanima. Mas, quando Carrie chega e revela que está separada, começamos a torcer pelo politicamente incorreto “não” de Charles na cerimônia. E apesar de ser totalmente previsível, o espectador fica feliz quando ele diz que ama outra no altar – e o plano dele angustiado enquanto a noiva entra na igreja diz mais que qualquer palavra. É clichê? É. Previsível? Sim. Mas funciona muito bem.

Apesar de ser totalmente previsível, o final de “Quatro Casamentos e um Funeral” é coerente com a proposta do filme, que é proporcionar uma sensação de bem estar ao espectador. Além disso, o longa tem o mérito de fazer boas piadas com situações corriqueiras nestas cerimônias, fazendo com que o espectador se identifique com o que vê e, por isso, sinta empatia pelo filme. Pra quem já é casado (como eu), fica a sensação de que, por mais que alguns casamentos não dêem certo, arriscar viver o amor verdadeiro sempre vale à pena.

Texto publicado em 18 de Julho de 2011 por Roberto Siqueira

PULP FICTION – TEMPO DE VIOLÊNCIA (1994)

(Pulp Fiction)

 

Videoteca do Beto #105

Dirigido por Quentin Tarantino.

Elenco: John Travolta, Samuel L. Jackson, Uma Thurman, Bruce Willis, Harvey Keitel, Tim Roth, Ving Rhames, Eric Stoltz, Rosanna Arquette, Christopher Walken, Maria de Medeiros, Steve Buscemi, Quentin Tarantino, Amanda Plummer e Joseph “Joe” Pilato.

Roteiro: Quentin Tarantino, baseado em história de Roger Avary e Quentin Tarantino.

Produção: Lawrence Bender.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Goste ou não de Quentin Tarantino, todo cinéfilo concorda: seu estilo de fazer cinema é bastante original. Profundo conhecedor e amante da sétima arte, o diretor investe na subversão de gêneros (ao mesmo tempo em que os homenageia), revelando a influência de grandes diretores do passado em seu trabalho. Além disto, Tarantino trouxe a tona o culto ao popular, ousando misturar elementos narrativos clássicos com referências à cultura pop, sempre com uma abordagem que varia entre o realista e o hiper-realista, recheada por diálogos deliciosos e espontâneos. E esta nova forma de fazer cinema chegou ao auge logo em seu segundo longa-metragem, o excelente “Pulp Fiction”, que ainda resgatou o astro John Travolta após anos de ostracismo.

Os criminosos profissionais Jules (Samuel L. Jackson) e Vicent Vega (John Travolta) saem para fazer uma cobrança em nome do traficante Marcellus (Ving Rhames). Vicent está preocupado, porque a noite deverá acompanhar a esposa do chefe, Mia (Uma Thurman). Enquanto isso, o boxeador Butch (Bruce Willis) deverá perder uma luta, para cumprir um acordo com Marcellus e sair rico da cidade.

“Pulp Fiction” começa num pequeno restaurante, com um casal conversando sobre a vida criminosa que pretende abandonar. Em instantes, eles anunciam um assalto, e a trilha sonora indica o começo do filme. Este interessante prólogo é então deixado de lado, e voltará à tona somente nos instantes finais da narrativa. Misturando com perfeição os elementos narrativos que já utilizara em seu filme de estréia (“Cães de Aluguel”), Quentin Tarantino alcança o ápice neste “Pulp Fiction”, com seus costumeiros diálogos ágeis e deliciosos sobre coisas do cotidiano, que nem sempre colaboram para o andamento da trama, mas sempre chamam a atenção do espectador, como na conversa entre Vicent e Jules sobre as diferenças entre EUA e Europa e sobre o McDonald’s. Tarantino também aborda a vida criminosa de maneira diferente do usual, auxiliado pela trilha sonora pop e empolgante, pela montagem não cronológica e dividida em capítulos – que prende a atenção da platéia – e pela narrativa que foge da tradicional causa e efeito que normalmente motiva os personagens, mantendo o foco na situação em que os eles estão envolvidos em detrimento dos objetivos de cada um. Em “Pulp Fiction”, a força do acaso em nossas vidas também ganha destaque, através de situações inesperadas que alteram o destino de todos envolvidos, como o fato de Marcellus cruzar o farol bem na frente do carro de Butch, que levará os dois a serem seqüestrados por estupradores e à redenção de Butch diante do traficante.

Obviamente, Tarantino conta muito com o excelente trabalho da montadora Sally Menke, que divide a narrativa em capítulos bem definidos, em ordem não cronológica, ajudando a criar a atmosfera mais realista pretendida pelo diretor através de cenas extensas, com poucos cortes, que confirmam a preferência dele já indicada no filme anterior. Além disso, Menke e Tarantino mostram inteligência ao esticar as histórias que envolvem Vicent e Jules, encurtando a trama que envolve Butch, claramente a menos atraente do roteiro. Escrito pelo próprio Tarantino (baseado em história dele com Roger Avary), o roteiro de “Pulp Fiction” usa artifícios interessantes, como o “macguffin” representado pela maleta de Marcellus, que, seguindo o mais puro sentido do termo popularizado por Hitchcock, não tem função narrativa alguma a não ser guiar os personagens na trama. Personagens, aliás, que falam a linguagem das ruas, cheia de palavrões e até mesmo preconceito contra estrangeiros, confirmando a abordagem realista que aproxima o espectador. E não posso deixar de citar os maravilhosos diálogos que se espalham pela narrativa, confirmando a criatividade de Tarantino, que cria situações muito interessantes, por exemplo, ao discutir algo banal como uma massagem no pé.

O longa ainda aborda com naturalidade o uso de drogas, mostrando os personagens usando cocaína e heroína, sem aliviar também nos efeitos deste uso, como quando Vicent vai buscar Mia, com os olhos praticamente fechados e um largo sorriso no rosto, claramente transformado (a trilha e a câmera lenta ilustram a sensação de relaxamento do personagem). Tudo isto, somado à fotografia natural de Andrzej Sekula, reforça a abordagem realista e ambienta o espectador ao mundo do crime. Sekula até chega a criar um visual estilizado, por exemplo, quando Butch visita Marcellus no bar, indicando através do tom vermelho a violência que predomina naquele meio, mas, em geral, a fotografia é mais crua e próxima da realidade. Realidade que nem sempre está presente, pois Tarantino também foge da abordagem realista, por exemplo, quando Mia faz um quadrado no ar e um efeito visual representa o quadrado na tela.

Além do excelente roteiro, Tarantino também mostra talento na condução da narrativa, conferindo um visual rico ao longa, além de constantemente fazer referências ao passado, seja dele próprio (o plano de dentro do porta-malas quando Vicent e Jules pegam as armas remete ao plano de “Cães de Aluguel” em que o policial é retirado do carro), seja do cinema em geral (na fuga de Butch, Tarantino homenageia uma velha técnica, o back projection, com o carro parado e as imagens movendo ao fundo). Além disso, o plano-seqüência que acompanha Vicent pelo “Jackrabbit Slim’s” serve como homenagem às estrelas do cinema dos anos 50, revelando os cartazes e as próprias atendentes locais, em outro momento de imersão na cultura pop, reforçado pela trilha sonora diegética com clássicos do período. Em outros momentos, Tarantino usa a handycam para conferir realismo às cenas, como quando Marcellus atira em Butch em plena luz do dia e quando Butch se dirige ao apartamento onde matará Vicent. Aliás, impressiona também a ausência de policiais e a predominância de cenas diurnas, o que confirma a subversão do cinema de gênero pretendida pelo diretor (nos filmes de crime, normalmente o visual é mais obscuro e os policiais estão no encalço dos criminosos). Finalmente, Tarantino não desvia a câmera nos momentos violentos e nem mesmo quando Mia confunde heroína com cocaína, mostrando o resultado trágico da droga na moça. O desespero toma conta da tela, Vicent sai em disparada para tentar salvá-la e o hiper-realismo novamente entra em cena. Neste momento, o espectador sente um misto de euforia e angústia, provocado pela mistura de humor negro e realismo, reforçado pela handycam utilizada na casa de Lance (Eric Stoltz). Quando Mia levanta gritando após a injeção de adrenalina, o hiper-realismo volta e o espectador ri. Este é o cinema de Tarantino. Por outro lado, este estilo cinematográfico dificilmente envolve a platéia emocionalmente, pois os personagens são praticamente caricaturas, o que é um ponto negativo em sua filmografia, mas que em “Pulp Fiction” funciona bem, dada a abordagem afastada da realidade em diversos momentos, como a citada “ressurreição” de Mia.

