PÂNICO (1996)

(Scream)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #145

Dirigido por Wes Craven.

Elenco: Neve Campbell, Courteney Cox, David Arquette, Drew Barrymore, Skeet Ulrich, Rose McGowan, Matthew Lillard, Liev Schreiber, W. Earl Brown, Linda Blair, Wes Craven e Jamie Kennedy.

Roteiro: Kevin Williamson.

Produção: Cathy Konrad e Cary Woods.

Pânico[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Extremamente populares nos anos 70 e 80, os slasher movies ganharam uma verdadeira legião de fãs em todo o mundo, notabilizando-se por narrativas simples que se baseavam na capacidade de assustar a plateia. Com o passar dos anos, no entanto, a repetição contínua de fórmulas repletas de clichês desgastou o gênero de tal maneira que os próprios realizadores passaram a adotar a autoparódia como forma de ainda lucrar com suas longínquas franquias. Entre os nomes de maior destaque daquele período estava Wes Craven, que escreveu e dirigiu “A Hora do Pesadelo” e, mesmo se recusando a participar das continuações, jamais abandonou o gênero que ajudou a consagrar. E foi justamente ele que, em 1996, ressuscitou os slasher movies através deste ótimo “Pânico”, que nos diverte e nos assusta com a mesma intensidade ao brincar com os mais batidos clichês do terror adolescente.

Escrito por Kevin Williamson, “Pânico” tem inicio quando um casal de jovens é assassinado numa pequena cidade dos EUA exatamente um ano após outro crime aterrorizar a cidade. As investigações levam a policia a desconfiar do Sr. Prescott, viúvo da mulher morta há um ano e que sumiu da cidade na noite do crime. Enquanto ele está fora, sua filha Sidney (Neve Campbell) passa a ser ameaçada com estranhos telefonemas, o que leva o diretor de sua escola a suspender as aulas, para a alegria de seus amigos Stuart (Matthew Lillard), Riley (Rose McGowan) e de seu namorado Billy (Skeet Ulrich). Toda a situação chama a atenção da repórter sensacionalista Gale Weathers (Courteney Cox), que, ao cobrir os acontecimentos, acaba se apaixonando pelo xerife Dwight (David Arquette).

Adotando um tom de paródia, o excelente roteiro de “Pânico” revisa os principais clichês do gênero (a moça virgem, as festas repletas de adolescentes bêbados, as casas enormes e solitárias, as atitudes estúpidas das vítimas, etc.), abusando da metalinguística para nos provocar o riso e quebrar a tensão que predomina a narrativa. Desta forma, não são poucas as referências visuais e menções aos clássicos do terror que fazem com que o espectador se identifique com o que vê, incluindo diversas piadas divertidas como quando Riley diz que só o primeiro “A Hora do Pesadelo” era bom ou quando Sidney diz que nestes filmes as moças peitudas sempre corriam para o quarto ao invés de saírem da casa, além do instante em que Riley diz que Sidney está falando como num filme de Wes Craven. Aliás, o próprio Craven surge vestido como Freddy Krueger em certo momento e até mesmo presença de Linda Blair, famosa por viver a garota Regan em “O Exorcista”, reforça este tom nostálgico.

Casas enormes e solitáriasVestido como Freddy KruegerPresença de Linda BlairContudo, ao mesmo tempo em que homenageia, Craven subverte o gênero que o consagrou, demonstrando todo seu talento na construção de uma narrativa tensa, capaz de prender nossa atenção constantemente através do ritmo ágil empregado pelo diretor em conjunto com seu montador de Patrick Lussier. Assim, se num instante estamos nos deliciando com as inúmeras referencias aos clichês dos saudosos slasher movies, no outro estamos tensos diante da possibilidade dos personagens sofrerem com as mesmas atitudes que eles condenam e, simultaneamente, ainda somos cativados pela sempre interessante busca da verdadeira identidade do assassino (o famoso “whodunit”). Abusando de movimentos rápidos de câmera que nos provocam certa desorientação, além de empregar em diversos momentos câmeras subjetivas que simulam o olhar do suposto assassino enquanto acompanhamos as vítimas distraídas, o diretor nos cativa desde os primeiros minutos de “Pânico”.

Inúmeras referencias aos clichêsMovimentos rápidos de câmeraCâmeras subjetivasO início do longa, aliás, é simplesmente eletrizante. Um toque de telefone nos apresenta à indefesa Casey Becker (Drew Barrymore) na cozinha de sua casa espelhada, localizada numa cidade pequena do interior dos EUA, e um diálogo intrigante sobre filmes de terror se inicia. Em poucos minutos, temos uma verdadeira convenção de elementos típicos dos slashers, com planos que destacam as facas de cozinha, o silencio sendo quebrado apenas pelos diálogos e pelo toque do telefone, a trilha sonora que repentinamente sobe o tom e nos assusta, além, é claro, do senso de isolamento já estabelecido pela misè-en-scene. Quando o misterioso homem do outro lado da linha mostra que a brincadeira é séria, o espectador se assusta tanto quanto a protagonista. Entretanto, o grande segredo do sucesso da cena está na escolha do elenco. Habituados a verem a estrela principal sobreviver, os espectadores sofrem um choque tremendo quando Drew Barrymore, a atriz mais conhecida de “Pânico” na época, é assassinada brutalmente antes dos 15 minutos de projeção. Ao matar sua estrela tão precocemente, Craven desarma a plateia, nos fazendo perder as referencias e temer por todos os personagens, já que, a partir deste instante, não sabemos mais o que esperar nem quem irá sobreviver (algo que não voltaria mais a acontecer na franquia, já que Neve Campbell se consolidou como a estrela de “Pânico”).

Indefesa Casey BeckerFacas de cozinhaAssassinada brutalmenteDesde então, o foco passa a ser Sidney Prescott, filha da mulher assassinada um ano antes e amiga de Casey. Escondendo sua determinação sob a aparência frágil, Neve Campbell compõe a personagem como a típica mocinha que se transforma em heroína, repleta de traumas e inseguranças, mas dona de uma força surpreendente nos momentos de perigo. Insegura depois do que aconteceu com sua mãe, ela passa a suspeitar do próprio namorado, e as atitudes dele na noite do crime de fato não colaboram em nada para limpar sua barra. Da mesma forma, o comportamento dos amigos dela na escola após o assassinato faz com que até mesmo o espectador levante suspeita sobre todos eles, o que só reforça a atmosfera de suspense. E se Matthew Lillard faz “Stu” parecer um maluco completo desde os primeiros minutos em cena, Skeet Ulrich nos confunde ao transitar entre o normal e o louco com seu Billy, o que, somado ao comportamento estranho de outros personagens como o cinéfilo Randy (Jamie Kennedy) e ao sumiço do pai de Sidney, também colabora para aumentar o número de suspeitos.

Aparência frágilStu, um maluco completoBillyFamosa por interpretar Mônica no ótimo seriado “Friends”, Courteney Cox assume aqui o papel da repórter chata e sem escrúpulos que fará qualquer coisa para conseguir uma boa reportagem, ainda que para isso precise passar por cima das pessoas que a cercam. Talentosa como é, a atriz consegue se sair muito bem, transformando Gale Weathers numa personagem irritante, é verdade, mas que se torna agradável ao demonstrar atração pelo atrapalhado xerife Dwight, interpretado por David Arquette (que se casaria com Cox três anos depois).

Repórter chataQualquer coisa para conseguir uma boa reportagemAtrapalhado xerife DwightBaseando-se no visual tradicional dos filmes voltados para o público adolescente, os figurinos de Cynthia Bergstrom apostam nas saias curtas e calças apertadas que realçam as pernas torneadas das garotas, ao passo em que os meninos usam camisas modernas (para a época). Da mesma forma, a fotografia de Mark Irwin emprega cores quentes nas sequências diurnas, criando um visual alegre que contrasta diretamente com o tom obscuro das cenas noturnas. Este contraste, por si só, já serve como alerta para os perigos que os personagens correm quando o sol se põe. Finalmente, o design de produção de Bruce Alan Miller se destaca na escolha das casas enormes e espelhadas que só aumentam a tensão na plateia, além é claro da icônica máscara que caracteriza o assassino, que se tornaria uma das marcas do gênero nos anos 90. Já a trilha sonora de Marco Beltrami também segue o padrão slasher ao ser usada constantemente para nos assustar através de subidas repentinas no tom, mas também emprega melodias sombrias em diversos momentos para sublinhar ainda mais o suspense. Apesar disso, existem momentos em que apenas o som diegético consegue nos assustar, como no início da tensa sequência em que Sidney é atacada no banheiro da escola, evidenciando o bom trabalho de design de som.

Saias curtasIcônica máscaraSidney é atacada no banheiroIntrigante até o ultimo instante, “Pânico” ainda nos presenteia com um terceiro ato simplesmente hipnótico, onde, com a ajuda de uma câmera deixada por Weathers num móvel, podemos acompanhar as ações de diversas maneiras diferentes enquanto a garotada, numa casa distante e numa noite sombria, se reúne para assistir filmes de terror. O cenário está montado para o massacre final. Assim, enquanto Randy repassa as três principais regras para sobreviver num filme de terror, acompanhamos Sidney perder a virgindade com Billy e, de acordo com a lógica do cinéfilo, se tornar uma vítima potencial do assassino. Os ataques começam e, como em todo o filme, nos vemos em meio a uma mistura de sensações, com medo do assassino e nos divertindo com as piadas que permeiam a noite (como quando Randy grita “atrás de você” para a televisão com o assassino em pé atrás dele). Em meio a um mar de reviravoltas e surpresas, somos apresentados “aos assassinos”, conhecemos suas motivações e, finalmente, chagamos a conclusão perfeita da narrativa com todos os buracos preenchidos com coerência.

Randy repassa as três principais regrasAtrás de vocêAssassinosDivertido e tenso na medida certa, “Pânico” representou um sopro de vida num gênero fadado ao esquecimento após décadas de sucesso e, o que é mais legal, permitiu a toda uma nova geração (na qual eu me incluo) ter o gostinho de comprar pipoca e se esconder no escuro do cinema enquanto somos aterrorizados por um bom slasher movie.

Pânico foto 2Texto publicado em 10 de Dezembro de 2012 por Roberto Siqueira

O PREÇO DE UM RESGATE (1996)

(Ransom)

3 Estrelas 

Videoteca do Beto #144

Dirigido por Ron Howard.

Elenco: Mel Gibson, Rene Russo, Gary Sinise, Delroy Lindo, Liev Schreiber, Lili Taylor e Brawley Nolte.

Roteiro: Richard Price e Alexander Ignon.

Produção: Brian Grazer, B. Kipling Hagopian e Scott Rudin.

O Preço de um Resgate[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Poucas situações devem ser mais desesperadoras do que aquela que move “O Preço de um Resgate”. Por isso, é uma pena constatar que Ron Howard e sua equipe falhem ao não explorar todas as possibilidades oferecidas pelo tema abordado, ainda que, dramaticamente, o diretor consiga provocar impacto, baseando-se essencialmente nas ótimas atuações de seu elenco. O resultado é um filme eficiente que, nas mãos de um diretor um pouco mais ousado, poderia ser um complexo estudo sobre os efeitos trágicos que tal situação pode provocar em uma família.