Com seu visual sensacional (figurinos de Betsy Heimann), que faz alusão aos anos 50, Vicent Vega – e suas roupas descoladas – e Jules – com seu cabelo “black power” – são personagens fascinantes, interpretados com grande carisma por John Travolta e Samuel L. Jackson. Apresentando um impressionante entrosamento, eles formam uma adorável dupla de criminosos, que tem um curioso código moral, revelado no diálogo que antecede a invasão de um apartamento. Para eles, é vital seguir o horário combinado, como se um ou dois minutos fossem extremamente importantes. Para Vicent, uma simples massagem no pé soaria como desrespeito ao chefe. Mas, para ambos, matar um inimigo de Marcellus a queima roupa é simplesmente normal. Travolta também demonstra com competência a aflição de Vicent por ter que sair a noite com Mia, aflição que só aumenta ao ouvir as risadas dos amigos quando ele pergunta se ela é bonita. As risadas se justificam quando surge a sensual e divertida Mia, interpretada pela ótima Uma Thurman. Demonstrando empatia com Travolta, Thurman está bem solta no papel. Na memorável cena em que eles dançam twist, além do desempenho marcante da dupla e da música empolgante (“Never can tell”, de Chuck Berry), o espectador que conhece um pouco da história do cinema sente uma ponta de nostalgia ao ver novamente John Travolta dançando, num momento que extrapola o filme e deixa a platéia em êxtase. Recheada de músicas marcantes, a trilha sonora ainda apresenta a bela “Girl, you’ll be a woman soon”, de Bruce Springsteen, numa cena em que Thurman novamente se destaca, dançando solta e cantarolando a música desafinada, ao mesmo tempo em que Travolta também dá um show, olhando para o espelho e treinando o autocontrole para evitar se envolver com a mulher do chefe.

Citar todos os nomes do elenco é até desnecessário diante de tantos bons atores que aparecem no longa. Mas alguns merecem destaque especial, como Christopher Walken, que tem uma pequena e estupenda participação ao contar a história do “Relógio de Ouro”. Já Bruce Willis, com seu jeito bruto e ameaçador, se sai muito bem como o boxeador Butch, se destacando em alguns momentos especiais, como a revolta de Butch ao saber que Fabienne (Maria de Medeiros) esqueceu o relógio de ouro, o olhar frio antes de matar Vicent, seu espanto ao ver Marcellus cruzar o farol e, principalmente, o momento surreal em que ele escolhe a arma antes de salvar Marcellus. Butch ainda é o autor de uma das frases marcantes do excelente roteiro – só que o seu “Zack is dead, baby” soa bem em inglês, mas perde a graça em português. E apesar de curtas, as participações de Tarantino, como Jimmy, e principalmente de Harvey Keitel, como Wolf, são excelentes, com o segundo exibindo a costumeira segurança e uma expressão ameaçadora, que confere credibilidade e respeito ao personagem.

Keitel e Tarantino surgem no último capitulo da narrativa. Repleto de humor negro e diálogos sarcásticos, “A situação de Bonne” conta com a cena mais violenta e engraçada do longa, que é o tiro acidental de Vicent em Marvin, mas é também o capitulo em que Jules escapa milagrosamente da morte, o que promove uma transformação no criminoso, que passa a acreditar na “intervenção divina” em sua vida. Esta interessante visão contrasta com a de seu colega Vicent, que vê no acaso a explicação para o que aconteceu. Bastante polêmica, esta discussão ideológica deixa a cargo de cada espectador tirar alguma conclusão. Após acompanhar todas estas histórias paralelas, o espectador se vê novamente no mesmo restaurante do início. Novamente, o grito de Honey Bunny (Amanda Plummer) ecoa em todo local e Pumpkin (Tim Roth) começa a recolher as carteiras, aterrorizando quase todas as pessoas presentes. “Quase” todas, porque o agora regenerado Jules está lá, sentado, com a arma na mão e a misteriosa maleta de Marcellus Wallace na mesa, enquanto Vicent está no banheiro, lendo uma revista tranqüilamente. E apesar de exagerar em alguns momentos anteriormente, Samuel L. Jackson está perfeito na cena final, demonstrando segurança e autoridade enquanto conversa com os assaltantes e explica a razão de sua regeneração. E assim como Leone fazia com maestria no western spaghetti, Tarantino conduz a cena com a costumeira habilidade, mantendo a tensão simplesmente ao prorrogar ao máximo o confronto (que, neste caso, sequer acontece), com os personagens mantendo as armas apontadas uns para os outros, como ele também fizera em “Cães de Aluguel”. Nada acontece de fato, mas a tensão que domina a cena é suficiente para nos deixar em transe.

Com seu visual estilizado, diálogos inesquecíveis, narrativa envolvente e cenas marcantes, “Pulp Fiction” marcou época e confirmou que Tarantino era o sopro de criatividade que faltava em Hollywood. Embalado por uma trilha sonora empolgante e por atuações inspiradas de um elenco excepcional, o longa revigorou o cinema dos anos 90, inspirando muitos trabalhos que surgiriam a seguir. Não foi apenas Jules que saiu regenerado, a própria Hollywood parece ter escapado milagrosamente de alguns tiros a queima roupa.

Texto publicado em 15 de Julho de 2011 por Roberto Siqueira

MAVERICK (1994)

(Maverick)

 

Videoteca do Beto #104

Dirigido por Richard Donner.

Elenco: Mel Gibson, Jodie Foster, James Garner, Alfred Molina, James Coburn, Corey Feldman, Danny Glover, Graham Greene, Geoffrey Lewis, Paul L. Smith, Dan Hedaya, Max Perlich, Jean Da Baer, Jack Garner, Dub Taylor e Margot Kidder.

Roteiro: William Goldman, baseado na série de TV “Maverick”, escrita por Roy Huggins.

Produção: Bruce Davey e Richard Donner.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Os anos 90 marcaram a ressurreição do mais americano dos gêneros, o western, através de excelentes filmes como “Dança com Lobos” e “Os Imperdoáveis”. Graças a eles, as produtoras voltaram a ter confiança no gênero e filmes como este despretensioso “Maverick” puderam ser lançados. Quem saiu ganhando foi o cinéfilo, que viu ressurgir um gênero delicioso. Com muito bom humor e uma narrativa leve, o longa dirigido por Richard Donner cumpre muito bem o que se propõe a fazer, divertindo o espectador enquanto acompanha a trajetória do esperto protagonista interpretado com carisma por Mel Gibson.

Bret (e não Bert!) Maverick (Mel Gibson) é um hábil jogador de pôquer que precisa desesperadamente arrumar três mil dólares para poder participar de um milionário campeonato num rio do Mississipi. No caminho, ele cruza com a bela Annabelle Bransford (Jodie Foster) e com o durão Zane Cooper (James Garner), que acompanharão o protagonista em sua atrapalhada jornada.

Escrito por William Goldman (baseado na série de TV homônima, escrita por Roy Huggins), “Maverick” acompanha a trajetória de seu personagem principal pelo velho oeste com bom humor. Buscando participar de um importante campeonato de pôquer que poderá lhe render nada menos que meio milhão de dólares, tudo que Bret Maverick deseja é ganhar os seus dólares sem morrer no caminho. O que os outros enxergam como covardia, para ele é apenas questão de sobrevivência. Repleto de sátiras que constantemente provocam o riso no espectador, o roteiro Goldman apresenta uma série de diálogos divertidos e ágeis, especialmente quando envolvem o trio Maverick, Cooper e Annabelle, além de inserir boas tiradas, que surgem ainda melhores graças à condução de Donner (repare como ele demora a revelar o “puro sangue” de Maverick, o que é essencial nesta piada, por exemplo). Além das excelentes piadas, o diretor consegue criar boas seqüências de ação, como quando Maverick tenta controlar uma diligência desgovernada em alta velocidade, pulando de um cavalo para outro até conseguir frear os animais (uma referência ao clássico de John Ford “No Tempo das Diligências”). Repleta de referências a momentos típicos dos westerns clássicos, a narrativa apresenta até mesmo a habitual cena em que os bandidos dormem bêbados ao redor da fogueira, sendo surpreendidos pelo protagonista, em outro momento divertido, que se encerra num emocionante e tradicional tiroteio.

Explorando com competência as belas paisagens, Donner ambienta perfeitamente o espectador ao velho oeste, auxiliado também pela direção de arte de Daniel T. Dorrance, que cria uma bela cidade no início, assim como capricha na aldeia indígena e no barco que receberá o campeonato de pôquer. Também vale citar os figurinos de April Ferry, essenciais na ambientação do espectador, com os vestidos charmosos das mulheres e os ternos elegantes dos homens, especialmente nos jogos. E por falar nos jogos, Donner também consegue deixar as partidas sempre interessantes, graças à montagem eficiente de Stuart Baird e Michael Kelly, como no primeiro jogo em que Maverick perde por uma hora, onde a rápida seqüência de imagens e a trilha divertida de Randy Newman tornam a cena empolgante – e vale registrar o olhar cínico de Gibson quando Maverick olha para o relógio e confirma que passou uma hora, guardando-o rapidamente para que os outros jogadores não percebam que agora ele poderá vencer. Finalmente, o tom leve e bem humorado da narrativa é reforçado pela fotografia de Vilmos Zsigmond, que emprega cores quentes, valorizando o visual árido do oeste.

Leve e espontâneo em diversos momentos, Mel Gibson confirma seu talento para cenas cômicas, já indicado na série “Máquina Mortífera”, arrancando o riso da platéia com facilidade, por exemplo, ao oscilar entre a fúria e o bom humor numa discussão com um rival de jogo ou nas constantes brincadeiras que faz com Annabelle. Além disso, momentos como aquele em que brinca com uma arma com grande habilidade servem para conquistar a simpatia do espectador, o que é essencial na trama, transformando o protagonista num personagem carismático, ainda que politicamente incorreto. Da mesma forma, o talento e o carisma de Jodie Foster se encaixam perfeitamente na charmosa e atrapalhada Annabelle, uma personagem igualmente adorável. Demonstrando excelente química com Gibson, a atriz surge leve e divertida, destacando-se em diversos momentos, como quando tenta seduzir e roubar Maverick eu seu apartamento. E apesar de exagerar nas caretas em alguns instantes, Alfred Molina cria um vilão respeitável como Angel, coerente com o tom leve da narrativa, mas impondo-se quando necessário, como quando surra quatro homens num bar.

A inteligência de Richard Donner fica evidente ainda na genial ponta de Danny Glover, que surge como um ladrão de bancos que “está velho demais pra isso”. Num fascinante exercício metalingüístico, Donner cria uma cena sensacional ao permitir que Gibson e Glover troquem olhares com um ar de “te conheço de algum lugar”, numa referência clara a parceria da dupla em “Máquina Mortífera”, confirmada até mesmo pelo toque da trilha sonora quando o rosto de Glover é revelado e pela frase do bandido, dita após sair do banco. Também inteligente é a escolha de James Garner para viver Cooper, o pai de Maverick, já que o ator interpretou Bret Maverick na série de TV que inspirou o filme, ainda no final dos anos 50. Garner está seguro no papel, demonstrando firmeza como um policial respeitável e coroando sua atuação na cena final, quando demonstra grande afinidade com Gibson. Outra escolha acertada é a de Graham Greene para viver Joseph, o líder indígena, numa referência ao seu papel em “Dança com Lobos”, também confirmada por um rápido acorde da trilha sonora. Leve e despojada, a atuação de Greene é uma síntese de todo o elenco. Eles estavam leves e realmente se divertindo ao fazer o filme – o que reforça o mérito do trabalho de Donner.

Imprimindo o ritmo correto ao longa, Donner e a dupla de montadores dividem muito bem a narrativa, balanceando momentos de ação e bom humor até chegar ao esperado campeonato de pôquer, onde o trabalho dos montadores novamente se destaca, transformando o campeonato em outra seqüência agradável, novamente embalada pela excelente trilha sonora. Apesar disto tudo, o longa não é perfeito, e o pequeno drama que surge quando Maverick é trancado em sua cabine serve apenas para que o herói (?) chegue ao jogo no último minuto, num clichê que, desta vez, soa descartável. Por outro lado, toda a partida final é empolgante e tensa, com exceção do divertido momento em que Maverick elimina Annabelle da mesa. E na última jogada, o silêncio que predomina por alguns instantes amplia a tensão até que a carta mágica de Maverick seja revelada, numa interessante rima narrativa com outra cena, ainda no início, em que ele fala sobre a crença de infância desacreditada pelo pai. Infelizmente, logo após este momento de êxtase, a desnecessária fuga de Cooper com o dinheiro da aposta “brocha” o espectador. Nem mesmo a explicação de seu plano junto ao Comodoro (James Coburn) justifica a ação, já que o problema está no pouco tempo que a platéia tem para curtir a vitória de Maverick. A cena final revela que Cooper é o pai de Maverick e, somada à aparição de Annabelle e aos deliciosos diálogos sobre as semelhanças entre pai e filho, encerra o filme no tom correto, jogando o espectador pra fora com aquela deliciosa sensação de satisfação.

Com cenas memoráveis e muitos momentos capazes de fazer a platéia sorrir, “Maverick” é destes filmes leves, que alegram nosso dia, ainda que não deixem grandes reflexões. Nem deveriam. Com muito bom humor, o versátil Richard Donner tira mais uma carta da manga e, graças também ao ótimo elenco, entrega uma narrativa despretensiosa, envolvente e, acima de tudo, suficiente para nos divertir.

Texto publicado em 13 de Julho de 2011 por Roberto Siqueira

FORREST GUMP – O CONTADOR DE HISTÓRIAS (1994)

(Forrest Gump)

 

Videoteca do Beto #103

Vencedores do Oscar #1994

Dirigido por Robert Zemeckis.

Elenco: Tom Hanks, Robin Wright, Gary Sinise, Sally Field, Haley Joel Osment, Mykelti Williamson e Michael Conner Humphreys.

Roteiro: Eric Roth, baseado em livro de Winston Groom.

Produção: Wendy Finerman, Steve Starkey e Steve Tisch.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O mundo não vivia um bom momento em 1994. Diante de uma recessão econômica global, provocada pela crise mexicana, e da explosão da preocupação com o meio ambiente, era difícil ter fé no futuro da humanidade. Além disso, um ano antes, o sombrio “A Lista de Schindler” tornou-se sucesso mundial ao relembrar um período negro de nossa história, reforçando a aura pessimista que dominava o público. Em meio a este cenário pessimista surgia “Forrest Gump”, que contrariava o sentimento geral e contava, com muita sensibilidade, uma história humana e positiva, estrelada pelo astro norte-americano do momento, o amado Tom Hanks. Não à toa, o filme tornou-se um mega sucesso e abocanhou (injustamente) os principais prêmios Oscar num ano extremamente competitivo e repleto de obras marcantes.

Com um QI inferior ao normalmente aceito nas escolas, o jovem Forrest Gump (Tom Hanks) é criado com carinho por sua mãe (Sally Field), que luta para conseguir lhe dar as mesmas condições de estudo que as outras crianças. Na escola, ele conhece Jenny (Robin Wright), uma jovem que cruzará seu caminho por muitos anos de sua vida, assim como Forrest participará, ainda que por acaso, dos fatos mais importantes da história recente dos Estados Unidos.

Desde seu início elegante, quando a câmera acompanha uma pena voando até os pés do protagonista, “Forrest Gump” é um filme belíssimo. E esta beleza, em grande parte, é mérito do inventivo Robert Zemeckis, que emprega movimentos de câmera estilizados e aproveita a oportunidade para criar planos marcantes, como aquele em que Forrest e Jenny estão sentados de mãos dadas numa árvore com o pôr-do-sol ao fundo ou o travelling que nos leva das crianças rezando no milharal para os pássaros que voam dali, numa ilustração do desejo de Jenny de fugir do pai. Em outros momentos, o diretor usa a câmera para destacar o semblante do protagonista enquanto ele se concentra nas lembranças do passado, como quando um zoom nos aproxima dele antes do primeiro flashback, que conta o episódio dos “sapatos mágicos” – na realidade, um curioso eufemismo para as pernas mecânicas do garoto. Zemeckis cria ainda lindos planos enquanto Forrest atravessa o país em sua corrida seguido por diversas pessoas que o admiram, além de conduzir muito bem cenas emocionantes, como aquela em que Forrest tenta discursar para os hippies e reencontra Jenny (num plano geral belíssimo).