Escrito a quatro mãos por Richard Price e Alexander Ignon (baseado no filme “Decisão Amarga”, de 1956), “O Preço de um Resgate” nos apresenta Tom Mullen (Mel Gibson), o milionário dono de uma companhia de aviação que tem o filho Sean (Brawley Nolte) sequestrado num evento na cidade e se vê obrigado a pagar os dois milhões de dólares exigidos pelos criminosos em troca do resgate do filho. Apoiado pela esposa Kate (Rene Russo) e sob a orientação do agente Lonnie (Delroy Lindo), ele decide seguir as orientações, mas devido à inesperada interferência do FBI, a operação falha e culmina na morte de um dos bandidos, levando à ira o mentor do sequestro Jimmy Shaker (Gary Sinise). Pai e sequestrador passam então a discutir por telefone com frequência e, com os ânimos elevados, Mullen começa a agir de maneira completamente irracional.

Apresentada inicialmente como uma família feliz e bem sucedida, os Mullen (como toda família, aliás) também escondem seus problemas sob aquela fachada de riqueza e prosperidade escancarada em sua vistosa mansão (design de produção de Michael Corenblith), o que é bom, pois aproxima a família do espectador. Neste sentido, aliás, é ótimo que o roteiro evite transformar o longa numa disputa entre mocinho e bandido, driblando o maniqueísmo e a santificação de Tom logo de cara através de seu problema com Jackie Brown. Fugindo de clichês básicos através de pequenos detalhes (repare, por exemplo, que a primeira ligação após o sequestro não é do sequestrador), os roteiristas anunciam gradativamente que a narrativa tomará um caminho diferente do usual, preparando o espectador para o que virá pela frente após o sequestro do garoto. Vale notar ainda como, ainda que apenas superficialmente, o roteiro aborda temas adjacentes interessantes, como o comportamento nada racional da imprensa nestas situações.

Família feliz e bem sucedidaVistosa mansãoComportamento nada racional da imprensaPreparando a plateia para o sequestro desde os primeiros minutos de projeção, Ron Howard faz questão de ressaltar num plano detalhe a tatuagem no pescoço de uma garçonete durante o evento que abre o longa, da mesma maneira que faz com um dos sequestradores enquanto este prepara o cativeiro. Assim, quando vemos a mão tatuada pegando um copo acompanhada pela trilha sonora sombria (e clichê!), já sabemos que os criminosos estão presentes no parque, iniciando o sequestro que se confirmará num movimento de câmera interessante, no qual num instante estamos acompanhando Sean andando pelo parque e, após a câmera passar por trás de uma pilastra, já não vemos mais o garoto. Além de demonstrar de maneira eficiente o drama dos pais neste momento, o diretor também acerta na tensa sequencia da entrega do dinheiro, contando com o auxilio da montagem dinâmica de Dan Hanley e Mike Hill para imprimir um ritmo intenso que deixa a plateia em frangalhos, reforçada pela trilha acelerada de James Horner. Mas, se acerta no tom de urgência empregado nos momentos de tensão, Horner cai num velho clichê ao utilizar o rock pesado para embalar as ações dos sequestradores, esvaziando seu trabalho na composição da trilha sonora.

Tatuagem no pescoço de uma garçoneteMão tatuada pegando um copoO sequestroAtravés das cores frias da fotografia de Piotr Sobocinski e dos figurinos de Rita Ryack, Howard cria um visual acinzentado que ajuda a manter o tom sóbrio exigido pela narrativa. Por outro lado, o diretor aposta no uso frequente do zoom in e do zoom out para realçar as reações dos atores, transmitindo a atmosfera de tensão que é complementada pelo movimento agitado da câmera em diversos momentos, como quando os sequestradores entram em contato com os pais do garoto. O diretor ainda reflete bem a angústia que as horas representam para qualquer pai que enfrente esta situação, mostrando-o prostrado diante do telefone, como se implorasse pela chamada que determinaria as condições exigidas pelos criminosos para acabar com aquele pesadelo.

Cores friasAtmosfera de tensãoProstrado diante do telefoneFuncionando como um porto seguro para aqueles pais desesperados, o agente Lonnie de Delroy Lindo é obrigado a andar no fio da navalha, tentando equilibrar todos os lados daquela equação. Demonstrando autoridade quando preciso, mas também sabendo ser compreensivo nos momentos mais delicados, o agente se sai bem na difícil tarefa e o ator é responsável direto por isso. Entretanto, para que esta situação funcione dramaticamente, é essencial que o espectador acredite que o garoto corre perigo de fato e, por isso, é fundamental que os sequestradores surjam falando abertamente em matar o garoto, deixando claro que aqueles criminosos representam uma ameaça real. Por outro lado, os conflitos entre os sequestradores são essenciais para que a reviravolta provocada pela oferta de Tom tenha algum efeito na plateia, já que, desta forma, nós acreditamos que uma recompensa milionária poderia provocar o desequilibro daquele grupo pouco homogêneo.

Agente LonnieAmeaça realConflitos entre os sequestradoresSurgindo inicialmente como um policial interessado no comportamento de um suspeito numa loja, Jimmy Shaker invade a casa e revela sua participação no sequestro, pra surpresa da plateia. Exibindo um ar ameaçador convincente, Gary Sinise impõe respeito como o mentor do sequestro, demonstrando a autoridade esperada de um líder e, o que é ainda melhor, evidenciando o desequilíbrio que as atitudes de Tom causam no personagem, como notamos, por exemplo, logo após o anúncio da recompensa que o deixa transtornado. A presença imponente de Sinise é essencial também para que Gibson não ofusque o sequestrador com suas explosões, já que o espectador, ainda que inconscientemente, carrega na memória a persona cinematográfica do ator, normalmente associado a heróis que enfrentam a tudo e a todos para conseguirem o que querem.

Policial interessado no comportamento de um suspeitoMentor do sequestroTranstornadoDemonstrando uma química também já conhecida pelo público desde “Máquina Mortífera 3”, Gibson e Russo convencem como casal, demonstrando afinidade e cumplicidade na mesma intensidade em que enfrentam seus problemas, o que é natural em qualquer relacionamento. Entretanto, as atuações de ambos ganham força mesmo após o sequestro, quando ilustram muito bem o drama dos pais e os conflitos entre o casal que as circunstâncias naturalmente evocam. A partir deste instante, praticamente podemos sentir a dor de Kate graças ao ótimo desempenho de Russo, sempre com o olhar expressivo e desesperado que qualquer mãe lançaria nesta situação. Gibson, por sua vez, parece sempre prestes a explodir, algo também natural na condição dele. Pra completar, a conversa inicial entre Tom e Sean na cama logo após o evento inicial serve para demonstrar a afinidade entre eles e criar empatia com a plateia, o que é essencial para aumentar o impacto que a cena do sequestro naturalmente já provocaria.

Afinidade e cumplicidadeDor de KateConversa inicial entre Tom e SeanPor tudo isso, nós não nos surpreendemos quando Tom, ao ver as imagens do filho numa televisão, decide mudar o jogo e inverter a situação – e a expressão no rosto de Gibson permite que a plateia antecipe seus pensamentos, num momento em que não sabemos pelo que torcer, já que esta atitude ousada poderia colocar em risco a vida de seu filho. Com a voz firme, o olhar frio e o coração cheio de ódio, o pai desesperado anuncia que o resgate agora seria uma recompensa paga a quem trouxer o sequestrador “vivo ou morto”, dividindo opiniões não apenas no ambiente diegético (repare os olhares das pessoas que acompanham o anúncio no estúdio), mas também na plateia. Se por um lado aquele ato poderia significar a desestabilização completa do grupo de sequestradores, por outro poderia definir a morte de seu filho – algo que, convenhamos, é um risco que pai algum no mundo gostaria de correr. Pode até funcionar no filme, mas está bem distante da realidade. Ciente disto, Howard faz questão de inserir imagens da cova sendo preparada para Sean logo após o anúncio, criando um conforto artificial no espectador ou, em outras palavras, manipulando nossa visão do tema ao aliviar a loucura cometida por Tom (o que é uma pena, pois esvazia completamente a discussão que a cena poderia gerar). É como se o diretor e os roteiristas dissessem: “Está tudo bem, eles iam matar o garoto de qualquer jeito”.

Expressão no rostoOlhares das pessoas no estúdioCova preparada para SeanCom este cenário de tensão montado, chegamos ao grande momento de “O Preço de um Resgate”, quando sequestrador e pai discutem ao telefone e levam o publico a pensar que Sean foi morto. Demonstrando o desespero do pai de maneira tocante, Gibson se destaca na cena, indo da ira ao desespero e às lagrimas em segundos, seguido de perto pela explosão de Russo (e a distancia pela ira de Sinise), numa cena dramaticamente densa que, infelizmente, é quase destruída graças a um plano rápido que revela que Sean está vivo. Infelizmente, Howard não teve coragem de estender mais o suspense, o que poderia suscitar reflexões interessantes na plateia. Ainda assim, o diretor (e os montadores) se sai bem ao criar um clima tenso através da troca rápida de planos, encerrando a cena num belo plongè que diminui o casal e ilustra sua tristeza, embalado pela trilha melancólica.

Sequestrador e pai discutem ao telefoneDa ira ao desespero e às lagrimasSean está vivoA discussão, reforçada pelo aumento da recompensa, leva os sequestradores ao desequilíbrio total. Esperto, Shaker decide então eliminar o grupo e sair como herói, numa saída inteligente que poderia elevar “O Preço de um Resgate” a outro patamar. Só que, mais uma vez, Howard e seus roteiristas demonstram covardia e optam por encerrar o longa da maneira convencional, apostando no velho confronto entre mocinho e bandido, ainda que, para isto, nos entreguem outra grande cena, quando o garoto escuta a voz de Shaker e, através da troca de olhares com o pai, indica estar diante do criminoso.

HeróiMocinho e bandidoTroca de olharesAbordando um tema delicado e de alta carga dramática, “O Preço de um Resgate” flerta com a possibilidade de ser um grande filme, mas escorrega sempre que depende de escolhas mais ousadas de seus realizadores. No fim das contas, temos um filme tenso e razoavelmente bem conduzido, mas que acaba fugindo um pouco da realidade e tornando-se apenas um bom entretenimento, ainda que as atuações centrais sejam dignas de aplausos.

O Preço de um Resgate foto 2Texto publicado em 02 de Dezembro de 2012 por Roberto Siqueira

O POVO CONTRA LARRY FLYNT (1996)

(The People vs. Larry Flynt)

Videoteca do Beto #143

Dirigido por Milos Forman.

Elenco: Woody Harrelson, Courtney Love, Edward Norton, Brett Harrelson, Donna Hanover, James Cromwell, Crispin Glover, Vincent Schiavelli, Miles Chapin, James Carville, Richard Paul e Burt Neuborne.

Roteiro: Scott Alexander e Larry Karaszewski.