Além da direção eficiente de Zemeckis, a montagem de Arthur Schmidt é um capitulo a parte e merece muitos elogios. Em primeiro lugar, porque a narrativa cobre muitos anos de maneira eficiente e jamais cansativa, intercalando os flashbacks com o presente num ritmo delicioso. Além disso, Schmidt faz a transição no tempo de maneira eficaz, como quando Forrest e Jenny, ainda crianças, estão juntos na cama e, em seguida, estão indo para a escola, já adultos – e aqui também acontecerá uma interessante rima narrativa, quando Jenny pede para Forrest correr dos vizinhos. A montagem faz ainda interessantes transições de Forrest para Jenny e vice-versa, por exemplo, através da televisão que eles assistem ou da lua. Finalmente, a passagem do tempo também é indicada no presente, através das pessoas que ouvem a história do protagonista, que mudam ao longo da narrativa enquanto Forrest continua contando sua vida.

Escrito por Eric Roth, baseado em livro de Winston Groom, o roteiro de “Forrest Gump” balanceia o tom leve e cômico com momentos dramáticos, espalhando ainda frases marcantes como “A vida parece uma caixa de bombons, nunca se sabe o que vamos encontrar” e o grito desesperado de Jenny: “Corra, Forrest, Corra!”. Além das frases marcantes, o roteiro cruza de maneira eficiente a história de Forrest Gump com momentos históricos dos EUA, como quando ele ensina alguns passos para Elvis, se torna destaque de um time de futebol americano, conversa com John Lennon, inventa slogans (“Shit happens”), compra ações da “empresa de fruta” Apple, entre outras coisas.

O tom leve da narrativa é reforçado ainda pela fotografia de Don Burgess, que emprega cores vivas e muitas cenas diurnas na maior parte do tempo. Por outro lado, os momentos difíceis de Forrest são normalmente pontuados pela chuva, como quando ele chega ao exército ou quando surpreende Jenny transando com outro num carro, numa estratégia visual inteligente por parte de Burgess e Zemeckis, pois a chuva sempre realça a melancolia dos personagens. Da mesma maneira, quando Forrest sente falta da mãe e de Jenny no exército, as sombras que predominam na tela ilustram o momento triste do personagem. Mas a melancolia tem pouco espaço em “Forrest Gump”, o que é refletido até mesmo na bela trilha sonora de Alan Silvestri, recheada de clássicos do rock de cada período em que a história se passa (que servem ainda para ilustrar a passagem do tempo), alternados com a triste e linda música tema. Além disso, Silvestri pontua muito bem as cenas, como quando Forrest começa a correr e larga a perna mecânica para trás, acompanhado pela trilha triunfal. Quem também merece destaque é o bom trabalho de design de som e efeitos sonoros, que se destaca especialmente na guerra, e os excelentes efeitos visuais da Industrial Light & Magic, que, por exemplo, amputam as pernas do tenente Dan (Gary Sinise) com perfeição – observe a cena em que ele se movimenta em cima de um muro antes de pular na água e sair nadando -, além de inserir com realismo o protagonista em vídeos reais e históricos de arquivos, colocando Forrest ao lado de alguns ex-presidentes dos EUA, como John Kennedy, e de astros como John Lennon. E além de misturar ficção e realidade com competência, “Forrest Gump” faz ainda diversas menções a grandes filmes norte-americanos como “Nascido para Matar” (na chegada ao exército, com o tenente gritando), “Apocalypse Now” (na chegada ao Vietnã, com a trilha psicodélica, as cervejas espalhadas pelo acampamento e o sol brilhando ao fundo) e “Perdidos na Noite” (quando Forrest sai com Dan pelas ruas e um carro quase os atropela, provocando a reação do tenente, que grita “Estou andando aqui!”, com a trilha do clássico estrelado por Dustin Hoffman e Jon Voight ao fundo), além de inserir imagens de “O Nascimento de uma Nação” quando Forrest cita a Klu Klux Klan.

Pra completar, praticamente todas as atuações de “Forrest Gump” são excelentes, a começar por Michael Conner Humphreys, que interpreta muito bem o jovem Forrest Gump, transmitindo a dificuldade do garoto de se relacionar socialmente através do olhar perdido e da movimentação lenta. Já adulto, Gump é interpretado pelo excepcional Tom Hanks, numa atuação marcante, notável através da entonação de sua voz, que prende nossa atenção enquanto conta as histórias, do olhar distante e da simplicidade com que compõe um personagem marcante e belo. Repare, por exemplo, como Hanks olha para o lado, ofegante e assustado, quando Jenny tira o sutiã, demonstrando o incomodo do personagem com aquela situação inusitada pra ele. Inocente, Forrest não percebe os abusos do pai de Jenny na infância (“Ele era um pai carinhoso, vivia tocando e beijando as filhas”, diz) e nem o cruel destino da garota, afirmando que ela realizou seu sonho ao vê-la cantando no palco de uma boate. Por outro lado, Forrest apresenta uma capacidade de concentração incrível que lhe permite, por exemplo, montar e desmontar uma arma com enorme velocidade e jogar pingue-pongue com incrível habilidade. Hanks demonstra muito bem todos estes aspectos fascinantes de um protagonista que enxerga o mundo da sua maneira singela e inocente, emocionando a platéia quando Forrest pergunta para Jenny se seu filho (Haley Joel Osment) é esperto e, principalmente, quando conversa com o túmulo da esposa. E até mesmo as cores leves de suas roupas (figurinos de Joanna Johnston) e a clareza de sua casa (direção de arte de Leslie McDonald e William James Teegarden) ilustram a pureza de sua alma.

Além do excelente protagonista, “Forrest Gump” conta ainda com uma gama interessante de personagens coadjuvantes, como o divertido Bubba (Mykelti Williamson), que morre na guerra, mas vive uma amizade tão verdadeira com Forrest que é homenageado por ele através da “Cia. de Camarões Bubba Gump”. Na chegada de Forrest ao exército, é ele quem cede lugar para Gump no ônibus, assim como Jenny havia feito na infância no ônibus escolar, em outra elegante rima narrativa. Interpretada com carisma por Robin Wright, Jenny gosta de Forrest e se preocupa com ele, como deixa claro quando se despede numa ponte antes dele partir pra guerra, pedindo que ele corra sempre que estiver em perigo. Mas o destino foi cruel com a garota e os traumas da infância ainda pesavam em sua vida, algo que fica evidente quando ela joga pedras na casa do pai. E é tocante o momento em que Jenny anuncia ter um vírus que “os médicos não conhecem bem”, provavelmente se referindo à AIDS (na época, um mistério para a medicina). Quem também tem uma grande atuação é Gary Sinise na pele do revoltado tenente Dan, que, após ter as pernas amputadas, se revolta contra Deus. Observe como o ator soa convincente, por exemplo, quando reclama na cama do hospital e, principalmente, quando desafia o todo Poderoso em alto-mar. Fechando os destaques do elenco, vale citar ainda a envelhecida Sally Field, que se sai muito bem na pele da batalhadora mãe de Forrest, especialmente na cena em que se despede do filho, momentos antes de morrer. E se a maquiagem acerta no envelhecimento de Field, erra ao não envelhecer Forrest ao longo dos anos, mas esta é uma falha insignificante num filme tão belo.

Após cruzar toda a história norte-americana recente, Forrest Gump se vê novamente esperando o ônibus escolar numa pequena cidade do interior, desta vez para que seu filho possa ir à escola. E quando o garoto entra no ônibus, deixando claro sua esperteza diante dos olhos do pai e do espectador, a pena voa novamente e encerra o filme. Durante mais de duas horas, fomos levados por uma história bela, empolgante e repleta de significados, e quando os créditos surgem na tela, sentimos que a viagem valeu à pena.

“Forrest Gump” é uma bela fábula da história recente dos Estados Unidos, que conta com um otimismo raro em grandes filmes, sustentado pela direção eficiente de Robert Zemeckis e pela grande atuação de Tom Hanks. A vida pode ser trágica e pode ser bela, dependendo da forma como encaramos cada etapa de nossa jornada. Incapaz de olhar o mundo com nosso costumeiro cinismo, o inocente Gump certamente levará ótimas lembranças da vida.

Texto publicado em 11 de Julho de 2011 por Roberto Siqueira

ENTREVISTA COM O VAMPIRO (1994)

(Interview with the Vampire: The Vampire Chronicles)

 

Videoteca do Beto #102

Dirigido por Neil Jordan.

Elenco: Tom Cruise, Brad Pitt, Antonio Banderas, Stephen Rea, Christian Slater, Kirsten Dunst, Thandie Newton, Virginia McCollam, John McConnell, Mike Seelig e Bellina Logan.

Roteiro: Anne Rice, baseado em livro de Anne Rice.

Produção: David Geffen e Stephen Wooley.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A trajetória da lenda dos vampiros no cinema é curiosa. Após um início mórbido, onde eram retratados como seres malditos e relegados ao papel de senhores das trevas (“Nosferatu, uma Sinfonia de Horrores” é um bom exemplo disto), a figura do vampiro foi ganhando “glamour” e versões cada vez mais romantizadas destes seres (especialmente do Conde Drácula) passaram a predominar as produções, o que talvez explique o pensamento generalizado de que ser um vampiro é algo “legal”. E é justamente este pensamento que “Entrevista com o Vampiro” tenta questionar, através da história de dois vampiros que vivem uma espécie de relação de amor e ódio por séculos.

Num apartamento em São Francisco, o repórter Daniel Malloy (Christian Slater) tenta entrevistar o misterioso Louis (Brad Pitt), que afirma ser um vampiro com mais de duzentos anos de vida. Ao contar sua trajetória, ele revela como conheceu Lestat (Tom Cruise), com quem viveu a maior parte do tempo uma relação instável, principalmente após a chegada da pequena Claudia (Kirsten Dunst).

Escrito por Anne Rice, baseado em seu próprio best-seller, “Entrevista com o Vampiro” aborda a lenda dos vampiros sem maquiá-la, de maneira crua e realista, questionando o glamour que eles conquistaram ao longo dos anos e mostrando que ser um vampiro não é algo tão belo e romântico. A estrutura narrativa se divide entre o presente, onde Malloy entrevista Louis num apartamento, e o passado, que surge através de longos flashbacks, que inteligentemente ocupam mais tempo na narrativa, graças ao bom trabalho dos montadores Mick Audsley e Joke van Wijk, que priorizam a linha mais interessante da história. A dupla de montadores acerta ainda ao cobrir muitos anos (na verdade, séculos) da história de Lestat e Louis sem jamais tornar a narrativa cansativa, realizando saltos no tempo de maneira orgânica, como quando Louis retorna ao local onde mordeu Claudia e diz que evitou aquele lugar por 30 anos (em tempo de projeção, passaram-se apenas alguns minutos). Por outro lado, com a saída momentânea de Lestat após um conflito com Claudia, a narrativa enfraquece, já que ele é o grande personagem da trama. Por isso, praticamente toda a seqüência que se passa na Europa – que aborda a atração entre Armand (Antonio Banderas) e Louis – tem um ritmo inferior ao restante do longa.

Como era de se esperar num filme sério sobre vampiros, a fotografia de Philippe Rousselot é bastante obscura, já que a história se passa quase que exclusivamente à noite. Além disso, Rousselot utiliza pouca iluminação, reforçando a atmosfera “dark” que predomina na maior parte do longa, o que permite ao diretor Neil Jordan criar planos marcantes em cemitérios, vielas e mesmo ao ar livre, normalmente somente sob a luz do luar. Este clima sombrio é ampliado pela trilha sonora de Elliot Goldenthal, que utiliza um coral de vozes para cantar musicas eruditas, sempre acompanhado por um piano clássico dos filmes de terror. Goldenthal acerta ainda ao inserir rápidas batidas que simulam um coração pulsando quando Lestat transforma Louis em vampiro, simbolizando o nascimento de um novo ser – e esta estratégia se confirma no “nascimento” de Claudia, quando as batidas voltam a aparecer. Mas, infelizmente, em diversos momentos a trilha apela para altos acordes tentando assustar o espectador, como quando Lestat ressurge pela primeira vez para assombrar Louis e Claudia, o que funciona, mas soa falso e chama demais a atenção, nos tirando do clima do filme.

Empregando elegantes travellings, como aquele que nos leva pela cidade de São Francisco e se encerra no quarto onde Malloy entrevistará Louis, Neil Jordan apresenta uma direção eficiente na maior parte do tempo, mas perde a mão na condução do segundo ato, não conseguindo amenizar a perda de seu melhor personagem. Ainda assim, Jordan cria uma atmosfera coerente com a proposta da narrativa, com seus planos obscuros e o predomínio das sombras em grande parte do longa. Além disso, o diretor acerta na criação de planos emblemáticos, como aquele que destaca a veia da empregada de Louis, ilustrando a maneira como os vampiros vêem as pessoas quando estão famintos. O diretor acerta ainda ao não economizar na violência gráfica – afinal de contas, numa história sobre seres que se alimentam de sangue, o líquido vital vermelho não poderia faltar -, criando um visual assustador, que pode ser exemplificado na primeira “morte” de Lestat, quando Claudia corta sua garganta e o joga no rio, onde também merece destaque a excelente maquiagem de Michele Burke, que transforma Tom Cruise, mas mantém os traços principais que permitem ao espectador reconhecer o personagem. Aliás, auxiliado pelos ótimos efeitos visuais, o trabalho da equipe comandada por Burke é um dos destaques do longa, tornando os vampiros em seres verossímeis e transformando completamente os personagens durante a narrativa. Finalmente, Jordan acerta na escolha das locações, como o assustador lar dos vampiros embaixo do teatro, que revela o excelente trabalho de direção de arte de Malcolm Middleton. Observe, por exemplo, o cuidado com os detalhes, como as velas espalhadas entre as covas que dão um toque especial ao local, criando uma atmosfera coerente com a vida dos vampiros. E até mesmo a peça que precede a aparição das covas é sinistra, terminando com o assassinato de uma bela moça e nos preparando para a apresentação do local.

E já que citei o excepcional trabalho de direção de arte de Middleton, vale destacar também a perfeita recriação de diversas épocas, começando pela New Orleans do final do século XVIII, com as tavernas e carroças que se espalham a beira mar, passando pela gótica Paris do século XIX e chegando à San Francisco dos dias atuais, com os edifícios modernos e os carros que passam em alta velocidade pelas ruas da cidade. Observe ainda a riqueza de detalhes na mansão onde Lestat e Louis iniciam sua vida, por exemplo, durante a cena do jantar, onde os talheres requintados e as taças imponentes revelam muito sobre o passado de riquezas de Louis – o que nos ajuda a compreender a tristeza do personagem, que provavelmente se sentia solitário naquela enorme mansão. Auxiliado ainda pelos figurinos de Sandy Powell, que também mudam de acordo com a época e reconstituem cada período de maneira impecável, “Entrevista com o Vampiro” ambienta o espectador com competência.