Produção: Michael Hausman, Oliver Stone e Janet Yang.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Numa época em que deputados tentam proibir a exibição de filmes no Brasil, nada melhor do que recordar a trajetória do exótico editor da revista Hustler, adaptada para os cinemas neste excelente “O Povo contra Larry Flynt”. Sendo assim, não deixa de ser curioso que somente agora eu possa escrever sobre o filme, já que originalmente eu pretendia terminar 1996 ainda no primeiro trimestre deste ano, quando a polêmica envolvendo o filme “TED” sequer existia e a discussão sobre “Um Filme Sérvio” já fazia parte do passado. Dirigido pelo ótimo Milos Forman, o longa tem todos os ingredientes necessários para provocar polêmica (algo que certamente atraiu a atenção do produtor Oliver Stone), misturando temas bombásticos como religião, política e pornografia.

Baseado na biografia de Larry Flynt, o roteiro de Scott Alexander e Larry Karaszewski narra a trajetória do editor da revista Hustler, que rivalizou com a Playboy ao apresentar pornografia explícita e se transformou numa verdadeira febre nos anos 70. Após o sucesso, Larry (Woody Harrelson) tornou-se um dos homens mais poderosos dos Estados Unidos, casou-se com a ex-prostituta Althea (Courtney Love) e, ao lado do irmão Jimmy (Brett Harrelson), construiu um verdadeiro império, mas também sofreu pesados processos judiciais e até mesmo um atentado por causa disto. Coube então ao jovem advogado Alan Isaacman (Edward Norton) a árdua missão de defendê-lo nos tribunais.

Se existe um tema que ainda é tabu na nossa sociedade, este tema é o sexo. Mesmo quando tratamos apenas da nudez, muitas pessoas ainda se comportam como se estivessem diante da maior das aberrações, num comportamento puritano que muitas vezes é proporcionalmente inverso ao que elas de fato sentem. Aproveitando-se deste interessante traço da sociedade e com o auxilio do material original que inspirou a obra, o afiado roteiro de “O Povo contra Larry Flynt” é repleto de discursos no mínimo interessantes, como aquele em que Larry constrói um raciocínio divertidíssimo a respeito da origem do homem, da mulher e, consequentemente, do órgão genital feminino. Outro discurso marcante é aquele em que Larry questiona porque as pessoas consideram o sexo obsceno, mas aceitam os horrores da guerra, levando o espectador a uma importante reflexão. Entretanto, entre todos os discursos, aquele que melhor resume a mensagem do longa acontece quando Isaacman ilustra para o júri como a censura pode significar o fim da liberdade de toda a sociedade, trabalhando como um vírus que começa agindo em coisas pequenas e se agiganta com o passar do tempo – uma discussão, aliás, que é muito bem vinda atualmente após os episódios envolvendo “Um Filme Sérvio” e “TED”.

Censura pode significar o fim da liberdadeA fórmula do sucesso do longa, entretanto, vai além do ótimo roteiro, passando diretamente pela escolha de diretor e elenco. Historicamente, personagens excêntricos sempre despertaram o interesse de Forman (lembre-se de “Um Estranho no Ninho” e “Amadeus”), que, por sua vez, sempre demonstrou competência para extrair atuações marcantes de seus protagonistas. Se considerarmos ainda que poucos atores poderiam encarnar Larry Flynt com a mesma desenvoltura de Woody Harrelson, temos a combinação perfeita para dar vida ao folclórico personagem nas telonas. Debochado e expressivo, o ator se sai muito bem na pele do polêmico editor, chamando a atenção pelo comportamento excêntrico nos tribunais, pela relação nada convencional com Althea e pela decadência gradual que transforma Flynt a partir do acidente e que o ator demonstra muito bem (repare como até sua voz muda após a cirurgia).

Aliás, a breve introdução na infância de Larry já nos apresenta um importante traço de sua personalidade: ele fará qualquer coisa para ter sucesso comercialmente. Por isso, chega a ser brilhante o momento em que Forman traz Flynt em primeiro plano e uma cruz vermelha no segundo, indicando que aquela decisão seria trágica para o futuro dele. E não é apenas neste momento que o aspecto visual diz muito sobre o personagem, já que os objetos eróticos espalhados por seu escritório (design de produção de Patrizia von Brandenstein) e as roupas que ele usa nos julgamentos (“Fuck this court”) só confirmam sua personalidade conturbada (figurinos de Arianne Phillips e Theodor Pistek). Neste sentido, o Jimmy Flynt de Brett Harrelson mostra-se o contraponto ideal para que o espectador não seja totalmente influenciado pela visão de Larry, funcionando como o outro lado da moeda em diversas situações, já que ele é o único membro da equipe capaz de questionar as ideias do irmão.

Se considerarmos seu comportamento fora dos palcos, não chega a ser surpreendente o bom desempenho de Courtney Love na pele da maluca Althea Flynt. Ainda assim, pouca gente poderia esperar uma atuação tão segura da cantora, que demonstra a degradação da personagem com precisão na medida em que o tempo passa, chegando até mesmo a emagrecer sensivelmente e a falar com mais dificuldade no ato final, quando já está infectada com o vírus da AIDS. E finalmente, para viver um advogado jovem e promissor, ninguém melhor que um ator igualmente jovem e promissor como Edward Norton, que interpreta Isaacman com uma desenvoltura notável, demonstrando com competência como o advogado se sente desnorteado diante de seu cliente, parecendo incapaz de prever quais serão seus próximos passos mesmo convivendo o tempo todo com ele. Ainda assim, Norton acerta o tom quando Isaacman se revolta com Larry, finalmente se impondo diante dele, além de nos convencer plenamente durante os julgamentos de que Isaacman defenderá até o fim o direito de Larry se manifestar, ainda que não goste do resultado do trabalho dele.

Ciente de que todo cuidado é pouco numa biografia, Forman não teme explorar o lado cômico de seu protagonista, criando sequências hilárias como aquela em que Larry é cercado pelo FBI em sua mansão e acompanha tudo enlouquecido pela televisão até finalmente ser preso. Em outro momento, logo após Larry afirmar que mudará para onde os pervertidos são bem vindos, temos a imagem dos famosos letreiros de Hollywood, numa transição divertida que conta com o trabalho do montador Christopher Tellefsen. Saltando de tempos em tempos de maneira episódica (até mesmo letreiros são utilizados para indicar a passagem do tempo), Tellefsen compensa este erro com muito dinamismo na primeira metade do longa, mantendo a atenção do espectador até o instante em que Larry é baleado. Desde então, o filme sofre uma queda sensível no ritmo, tornando-se um pouco arrastado ao focar demasiadamente nos julgamentos e na decadência do casal.

Demonstrando visualmente esta decadência através do quarto escuro e sombrio em que eles passam os últimos dias juntos, Forman chega ao auge na chocante cena da morte de Althea, criando um plano assustador com a moça afogada dentro da banheira, seguido pelo tocante choro desesperado de Larry (num dos inúmeros momentos inspirados de Harrelson). Entretanto, esta abordagem sombria destoa do restante do longa. Buscando ilustrar a mente criativa de seu protagonista, a fotografia de Philippe Rousselot abusa de cores vivas, priorizando sempre que possível as cores da bandeira norte-americana, o que, somado a trilha sonora repleta de músicas típicas do país de Thomas Newman, reforça o sentimento nacionalista tão evidente no longa. Mas isto tudo tem um propósito. Lembre-se que Milos Formam é tcheco e, portanto, não teria razão alguma para exaltar o ufanismo. Na verdade, sua intenção é espelhar as ações de seu protagonista e tocar na ferida da nação mais poderosa do mundo. Afinal de contas, como um país que diz prezar tanto pela liberdade pode ser tão preconceituoso? Existe uma sequência em especial que, sutilmente, indica como o radicalismo tem grande espaço na sociedade norte-americana, quando, em questão de segundos, os integrantes da equipe de Larry levantam suspeita sobre diversos grupos distintos como a máfia, a KKK e até mesmo a CIA.

Entre todos estes grupos, os fanáticos religiosos são os que ganham mais espaço em “O Povo contra Larry Flynt”. Sem medo de tocar num tema tão polêmico, Forman aproveita muito bem a história verdadeira do personagem para nos levar a interessantes reflexões. E ainda que tenha um tom folclórico em diversos instantes, o longa não hesita em criticar acidamente algumas instituições religiosas norte-americanas. Chega a provocar náuseas a forma como o reverendo Jerry Falwell usa a morte de Althea para se promover, num comportamento que não é unânime, mas que se repete em muitas das instituições religiosas contemporâneas, contrariando um dos ensinamentos básicos do Cristianismo que é a compaixão. Por outro lado, a sequência final na suprema corte dos EUA tem um tom leve e descontraído que encerra bem o filme, ainda que as lembranças de Larry confiram um tom nostálgico ao ato final.

Com muito talento, “O Povo contra Larry Flynt” transporta para o cinema o espírito controverso de seu protagonista, levando o espectador a refletir sobre sua trajetória e, o que é mais interessante, a debater sobre conceitos importantíssimos da nossa sociedade. Podemos detestar a obra de qualquer pessoa, mas jamais devemos impedi-la de realizar seu trabalho. É neste direito que reside à essência da liberdade.

Texto publicado em 26 de Novembro de 2012 por Roberto Siqueira

O PACIENTE INGLÊS (1996)

(The English Patient)

Videoteca do Beto #142

Vencedores do Oscar #1996

Dirigido por Anthony Minghella.

Elenco: Ralph Fiennes, Kristin Scott Thomas, Juliette Binoche, Willem Dafoe, Naveen Andrews, Colin Firth, Julian Wadham e Jürgen Prochnow.

Roteiro: Anthony Minghella, baseado em romance de Michael Ondaatje.

Produção: Saul Zaentz.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Sucesso de crítica e público na época de seu lançamento, “O Paciente Inglês” sofreu com a síndrome dos vencedores do Oscar nos anos seguintes, sendo massacrado por boa parte dos cinéfilos sob a acusação de ser “chato demais”. Esta afirmação, no entanto, não poderia estar mais longe da verdade. Apresentando um tom solene e elegante que casa muito bem com os grandes épicos, o longa dirigido por Anthony Minghella utiliza os efeitos da guerra e o nacionalismo exacerbado que surge nestas épocas para narrar uma complexa e trágica história de amor.

Considerada uma obra complicada de se adaptar para o cinema devido a sua estrutura narrativa complexa, baseada nos pensamentos de seu protagonista que não seguem ordem cronológica alguma, “O Paciente Inglês” era um dos grandes sonhos do aclamado produtor Saul Zaentz (“Um Estranho no Ninho”, “Amadeus”), que incumbiu a Anthony Minghella a missão de escrever e dirigir o roteiro baseado no romance de Michael Ondaatje. Abordando épocas e cenários distintos numa história que se passa antes, durante e depois da segunda guerra mundial, o longa tem inicio quando a enfermeira Hana (Juliette Binoche) recebe um misterioso homem que teve o corpo totalmente queimado durante a queda de seu avião e que, por não lembrar a sua origem, foi apelidado de paciente inglês (Ralph Fiennes). Entretanto, ele carrega um livro repleto de recortes que ajudam a recordar o passado, trazendo a tona lembranças de seu relacionamento amoroso com Katharine (Kristin Scott Thomas), a esposa de seu amigo Geoffrey (Colin Firth) que ele conheceu durante uma expedição pelo norte da África. Mas quando David Caravaggio (Willem Dafoe) chega ao local, o paciente passa a enfrentar recordações que ele gostaria de ter esquecido.