Todo este cenário cria a atmosfera perfeita para que o elenco apresente um bom desempenho na pele destas lendárias criaturas. E quem melhor aproveita a oportunidade é Tom Cruise, que tem um excelente desempenho como Lestat, criando um personagem aterrorizante com seu olhar penetrante e sua risada sarcástica. Inteligente e sedutor, Lestat compreende muito bem sua situação (ou pelo menos a aceita e tenta se adaptar), ao contrário de Louis, que luta contra sua nova realidade desde o momento em que é transformado. Aliás, a introdução de Lestat é rápida demais e, por isso, não cria expectativa no espectador, mas pelo menos provoca um efeito surpresa quando ele surge na tela, evidenciando sua sede de sangue. Mas existe algo que incomoda Lestat: a solidão. E somente por precisar de uma companhia é que ele transforma Louis em vampiro. Já o Louis de Brad Pitt se mostra desconfortável desde o seu “nascimento” no cemitério, quando passa a ver o mundo de outra maneira. Pitt demonstra bem o conflito de Louis através da voz contida e do olhar desconfiado de quem tenta evitar seu instinto assassino ao mesmo tempo em que vê sua sede de sangue crescer, o que faz com que tenha momentos explosivos, principalmente quando provocado por Lestat. Lentamente, Louis compreende o que é ser um vampiro e o perigo que isto representa para aqueles que estão a sua volta, o que o leva a incendiar sua mansão e pedir que seus escravos fujam, num plano marcante em que Louis grita que é o diabo com o reflexo das chamas em seus olhos. Juntos, Cruise e Pitt são responsáveis pelos melhores momentos do longa, como o sensacional duelo verbal na cena em que Lestat tenta convencer Louis a terminar de matar uma jovem, quando o experiente vampiro desafia o novato gritando para que ele aceite o fato de que é um assassino. Louis aceita o fato de maneira inusitada, atacando uma criança e, logo em seguida, afirmando que só sentia paz daquela maneira. A criança, interpretada brilhantemente por Kirsten Dunst, se chama Claudia, e é transformada em vampiro por Lestat, passando a integrar o grupo e a desafiar seu mentor. Demonstrando a mesma sede de sangue de Lestat, Claudia se mostra uma ameaça real ao experiente vampiro, especialmente quando começa a questionar o fato de não envelhecer (o que não lhe permitirá ter um corpo de mulher), iniciando uma série de reflexões que a narrativa propõe a respeito dos vampiros – e Dunst se destaca especialmente nestes momentos em que desafia Lestat, mostrando convicção e soando ameaçadora, por exemplo, quando tenta cortar o próprio cabelo para mudar o visual e corta o rosto do vampiro. Completando o elenco, Antonio Banderas tem uma atuação discreta como Armand, o personagem que evidencia o subtexto homossexual de “Entrevista com o Vampiro” através de sua relação com Louis. Apesar de jamais consumarem a atração fisicamente, fica claro que existe uma química entre eles, o que também acontece, de maneira mais sutil, entre Lestat e Louis – na realidade, a relação entre os dois principais personagens do longa é mais explosiva e menos afetiva. E assim como Claudia, Armand também nos faz refletir sobre alguns aspectos da natureza dos vampiros.

E que reflexões são estas? Tome como exemplo o momento em que Armand afirma que tudo que os vampiros conhecem na vida morre um dia, mas eles sempre continuam vivos. “Esta é a ironia”, afirma ele, resumindo uma das mensagens do filme. Afinal, qual é a graça de viver eternamente, se tudo que amamos ou criamos laços vai embora? Existem ainda outros aspectos melancólicos abordados pela narrativa, como o fato deles não poderem ver a luz do dia e a beleza de um nascer ou pôr-do-sol (“Uma maravilha tecnológica me permitiu ver o sol nascer novamente”, diz Louis, se referindo ao cinema). E até mesmo o citado visual obscuro do filme reflete a infelicidade de Louis, que fica evidente quando o repórter Malloy afirma, no final da entrevista, que gostaria de ser igual a ele, de ter o poder dele, e Louis se irrita profundamente, gritando que falhou novamente em sua missão. Felizmente, “Entrevista com o Vampiro” não falha neste aspecto, desmistificando a imagem romantizada dos vampiros. Se o homem sente fascinação pela vida eterna e pelo poder dos vampiros, eles próprios não enxergam desta maneira.

Antes dos créditos finais, Lestat ainda ressurge para encerrar o filme, pois, afinal de contas, é o grande personagem do longa. E o faz de maneira empolgante, deixando o espectador com uma sensação de alegria momentânea, que contraria o clima pesado da narrativa. Mas em grande parte do tempo, “Entrevista com o Vampiro” cumpre bem o seu propósito, com sua atmosfera pesada, seu visual sombrio e uma narrativa interessante, que nos propõe uma nova linha de raciocínio a respeito destes seres que, com o tempo, ganharam um status que contraria sua concepção original.

Texto publicado em 08 de Julho de 2011 por Roberto Siqueira

DEBI & LÓIDE – DOIS IDIOTAS EM APUROS (1994)

(Dumb and Dumber)

 

Videoteca do Beto #101

Dirigido por Peter Farrelly.

Elenco: Jim Carrey, Jeff Daniels, Lauren Holly, Mike Starr, Charles Rocket, Karen Duffy, Felton Perry, Teri Garr, Hank Brandt, Joe Baker, Victoria Roswell, Cam Neely e Harland Williams.

Roteiro: Peter Farrelly, Bobby Farrelly e Bennett Yelin.

Produção: Brad Krevoy, Steven Stabler e Charles B. Wessler.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Fazer rir não é fácil. Em primeiro lugar, o estado de espírito da pessoa pode influenciar bastante na maneira como ela recebe uma piada. Em certos dias, podemos rir de qualquer coisa, por mais simples que seja, mas em outros, parece que sorrir é uma tarefa hercúlea. Além disto, o tipo de humor que agrada ao espectador varia bastante. Existem aqueles (como eu) que gostam de um humor mais sarcástico, mais sutil e menos físico. Já outros preferem um humor pastelão, bem mais espalhafatoso – e não vejo nada de errado nisto, é bom dizer. E como isto não é uma regra imutável, qualquer tipo de humor pode agradar a qualquer pessoa, dependendo da forma como a piada (ou cena, ou filme) é contada. Este é o segredo deste excelente “Debi & Lóide”, um filme que faz piada “idiota”, mas que respeita a inteligência do espectador e não o trata como tal.

Lloyd Christmas (Jim Carrey) é um motorista frustrado que vê sua vida mudar completamente quando resgata uma mala deixada pela bela Mary Swanson (Lauren Holly) no saguão de um aeroporto, antes dela seguir viagem para Aspen. Ao lado de seu grande amigo Harry Dunne (Jeff Daniels), ele parte numa viagem que cruzará o país na tentativa de devolver o objeto para a moça, provocando muitas confusões pelas estradas norte-americanas. Pra piorar a situação, a mala continha o dinheiro do pagamento de um resgate e os seqüestradores partem em busca da dupla.

Escrito pelos irmãos Peter e Bobby Farrelly, auxiliados por Bennett Yelin, “Debi & Lóide” conta a história de dois verdadeiros idiotas, que decidem cruzar os Estados Unidos somente para devolver uma mala para uma desconhecida, que tentava fazer o pagamento de um resgate (descobriríamos depois que, como acontece na maioria dos casos, o seqüestro é organizado por alguém próximo da família). Partindo desta premissa simples, o criativo roteiro nos apresenta a uma série de situações inusitadas e divertidas desde a apresentação dos personagens principais que, nos dois casos, enfrentam problemas no trabalho antes de voltar para casa. Além disso, o roteiro é repleto de humor negro, como fica claro desde a ida ao aeroporto, quando Lloyd provoca diversos acidentes enquanto conversa com Mary, chegando ao auge do politicamente incorreto quando a dupla provoca a morte de um dos seqüestradores no restaurante “Dante’s Inferno”, dando pimentas para quem sofre com úlcera e, na tentativa de ajudá-lo, medicando-o acidentalmente com veneno pra ratos. Finalmente, vale destacar que o roteiro faz ainda uma interessante referência ao clássico “O Silêncio dos Inocentes”, quando Lloyd e Harry dizem que comeriam o fígado de uma mulher com Chianti e fazem um gesto com a boca similar ao de Hannibal Lecter.

Além de escrever o criativo roteiro, Peter Farrelly demonstra competência na condução da narrativa, mantendo o ritmo sempre dinâmico e a atmosfera alegre na maior parte do tempo. Inteligente, ele sabe que o sentimentalismo não combina com o clima do filme e, por isso, evita as cenas melodramáticas na maior parte do tempo – e mesmo quando elas aparecem, como quando Lloyd reclama da vida antes de partir pra Aspen, são sempre interrompidas por alguma piada. Além disso, Farrelly se sai bem na condução das cenas mais divertidas, como na genial seqüência da lanchonete, quando Lloyd consegue sair sem pagar e deixa tudo na conta do grandalhão Sea Bass (Cam Neely). O diretor conta ainda com a montagem de Christopher Greenbury para criar muitos momentos engraçados, como quando Lloyd pede para uma velhinha cuidar de suas coisas e, em seguida, entra em casa gritando “Fui roubado! Por uma velinha sentada numa cadeira de rodas!”. E até mesmo na criação de planos simbólicos Peter se sai bem, como quando diminui Harry na tela quando ele volta pra casa, ilustrando seu sentimento de solidão na estrada, ou quando Mary está deitada entre os amigos na cama, simbolizando que aquela amizade estava novamente dividida por uma mulher, ainda que temporariamente – sem falar no engraçado sonho de Lloyd, quando as asas dos pombos atrás de Mary simbolizam que ela é um anjo na vida dele. Pra completar, a fotografia de Mark Irwin utiliza cores vivas e muitas cenas diurnas, reforçando a atmosfera leve da narrativa.