Deslumbrante visualmente, “O Paciente Inglês” poderia simplesmente se apoiar nos aspectos técnicos para chamar a atenção, mas felizmente Minghella soube explorar a história que o inspirou e, com o auxilio do próprio Ondaatje, construiu uma narrativa que se baseia na força dos seus personagens. Para isso, o diretor apostou num elenco talentoso e coeso, obtendo um resultado impressionante que torna a tarefa de indicar os destaques do longa numa missão ingrata. Comecemos pela trama do passado. Indicando que a falta de atenção do marido poderia motivar sua traição desde sua primeira aparição na qual conta a história do rei Giges, Katharine é uma mulher sensual e decidida, que não hesita em tomar a iniciativa e procurar o conde Almàsy (nome verdadeiro do personagem título) sem jamais soar oferecida ou desesperada. Conferindo com precisão esta personalidade forte à personagem, a ótima Kristin Scott Thomas entrega uma performance elogiável, acertando no tom e oscilando com destreza entre os momentos em que precisa agir com sobriedade, especialmente ao lado do marido, e aqueles em que pode se entregar à paixão tórrida e avassaladora, como quando reencontra Almàsy durante uma festa. Aliás, ao criarem uma relação realista através da aproximação lenta e da maneira crua com que se entregam aos desejos quando podem, Thomas e Fiennes tornam seus personagens mais humanos, aproximando-os da plateia e fugindo dos clichês básicos de alguns épicos, que costumam enfeitar demais a vida romântica de seus protagonistas.

No outro vértice do triangulo amoroso temos Geoffrey, um homem aparentemente despreocupado mesmo sendo o único que viaja acompanhado no grupo, mas que demonstra sutilmente o incômodo diante da troca de olhares entre Katharine e Almàsy, ainda que raramente tenha força para questionar a esposa ou lutar por ela – e é justamente nesta ambiguidade que reside à força da atuação de Colin Firth, que raramente permite ao espectador perceber o que ele de fato está pensando, o que é essencial, por exemplo, para que a finalidade de sua viagem revelada por Katharine em determinado momento tenha impacto e para que a plateia tenha dúvida sobre o quanto ele sabe do caso extraconjugal de sua mulher.

Personagem central da narrativa, o complexo conde Laszlo de Almàsy é interpretado pelo ótimo Ralph Fiennes, que demonstra a ambiguidade do paciente com competência desde os primeiros instantes, quando ilustra sua dor ao falar com muita dificuldade e agonizar na maior parte do tempo, mas ainda assim se mostra forte o bastante para questionar seu interrogador (“Meus órgãos estão parando, que diferença faz…?”) e reclamar do barulho para Hana (“Pensei que o exército alemão tinha chegado”). Funcionando como ponte entre as diferentes épocas abordadas, Almàsy ganha vida mesmo quando surge imóvel na cama, o que é mérito da boa atuação de Fiennes – aliás, seu rosto desfigurado revela também o ótimo trabalho de maquiagem. E se mesmo imóvel e com o rosto desfigurado ele consegue transmitir emoções distintas como a dor, a saudade e a alegria, quando está livre destas amarras (ou seja, no passado) o ator não tem nenhuma dificuldade para expressar os sentimentos conflituosos do personagem, destacando-se em sequências especiais como quando surge bêbado num jantar, escancarando sua dor após afastar-se de Katharine.

No entanto, o sofrimento não está restrito aos personagens do passado. Após perder o namorado e uma grande amiga na guerra, a enfermeira Hana busca conforto no trabalho, focando seus esforços no tratamento do misterioso paciente. Demonstrando seu grande talento sempre que surge em cena, Binoche cria uma personagem adorável, que esconde seu lado carinhoso e emotivo, já tão castigado pela guerra, sob a carcaça de mulher dedicada e batalhadora, roubando a cena praticamente todas as vezes que aparece. Já William Dafoe empresta seu ar sempre ameaçador a David Caravaggio, mas escapa do maniqueísmo em momentos singelos, como quando demonstra preocupação com o choro de Hana ou quando se compadece ao descobrir as razões da traição de Almàsy. Finalmente, vale citar a presença de Naveen Andrews, eternizado anos depois como o Sayid da série “Lost”, que confere leveza e carisma ao especialista em desarmar bombas Kip.

Captado de maneira exemplar pela bela fotografia de John Seale, o deserto desempenha papel importante na narrativa, oscilando entre momentos de beleza estonteante e outros onde surge ameaçador, como numa tempestade de areia que soterra um carro da expedição. Ciente disto, Minghella demonstra preocupação não apenas com a estética, mas também com detalhes importantes que conferem realismo a narrativa, como ao fazer com que os personagens surjam bebendo água em diversos momentos. Da mesma forma, o design de produção de Stuart Craig acerta em cheio na escolha das locações, ambientando perfeitamente o espectador ao período da guerra através de lugares como o monastério parcialmente destruído na Itália, assim como colaboram os figurinos de Ann Roth, que surgem impecáveis em sua diversidade, através dos uniformes dos soldados ingleses e alemães, das roupas árabes e dos elegantes ternos dos integrantes da expedição. E se os efeitos visuais são discretos, o mesmo não se pode dizer do design de som, que permite captar com precisão desde barulhos mais sutis como a respiração de Almàsy até os sons mais chamativos como as hélices dos aviões e as bombas que explodem – uma delas, em especial, tem a função narrativa de informar a morte de um importante personagem.

Conduzindo as duas linhas narrativas de maneira igualmente competente, Minghella emprega um tom contemplativo típico dos grandes épicos, permitindo que o espectador desfrute das lindas imagens que surgem na tela com tranquilidade. Ainda assim, a trama que envolve Katharine e Almàsy soa levemente mais atrativa ao misturar elementos como guerra, paixão e traição de maneira envolvente, ao passo em que a trama no presente concentra sua força no carisma de Hana e no mistério envolvendo as intenções de Caravaggio. A montagem de Walter Murch, aliás, é o grande destaque da parte técnica, alternando entre o passado e o presente de maneira orgânica e permitindo que o espectador acompanhe as tramas paralelas de maneira clara e sem jamais tornar a narrativa cansativa. Além disso, Murch cria transições muito elegantes, como quando as deformações no terreno do deserto se transformam nas ondas irregulares dos lençóis do paciente ou quando Katharine passa os dedos no vidro do carro e lentamente o segundo plano traz o rosto desfigurado de Almàsy no presente, dando a sensação de que ela está acariciando o rosto dele.

Estes belos momentos surgem em profusão em “O Paciente Inglês”. Observe, por exemplo, a linda cena do voo dos aviões no início da exploração, que parece indicar no tom melancólico da bela trilha sonora de Gabriel Yared o futuro trágico daquele triangulo amoroso. Mas, se é repleto de momentos inspiradores, como quando Kip espalha velas pelo chão e indica o caminho para Hana ou quando ele a leva numa capela para ver de perto as pinturas na parede, “O Paciente Inglês” também tem seus momentos de tensão, dentre os quais vale destacar a cena em que Kip desarma uma bomba durante a chegada dos tanques norte-americanos, que comemoram a rendição germânica. Finalmente, Minghella encontra espaço até mesmo para pequenos alívios cômicos que são conduzidos com uma leveza desconcertante, como quando Hana, Kip e Caravaggio levam Almàsy para debaixo da chuva, realizando um desejo dele e arrancando o riso genuíno do espectador.

Chegamos então ao emocionante terceiro ato de “O Paciente Inglês”, que reúne toda a beleza plástica do longa numa sequência também carregada dramaticamente, onde as razões para a traição de Almàsy são reveladas, deixando a plateia tão perplexa quanto aqueles que ouvem sua versão. Ao acompanharmos aquele homem enfrentando os mais cruéis obstáculos enquanto luta para cumprir sua promessa, o espectador se comove naturalmente, num final poético que foge do melodrama e mantém-se fiel ao tom empregado em todo o filme. Ele traiu seu grupo e o seu país pelo amor de Katharine e nós não podemos julgá-lo por isso, assim como não podemos julgar a reação intempestiva do marido traído. Assim somos nós, seres humanos repletos de falhas e virtudes.

Utilizando a guerra como pano de fundo para narrar uma bela história de amor, “O Paciente Inglês” é um bom representante dos épicos clássicos, que conseguem ser apaixonantes e grandiosos na medida certa. Talvez a chuva de prêmios que recebeu tenha prejudicado sua trajetória ao longo dos anos. Entretanto, se não mereceu sair ovacionado na noite do Oscar, o longa também não merece o injusto tratamento que recebeu após aquela noite.

Texto publicado em 18 de Novembro de 2012 por Roberto Siqueira

O JOGO DA PAIXÃO (1996)

(Tin Cup)

Videoteca do Beto #141

Dirigido por Ron Shelton.

Elenco: Kevin Costner, Rene Russo, Don Johnson, Cheech Marin, Linda Hart, Dennis Burkley, Rex Linn, Lou Myers, Richard Lineback, George Perez e Michael Milhoan.

Roteiro: John Norville e Ron Shelton.

Produção: Gary Foster e David Lester.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após o estrondoso fracasso de “Waterworld”, Kevin Costner praticamente destruiu sua carreira, arruinando sua reputação de maneira quase irreparável em Hollywood. Coube então ao diretor Ron Shelton a difícil tarefa de tentar devolver o prestígio ao astro decadente, oito anos depois de trabalharem juntos em “Sorte no Amor”. Apostando novamente na paixão de Costner pelo esporte, evidente ao longo de sua filmografia, o diretor não conseguiu seu objetivo, mas pelo menos entregou um filme agradável, extraindo ainda uma boa atuação não apenas de Costner, mas também de Rene Russo.

Escrito pelo próprio Shelton ao lado de John Norville, “O Jogo da Paixão” narra o inusitado encontro entre o golfista decadente Roy McAvoy (Kevin Costner), reconhecido pelo talento e pelo temperamento explosivo, e a psicóloga recém-formada e pouco confiante Molly Griswold (Rene Russo), que decide aprender a jogar golfe justamente com ele. O problema é que Molly namora David Simms (Don Johnson), simplesmente o melhor jogador do país.

Não é preciso saber mais do que isto para imaginar o que acontecerá em “O Jogo da Paixão”. Afinal de contas, é óbvio que Roy se apaixonará por Molly, assim como é bem conveniente que ela namore o grande jogador do país que, pasme, era um grande rival de Roy no passado. Previsível e repleto de clichês, o roteiro ainda abusa de diálogos expositivos que buscam explicar o passado de Roy e demonstrar sua personalidade complicada e difícil. Felizmente, mais do que a história em si, são os personagens que representam a força central da narrativa – e neste aspecto o roteiro tem seus méritos, já que, com exceção de David Simms, desenvolve personagens interessantes que conquistam a atenção da plateia.