A coleção de cenas engraçadas é tão grande que fica difícil citar apenas algumas. Basta dizer que a narrativa apresenta uma sucessão quase ininterrupta de boas piadas, graças ao trabalho do montador Greenbury, em conjunto com a direção eficiente de Farrelly, que emprega um ritmo acelerado à narrativa, além, é claro, de contar também com o talento da dupla principal de atores. Ainda assim, vale destacar a divertida cena em que um policial para a dupla na estrada para multá-los, tomando a “cerveja” em seguida, numa das piadas escatológicas do longa – a outra piada deste tipo que também é sensacional acontece na casa de Mary, após um plano cruel de Lloyd.

Todas estas excelentes cenas ficam ainda melhores graças ao inspirado desempenho do ótimo Jim Carrey, que provou ao longo da carreira que é um ator não apenas talentoso, mas também versátil. É incrível como Carrey tem enorme facilidade para provocar o riso, seja através de suas expressões faciais, seja através de seu excelente timing cômico, como, por exemplo, na cena em que Lloyd conta para Harry que vendeu um pássaro morto para um menino cego (repare a tossida que o ator dá tentando disfarçar a revelação trágica). Aliás, a casa simples e bagunçada indica muito sobre a personalidade atrapalhada de Lloyd e Harry, o que evidencia o bom trabalho de direção de arte de Arlan Jay Vetter. “Que tipo de idiota criaria minhocas na sala?”, questiona uma das seqüestradoras ao invadir o local. Pra ajudar, seu cabelo (que remete a Jerry Lewis) e o dente quebrado dão um upgrade no visual cômico. Jeff Daniels também está muito bem, conseguindo sucesso na difícil missão de contracenar com um comediante tão talentoso como Carrey, além de protagonizar muitas das cenas marcantes de “Debi & Lóide” com competência, como quando prende a língua num teleférico e quando a privada quebra na casa de Mary. Demonstrando excelente química em cena, a dupla parece se conhecer a muito tempo, tamanho o entrosamento que apresentam. Repare, por exemplo, a alegria de Harry quando Lloyd troca o carro por uma moto, após os dois se perderem na estrada (“Achei que as rochosas eram mais rochosas”, diz Harry, após voltar metade do caminho). Eles se completam.

E se sem dinheiro a dupla consegue se divertir tanto na viagem, imagine o que acontece quando eles descobrem o que tem dentro da mala, já na cidade de Aspen? Embalados pela excelente trilha sonora de Todd Rundgren, repleta de músicas agitadas que colaboram com o clima leve da narrativa, a dupla parte para comprar novas roupas (sob o som de “Pretty Woman”), pois a noite haveria uma festa de gala, onde estariam presentes Mary e os seqüestradores (obviamente, eles não sabiam disto). E assim como a casa deles, as roupas escolhidas (figurinos de Mary Zophres) ilustram uma característica de Lloyd e Harry: a alegria. E após a hilária e surreal cena em que Lloyd mata uma coruja rara, os seqüestradores afirmam: “Foi um recado puro e simples. Matamos o pássaro deles e eles mataram o nosso”. Mas eles não eram bandidos e, acertadamente, se sairão bem de toda esta enrascada, ainda que voltem sem dinheiro, sem Mary e, pior que isto, a pé pra casa. Pra completar, o longa termina com uma piada perfeita, quando um ônibus lotado de mulheres de biquíni para na estrada a procura de dois rapazes para passar bronzeador nelas. Enquanto os créditos sobem na tela e os amigos se divertem na estrada, o espectador mantém o sorriso no rosto, o que é sinal de que o filme atingiu seu objetivo.

Leve e descontraído, “Debi & Lóide” é uma comédia eficiente, que conta com uma direção correta e duas atuações inspiradas para nos divertir. Misturando o humor pastelão com piadas que desafiam o limite do politicamente correto, o longa se transformou num dos símbolos da comédia nos anos 90. De quebra, lançou a consistente carreira dos irmãos Farrelly e consolidou a ascensão do ótimo Jim Carrey. Não é pouca coisa.

Texto publicado em 05 de Julho de 2011 por Roberto Siqueira

ASSASSINOS POR NATUREZA (1994)

(Natural Born Killers)

 

Videoteca do Beto #100

Dirigido por Oliver Stone.

Elenco: Woody Harrelson, Juliette Lewis, Tom Sizemore, Robert Downey Jr., Tommy Lee Jones, Rodney Dangerfield, Everett Quinton, Edie McClurg, Lanny Flaherty, O-Lan Jones, Richard Lineback, Kirk Baltz, Maria Pitillo, Melinda Renna, Dale Dye, Lorraine Farris, Steven Wright, Joe Grifasi, Robert Swan, Russell Means e Jared Harris.

Roteiro: David Veloz, Richard Rutowski e Oliver Stone, baseado em história de Quentin Tarantino.

Produção: Jane Hamsher, Don Murphy e Clayton Townse.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Oliver Stone já era bastante conhecido por provocar polêmicas quando decidiu lançar este excelente “Assassinos por Natureza”, uma ácida crítica a imprensa sensacionalista e ao culto aos assassinos em série, tão comuns nos Estados Unidos e em grande parte do mundo. E felizmente o diretor acertou novamente, entregando um filme empolgante, visualmente rico e que cumpre o seu propósito, mostrando com clareza (e uma dose de humor negro) os piores hábitos desta parte da imprensa (e de seu público) a partir da história de um perigoso casal de assassinos.

Após ser abusada constantemente pelo pai, a jovem Mallory (Juliette Lewis) conhece Mickey (Woody Harrelson) e se apaixona perdidamente. Cansado dos abusos sofridos por sua amada, Mickey assassina o pai e a mãe dela, com o auxílio da própria Mallory. Nascia ali uma dupla infernal de assassinos, que mataria dezenas de pessoas em poucas semanas pelas estradas empoeiradas dos Estados Unidos, sempre deixando alguém vivo no caminho para contar a história, o que, como eles previam, atrai a atenção da mídia sensacionalista, especialmente do repórter Wayne Gale (Robert Downey Jr.), que os coloca como atração principal do programa “American Maniacs”.

Não é novidade para ninguém que as tragédias (e os assassinatos fazem parte deste universo) exercem algum estranho fascínio na grande maioria das pessoas. Para constatar isto, basta observar o tumulto que se forma em volta de qualquer acidente no trânsito ou a grande audiência de telejornais especializados neste tipo de assunto. Mas existe uma considerável diferença entre noticiar uma tragédia (cumprindo o dever jornalístico) e explorá-la ao máximo, numa tentativa desesperada de conseguir audiência. Escrito por David Veloz, Richard Rutowski e Oliver Stone, baseado em história de Quentin Tarantino (ele mesmo!), “Assassinos por Natureza” é uma crítica feroz a esta parte da imprensa, que não mede esforços para explorar ao máximo os crimes que chamam a atenção do público, sem se importar com o sofrimento das vítimas e dos familiares. O longa narra a história do casal Mickey e Mallory, dois perigosos assassinos em série, que cruzam as estradas norte-americanas deixando vítimas por toda parte (sempre deixando alguém vivo para contar o que aconteceu e espalhar a fama do casal) e acabam se transformando em celebridades. Logo no início, o diretor Oliver Stone deixa claro que a dupla segue os seus instintos mais primitivos ao mostrar imagens de animais perigosos, remetendo ao instinto predador do casal. Aliás, Stone capricha no aspecto visual, criando diversos planos interessantes e diferenciados, como na primeira cena, onde o diretor apresenta planos em ângulo baixo e inclinados, além de misturar cenas muito coloridas com outras em preto e branco, numa característica marcante do longa, que é também mérito da excelente direção de fotografia de Robert Richardson.