É evidente que a participação dos atores é fundamental neste processo e logo na introdução de seus personagens, Costner e Russo já demonstram boa química. Leve e descontraído, Costner nem parece o mesmo ator carrancudo de “Waterworld”, com seu olhar inquieto e risadas espontâneas que dão a sensação de que ele tirou um enorme peso das costas. Talvez por isso, seu Roy é um personagem carismático, que consegue encantar Molly mesmo quando é irritante. Teimoso e genioso, ele mal consegue conter o ímpeto quando se irrita e, invariavelmente, age sem pensar nas consequências, mas sob esta carcaça se esconde um homem simples e vulnerável, quase um anti-herói, e isto é suficiente para conquistar Molly e a plateia. Aliás, a decadência do golfista é ilustrada até mesmo em seu “habitat”, com seu trailer bagunçado, o campo de golfe mal cuidado e as roupas velhas e desgastadas (design de produção de James Bissell e figurinos de Carol Oditz).

Personagem fundamental em “O Jogo da Paixão”, a provocante doutora Molly de Rene Russo conquista o espectador ao demonstrar uma vulnerabilidade rara em profissionais especializados na análise de seus semelhantes, algo notável, por exemplo, quando ela liga para outra psicóloga e pede ajuda – repare como a atriz hesita ao telefone, demonstrando a ansiedade da personagem. Em seguida, quando ela decide se abrir com Roy no trailer, a atriz demonstra o conflito de sentimentos com precisão, o que facilita nossa identificação com a personagem. Finalmente, Molly ganha pontos justamente por desistir de mudar Roy, o que é interessante e foge um pouco dos clichês do gênero.

No restante do elenco, as atuações são discretas. Cheech Marin até diverte com o leal Romeu, mas jamais consegue roubar a cena de verdade. Já a incompreensível reação de David Simms diante de um garoto que pede um autógrafo comprova que tanto os roteiristas como Don Johnson não mediram esforços para tornar o personagem num ser desprezível e totalmente unidimensional. Além disso, os conflitos simplistas entre Roy e Simms fazem os golfistas soarem como dois adolescentes, só que Costner se sai bem desta armadilha, conferindo uma leveza ao seu personagem que Johnson jamais consegue repetir.

Discreta também é a direção de Ron Shelton, que se destaca apenas durante os jogos de golfe, com planos criativos que tornam as disputas mais interessantes, além de alguns movimentos de câmera curiosos, como o travelling que apresenta de maneira triunfal o US Open. Estabelecendo logo nos primeiros planos o isolamento da região onde se passa boa parte da narrativa, o que de certa forma ilustra a solidão dos personagens, o diretor insiste na imagem recorrente de um tatu, talvez simbolizando a postura defensiva do protagonista, que esconde sua enorme insegurança sob aquela carcaça de durão. Por outro lado, Shelton conduz bem os momentos divertidos, como a consulta de Roy no escritório de Molly e a aposta entre Roy e Simms, além de uma excelente piada metalinguística, quando Simms cita um “atorzinho” que fez 82 pontos no passado, provocando uma expressão no mínimo engraçada de Kevin Costner, um ator conhecido por praticar o esporte nas horas vagas.

Seguindo o padrão do gênero, a fotografia de Russell Boyd aposta em cores quentes e cenas diurnas na maior parte do tempo, provocando uma sensação mais prazerosa na plateia que é reforçada pela deliciosa trilha sonora de William Ross, repleta de músicas agitadas e empolgantes. No entanto, Ross também pontua muito bem os momentos dramáticos, como quando Molly encontra um solitário Roy no campo de golfe e a trilha melancólica ilustra o sentimento de tristeza de ambos.

Infelizmente, ao estender demasiadamente algumas cenas, Shelton e seus montadores Kimberly Ray e Paul Seydor acabam transformando “O Jogo da Paixão” num filme longo demais. É verdade que existem sequências interessantes durante as disputas de golfe, mas ainda assim os problemas de montagem são evidentes. Observe, por exemplo, como é rápida a transição do fracasso no primeiro dia de competição para o recorde que Roy estabelece no segundo dia. Num momento estamos vendo o golfista desolado no trailer e, alguns segundos depois, já estamos acompanhando a transmissão da televisão, com os apresentadores impressionados com o desempenho dele, o que não permite que o espectador saboreie o momento da virada do protagonista. E mesmo com um desfecho agradável que voltarei a abordar em instantes, o jogo final também é longo demais e, pra piorar, ainda permite que o espectador antecipe o dilema que Roy enfrentará na última bola e qual será a reação dele. Pra completar, a reflexão dos personagens no plano final num sofá soa totalmente desnecessária, praticamente forçando a plateia a engolir uma lição de moral que nem sempre se aplica à vida real. Devemos correr riscos? A resposta correta deveria ser: depende.

E aí entra a dolorosa sequência em que acompanhamos Roy McAvoy enfrentar seus demônios e ser derrotado por eles, praticamente entregando o US Open após ceder ao impulso de tentar a bola perfeita. Felizmente, este desfecho até certo ponto previsível tem o mérito de não tentar mudar o personagem repentinamente, o que é coerente, e ainda nos brinda com a vibrante reação do público após o esperado acerto na última bola. Independente da questão esportiva, o que temos aqui é um homem tão apegado aos seus princípios que se torna incapaz de agir racionalmente, mesmo que isto signifique desperdiçar a única chance de sua vida. Chega a ser bonito, poético, mas apenas nas telas do cinema, já que nem sempre a vida real funciona assim.

Apesar dos clichês, “O Jogo da Paixão” consegue divertir o espectador, especialmente por causa da boa química entre os dois personagens centrais da narrativa. Definitivamente, este não seria o filme que recuperaria a desgastada imagem de Kevin Costner, mas, assim como Roy McAvoy, o restante da carreira do ator demonstra que ele não pode ser acusado de não tentar.

Texto publicado em 11 de Novembro de 2012 por Roberto Siqueira

MISSÃO: IMPOSSÍVEL (1996)

(Mission: Impossible)

Videoteca do Beto #140

Dirigido por Brian De Palma.

Elenco: Tom Cruise, Jon Voight, Emmanuelle Béart, Henry Czerny, Jean Reno, Ving Rhames, Kristin Scott Thomas, Vanessa Redgrave, Dale Dye, Marcel Iures, Rolf Saxon e Emilio Estevez.

Roteiro: David Koepp e Robert Towne, baseado em argumento do proprio Koepp e de Steven Zaillian e inspirado na série criada por Bruce Geller.

Produção: Tom Cruise e Paula Wagner.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Nascido de um projeto pessoal de Tom Cruise, fã declarado da série de televisão famosa nos anos 70, “Missão: Impossível” representava também a chance do astro de Hollywood emplacar como produtor e, assim, marcar definitivamente seu território na capital mundial do cinema. Inteligente, Cruise apostou num elenco de primeira, num roteirista consagrado, no talento do excelente diretor Brian De Palma e em sua própria capacidade de atrair público, criando uma combinação que dificilmente poderia dar errado. O resultado é um excelente filme de ação que conquista o espectador não apenas pela força de suas cenas marcantes, mas também por contar uma boa história, graças ao roteiro que, se não explora dramaticamente seus personagens, pelo menos está longe de ser apenas uma muleta para o show de efeitos visuais que normalmente predominam nos filmes do gênero.

Escrito por David Koepp e Robert Towne, baseado em argumento do próprio Koepp e de Steven Zaillian e inspirado na série criada por Bruce Geller, “Missão: Impossível” tem início quando o grupo de agentes liderados por Jim Phelps (Jon Voight) cai numa emboscada na cidade de Praga, culminando na morte de quase todos eles. Pensando ser o único sobrevivente do grupo, Ethan Hunt (Tom Cruise) procura o auxílio da IMF, agencia responsável pelos trabalhos secretos que, representada por Eugene Kittridge (Henry Czerny), passa a desconfiar que Ethan seja culpado pelo ocorrido, iniciando uma caçada que motiva o agente a criar seu próprio grupo e buscar os verdadeiros responsáveis pelo desastre. Hunt decide então recrutar os agentes desligados Franz Krieger (Jean Reno), Claire Phelps (Emmanuelle Béart) e Luther Stickell (Ving Rhames) e organizar um roubo dentro da sede da CIA.

Desde sua interessante introdução na qual acompanhamos o trabalho dos agentes em Kiev, “Missão: Impossível” conquista a atenção do espectador, reforçando a empatia da plateia com seu protagonista logo na sequencia seguinte, quando este se depara diante de uma situação complexa e se mostra vulnerável, conseguindo escapar com vida graças à sua esperteza. Partindo desta interessante premissa, o roteiro de Koepp e do ótimo Towne aborda o complicado jogo de espionagem de maneira brilhante, explorando a dualidade e a desconfiança dos personagens com destreza e colocando o espectador na mesma situação deles. Frequentemente, a pergunta que surge é: em quem podemos confiar? Além disso, os diálogos chamam a atenção, respeitando a inteligência da plateia ao fugir das conversas descartáveis tão comuns na maioria dos filmes de ação, assim como a narrativa se destaca por priorizar a história que está sendo contada, inserindo as cenas de ação como parte do contexto e não como a razão da existência de “Missão: Impossível”.

Inspirados em objetos reais utilizados durante a guerra fria, os utensílios empregados pelos agentes para realizar suas tarefas chamam a atenção pela criatividade, como a caneta que injeta líquido no café de determinado personagem, os óculos equipados com micro câmeras e, obviamente, os disfarces utilizados por Ethan – mérito do design de produção de Norman Reynolds. E justamente por buscar inspiração em objetos reais, o longa ganha em credibilidade e verossimilhança, o que é interessante, ainda que não seja essencial para o sucesso da trama.

Essencial mesmo é a presença de Tom Cruise, que carrega a narrativa com facilidade graças ao seu carisma e a sua capacidade de conferir realismo aos esforços de Ethan Hunt. Normalmente dispensando dubles, Cruise entrega uma atuação visceral, correndo como se estivesse disputando os jogos Olímpicos, por exemplo, quando foge do Akuarium no centro histórico de Praga, além é claro de demonstrar grande capacidade física em cenas complicadas como a da invasão da sede da CIA, quando fica suspenso por alguns cabos a poucos metros do chão. Mas não é apenas graças ao vigor físico que Cruise se destaca, já que, quando não está sendo caçado, seu Ethan parece uma pessoa normal, demonstrando vulnerabilidade, por exemplo, quando vê seus pais sendo presos ou quando desconfia da parceira Claire, o que facilita a identificação da plateia com o personagem.

Entre os coadjuvantes, enquanto Kristin Scott Thomas pouco pode fazer com o escasso tempo que tem como Sarah, Emmanuelle Béart confere charme à misteriosa Claire e Ving Rhames claramente se diverte no papel de Luther Stickell, assim como Vanessa Redgrave dá um show na pele da traficante Max, num abordagem que foge do tradicional e, por isso, agrada bastante. Já a escolha de Jon Voight para o papel de Jim Phelps (o único agente remanescente da série de TV) soa acertada, especialmente quando este se revela o grande vilão, surpreendendo uma plateia acostumada a ver o ator como herói. Finalmente, Jean Reno impõe respeito como Krieger, priorizando a ação física em detrimento do raciocínio lógico, num contraponto interessante para o astuto Ethan que fica evidente quando o segundo brinca com um disquete e irrita o primeiro.

Explorando locações distintas e interessantes, o diretor de fotografia Stephen H. Burum emprega um visual obscuro e predominantemente noturno no primeiro ato, explorando muito bem a atmosfera medieval da belíssima cidade de Praga, o que colabora para aumentar o suspense e contrasta com o visual asséptico empregado em Langley, na Virgínia, onde o suspense também existe, mas baseia-se muito mais na habilidade do diretor Brian De Palma. Quando a narrativa retorna à Europa, os momentos obscuros e banhados pela chuva são mesclados com o ensolarado desfecho em Londres.

Esta transição bem definida entre os atos deve-se também a boa montagem de Paul Hirsch, que se destaca em sequências especiais como a apresentação do sistema de segurança da sede da CIA, conferindo dinamismo à narrativa e sendo importante ainda no sucesso das duas grandes cenas de “Missão: Impossível”. Entretanto, se o trabalho técnico é valioso, a condução de Brian De Palma é fundamental para que o longa seja bem sucedido.

Diretor virtuoso e de grande talento, De Palma emprega os costumeiros movimentos estilizados de câmera em diversos momentos, colaborando sensivelmente para a construção da escala crescente de suspense e ainda brincando com a plateia em diversos momentos, como na surpreendente reaparição de Jim numa cabine telefônica. Extraindo boas atuações do elenco e com um bom roteiro em mãos, o diretor sente-se a vontade para se destacar nas acrobáticas cenas de ação, que se tornam ainda mais empolgantes graças ao espetacular tema composto por Lalo Schifrin para a série de TV, capaz de injetar adrenalina na plateia logo nos primeiros acordes – e que Danny Elfman corretamente utiliza somente em momentos pontuais.

Competente não apenas na concepção visual de seus filmes, mas também na notável habilidade de construir grandes cenas, De Palma é responsável por momentos marcantes, dentre os quais vale destacar a icônica invasão da sede da CIA, capaz de grudar o espectador na cadeira e provocar frio na espinha durante praticamente todo o tempo. Observe a concepção visual, com a sala branca, asséptica, parecendo que foi retirada de “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (e se considerarmos os movimentos empregados por Ethan, não podemos descartar alguma influencia do clássico de Kubrick), repare os ângulos inusitados escolhidos por De Palma que nos auxiliam a compreender a geografia da cena (e, neste sentido, a tela de computador utilizada por Luther não só é fundamental, como ainda aumenta a tensão ao nos permitir acompanhar a movimentação do analista da CIA responsável pelo local), e, finalmente, perceba como o silêncio absoluto torna a tensão quase insuportável. Por isso, quando vemos um rato surgir em segundo plano logo atrás de Krieger, o analista (Rolf Saxon) indo e voltando do banheiro e, especialmente, a gota de suor descendo lentamente nos óculos de Ethan, nós praticamente não conseguimos desgrudar os olhos da tela, tendo quase taquicardia quando a faca cai em câmera lenta após a fuga dele, comprovando a aula de direção de Brian De Palma.

Em outra grande cena, Jim afirma que Kittridge (Henry Czerny) era o agente duplo e pensa enganar Ethan, mas a montagem paralela nos mostra os pensamentos do agente, evidenciando que ele já tinha percebido o que realmente tinha acontecido e, na verdade, é ele quem está enganando seu mentor. E fechando o festival de bons momentos, a espetacular sequencia no trem de alta velocidade da TGV inicia com um movimento de câmera ousado que nos aproxima dos vagões e revela Jim e Ethan em cima deles. Contando novamente com o montador Paul Hirsch, De Palma nos mostra múltiplas ações simultâneas que mais uma vez criam uma atmosfera de tensão crescente, culminando na perseguição dentro do túnel. Apesar de certo exagero, a cena é tão empolgante que o espectador se deixa levar até o último instante, embarcando na viagem junto com os personagens – e aqui, vale destacar os ótimos efeitos visuais da ILM, que conferem realismo a sequencia e permitem que o espectador acredite um pouco mais no que vê.

Narrando uma história envolvente, divertida e com ótimas cenas, “Missão: Impossível” é um grande filme de ação, que respeita a inteligência da plateia sem tentar parecer mais do que realmente é. Pra completar, seu desfecho ainda dá a deixa para o segundo filme, fazendo com que o espectador saia empolgado e esperando reencontrar aqueles personagens em breve, o que é um sinal claro do sucesso do longa. Some a isto a icônica trilha sonora, capaz de grudar em nossa memória por um longo tempo, e terá um excelente divertimento, que cumpre exatamente o que se propõe a fazer.

Texto publicado em 04 de Novembro de 2012 por Roberto Siqueira

FARGO (1996)

(Fargo)

Videoteca do Beto #139

Dirigido por Joel Coen.

Elenco: Frances McDormand, William H. Macy, Steve Buscemi, Peter Stormare, Harve Presnell, Kristin Rudrüd, Tony Denman, Gary Houston, Bain Boehlke e Sally Wingert.

Roteiro: Ethan Coen e Joel Coen.

Produção: Ethan Coen e Joel Coen.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Mestres na arte de contar uma boa história através das câmeras cinematográficas, os irmãos Coen costumam se destacar por características muito peculiares, como a economia narrativa, as pitadas de humor negro que permeiam seus filmes e a notável capacidade de criar cenas marcantes. Tudo isso pode ser encontrado no ótimo “Fargo”, longa que certamente merece um lugar de destaque entre os inúmeros trabalhos interessantes dos Coen, o que não é pouco, considerando a vasta e qualificada filmografia da dupla.

Sob a superfície de thriller de suspense e investigação policial, o roteiro de “Fargo” (escrito, como de costume, pelos próprios Ethan e Joel Coen) narra à história do desesperado Jerry (William H. Macy), um gerente de uma revendedora de automóveis que enfrenta dificuldades financeiras e resolve planejar o sequestro da própria esposa Jean (Kristin Rudrüd). O problema é que as coisas não saem tão bem quanto o planejado e, quando os sequestradores Carl (Steve Buscemi) e Grimsrud (Peter Stormare) cometem vários assassinatos, a determinada policial Marge (Frances McDormand) começa a investigar o caso.

Responsáveis não apenas pelo roteiro, direção e produção, como também pela montagem de “Fargo” sob o nome fictício de Roderick Jaynes, os Coen confirmam a habilidade de manter o espectador atento aos intrigantes acontecimentos que se sucedem, conduzindo a narrativa de maneira direta e eficiente. Repleto de diálogos interessantes, o criativo roteiro abre um leque de possibilidades a cada instante, sempre trabalhando de maneira brilhante como o acaso influencia em nossas vidas. Só que, ao contrário dos personagens que jamais conseguem prever o que acontecerá em seguida, os Coen demonstram controle total sobre o que vemos na tela, criando momentos absolutamente eletrizantes (que voltarei a abordar em instantes) em meio ao mar de tranquilidade da pacata cidade de Brainerd. Entretanto, apesar de todo o suspense, “Fargo” também é recheado com muito humor negro, apresentando uma série de momentos hilários que servem para quebrar a tensão crescente da narrativa, como quando Jean sai correndo amarrada na chegada ao cativeiro ou na engraçada entrevista de Marge com as prostitutas.

Apostando na violência gráfica, como na cena do assassinato do policial, na entrega do dinheiro num hotel e na prisão de Grimsrud, os Coen criam uma cadeia de acontecimentos que só pioram a situação de Jerry e, justamente por mostrarem os trágicos resultados de seus atos, fazem com que o espectador se importe com o destino dos personagens. Entretanto, apesar de funcionar muito bem como thriller, “Fargo” apoia-se no humor negro para abordar outras questões, funcionando como um estudo sobre o estilo de vida daquela região peculiar dos EUA. Investindo em cores gélidas e explorando com maestria a crueza das vizinhas regiões de Minnesota e North Dakota, repletas de estradas rodeadas pela neve que se misturam à linha do horizonte e criam um visual ao mesmo tempo belo e assustador, a fotografia do ótimo Roger Deakins é crucial para ilustrar a solidão das pessoas que vivem no local. Este isolamento colabora até mesmo para aumentar a tensão em momentos chave da narrativa, como na noite dos assassinatos, onde sabemos que os inocentes que cruzam o caminho dos sequestradores raramente escaparão com vida naquela estrada fria e abandonada. Aliás, esta cena de perseguição está entre os grandes momentos do longa, fazendo o espectador grudar na cadeira enquanto acompanha seu desfecho.

Vestindo ternos sóbrios ou roupas que transmitem uma imagem austera (figurinos de Mary Zophres), os personagens de “Fargo” representam a força central da narrativa. Com seus sotaques arrastados e diálogos afiados que denunciam a maneira engraçada de falar, até mesmo coadjuvantes com pequenas participações transformam-se numa atração à parte, como o Sr. Mohra (Bain Boehlke), que nos delicia contando como ouviu do embriagado Carl onde ele estaria escondido. Por outro lado, esta graça dificilmente será percebida por um espectador que não tenha pelo menos alguma noção de inglês (seria como tentar explicar para um estrangeiro a graça de um sotaque de qualquer região do Brasil).

Divertida também é a atuação de Peter Stormare como Grimsrud, o parceiro mudo e ameaçador de Carl – que, como de costume, é interpretado com maestria por Steve Buscemi, um verdadeiro especialista na arte de viver criminosos. Surgindo frágil e hesitante na maior parte do tempo, o Jerry do ótimo William H. Macy parece incapaz de se impor em qualquer diálogo, parando de falar ao menor sinal de que será interrompido e gaguejando diversas vezes, num claro sinal de falta de confiança que o ator demonstra muito bem. Este sentimento, aliado à determinação do personagem de buscar uma saída para cada obstáculo que surge (e são muitos), é essencial para o desenvolvimento da narrativa, já que raramente podemos prever os próximos passos do personagem. Mas se todo o elenco tem um ótimo desempenho, o grande destaque é mesmo Frances McDormand, que confere enorme carisma e uma simplicidade desconcertante à Marge, uma mulher grávida de sete meses que se dedica ao trabalho e a família com a mesma intensidade, chamando a atenção sempre que entra em cena graças também ao ótimo desempenho da atriz. É ela quem acalma o espectador com seu raciocínio simples e sua forma direta de resolver os problemas, algo que fica claro, por exemplo, em sua visita ao escritório de Jerry e em sua conversa com um velho amigo da faculdade.

E voltamos então aos momentos eletrizantes, marca registrada dos Coen que não poderia faltar em “Fargo”. Entre tantos grandes momentos, vale destacar a excelente cena do sequestro, na qual vemos Jean paralisada diante da imagem do sequestrador que olha pela janela pra dentro da casa. Repare como Joel conduz a cena com precisão, investindo no humor negro para aliviar a tensão – afinal, só mesmo num filme dos Coen um sequestrador andaria calmamente pela casa procurando uma pomada enquanto a vítima, após tentar se esconder, sai enrolada numa cortina e se estatela no chão. Igualmente, a forma como o grandalhão Grimsrud tenta se desvencilhar do corpo do comparsa no terceiro ato chega a ser simultaneamente cômica e trágica.