Contando ainda com os bons efeitos visuais da Pacific Data Images, Stone cria cenas de violência bastante estilizadas, como no massacre do bar, onde vemos uma bala girando segundos antes de atingir uma atendente ou quando uma faca lentamente se choca contra o vidro de uma janela, segundos antes de atingir as costas de um homem que fugia da fúria do casal. Estilizadas também são as inúmeras cenas repletas de imagens psicodélicas, normalmente embaladas pela excelente trilha sonora de Brent Lewis, que ilustram a mente perturbada do casal. Aliás, além das excelentes músicas que pontuam a narrativa, vale destacar o ótimo trabalho de sons e efeitos sonoros, notável, por exemplo, na tempestade no deserto, onde podemos ouvir o vento, os cavalos galopando e os gritos das pessoas, e na rebelião na prisão, que capta perfeitamente o clima de tensão através dos tiros e dos gritos dos presos. E, finalmente, além de conduzir com muita energia a empolgante narrativa, Stone ainda cria belos planos, como no criativo casamento dos assassinos na ponte, onde também vale destacar o momento em que Mickey respira fundo quando um carro passa por trás deles e grita, se esforçando para conter seu instinto assassino (“Não vou matar ninguém no dia do nosso casamento”).

Além do apuro visual, existem pequenas seqüências que são um verdadeiro show de criatividade narrativa, como, por exemplo, o quadro “I Love Mallory”, que remete aos sitcoms norte-americanos, com risadas e aplausos ao fundo, ao mesmo tempo em que nos mostra a vida dura de Mallory, abusada pelo pai e “salva” por Mickey (em outra seqüência violenta, encerrada com o assassinato dos pais dela e as chamas que indicam a vida infernal da dupla dali em diante). Auxiliado pela espetacular montagem de Brian Berdan e Hank Corwin, Stone imprime um ritmo intenso à narrativa, intercalando imagens tanto de cenas que já vimos como de figuras não diegéticas (como desenhos animados), dando ao espectador a mesma sensação de euforia do casal principal. Este festival de cores, músicas, composição de planos distorcidos que fogem da realidade e imagens psicodélicas cria um mundo assustador, que, reforçado pelos figurinos coloridos e descolados de Richard Hornung, reflete a mente dos psicopatas assassinos.

Aliás, Woody Harrelson e Juliette Lewis demonstram excelente química em cena, mostrando empatia ao mesmo tempo em que soam assustadores e ameaçadores (“Só o amor pode matar o demônio”, diz Mickey). Alucinada na pele de Mallory, Lewis alterna bem entre o lado meigo e gentil da garota (quando está com Mickey) e os momentos de pura insanidade (observe sua risada demoníaca ao constatar que seu pai morreu). O trauma dos abusos do pai, aliás, acompanha a jovem por toda a vida, provocando brigas com seu parceiro e sendo fundamental na cena em que ela se entrega a um garoto no posto, mudando de idéia no meio do caminho e atirando nele (“Foi o pior sexo oral que já tive!”). Harrelson também está ameaçador na pele do maluco Mickey e, da mesma forma, oscila entre momentos de fúria e de autocontrole, por exemplo, durante a entrevista, quando fala com o tom de voz baixo e tranqüilo, e na rebelião, quando tira a arma de Wayne Gale, alegando que ele está descontrolado. Lewis e Harrelson se saem bem até mesmo nas brigas do casal (especialmente na seqüência do deserto) – e este desempenho é essencial para que o espectador não se afaste completamente da dupla após acompanhar todos os seus crimes. Curiosamente, podemos não concordar com seus atos, mas acabamos torcendo pelo casal em diversos momentos – o que, de certa forma, explica a fixação da maioria das pessoas, criticada pelo filme. Não concordamos com suas atitudes, mas temos curiosidade pelo tema, que é explorado pela imprensa na eterna busca por audiência. E esta fixação, somada à cobertura da imprensa sensacionalista, faz Mickey e Mallory se transformarem em celebridades. Eles não fizeram nada de bom para a humanidade (pelo contrário, tudo que fizeram foi matar pessoas), mas conquistaram muitos fãs pelo país.

Representando esta fatia da imprensa, Robert Downey Jr. vive o jornalista sem escrúpulos que apresenta um programa sensacionalista sobre os criminosos norte-americanos, deixando claro o pensamento predominante neste setor com frases como “Coloque qualquer coisa, é fastfood para o cérebro” e se referido ao seu público como “zumbis que vêem qualquer coisa”. Com suas reações viscerais que visam chamar a atenção do espectador, Downey Jr. faz bem o típico repórter destes programas, chegando a ficar alucinado quando tem uma arma na mão durante uma rebelião, atirando pra todos os lados e matando até mesmo policiais. E entre os policiais, o maior destaque fica mesmo para Tommy Lee Jones, que vive o chefe da prisão Dwight McClusky, um homem tão louco quanto aqueles que ele mantém presos, que não tem medo de andar entre eles e suspeita quando tudo está “bem” (“Este silêncio é perigoso”). Só que Jones exagera na tentativa de ilustrar a loucura e a raiva do personagem, chegando ao auge das “caras e bocas” após a explosão da rebelião, quando mais parece um lunático do que um homem assustado.

Ao contrário da loucura da maioria, o velho índio interpretado por Russell Means é talvez o personagem mais tranqüilo da narrativa, abrigando e alimentando o casal de assassinos. Mas a história que ele conta sobre a mulher que cuidou de uma cobra serve como metáfora para sua própria morte, algo que ele já previa e que fica claro quando revela um sonho e, principalmente, quando olha para o quadro da falecida esposa segundos antes de morrer, indicando seu desejo de encontrá-la. Só que Mickey não queria matar aquele homem e se desespera ao constatar o que fez, provocando também a revolta de Mallory. Atordoados, eles saem pelo deserto e se deparam com muitas cobras, que atacam impiedosamente o casal. Mas, nas palavras de Mickey, “vaso ruim não quebra” e eles conseguem chegar a uma farmácia na cidade, onde acabarão presos (ao vivo!) pelo violento detetive Jack Scagnetti, interpretado por Tom Sizemore, que cria um estilo agressivo e sacana, chegando a matar uma jovem num hotel e a tentar se relacionar sexualmente com Mallory na prisão (“Ela faz meu tipo”, diz). E é justamente na prisão que a ácida crítica de “Assassinos por Natureza” chega ao auge, com a entrevista ao vivo de Mickey feita por Gale, repleta de momentos interessantes, como a crítica às corporações que matam animais e destroem as florestas por razões econômicas e o momento em que Mickey fala sobre a natureza violenta do homem, se proclamando um assassino por natureza (vale destacar que Harrelson e Downey Jr têm um excelente desempenho na cena, mantendo a entrevista dinâmica e interessante). Repare ainda a crítica nada velada ao espectador de programas sensacionalistas, quando Mickey diz que “muitas pessoas já morreram por dentro” e Stone insere um plano triste, em preto e branco, de uma família que assiste atentamente a entrevista. Mas estas pessoas não veriam o fim da tão aguardada entrevista, pois uma rebelião explode no meio dela e transforma o local num verdadeiro inferno, algo ilustrado pela câmera agitada de Stone, que acompanha a fuga de Mickey e Mallory, e pela montagem ainda mais dinâmica, que intercala planos com mais rapidez. E mesmo no meio de toda esta confusão, a emissora ainda quer transmitir a rebelião ao vivo, colocando em risco a vida de seu repórter – e o desespero da apresentadora do programa que faz contato com Gale não se deve ao risco que corria o colega de profissão, mas sim à pressa dela para tentar transmitir o evento ao vivo o mais rápido possível.

Num simbolismo perfeito da parceria formada pela imprensa sensacionalista e os criminosos, Mickey e Mallory usam Gale como refém para fugir do local. E se a palavra “parceria” parece forte demais, este pensamento se desfaz ao constatarmos que o criminoso precisa da imprensa para ficar famoso e a imprensa precisa dele para ter audiência. Mas, seguindo seu instinto assassino, a dupla mata o jornalista e tudo que ele representa, deixando a câmera como testemunha do assassinato – afinal de contas, alguém precisa contar a história depois. E as imagens reais de programas norte-americanos sensacionalistas que aparecem no final do filme apenas comprovam a fixação da imprensa pelas tragédias e pelos criminosos, que existe em praticamente todos os cantos do planeta.

Com seu estilo ousado e corajoso, Oliver Stone critica o culto aos criminosos promovido pela imprensa sensacionalista neste “Assassinos por Natureza”, que conta ainda com um visual magnífico e excelentes atuações de Woody Harrelson e Juliette Lewis. Não há dúvida que tirar uma vida é um crime abominável. Mas também é abominável que pessoas usem este crime horrível para ganhar dinheiro, fazendo a fama de assassinos em todo o mundo e banalizando a vida.

Texto publicado em 03 de Julho de 2011 por Roberto Siqueira