O que nunca é trágico é o resultado do trabalho dos Coen, que, mesmo quando não acertam em cheio, conseguem realizar ótimos filmes. Quando estão inspirados então, o resultado só pode ser espetacular, e é isto que acontece em “Fargo”, um filme tenso e divertido, que conta com um elenco talentoso para se tornar um dos melhores exemplos do que os Coen são capazes.

Texto publicado em 28 de Outubro de 2012 por Roberto Siqueira

A MÚMIA (1999)

(The Mummy)

Filmes em Geral #92

Dirigido por Stephen Sommers.

Elenco: Brendan Fraser, Rachel Weisz, John Hannah, Arnold Vosloo, Kevin J. O’Connor, Oded Fehr, Jonathan Hyde, Erick Avari, Bernard Fox, Omid Djalili e Patricia Velasquez.

Roteiro: Stephen Sommers.

Produção: Sean Daniel e James Jacks.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apostar na mistura de ação e bom humor tornou-se algo comum na indústria de Hollywood, quase como um mantra que deve ser seguido à risca nos filmes de aventura. O problema é que, infelizmente, não é toda hora que surge um Steven Spielberg e seu “Os Caçadores da Arca Perdida”, filme que influenciou nove entre cada dez produções que surgiram no gênero nos últimos trinta anos. Entretanto, nem tudo está perdido neste “A Múmia”, de Stephen Sommers, que, apesar da irregularidade, acerta justamente pelo tom leve e descontraído empregado pelo diretor.

Escrito pelo próprio Sommers, “A Múmia” conta a história de um grupo de arqueólogos que, liderados por Rick O’Connell (Brendan Fraser) e Evelyn Carnahan (Rachel Weisz), trazem acidentalmente o lendário Faraó Imhotep (Arnold Vosloo) de volta à vida, séculos após este sofrer o terrível castigo de ser mumificado vivo em Hamunaptra, a lendária cidade dos mortos. Surgindo de maneira curiosa através de uma brincadeira que transforma o logo da Universal no sol (assim como nos filmes de Indiana Jones, nos quais o logo da Paramount era alvo de brincadeiras similares), a narrativa inicia através de um travelling que nos leva ao Egito antigo e seus cenários imponentes, seguido pela excelente introdução que, em poucos minutos, nos revela a origem da lendária história de Imhotep e, numa elegante transição de três mil anos através de uma estátua, nos traz para o tempo em que se passará a narrativa, captando imediatamente a atenção da plateia.

Empregando acertadamente um tom de autoparódia que jamais se leva a sério, Sommers alterna entre momentos empolgantes e insossos que tornam a narrativa bastante irregular. Além disso, o diretor falha em algumas tentativas pouco inspiradas de provocar o riso, como a negociação entre Evelyn e Hassan (Omid Djalili) sobre a porcentagem de cada um durante o enforcamento de O’Connell, errando ainda ao investir no eterno clichê do casal que se estranha inicialmente e depois se apaixona – neste caso, ao menos Evelyn dá sinais de que gosta de Rick desde o principio. Por outro lado, o diretor se sai bem em outros inúmeros momentos engraçados e também nas sequências de ação, empregando um ritmo intenso que prende a atenção do espectador, além de demonstrar habilidade na criação de planos interessantes, como no imponente muro de areia comandado por Imhotep no deserto ou aqueles que revelam toda a riqueza escondida no submundo da região de Hamunaptra.

Apesar de sua clara inspiração em Indiana Jones, “A Múmia” peca ao não seguir algo que conferia bastante realismo aos filmes do famoso arqueólogo, já que Sommers prefere deixar de lado as trucagens e abusa do CGI, diminuindo, por exemplo, o impacto dos insetos que surgem em diversos momentos, já que sabemos que os atores estão contracenando com imagens criadas em computador. Aliás, Sommers não parece prezar pela verossimilhança, tentando nos fazer acreditar que, três anos depois, durante a noite e a muitos metros de distancia, o guardião Bay (Oded Fehr) reconheceria Rick no deserto, ou então que, no extenso terceiro ato, a Múmia hesitaria diante da indefesa Evelyn mesmo estando tão próxima de ressuscitar sua amada Anck Su Namun (Patricia Velasquez).

Utilizando cores quentes nas áridas sequências que exploram a beleza do deserto e iluminando muito bem os ambientes fechados para colaborar na criação da atmosfera de suspense, a fotografia de Adrian Biddle reflete a alternância entre suspense e bom humor da narrativa, algo ressaltado também pela empolgante trilha sonora do ótimo Jerry Goldsmith. Por sua vez, os figurinos de John Bloomfield conferem realismo ao que vemos na tela e colaboram na imersão do espectador, assim como os imponentes cenários (direção de arte de Giles Masters, Tony Reading, Clifford Robinson e Peter Russell) e o ótimo design de som. E finalmente, a montagem de Bob Ducsay é essencial para que as cenas de ação funcionem, alternando com agilidade entre os planos sem deixar a plateia confusa.

Também apresentado numa sequência empolgante, Richard O’Connell mostra suas credenciais logo de cara com seu sorriso canastrão, evidenciando que a seriedade não é um traço forte de sua personalidade. Da mesma forma, Fraser deixa claro desde então que as performances caricaturais predominarão na narrativa, entretanto, mesmo abusando das expressões exageradas, ele se sai bem como protagonista, conduzindo a trama e criando empatia com a heroína interpretada por Weisz. Também apresentada numa sequência divertida onde, após derrubar toda a biblioteca em que trabalha, um diálogo expositivo nos explica sua origem, Evelyn surge como uma jovem inteligente, destemida e curiosa, numa combinação que se torna ainda mais perigosa graças ao jeito atrapalhado e gracioso da bibliotecária. Não é à toa, aliás, que a personagem de Rachel Weisz tem esta profissão, funcionando como guia para que o espectador compreenda a importância das descobertas do grupo e a história por trás de cada objeto encontrado nas lendárias terras egípcias – repare como Evelyn surge constantemente explicando algo que leu sobre os lugares ou os artefatos encontrados. Claramente se divertindo no papel, Weisz se sai bem e agrada em diversos momentos, ainda que evidencie sua falta de talento esporadicamente, como quando Evelyn fica bêbada no deserto.

Aparecendo pela primeira vez numa tentativa barata de assustar o espectador, o Jonathan de John Hannah surge repentinamente (e acompanhado pela alta trilha sonora) de um sarcófago e já indica que funcionará como alívio cômico, algo que de fato acontece praticamente o tempo inteiro. Da mesma forma, o Beni de Kevin J. O’Connor é responsável por arrancar risadas do espectador mesmo quando a Múmia aparece, graças ao ótimo desempenho do ator. Mas se esta abordagem leve e descontraída ajuda a tornar o longa mais agradável, por outro lado dilui a força do vilão, algo reforçado também pelas constantes aparições do personagem. Logo na introdução de Rick, por exemplo, temos uma demonstração dos perigos que a Múmia representa e, mesmo que ela volte a surgir somente uma hora depois, este breve momento já diminui o impacto de sua aparição. Contrariando a regra básica do suspense, Sommers ainda usa e abusa dos ótimos efeitos digitais para nos bombardear com diversos closes da Múmia, que sofre também com a expressão imutável de Arnold Vosloo. Obviamente, tudo isso contribui para que este não seja um vilão aterrorizante, o que é um problema grave, considerando que estamos falando de ninguém menos que o personagem título.

Seguindo a fórmula básica das aventuras, “A Múmia” diverte, mas peca em aspectos básicos que poderiam resultar num grande filme. Pelo menos, Stephen Sommers parece ter ciência disto e jamais leva seu filme muito a sério. O resultado é um passatempo agradável, mas completamente esquecível.

Texto publicado em 19 de Outubro de 2012 por Roberto Siqueira

A MÁSCARA DO ZORRO (1998)

(The Mask of Zorro)

Filmes em Geral #91

Dirigido por Martin Campbell.

Elenco: Antonio Banderas, Catherine Zeta-Jones, Anthony Hopkins, José María de Tavira, Diego Sieres, William Marquez, Stuart Wilson, Tony Amendola, Joaquim de Almeida e L.Q. Jones.

Roteiro: John Eskow, Ted Elliott e Terry Rossio, baseado em argumento dos dois últimos ao lado de Randall Johnson e inspirado em personagem criado por Johnston McCulley.

Produção: Doug Claybourne e David Foster.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Com uma abordagem leve e divertida, Martin Campbell trouxe de volta às telonas a história do lendário cavaleiro mascarado neste “A Máscara do Zorro”, uma aventura despretensiosa, mas repleta de energia e personagens interessantes, que conta com um bom elenco e ótimas tiradas do roteiro para cumprir seu propósito e, justamente por não se levar muito a sério, nos divertir bastante.

Escrito por John Eskow, Ted Elliott e Terry Rossio, baseado em argumento dos dois últimos ao lado de Randall Johnson e inspirado em personagem criado por Johnston McCulley (ufa!), “A Máscara do Zorro” tem início quando o mexicano Don Diego de la Vega, o Zorro (Anthony Hopkins), desafia a tirania do espanhol Don Rafael (Stuart Wilson) durante uma execução pública, mas tem sua verdadeira identidade descoberta numa invasão domiciliar que resulta na morte de sua esposa Esperanza (Julieta Rosen). Pra piorar a situação, ele é obrigado a ver o rival levar sua filha recém-nascida Elena (Catherine Zeta-Jones) e vai parar na prisão. Vinte anos mais tarde, ele consegue escapar e encontra o jovem ladrão Alejandro Murrieta (Antonio Banderas), a quem adota como pupilo e treina para ser o novo Zorro.

Desde sua empolgante sequência de abertura, “A Máscara do Zorro” conquista a atenção do espectador, sugando-o pra dentro da história enquanto apresenta seu personagem principal, num espetáculo circense que culmina no lindo plano em que Zorro se despede do publico em seu cavalo negro com o pôr do sol ao fundo. Aliás, o diretor Martin Campbell demonstra um cuidado especial na composição de diversos planos impressionantes, como no “Z” escrito em fogo no terreno próximo à casa de Don Rafael ou na impressionante explosão da mina em El Dorado. Além disso, o diretor conduz com surpreendente sutileza momentos melancólicos como a morte de Esperanza, introduzindo até mesmo interessantes rimas narrativas, como quando Don Diego segura a filha diante da mira das armas dos guardas exatamente como fizera com sua esposa vinte anos atrás ou na sequência final em que Zorro narra a história para o filho da mesma forma que Don Diego havia feito com Elena, saindo-se bem ainda ao inserir brincadeiras sutis, como, por exemplo, quando Don Diego diz para Alejandro que em breve ele terá seu inimigo Love (Matt Letscher) em seu círculo – se referindo ao momento em que poderá se vingar do sujeito – e, algum tempo depois, o jovem atinge o adversário pela primeira vez justamente num duelo em cima de uma mesa redonda de jantar.

Campbell também balanceia muito bem as cenas de ação com momentos bem humorados, o que é sempre uma mistura eficiente em filmes do gênero, divertindo-se em diversos instantes como no golpe que introduz a gangue de Alejandro Murrieta e no treinamento dele. E apesar de não prezar pela verossimilhança, a sequência do roubo do cavalo também é divertida e muito bem coreografada, mostrando a habilidade do diretor na condução das cenas de ação. Contando com a boa montagem de Thom Noble que confere fluidez a narrativa, ele imprime energia aos importantes duelos de espada (como aquele entre Zorro, Don Rafael e Love na mansão), demonstrando habilidade até mesmo quando a cena exige uma abordagem mais sensual, no divertido duelo entre Elena e Zorro em que a dupla Banderas e Jones se sai muito bem. Aliás, as acrobacias de Zorro nas lutas e cavalgadas impressionam, assim como a condução enérgica de Campbell e seu montador, que alternam entre planos gerais, closes e até planos subjetivos que nos colocam na posição do herói.

Da mesma forma, o diretor conta com a fotografia de Phil Meheux para criar um visual obscuro na prisão e no esconderijo do Zorro que contrasta com a casa iluminada em que ele vive e até mesmo com o visual árido e sem vida das cenas em El Dorado, mas jamais carrega demais o lado sombrio, o que é coerente com a abordagem mais leve da narrativa, reforçada pela trilha sonora do ótimo James Horner, que utiliza elementos da música espanhola como as castanholas e o sapateado para embalar as cenas de ação, pontuando também os momentos românticos com belas variações da música tema. Finalmente, se “A Máscara do Zorro” consegue nos ambientar ao tempo e local em que a narrativa se passa, o mérito deve ser dividido com a figurinista Graciela Mazón, responsável pelas roupas típicas das mulheres e pelos uniformes dos homens que se destacam na festa, além é claro do visual clássico do lendário herói que respeita as tradições. Finalmente, basta observar a detalhada decoração da mesa de jantar na mansão de Don Rafael ou a imponente mina em El Dorado – apresentada num impressionante plano geral – para constatar o bom trabalho de direção de arte de Michael Atwell.

Apresentado como um ladrão andarilho que escapa da morte, o Alejandro de Antonio Banderas é um personagem cativante, o que é mérito do ator que, superando suas limitações, confere carisma ao herói. Criando conexão com a plateia através do plano detalhe de um colar que revela sua ligação emocional com o velho Zorro, o personagem rapidamente conquista a simpatia do espectador, também porque Banderas consegue criar boa empatia com Hopkins e estabelece uma excelente química com Zeta-Jones – algo notável na engraçada conversa entre Elena e Zorro no confessionário e na vibrante dança deles numa festa -, o que é essencial para o sucesso da narrativa. Aliás, a presença impotente e sensual da atriz como Elena também convence desde sua primeira aparição, chamando a atenção sempre que entra em cena – repare, por exemplo, seu olhar hipnotizante no primeiro encontro com Zorro.

Já o normalmente espetacular Anthony Hopkins dá um show na tocante conversa entre Elena e Don Diego, demonstrando a emoção contida diante da filha há tempos perdida que agora se apresenta diante dele sem que ela saiba que está falando com o verdadeiro pai – e novamente Jones não precisa de muitas palavras, indicando através do olhar confuso que Elena sente estar diante de alguém especial em sua vida, algo que, obviamente, encontra reflexo na cena inicial, quando Esperanza destaca a importância da voz do pai para a filha recém-nascida. E se o Don Rafael de Stuart Wilson e o capitão Love de Matt Letscher soam maniqueístas, este pequeno deslize é diluído pela maneira quase caricatural que os atores interpretam seus personagens – e temos até mesmo um “Don” que questiona as ações de Rafael, o que depõe contra o argumento do maniqueísmo. Fechando o elenco, L.Q. Jones rouba a cena nas poucas vezes que surge com seu Jack “três dedos”.

Apesar de construir o clímax com habilidade, Campbell escorrega ao estender demais o confronto final entre os “Zorros” e seus inimigos, tornando o duplo duelo um pouco cansativo. Em todo caso, é inegável que a morte dos vilões com barras de ouro caindo sobre eles é de um simbolismo nada sutil, porém bem divertido. E apesar da estrutura narrativa formulaica, o desfecho tem charme suficiente para agradar.

Aventura leve e despretensiosa, “A Máscara do Zorro” prova que não é necessário fazer uma analise profunda de um herói para realizar um bom filme – ainda que estes representem excelentes oportunidades para abordagens mais sérias. Existem diversas maneiras de se contar uma boa história. Para isso, basta que o filme cumpra aquilo que se propõe a fazer. E isto o longa de Campbell faz muito bem.

Texto publicado em 18 de Outubro de 2012 por Roberto Siqueira

DRÁCULA DE BRAM STOKER (1992)

(Dracula)

Filmes em Geral #89

Dirigido por Francis Ford Coppola.

Elenco: Gary Oldman, Winona Ryder, Anthony Hopkins, Keanu Reeves, Richard E. Grant, Cary Elwes, Bill Campbell, Sadie Frost, Tom Waits, Monica Bellucci e Jay Robinson.

Roteiro: James V. Hart, baseado em romance de Bram Stoker.

Produção: Francis Ford Coppola, Fred Fuchs e Charles Mulvehill.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O mínimo que podemos esperar de um filme dirigido por Francis Ford Coppola é o cuidado com os detalhes que ajudam a criar um visual marcante. Seja em filmes de época com grandes orçamentos como “O Poderoso Chefão” ou em filmes menores (mas nem por isso menos qualificados) como a pérola “A Conversação”, o cuidado com o aspecto visual sempre foi uma marca do diretor. O problema é que na maioria das vezes Coppola também se preocupava com a composição dos personagens e a condução da narrativa, algo que, infelizmente, não ocorre de maneira tão eficiente neste “Drácula de Bram Stoker”, um filme visualmente belo, mas emocionalmente vazio.

Baseado no mítico romance de Bram Stoker, o roteiro escrito por James V. Hart é bastante fiel à obra que o inspirou (o que certamente agradou aos fãs), narrando a história desde os tempos em que o guerreiro Drácula (Gary Oldman) se revolta contra Deus após o suicídio de sua esposa até quando o advogado Jonathan Harker (Keanu Reeves) fica aprisionado em seu imponente castelo, enquanto ele parte para Londres em busca de Mina (Winona Ryder), a noiva de Harker que Drácula acredita ser a reencarnação de sua amada.

Historicamente, a lenda do Drácula costuma provocar fascínio, misturando elementos díspares com o terror, a sensualidade e o amor. Ciente disso, Coppola investe nestes elementos clássicos, deixando clara sua preferência pelo “amor”, numa estratégia que busca romantizar o vampiro e justificar suas ações diante do espectador. Só que desta vez ele comete um erro raro em sua carreira e perde a mão, exagerando na abordagem romântica e enfraquecendo o lado sombrio da narrativa. Além disso, a caracterização do Drácula soa exagerada, com sua maquiagem carregada passando do ponto ideal, mas felizmente a boa atuação do excelente Gary Oldman compensa esta falha. Inicialmente limitado ao papel de vampiro assustador, lentamente Oldman transforma o Drácula num personagem carismático, conseguindo a proeza de fazer o espectador torcer por ele em alguns momentos e fazendo jus a fama de sedutor do personagem.

Enquanto isso, o quase sempre inexpressivo Keanu Reeves até que se sai bem inicialmente, mas é totalmente ofuscado diante da presença de Anthony Hopkins do segundo ato em diante, que assume muito bem a função de herói e rouba a cena com seu Van Helsing. Pra piorar, mesmo com cabelo grisalho e tudo mais, o envelhecimento de Reeves não convence graças ao seu rosto juvenil. O ator também não consegue estabelecer boa química com a bela Winona Ryder, que exala a delicadeza necessária no papel e se sai bem melhor ao lado de Gary Oldman. Fechando o elenco, vale citar a caricata atuação de Tom Waits como o lunático Renfield e o desempenho selvagem de Sadie Frost como Lucy, que cai muito bem no papel.

Mas “Drácula de Bram Stoker” também tem suas qualidades. A começar pela competente direção de arte de Andrew Precht e pelos figurinos impecáveis de Eiko Ishioka que reforçam a ambientação do espectador e colaboram na criação de um visual marcante. Apoiando-se neste bom trabalho e na fotografia repleta de tons avermelhados de Michael Ballhaus, Coppola cria diversos planos estilizados, abusando também de recursos como a aceleração da imagem, criando um visual sombrio, normalmente reforçado pela chuva e pelo vento, que se torna ainda mais expressivo pelo uso constante da sensualidade feminina numa trama que naturalmente já é carregada de conotação sexual. Aliás, vale reparar também como a fotografia colorida das cenas que envolvem Mina contrasta bastante com os tons obscuros na Transilvânia, onde até mesmo as sombras ganham vida. Finalmente, o diretor não se esquece de homenagear os filmes antigos do famoso vampiro, fazendo referência ao clássico “Nosferatu”, de 1922, e a outros filmes clássicos, por exemplo, na aula do professor Van Helsing e ao utilizar uma paleta granulada na chegada de Drácula em Londres, numa alusão aos tempos da moviola.

A estilização visual continua através da montagem de Anne Goursaud, Glen Scantlebury e Nicholas C. Smith, que abusa de transições interessantes, como quando a pluma de um pavão se transforma no túnel de um trem ou quando os furos no pescoço de Lucy dão lugar aos olhos de um lobo. E ainda que possam parecer datados atualmente, os efeitos especiais funcionam na verdade como outra grande homenagem ao cinema antigo, com trucagens, maquetes e pinturas de fundo que tornam o aspecto visual de “Drácula de Bram Stoker” ainda mais impressionante. Fechando a parte técnica, a trilha sonora de Wojciech Kilar alterna bem entre os tons macabros, como quando o navio que traz Drácula chega a Londres, e os momentos melódicos, como no belo encontro entre Mina e Drácula num quarto.

Voltamos então ao problema central de “Drácula de Bram Stoker”. Talvez pela boa química existente nas cenas que envolvem Ryder e Oldman, Coppola acaba investindo demasiadamente neste lado romântico, enfraquecendo outro aspecto muito importante da narrativa, que é o lado sombrio do vampiro. Até mesmo a frase que promoveu o filme denuncia esta abordagem excessivamente melódica (“O amor nunca morre”), mas estes momentos adocicados demais acabam esvaziando o longa, ainda que em certos momentos Coppola consiga sucesso em sua abordagem, como quando Drácula diz para Mina que a ama demais para condená-la. Reequilibrando a conta, o decepcionante terceiro ato traz uma perseguição que jamais empolga e um final seco demais, impedindo que Coppola entregue um trabalho a altura de sua brilhante carreira. Ainda assim, trata-se de um bom filme.

Grandioso e operístico como um filme de Coppola deve ser, “Drácula de Bram Stoker” é um deleite para os olhos, mas funciona exatamente como aquela moça bonita que perde seu encanto após meia hora de conversa. Infelizmente, beleza não é tudo.

Texto publicado em 16 de Outubro de 2012 por Roberto Siqueira